Robin Cook - livros-3

risco calculado.
robin Cook.
Sinopse.
Um cientista, uma descendente de bruxa e uma droga capaz de provocar delírios. Com estes três elementos, um thriller arrepiante.
Edward Armstrong, pesquisador especializado em psicofarmacologia, envolve-se com Kimberly Stewart, que tem uma interessante e macabra história familiar: uma de
suas ancestrais fora condenada à morte na caça às bruxas nos Estados Unidos do século XVII.
A partir do encontro, ele passa a reunir dados para comprovar sua teoria de que o demônio de Salem, Massachusetts, era, na verdade, um fungo com propriedades alucinógenas
que os habitantes da região, na época, consumiam involuntariamente, misturado aos cereais.
Processado em laboratório, ele se transforma no revolucionário antidepressivo Ultra. Mas o que parece ser o estimulante definitivo se revela uma substância capaz
de produzir efeitos devastadores.
Risco Calculado fala da ambição, da ética, de paixão e de encontros com o passado como eixos principais, denunciando o perigo da crescente comercialização de drogas
capazes de alterar a personalidade.
OBRAS DO AUTOR
CEGO, CÉREBRO, COMA, CURA FATAL, ERRO MÉDICO, A ESFINGE, FEBRE, MÉDICO OU SEMIDEUS, MEDO MORTAL, MEMÓRIAS DE UM MÉDICO INTERNO, MUTAÇÃO, SERVIDÃO MENTAL, SINAIS
VITAIS, TERMINAL, VÍRUS
Para Jean, "a luz inspiradora".
I – PRÓLOGO.
SÁBADO, 6 DE FEVEREIRO DE 1692.
Impelida pelo frio cortante, Mercy Griggs estalou o chicote no dorso de sua égua. O animal apertou o passo, arrastando o trenó com facilidade sobre a neve compacta.
Mercy afundou-se ainda mais na gola alta do casaco de pele de foca e juntou as mãos por dentro do regalo na vã tentativa de se proteger do frio glacial.
Era um dia de sol sem brilho. Um dia sem vento. Exilado pela estação em sua rota meridional, o sol lutava para iluminar a paisagem coberta pela neve, presa nas garras
do cruel inverno da Nova Inglaterra. Até mesmo ao meio-dia longas sombras violáceas espichavam-se em direção ao norte, saídas dos troncos das árvores sem folhas.
Nuvens de fumaça pendiam, estáticas, acima das chaminés das raras casas, como se congeladas num céu polar de gelo anil.
Mercy viajava há quase meia hora. Viera de casa, no sopé de Leach's Hill em Royal Side, descendo Ipswich Road. Atravessara as pontes que cruzam os rios Frost Pish,
Crane e o Cow House e agora chegava a Northfields, na cidade de Salem. De onde estava faltavam apenas dois quilômetros e meio até o centro da cidade.
Mas o destino de Mercy não era a cidade. Ao passar a fazenda dos Jacobs, já podia vê-lo: a casa de Ronald Stewart,
um bem-sucedido comerciante e proprietário de navios. O que levara Mercy a deixar o calor de sua própria lareira num dia de tal frigidez fora um misto de política
de boa vizinhança e uma certa dose de curiosidade. No momento, o lar dos Stewart era alvo dos mais interessantes boatos.
Enquanto puxava as rédeas de sua égua, passou a casa em revista. Era uma casa que, sem dúvida alguma, evidenciava a argúcia do Sr. Stewart como comerciante. Era
um prédio imponente, de múltiplas arestas, revestido em madeira e coberto com telhas de ardósia da melhor qualidade. Suas muitas janelas exibiam losangos de vidro
importado. O mais impressionante porém eram os elaborados enfeites que pendiam dos cantos da marquise do segundo andar. Na verdade, a aparência da casa era mais
apropriada para a cidade do que para o campo.
Confiante que os sinos do arreio da égua já teriam anunciado sua chegada, Mercy esperou. A direita da porta principal um trenó e um cavalo sugeriam a presença de
mais visitantes. O cavalo estava envolto num cobertor. De suas narinas escapavam intermitentes nuvens de vapor que logo desapareciam na secura do ar.
Mercy não precisou esperar muito. A porta se abriu quase que imediatamente e uma mulher de 27 anos, cabelos muito negros e olhos verdes, que Mercy sabia ser Elizabeth
Stewart, surgiu emoldurada pelo portal. Em seus braços aninhava-se, confortavelmente, um mosquete. Ao seu redor surgiu uma multidão de rostinhos infantis, cheios
de curiosidade; visitas inesperadas em casas afastadas não eram muito comuns com tempo ruim como este.
— Mercy Griggs — anunciou a visita. — Esposa do Dr. William Griggs. Vim lhe desejar um bom dia.
— É um imenso prazer — respondeu Elizabeth. — Venha tomar alguma coisa quente para espantar o frio dos seus ossos. — Elizabeth encostou o mosquete na parte interna
do umbral da porta e mandou que o filho mais velho, Jonathan, de nove anos, cobrisse e amarrasse o cavalo da Sra. Griggs.
Foi com grande satisfação que Mercy entrou na casa e, acompanhando Elizabeth, dobrou à direita, entrando na sala de
estar. Ao passar pelo mosquete, olhou-o. Elizabeth, seguindo seu olhar, explicou:
— É por ter crescido num lugar ermo como Andover. Tínhamos que vigiar os índios o dia inteiro.
— Entendo — disse Mercy, muito embora uma mulher de mosquete em punho não se enquadrasse à sua realidade. Mercy hesitou por um momento na soleira da porta da cozinha
e avaliou a cena doméstica. Parecia mais uma escola do que uma casa, com mais de meia dúzia de crianças.
Na lareira crepitava um fogo enorme que irradiava um agradável calor. Uma deliciosa mistura de aromas envolvia o cômodo: alguns vindos de um borbulhante caldeirão
de ensopado de porco suspenso sobre o fogo; outros de uma grande tigela de mingau de milho posto para esfriar; mas a maioria vinha de um forno construído no fundo
da lareira, onde vários pães adquiriam um apetitoso tom dourado.
— Espero, por Deus, não estar incomodando — disse Mercy.
— De modo algum — respondeu Elizabeth, enquanto pegava o casaco de Mercy e a conduzia até uma cadeira próxima ao fogo. — É um alívio ter alguém em casa além de crianças
desobedientes. Mas me pegou assando pães e preciso retirá-los do forno. — Ela rapidamente ergueu uma longa pá e, com gestos curtos e ágeis, recolheu os oito pães,
um a um, e os pôs para esfriar na mesa, uma tábua comprida apoiada sobre cavaletes, que dominava o centro do aposento.
Enquanto observava Elizabeth trabalhar, Mercy admirava sua beleza: maçãs do rosto salientes, pele de porcelana, corpo flexível. Era evidente sua desenvoltura na
cozinha pela facilidade com que fazia os pães, alimentava o fogo e ajustava o gancho onde se apoiava o caldeirão. Ao mesmo tempo, algo em Elizabeth a perturbava.
Não possuía as indispensáveis brandura e humildade cristãs. Na verdade, Elizabeth parecia emanar uma vivacidade e uma ousadia pouco atraentes para uma mulher puritana
cujo marido encontrava-se na Europa. Mercy começou a sentir que havia mais por trás dos boatos do que mera conversa fiada.
— Seus pães possuem um aroma pungente pouco comum — declarou Mercy curvando-se sobre os pães que esfriavam.
— São pães de centeio — explicou Elizabeth enquanto deslizava mais oito pães para dentro do forno.
— Centeio? — perguntou Mercy. Só os fazendeiros mais pobres, donos das terras mais alagadiças, comiam pão de centeio.
— Cresci comendo pão de centeio — explicou Elizabeth.
— Gosto muito de seu sabor picante. Você deve estar se perguntando por que estou assando tantos pães. É que estou querendo encorajar todo o vilarejo a usar centeio
para poupar o estoque de trigo. Como sabe, a colheita foi bastante prejudicada pelo tempo frio e úmido que se estendeu pela primavera e verão e agora, com esse inverno
terrível.
— É uma idéia nobre — disse Mercy. — Mas talvez seja assunto para os homens discutirem na assembléia.
Elizabeth então chocou Mercy com uma sonora gargalhada. Mas resolveu se explicar quando notou a expressão da outra.
— Homens não pensam de forma tão prática. Estão mais interessados na rixa entre o vilarejo e a cidade. Além disso, há mais com o que se preocupar do que uma má colheita.
Nós mulheres devemos pensar nas vítimas dos ataques dos índios, já que estamos no quarto ano da guerra do rei Guilherme e parece não haver fim para isto.
- O lugar de uma mulher é dentro do lar... - começou Mercy, mas logo parou, surpresa com o atrevimento de Elizabeth.
— Tenho também encorajado os outros a acolherem as vítimas — declarou Elizabeth enquanto limpava a farinha das mãos no avental. — Acolhemos duas crianças após o
ataque a Casco, no Maine, em maio do ano passado. — Elizabeth gritou pelas crianças, interrompendo sua brincadeira para que viessem conhecer a mulher do médico.
Primeiro, Elizabeth apresentou Mercy a Rebecca Sheaff, de doze anos, e Mary Roots, de nove. Ambas haviam ficado órfãs durante o cruel ataque a Casco, mas agora pareciam
saudáveis e felizes. Em seguida, Elizabeth apresentou Joanna, de treze
anos, filha de um casamento anterior de Ronald. Depois vieram seus próprios filhos: Sarah, de dez anos, Jonathan, de nove e Daniel, de três. Finalmente, Elizabeth
apresentou Ann Put-nam, de doze anos, Abigail Williams, de onze e Betty Parris, de nove anos, todas da cidade de Salem.
Após cumprimentarem Mercy, Elizabeth permitiu que voltassem a brincar com vários copos d'água e ovos frescos, o que não passou despercebido a Mercy.
— Fico surpresa em ver crianças da cidade aqui — observou Mercy.
— Pedi às crianças que as convidassem — disse Elizabeth. — Ficaram amigos por freqüentarem a escola de Royal Side. Achei melhor que meus filhos não estudassem em
Salem com a ralé e os baderneiros.
— Entendo.
— Mandarei as crianças para casa com pães de centeio — disse Elizabeth, sorrindo com ar travesso. — Será mais eficaz do que simplesmente sugerir às famílias.
Mercy assentiu com a cabeça, mas nada disse. Sentia-se levemente oprimida por Elizabeth.
— Não gostaria de levar um pão? — perguntou Elizabeth.
— Não, não, muito obrigada — retrucou Mercy. — Meu marido, o médico, jamais comeria pão de centeio. É grosseiro demais.
Quando Elizabeth voltou as atenções para a segunda fornada de pães, os olhos de Mercy vasculharam a cozinha. Notou um queijo fresco recém-saído da fôrma. Viu uma
jarra de sidra num canto da lareira. Depois notou algo particularmente interessante. Arranjada no peitoril da janela havia uma fileira de bonecos feitos de madeira
pintada e tecido cuidadosamente costurado. Cada um vestia as roupas características de uma determinada ocupação. Havia um comerciante, um ferreiro, uma dona de casa,
um carpinteiro e até mesmo um médico. O médico vestia preto com uma gola de renda engomada.
Mercy levantou-se e andou até a janela. Pegou o boneco vestido de médico. Uma enorme agulha trespassava-lhe o peito.
— O que são estas figuras? — perguntou com preocupação maldisfarçada.
— Bonecos que faço para os órfãos — respondeu Elizabeth sem tirar os olhos dos pães. Retirava um a um, passava manteiga e os devolvia ao forno. — Minha falecida
mãe, que Deus a tenha, me ensinou a fazê-los.
— Por que esta pobre criatura tem uma agulha enfiada no coração?
— Ainda não acabei sua roupa. Estou sempre perdendo as agulhas, e são tão preciosas.
Mercy pôs o boneco de volta e inconscientemente limpou as mãos. Qualquer coisa que sugerisse magia ou ocultismo causava-lhe mal-estar. Deixando os bonecos de lado,
voltou-se para as crianças. Após observá-las durante alguns minutos, perguntou à Elizabeth o que faziam.
— É um truque que minha mãe me ensinou — explicou Elizabeth, devolvendo o último pão ao forno. — É uma maneira de prever o futuro através da interpretação das imagens
formadas pelas claras de ovo na água.
— Mande-as parar com isto imediatamente — exclamou Mercy, assustada.
Elizabeth desviou os olhos dos pães e encarou sua visita.
— Mas por quê?
— Porque é magia branca — admoestou Mercy.
— É um divertimento inofensivo — retorquiu Elizabeth. — É apenas uma ocupação para as crianças enquanto estão confinadas em casa por um inverno rigoroso. Eu e minha
irmã brincávamos muito disso, tentando adivinhar qual seria a ocupação de nossos futuros maridos — riu-se Elizabeth. — É claro que jamais vi que me casaria com o
dono de navios e que me mudaria para Salem. Pensei que seria a esposa de um fazendeiro pobretão.
— Magia branca puxa magia negra — disse Mercy — Deus abomina a magia negra. É coisa do demônio.
— Nunca fez mal algum a mim ou à minha irmã. Nem tampouco à minha mãe.
— Sua mãe está morta — contrapôs Mercy rispidamente.
— Sim, mas...
— É bruxaria — continuou Mercy. O sangue corou-lhe as faces. — Nenhum tipo de bruxaria é inofensivo. Lembre-se do quanto estamos sofrendo com a guerra e da varíola
que assolou Boston no ano passado. Em seu sermão, domingo passado, o reverendo Parris disse que estes problemas horríveis estão ocorrendo porque as pessoas não estão
mantendo seus juramentos para com Deus ao permitirem tamanha lassidão em sua observação religiosa.
— Não creio que uma brincadeira infantil atrapalhe os juramentos. E não estamos sendo relaxados com nossas obrigações religiosas.
— Mas tamanha tolerância para com a magia é certamente o mesmo que ser tolerante para com os quacres — declarou Mercy.
Elizabeth afastou o comentário com um aceno.
— Tais problemas fogem à minha competência. Não vejo nada de mal nos quacres. São pessoas pacíficas e trabalhadoras.
— Não deveria expressar tais opiniões — acrescentou Mercy. — O reverendo Increase Mather disse que os quacres estão sob forte influência do diabo. Você devia ler
o livro do reverendo Cotton Mather, Memoráveis providências: sobre bruxaria e possessão. Posso lhe emprestar, pois meu marido o comprou em Boston. O reverendo diz
que os problemas que estamos enfrentando são provenientes do desejo do diabo de devolver nossa Terra Prometida da Nova Inglaterra aos seus filhos de pele vermelha,
Voltando sua atenção às crianças, Elizabeth gritou pedindo silêncio. Embora fizessem cada vez mais barulho, seu intuito era, na verdade, calar o sermão de Mercy
e não as crianças. Olhando para Mercy, Elizabeth agradeceu a oferta do livro.
— E por falar em assuntos da igreja — disse Mercy. — Seu marido já considerou a possibilidade de juntar-se à igreja do vilarejo? Como tem terras no vilarejo, seria
bem-vindo.
— Não sei. Nunca falamos sobre isto.
— Precisamos de apoio — continuou Mercy. — A família
Porter e seus amigos se recusam a pagar sua cota das despesas do reverendo Parris. Quando seu marido volta?
— Na primavera — respondeu Elizabeth.
— O que foi fazer na Europa?
— Encomendar um novo tipo de embarcação. Chama-se fragata. Ele disse que será veloz e capaz de se defender dos corsários franceses e dos piratas caribenhos.
Após tocar com as palmas das mãos os pães que esfriavam, Elizabeth chamou as crianças para comer. Enquanto se aproximavam, indiferentes, perguntou se queriam pão
fresco. Embora seus próprios filhos torcessem o nariz para a oferta, Ann Putnam, Abigail Williams e Betty Parris demonstraram enorme interesse. Elizabeth abriu um
alçapão no canto da cozinha e mandou que Sarah buscasse manteiga na despensa.
Mercy ficou intrigada com a inusitada portinhola.
— Foi idéia do Ronald — explicou Elizabeth. — Funciona como a escotilha de um navio, permitindo acesso ao celeiro sem que se precise sair no tempo.
Quando as crianças estavam sentadas com pratos de ensopado de porco e grossas fatias de pão à sua frente, Elizabeth se serviu e à Mercy de sidra quente. Para escapar
à tagarelice das crianças, carregaram as canecas até a sala.
— Santo Deus! — exclamou Mercy ao deparar com um imenso retrato de Elizabeth pendurado sobre a lareira. O excessivo realismo a surpreendeu, especialmente os intensos
olhos verdes. Ficou estática no meio do aposento durante alguns instantes, enquanto Elizabeth alimentava o fogo que se reduzira a brasas. — Que vestido decotado!
— disse Mercy. — E sua cabeça está descoberta.
— No começo o quadro também me incomodava—admitiu Elizabeth voltando-se para pôr duas cadeiras em frente ao fogo que agora ardia. — Foi idéia do Ronald. Ele gosta.
Hoje em dia quase não o noto.
— É tão papista — declarou Mercy com desdém, virando a cadeira de forma a tirar o quadro de seu campo de visão. Tomou um gole da bebida e tentou organizar os pensamentos.
A visita não transcorrera como imaginara. Elizabeth possuía
uma personalidade desconcertante. Mercy ainda não havia abordado o assunto que a trouxera ali. Limpou a garganta.
— Ouvi um boato — começou Mercy. — Sem dúvida alguma, falso. Ouvi dizer que você deseja comprar a propriedade de Northfields.
— Não é boato — disse Elizabeth, empolgada. — É o que vou fazer. Seremos proprietários de terras dos dois lados do rio Wooleston. O terreno vai até o vilarejo de
Salem, fazendo limite com as terras de Ronald.
— Mas os Putnam querem comprá-las — exclamou Mercy, indignada. — É muito importante para eles. Precisam ter acesso à água para suas atividades. Em particular para
trabalhar o ferro. O único problema é que lhes falta parte da quantia. Para a compra deverão esperar até a próxima colheita. Ficarão muito zangados se você insistir
e certamente tentarão impedir a venda.
Elizabeth deu de ombros.
— Eu tenho o dinheiro agora. Quero a terra porque pretendo construir uma casa que nos permita acolher mais órfãos.
— O rosto de Elizabeth se encheu de luz e seus olhos brilharam.
— Daniel Andrew concordou em desenhar e construir a casa. Será uma enorme casa de tijolos, como as de Londres.
Mercy não podia crer no que ouvia. O orgulho e a cobiça de Elizabeth não tinham limites. Engoliu um grande gole de sidra.
— Você não sabe que Daniel Andrew é casado com Sarah Porter? — perguntou.
— É claro que sei — respondeu Elizabeth. — Antes de Ronald partir recebemos os dois aqui.
— Mas como é que têm acesso a tão altas somas de dinheiro?
— Com as necessidades da guerra, a firma de Ronald tem prosperado como nunca.
— Prosperando à custa da desgraça alheia — sentenciou Mercy.
— Ronald prefere dizer que fornece artigos de primeira necessidade.
Mercy encarou os brilhantes olhos verdes de Elizabeth,
ainda mais perplexa com sua absoluta falta de consciência diante de tantas transgressões. Esta ainda sorriu e lhe devolveu o olhar, bebendo a sidra com satisfação.
— Ouvi o boato — disse Mercy finalmente. — Mas não pude acreditar. Tais negociações são tão impróprias, considerando-se a ausência de seu marido. Não está nos desígnios
de Deus, e devo lhe avisar: as pessoas do vilarejo estão falando. Comentam que está passando dos limites para uma filha de fazendeiro.
— Sempre serei filha de meu pai. Mas agora sou também mulher de um comerciante.
Antes que Mercy pudesse responder, um terrível estrondo, acompanhado por uma gritaria sem fim, eclodiu da cozinha. Mercy e Elizabeth puseram-se de pé, aterrorizadas.
Com Mercy em seus calcanhares, Elizabeth correu para a cozinha agarrando o mosquete ao passar.
A mesa estava virada e tigelas de madeira, agora vazias, espalhavam-se pelo chão. Ann Putnam rodopiava pelo cômodo rasgando as próprias roupas, chocando-se contra
os móveis e gritando que estava sendo mordida. As outras crianças se encolhiam contra a parede, apavoradas.
Largando o mosquete, Elizabeth correu para Ann e a agarrou pelos ombros.
— O que foi, menina? — exigiu Elizabeth. — O que está lhe mordendo?
Por um instante, Ann ficou imóvel. Seus olhos tornaram-se vidrados, como se nada vissem.
— Ann! — gritou Elizabeth. — O que há com você? Ann abriu a boca e esticou a língua até não mais poder, enquanto se contorcia. Elizabeth tentou contê-la, mas Ann
lutava com força surpreendente. De repente, agarrou a própria garganta.
— Não consigo respirar — ofegava Ann. — Me ajudem. Estão me sufocando.
— Vamos levá-la para cima — gritou Elizabeth para Mercy. Juntas, meio carregaram e meio arrastaram a menina até o
segundo andar. Antes mesmo que conseguissem colocá-la na cama, começou a ter convulsões.
— Está tendo uma crise horrenda — disse Mercy. —Acho melhor chamar meu marido, o médico.
— Por favor — implorou Elizabeth. — Rápido!
Mercy balançava a cabeça em desalento, enquanto descia a escada. Após recompor-se do susto inicial, a calamidade não mais a surpreendia, pois conhecia seu motivo.
Era bruxaria. Elizabeth convidara o diabo para dentro de sua casa.
TERÇA-FEIRA, 12 DE JULHO DE 1692
Ronald Stewart abriu a porta da cabine e saiu para o convés e para o ar fresco da manhã. Trajava seu melhor calção, um colete escarlate com babados engomados e até
mesmo uma cabeleira empoada. Mal cabia em si de tanta excitação. Haviam acabado de contornar Naugus Point, na altura de Marblehead, indo diretamente à cidade de
Salem. Além da proa já podia ver o píer Turner's Wharf.
— Não ice as velas até o último instante — gritou Ronald para o capitão Allen, que se encontrava atrás do leme. — Quero que todos vejam a velocidade desta embarcação.
— Sim, senhor — gritou de volta o capitão.
Ronald inclinou o corpo musculoso na amurada, enquanto a brisa do mar lhe acariciava o rosto largo e bronzeado e emaranhava os cabelos louros que apareciam por baixo
da peruca. Contente, olhava os marcos que lhe eram tão familiares. Era bom voltar para casa, embora não o fizesse sem uma certa dose de ansiedade. Estivera longe
por quase seis meses, dois meses além do previsto, e não recebera nem mesmo uma carta.
A Suécia parecera o fim do mundo. Perguntava-se se Elizabeth haveria recebido ao menos uma das cartas que enviara. Não tivera garantia de que chegariam, pois não
encontrara barco algum indo diretamente para a Colônia, ou até mesmo para Londres.
— Chegou a hora — informou o capitão Allen ao se aproximarem da terra, — Se não, este barco vai subir o ancoradouro e continuar até Essex Street.
— Dê as ordens — gritou Ronald.
Os homens subiram nos mastros ao ouvirem as ordens do capitão e em questão de minutos as imensas velas estavam recolhidas e amarradas. O barco perdeu velocidade.
A uns cem metros do ancoradouro, Ronald notou que um pequeno barco havia sido lançado ao mar e que vinha em sua direção. Ao se aproximar, Ronald reconheceu Chester
Procter, seu escrevente, em pé na proa. Ronald acenou, alegre, mas Chester não retribuiu o cumprimento.
— Saudações—exclamou Ronald quando o barco já estava bem perto. Chester permaneceu calado. Quando o pequeno barco emparelhou com o seu, Ronald pôde ver a preocupação
estampada no rosto magro do escrevente. A excitação de Ronald deu lugar à ansiedade. Algo estava errado.
— Acho melhor desembarcar imediatamente — disse Chester a Ronald assim que o esquife foi amarrado no barco maior.
Baixaram a escada para o barco menor e após uma rápida consulta com o capitão, Ronald desceu. Uma vez sentado na popa, partiram. Chester sentou-se a seu lado. Os
dois marujos à meia-nau puseram-se a remar.
— O que há de errado? — perguntou Ronald, receoso da resposta. Temia que os índios tivessem atacado sua casa. Ao partir soubera que haviam chegado perto, até Andover.
— Coisas horríveis vêm acontecendo em Salem — respondeu Chester. Parecia exausto e tenso. — A Divina Providência quase não o traz de volta a tempo. Andamos inquietos,
aflitos que chegasse tarde demais.
— Algo errado com meus filhos? — indagou Ronald, assustado.
— Não, não são seus filhos — disse Chester. — Estão sãos e salvos. É sua esposa, Elizabeth. Está presa há vários meses.
— Sob qual acusação? — exigiu Ronald.
— Bruxaria — informou Chester. — Peço que me perdoe por ser o portador de tão más notícias. Foi condenada por um tribunal especial e sua execução decretada para
a próxima terça-feira.
— Isto é um absurdo — rugiu Ronald. — Minha esposa não é nenhuma bruxa!
— Sei disso. Mas há um verdadeiro furor de bruxaria nesta cidade desde fevereiro. Quase cem pessoas foram acusadas. Já houve até uma execução. Bridget Bishop, no
dia 10 de junho.
— Eu a conhecia — admitiu Ronald. — Era uma mulher de temperamento forte. Tinha uma taberna ilegal em Ipswich Road. Mas bruxa? Acho pouco provável. O que aconteceu
para causar este repentino medo de intuitos maléficos?
— Foram os ataques. Algumas mulheres, em sua maioria jovens, têm sofrido de forma muito penosa.
— Você já presenciou tais ataques? — perguntou Ronald.
— Sim, já. A cidade inteira os assistiu durante as audiências com os magistrados. São terríveis de se ver. As vítimas gritam que estão sendo atormentadas, ficam
enlouquecidas. As vezes ficam cegas, ou surdas, ou mudas, ou todas estas coisas de uma só vez. Tremem mais que os quacres e gritam que estão sendo mordidas por seres
invisíveis. Suas línguas saem da boca e às vezes parecem engoli-las. Mas o pior são as articulações, que se vergam como se fossem quebrar.
A mente de Ronald era um turbilhão de pensamentos. Eram acontecimentos completamente inesperados. O sol surgiu diretamente sobre sua cabeça e logo ficou com a fronte
encharcada de suor. Com raiva, arrancou a peruca da cabeça e jogou-a no chão do barco. Tentou pensar no que fazer.
— Há uma carruagem à nossa espera—declarou Chester, interrompendo o silêncio profundo enquanto se aproximavam do ancoradouro. — Pensei que gostaria de ir direto
à prisão.
-Sim — disse Ronald simplesmente. Desembarcaram e dirigiram-se rapidamente à rua. Subiram na carruagem e Chester agarrou as rédeas. Com um estalido, o cavalo se
pôs a correr. A carruagem pulava nos paralelepípedos. Nenhum dos homens falou.
— Como foi que decidiram que esses ataques eram causados por bruxaria? — inquiriu Ronald quando chegaram à Bssex Street.
— Quem disse foi o Dr. Griggs. Depois o reverendo Parris, lá do vilarejo, declarou o mesmo e todo mundo concordou, até os magistrados.
— O que os faz ter tanta certeza?
— As audiências. Todos viram como as vítimas eram atormentadas pelos acusados, que aliviavam seu sofrimento comum simples toque.
— No entanto, não as tocavam para atormentá-las?
— Os espíritos dos acusados faziam o mal — explicou Chester. — E apenas as vítimas podiam vê-los. Foi assim que os acusados foram identificados pelas vítimas.
— E minha esposa foi identificada desta forma?
— Foi. Por Ann Putnam, filha de Thomas Putnam, do vilarejo de Salem.
— Conheço Thomas Putnam. Um homem pequeno e irri-tadiço.
— Ann Putnam foi a primeira a ser atormentada pelo mal — disse Chester, hesitante. — Em sua casa. Sua primeira crise foi em sua sala de estar, no início de fevereiro.
E até hoje Ann tem crises, assim como sua mãe.
— E meus filhos? Eles também têm crises?
— Seus filhos foram poupados.
— Graças a Deus! — exclamou Ronald.
Entraram em Prison Lane, ambos em silêncio. Chester parou em frente à prisão. Ronald pediu que aguardasse e apeou.
Irritado, Ronald procurou o carcereiro, William Dounton, e foi encontrá-lo em uma sala desarrumada, comendo broa de milho fresca da padaria. Era um homem obeso,
de cabelos ensebados e um nariz vermelho e noduloso. Ronald o detestava.
Dounton era famoso por seu sadismo, pelo prazer com que atormentava os presos sob sua custódia.
William não ficou feliz em ver Ronald. Levantou-se apressado e encolheu-se por trás da cadeira.
— Os condenados não recebem visitas — grasnou enquanto mastigava. — Ordens do juiz Hathorne.
Perdendo a calma, Ronald estendeu o braço e agarrou a camisa de lã de William, puxando o rosto balofo de encontro ao seu.
— Se tiver maltratado minha mulher terá que se explicar comigo — rosnou Ronald.
— A culpa não é minha. São as autoridades. Tenho de seguir suas ordens.
— Leve-me até ela — vociferou Ronald.
— Mas... — começou William, antes que Ronald apertasse ainda mais sua garganta. William engasgou. Ronald soltou sua presa de leve. William tossiu, mostrando as chaves.
Ronald o largou e o seguiu. Ao destrancar a pesada porta de madeira, William disse:
— Terei de relatar este fato.
— Não se dê o trabalho — disse Ronald. —Assim que sair daqui irei diretamente ao juiz e relatarei tudo eu mesmo.
Atravessando a pesada porta de carvalho, passaram por diversas celas, todas cheias. Os presos devolviam o olhar de Ronald com olhos vidrados. Reconheceu alguns,
mas não lhes dirigiu a palavra. A prisão estava envolta num pesado silêncio. Ronald precisou cobrir o nariz com um lenço para proteger-se contra o terrível odor.
No topo de uma escadaria de pedra, William parou para acender uma vela. Após abrir uma outra porta, começaram a descida até a pior área da prisão. O fedor era insuportável.
O porão consistia de dois enormes cômodos. As paredes eram de granito úmido. Os muitos prisioneiros estavam acorrentados à parede ou ao chão, com ferros nas pernas,
nos punhos ou em ambos. Ronald teve de pular por cima de alguns para acompanhar William. Não havia espaço para mais ninguém.
— Um momento — pediu Ronald.
William parou e virou-se para ele.
Ronald se abaixara ao reconhecer uma beata.
— Eebecca Nurse? — perguntou Ronald. — Pelo amor de Deus, o que está fazendo aqui?
Rebecca balançou a cabeça vagarosamente.
— Só Deus sabe — conseguiu dizer.
Ronald ergueu-se, sentindo fraqueza. Era como se Salem tivesse enlouquecido.
— Chegamos — informou William apontando para um canto afastado do porão. — Vamos logo com isto.
Ronald o seguiu. Sua raiva transformara-se em piedade. William parou e Ronald baixou os olhos. A luz da vela, mal conseguiu reconhecer sua esposa. Elizabeth estava
imunda e, presa a correntes imensas, mal tinha forças para espantar os bichos que vagueavam na escuridão.
Ronald tirou a vela de William e abaixou-se ao lado da esposa. Apesar de seu estado, Elizabeth conseguiu sorrir para o marido.
— Que bom que você voltou — disse com dificuldade. — Agora não preciso mais me preocupar com as crianças. Elas estão bem?
Ronald engoliu com dificuldade. Sua boca estava completamente seca.
— Vim direto do navio para a prisão. Ainda não vi as crianças.
— Vá vê-las, por favor. Ficarão muito felizes. Devem estar inquietas.
— Cuidarei delas — prometeu Ronald. — Mas primeiro tenho que tirá-la daqui.
— Talvez. Por que demorou tanto a chegar?
— A fabricação do navio demorou mais do que o esperado. Por ser um tipo novo de embarcação, houve muitas dificuldades.
— Mandei cartas — disse Elizabeth.
— Não recebi nenhuma.
— Bem, pelo menos você chegou.
— Eu voltarei — disse Ronald enquanto se levantava.
Estava trêmulo e transtornado de tanta preocupação. Fez sinal para William para que saíssem e o seguiu até o escritório.
— Estou apenas fazendo meu trabalho — disse William humildemente. Receava a reação de Ronald.
— Mostre-me a papelada.
William deu de ombros e, após procurar por entre o lixo que se encontrava sobre a mesa, entregou o mandado de prisão e a ordem de execução a Ronald. Este os leu,
devolvendo-os logo em seguida. Tirou algumas moedas da bolsa.
— Quero que mude Elizabeth de lugar e que melhore as condições na qual se encontra.
William pegou o dinheiro com satisfação.
— Eu lhe agradeço, gentil senhor — disse. As moedas desapareceram para dentro dos bolsos de suas calças. — Porém não posso mudá-la de lugar. Os culpados de crimes
capitais sempre ficam no porão. Nem tampouco poderei fazer algo quanto às correntes. Estão especificadas no mandado de prisão para que seu espírito não deixe seu
corpo. Mas posso melhorar suas condições em resposta à sua gentil consideração para comigo.
— Faça o que puder.
Do lado de fora, Ronald demorou para subir na carruagem. Suas pernas estavam fracas e sem firmeza.
— Vamos até a casa do juiz Corwin — disse.
Chester instigou os cavalos. Queria perguntar a respeito de Elizabeth, mas não teve coragem. A angústia de Ronald era evidente demais.
Viajaram em silêncio. Ao chegarem à esquina das ruas Essex e Washington, Ronald saltou da carruagem.
— Espere — disse, lacônico.
Ronald bateu na porta da frente. Quando esta se abriu, sentiu-se aliviado ao ver a figura alta e descarnada de seu velho amigo Jonathan Corwin, de pé na soleira.
Assim que Jonathan reconheceu Ronald, seu ar petulante se transformou em comiseração. Imediatamente, levou Ronald até a sala e pediu para que a esposa os deixasse
a sós para conversarem. Ela estava num canto, fiando.
- Sinto muito — disse Jonathan quando se encontravam a Sós — É uma triste maneira de se dar boas-vindas a um viajante cansado.
— Por favor, me diga o que fazer—murmurou Ronald sem forças.
— Temo não saber o que lhe dizer — começou Jonathan. — O que vivemos é uma anarquia. Há um sentimento de ódio e animosidade pairando sobre esta cidade, causando
uma histeria generalizada e possivelmente equivocada. Nem eu mesmo estou bem certo do que penso, pois recentemente minha própria sogra, Margaret Thatcher, foi acusada.
Ela não é bruxa coisa nenhuma, o que me faz questionar a veracidade das alegações das meninas e suas motivações.
— No momento pouco me importo com os motivos destas meninas. O que preciso saber é o que posso fazer por minha amada esposa, que está sendo tratada de forma tão
brutal.
Jonathan deu um longo suspiro.
— Temo não haver muito a fazer. Sua esposa já foi condenada pelo júri que serve ao Tribunal Especial que julga os casos de bruxaria.
— Mas você acaba de questionar a veracidade das acusações.
— Eu sei — concordou Jonathan. — Mas a condenação de sua esposa não dependeu do testemunho das meninas ou de ocorrências paranormais durante o julgamento. O julgamento
de sua esposa foi bem mais curto do que os outros. Mais curto até do que o de Bridget Bishop. Sua esposa foi considerada culpada porque a prova contra ela era real
e conclusiva. Não havia dúvida alguma.
— Você acredita que minha esposa seja uma bruxa? — perguntou Ronald, incrédulo.
— Sim, acredito. Sinto muito. É uma verdade difícil de se aceitar.
Ronald encarou o amigo por um momento, enquanto sua mente tentava processar esta nova e surpreendente informação. Sempre apreciara e respeitara as opiniões de Jonathan.
— Mas deve haver algo que se possa fazer — disse finalmente.
— Mesmo que seja apenas atrasar a execução, para que eu tenha tempo de conhecer os fatos.
Jonathan pôs uma das mãos no ombro do amigo.
— Como juiz local, não há nada que eu possa fazer. Talvez você devesse ir para casa cuidar das crianças.
— Não vou desistir tão facilmente.
— Então sugiro que vá até Boston e converse com Samuel Sewall. Sei que são amigos e que foram colegas em Harvard. Ele tem muitas ligações com o governo colonial,
talvez tenha alguma sugestão. Certamente demonstrará interesse, é um dos juizes do Tribunal Especial e já expressou suas dúvidas quanto ao assunto como um todo,
assim como Nathaniel Saltonstall, que renunciou à sua posição na bancada.
Ronald agradeceu a Jonathan e saiu às pressas. Contou suas intenções a Chester, que logo lhe arranjou um cavalo selado. Uma hora depois, partia numa jornada de 27
quilômetros. Viajou através de Cambridge, atravessando o rio Charles pela Great Bridge, e chegou a Boston por sudoeste, pela estrada que leva a Roxberre.
Enquanto cavalgava pela estreita língua da península de Shawmut, Ronald ficava cada vez mais ansioso. Torturava-se com a questão do que faria se Samuel não pudesse
ou não quisesse ajudá-lo. Não tinha outra idéia. Samuel era sua última chance.
Passando pelos portões da cidade, com suas fortificações de tijolo, os olhos de Ronald involuntariamente se fixaram numa forca, na qual pendia um corpo recém-executado.
Era um cruel lembrete, e um frio gelado percorreu-lhe a espinha. Sua reação foi açoitar o cavalo para que andasse ainda mais rápido.
A agitação de Boston ao meio-dia, com seus mais de seis mil habitantes e oitocentas casas, retardou um pouco seu progresso. Era quase uma hora quando chegou na casa
de Samuel, ao sul da cidade. Ronald desceu do cavalo e o amarrou na cerca de madeira.
Encontrou Samuel na sala de estar, fumando um longo cachimbo. Ronald notou que tornara-se uma figura imponente
nos últimos anos, pouco lembrando o rapaz dissoluto com quem patinara no gelo do rio Charles durante os anos de faculdade.
Samuel ficou feliz em ver Ronald, mas seu cumprimento foi contido. Compreendeu a natureza da visita antes mesmo que Ronald trouxesse as agruras de Elizabeth à tona.
Como resposta às suas perguntas, confirmou a história de Jonathan Corwin. Disse que a culpa de Elizabeth era inquestionável face à prova que o xerife Corwin colhera
em sua casa.
Ronald encolheu os ombros. Suspirou e engoliu as lágrimas. Estava perdido. Pediu ao anfitrião uma caneca de cerveja. Quando Samuel voltou com a bebida, Ronald recobrara
a compostura. Após um generoso gole, perguntou a Samuel sobre a natureza da prova usada contra sua esposa.
— Eu odiaria ter de dizê-lo — respondeu Samuel.
— Mas por quê? — perguntou Ronald. Estudou o rosto do amigo e pôde ver seu constrangimento. Isto aguçou-lhe ainda mais a curiosidade. Não havia pensado em perguntar
a Jonathan a respeito da prova. — É claro que tenho o direito de saber.
— Sem dúvida—disse Samuel. Mas mesmo assim hesitava.
— Por favor — implorou Ronald. — Tenho certeza de que me ajudará a entender esta terrível situação.
— Talvez seja melhor irmos até a casa de meu amigo, o reverendo Cotton Mather — disse Samuel, pondo-se de pé. — Ele tem mais experiência com estes assuntos do mundo
invisível. Saberá o que lhe dizer.
— Agradeço sua cortesia.
Tomaram a carruagem de Samuel e foram diretamente à Old North Church. A zeladora lhes disse que o reverendo Mather estava em casa, na esquina das ruas Middle e Prince.
Como não ficava distante, foram a pé. Era mais fácil deixarem o cavalo e a carruagem em Charles Square, em frente à igreja.
Foram recebidos por uma jovem criada, que os levou até a sala. O reverendo Mather apareceu imediatamente e os cumprimentou de forma efusiva. Samuel explicou o motivo
da visita.
— Mas é claro — disse o reverendo, indicando as cadeiras nas quais se sentaram.
Ronald olhou o clérigo. Já haviam sido apresentados. Era
mais jovem do que Ronald e Samuel, tendo-se formado em Harvard em 1678, sete anos após os dois. Apesar da idade, já evidenciava algumas das mudanças físicas que
Ronald notara em Samuel, e por motivos idênticos. Engordara. Seu nariz tornara-se vermelho e um pouco inchado, e o rosto ganhara uma consistência pastosa. Mas seus
olhos brilhavam com inteligência e determinação.
— Receba minha solidariedade face a seu sofrimento — declarou o reverendo Mather a Ronald.—Os desígnios de Deus são, muitas vezes, incompreensíveis para nós mortais.
Além de seu sofrimento pessoal, estou muito preocupado com os acontecimentos tanto na cidade quanto no vilarejo de Salem. A população foi acometida de um espírito
indomável, turbulento, e temo que os acontecimentos estejam fugindo ao controle.
— No momento estou preocupado com minha esposa — afirmou Ronald. Não viera para ouvir um sermão.
— É compreensível — disse o reverendo Mather. — Mas creio ser importante que entenda que nós — a igreja e as autoridades civis — devemos pensar na congregação como
um todo. Tenho esperado a aparição do demônio entre nós e nosso único consolo em meio a esta situação infernal é que agora, graças a sua esposa, sabemos onde.
— Quero ver a prova usada contra minha esposa.
— E eu a mostrarei—concordou o reverendo.—Contanto que mantenha sua natureza em segredo, pois tememos que tal revelação fomente ainda mais a angústia e a inquietude
presentes em Salem.
— Mas, e se eu quiser recorrer? — questionou Ronald.
— Depois de ver a prova, não vai querer recorrer — contrapôs o reverendo Mather. — Pode crer. Tenho então sua palavra?
— Tem minha palavra. Contanto que isto não me tire o direito de recorrer.
Levantaram-se todos juntos. O reverendo Mather foi na frente, subindo um lance de escadas de pedra. Após acender uma vela, começaram a descida até o porão.
— Discuti esta prova longamente com meu pai, Increase
Mather — disse o reverendo por cima do ombro. — Concordamos que é de suma importância para as gerações futuras como prova material da existência do mundo invisível.
Sendo assim, cremos que seu lugar é Harvard. Como sabem, atualmente, meu pai é o presidente da instituição.
Ronald nada disse. No momento sua mente não era capaz de lidar com assuntos de natureza acadêmica.
— Eu e meu pai concordamos também que confiaram demais em provas espectrais durante esses julgamentos de Salem—continuou o reverendo. Chegaram ao final das escadas
e, enquanto Samuel e Ronald aguardavam, ele acendeu os candeeiros das paredes. Continuou a falar enquanto se movimentava através do porão. — Estamos muito preocupados
que esta excessiva confiança carregue pessoas inocentes no mesmo redemoinho.
Ronald ensaiou um protesto. No momento não estava interessado em ouvir preocupações gerais, porém Samuel o conteve, pondo a mão em seu ombro.
— As provas contra Elizabeth são do tipo que gostaríamos de ver em todos os casos — disse o reverendo enquanto acenava para que Ronald e Samuel o seguissem até um
enorme armário trancado. — Mas é também algo capaz de inflamar. Foi meu desejo que fosse removida de Salem e trazida até aqui logo após o julgamento. Jamais vi maior
prova do poder do demônio, assim como de sua capacidade de fazer o mal.
— Por favor, reverendo—disse Ronald, enfim.—Gostaria de voltar a Salem imediatamente. Se me mostrar a prova, poderei tomar meu caminho de volta.
— Paciência, meu bom homem — pediu o reverendo enquanto tirava uma chave do bolso do colete. —A natureza desta prova é tal que deve estar preparado. É realmente
muito chocante. Foi por isto que sugeri que o julgamento de sua esposa ocorresse a portas fechadas e que o júri estivesse sob juramento de silêncio absoluto. Foi
uma precaução tomada não para negar à sua esposa seus direitos, mas para evitar a histeria do público, que, sem dúvida, teria feito o jogo do diabo.
— Estou pronto — afirmou Ronald, já um tanto impaciente.
— Que Nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco — disse o reverendo enquanto punha a chave no trinco do armário. — Controle-se.
O reverendo destrancou o armário. Então, com ambas as mãos, abriu as portas e deu um passo atrás para que Ronald pudesse ver.
Ronald engasgou ao soltar a respiração e seus olhos saltaram. Involuntariamente, cobriu a boca com a mão num misto de horror e incredulidade. Engoliu em seco. Tentou
falar, mas sua voz fugiu. Limpou a garganta.
— Basta! — conseguiu falar; desviando a vista.
O reverendo Mather fechou as portas do armário e as trancou.
— É certo que isto é obra de Elizabeth? — perguntou Ronald, com a voz sumida.
— Sem dúvida alguma — respondeu Samuel. — Além de ter sido confiscada em sua propriedade pelo xerife George Corwin, a própria Elizabeth admitiu sua responsabilidade
prontamente.
— Meu bom Deus — disse Ronald. — Isto é sem dúvida alguma obra do demônio. Porém, do fundo do coração, sei que Elizabeth não é uma bruxa.
— Sei que é difícil para um homem aceitar que sua esposa tenha um pacto com o diabo — começou Samuel. — Mas esta prova, mais o testemunho de várias das meninas que
sofrem os ataques afirmando terem visto o espírito de Elizabeth a atormentá-las, é prova suficiente. Sinto muito, meu caro amigo, mas Elizabeth é uma bruxa.
— Sinto uma angústia profunda — disse Ronald. Samuel e Cotton Mather trocaram olhares plenos de compreensão e compaixão. Samuel mostrou o caminho da escada.
— Talvez devêssemos voltar à sala — sugeriu o reverendo Mather. — Creio que todos precisamos de uma caneca de cerveja.
Após estarem sentados e refeitos, o reverendo Mather falou:
- São tempos difíceis, estes. Mas todos devemos participar. Agora que você sabe que o diabo escolheu Salem, devemos, com a ajuda de Deus, procurar e banir de nosso
meio seus servos e auxiliares e, ao mesmo tempo, proteger os inocentes e os tementes a Deus, aqueles a quem o diabo odeia
— Sinto muito — disse Ronald. — Nada posso fazer para ajudá-lo. Sinto-me perdido e cansado. Ainda não posso crer que Elizabeth seja uma bruxa. Preciso de tempo.
Deve haver alguma maneira de se conseguir uma prorrogação para ela, mesmo que apenas por um mês.
— Somente o governador Phips poderia conceder tal prorrogação — informou Samuel. — Mas um requerimento seria em vão. Ele só daria tal prorrogação por uma razão muito
forte.
O silêncio pairou sobre os três homens enquanto os sons da cidade entravam pela janela.
— Talvez eu pudesse lhe dar um motivo para a prorrogação — afirmou o reverendo subitamente.
O rosto de Ronald se iluminou com um lampejo de esperança. Samuel pareceu confuso.
— Creio que poderia justificar uma prorrogação junto ao governador — disse o reverendo Mather. — Mas com uma condição: a plena cooperação de Elizabeth. Ela teria
que dar as costas ao Príncipe das Trevas.
— Terá sua cooperação — garantiu Ronald. — O que precisa que faça?
— Primeiro, deverá se confessar perante a congregação na assembléia de Salem — começou o reverendo Mather. — Em sua confissão deverá renunciar a suas relações com
o demônio. Em seguida, deverá revelar a identidade daqueles que também fizeram pactos diabólicos. Isto seria um grande serviço. O fato do tormento das mulheres continuar
sem alívio é prova que os servos do demônio ainda estão à solta em Salem.
Ronald pôs-se de pé:
— Conseguirei com que Elizabeth concorde ainda esta tarde. Imploro-lhe que vá ver o governador imediatamente.
— Esperarei até saber o que Elizabeth decidiu — retorquiu
o reverendo. — Não incomodarei o governador sem obter confirmação das condições.
— Terá a confirmação. O mais tardar, pela manhã.
— Adeus — disse o reverendo Mather.
Samuel mal conseguia acompanhar Ronald enquanto dirigiam-se à carruagem, parada em frente à igreja.
— Economizará quase uma hora de viagem se tomar a barca até a Noddle Island — disse Samuel enquanto cruzavam a cidade para buscar o cavalo de Ronald.
— Então pegarei a barca.
Como dissera Samuel, a viagem de retorno a Salem foi muito mais rápida do que a ida a Boston. Entardecia quando entrou em Prison Lane e parou o cavalo em frente
à cadeia de Salem. Puxou as rédeas do animal sem a menor piedade. Este, exausto, espumava.
Ronald estava igualmente cansado e coberto de poeira. Filetes de suor escorriam de sua fronte. Estava também emo-cionalmente esgotado, faminto e sedento. No entanto,
ignorava suas próprias necessidades. O lampejo de esperança que o reverendo Mather oferecera a Elizabeth era sua força motriz. Precipitando-se para a sala do carcereiro,
sentiu-se frustrado ao encontrá-la vazia. Esmurrou a porta que levava às celas. Imediatamente, uma fresta se abriu e o rosto balofo de William Dounton surgiu.
— Vim ver minha esposa — disse Ronald sem fôlego.
— É hora da comida — contrapôs William. — Volte daqui a uma hora.
Com o pé, Ronald escancarou a porta. William perdeu o equilíbrio, derramando um pouco da papa rala que carregava num balde.
— Vou vê-la agora — rosnou Ronald.
— Os juizes vão saber disto — reclamou William. Mesmo assim pôs o balde no chão e levou Ronald de volta à porta do porão.
Poucos minutos depois, Ronald sentava-se ao lado de Elizabeth. Tocou-lhe o ombro gentilmente. Seus olhos se abriram e ela imediatamente perguntou sobre as crianças.
- Ainda não as vi — respondeu Ronald. — Mas tenho boas notícias. Fui ver Samuel Sewall e o reverendo Cotton Mather. Acham que podemos conseguir uma prorrogação.
— Graças a Deus — disse Elizabeth. Seus olhos brilharam à luz da vela.
— Mas você terá que confessar. E terá que dar os nomes dos outros que pactuaram com o diabo.
— Confessar o quê? — indagou Elizabeth.
— Que é bruxa—declarou Ronald, impaciente. A exaustão e o estresse ameaçavam o controle que mantinha sobre as emoções.
— Não posso confessar.
— E por que não? — perguntou Ronald, exasperado.
— Porque não sou bruxa.
Por um momento, Ronald limitou-se a encarar a esposa enquanto cerrava os punhos, frustrado.
— Não posso me trair assim — disse Elizabeth, rompendo o silêncio carregado de tensão. — Não vou confessar que sou bruxa.
No estado de extrema exaustão no qual se encontrava, a fúria de Ronald eclodiu. Socou a palma da mão com o punho cerrado. Enfiou o rosto no de Elizabeth.
— Você vai confessar — rosnou. — Ordeno-lhe que confesse.
— Meu querido marido — disse Elizabeth sem se intimidar com os modos de Ronald. — Já lhe contaram sobre a prova usada contra mim?
Ronald se empertigou e, envergonhado, olhou rapidamente para William, que ouvia a conversa. Mandou que se retirasse. William foi buscar seu balde e pôs-se a distribuir
comida pelo porão.
— Vi a prova — disse Ronald quando William não mais podia ouvi-lo. — Está na casa do reverendo Mather.
— Devo ser culpada de transgredir os desígnios de Deus. Isto eu até poderia confessar, se soubesse do que se trata. Mas não sou bruxa e certamente jamais atormentei
as moças que testemunharam contra mim.
— Confesse, mesmo que não seja uma confissão definitiva, apenas para conseguir a prorrogação — implorou Ronald. — Quero salvar sua vida.
— Não posso salvar minha vida e perder minha alma. Se me trair, estarei fazendo o jogo do diabo. E certamente não conheço outras bruxas nem tampouco acusarei pessoas
inocentes para me salvar.
— Tem de confessar—gritou Ronald. — Se não confessar, eu a abandonarei.
— Você fará o que sua consciência mandar. Não confessarei que sou bruxa.
— Por favor — suplicou Ronald, mudando de tática. — Pelas crianças.
— Temos de confiar em Deus.
— Ele nos abandonou — gemeu Ronald enquanto as lágrimas jorravam de seus olhos, riscando a poeira que cobria seu rosto.
Com dificuldade, Elizabeth levantou a mão acorrentada e a pôs sobre o ombro do marido.
— Tenha coragem, meu querido marido. Os desígnios de Deus têm seus mistérios.
Perdendo completamente o controle, Ronald levantou-se correndo e saiu da prisão.
TERÇA-FEIRA, 19 DE JULHO DE 1692
Ronald trocava o peso do corpo de um pé para o outro, ansioso. Encontrava-se em Prison Lane, a poucos metros da prisão. O suor escorria de sua testa, por baixo da
aba larga do chapéu. Era um dia quente, nublado e úmido. A quietude
sobrenatural que pairava sobre a cidade, apesar das hordas de curiosos, tornava o clima ainda mais pesado. Até mesmo as gaivotas estavam caladas. Todos aguardavam
o aparecimento da carroça.
Uma enorme fragilidade anuviava o raciocínio de Ronald, paralisado por doses iguais de medo, dor e pânico. Não conseguia entender o que ele e Elizabeth haviam feito
para merecer uma catástrofe como esta. Por ordem dos juizes, sua entrada na prisão fora proibida desde o dia anterior, quando tentara, pela última vez, obter a cooperação
de Elizabeth. Por mais que tivesse implorado, bajulado e ameaçado, porém, Elizabeth não mudara de idéia. Ela não confessaria.
Do interior do pátio, Ronald ouviu o tropel metálico das rodas de ferro sobre os paralelepípedos. A carroça apareceu logo em seguida. De pé, em seu interior, cinco
mulheres se espremiam. Todas continuavam acorrentadas. Um sorridente William Dounton as seguia a pé, feliz em entregá-las ao carrasco.
Um repentino grito de satisfação nasceu dos espectadores, inaugurando assim um clima de festa. Numa explosão de energia as crianças puseram-se a brincar enquanto
os adultos riam e batiam nas costas uns dos outros. Era feriado, dia de festa, como a maioria dos dias de enforcamento. Para Ronald, assim como para as famílias
e amigos das outras vítimas, era exatamente o contrário.
Avisado pelo reverendo Mather, Ronald não ficou surpreso ou esperançoso quando não viu Elizabeth entre o grupo. O pastor avisara que Elizabeth seria executada por
último, depois que a sede de sangue da multidão já estivesse saciada com a morte das cinco primeiras prisioneiras. O intuito era diminuir o impacto sobre a multidão,
em especial sobre aqueles que haviam visto ou ouvido falar da prova usada contra ela.
Quando a carroça passou por Ronald, ele olhou os rostos das condenadas. Todas pareciam debilitadas e desesperadas, fruto do brutal tratamento recebido e pela realidade
do destino iminente. Reconheceu apenas Rebecca Nurse e Sarah Good, ambas do vilarejo de Salem. As outras eram de cidades vizinhas.
Ao ver Rebecca Nurse a caminho de sua execução e conhecendo seu caráter piedoso, Ronald lembrou-se do terrível aviso do reverendo Mather de que os acontecimentos
de Salem poderiam fugir ao controle.
Quando a carroça chegou a Essex Street e tomou a direção leste, a multidão correu para segui-la. O reverendo Mather se destacava em meio à turba por ser a única
pessoa a cavalo.
Quase meia hora depois, Ronald tornou a ouvir o barulho de metal retinindo nos paralelepípedos do pátio da prisão. Uma segunda carroça logo surgiu, trazendo Elizabeth
atrás, sentada, de cabeça baixa. Devido ao peso de suas correntes ela não conseguia pôr-se de pé. Quando a carroça passou por Ronald, em cadência arrastada, Elizabeth
não levantou os olhos e Ronald não chamou seu nome. Nenhum dos dois sabia o que dizer.
Ronald seguiu de longe, pensando que vivia um pesadelo. Sentia enorme ambivalência quanto a sua presença. Queria fugir e se esconder do mundo, mas ao mesmo tempo
queria estar com Elizabeth até o fim.
A oeste da cidade de Salem, após atravessar Ibwere Bridge, a carroça entrou na rua principal e começou a subir Gallows Hill. A rua subia por uma mata de espinheiros
até se abrir num cume rochoso e inóspito, pontilhado por carvalhos e alfarrobeiras. A carroça de Elizabeth parou ao lado da primeira, já vazia.
Enxugando o suor da testa, Ronald surgiu por detrás das carroças. Mais à frente podia ver a multidão barulhenta reunida em torno de um enorme carvalho. Cotton Mather
estava atrás da turba, ainda montado. As condenadas encontravam-se de pé, na base da árvore. Um carrasco de capuz preto, trazido de Boston para a ocasião, passara
uma corda grossa por cima de um galho robusto e transformara a outra ponta em forca, pondo-a em torno do pescoço de Sarah Good. Naquele momento, Sarah Good equilibrava-se
no degrau de uma escada encostada na árvore.
Ronald podia ver o reverendo Noyes, da Igreja da Cidade de Salem, aproximar-se da prisioneira. Em sua mão, uma Bíblia.
— Confesse, bruxa! — gritou o reverendo Noyes.
- Sou tão bruxa quanto o senhor é bruxo — gritou Sarah de volta. Amaldiçoou então o pastor, mas Ronald não podia ouvir suas palavras em meio à zombaria da multidão
e aos anseios de alguém que incitava o carrasco a proceder com o enforcamento. Obedecendo, o carrasco empurrou Sarah Good e ela ficou pendurada, sem mais tocar a
escada.
A turba gritava e cantarolava "morra, bruxa", enquanto Sarah Good lutava com a corda que a estrangulava. Seu rosto ficou arroxeado e finalmente preto. Assim que
parou de se contorcer, o carrasco prosseguiu com as outras, uma a uma.
A horda se acalmava à cada vítima. Quando a última mulher fora empurrada da escada e as cordas das outras cortadas, a multidão já havia perdido o interesse. Embora
algumas pessoas tivessem ido ver os corpos atirados numa cova rasa e rochosa, muitos já haviam começado a caminhada de volta à cidade, onde os festejos continuariam.
Foi então que Elizabethfoi entregue ao carrasco. Ele precisou ajudá-la a andar até a escada, tal o peso de suas correntes.
Ronald engoliu em seco. Suas pernas ficaram fracas. Queria gritar sua fúria. Queria implorar por clemência. Mas nada fez. Não podia sequer se mover.
Avistando-o, o reverendo Mather se aproximou.
— É a vontade de Deus — declarou o reverendo. Tinha dificuldade em controlar seu cavalo, que percebia a dor de Ronald.
Ronald não tirou os olhos de Elizabeth. Queria correr em sua direção. Queria matar o carrasco.
— Deve se lembrar do feito de Elizabeth, de sua criação — disse o reverendo. — Deveria agradecer a Deus pela intervenção da morte para salvar nosso Síão. Lembre-se
de que viu a prova com os próprios olhos.
Ronald conseguiu concordar com a cabeça enquanto lutava, em vão, para conter as lágrimas. Vira a prova. Era certamente obra do diabo.
— Mas por quê? — gritou Ronald de repente. — Por que Elizabeth?
Durante alguns segundos, Ronald viu os olhos de Elizabeth
se erguerem para encontrar os seus. Seus lábios se moveram como se estivesse prestes a falar, mas, antes que pudesse fazê-lo, o carrasco deu-lhe o último empurrão.
Ao contrário da técnica usada com as outras, deixara uma pequena folga na corda. Ao deixar a escada, seu corpo caiu vários metros antes de dar uma derradeira e repentina
sacudida. Ao contrário das outras, ela não lutou e seu rosto não escureceu.
Ronald afundou o rosto nas mãos e chorou.
Capítulo 1. TERÇA-FEIRA, 12 DE JULHO DE 1994.
Kimberly Stewart olhou o relógio ao passar pela roleta, saindo do metrô na estação de Harvard Square em Cambridge, Massachusetts. Faltavam alguns minutos para as
sete da noite. Ela sabia que chegaria na hora, ou no máximo alguns minutos atrasada, mas mesmo assim se apressou. Forçando passagem por entre a multidão que perambulava
em torno da banca de jornal no centro da praça, percorreu uma pequena distância da Massachusetts Avenue, meio correndo e meio andando, até virar à direita na Holyoke
Street.
Parando para respirar em frente ao prédio do Hastings Pudding Club, Kimberly olhou a construção. Só conhecia esse clube de Harvard por sua premiação anual de atores
e atrizes. Era um prédio de tijolos com frisos brancos, como a maioria dos prédios de Harvard. Jamais entrara, muito embora nele funcionasse um restaurante aberto
ao público, o Upstairs at the Pudding. Esta seria a primeira vez.
Com a respiração já quase normal, Kim abriu a porta e deparou com uma enorme escadaria. Ao chegar à recepção, já estava sem ar outra vez. Perguntou onde ficava o
toalete.
Enquanto lutava para manter os cabelos negros e cheios sob controle, Kim tentava se convencer de que não havia motivo
algum para estar nervosa. Afinal de contas, Stanton Lewis fazia parte da família. O problema era que ele jamais ligara em cima da hora dizendo que precisava encontrá-la
para jantar por ser uma "emergência".
Desistindo do cabelo e se sentindo desarrumada, Kim dirigiu-se mais uma vez à recepção. Desta vez avisou que ia se juntar à mesa do Sr. e Sra. Stanton Lewis.
— O grupo já está quase todo aqui — informou a recepcionista.
Enquanto a seguia pelo salão principal, a ansiedade de Kim aumentava. Não gostara nada da palavra grupo e se perguntava quem mais viria para o jantar.
A recepcionista a levou até um jardim cercado por treliças, já um tanto cheio. Stanton e sua esposa, Candice, encontravam-se ao canto, numa mesa para quatro.
— Desculpem o atraso — disse Kim ao chegar à mesa.
— Mas você não está nem um pouco atrasada — afirmou Stanton.
Ele se pôs de pé e envolveu Kim num longo e cinematográfico abraço, curvando-a para trás, o que deixou seu rosto totalmente escarlate. Tinha a terrível sensação
de que todos estavam olhando. Quando conseguiu se livrar do abraço de Stanton, refugiou-se na cadeira que a recepcionista puxara, rezando para que o assento a engolisse.
Kim sempre se sentia desarmada na presença de Stanton. Embora fossem primos, ela acreditava que eram antíteses sociais. Enquanto se considerava mais ou menos tímida,
às vezes até mesmo desajeitada, ele era o protótipo da autoconfiança: refinado, agressivo e sofisticado. Tinha o corpo de um esquiador profissional e uma postura
impecável, dominando a todos como um perfeito empresário. Até mesmo sua esposa, Candice, com seu sorriso discreto, fazia com que Kim se sentisse socialmente inapta.
Arriscou uma olhadela ao redor e, ao fazê-lo, inadvertidamente esbarrou na recepcionista, que tentava pôr o guardanapo em seu colo. Ambas desculparam-se ao mesmo
tempo.
— Relaxe, prima — disse Stanton depois que a recepcionista
deixou a mesa. Serviu uma taça de vinho branco a Kim.
— Como sempre, está mais tensa do que corda de banjo.
— Dizer-me para relaxar me deixa mais nervosa ainda — devolveu Kim, tomando um gole do vinho.
— Você é muito esquisita — zombou Stanton. — Não consigo entender tanto acanhamento, mesmo em família, num salão cheio de gente que não vai ver nunca mais. Esfrie
a cabeça.
— Não consigo controlar meus cabelos, quanto mais a cabeça — brincou Kim. Apesar de tudo, começava a se acalmar.
— Quanto à sua inabilidade em compreender meu desconforto, acho até normal. Você é tão seguro de si que jamais conseguiria entender o que é ser acanhada.
— Por que não me dá uma chance de entender? Eu a desafio a explicar por que está se sentindo desconfortável neste exato instante. Deus do céu, mulher, sua mão está
tremendo!
Kim pôs a taça de vinho na mesa e pôs as mãos no colo.
— Estou nervosa, principalmente porque me sinto desarrumada. Depois que você ligou, mal tive tempo para tomar banho e menos ainda para decidir o que usar. E, já
que insiste, essa minha franja está me enlouquecendo — disse Kim, tentando em vão ajustar o cabelo que lhe cobria a testa.
— Achei um barato esse seu vestido — elogiou Candice.
— Sem dúvida — concordou Stanton. — Kim, você está belíssima.
Ela riu.
— Sou esperta o bastante para saber que elogios provocados costumam ser falsos.
— Besteira — contradisse Stanton. — A grande ironia dessa conversa é que você é uma mulher linda e sexy, muito embora sempre aja como se não o soubesse, coisa que,
eu suponho, faça parte do seu charme. Quantos anos tem, vinte e cinco?
— Vinte e sete — respondeu Kim, tomando um pouco mais de vinho.
— Vinte e sete e melhor a cada ano — declarou Stanton com um sorriso travesso. — Você tem as maçãs do rosto de causar inveja a qualquer mulher, a pele de bumbum
de bebê,
corpo de bailarina. Sem contar esses olhos cor de esmeralda que hipnotizariam uma estátua grega.
— A realidade é um pouquinho diferente — discordou Kim. — A estrutura óssea do meu rosto é legal, mas nada excepcional. Minha pele não bronzeia e esta história de
corpo de bailarina é uma maneira sutil de dizer que não tenho grandes atrativos.
— Está sendo injusta consigo mesma — censurou Candice.
— Acho melhor mudarmos de assunto. Esta conversa não vai me ajudar a relaxar. Na verdade, está me deixando ainda mais tensa.
— Mil desculpas por fazer elogios tão sinceros — disse Stanton, lançando-lhe mais um sorriso zombeteiro. — Então, que assunto prefere discutir?
— Que tal me explicar a razão de um jantar de caráter tão emergencial? — indagou Kim.
— Preciso de sua ajuda — disse Stanton, chegando mais perto de Kim.
— De minha ajuda? — indagou Kim. Teve que rir. — O grande investidor precisa de minha ajuda? O que é isso, piada?
— Muito pelo contrário. Daqui a alguns meses vou lançar uma de minhas companhias de biotecnia, a Genetrix, na bolsa.
— Mas não estou investindo em nada—informou Kim. — Está falando com a parente errada.
Desta vez, foi Stanton quem riu.
— Não estou atrás de dinheiro — avisou. — Não, é algo bem diferente. Eu estava conversando com tia Joyce hoje e...
— Ah, não! — interrompeu Kim, nervosa, — o que foi que minha mãe falou dessa vez?
— Disse apenas que você terminou o namoro — falou Stanton.
Kim ficou lívida. O mal-estar que sentira ao chegar ao restaurante voltou todo de uma vez.
— Preferia que minha mãe não abrisse a boca — afirmou Kim irritada.
— Joyce não deu nenhum detalhe embaraçoso.
— Não interessa. Ela vive dando detalhes pessoais da minha vida e da de Brian desde que éramos adolescentes.
— A única coisa que disse foi que Kinnard não era o cara certo para você. Fato com o qual concordo, considerando-se que ele vive por aí com os amigos, esquiando
e pescando.
— Isso me soa como detalhe — reclamou Kim. — É também um exagero. A pescaria é coisa nova. O esqui é uma vez por ano.
— Para dizer a verdade, mal ouvi o que ela falou — confessou Stanton. — Pelo menos até me pedir para encontrar alguém mais apropriado para você.
— Deus do céu! — exclamou Kim, cada vez mais irritada. — Não dá para acreditar que ela teve a coragem de mandar você arranjar alguém para sair comigo.
— Não é minha especialidade — concordou Stanton. Um sorriso de satisfação espalhou-se em seu rosto. — Mas tive uma idéia brilhante. Quando desliguei o telefone,
após falar com sua mãe, já sabia a quem lhe apresentar.
— Não vá me dizer que foi para isso que me chamou aqui — gemeu Kim, assustada. Sentiu o coração acelerar. — Jamais teria vindo se desconfiasse...
— Calma, calma—Stanton a interrompeu.—Não comece a dar ataque. Vai funcionar maravilhosamente bem. Confie em mim.
— Mas é cedo demais — protestou Kim
— Nunca é cedo demais. Meu lema é "Hoje é o ontem de amanhã."
— Stanton, você é impossível. Não estou pronta para conhecer ninguém. Além do mais, estou muito desarrumada.
— Já disse que você está maravilhosa. Confie em mim, Edward Armstrong vai cair de quatro por você. Bastará olhar dentro desses olhos verde-esmeralda e as pernas
dele ficarão bambas.
— Isso é ridículo — reclamou Kim.
— Uma coisa devo admitir: tenho segundas intenções. Venho tentando conseguir que Edward se envolva em uma das minhas companhias de biotecnia desde que me tornei
especulador.
Com a Genetrix indo a público, este é o momento ideal. Minha idéia é prender sua atenção apresentando-o a você. Depois talvez eu consiga convencê-lo a entrar para
o conselho consultivo da Genetrix. Se conseguir pôr seu nome no prospecto da companhia já serão uns belos quatro ou cinco milhões para a oferta inicial. E, enquanto
isso, vou enriquecê-lo.
Kim nada disse enquanto se concentrava na taça de vinho. Além de ansiosa, ela se sentia usada e envergonhada, mas não demonstrou sua irritação. Sempre tivera dificuldades
em se expressar durante situações de confronto. Stanton, como sempre, a deixara incrédula com sua capacidade de manipular e de se aproveitar, sendo, ao mesmo tempo,
de uma sinceridade desconcertante.
— Talvez Edward Armstrong não queira ficar milionário — disse Kim finalmente.
— Besteira — discordou Stanton. — Todo mundo quer ficar milionário.
— Sei que é difícil para você entender. Mas nem todo mundo pensa assim.
— Edward é um bom rapaz — disse Candice.
— Isto soa tão suspeito quanto se dissessem a ele que sou agradável.
Stanton riu.
— Minha prima, sabe que, apesar de nervosinha, você até que tem senso de humor?
— O que eu quis dizer é que o Edward é um homem atencioso — disse Candice. — E acho isso uma coisa importante. No começo fui contra a idéia do Stanton lhe apresentar
a alguém. Mas aí pensei: como seria bom você ter um relacionamento com uma pessoa simpática. Afinal de contas, seu relacionamento com Kinnard foi um tanto tempestuoso,
e acho que merece coisa melhor.
Kim mal podia crer nas palavras de Candice. Ela obviamente não conhecia Kinnard, mas Kim preferiu não contradizê-la.
— Sou tão culpada quanto Kinnard pelos problemas que tivemos — declarou.
Olhou para a porta. O coração batia descompassado. Gostaria
de poder se levantar e fugir. Mas não podia. Não era sua natureza, muito embora, naquele momento, desejasse que fosse.
— Edward é mais do que atencioso — disse Stanton. — Edward é um gênio.
— Ah, mas que maravilha — disse Kim com sarcasmo. — O Sr. Armstrong não só vai me achar pouco atraente como também chata. Nunca me senti particularmente brilhante
procurando assunto para conversar com gênios.
— Confie em mim. Vocês vão se dar muito bem. Têm interesses em comum. Edward é médico. Fomos colegas de classe na Faculdade de Medicina de Harvard. Fizemos muitas
experiências e trabalhos de laboratório juntos, até que ele resolveu dar um tempo durante o terceiro ano para fazer um doutorado em bioquímica.
— Ele trabalha como médico? — indagou Kim.
— Não, é pesquisador — respondeu Stanton. — Sua especialidade é a química do cérebro, atualmente uma área muito fértil. No momento, Edward é uma estrela em ascensão
neste campo; uma celebridade científica que Harvard roubou de volta de Stanford. E, falando no diabo, olha ele aí.
Kim viu um homem alto e corpulento, de aparência jovial, se dirigir à mesa. Sabendo que fora colega de Stanton em Harvard, Kim presumiu que teria uns quarenta anos,
embora parecesse bem mais jovem. Tinha cabelos lisos e louros e um rosto largo, bronzeado e sem rugas. Não tinha a palidez que Kim associava a tipos acadêmicos.
Era levemente encurvado, como se tivesse medo de bater a cabeça numa viga do teto.
Stanton pôs-se de pé imediatamente, abraçando Edward com o mesmo entusiasmo com o qual abraçara Kim. Deu diversos tapinhas no ombro de Edward, como alguns homens
parecem ter mania de fazer.
Kim compadeceu-se de Edward. Podia ver que se sentia tão desconfortável quanto ela se sentira com o espalhafatoso cumprimento de Stanton.
Stanton apresentou-os rapidamente e Edward apertou as mãos de Candice e de Kim antes de se sentar. Kim notou que suas mãos estavam úmidas e que seu aperto era tímido.
Também
notou que gaguejava um pouco e que tinha o hábito de empurrar os cabelos para longe da testa.
— Peço mil desculpas pelo atraso — disse Edward. Tinha um pequeno problema com a pronúncia dos tês.
— Vocês dois são farinha do mesmo saco — riu Stanton. — Minha prima, bela, talentosa e sexy, disse exatamente a mesma coisa quando chegou, cinco segundos atrás.
Kim sentiu o sangue corar-lhe o rosto. Seria uma noite longa. Stanton estava apenas sendo ele mesmo.
— Relaxe, Ed — continuou Stanton ao servir vinho ao amigo. — Não está atrasado. Eu disse por volta das sete. Chegou na hora.
— Não, é que vocês estavam todos aqui esperando — disse Edward. Sorriu embaraçado e ergueu a taça, como que num brinde.
— Grande idéia! — exclamou Stanton. Ao captar a idéia, agarrou sua taça. — Deixe-me propor um brinde. Primeiro, gostaria de brindar à minha querida prima, Kimberly
Stewart. E absolutamente a melhor enfermeira da UTI cirúrgica do Hospital Geral de Boston. — Stanton olhou diretamente para Edward, enquanto todos mantinham suas
taças suspensas. — Se precisar remendar o encanamento da próstata, reze para a enfermeira ser a Kim. Sua habilidade com o cateter já virou lenda.
— Stanton, por favor! — protestou Kim.
— Está bem, está bem — disse Stanton, estendendo o braço esquerdo como se pedisse silêncio para a platéia. — Deixem-me continuar meu brinde a Kimberly Stewart. Estaria
faltando para com meu dever se não chamasse a atenção do grupo para o fato de que sua brilhante genealogia remonta quase que ao Mayflower. Por parte de pai, é claro.
Por parte de mãe, aliás meu lado da família, chega apenas à Revolução Americana.
— Stanton, isso não é nem um pouco necessário — implorou Kim. Já estava apavorada.
— E tem mais — acrescentou Stanton com a satisfação de um experiente orador de mesa de jantar. — O primeiro parente
de Kimberly a se formar na boa e velha Harvard o fez em 1671. Era Sir Ronald Stewart, fundador da Maritime Limited, assim como da dinastia Stewart atual. E talvez
o mais interessante de tudo seja que a oitava tataravó de Kimberly foi enforcada em Salem, acusada de bruxaria. Agora, se isto não é a história viva dos Estados
Unidos, não sei o que é.
— Stanton, você é um chato — vociferou Kim, a raiva sobrepondo-se momentaneamente à vergonha. — Isto não é informação para o público.
— E por que não? — questionou Stanton com uma risada. Olhando para Edward, disse: — Os Stewart têm um tabu meio ridículo quanto a este pedacinho de história pré-histórica.
Como se fosse sujar o nome da família.
— Quer você ache ridículo ou não, as pessoas têm o direito a ter sentimentos — disse Kim, enfurecida. — Além do mais, minha mãe, a pessoa que mais se preocupa com
essa história, é sua tia e uma Lewis de nascimento. Meu pai nunca mencionou coisa alguma para mim a respeito.
— Está bem, deixe pra lá — disse Stanton com um aceno. — Pessoalmente, acho esta história fascinante. Quisera eu ter tido um parente que chegou no Mayflower, ou
outro a bordo do barco que cruzou o Delaware com Washington a bordo.
— Acho que devíamos mudar de assunto — sugeriu Kim.
— Concordo — disse Stanton equânime. Era o único a conservar a taça erguida. Foi um brinde longo. — Isto me leva a Edward Armstrong. Um brinde ao mais excitante,
produtivo, criativo e inteligente neuroquímico do mundo, não, do universo! Um brinde ao homem que saiu das ruas do Brooklyn, financiou a própria educação e se encontra
agora no ápice da carreira que abraçou. Um brinde ao homem que já deveria ter feito reserva num vôo para Estocolmo para receber o Nobel, que certamente receberá
por seu trabalho com neurotransmissores, memória e mecânica quântica.
Stanton estendeu o braço num brinde e todos fizeram o mesmo. Tocaram taças e beberam. Ao repor a taça na mesa, Kim olhou para Edward discretamente. Podia ver que
estava tão envergonhado quanto ela.
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Stanton bateu com a taça vazia na mesa e tratou de enchê-la. Olhou em torno para as outras taças e enfiou a garrafa de vinho de volta no balde de gelo.
— Agora que vocês dois já se conheceram, espero que se apaixonem, se casem e tenham muitos filhinhos encantadores. A única coisa que lhes peço em troca, por tê-los
unido em aliança tão fértil, é que Edward concorde em servir no conselho científico da Genetrix.
Stanton soltou uma sonora gargalhada, muito embora fosse o único a fazê-lo. Quando acabou, disse:
— E então, onde diabos está o garçom? Vamos comer!
Do lado de fora do restaurante, o grupo parou.
— Podíamos dobrar a esquina e tomar um sorvete na HerrelFs — sugeriu Stanton.
, — Não agüento comer mais nada — disse Kim.
— Nem eu — concordou Edward.
— Eu nunca como sobremesa — arrematou Candice.
— Então, quem vai querer carona? — perguntou Stanton. — Meu carro está na garagem do Holyoke Center.
— O metrô para mim está ótimo — afirmou Kim.
— Meu apartamento fica perto — informou Edward.
— Então fiquem com Deus — despediu-se Stanton. Após prometer a Edward que manteria contato, Stanton tomou o braço de Candice e foi em direção à garagem.
— Posso levar você até o metrô? — perguntou Edward.
— Claro — disse Kim.
Começaram a caminhar juntos. Enquanto andavam, sentia que Edward queria lhe dizer alguma coisa.
— É uma noite muito aprazível — disse ele, pouco antes de chegarem à esquina. Voltara a gaguejar levemente. — Que tal uma voltinha por Harvard Square antes de ir
para casa?
— Seria ótimo. Eu gostaria muito.
De braços dados, andaram até o complicado entroncamento da Massachusetts Avenue, a parte de Harvard Street que é na verdade JFK Drive, Mt. Auburn Street e Brattle
Street. Apesar do nome, não há nada de praça na Harvard Square. Trata-se
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de uma série de fachadas curvas e espaços abertos com feitios curiosos. Nas noites de verão as calçadas se transformam numa espécie de circo medieval com equilibristas,
músicos, mágicos, poetas e acrobatas.
Era uma noite de verão, quente e sedosa, com pássaros noturnos cantando lá em cima, no céu escuro. Havia até mesmo algumas estrelas, apesar das luzes da cidade.
Kim e Edward andaram em torno da praça, parando vez por outra na periferia da platéia dos artistas. Apesar de suas dúvidas mútuas em relação à noite, no final das
contas, ambos se divertiam.
— Que bom ter vindo a este jantar! — exclamou Kim.
— É, que bom que vim também — concordou Edward.
Finalmente sentaram-se num muro baixo de concreto armado. A esquerda, uma mulher cantava uma melancólica balada, A direita, um animado grupo de índios peruanos tocava
flauta.
— O Stanton é uma figura — comentou Kim.
— Não sabia se ficava com mais vergonha por mim ou por você com as coisas que ele dizia.
Kim riu, concordando. Ela se sentira tão desconfortável com os brindes feitos a Edward quanto com os feitos a si própria.
— O mais incrível sobre o Stanton é que ele consegue ser manipulador e encantador ao mesmo tempo — disse Kim.
— É curioso como ele consegue se sair bem em todas as situações — concordou Edward. — Eu jamais conseguiria fazê-lo. Na verdade, sempre achei que servia de mero
fundo para o Stanton. Já senti inveja dele, queria ter metade de sua autoconfiança. Sempre me senti meio inseguro, meio desajeitado.
— Também me sinto assim. Sempre quis ser mais descontraída. Mas nunca fui. Sou tímida desde criança. Em eventos sociais nunca consigo pensar na coisa certa para
falar na hora certa. Consigo cinco minutos depois, mas aí já é tarde demais.
— Farinha do mesmo saco, foi assim que Stanton nos descreveu. O problema é que o Stanton conhece nosso ponto fraco e sabe exatamente como nos torturar. Morro de
vergonha sempre que ele menciona aquela besteirada toda sobre o Prêmio Nobel.
- Peço desculpas pela família inteira. Pelo menos não faz por maldade.
— Qual é seu grau de parentesco? — perguntou Edward.
— Somos primos em primeiro grau. Minha mãe é irmã do pai de Stanton.
— Eu deveria me desculpar também. Não deveria falar mal de Stanton. Fomos colegas na faculdade de medicina. Eu o ajudava no laboratório e ele me ajudava nas festas.
Somos amigos desde então.
— Por que você nunca participou de nenhum dos seus investimentos? — indagou Kim.
— Nunca me interessaram. Gosto do meio acadêmico. Não que seja contra a ciência aplicada, só não acho muito empolgante. O meio acadêmico e a indústria não concordam
em alguns pontos, especialmente no que diz respeito ao segredo, que é a alma do negócio. A boa comunicação é o sangue vital da ciência, o segredo, sua ruína.
— Stanton disse que o deixaria rico. Edward riu:
— E no que isso mudaria a minha vida? Já faço o que quero fazer: sou pesquisador e professor. Injetar milhares de dólares na minha vida só complicaria as coisas
e criaria preconceitos. Sou feliz como estou.
— Foi o que tentei explicar ao Stanton. Mas ele não quis ouvir, é muito cabeça-dura.
— Mas é encantador e muito divertido. Ele certamente exagerou a meu respeito durante aquele brinde sem fim. Mas e sobre você? Pode realmente seguir sua genealogia
até a América do século XVII?
— Posso sim.
— Fascinante. E também impressionante. Eu conseguiria no máximo traçar duas gerações, e aí provavelmente morreria de vergonha.
— Acho mais impressionante bancar a própria faculdade e conseguir ser um sucesso numa carreira cheia de desafios. Isso surgiu de sua própria iniciativa, enquanto
que eu apenas nasci na família Stewart. Não fiz esforço algum para tanto.
— E essa história sobre a bruxa de Salem? — indagou Edward.— Também é verdade?
— É sim. Mas não é uma coisa de que gosto de falar.
— Sinto muito — gaguejou Edward. — Me perdoe, por favor. Não consigo entender por que o assunto a deixa sem jeito, mas eu não deveria tê-lo trazido à tona.
Kim balançou a cabeça.
— Agora eu é que devia pedir desculpas por deixá-lo sem jeito. Acredito que minha reação ao episódio de Salem seja meio infantil, e, para ser sincera, nem sei por
que fico tão sem graça. Acho que é por causa de minha mãe. Ela conseguiu me convencer de que é um assunto proibido. Acha a história uma desgraça familiar.
— Mas já se passaram trezentos anos — surpreendeu-se Edward.
— Tem razão — concordou Kim, encolhendo os ombros. — Não faz muito sentido.
— Você conhece bem esse episódio da história? — perguntou Edward.
— O básico, creio eu. Como o resto da América.
— Curiosamente, sei um pouquinho mais que a maioria. A editora da Universidade de Harvard publicou um livro a respeito, escrito por dois historiadores brilhantes.
Chama-se Salem possuída. Um de meus alunos de pós-graduação insistiu para que eu o lesse, já que é premiado. Então eu li e fiquei intrigado. Posso emprestá-lo.
— Ótimo — disse Kim, só para ser gentil.
— Estou falando sério. Vai gostar e talvez mude sua opinião sobre o assunto. Os aspectos sociais, políticos e religiosos são realmente fascinantes. Aprendi mais
do que esperava. Por exemplo, sabia que alguns anos após os julgamentos alguns dos jurados e até mesmo juizes retrataram-se publicamente e pediram perdão por acreditarem
que pessoas inocentes foram executadas?
— É mesmo?—perguntou Kim, ainda tentando ser gentil.
— Mas não foi a inocência das vítimas que me impressionou. Sabe como é, um livro leva a outro. Bem, aí li um livro
chamado Venenos do passado, que continha uma teoria das mais interessantes, especialmente para um neurocientista como eu. Sugeria que pelo menos algumas das jovens
acometidas dos ataques e que acusaram as pessoas de bruxaria na verdade haviam sido envenenadas. Assim, a vilã talvez tenha sido a ergotina, proveniente de um mofo
chamado Claviceps purpurea. Claviceps é um fungo que se desenvolve nos cereais, particularmente no centeio.
Apesar do desinteresse condicionado de Kim, Edward conseguiu captar sua atenção.
— Envenenadas pela ergotina? E o que isso causaria?
— Nossa! — Edward revirou os olhos. — Lembra aquela música dos Beatles, Lucy in the sky with diamondsí Bem, teria sido algo parecido, porque a ergotina contém amido
de ácido lisérgico, o principal ingrediente do LSD.
— Quer dizer que podem ter sofrido alucinações?
— É mais ou menos isso — explicou Edward. — O ergotismo pode causar gangrena, que pode ser fatal com muita rapidez, ou uma reação convulsiva e alucinógena. Em Salem
deve ter ocorrido a segunda reação, convulsiva e alucinógena. Possivelmente mais alucinógena do que convulsiva.
— Que teoria interessante. Se ouvisse esta explicação, talvez minha mãe mudasse de atitude em relação à nossa antepassada. Seria difícil culpar uma pessoa específica
em circunstâncias como essas.
— Foi o que pensei. Mas, ao mesmo tempo, isso não explica tudo. A ergotina pode ter sido o estopim da bomba, mas uma vez que este foi aceso, outras bombas foram
explodindo. Pelo que li, acho que muitas pessoas se aproveitaram da situação por razões sócio-econômicas, mesmo que de forma inconsciente.
— Sabe que você aguçou minha curiosidade? Agora sinto-me envergonhada por nunca ter lido a respeito do julgamento das bruxas de Salem, além do que aprendi no colégio.
Deveria sentir ainda mais vergonha porque a propriedade que pertenceu a essa antepassada continua na família. Na verdade, devido a uma pequena desavença entre meu
pai e meu falecido avô, meu irmão e eu acabamos de herdá-la.
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— Minha nossa! — espantou-se Edward. — Você está querendo dizer que sua família manteve essas terras durante trezentos anos?
— Bem, não manteve o terreno inteiro. A propriedade original incluía o que são, hoje em dia, as cidades de Beverly, Danvers e Peabody, assim como Salem. Até mesmo
a parte que se encontra em Salem é só uma fração do que era. Mas ainda assim é um terreno grande. Não sei qual é sua extensão, mas é bem grande.
— Extraordinário. A única coisa que herdei foi a dentadura do meu pai e algumas ferramentas. E pensar que você pode percorrer as mesmas terras que seus antepassados
do século XVII... É inacreditável. Pensei que esse tipo de experiência fosse reservada para a realeza européia.
— Posso fazer mais do que percorrer as mesmas terras. Posso até entrar na mesma casa. A casa velha ainda está de pé.
— Ah, agora você está brincando comigo. Não sou tão crédulo assim.
— Não estou brincando. Não é tão absurdo assim. Há várias casas do século XVII na região de Salem, incluindo as que pertenceram a outras bruxas executadas, como
Rebecca Nurse.
— Não sabia disso.
— Você deveria ir a Salem.
— Em que estado está a casa? — perguntou Edward.
— Bom, na minha opinião. Não entro nela há muito tempo, desde que era criança. Mas está em bom estado para uma casa construída em 1670. Foi comprada por Ronald Stewart.
Foi sua esposa, Elizabeth Stewart, que foi executada.
— Lembro do nome de Ronald do brinde de Stanton. Foi o primeiro homem do clã dos Stewart a estudar em Harvard.
— Eu não sabia disso.
— O que é que você e seu irmão vão fazer com a propriedade?
— Por enquanto nada. Pelo menos enquanto Brian estiver na Inglaterra, de onde controla a frota da família. Deverá voltar para casa dentro de um ano, mais ou menos;
aí vamos decidir.
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Infelizmente a propriedade é um elefante branco, e se levar em consideração o custo dos impostos e da manutenção.
— Seu avô viveu na casa?
— Não, de jeito nenhum. Já faz muito tempo que ninguém vive na casa. Ronald Stewart comprou um terreno enorme que fazia fronteira com sua propriedade e construiu
uma casa maior, deixando a casa original para inquilinos ou empregados. Através dos anos a casa-grande foi reformada várias vezes. A última foi na virada do século.
Essa foi a casa na qual meu avô viveu, ou, melhor dizendo, por onde ele tremeu. É um lugar enorme, onde venta demais.
— Aposto que a casa tem valor histórico.
— O Instituto Peabody-Essex, assim como a Sociedade para a Preservação das Antigüidades da Nova Inglaterra, demonstrou interesse em comprá-la. Mas minha mãe é contra.
Acho que teme que isso traga à tona a história da bruxaria.
— É uma pena — disse Edward. Mais uma vez o leve gaguejar voltou.
Kim olhou para ele. Parecia inquieto enquanto fingia assistir ao show dos índios peruanos.
— Há alguma coisa errada? — perguntou Kim. Podia sentir seu desconforto.
— Não — respondeu Edward com convicção excessiva. Pensou por alguns instantes e então disse: — Desculpe, sei que não deveria perguntar isso a você. Deve se sentir
à vontade para dizer não se eu estiver sendo inconveniente. Quero dizer, eu entenderia.
— O que é? — perguntou Kim, já preocupada.
— É que li todos esses livros dos quais lhe falei. O que quero dizer é que realmente adoraria ver a casa. Sei que estou sendo muito presunçoso em pedi-lo.
— Ficaria muito feliz em mostrá-la a você — disse Kim, aliviada. — Estarei de folga neste sábado. Podemos ir de carro, se for conveniente para você. Posso pegar
as chaves com o advogado.
— Não seria muito incômodo? — perguntou Edward.
— De modo algum!
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— Sábado seria perfeito. Em troca, talvez quisesse jantar comigo sexta à noite?
Kim sorriu.
— Aceito, mas agora acho melhor ir para casa. O turno das sete e meia no hospital começa muito cedo.
Desceram do muro de concreto e andaram até a entrada do metrô.
— Onde mora? — perguntou Edward.
— Em Beacon Hill.
— Dizem que é um bairro excelente — disse Edward.
— É conveniente para o hospital. E o apartamento é ótimo. Infelizmente vou ter que me mudar em setembro, porque a amiga que o divide comigo vai casar e o contrato
está em seu nome.
— Estou com um problema parecido—confessou Edward. — Moro num apartamento muito agradável no terceiro andar de uma casa, mas os donos vão ter um bebê e precisam
do espaço Então tenho que sair em primeiro de setembro também.
— Sinto muito.
— Deixa pra lá. Há anos que falo em me mudar mas fico protelando, protelando...
— Onde fica? — perguntou Kim.
— Perto daqui. Dá para ir andando. Então continuou, hesitante:
— Você gostaria de conhecê-lo?
— Talvez outra noite — disse Kim. — Como já disse, o dia amanhece cedo para mim.
Chegaram à entrada do metrô. Kim virou-se e olhou dentro dos olhos azuis-claros de Edward. Gostou do que viu; havia neles sensibilidade.
— Quero lhe dar os parabéns por ter me pedido para ver a casa. Imagino como deve ter sido difícil. Eu não teria conseguido.
Edward enrubesceu. Depois riu.
— Não sou nenhum Stanton Lewis. Sou até bem desajeitado.
— Acho que temos muitas coisas em comum nesta área —
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disse Kim. — Também acho que você é muito mais apto socialmente do que pensa.
— O crédito é todo seu. Você me faz sentir relaxado e, considerando que acabamos de nos conhecer, é bem impressionante.
— O sentimento é mútuo — disse Kim.
Deram-se as mãos por um momento. Então Kim virou e desceu as escadas do metrô correndo.
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Capítulo 2. SÁBADO, 16 DE JULHO DE 1994.
Edward parou o carro em fila dupla em Beacon Street, em frente ao Boston Common, e entrou correndo na portaria do prédio de Kim. Após tocar a campainha, ficou de
olho para o caso de aparecer um guarda. Sabia, por experiência própria, que eram implacáveis
— Desculpe se o deixei esperando — disse Kim quando apareceu. Vestia shorts caqui e uma camiseta branca. Prendera os cabelos escuros e volumosos num rabo-de-cavalo.
