Resident Evil #1 Umbrella Conspiracy
[S.D. Perry]
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Infelizmente, várias pessoas estão se utilizando de nosso árduo trabalho para ganhar dinheiro e enganar fãs
desinformados, fazendo-os comprar as traduções por um alto preço, sendo que elas podem ser lidas
gratuitamente aqui no no site. Estamos cansados de tentar tomar providências, e o único meio que temos agora
de informar do nosso trabalho de tradução é avisar no nosso próprio site. Por várias vezes, pensamos seriamente
em retirar as traduções do site, devido a tanta polêmica, mas não seria justo para com os fãs.
[Prólogo]
Latham Weekly - 2 de Junho de 1998
"Assassinatos bizarros cometidos em Raccoon City"
RACCOON CITY O corpo mutilado de Anna Mitaki de 42 anos foi descoberto ontem num terreno abandonado
não muito longe de sua casa no nordeste de Raccoon City, fazendo-a ser a quarta vítima dos supostos
"assassinos canibais". De acordo com relatórios do investigador de outras vítimas recentes, o corpo de Anna
mostrou ter sido parcialmente comido. As marcas das mordidas são aparentemente humanas.
Logo depois do descobrimento de Anna por dois corredores à aproximadamente nove horas da noite passada,
Chefe Irons fez um breve discurso insistindo que o RPD está "trabalhando solicitamente para apreender os
criminosos por tantos crimes horríveis" e que ele está consultando com oficiais da cidade sobre mais medidas de
proteção para os cidadãos de Raccoon City. Em adição, outros três morreram de provável ataque animal em
Raccoon Forest há algumas semanas, aumentando o número de vítimas para sete... Raccoon Times - 22 de
Junho de 1998"Terror em Raccoon! Mais vítimas mortas"RACCOON CITY Os corpos de um jovem casal foram
encontrados no domingo de manhã no Victory Park, fazendo Deanne Rusch e Christopher Smith a oitava e a nona
vítima do reino de violência que tem aterrorizado a cidade desde maio deste ano. Ambas de 19 anos, as vítimas
foram dadas como desaparecidas pelos pais preocupados no sábado à noite, sendo achadas por policiais na
margem oeste do Victory Lake, à aproximadamente duas da madrugada. Embora nenhum pronunciamento oficial
tenha sido feito, testemunhas do descobrimento confirmam que ambas as vítimas tem ferimentos iguais aos
achados nas outras. Se os assassinos são humanos ou não, ainda não foi anunciado. De acordo com amigos do
casal, os dois falavam sobre capturar os "cães selvagens" recentemente descobertos no parque densamente
florestado, e planejavam violar o horário de recolher da cidade para ver uma dessas criaturas noturnas. O Prefeito
Harris marcou uma entrevista com a imprensa para esta tarde, e é esperado para fazer um pronunciamento a
respeito da atual crise, desejando reforço mais rígido no horário de recolher...
Cityside - 21 de Julho de 1998
"S.T.A.R.S." Special Tactics and Rescue Squad enviado para salvar Raccoon
RACCOON CITY Com o desaparecimento de três excursionistas em Raccoon Forest no começo dessa semana,
oficiais da cidade fizeram um bloqueio na rota rural 6 nos pés de Arklay Mountains. O Chefe de polícia, Brian Irons,
anunciou ontem que o S.T.A.R.S. participará da busca dos excursionistas e também trabalhará com o R.P.D. até
haver um fim para os assassinatos e desaparecimentos que estão destruindo a nossa comunidade.O Chefe
Irons, um prévio membro do S.T.A.R.S., disse hoje (em uma entrevista exclusiva por telefone) que "esta é uma
boa hora para usar os talentos desses dedicados homens e mulheres a favor da segurança da cidade. Nós
tivemos nove assassinatos brutais e ao menos cinco desaparecimentos em dois meses e todos esses
acontecimentos ocorreram nas proximidades de Raccoon Forest. Isso nos faz crer que os criminosos podem
estar escondidos em algum lugar no distrito de Victory Lake, e o S.T.A.R.S. tem o tipo de experiência que nós
precisamos para achá-los." Ao perguntarmos porque o S.T.A.R.S. não foi convocado antes, Chefe Irons disse
que a equipe esteve ajudando o R.P.D. desde o começo, e que eles deveriam ser uma "adição bem vinda" à
força tarefa que esteve trabalhando nos assassinatos o tempo todo. Fundado em Nova Iorque em 1967, o
S.T.A.R.S. foi originalmente criado como uma medida anti-culto terrorista por um grupo de oficiais militares
aposentados e ex-agentes da CIA e FBI.
Sob direção do antigo diretor da NSDA (National Security and Defense Agency / Agência de Segurança e Defesa
Nacional), Marco Palmiere, o grupo rapidamente expandiu seus serviços, trabalhando com delegacias de polícia
locais. Cada escritório do S.T.A.R.S. é projetado para trabalhar como uma unidade completa. O S.T.A.R.S.
montou sua unidade em Raccoon City através de arrecadamentos de fundos de vários empresários locais em
1972, e é atualmente liderado pelo capitão Albert Wesker, promovido à posição há menos de seis meses...
[1]
Jill já estava atrasada para a reunião quando, de alguma maneira, deixou suas chaves caírem na xícara de café,
a caminho da porta. Desacreditada com o leve ting no fundo da xícara, ela ainda deixou cair uma grossa pilha de
documentos que carregava debaixo do outro braço.
"Ah, droga".
Ela viu as horas assim que ia para a cozinha com o copo na mão. Wesker havia marcado a reunião para 19:00
em ponto, significando que ela só tem nove minutos para fazer uma viagem de dez, achar um lugar para
estacionar e pôr o traseiro numa cadeira. É primeira reunião desde que o S.T.A.R.S. assumiu o caso - droga, a
primeira reunião desde que ela foi transferida para Raccoon - e ela vai se atrasar.
Deve ser a primeira vez em anos que eu me preocupo em estar no horário, e acabo parando na porta...
Resmungando, ela foi até a pia, sentindo-se tensa e brava consigo mesma. Era o caso, o maldito caso. Ela pegou
as cópias dos arquivos logo depois do café da manhã, e passou o dia todo mexendo nos relatórios, procurando
por algo que os policiais não viram - e se sentia cada vez mais frustrada quando o tempo passava e não achava
nada de novo.
Ela virou a xícara e tirou as mornas chaves, enxugando-as no seu jeans enquanto corria para a porta da frente.
Ela se abaixou para recolher os papéis e parou - olhando para a brilhante foto colorida.
Oh, meninas...
Ela ergueu a foto vagarosamente, sabendo que não tinha tempo e ainda incapaz de tirar os olhos das delicadas
faces cobertas de sangue. Becky e Priscilla McGee. Nove e sete anos.
Você pode continuar fingindo ou pode admitir. Tudo está diferente agora. Está diferente desde o dia em que
morreram.
Quando Jill se mudou para Raccoon, ela andava sob muito estresse, incerta sobre a transferência e até mesmo
se queria ficar no S.T.A.R.S.. Ela era boa no trabalho, mas só o pegou por causa de Dick; depois do processo, ele
começou a pressioná-la para que seguisse outra profissão. Durou um tempo, mas o pai dela era persistente,
dizendo sempre que um Valentine na cadeia era demais. Com o treinamento e o passado dela, não havia muitas
opções - mas o S.T.A.R.S., ao menos, apreciava suas habilidades, e não se importava com o resto. O salário era
decente e havia o elemento de risco que ela passou a gostar... Em retrospecto, a mudança de carreira foi bem
fácil; isso deixou Dick feliz.
Mesmo assim, a mudança tem sido mais difícil do que ela pensava. Pela primeira vez, desde que Dick foi preso,
ela se sentiu realmente sozinha. E trabalhar pela lei começou a parecer uma piada - a filha de Dick Valentine
trabalhando pela verdade e justiça. Sua promoção para os Alphas, uma boa casa nos subúrbios - era loucura. Ela
pensou seriamente em abandonar tudo e voltar a ser o que era...
.. até que duas garotinhas, que viviam do outro lado da rua, apareceram na sua porta perguntando se ela era
mesmo uma policial. Seus pais estavam no trabalho, e elas não conseguiam achar o cachorro...
.. Becky em seu vestido escolar verde, Pris em seu macacão - ambas tímidas e chorosas...
O filhotinho estava andando num jardim a algumas quadras dali. Sem esforço, Jill fez duas novas amigas. As duas
irmãs praticamente adotaram Jill; apareciam depois da escola trazendo flores, brincavam em seu jardim nos fins
de semana, cantando as intermináveis músicas aprendidas com filmes e desenhos.
As meninas, miraculosamente, tiraram a solidão de Jill. Pela segunda vez em seus vinte e três anos, ela se sentiu
parte da comunidade a qual vivia e trabalhava.
Seis semanas atrás, Becky e Pris se afastaram de um piquenique em família no Victory Park - e se tornaram as
duas primeiras vítimas dos psicopatas que, desde então, vem aterrorizando a cidade.
A foto tremeu levemente em sua mão. Becky deitada, olhando cegamente para o céu, com um buraco na
barriga. Pris estava estendida próxima a ela, braços esticados, pedaços de carne arrancados selvagemente de
seus membros. Ambas foram estripadas, morrendo de forte trauma antes de sangrarem. Se elas tivessem
gritado, ninguém ouviria nada...
Chega! Elas se foram e você pode finalmente fazer algo!
Jill colocou a papelada de volta na pasta e saiu logo depois, respirando profundamente. A noite estava
começando, o cheiro da grama estava forte no quente ar do verão. Em algum lugar rua abaixo, um cachorro latia
entre as crianças.
Ela foi para o seu cupê cinza estacionado na rua, tentando não olhar para a silenciosa casa dos McGee.
Jill dirigiu pelas largas ruas do bairro, vidro abaixado, atingindo o limite de velocidade, mas de olho nas crianças e
animais. Não haviam muitos deles por ali. Desde o início do problema, mais e mais pessoas começaram a manter
as crianças dentro de casa, mesmo durante o dia.
Seu cupê tremia enquanto subia a rampa de acesso para a auto estrada 202. O morno e seco vento trazia seu
longo cabelo para o rosto. Era bom, como se estivesse acordando de um sonho ruim.
Sendo destino ou sorte, sua vida foi afetada pelo que estava acontecendo em Raccoon City. Ela não podia
continuar fingindo ser apenas uma ex-ladra, tentando ficar fora da cadeia, tentando andar na linha para fazer seu
pai feliz - ou que o S.T.A.R.S. tinha apenas outro caso para resolver. As crianças mortas, os assassinos soltos
para matar de novo. Isso importava para ela.
O relatório das vítimas flutuava ao seu lado; nove espíritos impacientes, talvez, Becky e Pris entre eles.
Ela descansou seu braço direito sobre os papéis, parando os gentis movimentos - e jurou que acharia o
responsável, não importa o que custe. Não importa o que foi no passado ou será no futuro, ela mudou... e não
será capaz de descansar até que os assassinos paguem pelos seus atos.
***
"E aí, Chris!".
Chris se virou da máquina de soda e viu Forest Speyer descendo o corredor em sua direção, com um grande
sorriso. Forest era alguns anos mais velho que Chris, mas parecia um adolescente rebelde - cabelo comprido,
jeans apertado, e uma caveira fumando cigarro tatuada no braço esquerdo. Ele também era um excelente
mecânico, e um dos melhores atiradores que Chris já viu em ação.
"E aí, Forest. Como vai?". Chris tirou uma lata de soda da máquina e olhou no relógio. Ele ainda tinha alguns
minutos antes da reunião. Chris sorriu para Forest que parou em sua frente com os olhos azuis brilhando. Forest
estava carregando um monte de equipamento - colete, cinto de utilidades e uma mochila.
"Wesker deu o 'vai em frente' a Marini para começar a busca. O Bravo Team vai entrar em ação". Ele jogou
suas coisas nas cadeiras dos visitantes, ainda sorrindo.
"Quando?". Chris perguntou.
Forest colocava o colete à prova de balas enquanto falava. "Agora. Depois que eu equipar o helicóptero.
Enquanto vocês Alphas ficam sentados fazendo anotações, nós estamos indo chutar o traseiro de alguns
canibais!".
"É... mas fique de olho no seu, tá bom? Eu ainda acho que há mais acontecendo do que alguns idiotas vagando
pela floresta".
"Você sabe disso". Forest jogou o cabelo para trás e pegou o cinto, já concentrado na missão. Chris pensou em
dizer mais, mas hesitou. Forest era um profissional; não precisava ser dito para tomar cuidado.
Você tem certeza, Chris? Você acha que Billy era cuidadoso o bastante?
Suspirando, Chris deu um toque no ombro de Forest, saiu pela porta e desceu o corredor. Ele estava surpreso
que Wesker tenha mandado os times separadamente. Mesmo sendo normal para um time menos qualificado
fazer o reconhecimento, esta não é exatamente uma operação normal. O número de mortes a qual estão lidando
era suficiente para um combate mais agressivo. O fato de haver sinais de organização nos assassinatos, deveria
tê-los trazido para o nível A1, mas Wesker ainda estava tratando-os como uma espécie de treino.
Ninguém mais vê isso; eles não conheciam Billy...
Chris pensou de novo sobre a noturna ligação que recebeu de um amigo de infância semana passada. Ele não
teve notícias de Billy por um tempo, mas sabia que tinha conseguido uma posição de pesquisa com a Umbrella; a
companhia farmacêutica que era a única contribuidora para a prosperidade econômica de Raccoon City. Billy não
era do tipo de pessoa que se joga nas sombras, mas sua aterrorizada voz acordou Chris, enchendo-o de
preocupação. Billy disse que sua vida estava em perigo, que todos eles estavam em perigo. Ele implorou para se
encontrar com Chris num restaurante - e nunca apareceu. Desde então ninguém mais ouviu falar nele.
Chris pensou nisso durante todas as noites, tentando se convencer de que isso não tinha nada a haver com os
ataques. Os policiais que vasculharam o apartamento de Billy, não acharam nada que indicasse um crime... mas
os instintos de Chris o disseram que seu amigo estava morto, e que foi morto por alguém que queria calá-lo.
Eu devo ser o único. Irons não dá a mínima e o time acha que eu estou chocado com a morte de um velho
amigo...
Ele tirou os pensamentos da cabeça assim que virou no corredor, suas botas fazendo ecos. Ele tinha que se
concentrar no que poderia fazer para descobrir o que aconteceu com Billy.
Mas ele tentou não pensar em nada enquanto se aproximava do escritório do S.T.A.R.S., querendo estar de
cabeça fria para a reunião. As fluorescentes chegavam a incomodar sobre a luz do entardecer que preenchia o
corredor; o departamento policial era um clássico pedaço de arquitetura. Telhado entalhado, muitos detalhes em
madeira, e tinha muitas janelas projetada para deixar o sol entrar. Quando Chris era criança, o prédio foi a
Prefeitura de Raccoon City. Com o aumento populacional há uma década, o lugar se transformou numa biblioteca,
e quatro anos atrás virou uma delegacia. Parecia que tinha sempre algum tipo de construção acontecendo...
A porta do escritório abriu, o som de irritadas vozes masculinas encheram o corredor. Chris hesitou por um
instante, ouvindo a do Chefe Irons entre elas. "Me chame de Brian" Irons era um centralizado político disfarçado
de policial. Não era segredo que suas mãos estavam em mais algum lugar na cidade.
Chris escutou a voz de Irons. É difícil acreditar que um dia ele liderou o S.T.A.R.S. de Raccoon. Ainda mais se
algum dia ele se tornar o prefeito.
Chris entrou na sala que servia de base de operações do S.T.A.R.S..
Barry e Joseph estavam conversando na mesa da recruta. Brad Vickers, o piloto do Alpha Team, estava bebendo
café e olhando para a tela do computador central. Do outro lado da sala, o Capitão Wesker estava encostado em
sua cadeira com as mãos atrás da cabeça, sorrindo com alguma coisa que o Chefe Irons estava dizendo.
"Aí eu disse, 'Você vai imprimir o que eu digo para imprimir, Bertolucci, e você vai gostar, senão você nunca mais
vai pegar outra cota daqui!'. E ele disse -".
"Chris!". Wesker interrompeu o chefe, desencostando-se da cadeira. "Que bom que você está aqui. Parece que
podemos parar de jogar tempo fora". Irons olhou feio em sua direção mas Chris manteve sua face inexpressiva.
Wesker não se importava muito com Irons, e vice-versa, e não se incomodava em tentar ser educado com ele.
Chris caminhou na sala e parou na mesa que dividia com Ken Sullivan, um dos Bravos. Sendo que os times
costumavam trabalhar em turnos diferentes, a sala não precisava se muito grande. Ele colocou a lata fechada de
soda na desgastada área de trabalho da mesa, e olhou para Wesker. "Você está enviando o Bravo?".
Tranqüilamente, o capitão olhou de volta com os braços cruzados. "Procedimento padrão, Chris".
Chris se sentou. "Sim, mas segundo o que conversamos semana passada, eu acho -".
Irons interrompeu. "Eu dei a ordem, Redfield. Eu sei que você pensa que está havendo alguma coisa estranha
aqui, mas eu não vejo motivos para desviar da política".
Chris forçou um sorriso, sabendo que isso irritaria Irons. "Claro, senhor. Não precisa se explicar em meu
benefício".
Irons olhou para ele por um momento e voltou para Wesker. "Eu vou esperar um relatório quando o Bravo
retornar. Agora se me der licença, Capitão...".
"Chefe". Wesker acenou com a cabeça.
Irons se virou e andou para a porta. Menos de um minuto se passou e Barry começou.
"Será que ele levou a sério? Nós podemos fazer uma vaquinha no natal e comprar um laxante para ele".
Joseph e Brad riram, mas Chris não conseguiu. Irons era uma piada, mas seu modo errado de agir nesta
investigação não era tão engraçado. O S.T.A.R.S. deveria ter entrado no começo ao invés de só dar cobertura
ao R.P.D..
Chris olhou para Wesker, que tinha uma expressão difícil de entender. Wesker assumiu o S.T.A.R.S. há alguns
meses, transferido pela sede em Nova Iorque. Chris ainda não conhecia sua real personalidade. O novo capitão
parecia ser tudo o que deveria: estável, esperto, calmo - mas tinha algo que às vezes o tirava da realidade...
Wesker suspirou e se levantou. "Sinto muito, Chris. Eu sei que você queria que as coisas fossem diferente, mas
Irons não deu confiança para seu... medo.
"A culpa não é sua". Chris disse. Wesker podia fazer recomendações, mas Irons era o único que podia dar as
missões.
Barry foi na direção deles, passando a mão em sua curta e avermelhada barba. Barry Burton tinha pouco mais
de um metro e oitenta, mas era forte como um urso. Sua única paixão além da família e da coleção de armas,
era levantamento de peso. E dava para perceber.
"Não se preocupe, Chris. Marini vai nos contatar assim que farejar problemas".
Chris se conformou mas não estava gostando disso.
Droga, Enrico Marini e Forest Speyer eram os únicos soldados experientes do Bravo Team. Kenneth J. Sullivan era
um brilhante químico, mas segundo seu treinamento no S.T.A.R.S., ele não era capaz de atirar numa vaca ao
lado de um celeiro. Richard Aiken era especialista em comunicações, mas também tinha falta de experiência em
combate. Rebecca Chambers, que tem estado no S.T.A.R.S. por três semanas, deveria ser uma talentosa
médica. Chris a encontrou algumas vezes. Ela parecia boa o bastante, mas era apenas uma garota.
Não é suficiente. Mesmo com todos nós, pode não ser suficiente.
Ele abriu a soda mas não a bebeu. Ao invés, pensou no que o S.T.A.R.S. viria pela frente, e pensou também nas
desesperadas palavras de Billy.
Eles vão me matar, Chris! Eles vão matar todos que sabem! Me encontre no Emmy's agora, eu vou te contar
tudo...".
Exausto, Chris olhou para o nada, sozinho com o conhecimento de que os assassinatos selvagens eram apenas a
ponta do iceberg.
Barry ficou em frente a mesa de Chris, tentando pensar em algo para dizer, mas Chris não parecia apto a
conversas.
Sem o que dizer, Barry voltou para onde Joseph estava, procurando algo nos arquivos. Chris era um bom
homem, mas, às vezes, levava as coisas muito a sério.
Estava muito quente! O suor escoria pela suas costas. Como sempre, o ar-condicionado estava quebrado, e
mesmo com a porta aberta, o pequeno escritório estava desconfortavelmente quente.
"Tendo sorte?". Barry perguntou.
Joseph ergueu a cabeça com um lamentável sorriso em seu rosto. "Você tá brincando? Parece que alguém
escondeu a maldita coisa de propósito".
"Talvez Jill tenha achado. Ela ainda estava aqui ontem à noite quando eu fui embora, revendo os testemunhos
pela centésima vez...". Barry disse.
"O que vocês estão procurando, a final?". Brad perguntou.
Barry e Joseph olharam para Brad que ainda estava no computador, usando fones. Ele estava monitorando o
Bravo Team em seu vôo pela floresta. Ele parecia de saco cheio.
Joseph respondeu. "Ah, Barry diz que há mapas da vela mansão de Spencer em algum lugar, alguns projetos que
saíram quando ela foi construída -". Ele parou, depois sorriu para Brad. "Mas eu acho que o velho Barry tá ficando
caduco. Dizem que a memória é a primeira a ir embora".
Barry falou com boa naturalidade. "O velho Barry pode facilmente chutar o seu traseiro na próxima semana,
homenzinho".
Joseph olhou para ele zombando. "É, se você não esquecer até lá.".
Barry riu balançando a cabeça. Ele só tinha trinta e oito anos, mas já estava com o S.T.A.R.S. há quinze,
tornando-se o membro mais velho. Ele agüenta numerosas piadas de idade, a maioria delas vindas de Joseph.
Brad levantou a sobrancelha. "A mansão de Spencer?".
"Vocês crianças devem aprender sua história,". Barry disse. "ela foi projetada pelo e único George Trevor, antes
de desaparecer. Ele foi o arquiteto que fez todos aqueles arranha-céis em *D.C. - de fato, o sumiço de Trevor
pode ter sido o motivo de Spencer ter fechado a mansão. Boatos dizem que Trevor ficou louco durante a
construção. Quando ela foi terminada, ele se perdeu e vagou pelos corredores até morrer de fome".
Brad achou ridículo, mas de repente ficou sério. "Isso é besteira. Eu nunca ouvi nada parecido".
Joseph piscou para Barry. "Não, é verdade. Agora o fantasma dele vaga pela casa toda noite. Eu ouvi dizer que
às vezes ele pode ser ouvido, gritando, Brad Vickers... tragam-me Brad Vickers...".
Brad ficou corado. "É, ha ha. Você é um verdadeiro comediante, Frost".
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*D.C. District of Columbia (Distrito de Colômbia). Onde fica a capital dos Estados Unidos, Washington.
-------------------------------------------------------------- Barry balançou a cabeça, sorrindo, imaginando como Brad
conseguiu entrar para o Alpha. Ele era sem dúvida o melhor *hacker trabalhando para o S.T.A.R.S., e um bom
piloto, mas não era tão bom sob pressão. Joseph passou a chamá-lo de "Chickenheart Vickers" (Vickers medroso
ou Vickers covarde) quando ele não estava por perto. Ninguém discordava da avaliação de Joseph.
"Então é por isso que Spencer a fechou?". Brad perguntou a Barry, de bochechas ainda vermelhas.
Barry respondeu. "Eu duvido. Ela deveria ser algum tipo de pensão para os executivos da Umbrella. Trevor
realmente sumiu no final da construção - e Spencer estava quebrado. Ele decidiu transferir a sede da Umbrella
para a Europa, não me lembro para onde exatamente. Provavelmente alguns milhões de dólares fora do bolso.
"Como se a Umbrella fosse sofrer". Joseph disse.
Verdade. Spencer pode ter ficado louco, mas ele tinha dinheiro suficiente e entendia de negócios para contratar as
pessoas certas. A Umbrella era uma das maiores companhias farmacêuticas e de pesquisa médica do planeta.
Mesmo trinta anos atrás, a perda de alguns milhões não machucaria ninguém.
"Mesmo assim," Joseph continuou. "o pessoal da Umbrella disse a Irons que o local era seguro que mandaria
alguém para vasculhá-lo".
"Então para que os mapas?". Brad perguntou.
Foi Chris que respondeu. "Porque esse é o único lugar na floresta que não foi vasculhado pela polícia, e está
praticamente no meio do cenário dos crimes. E porque você nunca pode confiar no que as pessoas dizem".
Brad franziu a testa. "Mas se a Umbrella mandou alguém...".
O que quer que Chris viria a responder, foi interrompido por Wesker.
"Tudo bem pessoal. Parece que a Srta. Valentine não planeja se juntar a nós, por que não começamos?".
Barry andou para sua mesa, preocupado com Chris pela primeira vez desde que tudo começou. Ele recrutou o
jovem para o S.T.A.R.S. alguns anos atrás, graças a um encontro numa loja de armas local. Chris provou ser
bom para a equipe, brilhante e pensativo tal como um ótimo atirador e um hábil piloto.
Mas agora...
Barry olhou irresistivelmente para a foto de Kathy e as meninas em sua mesa. A obsessão de Chris com as
mortes era difícil de entender, principalmente desde o desaparecimento de seu amigo. Ninguém na cidade queria
ver outra vida perdida. Barry tinha família e queria pegar os assassinos tanto quanto os outros. Mas Chris estava
exagerando. O que ele quis dizer com aquilo, "você nunca pode confiar no que as pessoas dizem"?. Ou a
Umbrella estava mentindo ou o Chefe Irons estava...
Ridículo. O departamento químico da Umbrella e os prédios administrativos nos limites da cidade forneciam três
quartos dos empregos em Raccoon City; mentir não seria bom para eles. A integridade da Umbrella era, ao
menos, mais sólida do que em qualquer outra corporação - talvez alguma espionagem industrial. Mas isso estava
longe de causar assassinatos. E o Chefe Irons, além de um gordo convencido, não é o tipo de pessoa que suja
as mãos com algo além de aceitar fundos de campanha ilegais; ele queria ser prefeito, por Deus.
Barry olhou demoradamente para a foto de sua família antes de virar sua cadeira para a mesa de Wesker, e de
repente percebeu que queria que Chris estivesse errado. O que quer que esteja acontecendo em Raccoon City,
aquele tipo de brutalidade não poderia ser planejado. E isso significava...
Barry não sabia o que significava. Ele suspirou e aguardou a reunião começar.
[2]
Jill ficou profundamente aliviada ao ouvir a voz de Wesker, enquanto ia na direção da porta aberta do escritório do
S.T.A.R.S.. Ela viu um dos helicópteros decolando assim que chegou, certa de que eles foram sem ela - e ela
queria muito estar nesse caso desde o começo.
"O R.P.D. já estabeleceu um perímetro de busca, transpondo os setores um, quatro, sete e nove. São as zonas
centrais a qual estamos preocupados, e o Bravo vai pousar aqui...".
No mínimo ela estava muito atrasada; Wesker sempre conduz reuniões do mesmo jeito - discurso atualizado,
teorias, depois pergunta e resposta.
Jill respirou fundo e entrou na sala. Wesker estava apontando para um mapa fixado na frente da sala, com
pontos coloridos onde os corpos foram encontrados. Ele mau interrompeu seu discurso enquanto Jill ia
rapidamente para sua mesa, sentindo-se como se tivesse voltado para o treinamento básico e chegado atrasada.
Chris Redfield deu um meio sorriso assim que ela se sentou, e ela acenou de volta antes de olhar para Wesker.
Ela não conhecia os outros da equipe tão bem como Chris, que deu bastante apoio afim de fazê-la se sentir
bem-vinda.
"...depois de um vôo nas outras áreas centrais. Tendo eles feito o relatório, nós teremos uma melhor idéia de
onde concentrar nossas atenções".
"E a respeito da mansão de Spencer?". Chris perguntou. "Está praticamente no meio do local dos crimes. Se nós
começarmos por lá, poderemos conduzir uma busca mais completa -".
"- e se as informações do Bravo apontarem para essa área, com certeza, nós investigaremos lá. Por enquanto,
eu não vejo motivos para considerar isso uma prioridade".
Chris olhou duvidosamente. "Mas nós só temos a palavra da Umbrella que a mansão é segura...".
Wesker apoiou-se em sua mesa, sem expressões no rosto. "Chris, todos nós queremos chegar no fundo disso.
Mas temos que trabalhar como um grupo, e a melhor opção aqui é fazer uma busca pelos excursionistas
desaparecidos, antes de tirar conclusões. O Bravo vai dar uma olhada e nós agiremos de acordo".
Chris irrugou a testa e não disse mais nada. Jill hesitou em girar seus olhos para o pequeno discurso de Wesker.
Ele estava fazendo a coisa certa, tecnicamente, mas se esqueceu da parte cuidadosa de se agir, como Irons
queria. Irons deixou isso bem claro durante as investigações. Ela não ficaria tão irritada se Wesker não se
apresentasse como um pensador independente, um homem que não jogava com cuidado. Ela se uniu ao
S.T.A.R.S. porque não agüentava mais tanta besteira da burocracia que dominava a lei de aplicação - e a
desobediência de Wesker ao Chefe era irritante.
Bom, e não se esqueça de que você teve uma boa chance de terminar na prisão, se não tivesse mudado de
profissão...
"Jill. Vejo que você arrumou tempo para vir. Ilumine a gente com um de seus brilhantes pontos de vista. O que
você tem para nós?".
Jill tentou parecer calma e sob controle, como ele. "Nada novo, acho. O único padrão óbvio é a localização...".
Ela olhou para as anotações no monte de papéis que tinha a sua frente, em busca de referências.
"Ah, as amostras de tecido tiradas de debaixo das unhas de Becky McGee e Chris Smith casaram perfeitamente,
nós a pegamos ontem... e Tonya Lipton, a terceira vítima, teve definitivamente andado nos pés da montanha,
esse seria o setor - sete-B...".
Ela ergueu a cabeça para Wesker e fez seu acréscimo. "Minha teoria até este ponto é que há um possível culto
ritualista escondido nas montanhas, quatro a onze pessoas fortes, com cães de guarda treinados para atacar
intrusos em seu território".
--------------------------------------------------------------
*Hacker - Pessoa que desenvolve programas para interceptar mensagens eletrônicas, decodificar segredos ou
invadir sistemas protegidos.
-------------------------------------------------------------- "Extrapolou". Wesker cruzou seus braços, esperando. Pelo menos
ninguém riu. Jill voltou para o material. "O canibalismo e desmembramento sugere comportamento ritualístico, tal
como a presença de carne decomposta encontrada em algumas das vítimas - como se os assassinos estivessem
carregando partes de vítimas anteriores para seus ataques. Nós pegamos amostras de saliva e tecido de quatro
pessoas diferentes, apesar dos relatórios de testemunhas sugerirem dez ou onze pessoas. As vítimas mortas por
animais foram encontradas nos arredores, sugerindo que eles vagavam em algum tipo de área fora dos limites.
Os sinais de saliva parecem ser caninos, apesar de ainda haver dúvidas...". ela terminou.
O rosto de Wesker não mostrou nada, mas ele acenou devagar. "Nada mal, nada mal mesmo. Contradizendo?".
Jill suspirou. Ela odiava ter que contrariar a própria teoria, mas fazia pare de seu trabalho - mas honestamente, a
parte mais que mais encorajava claro e racional pensamento. O S.T.A.R.S. treina seu pessoal para não fixar se
em um único caminho para a verdade.
Ela conferiu suas anotações de novo. "É altamente improvável que um culto desse tamanho pudesse andar por
aí, e os assassinatos são muito recentes para serem locais, o R.P.D. teria visto sinais antes, algum motivo para
esse tipo de comportamento. Além disso, o nível de violência pós morte indica criminosos desorganizados, e que
geralmente atacam sozinhos.
Joseph Frost, o especialista em veículos do Alpha, falou do fundo da sala. "E a parte do ataque animal funciona
como um tipo de proteção de seu território e tudo mais".
Wesker pegou uma caneta e foi para a lousa próxima a sua mesa, falando enquanto andava. "Concordo".
Ele escreveu territorialidade na lousa e depois virou-se para ela. "Algo mais?".
Jill balançou a cabeça, mas se sentiu bem por ter contribuído. O aspecto do culto era fora do comum, mas foi
tudo que ela conseguiu informar. A polícia certamente tem algo melhor.
Wesker voltou sua atenção para Brad Vickers, que sugeriu ser uma nova tendência de terrorismo, e que as
demandas seriam feitas em breve. Wesker colocou terrorismo na lousa, mas não parecia muito a favor da idéia.
Nem mais ninguém. Brad voltou rapidamente para seu fone, para monitorar o Bravo Team.
Joseph e Barry não tinham idéias, e a visão dos assassinatos de Chris já era bem conhecida, mas vaga; ele
achava que havia um ataque organizado e que influências externas estariam envolvidas de algum modo. Wesker
perguntou se ele tinha algo novo (enfatizando novo, Jill percebeu), e Chris balançou a cabeça, parecendo
deprimido.
Wesker tampou a caneta preta e sentou na ponta de sua mesa, focalizando pensativamente o espaço vazio da
lousa. "É um começo,". Disse. "eu sei que vocês já leram os relatórios da polícia e ouviram o depoimento das
testemunhas -".
"Aqui é Vickers, câmbio". Do fundo da sala, Brad falou em seu fone, interrompendo Wesker. O capitão diminuiu a
voz e continuou.
"Até agora, não sabemos com o que estamos lidando, e sei que todos nós temos algumas... preocupações sobre
a atuação do R.P.D. na situação. Mas agora que nós estamos no caso, eu -".
"O Que?".
Com o aumento da voz de Brad, Jill se virou, como todos fizeram. Ele estava se levantando, agitado,
pressionando o fone em sua orelha com uma mão.
"Bravo Team, responda. Repito, Bravo Team, responda!".
Wesker se levantou. "Vickers, ponha no alto falante!". Brad apertou um botão no painel de controle e o claro som
de estática preencheu a sala. Jill tentou ouvir uma voz humana no meio do zumbido, mas por alguns tensos
segundos, não houve nada.
Depois. "... entendido?. Mau funcionamento, nós teremos que...".
O resto foi perdido na estática. Parecia ser Enrico Marini, o líder do Bravo Team. Jill mordeu seu lábio inferior e
trocou um preocupado olhar com Chris. Enrico parecia... frenético. Todos escutaram por mais um momento, e
nada mais apareceu.
"Posição?". Wesker perguntou.
"Eles estão no, ah, setor vinte e dois, extremidade de C... mas eu perdi o sinal. O transmissor está desligado".
Todos estavam abalados. O transmissor do helicóptero foi projetado para continuar funcionando não importa o
que tenha acontecido; o único modo dele parar é ter acontecido algo grande - o sistema inteiro apagar ou ser
danificado seriamente.
Algo como um acidente.
Chris sentiu seu estômago dar um nó ao reconhecer as coordenadas.
A mansão de Spencer.
Marini disse algo sobre mau funcionamento, tem que ser uma coincidência - mas não parecia uma. Os Bravos
estavam com problemas, e praticamente em cima da velha mansão da Umbrella.
Tudo isso veio a sua mente numa fração de segundo, e depois já estava de pé, pronto para agir.
Wesker já estava em ação. Ele endereçou o time enquanto pegava as chaves, indo para o armário de armas.
"Joseph, arrume o painel de controle e tente contatá-los. Vickers, equipe o helicóptero, eu quero nós prontos em
cinco".
O capitão destrancou o armário enquanto Brad dava o fone para Joseph e saía da sala. A porta reforçada de
metal abriu, revelando um arsenal de rifles e revólveres, pendurados em cima de caixas de munição. Wesker
voltou-se para os outros, suas expressões mais vazias do que nunca, mas sua voz rápida e autoritária.
"Barry, Chris - levem as armas carregadas e seguras para o helicóptero. Jill, pegue os coletes e mochilas, e nos
encontre na cobertura". Wesker tirou uma chave da argola e jogou para ela.
"Eu vou falar com Irons para nos dar cobertura". Wesker disse, depois gritou. "Cinco minutos ou menos, pessoal.
Vamos lá".
Jill foi para a sala os armários, e Barry pegou uma das malas de equipamento vazias do fundo do armário,
acenando para Chris. Chris pegou uma segunda mala e começou a carregar caixas de munição, cartuchos e clips,
enquanto Barry manipulava cuidadosamente as armas, verificando cada uma. Atrás deles, Joseph tentava
contatar o Bravo.
Chris pensou novamente sobre a proximidade do Bravo Team à mansão de Spencer. Havia uma conexão? E se
sim, como?
Billy trabalhava para a Umbrella, a mansão era deles -
"Chefe? Wesker. Nós acabamos de perder contato com o Bravo; nós vamos partir".
Chris sentiu uma súbita descarga de adrenalina e passou a trabalhar mais rápido, sendo que cada segundo
contava - poderia significar a diferença entre a vida e a morte de seus companheiros. Um sério acidente era
improvável, os Bravos estariam voando baixo e tinham um bom piloto... mas se aconteceu depois que
desceram?
Wesker rapidamente passou a informação a Irons por telefone, depois desligou e se juntou a eles.
"Eu vou ver se o nosso helicóptero está pronto. Joseph, tente por mais um minuto e depois entregue para os
outros rapazes. Você pode ajudar os dois aqui a levar o equipamento lá para cima. Vejo-os lá em cima".
Wesker acenou e saiu, seus passos fazendo um alto barulho no corredor.
"Ele é bom". Barry disse, e Chris concordou. Era bom ver que o novo capitão falava pouco. Chris ainda não
estava certo sobre o que sentir sobre a personalidade dele, mas o respeito pelas habilidades de Wesker estava
crescendo a cada minuto.
"Responda, Bravo, entendido? Repito...".
Joseph continuou pacientemente, seus pedidos se perdendo no nevoeiro de estática que enchia a sala.
Wesker caminhou pelo deserto corredor, cruzando as duas salas de espera do segundo andar, acenando
rapidamente para dois policiais em frente a máquina de soda.
A porta para o lado de fora estava meio aberta. Uma leve e úmida brisa cortava o abafado ar do lado de dentro.
Ainda estava claro, mas não por muito tempo. Ele esperava que isso não fosse interferir na missão, mas pelo
visto irá...
Wesker virou à esquerda e desceu o corredor que levava ao heliporto, conferindo mentalmente uma lista de
tarefas.
.. procedimento, armas, equipamentos, relatório...
Ele sabia que tudo estava em ordem, mas conferiu de novo. Ele gostava de pensar em si mesmo como um
homem de precisão, que leva tudo em consideração, e decide o melhor curso de ação depois de estudar os
fatores. Controle é o dever de qualquer líder competente.
Mas para esse caso -
Ele tirou isso da cabeça antes de ir longe demais. Ele sabia o que devia ser feito, e ainda tinha tempo. Tudo em
que ele devia se concentrar agora era em trazer os Bravos sãos e salvos.
Wesker abriu a porta no final do corredor e saiu no brilho do início da noite, o crescente ruído do motor do
helicóptero e o cheiro de óleo enchendo seus sentidos. O pequeno heliporto de cobertura era parcialmente
guarnecido pela sombra de uma envelhecida torre d'água, e vazio exceto pelo helicóptero cinza-bronzeado do
Alpha. Pela primeira vez, ele imaginou o que aconteceu com o Bravo; ontem, Joseph e um recruta checaram
ambos os pássaros, e eles estavam bem.
Ele tirou essa linha de pensamento da cabeça enquanto ia para o helicóptero. Não importava por que, não mais.
O importante é o que veio depois. Espere o inesperado, esse era o lema do S.T.A.R.S. - significava basicamente
estar preparado para qualquer coisa.
Não espere nada, esse era o lema de Albert Wesker. Um pouco menos atraente, talvez, mas infinitamente mais
útil. Se virtualmente garantido, aquele nada jamais o surpreenderia.
Ele subiu na porta aberta do piloto e viu Vickers; o homem parecia com medo e Wesker considerou por um
momento deixá-lo para trás. Chris tinha licença para voar, e Brad tinha a reputação de se cagar sob uma arma; a
última coisa de que ele precisava era ter um de seus soldados congelados em caso de problemas.
Mas ele pensou nos Bravos perdidos e voltou atrás.
Ele abriu a porta lateral e entrou na cabine, fazendo uma rápida contagem do equipamento arrumado na parede.
Fogos de emergência, kits médicos e de comida... estava tudo pronto.
Wesker imaginou o que Brian estava fazendo agora.
Cagando nas calças, sem dúvida. Wesker riu assim que descia do helicóptero, mentalizando a imagem de Irons,
suas gorduchas bochechas vermelhas de raiva e merda escorrendo pelas suas pernas. Irons gostava de pensar
que podia controlar tudo e todos. Isso fazia dele um idiota.
Infelizmente para todos, ele era um idiota com um pouco de poder. Wesker o avaliou cuidadosamente antes de
assumir a posição em Raccoon City, e sabia algumas coisas sobre o chefe que não o enquadrava numa luz
positiva. Ele não tem intenção de usar o que sabe, mas se Irons bagunçar as coisas mais uma vez, Wesker não
ficará de boca fechada...
.. ou pelo menos dizer que tenho acesso a ela; isso certamente o manterá fora do caminho.
Barry Burton apareceu carregando as caixas de munição. Chris e Joseph logo atrás; Chris com os cintos e Joseph
com as mochilas, o compacto lança granadas sobre o ombro.
Assim que os três guardaram o equipamento, Wesker voltou sua atenção para a porta, esperando Jill. Ele conferiu
o relógio e franziu. Menos de cinco minutos se passaram desde o último contato com o Bravo, eles fizeram um
ótimo tempo... mas onde está Valentine? Ele não falou muito com Jill desde que ela chegou em Raccoon, mas
seu arquivo era muito bom. Ela conseguiu altas recomendações de todos que já trabalharam com ela, elogiada
pelo seu último capitão como sendo muito inteligente e extraordinariamente "calma" numa crise. Seu pai era Dick
Valentine, o melhor ladrão nos negócios umas décadas atrás. Ele a treinou para seguir seus passos. Ela ia muito
bem até o papai ter sido encarcerado...
Silenciosamente, o capitão encorajou Jill a tirar seu traseiro de onde está e pedir a Brad para ligar as pás o
helicóptero.
É hora de ver como as coisas estão lá fora.
[3]
Jill virou na direção da porta da sala dos armários, seus braços segurando duas malas cheias de equipamentos.
Ela as colocou no chão e rapidamente jogou o cabelo para trás, pondo uma boina azul em cima dele. Estava
muito quente, mas era sua boina da sorte. Ela olhou no relógio antes de erguer as malas, satisfeita em ter levado
apenas três minutos para enchê-las.
Ela tinha passado por todos os armários do Alpha, pegando cintos de utilidade, meias-luvas, coletes a prova de
balas e mochilas, nada que refletisse a personalidade dos usuários dos armários: o de Barry era coberto por fotos
instantâneas de sua família, e tinha o pôster de uma revista de armas, uma rara .45 Luger, brilhando em cima de
um veludo vermelho. Chris tinha fotos de amigos da Força Aérea, e suas prateleiras eram uma bagunça -
camisetas amarrotadas, papéis jogados... Brad tinha uma pilha de livros de auto-ajuda e Joseph, um calendário
dos Três Patetas. Só o de Wesker não tinha nada pessoal. Isso não a surpreendeu. O capitão não demonstrava
ter muitos valores sentimentais.
O armário de Jill tinha inúmeros livros de romances baseados em crimes reais, uma escova de dentes, fio dental,
balas de hortelã e três boinas. Na porta havia um pequeno espelho e uma velha foto dela e de seu pai, tirada na
praia em um verão quando ela era criança. Ao passar por ele, Jill decidiu redecorá-lo quando tiver tempo; qualquer
um que visse seu armário pensaria que ela era algum tipo de maníaca dental.
Jill apoiou as malas em seu joelho erguido e tocou a maçaneta. Ela a agarrou quando alguém tossiu atrás dela.
Assustada, Jill largou as malas e virou-se, procurando pelo tossidor enquanto sua mente avaliava a situação. A
porta foi trancada. A pequena sala tinha três fileiras de armários e tem estado quieta e escura desde que ela
entrou. Havia outra porta na parte de trás da sala, mas ninguém passou por ela desde então -
- o que significa que alguém já estava aqui quando eu entrei, nas sombras da última fileira. Um policial tirando
uma soneca?
Improvável. A sala de refeições do departamento tinha duas beliches na parte de trás, muito mais confortáveis
do que o concreto gelado.
Talvez alguém esteja aproveitando um tempo livre com uma revista, seu cérebro pensou, isso importa? Você
tem horário, mexa-se!
Certo. Jill levantou as malas e virou para sair.
"Srta. Valentine, certo?". Uma sombra surgiu do fundo da sala, um homem alto com uma baixa e musical voz.
Quarenta e poucos, magro, cabelos escuros e profundos olhos. Ele estava vestindo um capa de chuva.
Jill se preparou para correr se for preciso. Ela não o reconheceu.
"Eu mesma". Ela disse cautelosamente.
O homem andou em sua direção, um sorriso tomando conta de seu rosto. "Eu tenho algo para você". Ele disse
suavemente.
Jill estreitou os olhos e fez uma pose defensiva. "Espera aí, imbecil - eu não sei quem diabos é você ou o que
você acha que eu quero, você está numa delegacia de polícia...".
Ela parou de falar assim que ele balançou a cabeça, sorrindo. "Você confundiu as minhas intenções, Srta.
Valentine. Desculpe meus modos, por favor. Meu nome é Trent, e eu sou... um amigo do S.T.A.R.S.".
Jill estudou a postura dele e colocou a sua no lugar, observando os olhos dele por um momento. Ela não se sentia
ameaçada por ele, exatamente...
.. mas como ele sabe o meu nome?
"O que você quer?".
Trent sorriu mais ainda. "Ah, direto ao ponto. Você tem um horário mais apertado...".
Ele vagarosamente colocou a mão no bolso do casaco e puxou o que parecia ser um telefone celular.
"Não é o que eu quero que é importante. É o que eu acho que você deve ter".
Jill olhou rapidamente para o item que ele segurava, franzindo. "Aquilo?".
"Sim. Eu juntei alguns documentos que você deve achar interessante; urgentes, de fato". Ele estendeu o
aparelho assim que falava.
Ela ergueu a mão cuidadosamente, percebendo que aquilo era um leitor de mini-disco, um micro computador
muito complicado e caro. Trent era bem pago, quem quer que seja.
Jill colocou o leitor no bolso da calça sem um pingo de curiosidade. "Para quem você trabalha?".
Ele balançou a cabeça. "Isso não é importante, por enquanto. Embora, eu direi que há muitas pessoas
observando Raccoon City bem agora".
"Oh? E essas pessoas são amigas do S.T.A.R.S., também, Sr. Trent?".
Trent riu, uma suave risada, "Tantas perguntas, tão pouco tempo. Leia os arquivos. E se eu fosse você, não
comentaria esse encontro com ninguém; poderia ter sérias conseqüências".
Ele andou para a porta no fundo da sala, virando para Jill assim que alcançou a fechadura. Subitamente, as
feições de Trent perderam qualquer traço de humor, seu olhar sério e intenso.
"Mais uma coisa, Srta. Valentine, e isto é uma crítica, não cometa erros: nem todos são confiáveis, nem aqueles
que aparentam ser - até mesmo as pessoas que você acha que conhece. Se você quiser permanecer viva, fará
um bem lembrando disso".
Trent abriu a porta, e num piscar de olhos, se foi.
A mente de Jill foi em milhões de direções. Ela se sentiu num daqueles velhos filmes de espionagem e acabou de
conhecer o misterioso estranho. Era de fazer rir, e ele ainda -
- e ele ainda te deu um aparelho de milhares de dólares e disse para você ficar de olhos no seu traseiro; você
acha que ele está brincando?
Ela não sabia o que pensar, e não tinha tempo para isso; o Apha Team já deve estar reunido, esperando,
imaginando onde ela deve estar.
Jill colocou as malas nos ombros e saiu pela porta.
As armas já estavam carregadas e seguras, e Wesker estava perdendo a paciência. Apesar de seus olhos
estarem cobertos por óculos escuros, Chris pôde perceber isso pelo modo em que ele olhava para o prédio. O
helicóptero já estava pronto, as pás jogando um quente e úmido ar dentro do apertado compartimento. Com a
porta aberta, o som do motor não deixava o ambiente apto a conversas. Não havia nada para fazer exceto
esperar.
Vamos, Jill, não nos atrase agora...
Assim que Chris pensou, Jill saiu do prédio e correu na direção deles com o equipamento, mostrando um
apologético olhar. Wesker desceu para ajudá-la, pegando uma das malas enquanto ela subia abordo.
Wesker entrou e fechou a porta dupla. Instantaneamente, o ruído da turbina se tornou mais potente.
"Problemas, Jill?". Wesker não pareceu nervoso, mas havia algo em sua voz que dizia o contrário.
Jill balançou a cabeça. "Um dos armários estava emperrado. Eu perdi muito tempo para abri-lo".
O capitão a encarou por um momento, como se estivesse decidindo se dava ou não uma bronca nela, então
disse. "Eu vou chamar a manutenção quando voltarmos. Vá em frente, distribua o equipamento".
Ele pegou um fone e foi se sentar ao lado de Brad, enquanto Jill passava os coletes. O helicóptero decolou
vagarosamente, o R.P.D. se distanciando assim que Brad os posicionava para noroeste.
Chris se curvou e ajudou Jill a distribuir as luvas e os cintos, enquanto voavam sobre a cidade na direção de
*Arklay Mountains. As barulhentas ruas urbanas abaixo rapidamente deram lugar aos subúrbios; largas ruas e
calmas casas em cima de gramados separadas por muros de estacas.
Minutos se passaram em silêncio enquanto os Alphas se arrumavam, cada um preocupado com seus
pensamentos.
Com alguma sorte, o helicóptero do Bravo sofreu apenas uma falha mecânica de menor gravidade. Forest teria
aterrissado em um dos campos abertos da floresta. Sem um pássaro funcionando bem, Marini não começaria um
busca. A alternativa...
Chris não queria pensar em alternativas. Ele já viu as conseqüências de um acidente de helicóptero na Força
Aérea. Uma falha do piloto causou a queda de um Huey com onze homens e mulheres num treinamento.
Quando o resgate chegou não havia mais nada além de corpos carbonizados entre ardentes destroços, o suave
cheiro de carne assada com gasolina no enfumaçado ar. Até o chão estava queimando. Essa foi a imagem que
assombrou seus sonhos por meses; a terra pegando fogo, as chamas devorando o chão sob seus pés...
Houve uma suave inclinação na altitude, afastando Chris da desagradável recordação. Os limites irregulares de
*Raccoon Forest surgiram logo abaixo, os marcadores laranjas da barricada policial entre o verde das árvores. O
sol finalmente se pôs, a floresta sendo tomada pelas sombras.
"ETA... três minutos". Brad disse, e Chris olhou em volta, notando as quietas faces de seus companheiros.
Joseph tinha amarrado um lenço vermelho na cabeça e estava enlaçando os cadarços. Barry estava esfregando
um macio pano em sua amada Colt Python, olhando pela janela. Chris virou a cabeça para Jill e foi surpreendido
por vê-la fazendo o mesmo, pensativamente. Ela estava sentada no mesmo banco que ele. Ambos sorriram um
para o outro; ele meio envergonhado. Jill desprendeu o cinto de segurança e foi se sentar mais perto dele. Ele
pegou um leve lance do cheiro dela, um limpo e ensaboado cheiro.
"Chris... o que você estava falando, sobre fatores externos nesses casos...".
A voz dela saiu tão baixa que Chris teve de se encurvar para ouvi-la sobre o pulsante motor. Ela olhou
rapidamente para os outros, como se quisesse ter certeza de que ninguém estava ouvindo, depois olhou nos
olhos dele.
"Eu acho que você pode estar no caminho certo,". Ela disse suavemente. "mas estou começando a achar que
não é uma boa idéia falar sobre isso".
A garganta de Chris secou de repente. "Aconteceu alguma coisa?".
Jill balançou a cabeça. "Não. Eu só acho que você deve tomar cuidado com o que diz. Nem todos estão
escutando do mesmo lado desse...".
Chris franziu, não muito certo do que ela estava tentando lhe dizer. "Todos com quem eu falei estão no caso -".
O olhar de Jill não se mexeu, e de repente ele percebeu o que ela estava dizendo.
Jesus, e pensei que eu estava paranóico!
"Jill, eu conheço essas pessoas, e mesmo que não conhecesse, o S.T.A.R.S. tem o histórico de cada membro -
não há como isso acontecer.
Jill suspirou. "Olha, esqueça o que eu disse. Eu só... se cuida, isso é tudo".
"Tudo bem, crianças, fiquem de olhos abertos! Nós estamos chegando no setor vinte e dois, eles podem estar
em qualquer lugar".
Com a interrupção de Wesker, Jill deu um olhar final para Chris e foi para uma das janelas. Chris também. Joseph
e Barry ficaram com as do outro lado.
Olhando pela janela, ele pensou no que ela disse. Ele devia estar agradecido por não ser o único - mas por que
ela não disse nada antes? E alertá-lo contra o S.T.A.R.S.....
Ela sabe de algo.
Ele decidiu falar com ela depois de resgatar o Bravo, tentar convencê-la a falar com Wesker. Com os dois
pressionando, o capitão terá que escutar.
Ele passou a prestar atenção no interminável mar de árvores. A mansão de Spencer deve estar perto. Ele
recusou qualquer pensamento sobre Billy, a Umbrella e Jill. Ele ainda estava preocupado com os Bravos - apesar
das árvores estarem passando, ele estava se convencendo de que eles não estavam com problemas sérios.
Deve ter sido algum fio danificado e Forest pousou para fazer reparos -
Então ele viu a cerca de um quilômetro. Mesmo com Jill apontando e falando, sua preocupação se transformou
em medo.
"Olhe, Chris -".
Uma fumaça negra subia através do resto da luz do dia, manchando o céu como uma promessa de morte.
Oh, não -
Barry olhou para a fumaça que saía do meio das árvores.
"Capitão, duas horas!". Chris disse, e então já estavam rumando para o local. A fumaça só podia significar um
acidente.
Wesker pulou para a parte de trás da cabine, ainda de óculos escuros. Ele ficou na janela e disse rapidamente.
"Não vamos pensar no pior. Há uma possibilidade de que o fogo tenha aparecido depois que pousaram , ou eles
podem ter começado o fogo de propósito, como um sinal -".
Barry quis acreditar nele, mas o próprio Wesker já sabia. Com o helicóptero parado, um incêndio seria improvável
- e se os Bravos quisessem sinalizar eles teriam usado os fogos.
Além disso, madeira não faz aquele tipo de fumaça...
"- mas o que quer que seja, nós só saberemos quando chegarmos lá. Agora se eu puder ter suas atenções, por
favor".
Barry saiu da janela, viu os outros fazerem o mesmo. O S.T.A.R.S. tinha baixas às vezes, fazia parte do trabalho
- mas um acidente como este...
"Ouçam. Nós temos pessoas lá embaixo num possível ambiente hostil. Eu quero todos armados e uma
aproximação organizada. Barry, você vai na frente".
Barry concordou.
"Brad vai nos descer o mais próximo possível do local, que parece ser uma pequena clareira a uns cinqüenta
metros a sul das últimas coordenadas. Ele ficará no helicóptero em caso de problemas. Alguma pergunta?".
Ninguém falou. "Bom, Barry, carregue-nos. Nós podemos deixar o resto das coisas aqui e voltar depois".
O capitão foi falar com Brad enquanto Jill, Chris e Joseph viravam-se para Barry. Sendo um especialista em
armas, ele foi pegá-las.
Barry destrancou o armário próximo a porta, mostrando seis revólveres Beretta 9mm numa prateleira de metal,
limpas e visadas ontem. Cada arma carregava quinze balas. É uma boa arma, apesar de Barry preferir sua Colt
Python, bem mais poderosa, com balas .357...
Ele rapidamente distribuiu as armas, cada uma com três clips carreados.
"Espero que nós não precisemos deles". Joseph disse, e Barry concordou. Só porque ele pagava impostos para a
*NRA, não significava que ele era um maluco com o dedo no gatilho, pronto para matar; ele só gostava de
armas.
Wesker se juntou a eles de novo e os cinco esperaram Brad pousar.
Assim que eles se aproximaram da fumaça, as pás do helicóptero criaram um negro nevoeiro que se fundia entre
as árvores.
Brad deu a volta e pousou o pássaro na clareira de grama alta. Os apoios ainda não estavam no chão e Barry já
estava pronto para sair.
Uma quente mão tocou seu ombro. Barry se virou e viu Chris o olhando.
"Nós estamos bem atrás de você". Chris disse, e Barry acenou. Ele não estava preocupado com a cobertura do
Alpha, e sim com a situação do Bravo. Enrico Marini era um bom amigo. A esposa dele tomou conta das meninas
tantas vezes que Barry já perdeu a conta, e eram amigos de Kathy. O pensamento dele ter morrido por uma
estúpida falha mecânica...
Agüenta aí, parceiro, nós estamos indo.
De mão na coronha de sua Colt, Barry puxou a maçaneta e saiu no úmido ar de Raccoon Forest, pronto para o
que der e vier.
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*NRA - National Recovery Administration. (Administração de Recuperação ou Resgate Nacional). No governo dos
Estados Unidos.
*Arklay Mountains - Nome da cadeia montanhosa situada nos limites de Raccoon City.
*Raccoon Forest - Floresta localizada nos limites de Raccoon City.
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[4]
Eles se espalharam rumando para norte, Wesker e Chris atrás e na esquerda de Barry, Jill e Joseph a sua direita.
assim que se distanciava do helicóptero do Alpha, Jill pôde sentir o cheiro de queimado e ver a fumaça que saía de
entre a folhagem das árvores bem a frente.
Eles se moveram rapidamente pelas árvores, o cheiro de queimado mais forte a cada passo. Jill viu que havia
outra clareira adiante, de grama alta.
"Estou vendo, lá na frente!". O coração de Jill acelerou com o grito de Barry. Todos estavam correndo, tentando
chegar ao seu destino.
Ela saiu das árvores, Joseph ao seu lado. Barry já estava no helicóptero acidentado, Chris e Wesker logo atrás.
Ainda tinha fumaça, mas já estava sumindo. Se tivesse havido um incêndio, já teria se extinguido.
Ela e Joseph os alcançaram e pararam, olhando, ninguém falou enquanto viam a cena. O longo e largo corpo do
helicóptero estava intacto, nenhum arranhão visível. Os apoios de pouso pareciam tortos. Exceto isso e a fumaça
saindo do motor, não parecia ter nada de errado com ele. As portas foram abertas, a luz da lanterna de Wesker
mostrando o interior em perfeito estado. Pelo que ela pode ver, a maior parte do equipamento do Bravo ainda
estava lá.
Mas onde eles estão?
Não fazia sentido. Não fazia quinze minutos desde sua última transmissão; se ninguém tivesse se ferido, eles
teriam ficado. E se eles decidiram partir, por que deixaram o equipamento para trás?
Wesker deu a lanterna par Joseph e apontou para o cockpit. "Verifique-o. O resto de vocês, espalhem-se e
procurem por pistas - trilhas, caixas de munição, sinais de luta - se acharem algo, me avisem. E fiquem atentos".
Jill ficou um momento parada, imaginando o que podia ter acontecido. Enrico falou sobre um mau funcionamento;
certo, os Bravos pousaram. Mas o que aconteceu depois? O que teria feito eles abandonarem o único meio de
serem encontrados, deixando kits de emergência e armamento para trás - Jill viu alguns coletes a prova de balas
e balançou a cabeça, pondo isso na crescente lista de ações irracionais do Bravo.
Ela se virou para começar a vasculhar assim que Joseph pulou do helicóptero, tão confuso quanto ela. Ela esperou
ouvir sua opinião enquanto ele devolvia a lanterna para Wesker, levantando os ombros.
"Eu não sei o que aconteceu. Os apoios tortos sugerem pouso forçado, mas exceto pelo sistema elétrico, tudo
está tudo perfeito".
Wesker acenou, depois aumentou a voz para que os outros pudessem ouvir. "Dêem uma volta, pessoal, três
metros de separação, abram enquanto andamos!".
Jill ficou entre Chris e Barry, ambos já vasculhando o chão enquanto se moviam para leste e nordeste do
helicóptero. Wesker subiu na cabine, examinando a escuridão com sua lanterna. Joseph foi para oeste.
Gravetos secos se quebravam sob os pés enquanto eles abriam o círculo, o único som exceto o distante motor
do helicóptero do Alpha. Jill usava suas botas para revirar o chão coberto de folhas para ver alguma coisa; eles
teriam que acender as lanternas, o Bravo deixou as suas para trás...
Jill parou de repente, ouvindo. Os passos dos outros, o motor de seu helicóptero -
- e nada mais.
Eles estavam na floresta, no meio do verão; onde estavam os animais, os insetos? Estava quieta demais, os
únicos sons eram humanos. Pela primeira vez desde que eles pousaram, Jill estava com medo.
Ela estava para chamar os outros quando Joseph gritou de algum lugar atrás deles.
"Ei! Aqui!".
Jill, Chris e Barry se viraram e começaram a correr. Wesker ainda estava no helicóptero. Ele empunhou sua arma
e começou a correr com ela apontada para cima.
Jill só conseguia ver a sombra de Joseph agachado na grama alta, perto de algumas árvores, a uns trinta metros
do helicóptero acidentado.
Joseph se levantou, segurando algo, deixando um desesperado grito sair antes de soltá-lo, seus olhos arregalados
de terror.
Por uma fração de segundo, Jill não conseguiu aceitar o que Joseph tinha visto.
Um revólver do S.T.A.R.S., uma Beretta -
Jill correu mais rápido, alcançando Wesker.
- e uma mão humana decepada segurando-a, cortada na altura do pulso.
Houve um profundo e gutural ruído vindo de trás de Joseph, da escuridão das árvores. Um animal, rosnando -
- acompanhado por outro áspero e rouco berro -
- e de repente escuras e poderosas figuras surgiram das árvores, pulando em Joseph e levando-o ao chão.
"Joseph!".
Com o grito de Jill, Chris ergueu sua arma, parando onde estava, tentando dar um tiro certeiro nos animais
enraivecidos que estavam atacando Joseph. Os raios de luz da lanterna de Wesker iluminaram um pesadelo.
O corpo de Joseph estava todo coberto pelos três animais, sendo rasgado por rangentes e gotejantes dentes.
Eles tinham o tamanho e a aparência de cachorros, tão grandes quanto um Pastor Alemão, exceto que eles
pareciam não ter pêlo, nem pele. Sangrentos pedaços de carne foram iluminados por Wesker, as criaturas
gritando e mordendo num frenesi de desejo por sangue.
Joseph gritou, um borbulhante e líquido som enquanto ele batia fracamente nos agressores selvagens, sangue
fluindo pelos múltiplos ferimentos. Era o grito de um homem morrendo. Não havia tempo para desperdiçar; Chris
mirou e abriu fogo.
Três balas atingiram um dos três cães, um quarto tiro indo digno.
Houve um latido e o animal foi ao chão. Os outros dois continuaram o ataque, indiferentes aos tiros. Chris
observou horrorizado, uma das balas acertando o pescoço de Joseph.
O S.T.A.R.S. começou a atirar, enviando uma chuva de balas. Vermelhos respingos no ar, os animais ainda
tentando investir contra o cadáver enquanto balas perfuravam suas estranhas carnes. Com uma série de latidos,
eles caíram - e não se levantaram mais.
"Cessar fogo!".
Chris tirou o dedo do gatilho mas não abaixou a arma. Duas das criaturas ainda respiravam, rosnando
suavemente. O terceiro estava sem vida, esparramado ao lado do corpo mutilado de Joseph.
- eles deviam estar mortos, deveriam ter caído com os primeiros tiros! O que são eles?
Wesker deu um passo na direção do massacre -
- quando de todos os lados, altos ecos encheram o ar, uivos de fúria vindo de todas as direções.
"Para o helicóptero, agora!". Wesker gritou.
Chris correu, Barry e Jill na frente dele e Wesker atrás de todos. Os quatro correram pelas escuras árvores,
galhos não visíveis batendo neles enquanto os uivos ficaram mais altos, mais insistentes.
Wesker virou e atirou cegamente assim que iam para o helicóptero, suas pás já girando. Chris sentiu-se aliviado;
Brad deve ter ouvido os tiros. Eles ainda tinham uma chance...
Chris pode ouvir as criaturas agora, seus rápidos passos entre as árvores. Ele também pode ver a pálida e de
olhos arregalados face de Brad pelo vidro, as luzes do painel exibindo suas feições aterrorizadas. Ele estava
gritando algo, mas o ruído do motor afogou tudo, o golpe do vento tornando o campo num mar de ondas.
Mais uns cinco metros, quase lá -
De repente, o helicóptero decolou, acelerando brutalmente. Chris pegou um lance final da face de Brad e pode ver
o cego terror nela, o pânico descontrolado enquanto mexia nos controles.
"Não! Não vá!". Chris gritou, mas os apoios já estavam fora do alcance, a aeronave indo embora, desaparecendo
na escuridão.
Eles vão morrer.
Maldito seja, Vickers!
Wesker virou e atirou de novo, e foi recompensado com um grito de dor de um dos perseguidores. Deviam haver
mais de quatro, correndo rapidamente.
"Continuem!". Ele gritou. O som do helicóptero estava sumindo, a covardia de Vickers levando a esperança deles.
Wesker atirou novamente, e viu outra sombra se juntar a caçada. Os cachorros eram muito rápidos.
Eles não tinham chances, a não ser...
A mansão!
"Virem a direita, uma hora!". Wesker gritou, esperando que seu senso de direção ainda estava intacto. Eles não
podiam fugir deles mas podiam se esconder.
Ele virou e disparou a última bala de seu clip. "Vazio!".
Ejetando o vazio, ele colocou outro enquanto Barry e Chris assumiam a defesa. Eles alcançaram outro grupo de
árvores, correndo e desviando delas enquanto os cachorros assassinos se aproximavam. Os quatro tentavam
achar ar para correr mais rápido.
Nós devemos estar perto -
Chris a viu primeiro, através das sombras das árvores, a nublada monstruosidade iluminada pela lua. "Lá! Corram
para aquela casa!".
Parecia abandonada pelo lado de fora. O tamanho total da estrutura era ocultado pelas árvores, isolando-a da
floresta. A enorme varanda tinha portas duplas, a única opção de fuga deles.
Wesker ouviu o estalo de dentes atrás dele e atirou, pressionando o gatilho intuitivamente enquanto corria para a
mansão.
Outro grito e a criatura caiu.
Jill alcançou a porta primeiro, golpeando a densa madeira com os ombros enquanto agarrava os puxadores.
Incrivelmente, as portas abriram; claridade iluminando os degraus de pedra da varanda, iluminando o caminho. Ela
virou e começou a atirar, dando cobertura aos três homens que corriam para a luz no meio da escuridão.
Eles entraram na mansão, Barry jogando seu considerável volume contra a porta, mantendo-a fechada sob os
ruídos das criaturas.
Eles conseguiram. Do lado de fora, os cães latiam e arranhavam as portas inutilmente.
Wesker respirou fundo, o fresco e calmo ar que preenchia a bem iluminada sala. Como ele já sabia, a mansão de
Spencer não estava abandonada. E agora que eles estavam lá, todo o seu cuidadoso planejamento foi inútil.
Wesker silenciosamente amaldiçoou Brad Vickers de novo, e imaginou se eles ficarão melhor dentro do que fora
da mansão...
Jill examinou o lugar enquanto recuperava o fôlego, sentindo-se a personagem de um pesadelo que acabou de
virar fantasia. Monstros selvagens, a morte súbita de Joseph, uma assustadora corrida pela floresta escura - e
agora isto.
Deserta, né?
Era um palácio, puro e simples, o que seu pai chamaria de um perfeita conquista. A sala era um resumo de
abundância. Era enorme, facilmente maior que a casa de Jill inteira, pavimentada com mármore cinza-manchado
e dominada por um larga e carpetada escadaria que levava ao segundo andar. Alinhados pilares arqueados de
mármore adornavam o lugar, suportando o escuro parapeito de madeira do andar superior.
As paredes cor-de-creme eram revestidas por um alto rodapé de madeira e possuíam castiçais de luz
pendurados. Resumindo, era magnífica.
"O que é isto?". Barry perguntou. Ninguém respondeu.
Jill respirou fundo, sentindo-se ameaçada pela vasta sala, uma atmosfera de opressão.
Deus, pobre Joseph.
Não houve tempo para ficar de luto - mas eles sentirão sua falta.
Ela foi na direção das escadas, seus passos abafados pelo carpete que começava na porta. Havia uma velha
máquina de escrever numa pequena mesa à esquerda da escada. Uma estranha decoração... de outra forma, a
sala estava vazia.
Ela virou-se para os outros. Barry e Chris pareciam incertos. Wesker ainda estava na porta, examinando um dos
puxadores.
Wesker se levantou. "A madeira em volta da tranca está despedaçada. Alguém arrombou esta porta antes de
nós chegarmos aqui".
"Talvez os Bravos?". Chris perguntou esperançoso.
"É o que eu estava achando. A ajuda deve estar a caminho, se o nosso "amigo" Sr. Vickers não se incomodar
em chamá-la". Wesker disse com sarcasmo. Brad arruinou tudo, quase custou suas vidas. Não havia desculpas
para isso.
Wesker continuou, andando pela sala, na direção de uma das portas duplas do lado direito dela. Ele girou a
maçaneta, mas ela não abriu. "Não é seguro voltar para fora. Enquanto o resgate não chega, nós podemos dar
uma olhada no lugar. É óbvio que alguém está mantendo o lugar em ordem, mas por que e por quanto
tempo...".
Ele voltou para os outros. "Como estamos em munição?".
Jill tirou o clip e contou: três balas sobrando, mais dois clips carregados no cinto. Trinta e três balas. Chris tinha
vinte e duas, Wesker, dezessete. Barry tinha dois carregadores para sua Colt, mais algumas balas soltas no
bolso, dezenove ao todo.
Jill pensou em tudo o que deixaram no helicóptero e sentiu mais raiva de Brad. Munição, lanternas, walkie talkies,
espingardas - sem falar nos suprimentos médicos. A Beretta que Joseph achou deve ser de algum Bravo morto
ou morrendo, e graças a Brad, eles não tinham se quer um band-aid para oferecer.
Thump!
O som de algo pesado caindo no chão, em algum lugar por perto. Em harmonia, eles se viraram para a única
porta dupla no lado esquerdo da sala. Jill se lembrou de cada filme de terror que já viu; uma casa estranha, um
barulho estranho... ela tremeu, e decidiu que iria chutar o traseiro gordo de Brad quando voltar.
"Chris, vá verificar e volte o quanto antes". Wesker disse. "Nós vamos esperar aqui se o R.P.D. aparecer. Em
caso de problemas, atire que nós o acharemos".
Chris concordou e foi para a porta, suas botas batendo altamente conta o chão de mármore.
"Chris?". Jill disse, com um mau pressentimento.
De mão na fechadura, ele olhou para ela.
"Tome cuidado". Ela disse.
Chris deu um sorrisinho, depois ergueu a arma e passou pela porta.
Barry sorriu para ela, um olhar que a disse para não se preocupar - mas Jill não conseguia disfarçar o sentimento
de que ele não estaria voltando.
Chris entrou na sala, vendo a suntuosa elegância do lugar. Ele estava sozinho; quem quer que tenha feito o
barulho, não estava lá.
O formal tic-tac de um grande e antigo relógio de pêndulo era ouvido, ecoando pelas lajotas pretas e brancas. Era
uma sala de jantar, do tipo que ele só via em filmes de gente rica. Como a anterior, esta sala tinha um pé direito
bem alto e o parapeito do segundo andar. Também era decorada com caras obras de arte e uma lareira
embutida no final dela, adornada com um brasão e espadas cruzadas sobre um manto. Não parecia ter como ir
para o andar de cima, mas havia uma porta fechada à direita da sala, mais ao fundo, ao lado da lareira...
Chris abaixou a arma e foi para a porta. A sala de jantar tinha ornamentos em madeira vermelha polida e quadros
nas paredes cor-de-creme, que circundavam uma longa mesa de madeira. A mesa tinha capacidade para cerca
de vinte pessoas. Pelo pó que estava nela, nada foi servido por semanas.
Ninguém deveria tê-la usado por trinta anos. Spencer fechou o lugar antes que alguém pudesse ficar aqui.
Chris balançou a cabeça. Obviamente foi reaberta muito tempo atrás... por que a Umbrella mentiu sobre suas
condições? Todos na cidade achavam que era uma pensão apodrecendo no meio do mato!
Ele alcançou a porta e girou a maçaneta, tentando ouvir algum som do outro lado.
A porta dava no meio de um estreito corredor. Chris olhou em ambas as direções rapidamente. À direita, uns dez
metros de corredor, duas portas de um lado e outra no final. À esquerda, o corredor virava para a direita, mais
largo. Ele viu a ponta de um tapete.
Tinha um vago odor no ar, algo desagradável, algo familiar.
Num verão quando ele era criança, a corrente de sua bicicleta saiu num passeio com os amigos. Ele parou a uns
quinze centímetros dos restos do que algum dia foi uma marmota. O tempo e o calor do verão criaram o pior dos
odores. Para completar, ele vomitou todo o seu almoço. Ele ainda se lembrava do cheiro, o mesmo cheiro que
habitava o corredor.
Fummp.
Um suave e confuso ruído veio de trás da primeira porta à direita do corredor, na parede da esquerda, como uma
mão deslizando na parede. Tinha alguém do outro lado.
Chris foi até ela. Chegando mais perto, o som parou, ele pode ver que a porta estava meio aberta.
Ele a abriu, saindo num corredor decorado com um papel de parede verde-água. Um homem estava de pé a uns
seis metros, de costas. Ele se virou vagarosamente, o cuidadoso arrastar de pés de um bêbado ou de um ferido,
e o cheiro que Chris percebeu antes vindo dele. Suas roupas estavam rasgadas e manchadas, a parte de trás da
cabeça era desigual, seu cabelo despenteado.
Deve estar doente, talvez morrendo -
Que seja, Chris não estava gostando. Ele entrou no corredor e mirou sua Beretta no peito do homem. "Espere,
não se mova!".
O homem completou seu giro e foi na direção de Chris.
A face dele - daquilo - estava mortalmente pálida, exceto pelo sangue em seus lábios podres.
Pedaços de pele seca estavam penduradas em suas bochechas fundas, e os círculos escuros de seus olhos
expressavam fome enquanto erguia suas mãos esqueléticas -
Chris atirou, três tiros que acertaram o peito da criatura em um fino jato vermelho. Com um som de respiração, a
coisa caiu no chão, morta.
Chris balançou para trás, seus pensamentos fluindo em sincronia com seus batimentos cardíacos. Ele bateu na
porta com um ombro, não percebendo que ela se fechou, enquanto ia na direção do corpo.
- morto, aquela coisa é um maldito morto vivo!
Os ataques canibais em Raccoon, todos eles próximos à floresta. Ele viu muitos filmes tarde na noite para saber o
que era aquilo, mas ainda não conseguia acreditar.
Zumbis.
Não, nem pensar, aquilo é ficção - deve ser algum tipo de doença, imitando os sintomas. Ele tinha que contar aos
outros. Ele virou e agarrou a maçaneta, mas ela não iria abrir, deve ter se trancado quando ele a empurrou -
Atrás dele, um movimento. Chris girou, olhos arregalados enquanto a criatura se erguia do chão, avançando
sobre ele, em silêncio. Chris o viu babar, e a visão de um pegajoso riacho vermelho empoçando no chão de
madeira, o pôs em ação.
Ele atirou de novo, dois tiros na apodrecida face da criatura. Escuros buracos apareciam na cabeça dela, sangue
escorrendo pela boca. Com um pesado suspiro, ela foi ao chão, espalhando um lago vermelho.
Chris não queria ficar mais ali com o corpo. Deu um último e inútil puxão na porta e passou cuidadosamente pelo
morto, descendo o corredor. Ele girou o trinco de um porta à sua esquerda, mas estrava trancada. Tinha um
pequena marcação na fechadura, o que parecia ser uma espada; gravando essa informação, ele continuou
andando, segurando sua Beretta bem forte.
Mais adiante, havia uma passagem com uma única porta, mas ele a ignorou, querendo achar um modo de voltar
ao hall principal.