— Desculpe meu atraso — disse Edward. Conforme o combinado, vestira-se de maneira igualmente informal. — Precisei dar um pulo no laboratório.
Os dois se olharam por alguns instantes e caíram na gargalhada.
— Que duas peças somos — admitiu Kim.
— Eu não consigo evitar — ria Edward. —- Estou sempre me desculpando. Até quando não é necessário. É ridículo, mas sabe de uma coisa? Eu nunca tinha notado até você
me chamar a atenção ontem à noite.
— Só notei porque faço a mesma coisa. Depois que me deixou em casa, fiquei pensando nisso. Acho que é por eu me sentir tão responsável por tudo.
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— Deve ter razão. Quando era criança sempre achava que a culpa era minha se algo dava errado ou se alguém estava chateado.
— As semelhanças são assustadoras — brincou Kim. Entraram no Saab de Edward e deixaram a cidade pelo norte. Era um dia claro e sem nuvens e, embora fosse cedo, o
sol já dava indícios de sua potência.
Kim abriu a janela e pôs o braço para fora.
— Tenho a sensação de estar tirando umas miniférias — disse.
— Eu também, tenho vergonha de admitir, mas passo todos os meus dias no laboratório.
— Incluindo os fins de semana? — perguntou Kim.
— Sete dias por semana. Só noto que é domingo quando tem menos gente por perto. Eu sou um chato!
— Eu diria dedicado. Também diria que é muito atencioso. As flores que tem enviado todos os dias são lindas, mas não estou acostumada a tanto cavalheirismo. Certamente
não mereço.
— Ah, não é nada.
Kim podia sentir seu desconforto. Afastou o cabelo da testa várias vezes.
— Eu não acho que seja nada. Quero lhe agradecer mais uma vez.
— Teve alguma dificuldade em conseguir as chaves da casa velha? — perguntou Edward, mudando de assunto.
Kim balançou a cabeça.
— De jeito nenhum. Fui ao escritório do advogado ontem, depois do trabalho.
Tomaram a direção norte pela rota 93 e depois a direção leste pela 128. Havia poucos carros na estrada.
— Achei o jantar de ontem muito agradável — declarou Edward.
— Eu também. Muito obrigada. Mas estive pensando hoje de manhã e queria me desculpar por ter dominado a conversa. Falei demais sobre minha família e sobre mim mesma.
— Lá vai você pedir desculpas outra vez.
Kim deu um tapinha na própria perna, fingindo castigo.
— Acho que sou um caso perdido — disse rindo.
— Além do mais, eu é que deveria me desculpar. Fiz muitas perguntas, algumas excessivamente pessoais.
— Não fiquei nem um pouco ofendida. Só espero não ter assustado você quando mencionei os ataques de pânico que tive no primeiro ano de faculdade.
— Imagine. Todo mundo os tem, especialmente nós médicos com nossa tendência à compulsão. Eu tinha ataques de pânico na faculdade antes de todas as provas, embora
sempre tirasse boas notas.
— Mas meus ataques eram um pouco fora do comum. Passei um bom tempo sem conseguir andar de carro, com medo de ter um ataque e ficar presa.
— Tomou algum remédio para evitá-los?
— Tomei Xanax durante um tempo.
— Já tomou Prozac? — indagou Edward. Kim virou-se para encará-lo:
— Nunca! Por que haveria de tomar Prozac?
— Só porque mencionou que sofria tanto de síndrome do pânico quanto de timidez. O Prozac poderia ter ajudado em ambos os casos.
— Nunca foi indicado para o meu caso. Além do mais, mesmo que tivesse sido eu não o teria tomado. Não sou a favor do uso de drogas para a correção de pequenas imperfeições
da personalidade, tais como a timidez. Acredito que devam ser reservadas para problemas graves, não para as meras dificuldades do dia-a-dia.
— Sinto muito. Não quis ofendê-la.
— Não me ofendeu. Mas tenho algumas convicções a respeito do assunto. Como enfermeira, vejo muita gente tomando drogas em excesso. As companhias farmacêuticas conseguiram
nos convencer de que há uma pílula para cada coisa.
— Concordo até certo ponto. Mas como neurocientista, passei a encarar o comportamento e os humores como bioquímicos e reavaliei minhas opiniões em relação a drogas
psicotró-picas limpas.
— O que quer dizer com drogas limpas?
— Drogas que têm poucos ou nenhum efeito colateral.
— Toda droga tem efeitos colaterais — afirmou Kim.
— Suponho que tenha razão. Mas alguns efeitos colaterais são mínimos e certamente um risco aceitável em relação aos possíveis benefícios.
— Eis aí o xis da questão filosófica.
— Ah, isso me lembra — começou Edward. — Trouxe os dois livros que prometi lhe emprestar. — Esticou o braço até o banco traseiro, agarrou os livros e os depositou
no colo de Kim. Ela os folheou e fingiu chatear-se por não serem ilustrados. Edward riu.
— Procurei sua antepassada no livro sobre os julgamentos de Salem. Mas não há Elizabeth Stewart no índice. Tem certeza de que foi executada? Esses autores se aprofundaram
muito em sua pesquisa.
— Que eu saiba, sim — disse Kim. Olhou o índice de Salem possuída. O único nome começando com st era Stoughton, William. — Não há nenhum Stewart.
Meia hora depois, entravam em Salem. A estrada passava em frente à Casa da Bruxa. Edward demonstrou interesse imediato e parou no acostamento.
— Que lugar é este? — perguntou.
— Chama-se a Casa da Bruxa. É uma das maiores atrações turísticas da região.
— É realmente do século XVII? Ou uma recriação à la Disneylândia?
— É autêntica. Além disso, encontra-se em seu terreno original. Há outra casa do século XVII perto do Instituto Peabody-Essex, mas foi trazida de outro local.
— Bacana — disse Edward. A construção parecia tirada de um conto de fadas. Ficou impressionado com a maneira como o segundo andar projetava-se por cima do primeiro
e com as vidraças em losangos.
— Chamá-la de bacana trai sua idade — riu Kim. — Diga que é o máximo.
— Então tá — concordou Edward. — É o máximo.
— E também incrivelmente parecida com a casa velha da
propriedade da família Stewart. Tecnicamente falando, não é uma casa da bruxa, pois não foi habitada por bruxa alguma. Foi a casa de Jonathan Corwin, um dos juizes
que conduziram as audiências preliminares.
— Lembro de ter lido seu nome em Salem possuída. A história salta das páginas quando se pode ver um lugar destes de perto. — Voltou-se para Kim. — Estamos longe
da propriedade?
— Não. Uns dez minutos no máximo.
— Você tomou café da manhã?
— Só tomei um suco e comi uma fruta.
— Que tal então um café e uma rosquinha? — sugeriu Edward.
— Perfeito.
Como era cedo e a maioria dos turistas ainda estava por chegar, não foi difícil encontrar uma vaga perto do centro de Salem. Bem em frente havia uma lanchonete.
Compraram um café para viagem e andaram pela cidade, dando uma espiada no Museu da Bruxa e em algumas outras atrações locais. Ao descerem Essex Street, exclusiva
para pedestres, notaram quantas lojas e barraquinhas vendiam lembranças relacionadas às bruxas de Salem.
—- O julgamento das bruxas gerou toda uma indústria de fundo de quintal — comentou Edward. —Acho um pouquinho cafona.
— Trivializa o fato. Mas é também testemunho do apelo dessa história toda. Todo mundo fica fascinado.
Entrando no Centro de Visitantes do Parque Nacional, Kim foi surpreendida por uma verdadeira biblioteca de livros e folhetos sobre o julgamento.
— Não tinha idéia da quantidade de material escrito sobre o assunto — disse. Após folhear alguns, comprou vários livros. Explicou a Edward que quando se interessava
por alguma coisa, geralmente exagerava.
De volta ao carro, foram até North Street, passando pela Casa da Bruxa mais uma vez, e dobraram à direita em Orne Road.
Ao passarem pelo cemitério de Greenlawn, Kim mencionou que fora parte da propriedade de sua família.
Kim indicou uma estrada de terra. Enquanto sacolejavam estrada adentro, Edward lutava com o volante. Era impossível desviar dos buracos.
— Tem certeza de que estamos na estrada certa? — perguntou Edward.
— Certeza absoluta — Kim garantiu.
Após algumas curvas chegaram a um impressionante portão de ferro batido. O portão pendia de pilares maciços de granito bruto. Uma alta cerca de ferro com lanças
nas pontas sumia para dentro de uma densa floresta que acompanhava a estrada em ambos os lados.
— Chegamos? — perguntou Edward.
— Chegamos — respondeu Kim, saindo do carro.
— Muito imponente — disse Edward enquanto Kim tentava abrir o cadeado do portão. — E não muito acolhedor.
— Era uma afetação da época—respondeu Kim. — Quem tinha recursos queria projetar uma imagem baronial. — Após tirar o cadeado, escancarou os portões. As dobradiças
rangeram.
Kim voltou para o carro e passaram pelos portões. Após mais algumas curvas, a estrada foi dar num campo. Edward parou mais uma vez.
— Meu Deus! Agora entendo por que usou o termo baronial. Dominando o imenso campo havia uma casa de vários andares com torres e crenas. O telhado era de ardósia
decorada e finalizava com trapeiras. Chaminés erguiam-se de vários pontos da estrutura.
— É uma interessante mistura de estilos — observou Edward. — Tem um pouco de castelo medieval, de mansão Tudor e de château francês. E incrível.
— A família sempre o chamou de castelo — explicou Kim.
— Está se vendo. Quando você o descreveu como um lugar gigantesco, onde ventava muito, não fazia idéia que teria esta aparência. Isto aqui deveria estar em Newport,
junto aos Breaker.
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— Ainda há casarões como este no litoral norte de Boston. É claro que alguns foram demolidos, outros foram transformados em prédios de apartamentos, mas no momento
esse mercado está parado. Dá para entender por que é um elefante branco para mim e para meu irmão, não?
— Onde é a casa velha?
Kim apontou para a direita. Lá longe Edward mal conseguia enxergar uma construção marrom-escura aninhada em meio a um bosque de vidoeiros.
— Que prédio é aquele à esquerda?
— Era um moinho — respondeu Kim. — Mas foi transformado em estábulo há uns duzentos anos.
Edward riu:
— A naturalidade com a qual você fala de tudo isso é impressionante. Para mim, qualquer coisa com mais de cinqüenta anos já é relíquia.
Edward ia acelerando quando deparou com um muro de pedra quase todo coberto por ervas daninhas.
— O que é isto? — perguntou, apontando para o muro.
— O antigo cemitério da família.
— Jura? Podemos dar uma olhada?
— É claro.
Saíram do carro e pularam o muro. A entrada estava bloqueada por uma densa moita de amoras-pretas.
— Parece que muitas das lápides foram quebradas. E é coisa recente — observou, apanhando um pedaço de mármore.
— Vandalismo. Não há muito que possamos fazer, já que o lugar está vazio.
— É pena — comentou Edward. Olhou a data-. 1843. O nome era Nathaniel Stewart.
— A família usou este cemitério até meados do século passado — explicou Kim.
Caminharam vagarosamente através do cemitério tomado pela vegetação. A medida que se distanciavam da entrada, as lápides iam ficando mais simples e mais antigas.
— Ronald Stewart está aqui? — inquiriu Edward.
— Está — disse Kim. Ela o levou até uma lápide simples
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redonda, com um crânio e dois ossos cruzados em baixo-relevo. Nela estava escrito: Aquijaz o corpo de Ronald Stewart, filho de John e Lydia Stewart, morto em primeiro
de outubro de 1734, aos 81 anos.
— Oitenta e um anos — admirou-se Edward. — Forte, o cara. Para chegar a uma idade tão avançada, deve ter sido esperto o bastante para ficar longe de médicos. Naquele
tempo dependiam de sangrias e de uma farmacopéia tão primitiva que os médicos eram tão letais quanto a maioria das doenças.
Ao lado do túmulo de Ronald estava o de Rebecca Stewart. Sua lápide a descrevia como esposa de Ronald.
— Parece que se casou de novo — disse Kim.
— Elizabeth foi enterrada aqui? — perguntou Edward.
— Não sei. Jamais me mostraram seu túmulo.
— Tem certeza de que esta Elizabeth realmente existiu?
— Acho que sim. Mas não posso garantir.
— Vamos ver se conseguimos achá-la? — sugeriu Edward. — Deveria estar por aqui.
Passaram alguns minutos à procura de Elizabeth, Kim por um lado e Edward por outro.
— Edward! — chamou Kim.
— Você a achou? — perguntou Edward.
— Bem, mais ou menos — disse Kim.
Edward foi até ela. Olhava uma lápide redonda como a de Ronald. Pertencia a Jonathan Stewart, filho de Ronald e Elizabeth Stewart.
— Pelo menos sabemos que existiu — disse Kim. Procuraram durante mais meia hora, mas não encontraram o túmulo de Elizabeth. Finalmente desistiram e voltaram para
o carro. Alguns minutos depois estacionaram em frente à casa velha. Ambos saíram do carro.
— Você não estava brincando quando disse que era parecida com a Casa da Bruxa. Tem a mesma enorme chaminé central, o mesmo telhado íngreme com arestas, o mesmo revestimento
de tábuas e as mesmas vidraças em losango. E o mais curioso é que há a mesma protuberância do segundo andar sobre o primeiro. Gostaria de saber por que faziam isto.
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— Não sei se alguém sabe — disse Kim. — O Instituto Peabody-Bssex tem características semelhantes.
— Os ornamentos da marquise são mais elaborados do que os da Casa da Bruxa — observou Edward.
— Quem fez estes aí era cheio de bossa—concordou Kim.
— É uma casa encantadora. Tem muito mais classe do que o castelo.
Caminharam em torno da construção antiga, apontando seus detalhes. Nos fundos, Edward notou uma estrutura menor, independente. Perguntou se era tão antiga quanto
a casa principal.
— Acho que sim. Disseram-me que era nela que guardavam os animais.
— Um miniestábulo — concluiu Edward.
De volta à porta da frente, Kim teve de experimentar várias chaves até encontrar a que procurava. A porta rangeu ao ser aberta, da mesma forma que o portão principal
o fizera.
— Parece até casa mal-assombrada.
— Não diga isso — protestou Kim.
— Não vá me dizer que acredita em fantasmas?
— Digamos que eu os respeito — riu Kim. — Portanto, você entra primeiro.
Edward passou a soleira, entrando num pequeno hall. A sua frente havia uma escada que sumia para dentro do segundo andar. Em ambos os lados havia portas. A da direita
levava até a cozinha e a da esquerda até uma sala.
— Aonde vamos primeiro?
— Você é a visita — disse Kim.
— Então vamos dar uma olhada na sala.
O cômodo era dominado por uma imensa lareira de quase dois metros de largura. Havia alguns móveis coloniais espalhados, assim como material de jardinagem e outros
equipamentos. A peça mais interessante era uma cama com um dossel. Ainda possuía restos de seus bordados originais.
Edward caminhou até a lareira e olhou chaminé acima.
— Ainda funciona — disse. Olhou então a parede por cima
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da lareira. Deu um passo para trás e olhou de novo. — Você consegue ver um retângulo aqui em cima, bem fraquinho? Kim foi até onde estava, no centro da sala, e olhou
a parede.
— Consigo. Parece que havia um retrato pendurado aí.
— Foi o que pensei—disse Edward. Umedecendo os dedos levemente, tentou apagar o contorno. Não conseguiu.
— Deve ter ficado aí muitos anos para a fumaça ter feito uma marca destas.
Saindo da sala, subiram as escadas. Acima do hall de entrada, havia um pequeno escritório. Acima da sala e da cozinha, havia quartos de dormir, cada qual com sua
própria lareira. Os únicos móveis eram camas e uma roda de fiar.
Voltando à cozinha, no primeiro andar, Kim e Edward foram surpreendidos pelo tamanho da lareira. Edward calculou que tivesse mais de três metros. A esquerda havia
uma vara para pendurar o caldeirão e à direita um forno. Havia até algumas panelas velhas, frigideiras e caldeirões.
— Já imaginou cozinhar aqui? — perguntou Edward.
— Nunca. Se numa cozinha moderna já tenho problemas...
— As mulheres da época colonial sabiam mesmo mexer com fogo — disse Edward. Olhou o forno. — Fico me perguntando como calculavam a temperatura. Que eu saiba, é um
dado importante na preparação do pão.
Passaram por uma porta e entraram no anexo da casa. Edward ficou surpreso em encontrar uma segunda cozinha.
— Acho que usavam esta aqui durante o verão — arriscou Kim. — Imagine aquela outra lareira acesa em pleno verão.
— É verdade.
Voltando à parte principal da casa, Edward parou no meio da cozinha e mordeu o lábio inferior. Kim olhou para ele. Podia ver que pensava em algo.
— No que está pensando? — perguntou.
— Já pensou em morar aqui?
— Não, não diria que já me passou pela cabeça. Seria meio como acampar.
— Não quero dizer morar aqui do jeito que está. Mas não daria muito trabalho mudá-la.
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— Quer dizer reformá-la? Seria uma pena destruir seu valor histórico.
— Sem dúvida — concordou Edward. — Mas não seria necessário destruí-lo. Poderia instalar uma cozinha moderna e um banheiro no anexo que, em si, já foi criado depois.
Não teria que mexer na parte principal.
— Acha mesmo? — indagou Kim. Olhou em volta. Não havia dúvidas de que era uma casa charmosa e que decorá-la seria divertido e desafiador.
— Além do mais — argumentou Edward. — Vai ter que entregar o apartamento. É uma pena deixar um lugar como este vazio. Mais cedo ou mais tarde os vândalos vão invadi-la
e fazer um estrago dos grandes.
Kim e Edward deram outra volta pela casa, agora pensando em torná-la habitável. Edward ficava cada vez mais animado e Kim começava a considerar a idéia.
— Que grande oportunidade de se conectar com suas origens. Eu nem pensaria duas vezes.
— Vou pensar no assunto — disse Kim finalmente. — É uma idéia interessante mas terei que consultar meu irmão. Afinal de contas, somos sócios.
— Tem uma coisa sobre este lugar que me confunde — começou Edward ao olhar a cozinha pela terceira vez. — Fico me perguntando onde guardavam a comida.
— Imagino que na despensa — disse Kim.
— Achei que não houvesse despensa. Quando demos a primeira volta pela casa, procurei uma possível entrada, mas não há. Também não há escadas para baixo.
Kim andou em torno de uma mesa sobre cavaletes e puxou uma esteira de sisal.
— O acesso é por este alçapão—disse. Agachou-se e enfiou o dedo num buraco no chão. Abriu o alçapão e encostou-o no chão. A escada sumia na escuridão.—Lembro disto
aqui muito bem. Uma vez, quando éramos pequenos, meu irmão ameaçou me trancar na despensa. Ele estava encantado com o alçapão.
— Legal, esse seu irmão. Não é à toa que você tinha medo
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de ficar presa em lugares fechados. Qualquer um ficaria apavorado.
Edward se agachou e tentou examinar o porão, mas só conseguiu enxergar uma pequena área.
— Ele não tinha a mínima intenção de fazê-lo—disse Kim. — Só estava brincando. Não devíamos estar aqui e ele sabia que eu estava com medo. Sabe como crianças adoram
assustar umas às outras.
— Tenho uma lanterna no carro. Vou lá fora pegá-la. Voltando com a lanterna, Edward desceu a escada. Já no chão, virou-se para Kim e perguntou se ela não ia descer.
— Eu tenho que descer? — perguntou, meio de brincadeira. Desceu a escada e ficou ao lado de Edward.
— Frio, úmido e mofado — disse Edward.
— Bem dito — concordou Kim. — Então, o que estamos fazendo aqui?
O porão era pequeno. Consistia apenas na área abaixo da cozinha. As paredes eram de pedra bruta com um pouco de massa. O chão era de terra. Na parede, ao fundo,
havia várias caixas de pedra e de madeira. Edward foi até lá e as iluminou com a lanterna. Kim permaneceu ao seu lado.
— Estava certa. Era aqui que guardavam a comida.
— Que tipo de comida você imagina? — perguntou Kim.
— Coisas como maçãs, milho, trigo e centeio. Talvez até laticínios. As tiras de bacon ficavam penduradas, mas provavelmente no anexo.
— Interessante — disse Kim, sem entusiasmo. — Já viu o bastante?
Edward se inclinou na direção de uma das caixas e arranhou a superfície da terra batida.
— A terra é úmida. Certamente não sou botânico, mas seria capaz de apostar que é ideal para o cultivo de Claviceps purpurea.
Intrigada, Kim perguntou se isso poderia ser provado. Edward deu de ombros.
— Talvez. Suponho que dependeria de encontrarmos esporos
de Claviceps. Se pudéssemos levar algumas amostras, poderia pedir a um botânico amigo meu para dar uma olhada.
— Imagino que encontraremos alguns recipientes no castelo — sugeriu Kim.
— Então vamos nessa.
Ao deixarem a casa velha, tomaram a direção do castelo. Como era um belo dia, foram a pé. A grama chegava à altura do joelho. Grilos e outros insetos inofensivos
saltitavam ao seu redor.
— De vez em quando vejo água por entre as árvores — comentou Edward.
— É o rio Danvers. Antigamente este campo ia até a beira da água.
Quanto mais perto chegavam do castelo, mais impressionado Edward ficava.
— É muito maior do que imaginava. Nossa, tem até um fosso de mentira.
— Dizem que foi inspirado em Chambord, na França. Tem o feitio da letra U, com aposentos para hóspedes em uma ala e para criados em outra.
Atravessaram uma ponte por cima do fosso seco. Enquanto Edward admirava os detalhes góticos da porta, Kim lutava com as chaves, como fizera na casa velha. Havia
pelo menos uma dúzia de chaves no chaveiro. Finalmente uma delas abriu a porta.
Passaram por um hall de entrada revestido em carvalho e depois por um arco que levava ao salão. Era um cômodo de proporções monumentais com pé-direito duplo e uma
lareira gótica em cada extremidade. Entre as imensas janelas havia uma majestosa escadaria. Um vitral no topo da escada banhava o salão com uma estranha luz amarelada.
Edward não sabia se gemia ou se ria.
— Que incrível. Não tinha idéia de que ainda estava mobi-liado.
— Nada foi tocado — disse Kim.
— Quando foi que seu avô morreu? Esta decoração sugere
que alguém partiu em férias muito longas nos anos vinte e não voltou.
— Morreu na primavera passada. Mas era um homem excêntrico, especialmente após a morte da esposa, há quase quarenta anos. Duvido que tenha mexido na decoração original
da época de seus pais. Foi seu pai quem a construiu.
Edward entrou no salão deixando os olhos vagarem pela profusão de móveis, quadros de moldura dourada e objetos de decoração. Havia até uma armadura medieval. Apontou
para ela e perguntou se era autêntica.
Kim deu de ombros.
— Não tenho a mínima idéia.
Edward andou até uma janela e pegou a cortina entre os dedos.
— Nunca vi tantas cortinas na minha vida — disse. — Deve haver mais de um quilômetro.
— São muito antigas. São de adamascado de seda.
— Eu poderia ver mais um pouco da casa? — perguntou Edward.
— A vontade — respondeu Kim com um aceno. Saindo do salão, Edward entrou numa biblioteca de paredes escuras. Havia um mezanino ao qual se chegava por uma escada
em caracol feita em ferro batido. Chegava-se às prateleiras mais altas por uma escada de correr. Todos os livros eram encadernados em couro.
— Esta é a minha biblioteca ideal — disse Edward. — Eu poderia ler muito aqui.
Da biblioteca Edward entrou numa sala de jantar extremamente formal. Como o salão, tinha o pé-direito duplo e lareiras idênticas, uma em cada extremidade. Mas, ao
contrário do salão, continha uma profusão de flâmulas heráldicas pendendo de mastros que se projetavam das paredes.
— Este lugar deve ter tanto valor histórico como a casa velha — observou Edward. — Parece um museu.
— O verdadeiro valor histórico se encontra na adega e no sótão. Ambos estão cheios de papéis.
— Recortes de jornais?
— Alguns. Mas a maioria é correspondência e documentos.
— Vamos dar uma olhada.
Subiram a escada principal até o que seria o terceiro andar, já que a maioria dos cômodos do primeiro andar tinha o pé-direito duplo. De lá, subiram mais dois andares
por outra escadaria antes de chegarem ao sótão. Não era aberto há muitos anos.
Excluindo a área das torres, o imenso sótão ocupava toda a extensão do grande U da planta do castelo. As torres tinham um andar a mais do que o resto da construção
e cada uma tinha seu próprio sótão em forma de cone. O sótão principal tinha um teto de catedral, condizente com a linha do telhado. A luz que entrava pelas trapeiras
era adequada.
Kim e Edward caminharam por um corredor central. Em ambos os lados havia arquivos, escrivaninhas, baús e caixas. Kim parou e mostrou a Edward a abundância de cadernos
de anotação e de recortes, pastas, documentos, correspondência, fotografias, livros, jornais e revistas antigos. Era um verdadeiro tesouro de material documental.
— Deve haver aqui o bastante para encher vários vagões de trem — afirmou Edward. — Remontam a qual época?
— Aos tempos de Ronald Stewart. Foi ele quem fundou a companhia. Muito disto aqui é material relacionado aos negócios, mas nem tudo. Há alguma correspondência pessoal
também. Meu irmão e eu viemos aqui algumas vezes quando éramos crianças para tentar ver quem encontrava a data mais antiga. O problema é que éramos proibidos de
vir e quando meu avô nos pegou, ficou uma fera.
— Tem tanta coisa na adega quanto tem aqui!
— Tanto ou mais. Venha, eu lhe mostro. Vale a pena ver a adega. A decoração combina com o resto da casa.
Fizeram o caminho de volta e retornaram à sala de jantar. Abrindo uma imensa porta de carvalho, com enormes dobra-diças de ferro batido, desceram uma escadaria de
granito até chegarem à adega. Edward imediatamente percebeu o que Kim quisera dizer sobre a decoração. íbra projetada nos moldes de uma masmorra medieval. As paredes
eram de
pedra, os candeeiros lembravam tochas e as prateleiras para o vinho haviam sido construídas nas paredes dos vários cômodos que lembravam celas. Tinham portões de
ferro e barras separando-as do corredor.
— Alguém tinha senso de humor—disse Edward enquanto percorriam o comprido corredor central. —A única coisa que falta aqui são os intrumentos de tortura.
— Eu e meu irmão não achávamos este lugar nem um pouco engraçado. Meu avô não precisava nos mandar ficar longe. Não queríamos coisa alguma com isto aqui. Tínhamos
verdadeiro pavor.
— E todos estes baús e outros troços, estão cheios de papel? Igual ao sótão?
— Igualzinho.
Edward parou e empurrou a porta de uma das celas. Entrou. Quase todas as prateleiras para vinho estavam vazias. Havia escrivaninhas e baús encostados nelas. Pegou
uma das poucas garrafas.
— Meu Deus. A safra é de 1896! Deve ser valiosíssima. Kim deu um pequeno sorriso de desdém.
— Duvido muito. A rolha deve ter se dissolvido. Ninguém cuida destas garrafas há cinqüenta anos.
Edward pôs a garrafa de volta e abriu a gaveta de uma escrivaninha. Pegou a primeira folha de papel que viu. Era um documento alfandegário do século XE. Tentou outro,
uma nota de conhecimento do século XVTII.
— Tenho a impressão de que não há muita ordem aqui — observou.
— Infelizmente tem razão. Na verdade não há ordem alguma. Cada vez que uma casa era construída, o que acontecia com certa freqüência até a criação desta monstruosidade,
toda esta papelada ficava indo e vindo. Com o passar dos séculos foi ficando cada vez mais confusa.
Para ilustrar o que dizia, Kim abriu a gaveta de um arquivo e puxou um documento de dentro. Era outra nota de conhecimento. Entregou-a a Edward e mandou que olhasse
a data.
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— É incrível. Mil seiscentos e oitenta e nove. Três anos antes da besteirada sobre bruxaria.
— É prova do que acabei de dizer. Acabamos de olhar três documentos e percorrer diversos séculos.
— Acho que esta assinatura é do Ronald — disse Edward. Mostrou-a a Kim, que concordou.
— Acabo de ter uma idéia. Você conseguiu me interessar por este fenômeno da bruxaria e particularmente por minha antepassada, Blizabeth. Talvez eu possa descobrir
algo sobre ela com a ajuda desta papelada.
— Como por exemplo o motivo de ela não ter sido enterrada com o resto da família no cemitério? — perguntou Edward.
— Isto e outras coisas mais. Estou ficando cada vez mais curiosa com tanto segredo durante tantos anos. Quero saber se ela foi realmente executada. Como você mesmo
falou, ela não foi mencionada no livro que me deu. É meio misterioso.
Edward olhou em torno da cela na qual se encontravam.
— Não seria fácil, se levar em conta a quantidade de material. E, no final das contas, pode ser em vão, já que a maioria está relacionada com negócios.
— É um desafio—disse Kim, já animada com a idéia. Deu mais uma olhada na gaveta da qual tirara a nota de conhecimento do século XVII para ver se encontrava alguma
coisa da mesma época. — Acho até que vou gostar, vai ser um exercício de autoconhecimento, ou, como você disse a respeito da casa velha, uma oportunidade de me conectar
com minhas origens.
Enquanto Kim vasculhava o arquivo, Edward saiu da cela e se embrenhou pela enorme adega. Ainda carregava a lanterna e ligou-a ao chegar ao fundo da adega. Espiando
para dentro da última cela, Edward empunhou a lanterna. O feixe de luz iluminou os diversos baús, escrivaninhas e caixas, até que pousou sobre um quadro virado de
costas, encostado na parede.
Lembrando dos muitos quadros que vira lá em cima, Edward quis saber por que este haveria de merecer tratamento diferente. Com alguma dificuldade conseguiu chegar
até ele. Afastou-o da parede e iluminou sua superfície empoeirada. Parecia ser o retrato de uma jovem mulher.
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Levantando o quadro de sua ignóbil localização, Edward o carregou por cima da cabeça para fora da cela. Ao chegar ao corredor, encostou-o contra a parede. Era sem
dúvida uma jovem mulher. O deeote nele retratado revelava sua idade. Fora pintado num estilo formal e primitivo.
Com a ponta do dedo limpou a poeira de uma pequena placa de peltre na base do quadro e a iluminou com a lanterna. Então agarrou o retrato e o levou até a cela ocupada
por Kim.
— Dê uma olhada nisto — disse Edward. Equilibrou o quadro sobre uma escrivaninha e iluminou a placa com a lanterna.
Kim virou-se e olhou o quadro. Sentindo a excitação de Edward, seguiu o feixe de luz e leu o nome.
— Santo Deus! É Elizabeth!
Felizes com a emoção da descoberta, Kim e Edward carregaram o quadro escada acima até o salão principal, onde havia luz adequada. Encostaram-no contra a parede e
recuaram um passo para admirá-lo.
— O mais impressionante é a semelhança dela com você, especialmente estes olhos verdes.
— Talvez a cor dos olhos seja a mesma. Mas Elizabeth era bem mais bonita e certamente mais bem-dotada do que eu.
— Não sei, talvez o amor seja cego, como dizem. Mas pessoalmente acho que é o contrário.
Kim estava enfeitiçada pelo rosto de sua antepassada.
— Há algumas semelhanças. Nosso cabelo é parecido e até mesmo o formato do rosto.
— Poderiam ter sido irmãs. É certamente um belo quadro. Por que diabos haveria de estar socado lá no fundo da adega? É bem mais agradável de se olhar do que grande
parte dos quadros pendurados nesta casa.
— É estranho. Meu avô devia saber de sua existência, então não deve ter sido por acaso. Excêntrico como era, não deve ter sido em consideração aos sentimentos dos
outros, especialmente aos de minha mãe. Nunca se deram bem.
— Seu tamanho me parece próximo ao daquela sombra por
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cima da lareira da casa velha. Que tal o levarmos até lá só para ver? — sugeriu Edward.
Edward o ergueu, mas antes que desse o primeiro passo, Kim o lembrou dos recipientes que tinham vindo pegar. Edward lhe agradeceu e pôs o quadro de volta no chão.
Juntos, foram até a cozinha. Na despensa, Kim encontrou três potes plásticos com tampas.
Pegando o quadro no salão, tomaram o caminho da casa velha. Kim insistiu em carregar a obra de arte. Como sua moldura preta era estreita, não era pesado.
— Encontrar este quadro me deu uma sensação estranha e ao mesmo tempo boa — disse Kim enquanto andavam. — É como encontrar um parente que não via há muito tempo.
— Devo admitir que é uma incrível coincidência. Especialmente porque estávamos ali justamente por causa dela.
De repente, Kim parou. Segurava o quadro à sua frente, encarando o rosto de Elizabeth.
— O que houve? — perguntou Edward.
— Enquanto pensava que nós duas somos parecidas, lembrei do que supostamente aconteceu com ela. Hoje em dia é inconcebível imaginar que alguém pudesse ser acusada
de bruxaria, ser julgada e depois executada.
Kim imaginou-se diante de uma forca que balançava de um galho. Estava prestes a morrer. Sentiu um tremor. Então, deu um salto ao sentir a corda tocá-la.
— Você está bem? — perguntou Edward, pondo uma das mãos em seu ombro.
Kim balançou a cabeça e respirou fundo.
— Acabo de pensar numa coisa horrível. Estava imaginando como deve ter sido horrível ser condenada e enforcada.
— Você leva os potes. Deixe que eu levo o quadro. Trocaram as cargas e recomeçaram a caminhada.
— Deve ser o calor — disse Edward, tentando aliviar o ambiente. — Ou talvez esteja ficando com fome. Sua imaginação está a toda!
— Encontrar este quadro mexeu comigo. É como se Elizabeth
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estivesse tentando falar comigo através dos séculos, talvez para recuperar sua reputação.
Edward olhou para Kim enquanto andavam pela grama alta.
— Você está brincando? — perguntou.
— Não. Você disse que era uma coincidência incrível termos encontrado o quadro. Acho que foi mais do que coincidência. Quer dizer, se você parar para pensar é realmente
incrível. Não pode ser coincidência pura. Tem que significar alguma coisa.
— Isto é um ataque súbito de superstição ou você é sempre assim?
— Não sei. Estou apenas tentando entender.
— Acredita em percepção extra-sensorial?
— Nunca pensei muito nessas coisas — admitiu Kim. — E você?
Edward riu.
— Está parecendo psiquiatra, devolvendo as minhas perguntas. Bem, não acredito no sobrenatural. Sou um cientista. Acredito no que pode ser provado racionalmente
e reproduzido em laboratório. Não sou uma pessoa religiosa. Também não sou supersticioso e você vai achar que estou sendo cínico em dizer que as duas coisas são
relacionadas.
— Também não sou terrivelmente religiosa. Mas tenho algumas crenças vagas em relação ao sobrenatural.
Chegaram à casa velha. Kim segurou a porta para Edward. Ele carregou o quadro até a sala. Quando o ergueu contra a sombra na lareira, viram que cabia perfeitamente.
— Pelo menos estávamos certos quanto ao antigo local do quadro — disse Edward, repousando o quadro na cornija da lareira.
— Tomarei providências para que seja pendurado aí mais uma vez. Elizabeth merece ser devolvida para sua própria casa.
— Isto quer dizer que resolveu ajeitar este lugar?
— Talvez. Mas antes terei de conversar com minha família, principalmente com meu irmão.
— Particularmente, acho uma grande idéia — disse Edward.
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Pegou um dos recipientes plásticos e avisou que iria até o porão pegar algumas amostras de terra. Ao chegar à porta, parou.
— Se encontrar Claviceps purpurea lá embaixo — disse com um sorriso amargo —, vou roubar um pouco do clima sobrenatural que paira sobre Salem.
Kim não respondeu. Estava hipnotizada pelo retrato de Elizabeth e perdida em pensamentos. Edward deu de ombros. Então entrou na cozinha e desceu até a escuridão
fria e úmida do porão.
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Capítulo 3. SEGUNDA-FEIRA, 18 DE JULHO DE 1994.
Como sempre, o laboratório de Edward Armstrong, no Complexo Médico de Harvard em Longfellow Avenue, era cenário de atividade frenética. A aparência era de tumulto,
com pessoas de jaleco branco correndo de um lado para o outro em meio a um batalhão futurista de equipamentos de alta tecnologia. Mas o senso de desordem existia
apenas para olhos leigos. Para os entendidos, era sinal de que a ciência caminhava em progresso contínuo.
- Embora não fosse o único cientista a trabalhar no conjunto de salas carinhosamente conhecido como o Feudo de Armstrong, em última instância, tudo dependia de Edward.
Devido à sua fama de gênio, seu status de celebridade como químico de síntese e sua proeminência como neurocientista, o número de candidatos a uma vaga em sua equipe
de doutorandos e de pós-doutorandos era superior ao número de vagas que Edward conseguia acomodar em seu espaço, seu tempo e seu orçamento. Conseqüentemente, Edward
sempre trabalhava com os melhores e mais brilhantes.
Os outros professores diziam que Edward era masoquista. Ele não só tinha o maior quadro de alunos de pós-graduação da faculdade, como, ainda por cima, insistia em
ensinar num curso
básico de química, mesmo o curso de verão. Era o único professor catedrático que se sujeitava a isso. Sua explicação era de que sentia a obrigação de estimular as
mentes mais jovens, de preferência no primeiro horário do dia.
Ao voltar de uma de suas famosas palestras para os alunos de graduação, Edward entrou em seus domínios por uma das portas laterais. Como um pires de mel em meio
a um enxame, foi imediatamente cercado por seus alunos. Todos trabalhavam com aspectos diversos da meta central de Edward: a elucidação dos mecanismos da memória.
Traziam perguntas ou problemas que Edward respondia, rápido como uma metralhadora, mandando todos de volta às suas bancadas para continuar suas pesquisas.
Após responder à última pergunta, Edward foi até sua mesa. Não tinha um escritório só para si. Achava a idéia uma frivolidade, um desperdício de espaço que poderia
ser aproveitado de outra forma. Se contentava com um canto, com uma mesa, algumas cadeiras, um computador e um arquivo. Estava acompanhado de sua assistente mais
próxima, Elea-nor Youngman, uma pós-doutoranda que já estava com ele há quatro anos.
— Tem visita — disse Eleanor ao chegarem à mesa. — Está aguardando você na secretaria do departamento.
Edward largou o material da aula em cima da mesa e trocou o paletó de tweed por um jaleco branco.
— Não tenho tempo para visitas — afirmou.
— Acho que esta você terá de ver.
Edward olhou sua assistente. Exibia um sorriso de quem está prestes a cair na gargalhada. Eleanor era uma loura simpática e inteligente, natural de Oxnard, na Califórnia.
Embora tivesse toda a pinta de rata de praia, doutorara-se em bioquímica na Universidade de Berkeley com a tenra idade de 23 anos. Edward a considerava indispensável,
não só por sua inteligência, mas também por sua dedicação. Ela o venerava, convencida de que seria ele o próximo a dar o salto quântico na compreensão dos neurotransmissores
e seu papel na emoção e na memória.
— Diga logo quem é essa visita — exigiu Edward.
— Stanton Lewis. Ele me faz rir cada vez que vem aqui. Desta vez disse que quer investir numa revista de química chamada Bonding, com um pôster da Molécula do Mês.
Eu nunca sei quando está falando sério.
— Não está. Está flertando com você.
Edward deu uma olhada rápida na correspondência. Nada de muito emocionante.
— Algum problema no laboratório?—perguntou a Eleanor.
— Temo que sim — respondeu ela. — O novo sistema de eletroforese capilar que temos usado para a cromatografia capilar eletrocinética micelar voltou a dar chiliques.
Devo chamar um técnico da Bio-rad?
— Deixe-me dar uma olhada primeiro. Mande o Stanton entrar. Cuidarei dos dois problemas ao mesmo tempo.
Edward prendeu o dosímetro de radiação na lapela do jaleco e dirigiu-se à unidade de cromatografia. Começou a mexer no computador de controle do equipamento e viu
que algo definitivamente não estava certo. A máquina voltava sempre ao menu de abertura.
Absorvido pelo que estava fazendo, não ouviu Stanton se aproximar. Ignorou sua presença até que este bateu em suas costas.
— Aí, amigão! Tenho uma surpresa para você. Considere seu dia ganho — disse, entregando uma brochura plastificada a Edward.
— O que é isto? — perguntou Edward, pegando o folheto.
— Aquilo que você tanto esperava.- o prospecto da Genetrix. Edward deu uma risada e balançou a cabeça.
— Você é demais — disse. Pôs o prospecto de lado e voltou as atenções para a unidade de cromatografia do computador.
— Como foi sua noite com a enfermeira Kim? — indagou Stanton.
— Gostei muito de sua prima. É uma mulher fantástica.
— Já dormiram juntos? Edward virou-se rapidamente.
— Esta pergunta não é nem um pouco apropriada.
— Meu Deus — disse Stanton abrindo um enorme sorriso. — Como estamos sensíveis. Traduzindo, vocês se deram muito bem, de outra forma você não reagiria assim.
— Acho que está tirando conclusões precipitadas—gaguejou Edward.
— Ah, sai dessa. Conheço você bem demais. Era igualzinho na faculdade de medicina. Quando o assunto é laboratório ou ciência, você é o próprio Napoleão. Quando o
assunto é mulher, vira maria-mole. Não dá para entender. Mas, de qualquer forma, diga a verdade. Vocês se deram muito bem, não foi?
— Gostamos da companhia um do outro — admitiu Edward. —- Aliás, jantamos juntos na sexta-feira.
— Ótimo. Isto para mim é tão bom quanto terem dormido juntos.
— Deixe de ser grosseiro.
— Realmente — concordou Stanton alegremente. — A idéia era conseguir lhe colocar na posição de devedor e acho que consegui. O preço, meu caro amigo, é que você terá
que ler este prospecto. — Stanton pegou o folheto de onde Edward o atirara e o devolveu.
Edward deixou escapar um gemido. Compreendeu que havia se entregado.
— Está certo, vou ler esta porcaria.
— Muito bem. Precisa saber algo sobre a companhia, porque posso lhe oferecer setenta e cinco mil dólares por ano, mais ações, para integrar o conselho científico.
— Não tenho tempo de ir a raio de reunião alguma — protestou Edward.
— Quem está pedindo para ir a alguma reunião? Só quero seu nome.
— Mas por quê? — perguntou Edward. — Biologia molecular e biotecnia não são o meu forte.
— Pelo amor de Deus! Como é que você consegue ser tão ingênuo? Você é uma celebridade científica. Não me interessa se não sabe porcaria nenhuma sobre biologia molecular.
É o seu nome que conta.
— Eu não diria que não sei porcaria nenhuma de biologia molecular — corrigiu Edward, irritado.
— Não vá ficar todo sensível para cima de mim — disse Stanton. Então apontou para a máquina que Edward tentava consertar. — Que diabos é isso aí?
— É uma unidade de eletroforese capilar. -
— E o que faz?
— É uma tecnologia de separação relativamente nova. É usada para separar e identificar compostos.
Stanton passou os dedos no plástico moldado da unidade central.
— O que a faz nova?
— Não é inteiramente nova. O princípio básico é o mesmo da eletroforese convencional, mas o diâmetro estreito dos capilares elimina a necessidade de um agente de
anticonvecção porque a dissipação de calor é extremamente eficiente.
Stanton ergueu uma mão como se para se defender.
— Chega — disse. — Eu desisto. É demais para minha cabeça. Só me diga uma coisa.- funciona?
— Maravilhosamente bem — respondeu Edward voltando as atenções para a máquina. — Pelo menos normalmente. No momento há algo errado.
— Está ligada na parede? — perguntou Stanton. Edward o olhou com irritação.
— Só estou tentando ajudar.
Edward ergueu a tampa da máquina e olhou os carrosséis. Imediatamente notou que um dos frascos de amostras estava bloqueando o movimento de um carrossel.
— Como é agradável a emoção de um diagnóstico correto para um problema terapêutico — disse.
Ajustou o frasco e o carrossel imediatamente avançou. Edward fechou a tampa.
— Então posso contar com a leitura do prospecto? E que pensará na proposta com carinho?
— A idéia de ganhar dinheiro para não fazer nada me incomoda.
— Por quê? Se os grandes atletas podem assinar contratos
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com fábricas de tênis por que é que os cientistas não podem fazer o equivalente?
— Vou pensar.
— É só o que lhe peço — disse Stanton. — Telefone depois que ler o prospecto. Estou falando sério. Posso lhe ajudar a ganhar muito dinheiro.
— Veio de carro? — perguntou Edward.
— Não, vim andando de Concord até aqui. É claro que vim de carro! Que tentativa mais vã de mudar de assunto!
— Que tal então me dar uma carona até o campus principal?
Cinco minutos depois, Edward se acomodava na Mercedes 500 SEL de Stanton. Stanton ligou o motor e fez a volta ali mesmo. Estacionara na Huntington Avenue, perto
da Biblioteca Médica de Countway. Percorreram Fonway e depois Storrow Drive.
— Quero lhe perguntar uma coisa — disse Edward após um relativo silêncio. — Outro dia você mencionou a antepassada de Kim, Elizabeth Stewart. Sabe dizer com certeza
se ela foi enforcada como bruxa ou se esta história é uma fofoca de família que já rola há tanto tempo que todo mundo passou a acreditar?
— Não posso jurar — disse Stanton. — Simplesmente aceitei o que ouvi como fato verídico.
— Não consigo encontrar o nome dela nos estudos oficiais sobre o assunto. E olha que não li poucos.
— Soube dessa história pela minha tia. Segundo ela, os Stewart a mantêm em segredo há séculos. Então não é uma história que criaram para incrementar sua reputação.
— Certo, então digamos que realmente aconteceu. Por que diabos haveria de ser tão importante até hoje? Faz muito tempo. Quero dizer, posso entender se tivesse acontecido
há uma geração ou duas, mas trezentos anos!
Stanton deu de ombros.
— Sei lá, mas eu provavelmente não deveria tê-la mencionado. Minha tia vai querer minha cabeça se souber que ando por aí tagarelando a respeito.
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— No começo até a Kim ficava relutante em tocar no assunto.
— Deve ser por causa de sua mãe, minha tia. Sempre foi doente com esse negócio de reputação e com outras baboseiras sociais. É uma senhora muito distinta.
— Kim me mostrou a propriedade da família. Até entramos na casa que supostamente foi de Elizabeth.
Stanton olhou para Edward e balançou a cabeça, admirado.
— Uau! Você trabalha rápido mesmo, hein, malandrão!
— Tudo muito inocente. Não deixe sua imaginação de sarjeta ir muito longe. Achei fascinante e acendeu a curiosidade de Kim a respeito de Elizabeth.
— Não estou bem certo se a mãe dela vai ficar satisfeita.
— Talvez eu consiga ajudar quanto à reação da família — disse Edward. Abriu o saco que carregava no colo e tirou um dos potes plásticos que ele e Kim haviam trazido
de Salem. Explicou a Stanton o que continham.
— Você deve estar mesmo apaixonado. Se não, não dedicaria tanto tempo e tanta atenção.
— Minha idéia é que se eu conseguir provar que o ergotismo foi o grande responsável por aquela confusão toda ocorrida em Salem, o estigma que perdura sobre as pessoas
envolvidas, em particular os Stewart, desaparecerá.
— Continuo achando que você está apaixonado. Esta justificativa é teórica demais para uma investida destas. Você não faz coisa alguma para mim, nem por dinheiro.
Edward soltou um suspiro.
— Tem razão. Devo admitir que, como neurocientista, estou intrigado com a possibilidade de uma substância alucinógena ter provocado o caso de Salem.
— Agora estou entendendo. A história das bruxas de Salem tem um apelo universal. Não é preciso ser neurocientista.
— O empresário filosofa — observou Edward com uma risada. — Há cinco minutos eu teria achado a frase contraditória. Explique o tal apelo universal.
— A história tem uma sedução meio mórbida. As pessoas gostam desse tipo de coisa. É como as pirâmides do Egito. Elas
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são mais do que um mero monte de tijolos. São uma janela para o sobrenatural.
— Não sei se concordo—afirmou Edward enquanto guardava sua amostra de terra. — Como cientista quero apenas uma explicação científica.
— Mentira — Stanton o contradisse.
Stanton deixou Edward perto de Divinity Avenue, em Cambridge. Antes que Edward batesse a porta, lembrou-lhe sobre o prospecto da Genetrix.
Edward contornou a Divinity Avenue e entrou no prédio de biologia de Harvard. Perguntou na secretaria do departamento como chegar ao laboratório de Kevin Scranton.
Encontrou o amigo magro e barbudo no escritório, absorto em seu trabalho. Kevin e Edward haviam freqüentado a faculdade metodista juntos, mas não se viam desde que
Edward retornara a Harvard para lecionar.
Passaram os primeiros dez minutos rememorando os velhos tempos antes que Edward lhe dissesse o motivo de sua visita. Pôs os três recipientes num canto da mesa de
Kevin.
— Quero ver se você encontra Glaviceps purpurea — disse Edward.
Kevin levantou um dos recipientes e abriu a tampa.
— Pode me dizer por quê? — perguntou, cutucando a terra com o dedo.
— Você jamais adivinharia—disse Edward. Então contou a Kevin como conseguira as amostras e todo o histórico dos julgamentos de Salem. Não mencionou a família Stewart,
pensando que devia isto a Kim.
— Muito interessante — disse Kevin quando Edward terminou seu relato. Kevin pôs-se de pé e foi preparar uma lâmina com uma pequena amostra da terra.
— Achei que podia dar um artigo interessante para a revista Science ou para a Nature — disse Edward. — Isto se encontrarmos esporos de Glaviceps.
Kevin deslizou a lâmina embaixo da lente de seu microscópio e pôs-se a vasculhar a amostra.
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— Bem, há vários esporos aqui, mas isso não é de causar estranheza.
— Qual é a melhor maneira de descobrirmos se são Clavi-ceps ou não?
— Há várias formas — respondeu Kevin. — Com que rapidez quer a resposta?
— O mais rápido possível.
— DNA demoraria um pouco. Há provavelmente de três a cinco mil tipos de fungos em cada amostra. Além disso, o método mais conclusivo seria conseguirmos cultivar
alguns Claviceps, o que não é tão fácil assim. Mas vou tentar.
Edward pôs-se de pé.
— Agradeço tudo o que puder fazer.
Parando um pouco para respirar, Kim ergueu a mão calçada com luvas para afastar o cabelo da testa com o antebraço. Fora um dia típico na UTI cirúrgica: compensador,
porém intenso. Estava exausta e feliz por terminar o turno dali a vinte minutos. Infelizmente seu minuto de descanso foi interrompido. Kinnard Monihan entrou na
unidade com um paciente.
Kim, assim como as outras enfermeiras livres, ajudaram a acomodar o paciente recém-admitido. Kinnard as auxiliava, assim como um anestesista que chegara com ele.
Enquanto trabalhavam, Kim e Kinnard evitaram se olhar. Kim estava extremamente consciente de sua presença, em especial quando seus esforços em prol do paciente os
puseram lado a lado. Kinnard era um homem alto e magro com feições angulares. Tinha 28 anos. Era ágil, e movimentava-se mais com a rapidez de um lutador de boxe
em treinamento do que como um médico já na metade de sua residência em cirurgia.
Uma vez acomodado o paciente, Kim dirigiu-se ao posto central. Sentiu a mão de alguém tocar-lhe o braço e deparou com os olhos escuros de Kinnard.
— Você ainda está zangada? — perguntou Kinnard. Mencionava assuntos delicados em plena UTI sem a menor cerimônia.
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Invadida por uma onda de ansiedade, Kim desviou o olhar. Sua cabeça era um turbilhão de emoções conflitantes.
— Não vai nem ao menos falar comigo? — provocou Kinnard. — Não acha que está indo longe demais com toda essa mágoa?
— Eu avisei — começou Kim quando recuperou a fala. — Disse que as coisas seriam diferentes se insistisse em ir pescar quando havíamos planejado ir a Martha's Ymeyard.
— Não tínhamos feito planos definitivos para ir a Martha's Vineyard — disse Kinnard. — E eu não imaginava que o Dr. Markey fosse me convidar para a pescaria.
— Se não tínhamos combinado coisa alguma, por que teria eu conseguido a folga? Além do mais, por que teria ligado para os amigos dos meus pais e pedido seu bangalô
emprestado?
— Só conversamos a respeito uma vez.
— Duas. E da segunda eu lhe falei sobre o bangalô.
— Ouça, era importante que eu fosse à pescaria. O Dr. Markey é o segundo homem do meu departamento. Talvez tenhamos nos comunicado mal, mas isso não deveria ter
causado toda esta tragédia.
— O pior de tudo é que você não sente o mínimo remorso — disse Kim, ruborizada.
— Não tenho que pedir desculpas se não acho que esteja errado.
— Ótimo — disse Kim. Retomou o caminho do posto central. Mais uma vez, Kinnard a segurou.
— Sinto que esteja tão zangada. Achei que já estaria mais calma. Vamos conversar mais um pouco sábado à noite. Estarei de plantão. Talvez pudéssemos jantar e ir
ao teatro.
— Sinto muito, mas tenho outros planos—disse Kim. Não era verdade e sentiu o estômago apertar. Odiava confrontos e sabia que não se saía bem neles. Qualquer tipo
de discórdia a afetava profundamente.
O queixo de Kinnard caiu.
— Ah, está certo — afirmou, apertando os olhos. Kim engoliu em seco. Sabia que ele se zangara.
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— Este é um jogo que dois podem jogar. Há alguém com quem quero mesmo sair. Esta é minha chance.
— Quem? — perguntou Kim, arrependendo-se da pergunta assim que escapou de sua boca.
Kinnard lançou-lhe um sorriso cheio de malícia e se afastou.
Preocupada com a possibilidade de perder a compostura, Kim refugiou-se no almoxarifado. Tremia. Após respirar bem fundo sentiu-se mais controlada e pronta para voltar
ao trabalho. Estava prestes a sair quando a porta se abriu e Marsha Kingsley, com quem morava, entrou.
— Por acaso presenciei o encontro — disse Marsha. Era uma mulherzinha mignon, muito esperta, com uma cabeleira castanho-avermelhada que mantinha presa num coque
enquanto trabalhava. Kim e Marsha não só moravam juntas como também trabalhavam juntas na UTI cirúrgica. — Que sujeito imbecil! — exclamou Marsha. Conhecia a história
do relacionamento de Kim e Kinnard melhor do que ninguém. — Não deixe que aquele egotista lhe afete desta forma.
A aparição de Marsha fez com que Kim perdesse o controle sobre as lágrimas.
— Odeio confrontos.
— Acho que se portou de forma exemplar—disse Marsha, oferecendo um lenço de papel a Kim.
— Nem pediu desculpas — disse Kim, secando os olhos.
— Ele é um idiota insensível — consolou Marsha.
— Não sei o que fiz de errado. Até recentemente achava que tínhamos um bom relacionamento.
— Você não fez nada de errado. O problema é dele. É muito egoísta. É só comparar suas atitudes com as de Edward, que tem lhe mandado flores todos os dias.
— Não preciso de flores todos os dias.
— É claro que não, mas o que vale é a intenção. Kinnard não pensa nos seus sentimentos. Você merece algo melhor.
— Não estou bem certa quanto a isso—choramingou Kim, assoando o nariz. — Mas uma coisa é certa, preciso mudar algumas coisas na minha vida. Tenho pensado em me mudar
para Salem. Estou com a idéia de reformar a casa velha que faz parte da propriedade que meu irmão e eu herdamos.
— Que grande idéia! A mudança de ares vai ser boa para você, especialmente com o Kinnard morando em Beacon Hill.
— Foi o que pensei. Vou até lá logo depois do trabalho. Não quer me acompanhar? Adoraria sua companhia, talvez pudesse me dar algumas dicas sobre o que fazer com
o lugar.
— De outra vez eu vou. Tenho que encontrar umas pessoas lá no apartamento.
Após terminar suas tarefas e escrever o relatório, Kim deixou o hospital. Entrou no carro e deixou a cidade. A estrada estava movimentada, mas o trânsito fluía com
rapidez, especialmente passando Tobin Bridge. Sua primeira parada foi a casa na qual crescera, em Marblehead.
— Tem alguém em casa? — gritou Kim ao entrar no vestíbulo da casa inspirada em um château francês. Era muito bem localizada, em frente ao mar. Havia semelhanças
superficiais entre esta casa e o castelo, embora fosse menor e de gosto mais apurado.
— Estou na sala do sol, querida — respondeu Joyce.
Passando a escadaria principal, Kim desceu um longo corredor e entrou no cômodo no qual sua mãe passava quase todo seu tempo. Era realmente a sala do sol. Ficava
de frente para o sul, com vista para o gramado e o terraço, mas ao leste havia uma belíssima vista para o mar.
— Ainda está de uniforme — observou Joyce. Seu tom era de crítica, como apenas uma filha perceberia.
— Vim direto do trabalho. Quis evitar o engarrafamento.
— Espero que não tenha trazido germes do hospital. Só me falta ficar doente de novo.
— Não trabalho com doenças infecciosas. Deve haver menos bactérias onde eu trabalho do que aqui.
— Não diga isto — disse Joyce rispidamente.
As duas mulheres não possuíam semelhança física alguma. Kim tinha a estrutura facial e os cabelos do pai. O rosto de Joyce era fino, com olhos fundos e o nariz levemente
aquilino. Seu cabelo fora castanho, mas estava quase todo grisalho. Jamais o
pintara. Sua pele era pálida como o mármore, apesar de estarem em pleno verão.
— Vejo que ainda está de robe — disse Kim. Sentou-se no sofá, em frente à poltrona de sua mãe.
— Não havia motivo algum para me vestir. Além do mais, não tenho me sentido bem.
— Suponho que isto queira dizer que papai não está — disse Kim. Aprendera o padrão com o passar dos anos.
— Seu pai partiu para Londres ontem à noite numa pequena viagem de negócios.
— Que pena.
— Não tem importância. Quando está aqui, me ignora. Você queria vê-lo?
— Queria.
— Ele volta na quinta-feira. Se estiver com vontade. Kim reconheceu o tom martirizado na voz de sua mãe.
— Grace Traters foi com ele? — perguntou Kim. Grace Traters era a assistente pessoal de seu pai. Fazia parte de uma longa linhagem de assistentes pessoais.
— É claro que a Grace foi junto — respondeu Joyce, irritada. — John não sabe amarrar os sapatos sem Grace.
— Se lhe incomoda tanto, mãe, por que agüenta esta situação?
— Não tenho escolha alguma.
Kim mordeu a língua. Estava prestes a se aborrecer. Por um lado, sentia pena da mãe pelo que tinha de suportar, mas por outro ficava irada com sua postura de eterna
vítima. Seu pai sempre tivera casos, alguns mais escandalosos que os outros. Fora assim desde que Kim era pequena.
Mudando de assunto, Kim perguntou sobre Elizabeth Stewart.
Os óculos de Joyce, precariamente apoiados sobre o nariz, escorregaram e ficaram pendurados contra seu peito.
— Que pergunta estranha. Por que pergunta sobre ela?
— Porque achei seu retrato por acaso na adega do vovô. Fiquei surpresa, especialmente porque temos a mesma cor de
olhos. Depois me toquei de que sabia muito pouco a seu respeito. Ela foi mesmo enforcada sob acusação de bruxaria?
— Prefiro não falar sobre isto.
— Ora mãe, e por que não?
— É um assunto tabu.
— Lembre isto a seu sobrinho Stanton. Recentemente aludiu ao assunto durante um jantar.
— Vou lembrá-lo. Não há desculpa para isto. Ele sabe muito bem.
— Como pode ser um assunto tabu depois de tantos anos?
— Não é motivo de orgulho. Foi um incidente sórdido.
— Ontem mesmo estive lendo a respeito do julgamento das bruxas em Salem — começou Kim. — Há muita coisa escrita a respeito, mas não mencionam o nome de Elizabeth
Stewart em lugar algum. Começo a me perguntar se esteve realmente envolvida.
— Que eu saiba, esteve. Mas vamos deixar este assunto de lado. Como foi que encontrou o tal retrato?
— Estive no castelo. Fui até a propriedade no sábado. Tenho pensado em reformar a casa velha e ir morar lá.
— Por que faria uma coisa destas? É tão pequena,
— Acho que vai ficar bem agradável. É maior do que meu apartamento atual. Além do mais, gostaria de sair de Boston.
— Imagino o trabalho que vai dar torná-la habitável.
— É parte do que queria conversar com papai. Mas ele não está, é claro. Aliás, devo dizer que ele nunca esteve por perto quando precisei dele.
— Ele não saberia coisa alguma sobre um projeto destes. Converse com George Harris e Mark Stevens. São, respectivamente, o empreiteiro e o arquiteto que reformaram
esta casa, e o projeto não poderia ter ficado melhor. Trabalham juntos e seu escritório está convenientemente localizado em Salem. A outra pessoa com a qual deverá
falar é seu irmão, Brian.
— Sem dúvida.
— Ligue para ele daqui. Enquanto isso, vou pegar o telefone do empreiteiro e do arquiteto.
Joyce levantou-se da poltrona e sumiu. Kim sorriu ao tirar
o fone do gancho e pousá-lo sobre o colo. Sua mãe nunca deixava de surpreendê-la. Uma hora estava completamente imobilizada e perdida em seus pensamentos, logo depois
era um turbilhão de atividade, já completamente envolvida nos projetos de outra pessoa. No fundo, Kim sabia qual era o problema: sua mãe não tinha muito o que fazer.
Ao contrário de suas amigas, nunca se envolvera com trabalhos voluntários.
Kim olhou o relógio enquanto a ligação se completava e tentou calcular que horas seriam em Londres. Não que fosse importante. Seu irmão sofria de insônia e trabalhava
durante a noite tirando cochilos durante o dia, tal qual uma criatura noturna.
Brian atendeu ao primeiro toque. Após trocarem os cumprimentos de praxe, Kim descreveu-lhe sua idéia. A reação de Brian foi extremamente positiva e encorajou-a a
pôr o plano logo em prática. Achou ótimo que alguém morasse na propriedade. Sua única preocupação era relacionada ao castelo e à sua mobília.
— Não vou nem tocar naquele lugar. Cuidaremos dele quando você voltar.
— Perfeito, então.
— Onde está papai? — perguntou Kim.
— John está no Ritz.
— E a Grace?
— Sem comentários. Estarão de volta na quinta-feira. Enquanto Kim se despedia de Brian, Joyce reapareceu e entregou-lhe um papel com um número de telefone. Assim
que Kim desligou, Joyce mandou que discasse o número. Kim discou.
— Quem devo mandar chamar? — perguntou.
— Mark Stevens. Está aguardando sua ligação. Falei com ele enquanto você conversava com Brian.
Kim sentiu um leve ressentimento em relação à interferência de sua mãe, mas nada disse. Sabia que Joyce apenas tentava ser útil. No entanto, lembrava-se das vezes,
no ginásio, em que teve de brigar para que a mãe não escrevesse seus trabalhos.
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A conversa com Mark Stevens foi curta. Como soubera por Joyce que Kim estava na região, sugeriu que se encontrassem na propriedade dentro de meia hora. Disse que
teria que ver a casa para aconselhá-la de forma inteligente. Kim concordou em encontrá-lo.
— Se decidir reformar aquela casa velha, pelo menos estará em boas mãos — disse Joyce depois que Kim desligou.
Kim pôs-se de pé.
— É melhor eu ir andando — disse. Embora estivesse fazendo um esforço imenso, sentiu, mais uma vez, que estava prestes a se irritar com a mãe. O que mais a incomodava
era a interferência e a falta de privacidade. Lembrou-se de que a mãe pedira a Stanton para lhe arrumar um namorado depois de lhe contar que terminara com Kinnard.
— Eu a acompanho à porta — disse Joyce.
— Não é preciso, mãe.
— Mas insisto — disse Joyce. Percorreram o longo corredor.
— Quando falar com seu pai sobre a casa velha, aconselho-a a não comentar o assunto Elizabeth Stewart. Só vai conseguir irritá-lo.
— Por que haveria de irritá-lo?
— Não fique aborrecida. Estou apenas tentando manter a família em paz.
— Isso é ridículo—rebateu Kim.—Não consigo entender.
— Só o que sei é que Elizabeth saiu de uma família de fazendeiros pobres de Andover e que nem ao menos era membro oficial da igreja.
— Como se isto fizesse alguma diferença hoje em dia. A ironia é que, meses após o caso, houve perdões públicos por parte de alguns jurados e de juizes que acreditavam
que pessoas inocentes haviam sido executadas. E cá estamos nós, trezentos anos depois, nos recusando a falar sobre uma antepassada. Não faz sentido. E por que é
que seu nome não consta em livro algum?
— Obviamente porque a família não quis que constasse.
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Não creio que acreditassem em sua inocência. É por isso que este assunto deve permanecer trancado a sete chaves
— Acho isso tudo uma besteira — concluiu Kim.
Kim entrou no carro e deixou Marblehead Neck. Quando chegou a Marblehead, teve que se forçar a dirigir mais devagar. Uma vaga sensação de inquietude e de irritação
a levara a pisar fundo no acelerador. Ao passar a Casa da Bruxa, em Salem, tentou pôr o que sentia em palavras e teve de admitir que sua curiosidade em relação a
Elizabeth e o julgamento das bruxas aumentara a despeito dos avisos de sua mãe, ou até mesmo devido a eles.
Ao chegar ao portão da propriedade, já havia um Ford Branco estacionado no acostamento. Quando saiu do carro com a chave do cadeado, dois homens surgiram de dentro
do Bronco. Um era atarracado e musculoso, como alguém que se exercita todos os dias. O outro era quase obeso e parecia ofegante com o simples esforço de sair do
carro.
O mais gordo se apresentou como Mark Stevens e o musculoso como George Harris. Kim apertou a mão de ambos.
Destrancou o portão e voltou para o carro. Com Kim na frente, foram até a casa velha. Saíram todos do carro ao mesmo tempo.
— É fabulosa — disse Mark, hipnotizado pela construção.
— Gostou? — perguntou Kim, contente com sua reação.
— Adorei — afirmou Mark.
A primeira coisa que fizeram foi examinar o exterior. Kim relatou a idéia de instalar uma nova cozinha e um banheiro no anexo, deixando a parte principal da casa
intocada.
Após estudarem a fachada, entraram. Kim mostrou-lhes toda a casa, inclusive o porão. Os homens ficaram impressionados, em particular, com a junção das vigas do teto
com as travessas.
— É uma estrutura sólida e bem construída—disse Mark.
— Daria muito trabalho reformá-la? — perguntou Kim.
— De modo algum — disse Mark. Olhou para George, que concordou com a cabeça.
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— Acho que vai ficar uma casinha fantástica — exclamou George. — Estou animado.
— Pode ser feito sem que se mexa nos aspectos históricos da casa? — perguntou Kim.
— Certamente — garantiu Mark. — Podemos esconder os encanamentos e a fiação no anexo e no porão. Não verá nada.
— Podemos cavar uma vala bem funda para trazer gás, luz, telefone—disse George. —Virão por baixo do alicerce da casa, assim não teremos que mexer nela. A única coisa
que recomendo é que ponha um piso de concreto no porão.
— Acham que dá para estar pronta em primeiro de setembro? — perguntou Kim.
Mark olhou para George. Este fez que sim com a cabeça e disse que não haveria problema se usassem armários prontos.
— Tenho uma sugestão — disse Mark. — O banheiro principal fica melhor localizado no anexo, como sugeriu. Mas, além dele, poderíamos instalar um lavabo no segundo
andar, entre os dois quartos, sem causar dano algum. Seria muito prático.
— Excelente — disse Kim. — Quando podem começar?
— Imediatamente — respondeu George. — Na verdade, para que esteja pronto no dia primeiro de setembro, temos que começar amanhã.
— Já trabalhamos muito para seu pai — disse Mark. — Podemos proceder com esta obra da mesma forma que fizemos com as outras. Cobraremos de você as horas, o material,
mais a comissão.
— Tudo bem — disse Kim, decidida. — Seu entusiasmo conseguiu vencer minhas últimas reservas. O que devemos fazer para começarem?
— Podemos começar imediatamente só com um acordo verbal — disse Mark. — Depois é só elaborar o contrato e assiná-lo.
— Perfeito — disse Kim, apertando a mão dos dois homens.
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— Vamos ficar mais um pouco para tirar medidas — disse Mark.
— Sintam-se à vontade — disse Kim. — Quanto ao conteúdo da casa, pode ser guardado na garagem da casa principal. Está aberta.
— E o portão? — inquiriu George.
— Como já vão começar, por que não o deixamos destrancado? — sugeriu Kim.
Enquanto os homens tiravam as medidas, Kim saiu. A uns vinte metros da casa, olhou-a e decidiu que era realmente muito jeitosa. Imediatamente começou a pensar na
decoração e discutia consigo mesma as cores dos quartos. Tais detalhes a entusiasmavam cada vez mais com o projeto. No entanto, seu entusiasmo evocou Elizabeth.
Kim se pegou tentando imaginar como Elizabeth se sentira ao ver sua casa pela primeira vez e quando teria se mudado para ela. Perguntou-se se o entusiasmo de Elizabeth
teria sido tão grande quanto o seu.
Voltando à casa, Kim avisou a Mark e George que estaria no castelo, caso precisassem dela.
— Temos o bastante aqui para nos mantermos ocupados por um bom tempo — disse Mark. — Mas terei que conversar com você amanhã. Poderia me dar seu telefone?
Kim deu o telefone do apartamento e o do trabalho. Então deixou a casa, entrou no carro e foi até o castelo. Pensar em Elizabeth a estimulara a passar algum tempo
olhando a papelada antiga.
Kim deixou a porta da frente entreaberta para o caso de Mark ou George virem procurá-la. Ficou em dúvida se ia para o sótão ou para a adega. Lembrando da nota de
conhecimento do século XVII que encontrara na adega no sábado anterior, decidiu começar por lá.
Percorrendo o salão principal e atravessando a sala de jantar, Kim abriu a pesada porta de carvalho. Ao começar a descer a escadaria de granito, percebeu que a porta
se fechara com uma pancada surda.
Kim parou. Sentiu a diferença de estar naquela casa enorme
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e velha sem Edward. Ouvia os estalidos e gemidos distantes da casa, enquanto esta se ajustava ao calor do dia. Virou-se para olhar a porta com um medo irracional
de que se trancasse sozinha, prendendo-a lá embaixo.
— Estou sendo ridícula—disse em voz alta. Mesmo assim, não parava de pensar na porta e acabou subindo as escadas. Encostou-se na porta e, como esperara, ela se abriu.
Deixou que fechasse outra vez.
Censurando-se por sua imaginação fértil, Kim desceu e andou até o fundo da adega. Ia cantando sua música favorita bem baixinho, mas sua calma era mera fachada. Apesar
de seus esforços, o lugar lhe metia medo. O tamanho da casa por si tornava o ar pesado, dificultando a respiração. E como já notara, não era nada silenciosa.
Kim tentou ignorar seu desconforto. Ainda cantarolando a mesma música, entrou na cela onde encontrara a nota de conhecimento. No sábado, examinara apenas a gaveta
na qual encontrara o documento. Desta vez resolveu vasculhar o arquivo inteiro.
Não demorou muito para entender a dificuldade de encontrar alguma coisa no meio da papelada da família Stewart. Aquele era, literalmente, um arquivo em meio a dezenas.
As gavetas estavam abarrotadas e teria que verificar documento por documento. Muitos dos papéis eram escritos a mão e, portanto, difíceis de decifrar. Outros não
continham data. Para piorar ainda mais as coisas, a luz dos candeeiros era pouco adequada. Kim resolveu trazer iluminação adicional em sua próxima incursão à adega.
Após vasculhar uma única gaveta, Kim desistiu. A maioria dos documentos datados era do final do século XVIII. Esperando que houvesse alguma ordem naquela bagunça
toda, começou a abrir gavetas a esmo, olhando os documentos na esperança de encontrar algo significativamente mais antigo. Ffez seu primeiro achado na gaveta de
cima de uma escrivaninha, perto da porta do corredor.
Inicialmente, o que lhe chamou a atenção foram notas de conhecimento do século XVII que encontrou espalhadas. Eram
todas um pouco mais antigas do que a que mostrara a Edward no sábado. Em seguida, encontrou um maço delas, amarrado com uma corda. Embora fossem escritas a mão,
a caligrafia era leve e fácil de ler e todas continham datas. Lidavam principalmente com peles, madeira, peixe, rum, açúcar e cereais. No meio do maço havia um envelope
endereçado a Ronald Stewart. A caligrafia não era a mesma das notas; era rígida e irregular.
Kim levou o envelope até o corredor, onde havia mais luz. Tirou a carta do envelope e a desdobrou. Datada de 21 de junho de 1679, não era nada fácil de ler.
Senhor:
Sua carta chegou há vários dias. Conversei longamente com minha família sobre seu gosto por nossa amada filha Elizabeth, uma menina muito vivaz. Se for a vontade
de Deus, concedo-lhe sua mão em casamento com a condição de que o senhor me dê trabalho e que mude minha família para a cidade de Salem. A ameaça dos ataques indígenas
pôs nossas vidas em perigo aqui em Andover e nos causa grande inquietude. Seu humilde servo,
James Flanagan
Lentamente pôs a carta de volta no envelope. Sentia-se desalentada, até mesmo chocada. Não era nenhuma feminista, mas a carta era ofensiva. Sentiu-se mais feminista
do que nunca. Elizabeth fora tratada como mercadoria. A imensa compaixão que já sentia em relação à sua antepassada agora transbordava.
De volta à cela, Kim pôs a carta em cima da escrivaninha e examinou a gaveta com mais cuidado. Abstraída do passar do tempo e do mundo a sua volta, revistou cada
tira de papel. Embora tivesse encontrado outras notas de conhecimento da mesma época, não encontrou outras cartas. Sem se deixar intimidar, começou a vasculhar a
segunda gaveta. Foi então que ouviu o inconfundível som de passos no andar acima.
Kim gelou. O vago temor que sentira ao descer até a adega voltou com força total. Exceto que agora chegava acompanhada de algo além do pavor que a imensa casa inspirava.
Chegava
acompanhada da culpa da transgressão, da culpa em haver invadido um passado proibido e perturbador.
Conseqüentemente, sua imaginação pregava-lhe cada vez mais peças. Com o som dos passos diretamente sobre sua cabeça, veio-lhe a imagem de um pavoroso espectro. Pensou
que podia ser seu falecido avô, voltando para se vingar de sua tentativa insolente e presunçosa de desvendar segredos agora enterrados.
Os passos pararam e depois se misturaram com os estalados e gemidos da casa. Kim foi acometida de dois impulsos conflitantes: o primeiro, de fugir da adega; o segundo,
de se esconder por entre arquivos e escrivaninhas. Na dúvida, nada fez. Assim, andou até a porta da cela e espiou o longo corredor que ia até as escadas de granito.
Naquele momento, ouviu o ranger da porta se abrindo. Não podia vê-la, mas sabia o que ouvira.
Paralisada pelo medo, Kim viu um par de sapatos negros e de calças compridas descer as escadas. Na metade, pararam. O vulto então se agachou e um rosto sem iluminação,
e portanto sem feições, surgiu.
— Kim — chamou Edward. — Você está aí?
A primeira reação de Kim foi dar um longo suspiro. Até então, não notara que havia prendido a respiração. Como as pernas estavam trêmulas, encostou-se na parede
da cela e chamou por Edward para que a localizasse. Em poucos instantes, sua silhueta preenchia o vão da porta.
— Você me assustou — disse Kim com toda a calma que lhe era possível. Agora que sabia que era Edward, sentia-se profundamente envergonhada pela dimensão de seu pavor.
— Sinto muito — disse Edward, hesitante. — Não foi minha intenção.
— Por que não me chamou antes?
— Mas eu chamei, várias vezes. A primeira quando entrei pela porta da frente, e depois quando entrei no salão. Esta adega deve ter algum tipo de isolamento.
— É, deve ter. Mas o que está fazendo aqui? Eu certamente não esperava vê-lo.
— Telefonei para o seu apartamento e Marsha disse que viera até aqui com a idéia de reformar a casa velha. Então resolvi vir, sem mais nem menos. Sinto-me responsável,
já que a sugestão foi minha.
— Foi muito gentil em vir—disse Kim. Seu coração ainda batia descompassado.
— Sinto realmente muitíssimo por tê-la assustado.
— Não se preocupe. Eu é que não devia deixar minha imaginação viajar dessa forma. Ouvi seus passos e achei que era um fantasma.
Edward fez uma careta horrível e transformou as mãos em garras. Kim deu-lhe um soco carinhoso no ombro e disse que não tinha graça alguma.
Ambos sentiram-se aliviados. A tensão se evaporou.
— Começou a busca a Elizabeth Stewart? — indagou Edward ao ver a gaveta aberta. — Encontrou alguma coisa?
— Por acaso, encontrei sim — respondeu Kim. Foi até a escrivaninha e entregou-lhe a carta de James Flanagan para Ronald Stewart.
Edward tirou a carta do envelope com cuidado. Ergueu-a na direção da luz. Levou tanto tempo para lê-la quanto Kim.
— Ataques de índios em Andover! — exclamou Edward. — Já imaginou? Como a vida era diferente naquela época.
Terminou de ler a carta e devolveu-a.
— Fascinante — disse.
— Não há nada nela que o incomode?
— Não particularmente. Por que deveria?
— Pois a mim perturbou. A pobre Elizabeth teve menos a dizer sobre seu triste fim do que eu imaginava. Seu pai a usou como peça de barganha numa negociação comercial.
É deplorável.
— Acho que está se precipitando. As oportunidades, como as conhecemos, não existiam no século XVII. A vida era mais dura, mais tênue. As pessoas tinham de se unir
para sobreviver. Os interesses individuais não eram prioritários.
— Isso não dá a um pai o direito de negociar a vida de uma
filha. A mim soa como se ela fosse uma vaca ou uma outra propriedade qualquer.
— Continuo achando que está exagerando um pouco. Só porque havia uma negociação entre James e Ronald, não quer dizer que Elizabeth não pôde opinar quanto a casar-se
ou não com Ronald. Além do mais, deve pensar na enorme satisfação que talvez tenha sentido em saber o que seu casamento proporcionaria para toda a família.
— Pode ser. O problema é que sei como a história acabou.
— Ainda não sabe ao certo se foi enforcada — lembrou Edward.
— É verdade. Mas esta carta pelo menos sugere um motivo pelo qual ficaria vulnerável à acusação de bruxaria. Pelo que tenho lido, sei que, à época do puritanismo,
as pessoas não deviam mudar sua posição social, e se mudassem, ficavam automaticamente sob suspeita de não terem seguido os desígnios de Deus. A súbita ascensão
da filha de um fazendeiro pobre à esposa de um comerciante relativamente abastado certamente entra nesta categoria.
— Há uma grande diferença entre ficar vulnerável e ter sido realmente acusada. Como ainda não vi seu nome em livro algum, não sei o que pensar.
— Minha mãe sugeriu que o motivo pelo qual não mencionam seu nome em lugar algum foi o esforço da família para manter seu nome fora da história. Ela até deu a entender
que a própria família considerava Elizabeth culpada.
— Uma nova trama. Mas até que por um lado faz sentido. As pessoas do século XVII acreditavam em bruxaria. Talvez Elizabeth a praticasse.
— Espere aí. Está insinuando que Elizabeth era bruxa? Minha idéia era que, se ela tinha alguma culpa, devia-se a algo como ter mudado de status social. Certamente
não pensei na possibilidade de se considerar bruxa.
— Quero dizer que talvez ela praticasse a magia. Naquele tempo havia magia branca e magia negra. A diferença era que a magia branca era usada para coisas boas, como
curar um animal ou uma pessoa. Por outro lado, a magia negra era usada
com maus intuitos e chamada de bruxaria. É óbvio que algumas vezes era uma questão de opinião se uma poção ou um amuleto representavam magia branca ou negra.
— É uma possibilidade — disse Kim. Pensou durante alguns minutos e balançou a cabeça. — Não, acho que não. Minha intuição me diz que não. Tenho o pressentimento
de que Elizabeth foi uma criatura completamente inocente que, por algum descuido do destino, foi atirada em meio a uma terrível tragédia. Qualquer que tenha sido
esse descuido, foi dos grandes. E o fato de tratarem sua memória como tratam só aumenta a injustiça. — Kim olhou em torno para todos aqueles arquivos, escrivaninhas
e caixas. — Então, a pergunta é: poderia a resposta para esse mistério estar escondida neste mar de documentos?
— Eu diria que encontrar esta carta já é um indício. Se há uma, deve haver mais. Se houver alguma resposta, virá muito provavelmente na forma de correspondência
pessoal.
— Só queria que houvesse algum tipo de ordem cronológica nesta papelada.
— E a casa velha? — perguntou Edward. — Decidiu se vai reformá-la?
— Decidi. Vamos até lá e lhe explicarei tudo. Deixaram o carro de Edward estacionado no castelo e foram até a casa velha no carro de Kim. Com enorme entusiasmo,
ela levou Edward num pequeno passeio e explicou que seguiria sua sugestão de instalar todas as conveniências modernas no anexo. A informação mais importante, no
entanto, era a introdução do lavabo entre os dois quartos.
— Vai ficar ótima — disse Edward ao deixarem a casa. — Estou com inveja.
— Estou muito entusiasmada. Mas o melhor mesmo é a possibilidade de decorá-la. Acho que vou tirar férias em setembro para me dedicar a ela em tempo integral.
— Vai fazer tudo sozinha?
— Claro que vou.
— É admirável! — exclamou Edward. — Eu jamais conseguiria.
Entraram no carro. Kim hesitou antes de dar a partida. Podiam ver a casa através do pára-brisa.
— Na verdade, sempre quis ser decoradora — disse Kim, melancólica.
— Está falando sério! — perguntou Edward.
— Uma oportunidade perdida. Quando estava crescendo, meus grandes interesses na vida giravam em torno de arte ou de moda, especialmente no científico. Devo confessar
que, naquele tempo, eu fazia bem o gênero artista, cheia de caprichos, longe de fazer parte do grupinho mais popular.
— Eu certamente não fazia parte deste grupo.
Kim deu partida no carro e tomou a direção do castelo.
— Por que não se tornou decoradora?—perguntou Edward.
— Meus pais conseguiram me convencer do contrário. Especialmente meu pai.
— Estou confuso. No jantar, na sexta passada, disse que você e seu pai nunca foram muito chegados.
— E não fomos, mas mesmo assim ele me influenciou muito. Sempre achei que não éramos próximos por culpa minha. Então fazia um esforço enorme para agradá-lo, ao ponto
de fazer enfermagem. Ele queria que eu fosse enfermeira ou professora porque considerava ambas as profissões dignas. Certamente não teria achado decoradora uma profissão
digna.
— Os pais podem causar uma impressão muito forte em seus filhos. Eu sentia uma necessidade semelhante de agradar meu pai. Quando paro para pensar, vejo que era uma
coisa meio maluca. Eu deveria simplesmente tê-lo ignorado. Ele vivia me gozando porque eu gaguejava e porque não era um grande atleta. Acho que fui um grande desapontamento
para ele.
Chegaram ao castelo e Kim estacionou seu carro ao lado do de Edward. Ele ia sair do carro, mas acomodou-se de volta no assento.
— Já comeu? — perguntou. Kim balançou a cabeça.
— Eu também não. Por que não vamos a Salem ver se encontramos um restaurante decente?
— Eu topo — disse Kim.
Deixaram a propriedade e seguiram em direção à cidade. Kim foi a primeira a falar:
— Atribuo minha insegurança na época da faculdade ao relacionamento com meus pais. Foi o mesmo no seu caso?
— Eu não duvidaria nada que fosse.
— É impressionante a importância da auto-estima. E é também assustadora a facilidade com a qual a auto-estima de uma criança pode ser minada.
-------A de adultos também. Uma vez minada, afeta o comportamento que volta a afetar a auto-estima. O problema é que pode se tornar algo funcionalmente autônomo
e bioquimicamente predeterminado. Este é o argumento a favor de drogas: romper o círculo vicioso.
— Estamos falando sobre Prozac de novo?
— Indiretamente. O Prozac pode afetar a auto-estima de alguns pacientes, de forma positiva.
— Você teria tomado Prozac na faculdade se existisse na época? — indagou Kim.
— Talvez — admitiu Edward. — Teria feito bastante diferença no meu caso.
Kim olhou Edward rapidamente. Tinha a impressão de que acabara de lhe contar algo muito pessoal.
— Você não precisa responder. E talvez eu nem devesse perguntar, mas já tomou Prozac?
— Não me importo em responder. Eu o tomei durante algum tempo, há uns dois anos. Meu pai morreu e eu estava moderadamente deprimido. Foi uma reação inesperada, considerando
nossa história. Um colega meu sugeriu que eu tentasse Prozac e tentei.
— Ajudou com a depressão?
— Definitivamente. Não de imediato, mas eventualmente sim. O mais interessante foi que me deu uma dose inesperada de autoconfiança. Como não esperava por isto, não
pode ter sido efeito placebo. Mas gostei.
— Algum efeito colateral?
— Alguns. Mas nada de extraordinário e certamente aceitável em se tratando de depressão.
— Interessante — disse Kim com sinceridade.
— Espero que não se assuste, devido a seu puritanismo farmacológico, com minha admissão de uso de uma droga psicotrópica.
— Não seja bobo. Muito pelo contrário, respeito sua franqueza. Além do mais, quem sou eu para julgar? Nunca tomei Prozac, mas fiz psicoterapia durante a faculdade.
Eu diria que estamos quites.
Edward riu.
— Certo — disse. — Nós dois somos doidos! Encontraram um restaurante local e muito popular que servia peixe fresco. Estava cheio e portanto foram forçados a se acomodar
no balcão do bar. Ambos comeram bacalhau assado e tomaram canecas de cerveja gelada. De sobremesa comeram um pudim indígena à moda antiga com sorvete.
Após a animada atmosfera do restaurante, os dois se deliciaram no silêncio do carro no retorno à propriedade. No entanto, ao cruzarem o portão, Kim sentiu que Edward
ficava nervoso. Estava inquieto, afastando o cabelo da testa.
— Algo errado? — perguntou Kim.
— Não — disse Edward, voltando a gaguejar.
Kim parou o carro ao lado do de Edward. Puxou o freio de mão, mas deixou o motor ligado. Esperou, pois sabia que Edward pensava em alguma coisa.
Finalmente Edward falou:
— Gostaria de ir ao meu apartamento quando voltarmos à cidade?
O convite deixou Kim num dilema. Sabia que Edward precisara de muita coragem para fazer o convite e não queria que se sentisse rejeitado. Ao mesmo tempo, pensou
nas necessidades dos muitos pacientes que veria logo pela manhã. No final, venceu seu profissionalismo.
— Sinto muito. Já está um pouco tarde e me sinto exausta. Estou de pé desde as seis. — Então, tentando parecer descontraída, disse: — Além do mais, amanhã tem aula
e ainda não fiz meu dever.
— Podemos dormir cedo — disse Edward. — Passa só um pouquinho das nove.
Kim ficou surpresa e apreensiva.
— Talvez as coisas estejam caminhando um pouco rápido para mim. Sinto-me muito confortável com você, mas não quero apressar coisa alguma.
— Entendo. Claro que também me sinto muito à vontade com você.
— Gosto de sua companhia, Tenho folga sexta e sábado desta semana. Se coincidir com o seu horário...
— Que tal jantarmos quinta à noite? — sugeriu Edward. — Assim não terá aula no dia seguinte.
— Será um prazer—disse Kim e riu. — E farei o possível para já ter feito o dever de casa.
Capítulo 4. Sexta-feira, 22 DE JULHO DE 1994.
Kim abriu os olhos. Sentia-se desorientada, sem saber onde estava. As persianas que dispersavam a luz da manhã não lhe eram familiares. Virando a cabeça para o lado,
viu que Edward dormia e lembrou-se de tudo.
Puxou o lençol até o pescoço. Sentia-se ansiosa e deslocada. Sua hipócrita, recriminou-se silenciosamente. Lembrava-se de ter dito a Edwward, poucos dias atrás,
que não queria apressar as coisas e cá estava, acordando na cama dele. Jamais tivera um relacionamento que levasse a uma intimidade tão grande em tão pouco tempo.
Pretendendo vestir-se antes que Edward acordasse, tentou escapulir da cama sem fazer barulho. Mas não conseguiu. O pequeno terrier branco de Edward, um bichinho
relativamente antipático, rosnou e mostrou os dentes.
Edward sentou-se na cama e enxotou o cachorro para fora do quarto. Com um gemido, atirou-se de volta aos travesseiros.
— Que horas são? — perguntou. Já fechara os olhos de novo.
— Seis e pouco.
— Por que acordou tão cedo?
— É o costume — respondeu Kim. —Acordo a esta hora todos os dias.
— Mas já era quase uma hora quando viemos dormir.
— Não importa. Sinto muito, eu não deveria ter ficado. Edward abriu os olhos e encarou-a.
— Está se sentindo constrangida? — perguntou. Kim admitiu.
— Sinto muito. Não deveria ter insistido.
— A culpa não é sua.
— Mas você queria ir embora. A culpa foi minha. Olharam-se por alguns segundos e sorriram.
— Isto está ficando um pouco repetitivo — disse Kim, rindo. — Voltamos ao campeonato dos perdões.
— Seria engraçado se não fosse lamentável. Já deveríamos ter conseguido algum avanço a esta altura.
Kim aconchegou-se e se abraçaram. Nada disseram por alguns momentos, até Edward romper o silêncio:
— Ainda se sente constrangida?
— Não. Às vezes, o simples fato de conversar sobre um assunto já ajuda.
Depois, enquanto Edward tomava banho, Kim telefonou para Marsha. Sabia que a amiga estava prestes a sair para o trabalho. Marsha ficou feliz em ouvir-lhe a voz e
expressou uma vaga preocupação por Kim não ter dormido em casa e nem ao menos ter telefonado.
— Eu deveria ter ligado — concordou Kim.
— Presumo que a noite tenha sido um sucesso — brincou Marsha.
— Foi boa. Mas ficou tarde e eu não quis correr o risco de acordar você.
— Claro, claro! — disse Marsha, exagerando no sarcasmo.
— Você poderia dar uma comidinha para a Sheba? — disse Kim, mudando de assunto. Marsha a conhecia bem demais.
— Sua gata já comeu. A única outra novidade é que seu pai telefonou ontem à noite. Quer que você ligue quando puder.
— Meu pai? Ele nunca liga.
— Eu sei. Moramos juntas há anos e foi a primeira vez que falei com ele ao telefone.
Após ter saído do banho e se vestido, Edward surpreendeu Kim com um convite para tomarem o café da manhã em Harvard Square. Imaginara que ele iria direto para o
laboratório.
— Estou de pé duas horas antes do planejado. O laboratório pode esperar. Além disso, foi a noite mais agradável do ano e não quero que termine.
Com um sorriso nos lábios, Kim enlaçou o pescoço de Edward e deu-lhe um forte abraço. Para tanto, teve de ficar nas pontas dos pés. Ele retribuiu o carinho com a
mesma exuberância.
Como o carro de Kim estava estacionado de maneira ilegal em frente ao apartamento de Edward e teria mesmo que ser removido, foram nele. Na praça, Edward levou Kim
a uma lanchonete freqüentada por estudantes onde se empanturraram com ovos, bacon e café.
— Qual seu programa para hoje? — perguntou Edward. Tinha que falar alto devido à barulheira do lugar. O curso de verão da universidade estava a todo vapor.
— Vou a Salem. As obras do chalé já começaram e quero ver como andam as coisas. — Kim decidira chamar a casa velha de chalé em contraste ao castelo.
— Quando espera estar de volta?
— A noitinha — disse Kim.
— Que tal me encontrar no Harvest Bar às oito?
— Fechado.
Após o café, Edward pediu a Kim para deixá-lo no prédio de biologia de Harvard.
— Não quer que o deixe em casa para pegar seu carro? — perguntou ela.
— Não, obrigado. Não haveria lugar para estacionar no campus principal. De lá, pego um ônibus até o centro médico. Faço isto com freqüência. É a vantagem de morar
perto.
Disse a Kim que o deixasse na esquina de Kirkland Street com Divinity Avenue. Ficou de pé na calçada, acenando até
perdê-la de vista. Sabia que estava apaixonado, e estava apaixonado pelo que sentia. Começou a subir DivinityAvenue. Tinha vontade de cantar. Sentia-se assim porque
começava a achar que Kim se afeiçoara a ele. Só esperava que durasse. Pensou nas flores que mandava todos os dias e se perguntou se estaria exagerando. Não tinha
muita experiência com essas coisas.
Chegando no laboratório de biologia, Edward olhou a hora.-eram quase oito. Ao subir as escadas, temeu ter de esperar por Kevin Scranton. Mas seus temores eram infundados.
Kevin já chegara.
— Que bom que veio. Ia te telefonar hoje.
— Encontrou Claviceps purpúrea? — perguntou Edward, esperançoso.
— Não. Nada de Claviceps.
— Droga! — disse Edward, afundando numa cadeira. O desapontamento pesou-lhe no estômago. Apostara num resultado positivo e estivera contando com isso, principalmente
por Kim. Queria lhe dar esta dádiva da ciência para aliviar a desgraça que se abatera sobre Elizabeth.
— Não fique tão amargurado. Não havia nenhum Claviceps, mas havia uma abundância de outros mofos. Um dos que cresceram tem uma forte semelhança morfológica com Claviceps
purpurea, mas até aqui é uma espécie desconhecida.
— Não diga! — exclamou Edward. Alegrou-se com a possibilidade de ao menos ter feito uma descoberta.
— É claro que não é tão surpreendente assim — disse Kevin, fazendo com que a expressão de Edward mudasse outra vez. —Atualmente há aproximadamente cinqüenta mil
espécies conhecidas de fungos. Ao mesmo tempo, algumas pessoas acreditam que existem de cem mil a um quarto de milhão de espécies.
— Está querendo me dizer que não é nenhuma descoberta monumental — comentou Edward secamente.
— Não estou fazendo avaliação alguma. Mas pode ser um mofo interessante. É um ascomiceto, como o Claviceps, e por acaso, forma esclerócios, tal qual o Claviceps.
Kevin esticou-se por cima da mesa e despejou vários objetos
escuros na palma da mão de Edward. Edward os cutucou com o dedo indicador. Pareciam-se com grãos de arroz, só que escuros.
— Acho melhor me explicar o que são esclerócios — disse Edward.
— É um tipo de esporo vegetativo, dormente, de alguns fungos. São diferentes dos esporos simples, unicelulares, porque os esclerócios são multicelulares e contêm
filamentos fungais, ou hifas, e alimento armazenado.
— Por que acha que eu estaria interessado nessas coisas? — perguntou Edward. Pensou também que pareciam sementes num pão de centeio. Ao cheirá-los, constatou que
não continham odor algum.
— Porque é o esclerócio no Claviceps que contém os alcalóides bioativos que causam o ergotismo.
— Uau! — fez Edward. Empertigou-se e estudou o esclerócio que segurava entre os dedos com novo interesse. — Quais são as chances destas gracinhas conterem o mesmo
alcalóide que o Claviceps?
— Eis aí a grande questão. Pessoalmente, acho que as chances são grandes. Não existem muitos fungos que produzam esclerócios. Esta espécie é relacionada ao Claviceps
purpurea de alguma forma.
— Por que não provamos?
— O que quer dizer com isto? — perguntou Kevin, olhando para Edward desconfiado.
— Por que não fazemos um chazinho com estas gracinhas e o tomamos? — sugeriu Edward.
— Espero que esteja brincando — afirmou Kevin.
— Por acaso não estou não. Estou interessado em saber se este mofo produz um alcalóide que provoque efeitos alucinógenos. A melhor maneira de descobrir é provando.
— Você enlouqueceu. Microtoxinas podem ser extremamente potentes, como as inúmeras pessoas que sofreram de ergotismo podem atestar. A ciência descobre novos tipos
a toda hora. Você estaria correndo um risco imenso.
— Onde está seu espírito de aventura? — perguntou Edward,
divertido. Levantou-se. — Posso usar seu laboratório para esta pequena experiência?
— Não sei se quero participar disto. Mas está falando sério, não está?
— Muito sério.
Kevin levou Edward até seu laboratório e perguntou do que precisaria. Edward respondeu que precisaria de um almofariz, ou algo semelhante, de água destilada e um
ácido fraco para precipitar o alcalóide, filtro de papel, um frasco de um litro e uma pipeta.
— Isso é loucura — resmungou Kevin enquanto juntava o material.
Edward pôs mãos à obra, começando com a moagem do esclerócio, extraindo a polpa com água destilada e precipitando uma pequena quantidade da massa branca com o ácido.
Com a ajuda do filtro de papel, isolou alguns grãos do precipitado branco. Kevin assistiu ao procedimento com um misto de incredulidade e admiração.
— Não vá me dizer que agora vai comer esse troço?—disse Kevin, cada vez mais assustado.
— Ah, por favor. Não sou idiota.
— Pois pensei que fosse.
— Ouça, estou interessado num efeito alucinógeno. Se este troço tiver tal efeito, vai tê-lo em doses minúsculas. Estou falando de algo menor do que um micrograma.
Edward pegou uma pitada do precipitado com a ponta da espátula e a introduziu num frasco volumétrico contendo um litro de água destilada. Agitou a mistura vigorosamente.
— Podemos brincar com este troço durante seis meses e continuar sem saber se causa alucinações ou não. Em última instância, precisamos mesmo é de um cérebro humano.
O meu está à disposição neste exato instante. Quando se trata da ciência, sou um homem de ação.
— E quanto a uma possível toxicidade para os rins? — perguntou Kevin.
Edward fez uma cara de incredulidade misturada com exasperação.
— Numa dosagem destas? De jeito nenhum! Estamos muito abaixo, por um fator de dez, do limite da botulina, que é a substância mais tóxica conhecida pelo homem. Além
do mais, não só estamos no limite de um micrograma com esta substância desconhecida, como também é provável que seja uma verdadeira sopa de substâncias. Portanto,
a concentração de qualquer uma delas será muito baixa.
Edward pediu a Kevin para lhe passar a pipeta. Kevin a passou com relutância.
— Tem certeza de que não quer me acompanhar? Talvez esteja se excluindo de uma interessante descoberta científica— riu, enquanto enchia a pipeta.
— Não, muito obrigado. Tenho um acordo de cavalheiros com meus rins de que um não abusa da boa vontade do outro.
— A sua saúde — disse Edward segurando a pipeta no ar, antes de depositar um único mililitro na ponta da língua. Bebeu um gole de água por cima, bochechou e engoliu.
— E aí? — perguntou Kevin, nervoso, após um minuto de silêncio.
— Um pouquinho, só um pouquinho amargo — disse Edward. Abriu e fechou a boca algumas vezes para realçar o sabor.
— E o que mais? —- indagou Kevin.
— Estou começando a ficar um pouquinho tonto.
— Você já era tonto antes da experiência.
— Tenho de admitir que esta pequena experiência não tem controles. Qualquer coisa que eu sentir pode ser efeito placebo.
— Eu não deveria estar participando disto. Insisto que faça um exame de urina e um de sangue para medir o nitrogênio uréico ainda esta tarde.
— Uaaaaaauuuuuu! Algo está acontecendo!
— Ai, meu Deus, o quê?
— Estou vendo uma enxurrada de cores em movimento, como se fossem enormes amebas. Parece um caleidoscópio.
— Grande! — disse Kevin olhando o rosto de Edward, que parecia estar em transe.
— Ouço sons como os de um sintetizador. Minha boca está
um pouco seca. E agora, mais uma coisa, sinto uma leve dormência nos braços como se estivesse sendo mordido ou levando pequenos beliscões. É esquisito.
— Devo chamar alguém?
Para a surpresa de Kevin, Edward estendeu os braços e o agarrou na altura dos ombros. Edward o segurou com força inesperada.
— Parece que a sala está se movendo. Tenho a leve sensação de estar engasgando.
— Acho melhor pedir ajuda — disse Kevin. Seu próprio coração acelerado. Olhou para o telefone, mas Edward segurou-o com mais força ainda.
— Está tudo OK — disse Edward. — As cores estão sumindo. Está passando. — Edward fechou os olhos, mas não se mexeu. Continuava a segurar Kevin.
Por fim, abriu os olhos e suspirou.
— Nossa! — disse.
Só então notou que estava segurando os braços de Kevin. Largou-o, respirou fundo e alisou o paletó.
— Acho que já temos nossa resposta — disse.
— Isto foi uma idiotice! — ralhou Kevin. — Esta sua palhaçada me deixou apavorado. Estava prestes a chamar a emergência.
— Calma! Não foi tão ruim assim. Não vá ficar histérico por causa de uma reação psicodélica de sessenta segundos.
Kevin apontou para o relógio.
— Não foram sessenta segundos, foram vinte minutos. Edward olhou o relógio.
— Não é curioso? Até minha noção de tempo ficou distorcida.
— E no geral, sente-se bem? — perguntou Kevin.
— Muito bem! — insistiu Edward. — Na verdade, sinto-me melhor do que bem. Sinto-me... — Hesitou um pouco, procurando as palavras exatas para o que sentia. — Sinto-me
energizado, como se tivesse descansado. E também clarividente, como se minha mente estivesse particularmente aguçada. Talvez esteja até meio eufórico, mas isto pode
ter sido causado pelo
resultado positivo que nós obtivemos: acabamos de determinar que este fungo produz uma substância alucinógena.
— Não use o termo nós com tamanha liberdade. Você descobriu isto tudo sozinho. — Recuso-me a colher os louros por esta loucura.
— Eu me pergunto se este alcalóide seria o mesmo do Glaviceps. Não sinto a circulação vascular periférica reduzida, um sintoma freqüente do ergotismo.
— Pelo menos prometa que checará a urina e o nível de nitrogênio uréico ou de creatinina no sangue hoje à tarde. Mesmo que não esteja preocupado, eu ainda estou.
— Se vai te ajudar a dormir esta noite, eu faço. Enquanto isso, quero mais destes esclerócios. É possível?
— É possível, agora que já descobri qual o meio necessário para este fungo crescer, mas não posso prometer muitos esclerócios. Não é sempre fácil conseguir que o
fungo o produza.
— Bem, faça o possível. Lembre-se de que poderemos extrair um belo artigo desta história.
Edward atravessou o campus correndo para pegar o ônibus até o centro médico. Estava exultante com os resultados. Mal podia esperar para contar a Kim que a teoria
dos venenos, no caso das bruxas de Salem, talvez fosse mais do que mera especulação.
Por mais entusiasmada que Kim estivesse com o andamento das obras, estava ainda mais curiosa em saber por que seu pai haveria telefonado. Confiante de que chegaria
cedo o bastante para pegá-lo em casa antes que saísse para o escritório, entrou em Marblehead.
Ao entrar na casa, foi direto à cozinha. Como esperava, encontrou John bebericando seu café, agarrado ao jornal. Era um homem grande que, segundo contavam, fora
um grande atleta nos seus tempos de Harvard. Seu rosto largo era coroado por uma vasta cabeleira que fora um dia tão escura e lustrosa como a de Kim. Através dos
anos, tornara-se grisalha mas de forma atraente, dando-lhe uma aparência tipicamente paternal.
— Bom dia, minha pequena Kim — disse John sem tirar os olhos do jornal.
Kim se serviu de café espresso e ferveu o leite para preparar um capuccino.
— Como vai seu carro? — perguntou John. Ia amassando o papel enquanto virava as páginas. — Espero que faça as revisões regularmente, como lhe aconselhei.
Kim não respondeu. Estava acostumada a ser tratada como uma garotinha pelo pai, o que lhe causava um certo ressentimento. Ele sempre tinha instruções de como deveria
viver sua vida. Quanto mais velha ela ficava, mais era da opinião que seu pai não deveria dar conselhos a ninguém. Especialmente considerando-se o que fizera de
sua própria vida e de seu casamento.
— Soube que me ligou ontem à noite — disse Kim sentando-se num banco, debaixo de um janelão de vidro com vista para o mar.
John baixou o jornal.
— Liguei sim. Joyce mencionou que você estava interessada em Elizabeth Stewart e que havia feito perguntas a seu respeito. Fiquei surpreso. Liguei para saber por
que você estaria querendo perturbar sua mãe desta forma.
— Não estava querendo perturbá-la. Estou realmente interessada em Elizabeth Stewart e só queria saber alguns fatos básicos. Como, por exemplo, se é verdade que Elizabeth
foi enforcada por bruxaria ou se é só boato.
— Foi enforcada, sem dúvida alguma. Posso lhe garantir também que a família fez de tudo para suprimir o fato. Considerando-se as circunstâncias, acho melhor deixar
as coisas como estão.
— Mas por que tanto sigilo depois de trezentos anos? Não faz sentido.
— Não interessa se faz sentido para você ou não — disse John. — Foi humilhante na época e continua sendo até hoje.
— Está querendo me dizer que o incomoda, papai? Que se sente humilhado?
— Bem, não particularmente — admitiu John. — É sua
mãe. Incomoda a ela, então não deveria ser motivo para seu entretenimento. Não devemos aumentar o peso de suas cruzes. Kim mordeu a língua. Era difícil não dizer
algo depreciativo a seu pai, em tais circunstâncias. Em vez disso, admitiu que não só ficara interessada em Elizabeth como também tinha pena dela.
— Por quê? — perguntou John, irritado.
— Em primeiro lugar, porque encontrei seu retrato enfiado num canto da adega do vovô. Olhá-lo só fez enfatizar o fato de que foi uma pessoa de verdade. Tem até olhos
da mesma cor que os meus. Então me lembrei do que supostamente lhe aconteceu. Ela certamente não merecia ser enforcada. É difícil não ter pena.
— Eu sabia do quadro. O que estava fazendo na adega?
— Nada de especial, só dando uma olhada. Pareceu-me uma coincidência tão grande, topar com o retrato de Elizabeth justo na época em que andei lendo a respeito do
julgamento das bruxas de Salem. E o que aprendi só fez alimentar minha compaixão. Pouco tempo depois da tragédia houve uma enxurrada de pesar e de arrependimento.
Mesmo na época, ficou evidente que pessoas inocentes haviam sido mortas.
— Nem todas eram inocentes.
— Minha mãe insinuou a mesma coisa. O que poderia Elizabeth ter feito para vocês sugerirem que ela não era inocente?
— Agora está indo longe demais. Não sei dados específicos, mas meu pai me contou que tinha algo a ver com o ocultismo.
— Como assim? — insistiu Kim.
— Acabo de dizer que não sei, mocinha — vociferou John. — Já fez perguntas demais.
Agora vá para o seu quarto, pensou Kim. Perguntou-se se seu pai algum dia se conscientizaria de que já era adulta e se algum dia a trataria como tal.
— Minha pequena Kim, ouça seu pai — disse John num tom mais conciliador e paternalista. — Para seu próprio bem, não saia desenterrando o passado desta forma. Só
vai causar problemas.
— Com todo respeito, papai. Poderia me explicar como isto poderia afetar meu bem-estar?
John gaguejou.
— Deixe-me dizer o que eu acho — disse Kim com uma segurança que lhe era pouco característica. — Acredito que o envolvimento de Elizabeth possa ter sido humilhante
na época do ocorrido. Posso até acreditar que tenha sido ruim para os negócios, já que seu marido, Ronald, foi o fundador da Maritime Limited, que vem sustentando
gerações e mais gerações de Stewarts, a nossa inclusive. Mas o fato desta preocupação com o envolvimento de Elizabeth ter persistido até hoje é absurdo e uma desonra
à sua memória. Afinal de contas, é nossa antepassada; se não fosse por ela, nenhum de nós estaria aqui. É surpreendente que este fato por si só não tenha feito com
que alguém questionasse esta reação condicionada e ridícula.
— Se você não consegue compreender o egoísmo de seu próprio ponto de vista — começou John, irritado —, então pelo menos pense em sua mãe. Joyce sente-se humilhada
com esta história, não interessa o motivo. Só sei que é assim que se sente. Então, se você precisa de um motivo para deixar o legado de Elizabeth em paz, ei-lo.
Não o esfregue no nariz de sua mãe.
Kim levou o capuccino frio aos lábios e tomou um gole. Desistia quanto a seu pai. Jamais conseguira ter uma conversa proveitosa com ele. Só funcionava quando a conversa
era unilateral: quando ele lhe dizia o que devia fazer e como fazê-lo. Era como se confundisse o papel de pai com o de instrutor.
— Sua mãe também me disse que você embarcou num projeto na propriedade—disse John, presumindo que o silêncio de Kim significasse uma atitude mais comedida quanto
à Elizabeth, que aceitara seu conselho. — O que está fazendo exatamente?
Kim lhe contou que decidira reformar e morar na casa velha. Enquanto falava, John voltou a ler seu jornal. Acabado o relato, sua única pergunta foi relacionada ao
castelo e aos pertences de seu pai.
— Não vamos tocar no castelo. Pelo menos até Brian voltar para casa.
— Que bom—disse John enquanto virava a página de seu Wall Street Journal.
— Por falar na mamãe, onde está ela?
— Lá em cima. Não está se sentindo bem e não quer ver ninguém.
Alguns minutos depois, Kim deixava a casa com uma sensação de tristeza e ansiedade que era uma complicada mistura de piedade, raiva e repulsa. Ao entrar no carro,
disse para si mesma que odiava o casamento de seus pais. Ao ligar o motor, prometeu-se jamais cair numa armadilha destas.
Kim saiu da casa e tomou a direção de Salem. Enquanto dirigia lembrou-se de que, apesar de sua repulsa quanto ao relacionamento de seus pais, correra o risco de
recriar a mesma situação. Era parte do motivo que a levara a reagir com tanta convicção às viagens de Kinnard. Principalmente nas ocasiões em que haviam planejado
estar juntos.
De repente, Kim sorriu. Seus pensamentos melancólicos foram imediatamente sobrepostos pela lembrança das flores que Edward enviava todos os dias. Por um lado elas
a deixavam envergonhada, por outro, eram prova da atenção e do carinho de Edward para com ela. Sentia-se muito segura quanto a uma coisa: Edward jamais seria mulherengo.
A seu ver, um homem mulherengo tinha de ser mais seguro de si e mais competitivo, como seu pai ou, pensando bem, como Kinnard.
Por mais frustrante que a conversa com o pai tivesse sido, seu efeito fora justamente o contrário do desejado.- seu interesse por Elizabeth Stewart tornara-se ainda
maior. Conseqüentemente, ao passar pelo centro de Salem, dirigiu-se ao shopping Museum Place.
Deixou o carro no estacionamento e andou até o Instituto Peabody-Essex, uma associação cultural e histórica cuja sede espalhava-se por construções antigas restauradas
no centro da cidade. Entre outras funções, servia de depósito para documentos sobre Salem e cidades vizinhas, incluindo aqueles relacionados ao julgamento das bruxas.
Uma recepcionista recebeu a taxa de entrada de Kim e mostrou-lhe o caminho da biblioteca. O acesso era feito através
de escadas que se encontravam diretamente em frente à recepção. Após subi-las, Kim passou por uma pesada porta de vidro. A biblioteca era localizada num prédio do
século XIX de pé-direito alto, cornijas decorativas e molduras de madeira escura. O salão principal continha lareiras de mármore e lustres além de mesas em carvalho
escurecido e cadeiras. Ali prevalecia o silêncio típico das bibliotecas e o cheiro de livros antigos.
Uma bibliotecária simpática e prestativa chamada Grace Meehan veio imediatamente em seu auxílio. Era uma mulher mais velha, de cabelos grisalhos e rosto amável.
Em resposta a uma pergunta feita por Kim, mostrou-lhe como encontrar vários tipos de documentos relacionados ao julgamento das bruxas de Salem, incluindo: acusações,
queixas, mandados de prisão, deposições, testemunhos, registros das audiências preliminares e mandados de execução. Todos estavam cuidadosamente catalogados no antiquado
catálogo de fichas da biblioteca.
Kim ficou surpresa e sentiu-se encorajada pela quantidade de material disponível. Não era à toa que havia tantos livros escritos sobre o julgamento das bruxas de
Salem. O instituto era o paraíso dos pesquisadores.
Assim que a bibliotecária a deixou, Kim atacou o fichário. Entusiasmada, procurou Elizabeth Stewart. Estava confiante que encontraria algum tipo de menção. Mas logo
ficou desapontada. Não havia Elizabeth Stewart alguma. Nem tampouco outros Stewart.
Voltou à mesa da bibliotecária e perguntou-lhe diretamente a respeito de Elizabeth Stewart.
— Este nome não me é familiar — disse Grace. — Sabe de que forma está relacionada ao julgamento?
— Me disseram que foi uma das acusadas. Creio que tenha sido enforcada.
— Não pode ter sido — afirmou Grace sem titubear. — Eu me considero uma especialista em documentos relacionados ao julgamento e jamais me deparei com o nome Elizabeth
Stewart. Posso lhe garantir que nem testemunha foi, muito menos uma das vinte vítimas. Quem lhe disse que foi acusada?
— É uma história relativamente longa — respondeu Kim, evasiva.
— Bem, certamente não é verdade. Foram muitas as pesquisas realizadas, por muita gente, para uma vítima ter sido excluída.
— Entendo — disse Kim. Não discutiu. Agradeceu à mulher e voltou ao catálogo.
—Desistindo dos documentos relacionados ao julgamento, Kim voltou as atenções para outro importante recurso do instituto: informações genealógicas sobre as famílias
do condado de Bssex. Desta vez Kim encontrou vasto material sobre a família Stewart. Na verdade, ocupava uma gaveta inteira do catálogo de genealogia. Ao examinar
o material, ficou claro que havia dois clãs de Stewart, o dela e um outro cuja história não era tão antiga.
Após meia hora, Kim encontrou uma breve referência a Elizabeth Stewart. Nasceu em 4 de maio de 1665, filha de James e Elisha Flanagan, e morreu em 19 de julho de
1692, esposa de Ronald Stewart. Não mencionava a causa da morte. Com uma conta rápida, Kim concluiu que Elizabeth morrera aos 27 anos de idade.
Levantou a cabeça e olhou pela janela com os olhos vidrados. Sentia um arrepio que começava na nuca. Kim tinha 27 anos e fazia aniversário em maio. Não era no dia
quatro e sim no dia seis, mas mesmo assim próximo ao de Elizabeth. Lembrando a semelhança física entre as duas e considerando o fato de que planejava se mudar para
a casa que fora de Elizabeth, começou a se perguntar se não havia coincidências demais. O que haveria de significar tudo isto?
— Com licença — disse Grace Meehan, interrompendo os pensamentos de Kim. — Aqui está, copiei para você uma lista das pessoas enforcadas. Constam a data de execução,
incluindo dia da semana, cidade de residência da vítima, afiliação religiosa no caso de haver uma, e idade. Como pode ver, é muito completa. E não há uma Elizabeth
Stewart.
Kim agradeceu à mulher mais uma vez e pegou o papel. Depois que saiu, olhou a lista e já ia pô-la de lado quando notou
a data de terça-feira, 19 de julho de 1692. Cinco pessoas foram enforcadas naquele dia. Voltando à data da morte de Elizabeth, viu que era a mesma. Kim sabia que
o simples fato de a data ser a mesma não provava que Elizabeth fora enforcada. Mas, mesmo circunstancial, era um detalhe sugestivo.
Então pensou em outra coisa. A terça anterior, lembrava, fora 19 de julho. Consultando mais uma vez o papel que Grace Meehan lhe dera, descobriu que o calendário
de 1692 era o mesmo de 1994. Seria esta mais uma coincidência sobre a qual deveria ponderar?
Voltando à informação genealógica, Kim pegou um livro que resumia a história de sua família desde o seu começo. Procurou Ronald Stewart e rapidamente constatou que
Elizabeth não havia sido sua primeira mulher. Ronald casara-se com Hannah Hutchin-son em 1677 e com ela teve uma filha, Joanna, nascida em 1678. Hannah morreu em
janeiro de 1679 e a causa de sua morte não era mencionada. Em 1682, aos 39 anos de idade, Ronald casou-se com Elizabeth Flanagan e teve uma filha, Sarah, nascida
no mesmo ano, e dois filhos, Jonathan, nascido em 1683, e Daniel, nascido em 1689. Finalmente Ronald casou-se com a irmã mais nova de Elizabeth, Rebeeca Flanagan,
em 1692, e teve com ela uma filha chamada Rachel, nascida em 1693.
Kim baixou o livro e mais uma vez encarou o vazio, tentando organizar as idéias. Um pequeno alerta em relação ao caráter de Ronald soava em sua mente. Voltando ao
livro de genealogias, viu que Ronald casara-se com Elizabeth três anos após a morte de Hannah. Após a morte de Elizabeth, casou-se com sua irmã no mesmo ano!
Kim sentia-se inquieta. Conhecendo as propensões sexuais de seu próprio pai, pensou na possibilidade de Ronald ter sofrido do mesmo mal e de ter se entregue a ele
com conseqüências ainda mais desastrosas. Ocorreu a Kim que Ronald poderia ter tido um caso com Elizabeth enquanto estivera casado com Hannah e um caso com Rebeeca
enquanto estivera casado com Elizabeth. Afinal de contas, Elizabeth morrera em circunstâncias inco-muns. Kim se perguntou se Hannah também morrera em circunstâncias
parecidas.
Balançou a cabeça e riu de si mesma. Achou que andava vendo novelas demais, pois sua imaginação criava enredos inesperados e melodramáticos.
- Após mais alguns minutos vasculhando a árvore genealógica da família Stewart, Kim aprendeu mais dois fatos. Primeiro confirmou que descendia de Ronald e Elizabeth
através de seu filho Jonathan. Segundo, aprendeu que o nome Elizabeth jamais reaparecera nos trezentos anos de história da família. Com tantas gerações, isto não
devia ser acidental. Kim ficou impressionada com o opróbrio que Elizabeth provocara para si própria, e sua curiosidade quanto ao que teria feito para consegui-lo
aumentou.
Finalmente, de posse de uma pesquisa genealógica superficial, Kim desceu os degraus do Instituto Peabody-Essex. Pensava em pegar o carro e partir rumo à propriedade,
mas mudou de idéia. A questão do caráter de Ronald e a possibilidade de sua traição deram-lhe outra idéia. Voltou ao Instituto e perguntou como chegava ao fórum
do condado de Essex.
O prédio ficava na Federal Street, próximo à Casa da Bruxa. Era uma construção severa, em estilo neoclássico com frontões lisos e enormes colunas dóricas. Kim entrou
e pediu instruções de como chegar aos registros do fórum.
Kim não tinha idéia se encontraria alguma coisa. Não sabia se o fórum guardava registros tão antigos, nem se, no caso de ainda existirem, estavam disponíveis para
consulta. Mesmo assim, foi até o balcão indicado e pediu os registros relativos a Ronald Stewart. Acrescentou que estava interessada no Ronald Stewart nascido em
1653.
A atendente era uma mulher de idade indeterminada e aparência sonolenta. Se o pedido de Kim lhe causou surpresa, nada demonstrou. Sua resposta foi digitar as informações
num terminal de computador. Após encarar o monitor durante alguns minutos, saiu da sala sem pronunciar uma só palavra. Kim imaginou que eram tantas as pessoas que
pesquisavam o julgamento das bruxas de Salem, que os servidores públicos da cidade já não se impressionavam com indagações sobre a era.
Kim apoiou o peso sobre a outra perna e olhou o relógio. Já eram dez e meia e ela ainda nem fora à propriedade.
A mulher reapareceu com um envelope pardo. Entregou-o a Kim.
— Não pode retirá-lo desta sala — disse. Apontou para uma mesa de fórmica e cadeiras de plástico moldado que se encontravam perto da parede, ao fundo da sala. —
Pode se sentar ali, se quiser.
Kim procurou uma cadeira vazia. Sentou-se e despejou o conteúdo do envelope. Havia muito material, a maioria escrita a mão, com caligrafias razoavelmente legíveis.
A primeira vista, Kim achou se tratar exclusivamente de processos movidos por Ronald contra seus devedores. Mas logo encontrou coisas mais interessantes, como uma
referência à contestação de um testamento na qual Ronald estivera envolvido.
Kim leu o documento cuidadosamente. Era um parecer a favor de Ronald envolvendo um testamento contestado por Jacob Cheever. Mais adiante, descobriu que Jacob era
filho de Hannah de um casamento anterior e que Hannah era consideravelmente mais velha do que Ronald. Jacob afirmara que Ronald convencera sua mãe a mudar seu testamento,
privando-o de seus direitos. Evidentemente, os juizes não concordaram. O resultado foi que Ronald herdou alguns milhares de libras, uma fortuna nada desprezível
naqueles tempos.
Kim ficou impressionada, pois sempre imaginara que a vida tivesse mudado muito desde o século XVII. Sempre achara que, ao menos do ponto de vista legal, as coisas
houvessem sido muito mais simples. Ao saber do testamento contestado, percebeu que talvez estivesse enganada. E mais uma vez pegou-se questionando o caráter de Ronald.
O documento seguinte era ainda mais curioso. Tratava-se de um contrato datado de 11 de fevereiro de 1681 entre Ronald Stewart e Elizabeth Flanagan. Fora elaborado
e assinado antes de seu casamento e assemelhava-se a um contrato pré-nupcial moderno. Não mencionava, no entanto, dinheiro ou propriedades diretamente. Simplesmente
dava a Elizabeth o direito à
propriedade e de assinar contratos em seu próprio nome após o casamento.
Kim leu o documento por inteiro. Perto do final, Ronald escrevera uma explicação de próprio punho. Kim reconheceu a caligrafia graciosa, pois a vira em inúmeras
notas de conhecimento no castelo. Ronald escrevera:
"É minha intenção que, se ações pertinentes à minha ocupação mercantil exigirem minha ausência prolongada de Salem e da Maritime Limited, minha noiva, Elizabeth
Flanagan, possa, de forma justa e legal, administrar nossos interesses em comum."
Após terminar a leitura, Kim voltou ao início para relê-lo, certificando-se de que compreendera tudo. Ficou impressionada. O fato de tal documento ser necessário
para que Elizabeth assinasse contratos, lembrou-lhe o quão diferente fora o papel da mulher na era do puritanismo. Seus direitos legais eram bastante limitados.
Extraíra a mesma mensagem da carta que o pai de Elizabeth escrevera a Ronald em relação ao seu casamento.
Pondo o contrato pré-nupcial de lado, concentrou as atenções nos outros documentos do envelope. Após outro punhado de processos contra devedores, deparou com um
documento realmente interessante. Era uma petição de Ronald requerendo um mandado de busca e apreensão, datada de terça-feira, 26 de julho de 1692, uma semana após
a morte de Elizabeth.
Kim não sabia o que era um mandado de busca e apreensão, mas compreendeu rapidamente do que se tratava. Ronald escrevera:
"Humildemente imploro à Corte, em nome de Deus, que devolvam à minha posse a prova conclusiva apreendida em minha propriedade pelo xerife George Corwin e usada contra
minha amada esposa, Elizabeth, durante seu julgamento por bruxaria pelo Tribunal Especial em 20 de junho de 1692."
Anexo ao requerimento havia um parecer do juiz John Hathorne de 3 de agosto de 1692, negando o pedido. Em sua recusa o magistrado disse:
"A Corte aconselha ao requerente, Ronald Stewart, que faça
o mesmo pedido à sua excelência, o governador dos Estados da Federação, relativo à prova citada anteriormente em virtude de, por ordem do executivo, ter sido ela
entregue pelo condado de Bssex ao condado de Suffolk."
De certa forma, Kim estava satisfeita. Encontrara prova documental indireta dos percalços de Elizabeth: havia sido julgada e, evidentemente, condenada. Ao mesmo
tempo sentia-se frustrada pela natureza da prova conclusiva jamais ser mencionada. Releu o requerimento e o parecer, esperando ter deixado alguma coisa escapar.
Não era o caso. A prova não fora descrita.
Kim permaneceu sentada à mesa durante alguns minutos, tentando imaginar o que teria sido tal prova. A única coisa que lhe vinha à cabeça era que poderia estar relacionada
ao ocultismo e isso se dava devido à vaga afirmação de seu pai. Então teve uma idéia. Olhando o requerimento mais uma vez, anotou a data do julgamento. De posse
da data, voltou ao balcão e solicitou a atenção da atendente mais uma vez.
— Gostaria de ver os registros do Tribunal Especial de 20 de junho de 1692.
A atendente riu, literalmente, na cara de Kim. Depois repetiu o pedido e riu outra vez. Confusa, Kim perguntou qual era a graça.
— Está pedindo uma coisa que todo mundo gostaria de ver — disse a atendente com um pesado sotaque caipira. — O problema é que tais registros não existem. Gostaria
que existissem, mas não existem. Não há registros deste Tribunal Especial para os julgamentos de todas as bruxas. Só o que temos são alguns depoimentos e testemunhos
avulsos, mas os registros do tribunal em si? Sumiram.
— É lamentável. Mas talvez pudesse me ajudar com uma outra coisa. Por acaso saberia dizer o que é uma prova conclusiva?
— Não sou advogada—disse a atendente. — Mas aguarde um minutinho, vou perguntar.
Desapareceu para dentro de um escritório. Reapareceu
alguns segundos depois com uma mulher gorda, que equilibrava óculos enormes num nariz largo e curto.
— Está interessada no significado do termo prova conclusiva? — perguntou a mulher.
Kim fez que sim com a cabeça.
— Como o nome já diz, trata-se de uma prova incontestável. Ou seja, uma prova que não pode ser questionada ou que dê margem a uma única interpretação.
— Foi o que pensei — disse Kim. Agradeceu às duas mulheres e voltou ao seu material. Usando uma fotocopiadora, copiou o requerimento de Ronald e o parecer. Em seguida,
pôs os documentos no envelope e o devolveu à atendente.
Finalmente, Kim dirigiu-se à propriedade. Sentia-se um pouco culpada por ter dito a Mark Stevens que chegaria na parte da manhã, embora já fosse quase meio-dia.
Ao fazer a última curva da estrada e passar a barreira de árvores, pôde ver caminhões e caminhonetes estacionados perto do chalé. Havia também uma escavadeira e
montes de terra fresca. Mas Kim não viu ninguém, nem mesmo na escavadeira.
Estacionou e saiu do carro. O calor do meio-dia e a poeira eram opressivos e o cheiro da terra recém-revolvida, pungente. Kim fechou a porta do carro e, protegendo
o rosto do sol, seguiu com os olhos a vala que cortava o campo até o castelo. Foi então que a porta da casa se abriu e George Harris surgiu. O suor banhava-lhe a
testa.
— Que bom que pôde vir. Estive tentando lhe telefonar.
— Há algo errado? — perguntou Kim.
— Mais ou menos — respondeu George, evasivo. — Talvez seja melhor eu lhe mostrar.
George pediu que o seguisse até o local onde se encontrava a escavadeira.
— Tivemos que parar de trabalhar — disse.
— Por quê?
George não respondeu. Em vez disso pediu a Kim que chegasse mais perto da vala.
Com receio de chegar perto demais da beirada e causar uma avalanche, Kim esticou o corpo para a frente e olhou. Ficou
impressionada com a profundidade: uns três metros, segundo seus cálculos. Raízes pendiam das paredes íngremes como minúsculas vassouras. George mandou que olhasse
para o local onde terminava a vala, a uns dezoito metros do chalé. Quase no fundo, Kim viu a extremidade de uma caixa de madeira saindo da terra.
— Foi por isso que paramos — disse George.
— O que é? — perguntou Kim.
— Temo que seja um caixão.
— Meu Deus! — exclamou Kim.
— Encontramos a lápide também. É bem antiga — disse, fazendo sinal para que Kim desse a volta e fosse até o final da vala. Do lado oposto ao monte de terra escavada
havia uma pedra de mármore branco, suja, deitada sobre a grama.
— Não foi posta em pé, e sim deitada; assim a terra finalmente a cobriu. — George se agachou e limpou a terra seca de sua face.
Kim engasgou com o ar.
— Meu Deus, é Elizabeth! — conseguiu dizer. Balançou a cabeça. Coincidências demais.
— É sua parente? — indagou George.
— É sim.—Examinou a lápide. Tinha o desenho parecido com a de Ronald e informava apenas o básico: a data de nascimento de Elizabeth e a de sua morte.
—— Tinha idéia de que havia sido enterrada aqui? — perguntou George. Seu tom não era de acusação e sim de curiosidade.
— Nenhuma. Só vim saber que ela não fora enterrada no cemitério da família recentemente.
— O que quer que façamos? Precisa de permissão para mexer num túmulo.
— Não podia simplesmente trabalhar em volta e deixá-la em paz? — perguntou Kim.
— Suponho que sim. Podemos simplesmente alargar a vala deste lado. Devemos estar atentos a outros caixões?
— Acho que não. Elizabeth era um caso especial.
— Espero que não se importe com o que vou dizer, mas está meio pálida. Você está bem?
— Estou sim, obrigada. Só um pouco chocada. Acho que fiquei impressionada com a descoberta do túmulo desta mulher.
— Nós também. Especialmente o operador da escavadeira. Vou chamá-lo de volta. Temos de passar a fiação antes de jogar o concreto no porão.
George sumiu casa adentro. Kim se aventurou até a beirada da vala e espiou o canto exposto do caixão de Elizabeth. A madeira estava em excelente estado para algo
enterrado há trezentos anos. Não parecia podre nem mesmo no local onde a escavadeira batera.
Kim não sabia o que pensar desta descoberta inesperada. Primeiro o retrato, agora o túmulo. Ficava cada vez mais difícil considerar estes achados mero acaso.
O som de um carro chamou sua atenção. Protegendo os olhos mais uma vez do sol do meio-dia, viu a aproximação de um carro que lhe era vagamente familiar. Vinha pela
estrada que cortava o campo, enchendo o ar com uma fina nuvem de poeira. Só foi reconhecê-lo quando parou ao seu lado. Pertencia a Kinnard.
Ansiosa, Kim caminhou até o veículo e abaixou-se ao lado da janela do carona.
— Que surpresa—disse Kim. — O que está fazendo longe do hospital?
Kinnard riu.
— As vezes me deixam sair da jaula.
— O que está fazendo em Salem? Como soube que eu estaria aqui?
— Marsha me contou — revelou Kinnard. — Eu a vi na UTI cirúrgica. Disse que estava a caminho de Salem para procurar um apartamento, já que vou passar os meses de
agosto e setembro no Hospital de Salem. Não quero morar no hospital durante dois meses. Lembra-se de eu ter mencionado este rodízio com o Hospital de Salem, não
é?
— Acho que me esqueci.
— Já faz alguns meses que lhe contei — disse Kinnard.
— Vai ver que contou mesmo — disse Kim. Não tinha a menor intenção de discutir. A situação em si não lhe era agradável.
— Está com a aparência boa — observou Kinnard. — Suponho que namorar o Dr. Edward Armstrong esteja lhe fazendo bem.
— Como soube quem estou namorando?
— Fofoca de hospital. Como escolheu namorar uma celebridade científica, o boato voa. O mais irônico de tudo é que eu o conheço. Trabalhei em seu laboratório quando
tirei um ano da faculdade para fazer pesquisa. Foi logo depois do meu segundo ano de medicina.
Kim sentiu o rosto queimar. Teria sido melhor não demonstrar reação alguma, mas nada podia fazer. Era óbvio que Kinnard estava tentando atingi-la e, como sempre,
conseguia.
— Cientificamente falando, Edward é um homem inteligente — continuou Kinnard. — Mas é meio... sabe, meio esquisito. Bem, talvez eu esteja sendo injusto. Talvez devesse
dizer que é excêntrico.
— Eu o acho atencioso e cortês.
— Imagino — disse Kinnard revirando os olhos. — Contaram das flores que lhe envia diariamente. Pessoalmente, acho um absurdo. O cara tem de ser muito inseguro para
chegar a um extremo destes.
Kim ficou rubra. Marsha devia ter lhe contado a respeito das flores. Com a mãe que tinha e uma amiga como Marsha, perguntava-se se ainda lhe restava algum segredo.
— Pelo menos Edward Armstrong não vai lhe irritar quando for esquiar. Sua coordenação motora é tal que subir um lance de escadas pode ser um desafio.
- Você está sendo infantil — declarou Kim com secura ao recuperar a fala. — Francamente, não lhe cai bem. Sempre achei que fosse mais maduro.
— Não importa — riu Kinnard, cinicamente. — Como dizem, meus horizontes tornaram-se mais amplos. Também estou começando um novo romance muito promissor.
— Fico muito feliz por você — disse Kim com sarcasmo.
Kinnard abaixou-se de forma a ver pela janela a escavadeira que recomeçava seu trabalho.
— Marsha me contou que você está reformando esta casa — disse. — O velho Dr. Armstrong virá morar com você?
Kim ia negar a possibilidade, mas parou a tempo. Então, disse:
— Tfemos pensado nisso, mas ainda não decidimos.
— Divirta-se, de um jeito ou de outro—disse Kinnard com igual dose de sarcasmo. — E tenha uma boa vida.
Kinnard engatou a ré, deu uma guinada para trás e outra para a frente. Jogou o carro em primeira e enterrou o pé no acelerador. Com uma chuva de terra, pedrinhas
e poeira, atravessou o campo como uma bala e sumiu por entre as árvores.
A primeira preocupação de Kim foi se proteger das pedras. Uma vez passado o perigo, olhou o carro de Kinnard até que sumisse de vez. Embora soubesse desde o momento
em que chegara que seu intuito era provocá-la, não fora capaz de evitá-lo. Passou alguns instantes se sentindo um trapo. Só começou a se acalmar quando voltou para
a beirada da vala e viu o caixão de Elizabeth mais uma vez. Comparando seus problemas aos de Elizabeth à mesma idade, achou os seus triviais.
Após se recuperar emocionalmente, Kim pôs mãos à obra. A tarde voou. Passou grande parte do tempo no escritório de Mark Stevens revendo os detalhes dos projetos
da cozinha e do banheiro. Para Kim, era um enorme prazer. Pela primeira vez em sua vida criava o ambiente onde ela própria viveria. Isto a fez se perguntar como
permitira que seus planos profissionais fossem frustrados tão facilmente.
As sete e meia, Mark Stevens e George Harris já estavam exaustos, mas Kim ainda estava a toda. Foi preciso que dissessem que seus olhos estavam embaçados para que
ela lembrasse que tinha mesmo que voltar à cidade. Acompanharam-na até o carro, agradeceram-lhe por ter vindo e prometeram que as obras andariam com rapidez.
Entrando em Cambridge, Kim nem tentou encontrar uma vaga na rua. Foi direto para o estacionamento do Charles e
andou até o Harvest Bar. O bar estava cheio, botando a freguesia de sexta à noite pelo ladrão. Muitos haviam ficado após a happy hour.
Kim procurou Edward, mas não o viu de imediato. Teve de se embrenhar pela multidão formada em torno do bar. Finalmente, o encontrou bebericando vinho branco numa
mesa atrás do bar. Assim que a viu, seu rosto se iluminou e ele se levantou apressado para puxar a cadeira para Kim.
Enquanto empurrava sua cadeira, Kim pensou que Kinnard jamais se daria a esse trabalho.
— Está com cara de quem precisa de um vinhozinho — disse Edward.
Kim fez que sim. Podia sentir que Edward estava animado com alguma coisa ou acanhado, pois gaguejava mais que o normal. Prestou atenção quando ele pediu duas taças
de vinho. Então, olhou para ela.
— Como foi seu dia? — perguntou.
— Cheio — respondeu Kim. — E o seu?
— Foi um grande dia!—disse Edward, animado. — Tenho boas notícias. As amostras de terra da despensa de Elizabeth deram um mofo com efeito alucinógeno. Acho que descobrimos
o que precipitou as acusações de bruxaria em Salem. A única coisa que não sabemos é se foi ergotismo ou algo inteiramente novo.
Edward então relatou o que ocorrera no escritório de Kevin Scranton.
Kim reagiu ao relato com preocupação e incredulidade.
— Você tomou uma droga sem saber o que era? Não é perigoso?
— Está parecendo o Kevin — riu Edward. — Estou cercado de pais sucedâneos. Não, não foi perigoso. A dosagem era pequena demais para ser perigosa. Mas, mesmo pequena,
certamente mostrou o poder alucinógeno do novo fungo.
— Isto me soa a imprudência — insistiu Kim.
— Mas não foi — disse Edward. —Até fiz exame de urina e de sangue esta tarde a pedido do Kevin. Ambos estavam normais. Acredite. Na verdade, estou melhor do que
bem. Estou
felicíssimo. Primeiro, quis que este novo fungo criasse a mesma mistura de alcalóides que o Claviceps para poder provar que o culpado de tudo era o ergotismo. Agora,
estou torcendo para que forme seus próprios alcalóides.
— O que são alcalóides? — indagou Kim. — O termo me é familiar, mas não saberia defini-lo.
— Alcalóides são um imenso grupo de compostos encontrados em plantas contendo nitrogênio — explicou Edward. — Eles lhe são familiares porque são muito comuns como
a cafeína, a morfina e a nicotina. Como pode imaginar, a maioria é farmacologicamente ativa.
— Por que está tão animado em encontrar novos alcalóides se são tão comuns?
— Porque já provei que qualquer que seja o alcalóide presente neste novo fungo, ele é psicotropicamente ativo. A descoberta de uma nova droga alucinógena pode abrir
muitas portas para a compreensão do funcionamento do cérebro. Elas invariavelmente se assemelham e imitam os neurotransmissores do próprio cérebro.
— Quando vai saber se encontrou novos alcalóides? — perguntou Kim.
— Logo — afirmou Edward. —Agora fale do seu dia. Kim respirou fundo e contou tudo o que lhe ocorrera, em ordem cronológica, começando pela conversa que tivera com
o pai e terminando com os toques finais no projeto da cozinha e do banheiro do chalé.
— Uau! — exclamou Edward. — Teve um dia agitado. Estou perplexo com a descoberta do túmulo de Elizabeth. O caixão está em bom estado?
— O que vi do caixão está. Estava enterrado a uma profundidade impressionante, quase três metros. Uma das extremidades estava exposta. Foi danificada pela escavadeira.
— Encontrar o túmulo mexeu com você? — perguntou Edward.
— De certa forma — disse Kim com uma risada breve e melancólica. — Pensar que o encontramos logo após o retrato
me dá uma sensação estranha. Mais uma vez senti que Elizabeth está tentando se comunicar comigo.
— Caramba! — exclamou Edward. —Acho que está prestes a ter mais um ataque de superstição.
Kim riu, apesar de sua seriedade.
— Me diga uma coisa—começou Edward, zombeteiro. — Você tem medo de gato preto? Tem medo de passar por baixo de escadas e de usar o número treze?
Kim hesitou. Era levemente supersticiosa, mas nunca pensara muito nisto.
— Então você é supersticiosa! Pense só no seguinte. Como tais crenças envolvem o ocultismo, você poderia ter sido considerada bruxa no século XVII.
— Certo, espertinho. Então sou um pouquinho supersticiosa. Mas você não acha que há coincidências demais envolvendo Elizabeth? Ainda fui descobrir que o calendário
de 1692 é igual ao deste ano, 1994. E também que Elizabeth morreu com a minha idade. E, como se não bastasse, nossos aniversários têm uma diferença de dois dias
um do outro. Portanto, somos do mesmo signo.
— O que quer que eu diga? — perguntou Edward.
— Pode me explicar estas coincidências? — devolveu Kim.
— Claro que sim. É puro acaso. É aquela velha história. Com um certo número de macacos e um certo número de máquinas de escreverf poderia produzir Hamlet.
— Ah, eu desisto — disse Kim com uma risada. Tomou um gole do vinho.
— Desculpe — disse Edward, encolhendo os ombros. — Eu sou um cientista.
— Deixe eu lhe dizer o que mais descobri hoje. As coisas não eram nada simples naquela época. Ronald foi casado três vezes. Sua primeira mulher morreu e lhe deixou
uma fortuna considerável. O fato foi contestado por um filho de sua esposa, de um casamento anterior. Ele então casou-se com Elizabeth poucos anos depois. Depois
da morte de Elizabeth, casou-se com sua irmã no mesmo ano.
— E daí?
— Não lhe soa meio suspeito?
— Não. Lembre-se de que a vida era muito dura naquele tempo. Ronald precisava criar os filhos. Além disso, casar-se com parentes do cônjuge morto não era incomum.
— Não estou bem certa. Fico me fazendo um monte de perguntas.
A garçonete apareceu e interrompeu a conversa para lhes informar que sua mesa estava pronta. Para Kim, foi uma grata surpresa. Não sabia que iriam comer no Harvest
e estava faminta.
Seguiram a garçonete até o terraço e sentaram-se sob uma árvore repleta de pequenas lâmpadas brancas. A temperatura estava perfeita; caíra bastante ao anoitecer.
Como não ventava, a vela sobre a mesa queimava languidamente.
Enquanto esperavam a comida, Kim mostrara Edward uma cópia do requerimento de Ronald. Ele a leu com grande interesse. Quando terminou, parabenizou Kim por seu trabalho
de detetive, pois ela conseguira provar que Elizabeth estivera realmente envolvida na história de bruxaria. Kim lhe contou o comentário de seu pai em relação a uma
possível conexão de Elizabeth com o ocultismo.
— Não foi o que sugeri? — Edward lhe lembrou.
— Então, você suporia que a tal prova conclusiva tem algo a ver com o ocultismo?
— Acho que não há dúvidas — disse Edward.
— Concordo, mas tem alguma idéia específica?
— Não sei o bastante sobre bruxaria para ser criativo.
— Que tal um livro? Ou alguma coisa escrita por ela?
— Pode ser — disse Edward. — Suponha que pudesse ser também algo que desenhou. Ou pelo menos algum tipo de imagem.
— Que tal um boneco? — sugeriu Kim.
— Boa idéia—disse Edward. Em seguida, fez uma pausa. — Já sei o que pode ter sido!
— O quê? — perguntou Kim, ávida.
— Sua vassoura! — disse Edward às gargalhadas.
— Ah, não brinque — disse Kim, embora ela mesma estivesse sorrindo. — Estou falando sério.
Edward pediu desculpas e explicou a origem da vassoura da bruxa na Idade Média. Naquela época era uma vara besuntada com um ungüento derivado de drogas alucinógenas
usada para provocar experiências psicodélicas quando introduzida junto às membranas mucosas íntimas.
— Chega. Já entendi.
A comida chegou. Não disseram mais nada até que o garçom se retirasse. Edward foi o primeiro a falar.
— O problema é que a prova pode ter sido inúmeras coisas e não há como ter certeza a não ser que encontrasse uma descrição. Que tal dar uma olhada nos registros
dos julgamentos?
— Pensei nisso, mas fui informada de que não restou registro algum do Tribunal Especial.
— É uma pena. Creio que isso lhe atire de volta no meio daquela desesperadora pilha de papéis.
— É — disse Kim sem entusiasmo. — Sem contar que não há garantia alguma de que esteja ali.
Enquanto jantavam, a conversa tomou rumos mais mundanos. Foi só quando estavam quase terminando a sobremesa que Edward voltou ao assunto do túmulo de Elizabeth.
— Qual é o estado de preservação do corpo de Elizabeth? — perguntou.
— Não vi o corpo — disse Kim, chocada com o tipo de pergunta. — O caixão não estava aberto. A escavadeira atingiu um canto mas o estrago foi mínimo.
— Talvez devêssemos abri-lo. Adoraria ter acesso a uma amostra... se é que existe algo reconhecível para se colher uma amostra. Se pudéssemos encontrar um resíduo
do tal alcalóide produzido por este novo fungo, teríamos uma prova definitiva de que o demônio de Salem era um fungo.
— Não acredito que sugeriu algo assim. A última coisa que quero fazer é mexer no corpo de Elizabeth.
— Lá vamos nós e nossas superstições outra vez. Compreende que sua posição é análoga a ser contra necropsias.
— Isto é diferente — disse Kim. — Ela já foi enterrada.
— Há gente sendo exumada todos os dias—disse Edward.
— Suponho que tenha razão — concordou Kim, relutante.
— Talvez devesse dar um pulo com você até lá amanhã. Poderíamos dar uma olhada juntos.
— Precisa de permissão para exumar um corpo.
— A escavadeira já fez grande parte do trabalho. Vamos dar uma olhada amanhã e decidir.
Edward pagou a conta. Kim agradeceu e disse que no próximo jantar ele seria seu convidado. Edward replicou que discutiriam o assunto.
Do lado de fora do restaurante houve um momento constrangedor. Edward a convidou para ir a seu apartamento, mas Kim objetou. Lembrou-lhe de que havia se sentido
desconfortável aquela manhã. Por fim resolveram a questão, ao menos temporariamente, concordando em ir ao apartamento de Edward para discuti-la.
Mais tarde, sentados no sofá de Edward, Kim lhe perguntou se se recordava de um estudante chamado Kinnard Monihan, que trabalhara em seu laboratório há quatro ou
cinco anos.
— Kinnard Monihan — disse Edward. Fechou os olhos e se concentrou. — São tantos os estudantes que passam pelo meu laboratório. Mas, sim, lembro dele. E pelo que
me lembro foi para o Hospital Geral fazer residência em cirurgia.
— Isso mesmo. Lembra-se bem dele?
— Lembro de ter ficado desapontado quando soube que ia fazer residência. Era um garoto inteligente. Esperava que fosse ficar em pesquisa. Mas por que pergunta?
— Namoramos durante alguns anos — disse Kim. Estava prestes a lhe contar sobre a discussão ocorrida na propriedade quando Edward a interrompeu.
— Você e Kinnard foram amantes? — perguntou Edward.
— Digamos que sim — replicou Kim, hesitante. Sentiu imediatamente que Edward se aborrecera. Seu comportamento e seus tópicos de conversa mudaram radicalmente. Kim
passou meia hora adulando-o, tentando fazer com que entendesse que
seu relacionamento com Kinnard terminara. Chegou até a pedir desculpas por ter mencionado seu nome.
Numa tentativa deliberada de mudar de assunto, perguntou se Edward já começara a pensar sobre o novo apartamento. Edward admitiu que ainda não tivera tempo. Kim
avisou que setembro chegaria rápido.
Com o passar das horas, nenhum dos dois questionou se Kim devia ou não ficar. Acabaram não decidindo. Ela ficou. Mais tarde, quando estavam lado a lado na cama,
Kim começou a pensar no que dissera a Kinard sobre Edward ir morar com ela. Dissera-o apenas para provocar Kinnard, mas agora começava a pensar seriamente na possibilidade.
A idéia tinha seus atrativos. O relacionamento com Edward continuava a dar frutos. Além do mais, o chalé era espaçoso. E isolado. Pensando bem, podia até ser que
fosse solitário.
Capítulo 5. SÁBADO, 23 DE JULHO DE 1994.
Kim acordou em etapas. Antes mesmo de abrir os olhos, já ouvia a voz de Edward. A princípio, incorporou-a ao sonho, depois, à medida que ia ficando mais consciente,
compreendeu que vinha de outro cômodo.
Com alguma dificuldade, conseguiu abrir os olhos. Primeiro, certificou-se de que Edward não estava na cama e depois olhou o relógio. Eram 5:45 da manhã.
Recostando-se mais uma vez no travesseiro e preocupada com a possibilidade de que algo estivesse errado, Kim tentava ouvir o que estava sendo falado, mas não conseguia.
A voz de Edward estava ininteligível, mas pelo tom Kim podia sentir seu excitamento.
Poucos minutos depois, Edward estava de volta. Vestia um roupão. Ao passar para o banheiro, pé ante pé, Kim lhe disse que estava acordada. Ele então voltou e sentou-se
ao pé da cama.
— Tenho excelentes notícias — sussurrou Edward.
— Pode falar normalmente. Estou acordada — repetiu Kim.
— Estive falando com Eleanor.
— As cinco e quarenta e cinco da manhã? Quem é Eleanor?
- Uma de minhas pós-doutorandas. Meu braço direito no laboratório.
— Não está muito cedo para conversas profissionais? — questionou Kim. Involuntariamente, pensou em Grace Traters, a suposta assistente de seu pai.
— Virou a noite no laboratório. Kevin mandou mais esclerócios do novo fungo ontem à noite. Eleanor ficou para preparar uma amostra bruta e passá-la pelo espectrômetro
de massa. Parece que os alcalóides não são os mesmos do Glaviceps pur-purea. Na verdade, parecem ser três alcalóides completamente novos.
— Estou feliz por você — disse Kim. Estava cedo demais para conseguir dizer mais do que isso.
— O mais empolgante de tudo é que sei que pelo menos um deles é psicoativo. Quem sabe, talvez os três sejam. — Esfregou as mãos com excitação como se fosse trabalhar
naquele instante. — Não posso lhe dizer o quanto isso pode ser importante — continuou. — Talvez tenhamos uma nova droga nas mãos, ou até mesmo uma família inteira
de novas drogas. Mesmo que não sejam clinicamente úteis, serão indubitavelmente valiosos instrumentos de pesquisa.
— Que bom — disse Kim. Esfregou os olhos; queria ir até o banheiro para escovar os dentes.
— É incrível o papel do acaso na descoberta de novas drogas. Imagine, encontrar uma nova droga devido ao julgamento das bruxas de Salem. Essa é melhor do que a descoberta
do Prozac.
— Foi descoberto por acaso? — perguntou Kim.
— Pode-se dizer que sim. O pesquisador-chefe estava mexendo com anti-histaminas e as testava dentro de um protocolo experimental que media seu efeito num neurotransmissor,
a norepinefrina. Seu produto final foi o Prozac, que não é uma anti-histamina e que afeta a serotonina, outro neurotransmissor, duzentas vezes mais do que afeta
a norepinefrina.
— Que incrível — disse Kim, embora não estivesse ouvindo. Sem seu café matinal sua mente não processava assuntos de tamanha complexidade.
— Mal posso esperar para começar a trabalhar com os novos alcalóides.
— Quer mudar de idéia quanto a Salem? — perguntou Kim.
— De jeito nenhum! — exclamou Edward sem hesitar. — Quero ver o túmulo. Vamos embora! Já que está acordada, vamos nessa! — Sacudiu a perna de Kim por cima da coberta.
Após tomar banho, secar o cabelo e pôr maquiagem, Kim deixou o apartamento na companhia de Edward em busca de mais um café da manhã, gorduroso porém saboroso, iem
Har-vard Square. Após a refeição, pararam em uma das muitas livrarias do local. A conversa do café da manhã incluíra uma discussão sobre o puritanismo. Como ambos
concordassem que sabiam muito pouco a respeito, compraram os livros indicados. Já passava das nove quando tomaram a direção do litoral norte do estado de Massachusetts.
Kim dirigiu, já que, mais uma vez, relutavam em deixar seu carro num estacionamento exclusivo para moradores, em frente ao apartamento de Edward. Seguindo a mesma
rota do sábado anterior, passaram pela Casa da Bruxa.
Edward agarrou o braço de Kim.
— Você já esteve na Casa da Bruxa! — perguntou.
— Muito tempo atrás. Por que está interessado?
— Não ria, mas estou sim. Você se importaria de pararmos um instante?
— Nem um pouco — disse Kim. Virou na Federal Street e estacionou perto do fórum. Quando chegaram à casa, descobriram que teriam de esperar. A Casa da Bruxa só abria
às dez. Não eram os únicos visitantes. Já havia um bom número de famílias e vários casais de pé, do lado de fora da velha construção.
— É incrível o apelo das bruxas de Salem — comentou Kim. — Será que as pessoas param para se perguntar por que o assunto lhes interessa tanto?
— Seu primo Stanton descreveu o episódio como morbida-mente sedutor.
— A expressão é a cara dele.
— Segundo ele, o que atrai é o fato de ser uma janela para
o sobrenatural. Eu até concordo. A maioria das pessoas é um pouco supersticiosa e a história de bruxaria estimula a imaginação.
— Concordo. Mas temo que haja também uma certa perversidade nesse apelo. O fato de pessoas terem sido executadas é crucial. Também não acho que foi por acaso que
houve mais bruxas do que bruxos envolvidos. Há um preconceito relacionado a sexo também.
— Cuidado com esta posição feminista. Acho que mais mulheres foram envolvidas devido ao seu papel na cultura colonial. Estavam associadas ao nascimento e à morte,
à saúde e à doença, muito mais do que os homens, e esses aspectos da vida eram envoltos numa aura de superstição e ocultismo. Não havia outra explicação.
— Acho que ambos estamos certos. Concordo com você, mas fíquei impressionada, com o pouco de pesquisa que fiz, com a falta de direitos legais das mulheres à época
de Elizabeth. Os homens tinham medo e descontavam nas mulheres. Havia misoginia envolvida.
Neste momento a porta da Casa da Bruxa se abriu. Foram cumprimentados por uma jovem num costume de época. Foi então que Edward e Kim souberam que a visita era guiada.
Todos entraram na sala e esperaram que a palestra começasse.
— Pensei que nos deixariam vagar por aí sozinhos — sussurrou Edward.
— Eu também.
Ouviram a jovem descrever os vários móveis do cômodo, incluindo um porta-bíblia que, segundo ela, era uma peça imprescindível num lar puritano.
— Estou perdendo o interesse. Talvez devêssemos ir embora.
— Por mim, tudo bem — concordou Kim.
Saíram. Quando chegaram à rua, Edward virou-se para olhar a casa.
— Na verdade, quis entrar para ver o quanto seu interior se assemelhava ao do chalé. É impressionante. É como se tivessem sido construídas com a mesma planta.
— Bem, como você mesmo disse, o individualismo não era encorajado naquele tempo — observou Kim.
Entraram mais uma vez no carro e partiram rumo à propriedade. A primeira coisa que Edward viu foi a vala. Ficou impressionado com o comprimento. Estendia-se do castelo
ao chalé. Quando foram até sua beirada, puderam ver que o túnel do alicerce já fora cavado.
— Ali está o caixão — apontou Kim. Ao seu redor a vala fora alargada consideravelmente.
— Mas que sorte! Atingiram justamente a parte superior do caixão. E tinha razão quanto à profundidade; esta vala deve ter uns três metros.
— Ela só é funda aqui perto do chalé. Mais à frente, onde cruza o campo, é bem mais rasa.
— Tem razão — concordou Edward enquanto se afastava da casa.
— Aonde vai? Não quer dar uma olhada na lápide?
— Quero examinar o caixão com mais cuidado — disse Edward. Assim que pôde, pulou dentro da vala e começou a voltar, descendo mais a cada passo dado.
Kim o observava, preocupada. Perguntava-se o que ele teria em mente.
— Tem certeza de que essa coisa não vai desabar? — perguntou, nervosa. Quando chegava muito perto da beirada, podia ouvir o barulho das pedras e da terra rolando
até o fundo.
Edward não respondeu. Já estava agachado, perscrutando a extremidade do caixão. Com a mão, raspou a terra que o circundava para senti-la por entre os dedos.
— Muito encorajador. É seco aqui embaixo e incrivelmente fresco.
Enfiou os dedos na junção entre a parte superior do caixão e sua lateral. Deu um puxão caprichado e a parte superior do caixão cedeu, caindo para o lado.
— Meu Deus! — murmurou Kim baixinho.
— Poderia pegar a lanterna lá no carro? — pediu Edward, olhando para dentro do caixão.
Embora não estivesse nada satisfeita com o que acontecia,
Kim fez o que ele pediu. Não gostava da idéia de profanarem o túmulo de Elizabeth mais do que já fora profanado. Chegando o mais perto da vala que lhe era possível,
jogou a lanterna para Edward.
Edward iluminou o interior do caixão com a lanterna.
— Estamos com sorte. O corpo foi mumificado pelo frio e pela secura do ar. Até mesmo a mortalha está intacta.
— Acho que já chega — afirmou Kim, embora fosse o mesmo que falar com as árvores. Edward não lhe deu ouvidos. Viu, horrorizada, enquanto Edward abaixava a lanterna
e suas mãos sumiam para dentro do caixão. — Edward! O que está fazendo?
— Só vou puxar o corpo um pouquinho para cima — explicou. Segurou a cabeça e começou a puxar. Como nada acontecesse, fincou o pé na parede da vala e puxou com mais
força. Para sua surpresa, a cabeça se soltou, fazendo com que se chocasse contra a parede oposta. Edward acabou sentado na vala com a cabeça mumificada de Elizabeth
no colo. Uma pequena chuva de terra caiu sobre sua própria cabeça.
Kim sentiu-se fraca. Teve que olhar para o outro lado.
— Nossa — disse Edward ao se levantar. Olhou a base da cabeça de Elizabeth. —Acho que quebrou o pescoço quando foi enforcada. É meio estranho, considerando-se que
o método de execução da época não era quebrar o pescoço e sim deixar que a pessoa ficasse pendurada até morrer estrangulada.
Edward pôs a cabeça no chão e ajeitou a extremidade solta do caixão. Martelou-a com uma pedra até prendê-la de volta no lugar. Quando se convenceu de que o caixão
voltara à sua aparência original, carregou a cabeça até um local de onde pudesse sair.
— Espero que não esteja achando isso tudo engraçado — disse Kim quando Edward chegou até ela. Recusou-se a olhar o objeto. — Quero que ponha isso de volta.
— Pode deixar — prometeu Edward. — Só quero colher uma amostra. Vamos ver se conseguimos encontrar uma caixa.
Irritada, Kim foi na frente. Maravilhava-se com sua capacidade de se envolver em tais situações. Edward pressentiu a
atitude e apressou-se em encontrar uma caixa do tamanho adequado. Colocou a cabeça na caixa e a pôs no carro. Voltando à casa, disse, ansioso:
— Que tal um giro?
— Quero essa cabeça de volta o mais rápido possível — avisou Kim.
— Pode deixar—disse Edward mais uma vez. Para mudar de assunto, entrou no anexo e fingiu admirar a armação do teto. Kim o seguiu e logo se distraiu. A obra progredira
de forma significativa. Descobriram que já haviam coberto o chão do porão. —Ainda bem que já peguei minhas amostras.
Quando estavam no segundo andar, inspecionando o trabalho de instalação do lavabo, Kim ouviu um carro se aproximar. Olhou pelo batente da janela e seu coração deu
um salto. Era seu pai.
— Ah, não! — gritou Kim. Uma ansiedade imensa foi se espalhando por seu corpo e suas mãos foram ficando suadas.
Sentindo seu desconforto, Edward perguntou:
— Está envergonhada por eu estar aqui?
— De modo algum! É por causa do túmulo de Elizabeth. Não diga nada sobre a cabeça. A última coisa que quero é lhe dar uma boa desculpa para interferir com esta reforma.
Desceram as escadas e saíram da casa. John estava em pé na beirada da vala, olhando o caixão de Elizabeth. Kim fez as apresentações. John foi educado mas seco. Levou
Kim até um canto.
— É uma coincidência desgraçada George Harris ter tropeçado nesse túmulo — disse. — Pedi que não comentasse a respeito e espero que faça o mesmo. Não quero que sua
mãe saiba. Acho que entra em parafuso. Vai passar mal um mês inteiro.
— Não tenho motivo algum para comentar com quem quer que seja.
— Francamente, estou surpreso dele estar aqui. Disseram-me que Elizabeth fora enterrada numa cova rasa a oeste do centro de Salem. E esse estranho que trouxe até
aqui? Sabe sobre o túmulo?
— Edward não é um estranho. E a resposta é sim, ele sabe sobre o túmulo de Elizabeth. Sabe até sobre Elizabeth.
— Pensei que havíamos concordado que você não sairia por aí falando a seu respeito.
— Não fui eu quem contou. Foi Stanton Lewis.
— Maldita seja a família de sua mãe — praguejou John enquanto voltava para o local onde Edward aguardava pacientemente.
— A história de Elizabeth Stewart é informação sigilosa. Espero que respeite esse fato.
— Compreendo — disse Edward, evasivo. Perguntou-se o que diria John se soubesse da cabeça no carro.
Aparentemente satisfeito, John voltou as atenções para o chalé. Por sugestão de Kim, aceitou dar uma breve olhada na construção. Foi realmente rápida. Já do lado
de fora, hesitou antes de ir embora. Olhou para Edward e disse:
— Kim é uma boa menina, sensata. E também muito amorosa.
— Também acho — concordou Edward.
John entrou no carro e se foi. Kim o olhou até sumir por entre as árvores.
— Ele possui uma fantástica capacidade de me irritar — fomegou Kim. — O problema é que não se toca do quão humilhante é ser tratada como uma adolescente e ser chamada
de menina,
- Pelo menos estava sendo lisonjeiro.
— Lisonjeiro uma ova! Na verdade foi um auto-elogio. É sua maneira de se congratular por eu ser um ser humano decente. Nunca foi um pai presente. Não tem a mínima
idéia de que ser um pai ou um marido de verdade significa bem mais do que pôr comida na mesa e um teto sobre nossas cabeças.
Edward abraçou Kim.
— Ficar irritada não leva a nada. Subitamente, Kim virou-se para Edward.
— Tive uma idéia ontem à noite. Que tal se mudar para o chalé comigo no dia primeiro de setembro?
Edward tropeçou nas palavras. Começou a gaguejar outra vez..
— Está sendo muito generosa — conseguiu dizer.
— Acho a idéia maravilhosa. O lugar é espaçoso e você teria mesmo que encontrar um apartamento novo. O que acha?
— Muito obrigado — gaguejou Edward. — Não sei bem o que dizer, talvez devêssemos conversar a respeito.
- Conversar? - perguntou Kim. Não esperara ser rejeitada. As flores de Edward ainda chegavam diariamente.
— Só estou com medo de ser um convite impulsivo — explicou Edward. — Acho que tenho medo de você mudar de idéia e depois não saber como me desconvidar.
— Ten certeza que é por isso que está relutante? — indagou Kim. Ficou na ponta dos pés e deu-lhe um abraço — Está bem, podemos conversar a respeito. Mas não vou
mudar de idéia.
Mais tarde, quando já haviam exaurido o assunto da reforma, Kim perguntou a Edward se se incomodaria em passar algum tempo no castelo, olhando a papelada antiga.
Explicou que seu comentário na noite anterior, sobre descobrir a natureza da prova usada contra Elizabeth, lhe renovara o ânimo. Edward respondeu que não se incomodaria,
que gostaria de acompanhá-la.
Ao chegar ao castelo, Kim sugeriu que tentassem o sótão em vez da adega. De início, Edward concordou; mas quando subiram até lá, constataram que fazia um calor insuportável.
Mesmo com as trapeiras abertas, o calor incomodava. Edward perdeu o interesse rapidamente.
— Não está se divertindo muito ou é só impressão? comentou Kim. Edward levara uma gaveta até a janela, mas em vez de examiná-la, olhava para fora.
— Acho que estou preocupado com os alcalóides. Estou ansioso para trabalhar com eles.
— Por que não pega o carro e volta para o laboratório? Mais tarde eu pego um trem.
— Grande idéia—disse Edward. — Mas deixe que eu pego o trem.
Após uma pequena discussão, ganha por Edward, já que Kim não teria como chegar até a estação mais tarde, voltaram ao chalé para pegar o carro. Na metade do caminho,
Kim lembrou da cabeça de Elízabeth no banco de trás.
— Sem problema. Vou levá-la comigo.
— No trem? — espantou-se Kim.
— E por que não? Está numa caixa.
— Quero essa cabeça de volta ao lugar o mais rápido possível. Vão cobrir aquela vala assim que passarem a fiação.
— Vou terminar com ela rapidamente — Edward lhe garantiu. — Só espero que haja algo nela para fazer uma amostragem. Se não, talvez pudesse tentar o fígado.
— Só vamos tocar naquele caixão de novo para devolver a cabeça. Especialmente com meu pai pairando sobre as nossas cabeças. O pior é que ele parece estar em contato
com o empreiteiro.
Kim o deixou no topo das escadas que levavam à estação. Edward levantou a caixa do banco traseiro.
— Quer me encontrar para jantar? — perguntou.
— Acho que não. É melhor voltar para o meu apartamento. Preciso lavar algumas roupas e tenho que levantar cedo para trabalhar.
— Podemos ao menos nos falar por telefone?
— Fechado.
Por mais que Edward gostasse de estar com Kim, ficou contente em voltar ao laboratório. Ficou particularmente feliz em ver Eleanor, que não esperara encontrar. Ela
fora para casa, tomara banho e dormira, mas somente durante quatro ou cinco horas. Disse que estava excitada demais para ficar em casa.
A primeira coisa que fez foi lhe mostrar o resultado da espectrometria de massa. Agora tinha certeza de que estavam lidando com três novos alcalóides. Após a conversa
com Edward naquela manhã, passara um bom tempo estudando os resultados; não eram provenientes de compostos já conhecidos.
— Ainda temos esclerócios? — inquiriu Edward.
— Alguns. Kevin Scanton disse que ia mandar mais, mas
não disse quando. Não quis sacrificar os que temos até falar com você. Como quer isolar os alcalóides, com solventes orgânicos?
— Primeiro vamos usar o aparelho de eletroforese capilar. Depois, se for preciso, passamos para a cromatografia capilar eletrocinética micelar.
— É para eu fazer uma amostra bruta, como fiz com o espectrômetro? — perguntou Eleanor.
— Não, vamos extrair os alcalóides com água destilada e precipitá-los com um ácido fraco. Foi o que fiz no laboratório de biologia e funcionou muito bem. Assim conseguimos
amostras mais puras, o que simplificará o trabalho estrutural.
Eleanor ia se dirigindo à sua bancada, mas Edward agarrou seu braço.
— Antes de começar a extração quero que faça outra coisa para mim.
Sem preâmbulos, abriu a caixa e sacou a cabeça mumificada. Eleanor se encolheu diante do espetáculo mórbido.
— Podia ao menos ter avisado.
— É, podia — disse Edward rindo. Pela primeira vez encarou a cabeça com olhar crítico. Era um tanto lúgubre. A pele era marrom-escura, quase cor de mogno. Secara
até atingir a textura de couro e se esticara por cima das protuberâncias ósseas, expondo os dentes num repulsivo sorriso. O cabelo era seco e emaranhado como palha
de aço.
— O que é? Uma múmia egípcia?
Edward lhe contou a história. Explicou também que trouxera a cabeça para o laboratório para checar se havia alguma amostra na abóbada craniana.
— Deixe-me adivinhar... quer que eu a passe pelo espectrômetro de massa.
— Exatamente. Ficaria elegante, cientificamente falando, se conseguíssemos mostrar picos correspondentes aos dos novos alcalóides. Seria a prova definitiva de que
esta mulher ingeriu o novo mofo.
Enquanto Eleanor corria até o Departamento de Biologia Celular para tomar emprestados instrumentos de dissecação
anatômica, Edward enfrentou os alunos de pós-graduação e assistentes que haviam chegado e que aguardavam, ansiosos, por um pouco de sua atenção. Respondeu às perguntas
e os mandou de volta às respectivas experiências. Quando estava prestes a terminar, Eleanor voltou.
— O instrutor de anatomia me disse que temos de arrancar a calota craniana inteira — disse Eleanor, erguendo uma serra elétrica vibratória.
Edward pôs mãos à obra. Refletiu o escalpo e expôs o crânio. Em seguida, pegou a serra e fez um buraco no crânio. Ele e Eleanor deram uma olhada em seu interior.
Não havia muita coisa. O cérebro contraíra-se numa massa compacta na parte posterior do crânio.
— O que acha? — perguntou Edward. Cutucou a massa com a ponta do bisturi. Era dura.
— Corte um pedaço e eu vejo se consigo dissolvê-la—disse Eleanor.
Edward procedeu conforme sua sugestão.
De posse da amostra, tentaram vários solventes. Sem saber o que tinham ao certo, introduziram várias amostras no espectômetro. Obtiveram uma correspondência logo
na segunda. "Vários dos picos correspondiam exatamente aos dos novos alcalóides do extrato bruto testado por Eleanor na noite anterior.
— A ciência não é maravilhosa? — comentou Edward alegremente.
— Um tesão — concordou Eleanor.
Edward foi até sua mesa e ligou para a casa de Kim. Como previra, atendeu a secretária eletrônica. Após o bip, deixou um recado explicando que no caso de Elizabeth
Stewart o diabo de Salem tinha explicação científica.
Desligando o telefone, voltou para o lado de Eleanor. Estava de excelente humor.
— Está certo, chega de brincadeira — disse. — Vamos à ciência de verdade. Vamos ver se conseguimos separar esses novos alcalóides e descobrir o que temos nas mãos.
- É impossível — disse Kim. Empurrou a gaveta de um dos arquivos com o quadril. Estava calorenta, empoeirada e frustrada. Depois de levar Edward à estação de trem,
voltara para o sótão e fizera uma inspeção geral de quatro horas indo da ala dos empregados até a ala dos hóspedes. Não só não encontrara nada de significativo,
como também não achara material algum do século XVII. — Não vai ser nada fácil — disse. Seus olhos vasculharam a profusão de arquivos, baús, caixas e escrivaninhas
que se estendiam até o alcance de seus olhos. A quantidade de material era intimidante. Havia ainda mais coisas no sótão do que na adega. E, como no caso da adega,
não havia ordem de assunto ou cronológica. De uma página para a outra, percor7 riam-se séculos e os assuntos pulavam de dados mercantis para registros de negociações,
passando por recibos, documentos oficiais do governo e correspondência pessoal. A única maneira de saber o que havia era ler página por página.
Diante de tal realidade, Kim conscientizou-se da sorte que tivera na segunda-feira, quando achara a carta que James Flanagan escrevera a Ronald Stewart em 1679.
Tivera a impressão errônea de que pesquisar Elizabeth no castelo seria uma investida agradável ou, no mínimo, fácil.
Finalmente, a fome, o cansaço e o desânimo venceram, ao menos temporariamente, o comprometimento de Kim em descobrir a natureza da prova conclusiva usada contra
Elizabeth. Desesperada por um banho, Kim desceu do sótão e saiu para a tarde quente de verão. Entrando no carro, começou a viagem de volta a Boston.
Capítulo 6. SEGUNDA-FEIRA, 25 DE JULHO DE 1994.
Edward acordou após quatro horas de sono. Eram cinco da manhã. Quando se interessava por um projeto precisava de menos horas de sono. Neste instante, sua excitação
era imensa como jamais sentira. Sua intuição científica lhe dizia que tropeçara em algo realmente grande e sua intuição científica nunca falhava.
Ao saltar da cama, levou Buffer a um paroxismo de latido. O pobre cachorrinho pensou se tratar de alguma emergência. Foi preciso que Edward o sacudisse de leve para
que voltasse ao normal.
Após cumprir seu ritual matutino às pressas e levar Buffer para um breve passeio, Edward foi de carro até o laboratório. Chegou um pouco antes das sete. Eleanor
já havia chegado.
— Não tenho conseguido dormir direito — admitiu ela. Seus cabelos, normalmente penteados com esmero, encontravam-se em discreto desalinho.
— Nem eu — disse Edward.
Haviam trabalhado no sábado até uma hora da manhã e domingo, o dia inteiro. Estavam tão perto de sua meta, que Edward cancelara até mesmo um encontro com Kim. Quando
lhe explicou o quão perto ele e Eleanor estavam do sucesso, Kim fora compreensiva.
Finalmente, pouco depois da meia-noite de domingo, Edward e Eleanor haviam aperfeiçoado uma técnica de separação. As dificuldades haviam sido, em grande parte, devido
a dois dos alcalóides compartilharem inúmeras propriedades físicas. Agora precisavam apenas de mais material. Como que em resposta às suas preces, Kevin Scranton
telefonara dizendo que mandaria mais uma batelada de esclerócios naquela manhã.
— Quero tudo pronto para quando o material chegar — disse Edward.
— Sim, senhor — respondeu Eleanor, juntando os calcanhares e batendo continência. Edward tentou lhe dar um pequeno cascudo na cabeça, mas ela foi mais rápida que
ele.
Depois de quase uma hora de trabalho febril, Eleanor cutucou seu braço.
— Está ignorando seu rebanho intencionalmente! — perguntou baixinho, mostrando algo por cima do ombro.
Edward se esticou e viu que seus alunos perambulavam sem rumo pelo laboratório, esperando que ele se dirigisse a eles. Não notara sua presença. O grupo aumentara
gradualmente à medida que mais pessoas iam chegando para trabalhar. Todos tinham suas perguntas habituais e precisavam de seus conselhos.
— Ouçam! — gritou Edward. — Hoje estão por conta própria. Estou muito ocupado. Tenho um projeto que não pode esperar.
Em meio a alguns resmungos, a multidão se dispersou aos poucos. Edward não notou sua reação. Voltou imediatamente ao trabalho e, quando trabalhava, seu poder de
concentração era legendário.
Alguns minutos depois, Eleanor cutucou seu braço mais uma vez.
— Lamento incomodá-lo, mas o que vai fazer a respeito da aula das nove?
— Droga! Estava convenientemente bloqueada na minha
mente. Mande Ralph Carter em meu lugar. — Ralph Carter era um de seus assistentes sêniores.
Dali a alguns instantes, Ralph apareceu. Era um rapaz alto, de barba, com um rosto incrivelmente largo de bochechas rosadas.
- Quero que ensine o curso básico de bioquímica deste verão — disse Edward.
— Durante quanto tempo? — perguntou Ralph. Sua falta de entusiasmo era patente.
— Eu lhe avisarei.
Depois que Ralph se fora, Edward virou-se para Eleanor:
— Odeio comportamento passivo-agressivo. É a primeira vez que peço para alguém me substituir numa aula de química básica.
— Ninguém tem o seu comprometimento com o ensino de cursos básicos — explicou Eleanor.
Conforme o prometido, os esclerócios chegaram um pouco depois das nove. Vieram num pequeno pote de vidro. Edward desatarraxou a tampa e despejou os grãos parecidos
com arroz escuro num filtro de papel. Manuseava-os como se fossem pepitas de ouro.
— Pequenininhas, estas coisinhas — disse Eleanor. — Parecem cocô de rato.
— A mim lembram sementes em pães de centeio. Assim a metáfora ganha maior significado histórico.
— Está pronto para trabalhar? — perguntou Eleanor.
— Vamos nessa.
Antes do meio-dia, Edward e Eleanor haviam produzido uma pequena quantidade de cada alcalóide. As amostras encontravam-se em tubos de ensaio classificados como A,
B e C. A aparência dos três era idêntica: três pós brancos.
— Qual é o próximo passo? — perguntou Eleanor, examinando um dos tubos contra a luz.
— Tfemos que descobrir quais são psicoativos. Em seguida nos concentraremos nos que forem.
— E o que vamos usar para os testes? Gânglios de Aplasia fasciatal. Eles certamente indicariam quais são neuroativos.
Edward balançou a cabeça.
— Não basta. Quero saber quais causam reações alucinógenas e quero respostas rápidas. Para isto precisamos de um cérebro humano.
— Não podemos usar voluntários pagos! — exclamou Elea-nor, consternada. — Seria escandalosamente pouco ético.
— Tem razão. Só que não tenho a mínima intenção de usar voluntários pagos. Basta eu e você.
— Não sei se quero me envolver nessa história — disse Eleanor, hesitante. Começava a entender as intenções de Edward.
— Com licença — disse uma outra voz. Era Cindy, uma das secretárias do departamento. — Dr. Armstrong, sinto interrompê-lo, mas há um Dr. Stanton Lewis no escritório
querendo vê-lo.
— Diga que estou ocupado. — Mas quando Cindy ia saindo, Edward a chamou de volta. — Pensando bem, mande-o entrar.
— Não estou gostando nada deste brilho nos seus olhos — disse Eleanor enquanto aguardavam a chegada de Stanton.
— É perfeitamente inocente. — Edward sorriu. — É claro que não vou me opor se o Sr. Lewis quiser se tornar um dos principais investigadores deste estudo. Não, sério,
eu quero realmente conversar com ele sobre o que estamos fazendo.
Stanton adentrou o laboratório com sua costumeira loqua-cidade. Ficou especialmente satisfeito em encontrar Edward e Eleanor juntos.
— Minhas duas pessoas favoritas! Para partes diferentes do meu cérebro, é claro. — Riu daquilo que considerou uma piada imprópria, mas Eleanor foi mais rápida do
que ele dizendo que não soubera que ele mudara sua preferência sexual.
— Como assim? — perguntou Stanton. Estava genuinamente perplexo.
— Simplesmente porque tenho a mais absoluta certeza de que sua atração por mim é puramente intelectual — explicou Eleanor. — Resta então o Edward para preencher
seus instintos mais básicos.
Edward soltou uma gargalhada. O forte de Stanton eram
as respostas rápidas, e jamais o vira derrotado em seu próprio jogo. Stanton riu também e assegurou a Eleanor que sua perspicácia sempre conseguira cegá-lo diante
de seus outros atrativos.
Stanton então virou-se para Edward.
— Está certo. Acabou-se a farra. Como vai o prospecto da Genetrix?
— Ainda não tive tempo de olhá-lo — admitiu Edward.
— Você prometeu — avisou Stanton. — Será que terei de falar para minha prima não sair mais com você porque não é de confiança?
— Que prima? — indagou Eleanor, dando uma leve cotovelada nas costelas de Edward.
O rosto de Edward ficou rubro. Era raro que gaguejasse no laboratório, mas desta vez gaguejou. Não queria falar sobre Kim.
— Não tenho tido tempo para ler — balbuciou. — Algo aconteceu que talvez seja de seu interesse.
— É bom que seja mesmo—brincou Stanton. Deu alguns tapinhas nas costas de Edward e disse que estava apenas brincando quanto a Kim. — Eu jamais interferiria no que
diz respeito a meus dois pombinhos. Soube pela minha tia que o velho John surpreendeu os dois lá em Salem. Espero que não tenha sido flagrante delito, seu malandrão.
Edward tossiu nervosamente enquanto fazia um sinal para que Stanton se sentasse. Mudou rapidamente de assunto, entrando logo na história do novo fungo e dos novos
alcalóides. Contou a Stanton que ao menos um deles era psicoativo e lhe contou como descobrira. Entregou os três tubos de ensaio para Stanton relatando que acabavam
de isolar os novos compostos.
— Que bela história — disse Stanton, pousando os tubos na bancada. — Mas por que achou que seria de meu interesse especificamente? Sou um cara prático. Não me sinto
atraído pelos exotismos esotéricos que fazem a festa de tipos acadêmicos como você.
— Acho que estes alcalóides vão ter um uso prático. É possível que estejamos prestes a descobrir uma série de novas
drogas psicotrópicas que, no mínimo, terão aplicações para a pesquisa.
A mudança na postura de Stanton foi visível. Seu ar casual desapareceu.
— Novas drogas? Isto é interessante. Há alguma possibilidade de virem a ser usadas clinicamente?
— Sim, as chances são grandes. Especialmente se levarmos em conta as técnicas de modificação molecular disponíveis na química sintética moderna. Além do mais, me
senti estranhamente energizado e minha mente me pareceu clara após a experiência psicodélica com o extrato bruto. Acredito que estas drogas possam ser mais do que
meramente alucinógenas.
— Minha nossa! — exclamou Stanton. Seu tino comercial fazia seu coração bater mais rápido. — Isto pode vir a ser algo imenso.
— É o que estamos achando.
— Estou falando de ganhos financeiros exorbitantes.
— Nosso interesse principal está nos benefícios que esse novo grupo de drogas psicoativas trará para a ciência. Estamos aguardando um novo passo na compreensão do
funcionamento da mente. Quem sabe? Talvez seja isto aqui. Se for, temos que achar uma forma de financiar sua produção em grande escala. Os pesquisadores de todo
o mundo clamarão por isso.
— Que beleza! Fico muito feliz que você tenha metas tão nobres. Mas por que não almejar as duas coisas? Você pode ganhar muito dinheiro.
— Não estou interessado em ficar milionário. Você já devia saber disso.
— Milionário? — perguntou Stanton com uma risada escarninha. — Se esta nova linha de drogas é eficaz contra a depressão ou ansiedade, ou contra ambas, podemos estar
falando de uma molécula de um bilhão de dólares.
Edward começou a lembrar a Stanton de que agiam sob um sistema de valores diferentes, mas parou. Seu rosto ficou sem expressão. Perguntou a Stanton se dissera um
bilhão.
— Eu disse uma molécula de um bilhão de dólares! — repetiu Stanton. — Não estou exagerando. A experiência do
Librium, depois a do Valium e agora a do Prozac já provou que a sociedade tem um apetite insaciável para drogas psicotrópicas de uso clínico eficaz.
O olhar de Edward se perdeu a léguas do quadrilátero central da Faculdade de Medicina de Harvard. Quando falou, sua voz tinha um tom monótono, como se estivesse
em transe.
— Do seu ponto de vista e com sua experiência, o que teríamos de fazer para tirar proveito de tal descoberta?
— Pouca coisa — respondeu Stanton. — Teriam que fundar uma companhia e patentear a droga. É simples. Mas, até lá, o sigilo é de suma importância.
— Vimos mantendo tudo em segredo — disse Edward, ainda agindo de forma distraída. — Só soubemos que estamos lidando com algo inteiramente novo há alguns dias. Eleanor
e eu somos os únicos envolvidos. — Não mencionou o nome de Kim por medo da conversa voltar a ela.
— Quanto menos pessoas souberem, melhor. Eu poderia me adiantar e fundar a companhia caso as coisas continuem a parecer promissoras.
Edward massageou os olhos e depois o rosto. Respirou fundo, parecendo acordar do transe.
— Estamos pondo o carro na frente dos bois. Eleanor e eu ainda temos muito trabalho pela frente antes de termos certeza de que tropeçamos em algo que realmente valha
a pena.
— Qual é o próximo passo? — indagou Stanton.
— Que bom que perguntou. — Afastou-se da bancada e caminhou até um armário contendo vários tipos de frascos de vidro. — Eleanor e eu estávamos justamente falando
nisso. A primeira coisa a fazer é determinar qual desses compostos é psicotrópico.
Edward levou três frascos até onde estavam Stanton e Eleanor. Colocou uma quantidade minúscula de cada alcalóide em cada frasco e os encheu com um litro de água
destilada. Agitou-os vigorosamente.
— Como fará isso? — inquiriu Stanton, muito embora, pela história contada por Edward, já imaginasse.
Edward sacou três pipetas de um mililitro de dentro de uma gaveta.
— Alguém me acompanha? — perguntou. Stanton e Elea-nor nada disseram. — Quanta covardia — riu Edward e em seguida acrescentou:—Estou brincando. Na verdade quero
que estejam presentes, por via das dúvidas. A festa é minha.
Stanton olhou para Eleanor.
— Este cara é doido?
Eleanor olhou para Edward. Sabia que a experiência era arriscada, mas jamais conhecera alguém tão brilhante quanto ele, especialmente no campo da bioquímica.
— Está convencido de que é seguro, não está?—perguntou.
— Não menos seguro que dar alguns tapinhas num baseado. Cada mililitro contém, no máximo, alguns milionésimos de um grama. Além disso, já tomei um extrato muito
menos refinado do que este sem efeito nocivo algum. Estas amostras estão relativamente puras.
— Então tá—disse Eleanor. — Me dê uma destas pipetas.
— Tem certeza? — indagou Edward. — Não estou coagindo ninguém. Não me importo de tomar todas três.
— É claro que tenho certeza — afirmou Eleanor pegando uma pipeta.
— E você, Stanton? — perguntou Edward. — Esta é sua chance de participar da verdadeira ciência. Sem contar que, se quiser mesmo que eu leia esse raio de prospecto,
você bem que poderia me fazer um favor também.
— Suponho que, se vocês dois acham que é seguro, eu poderia fazê-lo—disse Stanton, hesitante.—Mas acho melhor você ler o prospecto, se não, vai descobrir em breve
que tenho amigos na Máfia. — Stanton pegou outra pipeta.
— Cada um que escolha seu veneno — brincou Edward, mostrando os frascos.