Tinha outra porta no final do corredor, à esquerda, onde ele virava. Chris foi na direção dela, o cheiro de podridão
da criatura -
- do zumbi, chame-a do que realmente é -
- aumentando cada vez mais. Ao tocar na maçaneta ele ouviu um suave e faminto gemido, sabendo que só tinha
duas balas no clip. Nas sombras à sua direita, movimento.
Preciso recarregar, ache algum lugar seguro -
Chris abriu a porta e entrou, caindo direto nos braços de outra criatura que lá esperava, seus descascados dedos
o agarrando enquanto investia em sua garganta.
[5]
Três tiros. Segundos depois, outros dois, os sons distantes mas distintos.
Chris!
"Jill, por que você não -". Wesker começou, mas foi interrompido por Barry.
"Eu também vou". Ele disse, já indo para a porta a qual Chris passou. Chris não gastaria tantos tiros assim a não
ser que tivesse que... ele precisava de ajuda.
"Vá. Eu esperarei aqui". Wesker concordou.
Barry abriu a porta, Jill logo atrás. Eles entraram numa enorme sala de jantar, não tão grande quanto o hall
principal, mas era comprida. Passando por um relógio de pêndulo eles foram para uma porta mais ao fundo.
Jill a alcançou primeiro, tocando a fechadura e olhando para ele. Barry acenou e ela abriu, indo abaixada para a
esquerda.
Barry foi para o outro lado, ambos num corredor vazio.
"Chris?". Jill o chamou quietamente, mas não houve resposta. Barry sentiu um cheiro; algo cheirava como fruta
poder.
"Eu vou ver as portas". Ele disse. Jill acenou e foi para a esquerda, alerta e concentrada.
Barry foi até a primeira porta, sentindo-se bem com Jill atrás dele. Ele achou que ela fosse meio desbocada ao ser
transferida, mas ela tem provado ser uma capaz e brilhante soldada, uma adição bem-vinda aos Alphas -
Jill deu um alto grito de surpresa e Barry se virou, o estranho cheiro se tornando mais intenso.
Jill estava recuando da curva no fim do corredor, sua arma apontada para algo que Barry não podia ver.
"Pare!". A voz dela alta e instável, sua expressões aterrorizadas -
- e ela atirou, uma, duas vezes, ainda recuando na direção de Barry.
Ele ergueu sua Colt enquanto ela saia do caminho, enquanto um homem alto aparecia. Os braços do homem
estavam esticados como os de um sonâmbulo.
Barry viu o rosto da criatura e não hesitou. Ele atirou. Uma bala .357 arrebentando o alto da pálida cabeça em
uma explosão, sangue escorrendo por suas estranhas e horríveis feições.
E a coisa caiu para trás, aos pés de Jill. Barry correu para o lado dela, abalado.
"O que -". Ele disse, então viu o que estava no carpete, na frente deles, estendido na pequena saleta que dava
fim ao corredor.
Por um momento, Barry pensou que fosse Chris - até ver a insígnia do S.T.A.R.S. Bravo no colete, tentando
reconhecer o corpo. O Bravo tinha sido decapitado, a cabeça a uns trinta centímetros do corpo, o resto
completamente coberto por ferimentos.
Oh Deus, é o Ken.
Kenneth J. Sullivan, um dos melhores no campo de escuta que Barry já conheceu, e um baita cara legal. Havia
um profundo ferimento no peito dele, pedaços de carne parcialmente comida e intestinos em volta do buraco
ensangüentado.
Sua mão esquerda não estava lá, e não havia arma por perto; deve ter sido a arma dele que Joseph achou lá
fora...
Barry desviou o olhar, enjoado. Ken fez muitos trabalhos em química. Ele tinha um filho adolescente que morava
com sua "ex" na Califórnia. Barry pensou em suas filhas em casa, Moira e Poly. Ele não estava com medo de
morrer, mas só de pensar nelas crescendo sem um pai...
Jill se agachou perto do corpo destruído, vasculhado os bolsos dele. Ela olhou apologeticamente para Barry que
deu um aceno, concordando. Eles precisavam de munição; Ken certamente não.
Ela achou clips de 9 mm e os colocou em seu bolso. Barry se virou e olhou para o agressor de Ken.
Ele não tinha dúvidas de que estava olhando para um dos assassinos canibais que tem caçado em Raccoon City.
O homem tinha uma crosta vermelha em volta da boca e carne em suas unhas, sua camisa esfarrapada dura
com sangue seco. O estranho era o quanto - morto ele parecia.
Barry já fez um resgate secreto de reféns no Equador, onde um grupo de fazendeiros estavam sob a custódia de
um bando de rebeldes malucos da guerrilha. Vários reféns foram mortos e depois do S.T.A.R.S. ter capturado os
rebeldes, Barry foi registrar as mortes com um dos sobreviventes. As quatro vítimas foram baleadas, seus corpos
jogados atrás de um barraco de madeira a qual os rebeldes se apossaram. Depois de três semanas sob o sol da
América do Sul, a pele do rosto deles tinha enrugado. Ele se lembrava delas claramente, e as viu de novo olhando
para a criatura no chão. Era a face da morte.
Além disso, cheirava como um matadouro num dia quente. Alguém esqueceu de dizer a esse cara que mortos
não andam por aí.
A mesma confusão estava no rosto de Jill, mas eles tinham que achar Chris e reagrupar.
Juntos, eles voltaram para o corredor e verificaram as três portas. Todas estavam trancadas.
Mas Chris tem que ter passado por uma delas, não há outro lugar que ele possa ter ido...
Não fazia sentido. Exceto arrombar as portas, não havia mais nada a ser feito.
"Nós devemos relatar isso para o Wesker". Jill disse, e Barry concordou. Se esse é o esconderijo dos assassino,
eles precisarão de um plano de ataque.
Passando pela sala de jantar eles cruzaram a porta para o hall principal, Barry imaginando o que o capitão dirá
sobre isso. Era óbvio que -
Barry parou, procurando na elegante e vazia sala, não achando graça no que poderia ser uma brincadeira.
Wesker não estava lá.
"Wesker!". Barry gritou. "Capitão Wesker!".
Ele correu para o fundo da sala. "Não saia da sala!". Disse para Jill.
Ela foi para as escadas, sentindo-se tonta. Primeiro Chris, agora o capitão. Não se passaram cinco minutos, e ele
disse que esperaria. Por que ele sumiu? Ela procurou por sinais de luta, cartuchos de balas, marcas de sangue -
mas não havia nada que mostrasse o que podia ter acontecido.
Barry passou debaixo da escada e apareceu do outro lado, balançando a cabeça.
"Você acha que Wesker se deparou com uma daquelas - coisas?". Jill perguntou.
"Eu não acho que o R.P.D. apareceu e o levou. Se ele estivesse com problemas, nós teríamos ouvido os tiros -".
"Não necessariamente, ele pode ter sido emboscado, raptado...".
Eles pararam por um momento, pensando. Jill ainda estava chocada por causa do encontro com o morto-vivo.
A vida inteira lendo livros sobre serial killers, e um zumbi ainda é difícil de aceitar?
Não era, e nem os cachorros cuidando da casa. Não havia dúvidas de que tudo isso existia. Mas por que? A
mansão tinha alguma coisa a ver com os assassinatos?
E foi aquela criatura a última coisa que Becky e Pris viram?
Jill tirou quase que violentamente esse pensamento da cabeça. "Nós damos uma olhada ou esperamos?". Ela
disse finalmente.
"Damos uma olhada. Ken fez isso. O resto dos Bravos devem estar por aí. É fácil demais se perder aqui. Chris...
Chris e Wesker se perderam, mas nós os acharemos. É preciso mais do que alguns cadáveres para causá-los
problemas".
Ele colocou a mão no bolso e tirou algo embalado num lenço, entregando-o a Jill. Ela sentiu os finos metais e os
reconheceu instantaneamente.
"É o kit que você me deu para treinar no último mês". Ele disse. "Acho que você terá mais sorte com eles".
Ela acenou, colocando os *lockpicks em seu bolso. Barry tinha se interessado pela antiga "profissão" dela, e ela
lhe deu algumas peças de sua coleção, alguns palitos e barras de torção. O material poderia ser útil. Ela pôs o
pequeno pacote no bolso, em cima de algo duro e liso -
- o computador de Trent! Ela tinha se esquecido do estranho encontro devido aos últimos acontecimentos. Ela
abriu a boca para contar a Barry, mas lembrou do conselho de Trent.
"Eu não mencionaria esta conversa para ninguém".
Que se dane. Ela quase falou para Chris...
E onde está Chris agora? E se as "terríveis conseqüências" de Trent já não aconteceram?
Jill decidiu ficar de boca fechada até ver o que tinha no computador.
"Eu acho que devemos nos separar". Barry continuou. "Eu sei que é perigoso, mas tem muita coisa para ver.
Achando alguém, nos encontramos aqui, use esta sala como base. Você concorda, Jill? Nós podemos ir juntos...".
"Não, você está certo". Ela disse. "Eu fico com a asa leste". Ao contrário dos policiais, o S.T.A.R.S. era treinado
para se cuidarem sozinhos em situações perigosas.
"Tá bom. Eu vou voltar e ver se consigo abrir uma daquelas portas. Fique de olho em alguma saída dos fundos,
guarde munição... e tome cuidado".
"Você também".
Barry sorriu, com sua Colt na mão. "Eu ficarei bem".
Jill foi para a porta dupla a qual Wesker tinha tentado abrir. Barry voltou para a sala de jantar. Ela ouviu a porta
abrir e fechar , ficando sozinha.
A porta dupla azul foi aberta facilmente, revelando uma pequena, escura e azulada sala. Luzes iluminavam os
quadros nas paredes, e no centro da sala, uma grande estátua de uma mulher segurando um vaso no ombro. Jill
fechou a porta e se ajustou a escuridão, notando duas portas no lado oposto da sala. A da esquerda estava
aberta, apesar de uma arca estar bloqueando a passagem. Wesker não deve ter ido por lá...
Ela foi para a da direita e tentou abri-la. Trancada. Suspirando, ela colocou a mão no bolso mas hesitou, sentindo
o leitor de mini-disco.
Vamos ver o que o Sr. Trent acha que é tão importante...
Ela o puxou e o estudou, depois apertou um botão. A tela do tamanho de um cartão de crédito se ligou. Mais
alguns toques, e pequenas linhas escritas apareceram. Ela reconheceu nomes e datas de jornais locais. Trent
compilou todos os artigos que pode encontrar sobre os assassinatos e desaparecimentos em Raccoon, e algo
sobre o S.T.A.R.S..
Nada novo aqui... Jill foi passando, imaginando qual seria o ponto. Depois dos artigos estava uma lista de nomes.
WILLIAM BIRKIN, STEVE KELLER, MICHAEL DEES, JOHN HOWE, MARTIN CRACKHORN, HENRY SARTON,
ELLEN SMITH, BILL RABBITSON.
Ela franziu. Nenhum era familiar, exceto - Bill Rabbitson não era o amigo de Chris, aquele que trabalhou para a
Umbrella? Ela não estava certa, ela tinha que perguntar a Chris...
.. se é que o acharemos. Chega de perder tempo. Ela precisava achar os outros S.T.A.R.S.. Ela apertou o botão
de continuar para chegar ao fim das informações, e um desenho apareceu, pequenas linhas padronizadas.
Tinham quadrados e retângulos, conectados por linhas. Abaixo havia outra linha, uma mensagem tão enigmática
quanto poderia esperar de Trent: CHAVES DO CAVALEIRO; OLHOS DO TIGRE; QUATRO PEÇAS (PORTÃO DE
UMA NOVA VIDA); LESTE - ÁGUIA / OESTE - LOBO.
Nossa, que esclarecedor. Isso torna tudo mais claro, não é? O desenho era algum tipo de mapa, ela decidiu.
Parecia ser uma planta. A área maior estava no centro, uma menor estendendo-se para a esquerda...
De repente, Jill sentiu seu coração pular uma batida. Ela olhou para a tela e imaginou como Trent ficou sabendo.
Era o primeiro piso da mansão. Ela apertou o botão de continuar e viu o que só poderia ser o segundo andar. Não
havia mais dúvidas de que a mansão de Spencer era a responsável pela onda de terror em Raccoon City -
significando que as respostas estavam lá, esperando serem descobertas.
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*Lockpicks - (palavra em inglês) Objetos usados para a abertura de fechaduras.
-------------------------------------------------------------- * * * O zumbi gemeu enquanto Chris apertava o gatilho duas
vezes no estômago dele. Os tiros foram abafados pela carne estragada do ser, que caiu em cima de Chris,
exalando um horrível hálito em seu rosto. Chris empurrou a criatura que foi ao chão, sua arma pingando um
líquido mau cheiroso.
Chris se afastou, secando o revólver no colete enquanto respirava fundo, tentando não vomitar.
O corredor a qual entrou era escuro tal como seus detalhes em madeira. Ele recarregou a arma; quinze balas
restando. Ele tinha uma faca Bowie, mas a idéia de enfrentar uma criatura que com certeza matou pessoas em
Raccoon, não era boa.
Tinha uma porta a sua esquerda. Também trancada. Ele não ficou surpreso em ver uma gravação do que
parecia ser uma armadura. Espada, armadura -
Ele andou pelo espaçoso corredor, escutando, respirando profundamente pelo nariz. O corredor virava para a
esquerda. Tinha um pilar de suporte bloqueando parcialmente sua visão, mas ele podia ver as costas de um
homem logo atrás da estrutura.
Chris rapidamente foi para a direita, tentando um ângulo certeiro. O zumbi estava a uns doze metros de distância,
e ele não queria desperdiçar seus últimos tiros. Ao som das botas de Chris, os zumbi se virou. Tão devagar que
Chris hesitou em olhá-lo.
Este parece ter sido mergulhado numa fina camada de saliva, luz refletindo em sua pele assim que se movia na
direção de Chris, levantando os braços.
Chris deslizou para a esquerda e o zumbi mudou de direção, diminuindo a distância entre os dois.
Como nos filmes; perigosos mas lerdos. E fáceis de ultrapassar...
Havia uma escada no fim do corredor, Chris respirou fundo, recuou ganhando mais espaço -
- e ouviu um gemido atrás dele. Chris girou.
O outro zumbi estava a apenas alguns passos de distância, caminhando, pedaços de seu abdome caindo no
chão. Ele ainda não o tinha matado, não tinha esperado o suficiente.
Ah, droga!
Chris saiu correndo, desviando de ambos. Ele cruzou o grosso pilar, quase na escada -
- e parou frio, vendo o que estava no topo dela. Ele pegou um lance da criatura em pé lá em cima e virou-se,
apontando a arma para os outros dois que vinham em sua direção, famintos.
Das sombras ao lado da escada veio a visão de outra porta; ele estava emboscado, não havia como matar todos
-
- a porta!
Ela estava de frente para a lateral da escada, a escura madeira tão bem camuflada nas sombras que ele quase
não a viu. Chris correu para ela, agarrando a maçaneta, rezando para que ela abrisse. Os zumbis estavam mais
perto.
Se estiver trancada, ele estará morto.
Rebecca Chambers nunca esteve tão assustada em seus dezoito anos.
Pelo que parecia uma eternidade, ela escutou o suave som de carne apodrecida sendo esfregada na porta, e
tentou desesperadamente bolar um plano, seu medo crescendo a cada minuto.
Não havia trava na porta e ela tinha perdido sua arma na corrida para a casa. A pequena sala, apesar de bem
equipada com produtos químicos e pilhas de papel, não oferecia nada mais além de um inseticida para se
defender.
Ela pegou o inseticida e permaneceu atrás da porta. Ela planeja usá-lo caso algum monstro aprenda a usar a
maçaneta.
Ela ouviu o que poderiam parecer tiros em algum lugar próximo. Sua esperança era a de que fosse alguém do
time, mas com o passar do tempo ela começou a achar que era a única restando - quando a porta abriu
subitamente, e uma figura respirante correu para dentro.
Rebecca não hesitou. Ela avançou e apertou o botão, jogando uma nuvem de química na face dele, tentando
correr -
"Gah!". Ele gritou e encostou na porta, fechando-a. Ele cobriu os olhos, cuspindo.
Ele não era um monstro. Ela acabou de agredir um dos Alphas.
"Ah, não!". Rebecca já estava mexendo em seu kit médico, imensamente aliviada em ver outro S.T.A.R.S., e
envergonhada.
Ela tirou um pano limpo e um pote de água, indo na direção dele. "Fique de olhos fechados, não os esfregue".
O Alpha abaixou as mãos e ela finalmente o reconheceu. Era Chris Redfield. Ela se sentiu vermelha, e grata por
ele não conseguir vê-la.
Boa, Rebecca. Quer causar uma boa impressão em sua primeira missão, mas acaba perdendo a arma, se
perdendo, cegando um membro de equipe...
Ela o levou para a pequena cama no canto da sala. Ela o sentou e aplicou seu treinamento.
"Ponha a cabeça para trás. Isso vai arder um pouco, mas é só água, tá bom?". Ela passou um pano úmido nos
olhos dele, aliviada por não ter sido nada grave.
"O que era aquilo?". Ele perguntou, piscando rapidamente.
"Ah, inseticida. O rótulo foi arrancado mas o ingrediente ativo é provavelmente permefrina, é um irritante e o
efeito não vai durar muito. Eu perdi minha arma, e quando você entrou eu pensei que fosse uma daquelas coisas,
apesar de eles ainda não terem aprendido a usar uma maçaneta, e nem vão -".
Ela percebeu que estava tagarelando e parou, terminando os cuidados e se afastando. Chris esfregou o rosto e
olhou para ela, de olhos vermelhos.
"Rebecca... Chambers, certo?".
Ela acenou miseravelmente. "É. Olha, eu sinto muito -".
"Não se preocupe". Ele disse, e sorriu. "Na verdade não é uma arma ruim".
Ele se levantou e olhou em volta, franzindo. Não tinha muito o que ver: um baú aberto cheio de papéis, uma
estante com frascos de produtos químicos, uma cama e uma mesa.
"E o resto do time?". Ele perguntou.
"Eu não sei. Aconteceu algo de errado com o helicóptero e nós tivemos que pousar. Depois nós fomos atacados
por animais, algum tipo de cachorro, e Enrico nos disse para correr". Ela encolheu os ombros, sentindo como se
tivesse doze anos. "Eu - virei na floresta e saí de frente para este lugar. Eu acho que um dos outros arrombou a
porta, estava aberta...".
Ela se esgotou, desviando do intenso olhar de Chris. O resto era óbvio: ela não tem arma, se perdeu, e terminou
aqui.
"Ei,". Ele disse suavemente. "Não havia mais nada a fazer. Enrico disse corra, você correu, você seguiu ordens.
As criaturas lá fora, os zumbis... eles estão por toda parte. Eu me perdi, também, e o resto dos Alphas podem
estar em qualquer lugar. Confie em mim, pelo fato de você ter chegado -".
Do lado de fora, um dos monstros deu um baixo e triste choro, fazendo Chris parar de falar.
"Então o que faremos agora?".
"Nos procuraremos pelos outros e tentaremos achar a saída". Ele suspirou, olhando para sua arma. "Só que você
não tem arma e eu estou quase sem munição...".
Rebecca se iluminou e colocou a mão no bolso da calça. Ela tirou dois clips carregados do bolso e os deu a ele.
"Oh! E eu achei isso na mesa". Ela tirou uma chave prateada com uma espada entalhada nela. Chris a pegou e
colocou no bolso. Ele andou para o baú e olhou para os papéis.
"O seu conhecimento é em bioquímica, né? Você já deu uma olhada nisso?".
Rebecca foi até ele, balançando a cabeça. "Não. Eu estive muito ocupada cuidando da porta".
Ele pegou um dos papéis e ela os viu rapidamente. Era uma lista de neurotransmissores e indicadores de nível.
"Química cerebral,". Ela disse. "mas esses números estão todos bagunçados. A *serotonina e a *norepinefrina
estão muito baixos... mas olhe aqui, a *dopamina está fora do gráfico, estamos falando de esquizofrenia -".
Ela percebeu o incrédulo olhar no rosto de Chris e sorriu um pouco. Ela teve muito disso por ser uma jovem de
dezoito anos formada. O S.T.A.R.S. a recrutou logo depois da formatura, prometendo a ela uma equipe inteira de
pesquisadores e um laboratório para estudar biologia molecular, sua verdadeira paixão -
Houve um leve thump na porta e o sorriso dela foi embora.
Chris tirou a chave de espada do bolso e olhou seriamente para ela. "Eu passei por uma porta com uma espada
entalhada sobre o buraco da chave. Eu vou checá-la, ver se ela leva ao hall principal. Eu quero que você fique
aqui e veja aqueles arquivos. Pode ter algo que possamos usar".
Ele viu um olhar de incerteza nela e sorriu gentilmente. "Eu tenho munição graças a você, e não vou ficar muito
tempo fora".
Ela acenou, tentando relaxar. Ela estava assustada, tal como ele devia estar, também.
Ele foi para a porta, ainda falando. "O R.P.D. deve estar aqui a qualquer momento, se eu não voltar agora
mesmo, espere aqui".
Erguendo a arma ele colocou a mão na maçaneta. "Fique preparada. Assim que eu sair, ponha o baú na frente
da porta. Eu vou gritar quando voltar".
Rebecca acenou de novo, e com um rápido e final sorriso, Chris abriu a porta e olhou para ambos os lados antes
de sair. Ela fechou a porta e se apoiou nela, escutando. Depois de alguns segundos de silêncio, ela escutou tiros
não muito longe, cinco ou seis tiros - e só.
Depois de alguns minutos, ela empurrou o baú para bloquear parte da porta. Ela se ajoelhou em frente a ele,
tentando limpar sua mente assim que começava a olhar os papéis. Suspirando, ela tirou um punhado deles e
começou a ler.
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*Serotonina, Norepinefrina e Dopamina - São neurotransmissores, moléculas que levam impulsos nervosos entre
um neurônio e outro.
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[6]
A fechadura foi moleza. Jill poderia tê-la aberto com alguns clips de papel. De acordo com o mapa, a porta dava
num longo corredor...
Com certeza. Ela deu outra olhada na tela e o colocou no bolso, pensando. Parecia que tinha uma porta no fim
dele e depois um monte de salas.
Ela entrou no corredor, de Beretta completamente carregada na mão.
O corredor não era tão espetacular, o carpete e papel de parede eram claros e em tons marrons. As grandes
janelas mostravam a escuridão do lado de fora. As pequenas estantes que estavam encostadas na parede
interna, apesar...
Haviam três delas, cada uma com uma lâmpada, cada uma exibindo uma série de limpos ossos humanos em
prateleiras. Jill desceu o corredor, passando brevemente por cada espetáculo bizarro. Crânios, ossos do braço,
pernas, mãos e pés. Haviam, ao menos, três esqueletos completos. Entre os ossos estavam retorcidos pedaços
de couro...
Jill pegou um deles e os soltou rapidamente, esfregando os dedos na calça. Ela não estava certa, mas parecia
pele humana, dura e meio oleosa -
CRASH!
A janela atrás dela explodiu para dentro do corredor, uma nervosa forma invadindo o corredor, rosnando e
rangendo os dentes. Era um dos cachorros assassinos, indo para ela, tão perigoso quanto os cacos de vidro que
ainda caíam do vitrô estilhaçado.
Entre duas estantes, Jill atirou, errando, a bala despedaçando a madeira aos seus pés enquanto o cachorro
pulava nela.
Ele a acertou na coxa, golpeando-a dolorosamente contra a parede.
O cheiro de carne podre tomou conta dela, e ela atirou de novo e de novo, sem estar ciente de que gritava de
medo.
A quinta bala acertou diretamente o peito da abominação. Com um final e lamentável uivo a criatura foi para o
chão, sangue manchando o claro carpete.
Jill manteve a arma apontada para a imóvel criatura, respirando profundamente.
De repente, os membros do animal se debateram, seus dentes mordendo um pequeno desenho no chão
ensangüentado antes de ficar imóvel novamente. Jill relaxou, reconhecendo o movimento como a contração
muscular de um morto.
Ela tirou o cabelo dos olhos e se abaixou, vendo os estranhos e expostos músculos e dentes.
Estava muito escuro quando eles correram para a mansão, não reparando na coisa que matou Joseph - mas sob
a luz do corredor, sua impressão inicial não mudou; era um cachorro sem pele.
Ela se levantou e se afastou, olhando as janelas que obviamente não ofereciam proteção para os riscos do lado
de fora. O corredor virava à esquerda e ela correu.
O porta no fim do corredor estava destrancada. Ela dava em outro corredor, não tão iluminado mas não tão
bizarro. O papel de parede cinza-esverdeado tinha quadros com paisagens gentis, nada de ossos a vista.
A primeira porta à direita estava trancada e tinha uma armadura entalhada na fechadura. Jill lembrou da lista no
computador, algo sobre chaves do cavaleiro, mas decidiu não se incomodar com isso agora. De acordo com o
mapa de Trent, havia uma sala do outro lado que não dava em lugar nenhum.
A próxima porta dava em um banheiro, completo com um ventilador de teto e uma banheira fora de moda com
quatro pés. Não tinha sinais de uso recente.
Ela ficou um momento no velho lugar, sentindo a adrenalina que ganhou no outro corredor. Ainda crescendo, ela
aprendeu a gostar do medo do perigo, de entrar e sair de lugares estranhos com apenas algumas ferramentas, e
a própria inteligência para se sentir segura. Depois que entrou para o S.T.A.R.S., tudo isso foi perdido pelas
coberturas e armas - mas agora tudo voltou, inesperado e bem vindo. Ela se sentiu... bem. Viva.
Jill voltou para o silencioso corredor, virando-o novamente. O corredor terminava com duas portas, uma de frente
para a outra. A da direita era a que ela queria. Ela se sentia avantajada com os mapas e decidiu que uma vez
verificada a possível rota de fuga, ela voltaria para o hall principal e esperaria por Barry.
Ela girou a maçaneta da porta dupla e ouviu um leve snick. Ela entrou no escuro corredor e viu um zumbi, uma
desajeitada sombra ao lado de uma porta, uns três metros a frente.
Ao levantar a arma, a criatura avançou em sua direção, emitindo suaves sons de fome. Um de seus braços
estava pendurado fracamente apesar de Jill ter visto um osso saindo do ombro.
A cabeça, mire na cabeça -
Os tiros foram incrivelmente altos sob a fria obscuridade, o primeiro explodindo sua orelha esquerda, o segundo e
o terceiro fazendo buracos em seu crânio, bem acima da sobrancelha. Sangue escorrendo pelo rosto e ele caiu de
joelhos.
Houve um movimento vindo do fundo do corredor, onde ele virava à direita, exatamente onde ela queria ir. Jill
mirou na escuridão e esperou ele se aproximar, seu corpo cheio de tensão.
Quantas dessas coisas ainda existem?
Assim que o zumbi apareceu, ela atirou, a Beretta pulando levemente em suas mãos suadas. O segundo tiro
atingiu o olho direito e o zumbi imediatamente caiu na escura madeira do chão.
Jill esperou. Nada além da crescente poça de sangue se moveu. Respirando pela boca, ela foi para o fim do
corredor, passando por uma curta e estreita passagem que terminava em uma rústica porta de metal.
A porta foi aberta e ar fresco passou por Jill, quente e limpo depois do frio-necrotério da mansão. Ela franziu,
escutando o zumbido das cigarras e grilos. Ela chegou ao final de sua excursão, mas ainda não estava do lado de
fora.
Achar um caminho seguro direto para os fundos desse lugar. Nós podemos ir para norte, alcançar uma das
estradas e descer até a barricada...
Ela estava numa passagem coberta, o chão era um mosaico feito com pedras verdes, e tinha altas paredes de
concreto. Haviam pequenas aberturas arqueadas próximas ao teto, por onde a leve brisa passava e trepadeiras
desciam, como um lembrete do mundo exterior. Ela correu pela passagem, lembrando do mapa em que havia
uma única sala à direita -
Ela virou e se deparou com outra porta de metal, seu sorriso indo embora assim que tocava a maçaneta; a porta
estava presa.
À esquerda, na parede, estava algum tipo de diagrama numa lisa placa de metal. Haviam quatro depressões
hexagonais do tamanho de uma mão fechada, cada uma ligada a outra por uma fina linha. Jill observou a legenda
gravada abaixo, desejando ter uma lanterna enquanto fazia força para decifrar as palavras. Ela tirou a fina
camada de pó das letras e tentou de novo.
QUANDO O SOL SE PÔR NO OESTE E A LUA SE ERGUER NO LESTE, ESTRELAS COMEÇARÃO A APARECER NO
CÉU E O VENTO SOPRARÁ NA DIREÇÃO DO SOLO. ENTÃO, O PORTÃO DA NOVA VIDA SE ABRIRÁ.
Ela piscou. Quatro buracos -
- a lista de Trent! Quatro peças, e algo sobre o portão de uma nova vida - é um mecanismo de combinação para
a fechadura. Coloque as quatro peças e a porta abre...
Jill empurrou a porta e viu sua esperança desaparecer. Eles terão que achar outra saída, a não ser que achem os
artefatos - que nesse lugar poderia levar anos.
O som de um uivo se juntou a vários outros do lado de fora. Devem haver dezenas deles lá fora, não tornando a
porta dos fundos uma boa idéia.
Ela suspirou fundo e voltou para a casa, tentando se preparar para os perigos que se escondem a cada canto.
Os S.T.A.R.S. estavam presos. * * *
Chris sabia que tinha de contar munição, então quando deixou Rebecca, ele correu pelo corredor.
Ainda tinham três deles, todos agrupados perto da escada. Ele desviou facilmente dos zumbis e correu para a
porta que dava no outro corredor. Chegando na porta, ele virou, assumindo a pose clássica de atirador, mão na
coronha e dedo no gatilho.
Um por um, os zumbis foram aparecendo, gemendo e tropeçando. Chris mirou cuidadosamente, respirando,
mantendo o foco...
Ele apertou o gatilho, mandando duas balas no gangrenoso nariz do primeiro. Sem pausar, ele mandou um
terceira bala no centro da testa do próximo. Sangue espirrava na parede enquanto as balas terminavam na
madeira.
Enquanto eles caíam no chão, ele marcou o terceiro, que foi atingido por duas balas na cabeça.
Chris abaixou a arma, sentindo uma onda de orgulho. Ele era um atirador de elite de alta colocação, e tinha
premiações por isso - mas ainda era bom ver o que ele podia fazer quando se há tempo para mirar. O saque
rápido não era seu forte, e sim o de Barry...
Chris abriu a porta e voltou para o corredor verde-água. Ele checou ambas as direções. Adiante estava muito
escuro para dizer se estava seguro.
À direita estava a porta com a espada entalhada na fechadura, e o primeiro zumbi que ele atirou, esparramado
sem vida no chão. Aparentemente, tiros na cabeça eram o melhor jeito de matar um zumbi, igual nos filmes.
Ele foi até a porta, verificando o pequeno dobramento que a precedia. Vendo que estava limpo, ele inseriu a fina
chave na fechadura.
Ela girou facilmente. Chris entrou no pequeno quarto onde um a única luminária o iluminava. Ela estava em cima
de uma mesa no canto do quarto que não tinha ninguém, a não ser que houvesse alguém debaixo da cama... ou
talvez dentro do closet atrás da mesa.
Ele fechou a porta. Esse era o medo de todas as crianças, e foi o dele também - monstros no closet e a coisa
que vivia debaixo da cama, esperando o calcanhar da descuidada criança aparecer...
E quantos anos você tem agora?
Chris balançou a cabeça, desativando sua imaginação. Ele andou pelo quarto, procurando por algo que possa ser
útil. Não havia outra porta que levasse ao hall principal, mas talvez ele pudesse achar uma arma melhor do que
um inseticida para Rebecca.
Além de uma mesa de carvalho e uma estante de livros, havia uma pequena cama e uma mesa de estudos -
nada mais. Ele passou pelos livros e contornou a cama na direção da outra mesa. Tinha um fino livro próximo à
luminária, entitulado como: a journal (diário). Apesar da mesa estar coberta de pó, o diário foi movido
recentemente.
Intrigado, Chris o pegou e pulou para as últimas páginas. Poderia ter alguma pista sobre o que estava
acontecendo lá.
Ele sentou na ponta da cama e começou a ler.
9 de Maio de 1998: Hoje à noite eu joguei poker com Scott e Alias da Segurança, e Steve da Pesquisa. Steve foi
o grande vencedor, mas eu acho que ele estava trapaceando. Que idiota.
Chris sorriu um pouco. Ele pulou para a próxima data e seu sorriso congelou.
10 de Maio de 1998: Um dos superiores me designou para tomar conta de um novo experimento. Ele se parece
com um gorila sem pele. Segundo instruções, eles deviam se alimentados com animais vivos. Quando eu joguei
um porco na jaula, a criatura pareceu brincar com ele... rasgando suas pernas e pondo seus intestino fora antes
de começar a comê-lo.
Experimento? Ele está falando dos zumbis? Chris continuou lendo, empolgado com o achado. O diário só poderia
ser de alguém que trabalhou aqui.
11 de Maio de 1998: Por volta das 5 horas da manhã, Scott me acordou. Ele estava vestindo uma roupa
protetora que mais parecia um traje espacial. Ele me deu outra e pediu que eu a pusesse. Disse que houve um
acidente no laboratório subterrâneo. Eu sabia que algo assim aconteceria. Os idiotas da Pesquisa nunca
descansam, nem à noite.
12 de Maio de 1998: Eu tenho usado esta maldita roupa espacial desde ontem. A minha pele está ficando suja e
coça por toda parte. Por isso eu não fui alimentar os cachorros hoje. Estou me sentindo melhor agora.
13 de Maio de 1998: Hoje eu fui para a enfermaria porque as minhas costas estão inchadas e a coceira continua.
O médico colocou enormes ataduras em minhas costas e disse que eu não precisava mais usar a roupa espacial.
Tudo o que eu quero fazer é dormir.
14 de Maio de 1998: Quando levantei hoje de manhã, encontrei outra bolha no meu pé. Eu tive que arrastar o
meu pé até a jaula dos cachorros. Eles ficaram quietos o dia inteiro, o que é estranho. Foi aí que eu percebi que
alguns deles tinham escapado. Estarei encrencado se alguém descobrir.
15 de Maio de 1998: Primeiro dia de folga em tempos e eu me sinto péssimo. Mesmo assim decidi visitar Nancy.
Mas quando tentei sair daqui, fui parado pelos guardas. Eles disseram que a companhia ordenou que ninguém
saísse do subterrâneo. Eu nem posso fazer uma ligação telefônica - todos os telefones foram arrancados! Que
tipo de piada é essa?
16 de Maio de 1998: Ouvi falar que um pesquisador foi baleado ao tentar fugir daqui ontem à noite. O meu corpo
inteiro queima e coça e também soa o tempo todo. Eu cocei um inchaço no meu braço e de repente um pedaço
de carne podre foi arrancado. Até eu perceber que o cheiro me dava fome eu fiquei doente. Mas que diabos está
acontecendo comigo?
A letra começou a tremer. Chris virou a página, e mau conseguia ler as últimas linhas, as palavras rabiscadas ao
acaso pelo papel.
19 de Maio. A febre se foi mas a coceira... Faminto e comendo comida de cachorro. Coça coça Scott veio cara
feia matei ele. Saboroso.
4 / / coça. Saboroso.
O resto das páginas estava em branco.
Chris se levantou e colocou o diário dentro de seu colete, pensando.
Alguns pedaços estavam se juntando - uma pesquisa secreta numa mansão secretamente mantida, um acidente
num laboratório escondido, um vírus ou uma infeção que alterou as pessoas trabalhando lá, transformando-os em
demônios...
.. e alguns escaparam.
Os assassinatos em Raccoon começaram no final de Maio, coincidindo com as conseqüências do "acidente"; a
cronologia fazia sentido. Mas que tipo de pesquisa estava sendo feita aqui? E o quanto envolvida estava a
Umbrella?
E o quanto envolvido estava Billy?
Ele não queria pensar nisso - mesmo não querendo pensar em nada, outro pensamento apareceu... e se ainda é
contagioso?
Ele correu para a porta, louco para contar as novidades a Rebecca. Talvez ela possa saber o que foi feito no
laboratório secreto.
Mesmo agora, ele e os outros S.T.A.R.S. podem ser infectados.
[7]
Depois que Jill e Barry se separaram, Wesker ficou agachado no andar de cima do hall principal, pensando. Ele
sabia que aquela hora era importante, mas ele queria criar algumas possíveis situações antes de agir; ele já
cometeu erros e não queria que acontecesse de novo. Os Alphas eram um grupo brilhante, fazendo sua margem
de erro se estreitar.
Ele recebeu as ordens alguns dias atrás, mas não esperava ter que pô-las em prática tão cedo; a queda do
helicóptero do Bravo foi uma casualidade, tal como a covardia de Brad. Mesmo assim, ele devia estar mais
preparado. Ser pego de surpresa foi tão... não profissional.
Suspirando, ele colocou os pensamentos de lado. Ele não esperava terminar aqui, mas foi o que aconteceu, e se
julgar por falta de previsão não mudaria nada. Além disso, havia muito o que fazer.
Ele conhecia bem o subterrâneo da mansão, só que ficava muito pouco dentro dela. Já os laboratórios ele
conhecia com a palma de sua mão. A mansão era um labirinto, projetada por um engenhoso arquiteto no
começo da loucura. Spencer era estranho, ele instalou tudo quanto é tipo de pequenos mecanismos na casa, do
tipo que se vê em bobos filmes de espionagem dos anos 60...
Mecanismos que tornarão esse trabalho duas vezes mais difícil. Chaves escondidas, túneis secretos - é como se
eu estivesse preso num desses filmes, com direito a cientistas malucos e um relógio de pêndulo...
Seu plano original era de levar ambos os times para a mansão, e limpar a área antes de desce para os
laboratórios e preparar as coisas. Ele tinha as chaves mestras e códigos, claro. Elas foram enviadas junto com as
ordens, e abririam todas as portas da casa. O problema era, não havia chave para a porta que dava para o
jardim, a fechadura era um quebra-cabeça - e era o único meio de ir para o laboratório, exceto andar pela
floresta.
Coisa que não vai acontecer. Os cachorros pulariam em mim antes que eu pudesse dar dois passos. E se os 121
escaparam...
Wesker tremeu, lembrando do acidente com o guarda recruta, que chegou muito perto das jaulas, cerca de um
ano atrás. O cara foi morto antes de poder dizer socorro. Wesker não tinha intenção de contornar a casa sem a
cobertura de um exército.
O último contato com o lugar foi há seis semanas. Uma histérica ligação de Michael Dees para uma das centrais
do escritório White. O doutor tinha trancado a mansão, escondendo as quatro peças do quebra-cabeça para
manter os contaminados longe da casa. Até então, eles estavam todos infectados e sofrendo de algum tipo de
paranóia de desejo; um dos mais fascinantes efeitos colaterais do vírus. Só Deus sabe o que aconteceu lá
embaixo enquanto eles vagarosamente perdiam suas mentes...
Dees não foi exceção, apesar de ter agüentado mais do que os outros; algo a ver com metabolismo individual,
Wesker foi informado. A companhia já tinha decidido destruir tudo, apesar do cientista ter sido assegurado de que
a ajuda estava a caminho. O pessoal do White não arriscaria mais contaminações. Eles cruzaram os braços por
quase dois meses enquanto Raccoon sofria as conseqüências, enquanto o vírus perdia sua força - aí mandaram
Wesker para arrumar a bagunça. Que agora já é considerável.
O capitão correu seus dedos pelo veludoso carpete, tentando se lembrar de detalhes da reunião sobre a ligação
de Dees. Gostando ou não, tudo tinha que ser feito esta noite. Ele tinha que coletar as evidências requeridas e ir
para os laboratórios, tendo encontrado antes, as peças da fechadura. Dees foi incoerente, dizendo algo sobre
corvos assassinos e aranhas gigantes - mas ele insistiu que as peças estavam "escondidas onde só Spencer as
acharia", e isso fazia sentido. Todos que trabalhavam na casa sabiam sobre a atração de Spencer por
mecanismos secretos. Infelizmente, Wesker não se preocupou muito com eles, sem saber que algum dia
precisaria dessas informações. Ele se lembrou de algumas - a estátua do tigre com a combinação de olhos, a sala
das armaduras com o gás, e a sala secreta na biblioteca...
Mas eu não tenho tempo de ir em todas elas, não sozinho...
Wesker sorriu de repente e se levantou, impressionado como não havia pensado nisso antes. Ele poderia dar uma
nova missão aos Alphas e procurar pelas peças, só que ele não precisava fazer tudo. Chris está muito ocupado e
Jill ainda é imprevisível... Barry, apesar... Barry Burton era um homem de família. Chris e Jill confiavam nele.
Enquanto eles estão andando pela casa, eu posso ir ao sistema de auto-destruição e depois sair daqui, missão
completa.
Ainda sorrindo, Wesker foi para a porta dupla que dava no parapeito da sala de jantar. Era uma chance de testar
suas habilidades contra o resto do time e contra as criaturas que certamente estavam por aí.
Isso poderá ser divertido.
***
CAW!
Jill apontou a arma na direção do som, o triste grito ecoando por todo o lugar enquanto a porta se fechava. Aí ela
viu a origem do barulho e relaxou, sorrindo.
Mas que diabos vocês estão fazendo aqui?
Ela ainda estava na parte de trás da casa, e decidiu checar as poucas salas antes de voltar para o hall principal. A
primeira porta que ela tentou estava trancada, a entalhação de um capacete na fechadura. Seus lockpicks foram
inúteis. Então ela foi ver a porta do outro lado, que abriu facilmente. Ela entrou preparada para tudo - só que não
esperava ver um monte de corvos, espalhados numa barra de suporte ao longo da sala.
Os pássaros negros soltaram outro de seus irritantes gritos, e Jill tremeu. Haviam dúzias deles, batendo as asas
enquanto ela procurava ameaças na sala; ninguém nela.
A sala em forma de U a qual entrou era fria como o resto da casa, e não tinha móveis. Era uma galeria, nada
além de retratos e pinturas alinhadas na parede central. Penas escuras estavam espalhadas pelo gasto chão de
madeira. Jill imaginou como eles entraram lá e a quanto tempo. Suas aparências eram estranhas; eles pareciam
maiores do que o normal, e a estudavam com um olhar quase - sobrenatural.
Jill tremeu de novo, voltando para a porta. Não tinha nada de importante lá. Reparando nos retratos, ela
percebeu que haviam botões sob as molduras - ela presumiu serem os interruptores das luzes, apesar de não
entender por que alguém se incomodaria em fazer tal galeria para a tão medíocre arte. Um bebê, um jovem
homem... as pinturas eram horríveis, mas não exatamente inspiradas.
Ao tocar a fria maçaneta, ela franziu. Havia um pequeno painel ao nível do olho à direita da porta, rotulado
"spots" (luzes). Ela apertou um dos botões e uma única luz se apagou. Os pássaros desaprovaram, batendo as
asas, e Jill a ligou novamente, pensando.
Se esses botões são das luzes, para que são aqueles controles debaixo dos quadros?
A sala era mais do que ela pensava. Jill foi para a primeira pintura em frente a porta, um grande quadro com
anjos voando e nuvens iluminadas pelos raios do sol. O título era, "Do Berço ao Túmulo" . Não tinha botão sob
ele e Jill foi para o próximo.
Era o retrato de um homem de meia-idade ao lado de uma elaborada lareira. Pelo corte de seu terno e seu
cabelo, o quadro deveria ter sido pintado no final dos anos 40 ou no começo dos 50. Tinha um simples botão
on/off sob a moldura, sem nome. Jill o pôs da esquerda para a direita e ouviu um som elétrico -
- e atrás dela, os corvos explodiram num gritaria. Tudo o que ela ouviu foram os gritos e o bater de asas
enquanto pulavam em cima dela -
- e Jill correu, a porta parecendo estar a um milhão de quilômetros de distância, seu coração pulando O primeiro
pássaro a alcançou enquanto tocava a maçaneta, seu bico encontrando a macia pele da parte de trás do
pescoço dela. Houve um aguda dor atrás de sua orelha direita e Jill bateu nas agitadas asas que esfregavam suas
bochechas, gritando enquanto furiosos berros a envolviam.
Ela se debateu e o corvo a soltou, indo embora.
- são muitos, fora, fora, FORA.
Ela fechou a porta e voltou para o corredor, caindo no chão. Ela ficou lá por um momento, respirando. Nenhum
corvo tinha escapado.
Normalizando os batimentos cardíacos, ela se levantou e tocou o ferimento atrás da orelha. Seus dedos voltaram
com sangue, mas não era nada grave.
Por que eles atacaram, o que o botão fez? Ela lembrou do barulho elétrico ao apertar o botão, o som de um
choque -
- a barra!
Ela admirou quem fez a armadilha. Ao apertar o botão, uma corrente elétrica deve ter passado pela barra onde
eles estavam. Ela nunca ouviu falar em corvos treinados para atacar, mas pensou em outra explicação - alguém
estava escondendo algo naquela sala. Para descobrir, ela teria que voltar lá.
Eu posso ficar na porta e acertar um por um... ela não gostou da idéia. Ela não confiava em sua mira e acabaria
desperdiçando muitas balas.
Só tolos aceitam o óbvio, use a cabeça, Jillzinha.
Ela sorriu um pouco; era seu pai falando, fazendo-a se lembrar do treinamento que teve antes do S.T.A.R.S..
Uma de suas memórias mais recentes era a de se esconder nos arbustos do lado de fora de uma velha casa em
*Massachusetts que seu pai tinha alugado, analisando as escuras janelas enquanto ele explicava como "procurar
uma possibilidade". Dick fez disso um jogo, ensinando-a pelos dez anos seguintes os melhores pontos de entrada,
tudo desde como remover cacos de vidro sem danificá-los até subir escadas sem fazer crecks - e ele também
ensinou que toda charada tem mais de uma resposta.
Matar os pássaros era óbvio demais. Ela fechou os olhos, concentrando-se.
Botões e retratos... um jovem garoto, um bebê, um jovem homem, um homem de meia-idade...
"Do berço ao túmulo". Berço ao túmulo...
A resposta veio, deixando-a embaraçada pela simplicidade do enigma. Ela se levantou, pensando se os corvos já
voltaram para a barra. Uma vez lá, ela não teria problemas para descobrir o segredo.
Ela abriu a porta e ouviu o leve bater de asas, prometendo a si mesma ser mais cuidadosa. Apertar o botão
errado nesta casa pode ser mortal.
[8]
"Rebecca? Me deixe entrar, é o Chris".
Algo pesado foi arrastado contra a parede e a porta abriu. Chris entrou, já tirando o diário do colete.
"Eu achei esse diário num dos quartos, parece que houve algum tipo de pesquisa aqui, não sei qual mas -".
"Virologia". Rebecca interrompeu, erguendo alguns papéis, sorrindo. "Você estava certo sobre ter algo de útil
aqui".
Chris pegou os papéis e deu uma olhada. Para ele, aquilo era uma língua estrangeira feita de números e letras. "O
que é isso tudo? DH5a - MCR...".
"Você está olhando para um mapa de descendência". Ela disse. "Aquele é o de um hospedeiro por criação
genômica contendo citosina metilada - ou resíduos de *adenina, dependendo".
Chris levantou a sobrancelha. "Vamos fingir que eu não faço a mínima idéia do que você está falando e tente de
novo. O que você achou?".
Rebecca corou levemente e pegou os papéis de volta. "Desculpe, há um monte de, hum, coisas aqui sobre
infecção viral".
"Isso eu entendo; um vírus...". Ele folheou o diário, contendo a data do primeiro relato do acidente no laboratório.
"Em onze de Maio, houve algum tipo de vazamento num laboratório desse lugar. Em oito ou nove dias, a pessoa
que escreveu isso se transformou numa daquelas criaturas lá fora".
Rebecca arregalou os olhos. "Diz quando os primeiros sintomas apareceram?".
"Parece que sim... em vinte e quatro horas, ele ou ela estava reclamando de coceira na pele. Inchaços e bolhas
em quarenta e oito horas".
Rebecca empalideceu. "Isso é... wow".
Chris acenou. "É, exatamente. Tem jeito de dizer se ainda pode infectar?".
"Não sem mais informações. Tudo aquilo -". Rebecca apontou para o baú cheio de papéis. "- é bem velho, uns
dez anos, e não há nada específico sobre aplicação. Um aerotransmissível com esse tipo de velocidade e
toxidade... se ainda fosse viável, toda Raccoon já estaria infectada. Não tenho certeza, mas duvido que ainda é
contagioso".
Chris se aliviou. "nós temos que achar os outros. Se algum deles passar pelo laboratório sem saber o que tem
lá...".
Rebecca parecia chocada com o pensamento, mas acenou corajosamente e foi para a porta. Chris decidiu que,
com um pouco de experiência, ela daria um ótimo membro do S.T.A.R.S.; mesmo sem arma, ela estava
abandonando a relativa segurança daquela sala para ajudar os companheiros.
Juntos eles correram até a porta que dava no corredor verde-água. Chris verificou a arma e virou para Rebecca.
"Fique perto. A porta que queremos é para a direita no fim do corredor. Eu vou ter que atirar na fechadura, tenho
certeza de que há um ou dois zumbis por lá, e você vai ter que vigiar".
"Sim, senhor". Ela disse, e Chris sorriu.
Ele abriu a porta e a cruzou, apontando a arma para as sombras à frente e depois para a direita. Nada se
moveu.
"Vamos". Ele cochichou, e eles correram, pulando o morto no meio do caminho. Rebecca passou a proteger a
retaguarda enquanto Chris girava a maçaneta. Ainda trancada.
Ele se afastou da porta e mirou cuidadosamente. Atirar numa porta trancada não era tão fácil e seguro como nos
filmes; um ricochete no metal a essa distância poderia matar o atirador -".
"Chris!". Rebecca gritou.
Ele olhou sobre o ombro e viu uma figura no fim do corredor, andando para eles. Chris pôde ver que a criatura
estava sem um braço.
Chris virou para a porta e atirou duas vezes. A madeira estilhaçou tal como o quadrado de metal. Puxando a
maçaneta, a porta se abriu.
Ele agarrou o braço de Rebecca, apontando para o zumbi. Fazendo meio caminho, ele parou no corpo caído. Chris
observava, o zumbi se pôs de joelhos e enterrou sua mão no crânio do outro. Ele gemeu de novo, um úmido e
frio som, e levou um punhado de massa cinzenta a boca.
Chris voltou para Rebecca, fechando a porta. Ele examinou o corredor, notando as diferenças. À sua direita, a
uns seis metros, estava o corpo de um zumbi, sua cabeça arrebentada. Estava de papo para o ar,
ensangüentado. À esquerda, estavam as duas portas que Chris não tinha tentado. A que ficava no final do
corredor estava aberta, revelando escuridão.
"Siga-me". Ele disse, e foi até a porta aberta, segurando sua arma. Ele queria voltar para o hall principal com
Rebecca, mas o fato de alguém do time ter passado por ali, merecia uma olhada.
Ao passarem pela porta fechada à direita, Rebecca hesitou. "Tem o desenho de uma espada na fechadura".
Ele manteve sua atenção na porta aberta, mas percebeu que haviam muitas maneiras de se perder por lá. Ele
não achava que o resto do time ainda esperava por ele, mas suas ordens eram de voltar para o hall principal e
relatar; ele não devia levar uma recruta desarmada para um território desconhecido sem ao menos checá-lo.
Chris suspirou, abaixando a arma. "Vamos voltar para o hall principal. Nós podemos voltar aqui mais tarde".
Rebecca concordou e juntos eles voltaram para a sala de jantar, Chris esperando ter alguém lá para encontrá-los.
Barry apontou sua Colt para o zumbi e atirou, a bala explodindo a cabeça da criatura antes mesmo de alcançar
sua bota. Respingos de sangue voaram em seu rosto enquanto o zumbi morria. De cara feia, ele secou o rosto
com as costas da mão enquanto os pequenos riachos de vermelho desciam por entre os azulejos.
Barry abaixou o revólver, sentindo seu ombro esquerdo. A porta lá em cima estava solidamente trancada.
Olhando para o zumbi no chão, ele percebeu que teria de voltar e abrir outra porta. Se Chris tivesse passado por
ali, aquele zumbi já estaria morto.
Então onde ele está?
Das três portas trancadas, Barry tinha escolhido a que dava término ao corredor. Ele saiu num pequeno e escuro
corredor em U, que passava por um poço de elevador com grades antigas e terminava numa escada que descia.
A branca cozinha depois dela parecia deserta. A bancada no meio da cozinha estava coberta de poeira e havia
umidade nas paredes - sem sinais de uso recente, sem sinal de Chris. A porta do outro lado estava trancada. Ele
ia voltar quando percebeu um rastro na poeira do chão, e o seguiu...
Suspirando, Barry passou pelo zumbi morto. Uma última checada antes de subir e tentar a Segunda porta.
No fundo da cozinha, à esquerda, havia o mesmo poço de elevador protegido pelas grades fora de moda. Ele não
chamou o elevador, mesmo porque o botão do andar de cima não tinha funcionado. Além disso, a ferrugem na
grade de metal sugere que ninguém a usou por muito tempo.
Ele se virou e voltou, pensando em Jill. Barry não gostava daquela casa. Era fria, perigosa e cheirava como um
frigorífico de carne. Ele não é do tipo que se assusta fácil, ou deixa a imaginação fluir, mas metade dele sempre
esperava ver um fantasma debaixo de um lençol branco e balançando correntes a cada curva -
Houve um distante barulho atrás dele. Barry virou e apontou a arma ao acaso, seus olhos arregalados e boca
seca. Houve outro barulho metálico, seguido por um baixo hum de maquinário.
Barry respirou fundo, soltando o ar bem devagar... não era um espírito sem corpo; alguém estava usando o
elevador.
Quem? Chris e Wesker estão desaparecidos e Jill está na outra asa...
Ele esperou onde estava, abaixando a arma. Se ele parar nesse andar, Barry terá uma boa mira caso alguém
apareça na curva.
Barry abriu esperanças; pode ser algum Bravo, ou alguém que vivia lá e pudesse dizer o que aconteceu...
Com uma forte pancada, o elevador parou na cozinha. Um barulho de dobradiças de metal, e depois passos -
- e o Capitão Wesker apareceu, seus óculos escuros em seu claro rosto.
Barry abaixou a arma, sorrindo aliviado. Wesker parou onde estava e sorriu de volta.
"Barry! Justo o homem que eu estava procurando". Ele disse.
"Deus, você me assustou! Eu ouvi o elevador vindo e pensei que fosse ter um ataque cardíaco...". Barry parou,
seu sorriso desaparecendo. "Capitão... aonde você tinha ido? Quando nós voltamos você tinha sumido".
Wesker sorriu mais. "Desculpe por isso. Eu tive que tratar alguns assuntos - você sabe, chamados da natureza?".
Barry sorriu de novo, surpreso pela confissão.
Preso em território hostil e o cara foi dar uma mijada?
Wesker tirou os óculos, fazendo contato visual, fazendo Barry se sentir tenso de repente. O sorriso de Wesker
parecia crescer. Parecia que todos os dentes estavam aparecendo.
"Barry, eu preciso de sua ajuda. Você já ouviu falar em White Umbrella?".
--------------------------------------------------------------
*Massachusetts - Estado dos E.U.A..
*Citosina - Constituinte essencial dos ácidos nucléicos.
*Adenina - Base purínica constitutiva dos ácidos nucléicos.
-------------------------------------------------------------- Barry balançou a cabeça negativamente, sentindo-se
desconfortável por um segundo.
"White Umbrella é um setor da Umbrella Inc., uma divisão muito importante. Eles são especializados em...
pesquisa biológica. A mansão de Spencer abriga seus laboratórios, e recentemente, houve um acidente". Wesker
passou a mão na bancada central e se apoiou nela, falando tranqüilamente.
"Esta divisão da Umbrella tem alguns laços com a organização S.T.A.R.S., e há pouco tempo, eu fui convidado
para... ajudá-los nessa situação. É uma situação bem delicada, sabe, bem secreta; a White Umbrella não quer
que um pingo de seu envolvimento escape".
"Agora, eu devo ir para os laboratórios subterrâneos e dar o fim em algumas provas incriminadoras - prova de
que a White Umbrella é responsável pelo acidente que causou tantos problemas em Raccoon. O problema é, eu
não tenho a chave para chegar aos laboratórios - chaves, na verdade. E é aí que você entra. Eu preciso que
você me ajude a achar essas chaves".
Barry o encarou por um momento, sua mente funcionando. Um acidente, um laboratório secreto fazendo
experiências biológicas...
.. cães assassinos e zumbis soltos na floresta...
Barry apontou seu revólver para o rosto sorridente de Wesker, abalado e nervoso. "Você está louco?". Você acha
que eu vou te ajudar a destruir provas? Seu louco filho da mãe!".
Wesker balançou a cabeça, agindo como se Barry fosse uma criança. "Ah, Barry, você não entende; você não
tem escolha. Veja, alguns amigos meus da White Umbrella estão agora do lado de fora da sua casa, olhando sua
esposa e filhas dormindo. Se você não me ajudar, sua família vai morrer".
Barry pôde sentir o sangue sair de seu rosto. Ele engatilhou sua Colt, sentindo um súbito ódio por Wesker.
"Antes de você puxar o gatilho, eu devo mencionar que se eu não der um retorno aos meus amigos em breve,
as ordens são para ir em frente e matá-las."
Kathy, meninas - !
"Você está blefando". Barry disse, e o sorriso de Wesker finalmente desapareceu, seu rosto voltando a vestir a
mesma máscara de sempre.
"Não estou". Disse friamente. "Atire. Depois você pode ir se desculpar nas lápides delas".
Houve silêncio por um momento. Então, Barry vagarosamente desengatilhou a arma e a abaixou, seus ombros
desmoronando. Ele não podia, não iria arriscar; sua família era tudo.
Wesker acenou e tirou um molho de chaves do bolso. "Há quatro peças de metal em algum lugar na casa. Cada
uma tem o tamanho de uma xícara, e tem um desenho em relevo num dos lados - sol, lua, estrela e vento. Há
uma porta dos fundos no outro lado da mansão onde elas devem ser colocadas".
Ele desprendeu uma chave e a deslizou sobre a mesa para Barry. "Esta deve abrir todas as portas do outro lado
ou ao menos as mais importantes, primeiro e segundo andar. Ache aquelas peças para mim e sua esposa e filhas
ficarão bem".
Barry pegou a chave, cansado e mais assustado do que nunca. "Chris e Jill...".
"... vão indubitavelmente querer te ajudar. Se você ver algum deles, diga que a porta dos fundos que você
descobriu pode ser a saída. Eu tenho certeza que eles ficarão felizes em trabalhar com seu confiável amigo, o
bom e velho Barry. De fato, você deveria destrancar todas as portas para fazer um bom trabalho". Wesker sorriu
de novo, um amigável meio-sorriso que escondia suas palavras.
"Claro, você diz que me viu - isso complicaria as coisas. Se eu tiver problemas, digamos, baleado pelas costas...
bom, isso é tudo. E que isso fique só entre nós".
A chave tinha um pequeno desenho, o peito de uma armadura. Barry a pôs no bolso. "Aonde você estará?".
"Oh, eu estarei por aí, não se preocupe. Eu te aviso quando for a hora.
Barry tentou esconder o medo em sua voz. "Você dirá que estou te ajudando, né? Você não esquecerá de dar o
retorno?".
Wesker virou e voltou para o elevador. "Confie em mim, Barry. Faça o que eu mando e não há nada com o que
se preocupar".
A grade do elevador abriu e fechou, e Wesker se foi. Barry ficou olhando o espaço vazio onde Wesker tinha
estado, pensando em como escapar da ameaça. Não tinha jeito. Não tinha o que discutir entre sua honra e sua
família; ele podia viver sem honra.
Ele voltou para a escada, determinado a fazer o necessário para salvar Kathy e suas filhas. Quando tudo acabar,
quando estiver certo de que elas estão a salvo -
Não haverá lugar para se esconder, Capitão.
Barry prometeu a si mesmo que Wesker pagaria pelo que estava fazendo.
[9]
Jill encaixou a pesada peça de cobre com uma estrela gravada em sua posição no diagrama, acima das outras
três aberturas. A peça encaixou com um click.
Menos uma...
Os corvos a viram andar pela galeria sem sair da barra, berrando ocasionalmente assim que ela resolveu o
simples enigma. Eram seis retratos ao todo, do berço ao túmulo - do bebê recém nascido até o homem velho. Ela
presumiu que todos eles eram de Lord Spencer, apesar de nunca ter visto uma foto dele...
A pintura final era o cenário de uma morte, um pálido homem deitado cercado por pessoas de preto. Quando ela
apertou o botão do quadro, o mesmo caiu da parede, empurrada por pequenos pinos de metal em cada canto. O
quadro escondia um pequeno buraco forrado com veludo que continha a peça de cobre. Ela deixou a galeria sem
mais problemas; se os pássaros ficaram desapontados, ela não sabia dizer.
Ela suspirou fundo o prazeroso ar da noite antes de voltar para a mansão, pegando o computador de Trent
enquanto ia. Já dentro, ela passou por cima do corpo no corredor e estudou o mapa, decidindo aonde ir. Ela tinha
que voltar por onde veio.
Ela passou pelas portas duplas que davam acesso ao corredor cinza-esverdeado com os quadros de paisagens.
De acordo com o mapa, a porta única bem à frente da dupla, dava em uma pequena sala quadrada que dava
em outra maior.
Ela abriu a porta, apontando sua arma ao mesmo tempo. A sala era quadrada mesmo, e totalmente vazia.
Abaixando a arma, Jill entrou na câmara, apreciando brevemente sua simples elegância enquanto andava para a
porta à direita. O lugar tinha um pé direito bem alto e paredes de mármore cor-de-creme com manchas
douradas; linda. E cara, no mínimo. Ela se lembrou dos velhos dias com Dick, todos os seus grandes planos e
esperanças a cada investida. Isso era o que o dinheiro real podia comprar...
Jill abriu a porta da direita. Uma rápida mirada e relaxou; ela estava sozinha.
Havia uma lareira à direita, abaixo de um tapete de parede ornado em vermelho e dourado. Em volta dela, havia
um baixo e moderno sofá, e uma mesa de centro oval em cima de um tapete laranja escuro de desenho oriental.
E na parede de trás -
- uma espingarda estava suspensa por dois ganchos, brilhando com a luz do antigo lustre acima. Jill sorriu e correu
pela sala, sem acreditar no que via.
Por favor esteja carregada, por favor -
Assim que parou na frente dela, Jill reconheceu a marca. Armas eram o seu forte, mas era a mesma que o
S.T.A.R.S. usava: uma Remington M870, cinco tiros.
Ela guardou a Beretta e levantou a espingarda com ambas as mãos, ainda sorrindo -
- mas o sorriso sumiu assim que os ganchos se moveram para cima. Ao mesmo tempo, houve um som mais
pesado atrás da parede, como se metal estivesse mudando de posição.
Jill não sabia o que era, mas não estava gostando. Ela girou rapidamente, procurando movimento na sala, mas
estava tudo normal. Nada de pássaros, alarmes, luzes piscando, quadros caindo da parede...
Aliviada, ela verificou que a arma estava completamente carregada. Ela vasculhou a sala mas não achou mais
munição.
Não tinha mais nada de interessante lá. Jill foi para a porta, querendo voltar ao hall principal e contar as novidades
para Barry. Ela tentou abrir todas as portas do primeiro andar desse lado da mansão. Se Barry fizer o mesmo do
outro lado, eles podem partir para o segundo andar e terminar a busca pelos Bravos e os outros desaparecidos -
E finalmente sair desse necrotério.
Ela fechou a porta e andou pela sala quadrada esperando, assim que tocava a maçaneta, que Barry tenha
encontrado Chris e Wesker.
A porta estava trancada. Jill franziu, girando a pequena maçaneta dourada. Ela olhou o espaço entre a porta e a
moldura.
Lá estava - o grosso pino de metal da maçaneta e um outro bem sólido; o resto estava reforçado. Mas só tinha
o buraco da chave para a fechadura -
Poeira veio de cima enquanto o som de válvulas girando preenchiam o lugar, um rítmico ranger de metais em
algum lugar atrás das paredes.
O que -?
Assustada, Jill olhou para cima - e sentiu seu estômago dar um nó, sua respiração presa na garganta. O alto teto
estava se movendo. Estava descendo.
Ela correu para a porta da sala anterior, mas estava tão fixa quanto a outra.
Essa não! Essa não!
Jill ficou em pânico, ela voltou para a porta da saída, olhando para o teto. A dez centímetros por segundo, ele
atingiria o chão em menos de um minuto.
Jill apontou a espingarda para a porta, não se importando com quantos tiros seriam necessários; seus lockpicks
não funcionavam naquele tipo de fechadura -
O primeiro tiro revelou o que ela já imaginava. A chapa de metal se estendia por toda porta. Ela procurou uma
resposta mas sua mente estava vazia.
Talvez eu possa enfraquecê-la, quebrá-la -
Ela atirou na moldura de novo. O tiro arrancou madeira e quebrou o mármore, mas não o suficiente. O teto
descia, agora menos de três metros acima dela. Ela será esmagada.
Deus, não me deixe morrer assim -
"Jill, é você?".
Uma abafada voz veio do lado de fora.
Barry!
"Me ajude! Barry, derrube a porta, agora!". Jill gritou desesperada.
"Afaste-se!".
Jill saiu de perto assim que ouviu um pesado golpe atingir a porta. A porta se mexeu mas não abriu.
Outra pancada acertou a porta. Um metro e meio acima dela.
Vamos, VAMOS -
E terceiro golpe fez pedaços de madeira voarem e a porta abrir. Barry apareceu na porta, seu rosto vermelho e
suado, sua mão alcançando a dela.
Jill pulou e ele agarrou seu pulso, literalmente tirando-a de suas botas. Eles caíram no chão enquanto a porta era
arrancada de suas dobradiças. Madeira e ferro se contorciam enquanto o teto continuava descendo, a porta
fazendo uma série de cracks!
Com um boom final, o teto encontrou o chão. Estava acabado, tudo tão quieto quanto um túmulo. Eles se
levantaram, Jill olhando para a passagem. O lugar foi preenchido por algumas toneladas do que foi o teto.
"Você está bem?". Barry perguntou.
Ela não respondeu por um momento. Ela olhou para a espingarda que ainda estava em suas trêmulas mãos,
lembrando-se de como estava certa sobre não haver armadilhas lá - e pela primeira vez, ela imaginou como iriam
sair daquele inferno.
Chris caminhou pelo tapete em frente a escada do hall principal, Rebecca ao lado do corrimão; não tinha ninguém
lá.
De algum lugar na mansão houve um pesado som. Eles levantaram a cabeça escutando, mas era só. Não dava
para saber de onde veio.
"Bom, isso nos leva ao plano B". Chris disse.
"Qual é o plano B?".
Chris suspirou. "Sei lá. Mas nós podemos começar checando a sala com a chave da espada. Talvez nós
possamos achar mais informações enquanto o time não aparece, um mapa ou algo mais".
Rebecca concordou e eles voltaram pela sala de jantar, Chris na frente.
Ele não queria expô-la ao perigo, mas não queria deixá-la sozinha, pelo menos no hall principal; não parecia seguro
lá.
Assim que passaram pelo relógio de pêndulo, algo pequeno e duro quebrou sob os pés de Chris. Ele se abaixou e
ergueu um pedaço de gesso cinza-escuro. Haviam outros três por perto.
"Você viu isso da última vez?". Ele perguntou.
Rebecca balançou a cabeça, e Chris se agachou, procurando mais deles. Do outro lado da mesa estava uma pilha
de fragmentos.
Eles deram a volta na longa mesa, parando em frente ao monte de destroços. Chris cutucou os pedaços com a
ponta dos pés. Pelos ângulos e formas, aquilo deveria ter sido uma estátua.
Mas agora é lixo.
"É importante?". Rebecca perguntou.
"Talvez sim, talvez não. Vale uma olhada. Numa situação como esta, nós nunca sabemos o que pode ser uma
pista".
O tic-tac do relógio os seguiu até a porta do corredor. Chris tirou a chave do bolso enquanto seguiam à direita -
- e pararam. A porta no fim do corredor estava fechada; da ultima vez, ela estava aberta. Chris rapidamente
empunhou sua Beretta e se aproximou de Rebecca.
Alguém deve ter passado por ela enquanto estavam no hall principal, reafirmando o sentimento de Chris que
coisas secretas estavam acontecendo em volta deles. O zumbi atrás deles estava na mesma posição, olhando
cegamente para o teto. Chris deu a chave a ela para poder vigiar o corredor. A porta foi destrancada, e Rebecca
gentilmente a abriu.
Chris sentiu que a sala estava segura mesmo enquanto acenava para Rebecca entrar. Era um piano bar. O
grande piano ficava na frente de uma bancada embutida, completa com banquetas ao seu redor. Mas era a
suave iluminação ou as calmas cores que davam um ar de tranqüilidade. Chris decidiu que era o melhor lugar que
já encontrou até agora.
Talvez um bom lugar para Rebecca ficar enquanto eu procuro pelos outros...
Rebecca se encostou no empoeirado piano enquanto Chris olhava melhor a sala. Havia algumas plantas, uma
pequena mesa, e uma prateleira do outro lado mais ao fundo. Só tinha a porta a qual eles entraram. O lugar ideal
para Rebecca se esconder.
Ele se aproximou de Rebecca escolhendo as palavras certas; ele não queria assustá-la deixando-a para trás. Ela
sorriu para ele, parecendo mais jovem do que já era, uma criança...
.. uma criança que se formou em menos tempo do que você para tirar a licença de piloto; não a ajude, ela é
provavelmente mais esperta que você.
"Como você se sentiria ficando aqui enquanto eu dou uma olhada na casa?".
"Faz sentido". Ela disse. "Eu não tenho arma, e se você tiver problemas eu só vou te atrapalhar...".
Ela sorriu mais e adicionou. "Mas se você for pego por um teorema matemático, não venha chorar no meu
ombro".
Chris riu, tanto pelo defeito quanto pela piada; ela não era de se subestimar. Ele foi para a porta, parando ao
tocar a maçaneta.
"Eu voltarei o mais breve possível. Tranque a porta e não fique andando por aí, tá bom?".
Ela concordou e ele saiu da sala. Ele esperou a porta ser trancada e empunhou sua arma, seu sorriso
desaparecendo assim que voltava pelo corredor.
O cheiro piorava assim que se aproximava do zumbi morto, passando por ele para ver se o corredor continuava
-
- e parou frio, olhando para o segundo corpo depois da curva, decapitado e coberto de sangue. Chris reconheceu
suas feições como sendo de Kenneth J. Sullivan - e sentiu raiva e determinação ao ver o Bravo morto.
Isso está errado, tudo errado. Joseph, Ken, provavelmente Billy - quantos mais morreram? Quantos mais por
causa de um estúpido acidente?
Ele finalmente virou e voltou para o hall principal. Ele checaria cada porta que os outros poderiam ter usado, e
matar todos os zumbis que cruzarem seu caminho.
Quando Chris saiu, Rebecca desejou-lhe boa sorte, voltando ao piano e sentando-se. Ela passou o dedo pelas
teclas, se arrependendo de não ter trazido alguns daqueles papéis do baú. Ela não era tão boa em ficar parada, e
não ter nada para fazer só piorava as coisas.
Você poderia praticar, sua mente sugeriu, e Rebecca riu um pouco, olhando as teclas. Não, obrigado. Ela sofreu
por quatro anos quando criança antes de sua mãe a deixar em paz.
Ela se levantou e procurou algo para deixá-la ocupada na sala. No bar só tinha alguns copos e guardanapos,
todos com pó. Na prateleira da parede haviam algumas garrafas de licor quase vazias, e vinhos caros lacrados...
Rebecca não era de beber e agora não é uma boa hora para encher a cara. Suspirando, ela olhou o resto do
lugar.
Além do piano, não tinha muito o que ver. Na parede à sua esquerda, estava uma única pintura de uma mulher;
uma planta quase morrendo ao lado do piano; uma mesa que se estendia da parede com copos de martini
emborcados. Considerando isso, o piano estava parecendo mais interessante...
Ela passou por ele e entrou na pequena abertura à sua direita. duas estantes estavam lá, uma na frente da
outra, vazias -
Franzindo, ela se aproximou das estantes. A da frente estava vazia, mas a de trás...
Ela empurrou a da frente. Não era pesada e se moveu com facilidade, deixando um rastro na poeira do chão.
Rebecca olhou a estante de trás, desapontada. Uma velha trombeta, um pote de vidro, e alguns vasos - e notas
musicais de piano dentro de um fina pasta. Ela viu o título e sentiu uma onda de saudades de quando tocava; era
Moonlight Sonata, uma de suas favoritas.
Ela pegou os papéis amarelados, lembrando das horas que gastava tentando aprendê-la quando tinha dez ou
onze anos. De fato, foi esta música que a fez perceber que não levava jeito para ser pianista. Era uma bonita e
delicada canção.
Com as notas na mão, ela voltou e olhou para o piano, pensativamente. Ela não tinha nada melhor para fazer...
Além disso, pode ser que os outros S.T.A.R.S. apareçam aqui, perseguindo o terrível barulho.
Sorrindo, ela tirou o pó do banco e se sentou, pondo as notas no apoio. Seus dedos acharam as posições
corretas quase que instantaneamente. Era uma sensação confortável, uma boa mudança dentro dos horrores da
mansão.
Ela se sentiu relaxada assim que as primeiras notas acabaram com o silêncio, deixando a tensão e o medo irem
embora. Ela ainda não era boa, seu ritmo desligado como sempre - mas ela tocou as notas corretamente, e a
força da melodia mais do que maquiando a falta de delicadeza dela.
Se as teclas não fossem tão duras -
Algo se moveu ao lado dela.
Rebecca pulou, pegando o banco enquanto virava, procurando o agressor. O que ela viu foi tão inesperado que a
fez congelar por um momento, sem saber o que seus sentidos a diziam.
A parede está se movendo -
Quando as últimas notas foram tocadas, um trecho da parede à direita deslizou para cima, fazendo um gentil
ruído.
Ela não se mexeu, esperando algo terrível acontecer - mas os segundos passaram e nada mais se moveu;
Notas musicais escondidas. Uma estranha rigidez nas teclas...
.. como se estivessem conectadas a algum tipo de mecanismo.
A estreita passagem revelou uma câmara escondida do tamanho de um closet de armário, suavemente
iluminada. Exceto pelo busto num pedestal, estava vazia.
Ela se aproximou da entrada e parou, pensando em armadilhas mortais e dardos envenenados. E se ela entrasse
e alguma catástrofe acontecesse? E se a parede descesse e ela ficasse presa lá, e Chris não voltasse?
Rebecca esqueceu as conseqüências e entrou, olhando em volta cautelosamente. Se tinha perigo lá, ela não podia
ver. As planas paredes eram da cor de café com creme. A luz vinha de uma pequena estufa à direita, um monte
de plantas atrás de um sujo vidro que separava os dois ambientes.
Ela foi até o pedestal no fundo, percebendo que o busto em cima dele era de *Beethoven; compositor de
Moonlight Sonata. O pedestal portava um grosso emblema dourado do tamanho de um prato. Ela se agachou,
olhando para o emblema. Parecia sólido, com o desenho de um brasão. Parecia familiar; ela tinha visto o mesmo
desenho em outro lugar da casa...
Na sala de jantar, sobre a lareira!
É isso - aquele era de madeira. Ela o viu quando Chris estava examinando a estátua quebrada.
Curiosa, ela tocou o emblema, passando a mão no desenho - e o agarrou com as duas mãos. O pesado
emblema saiu facilmente, como se não pertencesse àquele lugar -
- e atrás dela, a parede começou a descer, fechando-a lá dentro.
Sem hesitar, ela virou e colocou o emblema de volta na cavidade - e a parede abriu de novo. Aliviada, ela olhou
para o emblema, pensando.
Alguém armou tudo isso para esconder o brasão, então tinha que ser importante - mas como ela deveria
removê-lo? Aquele sobre a lareira abre outra passagem secreta?
Ou...o da lareira é do mesmo tamanho?
Ela não sabia, mas achava que sim - e que era a resposta certa. Se ela usasse o emblema de madeira para
deixar a parede aberta e colocar o dourado sobre a lareira...
Rebecca voltou para a sala sorrindo. Chris disse para ela ficar lá, mas ela não demoraria muito - além disso
quando ele voltar, ela teria algo para mostrar.
E provar que não era tão inútil apesar de tudo.
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*Beethoven Ludwig Van Beethoven (1770 1827). Compositor Alemão.
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[10]
Barry e Jill estavam de frente para a fechadura quebra-cabeça, respirando o limpo ar noturno. Do lado de fora, os
grilos cantavam suas músicas.
Depois do tremendo susto, Jill foi levada por Barry até a passagem coberta, sugerindo que o ar fresco a faria
bem. Jill ainda estava apoiada na parede, respirando profundamente, enquanto Barry contava sua passagem pela
casa.
"... e quando ouvi os tiros, eu vim correndo". Ele sorriu para ela. "Você teve sorte. Mais alguns segundos e você
teria virado sanduíche de Jill".
Jill sorriu também, mas percebeu um humor forçado nele. Estranho. Ela não pensava em Barry se apavorando no
perigo.
Será? Nós estamos presos aqui, não conseguimos achar o resto do time e essa casa pode acabar nos matando.
"Espero poder retornar o favor algum dia". Ela disse suavemente. "É sério. Você salvou a minha vida".
Barry desviou o olhar, corando um pouco. "Foi um prazer ajudar". Ele disse bruscamente. "Seja mais cuidadosa.
Esse lugar é perigoso".
Jill acenou. Ela esteve muito perto da morte, mas precisavam encontrar Chris e Wesker. "Então você acha
mesmo que eles estão vivos?".
"Acho que sim. Além disso, há um monte de zumbis mortos na outra asa da mansão, todos com tiros certeiros
na cabeça; deve ser Chris - apesar de eu ter matado mais alguns escada acima...".
Barry olhou para o diagrama na parede. "Essa estrela já estava aí?".
Jill franziu, surpresa pela repentina mudança de assunto de assunto; Chris era um dos amigos mais próximos de
Barry. "Não. Eu a achei em outra sala com uma armadilha. Esse lugar deve estar cheia delas. De fato, nós
poderíamos procurar Wesker e Chris juntos".
Barry balançou a cabeça. "Eu não sei - tem um monte de salas e nossa prioridade é achar uma saída. Se nos
separarmos, nós podemos achar o resto das peças, e procurar Chris ao mesmo tempo. E Wesker".
Jill teve uma impressão de que ele não se sentia confortável. Ele se virou para estudar o diagrama, mais
parecendo querer evitar contato visual.
"Além disso,". Ele disse. "nós sabemos o que fazer agora. Enquanto estivermos usando a cabeça, nós ficaremos
bem".
"Barry, você está bem? Você parece - cansado". Não era a palavra certa, mas foi a única que veio a sua mente.
Ele suspirou, finalmente olhando para ela. Ele parecia cansado; olheiras e ombros encolhidos.
"Não, eu estou bem. Só preocupado com Chris, sabe?".
Jill acenou, mas não acreditava que era só isso. Desde que a salvou, ele tem agido tensamente. Ela sabia que
podia estar se precipitando - mas mesmo assim, decidiu não falar sobre o computador de Trent. Barry parecia ter
uma ligeira idéia de como é a mansão, então ele não precisava da informação...
Isso aí, continue racionalizando. Daqui a pouco, você estará achando que o Capitão Wesker planejou tudo isso.
Jill riu internamente enquanto se desencostava da parede. Os dois voltaram para a mansão andando. Ela suspirou
mais um pouco antes de entrar. Barry empunhou sua Colt e a recarregou, suas expressões amargas.
"Acho que vou voltar para a asa oeste, ver se pego o rastro de Chris". Ele disse. "Você quer subir e procurar as
outras peças? Assim poderemos cobrir todas as salas e depois voltar para o hall principal".
Jill concordou e Barry abriu a porta, as enferrujadas dobradiças rangendo.
"Você vai se dar bem". Ele disse, pondo a mão no ombro dela e a conduzindo para dentro. Assim que a porta
fechou ele levantou a mão numa casual continência, sorrindo. "Boa sorte".
Antes dela poder responder, ele se virou e correu para a porta dupla no fim do corredor.
Jill estava só de novo. Não era sua imaginação; Barry estava escondendo algo dela. Mas era algo para se
preocupar, ou ele só estava tentando protegê-la?
Talvez ele achou Chris ou Wesker, mortos, e não quis me contar...
Esse desagradável pensamento explicaria seu estranho comportamento. Ele queria sair da casa o mais rápido
possível e mantê-la longe da asa oeste. E do jeito que ele se fixou no quebra-cabeça da fechadura, parecia estar
mais preocupado com a saída do que com Chris ou Wesker...
Ela olhou para os dois corpos no chão, no meio das poças de sangue. Ela devia estar procurando um motivo que
não existia, ou talvez, Barry estaria assustado, como se a morte pudesse chegar a qualquer momento.
Talvez eu pudesse parar de pensar nisso e trabalhar. Achando ou não os outros, ele está certo em sair daqui.
Nós temos que voltar para a cidade e deixar ao pessoas saberem o que aconteceu aqui...
Jill andou para a segunda porta à direita, armada. Ela chegou até aqui e poderia ir mais longe, tentar revelar o
mistério que tirou tantas vidas -
- ou morrer tentando, sua mente pensou suavemente.
Forest Speyer estava morto. O sorridente garoto do sul em suas estranhas roupas se foi, deixando para trás um
ensangüentado corpo encostado na parede.
Chris olhou para o cadáver, os distantes sons da noite na sacada do segundo andar. Era um som
fantasmagórico, mas Forest não podia ouvi-lo; Forest nunca mais escutará nada.
Chris se agachou, cuidadosamente tirando a Beretta dos dedos de Forest. Ele prometeu que não iria olhar, mas
ao alcançar o cinto do morto, Chris fixou na terrível escuridão onde os olhos do Bravo um dia estiveram.
Jesus, o que aconteceu com você?
O corpo do Bravo estava coberto por ferimentos, com cerca de dois a três centímetros, cercados por carne e
sangue - como se tivesse sido esfaqueado centenas de vezes, cada corte mostrando pele e músculo. Parte de
suas costelas estavam expostas, traços brancos no meio do vermelho. Sua face sem olhos era o próprio horror -
como se o assassino quisesse sua alma também...
Haviam três clips de Beretta no bolso de Forest. Chris os colocou em seu bolso e se levantou, desviando o olhar.
Ele olhou para a escura floresta, suspirando, tentando achar alguma explicação - mas não conseguiu.
Antes, no hall principal, ele tinha decidido ver quais portas estavam destrancadas - mas quando viu as marcas
sangrentas de mão no estreito corredor do segundo andar, e os gritos de pássaros, ele prosseguiu...
.. corvos. Pareciam corvos, um bando inteiro... um assassino na verdade. Um bando de cachorros, zumbis,
corvos assassinos...
Ele piscou, agachando-se de novo, estudando os ferimentos. Tinham dezenas de pequenos arranhões entre os
cortes mais sérios, arranhões em linhas padronizadas -
Unhas. Garras.
Assim que o pensamento lhe ocorreu, Chris ouviu um revoltoso bater de asas. Ele se virou, ainda com a arma de
Forest, na mão; que de repente ficou gelada.
Um monstruoso pássaro estava apoiado no parapeito a uns sessenta centímetros de distância, olhando Chris com
brilhantes olhos negros. Suas feições contrastavam com seu corpo inflamado... e uma tira vermelha e úmida
pendurada em seu bico.
O pássaro virou a cabeça e soltou um tremendo grito, o pedaço da carne de Forest caindo no chão. De todos os
lados, a resposta ao grito encheu o ar. Houveram furiosos barulhos de asas enquanto sombras escuras saíram de
cima da calha, berrando.
Chris correu, a imagem de Forest morto em sua mente enquanto fugia. Ele voltou para o estreito corredor e
fechou a porta, adrenalina pulsando em seu corpo.
Ele suspirou, suspirou de novo e depois seu coração voltou ao normal. Os gritos dos corvos ficavam mais
distantes. Eles se foram.
Jesus, como eu fui burro? Burro, burro -
Se não tivesse se chocado tanto com a morte do amigo, Chris teria feito a conexão entre os pássaros e os
ferimentos antes - ou ter percebido os comedores de carne que o observavam.
Ele voltou pela porta que dava no hall principal, bravo consigo mesmo. Aquilo não era um jogo, onde podia
começar de novo se cometesse um erro. Pessoas estavam morrendo, seus amigos estavam morrendo -
- e se você não tomar mais cuidado, acabará se juntando a eles - outro corpo jogado em algum corredor.
Chris voltou para o segundo andar do hall principal, indo na direção das escadas enquanto colocava a arma de
Forest no cinto. Pelo menos Rebecca já pode se defender -
"Chris".
Assustado, ele olhou para baixo e viu Rebecca na base dos largos degraus, sorrindo.
Ele desceu as escadas. "O que aconteceu? Está tudo bem?".
Ainda sorrindo, Rebecca ergueu uma chave prateada assim que ele a alcançou. "Eu achei algo que você pode
usar".
Ele pegou a chave, notando o desenho de um escudo gravado nela antes de colocá-la no bolso. Rebecca estava
empolgada, seus olhos brilhando.
"Depois que você saiu, eu toquei o piano e uma passagem secreta abriu na parede. Havia um emblema dourado
lá dentro, e eu troquei pelo da sala de jantar - e o relógio de pêndulo se moveu, e essa chave estava atrás dele
-".
Ela parou de falar, seu sorriso desaparecendo enquanto estudava o rosto dele. "Eu sinto muito... eu não devia ter
saído, mas eu achei que pudesse te achar antes que fosse longe demais".
"Não se preocupe,". Ele disse, forçando um sorriso. "só estou surpreso em vê-la. Veja, eu achei algo um pouco
melhor do que um inseticida".
Chris deu a Beretta para ela, junto com alguns clips. Rebecca pegou a arma, olhando para ela.
Quando olhou para cima de novo, seu olhar ficou sério e intenso. "De quem era?".
Chris pensou em mentir, mas viu que ela não acreditaria - e de repente percebeu o que o fazia ser tão protetor.
Claire.
Isso; Rebecca o fazia lembrar de sua irmã, de seu sarcasmo adolescente, e pela leve semelhança com a qual
usavam o cabelo.
"Olha,". Ela disse. "eu sei que você se sente responsável por mim, e eu admito que sou um pouco nova nisso.
Mas eu faço parte de uma equipe, e esconder os fatos pode acabar me matando. Então - de quem era?".
Chris a olhou por um momento e suspirou. Ela estava certa. "Forest. Eu o achei no lado de fora, ele foi morto por
um bando de corvos. Kenneth também está morto".
Uma súbita angústia passou pelos olhos dela, mas acenou firmemente, mantendo seu olhar no dele. "Certo.
Então o que faremos agora?".
Ele subiu a escada, esperando não estar cometendo outro erro. "Acho que podemos tentar outra porta...".
Wesker não ouviu muito da conversa entre Barry e Jill, mas depois do abafado "Boa sorte" do Sr. Burton, ele
ouviu a porta abrir e fechar em algum lugar perto - e um pouco depois, o pesado som de botas contra a madeira,
seguido por outra porta fechando. O corredor do lado de fora ficou vazio.
Parece que achei a sala certa para esperar...
Ele usou a chave de capacete para se trancar numa pequena sala de estudo, o lugar perfeito para monitorar o
progresso do time. Não só podia ouvi-los vir e voltar, como era capaz de ir direto para o laboratório...
Ele segurou a peça do vento sob a luz da luminária da mesa, sorrindo. Foi muito fácil, mesmo. Ele tinha passado
pela estátua depois de conversar com Barry, e lembrou que ela tinha um compartimento secreto. Para não
perder tempo procurando, ele simplesmente a jogou do segundo andar da sala de jantar. Ela não continha
nenhuma das peças, mas sim uma brilhante jóia azul.
Havia outra sala perto da de jantar, onde ficava a estátua do busto de um tigre com um olho vermelho e outro
azul, um dos mecanismos que se lembrou de uma visita. Uma rápida olhada na estátua confirmou sua suspeita;
ambos os olhos estavam faltando. Quando ele colocou a azul no lugar certo, o tigre girou e mostrou uma das
peças. Com isso, Wesker ficou um passo mais perto de completar sua missão.
Quando as outras três estiverem no lugar, eu vou esperar eles começarem a procurar pela última e depois passar
pela porta...
Ele pensou em ir ver o diagrama, mas mudou de idéia. A casa era grande, mas não tão grande, e não era
necessário correr o risco de ser visto. Além disso, eles ainda não devem ter achado outra peça. Quando tinha ido
pegar a jóia, ele quase deu de cara com Chris na escada. Chris tinha achado a recruta e estavam procurando por
"pistas"...
Além disso, esta sala é confortável. Talvez eu cochile um pouco enquanto eles se viram.
Ele se inclinou na cadeira da mesa, contente pelo que fez até agora. O que poderia ter sido um desastre estava
ficando bom, graças a alguns planos de sua parte. Ele já achou uma das peças, tinha Barry e Jill trabalhando para
ele - e teve a grande sorte de se deparar com Ellen Smith enquanto esteve na biblioteca...
Epa... é Doutora Ellen Smith, muito obrigado.
Depois de achar a peça do vento, ele foi até a biblioteca para checar a pequena sala de onde se podia ver o
heliporto. A porta estava bloqueada por uma estante. Uma rápida procura não revelou nada de útil, e quando ele
decidiu ver a sala dos fundos, Dr. Smith apareceu para cumprimentá-lo.
Wesker esteve tentando arranjar um encontro com ela desde que foi movido para Raccoon, atraído por suas
longas pernas e por seus platinados cabelos loiros; ele sempre tendeu a loiras, principalmente as espertas. Ela não
só o ignorou várias vezes como nunca foi gentil sobre isso. Quando ele a chamou de Ellen, ela friamente o
informou que era sua superior e uma doutora, e queria ser tratada como tal. Se ela não fosse tão atraente, ele
nunca teria se incomodado com isso.
Mas agora, como a sua beleza desapareceu, Dr. Ellen...
Wesker fechou os olhos, sorrindo, revivendo a experiência. Foi o cabelo loiro que a entregou enquanto saia de
trás da estante, gemendo e indo até ele. As pernas dela ainda eram longas, mas perderam quase todo o seu
charme - sem mencionar a pouca quantidade de pele...
"Que agradável perfume você está usando, Dr. Smith". Ele tinha dito. Depois dois tiros na cabeça, e ela caiu.
Wesker não gostava de se achar um homem superficial, mas atirar naquela mulher foi maravilhoso - não,
profundamente gratificante.
Quem sabe eu acho a praga do Sarton nos laboratórios...
Depois de alguns momentos, Wesker se levantou e se espreguiçou, virando para dar uma olhada nos livros da
prateleira atrás dele. Ele estava ansioso para sair de lá, mas vai levar um tempo para que os outros encontrem
as peças. Não havia nada que pudesse apressá-los; ele tinha que se ocupar...
Ele franziu, tentando entender os títulos técnicos. Um dos livros se chamava: Phagemids: Alpha Complementation
Vectors (Fagemidas: Complementação Alpha de Vetores). O do lado era: cDNA Libraries e Electrophoresis
Conditions (Bibliotecas de cDNA e Condições de Eletroforese).
Textos de bioquímica e diários médicos, ótimo. Talvez ele dê uma cochilada. Só de ler os nomes já estava dando
sono.
Seu olhar passou por um espesso livro sozinho numa prateleira inferior, em uma capa vermelha de couro. Ele o
pegou, agradecido em ver um título que podia ler, mesmo tão idiota como, Eagle of East, Wolf of West... (Águia
do Leste, Lobo do Oeste...).
Espere - é a mesma coisa escrita na fonte -
Não podia ser, os cientistas estavam loucos mas não iriam lacrar o laboratório, não tinha motivos para isso. Ele
abriu o livro quase desesperadamente, rezando para estar errado -
- e suspirou com raiva para o que estava nas fingidas e coladas páginas do livro. Um medalhão de latão com uma
águia entalhada no compartimento cortado do livro - parte de uma "chave" para outra das fechaduras malucas de
Spencer.
Era o auge de uma cruel piada. Para sair da casa ele precisava das peças do diagrama. Uma vez no jardim, ele
terá que passar por uma série de túneis subterrâneos que terminavam em outra parte do jardim - onde uma
velha fonte marcava a entrada dos laboratórios subterrâneos. A fonte era uma das mais fantásticas criações de
Spencer, uma maravilha da engenharia que podia ser aberta e fechada para esconder os subterrâneos - isso se
você tiver as chaves: dois medalhões de latão, um com uma águia, outro com um lobo...
Achar a da águia significa que o laboratório estava fechado. E isso significa que o lobo pode estar em qualquer
lugar - e que suas chances de passar pela fonte caíram para algum lugar perto de zero.
Furioso, ele pegou a medalha e jogou o livro na mesa, acertando a luminária e pondo a sala em total escuridão.
Seu plano estava arruinado, exceto que um dos outros ache a medalha do lobo.
Isso quer dizer mais risco, mais busca - e a chance de que um deles chegue no laboratório antes de mim.
Nervoso, Wesker ficou de pé no escuro com as mãos fechadas, tentando não gritar.
[11]
Jill ouviu algo como vidro quebrando e ficou parada, escutando. A acústica da casa era estranha, os longos
corredores e traçado incomum tornavam difícil de dizer de onde vinha o som.
Ela suspirou, dando uma última olhada na calma sala de estar do segundo andar. Ela já tinha checado as outras
três salas do segundo andar e não achou nada de interessante - um vazio quarto com duas camas, um pequeno
escritório, e uma sala inacabada com uma lareira e uma porta trancada. Os únicos botões que ela achou eram
das luzes, apesar de ter se empolgado com o sinistro botão preto na parede do escritório - mas era apenas o
controle de drenagem do aquário vazio no canto do lugar.
Ela também tinha achado munição para a Remington - uma caixa de metal debaixo de uma das camas do
quarto.
Jill verificou o mapa de Trent novamente, localizando-se no segundo andar. Depois da outra porta da sala de
estar, estava um corredor em U que fazia o caminho de volta para o segundo andar do hall principal. O corredor
tinha outras duas portas, uma dava em outro corredor com outras salas e a outra porta dava em uma única
sala...
Ela guardou o computador e tirou a Beretta antes de sair para o corredor. Não era fácil entre tentar descobrir o
que aconteceu na mansão, e onde o resto do time estava, era bem complicado.
Devia ter olhado melhor aqueles papéis...
O escritório era simples, uma mesa, uma estante - mas tinha um cabide com aventais ao lado da porta, e a
maioria dos papéis jogados na mesa eram uma lista de números e letras. Ela sabia química o bastante para saber
que estava olhando para química, então nem se preocupou em lê-los - mas achando os papéis, ela começou a
desconfiar que os zumbis foram o resultado de um acidente. A mansão era mantida bem demais para ter vindo
de dinheiro privado, e o fato de ter mantido em segredo por tanto tempo merece uma olhada. Devia ter alguns
meses de poeira em quase tudo - que coincide com os primeiros ataques em Raccoon. Se alguém na casa
estivesse fazendo experiências e algo de errado aconteceu...
Algo que os tornou em zumbis? Isso é meio ilógico...
Só que fazia mais sentido do que qualquer outra coisa. Sobre o time - Barry estava agindo estranho, Chris e
Wesker ainda estavam desaparecidos; nada de novo aí.
E não haverá nada de novo se você não se mexer.
Certo. Jill cortou os pensamentos e saiu para o corredor. Ela sentiu o cheiro antes mesmo de ver o zumbi caído
no chão. As pequenas arandelas na parede iluminavam o corpo irregularmente, refletindo o escuro tom
avermelhado do corredor. Ela mirou a no corpo estendido e escutou uma porta fechando em algum lugar
próximo.
Barry?
Ele tinha dito que estaria na outra asa da mansão, mas talvez ele achou algo e veio falar com ela... ou talvez se
encontraria finalmente com alguém do time.
Sorrindo, ela correu pelo corredor, ansiosa para ver outro rosto familiar. Ao se aproximar da curva, uma onda de
decadência passou por ela - e a criatura caída agarrou sua bota com uma incrível força.
Assustada, Jill abriu os braços para se equilibrar, gritando enquanto o zumbi aproximava sua boca da bota dela.
Seus descascados e esqueléticos dedos arranharam o grosso couro, procurando um apoio mais firme -
- e Jill instintivamente desceu o outro pé na cabeça do zumbi. Ele permaneceu agarrado ao pé dela, obviamente
por dor.
O segundo e terceiro chute acertou o pescoço dele - e no quarto, foi ouvido um snap de vértebras quebrando,
esmagadas sobre o calcanhar dela.
As pálidas mãos dele tremeram, e com um suspiro, o zumbi assentou-se no antiquado carpete.
Jill passou pelo corpo e fez a curva. Ela estava convicta de que as criaturas eram vítimas, bem como Becky e
Pris.
Tinha uma porta dupla de metal esverdeada à direita. O desenho de uma armadura estava na fechadura, mas a
porta estava destrancada.
Não havia ninguém lá dentro. As duas paredes laterais possuíam várias armaduras completas, oito de cada lado.
Um pequeno gabinete estava no fundo da sala - sem mencionar o grande botão vermelho instalado no meio do
chão de lajotas cinzas.
Outra armadilha? Ou um quebra-cabeça...
Intrigada, ela andou pela sala até o gabinete com frente de vidro, os quietos guardas parecendo observá-la.
Haviam dois buracos gradeados no chão, um de cada lado do botão vermelho; talvez para ventilação - e sentiu
seu coração acelerar um pouco, subitamente certa de que achou outra armadilha da mansão.
Uma rápida inspeção no gabinete foi decisivo; não tinha jeito de abri-lo, o vidro protegendo um único objeto.
Eu aperto o botão vermelho achando que isso abre o gabinete - e depois o que?
Ela pensou no buracos de ventilação fechando, e a porta trancando, uma lenta morte por asfixia. A sala podia se
encher de água ou por algum tipo de gás venenoso.
Ela olhou em volta, franzindo, pensando se poderia manter a porta aberta ou se havia outro botão escondido nas
armaduras...
.. toda charada tem mais de uma resposta, Jillzinha, não se esqueça.
Jill sorriu de repente. Para que apertar o botão?
Ela se agachou perto do gabinete, segurou a arma firmemente e quebrou o vidro. De dentro, ela tirou uma peça
hexagonal de cobre, adornada com um arcaico e sorridente sol. Ela sorriu de volta para ele, contente com sua
solução. Parece que um dos truques da mansão podia ser trapaceado.
De volta ao corredor vermelho-sangue, ela parou por um momento, segurando a peça. Ela podia continuar
procurando por quem tinha fechado a porta, ou colocar a peça no diagrama. Por mais que ela quisesse achar os
amigos, Barry estava certo em precisarem fugir da mansão.
Ela olhou para a fedorenta criatura que tinha matado, a crescente poça de sangue em volta de sua cabeça - e
percebeu que queria desesperadamente sair de lá, fugir das criaturas que habitavam seus frios e empoeirados
corredores. Ela queria sair o mais humanamente possível.
Decidida, ela voltou por onde veio, segurando a pesada peça.
Ela já achou duas das peças que os S.T.A.R.S. precisavam para fugir. Ela não sabia para onde estariam fugindo,
mas qualquer lugar seria melhor do que o que estariam deixando para trás...
Richard!". Rebecca imediatamente se agachou ao lado do Bravo, sentindo seu pescoço com uma trêmula mão.
Chris olhou quieto para o corpo surrado, já sabendo que ela não acharia pulsação; a grande mordida no ombro
direito de Richard Aiken já estava secando, sem sangue fresco na mutilada pele. Ele estava morto.
Ele viu a mão de Rebecca se afastar lentamente do pescoço do Bravo, e depois indo aos olhos para fechá-los. Os
ombros dela encolheram. Chris ficou enjoado com a descoberta; o especialista em comunicações era positivo e
gentil, e só tinha vinte e três anos...
Chris olhou em volta, procurando alguma pista sobre a morte de Richard. O corredor a qual entraram ficava no
segundo andar e estava vazio, exceto por Richard.
Franzindo, Chris deu alguns passos na direção da outra porta e se agachou. Tinha marcas de sangue do tamanho
do calcanhar de uma bota, entre o corpo e a porta a uns três metros adiante. Ele olhou para a porta, pensativo,
apertando sua Beretta.
Seja lá o que tenha matado ele, está do outro lado, talvez esperando mais vítimas -
"Chris, dê uma olhada nisso".
Rebecca ainda estava agachada. Chris se aproximou dela, incerto sobre o que olhar. O ferimento no ombro de
Richard era irregular e confuso, carne descolorida por trauma. Estranho por não parecerem muito profundos...
"Vê aquelas marcas vermelho-escuras saindo dos cortes? E a forma com que o músculo foi perfurado, aqui e
aqui?". Ela apontou para dois buracos escuros separados por cerca de vinte centímetros.
Rebecca sentou nos calcanhares, olhando para Chris. "Eu acho que ele foi envenenado. Parece uma mordida de
cobra".
Chris olhou para ela. "Que cobra chega a esse tamanho?".
Ela balançou a cabeça, ficando de pé. "Me pegou. Pode ter sido outra coisa. Mas não foi o ferimento que o
matou, e teria levado horas para sangrar. Eu acho mesmo que ele foi envenenado".
Chris a olhou com um novo respeito; ela tem um bom olho para detalhes e estava se comportando muito bem,
considerando a situação.
Ele vasculhou o corpo de Richard rapidamente, tirando um clip cheio e um rádio de ondas curtas. Ele deu ambos
para Rebecca, pondo a Beretta vazia de Richard no cinto.
Ele olhou para a porta de novo e depois para ela. "A coisa que matou ele está lá...".
"Então teremos que ser cuidadosos". Ela disse. Sem outra palavra, ela andou para a porta e esperou por ele.
Eu tenho que parar de pensar nela como sendo uma criança. Ela já viu quase todos os Bravos mortos, ela não
precisava ser dita para ficar para trás.
Ele acenou e Rebecca girou a maçaneta, ambos erguendo suas armas enquanto entravam num estreito corredor.
Bem a frente, estavam alguns degraus de madeira que davam em uma porta. Um pouco à frente, à esquerda
deles, o corredor continuava, outra porta ao fundo. Havia marcas de sangue espalhadas na parede beirando os
degraus. Chris estava certo de que eram de Richard; o assassino dele estava atrás daquela porta.
Ele foi para a curva do corredor, cochichando. "Você pega aquela porta. Se tiver problemas, volte aqui e espere.
Nos encontraremos em cinco minutos".
Rebecca acenou e desceu o corredor. Chris esperou até ela entrar antes de subir os degraus, seu coração
golpeando solidamente suas costelas.
A porta estava trancada, mas tinha um escudo gravado na fechadura. Rebecca estava ficando mais útil do que
pensava. Ele pegou a chave que ela tinha lhe dado e destrancou a porta, checando a arma antes de entrar.
Era um grande sótão, tão simples e modesto quanto o resto da casa. Pilares de madeira saíam do chão até o
teto inclinado. Exceto por algumas caixas e barris nas paredes, o lugar estava vazio.
Chris andou mais enquanto procurava por movimento.
No canto da longa sala estava um cercado, um metro e vinte por dois e setenta, talvez. Ele fazia Chris se lembrar
de um estaleiro, e era a única área fora de visão. Chris foi até lá vagarosamente, suas botas contra o chão de
madeira.
Ele alcançou o baixo cercado, apontando a arma sobre ele enquanto dava uma olhada, coração batendo.
Nenhuma cobra, mas tinha um irregular buraco perto do chão, uns quarenta centímetros de altura por oitenta - e
um estranho odor amargo. Franzindo, Chris começou a se afastar -
- e parou, se aproximando de novo. Havia um objeto de metal perto do buraco, como uma moeda do tamanho
de um punho. Tinha algo entalhado na peça.
Chris deu a volta e entrou no cercado, de olho no buraco enquanto se agachava para pegar o objeto. Era um
disco hexagonal de cobre com uma lua crescente gravada, um belo trabalho artesanal -
De dentro do buraco, um suave som rastejante.
Chris pulou para trás, mirando. Ele recuou rapidamente até seus ombros encostarem na parede do sótão, depois
começou a andar -
- e uma sombra cilíndrica saiu da abertura. Era tão grossa quanto um prato de comida, e golpeou a parede onde
a perna direita de Chris estava, lascas de madeira voaram com o impacto -
- droga, aquilo é uma COBRA -
Chris correu enquanto o réptil gigante se aproximava, ainda saindo da parede. Rosnando, ela se ergueu como
uma naja, pondo sua cabeça mais alta que Chris, mostrando afiados dentes.
Chris correu metade da sala e girou, atirando na cabeça da cobra gigante. Ela soltou um estranho choro assim
que um tiro acertou um lado de sua boca, fazendo um buraco na esticada pele.
Ela voltou ao chão e rebolou-se na direção de Chris. Cada movimento deslocando seu imenso corpo, pelo menos
seis metros.
Chris atirou de novo e um pedaço escamoso saiu das costas dela, junto com sangue.
Com outro rosnado, o animal se ergueu na frente dele, sua cabeça a alguns centímetros da arma de Chris,
sangue saindo do buraco em sua boca -
- Olhos. Acerte os olhos -
Chris apertou o gatilho e a cobra caiu sobre ele, empurrando-o contra a porta. A cauda batendo fortemente em
um dos pilares, o bastante para racha-lo, enquanto Chris tentava liberar seus braços, para ao menos machucar a
cobra antes dele morrer -
- e o frio e pesado corpo subitamente froxou, caindo no chão.
"Chris!". Rebecca correu para dentro e parou fria, olhando para o monstruoso réptil. "Uau...".
Chris encontrou o chão e com um tremendo empurrão, ele se soltou do corpo da cobra. Rebecca foi ajudá-lo,
pavorosa.
Eles olharam para o ferimento que matou a criatura - o escuro buraco onde seu olho direito esteve, destruído por
uma 9mm.
"Você está bem?". Ela perguntou suavemente.
Chris acenou. Ele quase morreu por ter -
Ele ergueu a peça de cobre, tendo que folgar seus dedos apertados em volta dela. Ele a segurou durante o
ataque sem perceber - e olhando para ela agora, ele percebeu que de alguma forma ela era importante...
..talvez por que você quase virou comida de cobra por pegá-la?
Rebecca a pegou, passando o dedo sobre a lua gravada no metal.
"Você achou algo?". Ele perguntou.
"Rebecca balançou a cabeça. "Mesa, duas estantes... para que é isso, afinal?".
Chris olhou para o olho baleado da cobra pensando no que teria acontecido se tivesse errado aquele tiro...
"Nós descobriremos pelo caminho, vamos sair daqui". Ele disse.
Rebecca lhe devolveu a peça e juntos eles saíram do frio sótão. Chris nunca percebeu, mas assim que fechou a
porta, ele descobriu que odiava cobras.
Barry subiu as escadas do hall principal correndo, o nó em seu estômago apertando a cada passo. Ele abriu todas
as portas que pôde na asa oeste e não achou nada.
Ele pensava nas mesmas imagens enquanto subia os degraus. Kathy, Moira e Poly, aterrizadas e sofrendo nas
mãos de estranhos na própria casa. Kathy sabia a combinação do cofre de armas no porão, mas as chances de
descer a escada antes que alguém entre -
Barry chegou no primeiro patamar e respirou fundo. Kathy nunca pensaria em correr para as armas se ouvisse
alguém quebrando as janelas. Sua primeira atitude seria ver se as meninas estavam bem.
Se eu não achar aquelas peças logo, nada ficará bem.
Ele não viu telefones ou rádios em parte alguma. Se Wesker conseguir chegar ao laboratório, como ele vai
cancelar os assassinos da White Umbrella?
Barry alcançou a porta que dava no segundo andar da asa leste. Ele esperava que Jill ou Chris pudessem ter
achado as peças. Caso não, ele teria que voltar para a asa oeste e fazer os móveis em pedacinhos...
Barry não sabia onde Wesker estava, mas sabia que o desgraçado apareceria em breve.
Ele abriu a porta que dava num corredor vermelho escuro - e se deparou com Chris e Rebecca saindo de uma
porta à sua direita.
Chris se iluminou com um sorriso. "Barry!".
O jovem homem foi até ele e o abraçou, ainda sorrindo. "Jesus, como é bom te ver! Eu estava começando a
achar que Rebecca e eu éramos os únicos vivos - aonde estão Jill e Wesker?".
Mentir para Jill não foi fácil mas ele conhecia Chris há anos -
- Kathy e as meninas, mortas -
"Jill e eu fomos atrás de você, mas todas as portas do corredor estavam trancadas - e quando voltamos para o
hall principal, o capitão tinha sumido. Desde então, nós estivemos procurando por você e tentando achar uma
saída...".
Barry sorriu mais naturalmente. "É bom ver você, também. Vocês dois".
Pelo menos isso é verdade.
"Então Wesker sumiu?". Chris perguntou.
Barry acenou, desconfortavelmente. "É. E nós achamos Ken. Um daqueles zumbis o pegou".
Chris suspirou. "Eu vi. Forest e Richard também estão mortos".
Barry sentiu ainda mais ódio por Wesker. As pessoas para a qual Wesker trabalhou causaram tudo isso, e agora
querem fugir da responsabilidade -
- e gostando ou não, eu tenho que ajudá-los.
"Jill encontrou uma porta dos fundos, e achamos que pode ser uma saída - mas ela tem uma fechadura
quebra-cabeça, e temos que pegar todas peças para abri-la. São quatro peças de metal, feitas de cobre - Jill já
encontrou uma, e achamos que as outras estão escondidas pela mansão...".
Barry parou ao ver o súbito sorriso de Chris enquanto colocava a mão dentro do colete. "Algo como isso?".
Barry olhou para a peça com o coração acelerando. "Sim, essa é uma delas! Onde você a achou?".
Rebecca falou, sorrindo timidamente. "Ele teve que lutar com uma cobra gigante - grande mesmo. Eu acho que
ela foi infectada pelo acidente, um tipo de vírus cruzado... eles são bem raros".
Barry pegou a peça tão normalmente quanto podia, franzindo. "Acidente?".
Chris acenou. "Nós achamos algumas informações sugerindo que há algum tipo de laboratório aqui na mansão - e
algo que eles estavam usando escapou. Um vírus".
"Um que aparentemente pode infectar mamíferos e répteis". Rebecca adicionou. "Não só espécies diferentes,
mas famílias diferentes também".
Barry fez força, tentando achar uma desculpa para ir embora. O capitão não pode se aproximar dele a não ser
que esteja sozinho. Ele estava desesperado para colocar a peça no lugar e provar que ainda estava cooperando.
Sentindo o metal esquentar em suas mãos, Barry disse finalmente. "Nós precisamos dos federais nesse caso,
uma investigação completa, suporte militar, quarentena da área -".
Chris e Rebecca estavam concordando, e Barry se sentiu culpado de novo. Deus, se eles não tivessem tanta
confiança -
"- mas para fazer isso, nós temos que achar todas as peças. Jill já deve ter achado mais uma, ou duas...".
.. Deus queira...
"Você sabe onde ela está?". Chris perguntou.
Barry acenou, pensando rápido. "Acho que sim, mas esse lugar é um labirinto... por que vocês não esperam no
hall principal enquanto eu trago ela? Assim nós podemos organizar nossa busca, fazer um trabalho mais completo
-".
Ele sorriu, esperando ter sido mais convincente do que sentia. "- mas se nós demorarmos, continuem procurando
pelas peças. A porta dos fundos fica no final dos corredores da asa leste, primeiro andar".
Barry pôde ver as perguntas se formando na cabeça de Chris, perguntas que não sabia responder.
Por favor, só faça o que eu digo -
"Tá certo". Chris disse relutante. "Nós esperaremos, mas se ela não estiver onde você acha que está, volte para
nos pegar. Nós teremos mais chances nesse lugar se ficarmos juntos".
Barry acenou, e antes que Chris pudesse dizer algo, ele se virou e correu pelo escuro corredor. Com a incerteza
na voz de Chris e a hesitação em seus olhos, Barry quis desesperadamente alertar seu amigo sobre a traição de
Wesker. Sair correndo foi o melhor jeito de evitar algo que pudesse causar arrependimento, algo que pudesse
matar sua família.
Assim que ouviu a porta para o hall principal se fechar, ele acelerou pelo corredor. Tinha um zumbi morto perto da
porta que dava para a escada; Barry o pulou. O cheiro desaparecendo enquanto passava pelo corredor conector.
Ele descia a escada enquanto pensava na sua traição.
Você é um mentiroso, Barry, usando seus amigos como Wesker o usou, brincando com suas confianças. Você
devia tê-los dito a verdade, deixá-los te ajudar a por um fim nisso -
Barry parou de pensar assim que abriu a porta metálica para a passagem coberta. Ele não podia arriscar - e se
Wesker estivesse escutando?
Barry alcançou o diagrama e parou. Alívio passou por ele, frio e suor. Três das quatro aberturas estavam
preenchidas, o sol, o vento e a estrela no lugar. Estava acabado.
Ele já pode ir para o laboratório, cancelar os assassinos, ele não precisava mais de nós! Eu posso voltar e manter
o time ocupado enquanto Wesker faz o que tem que fazer, o R.P.D. aparece e podemos esquecer que isso
aconteceu -
Barry estava tão exaltado que não percebeu os passos atrás dele, não percebeu que estava acompanhado até
ouvir a voz de Wesker ao seu lado.
"Por que você não fecha o quebra-cabeça, Sr. Burton?".
Barry pulou, assustado, odiando a orgulhosa face por trás dos óculos escuros. Wesker sorriu, acenando para a
peça de cobre nas mãos de Barry.
"Tá bom". Barry encaixou a última peça no lugar. Houve um som metálico dentro da porta -
- e Wesker passou por ele, abrindo a porta que dava num pequeno depósito de ferramentas. Barry pode ver a
saída do outro lado. Não tinha diagrama perto da porta dupla.
Kathy e as meninas estavam a salvo.
Com um leve aceno, Wesker chamou Barry, ainda sorrindo.
"O tempo é curto, Barry, e ainda tem muitas coisas para fazermos".
Confuso, Barry olhou para ele. "O que você quer dizer? Você já pode ir para o laboratório agora...".
"Bom, houve uma pequena mudança de planos. Veja, tem outra coisa para procurar, e eu não faço a mínima
idéia de onde está... e você tem feito um bom trabalho até agora que e eu quero que venha comigo -".
O sorriso de Wesker ficou frio. "- de fato, eu acho que terei de insistir".
Depois de um longo e terrível momento, Barry concordou sem poder fazer nada.
[12]
Cara Alma,
Eu sentei aqui pensando por onde começar, em como explicar tudo o que aconteceu na minha vida desde que
conversamos pela última vez, e eu já fracassei. Espero que esta carta seja esclarecedora, e que você me perdoe
pela minha letra; isso não é fácil para mim. Enquanto escrevo, eu posso sentir os conceitos mais simples se
perdendo, perdidos para o desespero e confusão - mas eu tenho que te dizer o que está acontecendo na minha
cabeça antes de eu descansar. Seja paciente e aceite o que eu digo como verdade.
A história inteira levaria horas para ser contada, mas o tempo é curto, então aceite estas coisas como fatos: no
mês passado houve um acidente no laboratório e o vírus que estávamos estudando escapou. Todos os meus
colegas que foram infectados estão mortos ou morrendo, e a natureza desta doença é que os ainda vivendo já
perderam suas mentes. Esse vírus rouba a humanidade de suas vítimas, forçando-os a procurar e destruir vida.
Eu posso ouvi-los, mesmo enquanto escrevo estas palavras, batendo na minha porta trancada como animais
famintos, gritando como almas perdidas.
Não há palavras verdadeiras o suficiente, profundas o bastantes para descrever a dor e a vergonha que eu sinto
por ter tido uma mão nessa criação. Eu acredito que eles não sentem nada agora, nem medo nem dor - e não
podem ver o horror a qual se tornaram, mas isso não me deixa livre da terrível aflição. Eu sou, em parte,
responsável pelo pesadelo que me circunda.
Apesar da culpa que queima no meu ser, que vai me caçar a cada respiração, eu tentei sobreviver só para te ver
de novo. Mas os meus esforços só adiaram o inevitável; eu estou infectado, e não há cura para o que virá em
seguida - exceto terminar a minha vida antes que eu perca a única coisa que me separa deles. Meu amor por
você.
Por favor, entenda. Por favor, saiba que eu sinto muito.
Martin Crackhorn
Jill suspirou, gentilmente pondo o dobrado papel na mesa. As criaturas foram vítimas de suas próprias pesquisas.
Parece que ela tinha acertado. Depois de ter colocado a peça do sol no diagrama, ela tinha decidido que o
escritório do segundo andar merecia uma melhor olhada - e com um pouco de procura, ela achou o testamento
final de Crackhorn numa gaveta.
Crackhorn, Martin Crackhorn - é um dos nomes na lista de Trent...
Jill franziu, voltando lentamente para a porta. Por algum motivo, Trent quis que o S.T.A.R.S. ficasse sabendo o
que estava acontecendo lá antes de todos - então por que não contar ao resto do time?
Ela saiu do pequeno cômodo que antecede o escritório e voltou para o corredor. Barry tem andado estranho e ela
precisava saber por que. Ela poderia receber uma resposta clara se perguntasse de uma vez....
Ou não. De qualquer forma, isso me dirá algo.
Jill parou na frente da escada, respirando - e percebeu que algo estava diferente. Ela olhou em volta, tentando
descobrir o que seus sentidos lhe diziam.
Está mais quente. Só um pouco. E o ar não está tão mau cheiroso.
Como se uma janela tivesse sido aberta. Ou uma porta.
Jill virou e desceu as escadas, ansiosa para ver o diagrama. No final dos degraus, ela viu que a porta que dividia
os dois corredores estava aberta. Dava para ouvir o distante som dos grilos, sentir o ar fresco da noite.
Ela correu para o corredor mais escuro e foi para a direita, e pôde ver a porta para a passagem coberta, aberta.
Ela correu mais, sentindo o limpo ar contra sua pele enquanto contornava o canto arredondado - e deu uma curta
e triunfante risada ao ver as quatro peças no diagrama. Uma quente brisa vinha da sala que as peças abriram,
um pequeno depósito de materiais de jardinagem. A porta dupla metálica na parede oposta estava aberta e Jill
pode ver a luz da lua na parede cinza de tijolos.
Barry estava certo, a porta dava para o lado de fora. Eles podiam pedir ajuda agora, achar uma trilha segura pela
floresta ou algum sinal -
Mas se Barry achou as peças perdidas, por que ele não me procurou?
O sorriso de Jill sumiu assim que entrou no depósito, olhando as empoeiradas caixas e barris alinhados nas
acinzentadas paredes. Barry sabia onde ela estava, tinha sugerido que ela ficasse no segundo andar da asa
leste...
Pode ser que Barry não a tenha aberto.
Verdade, pode ter sido Chris, Wesker ou um dos Bravos. Se for o caso ela podia voltar para a mansão e procurar
por Barry.
Mas ela tinha que admitir que a idéia de voltar para a mansão, com uma possível saída na frente dela, não era
tão atrativa. Ela empunhou a arma e foi para a porta externa, sua decisão feita.
A primeira coisa que percebeu foi o som de água correndo entre leves ruídos da floresta, como uma cachoeira. A
segunda e terceira coisa foram os corpos de dois cachorros baleados no irregular chão azulado de pedra.
Bem provável que um dos S.T.A.R.S. passou por aqui...
Jill saiu num pátio com altas paredes, baixos canteiros de tijolos em cada lado. Do outro lado estava um portão de
metal fechado, depois de um canteiro com arbustos no meio do caminho; à sua esquerda havia uma reta
passagem escurecida pelas altas paredes. O som de cachoeira parecia vir daquela direção, apesar da passagem
terminar em algumas grades baixas de metal.
Escadas descendo talvez.
Jill olhou para o rústico portão à frente e depois para os corpos dos cães mutantes. Ambos estavam perto do
portão, sugerindo que o atirador tinha ido naquela direção -
Houve um súbito e barulhento som de água, fazendo sua decisão. Jill virou e correu pela passagem, esperando
ver o que estava causando o barulho.
Ela chegou no fim da passagem e se debruçou sobre a grade - então o som parou. Não tinha escada, a grade
dava em uma pequena plataforma de elevador e em um grande e aberto pátio, seis metros abaixo.
O barulho vinha da direita. Jill olhou pelo pátio a tempo de ver uma figura cruzar a cascata, desaparecendo atrás
da cortina de água que saía da parede mais acima.
Mas que droga -
Ela olhou para a pequena cachoeira, piscando, incerta sobre o que viu. O barulho tinha parado assim que a
pessoa sumiu - significando que a cascata escondia uma passagem secreta.
Ótimo, é tudo o que esse lugar precisava. Lord sabe que eu não peguei muitas delas na mansão.
Os controles para o elevador de um passageiro estavam na barra de metal. Jill apertou um botão e nada
aconteceu. Ela tem que descer de outro jeito, perdendo tempo enquanto aquela pessoa se distancia mais.
Jill olhou para o poço debaixo do elevador. Ela podia descer usando as costas e as pernas para suportar seu peso.
Tirando a espingarda, um perturbador pensamento lhe ocorreu - se quem cruzou a cachoeira fosse um dos
S.T.A.R.S., como o mesmo soube que a passagem estava lá?
Boa pergunta. Segurando firme a espingarda, Jill começou a descer.
Eles tinham dado quinze minutos para Barry antes de irem para aporta dos fundos. Eles estavam lá agora,
olhando para a chapa de cobre e suas quatro peças entalhadas.
Chris olhou para a lua crescente que Barry tinha pego, sentindo-se confuso e preocupado. Barry era um dos mais
honestos e sinceros que ele já conheceu. Se ele disse que ia atrás de Jill e depois voltar a eles, ele ia.
Mas ele não voltou. E se teve problemas, como a peça da lua está aqui?
Alguém poderia tê-la pego dele, ou ele poderia ter se ferido depois de tê-la colocado aqui... as possibilidades
pareciam não acabar, e nenhuma delas era boa.
Suspirando, ele virou para Rebecca. "Independente do que aconteceu com Barry, nós devemos ir em frente. Esta
pode ser a única saída".
Rebecca sorriu um pouco. "Tudo bem. Parece bom sair daqui, sabe?".
"É mesmo". Ele disse. Ele não percebeu como tinha se acostumado à fria atmosfera da mansão até sair dela. A
diferença era incrível.
Eles cruzaram a sala de estocamento e pararam na porta, respirando fundo. Rebecca checou sua arma pela
centésima vez desde que saíram do hall principal, mordendo o lábio inferior tensamente. Chris pensou se havia
alguma coisa que podia ajudá-los em caso de combate. O treinamento do S.T.A.R.S. cobria o básico, mas atirar
numa tela de televisão com uma arma de brinquedo estava longe da realidade.
Ele sorriu de repente, lembrando das palavras de conhecimento que aprendeu em sua primeira operação; uma
estadia com um pequeno grupo de sobrevivência no norte do estado de Nova York. Chris estava apavorado e
tentando não mostrar isso. O capitão da missão era um especialista em explosivos, uma breve mulher chamada
Kaylor. Ela o chamou antes de entrarem em ação, olhou-o de cima a baixo e deu um único conselho, o melhor
que já recebeu.
"Filho,". Ela disse. "não importa o que esteja acontecendo - quando o tiroteio começar tente não molhar as
calças".
"Por que você está sorrindo?".
Chris balançou a cabeça, o sorriso indo embora. Ele não achava que isso funcionaria com a Rebecca. "É uma
longa história. Vamos".
Eles saíram do depósito.
Eles agora estavam num tipo de pátio com altas paredes de tijolos cinzas, uma passagem à esquerda deles. Chris
podia ouvir água corrente por perto e o triste choro de um cão ou coiote na distância.
Por falar em cães...
Haviam dois deles mortos mais à frente, iluminados pela suave luz da lua. Chris foi até um deles e se agachou,
tocando sua costela. Ele rapidamente tirou a mão de lá, de cara feia; o cachorro mutante estava pegajoso e
quente.
Chris levantou, secando sua mão na calça. "Não morreu há muito tempo. Menos de uma hora".
Tinha um enferrujado portão depois de um canteiro na frente deles. Chris acenou para Rebecca enquanto iam
para ele.
Chris empurrou o portão e ele abriu, rangendo as dobradiças, revelando um imenso reservatório, mais ou menos
metade de uma piscina olímpica. Escuras árvores verdes cercavam o lugar atrás de um baixo parapeito.
Eles avançaram, parando na beira da piscina. Ela parecia estar num lento processo de drenagem, o turbulento
ruído causado pelo estreito fluxo de água através de uma comporta erguida à noroeste deles. Não tinha uma
passagem completa em volta do reservatório, mas Chris pode ver um caminho sob a água. Haviam duas escada
fixas, uma de cada lado, e o caminho foi obviamente submerso.
Chris estudou a situação por um momento, imaginando como alguém pudesse chegar do outro lado com a piscina
cheia.
Sem falar, eles desceram e começaram a cruzar a piscina de pedra, suas botas em contato com as
escorregadias pedras, a fria umidade os envolvendo. Chris rapidamente subiu a outra escada, ajudando Rebecca
logo em seguida.
As árvores pareciam margear a passagem até o fim do reservatório, passando por cima da comporta. Eles
deram alguns passos quando começou a chover.
Chris franziu, sua mente lhe dizendo que não deveria ouvir gotas de chuva sob o som de uma cachoeira. Ele
olhou para cima -
- e viu um galho quebrado cair, um galho que caiu no chão e deslizou sob as pedras -
- não era chuva e aquilo não era um galho -
- e já haviam dezenas delas no chão, gritando e se rastejando.
Os dois estavam cercados por cobras.
Droga.
Assustada, Rebecca olhou para Chris. O chão tinha ganhado vida, escuras sombras vindo de cima e se
amontoando aos seus pés.
Rebecca ergueu a arma enquanto Chris agarrava seu braço.
"Corra!".
Eles correram, Rebecca gritando sem perceber assim que um grosso e balançante corpo caiu em seu ombro, e
depois no chão.
A passagem zigue-zagueava e eles correram pelas sombras, seus pés esmagando carne borrachosa,
desequilibrando-os.
Eles chegaram numa pequena plataforma de elevador que dava fim a passagem. Era a única saída.
Eles se apertaram na plataforma e Rebecca apertou os botões, sua respiração acelerada. Chris virou e atirou
várias vezes, os tiros desaparecendo sob o som de uma cachoeira enquanto Rebecca achava o botão certo e
eles começavam a descer.
Rebecca virou para ajudar Chris e se assustou com a quantidade de cobras, uma pulando em cima da outra
praticamente escondendo o chão. Ela tentou se acalmar assim que o chão passava na altura dos olhos.
Ambos olharam para cima esperando os corpos começarem a cair. Quando a base estava a centímetros do
chão, eles pularam, se afastando da parede.
Ambos desacelerando o coração, Rebecca olhou para o pátio a qual estavam. Era grande, cercada por altas
paredes e chão de pedras azuladas. A água do reservatório acima caía em duas piscinas menores naquele pátio,
e tinha um único portão do outro lado.
E nenhuma cobra.
Ela suspirou mais uma vez, depois virou para Chris.
"Você foi mordido?".
Ele balançou a cabeça. "Você?".
"Não -".
Beep-beep.
O rádio!
Rebecca o tirou do cinto, esquecendo-se das cobras. Era o som que ela esteve esperando desde que encontrou
Richard. Eles estavam sendo contatados, pode ser a equipe de busca -
Ela ergueu o rádio para que os dois pudessem ouvir. Estática aparecia entre suaves ondas de sinal.
"... aqui é Brad!... Alpha Team... se você pode ouvir isso...".
A voz desapareceu na estática.
"Brad? Brad, responda!".
O sinal se foi. Ambos escutaram mais um pouco, e nada mais apareceu.
"Ele deve ter saído do alcance". Chris disse. Ele suspirou e caminhou pelo aberto pátio, olhando par o escuro céu
acima.
Rebecca colocou o rádio em seu cinto, sentindo-se mais esperançosa. O piloto estava lá fora em algum lugar,
voando por aí, procurando por eles. Agora que estavam fora da mansão, eles são capazes de receber o sinal.
Caso ele volte.
Rebecca foi até Chris, que achou outro pequeno elevador embutido na parede, no canto em frente a cachoeira.
Estava sem energia.
Chris virou para o portão, trocando de clip. "Devemos ver o que tem atrás da porta número um?".
A não ser que voltem pelas cobras, aquela era a única opção.
Rebecca sorriu e acenou, querendo que ele soubesse que estava pronta - esperando estar caso alguma coisa
aconteça.
[13]
Jill parou na beira de um grande poço no úmido túnel, olhando para a porta do outro lado. O buraco era muito
comprido para pular com segurança, e não tinha jeito de descer. Ela tinha que voltar e tentar a porta ao lado da
escada de mão.
Seu suspiro tornou-se uma tremedeira. O úmido frio emanando das paredes de pedra não seria pior se seu corpo
não estivesse molhado.
Ótima passagem secreta. Para usá-la, você tem que pegar pneumonia.
Um brilho de metal refletiu em seus olhos e ela se virou, tirando o cabelo molhado dos olhos. Era uma pequena
placa de metal fixa na parede. Tinha um buraco hexagonal do tamanho de um polegar no centro dela. Ela olhou
para a porta pensando.
Talvez isso crie uma ponte, ou abaixe uma escada...
Não importava. Ela não tinha a ferramenta necessária. Além disso, é improvável que a pessoa que ela viu tenha
passado pelo buraco.
Jill voltou pelo túnel em U na direção de sua única entrada, ainda impressionada com o que achou atrás da
cascata. Parece que havia uma malha de túneis debaixo do jardim da mansão. As paredes eram duras e
irregulares, lembrando a casca de um abacaxi, pedaços de pedra calcária criando ângulos - o trabalho que deve
ter dado é inimaginável.
Ela alcançou a porta do lado da escada, fazendo força para não bater os dentes com o vento que vinha do pátio
acima. O som da cachoeira era estranhamente baixo. Podia-se ouvir o som de gotas pingando, dando um ar
medieval aos túneis...
Ela abriu a porta - e congelou, sentindo uma onda de emoções assim que Barry Burton apareceu a sua frente, de
arma na mão.
"Barry?".
Ele rapidamente abaixou a arma, tão chocado quanto ela - e tão molhado, também. A manga de sua camiseta
estava dobrada até os ombros, seu curto cabelo, bagunçado.
"Jill! Como você chegou aqui embaixo?".
"Igual a você, aparentemente. Mas como você soube -".
Ele ergueu sua mão, interrompendo-a. "Escute".
Eles ficaram calados, Jill olhando para cima e para o corredor de pedra, tentando ouvir o que Barry tinha ouvido.
Haviam portas de metal em cada ponta do corredor, iluminado por pequenas arandelas de emergência.
"Eu pensei ter ouvido algo". Ele disse finalmente. "Vozes...".
Antes dela fazer mais perguntas, ele virou a encarou, sorrindo. "Olha, me desculpe por não tê-la esperado, mas
eu ouvi alguém andando no jardim e tive que dar uma olhada. Eu achei esse lugar por acidente, tropecei e caí...
deixa pra lá. Ainda bem que você está aqui. Vamos dar uma volta, ver o que podemos descobrir".
Jill concordou, mas decidiu ficar de olho nele. Ela podia estar paranóica, mas apesar das palavras, Barry não
parecia estar tão feliz em vê-la.
Vigie e espere, ela pensou. É tudo o que ela pode fazer agora.
Barry foi para a porta da direita, de Colt apontada para cima. Ele abriu a porta revelando outro sombrio corredor.
A alguns metros à direita, estava outra porta de metal. O corredor continuava numa curva para a esquerda onde
só se via escuridão. Barry foi para aporta, Jill atrás.
Os dois entraram em outro corredor. Os corredores tinham a mesma aparência, esse virava à esquerda. Ela já
estava perdida e não queria ver mais curvas -
"Quem está aí?". Uma profunda e familiar voz veio de algum lugar à frente, as palavras ecoando.
"Enrico?". Jill disse.
"Jill, é você?".
Ela correu e fez a curva, Barry logo atrás. O Capitão do Bravo Team ainda estava vivo.
Jill contornou a próxima curva e o viu sentado contra a parede, o túnel terminava lá.
"Espere. Fique aí!".
Ela parou, olhando para a Beretta que ele estava apontando. Ele estava ferido, sangue em sua perna.
"Você está sozinha, Jill?'. Seus olhos escuros estavam cheios de suspeita.
"Barry está aqui, também - Enrico, o que aconteceu? Para que isso?".
Assim que Barry apareceu, Enrico os olhou por um longo tempo, para eles e para a escuridão atrás deles - e
abaixou a arma, encostando na parede. Barry e Jill correram e se abaixaram perto do Bravo ferido.
"Me desculpem,". Ele disse cansadamente. "eu tive que ter certeza...".
Jill pegou a mão dele gentilmente, impressionada com o quanto pálido ele estava. Sua coxa estava sangrando,
sua calça tingida de vermelho.
"Tudo isso foi uma armação,". Ele respirou, olhando para ela. "Eu me perdi, desci pelo buraco, vi os túneis...
achei o papel... a Umbrella sabia, o tempo todo...".
Barry pareceu chocado, sua face tão branca quanto a de Enrico. "Agüente firme, Rico. Nós o tiraremos daqui,
você só deve ficar aqui -".
Enrico balançou a cabeça, ainda olhando para Jill. "Tem um traidor no S.T.A.R.S., ele me disse -".
Bam! Bam!
O corpo de Enrico pulou assim que dois buracos apareceram de repente em seu peito, sangue pulsando deles.
Depois do eco dos tiros, passos voltaram pelo corredor atrás deles.
Barry se ergueu e correu enquanto Jill soltava a mão do Bravo sem poder fazer nada, seu coração acelerado e
cansado. Ele tombou, morto antes de tocar o frio chão de pedra.
A mente dela flutuava em perguntas enquanto Barry perseguia os passos, silêncio tomou conta do lugar
novamente. Que papel ele achou? Quando ele disse traidor, ela imediatamente pensou em Barry, agindo tão
estranhamente - mas ele estava do lado dela quando os tiros foram disparados.
Então quem fez isso? De quem Trent estava falando? Quem Enrico viu?
Sentindo-se perdida e só, Jill segurou a fria mão dele e esperou Barry voltar.
Rebecca estava dando uma olhada nos papéis do velho baú encostado na parede enquanto Chris via o resto da
sala a qual entraram. Os únicos móveis eram uma cama, uma mesa e uma velha estante de madeira. Depois do
frio esplendor da mansão, Chris estava agradecido por estar num lugar mais simples.
Depois de uma longa e cheia de curvas passagem, eles saíram de frente para uma casa, menor e menos
intimidadora que a mansão. O hall da frente era simples, feito com tábuas de madeira, igual os dois quartos que
descobriram no quieto corredor à direita. Chris acha que eles encontraram a hospedaria dos empregados da
mansão.
Ele reparou na pesada poeira perto da entrada, percebendo que nenhum S.T.A.R.S. havia entrado lá. A única
opção deles agora é tentar achar uma porta dos fundos e pedir ajuda.
Depois da estante, Chris foi para a mesa de madeira e puxou a gaveta; estava trancada. Ele se inclinou e passou
a mão debaixo da gaveta, sorrindo ao encontrar um grosso pedaço de fita.
Ninguém assiste filmes? As chaves sempre estão guardadas sob as gavetas...
Ele puxou a fita e pegou uma fina chave prateada. Ainda sorrindo, ele destrancou a gaveta e a abriu.
Bingo!
Chris achou um chaveiro com uma etiqueta de couro. Ela tinha a palavra "Alias" queimada em um lado, e o
número "345" escrito à caneta no outro. Chris não sabia o significado do número, mas reconheceu o nome,
estava no diário que achou na mansão.
Obrigado, Sr. Alias. Caso as chaves sejam da hospedaria, eles estavam muito perto de sair de lá.
Rebecca ainda estava ao lado do baú, cercada por papéis, envelopes e até fotos. Ela parecia totalmente
concentrada no que estava lendo, e quando Chris se aproximou, ela levantou a cabeça com um olhar
preocupado.
"Você achou alguma coisa?". Ele perguntou.
Rebecca ergueu o pedaço de papel que estava lendo. "Algumas coisas. Ouça isso: 'Quatro dias desde o acidente,
a planta no Ponto 42 ainda está crescendo e mutando numa incrível velocidade...'".
Ela avançou, acompanhando o texto com o dedo enquanto falava. "Eles a chamam de Planta 42, e dizem que
sua raiz está no subsolo... aqui. 'Pouco depois do acidente, um dos membros infectados da equipe de pesquisa
ficou violento e quebrou o tanque d'água no subsolo, inundando toda a região. Nós achamos que alguns produtos
químicos usados nos testes do T-virus contaminaram a água e contribuíram para as mudanças radicais da Planta
42. Vários ramos já se espalharam pelo lugar, mas a planta principal está pendurada no teto da sala de
conferência do andar térreo...
"'Nós determinamos que a Planta 42 se tornou sensível a movimentos e agora é carnívora. Quando próxima de
humanos, ela usa seus tentáculos para capturar a presa enquanto adaptações se lançam na pele exposta e
sugam quantidades fatais de sangue; vários membros da equipe já foram vítimas dela'. Está datada de 21 de
Maio e assinado por Henry Sarton".
Chris balançou a cabeça, imaginando como alguém pode inventar um vírus como esse.
Deus, agora uma planta comedora de gente...
Chris ficou agradecido por estarem partindo em breve.
"Então o vírus infecta plantas, também". Ele disse. "Quando relatarmos isso, nós teremos que -".
"Não, não é assim". Ela disse. Ela deu uma foto para ele, suas expressões tristes.
Era a tremida foto de um homem de meia-idade usando um avental de laboratório. Ele estava de pé na frente de
uma porta de madeira, e Chris percebeu que era a mesma porta a qual entraram a menos de dez minutos - a
porta da frente da hospedaria.
Ele virou a foto, lendo a pequena inscrição no verso. "H. Sarton, Janeiro de 98, Ponto 42".
Ele olhou para Rebecca, finalmente entendendo seu olhar assustado. Eles estavam no Ponto 42. A planta
carnívora estava lá.
Wesker estava no escuro túnel, sua irritação crescendo enquanto ouvia Barry andando pelo corredor. Jill não
esperaria para sempre, e o enfurecido Sr. Burton não pode perceber que o assassino de Enrico estava escondido
bem à frente. O lugar mais óbvio.
Vamos, vamos...
Desde que saíram da mansão, ele finalmente sentiu que as coisas estavam a seu favor. Ele se lembrou da sala
no subterrâneo, certo de que a medalha do lobo estaria lá. E os túneis estavam vazios. Ele esperava que os 121
estariam soltos, mas aparentemente ninguém mexeu no mecanismo das passagens desde o acidente. Ele e
Barry se separaram para recuperar a manivela que fazia as passagens funcionarem - mas ela estava em cima do
painel que controlava a passagem.
Tudo teria sido perfeito se o maldito Enrico Marini não tivesse aparecido, achando um papel muito importante que
Wesker derrubou acidentalmente - suas ordens, direto do chefe da White Umbrella. E para complicar, Jill apareceu
antes que Wesker pudesse acabar com o problema.
Wesker suspirou profundamente. Se não era uma coisa, era outra. Na verdade, tudo tem sido uma dor de
cabeça desde o começo. Pelo menos os túneis eram seguros - apesar de não saber como o resto estava, e ter
que arrastar Barry como garantia. Wesker agora tem que lidar com as conseqüências. Se o dinheiro não fosse
tão bom -
Ele sorriu. Quem ele estava enganando? O dinheiro era ótimo.
Depois do que pareceu ter levado anos, Barry apareceu na escura abertura, movendo seu revólver cegamente.
Wesker quis que ele fosse na direção do gerador. Essa parte era perigosa - Barry e Enrico estiveram perto.
Assim que Barry se afastou da entrada, Wesker empurrou sua Beretta nas costas dele. Na mesma hora, ele
começou a falar, baixo e rápido.
"Eu sei que você quer me matar, Barry, mas eu quero que você pense no que está fazendo. Eu morro, sua
família morre. E agora, parece que Jill terá que morrer, também".
"Você vai matá-la de qualquer forma. Você vai matar todos nós -".
Wesker suspirou. "Isso não é verdade! Você não entende - eu só quero ir para o laboratório e me livrar de
algumas provas antes que alguém as ache! Quando o material estiver destruído, não haverá motivos para mais
alguém se ferir. É só nós... irmos embora".
Barry estava quieto, e Wesker o deixando acreditar que era simples assim. Wesker esperou mais um pouco antes
de pressionar.
"Tudo o que eu quero que você faça é manter Jill ocupada, ela e qualquer outra pessoa que encontrar a caminho
do laboratório, só por um momento. Você estará salvando a vida dela - e eu juro que assim que eu fizer o que
devo, sua família e você nunca mais ouvirão falar em mim".
Ele esperou. E quando Barry finalmente falou, o capitão soube que conseguiu.
"Onde fica o laboratório?".
Bom garoto!
Wesker abaixou a arma, ficando sério caso Barry tenha uma boa visão noturna. Ele tirou um papel do colete e
deu a Barry, um mapa dos túneis para o laboratório.
"Se por algum motivo você não conseguir mantê-la distante, ao menos vá com ela. Tem um monte de portas
com trancas, você pode trancá-la até tudo acabar. Ninguém mais tem que se machuca. Tudo depende de você".
Wesker pegou a manivela de ponta hexagonal que deixou ao lado do gerador. Ele olhou Barry por alguns
segundos, viu seus ombros caídos, sua cabeça abaixada. Satisfeito, Wesker virou e saiu do lugar. Barry fará com
que ninguém se aproxime do laboratório.
Ele saiu daquele túnel, se parabenizando por colocar a situação sob controle enquanto ia para o primeiro
mecanismo de passagem.
Ele tinha que correr. Haviam algumas coisas que Wesker esqueceu de dizer para Barry - como a divisão de
segurança experimental que seria ativada assim que ele girar a manivela pela primeira vez...
Desculpe-me Barry. Esqueci de dizer.
Seria interessante ver como seu time se daria com os 121, os Hunters (caçadores). Seria um espetáculo ver os
S.T.A.R.S. colocarem suas forças e agilidade contra as criaturas - mas infelizmente, ele não presenciará.
Era muito ruim, mesmo. Os Hunters estiveram enjaulados por muito tempo; devem estar com muita, muita
fome.
[14]
Barry está demorando muito. Jill não tinha idéia da extensão dos túneis, mas pelo que viu, todos pareciam iguais.
Barry pode ter se perdido tentando voltar. Ou ele encontrou o assassino, e sem cobertura...
Ele pode não voltar.
De qualquer modo, ficar parada não ajudaria muito. Ela se levantou, olhando o pálido rosto do Bravo pela última
vez, e lhe desejando paz antes de sair.
O que ele descobriu? Quem era?
Enrico só conseguiu dizer que o traidor era ele, mas isso não ajudava muito; exceto Jill e a novata, o resto do
S.T.A.R.S. de Raccoon eram homens. Ela poderia suspeitar de Chris; ele estava convencido sobre haver algo
estranho acontecendo desde o começo - e agora Barry, que estava com ela quando Marini morreu. Brad Vickers
não era do tipo perigoso. Joseph e Kenneth estavam mortos - só nos resta Richard Aiken, Forest Speyer e Albert
Wesker.
Nenhum deles pareciam suspeitos, mas ela tinha que pensar nisso. Enrico estava morto. E ela nunca duvidou que
a Umbrella tivesse um dos S.T.A.R.S. na mão.
Chegando na porta, ela rapidamente amarrou suas botas, se preparando. A pessoa que matou o Bravo poderia
ter facilmente matado Jill e Barry - mas não o fez, sugerindo que não quisesse mais vítimas. Considerando que ele
ainda estava no subsolo, ela terá que ser bastante silenciosa se quiser achá-lo; os túneis eram perfeitos
condutores de som, amplificando os mais suaves movimentos.
Ela abriu a porta de metal, escutando, e saiu para o corredor, ficando perto da parede. À frente dela, o corredor
estava escuro. Ela optou em voltar por onde tinha vindo; o escuro era um lugar perfeito para um cilada.
Ela ouviu o eco de algo grande se movendo. Instintivamente, Jill usou o som como cobertura, deslizando na
direção da porta assim que o som parou. Ela voltou para o túnel onde tinha se encontrado com Barry.
O que foi aquilo? Parecia que uma parede inteira estava se movendo!
Ela se lembrou do teto que desceu na mansão. Os túneis poderiam estar com armadilhas. A idéia de ser
esmagada por algum mecanismo bizarro no subsolo -
Como aquele perto do poço, com um buraco hexagonal.
Jill decidiu dar outra olhada nas portas que não conseguiu abrir antes. Talvez o assassino tenha a ferramenta
necessária, e o som que ela ouviu foi dele operando.
Ela podia estar errada, mas não custava olhar.
Pelo menos eu não vou me perder.
Ela alcançou a porta que a levaria de volta e parou, sua cabeça inclinada para captar o estranho som vindo do
túnel atrás dela. Era - uma drobadiça enferrujada? Era alto, seja lá o que for...
Thump. Thump. Thump.
Esse som ela conhecia. Passos, vindo em sua direção, era Barry ou alguém com seu porte. Eles eram pesados e
cansados -
Saia daqui. Agora!
Jill agarrou o trinco e correu para o próximo corredor, sem se importar com quanto barulho fez. Apesar de
algumas vezes entendê-los errado, seus instintos nunca falham - e eles estavam dizendo que ela não vai querer
estar lá quando o autor do barulho aparecer.
Ela correu pelo corredor de pedra, se distanciando da escada que levava ao jardim - e foi obrigada a parar,
respirando profundamente. Ela não podia só seguir em frente, haviam outros perigos além daquele que deixou
para trás -
Atrás dela, a porta abriu.
Jill virou, erguendo sua arma - e olhou com horror para a coisa de pé, lá. Era grande, na forma de um homem -
mas a semelhança acabava aí. Nu mas sem sexo, o corpo musculoso inteiro era coberto por um áspera pele
anfíbia verde-escura. Era corcundo o suficiente para que seus impossíveis braços tocassem o chão. Suas mãos e
pés eram dotados de grossas e brutais garras. Pequenos e estreitos olhos claros estavam em sua larga cabeça
de réptil.
Ele virou seu olhar para ela, abrindo a boca - e soltando um tremendo e alto grito como ela nunca ouviu antes, o
som circundando ela, enchendo-a com um terror mortal.
Jill atirou. Três tiros acertaram o peito da criatura fazendo-a cambalear para trás. A coisa balançou e caiu na
parede do túnel -
- e com outro terrível grito ele se lançou para ela, empurrando o chão com poderosas pernas, sua boca aberta.
Ela atirou de novo enquanto a criatura voava em sua direção, as balas perfurando sua enrugada carne, traços de
sangue espirrando -
- e a coisa caiu a alguns centímetros dela, gritando, um braço se esticando para golpear as pernas dela.
- Jesus, ele não vai morrer -
Jill mirou na parte de trás do crânio do monstro e esvaziou o clip. Mesmo enquanto pele verde se esfarelava e
sangue espirrava, ela continuou atirando, os quentes projéteis penetrando em sua rosada massa cerebral.
Click. Click. Click.
Sem balas. Ela abaixou a arma, seu corpo inteiro tremendo. Estava acabado, a criatura estava morta - mas
consumiu quase um clip inteiro, quase quinze balas de 9mm...
Jill colocou outro clip antes de guardar a Beretta. Depois ela empunhou a Remington, sentindo o confortável e
sólido peso da espingarda.
Mas que diabos as pessoas estavam fazendo aqui?
Parece que o pessoal da Umbrella inventou mais do que um vírus - algo tão mortal, mas com garras...
E deve ter mais deles.
Ela nunca teve um pensamento mais aterrorizante como esse. Segurando a Remington, Jill virou e correu.
Chris e Rebecca desceram o longo e madeirado corredor. Havia o que parecia uma ser trepadeira morta onde a
parede se encontrava com o teto. Ela parecia inofensiva - mas depois do que Rebecca leu sobre a Planta 42,
Chris ficou preparado para correr.
Depois de olhar todos os papéis no baú, Rebecca achou o relatório de algum tipo de *herbicida que
aparentemente podia ser feito no Ponto 42, chamado de V-Jolt. Ela trouxe o papel apesar de Chris achar que não
seria útil. Tudo o que ele queria era achar a saída, e se pudessem evitar a planta assassina seria melhor.
O hall da frente não tinha galhos, mas Chris não considerou o lugar seguro. Além dos dois quartos no primeiro
corredor, havia outra sala no final dele. Chris tinha olhado dentro e sentiu seus alarmes internos desligarem,
apesar de não saber por que; não havia perigo à vista, só um bar e algumas mesas. Eles acabaram fechando a
porta e continuaram.
Eles passaram na frente da única porta do próximo corredor em L, ambos olhando para a trepadeira perto do
teto. Chris abriu a porta.
Um úmido e quente ar saiu da escura sala - mas com um horrível cheiro de fruta estragada. Chris rapidamente
puxou Rebecca quando viu as paredes do lugar. Eles estavam completamente cobertas pelo mesmo tipo de
planta do corredor - mas lá, a trepadeira parecia viva e inchada, um exuberante verde.
Houve um suave ruído vindo de algum lugar na sala - e Chris percebeu que vinha da própria planta, as paredes
tremendo numa estranha ilusão ótica.
Rebecca começou a andar e Chris a puxou. "Ei, você está louca? Eu pensei que você tinha dito que essas coisas
sugam sangue!".
Ela balançou a cabeça, olhando as paredes. "Essa não é a Planta 42, pelo menos não a parte que o relatório
falava. A Planta 42 é bem maior, e mais móvel. Eu não entendo muito de *fitobiologia , mas de acordo com
aquele estudo, nós estamos procurando por um angiosperma com folhagem móvel -".
Ela deu um rápido sorriso. "Desculpe. Pense numa planta gigante com dez a vinte galhos balançando em volta
dela".
Chris fez uma careta. "Ótimo. Obrigado por colocar a minha mente em descanso".
Eles andaram pela sala, tomando cuidado para não chegar muito perto das paredes. Haviam três portas além da
que entraram; uma bem à frente da entrada, ao fundo, e as outras duas uma de frente para a outra à
esquerda, para onde a sala continuava.
Chris foi para a porta oposta a entrada, achando que ela os levaria para fora da hospedaria.
A porta estava destrancada, e Chris começou a abri-la -
Bam!
A porta fechou violentamente, fazendo-os pular para trás e empunhar as armas. Uma série de pesados e
deslizantes thumps se seguiram, como se alguém do outro lado estivesse chutando as paredes - mas o som
estava em todo lugar, acima e abaixo da robusta porta dupla.
"Você disse um monte de galhos?". Chris disse.
Rebecca acenou. "Acho que acabamos de encontrar a Planta 42".
Eles escutaram por um momento, Chris imaginado seu tamanho e força para derrubar a porta.
Não brinca, maior e mais móvel... e talvez bloqueando a única saída desse lugar. Que ótimo. Eles voltaram para a
área aberta e olharam para as duas portas. A da direita deles tinha o número 003 acima. Chris procurou a chave
certa no molho que tinha achado.
Ele destrancou a porta e entrou, Rebecca atrás. Tinha uma porta menor à direita que dava num banheiro, quieto
e sujo. O lugar era outro quarto, uma cama, uma mesa, duas estantes. Nada de interessante.
Houve outra série de pancadas na parede de trás e eles rapidamente saíram do quarto, Chris se convencendo de
que terá que enfrentar a planta se quiser sair.
Pode ser que não, pode haver outra saída -
Mas do jeito que as coisas estavam indo, ele achava que não. Dos zumbis da mansão até as cobras do jardim, a
propriedade de Spencer parecia ter sido projetado para evitar que escapassem.
Chris parou de pensar nisso enquanto se aproximavam da última porta - mas eles diminuíram o passo ao ver um
pequeno painel numérico ao lado dela. Ele girou a maçaneta mas estava trancada.
"Trava de segurança". Ele disse suspirando. "Não é possível entrar sem o código".
Rebecca franziu, olhando para o padrão das pequenas luzes vermelhas acima do teclado numérico. "Nós
podemos tentar números até achar a combinação certa...".
Chris balançou a cabeça. "Você sabe quais são as chances de esbarrar no número certo -".