— Acho bom reformular esta frase, do contrário desisto de participar — avisou Stanton.
Edward riu. Divertia-se com o desconforto de Stanton. Quantas vezes vivera a situação inversa?
Stanton deixou que Eleanor escolhesse primeiro e depois pegou um dos outros dois frascos.
— Está parecendo uma roleta-russa farmacológica—disse. Eleanor riu e lhe disse que era esperto demais para o seu próprio bem.
— Não esperto o bastante para não me envolver com dois doidos.
— Primeiro as damas — disse Edward.
Eleanor encheu sua pipeta e colocou um mililitro na ponta da língua. Edward a encorajou a tomar um copo de água logo em seguida.
Os dois a observavam em silêncio. Vários minutos se passaram até que Eleanor finalmente encolheu os ombros.
— Nada. Exceto por uma elevação do meu batimento cardíaco, não senti nada.
— Proveniente de terror puro — diagnosticou Stanton.
— Agora é você—disse Edward, apontando para Stanton. Stanton encheu sua pipeta.
— É um absurdo. As coisas que faço para conseguir botar você no meu conselho científico! — reclamou. Depositou uma pequena gota na língua e bebeu um copo de água.
— É amargo. Mas não estou sentindo nada.
— Calma, aguarde mais alguns segundos até o sangue circular. — Enquanto enchia sua própria pipeta, Edward começou a ter dúvidas. Perguntava-se se poderia ter havido
alguma outra substância hidrossolúvel no extrato bruto que pudesse ter causado sua reação psicodélica.
— Acho que estou meio tonto — relatou Stanton.
— Bom — respondeu Edward. Suas dúvidas começavam a se dissipar. Lembrou-se de que sua primeira reação com o extrato bruto fora tontura. — Sente mais alguma coisa?
De repente, Stanton retesou o corpo e fez uma careta enquanto os olhos vasculhavam a sala.
— Está vendo alguma coisa? — indagou Edward.
— Cores. Vejo cores em movimento.
Começou a descrever as cores da maneira mais detalhada,
mas parou de repente e gritou, apavorado. Pondo-se de pé em sobressalto, começou a esfregar os braços sem parar.
— O que foi?
— Estou sendo picado por insetos — disse Stanton, ainda tentando se livrar da praga imaginária. Então começou a sufocar.
— O que está acontecendo agora?
— Meu peito está apertado! — grasnou Stanton. — Não consigo engolir.
Estendeu o braço e agarrou o de Edward. Eleanor pegou o telefone e começou a discar, mas Edward lhe disse que estava tudo bem. Stanton já se acalmara. Seus olhos
se fecharam e um sorriso enorme espalhou-se pelo seu rosto. Edward o fez sentar numa cadeira.
Stanton respondeu às suas perguntas de forma vagarosa e relutante. Disse que estava ocupado e que não queria ser incomodado. Quando lhe perguntaram com o que se
ocupava, disse simplesmente:
— Com coisas.
Passados vinte minutos, o sorriso de Stanton foi sumindo. Durante alguns instantes parecia estar dormindo, então seus olhos foram se abrindo lentamente.
A primeira coisa que fez foi engolir.
— Minha boca está parecendo o Saara. Quero um gole de alguma coisa.
Edward encheu um copo com água e entregou-o a Stanton. Este o bebeu com sofreguidão e pediu um segundo.
— Nossa, minutinhos agitados estes — afirmou Stanton. — Diria até que foram divertidos.
— Foram vinte minutinhos — informou Edward.
— Fala sério? — perguntou Stanton.
— Em geral, como se sente?
— Maravilhosamente calmo.
— E que tal clarividente?
— É uma boa descrição. Sinto-me como se pudesse lembrar de qualquer tipo de coisa com uma clareza absurda.
— Foi assim que me senti. E a sensação de estar sufocando?
- Que sensação de estar sufocando? — espantou-se Stanton.
— Você reclamou que estava com a sensação de estar sufocando. Também reclamou que haviam insetos lhe picando.
— Não me lembro.
— Bem, deixa pra lá. O importante é que sabemos que o composto B é definitivamente alucinógeno. Vamos ver como é o terceiro.
Edward tomou sua dose. Como haviam feito com Eleanor, esperaram vários minutos. Nada aconteceu.
— Um de três é o bastante para mim. Agora sabemos em qual dos alcalóides nos concentrarmos.
— Talvez devêssemos simplesmente engarrafar este negócio e vendê-lo do jeito que está—brincou Stanton. —A geração dos anos 60 vai adorar. Sinto-me ótimo, quase eufórico.
É claro que talvez esteja reagindo ao alívio de ter acabado a experiência. Devo admitir que senti medo.
— Que eu me lembre, também me senti eufórico. Como nós dois nos sentimos assim, talvez seja devido ao alcalóide. De qualquer forma, sinto-me encorajado. Creio que
temos uma droga psicodélica com algumas propriedades calmantes, assim como anestésicas.
— E essa sensação de clarividência? — perguntou Stanton.
— Gostaria de crer que é proveniente de um aumento da atividade cerebral. Assim, talvez tenha algum efeito antidepressivo.
— Isto soa como música para os meus ouvidos. E agora, qual é o próximo passo?
— Primeiro, devemos nos concentrar em sua química — relatou Edward. — Ou seja, estrutura e propriedades físicas. Quando obtivermos a estrutura trabalharemos na síntese
da droga para diminuir nossa dependência da extração feita diretamente do mofo. Finalmente trabalharemos funções fisiológicas, assim como estudos de toxicidade.
— Toxicidade? — perguntou Stanton, lívido.
— Você tomou uma dose minúscula — lembrou-lhe Edward. — Não se preocupe, não terá problema algum.
— Como vai analisar os efeitos fisiológicos da droga?
— Será um processo em várias etapas. Lembre-se de que a maioria dos compostos de efeito psicodélico imita um dos neurotransmissores do cérebro. O LSD, por exemplo,
está relacionado à serotonina. Nossos estudos começarão com neurônios de células simples, depois usaremos sinaptossomas, que são preparados de material cerebral
vivo, moído e centrifugado, e finalmente envolverá sistemas neurocelulares intactos, como os gânglios de invertebrados.
— Nada de cobaias?
— Eventualmente usaremos camundongos e ratos. Talvez até macacos. Mas isso será mais adiante. Teremos também que analisá-la em nível molecular. Teremos que caracterizar
o ponto de ligação e a transdueção da mensagem para o interior da célula.
— Me parece um projeto para vários anos — observou Stanton.
— Temos muito trabalho pela frente — disse Edward, sorrindo para Eleanor. Ela assentiu com a cabeça. — É muito excitante. Talvez seja uma chance única.
— Bem, mantenha-me informado — disse Stanton, pon-do-se de pé. Deu alguns passos para testar o equilíbrio. — Devo dizer que me sinto ótimo.
Stanton chegou à porta do laboratório e deu meia-volta. Edward e Eleanor já haviam voltado ao trabalho.
— Lembre-se de que prometeu ler o raio do prospecto. Estou contando com isso, por mais ocupado que esteja.
— Vou ler. Só não disse quando.
Stanton levou o indicador à têmpora e puxou um gatilho imaginário.
— Kim, ligação para você na linha um — gritou o atendente da unidade.
— Anote o recado — gritou Kim de volta. Encontrava-se ao lado de um paciente, ajudando a enfermeira que cuidava do caso.
- Vá atender o telefone — disse a enfermeira. — Graças a você, as coisas já estão sob controle.
— Tem certeza?
A enfermeira fez que sim.
Kim atravessou a UTI cirúrgica correndo, driblando um engarrafamento de maças. Fora um ir e vir de pacientes o dia inteiro. Pegou o fone esperando ser o laboratório
de química ou o banco de sangue. Ligara para os dois.
— Espero não estar telefonando numa hora imprópria — disse uma voz
— Quem está falando?
— George Harris, seu empreiteiro de Salem. Estou retornando sua chamada.
— Desculpe — disse Kim. Esquecera que tinha lhe telefonado algumas horas antes. — Não reconheci sua voz.
— Peço-lhe desculpas por ter demorado tanto a telefonar. Estava na obra. Em que posso lhe ajudar?
— Eu queria saber quando vai cobrir a vala — disse Kim. A pergunta lhe ocorrera no dia anterior, causando-lhe alguma ansiedade. Não sabia o que faria se a vala fosse
coberta antes de colocarem a cabeça de Elizabeth de volta no caixão.
— Provavelmente amanhã de manhã. Algum problema?
— Não. Apenas curiosidade. Como vai o trabalho?
— Sem problemas — respondeu George.
Kim abreviou a conversa e desligou. Em seguida, ligou para Edward. Sua ansiedade ia aumentando enquanto esperava que a ligação completasse.
Conseguir falar com Edward ao telefone não era tarefa das mais fáceis. Primeiro a secretária se recusou a localizá-lo, dizendo que Edward retornaria a chamada. Depois
de muito insistir, Kim finalmente venceu.
— Que bom que ligou—disse Edward, assim que atendeu. — Tenho mais boas notícias. Não só separamos os alcalóides como também já concluímos qual deles é psicoativo.
— Que bom. Só que temos um problema. Precisamos levar a cabeça de Elizabeth de volta a Salem.
— Podemos levá-la este fim de semana.
— Será tarde demais. Acabo de falar com o empreiteiro e ele me disse que a vala será coberta amanhã de manhã.
— Ah, não, as coisas estão acontecendo numa velocidade vertiginosa por aqui. Eu detestaria ter que me afastar. Não podiam esperar para encher a vala depois do fim
de semana?
— Não perguntei e não quero perguntar. Precisaria de uma razão e a única razão plausível envolveria o caixão. O empreiteiro está em contato com meu pai e não quero
que ele desconfie que o caixão foi profanado.
— Que droga!
Houve uma pausa pouco confortável.
— Você prometeu que devolveria aquela coisa o mais rápido possível — lembrou Kim.
— É, mas tinha de ser agora? — Após uma breve pausa, acrescentou: — Já sei! Por que não a leva sozinha?
— Não sei se seria capaz. Eu não gostaria de olhar para ela, quanto mais tocá-la.
— Não precisará tocá-la. Basta abrir a extremidade do caixão e enfiar a caixa lá dentro. Não precisa nem abri-la.
— Edward, você prometeu!
— Por favor, Kim! Encontrarei alguma forma de lhe retribuir o favor. É só que estou muito ocupado no momento. Começamos a analisar a estrutura.
— Está certo — concordou Kim. Quando alguém chegado a ela lhe pedia alguma coisa, não sabia negar. Não que se importasse em fazer a viagem até Salem. Sabia que devia
checar o andamento da obra com a maior freqüência possível. Talvez colocar a caixa no caixão não fosse tão ruim assim...
— Como vou pegar a caixa? — perguntou.
— Para facilitar sua vida mandarei um portador. Assim já estará aí quando sair do trabalho. Está bem assim?
— Eu lhe ficaria muito grata.
— Ligue aqui para o laboratório quando chegar. Ficarei aqui até pelo menos a meia-noite, talvez até mais.
Kim voltou para o trabalho preocupada. A ansiedade que sentira ao saber que a vala seria coberta tão cedo ainda não
desaparecera. Pelo que conhecia de si mesma, só ficaria sossegada quando pusesse a cabeça de volta no caixão.
Enquanto Em corria para lá e para cá entre os vários leitos, cuidando de seus pacientes, sentia-se irritada por ter permitido que Edward levasse a cabeça. Quanto
mais pensava em ter que pô-la de volta, menos a idéia lhe agradava. Embora a sugestão de deixá-la na caixa de papelão parecesse razoável inicialmente, sentiu que
seu senso de decoro não lhe permitiria fazer tal coisa. Sentia-se obrigada a devolver ao túmulo sua aparência original Isto implicaria em ter de jogar a caixa fora
e manipular a cabeça, coisa que não ansiava fazer.
O trabalho afastou finalmente sua preocupação com Elizabeth. Enquanto cuidava de seus pacientes, o tempo voou. Mais tarde, enquanto se concentrava num tubo intravenoso,
o atendente da unidade bateu em seu ombro.
— Chegou uma encomenda para você — disse, apontando para um mensageiro, muito sem jeito, de pé ao lado do balcão central. — Tem que assinar o recibo.
Kim olhou para o mensageiro. Era óbvio que o ambiente da unidade de tratamento intensivo cirúrgico o intimidava. Apertava uma prancheta contra o peito. Perto de
seu cotovelo havia uma caixa de formulário contínuo amarrada com barbante. No mesmo instante, Kim compreendeu o que havia dentro da caixa e seu coração deu um salto.
— Disseram a ele que seria entregue, mas insistiu que tinha ordens de entregá-la em mãos.
— Pode deixar que cuido disso — disse Kim, nervosa. Foi até o balcão com o atendente colado em seus calcanhares. Para sua profunda consternação, a situação, que
já não era boa, piorou. Kinnard surgiu por trás do balcão e olhava o recibo endereçado a Kim. Ela não o via desde a discussão ocorrida na propriedade.
— O que temos aqui? — indagou Kinnard.
Kim pegou a prancheta do mensageiro e assinou apressada.
— Entrega especial — disse o atendente.
— Está se vendo. E também que vem do laboratório do Dr. Edward
Armstrong. A pergunta porém seria: o que poderia conter?
— Não diz no recibo — informou o atendente.
— Me dê essa caixa — disse Kim severamente. Esticou-se por cima do balcão para tomá-la de Kinnard, mas ele deu um passo atrás.
Ele lançou um sorriso desdenhoso:
— Foi enviada por um dos muitos admiradores da Srta. Stewart — disse ao atendente. — São bombons, provavelmente. Muito engenhoso, embalá-los numa caixa de formulário
contínuo.
— É a primeira vez que alguém aqui da UTI recebe uma encomenda via entrega especial — comentou o atendente.
— Me dê essa caixa — repetiu Kim. Seu rosto enrubesceu só de imaginar a caixa caindo no chão e a cabeça de Elizabeth rolando pela UTI.
Kinnard chacoalhava a caixa e escutava com atenção. Do outro lado do balcão, Kim ouvia nitidamente o barulho da cabeça se chocando contra os lados da caixa.
— Não devem ser bombons, a não ser que seja uma bola de futebol de chocolate — disse Kinnard com uma expressão engraçada de quem estava confuso. — O que acha? —
disse, balançando a caixa perto do ouvido do atendente.
Apavorada, Kim passou para trás do balcão para tentar interceptar a caixa. Kinnard então a ergueu por cima da cabeça, longe de seu alcance.
Marsha Kingsley entrou pelo outro lado do balcão. Assim como grande parte da equipe da unidade, vira o que estava acontecendo, mas ao contrário dos outros, viera
em auxílio da amiga. Chegando por trás de Kinnard, puxou seus braços para baixo. Ele não resistiu. Marsha pegou a caixa e entregou-a a Kim.
Sentindo a inquietação de Kim, Marsha levou-a até uma sala afastada. De longe podiam ouvir Kinnard rindo com o atendente.
— O senso de humor de certas pessoas é doentio. Alguém deveria dar um chute na bunda daquele irlandês.
— Obrigada por me ajudar — disse Kim. Agora que recuperara
a caixa, sentia-se bem melhor. Mesmo assim, continuava trêmula.
— Não sei o que há de errado com aquele homem — continuou Marsha. — É tão metido a valentão. Você não merece esse tipo de tratamento.
— Está com dor de cotovelo porque estou saindo com o Edward.
— Vai defendê-lo agora, é? Até parece que Kinnard convence no papel do amante rejeitado. Não convence, não aquele dom-juan.
— Com quem está saindo?
— Com a loura nova da Emergência.
— Grande! — exclamou Kim com sarcasmo.
— Problema dele. Dizem as más línguas que todas as piadas sobre louras burras foram escritas a respeito dela.
— Tá, mas é também a tal que tem um corpo do outro mundo — disse Kim, com um muxoxo.
— E o que é que você tem com isso? — quis saber Marsha. Kim suspirou.
— Tem razão. Só que detesto mal-estar e discórdia.
— Chega do Kinnard. Olha só a diferença do tratamento de Edward para com você. Ele não acha que pode fazer o que bem entender.
— Tem razão — repetiu Kim.
Após o trabalho, Kim carregou a caixa de formulário contínuo até o carro e a pôs na mala. Em seguida, vacilou quanto ao que fazer. Planejara uma visita à câmara
legislativa antes da questão da cabeça de Elizabeth surgir. Pensou em adiar a visita para a tarde seguinte. Depois decidiu que não havia por que não fazer as duas
coisas. Afinal, sua missão na propriedade só podia ser cumprida após a saída dos operários.
Deixando o carro na garagem do hospital, Kim subiu Bea-con Hill e dirigiu-se à Câmara Legislativa do Estado de Mas-sachusetts, um prédio de cúpula dourada. Após
passar o dia inteiro dentro do hospital, Kim estava feliz em respirar ao ar livre. O dia estava quente porém agradável. Uma suave brisa
soprava do mar e o cheiro de sal invadia o ar. Caminhando em direção ao prédio, ouvia o lamento das gaivotas.
O serviço de informação da câmara enviou Kim para o Arquivo do Estado de Massachusetts. Aguardando sua vez, Kim observava o atendente grandalhão. Seu nome era William
Mac-Donald. Kim mostrou-lhe as cópias que tirara do requerimento de Ronald e do parecer negativo do juiz Hathorne.
— Muito interessante. Adoro essas relíquias. Onde achou esta?
— No fórum do condado de Essex.
— E no que posso lhe ajudar?
— O juiz Hathorne sugeriu que o Sr. Stewart dirigisse seu pedido ao governador, já que a prova que procurava fora transferida para o condado de Suffolk. Gostaria
de saber qual foi a resposta do governador. Na verdade, estou mesmo tentando descobrir o que era a tal prova. Por algum motivo não está descrita no requerimento,
nem no parecer.
— O governador em questão teria sido o governador Phips — afirmou William, sorrindo. — Sou fanático por história. Vamos ver se encontramos Ronald Stewart no computador.
William foi até seu terminal. Como não podia ver a tela, Kim observava seu rosto. Para sua tristeza, ele balançava a cabeça após cada tentativa.
— Nada de Ronald Stewart — disse finalmente. Olhou o parecer mais uma vez e coçou a cabeça. — Não sei mais o que fazer. Tfentei também Ronald Stewart com referência
ao governador Phips, mas não achei nada. O problema é que nem todos os requerimentos do século XVII sobreviveram, e nem todos os que sobraram estão catalogados corretamente.
Há uma enorme variedade de requerimentos pessoais deste tipo. Naquele tempo havia muitas desavenças, muita discórdia, e as pessoas processavam umas às outras tanto
quanto hoje em dia.
— E a data? É 3 de agosto de 1692. Poderia usá-la?
— Não. Sinto muito.
Kim agradeceu e deixou a câmara. Sentia-se um pouco desanimada. Fora tão fácil encontrar o requerimento em Salem que esperara achar o parecer correspondente em Boston
com a
mesma facilidade. Teria revelado, finalmente, a natureza da prova usada contra Elizabeth.
- Por que diabos Ronald não descreveu a prova? — Kim se perguntou enquanto descia Beacon Hill. Foi então que lhe ocorreu que o fato de não tê-lo feito talvez significasse
algo; que fosse, em si, uma dica ou uma mensagem.
Kim suspirou. Quanto mais pensava na misteriosa prova, mais curiosa ficava. Começou a imaginar se a prova não estaria ligada à sensação de que Elizabeth tentava
se comunicar com ela.
Kim chegou à Cambridge Street e virou na direção da garagem do hospital. O fracasso da busca na câmara legislativa a atirava de volta em meio à papelada do castelo,
tarefa, no mínimo, intimidadora.
Entrando no carro, Kim tomou a direção norte, rumo a Salem. A viagem não foi fácil, nem tampouco ligeira. A ida à câmara a atrasara e deixava Boston em plena hora
do rush.
Ficou presa em Storrow Drive, tentando passar Leverett Circle. Pensou na loura de Kinnard. Sabia que não deveria se incomodar, mas se incomodava. Ficou ainda mais
satisfeita em ter convidado Edward para morar no chalé com ela. Não só porque gostasse imensamente dele, mas também em virtude do recado que enviaria a seu pai e
a Kinnard.
Então Kim lembrou da cabeça de Elizabeth na mala do carro. O fato de Edward não tê-la acompanhado a Salem a deixava surpresa. Afinal, ele assumira a responsabilidade
sobre a cabeça e sempre soubera que não queria tocá-la. Era um comportamento que não se encaixava com sua costumeira atenção. E além de tudo mais, a perturbava.
— O que é isso? — perguntou Edward, zangado. — Tenho que segurar a sua mão o tempo todo?
Falava com Jaya Dawar, um doutorando brilhante, vindo de Bangalore, na índia. Jaya chegara a Harvard no começo de julho e tentava encontrar uma direção para sua
tese.
— Achei que talvez pudesse me recomendar mais material para leitura.
— Posso recomendar uma biblioteca inteira. Encontra-se a uns cem metros daqui. — Apontou na direção da Biblioteca Médica de Countway. — Chega um momento na vida
de todo indivíduo em que o cordão umbilical tem de ser cortado. Trabalhe um pouquinho por conta própria!
Jaya baixou a cabeça e saiu em silêncio. Edward voltou a atenção para os minúsculos cristais que cultivava.
— Talvez eu devesse ficar responsável pelo novo alcalóide — sugeriu Eleanor com cuidado. — Poderia olhar por cima do meu ombro e servir de estrela guia.
— E perder o melhor? —- disse Edward. Observava os cristais que se formavam na superfície de uma solução super-saturada através de um microscópio binocular.
— Fico preocupada com suas responsabilidades normais — disse Eleanor. — Tem muita gente aqui que depende de sua supervisão. Soube que os alunos do curso de verão
reclamaram sua ausência hoje de manhã.
— Ralph conhece bem a matéria. Aos poucos vai melhorando como professor.
— Ralph não gosta de ensinar.
— Aprecio o fato de estar me falando tudo isso, mas não vou deixar esta oportunidade escapar. Já deu para sentir que este alcalóide é especial. Quantas vezes na
vida uma molécula de um bilhão de dólares cai no seu colo?
— Não sabemos ainda se esse composto vale alguma coisa. A esta altura não passa de mera hipótese.
— Quanto mais arduamente trabalharmos, mais cedo saberemos. Os alunos podem passar sem minha mão para segurarem durante algum tempo. Quem sabe? Talvez até seja bom
para eles.
A ansiedade de Kim ia crescendo à medida que se aproximava da propriedade. Não conseguia se desligar da cabeça de Elizabeth na mala do carro. Quanto mais tempo passava
em sua proximidade, mais crescia seu desconfortável pressentimento em relação aos acontecimentos recentes. O fato de ter tropeçado
no túmulo de Elizabeth bem no começo das obras dava-lhe a sensação de que o frenesi de 1692 lançava uma sombra agourenta sobre o presente.
Ao passar o portão entreaberto, Kim temeu encontrar o pessoal da construção. Ao passar a barreira das árvores, sua suspeita foi confirmada. Havia dois veículos estacionados
em frente ao chalé. Kim não ficou nada contente. Esperava que os operários já tivessem partido àquela hora.
Estacionou ao lado dos veículos e saiu do carro. Quase ao mesmo tempo, George Harris e Mark Stevens apareceram à porta de entrada. Em contraste à sua reação, a satisfação
dos dois em vê-la foi visível.
— Que surpresa agradável! — exclamou Mark. — íamos lhe telefonar mais tarde, mas já que está aqui, melhor ainda. Temos um monte de perguntas.
Durante a meia hora seguinte, Mark e George levaram Kim para ver a obra. O progresso da obra fora tal que seu humor melhorou consideravelmente. Ficou encantada por
Mark ter trazido as amostras do granito da cozinha e dos banheiros. Seu interesse por decoração e seu talento especial com cores facilitaram sua escolha. Mark e
George ficaram bastante impressionados. A própria Kim ficou. Devia esta facilidade ao crescimento de sua autoconfiança nos últimos anos. Na época em que entrara
para a faculdade, mal conseguia escolher a cor de sua própria colcha.
Quando haviam terminado de olhar o interior, saíram para examinar o exterior da casa. Olhando a estrutura por fora, Kim comunicou aos dois que queria que as novas
janelas do anexo combinassem com as pequenas vidraças em losango da parte principal.
— Terão de ser feitas sob encomenda — disse George. — Vão custar bem mais caro.
— Mas eu as quero — retrucou Kim sem hesitar.
Disse também que queria a ardósia do telhado consertada e não substituída por um material mais moderno, como fora sugerido. Mark concordou que de fato ficaria bem
melhor. Kim
pediu até mesmo que trocassem as telhas do barracão por telhas de ardósia.
Completando a volta, chegaram à vala. Kim olhou o fundo, onde agora havia um cano de esgoto, uma linha telefônica e um cabo para a TV. Ficou aliviada em ver um canto
do caixão ainda para fora da parede.
— E esta vala?
— Cobriremos amanhã — respondeu George.
Kim sentiu um desagradável arrepio percorrer-lhe a espinha enquanto imaginava, mesmo sem querer, o problema que teria nas mãos se não tivesse ligado para George
naquela manhã.
— Vai estar tudo pronto para primeiro de setembro? — quis saber, tentando pensar em coisas mais amenas.
Mark deixou que George respondesse.
— Se não ocorrer imprevisto algum, não vejo por que não. Vou encomendar as novas janelas amanhã, e se não chegarem a tempo poremos janelas provisórias.
Após a partida do empreiteiro e do arquiteto em seus respectivos carros, Kim foi até a casa buscar um martelo. Com ele em punho, abriu a mala do carro e tirou a
caixa de papelão.
Seguiu a vala até onde pudesse entrar. Assustou-se com seu grau de nervosismo. Sentia-se como uma ladra no meio da noite e parava a toda hora para ouvir se algum
carro se aproximava.
Já dentro da vala, após caminhar até o caixão, sua provação foi piorada por uma sensação de claustrofobia. As paredes pareciam crescer e cobri-la, aumentando seu
medo de que desabassem de repente.
Com a mão trêmula, Kim deu início à empreitada. Com as garras do martelo, puxou a madeira do caixão para trás e olhou a caixa.
Prestes a realizar a parte mais desagradável de sua tarefa, Kim reviveu o dilema do que fazer com a caixa. Mas seu dilema durou pouco: desamarrou o barbante rapidamente.
Por mais que odiasse a idéia de tocar a cabeça, tinha de fazer algum esforço para devolver a aparência original do túmulo.
Levantou as abas de papelão e relutou em olhar para dentro.
A cabeça estava virada para cima, equilibrada num emaranhado de cabelos. Elizabeth encarava Kim com globos oculares ressecados, fundos, e parcialmente expostos.
Kim tentou reconhecer no rosto repulsivo o belo retrato que mandara restaurar, reali-nhar e pôr uma moldura nova. As imagens contrastavam tão radicalmente que era
inconcebível que fossem a mesma pessoa.
Prendendo a respiração, Kim enfiou a mão na caixa e levantou a cabeça. O fato de tocá-la deu-lhe novos arrepios, como se tocasse a própria morte. Mais uma vez, questionou
o que teria acontecido há trezentos anos. O que poderia Elizabeth ter feito para merecer destino tão brutal?
Virou-se, fazendo o possível para não tropeçar nos canos e nos cabos, e levou a cabeça até o caixão. Colocou-a lá dentro com enorme cuidado. Sentiu a mão tocar fazenda
e outros objetos mais firmes, mas não tentou saber o que seriam. Apressada, pôs a ponta do caixão em seu devido lugar e martelou-a com vontade.
Pegou a caixa vazia e o barbante e correu para fora da vala. Não relaxou até botar o lixo na mala do carro. Finalmente, respirou bem fundo. Seu suplício terminara.
Caminhou até a vala e olhou a extremidade do caixão em busca de possíveis pistas incriminadoras. Podia ver seus passos na terra, mas não achou que apresentavam um
problema.
Com as mãos nos quadris, desviou os olhos do caixão e olhou o chalé, silencioso e aconchegante. Tentou imaginar a vida nos tristes tempos das acusações de bruxaria,
quando a pobre Elizabeth ingeria um grão venenoso e alucinógeno sem saber. Aprendera muita coisa nos livros que comprara. A substância ingerida por Elizabeth fora,
provavelmente, a mesma ingerida pelas jovens ditas afligidas.
Foram elas as acusadoras das bruxas.
Kim olhou de volta para o caixão. Estava confusa. As jovens afligidas não foram consideradas bruxas, como tinha sido Elizabeth. A exceção fora Mary Warren, afligida
e acusada. No entanto, foi solta e escapou à execução. Qual a diferença no caso de Elizabeth? Teria sido o fato de ter sido afligida mas não ter inculpado ninguém?
Ou teria realmente praticado o ocultismo, como sugerira seu pai?
Kim suspirou e balançou a cabeça. Não tinha respostas. Voltava sempre à misteriosa prova conclusiva e sua possível natureza. Seus olhos percorreram o castelo abandonado.
Pensou nos inúmeros arquivos, baús e caixas.
Olhou o relógio. O sol ainda brilharia por muitas horas. Num ímpeto, caminhou até o carro, entrou e foi até o castelo. Com o mistério de Elizabeth fresco em sua
mente, pensou em passar algum tempo debruçada sobre a tarefa de perscrutar a intimidadora papelada.
Kim empurrou a porta da frente e pôs-se a assoviar para sentir-se menos sozinha. No pé da escadaria, hesitou. O sótão era certamente mais agradável que a adega,
mas sua última visita fora de um insucesso singular. Não encontrara nada do século XVII, apesar de um esforço de quase cinco horas.
Kim fez o caminho de volta. Entrou na sala de jantar e abriu a pesada porta de madeira. Acendeu os candeeiros e desceu a escadaria de granito. Tomou o corredor central
e ia espiando para dentro de cada cela, Reconhecendo que não havia ordem alguma no material, achou que seria importante desenvolver algum plano racional. Pensou
em começar pela cela do fundo e organizar os documentos por tópico e idade.
Ao passar por uma cela, Kim deu uma segunda olhada. Voltou e passou os móveis em revista: os mesmos arquivos, escrivaninhas, baús e caixas de sempre. Mas havia algo
de diferente. Em cima de uma das escrivaninhas havia uma caixa de madeira cuja aparência lhe era familiar. Assemelhava-se ao porta-bíblia que a guia da Casa da Bruxa
descrevera como peça imprescindível de um lar puritano.
Caminhou até a escrivaninha e acariciou a tampa com os dedos, formando assim linhas paralelas na poeira. A madeira não era envernizada, e sim polida com perfeição.
Não havia dúvida de que era muito antiga. Segurando a caixa pelas extremidades, abriu a tampa.
Dentro, como era de se esperar, havia uma bíblia surrada, encadernada em couro. Ao retirar a bíblia, viu que havia envelopes e documentos por baixo. Levou-a até
o corredor, onde a luz era mais apropriada. Abriu a capa e a guarda do livro e olhou
a data. fora impressa em Londres em 1635. Folheou o texto na esperança de encontrar algum papel solto, mas nada havia.
Quando ia voltar ao porta-bíblia, a quarta-capa caiu em suas mãos. Na última folha haviam escrito: o livro de Ronald Stewart, 1663. A letra era a graciosa caligrafia
que Kim sabia ser de Ronald. Imaginou que ele teria escrito na bíblia quando criança.
Virando a guarda, Kim encontrou várias folhas em branco com a palavra Memorandum escrita em cima. Na primeira página do memorandum que se seguia à bíblia, viu a
letra de Ronald mais uma vez. Aqui, registrara cada um dos casamentos, nascimentos e mortes de sua família. Com o indicador, Kim seguiu cada uma das datas, até chegar
à data do casamento de Ronald com Rebecca. Havia sido sábado, primeiro de outubro de 1692.
Kim ficou chocada. Isto queria dizer que Ronald casara-se com a irmã de Elizabeth dez semanas após sua morte! Na sua opinião era cedo demais e mais uma vez pôs-se
a questionar o comportamento de Ronald. Não podia deixar de se perguntar se ele não teria algo a ver com a execução de Elizabeth. Com tamanha pressa em se casar
outra vez, era difícil para Kim não pensar que Ronald e Rebecca não tivessem um caso anterior.
Animada com a descoberta, voltou ao porta-bíblia e retirou os envelopes e os documentos. Abriu os envelopes esperando encontrar alguma carta, mas frustrou-se. Todo
o material estava relacionado aos negócios da família no período entre 1810 e 1837.
Só então começou a examinar os documentos. Olhou-os um a um, e embora fossem de fato mais antigos que os dos envelopes, não eram mais interessantes. Até que chegou
a umas folhas dobradas em três. Desdobrou o documento de muitas folhas que ainda continha traços de lacre de cera. Era a escritura de uma enorme área chamada Northfields
Property.
Na segunda página, Kim encontrou um mapa. Não teve dificuldades em reconhecer a área. As terras incluíam não só o que era hoje a propriedade da família Stewart como
também o terreno ocupado pelo Kernwood Country Club e o Cemitério de Greenlawn. Atravessava também o rio Danvers, chamado Woo-
leston no mapa, incluindo uma propriedade na cidade de Bever-ly. À noroeste, incluía o que é hoje Peabody e Danvers, na escritura chamada de Vilarejo de Salem.
Virando a página, Kim encontrou o que era de fato interessante. A assinatura do comprador era a de Elizabeth Flanagan Stewart. A data era 3 de fevereiro de 1692.
Kim ponderou o fato de o comprador ser Elizabeth e não Ronald. Parecia-lhe estranho, embora lembrasse do acordo pré-nupcial que vira no fórum do condado de Essex
que dava a Elizabeth o direito de assinar contratos em seu próprio nome. Mas por que teria sido Elizabeth a compradora de terras imensas que teriam, sem dúvida,
custado uma fortuna?
Anexa à escritura havia uma última folha de papel, um pouco menor e escrita com outra letra. Kim reconheceu a assinatura. Era do juiz Jonathan Corwin, ocupante original
da Casa da Bruxa.
Por ser de difícil leitura, Kim a levou até a luz. Tratava-se de um parecer do Juiz Corwin, que negava o requerimento de Thomas Putnam pedindo que a escritura de
compra de North-fields fosse cancelada devido à ilegalidade da assinatura de Elizabeth.
Na conclusão do requerimento, o juiz Corwin escreveu:
'A legalidade da assinatura da escritura supracitada está estabelecida em contrato assinado por Ronald Stewart e Elizabeth Flanagan, datado de 11 de fevereiro de
1681."
— Meu Deus — murmurou Kim. Era como se espiasse através de uma janela para o século XVII. Conhecia o nome de Thomas Putnam de suas leituras recentes. Era um dos
principais personagens da luta que tomara conta do vilarejo de Salem um pouco antes do frenesi da bruxaria. Segundo vários historiadores, esta luta fora o estopim
oculto de todo o ocorrido. A esposa e a filha de Thomas Putnam haviam sido responsáveis por grande parte das acusações. Era óbvio que Thomas Putnam ignorara a existência
do tal contrato pré-nupcial ao dar entrada em seu requerimento.
Kim dobrou a escritura e o parecer lentamente. Descobrira um fato que talvez fosse importante para a compreensão do que
ocorrera com Elizabeth. Era óbvio que Thomas Putnam não ficara satisfeito pela compra ter sido efetuada por Elizabeth. Considerando-se ainda seu papel na saga da
bruxaria, sua inimizade deve ter sido significativa. Era bem provável que tivesse atirado Elizabeth no meio da tragédia.
Passou alguns minutos pesando a possibilidade de a prova estar relacionada a Thomas Putnam e à compra de Northfields. Afinal de contas, o fato de tal compra ter
sido efetuada por uma mulher teria sido um ato desconcertante para a sociedade puritana, levando-se em conta o papel reservado à mulher. Talvez provasse que Elizabeth
era uma virago e, portanto, abominável. Mas, por mais que tentasse, Kim não conseguia pensar em coisa alguma.
Colocou ambos os documentos em cima da bíblia e examinou o resto da papelada contida no porta-bíblia. Para sua alegria, encontrou mais um documento do século XVII,
mas, quando leu, perdeu um pouco do entusiasmo. Era um contrato firmado entre Ronald Stewart e Olaf Sagerholm, de Gotemburgo, Suécia. No contrato, Ronald encomendava
a Olaf um navio novo e veloz, uma fragata. O barco deveria ter 39 metros de comprimento, onze metros de largura máxima e seis metros de calado quando carregado ao
seu limite. A data era 12 de dezembro de 1691.
Kim pôs a bíblia e os dois documentos do século XVII de volta no porta-bíblia e carregou-o até um console no pé da escada que levava à sala de jantar. Planejava
usar a caixa para guardar todos os documentos que encontrasse relacionados a Elizabeth e Ronald. Com isto em mente, foi até a cela onde encontrara a carta de James
Flanagan e a juntou ao resto dos documentos.
Tendo feito isto, Kim voltou ao aposento onde encontrara o porta-bíblia e vasculhou a escrivaninha na qual ele estivera. Após várias horas de trabalho ela se levantou,
espreguiçando-se. Não encontrara nada de interessante. Deu uma rápida olhada no relógio e viu que já eram quase oito horas da noite, hora de voltar para Boston.
Ao subir as escadas vagarosamente, sentiu o quão cansada estava. Fora um dia corrido no trabalho e considerava cansativa
a busca por entre a papelada, mesmo que não o fosse fisicamente.
A volta a Boston foi bem mais fácil do que a ida a Salem. Havia pouco movimento na estrada. Kim percorreu um trecho da Storrow Drive, mas mudou de idéia e tomou
a saída para Fenway. Fora acometida por uma súbita vontade de visitar Edward em seu laboratório em vez de telefonar. Como a devolução da cabeça de Elizabeth ocorrera
sem maiores complicações, sentia-se culpada por ter ficado tão chateada de antemão.
Passou pela segurança da faculdade de medicina com o crachá do hospital e subiu as escadas. Visitara o laboratório de Edward rapidamente após um de seus jantares,
portanto conhecia o caminho. As luzes do escritório do departamento estavam apagadas; então bateu numa porta de vidro fosco que levava diretamente ao laboratório.
Como ninguém viesse atendê-la, Kim bateu novamente, desta vez um pouco mais alto. Tentou a porta, mas estava trancada. Após bater pela terceira vez, viu um vulto
através do vidro.
A porta se abriu e Kim viu-se frente a frente com uma loura magra e atraente, cujas curvas sobressaíam apesar do jaleco largo.
— Sim? — perguntou Eleanor mecanicamente. Olhou Kim de baixo para cima.
— Vim ver o Dr. Edward Armstrong — disse Kim.
— Ele não está recebendo visitas. O escritório do departamento estará aberto amanhã — declarou Eleanor, já fechando a porta.
— Acho que ele vai querer me ver — titubeou Kim. Na verdade, não tinha tanta certeza e achou que deveria ter telefonado.
— É mesmo? — questionou Eleanor com insolência. — Quem é você? É aluna?
— Não, não sou aluna. — Considerando-se que ainda vestia seu uniforme de enfermeira, achou a pergunta absurda. — Meu nome é Kimberly Stewart.
Eleanor nada disse antes de bater a porta na cara de Kim. Kim aguardou. Trocava o peso do corpo de um pé para o outro e já arrependia-se de ter vindo. Então a porta
foi reaberta.
- Kim! — exclamou Edward. — O que faz aqui?
Kim explicou que quisera fazer uma visita em vez de telefonar. Pediu desculpas caso não tivesse vindo em boa hora.
— De modo algum. Estou ocupado, mas isso não tem importância. Na verdade, estou mais do que ocupado, mas entre.
Edward saiu da frente da porta. Kim entrou e o seguiu até sua mesa.
— Quem foi que abriu a porta? — perguntou Kim.
— Eleanor — respondeu Edward por cima do ombro.
— Não foi muito simpática — comentou Kim sem saber se devia.
— Eleanor? Deve estar enganada. Ela se dá com todo mundo. Sou o único urso deste laboratório. Nós dois estamos um pouco cansados. Temos trabalhado direto, desde
sábado pela manhã. Na verdade, Eleanor está trabalhando sem parar desde sexta à noite. Temos dormido muito pouco.
Chegaram à mesa de Edward. Ele tirou uma pilha de revistas de cima de uma cadeira e as atirou num canto. Convidou Kim para se sentar e sentou-se em sua cadeira.
Kim estudou seu rosto. Parecia estar em hiperatividade, como se tivesse tomado litros de café. Mascava chiclete de forma nervosa. Tinha olheiras e uma barba rala
cobria-lhe o rosto e o queixo.
— Por que essa atividade frenética?
— É o novo alcalóide. Estamos começando a conhecê-lo e por enquanto só descobrimos coisas boas.
— Fico satisfeita por você, mas por que tanta pressa? Há algum tipo de prazo?
— Não, estamos excitados por antecipação. O alcalóide tem possibilidade de se tornar um grande produto. Para quem nunca trabalhou em pesquisa é difícil entender
a excitação que se sente diante de uma descoberta destas. É como estar alto, só
que estamos experimentando esta sensação de hora em hora. Tudo o que aprendemos até agora é positivo. E incrível.
— Pode me dizer que tipo de coisas têm descoberto ou é segredo?
Edward chegou para a frente e baixou a voz. Kim olhou a seu redor e não viu ninguém. Não estava muito certa de onde estaria Eleanor.
— Tropeçamos num composto psicoativo, de via oral, que penetra a barreira entre sangue e cérebro como uma faca na manteiga. É tão potente que age até em microgramas.
— Acha que é este o composto que afetou as pessoas envolvidas no caso das bruxas de Salem? — perguntou Kim. Elizabeth continuava em destaque em sua mente.
— Não tenho dúvidas. É a encarnação do diabo de Salem.
— Mas as pessoas que comeram o grão infectado foram envenenadas. Foram afligidas por ataques horríveis. Como pode estar tão excitado com uma droga dessa espécie?
— É alucinógena. Quanto a isso, não há dúvidas. Mas achamos que é bem mais do que isso. Temos motivos para crer que acalma, revigora e talvez até melhore a memória.
— Como aprenderam tanto em tão pouco tempo? Edward riu, embaraçado:
— Não temos certeza de muita coisa por enquanto. Muitos pesquisadores considerariam nosso trabalho pouco científico. O que temos feito é estabelecer uma idéia geral
do que este alcalóide é capaz. Não são experiências feitas com controles. No entanto, os resultados são muito animadores. Por exemplo, descobrimos que a droga parece
acalmar ratos estressados com maior eficácia do que a imipramina, que é na verdade o antidepressivo padrão para uma análise do gênero.
— Então acha que talvez seja um antidepressivo alucinógeno?
— Entre outras coisas.
— Tem efeitos colaterais? — indagou Kim ainda sem entender o motivo de tanta excitação.
Edward riu outra vez:
— Não temos nos preocupado muito com as alucinações
dos ratos. Mas, sério, além das alucinações não temos observado outros problemas. Temos injetado doses cavalares em vários ratos e estão mais contentes do que pinto
no lixo. Despejamos doses ainda mais altas em culturas de células neuronais sem que tivesse efeito algum. É inacreditável.
Enquanto escutava Edward, Kim ficava cada vez mais desapontada por não perguntar coisa alguma sobre a visita a Salem ou sobre a cabeça de Elizabeth. Por fim, foi
preciso que ela própria mencionasse o assunto quando houve uma brecha na exuberante narrativa de Edward.
— Que bom — disse Edward simplesmente quando ela lhe contou que a cabeça fora devolvida. — Ainda bem que acabou.
Kim estava prestes a descrever como o episódio a fizera sentir quando Eleanor apareceu de repente e monopolizou as atenções de Edward com uma folha de formulário
contínuo. Eleanor não indicou que notara sua presença e Edward não as apresentou. Kim observou sua animada discussão sobre a informação. Era óbvio que Edward ficara
feliz com os resultados. Ao final, Edward sugeriu algumas coisas a Eleanor e deu-lhe um tapinha nas costas. Ela sumiu da mesma forma que aparecera.
— Do que falávamos? — perguntou Edward.
— Mais boas notícias? — indagou Kim, referindo-se às informações trazidas por Eleanor.
— Sem dúvida. Começamos a mapear a estrutura do composto e Eleanor acaba de confirmar nossas impressões preliminares de que se trata de uma molécula tetracíclica
com cadeias laterais múltiplas.
— Como conseguem descobrir estas coisas? — apesar de tudo, Kim estava impressionada.
— Você realmente quer saber?
— Claro, contanto que a explicação não esteja muito além de minha capacidade.
— O primeiro passo foi descobrir o peso molecular aproximado através de uma cromatografía comum. Isto foi fácil. Em seguida separamos a molécula com reagentes que
rompem certos tipos de ligações. Então tentamos identificar alguns dos
fragmentos através da cromatografia, eletroforese e espectro-metria.
— Já foi bem além da minha capacidade. Já ouvi os termos mas não conheço os procedimentos.
— Não são tão complicados assim — disse Edward, pon-do-se de pé. — Os conceitos básicos não são difíceis de compreender. Os resultados é que às vezes não são fáceis
de se analisar. Vamos, vou lhe mostrar os aparelhos — tomou a mão de Kim e fez com que se levantasse.
Entusiasmado, Edward arrastou Kim laboratório adentro, mostrando o espectômetro, a unidade de cromatografia líquida de alto desempenho, o equipamento de eletroforese
capilar. Ia explicando como eram usados na separação de fragmentos e em sua identificação. A única coisa que Kim entendeu por completo foi o talento de Edward como
professor.
Edward abriu uma porta lateral e mandou que desse uma olhada. Kim olhou. No meio da sala havia um cilindro de um pouco mais de 1,60cm de largura. Cabos e fios emergiam
como cobras da cabeça da Medusa.
— É o nosso aparelho de ressonância magnética nuclear — disse Edward com orgulho. — É um instrumento crucial num projeto como este. Não basta saber quantos átomos
de carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio estão presentes neste composto. Temos que conhecê-lo tridimensíonalmente. E é isto que esta máquina consegue fazer.
— Estou impressionada — disse Kim, sem saber o que dizer.
— Deixe eu lhe mostrar um outro aparelho! — exclamou Edward, ignorando por completo o estado de espírito de Kim. Levou-a até uma outra porta. Abrindo-a, mandou que
Kim entrasse.
Ela olhou para dentro. Era um emaranhado sem fim de equipamentos eletrônicos, fios e tubos de raios catódicos.
— Interessante — disse.
— Sabe o que é? — indagou Edward.
— Acho que não — respondeu Kim. Relutava em deixar que Edward soubesse o quão pouco sabia sobre sua área.
- É uma unidade de defração por raios X — disse Edward, com o mesmo grau de orgulho demonstrado diante do aparelho de ressonância magnética nuclear. — Complementa
o que fazemos com o aparelho de ressonância. Vamos usá-lo com o novo alcalóide porque ele se cristaliza como um sal.
— Você tem mesmo bastante trabalho pela frente.
— É muito trabalho mesmo, mas é também extremamente estimulante. Estamos usando tudo o que temos em nosso arsenal e as informações não param de surgir. Teremos sua
estrutura em tempo recorde, especialmente com os novos softwares que acompanham estes instrumentos.
— Boa sorte! — disse Kim. Construíra um esboço muito básico daquilo que Edward lhe explicara, mas tinha noção de seu entusiasmo.
— E o que mais aconteceu em Salem? Como vai a reforma? — perguntou Edward de repente.
Kim ficou momentaneamente aturdida com a pergunta. Como ele estava completamente voltado para seu própio trabalho, achara que não estaria interessado em seu pequeno
projeto. Estivera prestes a ir embora.
— Vai bem. A casa vai ficar uma graça.
— Passou um bom tempo lá. Foi cavoucar a papelada da família Stewart mais uma vez?
— É verdade, passei quase duas horas lá — admitiu Kim.
— Descobriu mais alguma coisa a respeito de Elizabeth? Estou cada vez mais interessado nela. Sinto uma enorme dívida de gratidão para com ela. Se não fosse Elizabeth,
eu jamais teria encontrado este alcalóide.
— Descobri algumas coisas novas — disse Kim. Contou a Edward sobre a ida à Câmara antes de ir a Salem e que não havia mais requerimento algum relacionado à misteriosa
prova. Contou-lhe sobre a escritura de Northfields e sobre Thomas Putnam.
— Acho que é a informação mais significativa que encontrou até agora. Pelo que aprendi em minhas leituras, Thomas Putnam não era uma pessoa que se devesse irritar.
— Foi o que pensei. Sua filha, Ann, foi uma das primeiras
afligidas e acusou muita gente de bruxaria. O problema é que não consigo relacionar a rixa com Thomas Putnam à prova conclusiva.
— Quem sabe os Putnam não eram maus o bastante para plantar uma prova contra Elizabeth? — sugeriu Edward.
— É uma idéia. Mas continuamos sem saber o que pode ser. Se foi plantada, poderia ser considerada conclusiva? Ainda acho que foi algo feito pela própria Elizabeth.
— Talvez. Mas a única dica que tem é o requerimento de Ronald que afirma que ela foi confiscada de sua propriedade. Só pode estar relacionada à bruxaria.
— E por falar em Ronald, soube algo que reacendeu minhas suspeitas a seu respeito. Casou-se apenas dez semanas após a morte de Elizabeth. É um luto muito curto,
não acha? Me faz crer que ele e Rebecca já tivessem um caso.
— Talvez — começou Edward sem o menor entusiasmo. — Ainda acho que não fazemos idéia do quão difícil era a vida naquele tempo. Ronald tinha quatro filhos para criar
e negócios em franca expansão. É provável que não tivesse muita escolha. Aposto que um longo período de luto era um luxo ao qual não podia se dar.
Kim assentiu com a cabeça, mas não estava bem certa se concordava. Ao mesmo tempo, perguntava-se o quanto suas suspeitas em relação a Ronald não eram influenciadas
pelo comportamento de seu próprio pai.
Eleanor apareceu da mesma forma abrupta da primeira vez e envolveu Edward numa conversa particular porém animada. Quando saiu, Kim se despediu.
— Acho que está na hora de ir embora.
— Vou acompanhá-la até o carro.
Enquanto desciam as escadas e cruzavam o quadrilátero, Kim notou uma mudança gradual na atitude de Edward. Como fizera no passado, ia ficando cada vez mais nervoso.
Baseada em experiências anteriores, Kim sabia que ele estava prestes a dizer alguma coisa. Não tentou encorajá-lo. Aprendera que isto não ajudava.
Finalmente resolveu falar quando chegaram ao carro.
- Tenho pensado muito em sua oferta de ir morar com você no chalé — disse enquanto arrastava uma pedrinha com o pé. Ele fez uma pausa. Kim aguardou impacientemente,
sem saber o que iria dizer. Então falou:
— Se ainda quer que eu vá, eu gostaria muito.
— É claro que ainda quero—disse Kim aliviada. Estendeu os braços e o abraçou. Ele retribuiu o gesto.
— Podemos ir até lá este fim de semana e conversar sobre os móveis. Não sei se há alguma coisa no meu apartamento que gostaria de aproveitar.
— Vai ser divertido — disse ela.
Em meio a um certo constrangimento, eles se soltaram e Kim entrou no carro. Abriu a janela do carona e Edward se abaixou.
— Sinto muito por estar tão envolvido com este alcalóide.
— Eu compreendo. Dá para ver como está animado com tudo. Estou muito impressionada com sua dedicação.
Após se despedirem, Kim dirigiu-se a Beacon Hill bem mais contente do que estivera meia hora atrás.
Capítulo 7. SEXTa-FEIRA, 29 DE JULHO DE 1994.
Aexcitação de Edward aumentava com o passar da semana. A base de dados sobre o novo alcalóide crescia exponencialmente. Tanto ele quanto Eleanor dormiam entre quatro
e cinco horas por noite. Para todos os efeitos, ambos moravam no laboratório. Jamais haviam trabalhado tanto em suas vidas.
Edward insistia em fazer tudo pessoalmente. Até mesmo repetia o trabalho de Eleanor para se certificar de que não havia erros. Da mesma forma, fazia com que Eleanor
verificasse seus resultados.
Seu envolvimento com o alcalóide era tal que Edward não tinha tempo para mais nada. Apesar dos conselhos de Eleanor e o crescente descontentamento dos alunos de
graduação, ele deixara de lecionar. Abandonara também seus alunos de pós-graduação, muitos dos quais pararam suas pesquisas por falta de orientação e esclarecimentos.
Edward não estava preocupado. Como um artista no afã da criação, estava embevecido com a nova droga, esquecido do mundo. Deliciava-se com o emergir contínuo da estrutura
da droga, átomo por átomo, saída das brumas do tempo, nas quais estivera envolta.
Na manhã de quarta-feira, num soberbo feito de química
orgânica qualitativa, Edward caracterizou por completo o núcleo estrutural tetracíclico do composto. A tarde, as cadeias laterais já haviam sido definidas quanto
à composição e local de fixação ao núcleo. Edward se referia à molécula jocosamente como uma maçã cheia de minhocas.
Mas eram as cadeias laterais que mais intrigavam Edward. Eram cinco ao todo. Uma era tetracíclica, como o núcleo, e se assemelhava ao LSD. Outra tinha dois anéis
e lembrava uma droga chamada escopolamina. As três remanescentes se assemelhavam aos principais neurotransmissores do cérebro: a norepinefrina, a dopamina e a serotonina.
Na madrugada de quinta-feira, Edward e Eleanor foram recompensados com a imagem integral da estrutura molecular, surgida na tela do computador, num espaço virtual
tridimensional. A façanha era produto de uma série de elementos: um novo software estrutural, a capacidade do supercomputador e as horas de discussão entre Edward
e Eleanor, durante as quais brincavam de advogado do diabo.
Edward e Eleanor assistiam em silêncio, hipnotizados, enquanto o supercomputador girava a molécula. As cores eram estonteantes. As nuvens dos elétrons estavam representadas
por várias nuances de azul-cobalto. Os átomos de carbono eram vermelhos, os de oxigênio verdes e os de nitrogênio amarelos.
Após flexionar os dedos como um virtuoso prestes a tocar uma sonata de Beethoven num piano de cauda, Edward sentou-se ao seu terminal, que era ligado diretamente
ao supercomputador. Invocando todo o seu conhecimento, sua experiência e sua noção intuitiva de química, começou a trabalhar ao teclado. A imagem tremia e pulava
na tela enquanto mantinha sua lenta rotação. Edward operava a molécula, cinzelando as duas cadeias laterais que sabia, instintivamente, serem responsáveis pelo efeito
alucinógeno: a do LSD e a da escopolamina.
Conseguiu remover quase tudo, menos duas cepas de carbono do LSD, sem que a estrutura tridimensional do composto ou a distribuição de correntes elétricas fossem
afetadas de forma significativa. Sabia que a alteração destas duas propriedades afetaria a bioatividade da droga dramaticamente.
Já com a cadeia lateral da escopolamina, a história era outra. Edward só conseguiu amputá-la parcialmente, deixando uma porção considerável intacta. Quando tentava
remover mais, a molécula cedia e mudava radicalmente seu formato tridimensional.
Após remover a cadeia lateral da escopolamina ao máximo, transferiu a informação molecular para seu próprio computador. A imagem deixou de ser espetacular, mas era,
de certa forma, mais interessante. Edward e Eleanor olhavam para uma designer drug hipotética, criada através da manipulação computadorizada de um composto natural.
Através das manipulações no computador, Edward esperava eliminar os efeitos alucinógenos e antiparassimpáticos. Este último referia-se à secura da boca, à dilatação
da pupila e à amnésia parcial que tanto ele quanto Stanton haviam experimentado.
Foi neste momento que o verdadeiro forte de Edward, a química orgânica sintética, entrou em campo. Numa verdadeira maratona, de quinta-feira de manhã até quinta
à noite, Edward encontrou uma maneira engenhosa de formular a droga hipotética a partir de reagentes comuns e facilmente disponíveis. Sexta-feira pela manhã já havia
produzido um frasco cheio da nova droga.
— O que acha? — perguntou a Eleanor enquanto fitavam o frasco. Ambos estavam exaustos, mas nenhum dos dois tinha a mínima intenção de dormir.
— Acho que realizou uma verdadeira façanha química — afirmou Eleanor com sinceridade.
— Não estava pedindo um elogio — disse Edward bocejan-do. — Quero saber o que acha que devemos fazer agora.
— Como eu sou a porção conservadora deste time, sugiro que testemos a toxicidade desta droga.
— Então vamos nessa — concordou Edward. Pôs-se de pé e estendeu a mão para Eleanor. Juntos, voltaram ao trabalho.
Sentindo-se confiantes com suas realizações, e ansiosos por resultados imediatos, ignoraram os protocolos científicos. Como haviam feito com o alcalóide natural,
deixaram de lado estudos
controlados e cuidadosos em prol de informações rápidas e generalizadas que lhes dariam uma noção do potencial da droga.
A primeira coisa que fizeram foi adicionar diversas concentrações da droga a vários tipos de cultura de tecidos, incluindo células renais e nervosas. Ficaram contentes
em ver que até mesmo em doses relativamente grandes não provocava efeito colateral algum. Puseram as culturas em incubadoras para que pudessem acessá-las de tempos
em tempos.
Em seguida elaboraram um preparado de gânglios de aplasia fasciata, inserindo mini-eletrodos em células que desencadeavam impulsos nervosos espontâneos. Conectando
os eletrodos a um amplificador, criaram a imagem da atividade celular em um tubo de raios catódieos. Pouco a pouco, adicionaram a droga ao líquido de perfusão. Observando
as reações neuronais, determinaram que a droga era, de fato, bioativa, embora não deprimisse ou aumentasse a atividade espontânea. Pelo contrário, parecia estabilizar
seu ritmo.
Com excitação crescente, já que tudo o que faziam gerava resultados positivos, Eleanor deu a droga a um novo grupo de ratos estressados enquanto Edward a adicionava
num preparado recém-elaborado de sinaptossomas. Os resultados de Eleanor saíram primeiro: constatou rapidamente que a droga alterada tinha efeitos ainda mais calmantes
sobre os ratos do que o alcalóide original.
Os resultados de Edward saíram bem depois. Constatou que a nova droga afetava os níveis dos três neurotransmissores, mas não de forma equivalente. A serotonina era
a mais afetada, seguida da norepinefrina e da dopamina. O mais inesperado foi a formação de uma ligação covalente fraca com o glutamato e com o ácido gama-aminobutírico,
dois dos principais agentes inibidores do cérebro.
— É fantástico! — exclamou Edward. Foi até sua mesa apanhar os papéis onde registrava suas descobertas e os jogou para cima como confete.—Estes dados sugerem que
o potencial desta droga é monumental. Eu seria capaz de apostar que ela é antidepressiva e ansiolítica. Se for realmente, ela poderá revolucionar
o campo da psicofarmaeologia. Esta descoberta poderá ser comparada à da penicilina.
— Temos que nos preocupar com a possibilidade de ser alucinógena — observou Eleanor.
— Com toda a sinceridade, duvido muito que seja. Afinal, removi a cadeia lateral que se assemelha ao LSD. Mas concordo que teremos que ter certeza.
— Vamos checar a cultura de tecidos — sugeriu Eleanor. Sabia que Edward ia querer tomar a droga. Era a única maneira de definirem se era ou não alucinógena.
Tiraram a cultura de tecidos da incubadora e a examinaram debaixo do microscópio de baixa potência. Todas pareciam saudáveis. Não havia sinal de dano celular, nem
mesmo nos tecidos expostos a doses mais altas.
— Não parece haver toxicidade alguma — afirmou Edward, animado.
— Eu não teria acreditado se não tivesse visto com meus próprios olhos — disse Eleanor.
Voltaram à bancada de Edward e elaboraram várias soluções de potência cada vez maior. A primeira tinha uma concentração próxima à do alcalóide original tomado por
Stanton. Edward foi o primeiro a tomá-la. Como não teve reação alguma, Eleanor a tomou também. Mais uma vez, nada aconteceu.
Encorajados pelos resultados negativos, Edward e Eleanor foram aumentando a dosagem até chegaram a um miligrama inteiro, sendo que o LSD é psicodélico a 0,05 miligramas.
— E aí? — perguntou Edward meia hora depois.
— Não estou tendo reação alucinógena alguma.
— Mas existe uma reação.
— Sem dúvida. Eu a descreveria como uma satisfação tranqüila. Seja o que for, é uma sensação muito agradável.
— Sinto também que minha mente está mais clara do que o normal. A sensação deve estar ligada à droga porque, vinte minutos atrás, eu estava atordoado, sentindo minha
capacidade de concentração completamente zerada. Agora sinto-me ener-gizado, como se tivesse dormido uma noite inteira de sono.
— E eu sinto que minha memória de longa duração acordou
de um sono profundo. De repente lembrei do número de telefone de quando tinha seis anos de idade. Foi o ano em que minha família mudou para a Costa Leste.
— E os seus sentidos? Os meus parecem mais aguçados do que nunca, especialmente meu olfato.
— Não teria notado se você não mencionasse. — Eleanor jogou a cabeça para trás e farejou o ar. — Eu nunca havia notado que este laboratório era uma cacofonia de
odores.
— E há outra coisa que eu não teria notado se não tivesse tomado Prozac. Sinto-me confiante, como se pudesse me aproximar de um grupo de pessoas e fazer o que bem
entendesse. Só que tomei Prozac durante três meses antes de me sentir assim.
— Eu não poderia afirmar nada parecido. Mas diria que minha boca está um pouco seca, e a sua?
— Talvez — admitiu Edward. Em seguida, olhou fundo nos olhos azuis de Eleanor. — Acho que suas pupilas estão levemente dilatadas. Se estiverem, isto é proveniente
da cadeia lateral da escopolamina que não consegui eliminar completamente. "Verifique se está enxergando bem de perto.
Eleanor pegou o frasco de um reagente e leu as letrinhas minúsculas do rótulo.
— Sem problemas.
— Mais alguma coisa? — indagou Edward. — Algum problema com a circulação, ou com a respiração?
— Está tudo bem.
— Com licença — disse uma voz.
Eleanor e Edward voltaram-se e viram uma doutoranda que estava em seu segundo ano do programa.
— Preciso de ajuda — pediu a mulher. Seu nome era Nadine Foch, uma parisiense. — A unidade de ressonância magnética nuclear não quer funcionar.
— Talvez devesse falar com o Ralph — sugeriu Edward, sorrindo amavelmente. — Eu adoraria lhe ajudar, mas estou muito ocupado no momento. Além do mais, o Ralph conhece
o aparelho melhor do que eu, especialmente do ponto de vista técnico.
Nadine agradeceu e saiu em busca de Ralph.
— Foi muito civilizado — comentou Eleanor.
— Sinto-me muito civilizado e ela é uma boa moça.
— Thlvez seja uma boa hora de voltar às suas tarefas normais. Nossos avanços foram consideráveis.
— É apenas um prenuncio do que ainda está por vir. É muito amável em se preocupar com minhas aulas e com minhas responsabilidades como orientador, mas lhe garanto
que posso dar meus escorregões de vez em quando sem causar danos irreparáveis a ninguém. Não quero perder o excitamento da nova droga. Enquanto isso, quero que você
comece um modelo molecular computadorizado para a criação de uma família de compostos derivados de nossa nova droga com as cadeias laterais alteradas.
Eleanor foi trabalhar no computador e Edward foi telefonar de sua mesa. Ligou para Stanton Lewis.
— Está ocupado esta noite? — perguntou a seu velho amigo.
— Estou ocupado todas as noites. Por quê? O que tem em mente? Já leu o prospecto?
— Quer jantar comigo e com a Kim? Tenho algo a lhe comunicar.
— Ah, seu malandrão, é algum tipo de comunicado social?
— Creio que seria melhor discutirmos isto pessoalmente — respondeu Edward com voz macia. — Que tal jantarmos? Estou convidando.
— A coisa está ficando séria. Tenho uma reserva no Anago Bistro na Main Street em Cambridge. A reserva é para dois, mas tomarei providências para que seja trocada
para uma de quatro pessoas. É para as oito horas. Eu telefono se houver algum problema.
— Perfeito. — Edward desligou antes que Stanton fizesse mais perguntas e discou o número de Kim na UTI.
— Está muito ocupada?—perguntou quando ela atendeu.
— É melhor nem perguntar.
— Marquei um jantar com Stanton e a esposa. Será às oito, a não ser que ele me ligue de volta. Desculpe se estou ligando em cima da hora. Espero que não se incomode.
— Não vai trabalhar esta noite?—indagou Kim, surpresa.
— Não. Esta noite estou de folga.
— E amanhã? Ainda iremos a Salem?
— Depois conversamos sobre isto — disse Edward sem se comprometer. — E então, vamos jantar?
— Eu preferia que jantássemos sozinhos.
— Eu também preferiria que fôssemos só nós dois. Mas preciso conversar com o Stanton e achei que poderíamos unir o útil ao agradável. Sei que não tenho sido muito
divertido ultimamente.
— Está me soando tão contente! Alguma boa nova?
— São muitas as novidades boas. É por isso que esta reunião é tão importante. Depois do jantar podemos ficar juntos, só nós dois. Podemos passear pelo square como
quando nos conhecemos. O que acha?
— Fechado.
Kim e Edward chegaram ao restaurante primeiro e a recepcionista, que era também uma das proprietárias, os acomodou numa aconchegante mesa de canto, próxima à janela.
Dali viam a Main Street, com suas muitas pizzarias e restaurantes indianos. Um caminhão do corpo de bombeiros passou em velocidade com seus sinos e sirenes aos berros.
— Juro que os bombeiros de Cambridge vão tomar café na esquina, de caminhão — comentou Edward. Riu enquanto olhava o caminhão se afastar. — Estão sempre nas ruas.
Não é possível que haja tantos incêndios.
Kim olhou para Edward. Estava de excelente humor. Ela jamais o vira tão falante, alegre e, embora parecesse cansado, agia como se tivesse acabado de tomar vários
cafezinhos. Chegou até a pedir o vinho.
— Você não disse que sempre deixava que Stanton escolhesse o vinho?
Antes que Edward pudesse responder, Stanton chegou e, como era seu feitio, irrompeu no restaurante como se fosse o próprio dono. Beijou a mão da recepcionista, gesto
que ela aturou com impaciência mal disfarçada.
— OK, meus caros — disse Stanton, dirigindo-se a Edward e Kim enquanto puxava a cadeira para Candice. Como a mesa era estreita, os casais tinham que se sentar lado
a lado. — Que grande notícia é esta? Devo pedir uma garrafa de Dom Pérignon?
Kim olhou para Edward como se pedisse explicação.
— Já pedi o vinho. É o bastante.
— Você pediu o vinho? Mas eles não servem Mosteiro aqui, Edward — comentou Stantou soltando uma gargalhada antes de se sentar.
— Pedi um vinho branco italiano. Um vinho seco e refrescante; combina muito bem com uma noite quente de verão.
Kim levantou as sobrancelhas. Este era um lado de Edward que não conhecia.
— E então, o que houve? — inquiriu Stanton. Espichava-se sobre a mesa, apoiado sobre os cotovelos, ansioso. — Vocês dois vão se casar?
Kim enrubesceu, envergonhada com a hipótese de Edward ter lhe contado sobre morarem juntos no chalé. Não que fosse segredo, mas gostaria de contar à sua família
pessoalmente.
— Quisera eu — afirmou Edward, rindo. — Tenho notícias, mas não tão boas assim.
Kim piscou e olhou para Edward. Ficou impressionada com a habilidade com a qual se livrou do comentário inadequado de seu primo.
A garçonete chegou com o vinho. Stanton examinou o rótulo com cuidado antes de permitir que fosse aberto.
— Estou surpreso, meu velho. Não foi uma má escolha. Depois de servido o vinho, Stanton ia propor um brinde mas foi interrompido por Edward.
— É minha vez — disse erguendo a taça na direção de Stanton. —Ao especulador do capitalismo médico mais esperto do mundo.
— E eu que pensei que você jamais notara — riu Stanton. Todos beberam a ele.
— Tenho uma pergunta para você — disse Edward para Stanton. — Falava sério quando disse recentemente que uma
nova droga psicotrópica de eficácia comprovada poderia vir a ser uma molécula de um bilhão de dólares?
— Absolutamente — respondeu Stanton, tornando-se subitamente muito sério. — É por isso que estamos aqui? Tem mais alguma informação sobre a droga que me levou naquela
viagem psicodélica?
Tanto Candice quanto Kim quiseram saber que viagem psicodélica era essa. Quando souberam da história, ficaram horrorizadas.
— Não foi nada ruim. Eu até gostei.
— Acumulamos muita informação, e toda ela positiva. Eliminamos o efeito alucinógeno através da alteração da molécula. Acho que criamos uma nova geração de drogas
comparáveis ao Prozac e ao Xanax. Parece ser perfeita. É atóxiea, de via oral, tem poucos efeitos colaterais e provavelmente uma capacidade terapêutica muito ampla.
Na verdade, devido à capacidade de alteração e substituição da estrutura singular de sua cadeia lateral, é possível que tenha capacidades terapêuticas ilimitadas
no campo dos psicotrópicos.
— Seja mais específico. Do que acha que essa droga é capaz?
— Acreditamos que tenha um impacto geral e positivo nos humores. Parece ser antidepressiva e ansiolítica, ou seja, diminui a ansiedade. Funciona também contra a
fadiga, aumenta a satisfação, estimula os sentidos e o raciocínio porque afeta a memória de longa duração.
— Santo Deus! — exclamou Stanton. — O que será que ela não faz? Parece até o Soma de Admirável mundo novo.
— Talvez seja uma analogia merecida.
— Só uma pergunta — começou Stanton e em seguida baixou o tom de voz. — Terá efeitos positivos sobre o ato sexual?
Edward encolheu os ombros.
— Pode até ser. Como aguça os sentidos, talvez faça com que o ato sexual se torne mais intenso.
Stanton jogou as mãos para o alto.
— Ora, então não estamos falando de uma molécula de um bilhão de dólares, e sim de cinco bilhões de dólares!
— Fala sério? — indagou Edward.
— Digamos mais de um bilhão.
A garçonete interrompeu a conversa. Pediram o jantar. Após sua saída, Edward deu continuidade à conversa:
— Ainda não provamos nada disso. As experiências foram feitas sem controles.
— Mas vocês estão bem confiantes, não estão?
— Muito confiantes — respondeu Edward.
— E quem sabe do projeto?
— Apenas minha assistente mais próxima, as pessoas desta mesa e eu.
— Tem alguma noção de como a droga funciona?
— Apenas uma vaga hipótese. Ela parece estabilizar as concentrações dos principais neurotransmissores do cérebro e, assim, age em vários níveis. Afeta os neurônios
individualmente, mas também redes inteiras de células, como se fosse um auta-cóide ou um hormônio cerebral.
— Como a descobriu? — indagou Candice.
Edward resumiu a história explicando a relação entre a antepassada de Kim, o julgamento das bruxas de Salem e a teoria de que seus acusadores haviam sido envenenados
por um mofo.
— Kim quis saber se seria possível provar a teoria dos venenos, então resolvi pegar algumas amostras de terra — relatou Edward.
— Não mereço crédito algum — protestou Kim.
— É claro que merece, você e Elizabeth.
— Que ironia, encontrar uma droga numa amostra de terra — comentou Candice.
— Nem tanto. Muitas drogas importantes foram encontradas na terra. Foi o caso da cefalosporina e da ciclosporina. Neste caso a ironia é que a droga veio do diabo.
— Não diga isto. Me dá calafrios — pediu Kim. Edward riu, zombeteiro. Apontou para Kim e avisou aos outros que ela sofria de ocasionais crises de superstição.
— Também não gostei muito da associação — confessou Stanton. — Prefiro crer que seja uma droga caída do céu.
— A associação com o frenesi não me incomoda nem um pouco. Na verdade, me agrada. Embora a descoberta desta droga não justifique a morte de vinte pessoas, pelo menos
dá ao seu sacrifício algum significado.
— Vinte e uma mortes — corrigiu Kim. Explicou que a morte de Elizabeth fora negligenciada pelos historiadores.
— Eu não estaria nem aí se a droga estivesse relacionada ao Dilúvio bíblico. Me parece ser uma descoberta extraordinária — declarou Stanton. Em seguida virou-se
para Edward:
— E o que vai fazer agora?
— Foi por isso mesmo que quis lhe ver. O que acha que devemos fazer?
— Exatamente o que lhe disse anteriormente. Devemos fundar uma companhia, patentear a droga e o maior número possível de clones.
— Realmente acredita que estejamos diante de uma situação de um bilhão de dólares? — inquiriu Edward.
— Sei do que estou falando. Nesta área o perito sou eu.
— Então vamos em frente. Vamos formar uma companhia e ir em frente — afirmou Edward.
Stanton encarou Edward durante meio segundo.
— Acho que está falando sério — concluiu.
— É claro que estou falando sério.
— Então está bem. Primeiro precisamos de nomes — começou Stanton, tirando um caderninho e uma caneta do bolso do paletó. Precisamos de um nome para a droga e outro
para a companhia. Thlvez devêssemos chamar a droga de Soma em homenagem ao círculo literário.
— Já existe uma droga chamada Soma. Que tal Omni? Adequa-se bem à sua provável gama de aplicações clínicas — disse Edward.
— Omni não me soa como uma droga. Parece mais o nome de uma companhia. Podemos chamá-la de Omni Produtos Farmacêuticos.
— Gostei — afirmou Edward.
— E que tal Ultra como nome para a droga? Vai funcionar bem na publicidade — declarou Stanton.
— É, funciona — concordou Edward.
Os homens olharam para as mulheres esperando alguma reação. Candice não estivera ouvindo e foi preciso que Stanton repetisse os nomes. Ela então disse que eram bons.
Kim estivera ouvindo mas não tinha opinião; a discussão a tomara de surpresa. Edward não demonstrara embaraço algum em seu repentino e inesperado interesse pelo
mundo dos negócios.
— Quanto acha que consegue captar, em termos de fundos?
— Quanto tempo vai demorar até a droga estar pronta para ser comercializada? — perguntou Stanton.
— Não acho que possa responder a esta pergunta. E é óbvio que não posso garantir que terá carreira comercial.
— Sei disso — concordou Stanton. — Só estou pedindo uma aproximação. Sei que o prazo médio da descoberta da droga em potencial até sua aprovação junto à FDA e sua
comercialização é de doze anos, e o custo, algo em torno de duzentos milhões de dólares.
— Eu não precisaria de doze anos. E não chegaria perto de duzentos milhões de dólares.
— É óbvio que quanto menores o tempo de desenvolvimento da droga e a soma necessária, maior o número de ações que poderemos conservar.
— Entendo. Eu francamente não estou interessado em abrir mão de ação alguma — revelou Edward.
— Acha que vai precisar de quanto?
— Vou precisar de tecnologia de ponta para o laboratório — disse Edward pensando alto.
— O que há de errado com o que já tem? — perguntou Stanton.
— O laboratório é de Harvard. Como assinei um contrato de participação na ocasião de minha contratação, terei que tirar o projeto Ultra de lá.
— Pode nos causar problemas?
— Creio que não. O contrato inclui descobertas feitas durante o horário de trabalho e em equipamento do trabalho. Sustentarei que descobri a Ultra durante meu tempo
livre, o que é tecnicamente verdadeiro, embora tenha realizado as separações
e sínteses preliminares em horário de trabalho. De qualquer forma, não estou preocupado com possíveis aborrecimentos legais. Afinal de contas, não pertenço a Harvard.
— E quanto ao tempo de desenvolvimento da droga? Acha que pode ser diminuído?
— E muito. Uma das coisas que mais me impressionaram em relação à Ultra foi sua atoxicidade. Creio que este fato por si só facilitará muito a aprovação junto à FDA,
já que é a caracterização de toxicidades específicas que leva tanto tempo.
— Está falando então de conseguir a aprovação da PDA muitos anos antes da média — concluiu Stanton.
— Sem dúvida — concordou Edward. — Poderemos acelerar os testes com animais se não precisarmos nos preocupar com a toxicidade. A parte clínica poderá ser reduzida
se juntarmos as fases II e III com o programa acelerado da FDA.
— O programa acelerado da FDA tem como alvo drogas para o tratamento de doenças letais — informou Kim. Havia aprendido alguma coisa sobre drogas experimentais na
UTI cirúrgica.
— Se a Ultra for tão eficaz contra a depressão quanto imagino que seja, acho que podemos relacioná-la a uma doença séria.
— E quanto à Europa e à Ásia? Não precisamos da aprovação da FDA para comercializar a droga nestas regiões — sugeriu Stanton.
— É verdade, os Estados Unidos não são o único mercado para produtos farmacêuticos.
— Sabe de uma coisa? Posso conseguir quatro ou cinco milhões de dólares sem termos de nos desfazer de muitas ações. Tirarei grande parte do dinheiro de meus recursos
pessoais. O que acha?
— Ótimo! Quando pode começar?— vibrou Edward.
— Amanhã mesmo. Começarei a captar os recursos e a organizar a papelada para a fundação da companhia, assim como para o início das patentes.
— Sabe se podemos patentear o núcleo da molécula? Eu
gostaria que a patente incluísse qualquer droga elaborada com o núcleo.
— Não sei, mas posso descobrir.
— Enquanto você providencia os aspectos financeiros e legais eu começo a cuidar da montagem do novo laboratório. A primeira grande pergunta é onde localizá-lo. Gostaria
que fosse em algum lugar prático, já que vou passar muito tempo lá — ponderou Edward.
— Cambridge é um bom lugar — sugeriu Stanton.
— Não, quero-o o mais longe possível de Harvard.
— Que tal perto de Kendall Square? É longe de Harvard e perto do seu apartamento.
Edward virou-se para Kim e seus olhos se encontraram. Kim leu sua mente e assentiu com a cabeça. O gesto passou despercebido ao Sr. e Sra. Lewis.
— Na verdade estarei me mudando de Cambridge no final de agosto — comunicou Edward. —Vou me mudar para Salem.
— Edward irá morar comigo. Estou reformando a casa velha localizada na propriedade — disse Kim, sabendo que a notícia chegaria aos ouvidos de sua mãe em dois tempos.
— Mas que maravilha! — exclamou Candice.
— Seu malandrão — disse Stanton enquanto alcançava Edward por cima da mesa e lhe dava um soco de mentirinha no ombro.
— Pela primeira vez minha vida pessoal vai tão bem quanto a profissional.
— Por que não localizamos a sede da companhia em North Shore então? — sugeriu Stanton. — Os aluguéis comerciais lá em cima devem custar uma fração do que custam
na cidade.
— Stanton, você acaba de me dar uma excelente idéia — disse Edward se virando, em seguida, para Kim. — O que acha daquele moinho que virou estábulo lá na propriedade?
Como é isolado, daria um laboratório perfeito para este tipo de projeto
— Eu não sei — titubeou Kim. A sugestão a pegara de surpresa.
— Estou falando da Omni alugar o espaço de você e de seu irmão — disse Edward, cada vez mais animado com a idéia. —
Como você mesma mencionou, a propriedade é um fardo. Tenho certeza de que o pagamento de um aluguel ajudaria bastante.
— Não é má idéia — disse Stanton. — O aluguel seria completamente dedutível, e portanto não incidiria imposto algum. Bem pensado, meu velho!
— O que acha? — insistiu Edward.
- Terei de perguntar a meu irmão — declarou Kim.
— É claro que tem. Quando? Quanto mais rápido falar, melhor.
Kim olhou seu relógio e calculou que seriam duas e meia da manhã em Londres, bem na hora que Brian estaria começando a trabalhar.
— Posso ligar para ele qualquer noite — disse Kim. — Suponho que poderia ligar agora.
— É disso que eu gosto: decisão! — exclamou Stanton. Tirou o celular do bolso e o entregou a Kim. — A Omni pagará a ligação.
Kim se levantou.
— Aonde vai? — indagou Edward.
— Não quero falar com meu irmão na frente de todo mundo — disse Kim.
— É perfeitamente compreensível — comentou Stanton.
— Fale do toalete.
— Prefiro sair um instante.
Quando Kim deixou a mesa, Candice parabenizou Edward pelo progresso de seu relacionamento.
— Nos divertimos muito juntos — ele respondeu.
- Vai precisar de quantos funcionários para o laboratório? Bons salários consomem muito capital — disse Stanton.
— Eu manteria o número mais baixo possível. Precisaria de um biólogo para trabalhar com os animais, um imunologista para os estudos celulares, um cristalografísta,
um modelador molecular, um biofísico para a ressonância magnética nuclear, um farmacologista, Eleanor e eu.
— Meu Jesus! — exclamou Stanton. — O que acha que está criando, uma universidade?
— Posso lhe garantir que isto é o mínimo necessário para o tipo de trabalho que estamos desenvolvendo.
— Por que Eleanor?
— Porque é minha assistente. É meu braço direito e peça crucial para o sucesso do projeto.
— Quando pode começar a formar este time!
— Assim que conseguir o dinheiro. Precisamos de gente de primeira, portanto não serão baratas. Vou tirá-las de postos acadêmicos invejáveis e posições lucrativas
no setor privado.
— É disto que tenho medo. Muitas companhias biomédicas recém-criadas morrem na praia devido à verdadeira hemorragia causada por salários inflados.
— Pensarei nisso. Quando poderei começar a sacar o dinheiro?
— Posso conseguir que um milhão esteja disponível já no começo da semana — garantiu Stanton.
Suas entradas chegaram. Como as de Stanton e de Candice eram quentes, Edward insistiu para que começassem. Assim que levantaram seus garfos, Kim retornou à mesa.
Sentou-se e devolveu o telefone a Stanton.
— Tenho boas notícias. Meu irmão ficaria encantado em ter inquilinos no antigo moinho, mas insistiu que não assumiremos qualquer melhoria. Isto terá que ficar por
conta da Omni.
— Está certo — disse Edward. Levantou sua taça, preparando-se para outro brinde. Teve que cutucar Stanton, que parecia estar no mundo da lua. — A Omni e à Ultra
— disse. Todos beberam.
— Na minha opinião, a organização da companhia seria assim — começou Stanton, pondo a taça na mesa. — Nosso capital inicial será de quatro milhões e meio de dólares
e as ações terão o valor de dez dólares cada. Das quatrocentas e cinqüenta mil ações, ficaremos com cento e cinqüenta mil cada, deixando cento e cinqüenta mil para
futuras negociações e para oferecê-las como atrativo para a equipe. Se a Ultra for metade do que foi descrito hoje à noite, cada uma destas ações terá um valor monumental.
— Tim-tim — disse Edward, erguendo sua taça mais uma
vez. Todos brindaram e beberam, especialmente Edward, satisfeito com sua escolha de vinho. Jamais bebera um vinho branco tão gostoso. Aproveitou o momento para saborear
o buquê de baunilha com um toque final de damasco.
Após o jantar, despediram-se. Kim e Edward foram até o estacionamento do restaurante para pegar o carro.
— Se não se importa, gostaria de pular o passeio pelo quadrilátero — disse Edward.
— Como? — perguntou Kim. Ficou levemente desapontada, e também surpresa. Não esperara que Edward quisesse tirar uma folga do trabalho e, além do mais, seu comportamento
fora excepcional desde a hora em que passara para pegá-la.
— Tenho que dar alguns telefonemas — afirmou Edward.
— Já passa das dez — lembrou-lhe Kim. — Não está um pouquinho tarde para ligar para os outros?
— Não na Costa Oeste. Há algumas pessoas da UCLA e de Stanford que eu gostaria de ter em nossa equipe.
— Deu para notar que está muito entusiasmado com esta investida.
— Estou nas nuvens. Minha intuição me disse que estava diante de algo importante assim que soube que tropeçáramos em três alcalóides desconhecidos. Só não sabia
que era grande assim.
— Não está preocupado com o contrato de participação que assinou com Harvard? Já ouvi falar de situações parecidas nesta cidade, como nos anos oitenta, quando começou
o namoro do meio acadêmico com a indústria.
— É um problema que deixarei para advogados.
— Não sei não — insistiu Kim. — Com ou sem advogados, poderia afetar sua carreira acadêmica. — Sabia o quanto Edward gostava de lecionar e temia que seu repentino
entusiasmo empresarial estivesse obscurecendo seu julgamento.
— É um risco — admitiu Edward. — Mas estou disposto a corrê-lo. A oportunidade oferecida pela Ultra surge uma vez na vida. É uma chance de deixar um marco nesta
vida e de ganhar muito dinheiro durante o processo.
— Pensei que não estivesse interessado em ficar milionário
— Não estava, mas não havia pensado em ficar bilionário. Não tinha idéia que havia tanto em jogo.
Kim não via a diferença. Era uma questão ética que não queria discutir naquele momento.
— Sinto muito ter sugerido a conversão do estábulo em laboratório sem ter discutido antes com você. Não é do meu feitio deixar algo assim escapar. Acho que a conversa
com Stanton me deixou tão animado que não medi as conseqüências.
— Aceito suas desculpas. Além do mais, meu irmão gostou da idéia. O aluguel vai ajudar a pagar os impostos sobre a propriedade. São astronômicos.
— O bom é que o estábulo fica longe o bastante para o laboratório não nos incomodar.
Entraram em Memorial Drive e foram na direção das ruas residenciais de Cambridge. Edward estacionou em sua vaga e desligou o motor. Em seguida, bateu na testa com
a palma da mão.
— Que estupidez a minha. Deveríamos ter passado na sua casa primeiro para pegar suas coisas.
— Quer que eu passe a noite aqui?
— É claro que sim, você não quer ficar?
— Você tem andado tão ocupado que não sabia o que esperar.
— Se ficar, facilitará nossa ida amanhã para Salem. Podemos até ir mais cedo.
— Tem certeza que ainda quer ir? Achei que não ia querer por causa do projeto.
— Mas agora eu quero, já que é lá que vamos sediar a Omni. — Edward ligou o carro de novo e deu ré. —Vamos voltar e pegar uma muda de roupa. Isto se você quiser
ficar, é claro. Eu gostaria que ficasse. — Na penumbra, ele lhe lançou um sorriso luminoso.
— Suponho que sim — disse Kim. Sentia-se indecisa e ansiosa sem saber exatamente por quê.
Capítulo 8. SÁBADO, 30 DE JULHO DE 1994.
Kim e Edward não começaram o dia tão cedo quanto ele sugerira na noite anterior. Edward acabou passando metade da manhã ao telefone. Primeiro, ligou para o arquiteto
e o empreiteiro de Kim perguntando sobre uma possível expansão da obra para incluir o novo laboratório. Os dois concordaram prontamente e sugeriram que se encontrassem
na propriedade às onze. Em seguida, Edward ligou para vários representantes de fábricas de equipamento de laboratório e marcou encontro na propriedade à hora combinada
com o arquiteto e o empreiteiro.
Após um rápido telefonema para Stanton, para se certificar de que o dinheiro estaria logo disponível, Edward ligou para várias pessoas que gostaria de recrutar para
a equipe profissional da Omni. Assim, Edward e Kim só começaram a viagem rumo ao norte bem depois das dez horas.
Quando Edward estacionou em frente ao estábulo, uma pequena multidão o aguardava. Como já haviam se apresentado entre si, Edward não precisou fazê-lo. Fez sinal
para todos se aproximarem da porta de correr do estábulo, trancada com um cadeado.
O prédio de pedra era longo, tinha apenas um andar e
janelas esparsas, posicionadas logo abaixo dos beirais. Como o terreno mergulhasse rio adentro, os fundos do estábulo tinham dois andares, com entradas separadas
para cada uma das baias.
Kim testou várias chaves antes de encontrar a que abriria o cadeado. Após deslizar a porta, todos entraram no primeiro andar — para quem entrava pela frente. Para
quem entrava pelos fundos, era o segundo.
Em seu interior havia um cômodo imenso, sem divisões, e um teto como o de uma igreja. Na parte de trás da estrutura, havia várias aberturas com venezianas. Uma das
extremidades do cômodo estava repleta de fardos de feno.
— Pelo menos a demolição será facílima — disse George.
— Este lugar é perfeito. É meu laboratório ideal, um espaço único e enorme, onde todos podem se ver — declarou Edward.
A escadaria que levava ao andar inferior era construída com tábuas de carvalho bruto pregadas com tarugos de quase três centímetros de diâmetro. Lá embaixo encontraram
um corredor longo com baias à direita e depósitos de arreios à esquerda.
Kim os seguiu e ouviu os planos para a transformação do estábulo em avançado laboratório biológico e farmacológico. Na parte inferior ficaria a coleção de cobaias:
macacos rhesus, camundongos, ratos e coelhos. Haveria lugar também para as incubadoras das culturas bacterianas e de tecidos, assim como uma câmara de contenção.
E finalmente, as salas blindadas especialmente desenvolvidas para conter as unidades de ressonância magnética nuclear e a cristalografia por raios X.
A parte de cima conteria o laboratório principal assim como uma sala também blindada e refrigerada, onde ficaria o computador central. Cada bancada do laboratório
teria seu próprio terminal. Para que houvesse força para o batalhão de equipamentos eletrônicos, seria necessário trazer um serviço elétrico externo.
— Bem, aí está — disse Edward ao final do giro. Virou-se para o arquiteto e o empreiteiro. — Podem prever algum problema com esta obra?
— Creio que não — respondeu Mark. — A estrutura é
sólida. Só sugeriria que projetássemos uma entrada com uma recepção.
— Não teremos muitas visitas, mas tem razão. Pode incluí-la. O que mais?
— Não creio que tenhamos problemas com os alvarás para a construção — disse George.
— Contanto que não falemos dos animais — acrescentou Mark. — Meu conselho é simplesmente não mencioná-los. Poderia criar problemas que levarão muito tempo para serem
solucionados.
— Fico mais do que contente em deixar os aspectos civis da obra para sua experiência — afirmou Edward. — O fato é que estou interessado em apressar este projeto,
portanto gostaria de aproveitar sua perícia ao máximo. E para acelerar as coisas, estou disposto a lhes pagar um bônus de dez por cento sobre tempo, material e taxas.
Sorrisos entusiasmados e ávidos estamparam os rostos de George e Mark.
— Quando podem começar? — indagou Edward.
— Imediatamente — disseram os dois homens ao mesmo tempo.
— Espero que meu projetinho não seja prejudicado com este projetão mais recente — afirmou Kim, manifestando-se pela primeira vez.
— Não se preocupe — declarou George. — Pelo contrário, poderá até acelerar a obra do chalé. Traremos uma equipe maior, com todos os ofícios representados. Se precisarmos
de um bombeiro ou de um eletricista para algum trabalho no seu projeto, ele já estará aqui.
Enquanto Edward, o empreiteiro e o arquiteto e os vários representantes dos equipamentos médicos se puseram a discutir os detalhes do novo laboratório, Kim saiu
do estábulo. Apertou os olhos para se proteger do sol encoberto mas intenso do meio-dia. Sabia que não contribuiria em nada para o planejamento do laboratório, então
cruzou o campo na direção do chalé para ver como andavam as coisas.
Ao se aproximar do prédio, viu que a vala fora coberta.
Notou também que os operários haviam colocado a lápide de EHzabeth acima de seu túmulo. Deixaram-na deitada, como a encontraram.
Entrou no chalé. Parecia-lhe minúsculo após ter estado no estábulo. Mas o trabalho progredia, especialmente a cozinha e os banheiros. Pela primeira vez, conseguiu
imaginar como tudo ficaria quando terminado.
Após olhar o chalé, Kim voltou ao estábulo. Não parecia que Edward e os outros terminariam sua conferência de última hora tão cedo. Kim os interrompeu apenas para
avisar a Edward que estaria no castelo. Ele desejou que se divertisse e voltou imediatamente para a resolução de algum problema envolvendo a unidade de ressonância
magnética nuclear.
Sair do sol e entrar no interior sombrio do castelo era como penetrar em outro mundo. Kim parou para ouvir os estalidos e os gemidos da casa que se ajustava ao calor
do dia. Pela primeira vez notou que não podia ouvir o canto dos pássaros, ou o lamento das gaivotas lá de dentro.
Após uma curta discussão consigo mesma, Kim decidiu subir a majestosa escadaria. Apesar de haver encontrado mais documentos do século XVII na adega, tão recentemente,
achou que daria mais uma chance ao sótão. Sem contar que era bem mais agradável.