Ele parou, olhando para ela, depois tirou o chaveiro do bolso.
"Tente três-quatro-cinco". Ele disse, olhando ansiosamente enquanto Rebecca digitava o número.
Vamos, Sr. Alias, não nos decepcione agora...
As luzes vermelhas piscaram, depois apagaram uma a uma. Quando a última se apagou, houve um click dentro
da porta.
Chris sorriu, abrindo-a - e sentiu sua esperança diminuir quando olhou a pequena sala.
Estantes empoeiradas cheias de garrafas de vidro e uma antiga pia; não era a saída.
Rebecca andou para uma das estantes e olhou os recipientes, sussurrando para si mesma. "*Hiosciamina,
*Anidrido, Dieldrin...".
Ela virou para ele, sorrindo. "Chris, nós podemos matar a planta! Aquele V-Jolt, a fitoxina - eu posso fazê-la aqui.
Se conseguirmos chegar no subsolo, achar a raiz da planta -".
Chris sorriu também. "- aí nós podemos destruí-la sem ter que lutar! Rebecca você é brilhante. De quanto tempo
você precisa?".
"Dez, quinze minutos".
"Certo. Fique aqui, eu voltarei o mais breve possível".
Rebecca já estava pegando os recipientes enquanto Chris fechava a porta e voltava para o corredor, depois da
escura sala.
Barry estava de pé na frente do corpo de Enrico, o mapa de Wesker numa mão. Jill já tinha partido quando ele
voltou - ao invés de começar a procurá-la, ele ficou imóvel, sem conseguir tirar seus olhos do amigo assassinado.
É minha culpa. Se eu não tivesse ajudado Wesker a sair da casa, você ainda estaria vivo...
Barry olhou para o rosto de Enrico, tão cheio de culpa e vergonha que não sabia o que fazer. Ele sabia que tinha
de achar Jill, mantê-la longe de Wesker, evitar que sua família seja ferida - mas ainda parecia não conseguir se
mover. Tudo o que ele queria era se explicar pessoalmente para Enrico, fazê-lo entender como as coisas
chegaram até ali.
Wesker pegou Kathy, as crianças, Rico... o que mais eu poderia ter feito? O que eu posso fazer exceto seguir
suas ordens?
O Bravo o olhava com cegos olhos. Sem acusações, sem aceitações, sem nada. Para sempre. Mesmo se Barry
continuasse ajudando o capitão e tudo terminasse como deveria, Enrico Marini ainda estaria morto - e Barry não
conseguiria viver sabendo que foi o responsável...
Tiros ecoaram pelos túneis. Vários tiros.
Jill!
Barry virou a cabeça, pegando sua arma. Os sons o puseram em ação automaticamente. Só podia ter uma
explicação; Wesker achou Jill.
Barry virou e correu. De repente a porta a sua frente abriu e ele parou onde estava, pensando em Wesker e Jill
mortos pela coisa parada na sua frente. Sua mente não podia entender o que era, seu olhar juntando as
informações que não faziam sentido. Pele verde. Estreitos olhos claros. Garras.
A coisa gritou, um horrível choro e Barry não pensou mais. Ele apertou o gatilho e o grito se tornou uma chocada
respiração assim que o forte projétil acertou sua garganta, derrubando a criatura.
A coisa bateu seus membros enquanto sangue esguichava do buraco. Barry viu mais sangue sair dos pulsos da
criatura, suas garras arranhando o chão.
Barry olhava surpreso enquanto a coisa tinha convulsões - e finalmente parou de se mexer. O tiro deveria ter
explodido sua cabeça - mas demorou quase um minuto para o monstro morrer.
O que eu acabei de matar?
Do túnel lá fora, outro grito ressoou - e se juntou a um segundo e depois a um terceiro. Os choros deles
aumentaram, furiosos e sobrenaturais berros de criaturas que não deveriam existir.
Barry colocou sua trêmula mão no bolso e pegou mais balas para a Colt, rezando para que sejam suficientes - e
para que aqueles tiros não tenham sido para Jill.
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*Herbicida - Substância que destroi ervas danosas, que causam danos.
*Fitobiologia - Biologia botânica.
*Hiosciamina Tipo de alcalóide (substância nitrogenada cuja molécula abriga pelo menos um átomo de nitrogênio
salificável.
*Anidrido Substância química derivada de um ácido pela eliminação de uma ou mais moléculas de água.
*Dieldrin Tipo de inseticida (composto químico).
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[15]
Se aranhas atingissem o tamanho de um boi, aquilo poderia ter sido uma. Pela grossa camada de teia branca que
cobria a sala, aquilo poderia ter sido qualquer coisa.
Jill olhou para as encolhidas e peludas pernas da abominação. A criatura verde que a tinha atacado foi tão
aterrorizante e tão estranha que não havia comparação. Aranhas... ela já as odiava, odiava suas agitadas
pernas, seus escuros e peludos corpos. Esta deve ter sido a mãe de todas elas - e mesmo morta, ainda a
assustava.
Não está morta por muito tempo...
Ela fez força para olhar o esverdeado líquido que saía dos buracos no corpo da aranha gigante. Ela foi baleada
várias vezes - Jill acha que deve estar morta a vinte minutos ou menos.
Ela tremeu e se afastou, indo para a porta dupla de metal do outro lado.
Suas botas fazendo sons de coisas grudentas, tornando difícil a caminhada. Só de pensar em estar coberta por
teia de aranha, ter o corpo cercado por isso... ela tremeu de novo.
Pense em outra coisa, qualquer coisa -
Ao menos ela sabia que estava no caminho certo. Quando tinha voltado para o poço, ela pensou em ter se
perdido. O fundo buraco não estava mais lá, e sim chão firme. Olhando para cima, ela viu o contorno do buraco;
aquela seção inteira do túnel foi mexida, girada como uma roda gigante por algum milagre da engenharia.
A porta mais a frente tinha dado em outro túnel reto. Uma pedra redonda estava no fim dele, e ao lado, a porta
dupla da sala da aranha -
Jill saiu da mesma, indo para outra passagem sombria. Ela se encostou na porta e respirou fundo.
Ela estava no meio do túnel, uma porta em cada ponta - mas a porta à sua esquerda estava na mesma parede
da porta que acabou de sair, provavelmente levando de volta ao jardim. Jill optou pela da direita.
A porta metálica abriu e ela passou, sentindo imediatamente a mudança de ar. O túnel se dividia. À direita, as
paredes se abriam em outro corredor.
Mas para a esquerda havia um elevador igual aos do jardim. Um fresco e delicioso vento passou por lá, o suave
ar como um sonho esquecido.
Jill sorriu e foi para o elevador, vendo que a plataforma tinha sido levada para cima. Pode ser que ela ainda esteja
no rastro do assassino de Enrico...
.. ou não. Ele pode ter ido para outro lado e você pode acabar o perdendo.
Jill hesitou, olhando para o elevador - e então virou, suspirando. Ela tinha que dar pelo menos uma olhada.
Ela foi para a passagem à sua frente, a temperatura voltando ao desagradável frio. O túnel se estendia alguns
passos para a direita e ponto final. À esquerda, outra enorme bola de pedra igual a que tinha visto antes, no
outro fim, a uns dez metros. E tinha algo pequeno na frente da pedra, algo azul...
Franzindo, Jill foi até a pedra gigante, tentando adivinhar o que era o objeto azul. Na metade do túnel havia uma
passagem à esquerda, e ela reconheceu a chapa de metal ao lado; do mesmo mecanismo que tinha removido o
poço.
Ela entrou na abertura. Havia uma porta à sua direita, e Jill percebeu que ela esteve escondida pelo mecanismo,
as paredes devem ter virado para revelar a entrada.
Deus, deve ter levado anos para fazer tudo isso. E eu estava impressionada com a mansão...
Ela abriu a porta e olhou dentro. Uma sala de médio porte com o mesmo aspecto dos túneis. A única decoração
era a estátua de um pássaro num pedestal. Não tinha outra saída e Jill ficou aliviada por poder voltar ao elevador.
Sorrindo, ela voltou para o corredor e foi até a pedra, ainda curiosa com o objeto. Chegando perto ela viu que era
um livro de couro azul. Ele foi jogado cuidadosamente contra a base da pedra, com as páginas abertas para o
chão. Ela guardou a Remington nas costas e se agachou para pegá-lo.
Era um livro-caixa. Seu pai já falou sobre eles, apesar dela nunca ter visto um. Tinha um buraco no meio das
páginas onde se podia esconder algo. Mas estava vazio...
Ela o fechou, vendo as letras douradas do título, Eagle of East, Wolf of West, enquanto voltava para o elevador.
Não parecia ser um suspense, mas foi bem confeccionado -
Snick.
Jill congelou assim que a pedra abaixo do seu pé esquerdo afundou um pouco - e percebeu que o túnel inteiro se
inclinou gentilmente -
- essa não -
Atrás dela, um forte e alto som de pedra raspando em pedra. A bola estava rolando.
Soltando o livro, Jill procurou abrigo enquanto o som ficava mais alto, a pedra quase pulando. A escura abertura
parecia estar a quilômetros de distância -
- e ela quase sentiu as toneladas de pedra sobre seu corpo, querendo desesperadamente olhar para trás, mas
sabia que esse segundo podia matá-la. A pedra descia os metros de túnel rapidamente e numa explosão de
velocidade, Jill se jogou na abertura, caindo no chão e encolhendo as pernas - enquanto a sólida pedra passava,
perdendo ela por centímetros. Assim que respirou, a pedra colidiu com o fim do corredor, uma pancada
estremecendo o subsolo.
Depois que a sensação de enjôo passou, ela se levantou e se espanou. Suas mãos estavam arranhadas e seus
joelhos machucados, mas se comparado a ser esmagada por um pedra gigante, ela fez a escolha certa.
Jill tirou a espingarda e foi para o elevador, querendo muito sair do subterrâneo - e mantendo os dedos cruzados
para que o que vier depois seja quente e sem aranhas.
O subsolo estava inundado, que ótimo.
Chris ficou no topo de uma curta rampa que descia até porta dupla do subsolo, olhando para o seu sério olhar
refletido na água. Parecia fria. E funda.
Depois de deixar Rebecca, ele continuou descendo o corredor e encontrou o quarto 002, a escada de mão
embutida discretamente no chão atrás de uma estante do arrumado quarto. Ele desceu num frio corredor de
concreto com luzes fluorescentes zumbindo no teto; uma dramática mudança depois do madeirado e simples
estilo da hospedaria acima.
Pelo menos eu achei o subsolo.
Parece que matar a Planta 42 era a única maneira deles escaparem. Ele não achou outra saída, o que significa
que ela está na sala da planta - ou não tinha saída, o que deixou Chris preocupado.
Ele suspirou, e entrou na água. Estava fria, e tinha um desagradável cheiro químico. Ele desceu até a porta, a
água passando pelos joelhos e parando quase na cintura. Tremendo, ele abriu a porta e entrou.
O lugar era dominado por um grande tanque de vidro que ia do chão ao teto no centro do espaço aberto. Um
grande e recortado buraco estava no lado direito do tanque, Chris não era muito bom em julgar volume, mas
para encher todo o lugar com água, o tanque deveria conter milhares de litros.
Afinal, o que eles estavam estudando aqui para precisar de tudo isso? Ondas?
Não importava; ele estava com frio e queria encontrar o que precisava para sair de lá. Ele foi para a esquerda, as
leves ondas empurrando e puxando.
Era totalmente irreal, atravessar uma grande na bem iluminada sala de concreto, apesar de não achar tão
estranho se comparado ao que viu desde que o helicóptero os deixou lá. Tudo sobre a propriedade de Spencer
parecia ser um sonho, como se estivesse bem longe da realidade do resto do mundo...
Parecia ser um pesadelo. Plantas assassinas, cobras gigantes, mortos-vivos - só está faltando um disco voador,
ou um dinossauro -
Ele ouviu uma leve agitação na água atrás dele, virando a cabeça sobre o ombro -
- e viu uma grossa e triangular barbatana se erguendo da água a seis metros de distância, e vindo em sua
direção, uma sombra cinza abaixo dela.
Ele ficou em pânico, dando gigantes passos numa corrida -
- e percebeu que não poderia correr assim que mergulhou na água, e voltou respirando, cuspindo água pela boca
e pelo nariz.
Ele virou a cabeça e viu que a barbatana estava mais próxima. Ele podia ver agora - um tubarão, seu distorcido
corpo sob a água, deslizando facilmente; três ou quatro metros de comprimento.
- balas molhadas falham -
Chris recuou, sabendo que não tinha chances de desviar dele. Mantendo o equilíbrio com os braços, ele ficou de
lado e deu mais alguns passos antes do tubarão alcançá-lo.
- e pulou, desviando do animal e batendo na água o mais forte que podia. O tubarão passou por ele, seu pesado
e liso corpo esfregando nas pernas de Chris.
Depois que o tubarão passou, Chris correu atrás dele batendo na água enquanto fazia a curva no alagado pátio.
Se ele ficasse perto o bastante, o tubarão não seria capaz de virar e pegar Chris -
- mas em segundos, o peixe teria a sala para contornar. Ele pôde ver duas portas à frente, à esquerda, mas o
tubarão já o estava deixando para trás, indo para a próxima curva, virar e voltar para ele.
Chris respirou fundo e mergulhou na água, ele sabia que era loucura mas teria uma chance melhor. Ele nadou
desesperadamente para a primeira porta, chutando o chão para ter mais impulso, dando saltos.
Chris chegou na porta enquanto o tubarão virava mais à frente, agarrando a maçaneta, girando -
- mas estava trancada.
Merda merda merda -
Chris tirou o chaveiro de Alias do bolso, mexendo nas chaves enquanto a barbatana se aproximava.
Ele pegou a única chave que ainda não tinha usado - e a inseriu na fechadura, ao mesmo tempo jogando seu
ombro na porta - o tubarão a alguns passos de distância.
A porta abriu e Chris correu para dentro, caindo e chutando freneticamente. Ele chutou o focinho do tubarão,
desviando-o da porta. Num piscar de olhos, Chris estava de pé, jogando seu peso contra a porta - e ela fechou.
Chris se apoiou na porta, secando os olhos com as costas da mão. A agitada água foi se acalmando enquanto ele
recuperava sua respiração e sua visão. Por enquanto, ele estava a salvo.
Chris pegou sua Beretta e ejetou o clip molhado, imaginando como voltaria para Rebecca. Olhando em volta, ele
não viu nada que pudesse usar como arma. Uma das paredes estava cheia de botões e interruptores, e Chris
andou para eles, atraído por uma luz vermelha piscando.
Parece que achei a sala de controle... talvez eu possa apagar as luzes e pôr o tubarão para dormir.
Tinha uma alavanca perto da luz e Chris olhou para a desbotada fita adesiva abaixo dela, sentindo uma descrença
enquanto lia as letras.
Sistema de Drenagem de Emergência
Não acredito! Por que ninguém apertou isso quando o tanque quebrou?
Chris achou a resposta na hora. As pessoas que trabalhavam lá eram cientistas; eles não perderiam a
oportunidade de estudar sua preciosa Planta 42 drenando a lagoa.
Ele tocou a alavanca e a abaixou. Houve um deslizante som metálico lá fora - e imediatamente o nível da água
começou a diminuir. Nem um minuto e toda a água se foi.
Ele voltou para a porta, abrindo-a cuidadosamente - e ouviu a desesperada série de thumps de um grande peixe
tentando nadar no ar.
Chris sorriu, pensando em sentir pena da pobre criatura - mas não foi o que fez.
"Me morda". Ele disse.
Wesker atirou em quatro trabalhadores da Umbrella a caminho da sala do nível três. Ele não reconheceu nenhum
deles, apesar de achar que o segundo era Steve Keller, um dos membros da Pesquisa Especial.
Parece que a epidemia do vírus foi severa no laboratório... menos desordenada, mas não menos preocupante. As
criaturas que vagavam nos corredores estavam totalmente desidratadas, seus membros atrofiados e secos, seus
olhos como uvas passas. Wesker driblou vários deles, mas alguns tiveram que ser mortos.
Ele sentou ao computador na fria e esterilizada sala, e esperou o sistema ligar, sentindo-se no controle da
situação. Ele teve momentos recentes, claro; o jeito como manipulou Barry, como achou a medalha do lobo nos
túneis. Mas tantas coisas saíram do controle que ele não teve tempo de aproveitar seus sucessos.
Mas agora eu estou aqui. Se os S.T.A.R.S. ainda não estiverem mortos, estarão logo - e caso eu não sofra
algum lapso de habilidade, eu sairei daqui em meia hora, missão completa -
Ainda haviam perigos, mas Wesker podia evitá-los. Os macacos - os Ma2 - estavam sem dúvida soltos na sala de
força, mas eles são fáceis de evitar, desde que você não pare de correr; ele sabia disso, foi ele que ajudou a
criá-los. E tinha o grande homem, o Tyrant, esperando no andar abaixo em sua cápsula de vidro, dormindo
tranqüilamente...
.. e certamente não acordará. Que desperdício. Tanto poder, considerado um fracasso pelo pessoal da White...
Um gentil tom musical o informou que o sistema estava pronto. Do colete, Wesker tirou uma agenda que
continha uma lista de senhas, apesar de já conhecê-las; John Howe reprogramou o sistema meses atrás, usando
seu nome e o da namorada, Ada, como senhas de acesso.
Wesker digitou as primeiras senhas que destrancariam a porta dos laboratórios. Tudo acabará em breve e
ninguém testemunhará seus feitos.
Agora que ele pensou nisso, era uma pena não ter nenhum S.T.A.R.S. ao lado dele; melhor que um grand finale
era um grand finale com audiência...
[16]
Jill tinha pego o elevador e saiu no que parecia ser outra parte do jardim, isolada e cercada por árvores. Não tinha
nada além de uma enferrujada e trancada porta dupla numa parede de cimento à esquerda - e uma grande e
aberta fonte de pedra. Dentro estava uma curta escada em espiral que levava a outro elevador que descia.
Que eu peguei - mas onde estou agora?
A sala que o elevador a levou não se parecia com qualquer outra parte da propriedade. Não tinha o estranho
charme da mansão, nem a obscuridade dos túneis. Parece que ela tinha saído de uma gótica história de terror
para dentro de um complexo militar.
Ela estava numa grande sala de concreto reforçado com aço. Dutos de metal e elevados canos perto do teto. No
largo meio-cilindro laranja encostado na parede estava escrito "XD-R B1".
Ao lado, havia uma grande porta dupla trancada. A placa fixada ao lado dizia que a porta só se abriria em caso de
emergências de primeira classe. Jill acredita que o "B1" significa "Basement level one" (Nível subterrâneo um), sua
teoria confirmada pela escada de mão embutida no chão ao lado do meio-cilindro; B2 e assim por adiante.
Ela olhou o buraco da escada, só vendo um pedaço do chão abaixo. Suspirando, ela guardou a espingarda e
começou a descer.
Assim que pisou no último degrau, ela virou ansiosamente - e viu uma sala muito menor, tão amigável e industrial
quanto a anterior. Chão e piso de concreto, luzes fluorescentes embutidas na parede perto do teto e uma porta
cinza de metal. Ela correu rapidamente, começando a ficar esperançosa sobre não haver mais criaturas e
armadilhas. Até agora, os níveis subterrâneos não tiveram nada de perigoso exceto a falta de decoração...
Ela abriu a porta e sua esperança desapareceu assim que o cheiro de carne morta a acertou. Ela pisou no chão
de cimento que levava a uma larga escada que descia, um parapeito de metal cercando a escada. No topo da
escada estava um zumbi morto. Tão magro e enrugado que mais parecia uma múmia.
Ela pegou a espingarda e andou vagarosamente na direção da escada, percebendo que havia uma curva para a
esquerda perto de onde o parapeito terminava. Ela deu uma rápida olhada no canto e viu que estava deserto.
Ainda olhando o dissecado corpo, ela foi para a continuação do corredor e parou na porta à sua esquerda. A placa
ao lado da porta dizia "Visual Data Room" (Sala de Dados Visuais), e estava destrancada.
Jill entrou. A calma e cinza sala tinha uma longa mesa de reuniões no centro, com um projetor de slides na porta,
de frente para uma tela portátil no fundo da sala. Tinha um telefone numa mesinha encostada na parede da
direita, e Jill correu para ele, sabendo que era querer de mais.
Não era um telefone, mas sim um sistema de interfone que não parecia estar funcionando. Suspirando, ela
passou por um pilar na parede e andou em volta da mesa, olhando para o projetor de slides. Ela deixou seu olhar
procurar algo interessante -
- e achou um plano quadrado de metal na parede da esquerda, do tamanho de uma folha de papel. Jill se
aproximou.
Ela tocou uma barra em cima do quadrado, e ele deslizou para baixo e dentro da parede, revelando um grande
botão vermelho. Ela olhou um volta, tentando imaginar que armadilha seria - e percebeu que não havia nenhuma.
A mansão, os túneis - tudo aquilo foi feito para evitar que alguém chegasse aqui, os níveis subterrâneos. Não
haveria armadilhas onde o verdadeiro trabalho é feito.
Ela sabia que sua lógica estava correta. Aquela era uma sala de reuniões, um lugar para beber café ruim e se
reunir com os colegas; nada pularia nela se apertasse um botão.
Jill o apertou. E atrás dela, o estreito pilar se moveu para um lado com um suave som mecânico. Atrás do pilar
haviam várias prateleiras, cheias de papéis - e algo que brilhou na branca luz da sala.
Ela correu e pegou uma chave, sua ponta tinha o desenho de um raio de energia. Pondo-a no bolso, ela deu uma
olhada nos arquivos. Todos estavam estampados com o símbolo da Umbrella, e eram muito grandes e pesados
para serem lidos. O título de um deles confirmou o que ela já suspeitava.
Umbrella / Relatório de Armas Biológicas / Pesquisa e Desenvolvimento
Acenando devagar, Jill pôs o arquivo de volta. Ela finalmente achou o verdadeiro lugar das pesquisas, e sabia que
o traidor do S.T.A.R.S. estaria lá em algum lugar. Ela terá que ser cuidadosa.
Dando uma última olhada em volta, Jill decidiu procurar a porta a qual a chave pertencia. É hora de encaixar as
últimas peças do quebra-cabeça que a Umbrella criou, e que S.T.A.R.S. se sacrificou para resolvê-lo.
A retorcida raiz da Planta 42 estava numa terceira porta do subsolo, pendurada, com suas ramificações quase
tocando o chão; algumas delas se mexendo, tentando achar a água que Chris drenou.
"Deus, isso é nojento". Rebecca disse.
Chris concordou, além da sala de controle, só haviam outras duas portas no subsolo. Uma delas tinha várias
caixas de cartuchos para todos os tipos de armas. Apesar de quase todas estarem molhadas, ele achou munição
de 9mm numa prateleira mais alta, salvando os dois de ficar sem munição.
A outra sala era simples, tinha só uma mesa de madeira, um banco - e a grande raiz da planta carnívora que
vivia lá em cima.
"Certo". Chris disse. "Como faremos isso?".
Rebecca ergueu um recipiente com um líquido roxo e o balançou devagar, ainda olhando para os galhos se
movendo. "Bom, você se afasta, e não respire muito fundo. Essa coisa tem algumas toxinas que nenhum de nós
está interessado em respirar, e vai liberar um gás assim que acertar as células infectadas.
Chris acenou. "Como saberemos se está funcionando?".
Rebecca sorriu. "Se o relatório do V-Jolt estiver certo, nós saberemos. Veja".
Ela destampou o vidro e se aproximou da raiz - e despejou o líquido sobre os galhos.
Imediatamente, um gás avermelhado saiu da raiz enquanto Rebecca esvaziava o pote, e se afastava
rapidamente.
Houve um barulho como madeira queimando - e em segundos, as fracas fibras começaram a quebrar e cair no
chão. A confusa grossura no centro começou a apertar e encolher.
Chris olhou impressionado enquanto a grande raiz murchava até ficar do tamanho de uma bola de criança,
pendurada, morta.
Tudo demorou cerca de quinze segundos.
Rebecca acenou para a porta e eles saíram, Chris balançando a cabeça.
"Deus, o que você colocou lá?".
"Confie em mim, você não vai querer saber. Está pronto para sair daqui?".
Chris sorriu. "Vamos lá".
Eles foram para a porta dupla do subsolo, correndo pelo frio corredor até voltar para a escada. Chris já estava
pensando no plano de fuga para depois que sair da hospedaria. Só dependia de onde a saída dava. Se eles
saírem na floresta, ele estava pensando em correr para a estrada mais próxima, acender uma fogueira, esperar
a ajuda chegar...
.. nós podemos pegar um carro e fugir - e mandar Irons fazer algo de útil como chamar reforços...
Eles chegaram no corredor de madeira que dava na sala da planta, ambos dando longos passos para evitar as
paredes verdes, e finalmente parando na sala que continha a Planta 42.
Respirando fundo, Chris acenou para Rebecca. Ambos empunharam suas armas e Chris abriu a porta, ansioso
para ver o que tinha atrás da planta experimental.
Eles entraram numa grande e aberta sala, o cheiro de vegetação podre forte no ar. Seja lá como tenha parecido
antes, a Planta 42 agora era uma grande e fumegante poça de meleca roxa-escura no centro da sala. Galhos
mortos do tamanho de mangueiras de incêndio estavam estendidos no chão.
Chris procurou a próxima porta e viu uma simples lareira na parede da esquerda, e uma cadeira quebrada num
canto -
- e uma única porta que aparentemente voltava para o quarto a qual vasculharam antes. Uma passagem
escondida que ele não viu - e que dava na mesma sala que agora estavam.
Devia estar escondida atrás de uma estante...
Não tinha como sair. Matar a planta foi uma perda de tempo. Ela não bloqueava nada.
Rebecca pareceu tão desapontada quanto ele, seus ombros caídos enquanto olhava as paredes.
Eu sinto muito, Rebecca.
Eles andaram vagarosamente pela sala, Chris olhando para a planta morta e decidindo o que fazer. Rebecca foi
até a lareira e se agachou perto dela, tocando um catálogo manchado.
Ele não a levaria de volta para a mansão. Mesmo com muita munição, haviam muitas cobras. Eles poderiam ficar
no pátio e esperar Brad passar voando, esperar que ele use o rádio -
"Chris, achei algo".
Ele virou e a viu tirando alguns papéis do catálogo, as pontas queimadas mas o conteúdo intacto. Ele foi até lá e
se inclinou sobre o ombro dela - e sentiu seu coração acelerar quando leu as primeiras palavras.
PROTOCOLOS DE SEGURANÇA
NÍVEL SUBTERRÂNEO UM:
Heliporto/Só para uso executivo. Esta restrição pode não ser aplicada em caso de emergência. Pessoas não
autorizadas entrando no heliporto serão baleadas.
Elevador/O elevador para durante emergências.
NÍVEL SUBTERRÂNEO DOIS:
Visual Data Room/Somente para uso da Divisão de Pesquisa Especial (Special Research Division). Qualquer outro
acesso à Sala de Dados Visuais deve ser justificada para Keith Arving, Gerente da Sala (Room Manager).
NÍVEL SUBTERRÂNEO TRÊS:
Prisão/A Divisão de Saneamento (Sanitation Division) controla o uso da prisão. Pelo menos um Consultor de
Pesquisa (E. Smith, S. Ross, A. Wesker) deve estar presente se uso viral for autorizado.
Power Room/A Sala de Força possui acesso limitado a Supervisores do Quartel General. Esta restrição pode não
ser aplicada para Consultores de Pesquisa com autorização especial.
NÍVEL SUBTERRÂNEO QUATRO:
Com relação ao progresso do "Tyrant" depois do uso do T-virus...
O resto do papel estava queimado.
"A. Wesker". Chris disse suavemente. "Capitão Albert Wesker...".
Barry disse que Wesker desapareceu logo depois que entraram na casa. E foi Wesker que nos trouxe para esse
lugar quando os cães nos atacaram. O frio, competente e ilegível Wesker, trabalhando para a Umbrella.
Rebecca virou a página e Chris se curvou de novo, lendo as legendas debaixo dos quadrados e linhas.
MANSÃO. JARDIM. HOSPEDARIA. SUBSOLO. LABORATÓRIOS
Tinha até um círculo perto do mapa da mansão, para mostrar o que eles perderam - uma entrada secreta para o
subsolo escondida atrás da cascata. Rebecca se levantou, olhos arregalados e incertos. "O Capitão Wesker está
envolvido nisso tudo?".
Chris acenou levemente. "E se ele ainda estiver aqui, deve estar nesses laboratórios, talvez com o resto do time.
Se a Umbrella o mandou aqui, só Deus sabe o que ele deve fazer".
Eles tinham que achá-lo, alertar o resto do time sobre a traição de Wesker.
[17]
Tudo estava feito. Wesker entrou no elevador de volta ao nível três, conferindo sua lista de tarefas.
.. amostras coletadas, discos apagados, energia reconectada, suporte do Tyrant desligado...
Era uma pena sobre Tyrant. Aquela coisa era um maravilha da engenharia genética, cirúrgica e química. Wesker
tinha ficado na frente do cilindro dele por um longo tempo, antes de desligar seu suporte de vida. Enquanto os
fluídos eram cortados, Wesker ficou imaginando como seria vê-lo em ação, uma vez que fosse terminado. Ele
teria sido o melhor soldado, uma beleza no campo de batalha... e agora teve que ser destruído, tudo por que um
idiota apertou o botão errado. Um erro que custou milhões de dólares para a Umbrella, e que matou os cientistas
que o criaram.
Ele apertou o botão e o elevador levou o capitão para sua última tarefa - ativar o sistema de destruição no fundo
da sala de força. Ele ia dar quinze minutos para fugir da explosão, descer a escada de mão do heliporto, pegar a
estrada de volta para a cidade - e bum, chega de laboratório escondido da Umbrella. Pelo menos em Raccoon
Forest.
Uma vez na cidade, ele telefonará para o White Office e dizer o que aconteceu. Eles devem ter um time para
varrer a floresta em busca dos espécimes restantes - e estavam muito ansiosos para por as mãos nas amostras
de tecido que recolheu, duas de cada exceto do Tyrant. Com os cientistas do Tyrant mortos, a Umbrella decidiu
cancelar o projeto por enquanto. Wesker achou isso um erro, mas aí, lembrou que não estava sendo pago para
pensar.
O elevador parou. Wesker abriu as grades e saiu, colocando a caixa de amostras no chão. Ele empunhou sua
Beretta pensando no caminho da sala de força. Ele tinha que correr pelos Ma2 de novo para ativar o sistema. Ele
já tinha os encarado para ativar o circuito do elevador. As criaturas estavam mais agitadas do que esperava; ao
invés de enfraquecê-los, a fome deu a eles novos níveis de maldade. Wesker teve sorte em sair inteiro -
Um som hidráulico veio do corredor, Wesker congelou. Passos contra o cimento, e pararam - depois continuaram
na direção da sala de força, na outra ponta do corredor.
Wesker se encostou na curva a tempo de ver Jill Valentine desaparecer atrás da porta dupla, o barulho de energia
elétrica ecoando, depois sumindo com o fechar das portas.
Como ela passou pelos Hunters? Jesus!
Ele a subestimou... se ela era tão boa, os Ma2 podem não matá-la. Ela estava no meio do caminho para o
sistema de destruição. Ele não conseguiria lidar com as criaturas naquele labirinto e tirá-la do caminho...
Frustrado, Wesker pegou as amostras e desceu o corredor, de volta para a porta hidráulica que dava no corredor
principal do nível três. Se ela conseguir sair de lá, ele terá que matá-la; isso só atrasaria sua fuga em alguns
minutos. Era muito tarde para acontecer surpresas como esta. Surpresas o deixavam louco, o faziam se sentir
fora do controle...
EU ESTOU no controle, nada que eu não possa consertar está acontecendo! Esse é o MEU jogo, minhas regras,
e eu vou completar a minha missão sem a interferência daquela ladra -
Wesker andou no corredor principal, viu que Jill matou mais alguns cientistas e técnicos que vagavam por lá.
Dois deles estavam bem do lado de fora da porta, suas cabeças explodidas pelo que parecia ser uma espingarda.
Ele chutou um deles furiosamente, sua bota quebrando as fracas costelas do corpo, o barulho alto no silêncio -
- e de repente, ele ouviu botas descendo a escada de metal do nível dois. Os passos ecoando pelo corredor antes
da hesitante voz.
"Jill?".
Barry Burton -
Wesker ergueu sua arma friamente, preparado para atirar quando Barry aparecer - mas a abaixou
pensativamente. Depois de um momento, um lento sorriso se espalhou pelo seu rosto.
[18]
Jill entrou na vaporizada e barulhenta sala, o forte cheiro de graxa no aquecido ar. Era algum tipo de sala da
caldeira, e das grandes; um grande maquinário preenchia a ampla câmara, cercado por passadiços de metal
avermelhados. Turbinas giravam e batiam, geradores de energia zumbindo enquanto dutos escondidos soltavam
vapor em curtos intervalos.
Ela se moveu devagar pelo mau iluminado lugar. De onde estava, ela podia ver que o lugar era um labirinto de
caminhos, contornando os grandes blocos de maquinários barulhentos.
A fonte de energia do lugar inteiro. Isso explica como eles mantiveram o lugar em segredo por tanto tempo. Eles
tinham sua pequena cidade aqui, totalmente autônoma - deviam ter envio de comida, também...
Ela virou na estreita passagem à sua direita, procurando alguns dos estranhos zumbis que encontrou lá fora, nos
corredores do nível três. A passagem parecia deserta, mas com o movimento e barulho das turbinas -
Algo rasgou seu ombro esquerdo, um repentino e violento golpe que abriu seu colete e arranhou a pele abaixo.
Rapidamente, Jill virou e atirou, a espingarda mais alta que as máquinas. O tiro acertou metal, ricocheteando. Não
tinha nada atrás dela.
Onde -
De repente, uma garra como lâmina cortou o ar na frente dela, vindo de cima para baixo.
Ela recuou, olhando para a grade do teto - e viu uma escura forma descer do teto, se pendurando pela grade
incrivelmente rápido, garras curvas em suas mãos e pés. Ela reparou nos grossos espinhos em sua achatada e
mutante face, depois virou e correu pelas sombras da sala de força.
Tinha uma porta no fim da passagem e Jill correu para ela, coração acelerado, os geradores pulsando em suas
orelhas.
Ela estava a um metro e meio da porta quando viu uma sombra se posicionar bem à sua frente. Ela ergueu a
espingarda e recuou -
- mais deles!?
Haviam duas criaturas acima, agachadas e terríveis, com foices no lugar de mãos. Um deles desceu subitamente,
pendurado pelas garras dos pés para golpeá-la com seu braço cortante.
Jill atirou e a criatura gritou, o tiro acertando seu peito. A coisa caiu do teto com sangue escapando do ferimento.
Ela virou na direção da entrada e correu, ouvindo o bater de garras nas grades acima. Outro dos macacos
mutantes se pendurou na frente dela, e Jill se abaixou, com medo de parar de correr. O estranho braço da
criatura passou a menos de três centímetros de sua orelha.
As portas de metal estavam bem à frente. Jill se jogou nelas, virando a maçaneta e voltando para o frio e calmo
corredor. O fechar da porta cortou o agudo grito de um dos monstros que se sobressaía entre os maquinários.
Ela se encostou na porta, suspirando -
- e viu Barry no meio do corredor. Ele correu até ela, uma expressão de profunda preocupação no rosto dele.
"Jill! Você está bem?".
Ela se desencostou da porta, surpresa. "Deus, Barry, aonde você esteve? Eu pensei que você tivesse se perdido
nos túneis".
Barry acenou amargamente. "Eu me perdi. E eu tive problemas tentando sair".
Ela viu os respingos de sangue na roupa dele, os rasgos em sua camiseta, e percebeu que ele deve ter dado de
cara com um daqueles pesadelos verdes. Ele parecia ter estado numa guerra.
Falando nisso...
Ela tocou o ombro, seus dedos voltando com sangue. Era doloroso mas raso; ela vai sobreviver.
"Barry, nós temos que sair daqui. Eu achei alguns papéis lá em cima, provas do que tem acontecido. Enrico
estava certo, a Umbrella está por trás de tudo, e um dos S.T.A.R.S. sabia sobre isso. É muito perigoso andar por
aí, nós devemos pegar aqueles arquivos e voltar para a mansão, esperar o R.P.D. -".
"Mas eu acho que achei o laboratório principal". Barry disse. "Tem um elevador no fim desse corredor. Tem
computadores e essas coisas. Nós podemos entrar no sistema deles e ver os arquivos".
Ele não parecia empolgado com o achado, mas Jill pouco percebeu. Com a informação da base de dados da
Umbrella: nomes, datas, materiais de pesquisa -
Nós podemos descobrir tudo, presentear os investigadores com um pacote inteiro...
Jill acenou, sorrindo. "Mostre o caminho".
Os túneis eram frios e confusos, mas o mapa os guiou rapidamente. Rebecca e Chris chegaram no primeiro nível
subterrâneo, ambos, molhados e tremendo - e nem um pouco assustados pelas criaturas que enfrentaram pelo
caminho. Os cientistas da Umbrella foram nojentamente criativos em sua tentativa de criar monstros.
Chris tentou abrir a porta que supostamente os levaria para o heliporto, mas estava trancada, uma placa de
emergência ao lado dizendo que só seria aberta em caso de emergência.
Ele olhou para a estreita passagem da escada e suspirou, virando para ela. "Eu quero que você fique aqui.
Ficando perto do elevador, você pode receber o sinal de Brad lá em cima. Diga a ele onde estamos e o que
aconteceu - e se eu não voltar em vinte minutos, volte para o jardim e espere até a ajuda chegar".
Confusa, Rebecca balançou a cabeça. "Mas eu quero ir com você. Eu posso cuidar de mim mesma, e se você
achar algum laboratório, você precisará de mim para dizer o que está vendo -".
"Não. Pelo que sabemos, Wesker já matou outros S.T.A.R.S. e quer terminar o serviço. Se nós somos os
últimos, não podemos nos deixar arriscar em alguma emboscada. Alguém tem que sobreviver e contar sobre a
Umbrella. Desculpe, mas é o único jeito".
Ele colocou a mão no ombro dela, sorrindo. "E eu sei que você consegue se cuidar sozinha. Vinte minutos. Eu só
quero saber se mais alguém está vivo".
Rebecca abriu a boca como se fosse protestar, mas a fechou, acenando devagar. "Tá bom, eu fico. Vinte
minutos".
Chris virou e começou a descer a escada, esperando poder cumprir a promessa e voltar. O capitão tinha
enganado todos eles por semanas, fingindo ser um líder preocupado enquanto as pessoas em Raccoon City
estavam morrendo - e ciente de tudo.
Parece que a Umbrella criou mais de um tipo de monstro. E é hora de descobrir quanto estrago eles já fizeram.
Barry não conseguia olhar para Jill enquanto pegavam o elevador para o nível quatro. Wesker estaria lá esperando
eles, e Jill descobrirá sobre a ajuda que Barry deu ao capitão.
Ele tinha matado mais três daquelas criaturas nos túneis antes de ir para os laboratórios - só para dar de cara
com Wesker, que insistiu para que ele levasse Jill para o nível quatro e o ajudasse a trancá-la. O maldito
sorridente o fez lembrar da situação de sua família, e prometeu de novo que aquele seria o último favor, que
depois de prender Jill, ele ligaria para o pessoal -
- exceto por ele dizer isso toda hora. Ache as peças e está livre. Me ajude nos túneis e está livre. Engane sua
amiga...
"Barry, você está bem?".
Ele virou para ela assim que o elevador parou, olhando miseravelmente para seus preocupados olhos.
"Eu tenho estado muito preocupada com você desde que entramos na mansão". Ela disse, pondo a mão no
braço dele. "Eu até pensei - bom, não importa o que eu pensei. Tem algo de errado?".
Ele abriu a grade e ergueu a porta externa, uma desculpa para desviar o olhar. "Eu - é, tem algo errado". Ele
disse quietamente. "Mas agora não é hora. Vamos só terminar com isso".
Jill franziu mas concordou, ainda parecendo preocupada. "Tá bom. Quando tudo acabar, nós conversamos".
Você não vai querer falar comigo quando isso acabar...
Barry saiu no curto corredor e Jill o seguiu, sua botas contra uma grade de metal. O corredor virava a esquerda
bem à frente. Barry diminuiu o passo na pretensão de checar o revólver, deixando Jill passar a sua frente.
Eles fizeram a curva e Jill gelou, olhando para a ponta da arma de Wesker. Ele sorriu para eles, os óculos escuros
escondendo seus olhos, seu sorriso convencido.
"Olá, Jill. Que bom te ver por aqui". Wesker disse. "Bom trabalho Barry. Tire as armas dela".
Ela virou seu assustado olhar para ele enquanto Barry tirava a espingarda das mãos dela, o rosto dele
queimando.
"Agora volte para o nível um e me espere na saída. Eu estarei lá em alguns minutos".
Barry olhou para ele. "Mas você disse que só queria prendê-la -".
Wesker balançou a cabeça. "Oh, não se preocupe. Eu não vou machucá-la, eu prometo. Agora vá".
Jill o olhou com medo, confusão e raiva. "Barry?".
"Eu sinto muito, Jill".
Ele virou e voltou para o elevador, sentindo-se derrotado e envergonhado - sem falar no medo por Jill. Wesker
prometeu, mas sua palavra não significava nada. Ele provavelmente a mataria quando ouvir o elevador se
movendo -
- e se eu não estiver no elevador? Talvez eu ainda possa fazer algo para mantê-la viva...
Barry correu para o elevador e abriu as grades - depois apertou um botão, mandando o elevador para o nível três
- sem passageiro. Bem devagar, ele voltou para a curva, ouvindo.
"... não digo que estou surpresa, mas como você conseguiu a ajuda de Barry?". Jill disse.
Wesker riu. "O velho Barry teve alguns problemas em casa. Eu disse que a Umbrella tinha uma equipe vigiando a
casa dele, querendo matar sua preciosa família. Ele ficou tão feliz em ajudar".
Barry apertou seu punho.
"Seu desgraçado, você sabia?". Jill disse.
"Talvez. Mas eu serei um desgraçado rico quando tudo terminar. A Umbrella está me pagando muito dinheiro
para arrumar um pequeno problema, e se livrar de alguns S.T.A.R.S. intrometidos durante o processo".
"Por que a Umbrella quer destruir o S.T.A.R.S.?". Jill perguntou.
"Oh, não todos eles. Eles tem grandes planos para nós, ao menos aqueles que querem ser beneficiados. E é
você, chorona e bondosa que eles não querem - os vermelho, branco e azul, os torta de maçã e assim por
diante. Do jeito que Redfield tem andado, falando sobre conspirações - você acha que a Umbrella não percebeu?
Isso tem que acabar aqui. Todo esse lugar foi projetado para explodir em caso de acidente - e a fuga do vírus
Tyrant é um motivo. Quando vocês estiverem mortos e esse lugar destruído, ninguém saberá da verdade".
O filho da mãe ia matar todos nós -
"Já é o suficiente sobre a Umbrella. Eu trouxe você aqui para uma pequena experiência da minha parte. Eu quero
ver como o nosso membro mais ágil se vira com o milagre da ciência moderna. Se você passar por aquela porta
-".
Barry se encostou na parede assim que Wesker andou e parte de seu ombro ficou aparecendo. Barry colocou a
mão na Colt e a tirou do coldre vagarosamente.
"Eu não acredito que você está fazendo isso". Jill disse. "Traindo para proteger um bando de chantagistas imorais
-".
"Chantagistas? Oh, você quer dizer Barry. A Umbrella não se incomodaria com chantagistas. Eles podem comprar
pessoas do mesmo jeito. Eu fiz tudo aquilo para ele me ajudar -".
- Barry desceu a coronha de sua Colt na cabeça de Wesker o mais forte que podia, derrubando o capitão igual a
uma tonelada de tijolos.
[19]
Jill olhou surpresa quando de repente Wesker parou de falar e caiu no chão - e Barry apareceu, olhando para o
corpo dele com ódio, de Colt na mão.
Ela se agachou próximo a Wesker e tirou a Beretta da mão dele, pondo-a em seu cinto.
Barry olhou para ela, seus olhos boiando em apologias. "Jill, eu sinto muito. Eu não devia ter acreditado nele".
Jill o olhou por um momento, pensando nas filhas dele. Moira tinha a idade de Becky McGee...
"Tudo bem". Ela disse, finalmente. "Você voltou, isso é o que importa".
Barry devolveu as armas para ela, e ambos olharam para o capitão esparramado no chão, ainda respirando mas
inconsciente.
"Você não tem algemas aí, né?". Barry perguntou.
Ela balançou a cabeça. "Nós podemos ver o laboratório, pode haver algum cabo ou corda que possamos usar.
Além disso, eu estou um pouco curiosa para ver esse tal 'milagre da ciência moderna'...".
Ela virou e apertou o botão que operava a porta hidráulica, percebendo o símbolo de risco biológico no chão. A
porta deslizou para dentro da parede e os dois entraram.
Uau...
Era uma imensa sala de teto alto com painéis de monitoramento nas paredes e cabos correndo pelo chão,
conectados a uma série de tubos de vidro enfileirados. Haviam oito tubos vazios no centro da sala, grandes o
bastante para caber um homem adulto.
Barry se abaixou e pegou um cabo, procurando uma faca no bolso enquanto Jill andava para o fundo da sala. Ela
olhava os equipamentos médicos e técnicos - e parou, olhando, sentindo seu queixo cair.
Na parede do fundo, estava um tubo muito maior, três ou quatro metros de altura, equipado com seu próprio
computador - e a coisa lá dentro o preenchia de cima a baixo, boiando em um líquido esverdeado. Era
monstruoso.
"Jill, eu peguei o cabo. Eu -".
Barry parou ao lado dela, suas palavras sumindo assim que viu a abominação.
Silenciosamente, eles andaram até ele, incapazes de resistir uma olhada de perto.
Ele era alto, mas proporcionalmente correto, pelo menos o corpo muscular e as pernas longas; essas partes
pareciam humanas. Um de seus braços foi alterado para um grupo de fortes e grandes garras que chegavam até
o joelho, embora o outro parecesse normal. Tinha um grande e vermelho tumor perto de seu ombro direito, e Jill
percebeu, olhando para sua bulbosa massa, que aquilo era o coração da criatura; e estava pulsando devagar,
inchando e contraindo em vagarosas e ritmadas batidas.
Ela parou na frente do tubo, impressionada com a abominação. Ela podia ver linhas de cicatrizes em seus
membros, cicatrizes cirúrgicas. A coisa não tinha órgãos genitais. Ela olhou para seu rosto e viu que partes de
carne foram removidas; o lábios se foram e ele parecia sorrir largamente para ela.
"Tyrant". Barry disse cochichando.
Jill olhou para Barry e o viu franzindo para o computador conectado ao tubo por vários cabos.
Ela voltou a olhar para Tyrant. Seja lá o que é agora, ele já foi humano. A Umbrella o transformou em uma
abominação.
"Nós não podemos deixá-lo assim". Ela disse suavemente, e Barry acenou.
Ela foi até Barry no computador, olhando para os botões. Tinha que haver um botão que acabasse com a vida
dele; ele merecia.
Tinha um grupo de seis botões vermelhos na parte de baixo e Barry apertou um deles. Nada pareceu ter
acontecido. Ele olhou para ela, que acenou para continuar. Ele usou o lado da mão para apertar todos eles.
Houve um súbito thump -
Ambos olharam em volta. O tubo, antes cheio do líquido esverdeado, agora estava vazio - e Tyrant estava
levando seu braço para trás para golpear o vidro novamente. O vidro começou a rachar, apesar de ter vários
centímetros de espessura -
"Ah... MERDA!".
Barry agarrou o braço dela enquanto a criatura dobrava suas articulações para outro golpe.
"Corra!".
Eles correram. Barry jogou sua mão no controle da porta dupla e ela abriu. Atrás deles, o vidro se estilhaçou. Eles
cruzaram a porta, aterrorizados, Barry apertando o botão -
- e viu que Wesker não estava lá. Wesker correu para a sala de força, sua cabeça pulsando, seus membros
parecendo distantes e cansados. Ele se sentia como se fosse vomitar.
Maldito Barry...
Eles pegaram sua arma. Wesker tinha voltado a si quando eles entraram no laboratório, e foi para o elevador,
amaldiçoando os dois, amaldiçoando a si mesmo por não ter matado os S.T.A.R.S. quando teve a chance.
Mas ainda não acabou. Eu ainda estou no controle. Esse é o meu jogo...
As amostras ficaram lá no laboratório, provavelmente sendo destruídas por aqueles idiotas. Tyrant também.
Wesker alcançou a porta da sala e se encostou nela, fazendo força para respirar.
Sangue escorria de suas orelhas e ele balançou a cabeça, tentando limpar a estranha neblina em sua visão.
Ele não tinha as amostras de tecido, mas ainda podia completar a missão. Era muito importante que ele a
completasse. Isso envolvia controle, e controle era o seu jogo.
.. sistema de destruição, cuidado com os macacos.
Os Ma2, ele tinha que ser cuidadoso. Wesker abriu a porta e começou a correr, o chão parecendo muito distante
depois muito perto. As máquinas estavam fazendo barulho. Sua mão encontrou a grade da parede e ele foi na
direção do fundo da sala, tentando correr mas descobrindo que suas pernas não estavam interessadas.
Uma garra veio de cima e cortou seu couro cabeludo, arrancando uma mecha de cabelo. Ele sentiu um quente
líquido descer nas costas do se pescoço e começou a correr, a dor em sua cabeça ainda mais forte.
Pegaram a minha arma, idiotas, pegaram a minha arma...
Ele alcançou a porta, e assim que a abriu, algo pesado pulou em suas costas, o levando para a próxima sala. Ele
sentiu a fria grade do chão e o terrível grito em seu ouvido. Grossas garras perfuraram a pele de suas costas, e
Wesker esbofeteou a coisa que estava tentando matá-lo.
Ele acertou a criatura o mais forte que pôde, empurrando sua garganta. A coisa pulou, aterrissando na grade da
parede e voltando para o teto.
Wesker se levantou e correu, ondas de dor e náuseas passando por ele. O ar estava quente, as turbinas altas e
cruéis - mas ele pôde ver a porta, a porta que dava no fim de sua missão.
Todos os S.T.A.R.S. mortos, jogados em órbita enquanto eu fujo, um homem rico...
Ele abriu a porta e correu para o monitor no outro canto. Estava mais calmo lá, mais frio. As grandes máquinas
sussurravam suavemente para ele, bem diferente da sala anterior. Eram as máquinas que queriam recuperar o
controle dele.
O barulho da porta aberta atrás dele parecia distante assim que ele alcançou o brilhante monitor, seus dedos
dormentes tocando o teclado abaixo.
Ele achou a senha que queria, o código sendo digitado e aparecendo no monitor num suave tom verde, depois de
alguns erros. Uma sensual e calma voz o informou que a contagem começaria em trinta segundos. Tonto, ele
tentou lembrar onde podia ajustar o cronômetro. O sistema dispararia automaticamente em cinco minutos, mas
ele tinha que dar mais tempo para se reorientar e fugir de lá -
Atrás dele, algo gritou -
Wesker olhou em volta, confuso - e viu quatro dos macacos correndo para ele, balançando os longos e curvos
braços assim que o alcançaram. Uma terrível dor atingiu suas pernas e ele caiu no chão.
Isso não pode acontecer.
Uma das criaturas saltou em seu ombro e de repente, Wesker não podia respirar, nem mexer seus braços para
afastá-lo. Outro perfurou sua perna esquerda, arrancando um grande pedaço de carne com as garras em forma
de foice. A terceira e quarta criaturas gritavam em um selvagem coro, dançando em volta dele como crianças.
De algum modo teve sangue em seus olhos, e o mundo estava girando, gritos e um incrível calor embaçando sua
visão, sua mente.
Tyrant veio.
Wesker podia senti-lo, sentir a presença de algo vasto e poderoso o tocando. Sorrindo através da dor, o capitão o
procurou pelo nevoeiro vermelho em sua falha visão, querendo mais do que qualquer coisa vê-lo massacrar seus
agressores - mas Wesker só podia ver a imensa sombra que parecia flutuar sobre ele, através dele, só podia
imaginar o poderoso guerreiro vindo tirá-lo de seu tormento -
Eu controlo, me deixe verrrr -
Escuridão roubou suas esperanças, e Wesker não pensou mais.
"... S.T.A.R.S. Alpha Team, Bravo, qualquer um - se você não puder responder, tente sinalizar! Eu estou ficando
sem combustível, entendido?". Aqui é Brad! Repito - S.T.A.R.S. Alpha Team...".
Rebecca apertou o botão, falando rápido. "Brad! Há um heliporto na mansão de Spencer, você tem que ir para lá!
Brad, venha!".
Houve um alto grito e Rebecca ouviu o que deveria ter sido a palavra "entendido" - mas o resto estava perdido.
Entendido no sentido de que ele entendeu o que eu disse? Ou se eu entendi a mensagem que ele repetiu?
Não tinha como saber. Brava e preocupada, Rebecca segurou o rádio firmemente, esperando que ele a tenha
ouvido.
De repente, um alarme tocou na quieta sala através de algum alto-falante escondido no teto. Rebecca pulou,
olhando em volta. Houve um click na porta que levava ao heliporto, e Rebecca foi até ela, agarrando a maçaneta.
A porta tinha se destrancado.
Uma fria e feminina voz começou a falar, devagar e claramente sob o pulsante alarme.
"O sistema de disparo foi ativado. Todos devem evacuar imediatamente ou interromper o processo de ativação.
Vocês tem cinco minutos. O sistema...".
Assim que a mensagem gravada foi repetida, Rebecca ficou parada na porta e olhou o poço da escada, seu
sangue correndo, esperando ver Chris emergir do nível inferior.
Fazia alguns minutos desde sua saída, e o tempo já está se esgotando.
[20]
Jill e Barry saíram do elevador e voltaram para o corredor principal do nível três, a fria voz dizendo que eles só
tinham quatro minutos e meio.
Eles passaram pela porta e correram, fazendo a curva - e vendo Chris Redfield subindo a escadaria de metal.
"Chris!". Jill gritou.
Ele virou, seu rosto se iluminando ao vê-los correndo em sua direção.
"Vamos!". Ele gritou. "Tem um heliporto no nível um!".
Graças a Deus!
Chris esperou eles alcançarem a base da escada e depois seguiu em frente, contornando a escada e segurando a
porta aberta.
Jill e Barry subiram e correram, a voz anunciando quatro minutos e quinze segundos para fugir.
Barry subiu a escada de mão primeiro, depois Jill, e Chris logo atrás. Eles chegaram no nível um. Jill viu Rebecca
na saída de emergência, a jovem face dela cheia de ansiedade.
Os quatro correram pelo corredor cheio de curvas, Jill rezando para que tenham tempo para saírem de lá.
Espero que você queime aqui, Wesker.
Havia um grande elevador no final do corredor e Barry abriu as grades, segurando-as até todos entrarem. Ele
entrou por último. Eles tinham quatro minutos.
O elevador começou a subir e Jill olhou seu relógio, seu coração pulando enquanto os segundos passavam.
Não vai dar, nunca conseguiremos -
O elevador parou e Chris abriu as grades, o morno ar da madrugada passando por eles. Não havia alarmes nem
a voz no heliporto - mas havia o doce e maravilhoso som do helicóptero acima, circulando.
"Ele me ouviu!". Rebecca gritou, e Jill sorriu, sentindo uma súbita onda de afeição pela jovem.
O heliporto era imenso, a grande área cercada por altas paredes de concreto, um círculo pintado de amarelo no
cimento do chão, mostrando a Brad onde devia pousar. Barry e Chris balançaram os braços desesperadamente,
sinalizando para o piloto se apressar. Jill olhou o relógio de novo, um pouco mais de três minutos e meio restando.
Mais de que suficiente -
CRASH!
Jill virou e viu pedras de concreto voando pelo ar, vindos do canto nordeste do heliporto. Uma garra gigante se
ergueu do buraco, se apoiando no dentado buraco -
- e Tyrant se ergueu no heliporto, se levantou... e partiu para eles.
Mas que diabos é aquilo?
Devia ter uns três metros, partes de seu corpo gigante eram mutiladas e deformadas, seu sorridente rosto
focalizando eles enquanto se levantava. Ele se moveu para eles numa vagarosa caminhada, a grande garra do
seu braço esquerdo se mexendo.
Não dá tempo, Brad não pode pousar -
Chris mirou no escuro tumor no peito da criatura e atirou, apertando o gatilho cinco vezes, três balas acertando o
alvo. Os outros dois erraram o alvo por centímetros -
- e a criatura nem diminuiu o passo.
"Se espalhem!". Barry gritou.
Os S.T.A.R.S. se separaram, Jill empurrando Rebecca para o canto mais distante, longe do monstro. Chris foi
para a parede mais ao sul. Barry apontou sua Colt para a besta que se aproximava.
Três balas .357 acertaram sua barriga, os tiros ecoando pelas altas paredes de concreto.
De repente, a criatura aumentou a velocidade, correndo na direção de Barry, jogando suas garras para trás -
- e assim que Barry saiu do caminho, a coisa passou por ele se encurvando, levando as garras para cima como
se fosse arremessar uma bola. As garras rasparam no chão de cimento, arranhando-o como se fosse manteiga.
Assim que o monstro passou, parou de correr, virando casualmente para ver Barry à sua frente e atirando.
A bala arrancou um pedaço de carne do ombro direito da coisa. Sangue escorrendo pelo seu peito e se juntando
ao ferimento na barriga.
Acima, o helicóptero ainda circulava, incapaz de pousar - e ainda não havia sinais de danos na criatura. Ela
começou a correr de novo, soltando sua desumana mão enquanto ia para Barry - bem na hora em que seu
revólver ficou vazio.
Barry correu, mas o monstro o acompanhou -
- e sua garra levou o Alpha para o chão.
Barry!
Chris correu, atirando nas costas da criatura que se inclinava sobre Barry. Ele estava de costas para cima, seu
colete rasgado, seus olhos aterrorizados -
- e o monstro sentiu as balas, por que se virou, fixando seu terrível olhar em Chris. Barry se levantou e correu.
Nós não temos tempo!
Chris esvaziou o clip, os últimos tiros acertando seu rosto. Pedaços de dente voaram da boca sem lábios da
criatura, caindo no concreto em uma chuva de branco e vermelho.
O monstro não pareceu abalado e correu para Chris numa incrível velocidade.
Jill e Rebecca estavam atirando, gritando, tentando desviar a atenção da criatura, mas ela já estava fixada,
levando sua garra para trás -
- vá esperando -
Chris mergulhou para o lado no último segundo e o monstro passou voando, arranhando o cimento onde o Alpha
esteve.
Chris correu, sentindo não ter mais tempo.
Barry sentiu sangue correr pela sua coxa, sua pele cortada pela brutal lâmina do Tyrant. A dor era suportável;
mas o conhecimento de que iriam morrer não era.
Nós explodiremos se não formos cortados em pedaços -
Tyrant virou sua atenção para Jill e Rebecca, ambas atirando nele. Ele começou sua lenta caminhada para elas,
ainda indiferente com os buracos ensangüentados em seu corpo. Tiros de 9 mm mancharam sua pele de
sangue, mas ainda continuou andando.
Vento passou por Barry assim que o barulho das pás do helicóptero ficou mais alto. Ele ouviu um grito vindo de
cima.
"Descendo!".
Barry olhou para o helicóptero, flutuando a seis metros do chão -
- e viu um escuro objeto cair da porta lateral aberta, caindo no chão.
Chris estava mais perto e correu para o objeto.
Tyrant quase alcançou as duas quando elas se separaram, indo para diferentes direções. A criatura virou para Jill
sem hesitar, jogando seu fixo olhar nela.
"Jill, por aqui!". Chris gritou.
Barry virou - e viu que Chris tinha um grande lança-mísseis apoiado em seu ombro.
Jill foi até Chris, o "Tirano" mais perto.
"Saia!".
Ela foi para o lado e rolou no chão enquanto Chris atirava, o whoosh do projétil quase perdido sob os barulhentos
rotores do helicóptero -
- mas a explosão não. A bala acertou Tyrant no peito - e num estouro de luz incendiária e um ensurdecedor som,
a bala explodiu o monstro em milhões de pedaços.
Mesmo com os pedaços de carne caindo, Brad desceu a aeronave e o quatro S.T.A.R.S. correram. Os apoios
nem tocaram o chão e Jill já tinha mergulhado na cabine, Chris, Rebecca e Barry atrás.
"Vá, Brad, agora!". Jill gritou.
O pássaro levantou vôo e acelerou.
[21]
A calma voz feminina só foi ouvida por ouvidos inumanos.
"Vocês tem cinco segundos, três, dois, um. Ativação do sistema agora".
O circuito que cercava o complexo inteiro foi conectado.
Com um terremoto de barulho e movimento, o bem de Spencer explodiu. Dispositivos se ativaram
simultaneamente no perímetro das construções. Paredes de mármore caíram sobre o desintegrante chão da
velha e bela mansão. Rochas quebraram e concreto explodiu em uma magnífica poeira escura. Enormes bolas de
fogo se ergueram no céu da madrugada, e puderam ser vistas a quilômetros de distância em seu breve
momento de brilho.
Assim que o último estrondo ecoou pela floresta, o destroços começaram a queimar.
[Epílogo]
Os quatro estavam quietos enquanto Brad os levava para a cidade. E pensar que tinha milhões de perguntas a
fazer, mas algo no silêncio não chamava conversa. Chris e Jill estavam olhando pela janela, o fogo que estava
consumindo a mansão, suas expressões amargas. Barry se encostou na parede da cabine, olhando para suas
mãos como se nunca as tivesse visto antes. Rebecca estava andando entre eles, cuidando dos ferimentos deles
sem dizer uma palavra.
Brad ficou calado, ainda se sentindo sortudo por ter decolado mais cedo. Ele esteve no inferno desde então,
voando em círculos enquanto o combustível se esgotava. Foi um pesadelo, e ele queria mijar como ninguém.
E aquele monstro -
Ele tremeu. Seja lá o que tenha sido, Brad estava feliz por não ter morrido. Ele usou toda sua coragem para não
fugir quando viu a criatura. Por ter se preocupado, o piloto merecia um pouco de consideração por ter chutado o
lança-mísseis pela porta.
Ele olhou para os quatro, imaginando se poderia contar sobre a estranha chamada que recebeu pelo rádio. Logo
depois que Rebecca disse algo sobre um heliporto pela estática, um limpo e sólido sinal apareceu, uma voz
masculina calmamente dizendo as coordenadas exatas. O cara estava escutando, o que é estranho - mas o fato
dele saber o local bem o bastante para dar as direções a Brad, era mais assombroso.
Ele franziu, tentando lembrar o nome do homem misterioso. Thad? Terrence?
Trent. Isso mesmo, ele disse que se chamava Trent.
Brad decidiu contar isso outra hora. Por enquanto ele só quer ir para casa.
***
Resident Evil: Umbrella Conspiracy
[www.fyfre.com]
Autora: Stephani Danelle Perry.
Editora: Pocket Books (U.S.A.)
Tradução/Resumo: Raphael Lima Vicente.
Tradução iniciada em: 28 de Outubro de 2000.
Tradução terminada em: 4 de Fevereiro de 2001.
Digitação começada em: ?/?/2000.
Digitação terminada em: 24 de Fevereiro de 2001.
Resident Evil TM & © 1998
Capcom Co., Ltd
© 1998 Capcom U.S.A., Inc. Resident Evil #2 Caliban Cove [S.D. Perry]
[Créditos - www.fyfre.com]
Esta tradução é conteúdo exclusivo do site F.Y.F.R.E. e não deve ser copiado sem permissão da equipe do site.
Para isso, mande-nos um e-mail [team@fyfre.com].
O F.Y.F.R.E. é pioneiro nas traduções dos livros da série, e nosso trabalho já completa quase cinco anos.
Infelizmente, várias pessoas estão se utilizando de nosso árduo trabalho para ganhar dinheiro e enganar fãs
desinformados, fazendo-os comprar as traduções por um alto preço, sendo que elas podem ser lidas
gratuitamente aqui no no site. Estamos cansados de tentar tomar providências, e o único meio que temos agora
de informar do nosso trabalho de tradução é avisar no nosso próprio site. Por várias vezes, pensamos seriamente
em retirar as traduções do site, devido a tanta polêmica, mas não seria justo para com os fãs.
[Prólogo]
Raccoon Times - 24 de Julho de 1998
"Mansão de Spencer destruída em incêndio explosivo"
RACCOON CITY Há aproximadamente 2 A.M. de Quinta-feira, os moradores do distrito de Victory Lake foram
acordados por uma explosão que trovejou através do noroeste de Raccoon Forest, aparentemente causada por
um incêndio que ocorreu na mansão abandonada de Spencer e aprimorada pelos produtos químicos guardados no
subsolo. Devido às barricada colocadas no perímetro da floresta (por causa dos recentes assassinatos em
Raccoon City), os bombeiros foram incapazes de salvar o que restou dela. Depois de três horas de batalha contra
o fogo enfurecido, a mansão de trinta e um anos e a adjacente casa de empregados foram complemente
arruinadas. Construída pelo Lorde Oswell Spencer, aristocrata europeu e um dos fundadores da companhia
farmacêutica Umbrella Inc, a propriedade foi projetada pelo premiado arquiteto George Trevor como hospedaria
para as pessoas importantes da companhia, mas foi fechada logo depois de finalizada por razões desconhecidas.
Segundo Amanda Whitney, porta voz da Umbrella Corporation, partes da mansão estavam sendo usadas para
estocar agentes de limpeza industriais e solventes usados pela Umbrella. Whitney disse numa coletiva ontem que
a companhia assumiria toda a responsabilidade pelo infeliz acidente, chamando-o de "um sério descuido de nossa
parte. Esses produtos químicos deveriam ter sido tirados de lá há muito tempo, e nós estamos gratos por
ninguém ter se machucado".Até agora, a causa do incêndio é desconhecida, e Whitney continuou dizendo que a
Umbrella estará trazendo seus próprios investigadores para peneirar as ruínas esperando saber o ponto de origem
do incêndio...
Raccoon Weekly - 29 de Julho de 1998
"S.T.A.R.S. tirado da investigação dos assassinatos"
RACCOON CITY Num surpreendente pronunciamento de oficiais numa coletiva ontem, o Esquadrão de Táticas
Especiais e Resgate (S.T.A.R.S.) foi oficialmente removido das investigações dos nove assassinatos brutais e
cinco desaparecimentos que ocorreram nas últimas dez semanas. O membro do conselho da cidade, Edward
Weist, citou incompetência como principal razão para a remoção do S.T.A.R.S.
Os leitores devem se lembrar que a primeira ação do S.T.A.R.S., depois de ser designado para cuidar dos casos
na semana passada, foi vasculhar o noroeste da floresta pelos assassinos canibais. Weist declarou que foi a
"conduta não profissional" que resultou na destruição de um helicóptero e na perda de seis dos onze membros,
incluindo o comandante do S.T.A.R.S., Capitão Albert Wesker.
"Depois da má conduta na floresta", disse Weist "nós decidimos deixar o caso nas mãos do R.P.D.. Nós temos
razões para acreditar que o S.T.A.R.S. deve ter ingerido drogas e/ou álcool antes da missão, e suspendido o uso
de seus serviços indefinitivamente".
Weist estava acompanhado por Sarah Jacobsen (representando o Prefeito Harris) e o representante da polícia,
J.C. Washington, para fazer o pronunciamento e responder perguntas. Nem o chefe da polícia, Brian Irons e nem
os sobreviventes do S.T.A.R.S. podem ser alcançados para comentários...
Cityside - 3 de agosto de 1998
"Início do incêndio considerado acidental"
RACCOON CITY Depois de uma completa investigação por oficiais dos bombeiros trabalhando com a IDS
(Industrial Services Division / Divisão de Serviços Industriais) da Umbrella Inc., o incêndio que destruiu a mansão
de Spencer foi causado pelo descuido de pessoa ou pessoas desconhecidas, como foi anunciado numa coletiva
ontem. O líder da IDS, David Bischoff disse, "parece que alguém tentou começar uma fogueira em um dos
quartos da mansão e a situação saiu do controle. Nós não encontramos nada que sugere um incêndio proposital
ou uma brincadeira de algum tipo". Ele continuou falando que a destruição foi total, e não há evidências de que
alguém foi pego pelo fogo ou pela explosão que se seguiu.
O Chefe Brian Irons do Departamento Policial de Raccoon City estava presente na conferência, e lhe foi
perguntado se ele acreditava haver alguma conexão do incêndio com os assassinatos e desaparecimentos, e
Irons respondeu que não há como ter certeza. "Até agora, tudo o que eu falar será só especulação eu diria que
o fato de os assassinatos terem parado desde a noite do incêndio, pode significar que os assassinos estavam
escondidos lá. Nós só podemos esperar que eles tenham deixado a área para que em breve sejam presos".
Chefe Irons recusou comentar as acusações de má conduta do S.T.A.R.S. em sua breve atuação na
investigação dos assassinatos, só dizendo que concordava com a decisão do conselho da cidade e que ações
disciplinares estão sendo consideradas...
[1]
Rebecca Chambers estava andando de bicicleta na escuridão das ruas de *Cider District sob a luz da lua brilhando
no céu. Apesar de ainda ser cedo as ruas estavam desertas, obedecendo o horário de recolher da cidade.
Ninguém menor de dezoito anos deveria sair até que os assassinos sejam pegos e presos. Este tem sido um
tenso e quieto verão em Raccoon City...
Ela passou por casas silenciosas onde só a luz da televisão podia ser vista através da janela. As pessoas
aguardavam trancadas em suas casas esperando a notícia de que os assassinos foram presos e a cidade estava
à salvo.
Se eles soubessem...
Estes tem sido treze longos dias desde o pesadelo da mansão de Spencer. Jill, Chris, Barry e ela mesma foram
acusados de estarem drogados. Depois de serem afastados dos casos, até o RPD recusou a acreditar no
S.T.A.R.S.. Agora, com a Umbrella assumindo a investigação sobre o incêndio, provavelmente se livrando das
provas...
- Não seria tão simples. Uma das maiores e mais respeitadas companhias farmacêuticas do mundo fazendo
experiências com armas biológicas num laboratório secreto - Se eu não soubesse de nada, eu provavelmente
acharia isso uma loucura.
Rebecca e os outros devem se cuidar antes que algum agente seja enviado para atacá-los.
Ela estava usando um revólver snub-nosed. 38 da coleção de Barry esperando não precisar mais dela depois
desta noite.
Virando à esquerda na Rua Foster, Rebecca pedalou em direção a casa de Barry pensando que ele convocou a
reunião, provavelmente por que recebeu ordens do escritório principal.
Talvez eles me movam para algum laboratório, e estudar o vírus. Tecnicamente eu ainda sou uma Bravo; não há
motivo de me quererem no campo de batalha...
Sem dúvida esse seria o melhor modo de usar os meus talentos.
Os outros eram soldados experientes e Rebecca só está a cinco semanas no S.T.A.R.S.. Sua primeira missão foi
a de *Raccoon Forest que exterminou todos de seu time incluindo outros no segredo da Umbrella. Ela sabia que
trabalhando no T-virus seria a maior contribuição que ela daria para acabar com a Umbrella.
Rebecca parou no final do quarteirão, em frente a uma enorme casa de dois andares amarelo-claro no estilo
vitoriano, olhando em volta por algo suspeito antes de descer da bicicleta. Os Burton vivem próximo a um parque
cheio de árvores no subúrbio.
Levando a bicicleta até a varanda viu que se passaram vinte minutos desde a ligação de Barry.
Antes de bater na porta, ele a abriu. Vestindo uma camisa e calça jeans, ele a deixou entrar dando uma rápida
olhada antes de fechar a porta.
"Você viu alguém", Barry perguntou com sua Colt Python no coldre parecendo um cowboy.
"Não, ninguém". Ela respondeu.
"Chris e Jill estarão aqui a qualquer momento. Você quer um café?" Barry parecia tenso.
"Não, obrigado. Talvez água..."
"Sim, claro. Vá em frente e se apresente, eu voltarei num minuto".
Antes de perguntar se algo estava errado, ele foi para a cozinha.
"Me apresentar? O que está acontecendo?
Ela foi até a sala e parou assustada ao ver um homem estranho sentado no sofá. Ele se levantou assim que ela
apareceu. Ele usava jeans, camisa, sapatos e uma Beretta 9mm, padrão do S.T.A.R.S.. Era alto, fisicamente
como um nadador, olhos e cabelos escuros.
"Você deve ser Rebecca" ele disse revelando seu sotaque Britânico. "Você é a bioquímica, certo?"
"Trabalhando nisso. E você é..."
"Desculpe os meus modos, por favor. Eu não esperava... isto é, eu...? ele parou em volta da mesinha de centro
de Barry estendendo a mão. "Eu sou David Trapp, do S.T.A.R.S. Exeter em *Maine."
Ela se acalmou.
O S.T.A.R.S. mandou ajuda ao invés de ligar, ótimo.
"Então, você é algum observador ou algo assim?
"Como?"
"Para a investigação - há outras equipes aqui, ou você veio para checar antes..."
"Desculpe ter que que dizer isso Srta. Chambers. Eu tenho razões para acreditar que a Umbrella tem
chantageado ou subornado outros membros do S.T.A.R.S.. Não há investigação e ninguém está vindo".
Barry entrou na sala com o copo d'água e Rebecca o pegou agradecidamente, bebendo metade dele em um
gole.
"Ele te disse, né?" Barry disse.
"Jill e Chris sabem?" ela perguntou.
"Ainda não. Por isso eu liguei. Nós devemos esperá-los para não passar por isso duas vezes".
"Concordo". David disse.
Barry começou a contar como ele e David se conheceram no treinamento do S.T.A.R.S. quando jovens. David
ouvia enquanto Barry falava sobre a noite de graduação envolvendo um sargento mau humorado e várias cobras
de borracha.
- Dezessete anos atrás.
Ela deveria estar comemorando seu primeiro aniversário.
Bateram na porta, provavelmente os dois Alphas. Barry foi atender.
"Jill Valentine, Chris Redfield, este é o Capitão David Trapp, estrategista militar do S.T.A.R.S. Exeter em Maine".
David os cumprimentou e todos se sentaram.
"David é um velho amigo meu. Nós trabalhamos juntos no mesmo time por uns dois anos. Ele apareceu aqui há
uma hora com novidades e não achei que isso poderia esperar. David?".
"Como vocês devem saber, seis dias atrás, Barry ligou para vários departamentos do S.T.A.R.S. para saber se
alguma declaração foi recebida sobre o que aconteceu aqui. Eu recebi uma dessas ligações. Eu descobri que o
escritório de Nova York não contatou ninguém sobre a descoberta. Nenhum aviso ou memorando".
Após alguns minutos de discussão, David se levantou e disse:
"Parece que existe outro laboratório da Umbrella na costa de Maine, conduzindo experimentos com seus vírus - e
como aconteceu aqui, eles perderam o controle".
David virou-se para Rebecca e disse:
"Eu estou levando um time para lá sem autorização do S.T.A.R.S. e eu quero que você venha com a gente".
Chris ainda estava intrigado com a despreocupação do S.T.A.R.S. sobre o acontecido e agora outro laboratório!
E ele quer levar a Rebecca...
"Eu conversei com o pessoal do meu time e todos concordaram que vai ser difícil sem ninguém para nos dar
cobertura. Nós só queremos entrar, coletar algumas evidências sobre o T-virus e voltar antes que alguém saiba
que estamos lá".
"Eu também vou". Chris interrompeu.
"Todos nós vamos". Barry disse.
David balançou a cabeça. "Olha, essa não é uma operação em grande escala; cinco pessoas já estão escaladas.
A Rebecca tem o conhecimento que nós precisamos para achar os dados do vírus sabendo que sintomas
procurar".
Depois de muita conversa David consegue convencer os três Alphas a ficarem. Agora a escolha é de Rebecca.
"Que informações você tem?" Jill perguntou. "Como você descobriu sobre o laboratório?
David abriu sua pasta e tirou o que pareciam ser cópias de jornais e um simples diagrama. "Logo depois de ter
falado com o escritório central, eu recebi a visita de um estranho homem que dizia ser um amigo do S.T.A.R.S....
ele me disse que seu nome era Trent, e me deu tudo isso".
"Trent!". Jill disse.