A primeira coisa que fez foi abrir várias trapeiras para que a brisa do mar pudesse entrar. Quando ia se afastar da janela que acabara de abrir, notou pilhas e mais
pilhas de livros, todos encadernados em pano. Encontravam-se enfileirados, para um lado da trapeira.
Tomou um dos livros em suas mãos e olhou a lombada. Escrito a mão com tinta branca, contra um fundo preto, liam-se as palavras Bruxa do mar. Ficou curiosa quanto
ao conteúdo do livro e o abriu. Primeiro achou que se tratasse do diário de alguém, por haver relatos escritos a mão sob uma data. Os relatos começavam sempre com
descrições detalhadas do tempo. Logo compreendeu que não se tratava de um diário particular, e sim o diário de bordo de um navio.
Virou as páginas até o início do livro. Kim viu que cobria do
ano de 1791 até 1802. Devolveu o livro para a fileira de onde o tirara e olhou as lombadas dos outros, lendo seus nomes. Havia sete livros com o nome Bruxa do mar.
Verificou-os todos e constatou que o mais antigo ia de 1737 a 1749.
Perguntando-se se haveria outros do século XVII, Kim examinou as outras pilhas. Numa pequena pilha próxima à janela, encontrou um livro em couro, com a lombada gasta,
na qual não havia nome. Pegou-o.
Tinha uma textura de um livro muito usado, tal qual a bíblia que encontrara na adega. Abriu-o no frontispício. Era o diário de bordo de um brigue chamado Endeavor.
Cobria os anos de 1679 até 1703. Virando as páginas antigas com cuidado, Kim percorreu os anos até chegar em 1692.
A primeira anotação daquele ano era de 24 de janeiro. O dia estivera frio, porém claro, e um bom vento leste soprava. Dizia ainda que o navio começara sua viagem
com maré alta e estava a caminho de Liverpool com um carregamento de óleo de baleia, madeira, provisões para navios, peles, potassa e bacalhau e cavala secos.
Kim engasgou quando seus olhos bateram num nome muito familiar. A próxima frase do relato dizia que o navio carregava um passageiro muito distinto, o ilustríssimo
Sr. Ronald Stewart, proprietário do navio. O registro explicava que Ronald se encontrava a caminho da Suécia para supervisionar os últimos retoques e receber seu
novo navio, o Sea Spirü.
Kim examinou os registros subseqüentes desta mesma viagem, minuciosamente. O nome de Ronald não voltou a ser mencionado até seu desembarque em Liverpool, após uma
viagem sem grandes novidades.
Animada, Kim fechou o livro e desceu do sótão, indo até a adega. Abrindo o porta-bíblia, retirou a escritura que encontrara em sua última visita e checou a data.
Estava certa! O motivo pelo qual Elizabeth assinara a escritura era que Ronald estivera viajando na ocasião de sua assinatura. A resolução dos pequenos mistérios
relacionados a Elizabeth enchiam Kim de uma grande satisfação. Pôs a escritura de volta no porta-bíblia e já ia juntar
o diário de bordo a sua pequena coleção de documentos quando três envelopes amarrados com uma fita caíram da quarta-capa.
Kim apanhou o pequeno pacote com dedos trêmulos. Viu logo que o primeiro envelope estava endereçado a Ronald Stewart. Após desamarrar a fita, descobriu que eram
todos endereçados a Ronald. Com excitação crescente, abriu os envelopes e esvaziou seus conteúdos. Havia três cartas datadas de 23 de outubro, 29 de outubro e 11
de novembro.
A primeira era de Samuel Sewall:
Boston
Meu caro amigo,
Soube que anda aflito, embora eu peça a Deus que suas recentes bodas diminuam sua inquietude. Compreendo também seu desejo de manter o conhecimento do infeliz envolvimento
de sua falecida esposa com o Príncipe das Trevas longe do público. No entanto, devo avisá-lo, de boa fé, a não requerer ao governador um mandado de busca e apreensão
da prova conclusiva usada na condenação de sua esposa, por atos abomináveis de bruxaria. Com o mesmo intuito, eu lhe aconselharia a escrever ao reverendo Cotton
Mather, em cujo porão viu os atos infernais de sua esposa, em súplica. Soube recentemente que a custódia da prova foi concedida ao reverendo perpetuamente, de acordo
com seu pedido.
Seu Amigo, Samuel Sewall
Frustrada em encontrar mais uma referência à misteriosa prova, sem sua descrição, Kim passou à segunda carta. Era escrita por Cotton Mather.
Sábado 29 de outubro Boston
Senhor:
Estou de posse de sua recente missiva, contendo referência a sermos colegas de Harvard, fato este que me dá esperanças de que sua disposição em relação à venerável
instituição seja de amável solicitude
para que possa ter a brandura de espírito para compreender que eu e meu pai decidimos ser Harvard o local apropriado para a obra de Elizabeth. Deve se lembrar de
que, quando nos encontramos em minha casa, em julho, eu me preocupava que o bom povo de Salem pudesse ser excitado a reações de indisciplina e turbulência em relação
à presença do Diabo, vista com clareza nas ações e obras infernais de Elizabeth. É de uma infelicidade extrema que minhas ferventes preocupações tenham sido ignoradas
apesar de meus pedidos de cautela e critério no uso de provas espectrais, sem que o fim das Mentiras pudesse assumir a forma exterior de um inocente, pois a reputação
de pessoas inocentes pode ser maculada apesar da perseverança de nossos sédulos juizes, notáveis por sua justiça, sapiência e bondade. Compreendo seu venerável desejo
de proteger sua família de mais humilhação, mas acredito que a prova de Elizabeth deva ser preservada em benefício das futuras gerações em seu eterno combate contra
as forças do mal, como um perfeito exemplo do tipo de prova necessária para determinar-se objetivamente que houve um real pacto com o Diabo. Com este intuito, discuti
longamente com meu pai, Increase Mather, merecidamente atual presidente de Harvard Colled-ge. Juntos, de comum acordo, decidimos que a prova deva permanecer em Harvard
para a edificação e a instrução das futuras gerações, para quem a cautela será de suma importância na frustração da obra do Diabo na terra nova de Deus.
Seu servo em nome de Deus, Cotton Mather.
Kim não estava bem certa se havia compreendido a carta inteira, mas captara a idéia. Sentindo-se ainda mais frustrada com a misteriosa prova, passou à última carta.
Olhando a assinatura, viu que era de Increase Mather.
11 de novembro de 1692 Cambridge
Senhor:
Sinto imensa empatia por seu desejo de recuperar a referida prova, mas fui informado pelos professores William Brattle e John
Leverett de que ela foi recebida por nossos estudantes com imenso interesse, e que estimulou discussões calorosas e esclarecedoras que nos convenceram ser a vontade
de Deus que o legado de Elizabeth permaneça em Harvard como uma importante contribuição no estabelecimento de critérios objetivos no Direito Eclesiástico, em relação
à bruxaria e às terríveis obras do Diabo. Peço-lhe que compreenda a importância desta prova e afirmo que deve permanecer em nossa coleção. Se os estimados Colegas
da Corporação de Harvard decidirem fundar uma faculdade de Direito, a prova será então transferida àquela instituição.
Seu servo, Increase Mather.
— Droga! — exclamou Kim após ler a última carta. Não conseguia acreditar que tivera sorte o bastante em encontrar tantas referências à prova de Elizabeth embora
continuasse sem saber o que era. Pensando ter pulado alguma coisa, releu as cartas. A estranha sintaxe e ortografia dificultavam um pouco sua leitura. Quando chegou
ao final da leitura, no entanto, teve certeza de que não pulara nada.
Estimulada pelas cartas, Kim tentou mais uma vez imaginar a natureza das provas incontestáveis usadas contra Elizabeth. De suas novas leituras a respeito do caso
de Salem, Kim se convencera de que deveria ser um livro de algum tipo. Nos tempos dos julgamentos, a questão do Livro do Diabo viera à tona com freqüência. O método
pelo qual uma suposta bruxa estabelecia sua ligação com o diabo era por ter escrito no Livro do Diabo.
Kim olhou as cartas mais uma vez. Notou que a prova era descrita como obra de Elizabeth. Será que ela teria criado um livro, com uma capa trabalhada em couro? Kim
riu de si mesma. Sabia que estava sobrecarregando sua imaginação, porém nada mais lhe vinha à mente.
Na carta de Increase Mather, viu que a prova provocara discussões acaloradas e esclarecedoras por parte dos alunos. Achou que tal descrição não só dava vulto à idéia
da prova ser
um livro, como também parecia sugerir que a importância estava no conteúdo e não em sua aparência.
Mas então Kim pensou mais uma vez que podia ser algum tipo de boneco. Na semana anterior, lera que um boneco cheio de alfinetes havia sido usado no julgamento de
Bridget Bishop, a primeira pessoa a ser enforcada durante os julgamentos de Salem.
Kim suspirou. Sabia que suas especulações extravagantes não a levavam a lugar algum. Afinal de contas, a prova podia ser qualquer coisa relacionada ao ocultismo.
Em vez de embarcar em devaneios alucinados, devia se limitar aos fatos. Das três cartas que acabara de encontrar constava um dado muito importante, que a prova,
fosse ela qual fosse, havia sido entregue à custódia de Harvard em 1692. Kim se perguntou se seria possível encontrar alguma referência à prova ainda nos dias de
hoje ou se ririam dela se tentasse.
— Ah, olha você aí — disse Edward, chegando ao topo da escada da adega. — Encontrou alguma coisa?
— Acredite ou não, encontrei. Desça até aqui para dar uma olhada.
Edward desceu as escadas e pegou as três cartas.
— Meu Deus! — exclamou quando viu as assinaturas. — São os três puritanos mais famosos de nossa história. Que achado!
— Leia as cartas. São muito interessantes, mas frustrantes para meus propósitos.
Edward se encostou numa escrivaninha para aproveitar a luz de um dos candeeiros. Leu as cartas na mesma ordem que Kim as lera.
— São fantásticas. Adorei a escolha das palavras e a gramática. Deixa claro que a retórica era amplamente estudada naquela época. Muito disto daqui está além da
minha capacidade: não tenho idéia do que seja um juiz sédulo.
— Acho que quer dizer diligente, ativo. Não tive muito problema com as palavras e sim com esta sintaxe. As frases não acabam!
— Sorte sua não terem sido escritas em latim. Naquele
tempo, era necessário ler e escrever latim para entrar em Harvard. E por falar em Harvard, tenho certeza de que teria grande interesse por estas cartas, especialmente
pela escrita por Increase Mather.
— É verdade. Estive pensando em ir a Harvard para indagar sobre a prova de Elizabeth. Temi que rissem de mim. Talvez eu pudesse fazer uma troca.
— Não ririam de você. Tenho certeza que alguém na Biblioteca Widener ficaria ao menos curioso. É claro que não recusariam um presente como este. Talvez até queiram
comprá-la.
— Depois de ler estas cartas, tem alguma idéia do que poderia ser esta prova?
— Não. Mas entendo o que quis dizer com frustrante. É quase engraçado, a quantidade de vezes que falam da prova sem descrevê-la.
— Achei que a carta de Increase Mather dá mais peso à idéia de que seja um livro. Especialmente na parte que menciona que a prova estimulou a discussão entre os
estudantes.
— Talvez.
— Espere aí — disse Kim de repente. —Acabo de ter uma nova idéia. Por que será que Ronald insistia tanto em recuperá-la? Será que isto já não é uma dica?
Edward deu de ombros.
— Acho que ele queria poupar sua família de mais humilhação. Muitas vezes, as famílias sofriam muito quando um de seus membros era condenado por bruxaria.
— E se a prova o incriminasse também? E se Ronald tivesse alguma coisa a ver com a acusação e condenação de Elizabeth? Se tinha, desejaria recuperá-la para que pudesse
destruí-la.
— Nosssssaaaa, pega leve!—exclamou Edward dando um passo atrás como se Kim fosse alguma grande ameaça. —Agora você acha que houve alguma conspiração contra Elizabeth.
Sua imaginação está a todo vapor.
Mas Ronald casou com a irmã de Elizabeth dez semanas após sua morte — devolveu Kim, inflamada.
- Está esquecendo uma coisa. Os exames aos quais submeti
Elizabeth provam que ela fora cronicamente envenenada pelo fungo. Ela deveria estar tendo alucinações a torto e a direito, coisa que não tem a ver com Ronald. Na
verdade, ele próprio teria tido suas próprias alucinações se tivesse ingerido o mofo. Ainda acho que a prova tenha algo a ver com alguma coisa que Elizabeth criou
sob o efeito alucinógeno do mofo. Como já dissemos, pode ter sido um livro, um boneco ou qualquer outra coisa que achavam estar relacionada ao oculto.
— É verdade — concordou Kim. Tomou as cartas de Edward e as colocou de volta no porta-bíblia, Olhou o longo corredor cheio de móveis repletos de documentos. — De
volta ao começo. Terei que continuar procurando, na esperança de encontrar uma descrição da prova.
— Já terminei minhas reuniões. Correu tudo bem com relação ao novo laboratório. Tenho que parabenizá-la quanto ao seu empreiteiro. Já vai abrir a vala da fiação
hoje mesmo. Disse que seu único medo era encontrar mais túmulos. Acho que se assustou com o de Elizabeth. Que figura!
— Quer voltar a Boston? — perguntou Kim.
— Quero sim — admitiu Edward. — Há muitas pessoas com as quais gostaria de falar, agora que a Omni já começou a se tornar realidade. Mas não me importo de tomar
o trem como daquela vez. Se quiser ficar aqui trabalhando no seu projeto, acho que deve.
— Se você não se importar...
Sentia-se bem mais encorajada com a descoberta das cartas.
Capítulo 9. SEXTA-FEIRA, 12 DE AGOSTO DE 1994.
O mês de agosto começou quente, úmido e enevoado. Chovera pouco em julho e a seca continuou impiedosa até o final do mês, fazendo com que o gramado do Boston Common,
em frente ao apartamento de Kim, mudasse de verde para marrom.
No trabalho, agosto trouxe algum alívio para Kim. Kinnard começara seu rodízio de dois meses no hospital de Salem, portanto ela não se sentia mais tão ansiosa em
ter de enfrentá-lo todos os dias na UTI cirúrgica. Kim também concluíra suas negociações com o departamento de enfermagem para folgar o mês de setembro. Conseguira
juntar férias acumuladas com uma licença não remunerada. O departamento não ficara feliz com seu pedido, mas resolveram acatá-lo para não perder Kim de uma vez.
Como Edward viajasse constantemente, Kim se viu com muito tempo para si mesma no início do mês. Ele pegava aviões de um lado para outro do país, em missões secretas
de recrutamento para a Omni Produtos Farmacêuticos. Mas ele não a esquecia. Apesar de seu horário restrito, telefonava todas as noites por volta das dez horas, um
pouco antes de Kim se deitar. Também continuava a mandar flores, embora em menor escala.
Agora Kim recebia uma única rosa todos os dias, o que ela acreditava ser bem mais apropriado.
Kim não tinha dificuldades em preencher seu tempo livre. A noite ela continuava a ler sobre o julgamento das bruxas de Salem e sobre a cultura do puritanismo. Também
fazia questão de ir à propriedade todos os dias. A obra caminhava com rapidez. O número de operários trabalhando no laboratório era ainda maior do que o número trabalhando
no chalé. No entanto, as obras do chalé não foram retardadas e a última demão de tinta já estava sendo passada antes mesmo dos armários ficarem prontos.
Para Kim, a maior das ironias era que seu pai estava impressionadíssimo com ela devido ao trabalho que estava sendo feito no laboratório. Kim não esclareceu sua
ligação com aquela parte da reforma.
Em cada visita à propriedade, Kim passava algum tempo no castelo, garimpando cuidadosamente o amontoado de livros e documentos poeirentos. O resultado foi desapontador.
Embora tivesse se sentido confiante após o achado das três cartas, nas 26 horas que se seguiram não encontrou nada de igual valor. Assim, na quinta-feira, 11 de
agosto, decidiu seguir a pista que encontrara e, munida da carta de Increase Mather, tomou coragem para ir até Harvard.
Na sexta-feira, após o trabalho, Kim andou até a esquina das ruas Charles e Cambridge e subiu as escadas da estação de metrô. Depois de sua experiência na câmara
dos deputados, infrutífera devido ao fato de Ronald jamais ter requerido coisa alguma ao governador, Kim não estava muito confiante de que encontraria a prova em
Harvard. Não só achava remotas as chances da universidade ainda manter o objeto em sua propriedade, como também temia que o pessoal da universidade a olharia como
se fosse louca. Quem mais sairia à caça de um objeto de trezentos anos, cuja natureza jamais fora especificada nas poucas referências tangíveis a que tivera acesso?
Enquanto esperava o metrô, Kim esteve prestes a desistir diversas vezes. Como era a única pista que tinha, sabia que deveria segui-la, a despeito da reação que provocaria.
Saindo da estação, Kim viu-se em meio ao corre-corre normal de Harvard Square. Mas depois que atravessou a Mas-sachusetts Avenue e entrou no campus, o barulho dos
carros e dos transeuntes foi abafado com incrível rapidez. Enquanto caminhava pelas calçadas tranqüilas e arborizadas, por entre prédios de tijolos vermelhos cobertos
de hera, perguntou-se como teria sido o campus na época em que Ronald Stewart o freqüentou. Nenhum dos prédios que passava parecia ser muito antigo.
Lembrando-se do comentário de Edward a respeito da Biblioteca Widener, Kim decidiu começar por ela. Subiu as escadas largas e passou por entre suas majestosas colunas.
Sentia-se nervosa e precisava se encorajar constantemente para não desistir. No balcão de informações pediu para falar com alguém a respeito de objetos antigos.
Mandaram-na para o escritório de Mary Custland.
Mary Custland era uma mulher dinâmica de trinta e tantos anos, elegantemente trajada num conjunto azul-marinho, camisa branca e um lenço colorido. Não se encaixava
no estereótipo da bibliotecária criado por Kim. Seu título era Curadora de Livros e Manuscritos Raros. Para seu profundo alívio foi cortês e simpática, perguntando
imediatamente como poderia lhe ser útil.
Kim pegou a carta e entregou-a a Mary, mencionando ser descendente do destinatário. Começou a dizer por que viera, mas Mary a interrompeu.
— Com a sua licença!—exclamou, completamente atônita. — Esta carta foi escrita por Increase Mather! — Enquanto falava foi chegando os dedos até a pontinha do papel,
em reverência ao documento.
— Era o que tentava lhe explicar.
— Katherine Sturburg precisa vir até aqui — disse Mary. Colocou a carta cuidadosamente sobre um mata-borrão e tirou o fone do gancho. Enquanto esperava que a ligação
completasse, disse a Kim que Katherine era especialista em documentos do século XVII e que seu interesse especial era Increase Mather.
Após fazer sua chamada, Mary perguntou-lhe como conseguira
a carta. Kim começou a explicar mais uma vez, mas Katherine chegou. Era uma mulher mais velha, de cabelos grisalhos, um par de óculos de leitura apoiado permanentemente
na ponta do nariz. Mary as apresentou e mostrou a carta a Katherine.
Katherine usou apenas as pontas dos dedos para virar a carta de forma que pudesse lê-la. Kim sentiu-se imediatamente envergonhada pela maneira descuidada com a qual
a manuseara.
— O que acha? — perguntou Mary a Katherine quando esta terminara de ler.
— Não há dúvida de que é autêntica. Sei disso só pela sintaxe e pela letra. É fascinante. Menciona William Brattle e John Leverett. Mas que prova é esta a que se
refere?
— Esta é a grande questão. É por isso que estou aqui. Inicialmente tencionava descobrir alguma coisa relacionada a minha antepassada, Elizabeth Stewart, mas esta
meta evoluiu até a solução deste quebra-cabeça. Vim a Harvard em busca de ajuda, já que a prova, o que quer que possa ser, foi trazida para cá.
— Como estaria isto ligado à bruxaria? — indagou Mary.
Kim explicou que Elizabeth estivera envolvida no julgamento das bruxas de Salem e que a prova — fosse o que fosse — fora usada para condená-la.
— Eu deveria ter notado a associação com Salem pela data — afirmou Katherine.
— Da segunda vez que Mather se refere à prova, chama-a de o legado de Elizabeth — comentou Mary. — É uma frase curiosa. Sugere algo que a própria Elizabeth tenha
feito ou adquirido com um certo grau de esforço ou com dinheiro.
Kim assentiu com a cabeça. Relatou então sua idéia de que talvez fosse um livro, ou escritos, embora admitisse a possibilidade de ter sido qualquer coisa associada
com bruxaria ou ocultismo.
— Suponho que pudesse ser um boneco — sugeriu Mary
— Também já pensei nisso — declarou Kim.
As duas bibliotecárias discutiram qual seria a melhor maneira de acessar os fabulosos recursos da biblioteca. Após breve
discussão, Mary sentou-se diante de seu computador e digitou o nome ELIZABETH STEWART.
Passaram um minuto em silêncio. O único movimento na sala era o piscar do cursor enquanto o computador vasculhava seu imenso banco de dados. Quando várias listagens
apareceram na tela, o ânimo de Kim se renovou. Mas o alívio durou pouco. Todas as Elizabeth Stewart listadas eram dos séculos XIX e XX e não tinham parentesco algum
com Kim.
Tentaram Ronald Stewart e o resultado foi parecido. Não havia referência no século XVII. Em seguida, Mary tentou relacioná-lo a Increase Mather. Havia um grande
volume de material, mas nada em relação à família Stewart.
— Não me surpreende. Não estava muito otimista quanto a esta visita. Espero não ter incomodado vocês — desculpou-se Kim.
— Muito pelo contrário—garantiu-lhe Katherine.—Fico contente por ter nos mostrado esta carta. Gostaríamos de tirar uma cópia para nossos arquivos, se não se importar.
— De modo algum. Na verdade, quando terminar minha minicruzada, ficarei muito feliz em doá-la à biblioteca.
— Seria muito generoso de sua parte — disse Mary.
— Como a arquivista mais interessada em Increase Mather, terei imenso prazer em procurar Elizabeth Stewart em meus arquivos — prometeu Katherine. — O que quer que
seja essa prova, deve existir alguma referência a ela, pois a carta de Mather confirma que foi entregue a Harvard. As discussões em torno das provas espectrais usadas
durante o julgamento foram ferozes e há muito material a esse respeito. Tenho a impressão que é a isto que Mather se refere em sua carta. Portanto, ainda há alguma
possibilidade de eu encontrar alguma coisa.
Eu agradeceria qualquer coisa que pudesse fazer — afirmou Kim, dando os telefones do trabalho e de casa.
As bibliotecárias trocaram um olhar de cumplicidade. Então Mary disse:
- Não quero parecer pessimista, mas devemos preveni-la de que as chances de acharmos a prova em si são mínimas, não importa o que seja. Houve uma enorme tragédia
aqui em 24 de
janeiro de 1764. Naquela época, o Old Harvard Hall estava sendo usado pelo Tribunal Geral devido à epidemia de varíola em Boston. Era uma noite fria e infelizmente
alguém esqueceu um fogo aceso na biblioteca. Assim começou o incêndio que destruiu o prédio e todo o seu precioso conteúdo. Isto incluía retratos de todos os presidentes
de Harvard e seus benfeitores, assim como grande parte de sua biblioteca de cinco mil volumes. Conheço bem este episódio porque foi o pior da história da biblioteca.
A biblioteca não perdeu apenas livros, havia também uma coleção de animais empalhados e, o mais curioso de tudo, uma coleção chamada repositório de curiosidades.
— Esta coleção devia incluir objetos associados ao ocultismo — disse Kim.
— Sem dúvida — concordou Mary. — É bem capaz da prova que procura ter feito parte desta misteriosa coleção. Mas talvez jamais saibamos. O catálogo da coleção também
foi destruído.
— Mas isto não quer dizer que não encontrarei referência a ela — arrematou Katherine. — Prometo fazer o possível.
Enquanto descia a escadaria da biblioteca, Kim tentava se consolar lembrando que não esperara mesmo conseguir coisa alguma. Pelo menos não riram dela e as bibliotecárias
haviam ficado muito interessadas em sua carta. Estava certa de que continuariam a procurar referências à sua antepassada.
Pegou o metrô de volta à Charles Street e apanhou o carro na garagem do hospital. Teria preferido trocar de roupa primeiro, mas sua ida a Harvard tomara mais tempo
do que esperara. Teve que ir direto ao aeroporto para buscar Edward, que estava chegando da Costa Oeste.
Edward chegou na hora, e, como só tivesse bagagem de mão, foram direto para o estacionamento.
— As coisas não podiam estar indo melhor — declarou Edward, alegremente. — Só uma das pessoas que eu queria para a equipe da Omni recusou minha oferta. Todos acreditam
que a Omni vai decolar.
— O que é que você diz a eles? — inquiriu Kim.
- Quase nada até obter seu comprometimento. Não quero correr risco algum. Mas só as informações básicas já são o bastante para entusiasmá-los, tanto que não tive
que prometer quase nenhuma ação. Até agora, só me comprometi com quarenta mil ações preteridas.
Kim não sabia o que isso queria dizer, mas também não perguntou. Edward pôs a bagagem no porta-mala. Entraram no carro e deixaram o estacionamento.
— Como vão as coisas na propriedade? — perguntou Edward.
— Bem — respondeu Kim num tom desanimado.
— Você está meio tristinha — observou Edward.
— Acho que sim. Finalmente juntei coragem para ir até Harvard para indagar a respeito da prova de Elizabeth.
— Não vá me dizer que não foram prestativos.
— Não, foram até muito prestativos. Só que não tinham boas notícias. Houve um grande incêndio em Harvard em 1764 que destruiu a biblioteca e fez desaparecer uma
coleção chamada de repositório de curiosidades. Para piorar as coisas, não sobrou nem mesmo o catálogo da coleção. Temo que a prova de Elizabeth tenha ardido nas
chamas deste inferno.
— Acho que isto leva você mais uma vez ao repositório do castelo.
— É, parece que sim. O problema é que perdi um pouco do entusiasmo.
— Mas como? As cartas dos dois Mathers e de Sewall deveriam ter sido um bom incentivo!
— Foram, mas o efeito já está passando. Desde então já passei quase trinta horas no castelo sem encontrar documento algum do século XVII.
— Eu avisei que não ia ser fácil — lembrou-lhe Edward. Kim não respondeu. A última coisa da qual precisava era de Edward apontando o dedo e dizendo: eu não disse
Ao chegarem ao apartamento de Edward, ele foi direto ligar para Stanton sem nem sequer tirar o paletó. Kim ouviu Edward relatar seu sucesso com o recrutamento.
- Grandes notícias dos dois lados — disse Edward ao
desligar. — Stanton já tem grande parte dos quatro milhões e meio nos cofres da Omni e já começou o processo das patentes. Estamos a toda!
— Fico feliz por você — disse Kim, sorrindo e suspirando ao mesmo tempo.
Capítulo 10. SEXTA-FEIRA, 26 DE AGOSTO DE 1994.
Os últimos dias de agosto voaram. As obras continuaram a toda, particularmente no laboratório onde Edward já passava grande parte de seu tempo. Diariamente recebiam
equipamentos científicos que precisavam ser devidamente guardados, instalados ou, em alguns casos, isolados.
Edward mais parecia um furacão, tal era sua atividade. Corria de um lado para o outro, fazendo um pouco de tudo. Uma hora era arquiteto, outra engenheiro eletrônico,
e, finalmente empreiteiro, enquanto orquestrava o desenvolvimento do laboratório. E assim se esgotava seu tempo, fazendo com que dedicasse ainda menos tempo aos
deveres assumidos com Harvard.
As exigências conflitantes como pesquisador e como professor chegaram a um impasse devido a um de seus pós-doutorandos. Tivera a audácia de reclamar para a direção
da universidade sobre a falta de disponibilidade de Edward. Quando soube da história, Edward ficou furioso e demitiu-o sumariamente.
O problema não acabou aí. O aluno ficou igualmente furioso
e mais uma vez pediu apoio à direção da universidade. A direção interpelou Edward, mas ele se recusou a se desculpar ou a readmitir o aluno em seu laboratório. Como
resultado, as relações
entre Edward e a direção de Harvard foram ficando cada vez mais amargas.
As dores de cabeça de Edward aumentaram ainda mais quando o Departamento de Licenciamento da universidade ficou sabendo do seu envolvimento com a Omni. Haviam ouvido
também um rumor insistente a respeito de um pedido de patente para uma nova família de moléculas. Como resposta, o departamento enviou uma enxurrada de cartas de
averiguação que Edward preferiu ignorar.
Harvard encontrava-se em situação difícil. Não queria perder Edward, uma das mais brilhantes estrelas em ascensão da bioquímica pós-moderna. Por outro lado, a universidade
não podia deixar que uma situação ruim se tornasse insustentável, já que estavam em jogo tanto princípios como precedentes.
A tensão começava a agir sobre Edward, especialmente quando conjugada ao estresse causado pelo excitamento da Omni, pela promessa da Ultra e os problemas diários
na obra do laboratório.
Kim estava ciente das crescentes tensões e tentava compensar facilitando a vida de Edward. Passou a dormir quase todas as noites em seu apartamento, onde assumiu
as atividades domésticas sem que ele lhe pedisse para fazê-lo: preparava o jantar, dava comida para Buffer e até mesmo limpava o apartamento e lavava a roupa.
Infelizmente Edward demorou a reconhecer os esforços de Kim. As flores deixaram de chegar assim que ela começou a passar mais tempo em sua casa. Ela achou a interrupção
até razoável, mas sentiu falta da atenção que elas representavam.
Ao sair para o trabalho na sexta-feira, 26 de agosto, Kim pesou a situação. Só para aumentar o estresse, Edward e ela não haviam ainda planejado a mudança, embora
ambos devessem deixar seus respectivos apartamentos dentro de cinco dias. Kim esperou para mencionar o assunto num dia menos estressante. O problema era que ele
não tinha nenhum.
Kim parou no supermercado e comprou comida para o
jantar. Escolheu algo que Edward certamente gostaria. De quebra, comprou uma garrafa de vinho.
Quando chegou ao apartamento de Edward, catou as revistas e os jornais e deu uma arrumação generalizada no lugar. Deu comida ao cachorro. Então, começou a preparar
o jantar para que estivesse pronto às sete, hora que Edward planejava chegar.
Deu sete horas e Edward não chegou. Kim apagou o fogo do arroz. Às sete e meia, ela cobriu a salada com PVC e a pôs na geladeira. Enfim, às oito, Edward chegou.
— Que merda!—disse ele fechando a porta com um chute. — Retiro todas as boas coisas que disse a respeito de seu empreiteiro. O cara é um imbecil. Eu poderia ter
batido nele hoje à tarde. Me garantiu que os eletricistas estariam lá hoje, mas eles não apareceram.
Kim disse a ele o que preparara para o jantar. Ele rosnou e entrou no banheiro para lavar as mãos. Kim esquentou o arroz no microondas
— O laboratório podia estar pronto para funcionar a qualquer momento se não fossem esses cabeças de bagre — berrou Edward do banheiro.
Kim serviu duas taças de vinho. Levou-as até o quarto e entregou uma a Edward quando ele saiu do banheiro. Ele a tomou de Kim e bebeu um gole.
— Só o que quero é iniciar uma investigação controlada da Ultra. Está me parecendo que todo mundo quer me atrapalhar, pondo obstáculos no meu caminho.
— Esta pode não ser a melhor hora de falarmos sobre isto, mas parece que nunca há uma boa hora. Ainda não planejamos a mudança e o primeiro do mês já está chegando.
Já faz duas semanas que queria falar sobre isto.
Edward explodiu. Num momento de fúria incontida, ele arremessou sua taça cheia na lareira, onde ela se espatifou, e gritou:
—- A última coisa da qual preciso é que você me pressione! Edward se pôs na frente de Kim. Seus olhos haviam dilatado
e suas veias pareciam saltar das têmporas. Seu maxilar tremia e ele abria e fechava as mãos sem parar.
— Sinto muito — balbuciou Kim. Permaneceu imóvel durante alguns segundos. Estava apavorada. Jamais conhecera este lado de Edward. Pelo seu tamanho, podia calcular
sua força e o que poderia fazer com ela, se quisesse.
Assim que pôde, Kim saiu do quarto. Foi para a cozinha se ocupar do jantar. Logo que o choque imediato diminuiu, ela decidiu ir embora. Afastou-se do fogão e ia
na direção da sala, para a porta da frente, mas parou imediatamente. Edward bloqueava a porta. Para alívio de Kim, seu rosto transformara-se completamente; em vez
de raiva, havia confusão, até mesmo tristeza.
— Me perdoe — disse. As palavras saíam com enorme dificuldade, de tanto que gaguejava. — Não sei o que me deu. Acho que foi a pressão, embora não seja uma desculpa
aceitável. Estou muito envergonhado. Me perdoe, por favor.
Kim amoleceu imediatamente, tal sua sinceridade. Caminhou até ele e se abraçaram. Então foram até a sala e sentaram-se no sofá.
— Estou me sentindo muito frustrado com tudo. Harvard está me levando à loucura e só o que desejo é voltar a trabalhar com a Ultra. Eleanor continua a trabalhar
com a droga e seus resultados são sempre excelentes. Me irrita não poder ajudá-la, mas a última coisa que eu poderia fazer seria descontar esta frustração em você.
— Também estou no meu limite. Mudanças sempre me deixam nervosa. Além do mais, Elizabeth tornou-se uma obsessão.
— Certamente não tenho lhe dado apoio algum. Peço que me perdoe por isto também. Vamos fazer um trato de sermos mais sensíveis às necessidades do outro.
— É uma idéia maravilhosa.
— Eu já deveria ter mencionado a mudança. A responsabilidade não é toda sua. Quando quer mudar?
— Temos que deixar nossos respectivos apartamentos no dia primeiro.
— Então que tal mudarmos no dia trinta e um?
capítulo 11. Quarta-FEIRA, 31 DE AGOSTO DE 1994.
O dia da mudança foi tumultuado desde o amanhecer, quando Kim acordou. O caminhão chegou no apartamento de Kim às sete e meia para carregar as suas coisas primeiro.
Em seguida foram até Cambridge para pegar as coisas de Edward. Quando puseram a última cadeira no caminhão, constataram que este já estava cheio.
Kim e Edward foram até a propriedade em seus respectivos carros, levando cada um o seu animal de estimação. Quando chegaram, Sheba e Buffer se encontraram pela primeira
vez. Como eram praticamente do mesmo tamanho, o confronto terminou empatado. Daquele momento em diante, escolheram se ignorar.
Quando os homens da mudança começaram a carregar as coisas para dentro do chalé, Kim foi surpreendida pela sugestão de Edward de que dormissem em quartos separados.
— Por quê? — perguntou Kim.
— Porque não tenho agido como eu mesmo — explicou Edward. — Não tenho dormido bem com tudo o que tem acontecido. Se dormirmos em quartos separados, posso acender
a luz para ler se precisar me acalmar.
— Mas a luz não me incomodaria — insistiu Kim.
— Você dormiu em seu próprio apartamento estas últimas noites, não acha que dormiu melhor?
— Não.
Bem, então somos um pouquinho diferentes neste ponto, tenho dormido melhor. Saber que não estou incomodando você me deixa mais relaxado. De qualquer forma, é um
arranjo temporário. Assim que o laboratório abrir, e as coisas estiverem mais calmas, a pressão vai ceder. Então, poderemos realmente dormir sob o mesmo teto. Você
entende, não é?
— Suponho que sim — disse Kim, tentando esconder seu desapontamento.
Descarregar o caminhão foi bem mais fácil do que carregá-lo e o chalé rapidamente se encheu com caixas e móveis colocados a esmo. Quando acabaram de descarregar,
os homens pegaram suas ferramentas e as caixas já vazias e enfiaram tudo no caminhão. Kim assinou alguns papéis relativos à mudança e viu o caminhão se afastar.
Mal o caminhão desapareceu, Kim viu uma Mercedes surgir por entre as árvores e se aproximar a toda. Reconheceu o carro. Pertencia a Stanton. Gritou por Edward para
lhe avisar que tinham visita, antes de ir até a porta e abri-la.
— Onde está Edward? — inquiriu Stanton sem sequer cumprimentá-la.
— Lá em cima — respondeu Kim, apontando por cima do ombro.
Stanton passou por ela e berrou para que Edward descesse. Ficou em pé no hall, as mãos na cintura, batendo o pé direito. Estava claramente agitado.
O coração de Kim começou a bater mais rápido. Sabendo o quão frágil andava o estado psicológico de Edward, temeu que Stanton o provocasse. Stanton sempre se portava
como se não desse a mínima para os sentimentos dos outros.
— Venha até aqui, Edward — berrou Stanton mais uma vez. — Precisamos conversar.
Edward apareceu nas escadas. Descia lentamente.
— Qual é o problema?
— Ah, nada demais — disse Stanton com sarcasmo. — Apenas a velocidade descontrolada com a qual você anda torrando dinheiro. Este seu laboratório está custando um
absurdo. O que é que você anda fazendo, cravejando as privadas com diamantes?
— Está se referindo exatamente a quê? — indagou Edward com cuidado.
— A tudo! Estou começando a achar que você trabalhou no Pentágono a vida toda. Você comprou tudo do mais caro.
— Para se fazer uma experiência de primeira classe, é
necessário um laboratório de primeira classe. Deixei isto muito claro quando conversamos sobre a fundação da Omni. Espero que não ache que seja possível comprar
um laboratório deste tipo no ferro-velho.
Kim observava os dois homens enquanto discutiam. Quanto mais brigavam, menor era a preocupação de Kim. Edward estava zangado, mas não estava fora de controle.
- Chega! — exclamou Stanton. — Vamos esquecer o custo do laboratório um instante e falar de um possível cronograma para a aprovação da Ultra junto à FDA. Preciso
saber para calcular quando o dinheiro vai começar a entrar ao invés de sair.
Edward jogou as mãos para cima, irritado.
— Nós nem abrimos as portas do laboratório e você já quer um prazo! Nós discutimos este assunto no jantar antes de concordarmos em fundar a companhia. Ou será que
você já se esqueceu?
— Olha aqui, seu espertalhão — devolveu Stanton. — O peso de manter esta operação funcionando recai sobre os meus ombros. Infelizmente não vai ser nada fácil, considerando-se
a rapidez com que você gasta dinheiro!
Stanton virou-se para Kim, encostada na parede da sala.
— Kim, diga para este babaca cabeça-dura que responsabilidade fiscal é uma condição essencial para qualquer companhia iniciante.
— Deixe-a fora disso! — gritou Edward.
Stanton notou que fora longe demais e rapidamente assumiu um tom conciliador.
— Vamos nos acalmar—disse, erguendo a mão num gesto apaziguador. — Você tem de reconhecer que meu pedido é razoável. Preciso ter alguma noção, ainda que vaga, do
que você vai fazer no seu laboratório banhado a ouro, para poder prever e prover suas necessidades financeiras.
Edward soltou a respiração bem alto e relaxou um pouco.
- Perguntar o que vamos fazer no laboratório é um pouco diferente do que adentrar esta casa exigindo uma data para a aprovação da FDA.
— Sinto não ser mais diplomático, mas preciso de uma idéia de seu plano de ataque.
— Assim que pudermos, lançaremos um curso intensivo para ensinar tudo o que se deve saber a respeito da Ultra. Primeiro, precisamos saber mais a respeito de sua
química básica, como sua solubilidade em vários solventes e sua reatividade com outros compostos. Em seguida teremos que começar estudos biológicos controlados para
compreender metabolismo, excreção e toxicidade. Os estudos toxicológicos terão que ser feitos in vitro e in vivo, em células individuais, em grupos de células e
organismos intactos. Teremos de começar com vírus, depois bactérias e finalmente mamíferos. Teremos de formular testes. Ao nível molecular, teremos de definir pontos
de ligação e mecanismos de ação. Teremos que testá-la em todas as condições de temperatura e pH. Teremos de fazer tudo isto antes de entrarmos com o pedido de aprovação
para uma nova droga junto à FDA, e teremos que fazer isso antes mesmo de começarmos a fase clínica.
— Meu bom Deus! Você está me deixando tonto. Está me parecendo que serão décadas de trabalho.
— Décadas não, mas alguns anos, sem dúvida. Eu já havia lhe dito isto. Ao mesmo tempo, eu lhe falei que seriam bem menos do que os doze anos normais para o desenvolvimento
de uma droga.
— E que tal seis anos? — questionou Stanton.
— Não posso dizer nada com certeza antes de começarmos a trabalhar e a colher dados. Posso apenas dizer que levará mais de três anos e menos de doze.
— Há uma chance de levar apenas três anos?—perguntou Stanton, esperançoso.
— Seria um milagre—admitiu Edward.—Mas é possível. Mas existe também um outro fator que você deve considerar. Muito do capital tem sido gasto com o laboratório,
e agora que ele está quase pronto, os gastos cairão dramaticamente.
— Gostaria de contar com isto, mas não posso. Logo estaremos pagando os salários exorbitantes que você prometeu à equipe da Ultra.
- Tive que oferecer os melhores salários para atrair os melhores profissionais. Também preferi dar salários mais altos e ficar com o maior número de ações possível.
- Mas as ações não vão valer coisa alguma se formos à falência.
- Só que nós estamos à frente do jogo. A maioria das companhias de biotecnia e farmacêuticas é fundada sem ter uma droga no horizonte. Já temos a droga.
— Sei disso. Mas estou apavorado. Nunca investi tão alto em uma companhia para ver o capital ser gasto com tanta rapidez.
— Você investiu de forma muito sábia. Nós dois vamos ficar bilionários. A Ultra é realmente boa, tenho certeza. Venha. Deixe eu lhe mostrar o laboratório. Vai tranqüilizar
você.
Kim respirou aliviada enquanto olhava os dois homens caminharem na direção do laboratório. Stanton até mesmo pusera uma das mãos no ombro de Edward.
Quando saíram, Kim olhou a sala. Surpreendeu-se com o fato de seus pensamentos não focalizarem a terrível bagunça criada pela mudança. Em vez disso, o repentino
silêncio trouxe a sensação de que Elizabeth estava ali e, mais uma vez, tentava se comunicar com ela. Por mais que tentasse, porém, Kim não ouvia palavras. Não obstante,
naquele momento, Kim sentiu que havia algo de Elizabeth vivo no âmago de seu ser. A casa ocupada por Kim ainda pertencia, de alguma forma, a Elizabeth.
Kim não se sentia completamente confortável com tais pensamentos. Ela detectava um elemento de angústia e de urgência na mensagem de Elizabeth.
Deixando de lado as tarefas que deveriam ser mais urgentes, Kim rapidamente desembrulhou o retrato restaurado de Elizabeth e o pendurou acima da lareira. Com a nova
pintura, a sombra do quadro sumira da parede. Kim teve de adivinhar onde ficara um dia. Ela seguia um enorme anseio de recolocar o quadro exatamente na mesma posição
que ele ocupara trezentos anos atrás.
Kim deu um passo atrás e encarou o quadro. Ao fazê-lo, chocou-se com o realismo da pintura. Com iluminação mais direta, Kim o achara um tanto primitivo. No crepúsculo
da tarde no chalé, no entanto, o efeito era completamente diferente. Em meio às sombras, os olhos verdes de Elizabeth brilhavam com uma força assombrosa.
Durante alguns minutos, como que hipnotizada, Kim permaneceu imóvel, bem no meio da sala, encarando a pintura. Era como se estivesse diante de um espelho. Olhando
fundo nos olhos de Elizabeth, Kim sentiu mais uma vez que sua antepassada tentava alcançá-la através dos séculos. Tentou ouvir palavras, mas só havia silêncio ao
seu redor.
A sensação mística que emanava do quadro a empurrou de volta ao castelo. Apesar das inúmeras caixas para esvaziar e das horas de busca infrutífera, Kim sentia uma
ânsia irresistível em voltar. O retrato de Elizabeth renovara sua motivação de encontrar tudo que revelasse os mistérios de sua antepassada.
Como se guiada por uma força sobrenatural, Kim subiu as escadas e foi direto ao sótão. Uma vez lá dentro, não hesitou nem se preocupou em abrir as janelas. Caminhou
diretamente até o que parecia ser um baú antigo de navio. Erguendo a tampa, encontrou a papelada de sempre, envelopes e alguns livros de anotações.
O primeiro livro era um balancete da carga de um navio. A data era 1862. Logo embaixo havia um caderno de capa muito velha, com uma carta amarrada. Kim engoliu em
seco. Via que a carta era endereçada a Ronald Stewart.
Kim estendeu o braço para dentro do baú e tirou o caderno. Após desamarrar o barbante, abriu o envelope e tirou a carta com cuidado. Lembrou-se do carinho com que
as arquivistas de Harvard haviam manuseado a carta de Mather e tentou fazer o mesmo. O papel antigo não se deixava desdobrar. Era um bilhete curto. Ao olhar a data
sua ansiedade diminuiu. Era do século XVII.
16 de abril de 1726 Boston
Querido pai,
Era resposta à sua pergunta, creio que seja do interesse da família e dos negócios desistir da transferência do túmulo de minha mãe para o cemitério da família,
já que para isto seria necessário requerer uma licença que causaria grande inquietação em Salem, trazendo à tona todo o acontecimento que você conseguiu suprimir
com grande empenho e esforço.
Seu filho afetuoso, Jonathan
Kim dobrou o bilhete com cuidado e colocou-o de volta no envelope. Trinta e quatro anos após a ocorrência envolvendo as bruxas, Ronald e seu filho ainda se preocupavam
com seu efeito sobre a família, apesar dos perdões públicos e de um dia de luto ter sido decretado pelo governo da colônia.
Voltando sua atenção ao caderno, cuja encadernação estava se desmanchando, Kim virou a capa de fazenda e a mesma ficou em sua mão. Seu coração então deu um salto.
Na guarda, havia escrito: Elizabeth Flanagan, seu livro, dezembro de 1678.
Kim folheou o livro com cuidado e deu-se conta, para sua absoluta alegria, que tratava-se do diário de Elizabeth. O fato das anotações serem curtas e não consecutivas
nada fez para diminuir sua excitação.
Segurando o livro com ambas as mãos, temendo que ele se desmanchasse, Kim precipitou-se até uma trapeira em busca de luz. Começando pelo fim, notou que havia várias
páginas em branco. Foi direto ao último relato e notou que o diário terminava bem antes do que teria esperado. A data era sexta-feira, 6 de fevereiro de 1692.
Não há fim para este frio. Mais neve hoje. O rio Wooleston tem uma camada tão grossa de gelo que agüentaria uma pessoa indo até Royal Side. Tenho estado muito distraída.
Uma doença vem enfraquecendo meu espírito. Tenho crises cruéis e convulsões que são
descritas por Sarah e Jonathan como sendo as mesmas que observei em Rebecca, Mary e Joanna e a mesma que Ann Putnam sofreu em sua visita.
Como ofendi a Deus Todo-Poderoso para ele permitir que tais tormentos caíssem sobre sua humilde serva! Não tenho lembrança das crises, embora antes de tê-las veja
cores e ouça sons estranhos que não parecem ser deste mundo. Sinto como se fosse desfalecer, mas, de repente, já recobrei os sentidos e estou no chão tendo rodopiado
pelo aposento e dito coisas ininteligíveis; assim dizem meus filhos Sarah e Jonathan, que, graças ao Senhor, continuam sem ter as crises. Como gostaria que Ronald
estivesse aqui, e não em alto-mar. Esta moléstia teve início quando da compra de Northfields e da amarga discussão com a família de Thomas Putnam. O Dr. Griggs encontra-se
completamente atônito e me purgou sem resultado. Um inverno tão cruel como este e tanta labuta para todos. Temo por Job, em toda a sua inocência, pois temo que o
Senhor tire minha vida e meu trabalho permanecerá incompleto. Tenho me esforçado para fazer as tarefas de Deus em sua terra, preparando para a congregação meus pães
de centeio, para poupar nosso estoque de trigo — muito diminuído devido a este cruel inverno e uma colheita fraca —, e para ajudar as vítimas dos ataques indígenas
no norte foi que encorajei os irmãos a acolher em seus lares os refugiados, como fiz com Rebeeca Sheafe e Mary Eoots. Ensinei às crianças mais velhas a fazer bonecos
para diminuir o sofrimento dos órfãos cuja guarda Deus nos confiou. Rezo pelo pronto retorno de Ronald para nos ajudar com esta terrível moléstia antes que seja
tarde.
Kim fechou os olhos e respirou bem fundo. Estava tomada de angústia. Agora, era como se Elizabeth realmente falasse com ela. Podia sentir a força e o caráter de
Elizabeth apesar de sua dor: sua atenção, sua empatia, sua generosidade, sua segurança e sua coragem; todos os traços que Kim gostaria de ter.
Kim abriu os olhos e releu algumas partes do relato. Perguntou a si mesma quem seria Job, ou se Job seria uma referência bíblica. Releu a parte que falava dos bonecos
e se
perguntou mais uma vez se a prova que condenara Elizabeth fora um boneco em vez de um livro.
Temendo ter pulado alguma coisa, Kim voltou a ler o relato inteiro e ficou impressionada com a trágica ironia da generosidade de Elizabeth haver espalhado o mofo.
Talvez a prova não especificada determinasse, de alguma forma, a responsabilidade de Elizabeth.
Durante vários minutos, Kim olhou a distância através da janela. Ponderava sobre esta nova linha de pensamento. Mas por mais que tentasse, não conseguia entender
como Elizabeth fora de tal forma envolvida. Naquela época, não havia como estabelecer uma ligação entre o mofo e os ataques.
Kim olhou mais uma vez o diário. Foi virando as páginas com cuidado e olhou as outras anotações. A maioria era curta: com apenas uma frase para cada dia, incluindo
uma breve descrição do tempo.
Fechou o livro e em seguida o abriu outra vez no começo. A primeira anotação era de 5 de dezembro de 1678, escrita numa letra maior e mais hesitante do que a da
última, quatorze anos depois. Simplesmente descrevia o dia como sendo frio, nevava. Elizabeth tinha treze anos.
Kim fechou o livro. Queria saborear a experiência. Apertan-do-o contra o peito como se fosse um tesouro, Kim voltou para o chalé. Pôs uma mesa e uma cadeira no meio
da sala e se sentou. De frente para o retrato, ela folheou a esmo. Kim encontrou uma anotação mais longa, escrita no dia 7 de janeiro de 1682.
Elizabeth descrevia o tempo como quente para aquela época do ano. Então mencionou, muito trivialmente, que se casara com Ronald Stewart naquele dia. Esta curta frase
foi seguida por uma longa descrição da carruagem na qual viera para o vilarejo de Salem. Elizabeth então relatou sua alegria e seu assombro em se mudar para uma
casa tão boa.
Kim sorriu. Enquanto lia a longa anotação, compreendeu que Elizabethdescrevia suas sensações ao se mudar para a mesma casa para a qual Kim acabara de se mudar. Era
uma coincidência encantadora encontrar o livro bem neste dia, fazendo
com que a distância de trezentos anos que a separava de Elizabeth parecesse curta.
Com uma rápida conta, Kim concluiu que Elizabeth tinha apenas dezessete anos quando se casou. Kim não conseguia se imaginar casando com tal idade, especialmente
em vista dos problemas emocionais que tivera durante seus primeiros anos na faculdade.
Olhando mais adiante, Kim descobriu que Elizabeth engravidara poucos meses depois. Kim suspirou. O que teria ela feito, esperando uma criança com aquela idade? Era
uma idéia assustadora, mas claro que Elizabeth havia se conduzido extremamente bem. Era uma dura lembrança de que não houvera controle de natalidade disponível para
Elizabeth e do pouco controle que esta tivera sobre sua própria vida.
Kim voltou ao período anterior ao casamento de Elizabeth. Parou em uma anotação, relativamente longa, de 10 de outubro de 1681. Elizabeth registrou que, naquele
dia quente e ensolarado, seu pai retornara do vilarejo de Salem com um pedido de casamento. Ela então escreveu:
De início, fiquei preocupada com este fato tão estranho, pois nada sei a respeito deste senhor, embora meu pai fale tão bem dele. Papai diz que o senhor me viu em
setembro ao visitar nossas terras, procurando madeira para os mastros e remos de suas embarcações. Meu pai diz que é para eu decidir, mas que deveria saber que o
senhor fora muito cortês em se oferecer para mudar-nos todos para o vilarejo de Salem, onde meu pai trabalhará em sua companhia e minha querida irmã Rebecca poderá
freqüentar a escola.
Algumas páginas adiante, escreveu:
Disse a meu pai que aceitarei a proposta de casamento. Como poderia não aceitá-la? A Divina Providência se mostra, pois temos vivido todos estes anos em terra ruim,
em Andover, sob a ameaça constante de ataques dos selvagens de pele vermelha. Nossos vizinhos de ambos os lados já sofreram tamanho infortúnio e muitos já foram
mortos ou presos com muita crueldade. Tentei explicar
para William Paterson, mas ele não entende e temo que agora ficará magoado comigo.
Kim fez uma pausa e ergueu os olhos para o retrato de Elizabeth. Ficou emocionada com a constatação de que lia os pensamentos de uma menina de dezessete anos, cuja
abnegação a levara a desistir de um amor adolescente para arriscar no destino pelo bem de sua família. Suspirou e perguntou-se qual fora a última vez em que fizera
algo completamente altruísta.
Voltando ao diário, Kim procurou um registro do primeiro encontro de Elizabeth com Ronald. Encontrou-o em 22 de outubro de 1681, um dia de sol e folhas secas.
Hoje conheci o Sr. Ronald Stewart em nossa sala. É ele o senhor que se propõe a ser meu marido. É mais velho do que eu esperara e já tem uma filha de uma esposa
que morreu de varíola. Parece ser um bom homem, forte de caráter e de corpo, embora tenha demonstrado ter uma tendência a se encolerizar como quando soube que os
Polks, nossos vizinhos ao norte, haviam sido atacados há dois dias. Insiste para que procedamos logo com nossos planos.
Kim sentiu uma leve culpa em relação a seus pensamentos anteriores relacionados a Ronald com a revelação da causa da morte de sua primeira esposa. Olhando adiante,
em 1690, Kim leu mais a respeito da varíola e dos ataques indígenas. Elizabeth escreveu que a varíola atingira a toda Boston e que os devastadores ataques dos selvagens
vermelhos estavam ocorrendo a apenas oitenta quilômetros de Salem.
Kim sacudiu a cabeça, impressionada. Ao ler mais sobre tais tribulações, lembrou-se dos comentários de Edward a respeito de quão tênue era a vida no século XVII.
A vida devia ter sido realmente difícil e estressante.
O barulho da porta batendo a assustou. Olhou para cima e deu Com Edward e Stanton voltando de sua visita ao laboratório Quase pronto. Edward carregava as plantas.
Este lugar está com a mesma aparência de quando o
deixamos — disse Edward com um tom descontente na voz. Procurava um lugar para pôr as plantas.
— Tive uma sorte incrível! — exclamou Kim, excitada. Chegou a cadeira para trás e levou o caderno até Edward. — Encontrei o diário de Elizabeth!
— Aqui no chalé? — perguntou Edward, surpreso.
— Não, no castelo.
— Acho que deveríamos pôr a casa em ordem antes de você voltar à sua gincana. Terá o mês inteiro para se fartar do castelo.
— Mas isto aqui é algo que até você vai achar fascinante — declarou Kim, ignorando o comentário de Edward. Abriu o caderno na última anotação com enorme cuidado.
Entregou-o a Edward apontando para o relato e mandou que lesse.
Edward colocou as plantas na mesa que Kim estivera usando. Enquanto lia, sua expressão mudava de irritação para interesse.
— Tem razão — concordou animado. Passou o livro para Stanton.
Kim disse aos dois para terem mais cuidado.
— Vai dar uma fantástica introdução para o artigo que quero escrever para a Science ou para a Nature sobre as causas científicas dos julgamentos das bruxas de Salem.
É perfeito. Ela fala especificamente do uso do centeio e sua descrição das alucinações foram bem na mosca. Juntar esta anotação com os resultados do espectrômetro
de massa que fizemos de sua cabeça fecha o caso. Fica elegante.
— Você não vai escrever artigo algum sobre o novo mofo até que a situação com a patente esteja mais segura. Não vamos correr risco algum, só para você e seus amigos
pesquisadores se divertirem.
— É claro que não vou. O que acha que eu sou, um garotinho de dois anos de idade?
— Foi você quem falou.
Kim tirou o diário das mãos de Stanton e mostrou a Edward a parte sobre Elizabeth ensinar as crianças a fazer bonecos. Perguntou-lhe se achava isto significativo.
— Você está falando em relação à prova?
Ela assentiu com a cabeça.
— É difícil dizer. Suponho que seja um pouco suspeito... Sabe de uma coisa, estou morrendo de fome. E você, Stanton, quer comer alguma coisa?
— Eu sempre quero comer alguma coisa.
— E então, Kim? Que tal preparar alguma coisa? Stanton e eu ainda temos muita coisa para discutir.
— Não acho que esteja em condições de convidar alguém para jantar — disse Kim. Ainda não se arriscara a entrar na cozinha.
— Então peça alguma coisa — sugeriu Edward, desenrolando as plantas. — Nós não vamos reclamar.
— Você não está falando por nós dois.
— Suponho que poderia fazer espaguete — disse Kim, pensando no que precisaria. O cômodo que se encontrava razoavelmente organizado era a sala de jantar; antes da
reforma fora a antiga cozinha. A sala de jantar, as cadeiras e a cristaleira já estavam no lugar.
— Espaguete seria perfeito — declarou Edward. Mandou Stanton segurar as plantas enquanto prendia os cantos com livros.
"Com um suspiro de alívio, Kim deslizou por entre os lençóis limpos, pronta para sua primeira noite de sono no chalé. Do momento em que começara a fazer o espaguete
até meia hora atrás, quando entrara no banho, não parara de trabalhar. Ainda havia muito o que fazer, mas a casa já estava quase em ordem. Edward trabalhou tão intensamente
quanto ela depois que Stanton se fora.
Kim apanhou o diário de Elizabeth de cima da mesinha-de-cabeceira. Tinha toda a intenção de ler um pouco mais, porém, ao se recostar na cama, notou os barulhos da
noite. O mais notável era a sinfonia de insetos noturnos e de sapos, habitantes da floresta, dos brejos e dos campos que circundavam o chalé.
avia também o ranger macio da casa antiga enquanto emanava o calor que absorvera ao longo do dia. E por fim, havia o
sussurro da brisa que soprava do rio Danvers, entrando pelos basculantes.
Enquanto sua mente se acalmava, Kim notou que a leve ansiedade que sentira assim que chegara na casa, à tarde, perdurava. Simplesmente fora abafada pela intensa
atividade que se seguira. Embora Kim soubesse que seu desconforto tivesse várias fontes, uma delas era óbvia: a sugestão inesperada de Edward de que dormissem em
quartos separados. Embora compreendesse seu ponto de vista com maior facilidade agora do que quando trouxera o assunto à tona, Kim ainda estava preocupada e desapontada.
Pondo o diário de Elizabeth de lado, Kim saiu da cama. Como estivera profundamente adormecida, Sheba olhou para ela com irritação. Kim calçou os chinelos e atravessou
o corredor até o quarto de Edward. Sua porta estava entreaberta e sua luz continuava acesa. Kim abriu a porta e foi recebida com um rosnado de Buffer. Kim rangeu
os dentes; estava aprendendo a não gostar do vira-lata ingrato.
— Algum problema? —perguntou Edward. Estava sentado na cama com as plantas do laboratório espalhadas a seu redor.
— Sinto a sua falta, Tem certeza de que quer dormir em quartos separados? Estou me sentindo sozinha, sem contar que não é muito romântico.
Edward pediu que se aproximasse. Tirou as plantas de um canto da cama para que se sentasse.
— Sinto muito. A culpa é toda minha. Sinto-me completamente responsável. Mas por enquanto acho que é a melhor alternativa. Estou me sentindo como a corda de um violino,
prestes a arrebentar. Consegui até perder a calma com o Stanton, como pôde ver.
Kim assentiu com a cabeça enquanto examinava as mãos que pusera sobre o colo. Edward esticou o braço e levantou seu queixo.
— Você está bem? — indagou ele.
Kim assentiu mais uma vez, embora estivesse lutando consigo mesma. Achou que estava exausta.
- Foi um dia longo — afirmou Edward.
- Acho que estou um pouco preocupada.
- Com o quê?
— Não tenho certeza — admitiu Kim. — Suponho que tenha algo a ver com Elizabeth e com o fato desta ter sido sua casa. Não consigo esquecer o fato de alguns dos meus
genes serem também de Elizabeth. De qualquer forma, sinto sua presença.
- Você está exausta — lembrou-lhe Edward. — Quando estamos cansados nossa imaginação faz coisas malucas. Além do mais, este lugar é novo e isto vai lhe causar alguma
estranheza. Afinal de contas, todos somos escravos do hábito.
— Tenho certeza de que faz parte do que estou sentindo, mas não é tudo.
— Não vá começar a ficar esquisita — disse Edward com uma risada. — Você não acredita em fantasmas, acredita?
— Nunca acreditei, mas agora não tenho mais certeza.
— Você está brincando? Kim riu de sua seriedade.
— Claro que estou brincando. Não acredito em fantasmas, mas estou mudando de idéia quanto ao sobrenatural. Fico arrepiada quando penso como descobri o diário de
Elizabeth. Acabara de pendurar o retrato dela quando senti uma necessidade enorme de ir ao castelo. E ao chegar lá, nem precisei procurar. Estava logo no primeiro
baú que abri.
— Todo mundo sente algo de sobrenatural só de estar aqui em Salem — declarou Edward, rindo também. — Tem algo a ver com toda a história sobre bruxaria. Mas se quiser
acreditar que foi levada ao castelo por alguma força mística, tudo bem. Mas, não me peça para assinar embaixo.
- Como então você explica o que aconteceu? — inquiriu Kim, agitada. — Antes de hoje eu passara mais de trinta horas sem encontrar coisa alguma do século XVII, muito
menos o diário de Elizabeth. O que me fez procurar justamente naquele baú?
- Está certo! — disse Edward com brandura. — Não estou tentando convencê-la do contrário. Calma, estou do seu lado.
— Desculpe, não queria ter reagido assim. Só vim até aqui lhe dizer que sinto sua falta.
Após um longo beijo de boa-noite, Kim deixou Edward com suas plantas e saiu de seu quarto. Após fechar a porta de Edward, foi banhada pelo luar que inundava a janela
do lavabo. De onde estava podia ver a silhueta negra do castelo contra o céu noturno. Sentiu um calafrio. A cena lhe lembrava os cenários dos filmes de Drácula que
tanto a apavoravam quando era adolescente.
Após descer as escadas, Kim navegou por entre o mar de caixas vazias que enchiam o vestíbulo. Entrando na sala, olhou o retrato de Elizabeth. Mesmo no escuro, podia
ver os faiscantes olhos verdes de Elizabeth brilharem como se tivessem uma luz interior.
— O que é que você está tentando me dizer? — sussurrou Kim para o quadro. No instante em que olhou para ele, voltou a sensação de que Elizabeth tentava fazer contato,
assim como uma compreensão clara de que fosse o que fosse a mensagem, não se encontrava no diário. O diário era apenas um subterfúgio para não deixar que Kim desistisse.
Algo se moveu no canto de seu olho. Kim conteve um grito e seu coração saltou dentro do peito. Levantou os braços num reflexo, como se para se proteger, mas rapidamente
os baixou. Era Sheba saltando para cima da mesa de armar.
Kim se apoiou na mesa com uma das mãos. Sua outra mão comprimia-se contra o peito. Ficou envergonhada com o medo que sentira. Também lhe mostrava o quanto estava
tensa na verdade.
Capítulo 12. Início DE SETEMBRO DE 1994.
O laboratório estava pronto e devidamente estocado com diversos reagentes químicos. Foi inaugurado na primeira semana de setembro. Kim ficou contente. Embora tivesse
o mês inteiro de férias e disponibilidade para assinar os recibos das centenas de entregas diárias, ficou feliz em se livrar da obrigação de fazê-lo. Foi substituída
por Eleanor Youngman.
Oficialmente, Eleanor foi a primeira a começar a trabalhar no laboratório. Embora tivesse avisado à direção de Harvard que estaria deixando sua posição de pós-doutoranda
há várias semanas, levou quase duas semanas para terminar seus projetos e se mudar para Salem.
O relacionamento de Kim com Eleanor melhorou, mas não nudou completamente. Era cordial mas seco. Kim reconhecia que a animosidade de Eleanor em relação a ela era
fruto de inveja. Da primeira vez que se encontraram, Kim sentiu intuitivamente a reverência de Eleanor para com Edward. Kim ficava impressionada com o fato de Edward
não enxergar isto. Era também um ponto de pouca preocupação para ela, dados os relacionamentos licenciosos de seu pai com suas ditas assistentes.
Os próximos ocupantes a chegarem ao laboratório foram os
animais. Chegaram no meio da semana, na calada da noite. Edward e Eleanor supervisionaram a descarga dos caminhões e a distribuição da coleção de animais em suas
respectivas jaulas. Kim preferiu assistir da janela do chalé. De lá, não conseguia enxergar muito bem o que estava acontecendo, mas isto não tinha importância alguma.
Estudos com animais a incomodavam enormemente, embora entendesse sua necessidade.
Ouvindo os conselhos do empreiteiro e do arquiteto, Edward adotara uma política na qual quanto menos a comunidade soubesse sobre o laboratório melhor. Não queria
problema algum com as leis de zoneamento ou com grupos de proteção aos animais. Esta política era ajudada pelo isolamento natural da propriedade: uma densa floresta
cercada por uma grade alta separava-a da comunidade local.
No final da primeira semana de setembro, os outros pesquisadores começaram a chegar. Com o auxílio de Edward e Eleanor encontraram quartos nas várias pousadas espalhadas
dentro e em torno de Salem. Parte do entendimento contratual com os pesquisadores era que viessem sozinhos; deixaram então suas famílias temporariamente para diminuir
a pressão de trabalharem continuamente durante vários meses. O incentivo era que todos se tornariam milionários, uma vez que começassem a receber seus dividendos.
O primeiro integrante da equipe a chegar de longe foi Curt Neuman. Chegou no meio da manhã e Kim estava no chalé, preparando-se para ir ao castelo, quando ouviu
o ronco abafado de uma motocicleta. Indo até a janela, viu a moto parar na frente da casa. Um homem de sua idade saltou e levantou o visor do capacete. Sua mala
estava amarrada à garupa.
— Posso lhe ajudar? — disse Kim da janela. Imaginou ser algum entregador que perdera a entrada do laboratório.
— Com licença — começou o homem em tom de desculpa. Sua voz tinha um timbre levemente germânico. — Talvez pudesse me ajudar a localizar o laboratório da Omni.
— Deve ser o Dr. Neuman. Aguarde um minuto, por favor. —Edward mencionara o sotaque quando lhe disse que esperava
Curt aquele dia. Não esperara que um conhecido pesquisador chegasse de motocicleta.
Kim fechou alguns dos catálogos de amostras de pano que ela deixara abertos na mesa de armar e recolheu os jornais de vários dias que se encontravam espalhados,
esperando convidar Curt Neuman para entrar. Olhou-se no espelho do vestíbulo e abriu a porta.
Curt tirara o capacete e o aninhava nos braços como um cavaleiro medieval. Mas não olhava na direção de Kim. Olhava na direção do laboratório. Edward provavelmente
ouvira o barulho da motocicleta, pois vinha a toda, na estrada de terra, a caminho do chalé. Parou o carro, saiu apressado e abraçou Curt como se fossem irmãos que
não se viam há muito.
Os dois homens falaram a respeito da moto BMW vermelho-metálico de Curt durante alguns minutos até que Edward notou que Kim estava de pé na soleira da porta. Ele
então apresentou Kim a Curt.
Ela apertou a mão do pesquisador. Era um homem grande, cerca de cinco centímetros mais alto que Edward, com cabelos louros e olhos de um azul-celeste.
— Curt é originário de Munique, mas estudou em Stanford e na UCLA. Muita gente, inclusive eu mesmo, acha que ele seja o mais brilhante biólogo especialista em reações
de drogas do país.
— Já chega, Edward — conseguiu dizer Curt enquanto seu rosto tornava-se escarlate.
— Tive muita sorte em conseguir roubá-lo da Merck — continuou Edward.—Eles o queriam tanto que haviam prometido construir um laboratório só para ele.
Kim olhou compadecida enquanto o pobre Curt se contorcia face à louvação de Edward. Lembrou-se de sua própria reação, e da de Edward, face aos elogios de Stanton
no jantar em que se conheceram. Curt parecia ser surpreendentemente acanhado para um homem de seu tamanho, de sua beleza e de reputada inteligência. Evitava olhar
nos olhos de Kim.
— Chega deste blablablá — declarou Edward. — Vamos,
Curt. Siga-me nesta sua máquina mortífera. Quero que veja o laboratório.
Kim assistiu à pequena caravana cruzar o campo indo em direção ao laboratório. Só então finalizou o que precisava fazer antes de seguir até o castelo.
- Mais tarde, naquele mesmo dia, quando Kim e Edward terminavam um almoço leve, o segundo pesquisador chegou. Edward ouviu quando um carro se aproximou. Afastou-se
da mesa e saiu. Pouco depois voltava com um homem alto e magro, porém musculoso, a tiracolo. Era moreno e atraente, mais parecendo um jogador de tênis do que um
pesquisador.
Edward os apresentou. Seu nome era François Leroux. Para surpresa de Kim, fez menção de beijar-lhe a mão, mas não chegou a fazê-lo. Sentiu somente a leve carícia
de seu hálito na pele. Como fizera com Curt, Edward deu a Kim um breve porém elogioso resumo das credenciais de François. Mas ao contrário de Curt, François não
tinha a mínima dificuldade em ouvir a exaltação de Edward. Enquanto Edward falava sem parar, seus olhos escuros e penetrantes buscaram os de Kim, deixando-a desconfortável.
— O fato é que François é um gênio. É um biofísico de Lyon, na França, que estudou na Universidade de Chicago. O que o destaca de seus colegas é o fato de ter conseguido
se especializar tanto em ressonância magnética nuclear quanto em cristalografia por raios X. Conseguiu combinar duas tecnologias que são normalmente competitivas.
Kim notou que um pequeno sorriso surgira no rosto de François neste ponto de sua exaltação. Também pendeu a cabeça na direção de Kim como se para enfatizar que era
tudo aquilo que Edward dizia, e mais um pouco. Kim desviou o olhar. Sentia que François era um pouquinho sofisticado e atrevido demais para seu gosto.
— François será responsável por uma grande economia de tempo em nossa pesquisa com a Ultra. Temos muita sorte em tê-lo. Perde a França, ganhamos nós.
Alguns minutos depois, Edward levou François até o laboratório. Estava ansioso para que conhecesse as instalações e Curt.
Observou os dois entrarem no carro de Edward pela janela. Não podia deixar de estranhar como personalidades tão díspares podiam acabar fazendo o mesmo tipo de trabalho.
Os últimos dois pesquisadores chegaram no sábado, 10 de setembro. Vieram de Boston, de trem. Edward e Kim foram juntos à estação. Formavam um pequeno comitê de boas-vindas
e estavam de pé na plataforma quando o trem chegou.
Edward os viu primeiro e acenou para chamar sua atenção. Quando começaram a caminhar na direção de Edward e Kim, ela perguntou se beleza era um requisito para ser
empregado na Omni.
— Que diabos quer dizer com isto? — perguntou Edward.
— Sua equipe é toda muito bonita — disse Kim.
— Eu não havia notado.
Quando os dois grupos se encontraram, Edward fez as apresentações. Kim foi apresentada a Gloria Herrera e David Hirsh e apertou a mão de ambos.
Gloria, como Eleanor, não cabia no estereótipo da típica pesquisadora acadêmica. Mas esta era a única similaridade entre as duas. Eram completamente opostas em colorido
e jeito de ser. Em contraste com a palidez de Eleanor, Gloria era morena e tinha os cabelos tão escuros quanto os de Kim e os olhos quase tão penetrantes quanto
os de François. Ao contrário da reservada Eleanor, Gloria era cordial e direta.
David Hirsh se assemelhava a François. Era muito alto e esguio, com porte de atleta. Era moreno, mas não tão queimado quanto François. Tinha a mesma sofisticação
de François, porém era mais agradável e não parecia impertinente, além de ter senso de humor e um sorriso simpático.
Na ida para a estação, Edward descrevera as realizações de Gloria e David com o mesmo nível de detalhe e com as mesmas louvações dedicadas a Curt e a François. Tanto
Gloria quanto Kurt garantiram a Kim que Edward estava exagerando. Viraram a mesa e passaram a falar de Edward. No final, Kim só sabia que Glória era farmacologista
e que David era imunologista.
Ao chegarem na propriedade, Kim foi deixada no chalé.
Enquanto o carro saía na direção do laboratório, Kim podia ouvir mais risos. Ficou feliz por Edward. Em termos de atmosfera, Kim estava certa de que Gloria e David
seriam um bom acréscimo para a equipe.
No dia seguinte, 11 de setembro, Edward e os outros cinco pesquisadores fizeram uma breve comemoração para a qual Kim foi convidada. Abriram a garrafa de champanhe
e brindaram à Ultra. Alguns minutos depois, começaram a trabalhar com verdadeiro furor.
Nos dias que se seguiram, Kim visitou o laboratório com freqüência, para dar apoio moral e para ver se poderia ser útil em alguma coisa. Pensava em sua posição como
um misto de anfitriã e senhoria. No decorrer da semana, foi diminuindo a freqüência de suas visitas. Ao final da semana, quase não ia mais, pois sentira-se uma intrusa.
Edward contribuiu para esta sensação. Na sexta anterior disse a ela sem rodeios que preferia que não aparecesse com tanta freqüência, uma vez que suas visitas perturbavam
a concentração de todos. Kim não levou a rejeição de forma pessoal porque estava bem a par da pressão sob a qual se encontravam para produzir resultados rápidos.
Além do mais, Kim estava contente com suas próprias atividades. Ajustara-se rapidamente à vida na casinha e achava-a muito agradável. Ainda sentia a presença de
Elizabeth, mas não com a mesma intensidade assustadora da primeira noite. Entregando-se a seu interesse por decoração, comprou vários livros sobre papel de parede,
pisos, cortinas e móveis coloniais. Trouxe quilos de amostras que espalhara pela casa, nos locais onde pensava usar os tecidos. Além disso, passou muitas horas vasculhando
os muitos antiquários da região em busca de móveis coloniais.
Kim investiu também uma parte significativa de seu tempo no castelo, tanto no sótão quanto na adega. A descoberta do diário de Elizabeth fora um grande incentivo
para ela. Varrera também todo o desânimo causado por tantas horas de busca infrutífera.
No começo de setembro, durante a primeira ida de Kim ao
castelo, após a descoberta do diário, encontrou outra carta significativa. Foi no mesmo baú no qual encontrara a carta. Era endereçada a Ronald e fora escrita por
Jonathan Corwin, juiz e primeiro proprietário da Casa da Bruxa.
20 de julho de 1692, Vilarejo de Salem
Querido Ronald:
Estimo ser prudente chamar sua atenção para o fato da remoção do corpo de Elizabethde Gallows Hill ter sido vista por Roger Simmons, que da mesma forma viu o filho
de Rebeca Nurse remover o corpo de sua mãe com o mesmo intuito que você. Eu lhe imploro, meu amigo, não ostentar tais atos em épocas tão turbulentas para não chamar
mais aborrecimentos para si ou para sua família, pois desenterrar os que partiram é considerado obra de bruxaria. Nem tampouco, dado os humores do público, deverá
chamar atenção para o túmulo, pois poderá ser acusado injustamente. Conversei com o referido Roger Simmons e ele me jurou que
não falará de seu ato com ninguém exceto com um juiz se for chamado a depor. Que Deus esteja convosco.
Seu servo e amigo, Jonathan Corwin
Após encontrar a carta de Corwin, Kim passou um período de duas semanas sem encontrar coisa alguma relacionada a Ronald e Elizabeth. Mas isto não diminuiu seu entusiasmo.
Após reconhecer que quase todos os documentos que se encontravam no sótão e na adega tinham significado histórico, Kim decidiu organizar a papelada, em vez de simplesmente
procurar o material relacionado ao século XVII.
Tanto no sótão quanto na adega, designou áreas para guardar documentos, em intervalos de meio século. Em cada área separava o material em comercial, governamental
e pessoal. Era uma tarefa monumental, mas dava-lhe uma enorme sensação de realização, embora não estivesse juntando coisa
alguma a sua coleção de documentos relacionados a seus antepassados do século XVII.
Assim, a primeira metade de setembro passou confortavel-mente, com Kim dividindo seu tempo entre a decoração do chalé e a organização dos arquivos desordenados do
castelo. Na metade do mês, Kim passou a evitar o laboratório e raramente via os pesquisadores. Passou a ver Edward menos também, uma vez que chegava cada vez mais
tarde em casa e saía mais cedo.
Capítulo 13. Segunda-feira, 19 DE SETEMBRO DE 1994.
Era um glorioso dia de outono, com um sol quente que rapidamente elevou a temperatura aos trinta graus. Rara deleite de Kim, algumas das árvores nas partes mais
pantanosas da floresta já mostravam indícios de seu esplendor outonal e os campos que circundavam o castelo eram um rico tapete dourado.
Kim não vira Edward. Ele se levantara antes das sete e partira para o laboratório sem tomar café. Sabia disto porque não havia louças na pia. Kim não se surpreendeu.
Edward lhe avisara que o grupo passara a fazer as refeições em conjunto, no laboratório, para economizar tempo. Dissera que a pesquisa caminhava a passos largos.
Kim passou a manhã no chalé com seu projeto de decoração. Após uma semana de indecisão, conseguiu decidir as cores das colchas, dos dosséis das camas e das cortinas
dos dois quartos de cima. Fora uma escolha difícil, mas, depois de feita, Kim sentia-se aliviada. De posse dos números do tecido, ligou para uma amiga no design
center de Boston e fez seu pedido.
Após almoçar uma salada e chá gelado, Kim foi passar a tarde no castelo, organizando os documentos e buscando dados novos. Uma vez dentro da mansão, perdeu alguns
instantes com seu dilema de sempre: se passava a tarde no sótão ou na adega.
Venceu o sótão, devido ao sol. Achou que a adega seria um alívio nos dias sombrios e chuvosos.
Foi até o ponto mais distante do sótão, acima da ala dos criados, e começou a remexer uma série de arquivos pretos. Usando caixas de papelão vazias que haviam embalado
os livros de Edward, Kim separou os documentos como vinha fazendo nas últimas semanas. Os documentos eram, em sua maioria, comerciais do começo do século XIX.
Kim tornara-se perita em ler as várias caligrafias e conseguia arquivá-las na caixa correta só de olhar a página de abertura ou o primeiro parágrafo. No final da
tarde, chegara ao último arquivo. Examinando a última gaveta, entre contratos de navegação encontrou uma carta endereçada a Ronald Stewart.
Após tanto tempo sem encontrar coisa alguma, Kim ficou atônita. Olhava a carta como se seus olhos a estivessem enganando. Finalmente, estendeu a mão e retirou a
carta. Pegou-a com as pontas dos dedos, da forma que vira Mary Custland manusear a carta de Mather. Quando viu a assinatura, seu ânimo cresceu. Era mais uma carta
de Samuel Sewall.
8 de janeiro de 1697 Boston
Meu querido amigo,
Como você sem dúvida já está ciente, o Venerável Tenente-Governador, o Conselho e a Assembléia de Massachusetts reuniram-se em Assembléia Geral e decretaram a escolha
do dia 14 de janeiro próximo, terça-feira, a ser observado como dia de jejum, em penitência por todos os pecados cometidos contra pessoas inocentes, por Satã e seus
servos. Da mesma forma, eu, sensível a minha própria culpa, enquanto a serviço do antigo Tribunal Especial, gostaria de levar a público minha culpa e vergonha pelo
ocorrido e o farei na Old South Church. Mas a você, meu amigo, não sei o que dizer para cessar sua dor. Que Elizabeth envolveu-se com as forças do Mal, não tenho
dúvidas, mas se estava possuída ou compactuando, não sei, nem tampouco gostaria de conjeturar, dado meu erro de julgamento. Quanto à sua pergunta relacionada aos
registros do Tribunal Especial e particularmente do julgamento de Elizabeth,
posso lhe garantir que estão sob custódia do reverendo Cotton Mather, que me jurou jamais permitir que caiam em mãos erradas, para que não impugnem o caráter dos
jurados e dos juizes que deram o melhor de si, apesar dos erros cometidos. Creio, embora não tenha ousado perguntar e prefira não saber, que o reverendo Mather pretende
queimar os tais registros. Quanto à minhaopinião em relação à oferta que o juiz Jonathan Corwin fez de lhe entregar todos os registros do caso de Elizabeth, incluindo
a queixa inicial, o mandado de prisão e os testemunhos iniciais, acredito que você deva aceitá-los e destruí-los da mesma forma para que as futuras gerações de sua
família não tenham de sofrer a exibição pública dessa tragédia ocorrida em Salem, causada ou incitada pelas ações de Elizabeth.
Seu amigo, em nome de Cristo, Samuel Sewall
— Pelo amor de Deus! — vociferou Edward. — Às vezes você é impossível de achar.
Kim ergueu a vista da carta de Sewall para ver Edward de pé ao seu lado.
— Há algo errado? — indagou Kim, nervosa.
— Sim, há. Estou lhe procurando há meia hora. Imaginei que estivesse aqui no castelo. Vim até aqui e gritei por você. Como não respondeu, fui até a adega. Quando
vi que não estava lá, voltei. Isso é ridículo. Se vai passar tanto tempo aqui, pelo menos instale um telefone.
Kim pôs-se de pé.
— Sinto muito, não o ouvi.
— Isso é óbvio. Ouça, há um problema. O Stanton está histérico mais uma vez por causa de dinheiro e está a caminho. Nenhum de nós quer parar de trabalhar para falar
com ele, especialmente dentro do laboratório onde ele vai querer saber o que cada um está fazendo. E, para piorar as coisas, todos nós estamos no limite devido ao
excesso de trabalho. Já existem muitas discussõezinhas bobas sobre quem tem mais espaço para trabalhar ou quem ficou mais perto da geladeira. Estou me sentindo como
a babá de um monte de crianças mimadas. De
qualquer forma, para encurtar a história, quero fazer a reunião no chalé. Vai ser bom afastar a todos daquele ambiente desgastante. Para poupar tempo, achei que
poderíamos comer alguma coisa também. Acha que poderia preparar um jantar rápido?
Primeiro Kim achou que Edward só podia estar brincando. Mas quando viu que não estava, olhou o relógio.
— Já passa das cinco — lembrou-lhe.
— Seria quatro e meia se você não tivesse se escondido tão bem.
— Não posso preparar um jantar para oito pessoas a esta hora da tarde — declarou Kim.
— E por que não? — questionou Edward. — Não precisa ser um banquete. Por mim, pode até encomendar uma pizza. É só isto que temos comido mesmo. Basta alguma coisa
para encher nossas barrigas. Por favor, Kim, preciso de sua ajuda. Estou enlouquecendo.
— Está certo — concordou Kim, embora sentisse que não devia. Sabia o quão estressado estava Edward. — Posso preparar algo melhor do que pizza pronta, mas não vai
ser uma refeição caprichada. — Kim juntou suas coisas, incluindo a carta de Sewall, e saiu do sótão, atrás de Edward.
Enquanto desciam as escadas, ela lhe deu a carta e explicou do que se tratava. Ele a devolveu.
— Não tenho tempo para Samuel Sewall no momento.
— É importante. Explica como Ronald pôde eliminar o nome de Elizabeth dos registros históricos. Não o fez sozinho. Foi ajudado por Jonathan Corwin e Cotton Mather.
— Depois eu a leio.
— Tem uma parte que você talvez ache interessante — insistiu Kim quando chegaram ao patamar da escadaria principal. Edward parou embaixo do vitral. A luz amarela
o deixou especialmente pálido. Kim achou que parecia estar doente.
— Está certo — disse Edward, impaciente. — Mostre o que acha que me interessará.
Kim entregou-lhe a carta e apontou a última sentença, onde Sewall mencionava que a tragédia de Salem fora causada ou incitada por Elizabeth.
Edward olhou para Kim após lê-la.
— E daí? Já sabíamos disto.
— Nós sabemos, mas e eles? Quero dizer, será que eles sabiam a respeito do mofo?
Edward olhou a carta mais uma vez e releu a frase.
— Não poderiam ter sabido — disse ao terminar a leitura. — Cientificamente falando, seria impossível. Não tinham os instrumentos nem o conhecimento.
— Então como é que você explica esta frase? Mais no começo da carta, Sewall admitiu que errara com as outras bruxas condenadas, mas não com Elizabeth. Eles sabiam
de alguma coisa que ignoramos.
— Então voltamos à misteriosa prova—declarou Edward devolvendo a carta a Kim.—E interessante, mas não para meus propósitos e realmente não tenho tempo para estas
coisas agora.
Continuaram a descer as escadas.
— Desculpe se estou tão preocupado. Além de todas as pressões que já estou sofrendo, o Stanton está se tornando um pé no saco. Quase tão ruim quanto Harvard. Estou
a ponto de ser internado.
— E vale a pena todo este esforço? Edward olhou para Kim, incrédulo:
— É claro que vale—afirmou irritado. —A ciência requer sacrifícios, todo mundo sabe disso.
— Isto me soa mais como uma questão econômica do que científica — declarou Kim. Edward não respondeu.
Ao sair, Edward foi direto para o carro.
— Estaremos em casa às sete e meia em ponto — avisou por cima do ombro antes de se colocar atrás do volante. Ligou o motor e saiu, espalhando areia e terra com as
rodas enquanto corria na direção do laboratório.
Kim entrou em seu próprio carro enquanto ponderava o problema do que fazer para jantar. Agora que Edward se fora e ela teve um momento para pensar, ficou irritada
e desapontada consigo mesma por ter aceitado a obrigação inesperada e pouco razoável.
Reconheceu seu comportamento e não ficou nem um pouco
satisfeita. Por ser tão flexível recorrera a uma forma infantil de apaziguamento, como fizera tantos anos antes com o pai. Mas, reconhecer seus atos e fazer algo
a respeito eram duas coisas diferentes. Como no caso de seu pai, ela queria agradar, a Edward por necessitar e desejar sua estima. Além do mais, raciocinava Kim,
Edward estava sobre forte pressão e precisava dela.
Kim ligou o carro e foi até a cidade fazer compras. Ela definitivamente não queria perder Edward, embora nas últimas semanas parecesse que quanto mais tentava agradá-lo,
e quanto mais compreensiva tentava ser, mais exigente ele se tornava.
Com tão pouco tempo, Kim decidiu-se por um cardápio simples de filés grelhados acompanhados por salada e pãezinhos frescos. A bebida seria vinho de garrafão ou cerveja.
De sobremesa comprou frutas frescas e sorvete. As 6:45 os bifes estavam limpos, a salada pronta e os pães prontos para ir ao forno. Ela até mesmo já acendera o fogo
da grelha.
Entrou no banheiro às pressas para tomar uma chuveirada. Em seguida, subiu para vestir uma roupa mais confortável antes de voltar à cozinha para pegar guardanapos
e talheres. Estava pondo a mesa na sala de jantar quando o Mercedes de Stanton parou em frente à casa.
— Saudações, minha prima — disse enquanto adentrava a sala. Deu um beijo na bochecha de Kim.
Kim deu-lhe as boas-vindas e perguntou se queria uma taça de vinho. Stanton aceitou a oferta e a seguiu até a cozinha.
— Este é o único vinho que você tem? — perguntou com desdém enquanto Kim abria o garrafão.
— Sinto que seja.
— Acho que prefiro cerveja.
Enquanto Kim procedia com os preparativos para o jantar, Stanton empoleirou-se num banco e ficou olhando-a trabalhar. Ele não se ofereceu para ajudar, mas Kim não
se importou. Tinha tudo sob controle.
— Estou vendo que você e Buffer estão se dando muito bem —comentou Stanton. O cachorro de Edward seguia Kim de um
lado para o outro na cozinha. — Estou impressionado. É um cachorrinho bem filho da puta.
— Eu e Buffer nos dando bem?—Kim perguntou de forma cínica. — Que piada. Posso lhe garantir que não está aqui por minha causa; são os bifes. Normalmente fica com
Edward no laboratório.
Kim verificou a temperatura do forno e deslizou os pães para dentro.
— Está gostando de morar neste chalé? — questionou Stanton.
— Estou — afirmou Kim. Em seguida suspirou. — Bem, a maioria do tempo. Infelizmente a situação do laboratório anda dominando as coisas. Com toda a pressão, Edward
tem estado muito tenso.
— Não me diga.
— Harvard está sendo difícil — disse Kim. Propositadamente, não acrescentou que Stanton também estava.
— Eu lhe avisei a respeito de Harvard desde o início. Eu já sabia de experiências passadas que Harvard não se faria de morta, especialmente após saber dos ganhos
em potencial. As universidades têm se tornado muito sensíveis a este tipo de situação. Especialmente Harvard.
— Não gostaria que ele prejudicasse sua carreira acadêmica. Antes da Ultra, lecionar era sua maior paixão.
Kim pôs o molho na salada.
Stanton ficou olhando enquanto trabalhava e não disse nada até que seus olhos se encontraram.
— Vocês têm se dado bem? Não quero me meter, mas desde que comecei a trabalhar com ele neste projeto, descobri que Edward não é das pessoas mais fáceis de se lidar.
— Tem sido um pouco estressante ultimamente—admitiu Kim. — A mudança para cá não está sendo tão fácil como eu imaginava. É claro que eu não tinha levado a Ultra
e a Omni em consideração. E como já disse, Edward tem estado sob enorme pressão.
— Ele não é o único.
A porta da frente se abriu e Edward e os pesquisadores
entraram em tropel. Kim foi recebê-los, tentando melhorar a situação o máximo possível, mas não foi fácil. Estavam todos tensos, até mesmo Gloria e David. Parecia
que ninguém quisera vir ao chalé jantar. Edward tivera que obrigá-los.
A pior de todas as reações fora a de Eleanor. Assim que soube qual era o cardápio, anunciou de maneira petulante que não comia carne vermelha.
— O que você come normalmente?—Edward lhe perguntou.
— Peixe ou frango.
Edward olhou para Kim e levantou as sobrancelhas como se dissesse: "E então, o que vai fazer!"
— Então vou comprar um peixe — declarou Kim. Pegou as chaves do carro, saiu e entrou no veículo. Era certamente uma reação extremamente grosseira da parte de Eleanor,
mas na verdade Kim gostou da idéia de sair um pouco de casa. O clima estava deprimente.
Havia um mercado próximo que vendia peixe fresco e Kim comprou vários filés de salmão caso alguém além de Eleanor preferisse peixe. No caminho de volta, Kim perguntou-se,
com alguma preocupação, o que encontraria ao voltar.
Ao entrar no chalé, teve uma surpresa agradável. Não era, de forma alguma, uma reunião alegre, mas o clima melhorara bastante. Em sua ausência o vinho e a cerveja
haviam sido abertos e bebidos com mais avidez do que esperara. Ficou feliz em ter comprado tanto.
Estavam todos reunidos na sala, agrupados em torno da mesa, com o quadro de Elizabeth olhando diretamente para eles. Kim balançou a cabeça para quem notou sua presença
e foi diretamente para a cozinha. Lavou o peixe e o colocou na travessa ao lado da carne.
Com sua taça de vinho nas mãos, Kim voltou à sala. Stanton se levantara enquanto ela estivera na cozinha e entregara a todos uma folha. Encontrava-se de pé em frente
à lareira, bem embaixo do quadro.
— O que estão vendo é uma previsão do quão rapidamente ficaremos sem dinheiro se continuarmos a gastá-lo com a velocidade atual. É óbvio que a situação não é das
melhores.
Portanto, preciso ter uma idéia de quando cada um de vocês chegará a suas várias metas para que eu possa encontrar a melhor maneira de levantar mais capital. Temos
três escolhas: abrir a companhia a público, o que acredito não funcionar bem, pelo menos a nosso favor, enquanto não tivermos o que vender...
— Mas temos o que vender — interrompeu Edward. — Temos a droga mais promissora desde o advento do antibiótico, graças à Madame — Edward ergueu a garrafa de cerveja
na direção do retrato de Elizabeth. — Gostaria de fazer um brinde à mulher que se tornará a mais famosa bruxa de Salem.
Todos, menos Kim, levantaram seus copos. Até mesmo Stanton brindou, depois de pegar sua cerveja da cornija da lareira. Após um momento de silêncio todos beberam
com avidez.
Kim remexia-se desconfortavelmente. Quase esperava que a expressão de Elizabeth se alterasse. Sentiu que os comentários de Edward eram desrespeitosos e de mau gosto.
Kim perguntou-se como Elizabeth se sentiria se estivesse ali, vendo este time de pessoas talentosas fazendo de tudo em proveito próprio, em sua casa, proveito este
resultante de seu infortúnio e de sua morte prematura.
— Não estou negando que o produto tenha potencial — declarou Stanton, pousando a cerveja mais uma vez. — Todos nós sabemos disto. Mas, no presente, não temos um
produto pronto para entrar no mercado. Portanto, podem acreditar: no atual clima econômico, não é a melhor hora de abrir a companhia ao público. O que podemos fazer
é uma oferta particular, o que ofereceria a vantagem de perdermos menos controle. A última alternativa é de encontrarmos outros especuladores. É claro que isto implicaria
grande sacrifício de ações e portanto de lucro. Na verdade, teríamos de aumentar o número atual.
Os pesquisadores emitiram um murmúrio de insatisfação.
— Não quero abrir mão de mais ações — disse Edward. — Vão ser valiosíssimas assim que a Ultra entrar no mercado. Por que não fazemos um empréstimo?
— Porque não temos coisa alguma para oferecer em caução para conseguir tal empréstimo. Para pegarmos emprestado
aquilo que precisamos significaria pagar juros exorbitantes, já que o dinheiro não viria das fontes mais usuais. E justamente por isso, as pessoas com as quais estaríamos
lidando não nos permitiriam ocultar coisa alguma, caso as coisas não saíssem bem. Entende o que quero dizer, Edward?
— Tenho uma idéia. Mas investigue a possibilidade mesmo assim. Não podemos deixar de considerar algo que possa evitar a perda de mais ações. Seria uma pena, uma
vez que a Ultra é uma certeza.
— Continua tão confiante como quando começamos a companhia? — indagou Stanton.
— Até mais. Fico mais convencido a cada dia. As coisas estão indo muito bem e, se continuarem assim, poderemos entrar com um pedido para uma IND, investigação para
uma nova droga, dentro de seis ou oito meses, o que é bem diferente de três anos e meio.
— Quanto mais rápido trabalharem, melhor se torna a situação financeira. Seria até bom trabalharem mais rápido.
Eleanor soltou uma breve risada irônica.
— Estamos todos trabalhando em velocidade máxima — disse François.
— É verdade, a maioria de nós está dormindo menos de seis horas por noite — acrescentou Curt.
— Há algo que nem ao menos comecei a fazer — declarou Edward. — Ainda não falei com meus conhecidos na FDA. Quero começar a preparar o terreno para que a Ultra seja
ao menos considerada para o plano acelerado de aprovação. O que faremos finalmente é testar a droga em pacientes com depressão profunda, assim como portadores de
AIDS e talvez, até mesmo, casos terminais de câncer.
— Qualquer coisa que economize tempo. Não sei como ressaltar a importância disto — disse Stanton.
— Acho que já entendemos — arrematou Edward.
— Já temos mais alguma idéia de como a Ultra funciona? — perguntou Stanton.
— Esta manhã mesmo identificamos níveis baixos da enzima
natural nos cérebros de ratos que metabolizam a Ultra — informou Gloria.
— E isto deveria me animar? — indagou Stanton com sarcasmo.
— Se você se lembrasse de alguma coisa dos quatro anos de faculdade de medicina, deveria.
— Isto sugere que a Ultra poderia ser uma molécula natural do cérebro, ou, pelo menos, estruturalmente falando, pode ser muito próxima à molécula natural. O que
apoia ainda mais esta teoria é a estabilidade da ligação da Ultra a membranas neuronais. Estamos começando a achar que esta situação se assemelha ao relacionamento
entre narcóticos parecidos com a morfina e as próprias endorfinas do cérebro.
— Em outras palavras — disse Edward. —A Ultra é um autacóide natural do cérebro, ou seja, um hormônio interno.
— Mas os níveis não são os mesmos através de todo o cérebro — disse Gloria. —As primeiras tomografias por emissão de positrônios sugerem que a Ultra se concentra
no tronco cerebral, o mesencéfalo, e sistema límbico.
— Ah, o sistema límbico — disse Stanton. — Seu rosto se iluminou. — Disto eu lembro. É a parte de nosso cérebro associada ao animal dentro de todos nós e seus instintos
básicos tais como a raiva, a fome e o sexo. Viu só, Edward? Meus estudos médicos não foram um desperdício completo.
— Gloria, conte a ele como achamos que ela funciona — pediu Edward, ignorando o comentário de Stanton.
— Acreditamos que ela iniba os níveis de neurotransmis-sores do cérebro. Algo parecido com uma solução amortecedora, que mantém o pH de um sistema ácido.
— Em outras palavras — continuou Edward —, a Ultra, ou a molécula natural, se ela for diferente da Ultra, funciona Para estabilizar as emoções. Pelo menos sua função
inicial era o equilíbrio de emoções intensas provenientes de um evento Perturbador, como ver um tigre-de-dentes-de-sabre em sua caverna. Quer a emoção extrema seja
medo ou raiva, ou qualquer outra, a Ultra bloqueia os neurotransmissores, fazendo
com que o animal, ou o humano primitivo, volte rapidamente ao normal para enfrentar o próximo desafio.
— O que quer dizer com função inicial'? — perguntou Stanton.
— Com nossos últimos estudos acreditamos que sua função evoluiu tal como o próprio cérebro — disse Edward. — Acreditamos que a função tenha deixado de ser a de meramente
estabilizar a emoção para trazê-la mais perto de um controle voluntário.
O rosto de Stanton mais uma vez se iluminou.
— Espere aí — disse, fazendo o possível para entender. — Está querendo dizer que se um paciente sofrendo de depressão fosse medicado com a Ultra só precisaria querer
não estar deprimido?
— É esta a nossa hipótese atual. A molécula natural existe no cérebro em quantidades minúsculas, mas tem uma função imensa na modulação da emoção e dos humores.
— Meu Deus — exclamou Stanton. — A Ultra poderá ser... a droga do século!
— É por isto que estamos trabalhando sem parar — afirmou Edward.
— O que estão fazendo agora?
— Estamos fazendo tudo. Estamos estudando a molécula de todos os pontos possíveis. Agora que sabemos que se liga a um receptor, queremos descobrir a proteína de
ligação. Queremos conhecer sua estrutura ou estruturas, pois desconfiamos que a Ultra liga-se a várias cadeias laterais em circunstâncias diferentes.
— Quando você acha que poderemos entrar nos mercados da Europa e do Japão? — inquiriu Stanton.
- Teremos alguma idéia quando começarmos as experiências clínicas. Mas isto não poderá ocorrer até conseguirmos o IND da FDA.
— Precisamos apressar este processo de alguma forma. Isto é loucura! Temos uma droga de mais de um bilhão de dólares nas mãos e corremos o risco de irmos à falência.
— Espere um instante — disse Edward de repente, chamando
a atenção de todos. — Acabo de ter uma idéia. Acabo de pensar em uma maneira de ganhar tempo. Vou começar a tomar a droga eu mesmo.
Durante alguns minutos, o silêncio foi absoluto, salvo pelo relógio que se encontrava em cima na lareira e pelo barulho das gaivotas perto do rio.
— Acha que é uma boa idéia?
— Claro que é — exclamou Edward, já se animando com a idéia. — Não sei como não pensei nisto antes. Com os resultados dos estudos de toxicidade que já realizamos,
tomaria a Ultra sem a mínima dúvida.
— É verdade. Até aqui, não constatei toxicidade alguma — concordou Gloria.
— As culturas de tecido parecem vicejar com aquele troço — acrescentou David. — Especialmente as células neurais.
— Não acho que tomar uma droga experimental seja uma boa idéia — disse Kim, manifestando-se pela primeira vez. Estava de pé, na soleira da porta do vestíbulo.
Edward olhou-a de cara feia por sua interrupção.
— Pois acho a idéia perfeita — disse.
— E como é que ganharíamos tempo com isto? — indagou Stanton.
— Ora, teremos todas as respostas antes de começarmos os testes clínicos. Pense só como vai ser fácil escrever os protocolos clínicos.
— Eu também a tomarei — afirmou Gloria.
— E eu também — disse Eleanor.
Um a um, os pesquisadores concordaram que era uma idéia fabulosa e ofereceram-se para participar.
— Podemos todos tomar dosagens diferentes — sugeriu Gloria. — E com seis pessoas, poderemos até ter um mínimo de significado estatístico quando tentarmos avaliar
os resultados.
— Podemos preparar as dosagens cegamente — acrescentou François. — Assim não saberemos quem está tomando a dosagem mais alta e quem está tomando a mais baixa.
— Não é ilegal tomar uma droga experimental não aprovada? — indagou Kim.
— Que tipo de lei? — perguntou Edward com uma risada. — As leis de um conselho institucional? No que diz respeito à Omni, somos o conselho institucional, assim como
todos os outros comitês, e ainda não aprovamos lei alguma.
Todos os pesquisadores riram com Edward.
— Pensava que o governo tivesse normas ou leis para este tipo de coisa — insistiu Kim.
— O NIH tem normas—explicou Stanton. — Mas apenas para instituições recebendo verba do NIH. Certamente não estamos recebendo verba alguma do governo.
— Deve existir alguma lei aplicável sobre o uso de drogas por seres humanos antes de concluídos os testes com animais. Basta usar a intuição para saber que é uma
ação incauta e perigosa. O que me dizem sobre o desastre da talidomida? Isto não preocupa vocês?
— Não há comparação com esta situação desventurada. Não havia questão alguma sobre a talidomida ser um composto natural, e era bem mais tóxica. Mas Kim, não estamos
pedindo para você tomar a Ultra. Na verdade, você pode ser nosso controle.
Todos riram mais uma vez. Kim ficou ruborizada de vergonha e saiu para a cozinha. Ficou impressionada com a mudança do clima da reunião. Após um início constrangido,
o ambiente ficara leve. Kim teve a sensação desconfortável de que ali ocorria algum tipo de histeria de grupo devido à combinação de uma carga excessiva de trabalho
e expectativas grandiosas.
Na cozinha ela se ocupou em tirar os pãezinhos do forno. Da sala chegava um riso contínuo, e uma conversa, em tom exaltado, sobre a possibilidade de criarem um centro
para estudo científico com os bilhões que anteviam em seu futuro.
Enquanto transferia os pãezinhos para um cesto, sentiu que alguém a seguira até a cozinha.
— Pensei em oferecer ajuda — disse François.
Kim se virou para olhar para ele, mas logo desviou o olhar, passando a cozinha em revista. Deixou que parecesse que estava pensando no que ele poderia fazer. Mas,
na verdade, o atrevimento
daquele homem a perturbava, além de ainda se sentir desconfortável com o episódio ocorrido na sala.
— Acho que está tudo sob controle — disse. — Mas foi gentil em se oferecer para me ajudar.
— Posso encher minha taça de vinho?—perguntou, já com a mão no garrafão.
— É claro.
— Eu adoraria conhecer os arredores assim que o trabalho der uma acalmada — afirmou François enquanto enchia a taça. — Talvez você pudesse me mostrar alguns locais.
Dizem que Marblehead é encantadora.
Kim arriscou uma segunda olhada para François. Como esperara, ele a encarava de forma intensa. Quando seus olhos se cruzaram, ele sorriu de forma estranha, fazendo
com que Kim tivesse a desconfortável sensação de que ele flertava com ela. Também a fez questionar o que Edward lhe teria dito a respeito de seu relacionamento com
ela.
— Talvez sua família já tenha até chegado — comentou Kim.
— É, talvez — respondeu François.
Após terminar de se arrumar para dormir, ela deixou a porta propositadamente entreaberta, de forma a observar o lavabo entre os dois quartos. Sua intenção era ficar
acordada para conversar com Edward quando ele voltasse do laboratório para dormir. Infelizmente, não sabia quando isso ocorreria.
Recostada confortavelmente em seus travesseiros, Kim pegou o diário de Elizabeth de cima da mesinha-de-cabeceira. Recomeçou a lê-lo de onde parara. O diário acabara
não correspondendo às suas expectativas: a não ser pela última anotação, era decepcionante. A maioria das anotações de Elizabeth relacionava-se ao tempo e ao que
acontecera durante o dia, em vez de expressar seus pensamentos, o que Kim teria achado bem mais interessante.
Apesar da vontade de permanecer acordada, Kim caiu em sono profundo por volta da meia-noite, deixando o abajur aceso.
Acordou com o barulho da descarga. Abrindo os olhos, pôde ver Edward no lavabo.
Esfregou os olhos sonolentos e tentou fixá-los no relógio. Já passava de uma hora da manhã. Com algum esforço conseguiu sair da cama, vestir o robe e calçar os chinelos.
Sentindo-se um pouco mais acordada, caminhou até o lavabo, onde Edward escovava os dentes.
Kim sentou-se no tampo do vaso fechado e abraçou os joelhos contra o peito. Edward lançou-lhe um olhar curioso, mas nada disse até terminar de escovar os dentes.
— O que está fazendo acordada a esta hora? — perguntou Edward. Parecia preocupado, não irritado.
— Queria falar com você. Queria saber se realmente pretende tomar a Ultra.
— Pretendo sim. Todos vamos começar amanhã pela manhã, Usaremos um sistema cego, para que ninguém saiba o quanto está tomando em comparação aos outros. A idéia foi
do François.
— Acha a idéia boa?
— É provavelmente a melhor idéia que já tive em muito tempo. Vai acelerar o processo de avaliação da droga e o Stanton parará de me perturbar.
— Mas deve haver um risco.
— Claro que há um risco. Há sempre um risco, mas estou confiante de que seja um risco aceitável. A Ultra não é tóxica, disto temos certeza.
— Isto tudo me deixa nervosa.
— Então deixe-me acalmar você em relação a uma coisa. Não sou um mártir! No fundo, sou até bem covarde. Jamais faria isto se não acreditasse que é absolutamente
seguro e tampouco deixaria que os outros o fizessem. Além do mais, do ponto de vista histórico, estarei em boa companhia. Muitos dos grandes na história da pesquisa
médica foram as primeiras cobaias de suas próprias drogas.
Kim ergueu as sobrancelhas. Ainda não estava convencida.
— Terá que confiar em mim — disse Edward, lavando o rosto com vigor e secando-o em seguida com a toalha.
— Tenho mais uma pergunta. O que disse ao pessoal do laboratório a meu respeito?
Edward baixou a toalha do rosto e olhou para Kim.
— Do que está falando? Por que eu teria dito algo a seu respeito para o pessoal do laboratório?
— Estou falando de nosso relacionamento.
— Não sei o que disse especificamente — disse Edward, encolhendo os ombros. — Suponho que talvez tenha dito que é minha namorada.
— E isto quer dizer mais amante ou mais amiga?
— O que é que está havendo? — perguntou Edward, irritado. — Não divulguei segredos pessoais, se é isto que está supondo. Nunca entrei em detalhes íntimos a nosso
respeito. É por isso que estou sendo interrogado à uma hora da manhã?
— Sinto muito se está se sentindo interrogado, não era esta minha intenção. Só estava curiosa quanto ao que disse, já que não somos casados e imagino que os outros
falem de suas famílias.
Kim estivera prestes a lhe contar a respeito de François, mas achou melhor não fazê-lo. No momento, Edward estava excessivamente temperamental para ter uma conversa
do gênero, tal sua fadiga e sua ansiedade em relação à Ultra. Sem contar que Kim relutava em criar um atrito em potencial entre ele e François, já que não tinha
certeza absoluta das intenções dele.
Kim pôs-se de pé.
— Espero não ter chateado você. Sei que deve estar cansado. Boa noite. — Saiu do banheiro e foi em direção a seu quarto.
— Espere — pediu Edward. Saiu do banheiro. — Mais uma vez estou tendo uma reação excessiva. Sinto muito. Em vez de fazer você se sentir mal, eu deveria agradecer.
Fico muito grato pelo jantar que organizou. Foi perfeito e acabou sendo um sucesso. Foi o tipo da pausa da qual todos precisavam.
— Fico feliz de que tenha comentado alguma coisa. Tenho
tentado ajudar. Acho que entendo a pressão pela qual está passando.
— Bem, acho que por enquanto as coisas com o Stanton ficarão mais brandas. Poderei me concentrar na Ultra e em Harvard.
Capítulo 14. FINAL DE SETEMBRO DE 1994.
O reconhecimento de Edward quanto a seus esforços em organizar um jantar tão em cima da hora fez Kim acreditar que as coisas melhorariam entre eles. Mas não haveria
de ser.
Na semana seguinte ao jantar de segunda, as coisas pioraram. Na verdade, Kim mal viu Edward. Chegava tarde da noite e se levantava antes dela. Não fazia o menor
esforço em se comunicar com ela, embora ela deixasse inúmeros bilhetinhos para ele.
Até mesmo Buffer parecia mais mal-humorado que o normal. Apareceu inesperadamente na quarta-feira à noite enquanto Kim preparava seu jantar. Como parecia estar com
fome, ela encheu seu pratinho com comida e estendeu o braço com a intenção de pô-lo no chão. Buffer mostrou os dentes e deu-lhe uma dentada. Kim jogou a comida fora.
Sem ter contato algum com o pessoal do laboratório, Kim sentiu-se mais isolada do que antes. Começara até mesmo a se sentir sozinha. Surpreendeu-se ao constatar
sua alegria em voltar ao trabalho na próxima semana, algo que jamais esperara sentir. Na verdade, quando saíra de férias no final de agosto, achara que seria difícil
voltar a trabalhar.
Na quinta-feira, 22 de setembro, Kim sentiu-se levemente deprimida e se assustou com tanta ansiedade. Já tivera uma
breve fase depressiva, durante seu segundo ano de faculdade, que deixara uma marca profunda. Assustada com a possibilidade dos sintomas piorarem, Kim ligou para
Alice MeMurray, uma terapeuta do Hospital Geral com quem se tratara alguns anos antes. Alice concordou em ceder-lhe metade de sua hora de almoço no dia seguinte.
Na sexta-feira de manhã, Kim acordou sentindo-se melhor do que nas manhãs anteriores. Achou que devia ser a emoção de estar indo à cidade. Como não podia deixar
o carro no estacionamento do hospital, resolveu pegar o trem.
Chegou a Boston um pouco depois das onze. Como tinha tempo, andou da estação ao hospital. Era um agradável dia de outono, com nuvens intermitentes e sol. Em contraste
com Salem, as folhas das árvores da cidade ainda não haviam começado a mudar.
Kim sentiu-se contente por estar no ambiente familiar do hospital, especialmente ao esbarrar com vários colegas que comentaram a respeito de seu bronzeado. O consultório
de Alice ficava em um prédio de propriedade do hospital. Saindo do corredor, Kim encontrou a recepção vazia.
A porta interna se abriu quase tão logo Alice surgiu.
— Oi. Entre, entre. — Apontando para a mesa da secretária, disse: — Todos saíram para almoçar, caso esteja estranhando.
O consultório de Alice era simples mas confortável. Havia quatro cadeiras em torno de uma mesa, no meio da sala, sobre um tapete oriental e uma pequena escrivaninha
encostada à parede. Perto da janela havia uma palmeirinha num vaso. Nas paredes, gravuras impressionistas e alguns diplomas e certificados emoldurados.
Alice era uma mulher robusta de cujo corpanzil emanava compaixão. A própria Alice revelara a Kim que lutara com o peso a vida inteira. No entanto, o problema só
aumentara sua sensibilidade, dando-lhe maior eficácia no trato dos problemas alheios.
— Como posso ajudá-la"? — indagou Alice quando já se encontravam sentadas.
Kim começou a explicar sua atual situação de moradia. Tentou falar com sinceridade e foi rápida em admitir seu desapontamento porque as coisas não saíram como esperara.
Enquanto falava, ouvia-se assumir grande parte da culpa. Alice ouviu a mesma coisa.
— Isto está me soando como uma velha história — disse Alice em tom imparcial. Perguntou então a respeito da personalidade de Edward e como se portava socialmente.
Kim descreveu Edward e, ajudada pela presença de Alice, ouviu-se defendendo.
— Vê alguma semelhança entre o relacionamento que tinha com seu pai e o que você tem com Edward?—indagou Alice.
Kim pensou um momento e em seguida admitiu que seu comportamento em relação ao recente jantar sugeria alguma analogia.
— Parece-me que, ao menos superficialmente, os dois sejam bastante parecidos. Eu me lembro de você descrever uma frustração idêntica em tentar agradar seu pai. Creio
que o interesse preponderante no caso destes dois homens é sua agenda profissional e não suas vidas pessoais.
— No caso de Edward é temporário — disse Kim.
— Tem certeza? — questionou Alice.
Kim pensou um instante antes de responder.
— Acho que ninguém pode ter muita certeza em relação ao que uma outra pessoa está pensando.
— Exato. Talvez Edward esteja mudando. No entanto, me parece que ele precisa de seu apoio em questões sociais, e você o está dando. Não haveria nada de errado com
isto se eu não tivesse a sensação de que as suas necessidades não estão sendo satisfeitas.
— Está sendo conservadora — admitiu Kim.
— Você deveria estar pensando naquilo que é bom para você e deveria agir de acordo. Sei que é fácil falar e difícil fazer. Sua auto-estima morre de medo de perder
seu amor. De qualquer forma, pelo menos pense seriamente nisto.
— Está querendo dizer que eu não deveria estar morando com Edward? — indagou Kim.
— De modo algum. Não cabe a mim dizer isto. Só você pode decidir uma coisa destas. Mas, como já discutimos no passado, acho que deveria pensar muito bem a respeito
da co-dependência.
— Acha que há co-dependência neste caso?
— Só gostaria que você pensasse nisto. Sei que pessoas que foram molestadas quando crianças têm uma tendência a recriar as circunstâncias do abuso cometido em suas
próprias situações domésticas.
— Mas você sabe que não fui molestada — disse Kim.
— Não no sentido geral da palavra, mas você não teve um bom relacionamento com seu pai. O abuso pode vir de várias formas, devido à vasta diferença de poder entre
pais e filhos.
— Entendo o que quer dizer.
Alice chegou para a frente, pôs as mãos nos joelhos e sorriu com brandura.
— Parece que há algumas coisas sobre as quais devemos conversar. Infelizmente, já se passou meia hora. Gostaria de lhe dar mais tempo, porém, de alguma forma, foi
o melhor que pude fazer. Espero que pelo menos tenha conseguido com que você pense mais sobre suas próprias necessidades.
Kim pôs-se de pé. Olhando seu relógio, ficou impressionada com o quão rapidamente o tempo passara. Agradeceu muito a Alice.
— E como vai sua ansiedade! Posso lhe dar alguns Xanax, se achar necessário.
Kim balançou a cabeça.
— Não, muito obrigada. Estou bem. Além do mais, ainda tenho alguns dos que me deu tempos atrás.
— Ligue, se quiser marcar uma hora de verdade.
Kim lhe garantiu que avisaria com maior antecedência e saiu. Enquanto caminhava até a estação de trem, pensou a respeito da pequena sessão que tivera. Pareceu-lhe
que estava prestes a começar quando o tempo acabou. Mesmo assim, Alice lhe dera muito no que pensar e fora exatamente por este motivo que Kim quisera vê-la.
Durante a viagem de volta a Salem, enquanto olhava a
paisagem, decidiu que precisava conversar com Edward. Sabia que não seria fácil, pois tinha sérias dificuldades com confrontos. Além do mais, devido à pressão que
estava sofrer, ele não estava muito disposto a discutir assuntos tão carregados de emoção, como se deveriam ou não estar morando juntos. Ainda assim, sabia que precisava
ter uma conversa com ele antes que as coisas piorassem.
Ao entrar na propriedade, Kim olhou o laboratório e quis ter a coragem de ir direto até lá e pedir para falar com Edward imediatamente. Mas sabia que não conseguiria.
Na verdade, sabia que não poderia conversar nem se ele aparecesse no chalé naquela tarde, a não ser que lhe desse algum indício de estar pronto para conversarem.
Com certa dose de resignação, admitiu que teria de esperar por Edward.
Mas Kim não viu Edward na sexta-feira à noite ou durante o dia de sábado. Encontrava parcos sinais de que chegara depois da meia-noite e saíra antes do amanhecer.
A necessidade de conversar com ele pairava sobre sua cabeça como uma nuvem escura e sua ansiedade foi crescendo.
Passou a manhã de domingo no sótão do castelo, separando documentos. A tarefa, que não exigia muita atenção, ofereceu-lhe uma trégua e parou de pensar em sua situação
insatisfatória durante algumas horas. Faltando quinze para uma, o estômago deu-lhe o sinal de que já passara muito tempo desde o café da manhã e de sua tigela de
cereal com leite.
Deixando o interior empoeirado do castelo, Kim parou na falsa ponte levadiça e deixou que os olhos se fartassem da bela cena outonal à sua volta. Algumas das cores
estavam linda, mas ainda não tão intensas como estariam dentro de algumas semanas. Várias gaivotas planavam preguiçosamente nas correntes de ar, lá no alto, no céu.
Seus olhos vasculharam a periferia da propriedade e pararam no começo da estrada. No lugar onde terminava a sombra das árvores, podia ver a frente de um carro.
Curiosa quanto ao motivo de haver um carro estacionado ali, Kim cruzou o campo. Aproximou-se do carro pela lateral
para ver o motorista. Ficou surpresa em constatar que era Kinnard Moniban.
Quando Kinnard a viu, saltou do carro e fez algo que Kim jamais o vira fazer. Ficou ruborizado.
— Desculpe — disse, acanhado. — Não quero que pense que estou aqui, na espreita, como um voyeur. Na verdade, estava aqui tentando criar coragem para entrar de uma
vez.
— E por que não entrou?
— Suponho que seja porque fui um babaca nas últimas vezes em que nos vimos.
— Parece que foi muito tempo atrás.
— Suponho que até pareça mesmo. De qualquer forma, espero não estar incomodando você.
— Não está me incomodando de maneira alguma.
— Meu rodízio no hospital de Salem terminará semana que vem. Estes dois meses voaram. Estarei de volta ao Hospital Geral daqui a uma semana.
— Eu também — disse Kim. Explicou que tirara o mês de setembro de férias.
— Vim até aqui em outras ocasiões — admitiu Kinnard. — Só que nunca achei que seria apropriado fazer uma visita e seu telefone não consta da lista telefônica.
— Eu me perguntava como estaria indo o rodízio sempre que passava pelo hospital.
— Como ficou a reforma?
— Veja você mesmo, se é que deseja ver a casa.
— Gostaria muito de vê-la. Vamos, entre, eu lhe dou uma carona.
Foram até o chalé e estacionaram. Kim mostrou a casa inteira para Kinnard. Ele mostrou-se interessado e elogiou muito seu trabalho.
— O que mais gostei foi de ter criado uma casa confortável, mantendo suas características coloniais.
Subiram ao segundo andar, onde Kim mostrou-lhe que haviam conseguido instalar um lavabo sem que a casa perdesse seu aspecto histórico. Chegando à janela, viu, de
relance, que
alguém se aproximava. Fixando o olhar, ficou chocada em ver Edward e Buffer atravessarem o campo a caminho do chalé.
Imediatamente entrou em pânico. Não fazia idéia de como Edward reagiria à presença de Kinnard, especialmente considerando-se o mau humor no qual andava ultimamente.
Sem contar que a última vez que o vira fora na segunda-feira.
— Acho melhor descermos — disse, nervosa.
— Há algo errado?
Kim não respondeu. Estava muito ocupada em se censurar por não ter pensado na possibilidade de Edward aparecer. Maravilhava-se com sua capacidade de se meter em
tais situações.
— Edward está chegando — afirmou finalmente enquanto mostrava-lhe o caminho da sala.
— E isto é um problema? — perguntou Kinnard, confuso. Kim tentou sorrir.
— É claro que não — afirmou. Sua voz não era convincente e seu estômago dava nós.
A porta da frente se abriu e Edward entrou. Buffer foi direto até a cozinha para checar se caíra alguma comidinha no chão.
— Ah, você está aí — exclamou Edward ao ver Kim.
— Temos visita — afirmou Kim. As mãos estavam cruzadas à sua frente.
— Como? — perguntou Edward, entrando na sala.
Kim os apresentou. Kinnard deu um passo à frente e estendeu a mão, mas Edward não se moveu. Permaneceu imóvel, pensando.
— É claro — disse Edward, estalando os dedos. Então estendeu a mão e balançou o braço de Kinnard com enorme entusiasmo. — Lembro de você, trabalhou em meu laboratório.
É o sujeito que foi fazer residência em cirurgia no Hospital Geral de Massachusetts.
— Tem boa memória — disse Kinnard.
— Ora, lembro-me até do tópico de sua pesquisa — declarou Edward. Fez um breve relato do projeto que durara um ano.
— Fico envergonhado em saber que se lembra dele melhor do que eu.
— Que tal uma cerveja? — ofereceu Edward. — Temos Samuel Adams geladinha.
Kinnard olhou para Kim e depois para Edward nervosamente.
— Talvez seja melhor eu ir embora.
— Besteira — disse Edward. — Fique, se puder. Tenho certeza de que Kim adoraria sua companhia. Tenho que voltar ao trabalho. Só vim aqui fazer uma pergunta.
Kim estava tão desnorteada quanto Kinnard. Edward não estava agindo como receara. Ao invés de demonstrar irritação ou de ter um acesso de raiva, estava num bom humor
invejável.
— Não sei qual a melhor maneira de dizer isto — começou Edward —, mas gostaria que os pesquisadores passassem a pernoitar no castelo. Seria muito mais conveniente
que dormissem na propriedade, já que muitas das experiências exigem que coletem informações vinte e quatro horas por dia. Além do mais, o castelo está vazio e há
tantos quartos mobiliados que é até ridículo que estejam hospedados em pousadas. A Omni pagará.
— Bem, não sei...—balbuciou Kim.
— Por favor, Kim. Será temporário. Logo suas famílias chegarão e estarão comprando suas casas.
— Mas há tantas heranças de família naquela casa.
— Isto não será problema. Conheceu o grupo, não tocarão em coisa alguma. Ouça, dou minha palavra de honra de que não haverá problema algum. Nem saberá que estão
lá. Você não os ouvirá e não os verá. Podem ficar na ala dos hóspedes e na dos criados.
Edward piscou para Kinnard.
— É melhor separar as mulheres dos homens. Não quero ser responsável por problemas domésticos.
— Será que eles não se importarão em usar apenas as duas alas? — perguntou Kim. Apesar da insistência, a amabilidade e exuberância de Edward eram tais que encontrava
dificuldades em resisti-lo.
— Adorarão! Não posso nem lhe dizer o quanto ficarão agradecidos. Obrigado, meu docinho! Você é um anjo. — Edward deu um beijo no meio da testa de Kim e um abraço.
— Kinnard! — exclamou Edward ao soltar Kim. — Agora que aprendeu o caminho, apareça. Kim precisa de companhia. Infelizmente, estarei muito ocupado no futuro próximo.
Edward deu um assobio tão agudo que Kim rangeu os dentes. Buffer saiu da cozinha aos trotes.
— Vejo vocês mais tarde — disse Edward, acenando. Um segundo depois, a porta se fechou.
Durante alguns instantes, Kinnard e Kim simplesmente se olharam.
— Eu concordei ou é impressão? — perguntou Kim.
— Aconteceu meio rápido — admitiu Kinnard.
Kim caminhou até a janela e assistiu Edward e Buffer cruzarem o campo. Edward jogou um galho para o cachorro.
— Está bem mais afável do que quando trabalhei em seu laboratório. Você teve uma enorme influência sobre ele. Ele sempre foi formal e sério. Na verdade, era bastante
desajeitado.
— Está sob muita pressão — disse Kim. Continuava olhando pela janela. Edward e Buffer pareciam divertir-se muito com a brincadeira.
— Da forma como está agindo, nem parece.
Kim virou-se para Kinnard. Balançou a cabeça e esfregou a testa nervosamente.
— No que é que fui me meter? — perguntou. — Não estou me sentindo completamente à vontade em deixar o pessoal de Edward ficar hospedado no castelo.
— Quantos são?
— Cinco.
— O castelo está vazio? — indagou Kinnard.
— Não há ninguém morando lá, se é o que quer dizer. Mas ele certamente não está vazio. Quer vê-lo?
— Claro — disse Kinnard.
Cinco minutos depois, Kinnard encontrava-se no meio do enorme salão de pé-direito duplo. Uma expressão de incredulidade invadiu seu rosto.
— Entendo sua preocupação. Este lugar parece um museu. Os móveis são incríveis e nunca vi tantas cortinas.
— Foram feitas nos anos vinte. Disseram-me que são ao todo mais de novecentos metros de tecido.
— Meu Deus, quase um quilômetro!—exclamou Kinnard, impressionado.
— Meu irmão e eu o herdamos de meu avô. Ainda não temos a menor idéia do que fazer com ele. Mesmo assim, não sei o que meu pai e meu irmão vão dizer sobre morarem
cinco estranhos aqui.
— Vamos ver onde ficarão.
Inspecionaram as alas. Havia quatro quartos em cada ala e cada ala tinha sua própria escada e uma porta que dava para fora.
— Com entradas independentes e escadas, eles não teriam que atravessar a parte principal — observou Kinnard.
— Tem razão — disse Kim. Encontravam-se em um dos quartos da criadagem. — Talvez não seja tão ruim assim. Os três homens podem ficar nesta ala e as duas mulheres
na ala de hóspedes.
Kinnard deu uma olhada no banheiro adjacente.
— Xi! — exclamou. — Kim, venha cá! Kim foi até onde ele estava.
— Qual é o problema
Kinnard apontou para o vaso sanitário.
— Não há água aí dentro — disse. Estendeu o braço por cima da pia e abriu a torneira. Nada saiu. — Há algum problema com o encanamento.
Checaram os outros banheiros da ala de criados. Nenhum tinha água. Atravessando a ala de hóspedes, constataram que o problema, fosse qual fosse, estava restrito
à ala dos criados.
— Terei de chamar um bombeiro — declarou Kim.
— Talvez seja alguma coisa simples, como um registro desligado — disse Kinnard.
Saindo da ala dos criados, atravessaram a parte principal da casa mais uma vez.
— O Instituto Peabody-Essex adoraria esta casa — disse Kinnard.
— Adorariam pôr as mãos no conteúdo do sótão e da adega.
Ambos estão cheios de papéis antigos, cartas e documentos de trezentos anos atrás.
— Isto eu gostaria de ver. Importa-se em me mostrar?
— De jeito nenhum — disse Kim. Mudaram de rumo e subiram as escadas do sótão.
Kim abriu a porta e indicou para que Kinnard entrasse.
— Bem-vindo ao arquivo da família Stewart — disse. Kinnard desceu o corredor central olhando os arquivos.
Balançou a cabeça. Estava impressionadíssimo.
— Quando eu era pequeno, colecionava selos. Sonhei tantas vezes em encontrar um lugar como este. Quem sabe o que pode haver aqui!
— Há uma quantidade equivalente no porão — afirmou Kim. O deleite de Kinnard a enchia de alegria.
— Eu poderia passar um mês aqui.
— É praticamente o que fiz. Estive procurando referências a uma de minhas antepassadas, Elizabeth Stewart, que foi envolvida no frenesi das bruxas em 1692.
— Jura? Acho estas coisas fascinantes. Você se lembra de que fiz faculdade de história americana, não é?
— Havia esquecido — admitiu Kim.
— Durante o rodízio aqui em Salem, visitei a maioria dos locais relacionados ao julgamento. Minha mãe veio me visitar e fomos juntos.
— Por que não levou a loura da Emergência? — indagou Kim antes de pensar no que perguntara.
— Não deu. Ela ficou com saudades de casa e voltou para Columbus, Ohio. E como vão as coisas para você? Ao que parece, seu relacionamento com o Dr. Armstrong vai
muito bem.
— É, tem seus altos e baixos — disse Kim vagamente.
— Como foi que sua antepassada acabou envolvida nos julgamentos?
— Foi acusada de bruxaria e executada.
— Por que nunca me contou isto antes?
— Envolveram-me numa operação de omissão — disse Kim, rindo. — É sério, fui condicionada por minha mãe a não
conversar a respeito. Mas isto mudou. Agora, chegar à raiz de sua história tornou-se minha minicruzada particular.
— E tem tido sorte?
— Alguma. Mas há muito material aqui e tem levado mais tempo para examiná-lo do que eu imaginara.
Kinnard pôs a mão no puxador de uma das gavetas e olhou para Kim.
— Posso? — perguntou.
— A vontade — respondeu Kim.
Assim como grande parte das gavetas do sótão, estava repleta de documentos, envelopes e cadernos de todas as espécies. Kinnard inspecionou-a, mas não encontrou selos.
Por fim, pegou um dos envelopes e tirou a carta.
— Não é à toa que não há selos aqui. Não foram inventados até o final do século XIX. Esta carta é de 1698!
Kim pegou o envelope. Estava endereçado a Ronald.
? — Seu filho da mãe sortudo! É o tipo de carta que tenho me esfolado para encontrar e você simplesmente entra aqui e a arranca do nada.
— Fico feliz em poder ajudá-la — disse Kinnard, entregando-lhe a carta.
Kim leu a carta em voz alta:
12 de outubro de 1698 Cambridge
Querido pai,
Fico-lhe imensamente grato pelos dez xelins, já que tenho necessitado muito de dinheiro neste período de aclimação à nova vida na faculdade. Gostaria de, humildemente,
relatar que tive sucesso na tarefa a respeito da qual tanto discutimos antes de minha matrícula. Após uma pesquisa longa e árdua, localizei a prova usada contra
minha querida falecida mãe nos aposentos de um de nossos estimados tutores, que havia se afeiçoado à sua natureza grotesca. O fato de estar exposta de forma tão
conspícua me causava alguma inquietude, mas na terça-feira última, durante o intervalo da tarde, enquanto todos foram para a cantina, tive a oportunidade de visitar
os aposentos aos quais me referi e mudei o
nome conforme me instruiu para Rachel Bingham. Com o mesmo intuito, fui até o catálogo de Harvard Hall. Espero, meu estimado pai, que se sinta em paz, pois o sobrenome
Stewart foi libertado de seu penoso sofrimento. Em relação a meus estudos, posso lhe relatar, com alguma alegria, que minhas recitas foram bem recebidas. Meus companheiros
de quarto são saudáveis e de natureza afável. Além dos trotes sobre os quais me avisara, estou bem e contente.
Seu afetuoso filho, Jonathan
— Maldito seja! — praguejou Kim quando terminou a carta.
— O que houve? — perguntou Kinnard.
— É esta prova — disse Kim indicando a passagem na carta. — Refere-se à prova usada para condenar Elizabeth. Num documento que encontrei no fórum de Essex County,
era descrita como prova conclusiva, querendo dizer que não havia dúvidas quanto a sua condenação. Já encontrei diversas alusões à prova, mas nenhuma descrição. Descobrir
o que pode ser tornou-se o principal objetivo de minha cruzada.
— Tem alguma idéia do que possa ser?
— Creio que seja algo relacionado ao ocultismo. Provavelmente um livro ou um boneco.
— Eu diria, por esta carta, que é provável ser um boneco. Não acho que um livro teria uma natureza grotesca. O romance gótico só foi inventado no século XIX.
— Talvez seja um livro descobrindo algum tipo de poção mágica que usava partes do corpo como ingredientes — sugeriu Kim.
— Não tinha pensado nisto.
— Elizabeth mencionou a fabricação de bonecos em seu diário. Sem contar que os bonecos ajudaram a condenar Bridget Bishop. Suponho que um boneco pudesse ser grotesco,
ou por ser mutilado ou talvez sexualmente explícito. Imagino que a moralidade puritana teria considerado muitas coisas relacionadas a sexo grotescas.
— As pessoas, de forma geral, fazem um juízo errado da relação do puritanismo com o sexo. Lembro-me, dos cursos de história, que eles consideravam o sexo antes do
casamento e a concupiscência pecados menores do que a mentira ou a autopromoção, já que era uma quebra dos pactos sagrados.
— Isto quer dizer que as coisas mudaram muito desde os tempos de Elizabeth — disse Kim com uma risada cínica. — O que os puritanos acreditam ser um pecado terrível
são aceitáveis e muitas vezes louváveis na sociedade de hoje. É só ouvir as audiências do governo.
— Então você espera solucionar o mistério da prova vasculhando esta papelada toda? — indagou Kinnard, mostrando o sótão com gestos largos.
— Esta e a da adega. Levei uma carta de Increase Mather a Harvard, pois na carta ele diz que a prova tinha se tornado parte das coleções de Harvard. Mas não tive
sorte. Os bibliotecários não conseguiram achar referência alguma de Elizabeth Stewart no século XVII.
— Segundo a carta de Jonathan, você deveria procurar por Rachel Bingham.
— Só agora percebo isto. Mas não faria nenhuma diferença. Houve um incêndio no inverno de 1764 que consumiu Harvard Hall e sua biblioteca. Não só todos os livros
queimaram, como também o que eles chamavam de repositório de curiosidades, além de catálogos e índices. Infelizmente, ninguém sabe o que foi perdido. Acho que Harvard
não tem como me ajudar.
— Que pena. Mas pelo menos você ainda tem uma chance com todos estes papéis.
— É minha única esperança. — Ela mostrou a ele como estava organizando todo o material por ordem cronológica e assunto. Ela o levou até mesmo à área onde trabalhara
pela manhã.
— É uma tarefa e tanto. — Ele olhou as horas. — Acho que tenho de ir. Devo fazer a ronda dos meus pacientes à tarde.
Kim o acompanhou até seu carro. Ele ofereceu uma carona de volta ao chalé, mas ela recusou. Disse que pretendia trabalhar
mais algumas horas no sótão; que queria revirar a gaveta onde ele achara a carta de Jonathan com tanta facilidade.
— Talvez não devesse perguntar... — começou Kinnard, mantendo a porta do carro aberta. — Mas o que é que Edward e seu grupo de pesquisadores estão fazendo por aqui?
— Tem razão, você não deveria perguntar. Não posso dar detalhes porque prometi segredo. Mas é fato conhecido que eles estão desenvolvendo uma droga. Edward construiu
um laboratório no antigo estábulo.
— Ele não é bobo. É um lugar fabuloso para um laboratório de pesquisas.
Kinnard ia entrar no carro quando Kim o impediu.
— Tenho uma pergunta a lhe fazer. É contra a lei que pesquisadores tomem uma droga experimental que ainda não está sendo testada clinicamente?
— É contra as regras da FDA que drogas sejam administradas em voluntários. Mas se os pesquisadores resolverem tomá-la, o problema foge à alçada da FDA. Acho que
eles não permitiriam, e poderá dificultar as futuras tentativas de aprovação junto ao órgão oficial.
— Que pena! Eu esperava que fosse ilegal.
— Acho que não preciso ser um cientista da NASA para adivinhar por que está me perguntando isto.
— Não estou dizendo nada. E gostaria que fizesse o mesmo.
— Para quem vou dizer algo? — Kinnard perguntou em tom de retórica. Ele hesitou por um momento e depois perguntou: — Eles estão todos tomando a droga!
— Realmente não quero falar sobre isto.
— Se estão, isto poderia levantar uma questão ética. Sem contar o problema de coerção com os membros mais jovens.
— Não acredito que haja coerção envolvida. Thlvez exista algo como uma histeria coletiva, mas ninguém está forçando ninguém a fazer nada.
— Bem, de qualquer forma, tomar uma droga não investigada não é uma idéia brilhante. Há um grande risco de efeitos colaterais inesperados. Afinal, este é o motivo
das regras existirem.
— Foi bom vê-lo novamente. Fico feliz por continuarmos amigos.
Kinnard sorriu.
— Eu também.
Kim acenou enquanto ele se afastava. Ela acenou novamente um pouco antes do carro desaparecer entre as árvores. Ficou triste em vê-lo partir. Sua visita inesperada
tinha sido gratificante.
Voltando para dentro do castelo, Kim subiu as escadas a caminho do sótão. Ela ainda sentia a emoção provocada pela visita de Kinnard quando percebeu que o episódio
com Edward continuava a impressioná-la. Lembrava-se da época em que começara a namorar Edward e o quanto ele sentira ciúmes à simples menção do nome de Kinnard.
Isto fazia com que sua reação daquela tarde fosse ainda mais surpreendente. Também fez com que Kim se perguntasse se, da próxima vez que visse Edward, ele teria
um acesso de raiva por conta.
No final do dia, Kim estava pronta para desistir de sua busca. Levantou-se e alongou os músculos doloridos. Para sua tristeza, não encontrara outros documentos interessantes
na gaveta, no arquivo, ou mesmo nos arredores de onde Kinnard encontrara a carta de Jonathan. Isto fez com que o feito de Kinnard lhe parecesse ainda mais impressionante.
Deixando o castelo, pôs-se a caminho do chalé. O sol já se punha no leste. Já era outono e o inverno não demoraria a chegar. Enquanto caminhava, pensava no que prepararia
para o jantar.
Estava quase chegando no chalé quando ouviu o som de vozes exaltadas. Virou-se e viu que Edward e sua equipe deixavam o isolamento do laboratório.
Kim ficou intrigada: parou e observou o grupo se aproximar. Mesmo a distância ela poderia distinguir que eles estavam brincalhões e exuberantes como um grupo de
crianças em recreio. Podia ouvi-los rindo e gritando. Os homens, com exceção de Edward, estavam jogando uma bola de futebol americano para frente e para trás.
O primeiro pensamento que lhe veio à mente foi que tinham chegado a alguma descoberta monumental. Quanto mais perto chegava, mais certeza tinha. Nunca os vira de
tão bom humor. Mas quando chegou perto o suficiente para ouvir os gritos, Edward mostrou que estava errada.
— Veja o que fez com meu time! — berrou para Kim. — Acabei de contar a eles sobre sua oferta para ficarem hospedados no castelo, e eles ficaram loucos.
Quando o grupo se aproximou de Kim, eles deixaram escapar sua alegria:
—- Hip hip, hurra! — repetiram três vezes e caíram em risos.
Kim se viu rindo de volta. A exuberância geral era conta-giante. Eram como colegiais em festa.
— Eles realmente estão sensibilizados por sua hospitalidade — explicou Edward. — Reconhecem que é um grande favor o que está fazendo por eles. Curt já até dormira
algumas noites no chão do laboratório.
— Gosto de sua roupa — disse Curt dirigindo-se a Kim. Kim olhou para sua blusa de couro ejeans. Realmente não tinham nada de especial.
— Obrigada — respondeu.
— Gostaríamos de lhe garantir que trataremos todo o mobiliário do castelo com o maior respeito. Sabemos que são peças antigas de herança familiar — disse François.
Eleanor aproximou-se e abraçou Kim inesperadamente.
— Estou emocionada com sua contribuição altruísta à causa — disse. Apertou a mão de Kim e olhou-a nos olhos. — Muito obrigada.
Kim aquiesceu. Não sabia o que dizer, estava envergonhada, pois tinha sido contra a idéia.
— A propósito—disse Curt, passando à frente de Eleanor —, tenho me perguntado se o barulho de minha motocicleta a está incomodando. Se for o caso, não me importaria
em estacionar fora da propriedade.
— Não tenho ouvido barulho algum.
— Kim! — chamou Edward enquanto a contornava pelo
outro lado. — Se for conveniente, o grupo gostaria que você os levasse ao castelo para mostrar onde dormirão.
— Acho que a hora é tão boa quanto qualquer outra.
— Perfeito — disse Edward.
Rememorando seus passos, Kim conduziu o animado grupo em direção ao castelo. David e Gloria fizeram questão de correr para alcançá-la e andar a seu lado. Estavam
cheios de perguntas sobre o castelo, tais como quando fora construído ou se Kim já vivera nele.
Quando entraram na mansão, soltaram exclamações de aprovação, especialmente na grande sala e na formal sala de jantar, com seus estandartes.
Kim mostrou-lhes a ala de hóspedes primeiro, sugerindo às mulheres que ficassem ali. Eleanor e Gloria ficaram encantadas e escolheram quartos interligados no segundo
andar.
— Podemos acordar uma a outra se dormirmos demais. Kim mostrou a todos que cada ala tinha uma entrada separada, com escadas próprias.
— Isto é perfeito — disse François. — Nós não seremos obrigados a ir à parte principal da casa em nenhum momento.
Passando a ala dos criados, Kim explicou o problema do encanamento, mas garantiu que chamaria um bombeiro pela manhã. Então mostrou um banheiro na parte principal
da casa que eles poderiam usar nesse ínterim.
Os homens escolheram seus quartos sem discussão, embora alguns quartos fossem mais desejáveis do que os outros. Kim ficou impressionada com sua amabilidade.
— Posso mandar instalar um telefone, se quiserem—disse Kim.
— Não se preocupe—afirmou David. — Agradecemos sua oferta, mas não será necessário. Só viremos aqui para dormir e não temos nem dormido muito. Podemos usar o telefone
do laboratório.
Terminado o giro, deixaram o castelo pela saída na ala dos criados e andaram até a frente. Discutiram a problemática das chaves e decidiram deixar as portas destrancadas
por ora. Kim mandaria fazer chaves assim que pudesse.
Após apertos de mão e abraços agradecidos, os pesquisadores voltaram às respectivas pousadas para pegar seus pertences. Kim e Edward andaram até o chalé.
Edward estava de excelente humor. Agradecia a Kim continuamente por sua generosidade.
— Você contribuiu muito para a mudança de ambiente no laboratório. Como pode ver por si mesma, estão todos felicíssimos. A importância do estado de espírito é tal,
que tenho certeza de que seu bom humor se refletirá no trabalho. Então, você teve uma influência positiva em todo o projeto.
— Fico feliz por estar contribuindo — afirmou Kim, sentindo-se ainda mais culpada por ter sido inicialmente contra a idéia.
Chegando ao chalé, Kim se surpreendeu quando Edward a acompanhou. Achou que ele iria diretamente para o laboratório.
— Foi muito simpático do tal Monihan ter feito uma visita — disse.
O queixo de Kim caiu. Teve que se esforçar para manter a boca fechada.
— Sabe de uma coisa? Uma cervejinha cairia bem. Quer uma?
Kim balançou a cabeça. Ficara momentaneamente sem fala. Enquanto seguia Edward até a cozinha, procurava a coragem para trazer à tona o assunto de seu relacionamento.
Há muito não o via de tão bom humor.
Edward foi até a geladeira. Kim sentou-se num banco. Quando estava prestes a falar, Edward abriu a garrafa e a chocou mais uma vez.
— Quero pedir desculpas por estar sendo um verdadeiro ogro durante este último mês — começou. Tomou um gole da cerveja, deu um arroto e se desculpou. — Tenho pensado
nisto nos últimos dias e sei que tenho sido difícil, sem consideração e mal-agradecido. Não estou tentando me desculpar, nem me absolver da culpa, mas estou me sentindo
pressionado pelo Stanton, por Harvard, pelos pesquisadores e até por mim mesmo. Mesmo assim, não deveria ter deixado que tais coisas
se interpusessem entre nós. Mais uma vez, eu lhe peço que me perdoe.
Kim foi surpreendida pela admissão de Edward. A história tomava um rumo inesperado.
— Para mim está claro que você está chateada. Se não quiser, não precisa dizer coisa alguma de imediato. Posso imaginar que não esteja muito feliz em relação a mim.
— Mas eu quero conversar. Tenho desejado conversar, especialmente depois de procurar minha antiga terapeuta, em Boston, na sexta-feira.
— Acho sua iniciativa louvável.
— Me fez pensar muito em como temos nos relacionado — declarou Kim. Olhou para as mãos. — Comecei a me perguntar se morarmos juntos vai ser realmente uma boa idéia
neste momento.
Edward desfez-se da cerveja e pegou suas mãos.
— Compreendo como se sente. E seus sentimentos são justificados, considerando-se como venho me portando. Mas consigo enxergar meus erros e gostaria muito de me retratar.
Kim ia dizer alguma coisa, mas Edward a interrompeu.
— Só lhe peço para deixar as coisas como estão durante algumas semanas, eu no meu quarto e você no seu. Se ao final desse tempo você achar que não devemos continuar
juntos, eu me mudarei para o castelo com os outros.
Kim pesou o que Edward dissera. Estava impressionada com sua culpa e sua percepção da situação. Sua oferta lhe parecia razoável.
— Está certo — concordou por fim.
— Maravilhoso! — exclamou Edward. Estendeu os braços e deu-lhe um longo abraço.
Kim permaneceu levemente afastada. Era difícil para ela mudar o que sentia tão rapidamente.
— Vamos comemorar—disse Edward. —Vamos sair para jantar... só eu e você.
— Sei que você não tem tempo. Mas agradeço o convite.
— Besteira! Farei o tempo! Vamos até aquela espelunca que
descobrimos em uma de nossas primeiras vindas a Salem. Lembra do bacalhau?
Kim assentiu com a cabeça. Edward virou o resto da cerveja.
Enquanto deixavam a propriedade e Kim olhava o castelo, perguntou-se a respeito dos pesquisadores e observou o quão exuberantes lhe pareceram.
— Não podiam estar mais contentes. As coisas vão bem no laboratório e agora não terão que ficar indo e vindo.
— Já começaram a tomar a Ultra? — indagou Kim.
— Começamos sim. Todos começamos na terça-feira. Kim pensou em contar a Edward as opiniões de Kinnard a respeito, mas hesitou. Sabia que Edward se zangaria se soubesse
que ela comentara sobre o projeto com alguém.
— Já descobrimos algo interessante. O nível de Ultra nos tecidos não pode ser significativo, pois nós todos estamos tendo experiências igualmente positivas, embora
estejamos tomando doses muito diferentes.
— Teria a droga algo a ver com a euforia que você e os outros estão experimentando?
— Tenho certeza que sim. Indiretamente, se não diretamente. Vinte e quatro horas após nossa primeira dose, todos nos sentimos relaxados, atentos, confiantes e até
mesmo... — Edward lutou para encontrar a palavra correta e finalmente disse: — Contentes. Tudo isto está a léguas da ansiedade, da fadiga, da irritabilidade que
sentimos antes da Ultra.
— E os efeitos colaterais?
— O único efeito colateral que já tivemos é uma certa secura na boca. Duas pessoas reclamaram uma leve prisão de ventre. Fui o único a notar uma diminuição em minha
capacidade de enxergar de perto, mas durou apenas vinte e quatro horas. Sem contar que eu já andava observando isto antes de tomar a Ultra, especialmente quando
ficava cansado.
— Talvez devessem parar de tomar a droga, agora que já sabem tanto a seu respeito.
— Acho que não. Não quando estamos conseguindo resultados tão positivos. Na verdade, trouxe-lhe a Ultra, caso queira experimentá-la.
Edward enfiou a mão no bolso do paletó e retirou um frasco cheio de cápsulas. Mostrou-o a Kim, que se encolheu.
— Não, muito obrigada.
— Pelo amor de Deus, pelo menos aceite o frasco. Relutante, Kim deixou que Edward largasse o frasco em suas mãos.
— Pense bem. Lembra-se da discussão que tivemos, muito tempo atrás, sobre não nos sentirmos bem entrosados socialmente'? Bem, não se sentirá mais assim após tomar
a Ultra. Comecei a tomá-la há apenas uma semana e ela proporcionou o surgimento do meu verdadeiro eu; a pessoa que eu sempre quisera ser. Deveria experimentar. O
que tem a perder?
— É incômoda a idéia de tomar uma droga para modificar um traço de minha personalidade. A personalidade é construída através da experiência, não da química.
— Acho que já tivemos esta conversa antes — disse Edward com uma risada. — Como químico, é normal que pense de outra forma. Faça o que quiser, mas posso lhe garantir
que se sentiria mais segura se a tomasse. E não é tudo. Acho que ela aumenta a memória de longo termo e que alivia a fadiga e a ansiedade. Tive uma boa demonstração
deste último efeito hoje pela manhã. Recebi um telefonema de Harvard dizendo que vão me processar. Fiquei furioso, mas me senti insultado durante poucos minutos.
A Ultra diminuiu minha ira; então, ao invés de sair esmurrando as paredes, consegui pesar a situação racionalmente e tomar decisões apropriadas.
— Fico feliz que a droga esteja sendo útil. Mas mesmo assim, não quero tomá-la.—Tentou devolver o frasco a Edward, mas ele empurrou-lhe a mão.
— Fique com ele. Só o que lhe peço é que pense bem a respeito. Tome uma cápsula por dia e ficará impressionada com a pessoa que é.
Compreendendo a inflexibilidade de Edward, Kim pôs o frasco na bolsa.
Mais tarde, no restaurante, enquanto estava no toalete, diante do espelho, viu o frasco refletido no espelho. Tirou-o da bolsa e tirou a tampa. Tomou uma das cápsulas
azuis entre o
polegar e o indicador e a examinou. Era incrível que fizesse todas as coisas que Edward afirmava.
Olhando no espelho, admitiu para si mesma o quanto gostaria de ser mais segura e menos medrosa. Admitiu também o quão tentador seria viver sem a ansiedade, discreta
mas persistente, que a acompanhava. Olhou a cápsula mais uma vez. Em seguida, balançou a cabeça. Teve um momento de dúvida mas, ao devolver a cápsula ao frasco,
reafirmou que a solução para seus problemas não estava em drogas.
Quando voltava para a mesa, lembrou-se do quanto desconfiava de soluções rápidas e fáceis demais. Através dos anos, desenvolvera a opinião de que a melhor fórmula
para lidar com problemas era um tanto antiquada: introspecção, um pouco de dor e muito empenho.
Mais tarde, naquela mesma noite, enquanto Kim lia em sua cama, ouviu a porta da frente bater e se assustou. Olhando o relógio viu que ainda não eram onze horas.
— Edward — chamou, nervosa.
— Sou eu — respondeu Edward enquanto subia dois degraus de cada vez. Pôs a cabeça na porta do quarto de Kim. — Espero não ter assustado você.
— Está tão cedo, você está bem?
— Não poderia estar melhor. Sinto-me até enérgico, o que é incrível, considerando-se que acordei às cinco da manhã.
Entrou no lavabo e começou a escovar os dentes. Enquanto fazia isto, dava continuidade ao bate-papo animado sobre os incidentes divertidos ocorridos no laboratório
naquela noite. Ao que parecia, os pesquisadores andavam pregando pequenas peças uns nos outros.
Enquanto Edward falava, Kim pensou no quanto seu próprio humor andava diferente do resto. Apesar da evidente mudança no comportamento de Edward, continuava apreensiva,
levemente ansiosa e até mesmo um pouco deprimida.
Saindo do banheiro, Edward voltou até o quarto e sentou-se na beira da cama de Kim. Buffer o seguiu e, para desespero de Sheba, tentou pular na cama.
— Nada disso, seu cretino — disse Edward enquanto o punha no colo.
— Já vai dormir? — perguntou Kim.
— Vou sim. Tenho que acordar às três e meia, em vez das cinco, para continuar uma experiência na qual venho trabalhando. Aqui em Salem não tenho meus pós-doutorandos
para fazer meu trabalho braçal.
— Não são muitas horas de sono.
— Mas é um número adequado — declarou Edward. De repente mudou de assunto radicalmente. — Quanto herdou em dinheiro, além da propriedade?
Kim piscou. Edward a vinha surpreendendo cada vez que abria a boca. Era uma pergunta tão fora de propósito e tão fora de caráter.
— Não precisa me dizer se isto for deixá-la sem jeito — disse Edward, sentindo que Kim hesitava em responder. — Estou perguntando porque deixaria que ficasse com
algumas ações da Omni. Eu não tenho desejado abrir mão de minhas ações, mas para você seria diferente. Terá um retorno monumental neste investimento, se estiver
interessada.
— Tudo o que tenho já está investido—ela conseguiu dizer. Edward pôs Buffer no chão e levantou as mãos.
— Não me interprete mal. Não estou dando uma de vendedor. Estou apenas retribuindo o favor que fez para a Omni, deixando que o laboratório fosse construído aqui.
— Agradeço a oferta.
— Mesmo que escolha não investir, eu lhe darei algumas ações de presente. — Deu um tapinha na perna de Kim por cima das cobertas e se levantou. — Agora preciso dormir.
Estou louco para dormir minhas quatro horas. Vou lhe dizer, desde que comecei a tomar Ultra, venho dormindo tão profundamente que só preciso mesmo de quatro horas
de sono. Não sabia que dormir podia ser tão prazeroso.
Saltitando, Edward voltou ao banheiro e começou a escovar os dentes mais uma vez.
— Não acha que está exagerando? — perguntou Kim. Edward meteu a cabeça mais uma vez no quarto de Kim.
— Do que está falando? — disse sem abrir a boca.
- Você já escovou os dentes.
Edward olhou sua escova como se a culpa fosse do objeto. Em seguida, balançou a cabeça e riu.
— Tenho andado tão esquecido — disse entrando no banheiro para enxaguar a boca.
Kim olhou para Buffer, que ficara para trás e se posicionara em frente à mesa-de-cabeceira. Estava implorando por alguns biscoitos que ela trouxera da cozinha.
— O seu cachorro parece faminto — gritou para Edward, que já estava em seu quarto. — Você lhe deu comida?
Edward apareceu mais uma vez à porta.
— Eu sinceramente não me lembro — declarou, desaparecendo em seguida.
Resignada, Kim se pôs de pé, vestiu o robe e desceu até a cozinha. Buffer colou em seus calcanhares, como se tivesse ouvido o que dissera. Kim pegou a comida de
cachorro e pôs uma porção num prato. Buffer não cabia em si de tanta excita-ção: não sabia se rosnava ou se latia. Era óbvio que não havia comido, talvez "fizesse
até mais de um dia.
Para não ser mordida, Kim fechou o cachorro no banheiro enquanto punha sua comida no chão. Quando abriu a porta, Buffer passou por ela como uma bala e engoliu a
comida com tanta pressa que parecia estar engasgando.
Quando Kim subiu as escadas, viu que a luz de Edward continuava acesa. Como queria falar-lhe a respeito de Buffer, meteu a cabeça na porta de seu quarto e descobriu
que ele já dormira. Parecia que deitara e adormecera sem ter tempo de apagar as luzes.
Caminhou até a cabeceira da cama e impressionou-se com sua respiração estertorosa. Sabendo dos horários que vinha fazendo, não se surpreendeu com o quão profundamente
dormia. Tinha mesmo que estar exausto. Kim apagou a luz e voltou para seu próprio quarto.
Capítulo 14. SEGUNDA-FEIRA, 26 DE SETEMBRO DE 1994.
Quando Kim finalmente abriu os olhos, ficou surpresa em constatar que já eram nove horas. Há muito tempo não dormia até tão tarde. Saindo da cama, olhou o quarto
de Edward, mas ele já se fora há muito. Seu quarto vazio lhe pareceu limpo e arrumado. Edward tinha o hábito louvável de fazer sua cama toda manhã.
Antes de tomar um banho, Kim ligou para o bombeiro, Albert Bruer, que trabalhara no laboratório e no chalé. Deixou o número de seu telefone na sua secretária eletrônica.
Albert ligou meia hora depois e quando Kim terminou seu café da manhã, ele já estava à porta. Foram juntos ao castelo em seu caminhão.
— Acho que já sei qual é o problema. Na verdade já existia quando seu avô era vivo. São os tubos da descarga. São de ferro fundido e alguns estão bastante corroídos.
Albert levou Kim a cada um dos banheiros da ala dos criados e mostrou ao que se referia.
— Tem conserto? — perguntou Kim.
— Claro que tem, mas vai dar um pouco de trabalho. Talvez eu e meu garoto possamos fazer o trabalho em uma semana.
— Vá em frente, tenho alguns hóspedes no castelo.
— Sendo assim, posso pôr água no banheiro do terceiro andar. Os canos de lá estão com a aparência boa. Talvez ninguém tenha morado lá.
Depois da partida do bombeiro, Kim foi até o laboratório para avisar aos homens a respeito do banheiro do terceiro andar. Não entrava no laboratório há muito e a
perspectiva não a animava. Ela jamais se sentira bem-vinda.
— Kim! — gritou David. Foi o primeiro a vê-la passar pela porta entre a recepção e o laboratório. — Que surpresa agradável! — David gritou para que todos soubessem
de sua presença. Todos, inclusive Edward, deixaram o que estavam fazendo para vir cumprimentá-la.
Kim sentiu-se ruborizar. Não gostava de ser o centro das atenções.
— Temos café fresco e rosquinhas — disse Eleanor. — Quer?
Kim recusou, mas agradeceu a oferta. Explicou que acabara de tomar café. Desculpou-se pela interrupção e rapidamente relatou aos homens a solução do problema do
encanamento.
Os homens ficaram satisfeitos e lhe garantiram que não se importariam em usar o banheiro do terceiro andar. Até mesmo tentaram fazer com que ela desistisse do conserto.
— Não acho que deva deixar como está. Gostaria que fosse consertado — disse Kim.
Tentou ir embora, mas não a deixavam. Todos insistiram em lhe mostrar o que estavam fazendo.
Primeiro foi David. Levou Kim até sua bancada e a fez olhar através de um microscópio de dissecação enquanto lhe explicava que ela estava olhando uma preparação
de gânglios abdominais que ele retirara de um molusco chamado Aplasiafasciata. Em seguida, lhe mostrou dados de como a Ultra modulava o desencadeamento espontâneo
de impulsos nervosos de certos neurônios do gânglio. Antes que Kim pudesse entender o que olhava, David já tinha tirado os dados impressos de suas mãos e a levou
até a incubadora de cultura de tecidos. Explicou-lhe então como avaliava sinais de toxicidade nas culturas de tecidos.
Então foi a vez de Gloria e de Curt. Eles a levaram até onde
ficavam os animais. Mostraram-lhe alguns animais de fazer pena: ratos e macacos estressados que haviam sido levados a um grau de ansiedade altíssimo. Em seguida
mostraram-lhe animais no mesmo estado que haviam sido tratados com Ultra e imipramina.
Kim tentou demonstrar interesse, mas a utilização de cobaias a deixava muito perturbada.
Foi então a vez de François, que a levou até uma sala blindada onde ficava o equipamento de ressonância magnética nuclear. Tentou explicar como estava tentando definir
a estrutura da proteína de ligação da Ultra. Infelizmente Kim entendeu muito pouco de sua explicação. Ela se limitava a assentir com a cabeça e sorrir quando ele
parava de falar.
Eleanor veio em seguida. Levou Kim até seu terminal de computador e deu-lhe uma longa explicação a respeito de modelagem molecular e de como tentava criar drogas
que fossem permutações da estrutura básica da Ultra e que poderiam compartilhar de um pouco da bioatividade da Ultra.
Enquanto era levada de um ponto a outro do laboratório, Kim pôde notar que os pesquisadores, além de amáveis, eram pacientes e respeitosos uns com os outros. Embora
estivessem todos ávidos para agradá-la, aguardavam sua vez sem reclamação.
— Isto tudo foi muito interessante — disse Kim quando Eleanor terminou sua explicação. Kim começou a se dirigir à porta mais uma vez.—Muito obrigada por usar de
seu precioso tempo para me mostrar o laboratório.
— Espere! — disse François. Correu até sua mesa, pegou uma pilha de fotografias e correu de volta. Ofegante, mostrou-as a Kim e perguntou-lhe o que achava delas.
Tratava-se de coloridas tomografias por emissão de positrônios.
— Acho que são... — começou Kim procurando uma palavra que não a fizesse parecer completamente idiota. Finalmente disse: — Dramáticas!
— São muito dramáticas, não é mesmo? — declarou François, deitando a cabeça para olhá-las de outro ângulo. — Parecem arte moderna.
— E o que exatamente estas fotos lhe dizem? —perguntou Kim. Preferia já ter partido, mas, com todos a observá-la, sentia-se obrigada a perguntar alguma coisa.
— As cores referem-se às concentrações de Ultra radioativa — explicou François. — O vermelho é a concentração mais alta. Estes scans mostram com clareza que a droga
age principalmente no tronco cerebral superior, no mesencéfalo e no sistema límbico.
— Lembro que Stanton se referiu ao sistema límbico no jantar — disse Kim.
— Isso mesmo — disse François. — Conforme sugeriu, está relacionado às partes mais primitivas, ou reptiliárias, do cérebro. Estas lidam com funções autônomas, tais
como os humores, as emoções e até mesmo o olfato.
— E sexo — acrescentou David.
— O que quer dizer com reptiliária? — indagou Kim. A palavra tinha uma conotação ruim. Nunca gostara de cobras.
— É usada para se referir às porções do cérebro que são similares ao cérebro dos répteis. É claro que é uma expressão excessivamente simples, mas tem seus méritos.
Embora o cérebro humano tenha evoluído de algum ancestral distante comum aos répteis de hoje, não quer dizer que nosso cérebro se resume a pegarmos o de um réptil
e adicionar mais dois hemisférios cerebrais em cima — explicou François.
Todos riram. A própria Kim riu também. Era difícil resistir ao ambiente.
— No que tange aos instintos básicos — emendou Edward —, nós humanos os temos tanto quanto os répteis. A diferença é que os nossos foram encobertos por graus diferenciados
de socialização e civilização. Traduzindo, isto quer dizer que os hemisférios cerebrais são diretamente conectados ao controle sobre o comportamento reptiliário.
Kim olhou o relógio.
— Agora realmente preciso ir — disse Kim. — Tenho que pegar um trem para Boston.
Com esta desculpa Kim finalmente conseguiu se libertar das
atenções excessivas dos pesquisadores, embora todos a tivessem encorajado a voltar outra hora. Edward a levou até lá fora.
— Você realmente está indo para Boston? — indagou Edward.
— Estou sim. Ontem à noite decidi voltar a Harvard para fazer uma última tentativa. Encontrei uma outra carta referente à prova de Elizabeth. E mais uma dica.
— Boa sorte e divirta-se—desejou Edward, dando-lhe um beijo e voltando ao laboratório. Não perguntou sobre a carta à qual se referira Kim.
Kim caminhou de volta ao chalé sentindo-se um tanto entorpecida diante da intensa atenção dos pesquisadores. Talvez houvesse algo errado com ela mesma. Não gostara
do quão distantes se mostravam de início nem do quão sociáveis haviam se tornado. Será que ela era tão difícil assim?
Quanto mais Kim pensava na resposta, mais compreendia que reagia à repentina uniformidade no comportamento dos pesquisadores. Quando os conhecera, ficara impressionada
com o quão excêntricos e cheios de manias eram. Agora, suas personalidades haviam se mesclado, tornando-se uma coisa amável porém insossa, encobrindo a individualidade
de cada um.
Enquanto trocava de roupa para ir a Boston, não parava de remoer o que estava acontecendo na propriedade. Cheia de dúvidas, sentia aquela ansiedade que a levara
a se consultar com Alice.
Indo até a sala para pegar um casaco, Kim parou embaixo do retrato de Elizabeth e admirou o rosto feminino e ao mesmo tempo forte de sua antepassada. Não havia a
menor sugestão de ansiedade no rosto de Elizabeth. Kim se perguntou se ela um dia se sentira tão descontrolada assim.
Entrou no carro e se dirigiu à estação de trem sem conseguir afastar Elizabeth de sua mente. De repente lhe ocorreu que, apesar dos séculos que se interpunham entre
as duas, havia grandes similaridades entre o seu mundo e o de Elizabeth. Elizabeth vivera sob a constante ameaça de ataques indígenas, enquanto Kim vivia sob o jugo
onipresente da criminalidade. Antigamente houvera a misteriosa e assustadora ameaça da
varíola e a queda do poderio puritano sobre a sociedade. Hoje em dia, havia a AIDS e o fim da estabilidade gerada pela Guerra Fria causando o surgimento de um nacionalismo
exacerbado e do fundamentalismo religioso. Naquele tempo o papel da mulher na sociedade fora confuso e mutante; hoje em dia, nada mudara.
— Quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem iguais — disse Kim, pronunciando o velho ditado.
Kim se perguntou se todas estas similaridades teriam algo a ver com a mensagem que ela achava que Elizabeth tentava lhe enviar através dos séculos. Um tremor percorreu-lhe
o corpo quando se perguntou se um destino igualmente cruel a aguardava. Seria isto que Elizabeth estaria tentando lhe dizer? Seria a mensagem um alerta?
Como ia ficando cada vez mais perturbada, Kim fez um esforço consciente para interromper suas ruminações obsessivas. Conseguiu até entrar no trem. Então, os mesmos
pensamentos voltaram a desabar sobre sua cabeça.
— Pelo amor de Deus! — exclamou em voz alta, fazendo a mulher que se sentava ao seu lado encará-la, desconfiada.
Kim virou o rosto para a janela. Admoestava-se por dar à sua imaginação fértil tanto espaço para voar. Afinal de contas, as diferenças entre a sua vida e a de Elizabeth
eram muito mais numerosas do que as similaridades, em particular no que diz respeito a controle. Elizabeth tivera muito pouco controle sobre seu próprio destino.
Quando muito jovem, fora praticamente coagida a aceitar o que fora na verdade um casamento arranjado e não tinha acesso ao controle de natalidade. Em compensação,
Kim podia escolher com quem se casar e tinha toda a liberdade de controlar seu corpo no que diz respeito à reprodução.
Este tipo de pensamento fez com que relaxasse um pouco até que chegou a North Station, em Boston. Então começou a se perguntar se era tão livre quanto acreditava.
Pensou em algumas das principais decisões de sua vida, tais como tornar-se enfermeira em vez de seguir uma carreira de artes ou design. Lembrou-se de que estava
vivendo com um homem, um relacionamento parecido com o que tivera com o pai. Além do mais,
lembrou-se do peso causado por um laboratório em sua propriedade e cinco pesquisadores habitando o lar ancestral de sua família — sem que nada disso fosse idéia
sua.
O trem parou de repente. Alheia a seus arredores, caminhou até o metrô. Conhecia o problema. Podia ouvir a voz de Alice lhe dizendo que o problema estava em sua
personalidade. Não tinha uma auto-estima apropriada; era flexível demais; pensava nas necessidades alheias e ignorava as suas. Todas estas coisas cooperavam para
tolher sua liberdade.
Que ironia, pensou. A personalidade de Elizabeth, sua segurança e sua decisão, teriam sido perfeitas para o mundo de hoje, embora durante sua época houvessem contribuído
para sua morte prematura. Por outro lado, a personalidade de Kim, obediente e submissa em vez de segura e decidida, teria caído bem no século XVII mas não funcionava
tão bem nos dias de hoje.
Decidida a desvendar a história de Elizabeth, Kim entrou no metrô e foi até Harvard Square. Quinze minutos depois, encontrava-se mais uma vez no escritório de Maiy
Custland na Biblioteca Widener, esperando que esta acabasse de ler a carta de Jonathan.
— Essa sua casa é um verdadeiro tesouro—afirmou Mary, levantando a vista da carta. — Esta carta não tem preço. — Imediatamente chamou Katherine Sturburg ao seu escritório,
para que lesse a carta.
— Que delícia! — exclamou Katherine ao terminar a leitura. As duas mulheres disseram a Kim que a carta era de um período na história de Harvard do qual havia pouco
material. Perguntaram se poderiam copiá-la e Kim concordou.
— Então temos que encontrar referência a Rachel Bingham — disse Mary, sentando-se ao computador.
— Espero que sim — concordou Kim.
Mary digitou o nome enquanto Kim e Katherine observavam por cima de seu ombro. Kim descobriu que cruzara os dedos sem perceber.
Surgiram duas Rachel Bingham, ambas do século XIX, e
nenhuma podia ter associação com Elizabeth. Mary tentou alguns outros truques mas nada havia.
— Sinto muitíssimo — disse Mary. — Não se esqueça de que, mesmo se encontrássemos a referência, o incêndio de 1764 talvez fosse uma barreira intransponível.
— Entendo. Na verdade não esperava encontrar coisa alguma, mas, como disse em minha primeira visita, sinto-me obrigada a seguir qualquer pista que seja.
— Tenha certeza que examinarei minhas fontes com este novo nome — Katherine lhe assegurou.
«? Kim agradeceu a ambas e partiu. Pegou o metrô até North Station e esperou o trem de Salem. De pé na plataforma, jurou que nos próximos dias redobraria os esforços
na classificação da impossível papelada do castelo. Depois que voltasse a trabalhar teria muito pouco tempo para a tarefa.
De volta à propriedade, Kim pensou em ir direto ao castelo, mas ao passar as árvores viu um carro de polícia estacionado na frente do chalé.
Foi até lá.
Ao se aproximar, Kim viu Edward e Eleanor de pé, conversando com dois policiais no meio do campo, a uns 45 metros da casa. Eleanor abraçava Edward.
Kim estacionou ao lado da radiopatrulha e saiu do carro. Ou o grupo que se formara no campo não ouvira sua chegada ou então estavam tão absortos na conversa que
não a notaram.
Curiosa, foi naquela direção. Ao se aproximar, percebeu que todos olhavam para a grama.
Kim perdeu a fala ao ver o que lhes prendia a atenção. Era Buffer. O pobre cachorrinho estava morto. O que tornava a cena particularmente grotesca era que uma porção
da carne de seu traseiro fora arrancada, expondo assim seus ossos ensangüentados.
Kim olhou para Edward com pesar. Ele cumprimentou-a com serenidade, sugerindo que já se recobrara do choque inicial. Ela via a marca das lágrimas que haviam secado
em seu rosto. Por mais desagradável que o cachorrinho tivesse sido, sabia que Edward gostava dele.
— Talvez valesse a pena deixar que um legista examine os
ossos — dizia Edward. — Alguém poderia reconhecer as marcas dos dentes e nos dizer que espécie de animal poderia ter feito uma coisa destas.
— Não sei como o legista reagiria a um caso envolvendo um cachorro — afirmou um dos policiais. Seu nome era Billy Selvey.
— Mas você disse que ocorreram outros episódios do gênero nas últimas noites. Creio que seria útil saber que animal é este. Pessoalmente, acho que se trata de um
guaxinim ou de outro cachorro.
Kim ficou impressionada com a racionalidade de Edward frente a sua perda. Recobrara-se o bastante para conseguir ter uma discussão técnica a respeito de possíveis
marcas de dente nos ossos expostos.
— Quando viu seu cachorro pela última vez? — perguntou Billy.
— Ontem à noite. Ele dormia comigo, mas talvez o tenha deixado do lado de fora. Não me lembro. Ele às vezes ficava fora a noite toda. Nunca achei que fosse problema,
considerando-se o tamanho da propriedade; não teria incomodado ninguém.
— Dei comida para ele às onze e meia da noite de ontem. Depois deixei-o comendo na cozinha — informou Kim.
— Você o deixou sair? — perguntou Edward.
— Não, como disse, eu o deixei na cozinha.
— Bem, eu não o vi quando acordei esta manhã. Não pensei que significasse alguma coisa. Supus que apareceria mais tarde no laboratório.
— Vocês têm uma portinhola daquelas especiais para animais? — indagou Billy.
Kim e Edward responderam que não ao mesmo tempo.
— Ouviram alguma coisa estranha ontem à noite? — perguntou Billy.
— Eu estava apagado — respondeu Edward. — Tenho o sono muito pesado, especialmente nos últimos dias.
— Eu também nada ouvi — declarou Kim.
— Fala-se lá na delegacia destes incidentes terem sido causados por um animal raivoso — disse o outro policial,
chamado Harry Conners. — Vocês têm outros animais de estimação?
— Tenho uma gata — disse Kim.
— É melhor ficar de olho nela durante os próximos dias — aconselhou Billy.
Os policiais guardaram seus blocos e canetas, despediram-se e voltaram para o carro.
—— E a carcaça? — perguntou Edward. — Não vão levá-la para o legista?
Os policiais se entreolharam, um esperando que o outro respondesse. Finalmente Billy gritou que era melhor que não a levassem.
Edward acenou para eles de maneira simpática. Depois desabafou:
— Dou-lhes uma tremenda dica, e o que fazem? Vão embora!
— Bem, preciso voltar ao trabalho — disse Eleanor, falando pela primeira vez. Olhou para Kim. — Não se esqueça de que prometeu voltar logo para uma nova visita.
— Pode deixar—prometeu Kim. Achou incrível que fizesse alguma diferença para Eleanor, mas parecia estar sendo sincera.
Eleanor começou a caminhar na direção do laboratório. Edward continuava a olhar para Buffer. Kim desviou o olhar. Era uma visão tão terrível que lhe embrulhava o
estômago.
— Sinto muito quanto a Buffer—disse Kim, pondo a mão no ombro de Edward.
— Teve uma boa vida — replicou Edward alegremente. — Acho que vou desarticular as patas traseiras e enviá-las para os patologistas que conheço na faculdade de medicina.
Talvez possam nos dizer qual animal devemos procurar.
Kim engoliu em seco ao ouvir a idéia de Edward. A última coisa que esperara era que Edward mutilasse ainda mais o cachorrinho.
— Tenho um pano velho no meu carro. Vou pegá-lo para embrulhar a carcaça.
Sem saber o que fazer, Kim permaneceu ao lado dos restos
mortais de Buffer enquanto Edward foi apanhar a toalha. Estava chocada com o triste destino de Buffer, mesmo que Edward não parecesse estar. Quando ele terminou
de embrulhar Buffer, ela o acompanhou até o laboratório.
Ao se aproximarem do laboratório, uma possibilidade perturbadora lhe ocorreu. Parou Edward.
— Acabo de pensar em algo. E se a morte e a mutilação de Buffer estiverem relacionadas à bruxaria?
Edward fitou-a durante um breve instante e jogou a cabeça para trás, às gargalhadas. Levou alguns minutos para se recompor. Enquanto isto, Kim ria também, envergonhada
por ter sugerido tal coisa.
— Espere aí — protestou. — Já li em algum lugar que o sacrifício de animais e a magia negra caminham lado a lado.
— Acho esta sua imaginação melodramática muito divertida — disse Edward em meio a mais uma crise de riso. Quando finalmente se acalmou, desculpou-se por ter rido
dela. Ao mesmo tempo, agradeceu a ela por tê-lo feito rir.
— Me diga uma coisa, você realmente acha que o diabo voltaria a Salem trezentos anos depois, e que alguém encomendara uma bruxaria direcionada a mim e à Omni?
— Só fiz uma associação entre sacrifício animal e bruxaria. Não pensei muito a respeito. Nem quis sugerir que acredito nisto, só que alguém acredita.
Edward pôs Buffer no chão e abraçou Kim.
— Talvez esteja passando tempo demais no castelo, olhando aquela papelada velha. Quando as coisas na Omni estiverem sob controle, acho que devemos tirar umas férias.
Que tal um lugar quente, onde possamos pegar sol?
— Acho ótimo — concordou Kim, embora se perguntasse daqui a quanto tempo seria isso.
Kim não queria assistir a Edward dissecar Buffer, portanto esperou do lado de fora do laboratório. Ele voltou alguns minutos depois, carregando uma pá e a carcaça,
ainda embrulhada na toalha. Cavou uma cova rasa junto à entrada do laboratório. Quando acabou de enterrar Buffer, pediu a Kim
que aguardasse um instante, pois esquecera algo. Sumiu laboratório adentro.
Voltando, Edward mostrou a Kim um frasco de reagente químico. Com um gesto extravagante, colocou-o na cabeceira do túmulo de Buffer.
— O que é isso? — perguntou Kim.
— É um buffer, um amortecedor químico chamado TRIS. Um buffer para Buffer — disse Edward, rindo com a mesma vontade que rira quando Kim sugerira bruxaria.
— Estou impressionada que esteja lidando tão bem com este incidente lamentável.
— Tenho certeza de que está ligado à Ultra — declarou Edward, ainda rindo de seu trocadilho.—Quando soube do que acontecera, fiquei arrasado. Buffer era como um
parente. Mas o enorme pesar que sentia passou rapidamente. Quero dizer, ainda sinto muito por ele ter partido, mas não sinto aquele vazio imenso que se segue à dor.
Reconheço racionalmente que a morte é uma conseqüência natural da vida. Afinal de contas, Buffer realmente teve uma boa vida para um cachorro, e não era o cachorro
mais bem-disposto do mundo.
— Mas era um bichinho leal — disse Kim. Não ia lhe dizer o que realmente pensara do cachorro.
— Este é mais um motivo para você experimentar a Ultra. Posso lhe garantir que vai acalmá-la. Quem sabe possa até clarear sua mente o bastante para ajudá-la a encontrar
a verdade sobre Elizabeth?
— Acho que só conseguirei isto com muito trabalho — declarou Kim.
Edward deu-lhe um rápido beijo e agradeceu-lhe efusivamente o apoio moral. Kim girou e começou a caminhar em direção ao castelo. Percorrera apenas uma pequena distância
quando começou a se preocupar com Sheba. De repente, se lembrou de que deixara a gata sair na noite anterior, após ter dado de comer a Buffer, e que não a vira de
manhã.
Mudando de direção, Kim rumou para o chalé. Enquanto andava, apertava o passo pouco a pouco. A morte de Buffer servira para aumentar ainda mais sua ansiedade. Não
podia
nem imaginar o quão arrasada ficaria se Sheba sucumbisse a um destino tão cruel quanto o de Buffer.
Entrando na casa, chamou por Sheba. Subiu as escadas com pressa e entrou em seu quarto. Ficou aliviada ao ver a gata enrolada, mais parecendo uma bola de pêlo no
meio da cama. Kim correu até ela e a abraçou. Sheba lançou-lhe um de seus olhares de profundo desdém por ter sido importunada.
Após acariciar a gata durante alguns minutos, Kim foi até sua cômoda. Com dedos trêmulos, tirou o frasco de Ultra de onde o pusera na noite anterior. Mais uma vez
retirou uma cápsula azul e a examinou. Desejava tanto um alívio para seus anseios! Considerou a idéia de tomá-la durante 24 horas, só para ver como reagiria à droga.
A habilidade de Edward em lidar com a morte de Buffer era um testemunho impressionante. Kim chegou até mesmo a pegar um copo d'água.
Mas ela não tomou a cápsula. Em vez disso, começou a se perguntar se a reação de Edward não fora excessivamente controlada. Em suas leituras, assim como por sua
própria intuição, aprendera que uma certa dose de tristeza era por vezes necessária. Isto a fez pensar se o bloqueio de um processo natural de pesar teria um preço
futuro.
Com isto em mente, Kim pôs a cápsula de volta no frasco e arriscou uma nova visita ao laboratório. Tmendo que a equipe de Edward a envolvesse em mais uma série de
intermináveis demonstrações, Kim entrou no prédio, literalmente, de fininho.
Por sorte, apenas Edward e David encontravam-se no primeiro andar, em extremidades opostas do imenso salão. Kim conseguiu surpreender Edward sem que os outros notassem
sua presença. Quando Edward a viu e estava prestes a reagir à sua chegada, Kim pediu-lhe silêncio. Ela o pegou pela mão e o levou para fora do prédio.
Uma vez que a porta do laboratório se fechara, Edward sorriu e perguntou:
— O que foi que deu em você?
— Só quero conversar com você — explicou ela. — Pensei em algo que talvez devesse incluir no protocolo clínico da Ultra.
Kim explicou a Edward o que pensava a respeito da tristeza
e expandiu sua idéia central para incluir a ansiedade e a melancolia. Disse que a dor emocional em quantidades moderadas tinha um papel motivador no crescimento,
na mudança e na criatividade humanas. Concluiu dizendo:
— O que me preocupa é que tomar uma droga como a Ultra, que modula estes estados mentais, possa ter um custo oculto e um efeito colateral sério que não poderia ser
previsto.
Edward sorriu e balançou a cabeça lentamente. Estava impressionado.
— Agradeço sua preocupação. É uma idéia interessante a sua, mas não concordo. Sabe, ela foi baseada na premissa falsa de que a mente está, de forma mística, separada
do corpo material. Esta hipótese, muito antiga, foi desbancada por uma experiência recente que demonstra que o corpo e a mente são um só, até mesmo em relação aos
humores e às emoções. Já foi provado que as emoções são biologicamente determinadas pelo fato de serem afetadas por drogas como o Prozac, que altera os níveis dos
neurotransmissores. Isto revolucionou o que pensávamos a respeito do funcionamento do cérebro.
— Este tipo de raciocínio é desumano — reclamou Kim.
— Deixe-me dizer isto de outra forma. E a dor? Você concorda que drogas sejam tomadas para aliviá-la?
— A dor física é diferente — respondeu Kim, embora visse claramente a armadilha filosófica que Edward armara para ela.
— Não acho. A dor física também é biológica. Como tanto a dor física quanto a dor psicológica são biológicas, ambas devem ser tratadas da mesma forma, ou seja, com
drogas bem planejadas que atinjam apenas aquela parte do cérebro responsável pela dor.
Kim sentia-se frustrada. Queria perguntar a Edward o que seria do mundo se Mozart ou Beethoven tivessem tomado drogas antidepressivas ou ansiolíticas. Mas não disse
coisa alguma. Sabia que não adiantaria. O cientista que existia dentro de Edward o cegara.
Edward deu-lhe um abraço exuberante e reiterou o quanto
lhe agradava ver que ela se interessava por seu trabalho. Ele então alisou-lhe o alto da cabeça.
— Podemos conversar mais a respeito, se você quiser. Mas agora, é melhor voltar ao trabalho.
Kim desculpou-se por tê-lo incomodado e caminhou de volta ao chalé.
Capítulo 15.15 QUINTA-FEIRA, 29 DE SETEMBRO DE 1994.
Nos dias que se seguiram, Kim sentiu-se tentada a experimentar a Ultra em diversas ocasiões. A ansiedade que aumentava gradativamente começara a afetar seu sono.
Mas cada vez que estava prestes a tomar a droga, resistia.
Assim, Kim preferiu usar sua ansiedade como um motivador. Passava mais de dez horas por dia trabalhando no castelo e só parava quando já não conseguia mais enxergar
a caligrafia das páginas. Ansiava por encontrar algum material do século XVII, mesmo que não tivesse ligação alguma com Elizabeth, apenas para encorajá-la.
A presença dos bombeiros tornou-se uma agradável distração ao invés de um transtorno. Quando Kim parava de trabalhar, pelo menos tinha com quem conversar. Até mesmo
os assistia trabalhar, intrigada com o uso do maçarico na soldagem dos canos de cobre.
O único sinal de que os pesquisadores dormiam no castelo era um caminho de terra que começava nas entradas para as alas. Embora esperasse encontrar alguma sujeira,
achou que a quantidade em questão sugeria uma surpreendente falta de consideração.
Edward continuava bem-disposto, alegre e atencioso. Com
um gesto que remetia ao início do namoro, ele até mesmo mandara um imenso buquê na terça-feira com um bilhete dizendo: com amor e gratidão.
A única alteração em seu comportamento ocorreu na quinta-feira de manhã, quando Kim estava prestes a sair do chalé para o castelo. Edward entrou porta adentro bufando.
Estava claramente irritado e bateu com a caderneta de endereços na mesinha do telefone. Kim pôs-se imediatamente em alerta.
— Há algo errado? — ela perguntou.
— Claro que há algo errado. Preciso vir até aqui para usar o telefone. Quando tento falar com alguém lá do laboratório, aqueles imbecis param para ouvir minha conversa.
Isto me leva à loucura.
— Por que não usou o telefone da recepção? Não há ninguém lá.
— Dá para ouvir de lá também.
— Através das paredes?
— Preciso ligar para o maldito chefe do Departamento de Licenciamento de Harvard — reclamou Edward, ignorando o comentário de Kim. — O babaca está promovendo uma
vingança pessoal contra mim.—Edward abriu a caderneta para achar o número.