--------------------------------------------------------------
*Cider District - Bairro Cider (Cidra).
*Raccoon Forest - Floresta que fica nos limites de Raccoon City.
*Maine - Estado que fica na costa leste dos E.U.A.
-------------------------------------------------------------- David olhou para ela intrigado. "Você o conhece?".
"Um pouco antes de nós decolarmos para resgatar o Bravo Team, Um homem chamado Trent me deu
informações sobre a mansão, e me alertou sobre o Wesker".
Barry continuou. "E Brad disse que Trent lhe deu as coordenadas da mansão logo depois de Wesker ter ativado o
sistema de destruição. Se ele não tivesse dito, nós teríamos explodido com o resto da casa".
Chris sentiu uma dor de cabeça. O S.T.A.R.S. trabalhando para a Umbrella, outro laboratório e agora o Trent de
novo.
David começa a lembrar do seu breve encontro com Trent há cinco dias atrás, tentando ver se esqueceu de
dizer alguma coisa.
Ele tinha chegado do trabalho e estava chovendo, uma tempestade de verão que amenizou a leve batida na
porta. David olhou no relógio e foi até a porta imaginando quem seria àquela hora da noite. Ele vive sozinho e não
tem família; devia ser do trabalho ou alguém com problemas no carro...
Abrindo a porta, ele viu um homem numa capa de chuva preta em sua varanda com água escorrendo pelo rosto.
"David Trapp?". Perguntou um homem alto e magro, alguns anos mais velho que David, quarenta e dois ou três.
"Sim?".
"Meu nome é Trent e tenho algo para você!".
"Eu te conheço?"
"Não, mas eu te conheço, Sr. Trapp. Eu também sei com o que você está lidando. Acredite em mim, você
precisará de toda a ajuda que conseguir".
"Eu não sei do que você está falando. Você deve ter me confundido com outra pessoa".
"Sr. Trapp, está chovendo e isso é para você."
Confuso, David abriu a porta e pegou o envelope. Assim que o fez, Trent se virou e foi embora.
Jill e Rebecca estavam estudando os mapas enquanto Barry e Chris trabalhavam nos artigos de jornal. Os quatro,
concentrados na pequena cidade costal Caliban Cove em Maine. Todos estavam preocupados com
desaparecimentos de pescadores locais, todos considerados mortos.
O mapa era do trecho costeiro da cidade. David pesquisou sobre ele e descobriu que foi comprada por um grupo
anônimo há alguns anos. Tinha um farol abandonado na beira norte da enseada, no alto dos rochedos que era
supostamente cheia de cavernas marítimas. Mostrava também algumas estruturas atrás e embaixo do farol,
descendo para um pequeno cais no sul. Estava escrito CALIBAN COVE em cima do mapa e abaixo, em letras
menores, UMB. PESQUISA E TESTE.
O terceiro papel que Trent deu era o que David não entendia. Havia uma lista de nomes.
LYLE AMMON, ALAN KINNESON, TOM ATHENS, LOUIS THURMAN, NICOLAS GRIFFITH, WILLIAM BIRKIN,
TIFFANY CHIN.
Jill pegou esse papel e leu.
"Alguma idéia do que isso significa?". David perguntou.
Jill falou sobre William Birkin, que constava no material que Trent havia dado a ela.
Rebecca pegou o papel assim que Jill olhou para David.
"Droga".
Todos olharam para ela.
"Nicolas Griffith está na lista". Rebecca disse.
"Você sabe quem é ele?". Perguntou David.
"Conheço, apesar de eu achar que ele estava morto. Ele era um dos maiores, um dos mais brilhantes homens na
biociência.
Se ele está com a Umbrella, nós temos mais com o que se preocupar do que o T-virus escapando. Ele é um
gênio no campo de virologia molecular - e se as histórias são verdadeiras, ele é totalmente louco".
"O que você pode nos dizer sobre ele?". David perguntou.
Ela bebeu o resto da água em seu copo e olhou para David. "O quanto você sabe sobre o estudo dos vírus?".
"Nada, por isso eu estou aqui". Disse David, sorrindo um pouco.
"Bom, os vírus são classificados pela estratégia de reprodução e pelo tipo de ácido nucléico (RNA ou DNA) - este é
o elemento especializado num vírus que autoriza a transferência do genoma para outra célula viva. Um genoma é
um simples grupo de cromossomos.
De acordo com a Classificação de Baltimore, existem sete tipos distintos de vírus, e cada grupo infecta certos
organismos de certo modo.
No começo dos anos sessenta, um jovem cientista de uma universidade particular na Califórnia desafiou a teoria,
dizendo que havia um oitavo grupo - os dsDNA e ssDNA que poderiam infectar qualquer coisa em contato. Ele era
o Dr. Griffith. A comunidade científica não aceitou a teoria".
Rebecca notou as expressões vazias no rosto dos colegas.
"Desculpa... Ele então, parou de tentar prová-la, sendo que muitas pessoas ainda estavam interessadas.
Ninguém mais ouviu falar nele. Meu professor, Dr. Vachss, disse que ele foi demitido da universidade por uso de
drogas, mas rumores diziam que ele estava fazendo experiências em alguns de seus alunos. Nenhum deles
falaria, mas um foi para o hospício e outro se suicidou. Isso nunca foi provado, mas depois disso ninguém o
contrataria".
"Acaba aí?". David perguntou.
"Não. No meio dos anos oitenta, um laboratório particular em Washington foi encontrado por policiais com três
homens mortos por uma infecção viral - foi o Marburg, um dos vírus mais letais que existe. Eles estavam mortos
há semanas; os vizinhos reclamavam do mau cheiro. Papéis encontrados pela polícia mostravam que os mortos
eram assistentes do Dr. Nicolas Dunne. Os três se infectaram por um vírus que eles entendiam ser inofensivo,
para que Dunne tentasse curá-los depois".
Rebecca lembrou das fotos das três vítimas do Marburg.
De uma dor de cabeça inicial para extremas amplificações em questão de dias. Febre, coágulo, estado de
choque, danos cerebrais, hemorragia por todos os orifícios - devem ter morrido em piscinas do próprio sangue...".
"E o professor achou que ele era Griffith?" Jill perguntou.
"O nome de solteira da mãe de Griffith era Dunne". Disse Rebecca.
Depois da história, todos se calaram e Rebecca começou a fazer sua decisão.
Ela sabe que o laboratório em Caliban Cove deve estar cheio de pessoas como Griffith. Sem a ajuda do
S.T.A.R.S. nenhum lugar é seguro, mas seria a chance dela contribuir, de fazer o que ela sabe. Seria uma
oportunidade de ouro estudar um vírus antes de alguém.
Rebecca suspirou fundo e disse com sua decisão feita.
"Eu vou com você. Quando iremos?".
Houve um silêncio na sala. Rebecca reparou as expressões no rosto deles até David falar.
"Certo, então. Tem um avião indo para *Bangor às 23:00. Eu acho que nós todos devemos fazer um plano aqui
e depois ir para casa".
Rebecca escutou Barry abrindo a janela e voltando para junto deles. Eles começaram a discutir sobre o que
fariam depois que Rebecca e David partirem.
Jill escutava a suave voz de David quando seu coração gelou ao ouvir sussurros nos arbustos no lado de fora da
janela que Barry abriu.
Umbrella.
--------------------------------------------------------------
*Bangor - Cidade do estado de Maine.
-------------------------------------------------------------- "Abaixem-se!". Jill gritou, saindo do sofá com Rebecca, assim que
a janela estilhaçou ao som de um rifle automático.
David foi para o chão enquanto balas atingiam a poltrona a qual estava. Tufos de almofada flutuavam enquanto
buracos enfumaçados apareciam na parede - reboque e madeira voando.
Houve um segundo de silêncio no tiroteio, suficiente para ouvir vidro quebrando nos fundos da casa.
A sala ficou escura assim que Barry atirou nas luzes. A luz do hall brilhava e mais tiros vinham do lado de fora.
Chris engatinhou sobre os cotovelos e joelhos e apagou as luzes adicionais. Agora está tudo escuro e o tiroteio
parou.
David escutou passos sobre o vidro vindos da cozinha que pararam logo depois. Devem haver mais dois cobrindo
as saídas. Mais passos na cozinha, devem estar esperando alguém se mover.
A visão de David se ajustou podendo ver Jill e Rebecca armadas do outro lado da mesinha.
A casa de Barry é a última da quadra e tem um parque logo atrás. Se eles conseguirem fugir, podem se
esconder nas árvores.
David correu para a porta da frente enquanto Chris e Jill atiravam na direção da cozinha. Atrás dele, Barry e
Rebecca corriam para a escada sob tiros. David estava a um passo da porta quando alguém a chutou, abrindo-a.
Ele se jogou na porta fazendo-a se fechar, depois rolou no chão e atirou cinco vezes. Algo pesado caiu na
varanda logo depois.
David viu Jill e Chris subindo - ao por o pé no primeiro degrau, houve uma explosão atrás dele. A porta da frente
foi destruída pelo time da Umbrella que procurava finalizar a batalha.
Dava para ver a luz da lua brilhando através da janela aberta. Jill já saiu e Chris na metade do caminho.
Ouviu-se vozes masculinas entrando pela porta da frente. Rebecca e Barry saíram.
Haviam árvores há uns vinte metros dali.
Um movimento no canto da casa e Rebecca não hesitou, atirando duas vezes - ele nunca mais se levantaria.
Nunca atirei em alguém antes.
Tiros vinham da janela - Rebecca podia senti-los acertando o chão perto de seus pés. Ela ouviu sirenes se
aproximando e segundos depois cantadas de pneu.
Chris chegou num parquinho seguido de Jill, Barry e Rebecca.
"Cadê o David?". Chris perguntou.
Procurando nas sombras, ouviu-se dois tiros. Um terceiro mais alto e mais perto. Exceto pelo barulho das sirenes
o parque estava quieto novamente.
Rebecca olhou sobre o ombro e viu David que ainda apontava sua Beretta para o atirador. Chris e Jill estavam
próximos a ela segurando suas armas - e do outro lado estava Barry espalhado no chão. Ele não estava se
movendo.
Houve escuridão e silêncio por um tempo indeterminado - e haviam vozes que flutuavam e não podiam ser
identificadas. De algum lugar bem longe, ele ouvia sirenes.
ele foi atingido
oh meu Deus
veja se está limpo
espera eu não consigo achar o ferimento me ajuda - Barry? Barry, você...
"Barry você pode me ouvir?
Barry abriu e fechou os olhos imediatamente, reagindo a dor em volta de sua cabeça. Mas havia outra dor em
seu braço esquerdo.
Baleado, deu de cara numa árvore... ou algum idiota com um bastão de baseball.
Ele tentava abrir os olhos enquanto mãos moviam-se sobre seu peito. As sirenes pararam por completo, apesar
de ainda se poder ouvir carros de polícia tomando conta da rua, o som de potentes motores ecoando através do
parque coberto de árvores.
"Braço esquerdo". Disse Barry começando a se levantar.
"Não se mexa". Rebecca disse firmemente. "Espere um segundo, tá bom? Chris, me dê a sua camisa".
"Mas a Umbrella". Barry falou.
"Tá tudo limpo". David disse, ajoelhando-se junto aos outros. "Agüenta firme".
Assim que ela terminou o curativo ele se levantou. Eles devem sair de lá antes que a polícia decida vasculha a
floresta - mas ir para onde? Nenhuma de suas casas eram seguras.
Todos estavam aliviados por não terem sido feridos, exceto David que parecia infeliz como Barry nunca o tinha
visto antes.
"O homem que atirou em você," David disse levantando uma nove milímetros com um supressor preso, sangue
pingando pelo cano da arma. "Eu o matei. Eu... Barry, era o Jay Shannon".
Barry ouviu as palavras não conseguindo aceitá-las. Era impossível. "Não, você não viu bem, está muito
escuro...".
David se virou e caminhou em direção as árvores. Barry o seguiu.
A bala da Beretta de David fez um buraco no coração do homem; foi um tiro de sorte. Olhando para a pálida face
do atirador, Barry sentiu seu coração virar pedra.
"Jesus, Shannon, por que? Porque?". Barry não se conformava.
"Quem é ele?". Jill perguntou suavemente.
Barry olhou para o homem morto incapaz de responder. David respondeu.
"Capitão Jay Shannon do S.T.A.R.S. de Oklahoma City. Barry e eu treinamos com ele."
Barry encontrou sua voz, ainda olhando para o rosto de Jay. "Eu liguei para ele semana passada, quando liguei
para David. Ele estava preocupado conosco, disse que ficaria de olho na Umbrella...".
..e nós conversamos mais alguns minutos, contando velhas histórias. Eu lhe falei que mandaria fotos das
crianças mas e ele disse que tinha que desligar por causa de um encontro...
A Umbrella deve estar por trás do ataque. A casa de Barry foi destruída por pessoas que ele conhecia, e ferido
por uma pessoa que achava ser um amigo.
O silêncio foi quebrado pelo barulho dos cachorros, que pela localização devem ser da unidade K-9 do RPD.
"Onde nós podemos ir?" David perguntou rapidamente. "Existe algum prédio vazio, algum lugar que a Umbrella
não pensaria em procurar... algum lugar que a gente pode ir a pé?".
Brad!
Brad saiu da cidade dois dias depois do incidente na mansão - não agüentou a pressão.
"Vamos lá". Disse David.
Barry conhecia o caminho para sair do parque. Ele costumava andar lá com a esposa ao lado e suas filhas
dançando ao seus pés.
Jill abriu a porta da casa de Brad facilmente. Rebecca examinava Barry enquanto Chris procurava uma camisa.
David e Jill vasculhavam a casa.
Era uma pequena casa de dois dormitórios e um jardim nos fundos. Haviam casas bem próximas a de Brad
evitando a aproximação de alguém. A mobília era simples. Objetos pessoais e livros estavam espalhados pelo
chão. Isso mostrava que o ocupante estava em pânico incapaz de decidir o que fazer para se distrair.
Naquela noite eles discutiram sobre o que o que falariam para a polícia. Rebecca e David se despediram e foram
embora.
No sorriso de Rebecca, David podia ver que ela sabia perfeitamente sobre os riscos da missão. Ele estava
satisfeito por a ter alistado. Ele só podia esperar que as habilidades dela sejam suficientes para colocá-los e tirá-los
inteiros de Caliban Cove.
[2]
Depois de reler as informações sobre Caliban Cove, Rebecca colocou os papéis cuidadosamente na mala debaixo
do assento de David. Ele trouxe três malas para o aeroporto, uma para as armas, já no bagageiro e outras duas
para não chamar a atenção.
Rebecca desejava ter comprado algumas bolachas no aeroporto, ela não comia desde o almoço e as nozes não
estavam matando a fome.
Ela apagou a luz de leitura e sentou novamente, tentando deixar o suave motor do 747 acalmá-la para um
cochilo. A maioria dos passageiros do quase cheio avião haviam adormecido, inclusive David. Rebecca tinha muito
o que pensar. Nos últimos meses ela se formou passando pelo treinamento do S.T.A.R.S. e foi transferida para
seu novo apartamento numa nova cidade. Depois veio a mansão e agora as últimas horas que deram outra
reviravolta em sua vida.
Ela virou a cabeça e viu David no assento da janela - círculos escuros de exaustão em seus olhos. Rebecca
fechou os olhos e respirou profundamente o ar fresco da cabine pressurizada. Ela pode sentir o cheiro de suor na
pele e decidiu que tomar um banho seria prioridade ao chegar no hotel.
Clareando sua mente, ela começou a contar de cem para um. A técnica de meditação nunca tinha falhado nela,
mas pode não funcionar desta vez...
.. noventa e nove, noventa e oito, Dr. Griffith, David, S.T.A.R.S., Caliban...
Antes de noventa ela já estava dormindo profundamente, sonhando com sombras se movendo que nenhuma luz
podia iluminar.
Como ele fazia todas as manhãs desde o começo do experimento, Nicolas Griffith sentou na plataforma no topo
do farol e olhou o sol se elevar sobre o mar.
Griffith sempre vê o sol iluminar o horizonte antes de começar o seu dia. Assim que o sol se separou do mar, ele
levantou-se e caminhou para o parapeito com seus pensamentos voltados para o dia a frente. Tendo finalmente
terminado o trabalho sangrento na série Leviathan (Leviathan series), ele estava preparado para trabalhar mais
extensivamente com os doutores. Todos os três responderam bem à mudança, e a taxa de deterioração celular
caiu consideravelmente. Era hora de se concentrar na situação comportamental deles, o estágio final do
experimento. Em semanas, Nicolas estará pronto para expandir para além dos limites do laboratório.
O vento balançava seu cabelo cinza, o choro faminto as gaivotas finalmente o levou a ação. Os Trisquads tem de
ser levados para dentro antes que os pássaros cheguem. Algumas unidades já foram horrivelmente machucadas
e ele não quer pô-las em risco novamente. Uma vez perdido os olhos, eles seriam inúteis na patrulha.
Griffith se virou e com seu cabelo balançando desceu a escada em espiral. Seus sapatos contra o metal criavam
um eco na alta torre. Tendo o estabelecimento para si mesmo fazia tudo mais prazeroso - comer o que quiser na
hora que quiser, trabalhar em seu próprio horário, as manhãs no topo do farol... Ele sofreu por muito tempo
devido aos horários - intermináveis reuniões ouvindo seus "colegas" falarem sobre o T-virus de William Birkin. Eles
se escravizaram para aparecer com os Trisquads para a Umbrella que ficou felicíssima com os resultados,
aparentemente esquecendo o fracasso com os Ma7s. Eles eram incapazes de ver além de sua arrogância por
uma imagem maior...
Como se os Trisquads fossem nada mais do que corpos com armas.
Com as ondas quebrando, ele foi na direção dos dormitórios. Nicolas já sintetizou um aerotransmissível, e tem o
suficiente para contaminar a maior parte da América do Norte. Assim que o vírus fizer seu trabalho o sol nascerá
num mundo muito diferente, inabitado por pessoas de caráter e vontade.
Tire as habilidades do homem, sua mente fica livre. Com treinamento, se torna um animal de estimação; sem,
ele se torna um animal selvagem. Cubra o mundo com tais animais, e só os fortes sobreviverão...
Ele entrou no dormitório, ligou as luzes e viu seus doutores onde os havia deixado - sentados a mesa de olhos
fechados. Eles foram infectados pelo vírus que Nicolas usará, e estão perto do que o mundo se tornará em
alguns dias.
Além do laboratório de pesquisa, o estabelecimento foi projetado para treinar armas biológicas como os Trisquads
e os Ma7s. Há itens que podem ser usados, desde simples testes até complicados quebra cabeças.
Aproximando-se da mesa, Dr. Athens abriu os olhos, provavelmente para ver se havia perigo vindo. Dos três,
Tom Athens era o mais forte; ele foi um dos especialistas em comportamento. De fato, ele surgiu com a idéia de
uma equipe de três unidades, o Trisquad, insistindo que elas fariam um trabalho mais eficiente em pequenos
grupos. Ele estava certo.
Thurman e Kinneson permaneceram quietos. Griffith percebeu um cheiro ruim vindo de um deles. Olhando para
baixo, ele confirmou sua suspeita pelo molhado nas calças de Thurman.
De novo.
Louis Thurman foi um idiota, um biologista decente mas tão ridículo e intolerante como os outros. Ele criou a
maioria dos Ma7s, e quando se tornaram incontroláveis, botou a culpa em todo mundo menos nele. É mau que
um bom doutor não saiba o quanto patético está sendo.
"Bom dia senhores", Nicolas disse se afastando da mesa. Em harmonia, os três viraram a cabeça para vê-lo.
"Parece que o Dr. Thurman evacuou os intestinos. Está sentado na merda. É engraçado".
Os três sorriram largamente. Dr. Alan Kinneson sorriu disfarçadamente. Ele foi o último a ser infectado, sofrendo
menor deterioração do tecido. Alan ainda podia se passar por humano.
Griffith tirou o apito de polícia do bolso e colocou na mesa na frente do Dr. Athens. "Dr. Athens, tire os Trisquads
do dever. Atenda suas necessidades físicas e os envie para a sala fria. Quando terminar, vá para a cafeteria e
espere".
O apito desativaria as equipes e os chamaria para dentro. Tom Athens pegou o apito e saiu da sala pelo hall da
outra entrada do dormitório.
Haviam quatro Trisquads, doze unidades no total. Eles estão vagando pela mata junto a cerca ou se movendo
secretamente em volta do abrigo, tendo sido treinados para ficar fora da área nordeste do composto, farol e
dormitório. Eles eram bem eficientes nisso. A Umbrella queria soldados que matassem sem piedade, e lutassem
até que ,literalmente, explodissem em pedaços. Uma vez treinados com armas, os Trisquads se tornariam
máquinas de matar - com a recente onda de calor, Nicolas não sabe o quanto eles estão viáveis.
Ele voltou sua atenção para Louis Thurman que ainda sorria e fedia como um bebê. Ele nem se parecia com um -
gorducho e calvo, ele sorri como uma inocente e ingênua criança.
"Dr. Thurman, vá ao seu quarto, tire as roupas, tome um banho e ponha roupas limpas. Depois vá para as
cavernas e alimente os Ma7s. Quando terminar vá para a cafeteria e espere".
Depois que ele se levantou, Griffith viu que a cadeira de Louis estava suja. "Leve a cadeira e a deixe no seu
quarto".
Nicolas sentou-se perto de Alan Kinneson, sentindo-se cansado, observando as bonitas característica do doutor -
seus olhos expressivos. Ele olhou para Griffith esperando ordens. Alan já foi um neurologista. Haviam fotos no seu
quarto, da esposa e de seu bebê, um garoto com um brilhante e bonito sorriso.
Por um segundo Nicolas pensou.
Quantos morrerão? Milhões, bilhões?
"E se eu estiver errado?". Disse ele. "Alan, me diga se eu estou errado, que eu estou fazendo isso pelas razões
certas...?
"Você não está errado". Alan respondeu calmamente. "Você está fazendo pelas razões certas".
Griffith olhou para ele. "Me diga que a sua esposa é uma prostituta".
"Minha esposa é uma prostituta". Alan disse. Sem pausa. Sem dúvida.
Griffith sorriu e o medo foi embora.
Amanhã , ao nascer do sol, Nicolas Griffith dará o seu presente para o vento.
Karen Driver é a especialista em ciência forense do S.T.A.R.S.. É alta, de cabelos loiros e curtos, na faixa dos
trinta anos e séria. Sua pequena casa era bem limpa quase antissepticamente. Ela emprestou suas roupas para
Rebecca.
David tinha alugado um carro no aeroporto e eles acharam um hotel barato onde ficaram em seu quartos
separados. Rebecca só acordou depois das dez, tomou banho e esperou por David.
Ela ouviu a porta abrir e fechar, e novas vozes tomaram conta da sala. O time estava reunido.
Daqui algumas horas, tudo estará acabado. O que me preocupa é que David e seu time não viram os cachorros,
as cobras, as criaturas nos túneis... e o Tyrant.
Rebecca tirou as imagens da cabeça enquanto se levantava pondo as roupas sujas numa mala vazia. Não há
razões para ser diferente em Caliban Cove. Ela parou em frente o espelho, estudou a mulher que viu e foi para a
porta.
Chegando na sala viu que Karen trouxe cadeiras extras. Haviam dois homens no sofá do outro lado onde David
estava.
David sorriu enquanto os dois homens se levantavam para serem apresentados.
"Rebecca, este é Steve Lopez. Ele é um gênio em informática e nosso melhor atirador".
Steve tem olhos escuros, cabelos pretos e era uma pouco mais alto que ela. Não muito velho...
"- e este é John Andrews, especialista em comunicação e campo de escuta".
Sua pele era escura e não tinha barba, mas lembrava o Barry.
"Esta é Rebecca Chambers, bioquímica do S.T.A.R.S.". David terminou a apresentação.
John soltou a mão dela ainda sorrindo. "Bioquímica? Caramba, quantos anos você tem?".
Rebecca sorriu, percebendo o tom de humor nos olhos dele. "Dezoito. E três quartos".
John deu risadas enquanto voltava a se sentar. Ele olhou para Steve e depois para ela. "É bom ficar de olho no
Steve, então. Ele fez vinte e dois. E é solteiro".
"Fica quieto". Steve resmungou com suas bochechas coradas olhando para Rebecca e balançando a cabeça.
"Você vai ter que desculpar pelo John. Ele acha que adquiriu um senso de humor e ninguém pode contrariar".
"A sua mãe acha que eu sou engraçado". John retrucou, e antes que Steve pudesse responder David acabou
com o papo.
"Já chega". Disse. "Nós temos algumas horas para nos organizar se pretendemos fazer isso hoje.
A brincadeira dos dois foi bem-vinda por quebrar a tensão de Rebecca, fazendo com que se sinta uma do grupo
quase que instantaneamente. Assim que David começou a por as informações de Trent sobre a mesa, ela
começou a pensar sobre o que virá pela frente. Estando fora de algum organismo vivo, o vírus já pode ter
"morrido". Mas quem sabe se ele já contaminou alguém.
O vírus ainda infecta? Aquele lugar pode estar cheio de Tyrants... ou algo pior.
Rebecca não tem respostas para essas insistentes dúvidas. Ela dizia a si mesma que suas ansiedades não
interferiram em seu trabalho. E que a sua segunda missão não será a última.
"Nosso objetivo é entrar no complexo, coletar provas sobre a Umbrella e sua pesquisa, e sair com o mínimo de
problemas possível. Eu reverei cada passo a fundo e se algum de vocês tiver perguntas ou dúvidas sobre como
proceder, não importa o quanto insignificante, eu quero ouvi-las. Entendido?".
Todos concordaram e David continuou confortavelmente sabendo que chegou onde queria.
"Nós já discutimos algumas das possibilidades sobre o que pode ter acontecido lá, sendo que vocês já leram os
artigos. Eu digo que nós estamos lidando mais uma vez com algum tipo de acidente. A Umbrella se empenhou
bastante para encobrir o problema em Raccoon City".
"Por que a Umbrella ainda não enviou ninguém para Caliban Cove?". John perguntou.
"Quem sabe". Disse David. "Eles podem ter limpado as evidências - de qualquer modo, nós nos juntamos as
pessoas de Raccoon e nossos contatos para começar de novo".
Novamente todos concordaram. David olhou para o mapa.
"Ponto de entrada. Se esse fosse um ataque aberto, nós podíamos ir de helicóptero ou simplesmente pular a
cerca. Mas se ainda tiver gente lá e nós dispararmos o alarme, estará tudo acabado antes de começarmos.
Sendo que nós não queremos ser descobertos, nossa melhor opção é ir pelo mar. Podemos usar um dos barcos
da operação do petroleiro do ano passado".
"Eles não teriam um alarme no cais?". Karen perguntou.
"Eu não recomendaria usar o cais. Podemos ver no mapa que é possível esconder o barco em uma das cavernas
debaixo do farol. De acordo com o que eu li, existe uma entrada que liga a base dos rochedos ao farol. Se ela
estiver bloqueada, tentaremos outra caminho".
"O barco não chamará atenção se alguém estiver vendo?". Perguntou Rebecca.
"Ele é preto e o motor fica sob a água. Se a gente for à noite, devemos ficar invisíveis".
David esperou eles terminarem de pensar, não querendo apressá-los. Eles eram bons soldados - sua equipe. Se
algum deles tiver dúvidas, é bom esclarecê-las agora. Ele reparou na jovem face de Rebecca. Ele estava
começando a gostar dela, mais do que uma ferramenta para a missão...
"David colocou os pensamentos de lado e continuou.
"Vamos para os detalhes. Uma vez dentro, nos moveremos em fila através do complexo pelas sombras. Karen
ficará atrás de John procurando o laboratório e verificando o que pode ter acontecido. Steve e Rebecca os
seguirão. Eu irei logo atrás. Quando acharmos o laboratório, entraremos juntos. Rebecca saberá o que procurar
em termos de material, se tiver um sistema de computador funcionando, Steve pode verificar os arquivos. O
resto de nós dará cobertura. Terminando o serviço, nós voltaremos por onde viemos".
Todos revisaram o material de Trent.
"Nós podemos confiar nele? Karen perguntou.
"Parece que ele está do nosso lado em tudo isso. Sim". David respondeu vagarosamente.
"Quais são as chances de contrairmos o vírus?". Steve perguntou.
Rebecca respondeu. "Eu não posso dizer com certeza. Quando fui tirada do caso, eu perdi acesso às amostras
de tecido e saliva. Pelos efeitos, o T-virus é um mutagene que altera a estrutura do cromossomo do hospedeiro.
Pode contagiar plantas, mamíferos, pássaros, répteis etc. Em algumas criaturas ele pode promover um
crescimento incrível; em todos eles comportamento violento. Posso dizer que ele afeta o cérebro, pelo menos em
humanos - induz algo como uma psicose esquizofrênica. Ele também inibi a dor. As vítimas humanas que
enfrentamos não pareciam sentir ferimentos à bala. Na mansão, o vírus parecia ser aero-transmissível. Os
cientistas estavam, com certeza, usando o vírus em experimentos genéticos. E desde que nenhum de meu time
o contraiu, não precisamos nos preocupar com a respiração.
Nós devemos ficar de olho no contato com um hospedeiro, eu digo qualquer contato - essa coisa é bastante
virulenta ao entrar na corrente sangüínea. Uma gota de sangue pode conter centenas de milhões de partículas.
Qualquer contato com o vírus deve ser evitado a todo custo. Com sorte o vírus já deve estar morto... ou
deteriorando. Os hospedeiros, de qualquer modo".
Depois de um momento de silêncio John falou.
"Bom, parece um trabalho de merda. Se nós quisermos chegar lá a tempo, é bom sairmos logo". Ele disse
sorrindo para David. "Você me conhece, eu amo uma boa luta. Alguém tem que parar esses idiotas de espalhar
aquela coisa por aí, certo?".
Todos concordaram, mesmo sem saber o que viriam pela frente.
Olhando no relógio, David viu que faltavam algumas horas para embarcar. "Certo. É melhor a gente ir para o
depósito e "fazer as malas".
Karen estava na traseira da van carregando clips enquanto as misteriosas palavras da mensagem contida no
material de Trent se repetiam em sua mente.
.. Ammon's message received / blue series/ enter answer for key / letters and numbers reverse / time rainbow /
don't count / blue to access.
Ela terminou um clip e colocou junto aos outros - secando suas mãos oleosas na calça ela pegou outro. Uma leve
brisa, cheirando sal e mar morno de verão passou pela quente van.
Eles passaram para o outro lado da estrada encontrando um lugar limpo para acampar a menos de dois
quilômetros da praia. Do outro lado o sol estava se pondo. O não tão distante som das suaves ondas estava
calmo - as baixas vozes dos outros trabalhando.
Steve e David estavam arrumando o barco, enquanto John mexia no motor. Rebecca arrumava um kit médico
que eles "pegaram emprestado" do depósito de equipamentos do S.T.A.R.S..
.. as letras e números... um código? Tem a ver com o tempo? Contar? Seria a soma das linhas, ou outra coisa?
Ela não tirava isso da cabeça. As semi automáticas estavam limpas e prontas, e os clips carregados. Ninguém
estaria levando outras armas além das Berettas do S.T.A.R.S.. David insistiu para que viajassem leves. Depois de
ter ouvido mais sobre os zumbis, ela estava feliz por ter um revólver e uma lanterna.
Com um sentimento de culpa, Karen tirou do bolso do colete seu segredo, confortada pelo peso familiar na mão.
Deus, se o pessoal soubesse, eu nunca ouviria o final disso.
Foi dado pelo seu pai, o que sobrou do seu serviço na Segunda Guerra Mundial, um dos poucos itens que a
fazem lembrar dele - uma antiga granada abacaxi; chamada assim por causa do seu exterior feito de linhas
cruzadas. A granada era seu pé de coelho, ela não participou de uma missão sem ela.
"Karen, precisa de ajuda?".
Assustada, Karen olhou para Rebecca, que possuía um brilho de curiosidade nos olhos.
"Eu achava que não estávamos levando explosivos... isto é uma granada abacaxi? Eu nunca vi uma. Ela está
viva?".
Karen olhou em volta com medo de que alguém do time tivesse escutado - depois olhou para a bioquímica,
envergonhada.
"Shh! Eles nos ouvirão. Vem aqui um segundo". Karen disse. Rebecca, obedientemente, engatinhou para dentro
da van.
Karen estava absurdamente agradecida pela descoberta de Rebecca. Em sete anos de S.T.A.R.S., ninguém
havia descoberto.
"É uma abacaxi, e não estamos levando explosivos. Não diga à ninguém, tá? Eu carrego ela para dar boa sorte.
Rebecca arregalou os olhos. "Você carrega uma granada viva para dar sorte?".
"Sim, e se Steve ou John descobrirem, eles irão cair em cima de mim. Eu sei que é bobeira, mas é um tipo de
segredo".
"Eu não acho bobeira. A minha amiga Jill tem um chapéu da sorte...". Rebecca tocou a fita vermelha em sua
testa. "... e eu tenho usado isto por algumas semanas. Estava usando ela quando fui para a mansão".
Sua jovem face se fechou, e depois sorrindo novamente disse direta e sincera.
"Não direi uma palavra".
Karen decidiu que realmente gostava dela. Ela colocou a granada no bolso olhando para Rebecca. "Obrigado.
Bom, estão todos prontos lá?".
"Sim, acho. John quer conferir os fones de novo, fora isso, tudo está feito".
"Vá em frente e entregue as armas, eu pego o resto".
Rebecca ajudou Karen a descarregar assim que o sol sumia no horizonte. O vento ficou mais forte, a água mais
fria e as primeiras estrelas ficaram à vista sobre o Atlântico.
Eles andaram para a água em silêncio carregando suas armas. Assim que a luz do dia desapareceu John e David
deslizaram o barco na água, Karen colocou um gorro preto e deu um tapinha no pesado bolso para sorte, dizendo
a si mesma que não precisará usá-la.
A verdade está esperando. É hora de saber o que realmente está acontecendo.
[3]
Steve e David foram para a frente do barco com capacidade para seis pessoas. Rebecca e Karen foram logo em
seguida. John entrou por último e ao sinal de David, ligou o motor apertando um botão; era silencioso como David
havia falado.
"Vamos". David disse. Rebecca respirou fundo assim que eles rumavam para norte, em direção a ilha. Ela
procurava na escuridão por algum sinal que marcasse o começo do território particular, mas não conseguia
perceber nada. Estava mais escuro e frio o que ela esperava.
Rebecca viu um flash de luz enquanto David erguia o binóculo de visão noturna em busca de movimento na
costa.
"Eu vejo a cerca". David disse suavemente.
Ela voltou sua atenção para a costa, imaginando o quanto estavam perto. Já se podia ouvir a água se chocando
com as rochas.
"Há uma doca". Disse David. "John, vire a estibordo, duas horas".
Houve um som de metal raspando na madeira - não haviam barcos que se pudesse ver.
Rebecca deu uma olhada na escuridão e só viu o contorno de uma estrutura que poderia ser um galpão onde os
barcos ficam. Não era possível ver as outras construções do mapa de Trent. Eram seis estruturas além do farol.
Cinco delas espalhadas ao longo da enseada, dispostas em duas linhas paralelas - três em frente e duas atrás. A
Sexta estrutura estava atrás do farol. Todos esperavam que essa fosse o laboratório; eles conseguiriam o que
precisam sem procurar no complexo inteiro.
"A casa dos barcos é de madeira, as outras parecem ser de concreto. Eu não... esperem". O sussurro de David
se tornou urgente. "Alguém... duas, três pessoas vieram de trás de um dos prédios".
Rebecca sentiu um estranho alívio fluindo através dela - alívio, desapontamento e uma súbita confusão. Se houver
pessoas, o T-virus pode não ter sido solto. Isso significa que o complexo está ocupado e as patrulhas tornarão a
operação impossível.
Por que está tão escuro? E por que tudo parece morto aqui, tão vazio?
"Vamos abortar?". Karen cochichou, e antes que David pudesse responder, Steve respirou forte fazendo o
sangue de Rebecca congelar.
"Três horas, grande, oh Jesus é imenso".
BAM!
O barco foi atingido e mergulhado na turbulenta água do mar.
A água o envolveu, gelada e salgada, queimando os olhos de David que perdido, ofegava.
Onde está... o time, onde está.
David girou em volta, respirando profundamente, e ouviu uma tosse a sua esquerda.
"Vá para a costa", ele disse girando em um círculo, tentando achar suas posições, achar a da criatura.
O barco estava a dez metros atrás dele, de ponta cabeça. A força do ataque os jogou longe, mais perto da ilha.
Viu duas figuras entre ele e a costa. Ele não podia ver a coisa que acertou o barco mas esperava sentir a mordida
a qualquer momento.
"Vão para a costa". Disse de novo.
"David". John aterrorizado gritou de além do barco que boiava.
"Aqui! John, por aqui, siga a minha voz!".
John foi na direção de David que nadava para a praia rochosa. Ele viu o topo da cabeça de John aparecer, viu
seus braços baterem na escura água.
"Siga-me, estou bem aqui".
Uma gigante sombra ergueu-se atrás de John à uns três metros, arredondada e impossível. Os eventos
aconteceram como num sonho em câmera lenta na frente dos olhos de David.
Ele viu grossos e pontiagudos tentáculos de cada lado, perto do topo de sua erguente sombra.
Tentáculos não, antenas.
E percebeu que estava vendo a barriga de um monstruoso animal que não podia existir, tão grande como uma
casa. O corte negro de sua boca abriu, revelando afiados dentes do tamanho de um punho humano.
Quando aquilo vier abaixo, John será engolido pelas fortes garras. Ou esmagado. Ou levado para o fundo - uma
refeição afogada para a criatura.
No instante que ele viu os fatos, já estava gritando.
"Mergulhe! Mergulhe!".
A aberração estava caindo, seu corpo de serpente envolveu o frenético nadador. David reparou nos bulbosos
olhos, cada um do tamanho de uma bola de vôlei... e a criatura caiu, mandando explosivas ondas no ar. Antes
que David pudesse respirar, uma tremenda onda o atingiu, levando-o violentamente para trás.
Houve um momento de pressa assim que ele lutava contra a força exercida em seus membros, tentando achar
ar na envolvente corrente.
Chutando violentamente, ele voltou à tona sentindo o frio ar batendo na sua pele - e as mornas mãos humanas
puxando seus ombros.
Ele respirava convulsivamente enquanto suas botas raspavam nas rochas, e a voz de Karen atrás dele.
"Peguei ele".
David pegou fôlego e se virou. Pessoas molhadas estavam estendendo as mãos, Steve e Rebecca.
Meu Deus, John.
"Eu estou bem". David disse. "John... alguém está vendo ele?".
Ninguém respondeu.
"John!". Ele chamou, tão alto quanto podia, procurando e nada vendo.
"John". Ele chamou de novo - esperança diminuindo.
"O que?". Uma voz estrangulada veio das rochas à esquerda deles.
David respirou aliviado assim que a figura pingando de John saia das sombras.
Steve foi em sua direção, agarrando seu braço e o apoiando nas rochas.
"Eu mergulhei". John disse.
David se virou olhando para cima, para o complexo, além da fatia de praia coberta de pedrinhas. Eles estavam na
base de uma pequena queda angulosa, no local plano. O choque do monstruoso peixe - se puder ser chamado
assim - não era mais importante. Eles estavam fora da água agora.
Eles nos viram? Não podemos ficar aqui...
"A casa dos barcos". David disse virando a sul. "Rápido".
Karen pegou a dianteira, os outros a seguiram de perto. Ninguém parecia seriamente ferido. David correu depois
de John, com suas pernas doendo.
Assim que eles subiram as pedras, David ouviu um ruído abafado de metal, viu Rebecca abraçando o pacote de
munição em seu peito. Ele sentiu novas esperanças; se eles pudessem vê-las em algum lugar seguro...
A construção estava à frente, à direita, quieta e escura, a porta fechada de frente para a doca de madeira. Não
dava para saber se estava vazia à apenas dez metros de distância.
Sem escolha.
"Fiquem abaixados". David disse em voz baixa e todos foram na direção do lugar.
Karen abriu a porta. Nenhum alarme disparou. Steve e Rebecca foram atrás dela, depois John, depois David que
fechou a porta de madeira.
"Fiquem aonde estão". Disse suavemente. Fora a respiração de todos o local estava quieto. Mas havia um cheiro
horrível no ar, um cheiro de algo morto a algum tempo...
O fino raio de luz cortou a escuridão, revelando uma grande e quase vazia sala sem janelas. Cordas e coletes
salva-vidas pendurados por estacas de madeira, uma bancada corria o comprimento de uma parede, alguns
serrotes e prateleiras desorganizadas...
-meu Deus -
A luz congelou na outra porta da sala, diretamente em frente a que eles entraram. O raio de luz iluminou um
corpo nu e um casaco de laboratório esfarrapado com manchas de óleo. Fibras secas de músculo saiam de uma
face não muito sorridente.
O corpo foi pregado na porta, uma mão fixada mostrando um aceno de boas-vindas. Aparentemente, morto a
semanas.
Steve sentiu algo subindo em sua garganta. Ele engoliu, desviando o olhar, mas a grotesca imagem já estava
fixada em sua mente - a face sem olhos e de pele descascada...
Jesus, isso é alguma piada? Steve sentiu-se tonto.
Por alguns segundos ninguém falou, até que David começou a falar baixo com a mão sobre a luz.
"Vejam seus cintos e soltem seus clips. Eu quero status agora, danos depois equipamento. Respirem fundo,
todos. John?".
A voz de John surgiu à esquerda de Steve. Karen e Rebecca estavam à sua direita. David ainda na porta.
"Eu estou com meleca de peixe no corpo, mas estou bem. Estou com a minha arma mas perdi a lanterna. Tal
como os rádios".
"Rebecca?".
"Estou bem... hum, minha arma está aqui, lanterna e kit médico... ah, e munição".
Steve se checou enquanto ela falava, segurando sua Beretta, ejetando o clip molhado e pondo-o em um bolso.
Havia um lugar vazio em seu cinto onde a lanterna deveria estar.
"Steve?".
"É, sem ferimentos. Arma mas sem luz".
"Karen?".
"Também".
Os dedos de David se moveram, permitindo a leve luz se espalhar pelo lugar. "Ninguém está ferido e ainda
estamos armados; podia ter sido pior. Rebecca, passe os clips, por favor. A cerca não deve estar a mais de
cinqüenta metros a sul daqui, e há árvores suficientes para cobrir desde que ninguém nos tenha visto".
Steve pegou três clips de Rebecca, agradecido. Colocou um na arma.
Ótimo, bom, vamos detonar. Primeiro aquela coisa que quase nos comeu, agora Sr. Morte dando um tchauzinho
como se quisesse dizer oi...
Steve não é assustado facilmente, mas sabia do perigo quando a viu.
David se aproximou do corpo decomposto, um olhar de nojo cobriu sua face. "Karen, Rebecca, venham ver isso.
John pegue a luz de Rebecca e veja se consegue achar algo de útil com Steve".
John pegou a lanterna e andou com Steve pela longa bancada.
"O T-virus não fez isso". Rebecca disse. "Padrão de decomposição todo errado...".
Silêncio, então Karen falou. "Vê aquilo? David me dê a lanterna por um segundo".
John direcionou a luz sobre a suja tábua da bancada. Um copo de café quebrado. Uma pilha de nozes
engorduradas e dardos no topo de um alvo. Uma chave de fenda elétrica empoeirada e gumes num pano
manchado.
Nada, não tem nada aqui. Nós devíamos sair desse lugar antes que alguém venha dar uma olhada...
John abriu a gaveta e a revirou enquanto Steve tentava descobrir o que estava numa prateleira. Atrás deles,
Karen falava.
"Ele não estava morto quando foi pregado, eu diria que estava perto. Inconsciente. Não há machucados;
sugerindo que ele não lutou... e tem marcas de raspagem aqui e aqui; eu diria que ele foi baleado pela porta de
trás e arrastado".
John terminou a varredura na gaveta e eles prosseguiram - o som de botas contra o chão de madeira. Um grupo
de soquetes de tomada. Um rádio barato. Um saco de papéis amarrotados perto de um lápis.
Algo esbarrou nos pensamentos de Steve fazendo-o parar, olhando para o saco. O lápis...
Ele pegou o papel amassado. Haviam várias linhas escritas perto do final da folha.
"Ei, achamos alguma coisa". John disse baixo, iluminando o papel enquanto os outros vinham. Steve leu em voz
alta, iluminando as palavras. Não havia pontuação; ele fez de tudo para fazê-las.
"... 20 de Julho. A comida estava drogada, estou enjoado - eu escondi o material para você, dados enviados. Os
barcos estão afundados e ele deixou os..."
Steve franziu as sobrancelhas incapaz de ler a palavra.
Tris... Tris-Squads?
"Os barcos estão afundados e ele deixou os Trisquads fora - escuro agora, eles virão, eu acho que ele matou o
resto - pare-o - Deus sabe o que ele pensa em fazer. Destruir o laboratório - encontrar Krista, diga a ela que sinto
muito, Lyle sente muito. Eu quero - ".
Não havia mais nada.
"A mensagem de Ammon". Karen disse suavemente. "Lyle Ammon".
Não precisava ser detetive para descobrir quem estava pendurado na porta. Ele tem uma identidade agora. E a
mensagem que Trent deu a David estava tão estranha porque o pobre homem estava dopado ao mandá-la.
"Bom em dar um nome a face, hein?" John disse sem nenhum sorriso.
O que é um Trisquad? Quem é "ele"?.
"Talvez a gente deva olhar em volta mais um pouco". Rebecca disse, mas David balançou a cabeça.
"É melhor deixar para lá. Nós vamos...?
Ele parou de falar quando pesados passos soaram no lado de fora da porta a qual vieram. Todos congelaram,
ouvindo. Outros passos, e quem quer que sejam, não estavam tentando esconder sua aproximação.
Eles pararam na porta - e ficaram lá, sem tocar na maçaneta, sem chutar a porta e sem outro som. Esperando.
David circulou o dedo no ar, apontando para Karen e depois para a porta com o corpo de Lyle Ammon. O sinal
para sair, Karen primeiro.
Todos seguiram em direção do corpo, Steve respirava pela boca a cada "creck" que faziam.
Assim que Karen abriu a porta, o silêncio foi quebrado por tiros de uma metralhadora - vindo da direção de sua
rota de fuga.
[4]
Karen pulou assim que balas perfuravam a porta. Pedaços de carne podre voavam do corpo de Ammon; o corpo
dançava num ritmo de ação macabra.
Quem quer que esteja atirando, está se aproximando. Os tiros ficavam mais altos e estilhaços de carne e
madeira os atingia. Estavam encurralados; ambas as saídas bloqueadas.
Rebecca agarrou com força sua Beretta na mão esperando um sinal de David. Ele apontou para noroeste do
complexo gritando para ser ouvido sob os tiros.
"Rebecca, a outra porta! John, Karen, próximo prédio! Steve, nós cobrimos! Vão!".
Steve e David saltaram fora e começaram a atirar. John e Karen saíram correndo, desaparecendo
instantaneamente na escuridão.
Rebecca mirou na porta de trás, seu coração pulando na garganta. As paredes tremiam.
"Morre! Jesus, porque eles não morrem?" Steve gritou atrás dela, fazendo seu sangue gelar com o tom de terror
em sua voz.
Zumbis?
Sem tirar os olhos da porta, Rebecca gritou o mais alto que pode.
"Na cabeça! Mire na cabeça!".
Não havia como saber se eles escutaram.
"Rebecca, vamos!".
Ainda sob o som de tiros de metralhadora, ela olhou para trás e viu Steve atirando em algo e David sinalizando
para ela se mover.
Ela foi na direção da porta com o corpo ainda pendurado. A cabeça parecia uma abóbora podre, dentes
estilhaçados, pegajosos pedaços de pele radiando de trás da cabeça. A mão não estava mais conectada ao
braço, o *Rádio e a *Ulna estouraram. O corpo estava lá como alguma decoração obscena, acenando...
Steve atirou de novo e o som da metralhadora cessou. Ele ergueu a arma, e assim que abriu a boca para dizer
algo -
- a porta de trás estraçalhou - balas voando através do escuro numa chama de fogo laranja. David a puxou para
porta e ela correu, o som de nove milímetros soou atrás dela.
Ela correu a toda velocidade, seus sapatos molhados socando o chão rochoso, procurando o contorno de um
grande bloco de concreto e as finas árvores que circundavam a escuridão à frente.
"Aqui".
Ela desviou em direção ao chamado, viu a silhueta de John no canto de um prédio. Aproximando-se dele, viu a
porta aberta, Karen em pé na entrada com sua arma em direção a casa dos barcos. Balas ainda cantavam no
escuro.
"Entre!". Karen gritou saindo do caminho.
Rebecca correu sem diminuir até estar dentro. Ela colidiu com uma mesa, batendo dolorosamente sua coxa na
quina.
Virando, viu Karen atirando e John berrando. "Vamos, vamos!".
E Steve passou pela porta respirando. Ele parou antes de atingir Rebecca - uma mão agarrando seu colete.
Rebecca foi até a porta de aço assim que David a cruzou dizendo:
"Karen, John!".
Karen recuou para o escuro, arma ainda erguida. Houve mais três disparos de uma Beretta e John entrou.
Rebecca fechou a porta. O leve "click" da tranca foi dificilmente ouvido pelos ouvidos que apitavam. Do lado de
fora os tiros pararam. Não houve vozes entre os agressores, alarme, latidos de cachorro ou gritos de feridos.
O silêncio era total, quebrado apenas pela respiração no úmido e quente escuro.
Um raio de luz revelou as faces chocadas do time assim que David iluminou seu esconderijo.
Uma sala de meio tamanho, cheia de mesas e computadores. Não haviam janelas.
"Você viu aquilo?". Steve disse para ninguém. "Deus, eles não iam cair, você viu aquilo?".
Ninguém respondeu, e apesar de estarem fora de perigo, Rebecca não sentiu sua adrenalina diminuir, não sentiu
seu coração voltar a nada próximo do normal; parece que a Umbrella encontrou uma nova aplicação para o
T-virus.
E gostando ou não, nós teremos que lidar com as conseqüências.
Eles estavam presos em Caliban Cove. E lá, as criaturas tinham armas.
David respirou fundo e exalou pesadamente, iluminando a porta. "Eu diria que fomos descobertos. Poderíamos
ver no que entramos. Rebecca, acenda as luzes".
Ela apertou o botão na parede e a sala se iluminou, acima fluorescentes pulsando para a vida. David avaliou seu
time e viu que Steve tinha uma mão no peito.
"Você está ferido?".
"O colete a segurou". Ele disse parecendo mais sufocado que os outros, sua face mais pálida do que devia.
Rebecca olhou para David que respondeu com um balanço de cabeça.
"Cheque-o. Mais alguém?".
Ninguém respondeu enquanto Rebecca pedia a Steve para tirar o colete. David virou-se e olhou a sala. Haviam
seis mesas de metal, cada uma com um computador. As paredes de cimento eram planas e não tinham
decorações. Tinha outra porta na parede oeste que deve se aprofundar mais no local.
"Karen, proteja aquela". Ele disse. "Não parece que estamos encarando um acidente. O que o bilhete dizia? A
comida estava drogada e alguma coisa sobre um "ele" matando os outros... é possível que nós não estejamos
olhando para uma contaminação do T-virus?".
--------------------------------------------------------------
* Rádio e *Ulna - Ossos que compõem o antebraço.
-------------------------------------------------------------- Rebecca terminou de examinar o peito de Steve, o expert em
informática estava sentado em uma das mesas na frente dela. "Você está bem. Nada quebrado".
Ela voltou para David. "É, se isso tivesse acontecido, aquele cara na porta, Lyle Ammon, teria sido infectado. Mas
os Trisquads - se eles são o resultado de experimentos com o T-virus, eles já estariam podres agora. Já se
passaram três semanas desde que o bilhete foi escrito. Pode ser um vírus diferente ou alguém esteve cuidando
deles. Manutenção de enzimas, talvez algum tipo de refrigeração".
"E se esse "alguém" ficou bravo e matou todo mundo, pra que perder tempo?". David falou.
"Aquele corpo". Karen disse. "E a criatura ou criaturas lá fora. É como se ele esperasse alguém vir..."
"... mas não significa para nós ir muito longe". John terminou.
"Então o que fazemos agora?". Steve perguntou.
David não respondeu, incerto sobre o que dizer. "Eu... nossas opções são ir embora ou ir mais adentro". Disse
calmamente. "Considerando o que aconteceu, eu não me sinto confortável visitando esse lugar. O que vocês
querem fazer?".
David olhou de face em face, esperando ver raiva e desprezo mas ficou surpreso pelo sorriso de Karen.
"Já que você perguntou, eu quero saber o que aconteceu aqui". Karen disse brilhante e ansiosa.
"É, eu também. Eu ainda quero ver o T-virus". Rebecca disse.
"Eu ainda quero destruir mais desses Tri-boys". John disse sorrindo. "Caramba, zumbis com M-16 - noite do
esquadrão dos mortos-vivos".
"Eu também quero". Steve disse. "Voltar não é muito seguro. Não foi do jeito que eu queria, mas pegar provas
sobre a Umbrella era o plano original... sim, eu quero pegar esses desgraçados".
David sorriu. Ele tinha acabado de subestimar a situação, ele gravemente subestimou sua equipe.
"O que você quer fazer?". Rebecca perguntou de repente. "Mesmo".
A pergunta o surpreendeu de novo, não porque ela perguntou, mas sim porque ele não tinha resposta. Ele
pensou no S.T.A.R.S., em sua carreira e tudo o que isso já lhes custou. Estudou o curioso olhar dela e sentiu os
outros o olhando, esperando.
"Eu quero que nós sobrevivamos". Ele finalmente disse, verdadeiramente. "Eu quero que façamos isso fora
daqui".
"Amém". John resmungou.
David lembrou do que disse à Chris para conseguir a aprovação dessa operação, algo sobre cada um deles fazer
o melhor que puder para ter sucesso contra a Umbrella.
Aprenda, Capitão...
"John, você e Karen, dêem uma olhada neste lugar, vejam as portas e estejam de volta em dez minutos. Steve,
ligue um desses computadores e veja se consegue achar um plano detalhado das áreas. Rebecca, nós veremos
as mesas. Nós queremos mapas, dados sobre os Trisquads, T-virus e qualquer coisa pessoal sobre os cientistas
que possa nos dizer quem está por trás disso tudo".
David olhou para eles, percebendo que foi claro. "Vamos lá".
Eles iriam derrubar a Umbrella.
Dr. Griffith pode não ter percebido a falha na segurança se não fosse pelos Ma7s; eles pareciam úteis apesar de
não ser essa sua intenção.
Ele passou a maior parte do dia no laboratório. Uma vez que ele decidiu soltar o vírus, não restava mais nada a
fazer. As horas voaram; cada olhada no relógio era uma surpresa. Ele seria o primeiro a transformar o mundo.
Com aquilo na sua frente, a única tarefa com que se preocupar é levá-lo para o topo do farol. Logo depois do
amanhecer ele dará as instruções finais para os doutores - e assim orgulhosamente guiar a espécie humana para
dentro da luz, para o milagre da paz.
Foi o pensamento dos Ma7s finalmente terem amanhecido dentro das cavernas, que o despreocupou. Ele já
cometeu esse erro com os Leviathans; ao assumir o controle do complexo, ele abaixou os portões da enseada,
esperando que as criaturas sintam-se tão livres quanto ele. Foi no dia seguinte que ele percebeu que a Umbrella
poderia descobrir e vir dar uma olhada, colocando um fim em seus planos. Ele continuaria mandando relatórios
semanais para maquiar a situação, mas não teria como explicar a "fuga" de quatro criaturas. Foi sorte de os
Leviathans terem voltado.
Os Ma7s eram um problema totalmente diferente. Eles eram imprevisíveis e violentos demais para ficarem do lado
de fora. Mas deixá-los morrer de fome nas jaulas não parecia certo; não foi a escolha deles de existir como
armas de destruição.
Ele ficou em frente ao portão externo por um tempo, considerando o problema dos cinco animais se atirarem uns
nos outros. Havia uma tranca manual perto de lá, e outra no laboratório. Não há modo de soltá-los do farol e
certamente não podem sair até Nicolas ficar em segurança. Ele poderia mandar um dos doutores para isso, mas
os Ma7s tem um metabolismo muito mais lento que o dos humanos.
Um mês antes da tomada do complexo, Dr. Chin e dois de seus veterinários cometeram um erro ao tentar
examinar um doente; foi um modo muito ruim de morrer.
Ele sentou em frente do computador olhando para o cursor que piscava indicando "sistema em uso" num dos
abrigos. Não havia chance de ser um erro, exceto pelos terminais do laboratório, o resto foi desativado semanas
atrás. A Umbrella veio.
Eles NÃO vão, NÃO vão me parar.
A primeira emoção foi raiva, uma fúria que o fez perder a razão.
Ainda haviam dois outros terminais no laboratório e ele andou rapidamente para um deles, olhando os doutores
sentados e quietos. Ele sentiu um ódio por eles, por criar os Trisquads; os "invencíveis" guardas que falharam na
hora em que mais precisou.
Ele sentou, ligou o computador e esperou impaciente pela silhueta do guarda-chuva girando acabar. O sistema de
segurança do complexo ficava no laboratório; de lá ele é capaz de ver o que o intruso está procurando sem
alertá-lo de sua presença.
Ele digitou várias senhas, esperou, depois digitou seu número. Após breves pausas, brilhantes linhas verdes de
informações encheram a tela. Ele conseguiu.
Olhando para as informações, ele pensou porque alguém da Umbrella estaria procurando pelo laboratório. Está
procurando no lugar errado. Os projetistas do sistema não eram idiotas, não há mapas deste lugar nos
arquivos...
.. e a Umbrella saberia disso. Significa que...
O alívio passou por ele, tão puro que ele riu. Não era a Umbrella e isso muda tudo. Mesmo se eles tentarem
achar o laboratório, nunca entrariam sem um key card (cartão-chave). E Griffith destruiu todos.
Exceto o de Ammon. Nunca foi encontrado.
Ele gelou, depois balançou a cabeça. Ele havia procurado em todo lugar pelo cartão, quais as chances de um
invasor achá-lo.
E quais as chances de passarem pelos Trisquads, hein? E o que Lyle fazia nas horas em que você não o achava?
E se ele mandou alguma mensagem? Você só verificava transmissões para a Umbrella, mas se ele contatou mais
alguém?
O computador começou a mostrar informações sobre os testes de socio-psicologia que Ammon projetou. Griffith
sentiu seu controle diminuir de novo.
Eu sou um cientista, não um soldado. Eu nem sei atirar, lutar! Eu seria inútil em combate...
Imprevisível, incontrolável.
Um sorriso surgiu em seu rosto. Sangue escorria, da palma da mão, de onde suas unhas perfuraram, mas não
sentiu dor.
Seu olhar voltou-se para o aberto e silencioso laboratório. Depois para as vazias e estúpidas faces dos doutores.
Para os cilindros de ar comprimido e para o vírus, seu milagre. E finalmente para os controles que dão para a jaula
dos animais.
Nicolas sorriu largamente. O sangue pingou no chão.
Deixe-os vir.
Steve leu em voz alta. Rebecca viu David olhando para o relógio e para a porta várias vezes. Ela não achava que
se passou dez minutos, mas estava perto. John e Karen ainda não voltaram.
"... onde cada um é projetado para medir a aplicação de lógica, assim que um índice de técnicas de projeção
forem combinadas com precisão...".
Deve ser um relatório sobre a análise de algum teste de Q.I.. Deve ter sido escrito por um cientista. Ainda assim
foi o que apareceu quando Steve perguntou por informações sobre a série azul (blue series).
Alguém esvaziou a sala, e fez um bom trabalho. Ela achou livros, grampeadores, canetas, lápis, elásticos e clips
de papel, mas nenhum pedaço de papel escrito.
A busca no computador de Steve não estava indo bem; nenhum mapa e nada do T-virus. Quem quer que tenha
assumido o controle do lugar, acabou com tudo o que eles poderiam usar.
Exceto aquele teste de psicologia que nem se quer mencionou a palavra azul.
Steve apertou uma tecla e brilhou.
"Aqui vamos nós... a série vermelha (red series), quando vista de uma escala padrão, é mais básica e simples,
com um quociente de inteligência 80. A série verde (green series)...".
Ele parou. "Apagou tudo".
Rebecca desviou o olhar da mesa quase vazia a qual vasculhava quando viu David se juntando a Steve.
"Rebecca". David a chamou.
Ela fechou a gaveta e foi até Steve, curvando-se para ler o que estava escrito na tela.
O homem que o faz não precisa. O homem que o compra não o quer. O homem que o usa não sabe.
"É uma charada". David disse. "Algum de vocês sabe a resposta?".
Antes que algum deles pudesse responder, Karen e John voltaram para a sala, ambos segurando as armas.
Karen segurava um papel rasgado numa mão.
"Tudo checado". John disse. "Seis salas, nenhuma janela e só uma porta externa a norte".
"Haviam porta-arquivos na maioria delas, mas estavam vazios - exceto por este papel que achei preso na fenda
de uma gaveta".
Ela deu o papel a David que o viu, seu olhar tornando-se intenso. "Isso é tudo que havia lá?".
"Sim, mas é suficiente, não acha?".
David começou a ler alto.
"Os times continuam a trabalhar independentemente e tem mostrado um notável melhoramento desde a
modificação na *sinapse auditiva.
Na Ocasião Dois, quando mais de um Trisquad está presente, o segundo time (B) não atacará enquanto o
primeiro (A) estiver concluindo. (quando o alvo parar de se mover ou de emitir som).
Se o alvo continuar fornecendo estimulo e o A tiver suspendido o ataque (falta de munição ou defeito em todas
as unidades), B entrará em ação. Se estiverem por perto, patrulhas adicionais vão ser incluídas no ataque e serão
ativadas em sucessão.
Até agora, nós não temos expandido a habilidade sensorial para atingir o comportamento desejado; o estímulo
visual da Ocasião Quatro e Sete continuam improdutivas, apesar disso nós infectaremos um novo grupo de
unidades amanhã e correlacionar os resultados no final da semana. É nossa recomendação que continuemos a
desenvolver capacidade auditiva antes da implantação do detector de calor".
"Aqui é onde está rasgado". David disse.
"Isso explica muito. Por que o time na porta de trás da casa de barcos não fez nada?; o de fora ainda estava
atirando. Depois que você e Steve os derrubou eles entraram num segundo". Karen disse.
Rebecca não estava gostando; a Umbrella continua fazendo experiências em humanos. Em Raccoon, o T-virus
levou de sete a oito dias para contaminar de vez o hospedeiro, e em um mês já caia aos pedaços.
Ela mordeu o lábio, imaginando o que os cientistas de Caliban Cove fizeram com o vírus. E se eles aceleraram o
processo de infecção...
"O sinal da porta norte dizia que estamos no bloco C". John disse. "Você achou um mapa?".
Steve respondeu. "Não, mas dê uma olhada. Eu perguntei por informações sobre a série azul, e esse relatório de
testes de Q.I. apareceu - depois isso. Não consegui mais nada".
John olhou para a tela. "... homem que o fez não precisa, compra, não quer, usa, não sabe...".
Karen, que relia o papel rasgado, levantou os olhos com extremo interesse. "Espere, eu conheço essa aí. É um
caixão".
Steve digitou caixão. Nada mudou.
"Tente " *esquife". Rebecca sugeriu.
Assim que Steve digitou e apertou "enter", a charada foi substituída por:
SÉRIE AZUL ATIVADA.
Em seguida:
TESTES QUATRO (BLOCO A), SETE (BLOCO D), E NOVE (BLOCO B) / AZUL PARA ACESSAR DADO (BLOCO E).
"Azul para (blue to) - a mensagem de Ammon". Karen disse rapidamente. "É isso - a mensagem recebida falava
sobre a série azul, depois dizia, entrar com a resposta para senha". A resposta era esquife".
"E os números dos testes são a senha". David disse. "Tinham mais três coisas na mensagem antes de "azul para
acessar". Devem ser as respostas dos testes - as "letras e números ao contrário", "tempo arco-íris" e "não
conte".
David pegou uma caneta e virou o papel do relatório. A informação agora faz sentido. Ele desenhou cinco caixas
em duas linhas, igual o mapa de Trent, nomeando-a mais ao sul como C. Depois ele temporariamente nomeou os
outros, começando pelo topo à esquerda como A e indo para a direita e depois para a esquerda, pondo os
números dos testes perto de cada letra.
"Supondo que este seja o lado de cima e que nós precisamos resolver os testes em ordem, nós iremos nos
mover em zig-zag entre os blocos". David explicou.
"E supondo que os Trisquads não tenham problema com isso". John disse suavemente.
Rebecca sentiu sua excitação diminuir - pode ver a mesma expressão em seus colegas. Ela sabia que eles teriam
que partir, mas não queria pensar nisso até estar lá.
Agora está. E os Trisquads estão esperando.
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*Sinapse - Relação de contato entre os detritos das células nervosas.
*Esquife: Sinônimo de "caixão" (fúnebre).
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[5]
Eles pararam na porta norte no escuro e abafado corredor, apertando os cadarços, ajustando os cintos e
recarregando as armas.
"Você, Steve e Rebecca com o da esquerda, noroeste daqui. Daremos um tempo, depois Karen e eu sairemos.
Se você estiver certo, estaremos no bloco D; se estiver de ponta-cabeça, bloco B.
De qualquer modo, nós procuraremos o número do teste, e esperaremos vocês nos darem o "vai em frente".
John explicou.
"E se eu não...".
Karen interrompeu dizendo: "Se a gente não o ver em meia-hora, voltaremos aqui e esperaremos por Steve e
Rebecca. Completaremos os testes se for possível".
"Certo". David disse. "Ótimo".
Eles estavam preparados. Haviam infinitas variáveis da equação que poderiam tornar o simples plano, difícil.
"Alguma pergunta antes de irmos?".
Rebecca começou a falar com preocupação. "Eu quero lembrar a todos para terem bastante cuidado com o que
tocarem, ou o que os tocarem. Os Trisquads são portadores, então tente não se aproximar deles, principalmente
se estiverem feridos".
David pensou nas centenas de milhões de partículas do vírus que poderiam haver numa gota de sangue...
Todos esperaram por seu sinal. Ele deixou os pensamentos de lado e colocou a confiança na sua arma, tocando
a maçaneta da porta.
"Prontos?". Com silêncio, agora, no três - um... dois... três".
Ele abriu a porta e saiu para o quente ar da noite ouvindo o barulho das ondas. Estava mais claro do que antes. A
quase lua-cheia havia se erguido, iluminando o complexo. Nada se moveu.
Bem na frente dele a uns vinte metros estava o destino de Karen e John. Tinha uma porta de frente para o bloco
C; eles não precisarão contornar o prédio para entrar.
David saiu da porta para a sua esquerda, encostado na fina sombra da parede. Ele podia ver a frente do prédio
que esperava ser o A, alto, pinheiros à esquerda e atrás dele. Havia uma porta no meio dele, e nenhuma
proteção ao longo dos trinta e pouco metros que os separavam. Uma vez fora de C, eles estarão totalmente
vulneráveis.
Ele respirou fundo e correu abaixado para a porta do bloco. Seu corpo esperava por uma rajada de balas; a
aguda dor que o levaria para o chão. Mas estava silencioso. Os Segundos demoraram uma eternidade para a
porta ficar mais perto, maior...
Então a maçaneta estava sob seus dedos sendo girada, entrando numa sufocante escuridão - virando, viu
Rebecca e Steve chegando.
David fechou a porta rapidamente e sem fazer barulho, sentindo o vazio da sala, a falta de vida - e então o
cheiro o atingiu.
Era o mesmo cheiro da casa dos barcos só que cem vezes mais forte. David conhecia o cheiro. Se deparou com
ele numa floresta na América do Sul, num acampamento cultista em *Idaho e no porão da casa de um serial
killer. O cheiro de podridão era inesquecível.
Quantos haverão aqui?
O raio de luz rasgou a escuridão e encontrou uma pilha de corpos que tomava conta de um grande depósito, não
havia como ter certeza de quantos corpos estavam lá; eles já estavam derretendo uns nos outros, a carne negra
e enrugada dos corpos empilhados no úmido calor. Talvez quinze, talvez vinte...
Steve se afastou e vomitou - um grosso som na quieta sala.
David procurou no resto da sala, encontrando uma porta com a letra A escrita em preto.
Sem olhar para o monte, ele levou Rebecca para a distante porta agarrando Steve.
Eles saíram num corredor sem janelas, e tinha um interruptor de luz perto da porta. David o ignorou por um
momento, esperando seus jovens colegas se acalmarem.
Parece que os funcionários da Umbrella de Caliban Cove foram encontrados.
Karen e John esperaram um minuto depois que os outros foram. Abriram a porta o suficiente para ouvir. O ar
passou pela abertura. Ao longe o barulho das ondas mas nenhum tiro, nenhum grito.
Karen fechou a porta e olhou para John. "Já devem ter entrado. Quer ir na frente ou prefere que eu vá
primeiro?".
"As minhas mulheres sempre vão primeiro". Ele sussurrou. "Isso quando eu vou junto, se é que você me
entende".
"John, só responda a pergunta".
"Eu vou. Espere até eu atravessar, depois siga".
Ela se afastou para deixá-lo passar.
Assim que ele colocou a mão na maçaneta, respirou fundo e a girou. Nenhum som, nenhum movimento lá fora.
Segurando sua Beretta, ele se afastou do prédio e moveu-se rapidamente para a porta a uns vinte passos à
frente.
Alcançando a porta, tocou a fria tranca de metal - ela não se moveria. Estava trancada.
Sem pânico. Ele fez um sinal para Karen esperar e seguiu para a sua direita. Fez a curva sentindo o duro concreto
contra o seu ombro esquerdo e coxa.
Tinha outra porta de frente para o mar.
Rat - atat - atat - atat!
As balas acertaram o chão. John recuou encostando-se na parede, agarrando a fechadura. Vindo da direção da
casa dos barcos, um fila de três - John abriu a porta e pulou atrás dela, ouvindo o ping-ping-ping delas
esmagando o metal, parando a centímetros de seu corpo.
Ele segurou a porta aberta com os pés, deu uma rápida olhada e mirou no flash de luz, apertando o gatilho
enquanto pedaços de concreto e poeira vinham da parede.
Outra olhada e a fila estava mais perto, as três figuras ganhando forma. John atirou novamente pelo espaço da
porta - e quando olhou de novo, só haviam dois em pé.
John virou e viu mais dois a uns três metros no canto nordeste do prédio, ambos com metralhadoras.
Mas não se mexeram para atirar.
As M-16 ainda estavam se aproximando, mas ele só via as criaturas lá em pé, balançando em instáveis pernas.
O da esquerda tinha só metade da face; do nariz para baixo era uma líquida e polpuda massa de pele, pedaços
escuros pendurados por fibras de carne. O da direita parecia intacto até ele ver sua barriga; a mole e saliente
cobra de intestinos através de sua camisa ensangüentada.
Não vai atacar enquanto A estiver terminando.
John recuou para dentro do prédio, segurou a porta aberta contra o par que ainda atirava. Ele mirou
cuidadosamente. Nenhuma das criaturas se mexeu para se proteger, só ficaram lá, o observando.
Bam! Bam!
Dois tiros certeiros na cabeça explodiram sob o som das metralhadoras. Antes deles caírem no chão, John ouviu
outro tiro de nove milímetros.
Karen.
--------------------------------------------------------------
*Idaho - Estado dos E.U.A.
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Ele olhou em volta da porta e viu as figuras do time ativo a uns trinta metros, um deles ainda atirava com a arma
apontada para o céu.
Karen surgiu de entre os prédios com a arma ainda apontada para o convulsivo atirador, de costas para John.
"Não atire nele! Aqui, deixa ele!".
Ela virou para John e ambos entraram no bloco. Assim que ela fechou a porta o som da metralhadora cessou.
A respiração irregular de Karen quebrou o silêncio da escura sala.
"Ei John, foi bom para você?".
Ele piscou os olhos registrando as palavras vagarosamente.
"Indo Primeiro". Ela completou. "Foi como você esperava?".
"Não teve graça". Ele disse.
Um pouco depois eles começaram a rir.
Enquanto eles se moviam pelo corredor, Rebecca pensava em Nicolas Griffith, sobre a história das vítimas do
Marburg - e não haviam provas de que ele está por trás do massacre do pessoal da Umbrella, ela não conseguia
abalar o pensamento de que ele é o responsável.
O corredor os levou através de várias salas, tão sem vida quanto as do bloco o qual vieram. Eles passaram pela
saída no lado mais distante do bloco e depois de outra curva no corredor, finalmente chegaram a uma outra porta
marcada com a letra A, e embaixo, 1-4. Haviam três triângulos debaixo dos números, cada um com cores
diferentes - vermelho, verde e azul.
David abriu a porta, revelando um hall. Rebecca viu mais triângulos coloridos na porta 1 à direita. Outra não tinha
nada.
"Eu fico com o teste". David disse. "Steve, você e Rebecca verão a outra porta. Nos encontraremos aqui".
Rebecca balançou a cabeça e viu Steve fazer o mesmo. Ele parecia um pouco pálido, mas forte o suficiente. Ele
soltou o olhar ao perceber que ela o estava observando. Rebecca sentiu uma simpatia por Steve, percebendo que
ele estava envergonhado por ter jogado o almoço fora.
Os dois abriram a porta e saíram numa outra sala sem janelas, abafada e quente como o resto do lugar.
Rebecca acendeu as luzes e um grande escritório cheio de estantes, apareceu. Uma mesa de aço ficava no
canto próxima a um porta - arquivos com as gavetas vazias e abertas.
"Você quer a mesa ou as estantes?". Steve perguntou.
"Acho que as estantes". Rebecca escolheu.
Ele sorriu quase tímido. "Melhor assim. Talvez eu ache algumas balas de hortelã numa das gavetas".
Rebecca sorriu agradecida pela brincadeira. "Guarde uma para mim".
Eles se olharam, ainda sorrindo - e Rebecca sentiu um calafrio de excitação através do corpo.
Steve desviou o olhar primeiro com a cor de suas bochechas mais rosas do que antes. Ele foi para a mesa e
Rebecca para a fileira de livros, sentindo-se um pouco corada. Havia uma definitiva atração lá, e parecia ser
comum.
Os livros eram sobre o que ela esperava. Química, biologia, modificação de comportamento e vários boletins
médicos.
Ela correu a mão, puxando os livros. Talvez haja algo escondido atrás de um deles.
.. sociologia, *Pavlov, psicologia, psicologia, patologia -
Ela parou, olhando um fino livro preto entre dois grandes. Sem título. Ela o pegou e sentiu seu coração acelerar ao
abrir o pequeno livro, vendo as rabiscadas letras escritas à mão.
Ela viu "Tom Athens" escrito em letras boas na capa de dentro.
Um dos caras da lista, um dos cientistas!
"Eu achei um diário". Ela disse. "É de uma das pessoas da lista do Trent, Tom Athens".
Steve tirou os olhos da mesa. "Mesmo? Vá para o final, qual é a última data?".
"Diz 18 de julho - mas não parece que ele o mantinha certo. A data antes dessa é 9 de julho...".
"Leia a última inscrição". Talvez nos diga o que está acontecendo". Steve disse.
Ela foi para a mesa e inclinou-se nela, limpando a garganta.
"Sábado, 18 de Julho. Esse foi um longo e ridículo dia, o fim de uma longa e ridícula semana. Eu juro por Deus, eu
vou bater no Louis se ele convocar mais uma reunião. Foi para adicionar ou não outra Ocasião no programa
Trisquad, como se precisássemos de outra. Tudo o que ele queria era tê-la no papel, e o resto foi seu besteirol
de sempre - a importância do trabalho em equipe, a necessidade de compartilhar informações, então nós todos
podemos "ficar no rumo certo". Quer dizer, Jesus, é como se ele não conseguisse viver sem o seu nome no
semanal.
Ele não tem feito nada desde o desastre do Ma7, exceto por tentar e convencer todo mundo de que a culpa foi
de Chin. É o fim da picada...
Alan e eu falamos sobre os implantes ontem, está indo bem. Ele vai descrever a proposta esta semana, e NÃO
deixaremos Louis tocá-lo. Com sorte, conseguiremos a luz verde no fim do mês. Alan acha que os White boys
vão querer fazê-los antes de Birkin, só Deus sabe porque; B. não dá a mínima para o que fazemos aqui, ele está
longe de ser brilhante de novo. Eu tenho que admitir, eu quero saber qual será sua próxima síntese; talvez nós
devemos malhar alguns dos nossos Trisquads.