— Será que ele não está apenas fazendo o seu trabalho? — perguntou Kim, ciente de que era uma controvérsia antiga.
— Você acha que ele está apenas fazendo seu trabalho, conseguindo minha suspensão? — gritou Edward.—É incrível. Jamais teria imaginado que aquele burocratazinho
de merda teria a audácia de aprontar uma dessas!
O coração de Kim batia descompassado. O tom de Edward lhe lembrava o episódio ocorrido no apartamento dele, do copo sendo atirado contra a parede. Ficou com medo
de dizer mais alguma coisa.
— Bem — começou Edward num tom infinitamente mais calmo. Sorriu. — É a vida. Sempre cheia de altos e baixos. — Sentou-se e discou o número de telefone.
Kim relaxou um pouco, mas não tirava os olhos de Edward. Ouviu sua conversa civilizada com o homem que acabara de
insultar. Quando desligou, disse que o tal homem fora até bem razoável.
— Já que estou aqui, vou lá em cima pegar as roupas que você me pediu para separar para levar ao tintureiro.
Edward começou a subir as escadas.
— Mas você já as separou — disse Kim. — Deve tê-lo feito hoje pela manhã, pois eu as achei quando acordei.
Edward parou e piscou como se estivesse confuso.
— Foi mesmo? Mas que bom, então! Eu devo mesmo voltar ao laboratório.
— Edward — chamou Kim antes que saísse porta afora. — Você está bem? Tem esquecido tantas coisas miúdas ultimamente.
Edward riu.
— É verdade. Tenho andado meio esquecido. Mas nunca me senti tão bem. Estou apenas preocupado. Mas há uma luz no final do túnel e estamos prestes a ficar muito ricos.
E isto inclui você. Conversei com Stanton a respeito de lhe dar algumas ações e ele concordou. Portanto, você também terá um retorno.
— Estou envaidecida.
Kim foi até a janela e observou enquanto Edward voltava ao laboratório. Observou-o percorrer todo o caminho, analisando seu comportamento. De uma maneira geral,
estava mais afável em relação a ela, mas continuava imprevisível.
Num impulso, pegou as chaves do carro e foi até a cidade. Precisava da opinião profissional de alguém que respeitasse. Convenientemente, Kinnard ainda se encontrava
na região. Usando o telefone do balcão de informações do hospital de Salem, pediu para anunciarem Kinnard.
Meia hora depois, ele a encontrava num café. Como acabara de sair de uma cirurgia, ainda vestia seu jaleco cirúrgico. Kim tomava uma xícara de chá.
— Espero não estar incomodando — disse Kim assim que ele se sentou a sua frente.
— É bom ver você.
— Preciso fazer uma pergunta. O esquecimento pode ser efeito colateral de uma droga psicotrópica?
— Sem dúvida, mas devo acrescentar que várias coisas podem afetar a memória a curto prazo. É um sintoma não-específico. Devo supor que Edward vem apresentando este
problema?
— Posso contar com sua discrição?
— Já lhe disse que sim. Edward e sua equipe continuam tomando a tal droga.
Kim assentiu com a cabeça.
— São todos loucos. Estão dando chance ao azar. Notou algum outro efeito colateral?
Kim soltou uma risada breve.
— Você jamais acreditaria. Estão tendo reações muito acentuadas. Antes de tomar a droga, viviam discutindo e estavam sempre de mau humor. Agora estão todos ótimos.
Não poderiam estar mais felizes, mais satisfeitos. Agem como se estivessem se divertindo horrores, embora continuem a trabalhar no mesmo ritmo frenético.
— Este efeito colateral me parece bom.
— Por um lado é realmente bom. Mas depois de algum tempo em sua companhia, você começa a ter uma sensação esquisita de que todos se tornaram parecidos demais, apesar
de sua alegria e atividade.
— Isto começa a soar como o Admirável mundo novo — observou Kinnard com uma risada.
— Não ria, eu pensei a mesma coisa. Mas aí já estamos entrando na questão filosófica e esta não é minha preocupação principal. O que me preocupa é o esquecimento
que Edward vem apresentando com as pequenas coisas do dia-a-dia. Parece que está piorando. Não sei se os outros andam tendo o mesmo problema ou não.
— O que vai fazer? — perguntou Kinnard.
— Não sei. Esperava que você viesse a confirmar minhas dúvidas completamente, ou dissipá-las. Mas acho que não pode fazer nem uma coisa nem outra.
— Não com absoluta certeza — admitiu Kinnard. — Mas posso lhe dar algo em que pensar. As percepções são extremamente influenciadas por nossas expectativas. É por
isso que
estudos com controles duplos cegos foram instituídos na área da pesquisa médica. É possível que a expectativa de encontrar um efeito negativo na droga de Edward
esteja afetando o que vê. Sei que Edward é extraordinariamente inteligente e, a meu ver, não faria muito sentido estar correndo um risco pouco razoável.
— Talvez tenha razão. E verdade que, no momento, não sei muito bem o que estou vendo. Poderia até ser imaginação, mas não creio que seja.
Kinnard olhou para o relógio da parede e se desculpou por ter que ir visitar um paciente.
— Sinto ter que me despedir. Estarei aqui mais alguns dias, se quiser conversar. Ou então a verei na UTI cirúrgica em Boston.
Quando iam se separar, Kinnard deu um leve aperto na mão de Kim. Ela retribuiu o gesto e agradeceu a ele por tê-la ouvido.
Ao voltar à propriedade, Kim foi diretamente ao castelo. Conversou um pouco com os bombeiros, que lhe asseguraram que o trabalho ia bem e que terminariam, no máximo,
dentro de três dias. Sugeriram que talvez fosse bom verificar se a ala dos hóspedes teria o mesmo problema. Kim lhes deu autorização para fazer o que fosse preciso.
Antes de descer à adega, Kim inspecionou as entradas das duas alas. Assustou-se ao ver a entrada da ala dos criados. Não só havia terra nas escadas, como também
gravetos e folhas. Havia até mesmo uma embalagem de comida chinesa no canto, perto da porta.
Xingando baixinho, Kim foi até o armário de artigos de limpeza. Tirou um esfregão e um balde e limpou a escadaria. Havia terra até onde terminava o primeiro lance
de escadas.
Após limpar tudo, foi até a porta da frente, pegou o capacho que se encontrava ali e carregou-o até a entrada da ala dos criados. Pensou em prender um aviso na parede,
mas achou que o capacho já seria bastante sugestivo.
Finalmente desceu às profundezas da adega e deu início à tarefa. Embora não encontrasse documento algum que se aproximasse
do século XVII, sua concentração fez com que esquecesse as preocupações. Assim, começou a relaxar.
À uma hora da tarde, fez uma pausa. Voltou ao chalé e deixou que Sheba saísse de casa enquanto almoçava. Antes de voltar ao castelo, certificou-se que a gata estava
dentro de casa. De volta ao castelo, conversou um pouco com os bombeiros e observou a destreza com a qual Albert soldava os canos com o maçarico. Finalmente voltou
ao trabalho, desta vez no sótão.
Começava a desanimar quando encontrou uma pasta inteira do século XVII. Reanimada, carregou-a até uma das trapeiras.
Não ficou surpresa ao constatar que grande parte do material era comercial. Alguns dos documentos eram escritos na já conhecida caligrafia de Ronald. De repente,
respirou bem fundo. No meio de documentos alfandegários e notas de conhecimento, encontrou uma correspondência pessoal. Era uma carta endereçada a Ronald, escrita
por Thomas Goodman.
17 de agosto de 1692 Vilarejo de Salem.
- Senhor:
Muitas são as infâmias que assolam nossa abençoada cidade. É com imensa aflição que me vejo envolvido. Dói-me o coração que o senhor tenha pensado mal de mim e de
meu dever como membro de nossa congregação e que tenha se recusado a conversar comigo a respeito daquilo que interessa a ambos. É verdade que eu, de boa fé e em
nome de Deus, testemunhei contra sua esposa durante sua audiência e julgamento. A seu pedido visitei sua casa para oferecer auxílio, se assim fosse necessário. Naquele
dia fatídico, encontrei sua porta entreaberta apesar do frio que fazia e a mesa posta, com comida sobre ela, como se a refeição tivesse sido interrompida, e outros
objetos encontravam-se virados ou quebrados, com pingos de sangue pelo chão. Temi que um ataque indígena ameaçasse a segurança de sua família. Mas vi as crianças,
tanto seus filhos naturais como os adotivos, escondidas no segundo andar, amedon-tradas, dizendo que sua esposa tivera uma crise enquanto comia e que não estava
em seu juízo normal e que fugira até o celeiro. Tremendo, fui até lá e chamei seu nome em meio à escuridão. Ela
se aproximou de mim como uma mulher enlouquecida e muito me assustou. Havia sangue em suas mãos e na roupa e vi a sua obra. Com o espírito em turbulência eu a acalmei,
embora assim arriscasse a mim mesmo. Da mesma forma, aquietei seus animais, que se encontravam agitados, embora todos estivessem a salvo. Esta é a verdade, que conto
em nome de Deus.
Seu amigo e vizinho, Thomas Goodman.
— Pobre gente — murmurou Kim. Esta carta foi o mais perto que já chegara do verdadeiro horror que cada um sentira durante o julgamento das bruxas de Salem. Sentiu
empatia por todos os envolvidos. Sentia a confusão e o temor de Thomas, em ter de escolher entre a amizade e aquilo que acreditava ser a verdade. O coração de Kim
enchia-se de dor por Elizabeth, que enlouquecera com o mofo, a ponto de assustar seus próprios filhos. Era fácil entender como as mentes do séculoXVII teriam atribuído
um comportamento aterrorizante e inexplicável à bruxaria.
Em meio à empatia que sentia, Kim viu-se diante de uma nova e perturbadora possibilidade. Era a menção do sangue e sua ligação óbvia com violência. Não queria nem
imaginar o que Elizabeth poderia estar fazendo no celeiro com os animais, embora tivesse de admitir que talvez fosse um dado significativo.
Olhou mais uma vez a carta. Leu a frase na qual Thomas descrevia que os animais estavam a salvo, apesar de haver sangue no local. Isto era estranho, a não ser que
Elizabeth tivesse se machucado. A idéia de que tivesse se mutilado a fez estremecer. A possibilidade aumentava com a alusão de Thomas a gotas de sangue no chão da
casa. Mas o sangue que vira na casa era mencionado na mesma frase em que os objetos quebrados, sugerindo que alguém tivesse se machucado sem querer.
Kim suspirou. Sua mente estava confusa, mas algo se esclarecia. O efeito do fungo estava agora associado à violência e isto era algo que Edward e os outros precisavam
saber imediatamente.
Segurando a carta, Kim deixou o castelo às pressas e quase
correu até o laboratório. Estava ofegante quando entrou. Foi também surpreendida assim que entrou: chegara bem no meio de uma comemoração.
Todos a cumprimentaram com enorme alegria e puseram um banco para ela perto de onde haviam estourado o champanhe. Kim tentou recusar uma proveta cheia da bebida,
mas não permitiram. Mais uma vez, sentiu-se em meio a um bando de colegiais brincalhões.
Assim que pôde, aproximou-se de Edward para saber o que estava acontecendo.
— Eleanor, Gloria e François acabam de realizar uma incrível façanha de química analítica — explicou Edward. — Já determinaram a estrutura de uma das proteínas de
ligação da Ultra. Acabam de dar um salto adiante. Isto nos permitirá mudar a Ultra, se necessário, ou projetar outras possíveis drogas que se liguem ao mesmo ponto.
— Fico feliz por você. Mas quero lhe mostrar algo que precisa ver. — Entregou-lhe a carta.
Edward leu a carta rapidamente. Quando levantou a vista para Kim, piscou o olho.
— Meus parabéns, esta é a melhor de todas as cartas. — Virando-se para o grupo, disse: — Pessoal, escutem só essa: Kim acaba de descobrir a maior das provas de que
Elizabeth foi realmente envenenada pelo fungo. Vai caber ainda mais perfeitamente no artigo da Science.
Os pesquisadores se aproximaram. Edward lhes entregou a carta e os encorajou a lê-la.
— É perfeita — concordou Eleanor, passando-a a David.
— Menciona até que ela estivera comendo. É uma descrição muito exata da rapidez com a qual este alcalóide age. Ela provavelmente acabara de comer do pão.
— Ainda bem que eliminaram aquela cadeia alucinógena — observou David. — Eu não gostaria de acordar e me achar no meio de vacas.
Todos riram, menos Kim. Olhou para Edward e esperou que parasse de rir. Perguntou-lhe se a sugestão de violência na carta não o incomodava.
Edward pegou a carta mais uma vez e leu com cuidado.
— Sabe, é uma questão interessante—disse a Kim quando acabou a segunda leitura. — Pensando bem, acho que não devemos mencionar esta carta no artigo. Pode nos causar
problemas desnecessários. Alguns anos atrás, um rumor infeliz foi espalhado por vários programas de TV, dizendo que o Prozac relacionava-se a vários atos de violência.
Não quero que algo assim aconteça com a Ultra.
— Se algo no alcalóide, antes de ser alterado, causava atos de violência, devia fazer parte da mesma cadeia lateral que causava as alucinações—disse Gloria. — Podia
mencionar isso no artigo.
— Para que correr o risco? Não quero dar a algum jornalista louco detalhe algum que evoque a possibilidade do espectro da violência.
— Talvez a preocupação com a violência devesse ser incluída nos protocolos clínicos — sugeriu Kim. — Assim, se a questão surgisse algum dia, a informação já existiria.
— Sabe que é uma ótima idéia?! — exclamou Edward. Durante alguns minutos, o grupo discutiu a sugestão de Kim de forma favorável. Encorajada pelo fato de estarem
lhe dando atenção, Kim sugeriu ainda que incluíssem os pequenos lapsos de memória de curta duração. Para ilustrar o que dizia, citou os recentes episódios ocorridos
com Edward. Edward acompanhou a todos nas risadas.
— E daí que escovei os dentes duas vezes? — disse, causando ainda mais risos.
— Concordo que a inclusão de lapsos na memória de curta duração seja uma idéia tão boa quanto a de incluir a possibilidade de violência—disse Curt.—David tem andado
igualmente esquecido. Venho notando isto porque é meu vizinho no castelo.
— Olha só quem fala — devolveu David com uma risada. Contou então que na noite anterior Curt ligara para a namorada duas vezes porque esquecera que já havia ligado.
— Ela deve ter adorado — observou Gloria.
Curt deu um soquinho carinhoso no ombro de David
— O único motivo pelo qual notou o que fiz foi porque fez o mesmo com sua esposa na noite anterior.
Enquanto assistia ao divertido bate-boca entre Curt e Da-vid, Kim notou que havia cortes e arranhões nos dedos e nas mãos de Curt. Como boa enfermeira que era, sua
primeira reação foi de preocupação. Ofereceu-se para dar uma olhada.
— Obrigado, mas não está tão grave quanto parece—disse Curt.—Na verdade, não estão me incomodando nem um pouco.
— Caiu de moto? Curt riu.
— Espero que não—disse.—Na verdade, não tenho idéia de como aconteceu.
— É risco ocupacional — disse David mostrando as mãos, com ferimentos parecidos porém menos sérios. — Isto só prova que temos nos esfolado de tanto trabalhar.
— É a pressão de estarmos trabalhando dezenove horas por dia — observou François. — E incrível que estejamos funcionando tão bem.
— Me parece que estes lapsos de memória de curta duração devem realmente ser um efeito colateral da Ultra — concluiu Kim. — Todos vocês parecem estar tendo experiências
similares.
— Eu não — declarou Gloria.
— Nem eu — disse Eleanor. — Minha mente e minha memória vêm apresentando melhora acentuada desde que comecei a tomar a Ultra.
— Eu concordo — disse Gloria. — Acho que François tem razão, temos trabalhado demais.
— Espere aí, Gloria — interrompeu Eleanor. — Você tem mesmo andado esquecida. Há duas manhãs, deixou seu roupão no banheiro e, dois minutos depois, deu um ataque
porque ele não estava pendurado atrás da porta do seu quarto.
— Não dei ataque—contestou Gloria de maneira bem-humorada. — Além do mais, é diferente. Venho perdendo meu roupão bem antes de tomar a Ultra.
— Não importa — declarou Edward. — Kim tem razão, os lapsos de memória de curta duração podem estar relacionados
à Ultra, e sendo assim devem ser incluídos nos protocolos clínicos. Mas não é algo tão importante assim. Mesmo se ficar provado que acontece de vez em quando, será,
sem dúvida, um risco aceitável se levarmos em consideração a melhora do funcionamento da mente como um todo.
— Concordo, equivale a Einstein esquecer as pequenas coisas do dia-a-dia enquanto formulava a Teoria da Relatividade — comparou Gloria. — A mente escolhe o que deve
manter em seu processador e quantas vezes escovou os dentes passa a não ter importância.
Como o laboratório recebesse poucos visitantes, o barulho da porta externa se abrindo chamou a atenção de todos, que se viraram para olhar a porta da recepção que
se abriu. Stanton entrou.
Os pesquisadores deram gritos simultâneos, gritos de alegria ao vê-lo. Confuso, Stanton parou onde estava.
— O que está acontecendo aqui?—perguntou.—Tiraram o dia de folga?
Eleanor correu até ele com uma proveta cheia de champanhe.
— Um pequeno brinde — sugeriu Edward, erguendo sua bebida. —Vamos beber à sua natureza irrequieta, que nos levou a tomar a Ultra. Vimos sendo beneficiados todos
os dias.
Em meio a risos, todos, inclusive Stanton, beberam.
— Tem sido uma época feliz — continuou Edward. — Temos tirado amostras de sangue uns dos outros e colhido urina para testarmos.
— Todos menos o François — disse Gloria, caçoando do francês. — Está sempre esquecendo.
— É verdade, tivemos algum problema em cumprir esta parte — admitiu Edward. — Mas foi prontamente resolvido quando prendemos os tampos dos vasos com fita adesiva
e colamos um cartaz dizendo SEGURE no banheiro.
Mais uma vez todos riram. Gloria e David tiveram que pôr seus drinques na mesa para não derramá-los.
— São mesmo um grupo alegre — comentou Stanton.
— Temos razões para ser assim — disse Edward. Deu então as boas novas sobre a descoberta da estrutura protéica de
ligação. Atribuiu parte dos louros à capacidade da Ultra em aumentar a acuidade mental de todos.
— É realmente uma notícia maravilhosa! — exclamou Stanton. Fez questão de apertar as mãos de Gloria, Eleanor e François. Em seguida, disse a Edward que precisavam
conversar.
Usando a chegada de Stanton como desculpa para ir embora, Kim deixou o laboratório. Sentia-se satisfeita com sua ida ao laboratório; tinha a sensação de ter realizado
algo de bom em sugerir que a violência e a perda de memória de curta duração fossem incluídas nas avaliações químicas da Ultra.
Kim voltou ao castelo. A primeira coisa que queria fazer era juntar a carta de Thomas Goodman aos outros documentos relacionados a Elizabeth do porta-bíblia. Ao
se aproximar da mansão, viu que o carro da polícia surgia por entre as árvores. O motorista a viu, pois pegou a estrada que levava ao castelo, indo ao seu encontro.
Kim parou e esperou. O carro parou e os mesmos guardas que haviam atendido ao chamado a respeito de Buffer saíram do carro.
Billy tocou a beira do chapéu num discreto cumprimento, enquanto trocava amenidades com Kim.
— Espero não estar lhe incomodando — disse.
— Há algo errado? — perguntou Kim.
— Queríamos saber se tiveram mais problemas depois da morte do cachorro — disse Billy. — Tem havido uma onda de vandalismo nas imediações, como se o Dia das Bruxas
tivesse chegado com um mês de antecedência.
— O Dia das Bruxas é um grande acontecimento aqui em Salem—explicou Harry. — É uma época do ano que os policiais desta cidade aprenderam a odiar.
— Que tipo de vandalismo? — indagou Kim.
— As mesmas besteiras de sempre — relatou Billy. — Latas de lixo viradas, lixo espalhado. Além disso, mais animais sumiram e algumas de suas carcaças apareceram
do outro lado da estrada, no cemitério de Greenlawn.
— Continuamos preocupados com a possibilidade de haver
um animal raivoso solto na vizinhança — disse Harry. — É melhor manter sua gata dentro de casa, especialmente considerando-se o tamanho de sua propriedade e os bosques
que a circundam.
— Achamos que a garotada local se juntou à farra—disse Billy. — Eles vêm copiando o que o animal tem feito. É muita coisa para um só animal. Quero dizer, quantas
latas de lixo conseguiria um guaxinim derrubar em uma noite? — Billy riu.
— Agradeço-lhes a gentileza de vir até aqui me avisar — disse Kim. Não tivemos problema algum após a morte do cachorro, mas definitivamente manterei minha gata em
casa.
— Se tiver qualquer problema, nos avise, por favor—disse Harry. — Gostaríamos de descobrir do que se trata antes que a situação fuja ao controle.
Kim observou o carro fazer a volta e deixar a propriedade. Estava prestes a entrar no castelo quando ouviu Stanton chamá-la. Virou-se e viu que vinha do laboratório.
— O que é que um carro de polícia fazia aqui?—perguntou ao se aproximar.
Kim contou-lhe que estavam preocupados com o aparecimento de um animal raivoso nas redondezas.
— É sempre uma coisa ou outra — disse Stanton. — Escute, quero conversar a respeito de Edward. Tem um minuto?
— É claro—respondeu Kim, se perguntando o que estaria por vir. — Onde gostaria de conversar?
— Aqui está ótimo. Por onde devo começar? — Encarou o vazio durante alguns instantes e olhou Kim nos olhos. — Estou um pouco desnorteado com o comportamento de Edward,
assim como com o dos outros. Todas as vezes que entro naquele laboratório sinto-me excluído. Há umas duas semanas, aquilo ali até parecia um necrotério.
De repente paira esta alegria -sinistra. Parece até uma colônia de férias, só que estão trabalhando com tanto ou mais empenho do que antes. Ficou até difícil entender
suas piadas, já que são todos brilhantes e espirituosos. Na verdade, tenho me sentido idiota quando estou por perto. — Stanton riu sem vontade antes de continuar.

Edward se tornou tão sociável e tão mandão que tem me lembrado de mim mesmo!
Kim tapou a boca com a mão, rindo da autocrítica de Stanton através dos dedos.
— Não tem graça nenhuma — Stanton reclamou, embora ele mesmo estivesse rindo. — A próxima coisa que Edward vai fazer é virar especulador também. Tfem ido longe demais
com o lado comercial da coisa e infelizmente não enxergamos as coisas da mesma forma. Chegamos a um impasse sobre como angariar mais capital para o projeto. Nosso
bom doutor tornou-se ganancioso e não quer sacrificar ações. Da noite para o dia deixou de ser um acadêmico ascético convicto para se transformar num capitalista
insaciável.
— Por que está me dizendo tudo isso? Não tenho nada a ver com a Omni e nem quero vir a ter.
— Esperava que pudesse conversar com Edward. Não posso, em sã consciência, concordar em pegarmos dinheiro emprestado com fontes duvidosas através de bancos estrangeiros,
e sinto muitíssimo ter mencionado tal hipótese. Há muito risco envolvido, e não estou nem falando de risco financeiro. Estou falando de risco de vida mesmo. Não
vale a pena. Quer dizer, o lado financeiro desta empreitada deveria ser deixado a meu critério e o lado científico a critério de Edward.
— Tem achado o Edward esquecido? — questionou Kim.
— De modo algum! Anda em ponto de bala. O problema é que é um tanto ingênuo no que diz respeito ao mundo financeiro.
— Pois, na minha opinião, tem andado esquecido. São coisinhas do dia-a-dia. E a maioria dos pesquisadores admitiu estar um tanto fora do ar.
— Não tenho notado esquecimento por parte de Edward, mas pareceu-me um pouco paranóico. Há alguns minutos, tivemos que conversar do lado de fora para não sermos
ouvidos.
— Ouvidos por quem? Stanton deu de ombros.
— Pelos outros pesquisadores, achou. Ele não falou e não perguntei.
— Hoje de manhã veio até o chalé para dar um telefonema.
Não queria usar o telefone da recepção por achar que alguém estaria escutando sua conversa através das paredes.
— Isso então é mais paranóico ainda. Mas em sua defesa devo admitir que incuti nele a importância do segredo nesta fase do projeto.
— Stanton, estou ficando preocupada.
— Não diga isso — reclamou Stanton. — Vim procurar você para aliviar minha ansiedade, não aumentá-la.
— Preocupa-me que o esquecimento e a paranóia sejam efeitos colaterais da Ultra.
— Não quero ouvir isso — disse Stanton, cobrindo os ouvidos com as mãos.
— Não deveriam estar tomando essa droga e você sabe disso. Acho que deveria fazer com que parassem.
— Eu? Acabei de dizer que sou responsável pelas finanças. Não me meto no lado científico da coisa, especialmente depois que me disseram que o fato de estarem tomando
a droga apressará seu processo de avaliação. Além do mais, esta paranóia moderada e o esquecimento devem ser causados pelo excesso de trabalho. Edward sabe o que
faz. Meu Deus, ele é o melhor em seu campo.
— Vamos fazer um acordo? Você tenta fazer com que Edward pare de tomar a droga e eu tento convencê-lo a deixar as finanças a seu critério.
Stanton fez uma careta como se tivesse sido esfaqueado nas costas.
— Isso é ridículo, Tenho que negociar com minha própria prima.
— Me parece muito razoável. Um estará ajudando o outro.
— Não posso prometer coisa alguma.
— Nem eu.
— Quando vai falar com ele? — perguntou Stanton.
— Hoje à noite. E você?
— Suponho que pudesse ir até lá e falar com ele de uma vez.
— Então, negócio fechado?
— Acho que sim — disse Stanton relutante. Estendeu a mão e Kim a apertou.
Kim observou Stanton voltar ao laboratório. Em comparação à sua maneira normal de caminhar, um tanto saltitante, ele parecia se arrastar. Tinha os braços pendurados
junto ao corpo como se carregasse pesos imensos em ambas as mãos. Kim não pôde deixar de sentir pena dele, pois sabia o quão aflito devia estar. O problema era o
fato de ter investido todo o seu dinheiro na Omni, violando sua regra número um em termos de investimento.
Após subir até o sótão, dirigiu-se a uma das trapeiras que davam para o laboratório. Viu quando Stanton entrou no prédio. Kim não tinha grandes esperanças de que
Stanton conseguisse que Edward parasse de tomar a Ultra, mas pelo menos sabia que havia tentado.
Naquela noite Kim fez questão de ficar acordada até que Edward chegasse, por volta de uma hora da madrugada. Lia quando ouviu a porta da frente se fechar, seguida
dos passos de Edward nas escadas.
— Meu Deus — disse ele metendo a cabeça no quarto de Kim. — Deve ser um livro e tanto para mantê-la acordada até essa hora.
— Não estou com sono. Entre.
— Estou exausto — disse Edward. Entrou no quarto e fez festa em Sheba enquanto bocejava. — Estou louco para ir para a cama. Este cansaço me pega à meia-noite, todos
os dias. E é incrível como durmo rápido tão logo o cansaço chega, Tenho que tomar cuidado se sentar. Se deitar então, esqueça.
— Já notei. Domingo à noite você nem ao menos desligou o abajur.
— Suponho que devesse estar irritado com você — começou Edward. Estava sorrindo.—Mas não estou. Sei que só quer o melhor para mim.
— Vai me dizer do que está falando?
— Até parece que não sabe — caçoou Edward. — Estou falando desta súbita preocupação de Stanton para com meu
bem-estar. Sabia que você estava por trás disso na hora em que ele abriu a boca. Tanta solidariedade não é coisa dele.
— Ele lhe falou a respeito de nosso trato? — perguntou Kim.
— Que trato? — devolveu Edward.
— Ele concordou em lhe pedir para parar de tomar a Ultra se eu lhe convencesse a deixar as finanças da Omni por sua conta.
— Et tu Brute — disse Edward de brincadeira. — A que ponto chegamos. As duas pessoas mais próximas de mim andam confabulando nas minhas costas.
— Como você mesmo disse, queremos o melhor para você.
— Considero-me capaz de decidir o que é melhor para mim — declarou Edward amavelmente.
— Mas você mudou. Stanton mencionou que você mudou tanto que está parecido com ele.
Edward riu muito.
— Essa é ótima. Sempre quis ser tão sociável quanto Stanton. Que pena que meu pai já faleceu. Finalmente ficaria satisfeito comigo.
— Não acho que seja piada.
— Não estou fazendo piada. Gosto de ser uma pessoa segura, ao invés de tímido, acanhado.
— Mas é perigoso tomar uma droga que não foi testada. Além do mais, você não questiona se é ético adquirir traços de caráter de uma droga e não de sua própria experiência
de vida? Acho uma coisa falsa, me cheira a trapaça.
Edward sentou-se na beirada da cama de Kim.
— Se eu por acaso dormir, chame um guindaste para me rebocar até a cama — disse Edward, rindo. Deu então um enorme bocejo que tentou conter com a mão. — Escute,
minha querida, a Ultra não é uma droga não testada; só não teve seus testes concluídos. Mas ela é atóxica e é isso que importa. Vou continuar a tomá-la, a não ser
que ocorra algum efeito colateral sério, coisa de que duvido muito. Em relação a sua segunda pergunta, para mim está claro que traços de caráter que eu considero
indesejáveis, no meu caso a timidez, podem se tornar
cada vez mais marcantes através da experiência. O Prozac, até certo ponto, e a Ultra, em uma escala bem maior, libertaram meu verdadeiro eu, a personalidade que
fora submersa por uma série de circunstâncias infelizes que me tornaram a pessoa desajeitada socialmente que eu era. A personalidade que tenho agora não foi inventada
pela Ultra e não é um embuste. Minha nova personalidade pode surgir apesar de uma nuvem de reações neuronais facilitadas que eu chamaria de "rede Bum".
Edward riu enquanto dava um tapinha tranqüilizador na perna de Kim, por cima das cobertas.
— Posso lhe garantir que nunca me senti tão bem em toda a minha vida. Confie em mim. Minha única dúvida é em relação ao tempo em que terei de tomar a Ultra para
que este novo eu tenha se solidificado o bastante para que, ao parar de tomá-la, não volte a ser tímido e desajeitado como antigamente.
— Você faz tudo soar tão razoável.
— Mas é mesmo. É assim que eu quero ser. Talvez eu tivesse sido assim se meu pai não fosse tão chato.
— Mas e o esquecimento, e a paranóia?
— Que paranóia? — perguntou Edward.
Kim lembrou-lhe de haver vindo até a casa naquela manhã para usar o telefone e de ter querido sair do laboratório para conversar com Stanton.
— Não foi paranóia — disse Edward, indignado. — Aqueles sujeitos lá do laboratório estão se tornando os maiores fofoqueiros que já conheci. Estou apenas tentando
proteger minha privacidade.
— Tanto Stanton quanto eu concordamos que parecia paranóia.
— Posso lhe garantir que não foi — afirmou Edward. Sorriu. A pontada de irritação que sentira ao ser acusado de paranóico já passara. —Assumo o esquecimento mas
não isto.
— Por que não pára de tomar a droga e recomeça quando começarem os testes clínicos?
— Você é difícil de convencer e infelizmente estou sem forças. Não consigo nem manter os olhos abertos. Sinto muito. Continuaremos amanhã, se você quiser, já que
se trata
de um desmembramento de uma antiga discussão. Agora preciso dormir.
Edward deu um beijo no rosto de Kim e cambaleou para fora de seu quarto. Ela o ouviu andar pelo quarto durante alguns minutos. Em seguida, ouviu a respiração profunda
de alguém que já dormia pesadamente.
Impressionada com a rapidez da transformação, Kim levantou-se da cama. Após vestir o robe, atravessou o corredor e foi até o quarto de Edward. Havia um rastro de
roupas espalhados pelo quarto e Edward encontrava-se espalhado em cima da cama, usando apenas as cuecas. Como ocorrera no domingo, deixara o abajur ligado.
Kim andou até o abajur e o desligou. De pé, ao lado de Edward, ficou impressionada com o quão alto ele roncava. Perguntou-se como jamais acordara quando dormiam
juntos.
Voltou a seu próprio quarto. Apagou a luz e tentou dormir. Não conseguiu. Não conseguia desligar a cabeça e ouvia os roncos de Edward como se estivesse em seu próprio
quarto.
Depois de meia hora, Kim saiu da cama e foi até o banheiro. Encontrou o frasco antigo de Xanax que estivera guardando há anos e tomou um dos pequenos comprimidos
cor-de-rosa, com o formato de um pequeno barco. Não lhe agradava a idéia de tomar uma droga, mas sentiu necessidade de tomá-la; não conseguiria dormir se não a tomasse.
Saindo do banheiro, fechou as portas de ambos os quartos. Da cama, ainda ouvia os roncos de Edward, mas pelo menos estavam abafados. Em quinze minutos sentiu uma
serenidade muito bem-vinda envolvê-la. Alguns minutos depois, dormia um sono igualmente profundo.
capítulo 16. SEXTA-FEIRA, 30 DE SETEMBRO DE 1994.
As três da madrugada havia muito pouco movimento nas ruas de Salem e Dave Halpern sentia-se o dono do mundo. Vagara sem rumo em seu Chevy Camaro vermelho, modelo
1989, desde a meia-noite. Já estivera em Marblehead duas vezes e até mesmo em Danvers e perto de Beverly.
Dave tinha dezessete anos e cursava o terceiro ano da escola secundária de Salem. Comprara o carro graças a um emprego que conseguira no McDonald's local, onde trabalhava
depois da escola, e um empréstimo considerável concedido por seus pais. Atualmente, o Camaro era o amor de sua vida. Delirava com a sensação de liberdade e o poder
que o carro lhe dava. Gostava também da impressão que ele causava junto aos amigos, em particular junto a Christina McElroy. Christina cursava o segundo ano e tinha
um corpo belíssimo.
Dave olhou o relógio do painel, na penumbra do carro. Era quase hora do encontro. Entrou em Dearborn Street, onde morava Christina. Dave apagou os faróis e desligou
o motor. Foi freando aos poucos até parar silenciosamente sob um frondoso bordo.
Não teve de esperar muito. Christina apareceu por entre a cerca que acompanhava a lateral da casa revestida de madeira.
Correu até o carro e pulou para dentro. Abrancura de seus olhos e de seus dentes brilhou à meia-luz. Tremia, tal seu grau de excitamento.
Deslizou no banco de vinil de forma que sua coxa, apertada em uma calça jeans, roçasse contra a de Dave.
Tentando aparentar despreocupação, como se marcasse encontros no meio da madrugada todos os dias, Dave nada disse. Simplesmente esticou o braço e deu partida em
sua máquina. Mas sua mão tremeu e chacoalhou as chaves. Temendo ter se traído, olhou Christina de relance. Pegou-a sorrindo e ficou preocupado que ela não o achasse
calmo o bastante.
Quando chegaram à esquina, ele ligou os faróis. No mesmo instante, o cenário noturno se iluminou, mostrando folhas ao vento e sombras profundas.
— Teve algum problema? — perguntou Dave, mantendo a atenção na estrada.
— Foi mole. Não sei por que estava com tanto medo de escapulir de casa. Meus pais estão inconscientes. Quero dizer, poderia ter saído de casa pela porta da frente,
em vez de pular a janela.
Passaram úma rua cheia de casas às escuras.
— Aonde vamos? — perguntou Christina, indiferente.
— Vai ver. Estamos chegando.
Passavam agora o extenso e escuro cemitério de Greenlawn. Christina pressionou o corpo contra o de Dave e olhou o mar de lápides por cima de seu ombro.
Dave desacelerou e Christina se empertigou no banco.
— Nós não vamos entrar aí! — exclamou desafiadora. Dave sorriu na escuridão expondo a brancura dos próprios dentes.
— E por que não? — perguntou Enquanto as palavras deixavam seus lábios, virou o volante para a esquerda e o carro saltou pela porteira e entrou no cemitério. Dave
apagou os faróis rapidamente e diminuiu a velocidade até estarem quase parados. Era difícil ver a estrada por baixo das folhas caídas.
— Meu Deus! — disse Christina olhando de um lado para o outro enquanto arregalava os olhos, tentando vasculhar as
imediações em ambos os lados do carro. O vulto das lápides dava um toque funesto à noite. Algumas refletiam repentinos feixes de luz em sua superfície polida.
Instintivamente, Christina pressionou o corpo ainda mais contra o de Dave enquanto uma de suas mãos agarrava a parte interna de sua coxa. Dave sorriu com imensa
satisfação.
Pararam ao lado de um lago de águas paradas, margeado por salgueiros curvados. Dave desligou o motor e trancou as portas.
— Seguro morreu de velho — disse.
— Talvez devêssemos abrir a janela, só uma fresta — sugeriu Christina. — Se não, isso aqui vai ficar um forno.
Dave aceitou a sugestão, mas disse que esperava não haver mosquitos.
Os dois adolescentes se olharam num momento de embaraçosa hesitação. Dave então inclinou o corpo na direção de Christina e a beijou com ternura. O contato acendeu
o fogo de sua paixão e agarraram-se com loucura libidinosa. Apalpavam os segredos físicos um do outro com pouca delicadeza enquanto as janelas embaçavam.
Apesar do poder de seus hormônios adolescentes, tanto Dave quanto Christina sentiram um movimento no carro que não era seu. Simultaneamente, ergueram a vista e olharam
através do pára-brisa enevoado. Ficaram imediatamente apavorados com o que viram. Um espectro pálido se atirava através do ar noturno em sua direção. Qualquer que
fosse a criatura sobrenatural, colidiu com o pára-brisa num impacto dissonante, caindo em seguida por cima do lado do passageiro.
— Que diabos? — gritou Dave enquanto lutava com as próprias calças, já baixas até o meio das coxas.
Christina gritava enquanto lutava para enxotar uma mão imunda que penetrara o interior do carro pela sua janela e arrancara um tufo de seus cabelos.
— Puta merda! — gritou Dave enquanto desistia das calças para lutar com a mão que agora surgia pelo seu lado. Unhas enterraram-se na pele de seu pescoço e rasgaram
um
pedaço de sua camiseta, fazendo com que o sangue escorresse por suas costas.
Em pânico, Dave deu partida no carro. Jogando a ré, o carro deu um salto para trás no terreno rochoso. Christina gritou mais uma vez ao bater a cabeça no teto do
carro. O Camaro então bateu numa lápide que, arrancada, caiu no chão com uma pancada surda.
Dave pôs o carro em primeira e pisou no acelerador. Lutava com o volante enquanto o poderoso motor lançava o carro para a frente. Christina bateu na porta e foi
jogada de volta no colo de Dave. Ele a afastou apressado, bem a tempo de não colidir com um outro monumento em mármore.
Dave acendeu os faróis enquanto derrapava nas curvas fechadas que serpenteavam pelo cemitério. Christina recobrara-se o bastante para começar a chorar.
— Quem eram eles? — gritou Dave.
— Eram dois — balbuciou Christina por entre lágrimas. Chegaram até a estrada e Dave virou na direção da cidade, deixando a marca dos pneus na rua. O pranto de Christina
se transformara num choramingo com um ocasional soluço. Virando o retrovisor em sua direção, inspecionou o estrago sofrido em seu cabelo.
— Meu corte de cabelo está arruinado — chorava. Dave reajustou o espelho e olhou para ter certeza de que ninguém os seguia. Esfregou o pescoço com a mão e olhou
o sangue com incredulidade.
— O que estavam vestindo? — perguntou Dave com raiva.
— E que diferença faz isso? — gritou Christina.
— Estavam usando roupas brancas, ou algo do gênero. Pareciam dois fantasmas.,.
— Não devíamos ter ido até lá — disse Christina em prantos. — Eu sabia disto desde o começo.
— Dá um tempo, vai. Não sabia coisa alguma.
— Sabia sim, você é que não perguntou.
— Mentira.
— Sejam lá quem forem, devem estar doentes.
— Deve ter razão. Talvez tenham fugido do Hospital Estadual
de Danvers. Mas como é que chegaram de lá até o cemitério de Greenlawn?
Christina pôs a mão sobre a boca e resmungou:
— Acho que vou vomitar.
Dave freou o carro e dirigiu-se ao acostamento. Christina abriu a porta e vomitou na estrada. Dave rezou baixinho para que nada caísse no carro.
Christina sentou-se mais uma vez. Encostou a cabeça no encosto e fechou os olhos.
— Quero ir para casa — disse, infeliz.
— Chegaremos em um segundo—replicou Dave, afastando-se do meio-fio. Sentia o cheiro azedo de vômito e temeu por seu belo carro.
— Não podemos contar isso a ninguém — disse Christina. — Se meus pais descobrirem, vou passar seis meses de castigo.
— Está certo.
— Você promete?
— Claro que sim. Sem problemas.
Dave desligou o farol quando entrou na rua de Christina. Parou a várias portas de sua casa. Torceu para que ela não esperasse que ele a beijasse e ficou aliviado
quando ela saltou do carro.
— Você prometeu — disse ela.
— Não se preocupe.
Olhou-a cruzar os gramados correndo e sumir por entre a mesma cerca de onde surgira.
Debaixo de um poste de luz, Dave saiu do carro para inspecioná-lo. Na parte traseira havia uma marca onde o pára-choque batera na lápide, mas não era nada sério.
Deu a volta até o lado do carona, abriu a porta e cheirou com cuidado. Ficou aliviado ao constatar que não sentia cheiro de vômito. Fechando a porta, deu a volta
pela frente do carro. Foi então que notou que perdera o limpador de pára-brisa do lado do carona.
Rangeu os dentes e xingou baixinho. Que noite, e não conseguira coisa alguma. Entrando mais uma vez em seu carro, perguntou-se se deveria acordar George, seu melhor
amigo. Era tão esquisito que parecia até filme antigo de terror. De certa
forma, Dave ficou satisfeito pelo limpador ter quebrado. Se não tivesse ocorrido, George provavelmente não acreditaria na história.
Tendo tomado o Xanax por volta de uma e meia da madrugada, Kim acordou mais tarde que o normal. Quando se levantou, sentiu-se levemente drogada. Não gostava da sensação,
mas estava convencida de que era um preço baixo a ser pago por uma boa noite de sono.
Kim passou a primeira parte do dia preparando seu uniforme para a segunda-feira, quando voltaria ao trabalho. Ficava incrédula com o quão animada a perspectiva a
deixava. E não era apenas devido à sua ansiedade crescente com o laboratório e o que se passava em seu interior. Durante as últimas duas semanas tornara-se cada
vez mais enfadada com a vida isolada e solitária que tinha em Salem, especialmente uma vez terminada a decoração do chalé.
O maior problema em ambos os casos era Edward, apesar de seu humor ter melhorado com a Ultra. Morar com ele não era nada do que esperara. Mas, pensando bem, não
sabia ao certo o que realmente esperara, já que o convidara para morar com ela num ímpeto. Mas ela certamente esperara vê-lo com maior freqüência e compartilhar
mais com ele do que compartilhara. E ela certamente jamais esperara ter de se preocupar com ele por estar consumindo uma droga experimental. Em suma, vivia uma situação
ridícula.
Com o uniforme pronto, caminhou até o castelo. A primeira coisa que fez foi ver Albert. Esperara que o trabalho fosse concluído naquele dia, mas Albert lhe disse
que seria impossível, com todo o trabalho adicional na ala de hóspedes. Disse a ela que precisariam de, no máximo, mais dois dias. Perguntou se podiam deixar as
ferramentas no castelo durante o fim de semana. Kim afirmou que poderiam deixar o que quisessem.
Kim desceu as escadas da ala dos criados e verificou a entrada. Para seu imenso dissabor encontrava-se, mais uma vez, imunda. Olhando para fora viu que o capacho
encontrava-se intocado. Parecia ter sido ignorado de propósito.
De esfregão em punho, Kim admoestou-se por não haver mencionado o problema com os pesquisadores no dia anterior, quando estivera no laboratório.
Atravessando o pátio, verificou a entrada da ala de hóspedes. Havia menos terra do que na ala dos criados, mas estava mais suja do que antes. Como as escadas da
ala de hóspedes fosse acarpetada, Kim precisou transportar um aspirador de pó da ala dos criados. Ao terminar, prometeu-se que, desta vez, conversaria com os pesquisadores.
Após guardar o material de limpeza, Kim pensou em ir até o laboratório. No entanto, decidiu não ir. Era irônico. No começo do mês, não quisera ir ao laboratório
por não se sentir bem-vinda. Agora, relutava em ir porque achava a atenção de todos para com ela excessiva.
Finalmente subiu até o sótão e começou a trabalhar. Encontrar a carta de Thomas Goodman no dia anterior acendera mais uma vez seu entusiasmo. As horas passavam rapidamente
e quando deu por si já era hora do almoço.
No caminho de volta ao chalé, Kim olhou para o laboratório mais uma vez, considerou ir até lá, mas decidiu não ir. Concluiu que esperaria um pouco, ao invés de ir
lá especialmente para isso. Sabia que estava protelando o assunto, mas não havia nada que pudesse fazer. Pensou até mesmo em conversar com Edward a respeito da sujeira
e em pedir-lhe para falar com os pesquisadores.
Após o almoço voltou ao sótão, onde permaneceu a tarde inteira. A única coisa que encontrou do período no qual estava interessada foi um boletim de Jonathan Stewart.
Descobriu assim que Jonathan fora um aluno regular. Segundo uma das avaliações mais floreadas, Jonathan era mais apto para nadar em Fresh Pond ou patinar no rio
Charles, dependendo da estação, do que para a lógica, a retórica ou a ética.
Naquela noite, enquanto Kim se deliciava com um peixe grelhado acompanhado de salada verde, viu o serviço de entrega de uma pizzaria entrar na propriedade e se dirigir
ao laboratório. Achava incrível que Edward e sua equipe conseguissem sobreviver comendo junkfood. Diversos restaurantes entregavam
pizza, galinha frita ou comida chinesa duas vezes por dia. No começo do mês, Kim se oferecera para preparar o jantar de Edward todas as noites, mas ele recusara
a oferta, pois achava que deveria comer com os outros.
De certa forma, Kim ficava bem impressionada com a dedicação de todo o grupo, mas por outro lado achava-os fanáticos, e até mesmo meio doidos.
Lá pelas onze da noite, levou Sheba para passear. Permaneceu na varanda enquanto a gatinha caminhava na grama. Vigiando a gata, Kim olhou o laboratório e viu as
janelas iluminadas. Perguntou-se por quanto tempo conseguiriam manter estes horários insanos.
Quando achou que Sheba já havia passeado o bastante, carregou-a de volta para casa. A gata não ficou nada satisfeita, mas depois do que os policiais lhe haviam contado,
ela certamente não deixaria o bichinho andar pela propriedade livremente.
Kim preparou-se para dormir. Passou uma hora lendo, mas, tal como na noite anterior, não conseguia desligar a cabeça. Na verdade, ficar deitada na cama só aumentava
sua ansiedade. Saiu da cama, foi até o banheiro e tomou outro Xanax. Não gostava de tomá-lo, mas concluiu que, até voltar a trabalhar, precisava de todo o repouso
que ele proporcionava.
Capítulo 17. SÁBADO, primeiro DE OUTUBRO DE 1994.
Kim forçou-se a emergir das profundezas do leve estupor causado pelo Xanax. Mais uma vez ficou surpresa ao constatar o quanto dormira. Eram quase nove horas.
Tomou banho, se vestiu e em seguida levou Sheba para passear. Sentindo-se culpada por não deixar que a gata vagueasse pela propriedade, como era seu costume, Kim
foi paciente com ela, deixando-a ir aonde quisesse. Sheba escolheu dar uma volta em torno da casa. Kim a seguiu.
Ao chegar aos fundos da casa, parou de repente, pôs as mãos nos quadris e, irritada, soltou um palavrão. Descobriu que havia sido alvo dos vândalos, ou então do
animal ao qual os policiais se referiam. Ambas as lixeiras haviam sido viradas e esvaziadas. Havia lixo espalhado por todo o quintal.
Ignorando Sheba durante alguns instantes, Kim pôs as duas lixeiras, de material plástico, de pé. Ao fazê-lo, descobriu que ambas haviam sido rasgadas perto da borda,
como se tivessem arrancado suas tampas à força.
— Que droga! — exclamou enquanto carregava as lixeiras de volta ao seu lugar normal, ao lado da casa. Examinando-as com mais cuidado, constatou que teriam de ser
substituídas, pois suas tampas não fechavam mais.
Kim agarrou Sheba quando a gata estava prestes a se enfiar no bosque e levou-a de volta para casa. Lembrando que os policiais haviam lhe pedido que ligasse se tivesse
qualquer problema, Kim ligou para a delegacia. Para sua surpresa, insistiram em enviar alguém até o local.
Calçando um par de luvas de jardinagem, Kim voltou ao quintal e passou meia hora catando o lixo espalhado. Resolveu colocá-lo provisoriamente de volta nos recipientes
avariados. Terminava de fazê-lo quando a polícia chegou.
Desta vez veio um único policial que Kim achou deveria ter sua idade. Seu nome era Tbm Malick. Era um sujeito sério e pediu para ver a cena do crime. Kim achou que
estava dando mais importância ao incidente do que era necessário. Mesmo assim, levou-o até os fundos da casa para ver as lixeiras. Explicou que acabara de catar
tudo.
— Teria sido melhor deixar tudo como encontrou até a nossa chegada — disse Tbm.
— Sinto muito — disse Kim. Não podia imaginar que diferença teria feito.
— Sua situação é muito semelhante a outras que temos observado na região — relatou Tbm. Abaixou-se ao lado dos recipientes e os examinou com cuidado. Em seguida,
olhou as tampas.
Kim o assistia com uma leve irritação. Ele se levantou.
— Isto aqui é obra do animal, ou dos animais — afirmou.
— Não foram as crianças, pois creio que há marcas de dentes nas bordas das tampas. Quer ver?
— Suponho que sim. Tbm levantou uma das tampas e indicou uma série de ranhuras paralelas.
— Acho que deveria comprar lixeiras mais seguras. —Planejo mesmo substituí-las. Verei o que há disponível.
— Talvez tenha que ir até Burlington para comprar uma. Estão em falta na cidade.
— Parece que isto está se tornando um problema de fato — comentou Kim.
— Tem toda a razão. A cidade está um alvoroço só. Não assistiu ao noticiário local na TV, esta manhã!
— Não, não assisti.
— Até a noite de ontem as únicas mortes registradas haviam sido de gatos e cachorros. Esta manhã encontramos nossa primeira vítima humana.
— Que horror! — exclamou Kim, assustada. — Quem era a vítima?
— Era um mendigo já bastante conhecido na cidade. Seu nome era John Mullins. Foi encontrado não muito longe daqui, perto de Kernwood Bridge. O mais horrível de tudo
é que foi parcialmente devorado.
A boca de Kim ficou seca enquanto sua mente involuntariamente recriou a grotesca imagem de Buffer sobre a grama.
— O nível de álcool no sangue de John estava altíssimo, portanto é possível que já estivesse morto quando o animal o encontrou. Saberemos mais assim que recebermos
o laudo do legista. O corpo foi para Boston na esperança de conseguirmos alguma pista sobre o animal com o qual estamos lidando pelas marcas dos dentes nos ossos.
— Que história horrorosa—disse Kim, arrepiada. — Não tinha idéia de que se tornara tão séria.
— No começo achamos que podia ser um guaxinim. Mas depois de uma vítima humana, e de tantos atos de vandalismo, achamos que deve ser um animal maior, um urso talvez.
Como houve um aumento significativo na população de ursos no estado de New Hampshire, não é uma hipótese a ser descartada. Mas, seja lá o que for, a indústria da
bruxaria está adorando. É claro que andam falando que é coisa do diabo e outras besteiras, tentando fazer com que as pessoas acreditem que estamos vivendo 1692 de
novo. O problema é que estão conseguindo, são espertos. Mas nós também somos.
Avisou a Kim para ter cuidado, pois um urso poderia, certamente, se esconder nos bosques que rodeavam a propriedade. Em seguida, partiu.
Antes de fazer a viagem até Burlington, Kim telefonou para a loja de ferragens de Salem. Ao contrário do que Tbm dissera,
lhe asseguraram que tinham uma variada seleção de latas de lixo disponíveis, pois haviam recebido um carregamento no dia anterior.
Ffeliz por ter uma missão que a levaria até a cidade, Kim partiu depois de comer alguma coisa. Foi direto à loja de ferragens. O balconista lhe disse que fora sábia
em vir direto à loja pois, desde que ligara, já haviam vendido grande parte do estoque de latas de lixo recém-chegado.
— Esse animal é incansável — disse Kim.
— É verdade — concordou o balconista. — Estão começando a ter o mesmo tipo de problema em Beverly. Todos se perguntam que tipo de animal seria. Já fizeram até apostas,
se estiver interessada. Mas para nós tem sido excelente. Não só vendemos um monte de latas de lixo como também munição e rifles.
Enquanto Kim aguardava ao lado do caixa para pagar suas compras, ouvia os outros fregueses conversando sobre o mesmo assunto. A excitação que pairava no ar era quase
palpável.
Ao deixar a loja, Kim teve uma sensação perturbadora. Imaginou que a tal criatura poderia causar uma onda de histeria agora que havia uma vítima humana e que pessoas
inocentes poderiam ser feridas. Arrepiou-se só de pensar em pessoas armadas, escondidas por trás de suas cortinas, espreitando alguém ou alguma coisa mexendo em
seu lixo. Como parecia haver crianças envolvidas, poderia se transformar em tragédia.
De volta à casa, Kim transferiu o lixo das lixeiras avariadas para as novas, com um engenhoso mecanismo de compressão. Pôs as latas antigas atrás do barracão, como
coletor de folhas. Enquanto trabalhava, ansiava por estar na cidade, lembrando com nostalgia a vida urbana como algo simples. Tivera que se preocupar com ladrões,
mas não com ursos.
Após cuidar do problema do lixo, Kim atravessou o campo e foi até o laboratório. Não estava muito contente com a perspectiva de ir até lá, mas depois da história
da lixeira revirada e do corpo que fora encontrado nas proximidades da propriedade, sentiu que não tinha muita escolha.
Antes de entrar, checou os recipientes onde o lixo do laboratório
era armazenado. Eram duas pesadas caixas de aço, em tamanho industrial, que eram erguidas pelo caminhão de lixo. As tampas eram pesadas. Kim mal conseguia levantá-las.
Olhando em seu interior, pôde ver que o lixo do laboratório não fora mexido.
Hesitou em entrar ao chegar à porta da frente. Tentou formular alguma desculpa, caso fosse interceptada pelos simpáticos pesquisadores. Só conseguia pensar no almoço
como desculpa, Armou-se também de coragem para mencionar o assunto da sujeira no castelo.
Passou pela recepção e entrou no laboratório. Mais uma vez foi surpreendida. Em sua última visita houvera uma comemoração, desta vez havia uma reunião de última
hora que devia ser importante. O ambiente alegre e festivo com o qual já aprendera a contar desaparecera. Em seu lugar havia uma solenidade quase fúnebre.
— Sinto muito se estou interrompendo alguma coisa — disse Kim.
— Não tem importância — afirmou Edward. — Queria algo em especial?
Kim contou-lhe sobre o lixo e sobre a visita da polícia. Em seguida, indagou se alguém vira ou ouvira algo de extraordinário durante a noite.
Todos se entreolharam, esperançosos. Ninguém respondeu de imediato, depois todos balançaram a cabeça.
— Meu sono é tão pesado que não ouviria nem um terremoto — disse Curt.
— Dormindo, você parece um terremoto—brincou David. — Mas tem razão, também tenho o sono pesado.
Kim olhou os rostos dos pesquisadores. O clima lúgubre que detectara ao entrar já parecia se dissipar. Contou que a polícia acreditava que o culpado fosse um urso
raivoso, mas que as crianças de Salem já estavam se divertindo à custa da situação. Descreveu também o excitamento, beirando a histeria, que tomara conta da cidade.
— Só mesmo em Salem que algo assim tomaria proporções
tão imensas — disse Edward, rindo. — Esta cidade nunca vai se recuperar de 1692.
— Um pouco dessa inquietação é compreensível — relatou Kim. — O problema começa a tomar novas dimensões. Um homem foi encontrado morto esta manhã, não muito longe
daqui. Seu corpo foi comido.
Gloria ficou lívida.
— Que coisa grotesca! — exclamou.
— Já descobriram como o tal homem morreu? — perguntou Edward.
— Não exatamente — disse Kim. — Mandaram o corpo para Boston para ser examinado. Não sabem ainda se o homem já estava morto quando foi atacado pelo animal.
— Neste caso o animal estaria agindo como um animal carniceiro — comentou Edward.
— É verdade — concordou Kim —, mas achei que deveria preveni-los mesmo assim. Sei que andam por aí tarde da noite. Talvez devessem dirigir até o castelo, por menor
que seja a distância, até que o problema seja resolvido. Neste meio tempo, fiquem de olhos abertos para o caso de se depararem com um animal raivoso ou com adolescentes.
— Obrigado por nos avisar — disse Edward.
— Mais uma coisa — disse Kim, forçando-se a mudar de assunto. — Temos tido um pequeno problema no castelo. Há rastos de terra nas entradas para as alas. Gostaria
de lhes pedir para limpar seus pés antes de entrarem.
— Sentimos muito — desculpou-se François. — Está escuro quando chegamos e escuro quando saímos. Teremos mais cuidado.
— Tenho certeza de que terão. Bem, é só. Sinto tê-los incomodado.
— Sem problema — disse Edward. Ele a acompanhou até a porta. — Tenha cuidado você também. E tome conta de Sheba.
Edward voltou ao grupo após despedir-se de Kim. Olhou cada um dos rostos. Todos estampavam preocupação.
— Um corpo humano põe tudo numa perspectiva diferente — disse Gloria.
— Concordo — disse Eleanor.
Houve silêncio durante alguns minutos enquanto todos pensavam na situação. David finalmente disse:
— Sinto que temos de assumir o fato de talvez sermos responsáveis por alguns dos problemas da região.
— Ainda acho a idéia absurda — disse Edward. — Não faz sentido.
— Como explica minha camiseta? — perguntou Curt. Puxou-a da gaveta na qual a enfiara quando Kim apareceu de repente. Estava rasgada e manchada. — Fiz um exame de
uma destas manchas. É sangue.
— Mas o sangue era seu — afirmou Edward.
— É verdade, mas, mesmo assim, como foi que aconteceu? Quero dizer, eu não me lembro.
— É também difícil explicar os cortes e as contusões que encontramos em nossos corpos quando acordamos — disse François. — Havia até mesmo gravetos e folhas secas
espalhados no chão de meu quarto.
— Devemos estar tendo ataques de sonambulismo, ou coisa parecida — afirmou David. — Sei que não queremos admitir isto.
— Mas eu não virei sonâmbulo — contestou Edward. Encarou a todos com olhos penetrantes. — Não sei se não seria mais uma de suas brincadeiras, considerando-se todas
as coisas que andam aprontando por aqui.
— Isso não é brincadeira — disse Curt enquanto dobrava a camiseta rasgada.
— Não observamos nada nas cobaias que pudesse justificar o tipo de reação que estão sugerindo — relatou Edward de forma agressiva. — Cientificamente falando, não
faz sentido. Haveria algum corolário. É para isso que usamos cobaias.
— Concordo — disse Eleanor. — Não encontrei coisa alguma em meu quarto, nem tenho acordado cortada ou contundida.
— Não estou tendo alucinações — disse David. — Estes
cortes são de verdade. — Estendeu as mãos de forma que todos pudessem vê-los. — Como disse Curt, isso não é brincadeira.
— Não tive cortes, mas já acordei com as mãos sujas de terra — disse Gloria. — E não tenho mais unhas. Todas quebraram.
— Há algo errado apesar de não ter sido evidenciado nos animais — insistiu David. — Sei que ninguém aqui quer sugerir o óbvio, mas eu vou! Só pode ser a Ultra.
Edward trincou os dentes e fechou as mãos.
— Levei alguns dias para admitir o fato para mim mesmo — continuou David. — Mas está claro que tenho saído durante a noite sem lembrança alguma de tê-lo feito. Nem
tampouco sei o que tenho feito, exceto que acordo imundo. Posso lhes garantir que jamais fiz coisa parecida na vida.
— Você está querendo dizer que os problemas nas redondezas não têm sido causados por um animal? — indagou Gloria timidamente.
— Ah, por favor! Não deixemos nossa imaginação ir longe assim — reclamou Edward.
— Não estou sugerindo coisa alguma além do fato de que tenho saído e que não sei o que tenho feito — disse David.
Uma onda de temor espalhou-se pelo grupo ao começarem a encarar a realidade da situação. Ficou imediatamente claro que o grupo se dividira em dois. Edward e Eleanor
temiam pelo futuro do projeto e o resto temia pelo seu próprio bem-estar.
— Temos que pensar racionalmente — disse Edward.
— Sem dúvida — concordou David.
— A droga tem sido tão perfeita — afirmou Edward. — Não obtivemos nada além de reações positivas. Temos motivos para crer que seja uma substância natural, ou algo
existente em nossos cérebros. Os macacos não têm mostrado tendência alguma ao sonambulismo. E eu, pessoalmente, gosto de como me sinto tomando a Ultra.
Todos concordaram na mesma hora.
— Na verdade, acredito que seja graças à Ultra que consigamos pensar racionalmente numa circunstância como esta — disse Edward.
— Deve ter razão — concordou Gloria. — Há alguns minutos eu estava transtornada de preocupação e nojo. Já me sinto mais tranqüila.
— E o quero dizer — afirmou Edward. — Esta droga é fantástica.
— Mas ainda temos um problema — disse David. — Se o sonambulismo do qual falamos realmente estiver ocorrendo, e se for causado pela droga, o que creio eu ser a única
explicação, tem que ser um efeito colateral inesperado. Tem que estar fazendo algo único em nossos cérebros.
— Deixe-me pegar as tomografias por emissão de positrônios — disse François de repente. Foi até sua mesa entulhada, mas voltou rapidamente. Começou a espalhar scans
de um macaco que havia recebido Ultra com um marcador radioativo.
— Gostaria de lhes mostrar algo que notei hoje pela manhã — começou. — Ainda não tive muito tempo para pensar a respeito e teria notado se o computador não tivesse
acusado quando as imagens ainda se encontravam em forma digital. Se olharem com cuidado, a concentração da Ultra no metencéfalo, no mesencéfalo e no sistema límbico
vai se acumulando pouco a pouco a partir da primeira dose. Daí por diante, quando atinge um certo nível, a concentração aumenta marcadamente, o que quer dizer que
jamais chega a um ponto estável.
Todos curvaram-se para olhar as fotografias.
— Talvez o nível no qual a concentração aumenta marcadamente seja o ponto no qual o sistema enzimático que o metaboliza torna-se sobrecarregado — disse Gloria.
Todos olharam para Edward.
— Parece razoável — concordou ele. Caminhou até sua mesa e removeu uma pequena caixa trancada. Dentro havia um cartão com o código correspondendo às dosagens.
O grupo logo descobriu que Curt tomava a dose mais alta, seguido de David com a segunda dose mais alta. Na outra extremidade da escala, Eleanor tomava a dose mais
baixa, seguida de Edward.
Após uma longa e racional discussão, elaboraram uma teoria para o ocorrido. Acharam que quando a concentração de
Ultra atingia um certo nível, ela bloqueava, de forma progressiva, a variação normal dos níveis de serotonina atingidos durante o sono, decifrando-os e alterando
os ciclos do sono.
Foi Gloria quem sugeriu que quando a concentração subia ainda mais, talvez a ponto da curva mais alta ocorrer, a Ultra bloqueasse as radiações do cérebro inferior,
ou reptiliário, para os centros superiores dos hemisférios cerebrais. O sono, assim como outras funções autônomas, era regulado pelas regiões do cérebro inferior
onde a Ultra se acumulava.
O grupo permaneceu em silêncio enquanto todos ponderavam a hipótese. Apesar de haverem se recuperado emocional-mente, todos achavam a idéia perturbadora.
— Se fosse realmente o caso — disse David —, o que aconteceria se acordássemos justamente no momento em que o bloqueio ocorresse?
— Seria como se passássemos por uma retroevolução — explicou Curt. — Estaríamos funcionando apenas com nossos centros do cérebro inferior. Agiríamos como répteis
carnívoros!
O choque de tal afirmação silenciou a todos com suas conotações horrendas.
— Calma, calma — disse Edward tentando confortar-se, e ao resto também.—Estamos chegando a conclusões precipitadas sem base em fatos reais. Tudo isso é suposição.
Temos que lembrar que não observamos problema algum com os macacos, que todos nós concordamos, têm hemisférios cerebrais, embora menor que dos humanos. Pelo menos
que a maioria dos humanos.
Todos, com exceção de Gloria, sorriram da brincadeira de Edward.
— Mesmo que haja algum problema com a Ultra — Edward os lembrou —, temos que considerar o lado positivo da droga e como afetou nossas emoções, nossa capacidade mental,
a acuidade de nossos sentidos e até mesmo nossa memória de longo termo. Talvez estejamos tomando doses excessivamente elevadas e devêssemos diminui-las. Talvez devêssemos
descer ao nível de Eleanor, já que até aqui ela só experimentou os efeitos psicológicos positivos.
— Não vou diminuir coisa alguma — disse Gloria em tom
de desafio. — Vou parar de vez a partir deste instante. Fico horrorizada só em pensar na possibilidade de haver uma criatura primitiva à espreita, dentro do meu
corpo, sem que eu ao menos perceba, escapando à noite para se alimentar.
— Muito colorida a descrição — observou Edward. — Fique à vontade se quiser parar de tomar a droga. Isto é óbvio. Ninguém vai forçar ninguém a fazer o que não quer
fazer. Cada um pode decidir se vai continuar a tomar a droga ou não e aí vai uma sugestão: como uma medida extra de segurança, acho que devemos cortar a dose de
Eleanor à metade e usá-la como dose limite, diminuindo as doses subseqüentes, de cem miligramas em cem miligramas.
— Isto me soa razoável e seguro — afirmou David.
— A mim também — concordou Curt.
— Idem — disse François.
— Ótimo — disse Edward. — Tenho a mais absoluta certeza de que se o problema existir conforme o teorizamos, deve estar relacionado à dosagem. Assim, deve haver um
nível no qual as chances do problema ocorrer sejam um risco aceitável.
— Não vou tomá-la — afirmou Gloria mais uma vez.
— Tudo bem — assegurou-lhe Edward.
— Não vai ficar irritado comigo? — indagou Gloria.
— Nem um pouco — respondeu Edward.
— Então serei o controle — disse Gloria. — Além disso, poderei vigiar os outros durante a noite.
— Excelente idéia — concordou Edward.
— Tenho uma sugestão — disse François. — Talvez devêssemos tomar a Ultra com um marcador radioativo para que eu possa medir o acúmulo e mapear as concentrações em
nossos cérebros. A dose perfeita da Ultra talvez seja aquela que simplesmente mantém um nível específico de Ultra sem aumentá-la continuamente.
— Concordo com sua idéia — disse Curt.
— Mais uma coisa — afirmou Edward. — Tenho certeza de que não preciso lembrar-lhes disto, mas o teor desta reunião deve ser mantido em segredo, até mesmo de suas
famílias.
— Isto é óbvio — disse David. — A última coisa que qualquer um de nós quer é comprometer o futuro da Ultra. Talvez com um certo sofrimento, mas ainda assim será
a droga do século.
Kim tivera a intenção de passar uma parte da manhã no castelo, mas quando voltou ao chalé viu que já era hora de almoçar. Enquanto comia, o telefone tocou. Para
sua surpresa, era Katherine Sturburg, arquivista de Harvard cujo interesse particular era Increase Mather.
— Talvez eu tenha boas novas para você — disse Katherine. — Acabo de encontrar referência a uma obra de autoria de Rachel Bingham!
— Isto é fantástico! Já havia desistido de Harvard.
— Nós fazemos o possível.
— Como foi que encontrou? — perguntou Kim.
— Esta é a melhor parte. O que fiz foi reler a carta de Increase Mather que você nos deixou copiar. Como ele se refere a uma faculdade de Direito, acessei o banco
de dados da Faculdade de Direito e o nome apareceu. Como não aparece também no banco de dados geral, eu não saberia lhe dizer. Mas a boa notícia é que a obra parece
ter sobrevivido ao incêndio de 1764.
— Mas pensei que tudo houvesse queimado.
— Quase tudo. Felizmente para nós, uns duzentos livros da biblioteca de cinco mil volumes sobreviveram por estarem emprestados. Portanto, alguém deveria estar lendo
o livro que você procura. De qualquer forma, a referência que encontrei indica que foi transferido para a da Faculdade de Direito vindo da biblioteca central de
Harvard Hall em 1818, um ano após a fundação da Faculdade de Direito.
— Você encontrou o livro em si? — indagou Kim, animada.
— Não, ainda não tive tempo. Além do mais, acho que seria melhor que você mesma continuasse a busca. Recomendo que ligue para Helen Arnold. Ela é arquivista da Faculdade
de Direito. Ligarei para ela assim que chegar, segunda-feira pela manhã, avisando-lhe que você ligará ou fará uma visita.
— Irei segunda logo depois do trabalho — disse Kim, ansiosa. — Saio às três.
— Tenho certeza de que não terá problema. Conversarei com Helen.
Kim agradeceu a Katherine antes de desligar.
Estava nas nuvens. Já perdera as esperanças quanto ao livro de Elizabeth ter sobrevivido ao incêndio. Foi então que Kim se perguntou por que Katherine tinha tanta
certeza de que fosse um livro. Constaria da referência?
Kim voltou ao telefone e tentou ligar de volta para Katherine. Infelizmente não conseguiu encontrá-la. A secretária lhe disse que Katherine saíra apressada para
um almoço de negócios e que só voltaria na segunda-feira.
Kim desligou o telefone. Ficou desapontada, mas não por muito tempo. A idéia de poder finalmente conhecer a natureza da prova na segunda-feira à tarde era motivo
de imensa satisfação. Se fosse um livro ou não, não fazia a menor importância.
Apesar da boa notícia, Kim voltou ao castelo. Na realidade, atacou a papelada com entusiasmo renovado.
No meio da tarde, parou para calcular quanto tempo levaria para terminar a classificação do resto do material. Após contar os baús e caixas que restavam e calculando
haver o mesmo número na adega, concluiu que levaria mais uma semana, trabalhando oito horas por dia.
A realidade do fato roubou um pouco do entusiasmo de Kim. Agora que estava prestes a voltar ao trabalho no hospital, não ia ter tanto tempo assim. Estava prestes
a desistir pelo resto da tarde quando se surpreendeu realizando uma façanha parecida com a de Kinnard. Abrindo uma gaveta qualquer, sacou uma carta endereçada a
Ronald!
Sentada num baú próximo a uma janela, Kim tirou a carta do envelope. Era mais uma carta de Samuel Sewall. Olhando a data, Kim viu que havia sido enviada alguns dias
antes da execução de Elizabeth.
15 de julho de 1692 Boston
Senhor,
Acabo de chegar de um agradável jantar era companhia do reverendo Cotton Mather em que discutimos a triste condição de sua esposa e estamos muito aflitos por você
e por seus filhos. O reverendo Mather foi de uma benevolência tal que concordou em acolher sua esposa em seu próprio lar para curá-la, como fez com enorme sucesso
com a atormentada menina Goodwin se Elizabethconfessar e se retratar publicamente pelo pacto que fez com o Príncipe das Mentiras. O reverendo Mather está convencido
de que Elizabeth poderá fornecer provas e argumentos, como testemunha ocular, cruciais para erradicar o saduceísmo desta era conturbada. Fora isso, o reverendo não
poderá e não irá intervir na execução da sentença do tribunal. Saiba que não há tempo a perder. O reverendo Mather está ansioso e crê que sua esposa possa nos ensinar
muito sobre assuntos do mundo invisível que ameaçam nosso país. Que Deus abençoe seu empenho e eu me subscrevo,
Seu amigo, Samuel Sewall
Olhando pela janela, Kim encarou a distância durante alguns instantes. O dia começara com um céu azul e sem nuvens, mas agora nuvens negras começavam a chegar do
oeste. De onde estava podia ver o chalé, aninhado em seus vidoeiros, cujas folhas já haviam se transformado num amarelo brilhante. A combinação da velha casa com
a carta transportou Kim trezentos anos atrás e ela pôde sentir o mais absoluto pânico causado pela realidade pendente da execução de Elizabeth. Embora a carta que
acabara de ler tivesse sido escrita a Ronald e não por Ronald, teve a impressão de que fora escrita em resposta a uma carta que ele escrevera no desespero de salvar
a vida de sua esposa.
Os olhos de Kim encheram-se de lágrimas. Era difícil para ela imaginar a agonia pela qual Ronald passara, Sentiu-se
culpada por haver suspeitado de Ronald quando começara a desvendar a história de Elizabeth.
Por fim, Kim se levantou. Pondo a carta de volta no envelope, levou-a até a adega e juntou-a ao resto do material no porta-bíblia. Deixou então o castelo e tomou
o caminho do chalé.
Chegando na metade do caminho, Kim afrouxou o passo. Olhando na direção do laboratório, parou. Olhou o relógio. Não dera ainda quatro horas. De uma só vez ocorreu-lhe
que seria um gesto simpático de sua parte tentar melhorar um pouco a alimentação dos pesquisadores. Tinham-lhe parecido deprimidos quando fora ao laboratório pela
manhã. Sem contar que já deviam estar cansados de comer pizza. Kim imaginou que poderia repetir o jantar de filé de peixe que preparara há menos de duas semanas.
Com isto em mente, Kim mudou de direção e dirigiu-se ao laboratório. Ao passar pela recepção, sentiu uma leve apreensão, pois nunca sabia o que esperar. Entrando
no laboratório, deixou que a porta se fechasse. Ninguém correu ao seu encontro.
Foi até a área de trabalho de Edward. Passou por David, que a cumprimentou de maneira amável, mas sem a exuberância de alguns dias atrás. Kim falou com Gloria e
esta, como David, voltou as atenções imediatamente ao trabalho.
Kim continuou a caminhar, pondo-se cada vez mais em estado de alerta. Embora o comportamento de David e de Gloria fosse o mais normal que Kim presenciara desde sua
chegada, representava mais uma mudança.
Edward estava tão absorto em seu trabalho, que Kim precisou bater em seu ombro duas vezes para chamar sua atenção. Notou que ele preparava novas cápsulas de Ultra.
— Há algum problema?—ele indagou. Sorriu e agiu como se estivesse razoavelmente contente em vê-la.
— Queria fazer um convite a todos vocês. Que tal repetirmos o jantar de duas semanas atrás? Teria imenso prazer em dar um pulo na cidade para comprar comida.
— É muito gentil de sua parte, mas não esta noite. Não podemos dispor do tempo. Pediremos uma pizza.
— Prometo que não levaria muito tempo.
— Eu já disse que não! — sibilou Edward por entre os dentes, fazendo com que Kim desse um passo atrás. Mas ele imediatamente recobrou a compostura e sorriu mais
uma vez. — Pizza está ótimo.
— Se prefere assim—disse Kim num misto de apreensão e confusão. Parecera que Edward estivera nos limites do autocontrole durante alguns segundos. —Você está bem?
— balbuciou.
— Estou! — ele vociferou e rapidamente sorriu. — Estamos um pouquinho preocupados. Sofremos um pequeno revés, mas já está tudo sob controle.
Kim deu mais alguns passos atrás.
— Bem, se mudar de idéia durante a próxima hora, ainda poderei ir até a cidade. Estarei no chalé, é só ligar.
— Estamos realmente muito ocupados. Coma você, mas obrigado pela oferta. Direi a todos que você se lembrou deles.
Na saída, nenhum dos pesquisadores falou ou olhou para Kim. Quando chegou do lado de fora, suspirou e balançou a cabeça. Era incrível como o ambiente do laboratório
mudava. Perguntava-se como estas pessoas conseguiam conviver com elas próprias. Kim chegava à conclusão de que tinha muito pouco em comum com a personalidade científica.
Quando terminou seu jantar, ainda havia luz o bastante para que Kim voltasse ao castelo. Mas ela não conseguia voltar até lá. Preferiu vegetar na frente da televisão.
Esperava que, assistindo a um monte de seriados insossos, esqueceria a experiência ocorrida no laboratório. No entanto, quanto mais pensava no seu relacionamento
com Edward e com os outros, mais perturbada ficava.
Kim tentava ler, mas não conseguia se concentrar. Pensou que deveria ter ido atrás da pista da Faculdade de Direito naquela mesma tarde. Sentindo-se cada vez mais
apreensiva à medida que a noite se arrastava, Kim pensou em Kinnard. Imaginou onde estaria e o que estaria fazendo. Perguntou-se então se ele às vezes pensava nela.
Kim acordou sobressaltada apesar de haver tomado um Xanax para acalmar sua mente conturbada. Seu quarto estava um breu
e uma rápida olhada para o relógio disse-lhe que dormira pouco tempo. Pondo a cabeça de volta no travesseiro, prestou atenção para os sons da noite, tentando identificar
o que a teria acordado de forma tão repentina.
Foi então que ouviu várias pancadas surdas vindas dos fundos da casa. Parecia com suas novas lixeiras de plástico vulcanizado se chocando contra o revestimento de
madeira da casa. Kim ficou tesa só de pensar num urso negro ou num guaxinim raivoso abocanhando o lixo que continha pele e ossos de galinha.
Depois de acender o abajur, Kim saiu da cama. Vestiu o robe e calçou os chinelos. Fez um carinho em Sheba e ficou feliz em vir mantendo a gata dentro de casa.
Ouvindo a pancada mais uma vez, Kim atravessou o corredor e entrou no quarto de Edward. Acendendo a luz, constatou que a cama de Edward estava vazia. Pensando que
ele estaria no laboratório e preocupada com a possibilidade dele voltar para casa a pé, voltou a seu quarto e discou o número do laboratório. Desistiu depois de
dez toques.
Pegou a lanterna que guardava na mesinha-de-cabeceira e desceu as escadas. Sua intenção era iluminar o local das lixeiras através da janela da cozinha, esperando
assim espantar o animal que se encontrava lá fora.
Ao dobrar a curva da escada, encontrando-se de frente para o hall, ficou paralisada. Viu algo que fez seu sangue gelar nas veias: a porta da frente estava escancarada.
Não conseguia se mexer. Apavorava-a a terrível possibilidade da criatura, fosse o que fosse, ter entrado em sua casa e estar, naquele instante, à sua espreita na
escuridão.
Ouvia com atenção mas havia apenas o coro de sapos a coaxar. Uma brisa fresca e úmida invadia a casa, envolvendo suas pernas nuas. Lá fora, uma chuva leve caía.
A casa estava envolta num silêncio mortal, levando-a a crer que talvez o animal não tivesse entrado. Kim desceu um degrau de cada vez. Hesitava após cada passo e
esforçava-se para ouvir algum sinal do intruso. Mas a casa permanecia em silêncio
Kim chegou até a porta e agarrou a maçaneta. Olhando de
um lado para outro, da sala de jantar escura para a sala de estar, começou a fechar a porta. Temia mover-se muito rapidamente e provocar um ataque. Estava quase
fechando a porta quando olhou para fora. Engasgou com o ar.
Sheba encontrava-se a uns sete metros da casa, sentada na calçada. Ignorava a chuva fina, feliz da vida, lambendo a patinha e esfregando-a na cabeça.
A primeira reação de Kim foi não confiar nos próprios olhos, pois acabara de ver a gata em sua própria cama. Sheba obviamente notara que a porta estava aberta e,
enquanto Kim ia ao quarto de Edward, aproveitara a oportunidade para sair.
Kim respirou bem fundo, várias vezes, tentando se livrar da pesada sensação de estar drogada que obscurecia sua mente. Apavorada, sem saber o que poderia estar à
espreita na escuridão, relutava em chamar a gata, que seria bem capaz de ignorá-la.
Sentindo que tinha pouca escolha, Kim passou pela porta. Após vasculhar rapidamente a área, jogou-se em cima da gata, agarrou-a do chão e virou-se a tempo de ver
a porta da frente se fechar.
Gritando um silencioso não, Kim correu até a porta, mas já era tarde demais. Bateu com uma pancada surda, seguida do clique metálico da tranca.
Kim tentou a maçaneta, em vão. Estava trancada, como pensara. Empurrou a porta com o ombro, sem efeito.
Encolhendo os ombros na chuva fria, Kim virou-se para encarar a escuridão da noite. Tremia de medo e frio, incrédula diante de circunstâncias tão desesperadoras.
Estava de robe e pijama, presa do lado de fora de sua casa numa noite chuvosa, com uma gata descontente numa das mãos e uma lanterna apagada na outra, prestes a
ter de enfrentar uma criatura noturna que espreitava em meio às moitas.
Sheba lutava para se libertar, miando sem parar. Kim tentou silenciá-la. Afastando-se da casa, Kim verificou se os basculantes estavam fechados. Virou-se e calculou
a distância até o laboratório, cujas luzes estavam apagadas. Em seguida, olhou para o castelo. Era mais distante, mas sabia que as portas das
alas estavam destrancadas. Não sabia se as do laboratório estariam ou não.
De repente, Kim ouviu o som de uma criatura imensa se movendo no cascalho, à direita da casa. Sabendo que não podia ficar onde estava, correu na direção oposta,
dando a volta pelo lado esquerdo da casa.
Kim tentou desesperadamente abrir a porta da cozinha. Estava trancada, como sabia que estaria. Usando o ombro, jogou-se contra a porta diversas vezes, mas de nada
adiantou. Só conseguiu fazer com que a gata guinchasse.
Dando as costas para a casa, espiou o barracão. Apertando a gata ainda mais contra o peito e empunhando a lanterna como se fosse um porrete, Kim correu o mais rápido
que podia com seus chinelos. Quando chegou ao barracão, levantou o gancho que mantinha a porta fechada, abriu-a e penetrou sua escuridão.
Kim fechou a porta. A direita havia uma minúscula janelinha, imunda, pela qual podia ver o quintal, nos fundos do chalé. A única iluminação vinha da janela de seu
quarto e do brilho luminoso das nuvens baixas.
Enquanto olhava, um vulto disforme dobrou a esquina da casa, vindo da mesma direção que ela viera. Era uma pessoa, não um animal, mas agia de forma muito peculiar.
Kim o viu parar e farejar o ar, tal qual um animal faria. Para seu espanto, ele tomou sua direção e pareceu estar olhando para o barracão. Na escuridão, ela não
podia ver-lhe os traços, apenas seu vulto negro.
O espanto transformou-se em horror enquanto Kim assistia à figura se aproximar dela com passos lentos e arrastados, ainda farejando o ar como se guiado pelo olfato.
Segurou a respiração e rezou para que a gata não se mexesse. Quando o vulto chegou a três metros de onde estava, ela se encolheu no canto escuro do barracão, entre
ferramentas e bicicletas.
Podia ouvir os passos no cascalho. Chegaram mais perto e pararam. Houve uma pausa agonizante. Kim parou de respirar.
De repente, a porta foi aberta com violência. Perdendo o
controle, Kim gritou. Sheba respondeu com um grito e saltou dos braços dela. O homem gritou também.
Kim agarrou a lanterna com as duas mãos e a ligou, dirigindo o facho diretamente ao rosto do homem. Ele se protegeu da inesperada explosão de luz com as mãos e com
o antebraço.
Kim fechou a boca num misto de surpresa e alívio. Era Edward!
— Graças a Deus! — exclamou ela, baixando a lanterna. Lutando para sair do meio das bicicletas, cortadores de grama e latas de lixo velhas, Kim correu do barracão
e abraçou Edward. O facho da lanterna dançava por entre as árvores.
Por um instante, Edward não se mexeu. Olhou para ela sem expressão alguma.
— Não posso nem lhe dizer o quanto estou feliz em ver seu rosto — disse Kim, inclinando-se para trás para fitá-lo nos olhos.
— Nunca senti tanto medo na vida.
Edward não respondeu.
— Edward? — perguntou Kim, movendo a cabeça de forma a vê-lo melhor. — Você está bem?
Edward exalou com força.
— Estou sim — respondeu finalmente. Estava zangado.
— Não, não estou, graças a você. Que diabos está fazendo aqui no barracão, no meio da noite, vestida em seu robe, quase me matando de susto?
Kim desculpou-se de maneira efusiva, gaguejando enquanto imaginava o quanto deveria tê-lo assustado. Explicou o que acontecera. Quando acabou, viu que Edward sorria.
— Não tem graça alguma — acrescentou ela. Mas agora que estava a salvo, sorriu também.
— Não consigo acreditar que arriscou sua vida por esta gata velha e preguiçosa — disse Edward. —Vamos, vamos sair desta chuva.
Kim voltou ao barracão e localizou Sheba com a ajuda da lanterna. A gata estava escondida num canto afastado, atrás de uma fileira de ferramentas de jardinagem.
Kim atraiu-a até um espaço aberto e a pegou. Então, ela e Edward entraram em casa.
— Estou morrendo de frio. Preciso tomar algo quente, como um chá de ervas. Quer um?
— Não, mas fico com você enquanto o bebe — disse Edward.
Enquanto punha a água para ferver, Edward explicou seu lado da história.
— Pretendia trabalhar a noite inteira, mas à uma e meia tive de admitir para mim mesmo que seria impossível. Meu corpo está tão acostumado a dormir por volta da
uma hora que não conseguia mais manter os olhos abertos. Foi só o tempo de atravessar o campo do laboratório até o chalé sem deitar no gramado. Quando cheguei a
casa, abri a porta e então me lembrei de que carregava um saco com os restos de nossa pizza que eu deveria ter jogado no latão do laboratório. Aí fui até os fundos
para jogá-lo no nosso lixo. Devo ter deixado a porta aberta, o que não deveria ter feito, para começar devido aos mosquitos. Bem, eu não conseguia tirar as tampas
das latas de lixo, e quanto mais tentava, mais frustrado ia ficando. Cheguei até a esmurrá-las algumas vezes.
— São novas — explicou Kim.
— Espero que tenham vindo com um manual de instruções.
— São fáceis de abrir com a luz acesa.
— Finalmente desisti. Quando contornei a casa, a porta estava trancada. Achei ter sentido o cheiro do seu perfume. Desde que comecei a tomar a Ultra, meu olfato
melhorou de uma forma inacreditável. Segui o cheiro em torno da casa e até o barracão.
Kim serviu-se de chá quente.
— Tem certeza que não quer um pouco?
— Não conseguiria. Sentar aqui já é um esforço enorme. Preciso ir para a cama. É como se meu corpo pesasse cinco toneladas, incluindo minhas pálpebras. — Edward
levantou-se e cambaleou. Kim estendeu o braço para ajudá-lo.
— Estou bem. Quando estou cansado, custo um pouco para me localizar.
Kim ouviu o esforço que fez para subir as escadas, enquanto guardava o chá e o mel. Levantou a xícara e o seguiu escada
acima. No final das escadas, olhou para seu quarto. Ele já estava em sua cama, dormindo, com a roupa pela metade.
Kim entrou no quarto e, com um esforço imenso, tirou-lhe as calças e a camisa e o cobriu. Apagou as luzes. Sentiu inveja da facilidade com a qual ele adormecia.
Radicalmente oposta à dela.
Capítulo 18. DOMINGO, 2 DE OUTUBRO DE 1994.
Na nebulosa penumbra do alvorecer, Edward e os pesquisadores encontraram-se na metadde do caminho, entre o chalé e o castelo, e marcharam através da relva úmida
em silêncio, a caminho do laboratório. Estavam todos taciturnos. Ao entrarem, serviram-se de café.
Edward encontrava-se mais taciturno que os outros. Isto por já estar consideravelmente melhor do que há meia hora, quando acordara. Ao levantar-se da cama, ficara
chocado ao encontrar no chão uma carcaça de galinha que parecia ter saído do lixo de alguém. Estava pontilhada por pó de café. Então notou que suas unhas estavam
imundas, como se tivesse cavado terra com as mãos. No banheiro, olhara-se no espelho e vira que tanto seu rosto quanto a camiseta estavam lambuzados e sujos.
Todos levaram seus cafés até a área do laboratório, onde normalmente faziam suas reuniões. François foi o primeiro a falar.
— Embora minha dose de Ultra tenha sido reduzida a menos da metade, saí mais uma vez esta noite. Quando acordei esta manhã, estava mais sujo do que nunca. Devo ter
rastejado na lama. Tive que lavar meus lençóis. E olhem minhas mãos. —-Estendeu as mãos, com as palmas viradas para cima, para
mostrar uma miríade de cortes superficiais e arranhões. — Meu pijama estava tão sujo que tive de jogá-lo fora.
— Eu também saí — admitiu Curt.
— Temo que eu também tenha saído — disse David.
— Qual é a possibilidade, imaginam vocês, de estarmos perambulando fora da propriedade? — indagou François.
— Não há como saber — afirmou David. — Mas é uma possibilidade bastante perturbadora. E se tivemos algo a ver com o tal mendigo?
— Nem pense em mencionar isto — vociferou Gloria. — Não dá nem para imaginar tal coisa!
— O problema mais imediato é a polícia ou algum habitante local — disse François. — Se o pessoal da cidade estiver tão alvoroçado quanto disse Kim, algum de nós
será confrontado se sairmos além dessa cerca.
— É sem dúvida uma preocupação cabível — disse David. — Não temos como adivinhar nossa reação.
— Se estivermos realmente funcionando com nossa mente reptilitária, acho que dá sim para imaginar — discordou Curt. — Usaríamos nossos instintos de sobrevivência.
Reagiríamos, sem dúvida. Não creio que devamos nos iludir. Seríamos violentos.
— Isto tem que parar — afirmou François.
— Eu certamente não saí à noite — declarou Eleanor. — Portanto, tem de haver relação com a dose tomada.
— Concordo — disse Edward. — Vamos reduzir a dose à metade mais uma vez. Assim, a dose máxima será de um quarto da dose original tomada por Eleanor.
— Temo que não será o bastante — contrapôs Gloria. Todos viraram-se para olhá-la. — Não tomei a Ultra ontem e sinto dizer que saí durante a noite. Minha intenção
era ficar acordada para me assegurar de que ninguém mais sairia, mas foi virtualmente impossível me manter acordada por mais que tentasse.
— Dormir rapidamente é algo que comecei a fazer desde que comecei a tomar a Ultra — disse Curt. — Pensei que fosse devido ao nível de atividade que ela provoca durante
o dia. Talvez tenha algo a ver com a própria droga.
Todos concordaram com Curt e acrescentaram que, ao acordarem de manhã, tinham a sensação de ter tido uma boa noite de sono.
— Até mesmo esta manhã eu me sinto bem repousado — afirmou François. —Acho isto surpreendente, considerando-se que passei a noite toda correndo na chuva.
Todos passaram alguns minutos ponderando o dilema apresentado pela revelação de Gloria, que embora tivesse parado de tomar a droga, ainda havia sido acometida de
sonambulismo.
Edward finalmente rompeu o silêncio:
— Todos os nossos estudos demonstram que a Ultra é metabolizada a uma velocidade razoável, certamente bem mais rapidamente que o Prozac. A experiência de Gloria
apenas demonstra que a concentração da droga em seu cérebro inferior ainda é mais alta do que o limite desta infeliz complicação. Talvez devêssemos diminuir nossas
doses ainda mais, quem sabe até um fator de cem.
François estendeu as mãos mais uma vez, para que todos as vissem.
— Estes cortes me dizem alguma coisa. Não quero mais correr este risco. Obviamente tenho vagueado por aí, sem a mínima consciência do que faço. Não quero levar um
tiro ou ser atropelado porque estou agindo como um animal. Vou parar de tomar a droga.
— Eu me sinto da mesma forma — declarou David.
— Acho a decisão razoável — concordou Curt.
— Certo — disse Edward, relutante. — Todos vocês têm bons argumentos. Seria irresponsabilidade de nossa parte arriscar nossa segurança ou a segurança de outros.
Todos gostávamos de nos sentir animais nos tempos da faculdade, mas acho que já superamos estes anseios adolescentes.