Houve um pequeno susto no D na Quarta-feira, na 101. Alguém deixou o refrigerador aberto, e Kim jurou que
estavam faltando alguns produtos químicos. Estou começando a achar que ela errou na contagem de novo. É
difícil de acreditar que ela está encarregada do processo de infecção. Ela é negligente para cuidar do equipamento.
Estou surpreso por ela não ter infectado o complexo inteiro. Deus sabe que há o bastante para isso.
Eu mesmo deveria conferir o D, para ter certeza de que está tudo pronto para amanhã. O Griffith tem pedido
para observar o processo; primeira vez que ele se interessou pelo que estamos fazendo. Eu sei que é idiota, mas
eu ainda quero que ele seja impressionado; ele é tão brilhante quanto Birkin, em seu próprio modo pavoroso. Eu
acho que ele até intimida Louis, e Louis é geralmente burro demais para isso.
Mais tarde.".
O resto das páginas estavam em branco. Rebecca olhou para Steve, incerta sobre o que fazer, sua mente
trabalhando para juntar os pedaços de informações relevantes. Havia algo lá que a incomodava.
Elementos químicos faltando. Processo de infecção. O brilhante e pavoroso Dr. Griffith...
Agora ela não tem mis dúvidas de que Griffith matou os outros, mas não foi o que a fez dizer em voz alta. Foi...
"Bloco D". Steve disse. "Se nós estamos em A, Karen e John estão no D".
Onde há T-virus suficiente para infectar o complexo inteiro. Onde o processo de infecção aconteceu.
"Nós devemos contar para o David". Rebecca disse. Steve concordou. Eles foram para a porta. Rebecca
esperando que John e Karen não achassem a sala 101 - e se achassem, que não tocassem em nada.
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*Pavlov - Fisiologista russo, ganhador do prêmio Nobel.
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A sala de teste era grande, três das paredes marcadas com linhas formando três cubículos. Acendendo a luz, ele
viu que os testes estavam claramente numerados e marcados com cores, os símbolos pintados no chão de
cimento em frente de cada um.
Todos os testes da série vermelha estavam à sua esquerda, mais perto da porta. Ele viu blocos brilhantes e
coloridos, simples figuras nas mesas em cada cubículo que passou, indo para o fundo da sala. A série verde
estava demarcada na parede oposta. Ele a ignorou completamente.
A parede de trás era marcada com triângulos azuis. O teste número quatro ficava no distante canto direito.
Aproximando-se do fundo da sala, ele ouviu um fraco ruído de força vindo da área azul. Havia um pequeno
computador na mesa do teste número dois. Um teclado e um fone na do três. Como prometido, as séries
estavam ativadas.
Ele parou em frente do último cubículo, voltando sua atenção para a tarefa. Ele não estava certo sobre o que
veria, mas o tipo do teste o surpreendeu. Uma mesa e uma cadeira de metal cinza. Na mesa havia um bloco de
papel, um lápis e um tabuleiro de xadrez com todas as peças no lugar. Assim que ele entrou no cubículo, viu uma
placa de metal na superfície da mesa com números marcados nela.
David sentou na cadeira olhando para os números.
9-22-3 // 14-26-9-16-8 // 7-19-22 // 8-11-12-7
Olhou para o tabuleiro e então de volta aos números. Nada mais para ver; isso era tudo. Ele ordenou
rapidamente as dicas da mensagem de Ammon, imaginando qual seria a resposta. Era "letras e números ao
contrário" ou "não conte"? não parecia ser nada relacionado com o tempo ou arco-íris, tinha que ser um dos
dois...
Se as linhas estão na mesma ordem que os testes, este é letras e números ao contrário. Mas que letras, não
tem nenhuma.
David sorriu de repente sacudindo a cabeça. Os números na placa não são maiores que 26; era um código, e
bem simples.
Ele pegou o lápis, escreveu o alfabeto e o numerou de trás para a frente; A era 26, B 25 até Z, 1.
David começou a decifrar a mensagem.
R... E... X... M...
A última letra era T. Ele olhou para a frase e depois para o tabuleiro. Parecia que alguém tem senso de humor.
REX MARKS THE SPOT
"Rex" significa "rei" em Latim.
Branco sempre começa, então...
Ele tocou o rei branco. Assim que o dedo dele tocou na peça, ela girou em volta e ficou de frente para as costas
do tabuleiro. Ao mesmo tempo, um suave som musical veio de cima. Ele olhou para o teto e viu um alto falante.
Nada mais aconteceu, nenhuma luz piscando ou passagens secretas atrás da parede. Aparentemente ele
passou.
Parecia ser um complicado teste para alguém supostamente tão burro quanto o zumbi de um Trisquad. Os
cientistas deviam ter planos para algo mais... inteligente...
David levantou e foi para a frente da sala - assim que a porta abriu. Rebecca e Steve entraram com expressões
amedrontadas.
"O que foi?"
Rebecca ergueu o livro falando rápido. "Ele diz que o vírus foi usado para infectar os Trisquads no bloco D, na sala
101. Tudo pode estar bem a não ser que John ou Karen tocaram algo contaminado".
Foi o bastante. "Vamos!".
Eles correram pelo caminho a qual vieram em direção a saída.
Eles estavam no iluminado corredor no centro do bloco D, silenciosamente escutando pelo som que os diria sobre
a chegada de David. De lá eles eram capazes de escutar uma das três portas externas sendo usadas. Depois de
vasculharem o prédio e achado a sala do teste, ela e John liberaram todas as portas de saída.
Karen olhou no relógio e esfregou os olhos, sentindo-se cansada por tudo o que aconteceu naquela noite, e ainda
enjoada pelo que acharam na sala 101.
Até John estava mais quieto do que o normal. Não fez uma piada desde que voltaram para esperar.
Talvez ele esteja pensando nas macas com sangue. Ou nas seringas. Ou no equipamento médico amontoado na
pia...
Eles encontraram a sala do teste primeiro, uma grande sala cheia de pequenas mesas, cada uma marcada com
números entre cinco e oito; Karen ficou desapontada de algum modo por ver que o número sete da série azul era
só um punhado de ladrilhos coloridos com letras neles - metade deles de cabeça para baixo e ilegíveis. As cores
correspondiam às do arco-íris, apesar de ter duas peças violeta a mais no monte.
Desde que eles não podiam bagunçá-lo até David completar o primeiro teste, ela sugeriu voltar e explorar o resto
do bloco.
Eles passaram por alguns escritórios vazios e uma cafeteria bagunçada, onde acharam uma caixa de rosquinhas
incrivelmente mofadas. Foi o laboratório químico que os disse sobre o tipo de lugar que a Umbrella criou. Karen
não acreditava em fantasmas mas a sala deu uma sensação jamais experimentada; era fria, simples e
assombrada pelo medo e pelo o frio; à moda de um cientista nazista cometendo atrocidades contra o
companheiro.
"Você está pensando naquela sala?". John perguntou.
Karen acenou mas não disse nada.
.. a porta da sala 101 estava claramente marcada com um símbolo de risco biológico, fazendo eles discutirem
sobre entrar ou não. John dizia que o ambiente poderia estar contaminado.
Karen dizia que nenhum deles tem cortes ou arranhões, e que poderiam achar algo sobre o T-virus. A verdade
era que ela não queria deixar essa oportunidade passar; queria ver o que estava atrás da porta fechada, porque
estava lá.
John tinha finalmente concordado e eles entraram, pisando numa pequena passagem que estava cercada de
folhas de plástico pesado. Haviam chuveiros acima e um ralo no chão; uma área de descontaminação.
Uma segunda porta dava para uma sala que os levou para o sonho de um cientista maluco.
Vidro triturando sob os pés. Um cheiro de suor sob o odor de água sanitária...
John acendeu as luzes e antes da grande sala poder ser vista, Karen sentiu seu coração acelerar. Se parecia com
outros laboratórios a qual ela trabalhou; bancadas e estantes, pias de metal e um grande refrigerador de inox no
canto com uma trava na maçaneta. E de algum modo - o lugar era tão familiar. Um lugar que ela sempre se
sentia em casa.
As pequenas diferenças eram as mais dramáticas. A sala era dominada por uma limpa mesa de autópsia,
adaptada com amarras de velcro. Haviam outras duas macas de hospital, adaptadas do mesmo jeito, junto a
ela.
Ao se aproximar de uma delas, Karen viu uma escura e seca marca na ponta; o fino colchão estava ensopado de
sangue no lugar onde os tornozelos e pulsos de um homem deviam ficar.
No fundo da sala estava uma jaula do tamanho de um closet. Próximo a ela, vários postes finos apoiados na
parede com aproximadamente um metro de comprimento - cheio de agulhas hipodérmicas.
Esses são tipos de instrumentos usados para dopar animais selvagens.
Karen olhou para a maca, tocando levemente a seca mancha, imaginando que tipo de pessoa participou de um
experimento como esse. A mancha seca de sangue era velha e empoeirada fazendo-a pensar sobre como as
vítimas sofreram esperando na jaula, provavelmente observando alguns homens de luvas injetando um vírus
mutante em um ser humano amarrado...
O olho direito de Karen coçou, tirando sua concentração dos terríveis pensamentos, trazendo-a de volta para o
presente. Ela o esfregou, e depois olhou no relógio de novo. Se passaram apenas vinte minutos desde que o time
se separou.
O som de uma das portas foi ouvido, seguido pelo grito de David através do corredor. Ele veio pela entrada
oeste.
"Karen, John!".
John olhou para ela, que sentiu uma onda de alívio. David estava bem.
"Aqui! Continua andando!". John respondeu. "Vire à direita!".
David apareceu dentro de alguns segundos, sua face coberta de preocupação.
"Está tudo...". Karen começou a perguntar mas foi interrompida por David.
"Vocês acharam a sala 101?".
"Sim, no oposto de onde você veio". John disse sorrindo.
"Algum de vocês tocou algo? Vocês tem cortes ou pequenos ferimentos que podem ter entrado em contato com
alguma coisa?". David falou rápido. "Nós achamos um diário dizendo que essa sala era usada para infectar
Trisquads".
John sorriu de novo. "Sério. Nós descobrimos isso em uns dois segundos".
Karen ergueu as mãos para David vê-las. "Nenhum arranhão".
David exalou forte. "Graças à Deus. Eu pensava no pior vindo para cá. Nós achamos os cientistas no bloco A;
Ammon estava certo, ele os matou - e o nosso "ele" agora tem um nome. Rebecca está certa de que é Nicolas
Griffith. Ele foi o cara que ela reconheceu da lista do Trent. Ele tem uma história e tanto, ela te conta quando nos
reagruparmos...".
"Caramba David, eu não sabia que você se preocuparia. Ou que você achasse que nós seríamos burros o
bastante para nos espetarmos com agulhas sujas, num lugar como esse".
David riu. "Por favor, aceitem as minha sinceras desculpas".
"Onde o Steve e a Rebecca estão?". Karen perguntou.
"Provavelmente na próxima área do teste. Eu os vi entrando no bloco B antes de vir aqui... vocês acharam o
teste sete?"
"Por aqui". John disse assim que eles caminhavam pelo corredor. Ele começou a contar a luta que tiveram contra
os Trisquads.
Karen seguiu, esfregando a chata coceira em seu olho direito. Ela deve tê-lo irritado com tantas cutucadas.
Parece estar piorando. E para completar, sentiu uma dor de cabeça chegando.
Ela nunca teve dores de cabeça a não ser que tivesse algo. O mergulho no mar deve ter dado um resfriado a ela
- e a pulsação na sua cabeça não será piedosa.
[6]
Depois de instruir Athens e mandá-lo para o seu rumo, ele preparará as seringas e escolherá um lugar para se
esconder. Não havia mais nada para fazer a não ser esperar. Ele andava pelo laboratório preocupado. E se o
Athens esqueceu como carregar um rifle? E se os intrusos tiverem poder de fogo para derrubar um Ma 7?
Ele se preparou para todas as possibilidades. Mas se algo falhar?
Eu vou matá-los pessoalmente! Eu vou estrangulá-los com as minhas próprias mãos! Eles não me impedirão de
fazer o que deve ser feito. Não podem... não depois de eu ter feito tudo... não depois de tudo o que eu fiz para
chegar até aqui...
Pela segunda vez naquele dia, ele se lembrou da tomada do complexo... as estranhas imagens daquele claro e
ensolarado dia há menos de um mês atrás. Ao invés de bloquear os pensamentos como fez antes, ele os deixou
vir, convidando-os. Ele parou de andar e se sentou na cadeira fechando os olhos.
Um claro e ensolarado dia...
Ao perceber o que devia ser feito, Griffith planejou tudo por duas semanas, trabalhando em cada detalhe. Ele
gastou tempo lendo sobre os Trisquads e memorizando a rotina diária do estabelecimento. Ele observou os
hábitos dos colegas, até poder dizê-los de trás para a frente. Ele olhou por horas os esboços que fez de cada
prédio, caminhando neles em sua mente milhares de vezes. Depois, ele escolheu a data - e alguns dias antes, ele
entraria na sala de processamento dos Trisquads e roubaria alguns frascos de medicação extremamente
poderosa.
Quilosintesína, Mamesidina, Tralfenide; tranquilizadores de animais e um narcótico sintetizado. Alguns dos melhores
trabalhos da Umbrella...
Só levou uma tarde para pegar o que queria. Então ele esperou tanto quanto agora...
O dia antes de executar o plano, seria para observar a produção de um Trisquad e depois pedir para que Tom
Athens venha ao laboratório depois do jantar, para discutir algumas idéias particularmente. Athens ficou feliz em
aceitar - e depois de uma boa xícara de café ele se tornaria a primeira experiência do milagre de Griffith.
Griffith sorriu, relembrando daqueles gloriosos momentos. Se ele tivesse falhado, o plano teria sido abortado. Mas
o incrível sucesso de sua criação provou o contrário. Ele não teria outra escolha a não ser continuar.
.. e na cozinha. Os sedativos nas xícaras de café, bolos, injetados cuidadosamente nas frutas e dissolvidos no
leite e nos sucos.
Dos dezenove homens e mulheres que viveram e trabalharam em Caliban Cove, só uma não tomava o café da
manhã, Kim D'Santo, a jovem e ridícula mulher que trabalhou com o T-virus; Griffith mandou Athens cortar sua
garganta dela enquanto dormia, antes do sol nascer.
E foi um claro e ensolarado dia sem nuvens, enquanto eles devoravam o café da manhã. Saindo para o fresco ar
da manhã e caindo no chão logo depois. Alguns fizeram isso dentro da cafeteria depois de descobrir que foram
envenenados. As palavras decaíram e a droga os levou ao chão.
Griffith tentou lembrar o que veio depois. Ele escolheu Thurman, incapaz de resistir a tentação de lhe mostrar sua
nova criação. Depois Alan Kinneson.
Thurman e Athens depositaram os outros corpos no bloco A. Lyle Ammon ficou escondido por um tempo mas foi
achado por um Trisquad mais tarde, à noite. Nicolas jantou e foi para a cama, acordando cedo para mover
papéis e programas para o laboratório.
Ele olhou no relógio. Se passaram alguns minutos desde que os doutores saíram. Se sentiu aliviado por ter
descansado um pouco - mas o alívio foi embora ao pensar nos intrusos que invadiram o seu território.
Eles não vão me parar. Ele é meu.
Griffith se levantou e começou a andar de lá para cá, esperando.
O teste "tempo arco-íris" número sete, demorou um pouco menos para terminar do que o quatro.
John e Karen mostraram a David a pequena mesa na grande sala. David desvirou as peças coloridas e as deitou.
Abaixo do monte de peças estava uma cavidade alongada, talvez uns trinta centímetros de comprimento; estava
claro de que só sete dos ladrilhos caberiam.
Sete cores no arco-íris, sete peças. Simples. Mas por que existem nove delas?
David as ordenou pelas cores, colocando-as debaixo a cavidade. Cada peça tinha uma letra pintada de preto.
Vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil -
- e três peças violeta com três letras diferentes.
"Isso deveria soletrar algo?". John perguntou.
Da esquerda para a direita, os seis primeiros ladrilhos formavam, J F M A M J.
"Não é Inglês". Karen disse.
As outras peças violeta eram J, M e F.
"É um daqueles em que você deve adivinhar o próximo". David disse. "Aparentemente relacionado com o tempo.
Sugestões?"
John e Karen olharam para o quebra-cabeça, estudando as letras.
Claro que eles estão cansados mas pelo menos estão tentando...
David olhou de volta para as peças tentando se concentrar, mas não parecia conseguir uma idéia coerente.
John franziu de repente com uma triunfante luz em seus olhos. "As letras são dos meses - Janeiro, Fevereiro,
Março, Abril, Maio, Junho... Julho. É a J, a última letra é a J".
"Brilhante". David disse passando a colocar as peças na cavidade enquanto John cutucava Karen com seu
cotovelo. "E você pensou que eu só servia para um bom sexo".
Como sempre, Karen não se aborreceu em responder. Aliviado, David colocou a última peça no lugar, ouvindo um
leve click antes do arco-íris afundar levemente, talvez um milímetro.
Acima deles, um gentil som veio de um alto falante. Este escondido por uma fluorescente.
"Isso é tudo?". John disse. "Nada mais?".
David se levantou sorrindo fraco. "Eu me senti do mesmo jeito com o outro. Nós devemos ir para ver como o
Steve e a Rebecca estão se saindo".
"Modo interessante de dizer, David". John disse rindo. "Boa".
Levou um tempo para que David entendesse, enquanto Karen girou os olhos quase que imediatamente - depois
os coçou. Quando ela abaixou a mão, David viu que seu olho direito estava injetado de sangue. O esquerdo
estava levemente descolorido mas não tão mau.
Ela percebeu seu olhar e sorriu. "Eu o irritei de algum jeito. Ele coça, mas está bem".
"Não coce, pode piorar". David disse indo para a porta. "E deixe a Rebecca examiná-los quando nos
encontrarmos."
Eles voltaram para o corredor e foram para a saída. David se preparando para outra corrida pelo complexo.
Segundo seus cálculos, já foram derrubados três Trisquads inteiros; três homens fora da casa de barcos e um
quarto na ida para o primeiro prédio, depois os cinco de John e Karen entre os blocos C e D.
Informação útil se você soubesse quantos deles existem.
Ele ignorou o sarcasmo ao alcançarem a porta de metal, Karen voltando para apagar a luz. Eles empunharam as
armas e respiraram fundo.
O que quer que esteja para acontecer, ou que já está acontecendo - os fatos já estão firmemente no lugar; unir
os pedaços de um quebra-cabeça.
David parou na porta destravando a Beretta. Rebecca e Steve estavam esperando no bloco B.
O silêncio da sala do teste só era quebrado pelo leve "hum" das máquinas marcadas com números azuis, de
nove a doze, e pelo virar de páginas do diário de Athens que Rebecca lia. Steve sentou na ponta da mesa e a viu
ler, seus pensamentos inquietos e preocupados enquanto esperavam os outros aparecerem.
Seu peito doía levemente. Um tanto pela bala que o atingiu e outro pela preocupação por John e Karen.
Depois de uma rápida olhada nas outras salas do prédio, eles concordaram que a sala do teste era o lugar de
esperar. Parecia que o bloco B era inteiramente dedicado a aspectos cirúrgicos de pesquisas de armas biológicas;
todas as salas brancas e de aço, ameaçadoras e desagradáveis.
Rebecca ergueu a cabeça. "Escute isso".
"Eles ainda estão esperando pela nossa resposta sobre a expansão, desde que Griffith movimentou o tempo de
amp. Nós conseguimos o espaço para vinte unidades, mas eu vou segurar no máximo doze; nós não seríamos
capazes de nos concentrar no treinamento de mais de quatro times por vez. Ammon disse que vai me apoiar se
houver briga".
Steve balançou a cabeça, metade apavorado e metade aliviado pela informação. Eles já tiraram um Trisquad do
caminho, mais algumas unidades machucadas ou mortas; isso era bom. Por outro lado, significava que ainda
haviam alguns times vagando por aí -
- A não ser que eles estejam "ativados" contra David e os outros...
"Você sabe o que significa "movimentou o tempo de amp"?". Steve perguntou.
"Acho que Griffith acelerou o processo de amplificação. Amplificação é o termo para propagação de um vírus pelo
hospedeiro".
Isso não era algo que ele queria ouvir.
"Ótimo. Você achou mais alguma coisa?". Steve perguntou.
"Não. Ele menciona Ma7 algumas vezes. Nada mais específico de que eles foram uma experiência com o T-virus
que não deu certo. E ele é definitivamente meio imbecil".
"Meio?".
Rebecca sorriu brevemente. "Tá bom, é uma gíria. Ele é faminto por dinheiro, desgraçado imoral".
Steve pensou sobre o relatório dos Trisquads. Chamar as vítimas do T-virus de "unidades", fazendo salas de
operações e testes de capacidade.
É como se eles não admitissem o uso de seres humanos, gente de verdade...
"Como eles puderam fazer isso?". Steve perguntou tanto para ele quanto para Rebecca. "Como eles dormiam à
noite?".
Ela olhou para ele como se tivesse uma resposta mas não sabia como dá-la. "Quando você se especializa num
campo, principalmente quando esse campo requer pensamento linear e um foco bem definido num elemento - é
meio difícil de explicar, mas é fácil de se perder nesse elemento, de esquecer que há um mundo fora dele. Ao
perder dias olhando no microscópio, circundado de números, letras e processos... algumas pessoas se perdem. E
se elas são instáveis, a ambição de preservar aquele elemento pode assumir o controle, tornando o resto
descartável".
Steve percebeu onde ela queria chegar e se impressionou com o quanto pensativa ela era, o modo como ela se
comunicava claramente...
.. tudo isso mais um sorriso que iluminava a sala; se - quando nós sairmos daqui, eu vou me mudar para
Raccoon City. Ou ao menos ver se ela está saindo com alguém...
De algum lugar no prédio, passos. Steve pulou da mesa e foi para a porta.
Saindo no corredor, ele ouviu a voz de David.
"No fundo!". Steve gritou, depois esperou ansiosamente observando a esquina do corredor - esperando David
aparecer. John e Karen saudáveis e sorrindo. Rebecca ficou ao lado de Steve esperando o mesmo.
Instintivamente, ele agarrou a mão dela, sentindo um leve solavanco ao juntar os dedos. Ele esperava que ela
puxasse a mão, mas não foi o que aconteceu.
A voz de John ecoou no corredor, alta e cheia de bom humor. "Coloquem as roupas, crianças, vocês tem
companhia!"
Ela soltou a mão de Steve rapidamente, mas o olhar dela explicou tudo.
Ele sorriu levemente e voltaram a esperar pelos outros.
Ela ainda podia sentir o calor da mão de Steve enquanto David, John e Karen cruzavam o corredor. John sorrindo
largamente.
"Desculpe interromper, mas nós achamos que vocês precisassem de ajuda". John disse. "Nada como um jovem
amor, não estou certo?"
Assim que os três entraram na sala, Rebecca lutou para tirar a vergonha que sentiu, sentindo-se terrivelmente
não profissional. Tudo que eles fizeram foi dar as mãos, só por um segundo.
John deve ter percebido o embaraço dela. "Ah, não liga para mim". Ele disse, seu sorriso desaparecendo. "Eu só
estava enchendo o saco do Steve. Eu não quis dizer nada com aquilo"
"Eu acho que nós temos coisas mais importantes para discutir". David interrompeu. "Nós precisamos de
atualização. Eu quero rever algumas coisas"
Ele viu o diário que ela ainda segurava. "Eles acharam a sala mas não tocaram em nada. Você achou mais
alguma coisa útil?"
Ela ficou aliviada com a notícia e agradecida pela mudança de assunto. "Parece que só há quatro Trisquads,
apesar da informação ter seis meses de idade.
"Excelente. John e Karen tiveram outro encontro fora do D e mataram cinco unidades. Isso significa que só deve
restar um grupo". David disse.
Eles tiraram as cadeiras das mesas que acompanhavam a parede e formaram um semicírculo no meio da sala.
David ficou em pé se dirigindo a eles formalmente.
"Eu quero recapitular rapidamente para ter certeza de que estamos na mesma página antes de prosseguir.
Resumindo, este lugar era usado para experiências com o T-virus e foi dominado por um dos cientistas por razões
desconhecidas. Os outros foram mortos e os escritórios limpos de evidências". Rebecca acha que o bioquímico
Nicolas Griffith é o responsável. O fato do complexo ainda estar sendo patrulhado sugere que ele está vivo em
algum lugar. Eu não acho que devemos nos preocupar em achá-lo. Nós já completamos dois testes dados para
nós pelo Dr. Ammon, através do Trent. E eu espero que o "material" que esteja escondido seja a prova que
precisamos para incriminar a Umbrella"
Ele cruzou os braços e começou a andar enquanto falava. "Obviamente já existem várias provas das ilegalidades
ocorridas aqui; nós podemos partir agora e jogar o problema nas mãos dos federais. A minha preocupação é que
nós não temos provas sobre o envolvimento da Umbrella - outra além do computador e do diário. O nome da
Umbrella não está em nenhum deles, sendo que ambos podem ser descartados. Na minha opinião, devemos
continuar com os testes e descobrir o que o Dr. Ammon tem para nós. Mas eu quero ouvir cada um de vocês
primeiro. Esta não é uma operação autorizada, não estamos recebendo ordens e se vocês acham que devemos
ir, nós vamos"
Rebecca ficou surpresa e pôde ver o mesmo nas expressões dos outros. David parecia tão certo antes, tão
empolgado. Agora seu olhar conta outra história. Ele estava tão certo sobre continuar e agora parece querer
outro caminho.
Por que a mudança? O que aconteceu?
John falou primeiro, olhando para os outros antes de David. "Bom, nós viemos até aqui. E se há mais um grupo
de zumbis lá fora, eu digo para terminarmos"
Rebecca acenou. "É, e nós ainda não encontramos o laboratório principal. Nós não sabemos porque Griffith fez
isso - ou ele sofreu um ataque psicótico ou está escondendo algo. Podemos não descobrir mas vale a pena dar
uma olhada. E mais, e se ele destruir mais provas depois de irmos embora?"
"Eu concordo". Steve disse. "Se o S.T.A.R.S. está envolvido com a Umbrella como parece, nós não vamos
conseguir outra chance. Esta pode ser a única oportunidade de fazer uma conexão. E já estamos tão perto, o
terceiro teste está bem aqui - nós o resolvemos e estamos um passo mais perto do fim".
"Também concordo". Karen disse.
Através da tensa voz, Rebecca desviou sua atenção, percebendo que Karen não parecia muito bem. Seus olhos
estavam injetados de sangue.
"Você está bem?". Rebecca perguntou.
"Tô. Dor de cabeça".
"O que foi David?". John perguntou bruscamente. "O que está te incomodando? Você sabe de algo e não quer
nos dizer?".
David os encarou por um momento depois balançou a cabeça. "Não, nada disso. É só - eu tenho um mau
pressentimento. Um sentimento de que algo ruim acontecerá"
"Um pouco tarde, não acha?". John disse sorrindo. "Onde você estava quando nós entramos no barco?"
David sorriu em resposta, esfregando a nuca. "Obrigado, John, eu quase esqueci. Então está decidido. Vamos
resolver o próximo teste, não é? Ó, Rebecca, dê uma olhada no olho de Karen enquanto resolvemos"
Eles se levantaram e foram para o fundo da sala, para a mesa no canto noroeste com um nove azul marcado.
Steve e Rebecca já o viram quando a sala foi encontrada; um pequeno monitor na mesa de metal.
Rebecca pediu para que Karen se sentasse na cadeira do teste dez, que também não fazia sentido; era um
quadro de circuito ligado a uma tábua, e o que parecia ser um par de pinças conectadas a ela por um fio preto.
O olho direito da mulher estava extremamente irritado, a pálida córnea azul flutuando num mar de vermelho. A
pálpebra tinha um magoado e inchado olhar.
Ela se virou para pedir a lanterna de David e viu que ele estava sentado em frente do teste. A tela mostrou várias
linhas escritas no centro.
"Algum tipo de sensor de movimento" - Steve disse sendo interrompido por David, que começou a ler em voz
alta.
"Assim que eu ia para Saint Ives, eu conheci um homem com sete esposas - as sete esposas tinham sete
sacolas, as sete sacolas tinham sete gatos - os sete gatos tinham sete malas; malas, gatos, sacolas, esposas,
quantos estavam indo para Saint Ives?"
Havia um cronômetro digital na tela, mostrando 00:49 e diminuindo. Onze segundos se passaram.
David olhou para o monitor, pensando furiosamente assim que o time se inclinava atrás dele. Ele sentiu uma gota
de suor cruzar sua testa.
Não conte, essa era a dica. Mas o que significa?
"Vinte e oito". John disse rapidamente. "Não, espere, vinte e nove incluindo o homem "
Steve o interrompeu. "Mas se eles tem sete malas cada, seria quarenta e nove mais vinte e um, setenta,
setenta e um com o homem".
"Mas a mensagem dizia não conte". Karen disse. "Se não é para contar - significa não some, ou - espere, tem o
homem com as esposas e o narrador, é mais um"
Trinta e dois segundos se foram. A mão de David pairou sobre o teclado.
Pense! Não conte, não conte, não.
"Um". Rebecca falou rapidamente. "Assim que eu ia para Saint Ives - não diz para onde o cara com as esposas
ia. Isso é o que a dica quer dizer. Não conte ninguém exceto quem ia para Saint Ives!"
É, faz sentido. É uma pegadinha.
Eles tinham vinte segundos restando.
"Alguém discorda?". David perguntou apressado.
Ninguém se opôs. David apertou a tecla...
.. e a contagem parou restando dezesseis segundos. O monitor se desligou sozinho. De algum lugar acima o
familiar som foi ouvido.
David exalou, voltando a se encostar na cadeira. Obrigado, Rebecca!
Ele se virou para dizer, mas ela já estava examinando Karen.
"Eu preciso de uma lanterna". Ela disse olhando em volta assim que John a deu uma. Ela ligou e iluminou o olho
de Karen enquanto os outros observavam e silêncio.
"Está bem inflamado... olhe para cima. Para baixo. Esquerda e direita? Tem algo incomodando ou está
queimando?"
"Na verdade é uma coceira". Karen disse. "Que nem uma picada de mosquito. Eu tenho coçado ele. Deve ser
por isso que está tão vermelho"
Rebecca desligou a luz. "Eu não vejo nada. O outro parece irritado também... começou a coçar de repente ou
você tocou primeiro?"
"Eu não lembro. Só começou a coçar, eu acho"
Um olhar de violenta intensidade tomou conta do rosto de Rebecca "Antes ou depois de entrar na sala 101?"
David sentiu uma fria mão apertar seu coração.
"Depois". Karen respondeu.
"Você tocou algo enquanto esteve lá, qualquer coisa?"
"Eu não". Os olhos vermelhos de Karen se alargaram e quando falou, foi um sussurro ofegante e agitado. "A
maca. Tinha uma marca de sangue na maca e eu estava pensando sobre - eu a toquei. Oh, Jesus, eu nem
mesmo pensei sobre isso. Ela estava seca e eu, minha mão não estava cortada e, oh meu Deus, eu fiquei com
dor de cabeça depois do meu olho começar a coçar"
Rebecca colocou as mãos no ombro de Karen. "Karen, respire fundo. Fundo, tá bom? Pode ser que a dor de
cabeça seja por causa de tanta coceira. Então não tire conclusões agora. Nós não temos certeza de nada". Sua
voz foi baixa e suave, de modo direto. Karen respirou e acenou com a cabeça.
"Se a mão dela não estava cortada...". John disse nervosamente.
Karen respondeu a ele, sua face pálida e voz trêmula. "Os vírus podem entrar no corpo através de membranas
mucosas. Nariz, orelhas... olhos. Eu sabia disso. Eu sabia mas não pensei, eu... não estava pensando nisso"
Ela olhou para Rebecca e David pôde ver que ela estava tentando manter sua compostura. "Se eu estou, quanto
tempo? Quanto tempo antes de eu me tornar... incapacitada?"
"Eu não sei". Rebecca disse.
"Existe uma vacina, certo?". John perguntou voltando seu olhar para Karen e Rebecca. "Existe uma cura, eles
não teriam uma seringa ou algo assim aqui, caso alguém se infectasse por acidente? Eles tem que ter, não?
"É possível?". David perguntou para Rebecca.
A bioquímica balançou a cabeça no começo mas depois vividamente. "Sim, é possível. É provável que eles a
criaram".
Ela olhou para David séria e urgente. "Nós temos que achar o laboratório principal, onde eles sintetizaram o vírus,
e rápido. Se eles fizeram a vacina, é lá que a informação deve estar..."
"A mensagem de Ammon". Steve disse. "No bilhete, ele dizia que nós devemos destruir o laboratório - talvez ele
nos tenha deixado um mapa ou direções".
David se levantou, sua esperança aumentando. "Karen, você se sente bem o bastante para... ".
"- Sim". Ela interrompeu David.
Deus, Karen, eu sinto, sinto muito!
"Duplo passo". Ele disse já indo para a porta. "Vamos".
Eles correram para a frente do prédio. John com sua mandíbula apertada, seus pensamentos em Karen.
De jeito nenhum esse vírus vai pegar a Karen, Sem chance. E se eu achar o desgraçado que fez isso, ele está
morto. Não a Karen, nem no inferno...
Alcançando a porta, eles checaram as armas e esperaram pelo sinal de David.
"Eu vou na frente, John atrás, linha reta". David disse. "Prontos? Vamos"
David abriu a porta e eles deslizaram sob o som das ondas e a clara luz da lua. David depois Karen, Steve,
Rebecca e finalmente John.
Havia a escuridão, o cheiro de pinho, de sal, mas a mente de soldado do John não dizia nada que ele já
soubesse, enquanto cruzavam as sombras. Havia raiva e medo por Karen - fazendo a súbita explosão de uma
M-16, uma total surpresa.
Merda!
John pulou no chão enquanto a rajada vinha da direita. Viu que estavam na metade do caminho entre o bloco E.
Ele rolou e começou a atirar.
O ar se encheu de balas de nove milímetros e de rifles automáticos.
Não posso ver, não posso mirar.
Ele achou os flashes às três horas e direcionou a Beretta para lá, apertando o gatilho seis, sete, oito vezes. A luz
alaranjada tirou os atiradores de vista, mas viu um dos flashes desaparecer, ouviu o barulho diminuir.
- e a raiva tomou conta dele, não a "mente de soldado", mas sim um desconhecido e furioso grito contra os
doentes atiradores. Eles queriam que Karen morresse. Aqueles pesadelos sem cérebro queriam impedi-los de
salvá-la.
A Karen não. A KAREN NÃO.
Um estranho e selvagem ruído golpeou suas orelhas assim que ele se levantava do chão. E ele se levantou,
correndo e atirando. Só quando ele ouviu o som das outras Berettas, percebeu que o grito vinha dele mesmo.
John corria e gritava enquanto atirava nas coisas que queriam para-los, matá-los, transformar Karen em um
deles.
Ele continuou sem ver que eles pararam de atirar, que eles estavam caindo. E então ele estava de pé sobre eles,
com a arma descarregada, e mesmo assim ele ainda puxava o gatilho.
Três deles, branco onde não tinha vermelho.
Click. Click. Click.
A face de um deles era uma massa de tecido enrugado e pele retorcida, exceto pelo buraco ensangüentado na
testa. O olho do outro estava pendurado contra a bochecha atrofiada e um viscoso fluído armazenado na verte
da orelha.
Click. Click.
O terceiro ainda estava vivo. Metade da sua garganta se foi e sua boca abria e fechava sem barulho, abria e
fechava, seus olhos escuros piscavam lentamente para ele.
Click.
O grito de John morria.
"John?".
Uma quente mão em suas costas, a voz de Karen baixa e confortável próxima a ele. Steve e David apareceram,
olhando para a criatura piscante no chão.
"Sim". Ele sussurrou. "Estou aqui".
David mirou a Beretta na cabeça do monstro e disse suavemente. "Afastem-se".
John se virou, começando a andar na direção de seu último destino. Karen ao seu lado, Rebecca à frente. O tiro
foi incrivelmente alto, o crack pareceu ter chacoalhado o chão debaixo de seus pés.
A Karen não, oh por favor, nenhum de nós.
David e Steve se juntaram a eles e sem falar correram para o bloco E.
John apressou o passo, silenciosamente jurando que o Dr. Griffith se arrependerá muito pelo que fez, caso o
achem.
[7]
O bloco E não era diferente dos outros quatro. Calmo, abafado e mau cheiroso.
Eles iam ligando as luzes assim que corriam pelos corredores, procurando a sala que continha a parte final do
segredo de Ammon.
Não demorou muito; quase metade da estrutura era composta por uma área de treinamento de tiro, onde David
encontrou caixas de munição de M-16 - mas nenhuma arma. John perguntou sobre voltar e pegar as armas dos
Trisquads, mas Rebecca negou imediatamente. As metralhadoras estavam quentes, provavelmente impregnadas
pelo vírus.
Como o sangue de Karen agora. Rios de vírus reproduzidos saindo das células, em busca de novas para usar e
destruir...
"Aqui!". Steve disse do final do corredor. Rebecca foi em sua direção, Karen e John não muito atrás. David já
estava junto a Steve na porta. Os triângulos vermelho, verde e azul - um sinal de que eles acharam a sala certa.
Steve abriu a porta e eles entraram. Rebecca continuou observando Karen em busca de sinais que mostrassem o
progresso do vírus - e queria saber o que fazer com a informação sobre o tempo de amplificação. Ela não tinha
dúvidas de que Karen foi exposta, e sabia que os outros não - mas o que ela devia dizer?
Eu digo a ela que isso pode levar horas? Falo com David? Se existe uma cura, ela deve usá-la antes que o dano
seja grande demais. Antes de fritar o cérebro, antes que ela deixe de ser Karen Driver e se torne... outra coisa.
Rebecca não sabia como lidar com isso. Eles já estavam fazendo o que podiam o mais rápido possível. E ela não
sabia o suficiente sobre o T-virus para assumir qualquer responsabilidade. Ela também não queria ver Karen mais
assustada do que já estava. A mulher estava fazendo de tudo para se controlar, mas era obvio que estava à
beira de um colapso; dos olhos vermelho-sangue até o tremor em suas mãos. Os Trisquads foram com certeza
infectados com uma quantidade muito maior do que Karen; talvez ela tenha dias...
.. primeiros sintomas em menos de uma hora? Não seja criança. Você tem que contar, que alertá-la e aos
outros sobre o que pode acontecer. Breve.
Tirando os pensamentos da cabeça ela olhou em volta da sala a qual entraram. Era menor que as outras salas
de teste, e mais vazia. Havia uma comprida mesa no fundo com umas seis cadeiras atrás dela. Na parte da
frente da sala estava uma pequena prateleira; alguns pés de comprimento e um de profundidade. Nela tinham
três botões grandes na superfície lisa; vermelho, verde e azul. A parede por trás da prateleira era recoberta por
lisos e grandes ladrilhos cinza, feitos de algum plástico industrial.
"É isso". Steve disse. "Azul para acessar".
Com um segundo de hesitação, David andou para a estante e apertou o botão -
- e a fria voz de uma mulher soou de um alto- falante escondido acima, assustando-os. Era uma gravação. O
suave tom fez Rebecca se lembrar dos momentos finais na mansão de Spencer - o sistema de destruição.
"Série azul completa. Acessar recompensa".
Um dos ladrilhos da parede deslizou, revelando um escuro buraco no concreto. Enquanto David ia na direção do
espaço escondido, Rebecca sentiu uma explosão de raiva e nojo pela Umbrella. Era desprezível.
Todos aqueles testes, todo aquele trabalho - forçados a enfrentar as vítimas do T-virus. Passe pela série
vermelha, bom cão, aqui está o seu osso... e qual era a recompensa deles por isso? Um pedaço de carne?
Remédios para acalmar a fome? Talvez uma arma novinha em folha para treinar? Jesus, por acaso eles sabiam o
que estavam fazendo?
David tirou um pequeno item do buraco, o que parecia ser um cartão de crédito com um pedaço de papel
grudado em um lado.
Eles se aproximaram de David que olhava com desapontamento. Era um cartão-chave (card key) do tipo que se
usa para abrir portas eletrônicas. Era verde-claro e estava em branco, exceto pela fita magnética. As letras
rabiscadas no pequeno papel só diziam:
LIGHTHOUSE-ACCESS 135-SOUTHWEST / EAST.
(farol-acesso 135-sudoeste / leste)
"A letra é igual a da mensagem de Ammon". Steve disse. "Talvez o laboratório fique no farol...".
"Só há um jeito de descobrir". John disse. "Vamos".
Ele parecia nervoso, o mesmo olhar de quando ficou sabendo que Karen havia contraído o vírus. Depois de ver o
que ele fez com os Trisquads lá fora, Rebecca torceu para que o Dr. Griffith fosse encontrado. John iria rasgá-lo
em pedaços.
David concordou, colocando o cartão no colete "Certo. Karen...?".
Ela concordou. Rebecca viu que sua pálida pele pegou um tom de cera. Mesmo enquanto olhava, Karen começou
a coçar os braços distraídamente. "É, eu estou bem".
Ela tem que saber. Ela merece saber.
Rebecca sabia que não poderia demorar muito. Escolhendo as palavras cuidadosamente. Ciente do tempo
limitado, ela virou para Karen e falou o mais calmo que podia.
"Olha, eu não sei o que fizeram com o T-virus aqui, mas há uma chance de que você comece a experimentar
sintomas mais avançados num curto período de tempo. É importante que você me diga, dizer para todos nós
como você está, física e psicologicamente. Qualquer mudança, nós devemos saber, tá bom?".
Karen sorriu fraco, ainda coçando os braços.
"Eu estou assustada e começando a me coçar por toda parte...".
Ela olhou para David, depois para Steve e John antes de voltar para Rebecca. "Se - se eu começar a agir...
irracionalmente, você vai fazer alguma coisa, não vai? Você não me deixará - machucar alguém?".
"Nós vamos encontrar a cura antes de chegar nesse ponto". Rebecca disse esperando não estar dizendo uma
mentira.
"Vamos". David disse.
Eles foram.
A área do laboratório estava numa gentil inclinação, se erguendo para o norte. Mas assim que eles deixaram o
bloco E e foram para a negra estrutura que se elevava sobre a angra, a inclinação se tornou mais excessiva. O
solo rochoso angulou bastante, talvez uns trinta graus, tornando a caminhada em uma escalada. David ignorou a
tensão em suas costas e pernas; ele estava muito preocupado com Karen e muito ocupado pensando na própria
incompetência, para se encomodar com o desconforto físico.
Elas estavam perto da água, o mais perto desde que saíram dela. A suave brisa da noite seria prazerosa se fosse
numa outra noite e em outro lugar.
Na frente deles o chão fez uma curva para o leste. A angra era calma, mas o som das ondas batendo na costa
aumentou assim que eles se aproximavam. John assumiu a dianteira, depois Karen e os dois jovens logo atrás.
David ficou atrás, dividindo sua atenção entre o complexo à esquerda e atrás, e as estruturas à frente.
Diretamente atrás do farol estava o que deveria ser o dormitório; um longo e achatado prédio com quase o dobro
do tamanho dos blocos que deixaram para trás.
Eles não tinham passado pelos quartos dos funcionários da Umbrella até agora, e esse se parece com o abrigo -
projetado para dormir e comer, sem pensar no aspecto estético. Eles deveriam vasculhá-lo, mas David não queria
perder tempo na busca pelo laboratório.
Esse pensamento trouxe outra onda de culpa e angústia que ele tentou bloquear sem sucesso. Ele precisava ser
efetivo para levá-los ao laboratório o mais rápido possível, sem se deparar nas suas dúvidas e emoções - mas
tudo o que continuava pensando, continuava desejando era ter sido infectado.
Mas você não está. Uma parte dele disse. Karen foi e desejar é inútil. Isso não vai curá-la e irá nublar sua
habilidade de comandar.
David ignorou a pequena voz, pensando no quanto sério ele os pressionou. Quem ele era para liderar uma batalha
contra a Umbrella, para limpar o S.T.A.R.S. e trazer honra para o trabalho? Ele nem mesmo conseguia manter
sua equipe a salvo, não conseguia combater os demônios da culpa que enfureciam dentro dele.
Eles se aproximaram do dormitório sem vida, John diminuindo para deixar que os outros o alcancem. David viu
que seu time estava cansado, mas pelo menos Karen não parecia pior. Na gentil luz da lua, ela parecia pálida e
frágil. O branco da morte que ela tinha sob as fluorescentes se transformou num suave tom de porcelana. Se ele
não soubesse...
Mas você sabe. Quanto tempo, antes daquela pele leitosa começar a descascar? Quanto tempo antes de ela não
poder ser confiada com uma arma, antes de você ter que reprimi-la de -
Pare!
Ele deixou o time respirar, virando para dar uma melhor olhada no farol à menos de vinte metros dali - e sentiu
seu estômago apertar, seu coração tremer por uma razão inexplicável era um velho farol, uma alta, cilíndrica e
indatável estrutura. Olhando para ele, vivenciou o sentimento que teve anteriormente; de morte eminente, de
opções acabando.
"Vamos". John disse rapidamente, mas David o parou agarrando seu braço, balançando a cabeça bem devagar.
Não é seguro. Aquela voz de novo, familiar mas ainda estranha.
Ele olhou para a torre, sentindo-se perdido, sentindo-se incerto e fora do controle. Eles estavam esperando. Não
era seguro mas eles tinham que entrar, eles não podiam ficar lá parados -
- e algo o acertou, uma clara visão do que estava errado na sua mente. O que estava errado mesmo. Não era
sua competência, não era a sua habilidade de pensar, planejar ou lutar. Era algo muito pior, algo que ele poderia
ter percebido antes se não tivesse se deixado amarrar pela culpa.
Eu parei de confiar nos meus instintos. Sem a segurança do S.T.A.R.S. por trás de mim, eu esqueci de ouvir
aquela voz - tão assustado de cometer um erro que eu perdi a minha habilidade de ouvir, de saber o que fazer.
Toda vez que o medo me pegava, eu o ignorava - fazendo-o mais forte.
Pensando nisso, aquela voz ganhou um poder que ele quase esqueceu que tinha.
Não é seguro, então abra a porta rápido, dois abaixados, o resto alto e cobrindo o lado de fora -
Tudo isso passou pela sua mente em segundos. Ele olhou para o time, que o olhava, esperando ouvir algo. E pela
primeira vez, no que parecia uma eternidade, ele sabia que podia.
"Eu acho que é uma armadilha". Disse David. "John, você e eu vamos, eu fico a oeste - Rebecca, eu quero que
você e Steve fiquem um de cada lado da porta e atirem em qualquer coisa de pé. Desculpa Karen, você ficará
fora dessa".
Eles concordaram e foram para as profundas sombras que circundavam a sinistra torre. David na frente,
finalmente achando que fazia algo de útil.
Karen recuou assim que eles se posicionavam, apoiando-se na parede do imenso prédio atrás do farol, para olhar.
Ela se sentiu sufocada por causa da escalada, sufocada e estranha. Havia um zumbido no seu cérebro que não ia
embora, não deixava ela se concentrar...
..ficando enjoada. Ficando enjoada, rápido.
Isso a assustou, mas de algum modo não estava tão mau quanto tem sido. De fato não era tão assustador. O
terror inicial se foi, deixando apenas a memória de um sonho ruim. A coceira estava distraindo, mas já não era
exatamente uma coceira. Pareciam milhões de picadas de insetos na sua pele. Era a única coisa que ela pensou
para descrever a sensação. Era como se a pele dela tivesse ganhado vida e estava se coçando. Era estranho,
mas não exatamente desagradável.
"Agora!".
Ao som da voz de David, Karen reparou na súbita ação à sua frente O zumbido em sua cabeça fazia tudo
parecer estranho, com velocidade maior. A porta do farol sendo arrombada, David e John pulando na escuridão,
balas estourando e brilhando. O alto som de uma M-16 lá dentro. Steve e Rebecca, recuando e atirando lá dentro
repetidas vezes.
A ação, que acontecia em ritmo acelerado fez Karen imaginar como aquilo podia ser -
- então viu David e John saírem de lá, percebendo estar feliz em vê-los. Mesmo com os rostos distorcidos, seus
corpos moviam-se muito rápido...
.. o que está acontecendo comigo...
Karen balançou a cabeça mas o zumbido só parecia aumentar - e ela estava com medo novamente, com medo
de os outros a deixarem para trás. E ela não teria ninguém para, para - acalmá-la. Isso é mau.
David estava na frente dela. "Karen, você está bem?".
Karen sentiu-se feliz e sabia que deveria dizer a verdade.
"Está piorando agora. Eu não penso direito, David. Não me deixe".
John e Rebecca, suas quentes, quentes mãos tocando-a, levando-a para a escura porta. Seu corpo funcionava
mas a sua mente estava nublada pelo zumbido. Haviam coisas que ela queria dizer até entrar num lugar escuro e
quente, que tinha um corpo estendido no chão segurando uma metralhadora. Seu rosto ela podia ver. Não era
estranho; era branco e enrolado. Era um rosto que fazia sentido.
Tinha um teclado próximo a um buraco aberto, escadas descendo e o sorriso. "Um-três-cinco". Steve disse.
"Karen".
"Nós temos que nos apressar".
"Agüenta aí, nós estaremos lá em breve".
Karen deixou-os ajudá-la, imaginando porque suas faces pareciam tão estranhas. Imaginando por que eles
cheiravam tão quente e bom.
Athens falhou.
Dr. Griffith olhou para a piscante luz branca sobre a porta, amaldiçoando Athens, Lyle Ammon e sua sorte. Ele
não disse para Athens como retornar, o que significa que os intrusos o fizeram primeiro. Ammon deixou uma
mensagem ou mandou uma a eles, não importava - tudo o que importava era que eles estavam vindo e que
devem ter a chave. Ele destruiu os marcadores semanas atrás, talvez eles tenham direções, talvez eles o achem
e-
Sem pânico. Você está preparado para isso, siga para o próximo plano. Divisão primeiro, duplicar efeito - menos
poder de fogo, isca para depois... e a chance de ver como Alan se sai.
Griffith voltou-se para Dr. Kinneson e falou rapidamente, deixando as instruções claras e simples, e o caminho
mais fácil possível. Griffith já havia pensado nas prováveis perguntas que eles provavelmente perguntarão, apesar
de que eles poderiam querer saber mais. Ele deu várias frases aleatórias para Alan e depois pegou a
semi-automática da gaveta da Dr. Chin. Olhou ele colocá-la debaixo do avental para ter certeza de que está
escondida. O clip estava vazio mas só descobrirão até que o gatilho seja apertado.
Ele também deu sua chave; um risco, mas tudo era um risco. Com o destino do mundo em suas mãos ele fará o
que for necessário.
Depois que Alan saiu, Griffith sentou na cadeira para esperar um bom tempo. Seu olhar voltado para os seis
canastréis de inox. Se Alan for pego, ainda restam os Ma7, o Louis, as seringas, seu esconderijo e os controles
da câmara de ar em fácil alcance.
Depois de tudo isso, ainda tem o nascer o sol, esperando. Dr. Griffith sorriu sonhadoramente.
Karen ainda podia andar, ainda parecia entender pelo menos uma parte do que eles diziam para ela, sendo que
as poucas palavras não pareciam estar relacionadas com nada.
Assim que eles desciam as escadas do farol, ela disse "quente" duas vezes. Quando eles pisaram no longo e
úmido túnel, ela disse "eu não quero", uma expressão de medo na pálida face dela. Rebecca estava aterrorizada
com o fato de ser tarde demais caso achem uma cura.
Tudo aconteceu tão rápido que ela mau compreendia. Havia um homem esperando por eles no farol, uma
armadilha, como David tinha previsto. Ao entrarem, a pessoa abriu fogo contra a porta debaixo de uma escada
de metal. Graças ao plano de David tudo terminou em segundos. Steve achou a porta de acesso e digitou o
código. Rebecca e John iluminaram o agressor e perceberam que ele foi infectado. A pele cor de papel dele
estava descascada e enrugada, com estranhas linhas entalhadas. Ele era diferente de um Trisquad; menor
decomposição, olhos mais humanos... depois David foi buscar Karen e o interesse de Rebecca foi desviado.
Foi na subida do declive que ela decidiu. Mesmo que isso não faça diferença, ela não conseguia imaginar o que
mais pode ter feito o vírus se amplificar tão rápido. O T-virus pode ter respondido às mudanças fisiológicas dos
batimentos acelerados do coração e da circulação de Karen. Mas assim que eles levaram a fraca e confusa
mulher para o farol, Rebecca percebeu que havia parado de se preocupar sobre como; tudo o que ela queria era
ir para o laboratório, tentar e libertar o que sobrou da sanidade de Karen Driver.
O túnel embaixo do farol parecia voltar na direção do complexo numa curva, e era esculpido na própria pedra
calcária dos rochedos. As luzes eram fixadas ao longo das paredes formando estranhas sombras enquanto
andavam.
John e Steve seguravam Karen entre eles. Rebecca estava por último, sentindo uma horrível sensação de déjà vu
que a fazia lembrar dos túneis subterrâneos da mansão de Spencer. O mesmo frio úmido emanava das pedras,
dando terríveis sensações de estar indo em direção ao perigo. Exausta e com medo de não ser capaz de prever
um desastre.
O desastre já aconteceu, ela pensou observando Karen se esforçar para continuar andando. Nós a estamos
perdendo. Em uma hora ou menos ela estará muito longe de voltar.
Sendo assim, John e Steve não deviam estar tocando nela. Ela podia pegar algum deles, mordendo antes de
poderem fazer algo.
O túnel virou à esquerda e Rebecca percebeu que eles deviam estar muito perto do mar; as paredes pareciam
tremer com as ondas e cheiravam peixe. Partes do chão eram lisas sugerindo a participação de mãos humanas.
Ela imaginava se o túnel se daria em algum lugar -
"Droga". David disse nervoso. "Merda".
Rebecca ergueu a cabeça e ao ver o que tinha à frente, sentiu sua última esperança por Karen ir por água
abaixo.
Nunca encontraremos o laboratório a tempo.
O túnel dava em algum lugar, a algumas centenas de metros de onde David parou. Ele era conectado por mais
cinco túneis menores, todos em diferentes direções.
"Qual deles é sudoeste?". John perguntou. Karen inclinou-se contra ele e sua cabeça tombou para a frente.
"Eu não sei, eu achava que já estávamos indo para sudoeste. Eles não estão alinhados diretamente, e nenhum
vai diretamente para leste".
Eles forma para os túneis, cujas luzes desapareciam a cada curva. Eles foram obviamente esculpidos pela água e
eram conectados às cavernas marítimas que David mencionou. Os túneis não eram tão grandes quanto o que
estavam mas eram suficientes para um humano passar confortavelmente; uns três metros de altura. Não havia
como dizer qual deles ia para o laboratório.
Ou se algum deles realmente vai para o laboratório, nós nem sabemos se ele está aqui embaixo.
"Se nenhum deles vai para leste, nós devemos escolher o que mais parece ir a sudoeste". Steve disse. "Até
porque, leste daqui é água".
Karen murmurou algo ilegível, fazendo Rebecca se aproximar para ver como ela estava. Apesar de John e Steve
ainda a estarem segurando, ela não parecia ter problemas para ficar de pé.
Rebecca tocou sua testa molhada e os olhos de Karen fixaram nela, opacos e vermelhos com as pupilas
dilatadas.
"Karen piscou devagar. "Com sede". Ela disse. Sua voz borbulhando e soando liquidamente.
Ainda responde, graças à Deus...
Rebecca tocou a garganta dela levemente, sentindo o rápido e fino pulso com os dedos. Estava mais rápido do
que antes, no farol. O que quer que o vírus esteja fazendo com ela, não resta muito tempo até o corpo de Karen
desistir.
Rebecca se virou, desesperada e nervosa, querendo gritar para alguém fazer algo -
- mas ouviu passos vindo de um dos túneis. Ela agarrou sua Beretta, Viu John e David fazerem o mesmo
enquanto Steve segurava Karen.
Qual deles, de onde vem? Griffith? É ele?
O som parecia vir de todos eles - e então Rebecca o viu, surgindo do canto na segunda passagem à direita. Uma
figura tombante de avental sujo - e ele os viu.
Mesmo a uns quinze metros, Rebecca pode ver seu histérico rosto. O homem correu para eles com seu curto
cabelo castanho e desarrumado, seus brilhantes olhos e lábios balançando. Ele não estava segurando qualquer
arma, apesar de Rebecca manter a sua erguida.
"Oh, graças à Deus, graças à Deus! Vocês tem que me ajudar! Dr. Thurman, ele ficou louco, nós temos que dar
o fora daqui!".
Ele saiu do túnel e se aproximou de David, aparentemente esquecendo da arma apontada na sua direção.
"Nós temos que ir, tem um barco que nós podemos usar, nós temos que sair antes que ele mate todos nós".
David olhou em volta e viu que Rebecca e John o estavam cobrindo. Ele guardou a arma e agarrou o braço do
homem.
"Calma, calma. Quem é você, você trabalha aqui?".
"Alan Kinneson". O homem respondeu. "Thurman me deixou trancado no laboratório mas ouviu vocês chegarem
e eu fugi. Mas ele é louco. Vocês tem que me ajudar a chegar no barco! Tem um rádio, nós podemos pedir
ajuda!".
O laboratório!
"Para onde fica o laboratório?". David perguntou rapidamente.
Kinneson pareceu não ter escutado.
"O rádio está no barco, nós podemos chamar ajuda e depois fugir!".
"O laboratório". David repetiu. "Me escuta - você veio de lá?".
Kinneson virou-se e apontou para o túnel que estava próximo ao que ele veio, o do meio.
"O laboratório é para lá -".
Depois ele apontou para o túnel a qual veio. "- e o barco é para lá. Essas cavernas são como um labirinto".
Apesar de ele ter se acalmado ao olhar para os túneis, ele ficou tão histérico quanto antes ao voltar-se para as
pessoas à sua frente. Ele devia ter trinta e poucos anos, mas David reparou que ele tinha profundas linhas nos
cantos dos olhos e boca. Devia ser bem mais velho.
Quem ele era e quantos anos tinha não importava, ele estava em pânico.
"O rádio está no barco, nós podemos chamar ajuda e depois fugir!".
Os pensamentos de David corriam juntos aos seus batimentos cardíacos. Era isso, era a chance deles -
- nós vamos para o laboratório, fazemos esse Thurman dar a cura e depois saímos daqui antes que alguém se
machuque -
Ele viu a mesma esperança nos outros, John e Steve balançavam a cabeça positivamente. Rebecca não parecia
empolgada. Ela chamou David com a cabeça para que saísse do campo auditivo de Kinneson.
"Dê-nos licença por um momento". David disse, forçando a educação que ele não sentia. Kinneson era um dos
cientistas da lista de Trent.
"Nós temos que nos apressar!". O homem disse, ficando parado enquanto David ia de encontro aos outros.
Os quatro se juntaram para conversar. Karen descansava nos braços de Steve.
A voz de Rebecca soava preocupação. "David, não podemos levar Karen para o laboratório se Griffith - se
Thurman estiver lá; e se nós tivermos que lutar?".
John concordou dando uma olhada no cientista. "E eu não acho que devemos deixar esse cara sozinho, ele
parece querer ir embora sem a gente".
David pensou. Steve atirava melhor mas John era mais forte. Se eles tiverem que fazer Thurman dar a cura do
T-virus, John poderá intimidá-lo mais facilmente.
"Nós vamos nos dividir. Steve, leve a Karen para o barco e fique de olho no Kinneson. Nós iremos para o
laboratório pegar o que precisamos e encontrá-los lá. De acordo?".
Todos de acordo, e David virou para Kinneson.
"Nós precisamos ir para o laboratório mas a nossa amiga Karen não esta bem. Nós gostaríamos que você
levasse ela e a escolta para o barco e esperasse por nós".
"Nós temos que nos apressar". Kinneson disse, indo logo depois para a passagem a qual veio, num rápido passo.
Seu avental sujo balançando e suas passadas rápidas fizeram David se sentir preocupado.
Ele nem perguntou quem nós éramos...
Assim que Steve e Karen começaram a entrar no túnel, David tocou o braço de Steve e disse. "Olhe ele
cuidadosamente, Steve". Nós estaremos lá o mais breve possível".
Steve concordou e andou depois do estranho Dr. Kinneson, com Karen ao seu lado.
John e Rebecca já estavam na frente da passagem do meio com as armas na mão.
Sem falar os três entraram no sombrio túnel numa cansada mas determinada corrida, preparados para encarar o
monstro humano por trás de tantas tragédias em Caliban Cove.
[8]
Eles viraram a primeira esquina, Karen segurando o ombro dele com sua fria e suada mão - e o cientista estava
uma curva mais adiante, uns bons cem metros de distância.
Steve viu seu avental branco que depois desapareceu, passos se distanciando.
Ótimo. Perdido numa maldita caverna labirinto porque o Dr. Estranho tem tarefas para cumprir.
Karen soltou um baixo som de agonia fazendo Steve sentir o frio nó em seu estômago apertar. Seu medo de
ficar perdido não é nada se comparado ao que sentia por Karen. Ela se pendurava cada vez mais nele, os pés
dela arrastavam no chão.
David, John, Rebecca, por favor rápido, não deixem Karen piorar.
Ele a colocou mais perto com pressa em alcançar Kinneson. Exceto por conhecer Rebecca, esse foi o pior dia da
vida dele. Ele tem estado no S.T.A.R.S. por um ano e meio, e já esteve em situações perigosas. Elas nem
chegam perto do que ele tem passado nas poucas horas desde que foi atirado do barco.
Monstros do mar, zumbis com armas e agora Karen, perdendo a consciência, podendo virar uma daquelas
coisas. Estamos tão perto de sair daqui e ainda pode ser tarde demais...
Ao alcançar a curva no túnel, Steve não podia mais ouvir os passos de Kinneson. Ele apareceu na esquina,
achando que deveria pedir para o doutor esperar, para não ir muito longe -
- e parou frio. Kinneson estava parado a dois metros, segurando uma .25 semi-automática. Ele se aproximou e
pressionou fortemente o cano da arma no estômago de Steve, tirou sua Beretta do coldre e depois recuou. O
doutor andou para um lado, agora segurando ambas as armas e acenou para Steve ficar à sua frente.
"Você virá para o laboratório,". Kinneson disse. "ou eu te mato".
"Nós sabemos o que você fez aqui". Steve falou. "Nós sabemos tudo sobre os malditos Trisquads, nós sabemos
sobre o T-virus, e se você quiser sair daqui sem -
"Você virá para o laboratório ou eu te mato".
Oh meu Deus.
"Você virá para o laboratório ou eu te mato". Ele repetiu e ergueu as armas - a centímetros da cabeça abaixada
de Karen.
Steve sabia que ela estava morrendo, que ela tinha uma boa chance de perder para o vírus e se tornar uma
violenta e insana criatura.
Mas eu tenho que protegê-la. Se eu matá-la para me salvar ou se não houver uma chance de curá-la...
Steve não iria, não podia fazer isso. Mesmo se significasse a própria vida.
Segurando Karen, ele deu um passo à frente do doutor e começou a andar.
Tempo suficiente se passou. Se os intrusos tivessem feito o que deveriam fazer, eles teriam se separado, uns
indo para o lugar errado, outros acompanhando o bom doutor de volta para o laboratório. Se Alan falhar, ele ao
menos deixou os intrusos encurralados. De qualquer jeito, era uma questão de tempo.
Griffith digitou no painel de controle da jaula dos Ma7s, pensando em como seria divertido ver os olhares nos
rostos deles. A luz vermelha mudou para verde, significando que o portão estava completamente aberto.
Sem problema, ele supôs. Desde que eles morram.
O curvo túnel parecia não terminar. Toda vez que faziam uma curva, Rebecca esperava ver uma porta fechada,
com um aparelho ao lado, para o cartão que David tinha. Enquanto as luzes penduradas iam para outro trecho do
túnel cada vez mais vazio e monótono, ela parou de querer ver a porta.
Um sinal bastava, uma seta pintada na parede, um rabisco escrito - qualquer coisa que fizesse o suspense deles
acabar.
Enganados por um cientista da Umbrella?
Kinneson era estranho, estava definitivamente aterrorizado, no ponto de histeria. Será que ele se confundiu por
causa do pânico e mostrou a passagem errada? Ou o laboratório estava mais bem escondido do que eles
pensavam?
Ou ele nos mandou para uma armadilha, uma caverna sem saída - algo perigoso que nos mantenha ocupados
enquanto ele...
Enquanto ele fazia algo para Steve e Karen. O pensamento a deixou mais assustada do que pensar em estar
indo para uma armadilha. Karen estava doente, ela não conseguiria se defender, e Steve -
Não, Steve está bem. Ele pode pegar Kinneson num piscar de olhos.
Exceto que Karen esteja com ele.
O ritmo da corrida diminuiu. David e John respiravam fortemente com expressões de exaustão em seus rostos.
David ergueu a mão, parando-os.
"Eu não acho que esse é o caminho". Ele disse. "Nós já devíamos ter visto algo. E o pedaço de papel dizia
sudoeste, leste - eu não tenho certeza, mas eu acho que depois da última curva nós já estamos indo para
oeste".
"Eu não sei para onde nós estamos indo, mas eu sei que Kinneson falou besteira. O cara trabalha para a
Umbrella. Por Deus". John disse.
"Eu concordo". Rebecca disse. "Eu acho que devemos voltar. Nós temos que ir para o laboratório, rápido. Eu
acho -".
Clank!
Eles congelaram, olhando um para o outro. De algum lugar do túnel adiante, algo metálico foi movido.
"O laboratório?". Rebecca disse esperançosa. Isso pode -".
Um baixo e estranho som a interrompeu. Não era nada que ela já tenha ouvido - um uivo de cachorro combinado
com um estranho assobio e o choro de um bebê recém nascido. Era solitário, surgindo e calando através do
túnel, finalmente transformado-se em um triste grito -
- depois se juntou a outros.
"Corram". David disse, mirando sua arma na vazia passagem à frente. Esperou os dois se virarem para depois
seguí-los.
Rebecca sentiu uma incrível dose de adrenalina passar pelo seu corpo que a mandava correr pelo túnel para fugir
dos sons. John estava à sua frente, podendo ouvir os passos de David logo atrás.
Os uivos ficaram mais altos, e Rebecca pode sentir as pedras vibrarem sob os seus pés. Os pesados passos das
coisas estavam se aproximando.
"Próxima curva". David gritou e assim que eles alcançaram o fim do trecho, onde o túnel virava, Rebecca olhou
em volta erguendo sua arma e mirando-a para a última curva que fizeram. John e David fizeram o mesmo. Vinte
metros de passagem vazia, preenchida com os ensurdecedores choros de seus perseguidores.
Assim que o primeiro pode ser visto, os três atiraram. Balas perfuraram a criatura que Rebecca achava se uma
leoa - depois um lagarto gigante - depois um cachorro. Ela pegou um pequeno lance da impossível criatura. As
pupilas de gato, a cabeça de cobra gigante, e a aberta boca cheia de baba e dentes afiados. O agachado e
poderoso corpo cor de areia e grossas patas dianteiras avançando a incrível velocidade -
- assim que as balas iam de encontro à pele da criatura, apareceu outra logo atrás -
- e as balas acertaram o primeiro, derrubando-o de seus pés com garras, balançando para trás enquanto espirros
de sangue manchavam a parede do túnel -
- e, balançando a cabeça, gritando ferozmente, a coisa se lançou para cima deles novamente.
- Oh merda -
Rebecca puxava o gatilho, quatro, cinco, seis vezes, sua mente gritando tão alto quanto os dois animais
monstruosos que corriam. Oito, nove, dez -
- e o primeiro foi ao chão, mas ainda tinha o segundo e agora um terceiro, descendo o túnel, e na Beretta só
cabiam quinze balas -
Nós vamos morrer -
David recuou, atrás da linha de fogo. Um clip vazio veio ao chão e então ele já estava mirando e atirando de
novo.
Rebecca contou sua última bala e recuou, rezando para que ela pudesse fazer isso tão rápido quanto David -
- e viu que o terceiro animal estava recuando, seu peito forrado de vermelho. Ele caiu na possa de sangue que
fez e ficou lá.
Nada no túnel se mexeu, mas devia ter outros dois vindo. Seus choros continuaram ecoando pelo túnel, mas
estavam fora de visão - como se soubessem o que aconteceu ao seus irmãos.
"Vamos". David disse, ainda mirando para a curva. Eles deram a volta e começaram a ir, ouvindo os uivos das
criaturas híbridas.
***
Griffith saiu rapidamente de perto da porta ao ouvir a chave na fechadura. Não queria estar muito perto do que
Alan possa ter trazido. Ele já tinha Thurman preparado caso haja movimentos súbitos - mas quando ele viu o
jovem homem e sua passiva colega entrarem no laboratório, Griffith duvidou que teria problemas.
O que é isso? Algumas bebidas ou um ferimento?
Griffith sorriu, esperando ele falar ou ela se mexer, seu coração cheio de bom humor. Fazia tanto tempo desde a
última vez em que falou com alguém capaz de responder por si só. Atrás dele Alan fechou a porta e ficou parado,
segurando as duas armas no estranho casal.
O jovem homem deu uma olhada no laboratório, seu escuro olhar fixado na ampla janela da câmara de ar. A
cabeça da mulher estava abaixada, rolando contra o seu peito.
Ele tinha o natural bronzeamento Hispânico, ou talvez de alguém da Índia. Não muito alto, mas robusto o
bastante.
O olhar do rapaz finalmente alcançou Griffith, curioso e não tão assustado como Griffith queria.
Vamos cuidar disso...
"Aonde nós estamos?". O jovem perguntou.
"Você está num laboratório de pesquisa química há aproximadamente vinte metros abaixo da superfície de Caliban
Cove". Griffith respondeu. "Interessante, não? Aqueles hábeis projetistas construíram um laboratório dentro de
um labirinto - ou um labirinto em volta do laboratório. Eu esqueci de -".
"Você é o Thurman?".
Tão delicados!
Griffith sorriu de novo balançando a cabeça. "Não. O Dr. Thurman é esse gordo de pé ao seu lado. Eu sou
Nicolas Griffith. E você deve ser...?".
Antes que o jovem pudesse falar, a mulher ergueu a cabeça, uma pálida face olhando em volta, paralisada pela
fome.
Uma infectada!
"Thurman, pegue ela e a segure". Griffith disse rapidamente. Ele não queria danificar o bom espécime, Alan.
Assim que Thurman agarrou a mulher, o jovem homem resistiu, empurrando Louis.
Griffith sentiu um pulso de agonia. "Alan, bata nele!".
O Dr. Kinneson ergueu a mão e acertou a parte de trás de sua cabeça; ele parou de resistir o suficiente para
Thurman tirar a mulher do seu poder.
"Ela se foi". Griffith disse, imaginando por que alguém na terra iria querer segurar uma infectada. "Olhe para ela,
você não pode ver que ela não é mais humana? Ela é um dos bonecos de Birkin, um dos famintos pateticamente
alterados. Um zumbi. A unidade de um Trisquad sem treinamento".
Enquanto Griffith falava, uma fascinante mudança de acontecimentos ocorreu. A mulher se contorceu em volta
de Thurman - e com um rápido movimento, mordeu o rosto de Louis. Ela arrancou um grosso e ensangüentado
pedaço de sua bochecha e começou a mastigar com entusiasmo.
"Karen, oh meu Deus, não -".
Por mais preocupado que ele parecia, o jovem não se mexeu para fazer alguma coisa. Nem Louis. O doutor
permaneceu calmo, com sangue escorrendo pelo rosto.
"Olhe para isso". Griffith disse. "Nem uma careta, dor ou emoção... sorria, Louis!".
Thurman sorriu mesmo enquanto a mulher ia para cima dele de novo, tentando morder seu proeminente lábio
inferior. Com um molhado e rasgante som, o lábio foi arrancado, expondo um sorriso ainda maior. Sangue jorrou.
A mulher mastigou.
Incrível. Absolutamente de tirar o fôlego.
O jovem rapaz estava tremendo. Ele não parecia estar gostando do que via, e Griffith percebeu que ele não irá;
ela deve ter sido uma amiga.
"Alan, pegue o nosso rapaz e segure-o bem forte".
Ele não resistiu, traumatizado com o que via. A mulher pegou outro pedaço da bochecha e Louis sorriu
deficientemente, provavelmente por causa de um trauma muscular.
Mesmo querendo continuar olhando, Griffith tinha algo para ser feito. Os amigos do rapaz podem ter derrubado
os Ma7s.
Griffith andou para a estante e pegou uma seringa milimetrada, tocando um dos lados com o dedo. Ele virou para
a quieta visita, pensando se deveria contar o seu plano para pegar os outros invasores. Não é isso que os "vilões"
fazem nos filmes? Ele considerou isso por um momento, depois decidiu; ele sempre viu isso como uma bobagem.
Ele está longe de ser um vilão. Eles é que invadiram seu território, ameaçando seus planos de criar a paz mundial.
Não havia dúvidas sobre quem eram os mau feitores nessa história.
O jovem ainda assistia à bizarra cena; Karen engolia o nariz de Thurman.
Andando rapidamente, Griffith inseriu a agulha no braço do jovem e apertou o êmbolo.
Só depois ele reagiu, seu olhar chocado voltando-se para Griffith, se debatendo e contorcendo. Os braços de Alan
pareciam flexíveis, mas conseguiam conter o Hispânico.
Griffith sorriu. "Relaxa". Disse. "Em pouco tempo você não sentirá mais nada".
Devagar, devagar demais, eles voltavam na direção da câmara, com as criaturas seguindo cuidadosamente para
não serem vistas, cantando terríveis músicas. John sentia os minutos passarem, minutos que já podem ter
custado a vida de Karen, minutos a qual Steve pode estar lutando para sobreviver -
Venham, seus merdas! Nós estamos bem aqui, comida de graça! Venham!
Eles tentaram gritar, tentaram atirar e sapatear, e as criaturas não morderam a isca. David tentou enganá-los se
escondendo na esquina do túnel - e quando os lagartos gigantes apareceram, os três pularam e começaram a
atirar. John acertou um deles, dando para perceber que eram só dois - mas ambos se protegeram antes que
algum dano sério pudesse acontecer.
"Traiçoeiros desgraçados". John reclamou pela vigésima vez. "O que eles estão esperando?".
Nem Rebecca nem David responderam. As criaturas estavam esperando eles andarem.
Depois de uma eternidade, eles ouviram o familiar som da cavernosa câmara a qual deixaram; as ondas
abafadas e as fortes vibrações do mar.
Graças a Deus, graças a Deus.
"Quando chegarmos na abertura, cubram o túnel,". David disse. "eu vou correr, atirem neles -".
"Você atira melhor do que eu, eu corro mais rápido. Eu deveria fazer isso".
Eles estavam chegando lá. John olhou para David e o viu fazendo sua decisão - e decidiu.
"Certo, corra o mais rápido que puder para as escadas do farol. Nós cuidaremos deles".
"Entendido. É só dizer quando". Rebecca disse.
Outro passo e eles foram circundados pelo espaço aberto.
John rapidamente ficou entre o túnel a qual vieram e outro ao lado. Ele viu David se posicionar, Rebecca de pé na
boca da passagem -
"Vai!".
Ela virou e correu a toda velocidade e John se preparou, ouvindo a aproximação dos ruídos.
"Agora!". David gritou, e ambos pularam na passagem atirando.
Crack - crack - crack - crack!
Os monstros estavam a menos de seis metros e a pesada munição os atingiu, ótimo, buracos ensangüentados
aparecendo em sua elástica pele, sangue espirrando violentamente.
Os uivos desapareceram sob os tiros antes das coisas répteis chegarem perto da abertura. E os dois estranhos
corpos caíram no irregular chão.
Assim que pararam de atirar, Rebecca voltou para a câmara, seus olhos expressando urgência.
"Vamos". David disse, e então os três entraram no túnel a qual Kinneson desapareceu.
John finalmente deixou o medo entrar.
Karen, esteja bem. Por favor, não deixe nada acontecer a ela, Lopez -
O túnel dobrava angulosamente para baixo, e os três viraram com ele. John jurou a si mesmo que se eles
estiverem bem, se ainda restava tempo para Karen, se eles pudessem sair de lá vivos, ele daria qualquer coisa.