Todos sorriram da piada de Edward.
— Vamos parar de tomar a droga para reavaliarmos o problema dentro de alguns dias — declarou Edward amavel-mente. — Assim que eliminarmos a droga de nossos organismos,
poderemos pensar em voltar a tomá-la em doses bem menores.
— Não tomo esta droga até encontrarmos um organismo animal que reproduza este efeito sonambular—afirmou Gloria. — Acho que deve ser estudado a fundo antes de voltarmos
a usá-la em humanos.
— Respeitamos sua opinião — declarou Edward. — Sempre disse que a automedicação era voluntária. Devo lembrar que minha intenção no começo era tomar a droga sozinho.
— O que faremos enquanto isso como medida de precaução? — indagou François.
— Talvez devêssemos ser submetidos a eletroencefalogramas enquanto dormimos — sugeriu Gloria. — Poderíamos ligá-los ao computador para nos acordar se os padrões
normais de sono mudarem.
— Uma idéia brilhante—exclamou Edward. — Encomendarei o equipamento na segunda-feira.
— E o que faremos esta noite? — perguntou François. Todos pensaram um momento.
— Creio que não teremos problemas — disse Edward. — Afinal, Gloria estava tomando a segunda dose mais alta e os níveis da droga em seu sangue deviam estar muito
altos em relação ao seu peso. Acho que devemos comparar os níveis em nosso sangue com os dela. Se estiverem mais baixos, estaremos bem. A única pessoa que, provavelmente,
corre algum risco é Curt.
— Valeu — disse Curt, rindo. — Por que não aproveita para me colocar na jaula dos macacos?
— Não é má idéia — concordou David. Curt deu um cascudo na cabeça de David.
— Talvez devêssemos dormir em turnos — sugeriu François. — Assim poderemos nos vigiar.
— Dormir em turnos é uma boa idéia — concordou Edward. — Além disso, se testarmos os níveis do sangue hoje, poderemos relacioná-los aos episódios de sonambulismo
que ocorrerem à noite.
— Sabe de uma coisa? Talvez isso tudo venha a calhar — declarou Gloria. —Ao pararmos de tomar a Ultra teremos uma excelente oportunidade de seguir os níveis no sangue
e na urina
e relacioná-los a efeitos psicológicos residuais. Todos devem ficar atentos a qualquer sintoma de depressão no caso de haver algum efeito bumerangue. Os estudos
com macacos sugerem que não há sintomas de abstinência, mas isto deve ser confirmado.
— Revertamos a situação a nosso favor — concordou Edward. — Enquanto isso, tenho muito trabalho a fazer. Não preciso dizer que tudo o que discutimos aqui deverá
ser mantido em absoluto segredo até encontrarmos a origem do problema e o eliminarmos.
Kim consultou o relógio e piscou. Não pôde crer no que viu. Eram quase dez horas. Não dormia assim desde a época da faculdade.
Sentando-se na cama, lembrou-se do aterrorizante episódio da noite anterior no barracão. Ficara realmente apavorada. Logo após o ocorrido, ficara tão tensa que não
conseguira voltar a dormir. Rolara na cama durante duas horas até que desistiu e tomou mais uma metade de Xanax. Finalmente conseguira se acalmar, mas então começou
a pensar na carta de Thomas Goodman, descrevendo a fuga de Elizabeth até o barracão, sem dúvida alguma sob influência do mofo venenoso. Kim achou que era mais uma
coincidência, ter fugido para o mesmo barracão em meio a seu pânico.
Tomou banho, vestiu-se e tomou café, esperando sentir-se bem o bastante para poder aproveitar o dia. Sua tentativa não foi totalmente bem-sucedida. Sentia-se grogue
por ter tomado uma dose dupla do medicamento. Sentia-se ansiosa também. O desagradável acontecimento da noite anterior somado à agitação que vinha sentindo eram
demais para o medicamento. Precisava de alguma outra coisa, e separar os documentos no castelo não seria o bastante. Kim precisava ter contato com gente e sentia
falta da conveniência e dos recursos de uma cidade.
Sentou-se ao lado do telefone e tentou contatar vários amigos em Boston. Não conseguiu encontrar ninguém, apenas suas secretárias eletrônicas. Deixou seu telefone
em várias
delas, mas não esperava resposta alguma antes da noite. Seus amigos eram pessoas muito ativas e havia muito a fazer num domingo de outono em Boston.
Sentindo uma enorme vontade de se afastar da propriedade, Kim ligou para Kinnard. Enquanto a ligação se completava, desejou que ele não atendesse; não sabia o que
diria. Por acaso, ele atendeu ao segundo toque.
Trocaram os cumprimentos de praxe. Kim estava nervosa. Tentou escondê-lo, mas não conseguiu.
— Você está bem? — perguntou Kinnard após uma breve pausa. — Sua voz está um pouco estranha.
Kim tentou dizer alguma coisa, mas não conseguia. Sentia-se confusa, envergonhada e subitamente emotiva.
— O simples fato de você não responder já me diz alguma coisa — disse Kinnard. — Posso ajudar de alguma forma? Aconteceu alguma coisa?
Kim respirou bem fundo, tentando se controlar.
— Você pode me ajudar, sim — falou por fim. — Preciso sair de Salem. Já liguei para várias amigas, mas não encontrei ninguém em casa. Tinha pensado em ir para a
cidade e passar a noite, já que trabalho amanhã.
— Por que não vem para cá? — perguntou Kinnard. — É só eu tirar a bicicleta ergométrica e meus oitenta mil exemplares do New England Journal of Medicine do quarto
de hóspedes, e será todo seu. Além do mais, estou de folga hoje. Tenho certeza que poderíamos fazer alguma coisa divertida.
— Acha mesmo que é uma boa idéia?
— Vou me comportar, se é isto que quer dizer — disse Kinnard, rindo.
Kim se perguntou se não estaria mais preocupada com seu próprio comportamento.
— Ah, vem cá — insistiu Kinnard. — Parece uma boa idéia, afastar-se do interior por um dia e uma noite.
— Então está bem! — exclamou Kim, decidindo-se subitamente.
— Excelente! — disse Kinnard. — A que horas estará aqui?
— Que tal daqui a uma hora?
— Até lá.
Kim pôs o fone no gancho. Não tinha certeza do que estava fazendo, mas pareceu-lhe a coisa certa a fazer. Levantou-se e subiu para arrumar suas coisas, lembrando-se
de levar seu uniforme. Na cozinha, pôs uma porção extra de comida para Sheba e trocou a areia da caixinha da gata.
Após colocar suas coisas no carro, Kim foi até o laboratório. Antes de entrar, parou para pensar se deveria mencionar especificamente que ficaria na casa de Kinnard.
Achou que seria melhor não dizer nada, mas que contaria a Edward se ele perguntasse.
O ambiente estava ainda mais pesado do que estivera em sua última visita. Todos estavam absortos em seu trabalho e, embora a cumprimentassem, faziam-no mecanicamente.
Kim não se importava. Na verdade, preferia que fosse assim. A última coisa que queria a esta altura era um longo discurso a respeito de alguma experiência mirabolante.
Encontrou Edward ao lado da impressora. Seu computador cuspia dados ininterruptamente. Ele sorriu para ela, mas foi um sorriso fugaz. No segundo seguinte, sua mente
já se ocupava com o que a impressora produzia.
— Vou passar o dia em Boston—Kim anunciou, radiante.
— Que bom — disse Edward.
— Vou passar a noite também. Posso deixar o telefone, se quiser.
— Não será necessário. Ligue para mim se tiver algum problema. Estarei aqui, como sempre.
Kim se despediu e caminhou em direção à porta. Edward chamou seu nome. Ela parou.
— Sinto muito estar tão preocupado — ele disse. — Gostaria que não estivéssemos tão ocupados, Temos uma espécie de emergência.
— Compreendo — afirmou Kim. Olhou para Edward e viu em seu rosto um certo embaraço que não detectava há muito.
Kim saiu do laboratório às pressas e entrou no carro. Deixou a propriedade pensando no comportamento de Edward. Era
como se o antigo Edward reemergisse, aquele Edward pelo qual ela se sentira atraída logo que o conhecera.
Não demorou muito para que começasse a relaxar, e quanto mais se aproximava do sul, melhor se sentia. O tempo ajudava. Era um dia quente e ensolarado de verão extemporâneo,
mas com a nitidez de um dia de outono. Aqui e ali havia árvores pinceladas com traços de estonteantes folhagens outonais. O céu estava tão azul que mais parecia
um vasto oceano celestial.
Não era difícil encontrar vaga para estacionar no domingo. Kim achou uma bem próxima do apartamento de Kinnard, na Revere Street; poderia ir andando. Sentiu-se nervosa
ao apertar campainha, mas ele imediatamente a deixou à vontade. Ele a Judou a carregar suas coisas até o quarto de hóspedes, que ele obviamente se esmerara em limpar.
Kinnard levou Kim numa revigorante caminhada pela cidade e durante várias horas a fez esquecer Omni, Ultra e Eliza-beth. Começaram em North End, almoçando num restaurante
italiano, e em seguida tomaram espresso num café italiano.
Num divertido interlúdio, mergulharam no Filene's Base-ment para um breve exame da baratíssima mercadoria. Ambos eram especialistas em fazer compras no Filene's
Basement. Kim se surpreendeu ao encontrar uma saia fantástica, original da Saks da Quinta Avenida.
Findas as compras, caminharam nos Boston Gardens e deliciaram-se com as flores e as folhagens do outono. Sentaram-se num banco durante algum tempo e admiraram os
barquinhos que deslizavam em torno do lago.
— Talvez eu não devesse dizer isto, mas você me parece um pouco cansada.
— Não é surpreendente — disse Kim. — Não tenho dormido bem. Morar em Salem não tem sido necessariamente idílico.
— Quer falar sobre isso?
— Ainda não. Acho que estou confusa a respeito de uma série de coisas.
— Estou contente por ter vindo.
— Quero ter certeza de que você compreende que vou dormir no quarto de hóspedes — disse Kim rapidamente.
— Calma, relaxe — disse Kinnard, levantando as mãos como se quisesse se defender. — Eu compreendo. Somos amigos, lembra?
— Desculpe. Você deve estar me achando tão histérica. Na verdade, não me sentia relaxada assim há semanas. — Estendeu a mão e apertou a de Kinnard. — Obrigada por
ser meu amigo.
Ao deixarem o parque, desceram a Newbury Street e olharam as vitrines. Então, entregaram-se a um dos maiores passatempos de Kim em Boston. Entraram na Waterstone's
Book-sellers e folhearam vários livros. Kim comprou um romance de Dick írancis, enquanto Kinnard comprava um guia da Sicília. Disse que era um lugar aonde sempre
quisera ir.
No final da tarde, pararam num restaurante indiano e jantaram uma deliciosa comida tandoor. O único problema é que o restaurante não servia bebidas alcoólicas. Ambos
concordaram que a comida condimentada teria descido bem melhor com cerveja gelada.
Do restaurante caminharam até Beacon Hill. Sentados no sofá de Kinnard, tomaram uma taça de vinho branco gelado. Kim logo sentiu-se sonolenta.
Deitou-se cedo, pois teria de acordar ao amanhecer para trabalhar. Não precisou de Xanax algum quando deslizou por entre os lençóis recém-lavados. Adormeceu de forma
profunda e tranqüila
quase que imediatamente.
Capítulo 19. SEGUNDA-FEIRA, 3 DE OUTUBRO DE 1994.
Kim se esquecera do quanto era puxado um dia na UTI cirúrgica. Era a primeira a admitir que, após um mês de férias, estava fora de forma tanto física quanto emocional.
Mas, ao final do dia, adorara a intensidade, o desafio e a sensação de realização, por ter ajudado pessoas necessitadas. Sem contar a camaradagem gerada pelo esforço
em equipe.
Kinnard aparecera várias vezes durante o dia com pacientes saídos de cirurgias. Kim fez questão de estar disponível para auxiliá-lo. Agradeceu-lhe mais uma vez por
ter tido a melhor noite de sono em semanas. Ele lhe disse que seria sempre bem-vinda, até mesmo naquela noite, em que teria que passar a noite de plantão no hospital.
Kim teria gostado de ficar. Depois de seu período de isolamento na propriedade, sentira-se feliz em Boston, saudosa do tempo em que ali morara. Mas sabia que precisava
voltar para Salem. Não se iludia quanto à disponibilidade de Edward, mas mesmo assim sentia obrigação de voltar.
Assim que seu turno terminou, Kim andou até a esquina das ruas Charles e Cambridge e pegou o Red Line até Harvard Square. Os trens passavam com freqüência àquela
hora, e vinte
minutos depois já tomava a Massachusetts Avenue a caminho da Faculdade de Direito de Harvard.
Kim afrouxou o passo quando notou que estava suando. Era mais um dia quente como verão em pleno outono, mas sem a nitidez do dia anterior. Não havia brisa alguma
e uma névoa úmida cobria a cidade fazendo com que parecesse mais verão do que outono. O serviço de meteorologia anunciara a possibilidade de uma tempestade.
Kim perguntou a um estudante como chegar à Biblioteca de Direito. Encontrou-a sem a menor dificuldade. Sentiu um enorme alívio ao entrar na sala refrigerada.
Pedindo mais informações, chegou ao escritório de Helen Arnold. Kim deu seu nome à secretária e foi informada de que teria de esperar. Quando se sentou, uma mulher
negra, alta, esbelta e muito atraente, surgiu à porta de uma sala e a mandou entrar.
— Sou Helen Arnold e tenho excelentes notícias para você —disse a mulher com entusiasmo. Levou Kim até seu escritório e convidou-a para sentar.
Kim estava impressionada com a aparência da mulher. Não era o que esperara encontrar na biblioteca de uma faculdade de direito. Kim jamais vira um penteado tão exótico
como o seu e o vestido era um chemisier de seda muito colorido com um cinto de corrente dourada.
— Conversei com Katherine Sturburg, que aliás é uma mulher maravilhosa, esta manhã bem cedo, se quer saber, e ela me contou tudo a respeito da obra escrita por Rachel
Bingham que você anda procurando.
Kim só conseguia assentir com a cabeça, enquanto Helen cuspia informações como uma metralhadora.
— Você a encontrou? — perguntou Kim durante uma pausa de Helen.
— Sim e não — disse Helen sorrindo com amabilidade. — A boa notícia é que confirmei a desconfiança de Katherine Sturburg de que a obra sobrevivera ao incêndio de
1764. Disso tenho certeza. Pode contar. Parece que ficava guardada nos
aposentos de um dos professores que vivia fora de Old Harvard Hall. Não é uma excelente notícia?
— Fico satisfeita — disse Kim. — Na verdade, estou emocionada por não ter sido destruída. Mas não respondeu à minha pergunta de maneira clara. O que quis dizer com
sim e não?
— Quis dizer simplesmente que embora não tivesse encontrado o livro em si, eu encontrara alusão ao fato da obra realmente haver sido trazida para esta biblioteca.
Também descobri que houve alguma confusão e dificuldade de como ou onde arquivar a obra, embora estivesse relacionada à cadeira de Direito Eclesiástico, conforme
a carta de Increase Mather sugerira. Aliás, aquela carta é um achado fabuloso e soube que você se ofereceu para doá-la a Harvard. É muito generoso de sua parte.
— É o mínimo que posso fazer depois de todo o trabalho que lhes dei. Mas e quanto à obra de Rachel Bingham? Alguém sabe onde pode estar?
— Sim, alguém sabe. Após muito procurar, descobri que a obra foi transferida da biblioteca da Faculdade de Direito para a Divinity School em 1825, após a construção
de Divinity Hall. Não sei por que foi transferida; talvez tenha sido devido às dificuldades que tivemos com os arquivos da Biblioteca de Direito.
— Meu Deus! Que jornada a deste livro!
— Tomei a liberdade de consultar minha colega na Biblioteca de Divinity School um pouco antes do meio-dia — relatou Helen. — Espero que não se importe.
— É claro que não me importo—Kim lhe assegurou. Ficou contente com a iniciativa de Helen.
— Seu nome é Gertrude Havermeyer. É um tipo meio estourado, mas tem um bom coração. Prometeu verificar em seguida. — Helen anotou o nome e o telefone de Gertrude
num papel. Depois, pegou um mapa do campus de Harvard e assinalou a Divinity School.
Alguns minutos depois, Kim cruzava o campus. Passou pelo laboratório de física e contornou Museum Building até chegar
à Divinity Avenue. Estava a poucos passos do escritório de Gertrude Havermeyer.
— Então é você o motivo pelo qual perdi a tarde inteira — disse Gertrude quando Kim se apresentou. Gertrude Havermeyer estava de pé na frente de sua escrivaninha
com as mãos na cintura. Como Helen Arnold descrevera, Gertrude parecia ter um temperamento severo e inflexível. Por outro lado, sua aparência física contrastava
com seus modos enérgicos. Era uma mulherzinha pequena, de cabelos grisalhos, que olhava com olhos apertados para Kim através dos óculos de aros de metal.
— Desculpe se lhe causei algum transtorno — Kim se desculpou, sentindo-se culpada.
— Depois que recebi o telefonema de Helen Arnold, ainda não tive um minuto para fazer meu próprio trabalho — reclamou Gertrude. — Foram horas e mais horas.
— Espero que pelo menos seus esforços não tenham sido em vão.
— Encontrei um recibo daquela época. Helen tinha razão. A obra de Rachel Bingham veio da Biblioteca de Direito e chegou à Divinity School. Mas, como seria de esperar,
não encontrei referência alguma ao livro no computador ou no velho catálogo de fichas, e até mesmo no antiqüíssimo catálogo que guardamos no porão.
Kim sentiu uma enorme tristeza.
— Sinto muito ter lhe dado tanto trabalho a troco de nada.
— Bem, eu não desisti aí. De modo algum. Quando resolvo fazer uma coisa, vou até o fim. Então voltei aos cartões escritos a mão. São do tempo em que a biblioteca
foi organizada. Foi frustrante, mas encontrei uma outra referência, mais por sorte do que por perseverança. Juro que não consigo entender o motivo de não estar incluído
no índice geral da biblioteca.
Kim voltou a ter esperanças. Seguir a trilha de Elizabeth era como andar numa montanha-russa.
— E a obra ainda está aqui?
— De modo algum!—exclamou Gertrude com indignação. — Se estivesse, estaria no computador. Somos muito organizados. Não, a última referência que encontrei indica
que foi
enviada para a Faculdade de Medicina em 1826, após passar menos de um ano aqui. Aparentemente, ninguém sabia o que fazer com o material. É tudo um grande mistério,
porque não há indicação alguma da categoria à qual pertence.
— Ah, pelo amor de Deus! — exclamou Kim, frustrada. — Procurar este livro, ou seja lá o que for, está se tornando ridículo. É uma piada de mau gosto.
— Alto lá! — ordenou Gertrude. — Fiz um esforço enorme por você. Até liguei para a Biblioteca Médica de Countway e conversei com John Moldavian, encarregado de livros
e manuscritos raros. Contei-lhe a história e ele me garantiu que tomaria providências imediatas.
Após agradecer a Gertrude, Kim voltou a Harvard Square e tomou o Red Line para Boston.
Já era hora do rush e Kim teve que se espremer no trem. Como não houvesse mais lugar, foi em pé. Enquanto o trem passava por Longfellow Bridge, Kim pensou seriamente
em desistir da busca. Era como se perseguisse uma miragem. Cada vez que pensava estar chegando perto, a pista mostrava-se falsa.
Pegou seu carro na garagem do hospital, ligou o motor e começou a pensar no trânsito que enfrentaria para chegar a Salem. Aquela hora, só passar o anel viário de
Leverett Circle tomaria meia hora.
Mudando de idéia, Kim tomou a direção oposta e foi na direção da Biblioteca Médica de Countway. Decidiu que não custaria nada seguir a pista de Gertrude, em vez
de ficar presa num engarrafamento.
John Moldavian parecia ser perfeito para trabalhar numa biblioteca. Era um homem amável, de fala macia, cujo amor aos livros ficava nítido pela maneira carinhosa
e cuidadosa com a qual os manuseava.
Kim se apresentou e mencionou o nome de Gertrude. John reagiu imediatamente, procurando alguma coisa em meio à desordem em sua mesa.
— Tenho algo aqui para você — afirmou ele. — Onde foi que eu enfiei?
Kim o viu remexer seus papéis. Tinha um rosto fino que era
dominado por pesados óculos de armação negra. Seu fino bigode era quase perfeito demais, como se tivesse sido pintado a lápis de sobrancelha.
— A obra de Rachel Bingham está aqui na biblioteca? — Kim arriscou-se a perguntar.
— Não, não está mais aqui — disse John. Seu rosto se iluminou subitamente. — Ah, cá está o que eu procurava. — Ergueu uma única folha de papel.
Kim suspirou baixinho. Lá se ia a pista de Gertrude.
— Procurei nos registros da biblioteca da faculdade de medicina e encontrei esta referência à obra que procura.
— Deixe-me adivinhar. Foi mandada para outro lugar. John olhou para Kim por cima do papel que segurava.
— Como foi que adivinhou? — perguntou. Kim soltou uma breve gargalhada.
— Porque é assim que tem sido. Para onde foi enviada?
— Para o Departamento de Anatomia. É claro que hoje em dia é chamado Departamento de Biologia Celular.
Kim balançou a cabeça, incrédula.
— Mas por que teria sido enviado para lá? — perguntou.
— Não tenho a menor idéia. A anotação que encontrei foi um bocado estranha. Era um cartão escrito a mão, aparentemente às pressas, e havia sido anexado ao livro,
ou manuscrito, ou desenho. Fiz uma cópia para você — disse John, entregando o papel a Kim.
Kim tomou-o de John. Era difícil de ler, o que a fez virar o corpo na direção da janela. Parecia dizer: Curiosidade construída por Rachel Bingham em 1691. Ao ler
a palavra curiosidade, Kim se lembrou de Mary Custland, que lhe contara a respeito do repositório de curiosidades que fora perdido no incêndio de 1764, sugerindo
que a obra de Rachel Bingham fazia parte da tal coleção. Lembrando-se da carta de Jonathan a seu pai, Kim supôs que a caligrafia do cartão era de Jonathan. Podia
ver um Jonathan Stewart, muito nervoso, rabiscando o cartão, louco para sair dos aposentos do professor, onde penetrara para mudar o nome para Rachel Bingham. Se
tivesse sido descoberto, provavelmente teria sido expulso da faculdade.
— Liguei para o chefe do departamento — declarou John, interrompendo os devaneios de Kim. — Ele falou de um outro senhor chamado Carl Nebolsine, que é o curador
do Museu de Anatomia Warren. Então liguei para ele. Disse-me que para ver a exposição teria de ir até o prédio da administração.
— Você quer dizer que está em seu poder? — perguntou Kim, incrédula.
— Aparentemente está. O Museu de Anatomia Warren fica no quinto andar do prédio A, quase em frente à biblioteca. Quer ir até lá?
— É claro que sim — afirmou Kim. Seu coração batia mais forte, só em pensar que talvez tivesse finalmente encontrado a prova usada contra Elizabeth.
John pegou o telefone.
— Vamos ver se o Sr. Nebolsine ainda está por lá. Estava lá há pouco, mas creio que tem vários escritórios. Parece que toma conta de vários pequenos museus espalhados
por Harvard
John manteve uma rápida conversação e de repente levantou o dedão para Kim. Ao desligar, disse:
— Que sorte a sua. Ele ainda está por lá e disse que o encontrará no museu, se for até lá neste instante.
— Já estou indo — disse Kim. Agradeceu-lhe e correu até o prédio A, um prédio em linhas gregas com um frontão imenso, apoiado por colunas dóricas. Um guarda quis
pará-la, mas mandou que fosse em frente ao avistar o crachá do hospital.
Kim saltou no quinto andar. O museu acompanhava a parede do lado esquerdo e era composto de várias vitrines. Continham os instrumentos cirúrgicos primitivos de praxe
— que davam calafrios no mais estóico dos seres —, fotos antigas e espécimes patológicos. Havia vários crânios, incluindo um com um buraco que ia do olho esquerdo
até a testa.
— Este é um caso muito interessante — disse uma voz. Kim virou-se e deparou com um homem muito mais jovem do que esperava para o curador de um museu. — Você deve
ser Kimberly Stewart. Sou Carl Nebolsine. —Apertaram as mãos. — Está vendo aquela haste ali? — disse Carl, apontando para uma haste de aço com mais de um metro e
meio. — É chamada
de haste de socadura. Era usada para encher um buraco, cavado para uma explosão, com pólvora e barro. Um dia, há mais de cem anos, aquela haste atravessou a cabeça
daquele homem — disse Carl, apontando para o crânio. — O mais incrível de tudo é que ele sobreviveu.
— E ficou bem? — perguntou Kim.
— Digamos que não se tornou o sujeito mais agradável do mundo quando se recuperou do trauma, mas quem seria?
Kim olhou o resto da exibição. Bem no final, viu que havia alguns livros expostos.
— Soube que está interessada no item relacionado a Rachel Bingham — disse Carl.
— Está aqui? — perguntou Kim.
— Não — respondeu Carl.
Kim olhou para o homem como se não o tivesse ouvido bem.
— Está lá embaixo no almoxarifado. Não recebemos muitos pedidos para vê-lo e não temos espaço o bastante para exibir todos os itens em nosso poder. Gostaria de vê-lo?
— Muitíssimo — respondeu Kim, aliviada.
Tomaram um elevador até o porão e seguiram um labirinto pelo qual Kim não seria capaz de voltar sozinha. Carl destrancou uma pesada porta de aço. Acendeu as luzes,
várias lâmpadas nuas.
Kim seguiu Carl enquanto ele serpenteava por entre armários. Ao passar cada um, Kim viu um sortimento de ossos, livros, instrumentos e jarros com órgãos preservados.
Carl parou. Kim parou bem atrás dele. Ele deu um passo ao lado e apontou para algo que se encontrava no armário, bem à sua frente.
Kim se encolheu, num misto de horror e nojo. Não estivera preparada para o que via. Enfiado num enorme jarro de vidro, cheio de líquido marrom-escuro, havia um feto
de quatro ou cinco meses de idade que mais parecia um monstro.
Alheio à reação de Kim, Carl abriu o armário. Estendeu o braço e arrastou o vidro para a frente, chacoalhando o seu conteúdo, fazendo com que este dançasse de maneira
grotesca, com pequenos flocos de tecido humano caindo ao seu redor.
Kim levou uma das mãos à boca, enquanto encarava o feto
anencéfalo, com crânio achatado e sem cérebro. Tinha uma fenda palatina que fazia com que a boca fosse repuxada na direção do nariz. Seus traços eram ainda mais
distorcidos devido a sua proximidade ao vidro. Imediatamente atrás dos enormes olhos de batráquio, sua cabeça era chata e coberta por um tufo de cabelos cor de carvão.
O maxilar largo era completamente desproporcional ao resto do rosto. Os membros superiores do feto eram curtos e grossos, terminando em mãos cobertas que lembravam
as nadadeiras de um ser marinho. Alguns dos dedinhos curtos eram fundidos num só, parecendo um casco de animal. De seu traseiro saía uma enorme cauda de peixe.
— Você gostaria que eu o baixasse e o levasse até um lugar melhor iluminado? — indagou Carl.
— Não! — exclamou Kim com aspereza excessiva. Num tom mais calmo, explicou a Carl que podia vê-lo bem de onde se encontrava.
Kim compreendeu como uma mente do século XVII teria encarado uma deformação tão bestial. Esta pobre criatura teria sido, sem dúvida, confundida com a encarnação
do demônio. Na realidade, cópias que Kim vira de representações xilográficas do diabo daquela época eram idênticas à criatura.
— Gostaria ao menos que eu virasse o recipiente para ver o outro lado?
— Não, muito obrigada—afirmou Kim, inconscientemente se afastando do espécime. Agora compreendia o motivo da Faculdade de Direito e da Divinity School não saberem
o que fazer com ele. Recordou também a cópia do cartão que John Moldavian lhe mostrara na biblioteca de medicina. Não dizia Curiosidade construída por Rachel Bingham
em 1691. A palavra era concebida, não construído
E lembrou-se enfim da anotação no diário de Elizabeth, na qual expressava sua preocupação para com o inocente Job. Elizabeth sabia que estava grávida e já começara
a chamar o bebê de Job. Que trágica coincidência, pensou Kim.
Kim agradeceu a Carl e cambaleou até o carro. Enquanto andava, pensou na tragédia dupla de Elizabeth: estar grávida
enquanto ignorava estar sendo envenenada por um mofo que crescia em seu estoque de centeio. Naquele tempo, todos estariam certos de que, para ter concebido um monstro
como aquele, Elizabeth devia ter relações com o diabo. Esta era certamente uma confirmação do pacto, sem contar o fato dos ataques terem se originado na casa de
Elizabeth e se espalhado pelas casas para onde seus filhos haviam levado os pães. A segurança de Elizabeth, seu conflito inoportuno com a família Putnam e a mudança
de sua posição social não teriam melhorado sua situação.
Chegou ao carro, entrou e ligou o motor. Tornara-se perfeitamente claro o motivo pelo qual Elizabeth fora acusada de bruxaria e pelo qual fora condenada.
Kim dirigiu como se em transe. Começava a compreender por que Elizabeth não confessara para salvar sua vida, conforme pedira Ronald. Ela sabia que não era bruxa,
mas a confiança em sua própria inocência teria sido minada, pois todos estavam contra ela: seus amigos, os juizes e até mesmo a Igreja. Com o marido longe, Elizabeth
não tinha apoio algum. Completamente só, ela teria acreditado ser culpada de alguma horrível transgressão dos desígnios de Deus. De que outra forma se explicaria
o fato de ter dado à luz uma criatura tão demoníaca? Talvez até ela acreditasse que seu destino era justo.
Kim ficou presa no trânsito de Storrow Drive. O tempo não melhorara. Na verdade fazia ainda mais calor. Sentia-se cada vez mais ansiosa por estar presa no interior
de um carro.
Finalmente ultrapassou a retenção no sinal de Leverett Circle. Livre da cidade, seguiu para o norte pela rodovia 93. Sentindo-se literalmente livre, foi tomada de
uma nova revelação e de uma outra liberdade, desta vez em sentido figurado. Kim começava a crer que o choque do confronto visual com o monstro de Elizabeth revelara
a mensagem que sua antepassada tentava lhe mandar: que Kim deveria ter mais confiança em si mesma. Ela não devia se sentir insegura devido às crenças das outras
pessoas, como ocorrera com Elizabeth. Não devia deixar que símbolos de autoridade controlassem sua vida. Elizabeth não tivera escolha quanto a isto, mas Kim tinha.
Sua mente dava voltas. Lembrou-se de todas as horas que passara com Alice McMurray, discutindo sua auto-estima. Lembrou-se das teorias que Alice lhe apresentara
para explicar sua origem: a combinação da distância emocional de seu pai, suas vãs tentativas em lhe agradar e a passividade de sua mãe frente à infidelidade do
marido. De repente, toda a conversa pareceu-lhe trivial. Era como se tivesse envolvido outra pessoa. Todas aquelas discussões não haviam funcionado como o soco na
boca do estômago pelo choque com a conclusão do ordálio de Elizabeth.
As coisas tomaram uma clareza impressionante para Kim. Quer sua baixa auto-estima fosse resultante de sua dinâmica familiar ou de sua timidez, ou de uma combinação
de ambas, não importava. A realidade era que Kim não deixara seus próprios interesses e aptidões guiarem sua vida. A escolha de sua carreira era um bom exemplo.
Sua atual situação de moradia era outro.
Kim teve que frear de repente. Para sua surpresa e tristeza o trânsito engarrafara mais uma vez numa estrada em que normalmente fluía bem. Mais uma vez, sua locomoção
se limitava a impulsos e freadas, fazendo com que a brisa quente invadisse o carro pelas janelas abertas. A oeste havia enormes nuvens de tempestade se acumulando
no horizonte.
Enquanto avançava lentamente Kim chegou a uma decisão súbita. Tinha que mudar sua vida. Primeiro deixara que seu pai dominasse sua vida apesar de jamais terem tido
um relacionamento cabível. Agora permitia que Edward fizesse o mesmo. Edward vivia com ela apenas nominalmente. Na verdade, ele apenas se aproveitava dela e não
lhe dava nada em troca. O laboratório da Omni não deveria estar localizado em sua propriedade e os pesquisadores não deveriam estar vivendo no lar da família Stewart.
Quando o trânsito começou a fluir mais uma vez e Kim pôde acelerar, prometeu a si mesma que não deixaria as coisas como estavam. Decidiu conversar com Edward assim
que voltasse à propriedade.
Conhecendo sua dificuldade em situações de confronto emocional
e sua tendência a adiar as coisas, Kim enfatizou para si mesma a importância de conversar com Edward o mais rápido possível. Agora que tinha bons motivos para crer
que a Ultra era teratogênica, ou seja, passível de prejudicar um feto em desenvolvimento, sua pressa era ainda maior. Kim tinha consciência de que este tipo de informação
era crucial no estudo de uma droga experimental, não só para proteger a mulher grávida, mas também por muitas drogas teratogênicas serem também capazes de causar
câncer.
Quando entrou na propriedade já eram quase sete horas. Com o acúmulo de nuvens de tempestade, escurecera ainda mais cedo que o normal. Ao se aproximar do laboratório,
viu que as luzes estavam acesas.
Kim estacionou mas não saiu do carro imediatamente. Apesar de sua decisão, pegou-se hesitante em entrar. De repente, inventou vários motivos pelos quais deveria
esperar. Mas não desistiu. Abriu a porta do carro e saiu.
— Você vai em frente nem que tenha de morrer por isso — disse. Após tirar o amassado do uniforme com as mãos e alisar os cabelos, entrou no laboratório.
Assim que a porta se fechou, Kim notou que havia uma nova mudança de clima no laboratório. Tinha certeza de que Gloria e David, e talvez até mesmo Eleanor, a haviam
visto chegar, mas não deram sinais de terem-na notado. Na verdade, viraram as costas e a ignoraram propositadamente. Não ouvia risos nem conversas. O ambiente estava
tenso.
A ansiedade de Kim tornava-se ainda maior com a tensão do ambiente, mas mesmo assim forçou-se a procurar Edward. Encontrou-o num canto pouco iluminado, diante de
seu computador. A cor verde fluorescente do monitor emitia uma estranha luminosidade.
Kim se aproximou dele e permaneceu de pé ao seu lado por alguns momentos. Relutava em interrompê-lo. Enquanto assistia suas mãos percorrerem o teclado, detectou
um leve tremor em seus dedos a cada toque. Podia ouvir também sua respiração ofegante, muito mais rápida que a dela.
Muitos minutos se passaram. Edward continuava a ignorá-la.
— Por favor, Edward — disse por fim com voz trêmula. — Preciso conversar com você.
— Mais tarde — ele respondeu. Continuava a não olhar para Kim.
— É importante que eu fale com você agora — insistiu Kim, hesitante.
Edward assustou Kim ao se pôr de pé subitamente. O movimento brusco fez com que sua cadeira ergonômica deslizasse pelo chão até bater num armário. Ele chegou o rosto
tão próximo ao dela que Kim pôde ver as minúsculas veias vermelhas que riscavam seus olhos esbugalhados.
— Eu disse depois! — repetiu ele pelos dentes cerrados. Seu olhar era penetrante, como se a desafiasse a contrariá-lo.
Kim deu um passo atrás e chocou-se contra a bancada do laboratório. Ao procurar apoio, jogou uma proveta no chão sem querer. O barulho do vidro despedaçando-se no
chão mexeu ainda mais com seus nervos.
Kim não se moveu. Olhava Edward com apreensão. Mais uma vez agia como se estivesse prestes a perder o controle, exatamente como acontecera em seu apartamento quando
arremessara a taça de vinho. Ocorreu-lhe que algo de muito grave ocorrera no laboratório, dando início a uma séria desavença. O que quer que fosse, havia deixado
a todos nervosos, especialmente Edward.
A primeira reação de Kim foi sentir empatia por Edward. Mas conseguiu se conter. Seu recém-adquirido autoconhecimento a fizera ver que tais pensamentos representavam
o retorno a velhos hábitos. Kim se comprometera a seguir os conselhos de Elizabeth. Pela primeira vez tinha de tomar as rédeas de sua vida e pensar em suas próprias
necessidades.
Ao mesmo tempo era capaz de ser realista. Sabia que não conseguiria nada provocando Edward. Seu comportamento naquele instante deixava bem claro que não estava com
a menor disposição de discutir seu relacionamento com ela.
— Sinto lhe interromper — disse Kim ao perceber que
Edward recobrara algum controle. — É claro que este não é um bom momento. Estarei no chalé. Gostaria realmente de conversar com você, portanto venha quando puder.
Kim deu as costas para o olhar fulminante de Edward. Deu apenas alguns passos e virou-se mais uma vez.
— Descobri uma coisa hoje que acho que deveria saber. Tenho motivos para crer que a Ultra seja teratogênica.
— Vamos testar a droga em ratas grávidas — afirmou Edward com raiva. — Mas neste momento tenho coisas mais urgentes para resolver.
Kim notou uma lesão no lado esquerdo da cabeça de Edward. Em seguida viu que ele cortara as mãos, como Curt. Instintivamente, Kim deu um passo atrás.
— Você se machucou — disse, estendendo a mão para examinar o ferimento da cabeça de Edward.
— Não foi nada — contrapôs Edward, desviando da mão de Kim. Virou as costas para ela, sentou-se em sua cadeira e voltou a trabalhar em seu computador.
Kim deixou o laboratório aturdida; jamais conseguia prever os humores ou o comportamento de Edward. Lá fora, notou que já escurecera bastante. O ar estava completamente
parado. As folhas das árvores pendiam dos galhos. Alguns pássaros vagavam no céu ameaçador, à procura de abrigo.
Kim correu até o carro. Olhando o movimento das pesadas nuvens, cada vez mais perto, viu que lampejos intermitentes riscavam o céu. Não ouvia o trovão. Na curta
distância até o chalé, acendeu os faróis.
Ao chegar em casa foi direto à sala. Olhou o retrato de Elizabeth e encarou aquela mulher com nova simpatia, admiração e gratidão. Começou a se acalmar após fitar
aquele rosto forte e feminino, com seus faiscantes olhos verdes. A imagem inspirava-lhe força e, apesar do contratempo no laboratório, sabia que não podia voltar
atrás. Esperaria por Edward, estava decidida a conversar com ele.
Desviando os olhos da pintura, Kim perambulou pelo chalé que compartilhava com Elizabeth. Apesar de sua solidão atual, a casa era aconchegante, romântica. Não podia
deixar de imaginar
como teria sido diferente viver ali com Kinnard e não com Edward.
De pé na sala de jantar, que no tempo de Elizabeth fora a cozinha, lamentou que a mesa de jantar tivesse sido posta tão poucas vezes. Não tinha dúvidas que setembro
fora um fracasso e admoestava-se por haver deixado que Edward a envolvesse nesta cruzada pelo desenvolvimento da tal droga.
Com um repentino lampejo de raiva, Kim permitiu-se ir um pouco além e pela primeira vez deixou-se admitir que achava a ganância incipiente de Edward repulsiva. Pensava
o mesmo da nova personalidade que ele desenvolvera com a Ultra. Não podia conceber que o autoconhecimento, a autoconfiança ou a alegria fossem induzidos quimicamente.
Era um embuste. Achava o conceito de uma psicofarmacologia cosmética repugnante.
Tendo finalmente enfrentado seus reais sentimentos por Edward, Kim pensou em Kinnard. Com a nova ótica que adquirira, constatou que era responsável por uma porção
significativa dos problemas que tiveram recentemente. Com a mesma inflexibilidade que usara com a ganância de Edward, repreendeu-se por haver permitido que seu complexo
de rejeição a fizesse interpretar mal os interesses pueris de Kinnard.
Kim suspirou. Sentia-se física e emocionalmente exausta. Ao mesmo tempo, sentia uma imensa paz interior. Pela primeira vez não sentia aquela vaga e insistente ansiedade
que a vinha incomodando há meses. Embora soubesse que sua vida virara de pernas para o ar, estava disposta a mudar e sentia que sabia o que precisava mudar.
Entrou no banheiro e tomou um longo e luxuriante banho, algo que não fazia há muito. Depois do banho, pôs um traje bem confortável e preparou seu jantar.
Após o jantar, Kim foi até a janela da sala e olhou o laboratório. Perguntou-se no que Edward estaria pensando e quando o veria.
Kim desviou os olhos do laboratório e olhou as silhuetas negras das árvores. Estavam completamente paradas, como se engastadas em vidro; ainda não começara a ventar.
A tempestade que parecera iminente quando chegara em casa ficara
presa no oeste. Mas então Kim viu um raio. Desta vez formou o arco que chegava até o chão e foi seguido do distante rugir de um trovão.
Voltando os olhos para dentro da sala, fitou o quadro de Elizabeth mais uma vez e pensou no feto grotesco e deformado, boiando no vidro de preservantes. Sentiu um
novo arrepio percorrer-lhe a espinha. Não era de estranhar que as pessoas do tempo de Elizabeth acreditassem em feitiçaria, magia e bruxaria. Naquela época não havia
outra explicação para ocorrências tão perturbadoras.
Chegando mais perto do quadro, Kim estudou os traços de Elizabeth. Sua segurança aparecia no desenho de seu queixo, em seus lábios e em seu olhar direto. Kim perguntou-se
se o traço teria sido de temperamento ou de caráter, inato ou adquirido, natureza ou educação.
Ponderou a respeito de sua nova segurança, pela qual Elizabeth era totalmente responsável, e perguntou-se quanto tempo duraria. Sua ida ao laboratório já fora um
começo. Estava certa de que não teria conseguido fazê-lo no passado.
Com o passar das horas, Kim começou a pensar na possibilidade de mudar de carreira e a questionar se teria coragem de correr tal risco. Com sua herança, sabia que
dinheiro não era desculpa. Uma mudança tão radical em seu estilo de vida era uma possibilidade assustadora, especialmente para fazer algo na área das artes. Ao mesmo
tempo, era tentador.
Uma das conseqüências inesperadas de seu empenho em classificar os trezentos anos de documentos, no castelo, fora sua constatação de que sua família fizera muito
pouco pela comunidade local. As hordas de papéis e o castelo de mau gosto eram as duas maiores heranças de sua família. Não havia um artista, um músico ou um escritor
em sua família. Com toda a fortuna que acumularam, não haviam colecionado obras de arte, patrocinado uma orquestra ou uma biblioteca. Na verdade, jamais haviam feito
contribuição alguma à cultura, a não ser que o empresariado fosse considerado uma cultura toda especial.
Às nove horas Kim estava exausta. Ainda pensou em voltar ao laboratório mas mudou de idéia. Se Edward quisesse conversar,
teria vindo até o chalé. Preferiu então deixar um bilhete para ele, colado no espelho do lavabo. Dizia simplesmente: Acordarei às cinco e poderemos conversar então.
Levou a gata para uma breve caminhada e se deitou. Não tentou ler nem tampouco pensou em tomar algo para dormir. Estava profundamente adormecida em poucos minutos.
Capítulo 20. TERÇA-FEIRA, 4 DE OUTUBRO DE 1994.
Kim foi arrancada das profundezas de um sonho pelo assustador estrondo de um trovão. A casa ainda tremia após o barulho horrendo quando ela percebeu que estava sentada,
com a espinha ereta. Sheba reagira ao eataclismo jogando-se debaixo da cama.
Minutos após o trovão, chegou a chuva em rajadas de vento. Por ter demorado tanto a cair, a tempestade veio com ferocidade. Gotas imensas martelavam o telhado, acima
da cabeça de Kim, com a violência de uma chuva de granizo. Podia também ouvir a chuva bater contra o basculante voltado para o oeste.
Kim levantou da cama para fechar a janela. Sentia o vento carregar a chuva para dentro de seu quarto. Quando estava prestes a trancar a janela, um relâmpago atingiu
um dos pára-raios das torres do castelo e banhou a propriedade com uma luz azulada.
— No instante em que o campo entre o chalé e o castelo se iluminou, Kim viu uma imagem chocante. Uma figura fantasmagórica, quase nua, corria na grama. Embora não
pudesse ter certeza, já que a vira durante um breve instante, Kim achou ter reconhecido Eleanor.
Kim estremeceu quando um outro estampido explodiu seguindo
um clarão. Ignorando o zumbido em seus ouvidos, ela fez de tudo para enxergar na escuridão. Como a chuva era de vento, foi impossível. Esperou um pouco, até que
outro raio caísse, mas nada ocorreu.
Afastando-se da janela, Kim atravessou o corredor até o quarto de Edward. Estava convencida de que não era alucina-ção: havia alguém lá fora. O fato de ser Eleanor
ou não não importava. Ninguém deveria estar lá fora, em meio àquela tempestade, especialmente quando havia um animal feroz aterrorizando a vizinhança.
Edward precisava saber. Kim ficou surpresa em encontrar sua porta fechada. Sempre permanecera aberta. Bateu. Quando não houve resposta, ela bateu com mais força.
Como não houvesse resposta mesmo assim, olhou o trinco da velha porta. A chave estava por fora, o que queria dizer que não podia estar trancada. Kim abriu a porta.
De onde estava, ouvia a respiração profunda de Edward. Kim chamou seu nome diversas vezes, cada vez mais alto, mas ele não se mexeu.
Um outro raio encheu o quarto de luz. Kim teve uma breve visão de Edward, esparramado de barriga para cima, com os braços e as pernas esticados. Vestia apenas as
cuecas. Uma das pernas das calças não fora totalmente removida; suas calças estavam penduradas, do avesso, sobre a cama.
Kim mais uma vez se encolheu, esperando a trovoada, e esperou muito. Era como se a tempestade caísse apenas na propriedade.
Acendeu a luz do corredor para iluminar o quarto de Edward e correu até sua mesinha-de-cabeceira. Tentou acordá-lo mais uma vez. Quando viu que nada conseguira,
tentou balançá-lo de leve. Não acordou e sua respiração não mudou. Kim chacoalhou-o com força e, quando não obteve reação alguma, ficou preocupada. Era como se estivesse
em coma.
Kim virou o botão do abajur até a maior intensidade de luz. Edward era a própria imagem da tranqüilidade. Seu rosto estava flácido, sua boca, aberta. Kim pôs as
mãos em cada um
de seus ombros e o sacudiu insistentemente, chamando seu nome.
Só então sua respiração mudou. Seus olhos se abriram.
— Edward, está acordado? — indagou Kim. Ela o sacudiu mais uma vez, e a cabeça de Edward pendeu para um lado, como se pertencesse a um boneco de pano.
Edward pareceu confuso e desorientado até que notou Kim. Ela ainda o segurava pelos ombros.
Kim viu as pupilas de Edward dilatarem-se tal qual as de um gato prestes a atacar. Então apertou os olhos até se tornarem meros riscos, enquanto seus lábios se contorceram
como os de uma fera. O rosto de Edward, antes flácido, contorceu-se numa expressão de pura fúria.
Chocada com a repentina metamorfose, Kim soltou-lhe os ombros e deu um passo atrás. Ficou abismada que ficasse tão furioso por ter sido acordado. Edward deixou escapar
um som gutural que mais parecia um rosnado e sentou-se. Encarava Kim sem piscar.
Kim correu até a porta sabendo que Edward saltara atrás dela. Ouviu-o cair no chão, provavelmente devido às calças que não despira completamente. Kim bateu a porta
do quarto de Edward e a trancou a chave.
Após descer as escadas correndo, Kim correu até o telefone. Sabia que havia algo terrivelmente errado com Edward. Não estava apenas zangado por ter sido acordado,
algo acontecera com sua mente.
Kim discou emergência, mas antes da ligação completar ela ouviu a porta do quarto de Edward explodir e depois bater contra a parede num estrondo. Logo em seguida,
ouvia Edward rosnar no topo das escadas. Ele então começou a descê-las.
Transtornada de pavor, Kim largou o fone e investiu para a porta dos fundos. Enquanto corria olhava Edward por cima do ombro. Vislumbrou-o se chocar contra a mesa
da sala de jantar e atirá-la para um lado, tal sua ânsia em passar. Estava completamente enlouquecido.
Kim abriu a porta de supetão e precipitou-se para fora, para a chuva que caía pesada como uma cortina. Seu único pensamento
era conseguir ajuda e a fonte mais próxima era o castelo. Contornou a casa para cruzar o campo, correndo pela escuridão.
Um apavorante lampejo rasgou o céu, iluminando a paisagem, delineando por um instante a silhueta do castelo. Um trovão veio a seguir, reverberando na fachada encoberta.
Kim não perdeu o passo. Sentiu-se agradecida ao ver algumas janelas iluminadas na ala dos criados.
Chegando ao cascalho em frente ao castelo, Kim foi obrigada a diminuir o passo. Apesar do pânico ter amortecido o desconforto de correr descalça, as pedras tornavam-se
dolorosas demais para serem ignoradas. Andando rápido, ela se dirigiu à lateral do prédio, mas, ao se aproximar da ponte levadiça, notou que a entrada principal
encontrava-se convenientemente entreaberta.
Respirando com dificuldade, Kim entrou apressada. Correu em linha reta através do hall escuro até o salão, onde uma luz suave se derramava através de janelas duplas
viradas para o sul. Era a luz das cidades vizinhas, refletidas nas nuvens baixas.
Kim planejara atravessar a sala de jantar, indo até a cozinha e os aposentos dos criados, mas não tinha conseguido ir muito longe quando chocou-se com Eleanor. Uma
camisola branca de renda colava no corpo da mulher como uma segunda pele.
Kim parou, momentaneamente paralisada. Sabia que estivera certa: o vulto que vira correndo pelo campo fora realmente Eleanor. Kim começou a lhe contar a respeito
de Edward, mas as palavras morreram-lhe na garganta quando viu o rosto de Eleanor à meia-luz. Via nela a mesma indescritível aparência de fera que detectara em Edward
quando ele acordara. Para piorar as coisas, a boca de Eleanor estava lambuzada de sangue, como se tivesse comido carne crua.
O choque com Eleanor custou-lhe a vantagem sobre Edward. Já sem fôlego, ele cambaleou sala adentro e hesitou, examinando Kim com olhos de fera. Seu cabelo colava-se
à cabeça molhada. Vestia apenas uma camiseta e shorts, ambos cobertos de lama.
Kim virou-se para encará-lo. Mais uma vez perdeu o ar
diante de sua transformação. Não que seus traços tivessem mudado; mas seu rosto passara a irradiar uma ira bestial.
Edward avançou na direção de Kim, mas parou quando viu sua colega. Ignorando Kim por alguns instantes, partiu para cima de Eleanor. Quando chegou à distância de
um braço, pendeu a cabeça para trás lentamente, como se farejasse o ar. Eleanor fez o mesmo e puseram-se a cercar um ao outro.
Kim estremeceu. Era como se vivesse um pesadelo, assistindo a duas feras defrontarem-se na selva e certificando-se de que não eram presa e predador.
Kim andou para trás, lentamente, enquanto Eleanor e Edward ocupavam-se um com o outro. Assim, percebeu um caminho livre até a sala de jantar e correu. O movimento
brusco chamou a atenção dos outros dois. Como se por algum reflexo carnívoro primitivo, eles a seguiram.
Enquanto corria através da sala de jantar, Kim ia agarrando as cadeiras da mesa e atirando-as para trás, na esperança de retardar o avanço de seus perseguidores.
Funcionou melhor do que imaginara. Surpreendidos pelas cadeiras e incapazes de raciocinar, Edward e Eleanor se chocaram contra as cadeiras. Em meio a horríveis gritos
animalescos, caíram. Mas o artifício não os retardou por muito tempo. Enquanto cruzava a porta para a cozinha, olhou por cima do ombro e viu que se levantavam, tirando
as cadeiras de seu caminho, sem se importar com os ferimentos.
Assim que entrou na ala dos criados, Kim começou a gritar pedindo ajuda, mas não parou de correr. Chegou às escadas gritando e subiu até o segundo andar. Sem hesitar,
irrompeu no quarto que sabia ser ocupado por François. Encontrava-se em sua cama, dormindo de luz acesa.
Kim correu até ele, chamando seu nome. Sacudiu-o com violência, mas não conseguiu acordá-lo. Kim gritou e começou a sacudi-lo uma vez mais; de repente gelou. Apesar
do pânico, lembrou-se do quão difícil fora acordar Edward.
Kim deu um passo atrás. Os olhos de François abriram-se vagarosamente. Como ocorrera com Edward, o rosto de François sofreu uma incrível transformação. Seus olhos
se apertaram
e seus lábios se contorceram, mostrando os dentes. De sua boca surgiu um rugido selvagem. Em instantes, transformou-se em um animal, demente e feroz.
Kim virou-se para fugir, mas Edward e Eleanor já haviam chegado à porta, bloqueando sua saída. Sem pensar duas vezes, ela se atirou contra a porta de ligação com
a sala íntima da suíte e de lá saiu para o corredor. De volta à escadaria, correu até o andar seguinte e entrou no próximo quarto que sabia estar ocupado.
Kim parou na soleira, apoiando-se na porta aberta. Curt e David estavam no chão, seminus e cobertos de lama. A água pingava de suas cabeças, indicando que haviam
saído recentemente. A sua frente, um gato parcialmente desmembrado. Como Eleanor, seus rostos estavam lambuzados de sangue.
Kim bateu a porta. Podia ouvir os outros subindo as escadas. Virou e abriu a porta que levava à parte principal da casa. Pelo menos ela conhecia bem o caminho.
Percorreu toda a extensão do corredor da suíte principal. Como era virado para o sul, estava envolto numa luminosidade parecida com a do salão. Kim conseguiu desviar
das mesas console, das cadeiras de espaldar alto e dos sofás. Mas, em sua fuga apressada, escorregou num tapete e quase se chocou contra a porta da ala dos criados.
Após lutar brevemente com a maçaneta, abriu a porta. O corredor estava um breu, mas sabendo não haver móvel algum ali, Kim correu às cegas.
Percebeu, tarde demais, uma mesa inesperada; chocou-se com ela na altura do estômago, e perdeu o equilíbrio. Caiu com um estrondo medonho. Seu estômago latejava
e seu joelho direito ficara dormente. Sentia que algo escorria pelo seu braço e presumiu que fosse sangue.
Kim tateou pela escuridão. Então compreendeu no que tropeçara. Tratava-se das ferramentas dos bombeiros e de uma bancada. Haviam transferido seu equipamento para
a ala de hóspedes a fim de examinar e consertar a tubulação dos vasos sanitários.
Kim prestou atenção. Podia ouvir o barulho de portas sendo abertas e fechadas a distância, na ala dos criados. Pelos sons,
percebeu que as criaturas — não era capaz de chamá-los de pessoas no estado em que se encontravam — procuravam por ela a esmo. Não haviam seguido a única rota possível,
o que sugeria que não agiam de forma inteligente. Kim imaginou que tinham um uso limitado de seus cérebros e que agiam principalmente através de instinto e reflexo.
Kim se pôs de pé. A dormência que sentia no joelho transformava-se em dor lancinante. Tocando-o, sentiu que já começava a inchar.
Como seus olhos já haviam se acostumado à escuridão, Kim pôde ver a bancada e algumas das ferramentas. Viu um pedaço de cano e resolveu usá-lo como arma, mas desistiu
quando descobriu que era de PVC. Pegou então um martelo. Em seguida, deixou o martelo e optou pelo maçarico de acetileno e um acendedor. Se estas criaturas estivessem
agindo através do instinto, teriam medo de fogo.
Com o maçarico em punho, Kim andou como pôde até a escadaria da ala de hóspedes. Inclinou-se por cima da balaus-trada e olhou para baixo. No andar logo abaixo as
luzes do corredor estavam acesas. Kim prestou atenção. Os barulhos que ouvia pareciam vir do outro lado da casa.
Kim começou a descer as escadas, mas não foi muito longe. Após dar alguns passos, viu Gloria dois andares abaixo, no térreo. Andava de um lado para o outro, na base
das escadas, tal qual uma gata em frente a um covil. Infelizmente, ela viu Kim, soltou um gunhido e subiu as escadas.
Mudando de direção, Kim fugiu pelo corredor o mais rápido que pôde. Desta vez conseguiu desviar das ferramentas dos bombeiros. Entrou mais uma vez na casa principal
e mancou até o topo da escadaria principal. Atrás de si, ouviu um estampido e um uivo que presumiu ser Gloria se chocando contra as ferramentas.
Kim desceu a escadaria principal grudada às paredes para não ser vista de baixo. Chegando ao patamar, moveu-se vagarosamente para pôr a imensa sala em seu campo
de visão. Sentiu alívio ao constatar que não havia ninguém.
Respirando fundo, Kim desceu o último lance. Chegando ao
final, capengou o mais rápido possível até o hall. A uns três metros de seu destino, parou. Para sua mais absoluta consternação, Eleanor espreitava no final do corredor,
bem na frente da entrada. Andava de um lado para o outro, como Gloria o fizera na ala de hóspedes. Mas, ao contrário de Gloria, Eleanor não a viu.
Kim deu um passo para o lado para não ser vista por Eleanor. Ao fazê-lo, notou que alguém descia a escadaria principal e que logo estaria no patamar.
Com pouco tempo para medir as vantagens e desvantagens de seu ato, Kim coxeou freneticamente, atravessando o salão principal, e escapuliu para um lavabo escondido
embaixo da escadaria principal. Silenciosamente, fechou a porta e passou a tranca. Na mesma hora, ouviu passos na escada, bem acima de sua cabeça.
Tentou controlar a respiração enquanto ouvia os passos continuarem sua descida até desaparecerem nos espessos tapetes orientais que cobriam o chão de mármore do
salão.
Kim estava apavorada. Na verdade, até então não tivera tempo de medir a gravidade da situação e ficou petrificada. Ela também se preocupava com o joelho. E para
piorar sua condição miserável, estava ensopada e tremendo de frio.
Rememorou os acontecimentos dos últimos dias e perguntou-se se o estado primitivo de Edward e dos pesquisadores estaria ocorrendo todas as noites. Se assim fosse,
e se eles tivessem desconfiado disto, isto explicaria a mudança no ambiente do laboratório. Horrorizada, Kim compreendeu que havia uma boa chance de serem responsáveis
pelos recentes acontecimentos nas redondezas, atribuídos a um animal raivoso e a adolescentes vândalos.
Kim estremeceu, sentindo asco. Era claro para ela que o motivo de tudo isto era a Ultra. Era irônico que, ao tomarem a droga, os pesquisadores haviam ficado possuídos
como os afligidos de 1692.
Estes pensamentos deram-lhe alguma esperança. Se o que pensava fosse verdade, talvez eles voltassem ao normal pela
manhã, como num filme antigo de terror. Só o que precisava então era permanecer escondida até amanhecer.
Kim se abaixou e pôs o maçarico e o acendedor no chão. Tateando na escuridão, encontrou o gancho e usou a toalha para se secar ao máximo. Sua camisola estava ensopada.
Pôs a toalha em torno dos ombros para se aquecer e abraçou o corpo, tentando parar de tremer. Sentou-se no tampo do vaso sanitário para diminuir a pressão sobre
o joelho inchado.
O tempo passou. Kim não tinha como calcular quanto tempo passara. A casa ficara silenciosa. Mas de repente um estrondo de vidro se quebrando a apavorou. Esperara
que houvessem desistido de procurá-la, mas, obviamente, não era o que acontecera. Imediatamente em seguida ao estrépito, ouviu portas e armários sendo abertos mais
uma vez.
Alguns minutos depois, Kim ouviu alguém descer as escadas, acima de sua cabeça. Quem quer que fosse, descia vagarosamente e parava com freqüência. Kim se levantou.
Ocasionalmente, os espasmos violentos da tremedeira haviam feito com que o tampo batesse na porcelana do vaso. Não queria que isto acontecesse enquanto um deles
estivesse por perto.
Ficou atenta a um outro som persistente que ela não conseguiu identificar de imediato. Quando descobriu do que se tratava, tremeu com ainda mais violência. Alguém
farejava, da mesma forma que Edward fizera há duas noites no barracão. Lembrou que Edward lhe contara que um dos efeitos que haviam notado após começarem a tomar
a droga era o quão aguçados os sentidos se tornavam. A boca de Kim ficou seca. Se Edward conseguira farejar sua colônia no ar naquela noite, talvez pudesse farejá-la
agora.
Enquanto fazia o máximo para controlar sua tremedeira, quem quer que estivesse acima dela desceu o resto da escadaria. Lá chegando, o indivíduo parou mais uma vez,
voltando para se colocar diante da porta do lavabo.
Kim ouviu farejarem com vigor ainda maior. Então, a maçaneta foi sacudida como se tentassem abrir a porta. Kim prendeu a respiração.
Os minutos se arrastavam. Pareceu que os outros se aproximavam.
Pelos sons coletivos, Kim percebeu que o grupo estava reunido.
Kim sobressaltou-se quando alguém começou a esmurrar a porta repetidamente. A porta resistiu, mas por pouco tempo. Era uma porta de vários painéis e cada um deles
nada mais era que uma fina madeira. Kim sabia que não resistiria a uma investida conjunta.
O pânico retornou imediatamente e Kim se abaixou na escuridão, tateando à procura do maçarico. Quando não o encontrou imediatamente, seu coração acelerou. Desesperada,
procurou numa área maior. Sentiu grande alívio quando seus dedos o tocaram. Bem ao lado, encontrou o acendedor.
Quando se levantou, já com o maçarico e o acendedor em punho, as pancadas na porta recomeçaram. Pela rapidez dos golpes, sabia que havia mais de uma criatura lá
fora.
Com dedos trêmulos, Kim testou o acendedor. Ao comprimi-lo, uma faísca surgiu na escuridão. Passou o maçarico para a mão direita e girou o parafuso de orelhas que
se encontrava em sua lateral. Ouviu um assobio contínuo. Segurando o maçarico e o acendedor longe do corpo, conforme vira o bombeiro fazer, comprimiu o acendedor.
O maçarico acendeu com um zumbido.
Assim que conseguiu acender o maçarico, a porta começou a se partir sob os vários golpes. Uma vez rachada, a porta foi sendo quebrada às lascas, e várias mãos ensangüentadas
surgiram através das fendas. Para seu desespero viu a porta ser reduzida rapidamente a tábuas que iam sendo arrancadas.
Uma vez que a porta sumira, os pesquisadores pareciam animais enlouquecidos prestes a serem alimentados. Todos tentavam entrar no lavabo ao mesmo tempo. Numa confusão
de braços e pernas, só conseguiam bloquear o caminho uns dos outros.
Kim apontou o maçarico em sua direção. Fazia um zumbido rouco. Sua luz iluminava os rostos enfurecidos. Edward e Curt estavam mais próximos de Kim. Mirou o maçarico
neles e assistiu suas expressões mudarem de raiva para medo.
Os pesquisadores recuavam em pânico, evidenciando seu
atávico medo do fogo. Seus olhos arregalados não se desviavam da chama azul que saía do topo do maçarico.
Encorajada por sua reação, Kim saiu do lavabo com o maçarico empunhado na frente do corpo. A reação dos pesquisadores foi afastarem-se dela. Kim experimentou dar
um passo à frente enquanto eles retrocediam. O grupo todo caminhou até o salão, passando por baixo de um dos grandes candelabros.
Após darem mais alguns passos atrás, os pesquisadores começaram a se afastar um dos outros. Kim teria preferido que continuassem a formar um grupo compacto ou que
fugissem todos de uma só vez, mas não tinha como fazê-lo. Conseguia, no máximo, afugentá-los. Enquanto se movia, vagarosa e inexoravelmente, até a porta de entrada,
eles a seguiam. Tinha que mover o maçarico em círculos para mantê-los todos afastados.
O terrível medo que os pesquisadores haviam demonstrado inicialmente começou a diminuir ao se acostumarem com ele, especialmente quando não estava apontado diretamente
em sua direção. Quando Kim conseguiu chegar à metade do salão, alguns começavam a ficar mais audaciosos, especialmente Edward.
No momento em que Kim apontou a tocha para outra pessoa, Edward correu para a frente e agarrou sua camisola. Kim voltou a chama imediatamente em sua direção, queimando
sua mão. Ele soltou um grito horrendo e a soltou.
Em seguida, Curt saltou para a frente. Kim passou a chama em sua testa, queimando alguns de seus cabelos. Ele ganiu de dor e agarrou a cabeça.
Em uma de suas curvas, Kim viu que faltavam apenas uns sete metros até o corredor, mas os rodopios constantes haviam afetado seu equilíbrio. Começava a ficar tonta.
Tentou compensar mudando o lado para o qual girava, mas a manobra não era muito eficiente para afastar os pesquisadores.
Gloria conseguiu chegar perto enquanto Kim girava na direção oposta e agarrou um de seus braços.
Kim livrou-se da mão de Gloria, mas seu equilíbrio já estava comprometido e o movimento brusco a fez girar sem controle e ela caiu. Ao cair, o braço que segurava
o maçarico bateu numa
mesinha lateral com toda a força, fazendo com que o soltasse. O maçarico quicou na mesa, bateu no chão de mármore e saiu rolando no chão esmeradamente polido. Acabou
se chocando contra a parede, bem no local onde as cortinas de adamascado de seda se amontoavam.
Abraçando o braço doente com a mão oposta, Kim conseguiu se sentar. Ao seu redor, as criaturas se juntavam, prontas para o bote. Com um guincho coletivo caíram em
cima dela ao mesmo tempo, como aves de rapina num cervo ferido e condenado.
Kim gritou e lutou ao ser arranhada e mordida. Por sorte o ataque durou pouco tempo. Quando um assobio alto ecoou no salão, seguido por um lampejo de calor, interrompeu
o frenesi, Kim conseguiu fugir. Com as costas coladas num sofá, Kim olhou seus atacantes. Todos olhavam, boquiabertos, por cima de seu ombro. Seus rostos refletiam
uma luz dourada.
Virando-se, Kim viu um véu de chamas se espalhar com força explosiva. O maçarico havia ateado fogo nas cortinas, que queimavam como se banhadas em gasolina.
As criaturas gritavam juntas, observando o surgimento daquele inferno. Kim olhou mais uma vez para eles e viu o terror em seus olhos arregalados. Edward foi o primeiro
a correr, sendo imediatamente seguido pelos outros. Mas não correram para a porta da frente. Em pânico, subiram a escadaria principal.
— Não, não — gritou Kim para as figuras em fuga. Mas de nada adiantou. Não só porque não a compreendiam, mas também por não conseguirem ouvi-la. O rugir da muralha
de chamas sugava o som com sua fúria como um buraco negro engole a matéria.
Kim levantou o braço são para se proteger do calor intenso. Pondo-se de pé, claudicou até a porta principal. O fogo consumia o oxigênio do aposento, tornando a respiração
cada vez mais difícil.
Uma explosão às suas costas a jogou no chão. Gritou de dor ao cair por cima do braço machucado. Presumiu que o estrondo fora causado pela detonação do corpo do maçarico.
Com ainda
mais pressa em sair do prédio, ela lutou para se pôr de pé e cambaleou para a frente.
Kim jogou-se através da porta e foi mancando na direção da chuva forte e das rajadas de vento. Coxeou até a extremidade do chão de cascalho, em frente ao castelo,
rangendo os dentes pela dor no braço e no joelho. Virou-se e precisou proteger o rosto do calor intenso com o braço são. Olhou o castelo. O prédio antigo queimava
como um barril de pólvora. As chamas já chegavam às trapeiras do sótão.
Um lampejo iluminou o local brevemente. Para Kim, a cena era uma imagem do inferno. Balançou a cabeça num misto de desgosto e desânimo. O diabo realmente voltara
a Salem!
EPÍLOGO.
SÁBADO, 5 DE NOVEMBRO DE 1994
Aonde quer ir primeiro?—perguntou Kinnard, enquanto ele e Kim entravam pelo portão da propriedade dos Stewart.
— Não estou bem certa — disse Kim. Estava na poltrona do carona, apoiando o gesso que envolvia seu braço esquerdo.
— Vai ter que decidir logo. Vamos chegar a uma bifurcação assim que passarmos as árvores.
Kim sabia que Kinnard tinha razão. Já conseguia ver o campo através das árvores desfolhadas. Virou o rosto e encarou Kinnard. A luz pálida do sol de outono caía
pelas árvores e brincava em seu rosto, iluminando seus olhos escuros. Vinha sendo extraordinariamente amigo e ela se sentia muito agradecida por haver concordado
em fazer esta viagem com ela. Já fazia um mês desde a noite fatídica e esta era a primeira vez que retornava à propriedade.
— E aí? — perguntou Kinnard enquanto diminuía a velocidade.
— Vamos até o castelo. Ou ao que restou dele. Kinnard virou no lugar indicado. Mais à frente surgiram as ruínas carbonizadas. De pé, restavam apenas as paredes e
as chaminés.
Kinnard parou na ponte levadiça que agora levava a uma entrada negra e vazia. Desligou o motor.
— É pior do que eu imaginava—disse Kinnard, avaliando o que via através do pára-brisa. Olhou para Kim. Sentia seu nervosismo. — Você sabe que não precisa fazer esta
visita, se não quiser.
— Mas eu quero sim. Preciso encarar a situação mais cedo ou mais tarde.
Abriu a porta e saiu. Kinnard saiu também. Juntos, deram uma volta nas ruínas. Não tentaram entrar. Dentro das paredes, tudo eram cinzas, algumas das vigas não haviam
queimado completamente.
— É difícil crer que alguém tenha escapado vivo considerando-se a rapidez com a qual tudo isto queimou — observou Kim.
— Dois de seis não é um número tão bom assim. Além do mais, os dois que sobraram não estão ainda fora de perigo.
— É uma tragédia dentro de uma tragédia. Como Eliza-beth e seu feto disforme.
Chegaram a um outeirinho de onde tinham uma vista de toda a área incendiada. Kinnard balançou a cabeça com pesar.
— Que final mais apropriado para um episódio tão horrendo. As autoridades tiveram muita dificuldade em acreditar na história, até que a dentição de uma das vítimas
correspondeu às mordidas encontradas no osso do mendigo morto. Ao menos você deve se sentir vingada. No início todos duvidaram de você.
— Não tenho certeza se só realmente acreditaram depois que Gloria e Edward sofreram a transformação no hospital, em plena unidade de tratamento de queimados. Isto
sim fechou o caso, não as marcas de dentes no osso. As pessoas que assistiram confirmaram que havia acontecido durante o sono e que nem Gloria nem Edward lembravam
do ocorrido. Estes foram os pontos decisivos para que acreditassem na minha história.
— Acreditei em você de cara — disse Kinnard, olhando para Kim.
— É verdade, tenho que lhe dar o devido crédito por isto, e por várias outras coisas.
— Mas eu já sabia que estavam tomando uma droga que ainda não fora testada.
— Disse isto ao procurador-geral desde o começo, mas acho que não adiantou.
Kinnard olhou mais uma vez para as impressionantes ruínas.
— Este prédio velho deve ter queimado com uma rapidez...
— O fogo se espalhou com uma velocidade explosiva. Kinnard balançou a cabeça mais uma vez, desta vez por gratidão e por admiração.
— É incrível que tenha conseguido sair. Deve ter sido aterrorizante.
— O incêndio em si foi um anticlímax. Mas o resto sim, foi horrível, e cem vezes pior do que qualquer um possa imaginar. Você jamais acreditaria o que é ver pessoas
que conhece num estado animalesco como aquele. Mas para mim sublinhou que tomar drogas, quer sejam anabolizantes tomados por atletas, ou psicotrópicos tomados para
alterar traços de caráter, é um contrato faustiano.
— A medicina tem consciência disso há anos. Há sempre um risco. Até mesmo com antibióticos.
— Espero que as pessoas pensem nisto quando se sentirem tentadas a tomar uma droga para o que pensam ser defeitos em suas personalidades, como a timidez. Estas drogas
estão chegando; não há como parar as pesquisas que estão sendo feitas para desenvolvê-las. E se alguém duvidar que serão usadas com este intuito, é só examinar para
que alguns dos antidepressivos da atualidade estão sendo usados desde que entraram no mercado.
— O problema é que estamos desenvolvendo uma sociedade na qual há uma pílula para cada coisa.
— É exatamente por isto que há grandes possibilidades de haver um outro episódio como este que acabamos de vivenciar. É inevitável, com toda a demanda em potencial
para drogas psicotrópicas.
— Se houver um outro episódio do gênero, estou certo de que a indústria de bruxaria de Salem torcerá para que ocorra
aqui — riu Kinnard. — Sua experiência deu uma verdadeira alavancada no comércio.
Kim pegou um galho e começou a revirar o entulho do castelo. Alguns objetos de metal haviam sido distorcidos, tal a intensidade do fogo.
— Esta casa continha todo o legado material de doze gerações de Stewarts. Está tudo perdido.
— Sinto muito. Deve ser uma sensação muito triste.
— Na verdade não. A maioria era bagulho, menos algumas peças mobiliárias. Não havia nem mesmo um quadro decente, exceto o de Elizabeth, que sobreviveu ao incêndio.
A única coisa que realmente lamento ter perdido foram as cartas e os documentos que encontrara a seu respeito. Nós os perdemos e só o que restou foram duas cópias
feitas por Harvard. Estas cópias são as únicas provas do envolvimento de Elizabeth no julgamento das bruxas de Salem e isto não será o bastante para convencer a
maioria dos historiadores.
Passaram algum tempo olhando as cinzas. Por fim, Kinnard sugeriu que continuassem. Kim assentiu com a cabeça. Voltaram até o carro e foram até o laboratório.
Kim destrancou a porta. Passaram a recepção e abriram a porta interna. Kinnard ficou impressionado. Era apenas um espaço vago.
— Para onde foi tudo? Pensei que fosse um laboratório.
— E era. Eu disse para o Stanton que queria tudo fora daqui imediatamente. Disse que se não estivesse eu doaria tudo para instituições de caridade.
Kinnard fingiu quicar uma bola de basquete no chão e pular em direção à cesta. O som do salto de seu sapato ecoou pelo aposento.
— Podia transformar isto daqui em ginásio.
— Acho que preferiria que fosse um estúdio — disse Kiim.
— Fala sério?
— Acho que sim.
Deixaram o laboratório e foram de carro até o chalé. Kinnard ficou aliviado em ver que não estava vazio, como o laboratório.
— Seria uma pena destruir isto daqui. Você a transformou numa casinha muito gostosa.
— É realmente uma graça — admitiu Kim. Entraram na sala. Kinnard andou pelo cômodo e examinou tudo com cuidado.
— Acha que voltará para cá algum dia? — perguntou.
— Acho que sim. Algum dia. E você? Acha que algum dia conseguiria morar num lugar como este?
— É claro que sim. Depois de fazer aquele rodízio me ofereceram uma vaga com uma equipe do hospital de Salem. Tenho pensado muito sério nisto. Morar aqui seria ideal.
O único problema é que talvez me sentisse sozinho.
Kim olhou para Kinnard. Ele erguera as sobrancelhas de maneira provocadora.
— O que é isto, uma proposta de casamento?—perguntou.
— Talvez — disse Kinnard, evasivo. Kim pensou alguns minutos.
— Vamos ver como nos sentimos após uma temporada de esqui.
Kinnard riu.
— Gosto de seu senso de humor. Agora você consegue fazer piada de coisas que, eu sei, são importantes para você. Está muito mudada.
— Espero que sim. E não foi sem tempo—disse, indicando o retrato de Elizabeth.—Devo agradecer à minha antepassada, que me fez enxergar a necessidade de mudar e me
deu coragem para fazê-lo. Não é nada fácil mudar velhos modelos. Só espero manter o novo, e que você consiga conviver com ele.
— Por enquanto estou adorando. Não me sinto mais como se andasse pisando em ovos quando estamos juntos. Quero dizer que não preciso ficar tentando adivinhar como
você está se sentindo.
— Fico impressionada, mas agradecida, que algo de bom tenha saído deste episódio horrendo. A grande ironia é que isto tudo tenha me dado coragem de dizer ao meu
pai exatamente o que eu penso dele.
— Onde está a ironia? Eu diria que condiz com sua nova habilidade em comunicar como se sente.
— A ironia não é que eu o tenha feito, e sim o resultado. Uma semana após a conversa, durante a qual ele se tornou muito desagradável, me telefonou. Parece que estamos
dando início a um relacionamento significativo.
— Isto é maravilhoso. Como nós dois.
— É isso aí. Como nós dois.
Kim ergueu seu braço são e enlaçou o pescoço de Kinnard. Ele retribuiu o abraço com igual ardor.
SEXTA-FEIRA, 19 DE MAIO DE 1995
Kim parou e olhou a fachada de tijolos do prédio recém-construído no qual estava prestes a entrar. Acima da entrada, incrustada nos tijolos, uma placa de mármore
anunciava em baixo-relevo: OMNI PRODUTOS FARMACÊUTICOS. Não sabia ao certo como se sentia com o fato da companhia ainda existir, em vista de tudo o que ocorrera.
Mas compreendia que Stanton investira tudo nesta empreitada e não a deixaria simplesmente morrer.
Kim abriu a porta e entrou. Deixou seu nome na recepção. Após aguardar alguns momentos, uma mulher agradável, vestida de forma conservadora, apareceu para acompanhá-la
até a porta de um dos laboratórios da companhia.
— Quando terminar a visita acha que conseguirá encontrar a saída sem dificuldades? — perguntou a mulher.
Kim garantiu-lhe que sim e agradeceu a atenção. Quando a mulher se foi, abriu a porta do laboratório e entrou.
Pela descrição de Stanton, Kim já sabia o que esperar. A
porta pela qual passara não a levara ao interior do laboratório. Levara-a até uma ante-sala. A parede de ligação ao laboratório era de vidro, da altura da cintura
até o teto. A frente do vidro, havia várias cadeiras. Na parede, abaixo do vidro havia um comunicador e uma portinhola com maçaneta de latão que mais parecia um
cofre.
Do outro lado do vidro o laboratório de biomédica de última geração tinha uma semelhança assustadora com o laboratório construído no estábulo de sua propriedade.
De acordo com as instruções de Stanton, Kim sentou-se em uma das cadeiras e apertou o botão vermelho de chamada no controle do comunicador. Dentro do laboratório,
viu que duas figuras se punham de pé atrás da bancada onde trabalhavam. Ao virem Kim, aproximaram-se.
Kim imediatamente sentiu uma onda de empatia pelo casal. Ela jamais os teria reconhecido. Eram Edward e Gloria, ambos terrivelmente desfigurados devido às queimaduras
sofridas. Praticamente não tinham cabelos e vinham sendo submetidos a várias cirurgias reparadoras. Caminhavam tesos, empurrando suportes de soro à sua frente com
mãos nas quais faltavam dedos.
Quando falaram, suas vozes não passaram de sussurros roucos. Agradeceram a Kim por ter vindo e expressaram seu desapontamento em não poderem mostrar-lhe o laboratório,
adequado a seus defeitos físicos.
Durante uma breve pausa na conversa, Kim perguntou como estavam de saúde.
- Amos bem, considerando o que temos de enfrentar — respondeu Edward. — Nosso maior problema é que ainda temos os ataques, embora a Ultra já tenha deixado nossos
cérebros completamente.
— Continuam ocorrendo durante o sono? — indagou Kim.
— Não só durante o sono. Agora ocorrem de maneira espontânea, sem aviso prévio, como um ataque de epilepsia. O bom é que duram no máximo meia hora, mesmo quando
não somos medicados.
— Sinto muito — disse Kim, lutando contra a tristeza que ameaçava apossar-se dela. Estava diante de pessoas cujas vidas foram praticamente destruídas.
— Nós é que sentimos muito — contrapôs Edward.
— A culpa foi nossa. Deveríamos saber que não podíamos tomar uma droga sem que os estudos de toxicidade fossem concluídos.
— Não teria feito diferença alguma. Até hoje os estudos com animais não demonstraram este efeito colateral apresentado apenas em humanos. Na verdade, o fato de termos
tomado a droga pode ter poupado o sofrimento de um enorme número de voluntários.
— Mas existem outros efeitos colaterais — observou Kim.
— É verdade — admitiu Edward. — Eu deveria ter percebido a importância da perda de memória de curta duração. Era a droga mostrando sua capacidade de bloquear funções
nervosas em nível de rede.
— Sua nova pesquisa já levou a alguma compreensão de sua atual condição? — perguntou Kim.
— Passamos a observar um ao outro durante os ataques e já conseguimos documentar o que havíamos concebido como o mecanismo de ação — explicou Gloria. — A Ultra se
acumula até bloquear o controle cerebral do sistema límbico e dos centros cerebrais inferiores.
— Mas por que ainda sofrem os ataques se a droga já foi eliminada?
— É esta a grande questão — disse Edward. — É o que tentamos compreender. Acreditamos que seja algo parecido com osflashbacks sofridos por algumas pessoas após o
uso de drogas alucinógenas. Estamos estudando o problema para ver se conseguimos revertê-lo.
— A dilantina funcionou durante um curto período no controle dos ataques—relatou Gloria.—Então desenvolvemos uma tolerância e agora não funciona mais. O fato de
ter funcionado por um breve período nos encorajou a procurar outra droga.
— Fico surpresa pela Omni ainda estar funcionando — afirmou Kim, tentando mudar de assunto.
— Nós também — disse Edward. — Surpresos e contentes. Se não, não teríamos este laboratório. Stanton não desistiu e sua persistência está valendo a pena. Um dos
outros alcalóides do novo fungo mostrou uma promessa significativa como um novo antidepressivo, e então ele conseguiu angariar mais fundos.
— Espero que a Omni tenha pelo menos abandonado a Ultra — disse Kim.
— De jeito nenhum! — exclamou Edward. — Este é o outro ponto forte de nossa pesquisa: tentar descobrir qual porção da molécula da Ultra é responsável pelo bloqueio
meso-limbicocerebral que batizamos de síndrome de Mr. Hyde.
— Sim, claro — disse Kim. Estivera prestes a desejar-lhes boa sorte, mas não conseguiu fazê-lo. A Ultra já causara problemas o bastante.
Kim ia se despedir e prometer que voltaria quando notou que os olhos de Edward haviam se tornado vidrados. Quando seu rosto inteiro se transformou, como fizera naquela
noite fatídica, na hora em que o acordara. Em questão de segundos, sua ira tornava-se incontrolável.
Sem aviso e sem ser provocado, Edward se atirou em cima de Kim, colidindo com o vidro numa pancada surda.
Kim saltou para trás, assustada. Gloria reagiu abrindo o fluxo do soro.
Durante alguns instantes, Edward tentou em vão arranhar o vidro. Então seu rosto ficou calmo e os olhos se reviraram. Em câmera lenta, ele foi murchando como um
balão que vai perdendo o ar aos poucos. Com extrema habilidade, Gloria foi baixan-do-o ao chão vagarosamente.
— Sinto muito — disse Gloria enquanto ajeitava a cabeça de Edward com ternura. — Espero que Edward não a tenha assustado muito.
— Estou bem—sussurrou Kim, mas o coração batia forte em seu peito e ela estava trêmula. Hesitante, chegou bem perto do vidro para olhar Edward, ainda deitado no
chão. — Ele vai ficar bem?
— Não se preocupe. Já estamos acostumados a este tipo de coisa. Agora entende por que temos estes suportes. Vimos testando vários tranqüilizantes. Estou satisfeita
por este ter funcionado com tanta rapidez.
— E o que fariam se ambos sofressem um ataque ao mesmo tempo? — indagou Kim, tentando se concentrar em alguma coisa.
— Já pensamos nisso. Infelizmente ainda não tivemos nenhuma idéia infalível. Por enquanto não aconteceu. Só o que nos resta é continuar tentando.
— Admiro sua coragem — elogiou Kim.
— Acho que não temos escolha — declarou Gloria.
Kim se despediu e saiu. Estava nervosa. Ao descer no elevador, sentiu as pernas fracas. Tinha medo de que sua visita trouxesse de volta os pesadelos que começara
a ter após a terrível noite.
O sol de primavera fê-la sentir-se melhor. O simples fato de estar a céu aberto já ajudava, mas não podia deixar de rememorar a imagem de Edward se chocando contra
o vidro da prisão à qual se condenara.
Quando Kim chegou ao carro, parou e virou-se para olhar a Omni. Perguntou-se que tipos de drogas esta companhia despejaria no mundo num futuro próximo. Sentiu-se
estremecer. O pensamento a fez jurar que controlaria ainda mais seu próprio uso de drogas, qualquer que fosse a droga!
Kim destrancou a porta e entrou no carro. Não ligou o motor imediatamente. Na sua mente ainda via o rosto de Edward sofrer a horrível transformação. Era algo que
jamais esqueceria.
Saindo do estacionamento, Kim fez algo que a surpreendeu. Em vez de voltar a Boston, conforme planejara, pegou a direção norte. A experiência ocorrida na Omni dera-lhe
um irresistível desejo de voltar à propriedade, onde não pisava desde a visita que fizera na companhia de Kinnard.
Como a estrada estava vazia, a viagem foi rápida e meia hora depois Kim abria o cadeado do portão. Foi direto ao chalé e saiu do carro. Imediatamente teve a estranha
sensação de estar voltando para casa após uma árdua jornada.
Atrapalhando-se com as chaves, abriu a tranca e entrou. Na penumbra da sala, olhou para o retrato de Elizabeth. O verde intenso dos olhos e a aparência decidida
do maxilar eram exatamente como Kim os lembrava, mas havia algo de novo, algo que jamais percebera. Elizabeth parecia sorrir!
Kim piscou e olhou mais uma vez. O sorriso ainda estava lá. Era como se Elizabeth reagisse ao fato de algo de bom ter decorrido de seu suplício tantos anos depois.
Fora finalmente vingada.
Impressionada com este efeito, Kim chegou mais perto do quadro para admirar o formato que o artista usara nos cantos dos lábios de Elizabeth. Kim sorriu também,
compreendendo que eram suas próprias percepções refletidas no rosto de Elizabeth.
Virou-se e olhou a vista que Elizabeth tinha de seu lugar, acima da lareira. Naquele instante, Kim decidiu voltar para o chalé. O trauma emocional gerado por aquela
noite derradeira já diminuíra significativamente e queria voltar para casa, para viver à sombra da memória de Elizabeth. Lembrou-se de que tinha a mesma idade que
Elizabeth na ocasião de sua morte tão injusta. Kim jurou viver o resto de sua vida por ambas. Era a única forma que tinha de retribuir o autoconhecimento que Elizabeth
lhe proporcionara.
BIBLIOGRAFIA SELECIONADA
1. Boyer e Nissenbaum, Salem Possessed (Salem possuída). Cambridge, MA. Harvard University Press, 1974.
Para aqueles que fiquem tentados a ler mais a respeito do episódio de bruxaria e Salem, este é um livro que recomendo. Tenho certeza de que Kim e Edward concordariam.
É um livro fascinante e mostra como a história sai das páginas com o uso de fontes primárias que lidam com cidadãos comuns. Dá uma noção divertida da Nova Inglaterra
na última metade do século XVII.
2. Hansen, Chadwick, Witchcraft in Salem (A bruxaria em Salem). Nova York. George Braziller, 1969.
Este é o segundo livro que recomendo sobre o ocorrido em Salem. Parte do princípio de que nem todos os envolvidos eram inocentes! Minha primeira reação foi de surpresa,
mas depois achei o livro intrigante.
3. Kramer, Peter, Listening to Prozac. Nova York. Viking, 1993. (Ouvindo o Prozac. Rio de Janeiro, Record, 1994.)
Embora este livro demonstre maior clemência com o uso de drogas psicotrópicas para a alteração da personalidade do que eu, há uma discussão de ambos os lados da
questão. É esclarecedor, interessante e intrigante.
4. Matossian, Mary, Poisons ofthe Past: Molds, Epidemics andHistory (Venenos do passado: mofos, epidemias e História). New Haven, CT. Yale University Press, 1989.
Este livro cria um novo respeito pelo modesto mofo. Para
mim, foi extremamente estimulante no que tange o esqueleto da história de Risco calculado.
5. Morgan, Edmund, The Puritan Family (A família puritana). Nova York. Harper & Row, 1944.
O curso que tive de História Americana no científico não foi adequado para o pano de fundo da vida na era do puritanismo. Este livro preencheu as lacunas.
6. Restak, Richard, Receptors (Receptores). Nova York. Bantam, 1994.
Este livro é para os leitores que desejarem obter conhecimento atualizado sobre o funcionamento do cérebro e os rumos da pesquisa de uma maneira estimulante.
7. Werth, Barry, The Billion Dollar Molecule (A molécula de um bilhão de dólares). Nova York. Simon & Schuster, 1994.
Se alguém duvida dos efeitos nocivos da especulação financeira no mundo científico de hoje, este livro é um must.
Fim.
Mais Robin Cook...


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2 Response to " Robin Cook - livros-3"

Rita Prince disse...

Meu nome é Hellen Els, de Baltimore. Eu gostaria de compartilhar meus testemunhos com o público em geral sobre o que este homem chamado Dr.Kruma acabou de fazer para mim, este homem acaba de trazer de volta a alegria para a minha casa e minha vida em pessoa i ouvido falar dele antes e eu estava duvidando dele, mas quando eu dei-lhe uma tentativa em relação a minha incapacidade de ter meu próprio bebê e ficar grávida para o homem que me casei aos chamados Mr.Kenny estávamos juntos por um longo tempo e nós amamos a nossa auto de mas quando eu era incapaz de lhe dar um filho durante 2 anos, ele me deixou e me disse que ele não pode continuar mais, então agora eu estava procurando maneiras de levá-lo de volta até que um amigo meu me disse sobre este homem e deu seu contato via e-mail:
(Drkrumacrumen@gmail.com)
então você não vai acreditar quando eu contactado ele, obrigado mais uma vez a grande Dr.Kruma para o que você tem feito por mim, se você está lá fora passando por qualquer um desses problemas listados abaixo:
1) Se você quiser que o seu ex-costas.
(2) se você sempre tem pesadelos.
(3) Você quer ser promovido em seu escritório.
(4) Você quer mulheres / homens a correr atrás de você.
(5) Se você quer um filho.
(6) Você quer ser rico.
(7) Você quer amarrar o seu marido / esposa para ser
para sempre teu.
(8) Se você precisar de ajuda financeira.
(9) Você foi enganado e que pretende recuperar você perdeu dinheiro ou propriedades? Contactá-lo via e-mail: Site drkrumacrumen@gmail.com: http://drkrumacrumenspellhome.tripod.com/drkrumasolutionhome/

david james disse...

Como Dr Uroko O Grande Mágico Caster ajudar a trazer de volta My Lover Ex: Marido

Olá! Meu nome é Kathie Sherine, Am dos EUA, Texas. e estou muito feliz por postar neste blog sobre como um grande lançador de magias me ajudou em trazer de volta o amor da minha vida. Eu sei que há muitas mulheres como eu lá fora que têm feito tanto para ter de volta o seu marido, eu estou aqui para dizer-lhe tudo para procurar mais longe porque a resposta está aqui. Eu sinceramente acredito que se houver até cinco rodízios mágica como o Dr. Uroko este mundo seria um lugar melhor, eu vi pessoas reclamando sobre como falso castas magia prometeu ajudá-los, mas não, mas com o Dr. Uroko eu poderia dizer-lhe o seu problema é já resolvido. Meu marido e eu tinha sido separados por 3 anos e eu não podia suportar sem viver sem ele, eu já tentou de tudo para tê-lo de volta, mas nada estava funcionando até que eu vi inúmeros testemunhos sobre um lançador de magias chamado Dr Uroko e quão grande o seu trabalho é. Entrei em contato com ele via e-mail (drurokospellcaster@gmail.com) imediatamente e siga o passo que ele pede e nas próximas 48 horas meu amante me ligou e estava ansioso para o meu perdão e que ele desejava nada mais do que ter-me em seus braços para sempre . Enchi tanta alegria e felicidade que eu encontrei o Dr. Uroko, espero que todos aqui vai encontrar este testemunho da mina e obter o seu marido de volta em apenas 48 horas, graças ... entre em contato com o seu e-mail: drurokospellcaster@gmail.com ou ligue 2347059352550

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