O meu carro, a minha casa, o meu dinheiro, eu não vou transar com mais ninguém até casar...
Não era suficiente - mas ele sacrificaria qualquer coisa, a qualquer custo.
O túnel virava novamente, ainda descendo. Eles fizeram a curva -
- e viram um grupo de portas, uma pequena passagem entre a interna e a externa, uma gigante e iluminada sala
atrás. Steve estava encostado na moldura da porta segurando a sua Beretta, sua face pálida e vazia.
"Steve! O que aconteceu, o que -". David disse, mas o olhar no rosto de Steve ao vê-los se aproximarem, estava
terrivelmente vazio, fazendo-os pararem de andar. Enquanto sua mente tentava negar isso, o coração de John
se encheu com um horrível sentimento de perda.
"Karen está morta". Steve disse suavemente, depois virou-se e entrou na sala.
Oh, não...
Rebecca sentiu um profundo sentimento de tristeza ao olhar para Steve. John e David sentiram o mesmo, quietos
ao lado. O vazio rosto de Steve lhes disse o que deve ter acontecido.
Pobre Karen. E Steve, como isso deve ter sido...
Eles acharam o laboratório tarde demais. Ela olhou para o leitor de cartão próximo à porta enquanto entrava na
barreira dupla, sentindo um horrível senso de futilidade no porque disso. Eles vieram em busca de informações,
mas resolveram testes, Karen se infectou - e agora Steve.
.. mas Kinneson. Thurman -
Ela passou pela segunda porta, impressionada. O laboratório era imenso, estantes cheias de equipamentos,
mesas com altas pilhas de papel - mas foi a porta do outro lado que chamou sua atenção, para o grosso vidro
reforçado na porta.
Era uma câmara de ar, a porta de dentro aberta. E atrás da segunda porta fechada, a escura água do oceano
fluía, bolas subindo. O laboratório estava debaixo d'água.
A segunda coisa que ela percebeu foi o sangue, um abundante rastro vermelho cruzando o chão de concreto em
respingos e poças - terminando num borrão arrastado. Steve deve ter movido um corpo.
Deus, não o da Karen...
Steve andou para a câmara de ar e virou-se, parecendo estar esperando por eles cruzarem a sala. Rebecca foi
em sua direção. John e David vinham atrás dela, quietos, olhando a vasta sala -
- quando atrás deles, a porta fechou.
Eles viraram e viram Kinneson, segurando uma semi-automática, uma 25, apontando para eles sem expressões
no rosto.
"Larguem suas armas".
A baixa e calma voz era de Steve.
Rebecca olhou para ele, que apontava sua arma para eles, sua face tão vazia quanto a de Kinneson. Agora perto
da câmara de ar, ela viu o corpo no chão. Era a Karen, sua branca face estava suja de sangue, um buraco
escuro onde seu olho esquerdo deveria estar.
Oh, meu Deus, o que está acontecendo -
David andou na sua direção, segurando sua arma normalmente, confusão e descrença em sua voz. "Steve, o
que você está fazendo? O que aconteceu?".
"Larguem suas armas". Steve repetiu. Sua voz não tinha emoção.
John não se segurou e gritou. "O que você fez com ele?!". Ele se virou e atirou em Kinneson.
A bala perfurou violentamente sua *têmpora esquerda. Kinneson foi ao chão -
BOOM!
O segundo tiro veio da Beretta de Steve, acertando a parte debaixo das costas de John. Sangue jorrou pelo
buraco enquanto ele se virava, assustado. Rebecca viu o escuro fluido escorrendo de sua boca, confusão em
seus olhos
- e John caiu no chão de cimento, não se mexendo mais. Tudo aconteceu em segundos.
"Larguem as armas". Steve disse calmamente, apontando sua semi para Rebecca.
Por um momento, Rebecca não pôde fazer nada. Ela olhou para Steve com horror, incapaz de entender o que
aconteceu.
"Desarmar". David disse, soltando sua arma no chão.
Rebecca fez o mesmo.
"Recuem". Steve disse, ainda apontando sua arma para ela.
"Faça o que ele diz". David disse.
Eles recuaram devagar, Rebecca sem tirar os olhos do rosto de Steve, que agora é só uma máscara usada por
um...
.. por um zumbi.
Eles pararam perto de uma mesa, olhando Steve recolher suas armas. A mente de Rebecca girando com mais do
que terror e perda. Um zumbi que podia falar e andar como um homem. Como Kinneson. Como Steve.
Como? Quando isso aconteceu?
Assim que Steve retornou, uma prazerosa voz masculina surgiu do canto da sala, de trás de uma mesa.
"Tudo acabado, então? Meu Deus, que tragédia Grega...".
A voz foi seguida por uma aparição. Um magro homem de cabelo acinzentado se levantou e contornou a mesa,
movendo-se para ficar ao lado de Steve. Ele devia ter cinqüenta e poucos anos, seu cabelo longo o bastante para
tocar o colar de seu avental, sua face exibindo um radiante sorriso.
"Eu vou repetir minhas instruções em benefício dos nossos convidados". O homem disse felizmente. "Se algum
deles fizer movimentos bruscos, atire".
Rebecca sabia quem ele era, sabia que não estava errada.
"Dr. Griffith". Ela disse serenamente.
Griffith levantou uma sobrancelha, parecendo entretido. "A minha reputação me precede! Como você sabe?".
"Eu já ouvi sobre você,". Ela disse. "ou Nicolas Dunne, que seja".
Seu sorriso ficou mais aberto. "Tudo no passado,". Ele disse, balançando a mão no ar. "e você nunca terá a
chance de contar isso para alguém, eu estou com medo".
Seu sorriso murchou, começando a falar friamente. "Vocês me atrasaram o bastante. Eu estou cansado desse
jogo, e acredito que seu bom e jovem homem vai matá-los...".
Ele se iluminou de repente, e Rebecca viu a maldade em seus olhos, a completa loucura.
"Agora que eu penso nisso, porque mais bagunça? Steve, diga aos seus amigos para entrarem na câmara de ar,
por gentileza".
Steve manteve sua arma apontada para o coração dela. "Entrem na câmara de ar". Ele disse calmamente.
Antes que David pudesse dar um passo. Rebecca começou a falar rapidamente.
"Foi o T-virus? Você o usou como uma plataforma para o que quer que seja? Eu sei que você foi o responsável
pelo aumento do tempo de amplificação, mas isso é algo novo, é algo que a Umbrella nem sabe, é um mutagene
com uma fusão de membrana instantânea, não é?".
Griffith arregalou os olhos. "Steve, espere... o que você sabe sobre fusão de membrana, garotinha?".
"Eu sei que você a aperfeiçoou. Eu sei que você criou uma rápida fusão de vírus que aparentemente infecta o
tecido cerebral em menos de uma hora -".
"Em menos de dez minutos". Griffith disse, seu comportamento sorridente mudando para o de um fanático, seus
lábios sendo apertados pelos dentes. "Esses animais burros e seus ridículos T-virus! Birkin pode ter consciência,
mas o resto deles são tolos, brincando com seus jogos de guerra enquanto eu criava um milagre!".
Ele se virou, apontando para a fila de brilhantes tanques de oxigênio próximos à porta de entrada. "Vocês sabem
o que é aquilo, vocês sabem o que eu sintetizei? Paz! Paz e liberdade para toda a espécie humana!".
David sentiu seu coração bater mais forte, seu corpo suando frio. Griffith estava passando na frente deles agora.
"Tem o suficiente da minha criação naqueles tanques para infectar bilhões de pessoas em menos de vinte e
quatro horas! Eu encontrei a resposta, a resposta para as patéticas e egoístas pessoas em que os humanos se
tornaram - quando eu der o meu presente para o vento, o mundo se tornará livre de novo, ele será renascido,
um simples e bonito lugar para toda criatura, grande ou pequena, sobreviver pelos seus instintos!".
"Você está louco". David disse, mesmo sabendo que Griffith poderia matá-los. "Você está fora de si".
Por isso o meu time está morto. Ele quer transformar o mundo em coisas como Kinneson e Steve.
Griffith se dirigiu a David. "E você está morto. Você não vai estar aqui quando o meu milagre abençoar esta terra,
eu, eu - o deprivo do meu presente, vocês dois! Quando o sol nascer amanhã, haverá paz, e nenhum de vocês
jamais conhecerá um segundo dela!".
Ele olhou para Steve. "Ponha-os na câmara de ar, agora!".
Steve ergueu a arma de novo, indo na direção da abertura, onde o corpo sem vida de Karen estava caído no
chão ensangüentado.
Ele está fora do alcance, não dá para pegar a arma a tempo -
"Steve, agora! Mate-os se não forem!".
--------------------------------------------------------------
*Têmpora - Cada uma das duas porções laterais, superiores da cabeça.
-------------------------------------------------------------- David e Rebecca cruzaram a comporta. David tinha que fazer
algo ou o mundo seria infectado pelo sonho desse maníaco psicótico -
Steve fechou a comporta.
Eles estavam presos.
Griffith estava furioso, tremendo com ódio enquanto a comporta se fechava. Eles não viram, eles não
entenderam nada?
Ele olhou para o jovem Steve, a raiva tentando levá-lo à loucura, fazê-lo vomitar, fazê-lo matar -
"Ponha essa arma na sua cara feia e puxe o gatilho, morra, morra, morra!'.
Steve ergueu a arma.
Rebecca gritou, batendo seus punhos na grossa porta de metal.
Não - não - não - não -
BOOM!
O barulho do tiro calou os gritos dela. Steve caiu na base da porta, impiedosamente fora de visão.
Ele já estava morto, não era mais o Steve.
"Jesus...". David falou, e Rebecca levantou os olhos, vendo o olhar selvagem e cruel de Griffith -
- e de repente Griffith sorriu, um brilhante e triunfante sorriso. Rebecca olhou nos azuis olhos dele e percebeu que
nunca odiou de verdade.
Seu desgraçado miserável.
Ele lhes contou seu plano, mas naquele segundo, o pensamento era grande demais para ela medir. Tudo o que
ela conseguia pensar era que ele já tinha matado Karen e John, e agora Steve - e ela não queria mais nada além
de destruí-lo.
Griffith foi para o painel ao lado da porta e começou a apertar os botões, ainda sorrindo. Houve um pesado clank
vindo do chão gradeado - e água começou a entrar, drenada das frias e escuras águas do mar que pressionava
a comporta externa. A câmara de ar era grande o bastante para ela e David ficarem longe do corpo
ensangüentado de Karen. A água estava avermelhando, vindo de uma abertura escondida, cobrindo seus pés e
os dedos de Karen.
Um minuto, talvez menos...
No laboratório, Griffith estava apoiado numa mesa na frente deles, braços cruzados e olhando. Atrás dele, o
cenário da morte - Kinneson, John e os cilindros de metal cheios do mal de Griffith.
Nós temos que fazer alguma coisa!
Rebecca virou para David desesperada, rezando para que ele tenha algum plano - mas só viu resignação e dor
nos olhos dele, enquanto olhava o corpo de Karen.
"David -".
"Eu sinto muito". Ele disse. "Tudo culpa minha...".
As mãos de Karen já flutuavam, seu curto cabelo loiro boiando ao lado de seu rosto. Rebecca agarrou o trinco da
porta - em vão. A fria água entrou nos seus sapatos, sob seus pés, escuridão.
"Se eu não tivesse sido tão egoísta... Rebecca, eu sinto muito, você tem que acreditar que eu nunca -".
No ápice da histeria, ela agarrou os ombros dele, gritando. "Tá bom, você é um idiota, mas se Griffith soltar
aquele vírus, milhões de pessoas vão morrer!".
Por um segundo ela achou que ele não tivesse escutado - e então, seus olhos afiaram. Ele olhou rapidamente
para o pequeno compartimento e ela pode ver sua mente pensando. Aço, comportas impermeáveis; uma jaula
do outro lado da porta externa, como aquelas de tubarão, dois metros de altura; água fria já nos joelhos, os
braços e a cabeça de Karen flutuando.
"As portas são de aço, as janelas tem duas polegadas de espessura - se a comporta externa abrir, lá está a
jaula".
Ele olhou nos olhos dela, os seus com frustração e raiva - e balançou a cabeça.
Ela soltou seus braços, começando a tremer de frio. David se aproximou e colocou seus braços em volta dela.
"Sorte sua de me conhecer". Ele disse, esfregando os braços de Rebecca assim que os dentes dela começaram a
trepidar, assim que a água alcançava suas coxas, assim que a mão de Karen encostava na sua perna-
Sorte. Karen.
O coração de Rebecca passou a funcionar em meia batida.
David a segurou fortemente, desejando um milhão de coisas, sabendo que era tarde demais para eles. Ele viu
Griffith, que ainda olhava, ainda sorria.
Assassino -
De repente, Rebecca estirou-se contra seu peito. Ela o empurrou e agarrou o corpo de Karen, seus dedos
procurando freneticamente dentro do colete da mulher morta. Rebecca riu, uma brilhante e alegre risada -
- ela ficou louca -
- e tirou um escuro e redondo objeto de um dos bolsos de Karen. David viu o que era e sentiu um puro espanto
correr em seu corpo.
"Ela carregava isso para dar sorte". Rebecca disse rapidamente. "Está viva".
David pegou a granada e a segurou atrás das costas, seus pensamentos fluindo novamente, a água em sua
cintura e quase no peito de Rebecca.
- a porta externa abre, puxar o pino, entrar na jaula, segurar a comporta fechada.
Mesmo assim eles morreriam. Mas se eles conseguissem passar para o lado de fora, eles não iriam sozinhos.
[9]
Griffith via a água subir. Seus pensamentos já voltados para o amanhecer e para o problema de carregar
pesados cilindros escada acima.
O par estava fingindo um belo show. A garota nervosa com o Britânico; o olhar desesperado para sair dessa
situação. O abraço final, depois o pânico - a garota agarrando a infectada, o Britânico falando com ela,
preocupado com sua loucura mesmo com a água em seu jovem peito.
Triste, tão triste. Eles nunca deviam ter vindo.
Agora o homem a está levantando, pateticamente trabalhando para prolongar o inevitável assim que a água
cruzava o vidro. Depois de mortos, ele soltaria a jaula, dar um banquete aos Leviathans antes de libertá-los de
novo, livres para nadar e viver seus dias em paz.
O corpo flutuava através da janela, e os dois invasores se posicionavam entre as comportas, lutando para
respirar o que restava de ar.
Aconteceu de repente, ele nunca se preocupou em saber quem eles eram, quem os mandou...
.. e isso não importava agora, certo?
A câmara encheu. A luz no painel de controle mostrou que a porta externa foi aberta. Estava acabado -
- exceto por eles estarem se movimentando para sair, nadando para dentro da jaula - e algo pequeno caindo
enquanto eles fechavam a porta atrás deles -
Griffith franziu e -
BOOM!
Ele só teve tempo de registrar descrença, antes da comporta golpear seu corpo e a torrente de água tirar sua
respiração.
Quando a granada explodiu, tudo aconteceu muito rápido para Rebecca pensar. Só houveram desagradáveis
sensações de terror.
Uma brilhante luz apareceu antes da porta ser arrancada. Milhões de bolhas surgiram como balas. Uma incrível
pressão parecia se propagar em negras e frias ondas sob um abafado e estranho som.
Ela chutou, chutou e chutou, e suas pernas começaram a enfraquecer. As bolhas a levaram para cima -
- ar, um suave ar bateu em seu agonizante rosto. Ela bebeu convulsivamente, respirando, tomando goles da
coisa, ainda não pensando em nada. Mas seu corpo pensava, o cheiro de sal, as ondas balançando, um alto e
envolvente zumbido -
CRASH!
Uma forte onda a empurrou, levando água ao seu nariz enquanto litros da mesma choviam em sua cabeça.
Rebecca respirou, sua mente conectada ao seu corpo novamente.
David! O que -
"Rebecca!". Uma chocada voz veio de algum lugar no escuro. O zumbido estava claro agora, era -
CRASH!
Outra onda a atingiu, tentando sufocá-la como Griffith tentou e não conseguiu. Quando o chuvisco acabou ela viu
a luz - finos raios cortando a escuridão.
Era um barco. Um poderoso motor soava enquanto a embarcação se aproximava dela.
"Rebecca!". O desesperado chamado de David veio de sua esquerda.
"Estou aqui -".
CRASH!
Desta vez, ela pode ver o impacto. Ela viu a grande coluna de água contra os raios de luz, antes dela atingir suas
costas. Ela tentou respirar mas a coluna a atingiu, colidindo no agitado mar.
Umbrella?
O barco estava a menos de trinta metros quando o motor foi desligado. Alguém se debatia por perto -
- e as luzes se moveram, achando David não muito longe.
Uma voz masculina veio do barco que passou a se mover lentamente na direção deles. "Aqui é o Capitão Blake
do S.T.A.R.S. da *Philadelphia! Identifiquem-se!".
S.T.A.R.S.?
Blake continuou, sua voz mais alta com o barco mais perto. "A água não é segura! Nós vamos tirá-los daí!".
"Trapp, David Trapp, Exeters, e Rebecca Chambers -". David disse.
Quando Blake falou de novo, disse a coisa mais maravilhosa, as mais bonitas palavras que Rebecca já escutou.
"Burton nos enviou para achá-los! Esperem!".
Barry. Oh, graças a Deus, Barry!
Exausta e espiritualmente desgastada, Rebecca ainda tinha força suficiente para sorrir.
Foi quando ela ouviu um leve gemido atrás dela.
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*Philadelphia (Filadélfia) Cidade à noroeste dos E.U.A., no estado da Pensilvânia.
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Estava escuro, tingido de vermelho e um eco de dor. Naquela escuridão, não havia ego e paz; ele estava sozinho
e ativo na batalha para encontrar o fim da ausência de luz. Ele sabia que encontrar o fim era importante, mas a
confusão de imagens assustadoras bloqueavam o seu caminho, insistindo que ele não precisava se apressar. Um
fantasma, uma fúria. A risada de uma mulher que não era mais uma - a luz que se apagou numa explosão de
fogo e som.
A confusão o chamava para explorar profundamente e desistir de sua busca pela luz. Ele quase desistiu de lutar,
deixar as sombras o dominarem - quando a luz o encontrou numa incrível explosão.
Então ele foi atirado no gelado e escuro líquido. O ar coalhou em seus pulmões e o forte frio aliviou sua dor - mas
depois ele pode respirar, e o dentado pedaço de madeira debaixo de suas mãos lhe disse que, de fato, havia luz.
Ele não estava morto, apesar de quase ter desejado isso - ele dificilmente podia respirar, e a dor nas suas costas
era esquisita - e então, ele ouviu a voz de David no meio do nada.
Ele tentou chamar, mas tudo o que conseguiu foi um exausto gemido. Houve um flash de luz - e escuridão
novamente. Mas houve tempo para ele entender o que estava acontecendo. Dor e movimento, uma sensação
de leveza e depois um aperto em sua bochecha. Um calafrio e mais movimento, o som de roupa e papel
rasgando, vozes dando ordens. Quando ele voltou a si, viu uma sombra num colete do S.T.A.R.S., curvando-se
sobre ele, com uma agulha numa mão.
Tomara que seja morfina, ele tentou dizer mas, de novo, só gemeu.
Um segundo depois, viu duas manchas pálidas flutuando sobre ele, enquanto a sombra do S.T.A.R.S. trabalhava
com mornas e gentis mãos. As manchas eram David e Rebecca, olhos escuros, cabelos pingando, faces
cansadas e perdidas.
"Você vai ficar bem, John". David disse suavemente.
"Agora descanse. Está tudo acabado".
Ele sentiu uma quente sensação em seu corpo que mandou a dor para bem longe. Ele olhou para os olhos de
David e tentou dizer o que mais queria. Custou muito, mas precisava ser dito.
"Vocês dois parecem algo que um coiote comeu e depois cagou". John cochichou. "É sério...".
John entrou numa confortável escuridão, ouvindo um suave som de risadas.
A médica de meia idade do S.T.A.R.S. levou John para uma pequena cabine do barco de dez metros, voltando só
para dizer que tudo está bem. Duas costelas quebradas, alguns cortes profundos e um pulmão perfurado. Um
helicóptero já foi acionado e virá em breve. A médica parecia confiante sobre a recuperação completa de John.
David chorou um pouco com a notícia, sem ficar nem um pouco envergonhado.
Eles sentaram na popa do barco, debaixo de um cobertor de lã enquanto Blake e sua equipe continuavam
posicionando cargas, indo e voltando pela angra. O pessoal de Pensilvânia já trouxe para cima quatro das
criaturas gigantes, antes de ver a explosão de ar e escombros que vieram do laboratório.
David tinha seu braço em volta de Rebecca, ela apoiada em seu peito assim que o escuro céu ficava suavemente
azulado. Nenhum deles falou, cansados demais para fazer algo além de observar a equipe trabalhando. Blake
prometeu enviar mergulhadores lá embaixo assim que John for levado e a angra estiver limpa.
Já tinham duas roupas de mergulho no convés do barco. Um jovem Alpha, cujo nome David havia esquecido,
estava preparando os equipamentos. Ele lembrava Steve...
O pensamento sobre Steve não trouxe o tipo de dor que David esperava. Dói, dói como o inferno - Karen e Steve
se foram - mas quando ele pensou no que eles conseguiram impedir, do que fizeram parte...
.. não foi em vão. Nós acabamos com o sonho maluco de Griffith, evitamos que ele matasse milhões de
inocentes. Deus, eles ficariam tão orgulhosos...
A dor era ruim, mas a culpa não foi tão devastadora. A responsabilidade por suas mortes era algo que ele terá de
conviver.
Os pensamentos de David se voltaram para a Umbrella, para que função eles jogaram com Griffith. A Umbrella
criou a situação para que isso acontecesse; a completa indiferença pela vida humana só pode ser encorajada por
alguém como Griffith. E sem a Umbrella, o cientista nunca teria tido acesso ao T-virus...
Algum dia, eles pagarão por tudo o que fizeram. Não hoje ou amanhã, mas em breve...
Talvez Trent os ajude de novo. Talvez Barry, Jill e Chris descubram mais em Raccoon. Talvez -
Rebecca se inclinou mais nele, e David deixou seus pensamentos irem embora, contente por estar sentado e sem
pensar em nada. Ele estava muito, muito cansado.
Assim que os primeiros raios de sol apareceram no horizonte, Blake declarou as águas limpas, sendo que David e
Rebecca não o ouviram; ambos tinham caído num profundo e calmo sono sob o nascer de um novo dia.
[Epílogo]
A sala de reuniões era quieta e elegante. Três homens sentaram à grande mesa de carvalho. Um quarto estava
de pé na janela, olhando pensativamente para fora, para o céu matutino. O homem na janela podia ver os outros
refletidos no vidro, sem que eles percebessem. Por mais afiados que eram politicamente, eles eram meio tolos
sobre o que acontece a sua volta.
Depois da conferência por telefone, o homem que sempre vestia azul falou primeiro, dirigindo-se ao velho homem
de bigode.
"Você precisa discutir as ramificações disso?". Azul perguntou.
Bigode respondeu. "Eu acredito que o relatório já as cobriu". Disse levemente.
O bebedor de chá interrompeu, batendo seu copo na mesa. O quente líquido derramou pelos lados, distorcendo o
pequeno símbolo da Umbrella que o adornava.
"Eu não acho que é uma boa idéia subestimar a magnitude disso... dificilmente". Chá disse. "Particularmente não
com a atual instabilidade...".
Azul acenou. "Eu concordo. Coisas como esta podem sair do controle. Primeiro o secundário em Raccoon, agora o
de Caliban -".
Bigode interrompeu. Azul propriamente embaraçado, limpando a garganta.
"Isto é, eu acho que deveria haver uma investigação mais completa sobre esses problemas. Você não acha Sr.
Trent?".
O homem da janela se virou, imaginando como essas pessoas conseguiram chegar onde estão. Ele não sorriu,
sabendo que isso os incomodava.
"Eu receio ter que voltar nisso". Trent disse friamente.
"Claro, leve o tempo que quiser. Sem pressa, senhores, não estou certo?".
Sem outra palavra, Trent virou e andou para fora da sala, exteriormente tão preciso e intimidador quanto eles
esperavam, quanto eles queriam.
Internamente, ele queria saber quanto tempo esse jogo vai durar.
***
Resident Evil: Caliban Cove
[www.fyfre.com]
Autora: Stephani Danelle Perry.
Editora: Pocket Books (U.S.A.)
Tradução/Resumo: Raphael Lima Vicente [F.Y.F.R.E. Team]
Tradução iniciada em: 13 de Maio de 2000.
Tradução terminada em: 20 de Outubro de 2000.
Digitação começada em: ?/?/2000.
Digitação terminada em: ?/?/2000.
Resident Evil TM & © 1998
Capcom Co., Ltd
© 1998 Capcom U.S.A., Inc. Resident Evil #3 City Of The Dead
[S.D. Perry]
[Créditos - www.fyfre.com]
Esta tradução é conteúdo exclusivo do site F.Y.F.R.E. e não deve ser copiado sem permissão da equipe do site.
Para isso, mande-nos um e-mail [team@fyfre.com].
O F.Y.F.R.E. é pioneiro nas traduções dos livros da série, e nosso trabalho já completa quase cinco anos.
Infelizmente, várias pessoas estão se utilizando de nosso árduo trabalho para ganhar dinheiro e enganar fãs
desinformados, fazendo-os comprar as traduções por um alto preço, sendo que elas podem ser lidas
gratuitamente aqui no no site. Estamos cansados de tentar tomar providências, e o único meio que temos agora
de informar do nosso trabalho de tradução é avisar no nosso próprio site. Por várias vezes, pensamos seriamente
em retirar as traduções do site, devido a tanta polêmica, mas não seria justo para com os fãs.
[Prólogo]
Raccoon Times - 26 de Agosto de 1998
Plano "manter a cidade segura"
RACCOON CITY - Na frente da prefeitura, o Prefeito Harris anunciou ontem à tarde, em uma coletiva, que o
conselho da cidade estará contratando pelo menos dez novos policiais para se juntar à polícia de Raccoon, por
causa dos assassinatos brutais que atormentaram Raccoon no começo deste verão e devido a suspensão do
S.T.A.R.S.. Junto com o Chefe Irons e todo os membros do conselho de Raccoon, Harris assegurou os cidadão e
repórteres que a cidade será mais uma vez uma comunidade segura na qual se vive e trabalha, e que a
investigação dos onze assassinatos "canibais" e dos três ataques animais fatais estão longe da solução.
"Só porque ninguém foi atacado no mês passado significa que os oficiais eleitos desta cidade podem relaxar"
declarou Harris. "As boas pessoas de Raccoon merecem ter confiança em sua força policial e estarem seguras de
que seus representantes políticos estão fazendo de tudo para dar segurança aos cidadãos. Como muitos de
vocês sabem, a suspensão do S.T.A.R.S. será provavelmente permanente. Aquela unidade de investigação de
assassinatos e sua subseqüente desaparição de Raccoon City sugere que eles não se importam com essa
comunidade - mas eu quero assegurar vocês que nós nos importamos, e que eu, o Chefe Irons e os homens e
mulheres que vocês vêem aqui, não queremos mais nada senão fazer de Raccoon um lugar a qual nossas
crianças possam crescer sem medo".
Harris continuou a detalhar um plano de três pontos feito para reforçar a confiança e manter os cidadãos de
Raccoon longe da violência.
Além de contratar de dez a doze policiais, o horário de recolher permanecerá ao menos até Setembro, e o Chefe
Irons irá pessoalmente comandar uma força tarefa de alguns oficiais e detetives para continuar a busca dos
assassinos que tiraram as vidas de onze pessoas entre Maio e Julho deste ano...
Cityside - 4 de Setembro de 1998
Renovação do complexo da Umbrella
RACCOON CITY - A instalação química da Umbrella no sul do centro da cidade começará a ser reformada na
próxima Segunda-feira. Esta será a terceira renovação estrutural semelhante a do ano passado para a
companhia. De acordo com a porta-voz da Umbrella, Amanda Whitney, dois dos laboratórios dentro da instalação
principal serão adaptados com novos equipamentos projetados para síntese de vacinas e receberá um moderno
sistema de segurança. Em adição, todos os escritórios conectados terão seus computadores atualizados na
próxima semana.
Mas será isso um problema para o trânsito do centro da cidade? Whitney diz, "com o prédio do R.P.D. ainda
terminando uma de suas reformas, os passantes locais já estão ficando cansados de ruas bloqueadas. Nós
estamos fazendo de tudo para não interferir no trânsito; a maior parte da construção será interna e o resto será
feito depois das horas de trabalho". O pátio do R.P.D., nossos leitores devem se lembrar, foi repavimentado e
ajardinado depois que algumas rachaduras misteriosas apareceram no cimento; o tráfego teve que ser desviado
por dois quarteirões na Rua Oak durante seis dias.
Ao perguntarmos porque tantos "reparos" ultimamente, Whitney respondeu, "a Umbrella tem estado na frente da
competição há tanto tempo quanto continua com a atual tecnologia. Estes serão meses de trabalho, mas eu acho
que valerá o esforço...".
Raccoon Weekly Editorial - 17 de Setembro de 1998
Irons vai se candidatar?
RACCOON CITY - O Prefeito Harris pode estar numa difícil corrida na próxima primavera. Notícias de dentro do
R.P.D. estão dizendo que Irons, Chefe da Polícia pelos últimos quatro anos e meio; pode estar concorrendo para
chegar ao topo do ministério na próxima eleição, contra o popular, e sem oposição Devlin Harris, já no poder por
três períodos consecutivos. Embora Irons não tenha confirmado os fatos, o ex-membro do S.T.A.R.S. recusou a
negação do rumor.
Com sua popularidade bem alta desde o encerramento do caso dos assassinatos neste verão (ainda não
resolvido) e da expansão planejada do RPD, Irons pode ser o homem que tirará Harris da Prefeitura; a questão é,
serão os eleitores capazes de esquecer o suposto envolvimento de Irons nos fundos de campanha ilegais em
Cider District? Ou seus caros gostos em arte e design interior, o qual tornaram o RPD em algo mais parecido com
um museu?...
Raccoon Times - 22 de setembro de 1998
Adolescente atacada no parque
RACCOON CITY - Há aproximadamente 18:30h da noite passada, Shanna Williamson de quatorze anos foi
surpreendida por um estranho no parque da Rua Birch no centro da cidade, quando voltava do treino para casa.
O homem veio de trás de uma cerca no parque e a derrubou de sua bicicleta antes de tentar agarrá-la. A jovem
conseguiu sair de lá com alguns arranhões, e correu para a residência de Tom e Clara Atkin; Clara chamou as
autoridades, que conduziram uma busca no parque, mas não acharam nenhum sinal do agressor.
De acordo com a garota (através de um depoimento hoje de manhã), o homem pareceu ser um pedestre: suas
roupas e cabelos estavam sujos, e cheirava mal, "um cheiro de fruta podre". Ela disse que ele parecia bêbado,
vacilando e caindo depois dela.
Com a onda de assassinatos de Maio para Julho ainda não resolvidos, o RPD está levando este fato seriamente: o
agressor mostrou uma evidente semelhança com os membros da "gangue" do Victory Park em Junho deste ano.
Harris convocou uma coletiva para hoje, e Irons já declarou que o primeiro dos novos policiais chega na próxima
semana, e que viaturas patrulharão os parques do centro da cidade...
[1]
Com o pessoal esperando no carro de Barry lá fora, Jill fez o possível para se apressar. Não era fácil, a casa tinha
sido revirada desde a última vez que esteve lá. Livros e papéis espalhados pelo chão, e estava muito escuro para
andar facilmente. O fato de sua casa ter sido violada era preocupante, mas já era de se esperar. Ela devia estar
agradecida por não ser do tipo sentimental - e pelos intrusos não terem achado seu passaporte.
Na escuridão de seu quarto, Jill pegou meias limpas e calcinhas e as colocou em sua mochila, desejando poder
acender as luzes. Fazer as malas no escuro era mais difícil do que se imaginava, mais ainda com a casa
bagunçada; mas eles não podiam se arriscar. Era improvável que suas casas estavam sendo vigiadas, mas se
alguém estiver olhando, uma luz poderia abrir fogo.
Pelo menos você vai embora. Chega de se esconder.
Eles estavam indo para território estrangeiro, invadir o quartel inimigo e provavelmente serem mortos no
processo, mas pelo menos ela não ficará mais em Raccoon. Pelo que ela leu nos jornais ultimamente, era a
melhor escolha. Dois ataques na semana passada... Chris e Barry estavam cientes do perigo, mesmo sabendo o
que o T-virus fazia com as pessoas - Barry pensou que isso era algum tipo de truque, que a Umbrella "salvaria"
Raccoon antes de alguém se machucar. Chris concordou, mas Jill não estava preparada para assumir nada; a
Umbrella já mostrou que não consegue conter suas experiências. E com o que Rebecca, David e sua equipe
enfretaram em *Maine...
Agora não é hora para pensar nisso - eles tinham um avião para pegar. Jill pegou a lanterna da penteadeira e
estava indo para a sala quando lembrou que só tinha um sutiã consigo. De cara feia, ela virou para a gaveta
aberta e começou a procurar. Ela já tinha roupas o bastante, escolhidas do que Brad deixou para trás quando
fugiu de Raccoon; ela e os outros ficaram na casa dele por várias semanas, desde que a Umbrella atacou a casa
de Barry. Nenhuma roupa de Brad serviu em Chris nem em Barry. Lingerie não era algo que o piloto do
S.T.A.R.S. tinha guardado. Ela não queria parar o avião para comprar roupas íntimas.
Colocando-os na mochila, Jill voltou para a pequena sala da casa. Tinha uma foto de seu pai em uma das
estantes que ela queria pegar. Era a segunda vez que foi lá desde que começaram a se esconder. Ela sente que
não voltará tão cedo.
Andando agilmente pelo escuro, ela ergueu a lanterna e a apontou para o canto onde a estante estava. A
Umbrella bagunçou tudo. Só Deus sabe o que eles estavam procurando. Pistas do nosso esconderijo,
provavelmente; depois do ataque na casa de Barry e a desastrosa missão à Caliban Cove, ela não acha que a
Umbrella ignoraria essas informações.
Jill iluminou o livro que queria, o título era Prison Life; seu pai teria rido. Ela pegou o livro e começou a folheá-lo,
parando quando a luz caiu sobre o sorriso de Dick Valentine. Ele tinha mandado a foto junto com sua última carta.
Ela tinha posto no livro para não perdê-la. Esconder coisas importantes era um hábito que adquiriu quando jovem.
Ela soltou o livro, a pressa foi embora de repente, ao olhar para a foto. Um leve sorriso surgiu em seu rosto. Ele
era o único homem que ficava bem no uniforme laranja da prisão.
Jill pensou no que ele acharia da situação atual; ele foi o responsável pelo envolvimento dela com o S.T.A.R.S..
Depois de preso, ele a encorajou a abandonar essa vida, dizendo que foi um erro treiná-la como uma ladra...
.. aí eu peguei um trabalho legítimo, trabalhando para a sociedade ao invés de contra ela - aí as pessoas em
Raccoon começaram a morrer. O S.T.A.R.S. descobriu uma conspiração para criar armas biológicas com um vírus
que torna coisas vivas em mortas. Obviamente ninguém acreditou em nós. Os S.T.A.R.S. que não podem ser
comprados pela Umbrella, perdem a credibilidade ou são eliminados. Agora nós iremos para uma missão suicida na
Europa, tentar invadir o quartel general de uma corporação multibilionária e impedi-los de destruir esse maldito
planeta. O que você acharia? Sendo que você nunca acreditou nessa história, o que você acha?
"Você se orgulharia de mim, Dick". Ela suspirou, incerta se seria verdade. Seu pai queria vê-la em uma linha de
trabalho menos perigosa, e comparado ao que ela e os outros iriam fazer...
Depois de um longo momento, ela colocou a foto cuidadosamente no bolso e olhou para sua casa bagunçada,
ainda pensando na opinião de seu pai sobre tudo isso; se tudo correr bem, talvez ela possa perguntar
pessoalmente. Rebecca e os outros sobreviventes de Maine ainda estavam escondidos, investigando a
organização S.T.A.R.S. e esperando notícias sobre o quartel general da Umbrella. O quartel oficial fica na Europa,
mas eles suspeitavam de que os cabeças por trás do T-virus tinham um complexo secreto em outro lugar -
- a qual você não achará se ficar aí parada; o pessoal achará que você parou para tirar um cochilo.
Jill colocou a mochila e olhou em volta pela última vez antes de voltar para a porta dos fundos, na cozinha. Havia
um leve cheiro de fruta estragada no ar, vindo de uma tigela de maçãs e pêras em cima da geladeira. Apesar de
conhecer bem o cheiro, ela sentiu um calafrio em sua espinha. Ela foi para a porta fechada, tentando bloquear as
súbitas memórias do que eles acharam na mansão de Spencer...
"Jill?".
A porta abriu, a silhueta de Chris na escuridão pela distante luz da rua.
"Bem aqui". Ela disse, andando. "Desculpe pela demora. A Umbrella veio aqui com um trator".
Mesmo com pouca luz, ela pode ver um meio sorriso no rosto dele. "Nós estávamos achando que um zumbi
tinha pego você". Ele disse claramente, mas ela sentiu a preocupação.
--------------------------------------------------------------
*Maine Estado localizado na costa leste dos E.U.A.
-------------------------------------------------------------- Muitas pessoas morreram por causa do que a Umbrella fez na
floresta fora da cidade. Se o acidente tivesse ocorrido mais perto de Raccoon...
"Não teve graça". Ela disse suavemente.
O sorriso de Chris sumiu. "Eu sei. Está pronta?".
Jill acenou, apesar de não se sentir preparada pelo que virá a seguir, tampouco pelo que estão deixando para
trás. Em algumas semanas, seu conceito de realidade transformou pesadelos em rotina.
Corporações malvadas. Cientistas loucos, vírus assassinos. E os mortos-vivos...
"Estou". Ela disse finalmente. "Estou pronta".
Juntos, eles saíram. Assim que ela fechou a porta, sentiu um súbito ar de incerteza - de que ela nunca mais
colocaria os pés em casa novamente, de que os três nunca mais voltariam para Raccoon City...
.. mas não acontecerá nada com a gente. Algo acontecerá, mas não conosco.
Franzindo, mão na fechadura, ela tentou dar sentido ao pensamento. Se eles sobreviverem a essa missão, se
eles tiverem sucesso contra a Umbrella, por que não voltariam para casa? Ela não sabia, mas o sentimento era
desconfortavelmente forte. Algo ruim iria acontecer, algo -
"Ei, você está bem?".
Jill olhou para Chris, viu a mesma preocupação em seu rosto. Eles se aproximaram bastante nas últimas
semanas, apesar de achar que Chris queira se aproximar mais ainda.
E você não quer?
Jill se balançou mentalmente e acenou para Chris, deixando os sentimentos irem. O vôo para Nova Iorque não irá
esperar por ela.
Ainda aquele sentimento...
"Vamos sair daqui". Ela disse.
Eles andaram pela noite, deixando a escura casa para trás, tão quieta e sozinha quanto um túmulo.
[2]
29 de Setembro de 1998
O resto da luz do dia já estava atrás das montanhas, pintando o horizonte com o violeta do pôr do sol. As
montanhas corriam pela escuridão do céu sem nuvens, se esticando para alcançar o fraco brilho das estrelas.
Leon poderia ter apreciado mais a paisagem se não estivesse tão atrasado. Ele vai chegar a tempo, claro, mas
antes pretendia chegar em seu novo apartamento, tomar um banho, comer algo; mas do jeito que está, ele só
tem tempo para passar numa lanchonete a caminho da delegacia. Colocar seu uniforme na última parada lhe deu
alguns minutos, mas basicamente ele estava apertado.
Isso aí, Oficial Kennedy. Primeiro dia de trabalho e você estará tirando sanduíche dos dentes durante as
chamadas. Muito profissional.
Seu turno começava às nove e já era mais de oito. Leon pisou um pouco mais forte no acelerador ao passar por
uma placa que dizia restar meia hora para chegar em Raccoon City. Pelo menos a estrada estava livre. Ele não
viu ninguém em horas, exceto pelo apressadinho no sentido oposto.
Uma boa mudança considerando o trânsito depois de Nova Iorque, a qual lhe custou toda tarde. Ele tentou deixar
um recado para o sargento na noite passada, mas só ouviu o sinal de ocupado.
Os poucos móveis que tinha, já estavam no apartamento num bom bairro de Raccoon. Havia um parque à duas
quadras de lá, e só cinco minutos de carro até a delegacia. Chega de engarrafamentos, bairros violentos e ações
brutais. Ele procurava viver numa comunidade pacífica.
.. bom, exceto pelos últimos meses. Aqueles assassinatos...
O que aconteceu em Raccoon foi horrível, doentio - mas os agressores nunca foram pegos e a investigação só
estava começando. Se Irons gostar dele como gostaram na academia, talvez Leon possa trabalhar nesse caso.
Mesmo Chefe Irons sendo uma praga, ele ficará um pouco impressionado. Leon se formou entre os dez
melhores e não era um estranho em Raccoon. Ele costumava passar os verões lá quando criança, quando seus
avós ainda eram vivos. O R.P.D. era uma biblioteca e a Umbrella estava a vários anos de distância de transforma
Raccoon numa verdadeira cidade. Mesmo assim, ainda é o mesmo calmo lugar de sua infância. Quando os
assassinos forem presos, Raccoon City será ideal de novo - bonita, limpa, uma comunidade escondida nas
montanhas como um paraíso secreto.
Aí eu me estabeleço lá. Uma ou duas semanas se passam e Irons percebe o quanto bem os meus relatórios
estão sendo escritos, ou vê o quanto bom eu sou atirando no alvo. Ele me chama para ver os documentos do
caso - e eu vejo algo que ninguém mais viu. Ninguém mais percebeu por que eles viveram muito com isso, e
esse policial novato vem e resolve o caso, nem um mês fora da academia e eu -
"Jesus!". Algo correu em frente ao seu Jeep.
Leon pisou no freio e desviou, tirado de seu sonho enquanto recuperava o controle do carro. Os freios travaram e
os pneus derraparam no asfalto. O Jeep parou de frente para as escuras árvores que cercavam a estrada -
desligando depois de uma última sacudida.
De coração acelerado, Leon abaixou o vidro e levantou o pescoço, varrendo as sombras pelo animal que tinha
cruzado a pista. Ele não o atropelou, mas foi por pouco. Algum tipo de cachorro, ele não viu direito - um dos
grandes, talvez um Doberman, mas de alguma forma parecia errado. Leon só o viu por uma fração de segundo,
um brilho de olhos vermelhos e o corpo inclinado de um lobo. E tinha algo mais, parecia algum tipo de...
.. lodo? Não, truque de luz, ou você só estava se borrando de medo e acabou vendo errado. Você está bem e
não o atropelou, isso é o que importa.
"Jesus". Ele disse de novo, mais suave, sentindo-se aliviado e bravo enquanto a adrenalina saia de seu sistema.
Pessoas que deixam seus cães soltos são idiotas - depois agem surpresos quando o Totó é pego por um carro.
O Jeep parou a alguns metros de uma placa que dizia RACCOON CITY 10; ele só conseguia ver as letras no
escuro. Leon olhou no relógio; ele ainda tinha meia hora para chegar na delegacia, pouco tempo - mas por algum
motivo, ele simplesmente parou por um momento, fechando os olhos e respirando profundamente.
Uma brisa fresca passou pelo seu rosto; o deserto trecho de estrada parecendo sobrenaturalmente quieto.
Os assassinatos em Raccoon. Algumas pessoas foram mortas por animais, não foram? Cães selvagens? Talvez
aquele não tenha dono.
Um perturbante pensamento - mais ainda quando sentiu que o cachorro ainda estava por perto, o escondido nas
árvores.
Bem vindo a Raccoon City, Oficial Kennedy. Cuidado com as coisa que o observam...
"Não seja idiota". Leon disse para si mesmo, imaginado se algum dia se livrará de sua imaginação.
Sonhando em pegar caras maus, depois inventar monstros assassinos vagando pela floresta - vamos agir de
acordo com nossas idades, né, Leon? Você é um policial, pelo amor de Deus, um adulto...
Ele ligou o motor e voltou para a estrada. Ele tinha um emprego novo, um bom apartamento numa boa cidade;
ele era competente, consciente, e de boa aparência; usando sua criatividade, tudo ficará bem.
"E já estou a caminho". Ele disse, forçando um sorriso para se acalmar. Ele estava a caminho de Raccoon City,
para uma nova vida - não tinha nada com o que se preocupar...
Claire estava exausta, psicológica e emocionalmente, e o fato de seu traseiro estar doendo pelas últimas horas,
não estava ajudando. O motor de sua Harley parecia entrar em seus ossos, e mais, estava escurecendo. E por
idiotice, ela não estava usando suas roupas de couro; Chris não aprovaria.
Ele vai gritar comigo, e eu nem vou ligar. Deus, Chris, por favor, esteja lá para isso...
O barulho da moto ecoou pelos barrancos inclinados. Ela fez as curvas cuidadosamente, bem consciente do
quanto desertas as estradas estavam; se ela cair, levará um bom tempo até alguém aparecer.
Como se importasse. Sem seu equipamento, eles recolheriam seus pedaços com um rodo.
Era burrice, ela sabia que era burrice - mas algo aconteceu com Chris. Droga, algo deve ter acontecido com a
cidade toda. Pelas últimas semanas, a suspeita aumentou - e as ligações que tinha feito aquela manhã a tiraram
do lugar.
Ninguém em casa. Ninguém em lugar nenhum. Como se a cidade tivesse se mudado.
Ela não se importava com Raccoon, mas sim com seu irmão que estava lá, e se algo de ruim aconteceu com ele
-
Ela não podia, não pensaria desse jeito. Chris era tudo o que lhe restava. Seu pai morreu em seu emprego na
construção quando ainda eram crianças. Quando sua mãe morreu num acidente de carro três anos atrás, Chris
fez o melhor para substituir os pais. Mesmo sendo poucos anos mais velho, ele a ajudou a escolher uma
faculdade - ele até a mandava dinheiro todo mês. Além disso, ele ligava para ela toda semana.
Mas essas ligações pararam no último mês e meio, e as dela não foram retornadas. Ela tentou se convencer de
que era besteira se preocupar - talvez ele finalmente achou uma namorada, ou algum problema com o S.T.A.R.S.
Mas depois de três cartas não correspondidas e dias esperando o telefone tocar, ela finalmente decidiu ligar para
o R.P.D. naquela tarde, esperando que alguém pudesse dizer o havia acontecido. Ela só ouviu o sinal de ocupado.
Sentada em seu quarto, ouvindo aquele som, ela começou a se preocupar mesmo. Ela procurou em sua agenda
com mãos trêmulas, discando os poucos números dos amigos dele, pessoas ou lugares que mandou ligar em
caso de emergência - Barry Burton, Emmy's Diner, um policial que ela nunca conheceu chamado David Ford. Ela
até tentou o telefone de Bill Rabbitson, apesar de Chris ter dito que ele desapareceu alguns meses atrás. Só deu
ocupado.
A preocupação se transformou em algo perto de pânico. A viagem para Raccoon City levava seis horas e meia da
universidade. Sua amiga de quarto pegou seu equipamento de moto emprestado para sair com o namorado, mas
Claire tinha outro capacete - e com aquele pânico passando pelos seus pensamentos assustados, ela
simplesmente pegou o capacete e saiu.
Burrice, talvez. Impulsiva, certamente. E se Chris estiver bem, nós poderemos rir sobre o quanto ridícula essa
paranóia foi. Mas enquanto eu não souber o que está acontecendo, não terei um momento de paz.
O resto da luz do dia estava sumindo no céu sem nuvens, mas a brilhante lua cheia e o farol da moto eram
suficientes para enxergar - para ver a pequena placa adiante: RACCOON CITY 10.
Dizendo a si mesma que Chris estava bem, que algo de estranho aconteceu em Raccoon, alguém já teria
verificado. Claire passou a se concentrar na estrada. Daqui a pouco estará escuro, mas ela chegará em Raccoon
antes de ficar perigoso para dirigir.
Estando Raccoon City bem ou não, ela descobrirá em breve.
[3]
Leon alcançou os limites da cidade com vinte minutos restando, e decidiu que um jantar quente irá esperar. De
sua última visita à delegacia, ele sabia que haviam algumas máquinas de venda onde podia comprar algo. O
pensamento de ter doces e amendoins em seu estômago não caía bem, mas foi culpa dele por não te se livrado
do trânsito de Nova Iorque a tempo.
Ele passou por algumas fazendas que ficavam a leste da cidade, antes de ver a parada de caminhões que
separava a zona rural da urbana.
Assim que virou na ByBee, indo para uma das ruas norte-sul principais que o levariam para o R.P.D., ele
conseguiu a primeira dica de que algo estava errado. Nos primeiros quarteirões, ele se surpreendeu. No quinto ele
se sentiu um estranho no deserto. Não era estranho, era impossível.
ByBee era a primeira rua real da cidade, vinda do leste. Havia vários bares e restaurantes baratos, tal como um
cinema que nunca deve ter mostrado nada além de filmes de terror e comédias sensuais - e mesmo assim era o
mais popular lugar da juventude de Raccoon. Havia algumas tavernas que serviam cervejas e bebidas quentes
para os universitários. Às oito e quarenta e cinco da noite, ByBee deveria estar cheia de vida.
Exceto por algumas lojas e restaurantes, Leon viu que quase toda a rua estava escura - e mesmo as que tinham
luz não mostravam presença humana. Haviam carros parados na rua, e ainda nenhuma pessoa. ByBee, o ponto
de encontro de adolescentes e estudantes, estava totalmente deserta.
Onde está todo mundo?
Ele continuou dirigindo, procurando respostas - e tentando aliviar a suave ansiedade que sentia. Talvez há algum
tipo de evento acontecendo, uma missa ou uma festa da macarronada. Ou Raccoon decidiu antecipar a
Oktoberfest para hoje à noite.
Tá, mas todos ao mesmo tempo?
Leon percebeu que não tinha visto um carro se quer desde o cachorro há dezesseis quilômetros. Nem um. Sendo
assim, um pensamento menos dramático lhe ocorreu.
Algo não cheirava bem. De fato, algo cheirava como podre.
Ele diminuiu a velocidade para virar na Powell, uma quadra à frente - mas o cheiro e a ausência de vida estavam
lhe dando uma ruim sensação. Talvez ele deva parar e verificar, procurar algum sinal de -
Leon sorriu aliviado. Havia duas pessoas de pé na esquina, bem à frente; a luz estava apagada perto deles, mas
ele pode ver suas sombras claramente - um casal, uma mulher de saia e um homem alto usando botas. Indo a
sul na Powell, chegando mais perto deles, Leon pode ver como andavam, pareciam bêbados. Ambos estavam na
sombra de uma loja de escritório e fora de visão; mas Leon estava naquela direção - não custava parar e
perguntar?
Devem ter saído do O'Kelly's. Um copo ou dois, mas não estando dirigindo, ótimo. Eu me sentirei um idiota
quando eles me dizerem que hoje é o grande concerto gratuito ou o dia da churrascada.
Aliviado, Leon virou a esquina e olhou para as sombras, procurando pelo par. Ele não os viu, mas tinha um beco
entre a loja e a joalheria. Talvez eles tenham parado para ir ao banheiro ou fazer outra coisa mais ilegal -
"Merda!".
Leon pisou no freio assim que meia dúzia de escuras figuras voaram do chão, pegas pelos faróis do Jeep.
Assustado, levou alguns segundos para perceber que tinha visto pássaros; eles não berraram, apesar de ter
estado perto o bastante para ouvir o bater de asas.
Oh, meu Deus.
Havia um corpo humano no meio da rua, a seis metros do carro. Debruçada, mas parecia uma mulher - e
julgando pelo líquido vermelho que cobria boa parte da blusa branca, não era uma estudante bêbada que decidiu
dormir no lugar errado.
Atropelamento. Algum imbecil a acertou e fugiu.
Leon desligou o motor e abriu a porta. Ele hesitou, um pé no asfalto, o cheiro de morte intenso no ar. Sua mente
trouxe uma idéia que não queria considerar, mas deveria; isso não é um treinamento, é a sua vida.
E se não foi um atropelamento? E se o fato de não haver pessoas por perto é por causa de um maluco armado
que decidiu praticar tiro ao alvo? Talvez todos estão em casa, abaixados - o R.P.D. pode estar a caminho e
aqueles dois bêbados podiam estar feridos e procurando ajuda...
Ele se esticou no Jeep e procurou seu presente de formatura debaixo do banco do passageiro, uma H&K VP70
com dezoito balas.
Apontando ela para o chão, Leon saiu do carro e deu uma olhada em volta. Ele não conhecia muito bem a noite
de Raccoon, mas sabia que não deveria estar tão escuro. Várias luminárias da rua estavam apagadas; se não
fossem os faróis do carro, ele não teria visto o corpo.
Ele se aproximou, sentindo-se desprotegido sem o carro, mas ciente de que ela podia estar viva. Era impossível,
mas ele tinha que ver.
Alguns passos mais próximo e viu que era um a jovem mulher. O cabelo ruivo e liso cobria o rosto. A maioria dos
ferimentos estavam escondidos pela blusa ensangüentada. Parecia haver alguns deles - rasgos na roupa
expunham claros e cortados pedaços de carne e os músculos vermelhos abaixo.
Exalando forte, Leon colocou a arma na mão esquerda e se agachou, tocando a fria pele do pescoço dela. Alguns
segundos passaram, segundos que lhe causaram medo, tentando se lembrar do procedimento de ressuscitarão,
esperando sentir o pulso.
Cinco compressões, dois e curtos sopros, cotovelo parados e, por favor, não esteja morta -
Ele não sentiu o pulso e não queria esperar. Guardando a arma, ele agarrou os ombros para vira-la - mas quando
começou a erguê-la, sua blusa saiu da calça, mostrando algo que o fez soltá-la. Sua coluna e parte das costelas
estavam expostas. As vértebras brancas brilhando entre a carne vermelha. Parece que ela foi mastigada. Coisa
que Leon não quis acreditar.
Os corvos não fizeram isso, teria levado horas, e quem disse que corvos se reúnem à noite para comer? E aquele
cheiro, não está vindo dela, ela morreu recentemente, e -
Canibais. Assassinos.
Não. Nem pensar. Para uma pessoas ser morta e devorada no meio da rua sem ninguém para impedir -
- e com tempo suficiente para comedores de mortos virem - os assassinos devem ter matado toda a população.
Parece certo? Então que cheiro é esse? E onde estão todos?
Atrás de Leon, houve um baixo e suave gemido. Depois, passos.
Levou um segundo para Leon se levantar, virar e empunhar a arma. Era o casal, os bêbados, vindo em sua
direção, junto com um terceiro, um cara musculoso com -
- com sangue por toda a camisa. E nas mãos. E pendurado em sua boca, algo vermelho e mole. O outro homem
com as botas e suspensórios, parecia igual.
O trio se aproximava, passando do Jeep, erguendo as mãos e gemendo. Leon estava impressionado com a
descoberta de que o cheiro vinha deles -
- e apareceu outro, saindo da porta do outro lado da rua, uma mulher de camiseta e cabelo amarrado para trás.
Outro gemido atrás dele. Leon olhou sobre o ombro e viu um jovem de cabelos escuros e braços podres sair das
sombras da calçada.
Leon apontou a arma para o que estava mais perto, o de suspensórios, enquanto seus instintos gritavam para
fugir. Ele estava aterrorizado, mas sua lógica insistia que havia uma explicação para o que via, que não estava
vendo um morto-vivo.
"Certo! Já chega! Não se mexam!".
Sua voz foi forte e autoritária. Ele vestia seu uniforme, e Deus, por que eles não param? O de suspensórios
gemeu de novo, cego para a arma apontada para seu peito, e ainda seguido pelos outros, agora a menos de
três metros de distância.
"Não se mexa!". Leon disse de novo, e o som de seu próprio pânico o fez recuar um passo, olhando para os
lados e vendo mais dois saindo das sombras.
Algo agarrou seu calcanhar.
"Não!". Ele gritou, virando a arma -
- e viu que a atropelada estava segurando sua bota com uma mão ensangüentada, tentando mover seu corpo.
O gemido dela se juntou ao dos outros enquanto tentava morder seu pé, vermelhos fios de saliva escorrendo
pelo queixo, caindo no couro.
Leon atirou nas costas dela. Pela distância deve ter acertado seu coração. Tremendo, ela voltou para o chão.
- e ele virou e viu os outros a menos de um metro e meio, e atirou mais duas vezes, os tiros abrindo buracos no
peito do mais próximo.
O de suspensórios não se intimidou com os tiros em seu peito, seu equilíbrio se abalando por apenas um segundo.
Ele abriu a boca e soltou um grito de fome, mãos erguidas de novo na direção de seu alívio.
Recuando, Leon atirou de novo. E de novo. E de novo. Mais tiros e eles continuaram vindo. Era como um sonho
ruim, um filme ruim, não era real - e Leon sabia que se não começasse a acreditar, acabará morrendo. Comido
por esses -
Vá em frente. Diga. Esses zumbis.
Longe do carro, Leon correu, ainda atirando.
[4]
Que vida noturna; esse lugar está morto.
Claire não viu tantas pessoas como deveria desde que chegou em Raccoon, só algumas, só algumas vagando
por aí. O lugar parecia totalmente deserto; o capacete bloqueava muito a visão, mas definitivamente os negócios
não iam bem naquela parte da cidade. Tal como o trânsito.
Ela planejou ir direto ao apartamento de Chris, mas se lembrou de que passaria em frente ao Emmy's. Chris não
sabia cozinhar nada; sendo assim, ele vivia de cereais, sanduíches frios e jantares no Emmy's seis vezes por
semana; mesmo não estando lá, vale a pena parar e perguntar se alguma garçonete o viu.
Assim que Claire parou em frente ao Emmy's, viu ratos procurando abrigo numa lata de lixo na calçada. Ela
abaixou o apoio e desceu da moto, tirando o capacete e o colocando no assento. Balançando seu rabo de cavalo,
ela franziu o nariz de nojo; pelo cheiro, o lixo estava lá por um bom tempo. Independente do que jogavam fora,
aquilo tinha um cheiro tóxico.
Antes de entrar, ela esfregou seus braços e pernas tanto para aquecê-los, quanto para limpá-los da sujeira da
estrada.
Através do vidro da frente do restaurante era possível ver o confortável de bem iluminado interior.
Das banquetas vermelhas do balcão que cercava o canto esquerdo ao fundo - não tinha uma alma à vista. Claire
franziu, desapontada. Tendo visitado Chris regularmente nos últimos anos, ela esteve lá todas as horas do dia e
da noite; os dois eram corujas, decidindo comer sanduíches às três da manhã - o que significa Emmy's. E sempre
tinha alguém lá, conversando com uma das garçonetes de avental vermelho ou curvado sobre uma xícara de
café e um jornal, não importava que horas fossem.
Então onde eles estão? Nem são nove horas...
A placa dizia Aberto, e ela não ficou parada na rua, esperando. Uma última olhada na moto e ela entrou.
Respirando fundo ela disse esperançosa.
"Olá? Tem alguém aqui?".
Sua voz correu pelo silêncio do restaurante vazio. Exceto pela suavidade dos ventiladores de teto, não havia outro
som. Tinha um familiar cheiro de gordura no ar e algo mais - um cheiro amargo e ainda fraco de flores podres.
O lugar era em L, se esticando para frente dela e para a esquerda. Andando devagar, Claire seguiu em frente.
Atrás do balcão ficava o caminho da cozinha. Se o restaurante estava aberto, os funcionários deviam estar lá,
talvez surpresos com a falta de clientes -
- mas isso não explica a bagunça, né?
Não estava tão bagunçado. A desordem nem foi percebida do lado de fora. Menus no chão, um copo d'água
virado no balcão, e talheres eram os únicos objetos fora de ordem - mas era demais.
Que se dane a cozinha, isso é muito estranho, algo está errado nessa cidade - talvez eles foram assaltados ou
preparando uma festa surpresa. Quem se importa?
Do espaço escondido no final do balcão, ela ouviu um movimento, um deslizante sor de roupas seguido por um
ronco. Alguém está lá, agachado.
De coração batendo forte, Claire chamou de novo. "Olá?".
E nada.
- outro gemido, um som que arrepiou os pêlos do seu pescoço.
Apesar do medo, Claire foi até lá. Talvez houve um assalto, os clientes podem estar amarrados - ou pior, tão
machucados que não conseguiam gritar. De qualquer modo, ela estava envolvida.
Claire chegou no fim do balcão, olhou para a esquerda -
- e gelou, de olhos arregalados, sentindo-se psicologicamente estapeada. Perto de uma prateleira com bandejas
estava um calvo homem de avental branco, de costas para ela. Ele estava agachado sobre o corpo de uma
garçonete; mas tinha algo muito errado sobre ela, tão errado que Claire não conseguiu aceitar tão cedo. Seu olhar
chocado passou pelo uniforme vermelho, sapatos, até pelo crachá de plástico no peito dela, "Julia" ou "Julie".
.. a cabeça. A cabeça dela não estava lá.
Percebendo o que estava errado, Claire não conseguiu desacreditar por mais que queira. Só tinha uma poça de
sangue no lugar da cabeça dela, cercada por fragmentos do crânio e mechas de cabelo escuro. O cozinheiro tinha
as mãos no rosto e Claire, olhando para o corpo, soltou um leve suspiro.
Ela abriu a boca, incerta sobre o que falar.
Gritar, perguntar por que, como, oferecer ajuda - ela não sabia, e assim que o homem virou para ela, abaixando
as mãos, nada foi dito definitivamente.
Ele estava comendo a garçonete. Seus dedos estavam vestidos com carne; a estranha face que ele mostrou
estava suja de sangue.
Zumbi.
Sua mente aceitou isso no momento em que pensou; ela não era idiota. Ele estava mortalmente pálido e com
aquele cheiro de podridão. Seus olhos brancos.
Zumbis em Raccoon. Eu nunca esperei isso.
Com esse calmo e lógico pensamento veio uma súbita onda de terror. Claire recuou, enquanto o homem
continuava se virando, se levantando.
Ele era enorme, quase dois metros, grande como um armário -
- e morto! Ele está morto e comendo a mulher, não o deixe se aproximar!
O cozinheiro começou a andar. Claire recuou mais rápido, quase escorregando num menu. Um garfo entortou sob
seus pés.
SAIA DAQUI, AGORA.
"Eu já estou de saída". Ela falou. "Mesmo, não precisa mostrar a porta -".
O cozinheiro continuou andando, seus cegos olhos arregalados de fome. Outro passo para trás - e Claire sentiu o
frio metal da maçaneta da porta. Uma triunfal adrenalina passou por ela enquanto virava, tocava a maçaneta -
- e gritou, um curto grito de terror. Havia dois, três deles lá fora, suas carnes decompostas pressionando o vidro.
Um deles só tinha um olho; outro só o lábio superior. Do outro lado da rua, escuras figuras saiam da penumbra.
Sem saída, presa -
- Jesus, a porta dos fundos!
No final de seu campo visual, a verde luz da saída brilhava como uma estrela. Claire virou de novo e mal viu o
cozinheiro chegando onde estava, uma atenção virada para sua única esperança.
Ela correu. A porta daria no beco, se estiver trancada Claire estará morta.
Claire golpeou a porta e ela abriu, acertando os tijolos da parede do beco - e tinha uma arma apontada para seu
rosto, a única coisa que podia pará-la, um homem armado.
Ela congelou, erguendo os braços instintivamente.
"Espere! Não atire!".
Ele não se moveu, a arma ainda apontada para sua cabeça -
- ele vai me matar -
"Abaixe-se!". Ele gritou, e Claire obedeceu.
Boom! Boom!
O homem atirou e Claire olhou em volta, viu o cozinheiro morto caindo de costas bem atrás dela, um buraco em
sua testa.
Claire voltou-se para o homem que salvou sua vida, reparando no uniforme. Policial. Ele era jovem, alto - tão
aterrorizado quanto ela se sentia, seus olhos azuis bem abertos e sem piscar. Pelo menos sua voz foi forte ao se
abaixar para ajudá-la.
"Não podemos ficar aqui. Venha comigo, nós estaremos a salvo na delegacia".
Assim que ele falou, ela ouviu um coro de gemidos vindos da rua, aumentando. Claire se deixou ser levantada,
segurando a mão dele bem forte, se confortando ao percebeu que sua mão estava trêmulas igual a dele.
Eles correram.
[5]
Leon correu junto com a garota, tentando lembrar o mapa da cidade. O beco deve dar na Ash, não muito longe
da rua do R.P.D., a Rua Oak - mas a delegacia estava a pelo menos uns quinze quarteirões à leste; sem
transporte eles não conseguirão. Ele só tinha quatro balas, e pelo som vindo do beco, havia dezenas de criaturas
em cada ponta.
Saindo do beco, Leon ergueu a mão e parou de correr, examinado a escura rua. Ele não viu muito, mas de onde
estavam, perto da luminária, havia onze ou doze zumbis à direita e só três à esquerda, não muito longe de uma -
Aleluia!
"Ali!".
Leon apontou para uma viatura estacionada do outro lado da rua. Não havia policiais por perto; seria querer
demais - mas as portas estavam abertas. Eles podem alcançar o carro antes das três coisas ali perto. Se não
tiver chave, pelo menos há um rádio e vidros à prova de balas. Eles podem ficar lá até a ajuda chegar -
- e é a única chance. Vá!
Eles correram para o preto e branco. Leon apontando sua arma para as criaturas mais próximas, a uns vintes
metros. Ele queria atirar, mas não podia desperdiçar munição.
Deus, que tenha chaves.
Eles alcançaram a viatura ao mesmo tempo e se dividiram, a garota indo para o lado do passageiro, fazendo
Leon perceber que ela achava que o carro era seu. Ele a esperou fechar a porta antes de entrar, uma pequena
voz dentro dele gritando que esse era seu primeiro dia.
A chave estava na ignição. Leon guardou a arma e a tocou.
"Aperte os cintos". Ele disse, pouco ouvindo o consentimento da garota enquanto girava a chave e as sirenes
ligavam. A Rua Ash foi iluminada por azul e vermelho, as sombras mudando de forma e densidade. Era a visão do
inferno - e ele pisou no acelerador, querendo sair de lá o mais rápido possível.
O carro saiu derrapando. Leon virou para a direita depois para a esquerda, quase acertando uma mulher cuja
metade do couro cabeludo foi arrancado.
Ajuda, chamar ajuda -
Leon pegou o rádio sem tirar os olhos da rua. Criaturas saíam da escuridão como se chamadas pelo carro veloz.
Assim que o carro cruzou a Powell e continuou, Leon desviou de mais zumbis.
A garota estava cochichando, olhando para a desolada paisagem enquanto Leon apertava o botão do rádio, o
desamparo crescendo. Sem estática, sem nada.
"Que diabos está acontecendo. Eu chego em Raccoon e o lugar está de cabeça para baixo -".
"Ótimo, o rádio está desligado". Leon a interrompeu, soltando o rádio. A cidade parecia um mundo alienígena, as
ruas estranhamente assombradas. Parecia um sonho, mas o cheiro dizia que estavam acordados. O cheiro tinha
tomado conta da viatura, ficando difícil de dirigir. Pelo menos não tinha trânsito, nem pessoas, pessoas de
verdade...
.. exceto eu e a garota. Eu tenho que fazer o meu trabalho, não deixá-la se machucar. Pobre menina, não deve
ter mais de dezenove ou vinte anos, deve estar aterrorizada.
"Você é policial, né?".
Ele olhou para ela, o tom sarcástico e humorado em sua voz deu uma forte impressão de que ela não era fraca.
Uma boa coisa apesar das circunstâncias.
"Sou. Primeiro dia no trabalho; que ótimo, hein? Eu sou Leon S. Kennedy".
"Claire,". Ela disse. "Claire Redfield. Eu vim procurar meu irmão, Chris...".
Ela parou, olhando para a rua. Duas criaturas estavam entrando no caminho do carro, e Leon acelerou, passando
entre eles. A grade de metal que divide a parte de trás do carro estava quebrada, fornecendo uma clara visão do
retrovisor interno; os dois zumbis vagando desatentamente atrás deles.
Famintos. Como nos filmes.
Por um momento, ninguém falou, a pergunta mais obvia não respondida. Seja lá o que tornou Raccoon numa
casa dos horrores, não importava tanto quanto suas vidas. Eles chegarão na delegacia em alguns minutos. Tinha
um estacionamento subterrâneo - ele tentará lá primeiro - mas se os portões estiverem fechados, eles terão que
andar um pouco. Tinha um pequeno jardim em frente ao prédio.
Quatro balas - e uma cidade cheia daquelas coisas. Precisamos de outra arma.
"Ei, abra o porta-luvas". Ele disse.
Claire apertou o botão e se curvou, mostrando as costas de seu colete vermelho; "Made in Heaven" (Feito no
Paraíso) estava estampado sobre um voluptuoso anjo segurando uma bomba. Combinava com ela.
"Tem uma arma aqui". Ela disse, e pegou a semi-automática, erguendo-a cuidadosamente para ver se estava
carregada, antes de pegar os dois clips. Era uma das velhas armas do R.P.D., uma Browning HP de 9 mm.
Desde a onda de assassinatos, a polícia tem usado as H&K VP70, outra 9 mm - a diferença é que a Browning
carrega treze balas enquanto a outra podia carregar dezoito, dezenove se você deixar uma engatilhada. Do modo
que a manuseava, Leon viu que ela sabia o que fazia.
"É bom ficar com ela". Ele disse.
Assim que Leon fez uma curva um pouco rápido demais, o pensamento do R.P.D. estar infestado de zumbis o
acertou. Tudo ocorreu tão rápido que ele nem tinha pensado nisso. Talvez haja uma defesa organizada na
delegacia - mas era difícil pensar com o cheiro de podridão tão forte no ar.
Temos três quartos de tanque, mais do que suficiente para chegar às montanhas; podemos estar em Latham
em menos de uma hora.
Eles poderiam desviar da delegacia se parecesse insegura. Sair da cidade soava bom para ele. Ele ia contar para
Claire, ver o que ela achava quando -
- o terrível cheiro de morte se intensificou e algo pulou do banco traseiro.
Claire gritou e o monstro que esteve na viatura o tempo todo agarrou o ombro de Leon, levando seu braço direto
para frente com uma incrível força.
"Não!". Leon gritou assim que o carro virou violentamente para a direita, subindo na calçada e deslizando na
parede de um prédio. A criatura estava desequilibrada, perdendo apoio; Leon virou o volante para a esquerda,
mas não evitou a parede por completo. Ruídos de metal e faíscas iluminaram o interior.
A coisa jogou seus braços em Claire e, sem pensar, Leon acelerou e jogou o carro para a direita. O carro
ziguezagueou, derrapando lateralmente, a traseira acertando uma pick-up azul estacionada. Faíscas e o som de
borracha no asfalto.
O morto foi para o banco, mas voltou imediatamente para frente, na direção da garota.
Eles desciam a Terceira (uma rua), Leon tentando controlar o carro enquanto pegava sua arma e se virava. Ele
não pensou em desacelerar, só pensava no zumbi cravando seus dentes no ombro de Claire.
Segurando a arma pelo cano, ele desceu a coronha no rosto do monstro, arrancando pele igual a uma banana.
Gemendo, a criatura tocou o rosto sangrando e Leon pode sentir um segundo de triunfo, até que -
- Claire gritou, "Cuidado!".
- e Leon viu que eles iam bater.
Leon tinha batido no zumbi com a arma quando seu olhar aterrorizado viu que a rua ia acabar.
"Cuidado!".
Ela só pode ver os dedos dele grudados no volante -
- e o carro começou a girar, derrapando, prédios e luzes piscando tão rápido que ela só viu borrões, e de repente
-
BAM!
Houve uma explosão de som, de vidro quebrando e metal esmagando, assim que o carro bateu em algo sólido,
arremessando Claire contra o assento. Ao mesmo tempo, o impacto jogou o zumbi violentamente para trás,
atravessando o vidro traseiro -
- e tudo ficou quieto. Só o seu coração pulsando nos ouvidos. Claire viu que Leon já estava recuperado, olhando
para o corpo lá atrás, sua cabeça fora de visão. Não estava se mexendo.
"Você está bem?".
Claire virou para Leon, subitamente querendo evitar uma risada. A cidade estava infestada por mortos-vivos, e
acabaram de sofrer um acidente por que um cadáver queria comê-los. Considerando isso, "bem" não é primeira
palavra a vir na cabeça.
"Inteira". Ela disse, e o jovem policial acenou, parecendo aliviado.
Claire respirou fundo e olhou onde estavam. Leon tinha girado 180 graus com o carro no final da rua em T, o
carro completamente danificado estava de frente para o sentido de onde vieram. Não havia zumbis por perto. Ela
segurou sua arma fortemente, tentando se controlar.
"Nós -". Leon começou a falar algo, mas parou, seus olhos arregalados para o que via. Claire também viu - e por
um segundo, sentiu que seu caminho foi amaldiçoado desde que saiu da universidade.
Um caminhão descia a rua, ainda a vários quarteirões de distância, mas perto o bastante para ver que estava
fora de controle. O caminhão ziguezagueava, batendo na mesma pick-up azul de um lado da rua e uma caixa de
correio do outro. Claire percebeu com terror que era um caminhão tanque. No segundo que levou para entender,
rezar para que não seja gás ou óleo, o caminhão diminuiu a distância entre eles. Ela já via o acidente quando
Leon quebrou o silêncio.
"- ele vai esmagar a gente". Ambos tocaram os cintos de segurança, Claire rezando para não estarem presos.
O som dos cintos soltando foram inaudíveis perante o crescente eco do caminhão. Ele chegará em um segundo.
"Corra!". Leon gritou, e ela saiu do carro, ar fresco em sua suada pele. O ronco do motor do caminhão
bloqueando tudo mais.
Ela deu três passos gigantes, tanto sentindo quanto ouvindo o impacto, o chão tremendo sob seus pés assim que
metal se retorcia atrás dela.
Mais um pouco, e -
KABOOM!
- ela foi jogada, literalmente tirada de suas botas por uma incrível onda de pressão, calor e som. Ela tentou
alcançar o chão enquanto a explosão tornava a noite em dia. Um estranho giro, poeira em sua pele, e Claire
aterrissou perto de um *De Lorean prateado estacionado na frente de uma *delicatessen.
Houve uma breve chuva de destroços enfumaçados e Claire se levantou, procurando nas labaredas por Leon.
Seu coração parou. O caminhão tanque, a viatura, tudo estava envolvido por fogo. A rua completamente
bloqueada por uma massa de destruição.
"Claire -".
A voz de Leon, abafada, mas audível através da parede de fogo.
"Leon?".
"Eu estou bem!". Ele gritou. "Vá para a delegacia, eu te encontro lá!".
Claire hesitou por um segundo, olhando para a arma que ainda segurava firmemente em sua trêmula mão. Ela
estava com medo, aterrorizada por estar só numa cidade que virou um cemitério - mas não tinha escolha.
"Tá bom!".
Ela virou. O portão de trás da delegacia estava a alguns metros dali -
- e criaturas estavam saindo das sombras, de trás dos carros e de dentro dos prédios escuros. Com um
pensamento em mente, eles entraram na estranha luz do acidente, gemendo de fome - dois, três, quatro deles.
Por trás do fogo, ela ouviu tiros - dois tiros, depois nada - nada além do fogo e os suaves gemidos.
Leon já foi, agora VÁ!
Claire respirou fundo e correu.
[6]
Ada Wong colocou, na cavidade da estátua, o brilhante disco de metal dourado com um unicórnio entalhado,
dando um tapinha até a peça encaixar no mármore. Ela ouviu um movimento na estátua e se afastou para ver o
que acontece. Seus passos ecoaram pelo grande hall principal da delegacia, o som passando pelos parapeitos do
segundo e terceiro andar.
Outra chave? Uma das medalhas do esgoto? Ou quem sabe a própria amostra... não seria uma feliz surpresa.
A ninfa segurando uma jarra d'água feita de pedra deslizou para trás, a jarra em seu ombro jogando um fino
pedaço de metal. A chave de *espadas (*spade key).
Ela suspirou, pegando-a. Ela já tem as chaves; de fato, ela já tem tudo o que precisa para vasculhar a delegacia,
e quase tudo para o laboratório. Se a Umbrella tivesse facilitado, o trabalho teria sido moleza. Dinheiro fácil.
Mas acabei ganhando férias de três dias na cidade dos monstros, brinquei de Por Uma Bala na Cabeça e Vamos
Achar o Repórter. As amostras podem estar em qualquer lugar, dependendo de quem sobreviveu. Se eu sair
daqui com as belezinhas, vou pedir um grande bônus; ninguém deve trabalhar nessas condições.
Ada guardou a chave e olhou para o parapeito superior, mentalmente visualizando as salas que já foi. Bertolucci
parece não estar em lugar algum da asa leste do R.P.D.. Ela passou horas encarando mortos em busca do
queixo quadrado e rabo de cavalo dele. Claro, ele pode estar se movendo - mas pelo que sabia dele, era
improvável; o repórter se escondia diante do perigo.
Por falar em perigo...
Ada foi para a porta que dava na parte inferior da asa leste. O hall principal estava a salvo dos infectados, eles
não pareciam conhecer uma maçaneta - mas havia ameaças além deles. Só deus sabe o que a Umbrella
mandará para arrumar tudo isso... ou o que foi solto no laboratório após a contaminação. Menos assustador,
mas não menos preocupante quanto os policiais vivos procurando alguém para salvar. Ela já ouviu tiros, alguns
distantes, outros não, toda hora desde que chegou; deve haver alguns não-infectados no grande e velho prédio.
Na ponta dos pés para evitar barulho, ela cruzou a porta e se encostou nela, decidindo onde ir; ela ainda não
checou o subterrâneo e haviam vários portadores na sala dos detetives.
Ah, a excitante vida de uma agente autônoma. Viajar pelo mundo! Ganhar dinheiro roubando coisas importantes!
Combater mortos-vivos sem ter tomado um banho ou comido algo decente por três dias - isso impressiona os
amigos!
Ela se lembrou de pedir aquele bônus de novo. Quando chegou em Raccoon há menos de uma semana, ela se
achava preparada; os mapas foram estudados, os dados do repórter memorizados, sua história falsa na ponta
da língua - uma mulher procurando pelo namorado, um cientista da Umbrella. Essa parte era quase verdade; de
fato, foi seu breve relacionamento com John Howe dez meses antes de ela ter arrumado o emprego. Mas John
pensou de outra forma e sua conexão com a Umbrella provavelmente o matou. Tudo isso se tornou uma boa
dica para ela.
Aí ela já estava pronta. Mas nas primeiras vinte e quatro horas de estadia, sua sorte mudou; enquanto comia no
quase vazio restaurante do hotel, ela ouviu os primeiros gritos do lado de fora. Os primeiros, mas não os últimos.
De algum modo, o desastre foi uma vantagem; não haverá guardas no laboratório. O estudo que fez no T-virus
a assegurou de que o aerotransmissível se dissipa rapidamente; o único modo de se contaminar agora é entrando
em contato com um portador, então não haverá problema.
Objetivos: interrogar o repórter, descobrir o quanto ele sabe e matá-lo ou ignorá-lo, depende. Recuperar uma
amostra do novo vírus, a mais nova maravilha do Dr. Birkin. Sem problema, certo?
Três dias antes, sabendo como o laboratório da Umbrella era conectado ao sistema de esgoto e com Bertolucci
na sua frente, o trabalho teria siso moleza. Foi quando as coisas começaram a dar errado.
Pessoas desaparecendo, barricadas caindo...
Ela observou Bertolucci de perto o bastante para ver que ele fugiria. Ela nem teve tempo de fazer contato antes
dele desaparecer. Ada decidiu continuar sozinha quando três quartos dos civis foram mortos por que ninguém se
preocupou em fechar os portões da garagem. Ela não queria morrer tentando proteger sua imagem de turista
assustada procurando o namorado.
Aí veio a espera. Quase quinze horas esperando as coisas se acalmarem, escondida no maquinário do relógio do
terceiro andar, entre o eco de tiros e gritos...
Ótimo. O que fazer agora? Sentar e refletir ou acabar logo com isso; quanto mais cedo acabar mais tempo de
férias terá numa ilha qualquer.
Quieta, Ada não se mexeu, batendo sua Beretta na perna. Haviam corpos espalhados no corredor; ela não
conseguia parar de olhar um deles, caído debaixo da janela-bancada do escritório. Uma mulher ensangüentada.
Os outros dois eram policiais e ela não os conhecia - mas a mulher foi uma das pessoas com a qual conversou
quando chegou na delegacia. Seu nome era Stacy, uma nervosa, mas forte garota de vinte e poucos anos.
Stacy Kelso, isso mesmo. Ela queria comprar sorvete e acabou aqui - apesar de sua situação, ela estava mais
preocupada com os pais e o irmão em casa. Uma garota consciente. Uma boa garota.
Por que ela está pensando nisso? Stacy estava morta e não foi Ada que a matou. Ela veio aqui para trabalhar;
não foi sua culpa por Raccoon estar assim.
Talvez não seja culpa. Talvez só esteja triste porque Stacy não conseguiu.
Ela era uma pessoa, e agora está morta, como sua família provavelmente.
"Saia dessa". Ela disse, suave, mas irritadamente. Ada desviou o olhar, fixando-o num cinzeiro quebrado no fim
do corredor, onde virava à direita. Sentia-se mau com as coisas que não conseguia controlar, não era seu estilo,
não foi assim que chegou até aqui - e considerando o esforço que o Sr. Trent estava fazendo para manter Ada
trabalhando, agora não é a melhor hora para analisar suas habilidades.
Objetivos: falar com Bertolucci e pegar a amostra do G-virus. É tudo com o que ela precisa se preocupar.
Ainda há um mecanismo que Ada precisa ver, na sala de entrevistas. As últimas adições do arquiteto foram
detalhadas por Trent, mas ela sabia que tinha a ver com as lâmpadas de gás e uma pintura a óleo. A pessoa que
fez tudo isso teve uma séria vida secreta; havia passagens secretas escada acima, atrás de uma parede. Ela
ainda não foi lá, mas uma breve olhada revelou um escritório. Julgando pela decoração neurótica e estofada, só
podia ser de Irons. Mesmo tendo estado em sua companhia por pouco tempo, ele era o homem mais instável
que já conheceu; não havia dúvidas de que estava na lista de pagamento da Umbrella, mas também havia algo
sobre ele que parecia bem defeituoso.
Ada desceu o corredor, seus sapatos contra os ladrilhos esverdeados; ela já temia outro mecanismo. Nada que
não tinha dicas; ela assumia que o vírus ainda estava no laboratório. Os dados diziam que havia cerca de doze
frascos da coisa, informação de um vídeo de duas semanas - e o laboratório de Birkin não era impenetrável.
Sendo o laboratório subterrâneo conectado à delegacia pelo esgoto, ela deve considerar que as amostras foram
movidas. Além disso, Bertolucci pode estar escondido na biblioteca ou no escritório do S.T.A.R.S., na asa oeste,
talvez na sala de revelação; vivo ou morto, ele precisa ser encontrado.
Ela virou no corredor, passando por uma pequena área de espera com máquinas de venda já saqueadas. Como
todo o R.P.D., o corredor estava frio e com falta de ar fresco; ela já se acostumou com o cheiro, mas o frio era
a pior parte. Pela centésima vez desde que saiu o hotel, Ada desejou ter colocado outra roupa.
O vestido vermelho sem mangas, meia calça preta e sapatos barulhentos eram ótimos como disfarce; como
equipamento, a roupa estava longe de prática.
Chegando no fim do corredor, ela abriu a porta cuidadosamente, de arma na mão. Como antes, o corredor
estava vazio, outra prova da desbotada elegância do prédio - paredes cor de areia e lajotas padronizadas. A
delegacia já deve ter sido magnífica, mas os anos de uso como prestador de serviços, o prédio perdeu seu
encanto; com a mansão de um filme, a fria atmosfera dando uma distinta sensação sinistra - como se a qualquer
momento uma fria mão pudesse tocar seu ombro, uma suave respiração em seu pescoço...
Ada franziu de novo; depois dessa missão, ela tirará longas férias. Senão isso, tentará outra carreira. Sua
concentração já não é como antes. E em seu trabalho, um erro pode levar à morte.
Um grande bônus. Trent cheira como dinheiro. Eu vou pedir sete dígitos, seis no mínimo.
Em suas tentativas de bloquear os pensamentos, só um ainda persistia - a jovem Stacy Kelso pondo o cabelo
atrás da orelha enquanto falava de seu irmão bebê...
Depois do que pareceu um longo tempo, Ada apagou essa visão e continuou andando, prometendo a si mesma
de que não haverá mais lapsos de concentração - e imaginando por que não acha que conseguirá.
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*De Lorean - Carro conhecido mundialmente por ter sido a máquina do tempo nos filmes da trilogia "De volta para
o Futuro".
*Delicatessen - Casa de comestíveis; mercearia.
*Espadas - Referência aos naipes do baralho:
Heart = Copas
Diamond = Ouros
Spade = Espadas
Club = Paus
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[7]
As botas de Leon esmagavam cacos de vidro na loja de armas Kendo, enquanto abria as gavetas. Se ele não
achar balas rápido terá problemas; as armas restantes da loja estavam inacessíveis, presas com cabos de aço, e
a janela da frente estava completamente quebrada. Não demorará muito para as criaturas o acharem, ele só
tinha uma bala e muito o que andar.
"Isso!".
Quarta gaveta, munição. Leon pegou a caixa e a pôs no balcão enquanto vigiava a frente da loja. Ninguém ainda,
sem contar o dono da loja morto. Ele não se movia. Por ter morrido há alguns minutos, não se sabe quando
voltará à vida, e Leon não queria estar lá para descobrir.
Vigiando a pequena loja, ele começou a recarregar. Leon tinha se esquecido da loja depois do acidente,
achando-a casualmente. Estando o caminho mais rápido para a delegacia bloqueado, a Kendo's era a melhor
opção.
"Uuuuunh...".
Uma horripilante e esquelética forma saiu das sombras da rua, vindo cegamente para frente da loja.
"Droga". Leon disse, seus dedos trabalhando mais rápido. Um clip pronto, mais um e pode levar o resto.
De repente, outra figura apareceu.
- dezesseis... dezessete...pronto!
Ele pegou a H&K e ejetou o clip, colocando o novo assim que o vazio caiu no chão. A criatura estava passando
pela armação do vidro, algo líquido em sua garganta soando levemente.
Mochila, ele precisa de uma. Leon olhou debaixo do balcão, vendo uma mochila de ginástica no fim dele. Material
de limpeza se espalhou no balcão enquanto Leon colocava os clips na mala, ignorando as balas espalhadas na
gaveta.
O monstro podre vinha em sua direção, tropeçando no dono da loja. Leon ergueu a arma e mirou no rosto da
criatura.
Na cabeça, igual aos outros dois lá fora -
Com um tremendo e alto som, a bala explodiu o rosto do zumbi, sangue respingando nas paredes.
Antes da coisa cair, Leon virou e ajoelhou perto da gaveta de munição, jogando as pesadas caixas na mochila.
Seu estômago dando um nó e tremendo de medo; o beco de trás pode estar cheio de zumbis.
Umas cento e cinqüenta balas, agora saia -
Levantando-se, Leon vestiu a mochila e correu para a porta de trás. Pelo canto do olho, viu outra criatura
entrando na loja; pelos cracks do vidro, havia mais deles.
Ele abriu a porta de saída e a cruzou, olhando para os lados assim que a porta se fechou. Nada além de latas de
lixo e caixas de papelão. De onde estava, o beco continuava à esquerda e depois virava à direita; se seu senso
de direção estiver intacto, a estreita passagem o levará direto para a Oak.
Até agora ele teve sorte; tudo o que podia fazer era esperar que isso não mudasse, e que pudesse chegar inteiro
no R.P.D. - e que lá houvesse um monte de pessoas armadas que saibam o que aconteceu.
E Claire. Esteja bem, Claire Redfield, e se chegar lá primeiro, não tranque a porta.
Leon ajustou a mochila nas costas e andou pelo beco mau iluminado, pronto para explodir o que cruzar seu
caminho.
Claire conseguiu quase sem dar um tiro; os zumbis eram cruéis, mas lentos, e a adrenalina em seu corpo tornou
fácil desviar deles. Talvez o som do acidente desviou suas atenções, aí foi só seguir seus olfatos, ou o que sobrou
deles. Dos dez zumbis que viu, pelo menos metade estava num avançado estágio de decomposição, carne
caindo dos ossos.
Ela já esteve no R.P.D. duas vezes com Chris, mas nunca entrou pela parte de trás. Viaturas estacionadas e
alguns policiais zumbificados a receberam na pequena área, levando-a para uma pequena cabana. Depois havia
um pátio - o pátio o qual ela e Chris almoçaram uma vez, sentados nos degraus que levavam ao heliporto do
segundo andar.
Desviar dos zumbis policiais no pátio em forma de L foi fácil, e um alívio por estar num lugar que conhecia.
Uma mulher de um único braço pendurado e roupas ensangüentadas, tinha saído das sombras debaixo da
escada e tocou Claire com frias mãos; Claire soltou um suspiro de surpresa, livrando-se da criatura - e quase caiu
nos braços de outro, um alto homem que também saiu de debaixo da escada de metal, grosseiro e silencioso.
Ela conseguiu evitá-lo e se afastou, apontando a 9 mm para o homem, recuando um passo e -
- esbarrou no corrimão. A mulher estava a um metro e meio à direita. O homem a um passo de distância.
Claire apertou o gatilho e houve um gigantesco boom, a arma quase pulando fora de sua mão. A parte direita do
rosto dele desapareceu numa explosão de líquido escuro.
Ela girou a arma, apontando para a pálida face da mulher. Outro tiro e o gemido foi interrompido, a testa
implodindo num espirro de sangue e pedaços de ossos. A mulher caiu de costas no chão como um -
- como um cadáver, o qual ela já era. Eles não sairão mais daqui.
Por um momento, Claire não se moveu. Ela olhou para os dois corpos e sentiu que esteve a um centímetro de
errá-los.
Ela cresceu em volta de armas, atirando em alvos dezenas de vezes - mas era com uma pistola .22 e alvos de
papel. Alvos que não sangravam ou espirravam miolos como os dois seres humanos que acabou de matar -
Não. Uma voz interna a interrompeu. Humanos, não, não mais. Não se engane e não perca tempo com
remorso. Leon já deve ter entrado, e está procurando por você. E se o S.T.A.R.S. foi chamado, Chris pode estar
lá também.
Se isso não foi motivação o bastante, os dois zumbis que deixou para trás estavam vindo. É hora de ir.
Ela subiu a escada, mal ouvindo seus passos por causa do zumbido em seu ouvido. Os tiros não fizeram bem à
sua audição - por isso só ouviu o helicóptero quando estava chegando lá em cima.
Claire parou, o vento batendo ritmadamente em seu corpo enquanto o veículo entrava em visão, perdido na
sombra. Estava de frente para a antiga torre d'água. Ela não sabia se ia pousar ou se já tinha decolado.
Não sabia e não se importava. "Ei!". Ela gritou, erguendo sua mão esquerda. "Ei, aqui!".
Suas palavras se perderam na poeira levantada pelas pás do helicóptero. Claire acenou como se tivesse ganhado
na loteria.
Alguém veio. Graças a Deus, obrigado!
O holofote da aeronave foi ligado - mas estava indo na direção errada, não para ela. Claire balançou os braços
mais freneticamente, respirando para gritar de novo até que -
- viu o que a luz iluminava, mesmo enquanto ouvia o desesperado e praticamente inaudível grito sob o motor do
helicóptero. Um homem, um policial, de pé no meio do heliporto. Ele segurava uma metralhadora, e parecia bem
vivo.
"- venha até aqui -".
O policial gritou para o alto, sua voz cheia de pânico; Claire viu o porquê e seu alívio evaporou. Havia dois zumbis
saindo do escuro e indo para o alvo bem iluminado que estava gritando. Ela ergueu a arma, mas a abaixou de
novo, com medo de acertar o policial.
A luz não se movia, iluminando o terror com sua brilhante claridade. O homem não devia saber o quanto perto os
zumbis estavam até que foi tocado.
"Afastem-se! Não se aproximem!". Ele gritou. Com o terror em sua voz, Claire pode ouvi-lo claramente. As duas
figuras o encurralaram no canto sudoeste do heliporto.
O som da metralhadora foi alto. Mesmo com o helicóptero acima, Claire ouviu as balas cortando ar. Ela se
ajoelhou enquanto os tiro continuavam para todos os lados - e para cima -
- e houve uma mudança no som do helicóptero, um estranho hum que fico mais alto. Claire olhou para cima e viu
a nave branca mergulhando, a cauda balançando num instável arco.
Jesus, ele acertou o helicóptero.
O holofote ia em todas as direções, passando por canos de metal, concreto e o policial sendo atacado pelos
zumbis, de alguma forma ainda atirando -
- e de repente o helicóptero começou a descer, balançando. As pás batendo no telhado com muita força. Antes
que Claire pudesse piscar, o nariz da nave bateu - cruzando o heliporto num curto arranhão de faíscas e cacos de
vidro.
A explosão ocorreu assim que a máquina caiu na parede sudoeste - diretamente sobre o policial e seus dois
assassinos. No mesmo instante, o nariz do helicóptero atravessou a parede de tijolos bem à frente.
A rajada de tiros finalmente parou sob as chamas que vieram depois do boom, iluminando o lugar num ardente
calor alaranjado.
Claire ergueu-se nas pernas que mal sentia, olhando desacreditada para o fogo que tomava conta de quase
metade do heliporto. Tudo aconteceu tão rápido que pareceu ser mentira. Um ácido e enjoativo odor de metal
derretido passou por ela numa onda de calor, e no súbito silêncio ela pode ouvir o gemido dos zumbis no pátio lá
embaixo.
Ela olhou para as escadas e viu que ambos os policiais zumbis estavam na base, cegamente tropeçando no
primeiro degrau. Pelo menos eles não estavam subindo...
Claire virou seu assustado olhar na direção da porta a uns dez metros dali. Exceto pela escada, a porta era o
único modo de chegar lá. E se zumbis não conseguiam subir - e tinha dois no heliporto -
- então tenho problemas. A delegacia não é segura.
Ela olhou para os destroços queimando, medindo opções. Ela ainda tinha muita munição; ela pode voltar para a
rua, procurar um carro com chave e buscar ajuda.
E Leon? Se aquele policial estava vivo, pode haver mais lá dentro planejando uma fuga?
Ela não podia ir embora sem avisar Leon; e se ele morrer procurando por ela...
Decidida, Claire foi até a porta, procurando movimento nas sombras. Chegando lá, fechou os olhos por um
segundo, a mão suada na fechadura.
"Eu vou conseguir". Ela disse. Apesar de não ter parecido confiante como queria, sua voz não tremeu. Ela abriu
os olhos, depois a porta; quando nada saiu do escuro corredor, ela entrou.
[8]
O Chefe da polícia, Brian Irons, estava parado em um de seus corredores particulares, tentando recuperar o
fôlego, quando sentiu um tremendo impacto no prédio. Ele o ouviu, também - ouviu algo. Um distante som,
pesado e brutal.
O telhado. Ele pensou. Algo no telhado...
Ele não se preocupou em tirar conclusões. Seja lá o que for, não tornará as coisas piores.
Irons se afastou da parede de pedra e ergueu Beverly o mais gentilmente possível. Eles estarão no elevador em
um minuto, depois uma pequena caminhada até o escritório; ele pode descansar lá, e depois -
"E depois,". Ele resmungou. "essa é a questão, não é?. Depois o que?".
Beverly não respondeu. Seus traços perfeitos permaneceram parados, seus olhos fechados - mas ela parecia se
aconchegar com ele, seu longo e magro corpo perto do peito dele. Devia ser sua imaginação...
Beverly Harris, a filha do prefeito. Bela e jovem Beverly, que, com sua beleza loira, já assombrava os sonhos
culposos de Brian. Ele a segurou e continuou indo para o elevador, tentando não demonstrar exaustão caso ela
acorde.
Seus braços e costas estavam doendo quando chegou no elevador. Ele deveria tê-la deixado em sua sala de
hobby, a sala a qual sempre considerou como um Santuário - era clamo lá, e provavelmente um dos lugares mais
seguros da delegacia. Quando ele decidiu voltar para o escritório, pegar seu diário e outros itens pessoais, ele
percebeu que simplesmente não podia deixá-la para trás. Ela parecia tão vulnerável, tão inocente; ele tinha
prometido a Harris de que cuidaria dela; e se ela fosse atacada em sua ausência? E se ele voltar e ela não estiver
lá?
Uma década de trabalho. Fazendo conexões, se posicionando... tudo isso, desse jeito.
Irons a pôs no frio chão e abriu as grades, tentando não pensar no que perdeu. Beverly era o mais importante
agora.
"Te dar segurança". Ele disse. Por acaso ela mexeu a boca, sorrindo? Será que ela sabe que está a salvo com o
tio Brian? Quando ela era criança, quando ele visitava a família Harris para jantar, ela o chamava assim. "Tio
Brian".
Ela sabe. Claro que sabe.
Ele a colocou no elevador, olhando seu angelical rosto. Ele foi pego subitamente por uma onda de amor paterno,
e não ficou surpreso ao sentir lágrimas nos olhos, lágrimas de orgulho e afeição. Nos últimos dias, ele tem sido
alvo das emoções - raiva, terror, até mesmo alegria. Ele nunca foi um homem emotivo, mas teve que aprender a
conviver com os sentimentos; pelo menos não eram confusos.
Chega deles, nada mais pode dar errado agora; Beverly está comigo, e uma vez pegas as minhas coisas, nos
esconderemos no Santuário e descansaremos. Ela precisará de tempo para se recuperar.
Ele piscou as esquecidas lágrimas assim que a jaula de metal começou a subir, checando a arma para ver
quantas balas restavam. Sua sala subterrânea era segura, mas o escritório era outra história; ele quer estar
preparado.
O elevador parou e Irons abriu a grade com o pé antes de levantar a garota, gemendo com o esforço. Ele a
carregou como uma criança, sua cabeça caída para trás.
Ele apertou o botão na parede com o joelho. A parede deslizou para cima, revelando a aveludada decoração de
seu escritório sem; só os vazios olhares de seus animais empalhados o receberam.
A grande mesa de madeira que importou da Itália estava bem à sua esquerda, e sua força acabando; Beverly
era magra, mas ele não estava em forma, como antigamente. Ele rapidamente a colocou na mesa, empurrando
um porta-lápis com o cotovelo.
Ele tinha ficado preocupado quando a achou desacordada ao lado do Oficial Scott no corredor de trás; George
Scott estava morto, coberto de ferimentos. Ao ver a mancha vermelha no estômago dela, Irons achou que
também estivesse morta. Mas quando ele a levou para seu Santuário, ela cochichou para ele - que não se sentia
bem, que estava ferida, que queria ir para casa.
.. não é? Não disse?
Irons franziu, tirado da incerta lembrança por algo, algo que sentiu quando a deitou na mesa e arrumou seu
vestido branco manchado de sangue, algo que não se lembrava. Não parecia importante, mas agora, longe da
segurança de seu Santuário, isso o estava incomodando. Lembrando-o de que sofreu um daqueles momentos
confusos quando ele, quando ele - senti os frios e moles intestinos entre meus dedos -
- quando ele a tocou.
"Beverly?". Ele cochichou, sentando na cadeira de sua mesa quando de repente sentiu suas pernas fracas.
Beverly continuou calada - e o turbulento dilúvio de emoções o acertou, lotando sua mente com imagens,
memórias e verdades que não queria aceitar; Recuar as barricadas depois dos primeiros ataques. A Umbrella,
Birkin e os mortos-vivos. O massacre na garagem. O crescente número de mortos na primeira e terrível noite - e
a brutal percepção de que sua cidade - já era.
Depois disso veio a confusão. A estranha alegria que veio ao perceber que não haverá conseqüências para seus
atos. Irons se lembrou do jogo que fez na segunda noite, depois que alguns bichinhos de Birkin acharam alguns
policiais. Ele achou Neil Carlsen escondido na biblioteca e... o caçou, perseguindo o sargento como um animal.
Qual seria o problema, já que a minha vida em Raccoon está acabada?
Tudo o que restava era seu Santuário - e a parte dele que ajudou a criar o lugar, a parte escura e gloriosa de seu
coração que sempre escondeu. Esta parte está livre agora...
Irons olhou para o corpo de Beverly e sentiu que pode ser destruído pelos sentimentos de medo e dúvida que
lutavam dentro dele. Irons a matou? Ele não conseguia se lembrar.
Tio Brian. Dez anos atrás, eu era o Tio Brian dela. Em que me tornei?
Era demais. Sem tirar os olhos do rosto sem vida de Beverly, ele tirou a VP70 carregada do coldre e começou a
esfregar o cano com os dedos, leves toques que o asseguraram enquanto a arma girava em sua direção.
Quando o cano foi pressionado contra sua macia barriga, ele sentiu que algum tipo de paz ficou ao seu alcance.
Seu dedo encostou no gatilho, e foi quando Beverly cochichou para ele de novo, os lábios dela parados, mas sua
leve e musical voz vindo do nada e de todos os lados ao mesmo tempo.
- não me deixe, Tio Brian. Você prometeu que me daria segurança, que cuidaria de mim. Pense no que você
pode fazer agora sem que nada o impeça.
"Você está morta". Ele sussurrou, mas ela continuou falando, suave e persistente.
.. nada o impedirá de se realizar de verdade pela primeira vez na vida...
Torturado, Irons vagarosamente tirou a 9mm de seu estômago. Depois de um momento, ele descansou sua
testa no ombro dela e fechou os olhos.
Ela estava certa, ele não podia deixá-la. Ele tinha prometido - e ela disse algo sobre o que podia fazer. Sua mesa
de hobby era grande o bastante para acomodar qualquer tipo de animal...
Isso mesmo. Ele vai descansar e depois cuidará dos negócios; afinal, ele é o chefe da polícia.
Sob controle de novo, Brian Irons começou a dormir, a fria pele de Beverly em sua testa.
[9]
Graças a um furgão parado no beco, o atalho para a delegacia sofreu mudanças - uma quadra de basquete
infestada de zumbis, outro beco, um ônibus que fedia por causa dos mortos lá dentro. Foi um pesadelo, os
gemidos, o cheiro e a distante explosão que fez suas pernas tremerem. Apesar de tudo, Leon manteve a
esperança de que havia algum tipo de mobilização no R.P.D., com policiais e paramédicos - autoridades tomando
decisões e equipes organizadas. Não era uma esperança, era uma necessidade.
Quando ele finalmente saiu na rua em frente ao R.P.D. sentiu-se espancado vendo viaturas pegando fogo. Mas
foi a visão de zumbis policiais gemendo entre as chamas que acabaram com sua esperança. O R.P.D. tinha uma
equipe de cinqüenta ou sessenta policiais, e um terço deles estavam vagando ou mortos perto da entrada do
prédio.
Leon tentou esquecer o desespero, fixando seu olhar no portão do jardim. Tendo ou não alguém sobrevivido, ele
tinha que chamar ajuda - e achar Claire.
Ele correu para o portão, desviando dos zumbis uniformizados, abrindo e fechando o portão de metal. A pequena
área gramada à sua direita estava iluminada o bastante para ver que havia três ex-humanos lá, e que não
representavam ameaça. Ele pode ver as duas bandeiras que enfeitavam a entrada da delegacia, penduradas
sem se mover. A visão reconsiderou suas esperanças, pelo menos está num lugar que conhece e que deve ser
mais seguro do que na rua.
Leon correu entre o trio de zumbis - dois homens e uma mulher; todos pareciam normais se não fosse por seus
gemidos famintos. Devem ter morrido recentemente.
A porta de entrada não estava trancada; por tudo o que passou desde que chegou na cidade, Leon preferiu
manter suas expectativas no mínimo. Ele girou a maçaneta e entrou, de arma erguida e dedo no gatilho.
Vazio. Não havia sinal de vida no grande e velho saguão do R.P.D. - e nenhum sinal do desastre que tomou conta
de Raccoon. Leon fechou a porta e desceu os degraus para o piso mais baixo.
"Olá?". Leon disse baixo, e o som ecoou de volta com um suspiro. Tudo parecia do mesmo jeito; três andares de
clássica arquitetura em madeira e mármore. Havia a estátua de uma mulher segurando um vaso no ombro bem
no meio do lugar, uma rampa de cada lado levando à recepção e o logotipo do R.P.D. no chão em frente ao
suave brilho da estátua, proveniente das arandelas na parede.
Sem corpos, sem sangue... nem um cartucho de bala. Se houve um ataque aqui, onde diabos estão as provas?
No profundo silêncio do lugar, Leon subiu a rampa da esquerda, parando no balcão da recepção, curvando-se
sobre ele; tudo no lugar. Tinha um telefone na mesa sob o balcão. Leon pegou o receptor e o colocou entre a
cabeça e o ombro, tocando os botões com os dedos. Nem discava; tudo o que ouvia era o som de seu próprio
coração.
Ele virou para a sala vazia, decidindo por onde começar. Ele recebeu um memorando do R.P.D. semanas atrás,
dizendo que as salas seriam mudadas. Mas isso não importava; os policiais não se preocupariam em ficar ao lado
de suas mesas nessa situação.
Haviam três portas no saguão que davam em diferentes lugares da delegacia; duas no lado oeste e uma no
leste. Das duas no lado oeste uma leva a uma série de corredores para a parte de trás do prédio, depois da sala
de arquivos e da sala de pronunciamentos; a segunda dava num escritório e armários, que então leva às escadas
para o segundo andar. O lado leste do primeiro andar era primeiramente para os detetives - escritórios,
interrogatórios e sala de entrevistas; tinha também acesso ao subsolo e escadas no lado de fora.
Claire provavelmente veio pela garagem... ou pelo telhado.
Ou então ela contornou o prédio e veio pelo mesmo lugar que ele - se ela conseguiu chegar aqui, pode estar em
qualquer lugar. E considerando que o R.P.D. ocupa quase um quarteirão, ainda tinha muito chão pela frente.
Ele optou pela segunda porta do lado oeste, onde seu armário estaria.
Leon entrou devagar, esperando ver as mesmas condições do saguão; silêncio e organização. Mas o que viu
confirmou seus medos: as criaturas estiveram lá - com a vingança.
A longa sala estava arrasada, mesas e cadeiras jogadas e derrubadas em todo canto. Borrões de sangue
decoravam as paredes, rastros do mesmo em poças no chão, indo em frente.
"Meu Deus -".
Um policial estava sentado contra os armários à sua esquerda, suas pernas esticadas, meio escondidas pela
mesa virada. Ao som da voz de Leon, ele fracamente ergueu o braço, apontando vagamente uma arma na
direção de Leon - e a abaixou de novo, parecendo exausto com o esforço. Seu peito estava pintado de sangue,
suas expressões cheias de dor. Leon se abaixou ao lado dele em dois passos, gentilmente tocando seu ombro.
Ele não via o ferimento, mas tinha tanto sangue que a gravidade era óbvia -
"Quem é você?". O policial suspirou.
Eles nunca foram apresentados, mas Leon já o viu antes. O jovem policial afro-americano se chamava Marvin
Branagh...
"Eu sou Leon S. Kennedy. O que aconteceu aqui?".
"A cerca de dois meses," Marvin disse, "os assassinatos canibais... o S.T.A.R.S. encontrou zumbis na mansão da
floresta...".
Ele tossiu e Leon começou a dizer para descansar, mas Marvin parecia determinado a contar a história.
"Chris e os outros descobriram que a Umbrella estava por trás de tudo... arriscaram suas vidas, mas ninguém
acreditou... depois isto".
Chris... Chris Redfield, o irmão de Claire.
Leon sabia algo sobre o problema com o S.T.A.R.S. ele só ouviu trechos da história - a suspensão do grupo de
ações táticas especiais e resgate, após serem acusados de má conduta, foi o motivo da contratação de novos
policiais.
Ele até leu o nome dos membros num jornal, listados juntos com alguns de seus recordes.
- e a Umbrella destrói a cidade. Algum tipo de vazamento químico que tentaram esconder se livrando do
S.T.A.R.S. -
Tudo isso saia de sua mente até que Marvin tossiu de novo, mais fraco.
"Agüenta aí". Leon disse, procurando algo para estancar o sangramento. Ele achou uma camiseta no armário
atrás do policial e a enrolou, pressionando contra o estômago de dele. O próprio policial segurou-a com as mãos,
fechando os olhos enquanto falava novamente.
"Não se preocupe comigo. Há... você deve tentar salvar os sobreviventes...".
Leon balançou a cabeça, querendo negar a verdade, querendo fazer algo para aliviar a do de Marvin - mas ele
estava morrendo, e não podia chamar ajuda.
"Vá". Marvin disse, ainda de olhos fechados.
Ele estava certo, Leon não podia fazer mais nada - e não conseguiu se mover por um momento - até Marvin
erguer sua arma de novo, apontando-a para Leon numa erupção de energia que aumentou sua voz num grito.
"Vá!". O policial ordenou e Leon se levantou.
"Eu voltarei". Leon disse firmemente, o braço de Marvin já caindo.
Leon voltou para a porta, respirando fundo e aceitando a mudança de plano que pode acabar o matando - mas
que não podia evitar. Ele era um policial. Se houvessem sobreviventes, é sua civil e moral conduta ajudá-los.
Tem um depósito de armas no subsolo, perto da garagem. Leon abriu a porta e voltou para o saguão, rezando
para que o depósito esteja bem equipado - e que haja alguém para salvar.
[10]
Depois do ardente telhado, Claire cruzou um zigue-zagueado corredor cheio de cacos de vidro no chão - e depois
de um policial morto no chão, seu medo sobre a segurança da delegacia aumentou. Ela pulou o corpo e continuou
andando. Uma fraca brisa passou pelas janelas quebradas que decoravam a parede externa, dando vida à
escuridão; haviam brilhantes penas pretas junto às marcas de sangue no chão, que fizeram Claire mirar o
revólver a cada suave balanço.
Ela passou por uma porta que dava nas escadas externas do lugar, mas continuou andando, virando à direita. O
modo como o helicóptero acertou o prédio perturbou Claire, inspirando visões da velha delegacia pegando fogo.
Só faltava essa...
Cadáveres e marcas de sangue nas paredes; Claire não estava feliz com a idéia de vagar pela delegacia. E mais,
tiros não são tão eficientes; ela precisa ver o quanto ruim está a situação antes de procurar Leon.
O corredor terminava numa porta. Claire a abriu - e recuou assim que a nuvem de fumaça passou por ela, o
cheiro de metal e madeira queimados no ar. Ela se agachou e deu uma espiada no corredor que ia para a direita.
Mais para frente ele virava à direita de novo, e ainda assim não se podia ver o fogo; sua brilhante luz alaranjada
refletia nas paredes cinzas.
Droga. O que foi agora?
Havia outra porta diagonalmente de sua posição, a alguns passos; Claire respirou fundo e andou abaixada para
evitar a fumaça, esperando achar um extintor de incêndio - e que fosse suficiente.
A porta dava numa sala de espera vazia - sofás de vinil verdes, um balcão de canto e uma porta no outro lado. A
pequena sala parecia intocada, clama e quieta, igual aos outros lugares que passou essa noite - só que não havia
sinais de desastre nas suaves sombras criadas pelas fluorescentes acima. Nenhum zumbi morto no chão de
madeira escura e nenhum espirro de sangue nas paredes cor de creme.
E nenhum extintor...
Nenhum à vista. Ela fechou a porta e foi até o balcão, levantando a tampa de entrada com o cano da arma.
Tinha uma velha máquina de escrever no balcão - e perto de um telefone. Claire o pegou esperançosa, mas só
ouviu silêncio. Suspirando, ela se abaixou para ver as prateleiras sob o balcão. Uma agenda, papéis - e meio
escondido entre uma bolsa, o familiar cilindro vermelho, com uma fina camada de pó.
"Aí está você". Ela sussurrou, guardando a 9mm no colete e levantando o extintor. Ela nunca usou um antes,
mas parecia fácil - uma alavanca de metal com um pino de segurança e um bocal de borracha preto. Pelo peso
parecia estar cheio.
Respirando várias vezes e armada com o extintor, Claire abriu a porta e voltou para o corredor. A fumaça tinha
se intensificado, acumulando-se no teto.
Ela fez a curva e viu destroços queimando no fim do corredor, sentindo-se aliviada e triste ao mesmo tempo. O
fogo não era tão grande quanto pensava. As chamas se estendiam até uma porta de madeira destruída. Era o
nariz do helicóptero que chamou sua atenção - a ardente cabine - e o ardente corpo do piloto ainda preso no
assento, sua boca queimada bocejando como um grito silencioso. Não dava para saber se era homem ou mulher.
Claire tirou o pino e mirou o cano nas chamas. Ela apertou a alavanca e um jato de neve espirrou, acertando os
destroços com uma nuvem. Mal vendo através da fumaça, ela direcionou o jato sobre tudo. Dentro de um
minuto, o fogo pareceu ter acabado, mas ela continuou usando o extintor até acabar.
A última tossida de gás veio e Claire soltou a válvula, suspirando algumas vezes, procurando algum foco que
tenha passado despercebido. Nenhuma chama, mas a porta de madeira ao lado da cabine ainda soltava filetes de
fumaça. A área em volta da porta já foi arrebentada e Claire decidiu arriscar. Ela recuou e deu um sólido chute na
porta, mirando perto das dobraduras.
A porta abriu com um crack, a madeira carbonizada desfazendo-se em uma chuva de cinzas. Algumas caíram em
suas botas, mas Claire rapidamente levantou a arma, ainda as sacudindo, mais assustada com o que pode estar
esperando do outro lado.
Um curto e vazio corredor tinha seu começo cheio de pedaços de madeira queimados, e uma porta ao fundo, à
esquerda. Claire foi até lá, tanto para respirar ar puro quanto para ver onde dava.
A porta seguinte estava destrancada. Claire a abriu, pronta para atirar em qualquer -
- e parou, chocada com a bizarra atmosfera da sala. Era como uma sátira de um clube de homens dos anos
cinqüenta, um grande escritório decorado com uma extravagância beirando o ridículo. As paredes tinham grandes
estantes de mogno e mesas cercando uma espécie de área de descanso, feita com acolchoadas cadeiras de
couro e uma mesa de mármore, tudo sob um provável tapete oriental. Um elaborado lustre vinha do teto,
jogando uma melodiosa luz sobre tudo. Quadros e delicados vasos estavam por toda parte - mas seus clássicos
designs eram ofuscados pelas empalhadas cabeças de animais e pássaros que dominavam um canto, ao lado de
uma grande mesa -
- Oh, Jesus -
Deitada na mesa, como a personagem de uma história de terror, estava uma bonita e jovem mulher de vestido
longo e branco, seu abdômen tomado por sangue. Era como um enfeite, sendo olhado pelos animais empalhados
- tinha um falcão que parecia estar voando, cabeças de alce e veado. O efeito foi tão pavoroso que por um
momento Claire não respirou -
- foi quando a alta poltrona atrás da mesa girou de repente. Claire mal conteve o grito de terror, esperando ver a
Morte sorrindo para ela. Mas era um homem - com uma arma apontada para ela.
Pela segunda vez hoje...
Por um segundo, ninguém se moveu - então o homem abaixou a arma, um sorriso amarelo surgindo em seu
gorducho rosto.
"Eu sinto muito," ele disse, sua voz tão oleosa quanto a de um político ruim. "pensei que você fosse um daqueles
zumbis".
Ele alisava seu cheio bigode enquanto falava. Apesar de Claire nunca tê-lo conhecido, ela subitamente sabia quem
ele era, Chris já tinha falado sobre ele.
Gordo, bigode - era o chefe da polícia, Brian Irons.
Ele não parecia bem. De fato, parecia desconectado da realidade.
"Você é o chefe Irons?". Ela perguntou, tentando parecer agradável ao se aproximar da mesa.
"Sim, sou eu, e quem é você?".
Antes de ela falar, Irons continuou calmamente, confirmando a suspeita de Claire com o que disse depois - em
seu tom petulante. "Não, não se preocupe em me dizer. Não fará diferença. Você acabará como todos os
outros...".
Ele parou, olhando para o corpo à sua frente, com uma emoção que Claire não podia decifrar. Ela sentiu-se mal
por ele, ao contrário do que Chris disse sobre sua personalidade podre e incompetência profissional; só Deus sabe
que horrores ele presenciou, ou o que teve de fazer para viver.
Leon e eu entramos nesse terror há alguns minutos; Irons já estava aqui, provavelmente vendo seus amigos
morrendo.
Ele olhou para o corpo e falou, sua voz triste e pomposa ao mesmo tempo.
"É a filha do prefeito. Eu deveria cuidar dela, mas falhei miseravelmente...".
Claire procurou palavras de conforto, querendo dizer que tinha sorte por estar vivo, que não foi sua culpa - mas
ele continuou lamentando, as palavras dela morrendo na garganta, junto com a dó.
"Olhe para ela. É linda, sua pele perfeita. Mas logo apodrecerá... e em uma hora se tornará uma daquelas coisas.
Bem como os outros".
Claire não queria tirar conclusões, mas sua descrição e olhar faminto a fizeram se arrepiar. O jeito que ele olhava
para a garota morta -
- você fica imaginando coisas. Ele é o chefe da polícia, não um pervertido lunático. Ele é o único vivo que
encontrou. Peça informações!
"Deve haver um jeito de parar...". Claire disse gentilmente.
"Sim... uma bala no cérebro - ou decapitação".
Ele finalmente desviou o olhar do corpo, mas não para Claire. Ele olhou para os bichos ao lado de sua mesa, sua
voz adquirindo um tom alegre.
"Em pensar que - taxidermia costumava ser o meu hobby. Não mais...".
Os alarmes de Claire dispararam. Taxidermia? O que diabos um corpo humano fazia na mesa dele?
Irons finalmente olhou para Claire, que não gostou nem um pouco. Ele olhava em seu rosto mas não parecia
enxergá-la. Ocorreu-lhe que ele não havia perguntado como chegou lá, ou sobre a fumaça que entrou no
escritório. E o jeito que falava sobre a filha do prefeito... nenhuma dor real, só auto-piedade e algum tipo de
admiração.
Oh, Deus, ele não está só abalado, ele está em outro planeta -
"Por favor,". Irons disse. "eu queria ficar sozinho agora".
Ele se acomodou na cadeira e fechou os olhos, parecendo exausto. Tão simples assim, ela foi dispensada,
mesmo com milhões de perguntas - muitas delas que ele poderia responder - mas ela achou melhor só sair de
perto dele, pelo menos agora -
Houve um suave som atrás dela, à esquerda, tão baixo que ela não tinha certeza se realmente o ouviu.
Claire virou, franzindo, e viu outra porta no canto da sala. Ela não a tinha visto antes - e aquele som veio de lá.
Outro zumbi? Ou alguém se escondendo...?
Ela olhou para Irons que nem se moveu.
Então - volto por onde vim, ou vejo o que tem atrás da porta?
Leon - ela tinha que achá-lo e Irons não parecia querer unir forças. Mas se houver outra pessoa no prédio que
precise de ajuda ou possa ajudar...
Não vai demorar. Ela olhou para Irons, perto do corpo da filha do prefeito, cercado por seus animais sem vida;
Claire foi até a segunda porta, esperando não estar cometendo um erro.
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*Taxidermia - Arte de empalhar animais.
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[11]
Sherry tem se escondido por um longo na delegacia, uns três ou quatro dias, e ainda não viu sua mãe. Nenhuma
vez, nem quando havia muita gente restando. Ela encontrou a Sra. Addison - uma das professoras da escola -
logo depois de chegar lá, mas ela já estava morta. Um zumbi a comeu. Não muito depois disso, Sherry achou um
tubo de ventilação que cobre quase todo prédio, e decidiu que se esconder era mais seguro do que ficar com os
adultos - porque eles morriam, e porque havia um monstro na delegacia bem pior que os zumbis e os homens do
avesso. Ela tinha certeza que esse monstro a procurava. Era idiotice, ela nunca pensou que monstros
perseguissem uma única pessoa - mas ela também nunca pensou que monstros existissem.
Assim, Sherry vem se escondendo na sala de armaduras; ninguém morto lá e o único jeito de entrar - exceto o
tubo de ventilação atrás das armaduras - era passando por um longo corredor vigiado por um tigre gigante.
Empalhado, mas assustador - Sherry pensou que ele pudesse afugentar o monstro. Ela sabia que era besteira,
mas a fazia se sentir melhor.
Sendo que os zumbis tomaram conta da delegacia, ela passou a maior parte do tempo dormindo. Assim, ela no
pensava no que aconteceu com os pais ou o que vai acontecer consigo mesma. O tubo de ventilação era quente
e tinha muita comida na máquina de doces, escada abaixo - mas ela estava assustada, e pior que isso, sozinha.
Ela dormia atrás das armaduras quando houve um tremendo barulho lá fora. Ela estava certa que era o monstro;
Sherry só o viu uma vez antes, suas grandes e terríveis costas, pela grade de metal - desde então, ela o ouviu
gritar pelo prédio várias vezes. Ela sabia que ele era mau, mau, violento e faminto.
Às vezes ele desaparecia por horas, fazendo Sherry pensar que tinha ido embora - mas sempre voltava, não
importa onde ela estava, mas sempre parecia surgir por perto.
O barulho que a tirou do sono parecia o de um monstro quebrando as paredes, fazendo-a correr para seu
esconderijo caso o som se aproxima, mas não se aproximou. Por um longo tempo não se moveu, segurando seu
amuleto da sorte - um bonito colar de ouro que sua mãe havia lhe dado semana passada, tão grande que
preenchia toda sua mão. Como antes, ele funcionou; o horrível barulho não se repetiu. Ou talvez o tigre cumpriu
seu papel. Mesmo assim, quando ouviu suaves passos no escritório, Sherry sentiu-se segura o bastante, para ir
até o corredor e escutar. Os zumbis e homens do avesso não podiam abrir portas. Se fosse o monstro, já teria
vindo para ela.
Tem que ser uma pessoa. Talvez mamãe...
Na metade do corredor onde virava à direita, ela ouviu pessoas falando no escritório, sentindo um estouro de
esperança e solidão ao mesmo tempo. Ela não sabia o que falavam, mas pela primeira vez em dois dias ela ouviu
alguém que não gemesse. Podia ser a ajuda que finalmente chegou a Raccoon.
O exército, marinha, talvez todos eles...
Curiosa, ela correu para a porta de frente para o tigre, quando as vozes pararam. Sherry ficou imóvel.
Se a ajuda veio, porque não ouvia os caminhões e aviões? Não haveria tiros, bombas e alto-falantes alertando
para que todos saíssem?
Talvez sejam vozes de pessoas más; loucas como aquele homem...
Não muito depois que Sherry começou a se esconder, ela viu uma coisa terrível pela grade da sala de armários.
Um homem de cabelo vermelho estava lá, falando sozinho, balançando para frente e para trás numa cadeira. No
começo, Sherry pensou em chamá-lo para ajudar, mas o modo como falava, sorria e balançava, a deixou
desconfiada. Então ela o observou por um tempo. Ele segurava uma grande faca, e depois de um longo tempo,
ainda rindo, resmungando e balançando, ele se esfaqueou no estômago. O homem a tinha assustado mais do
que os zumbis, porque não fazia sentido. Ele era louco e se matou, e ela engatinhou de volta, chorando, porque
não fazia sentido.
Se as pessoas no escritório são boas, elas podem querer tirá-la de seu esconderijo e tentar protegê-la - e isso
significaria sua morte, porque o monstro certamente não tinha medo de adultos.
Parecia ruim ter que voltar, mas não tinha outra escolha. Sherry começou a voltar para a sala de armaduras
quando -
Crack!
- ela congelou assim que a madeira do chão rangeu. O som pareceu incrivelmente alto e ela prendeu a
respiração, agarrando seu colar e rezando para que a porta não abrisse, que nenhum maluco aparecesse - e a
pegasse.
Ela não ouviu mais nada, mas achou que as batidas do seu coração a denunciariam, era tão alto. Depois de dez
segundos ela continuou andando, na ponta dos pés como se estivesse num ninho de cobras. Ela tinha que usar
toda sua força para não correr até a curva - uma coisa que ela aprendeu nos filmes era que, correr do perigo
sempre significava uma morte horrível.
Quando ela finalmente chegou à porta, sentiu-se aliviada e só queria pegar o cobertor que a Sr. Addison achou e -
A porta do escritório abriu, abriu e fechou. Um segundo depois, passos. Indo para ela.
Sherry voou pela sala, não pensando um mais nada por causa do pânico. Ela passou pelos três cavaleiros,
esquecendo seu lugar seguro. Tudo o que queria era ir o mais longe possível. Havia uma escura e pequena sala
sem porta depois da caixa de vidro no meio da sala -
- e ela ouviu os passos correndo atrás dela. Sherry se abaixou entre os tijolos da lareira e tentou se encolher,
abraçando os joelhos e escondendo o rosto. A escuridão da sala do fundo era tudo o que precisava.
Por favor, por favor, por favor, não apareça, não me veja, eu não estou aqui.
Os passos entraram na sala das armaduras e mais calmos, hesitantes, passando pela caixa de vidro. Sherry
pensou em seu tubo de ventilação, que a levaria embora, e segurou as lágrimas de arrependimento. A sala da
lareira não tinha saída.
Os passos se aproximaram da sala que Sherry estava. Ela prometia fazer qualquer coisa caso o estranho fosse
embora -
Thump. Thump. Thump -
De repente a sala se iluminou, o leve click do interruptor sobre o choro de Sherry. Ela não agüentou, se levantou e
correu, gritando, esperando chegar até o tubo de ventilação quando -
- uma quente mão segurou seu braço, apertado. Ela gritou de novo, puxando o mais forte que podia, mas o
estranho era forte -
"Espere!". Era uma mulher.
"Me deixe ir". Sherry choramingou, mas a mulher continuou segurando, puxando.
"Calma, calma - eu não sou um zumbi, fique calma, está tudo bem -".
A voz da mulher soou mais gentilmente. A doce e musical voz repetiu-se de novo e de novo.
"- calma, está tudo bem, eu não vou te machucar, você está segura agora".
Sherry finalmente olhou para a moça, e viu o quanto bonita era, o quanto seus olhos eram preocupados e
simpáticos. Sherry parou de tentar fugir e sentiu as quentes lágrimas em seu rosto. Ela instintivamente abraçou a
bonita jovem - e a moça retribuiu, seus finos braços em volta dos trêmulos ombros de Sherry.
Sherry chorou, deixando a mulher acariciar seu cabelo e dizer palavras tranqüilizantes - pelo menos o pior acabou.
Por mais que quisesse cair nos braços da moça e esquecer os medos, acreditar que estava a salvo, ela sabia que
não dava. Além, disso, ela não era mais um bebê; fez doze anos mês passado.
Sherry se afastou da mulher e secou os olhos, olhando para a estranha. Ela não era velha, por volta dos vinte, e
tinha roupas legais - botas, shorts vermelho de tecido grosso e um colete do mesmo conjunto, sem mangas. Seu
cabelo castanho era amarrado para trás, e quando sorriu, parecia uma atriz de cinema.
"Meu nome é Claire. Qual é o seu?".
Sherry se envergonhou de repente, por ter corrido de uma pessoa tão boa. Seus pais diziam que agia como um
bebê, que era "muito imaginativa", e aqui está a prova; Claire não iria machucá-la.
"Sherry Birkin". Ela disse e sorriu, esperando que Claire não fosse má para ela; ela não parecia brava, e sim
agradecia pela resposta.
"Você sabe onde estão seus pais?". Claire perguntou.
"Eles trabalham no laboratório químico da Umbrella". Sherry respondeu.
"Laboratório químico... então o que você está fazendo aqui?".
"Minha mãe ligou e me disse para vir aqui. Ela disse que é muito mais perigoso ficar em casa".
Claire acenou. "Pelo que parece, ela estava certa. Mas aqui também é perigoso...".
Claire franziu pensativamente, depois sorriu de novo. "É melhor você vir comigo".
Sherry balançou a cabeça, pensando em como explicar que não era uma boa idéia, que era uma idéia muito ruim.
Ela não queria ficar sozinha, mas não seria seguro ir.
Se eu for e o monstro nos achar...
Claire morreria. Apesar de ser magra, Claire não caberia no tubo de ventilação.
"Tem algo aqui". Sherry finalmente disse. "Eu vi, é maior que os zumbis. E quer me pegar".
Claire balançou a cabeça, abrindo a boca para dizer algo quando um terrível e furioso som encheu a sala, ecoando
em violentas ondas de algum lugar do prédio. Por perto.
"Rrraaahh - ".
Sherry sentiu seu sangue virar gelo. Claire arregalou os olhos, pálida.
"O que foi aquilo?".
Sherry recuou, ofegante, mentalmente correndo para o tubo de ventilação atrás das armaduras.
"É disso que eu estava falando". Ela disse, e antes que Claire pudesse pará-la, ela virou e correu.
"Sherry!".
Sherry ignorou o apelo e continuou. Ela se pôs de joelhos sobre o pedestal, colocou a cabeça e se arrastou para
dentro do buraco no rodapé da parede.
Sua única chance, a única chance de Claire, era que ficasse o mais longe possível. Talvez se encontrem de novo
quando o monstro se for.
Assim que Sherry engatinhou pelo apertado e escuro tubo, esperou que não fosse muito tarde.
[12]
Ada sentou na cadeira da desarrumada mesa do chefe dos detetives, descansando seus pés doloridos e olhando
cegamente para o cofre vazio no canto da sala. Sua paciência estava se esgotando. Primeiro a amostra do
G-virus, agora Bertolucci, que também não foi encontrado. Ela passou pela sala de descanso, o escritório do
S.T.A.R.S., a biblioteca - todos os lugares onde o repórter teria fácil acesso. E gastou dois clips inteiros para isso.
O problema não foi 23 balas, foi o tempo perdido e sem resultados - exceto por ter matado mais alguns zumbis.
E duas aberrações híbridas da Umbrella.
Ada tremeu, lembrando da contorcida carne vermelha e gritos das criaturas que matou na sala de entrevistas.
Trent alertou sobre os Tyrants modi-ficados - que agradecidamente ainda não apareceram - mas os sanguinários
linguarudos com garras eram uma afronta à suas sensibilidades. E são muito mais difíceis de matar que os
zumbis. Se eles foram produtos do T-virus, ela deverá rezar para que Birkin não tenha feito nada com o novo.
Segundo Trent, a série G ainda não foi usada, e deve ser duas vezes mais potente...
Ada soltou a imaginação. O escritório não era tão inspirante para descansar, mas pelo menos não tinha sangue.
De porta fechada, ela mal sentia o cheiro dos policiais lá fora. Eles já estavam bem afetados quando ela os
matou, o estágio que aparentemente precede o colapso total.
O problema não é senti-los. Meu cabelo e roupas já absorveram o maldito cheiro.
Ela sabia para que servia o T-virus, mas eles não pensaram em pesquisar os efeitos físico-químicos. Quem se
importa? Ela não tinha motivos para acreditar que a Umbrella infectaria sua própria cidade. Ela estava recebendo
várias informações sobre o funcionamento do vírus, mas seria bom saber como ele modifica a mente humana.
Ela só podia tentar adivinhar através de suas observações.
Pelo que parece, leva algumas horas para alguém infectado virar um zumbi. Às vezes, a vítima passa por uma
febre-coma antes, que provavelmente queima partes do cérebro - e pareciam estar acordando da morte em
busca de carne fresca logo depois. Os sintomas eram os mesmos para todos, mas não a velocidade do
processo; ela viu uns três casos em que a vítima virou zumbi alguns momentos após ser infectada, o estágio que
ela chamou de "catarata". Apesar de a deterioração física começar imediatamente, alguns caem aos pedaços
mais rápido do que outros.
.. e por que você está pensando nisso? Seu trabalho não inclui achar a cura?
Ela suspirou, curvando-se para coçar os pés. Verdade. Mesmo assim, era algo para se considerar. Pensar em
ficar viva era cansativo; ela não podia fazer isso enquanto limpava os corredores. Ela estava descansando, e
precisava pensar em assuntos mais intrigantes.
E não são poucos... Trent, o que Bertolucci sabe ou deveria saber... o S.T.A.R.S. - e o que diabos aconteceu
com eles?
Pelos artigos que Trent incluiu no pacote de informações, ela sabia sobre a suspensão do grupo - e considerando
o que estavam investigando, não precisava ser gênio para ver que estavam na cola da Umbrella para revelar seu
segredo. A Umbrella já deve ter se livrado deles caso não tenham se escondido - e Ada tem que ver se Trent
participou da aventura do S.T.A.R.S..
Não que ela diria, mas Trent era um enigma. Ela só o encontrou uma vez, apesar de tê-la contatado para ir até
Raccoon, na maioria das vezes por telefone. Ela sempre se orgulhou da capacidade de ler as pessoas, mas não
sabia onde os interesses dele estavam, por que queria o G-virus ou que função exercia na Umbrella. Era óbvio
que tinha contatos lá dentro, ele sabia demais sobre a companhia - mas se era o caso, porque ele não pega sua
própria amostra e pede demissão? Contratar uma agente secreta era o ato de alguém querendo evitar
complicação - mas complicações do que?
Não é da minha conta...
Um bom princípio para se viver; ela também não era paga para investigar Trent. Mesmo que fosse, seria difícil;
ela nunca conheceu um homem tão sob-controle como Sr. Trent. Em todo contato que tiveram, ela percebeu
que ele ria por dentro, como se soubesse de um ótimo segredo - e ainda não demonstrou arrogância e
pretensão. Ele era frio, sua genialidade tão natural que ela mal se intimidou; ela não conseguiu decifrar os motivos
dele, mas já tinha visto aquele calmo humor antes - era a face do verdadeiro poder, de um homem com um
plano e meios de executá-lo.
Então a contaminação atrapalhou seus planos, sejam lá quais sejam? Ou ele já estava preparado...? Eu não
imagino o termo "pego de surpresa" no vocabulário de Trent...
Ada girou a cabeça vagarosamente antes de se calçar. O intervalo acabou, pois ela ainda tinha que procurar
Bertolucci em mais alguns lugares, antes de ir para o esgoto. Ela sabia que as persianas de segurança do primeiro
andar não eram tão sólidas assim; ela não quer se deparar com mais zumbis lá de fora.
Havia passagens "secretas" na asa leste e celas no subsolo, depois do estacionamento. Se achá-lo em algum
desses lugares, poderá concentrar-se em obter a amostra.
Ela decidiu começar pelo subsolo; ele não conseguiria achar os corredores escondidos. Pelo que ela leu sobre seu
trabalho, ele não era um repórter tão bom...
Ada saiu do escritório, os ventiladores de teto levando o cheiro de podre até ela. Devia haver sete ou oito corpos
lá, todos policiais...
.. mas eu não tinha deixado cinco vivos da última vez?
Ada parou, olhando para o estreito corredor que levava às escadas de trás.
Havia cinco. Eu não estou no meu máximo, mas ainda posso contar.
Havendo ou não, os zumbis estavam invadindo e a Umbrella virá em breve caso ainda não tenha vindo. A
companhia não ignoraria esse problema. Já deve ter criado um plano *derrota segura e está enchendo a cabeça
da mídia com mentiras. Mas é claro que antes, eles devem recuperar a pesquisa de Birkin. Trent estava confiante
de que a Umbrella mandaria uma equipe para isso.
Uma equipe de humanos, tomara. Eu posso lidar com eles. Um Tyrant... eu não preciso disso.
Ada foi para o corredor do fundo da sala, à esquerda de onde estava. Foi na direção da porta que a levaria para
a escada do subsolo. Tyrant era o nome de uma série particular na pesquisa de armas biológicas da Umbrella,
uma série que incorpora as mais destrutivas aplicações do T-virus. De acordo com Trent, os cientistas da White
Umbrella - que trabalham nos laboratórios secretos - acabaram de iniciar os testes num tipo de humanóide
sanguinário, desenvolvido para caçar qualquer cheiro ou substância com a qual foi treinado. Um Tyrant avançado,
outra construção de carne infectada e ligamentos implantados - o tipo de coisa que podem mandar em busca do
G-virus...
Ada foi para o subsolo, tentar achar o repórter.
Leon estava no saqueado depósito de armas do subsolo, ajustando seu coldre e pensando onde Claire estaria.
Pelo pouco que viu, a delegacia estava muito ruim. Fria, escura e cheirando mal, mas não tão perigosa quanto a
rua. Nem tanto para se agradecer, mas Leon vai tirar o máximo de proveito.
Ele matou três companheiros a caminho do subsolo - dois homens escada acima e uma mulher em frente ao
necrotério - a alguns metros da sala onde ficava o arsenal do R.P.D.. Entre os mortos e o número de armas
faltando, Marvin pode estar certo sobre haver sobreviventes.
Marvin Branagh... já deve estar morto. Será que virou zumbi? Se a Umbrella está por trás disso, deve ser algum
tipo de praga ou doença, afinal, eles são uma companhia farmacêutica - então, como se pega a doença? Pelo
contato ou pelo ar -
O pensamento de ser infectado pelos zumbis o fez suar. E se ele a pegou enquanto dirigia para cá?
Antes do pânico, ele ouviu sua mente dizer sobre a realidade - e a aceitação da realidade também, afugentando o
medo.
Se você está doente, está doente. Você pode comer uma bala antes de piorar. Se não está doente, sobreviverá
para contar aos seus netos sobre tudo isso. De qualquer jeito, não há nada que você pode fazer - exceto tentar
ser um policial.
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*Derrota Segura - Método para impedir ataque atômico equivocado.
-------------------------------------------------------------- Leon concordou, suspirando. Em sua primeira busca pela sala,
houve desapontamento. Nenhum revólver e pouca munição nos armários - mas ele achou uma caixa de munição
para espingarda, e depois de um segundo procurando, ele descobriu uma calibre doze escondida atrás de
algumas caixas. Haviam alguns arreios de ombro para o modelo Remington pendurados na parede, tal como um
cinto de utilidade maior do que o que já usava; tinha até um bolso fundo o bastante para colocar os clips.
Com o último aperto no arreio, ele decidiu que seria melhor começar pelos lugares mais óbvios primeiro, cada
corredor de cada possível entrada. Primeiro ele voltará para o saguão e deixar uma mensagem no -
Bam! Bam! Bam!
Tiros, bem perto, e o eco dizia vir do corredor lá fora. Leon empunhou o revólver e correu para a porta, preciosos
segundos desperdiçados enquanto manejava a fechadura giratória.
O corredor estava deserto, exceto pelo guarda de trânsito no chão à sua direita. Para a direita ficava o
estacionamento, e Leon correu para lá, lembrando-se para ir com clama e não ser baleado por alguém
aterrorizado.
Vá devagar, olhe bem antes de se mover, identifique-se claramente -
O corredor virava à esquerda, e no final dele, estava a porta na parede do lado direito, aberta - e quando Leon
deu uma olhada no grande e aberto espaço, seu corpo encostou na parede, vendo algo que o fez esquecer do
atirador.
O cachorro. É o mesmo maldito cachorro.
Impossível - mas o caído e sem vida animal no meio de dois carros parecia o mesmo. Mesmo com o breve
avistamento que teve antes, o melequento demônio canino era igual àquele que o tinha jogado fora da estrada.
Sob as fluorescentes que iluminavam a garagem, Leon pode ver o quanto anormal ele era.
Nada parecia se mover, e nenhum som exceto o zumbido das luzes. Ainda segurando sua arma, Leon entrou na
garagem, determinado a olhar a criatura de perto - e viu um outro perto de uma viatura, aparentemente morto
como o primeiro. Ambos estavam no meio de uma poça vermelha de sangue.
Umbrella. Os ataques animais, a doença - há quanto tempo isso está acontecendo? E como conseguiram manter
isso escondido depois de todas aquelas mortes?
Mais confuso era o fato de Raccoon ainda não ter recebido ajuda; a Umbrella deve ter conseguido esconder seu
envolvimento nos assassinatos "canibais", mas como ela impediu as pessoas de pedir ajuda lá fora?
Esses cães, como cópias em carbono... outra coisa que a Umbrella fez em seus laboratórios?
Ele deu outro passo na direção das criaturas, não gostando das teorias de conspiração que estavam se formando
em sua mente, mas incapaz de ignorá-las. Do que ele menos gostava, eram das poças de óleo no chão de
cimento; pareciam enferrujadas, secas - e haviam muitas delas para contar. Ele se curvou para olhar de perto,
tão intrigado que só percebeu o tiro quando a bala ricocheteou no chão.
Bam!
Leon virou para a esquerda, erguendo a arma e gritando ao mesmo tempo -
"Pare de atirar!".
- e viu a atiradora abaixar sua arma, uma mulher de vestido vermelho e longas meias pretas, parada ao lado de
um furgão no final da garagem. Ela começou a ir até ele, suas pernas finas movendo-se suavemente, cabeça
erguida e ombros para trás. Parecia estar numa festa.
Leon sentiu uma onda de raiva, de como ela parecia clama após quase tê-lo matado - mas assim que se
aproximou, ele quis pedir desculpas. Ela era bonita, e parecia sentir prazer em vê-lo; uma visão bem vinda depois
de tanta morte.
"Desculpe-me por aquilo". Ela disse. "Quando vi o uniforme, pensei que fosse outro zumbi".
Mestiça, magra e alta, cabelo curto, liso e escuro. Sua acentuada voz contrastava estranhamente com seu olhar.
Seu frágil sorriso não combinava com os olhos amendoados que o examinavam cuidadosamente.
"Quem é você?". Leon perguntou.
"Ada Wong'. Aquele tom de novo. Ela inclinou a cabeça, ainda sorrindo.
"Eu sou Leon S. Kennedy". Ele disse reflexivamente, incerto sobre o que perguntar ou por onde começar. "Eu - o
que você faz aqui embaixo?".
Ada olhou para o furgão do R.P.D. que bloqueava a área das celas. "Eu vim para Raccoon em busca de um
homem, um repórter chamado Bertolucci; eu tenho motivos para crer que ele esteja em uma das celas, e acho
que ele pode me ajudar a achar meu namorado...".
O sorriso dela sumiu, o agudo, quase elétrico olhar achando o dele... "E acho que ele sabe tudo sobre o que
aconteceu aqui. Você me ajuda a empurrar o furgão?".
Se o repórter estiver trancado lá, poderá dizer algo; Leon quer conhecê-lo. Ele não confiava muito na história de
Ada, mas não imaginava porque mentiria. O lugar não é seguro, e ele estava procurando por sobreviventes,
como ela.
"Tá bom". Ele disse, sentindo-se pego pelos suaves modos dela. Parecia que ela tinha assumido o controle, uma
súbita mas proposital manipulação que a pôs no comando -
Não seja paranóico; mulheres fortes existem. E quanto mais pessoa encontrar, mais ajuda eu terei para procurar
a Claire.
Leon guardou a arma e foi atrás dela, esperando que o repórter estivesse lá - e que as coisas começassem a
fazer sentido o quanto antes.
[13]
Sherry Birkin se foi e Claire não conseguiu entrar no duto. Seja lá o que ou quem tinha gritado, não apareceu. Ela
devia estar se escondendo no duto por algum tempo; haviam embalagens abertas de doces e um velho lençol
perto da abertura, atrás de três armaduras.
Percebendo que Sherry não voltaria, Claire correu para a sala de Irons, esperando que ele pudesse dizer onde a
tubulação dava, mas ele tinha sumido - junto com o corpo da filha do prefeito.
Claire parou no escritório, sendo observada pelos olhos de vidro da mórbida decoração, e se sentiu incerta pela
primeira vez desde que chegou na cidade. Desviar de cães e zumbis, encontrar Leon e evitar o Chefe Irons
foram tarefas inclusas na busca por Chris. Nos poucos momentos entre encontrar aquela garotinha e aquele
estranho grito, suas prioridades mudaram dramaticamente. Havia uma criança nesse pesadelo, que acreditava
estar sendo seguida por um monstro.
Talvez esteja. Se Raccoon tem zumbis, por que não monstros? Droga, por que não vampiros ou robôs
assassinos?
Ela queria achar Sherry, mas não sabia por onde começar. Ela queria seu irmão, mas não sabia onde estava - e
ela começou a imaginar se ele sabia o que tinha acontecido na cidade.
Na última vez que conversaram, ele evitou falar sobre a suspensão do S.T.A.R.S., insistindo que não era nada
para se preocupar - que ele e os outros entraram em problemas políticos e tudo se resolveria. Ela estava
acostumada com a proteção dele, mas pensando melhor, ele não parece evasivo demais? E o S.T.A.R.S. estava
investigando os assassinatos canibais, não seria difícil conectá-los com a atual...
.. o que quer dizer? Que Chris descobriu algo ruim e estava mantendo segredo?
Ela não sabia. Mas sabia que ele estava vivo, e que achar Sherry era mais importante no momento. Ruim como a
situação estava, Claire tinha defesas - ela tinha uma arma, pelo menos um pouco de maturidade emocional, e
depois de 8KM diários, estava em excelente forma. Mas Sherry não devia ter mais do que doze anos, parecia
frágil em todos os sentidos; pela sujeira em seu cabelo loiro e desespero em seus olhos azuis - Sherry inspirou
todos os sentidos protetores de Claire -
Thump!
Uma pesada vibração correu pelo teto, fazendo o lustre do escritório tremer. Claire olhou para cima
reflexivamente, apontando a arma. Não havia nada e o som não se repetiu.
Algo no telhado... mas o que fez aquele barulho? Um elefante caindo do céu?
Talvez fosse o monstro de Sherry. Claire não queria encontrá-lo, mas Sherry parecia certa de estar sendo
seguida...
.. então achar o monstro para achar a garota? Não é o plano perfeito mas é tudo o que tenho.
Talvez seja Irons lá em cima. Ela não podia saber até verificar.
Claire virou e abriu a porta para o corredor de fora, onde tinha apagado o fogo. A fumaça diminuiu apesar de
ainda estar quente. Pelo menos nisso ela foi bem sucedida...
Claire saiu do corredor, virando os olhos para o que sobrou do piloto quando -
- Craa-ack!
- e ela congelou, ouvindo um massivo despedaçamento de madeira, seguido por poderosos passos de alguém
enorme andando pelo corredor, depois da curva.
Deve pesar uma tonelada, e Jesus, diga-me que não foi uma porta sendo destruída -
Claire olhou para o corredor do escritório, seus instintos dizendo para correr, seu cérebro dizendo que não tinha
saída, seu corpo paralisado entre os dois -
- quando o maior homem que já viu apareceu, escurecido pela fina fumaça do corredor. Ele vestia um longo
sobretudo verde-exército que só aumentava seu tamanho, tão alto quanto um jogador de basquete - bem mais
alto, e com uma cabeça proporcional. Um grande cinto de utilidade estava preso em sua cintura, e apesar de não
ver armas, ela pôde sentir a violência radiando dele em ondas invisíveis. Ela só conseguia ver a palidez no rosto
dele, a cabeça careca - e de repente, Claire estava certa de que ele era um monstro, um assassino usando luvas
pretas, cada uma do tamanho de um crânio humano -
Atire nele! Atire!
Claire mirou, mas hesitou, com medo de estar cometendo um terrível erro - até que ele deu um passo na direção
dela, ouvindo os cracks na madeira causados por seus pés de Frankenstein, e ela viu os olhos negros, negros e
corados com vermelho. Vazios, mas não cegos, o olhar dele achou o dela - e ele ergueu o punho, a ameaça
eminente.
- atireatireatire -
Ela apertou o gatilho, uma, duas vezes, e viu o impacto - um pedaço de tecido rasgou bem abaixo de sua
clavícula, o segundo tiro cortando um lado do pescoço -
- e ele deu outro passo, nenhuma expressão em seu rosto, o punho ainda erguido, procurando um alvo,
querendo esmagar -
- o escuro e enfumaçado buraco no pescoço não sangrava.
Droga
Numa onda de adrenalina, Claire apontou o revólver para o coração da criatura e atirou repetidamente, o gigante
dando outro passo, cruzando o fogo sem acovardar-se -
- e Claire perdeu a linha dos tiros, incapaz de acreditar que ele ainda se movia, a menos de três metros com as
balas acertando seu peito -
- e a arma clicou, vazia, na mesma hora que o monstro balançou de um lado para o outro como um prédio no
vento. Sem tirar os olhos dele, Claire pegou outro clip do colete e recarregou a arma, sua mente tentando
desesperadamente dar um nome à coisa.
Exterminador, O monstro de Frankenstein, Dr. Mal, Mr. X -
De qualquer modo as balas finalmente fizeram efeito. Silenciosamente, ele inclinou para a direita, caindo contra a
parede chamuscada, e permanecendo lá - sem tremer nem se mexer.
Estranho, isso é tudo, está morto, derrubado por seu próprio peso -
Claire não se aproximou, ainda mirando no gigante. Foi ele que gritou? Ela não achava.
"Morto, não importa". Claire cochichou. Precisava pensar no que ele significava - ele não era um zumbi qualquer,
mas o que então? Ela esvaziou um clip inteiro - será que alguém por perto ouviu? Ela deveria ficar onde estava?
A criatura que começou a chamar de Mr. X não estava respirando, seu corpo imóvel, seu rosto bem perto da
morte. Claire mordeu o lábio inferior, olhando para a ainda impossível criatura quando -
- ele abriu os olhos negros e brilhantes. Sem muita força, Mr. X levantou-se, bloqueando o corredor, suas mãos
erguendo-se de novo -
- e com um forte impulso, ele cortou o ar com a mão, seus longos braços bem na frente dela enquanto recuava.
O movimento foi suficiente para cravar o punho na parede, prendendo-o.
Eu, poderia ter sido EU -
Voltar para o escritório a deixaria cercada. Sem pensar mais, Claire correu, passando por Mr. X, seu braço direito
esfregando no pesado casaco dele, seu coração pulando uma batida quando o material a tocou.
Ela correu, virou à esquerda e desceu o corredor, tentando não ouvir Mr. X libertando a mão.
Jesus, o que é aquela COISA -
Ela voltou para a sala de espera, batendo a porta enquanto corria. Claire não pensava em outra coisa senão
correr mais rápido.
Ben Bertolucci estava na última cela, deitado na cama de metal pendurada na parede, roncando levemente.
Mantendo suas expressões cuidadosa-mente neutras, Ada deixou Leon acordá-lo. Ela não queria parecer ansiosa,
mas se havia algo que sabia sobre os homens era que eles são mais fáceis de lidar quando pensam estar no
controle. Ada olhou para Leon com a paciência que não sentia.
Eles tinham passado por um corredor vazio e um canil antes de achá-lo. Apesar do frio e úmido ar cheirando
sangue e podridão, eles não viram nenhum corpo - o que era estranho, já que Ada sabia o que tinha acontecido
na garagem. Ela pensou em perguntar a Leon o que tinha acontecido, mas decidiu que quanto menos falar
melhor; ele não devia se acostumar com a presença dela. Ela chegou a ver a tampa do bueiro no canil,
enferrujando num canto escuro, e agradecida por ver um pé-de-cabra ali perto. Com Bertolucci dormindo ali, Ada
sentiu que as coisas finalmente começaram a dar certo -
"Deixe-me adivinhar". Leon disse bem alto, batendo a arma nas barras de metal. "Você deve ser Bertolucci,
certo? Levante-se, agora."
Bertolucci suspirou e sentou-se devagar, esfregando a mão no queixo. Ada quis sorrir; ele estava mau - roupa
amarrotada, rabo de cavalo desarrumado.
Ainda de gravata. O coitado deve achar que isso o faz parecer um repórter...
"O que você quer? Eu estava tentando dormir aqui". Ele parecia nervoso, e de novo Ada teve que conter um
sorriso.
Leon olhou para Ada, parecendo incerto. "É ele?".
Ela acenou, percebendo que Leon o considerava um prisioneiro. A conversa esclareceria tudo, mas ela não queria
que Leon ouvisse demais; Ada precisa escolher bem as palavras.
"Ben, você disse aos oficiais da cidade que sabia o que estava acontecendo aqui, não foi? O que você disse a
eles?".
Bertolucci levantou e a encarou. "Quem diabos é você?".
Fingindo que não ouviu, Ada aumentou o desespero, mas só um pouco; ela não devia parecer uma coitada,
poderia contrariar o fato de ter sobrevivido todo esse tempo.
"Eu estou tentando achar um - amigo meu, John Howe. Ele trabalhava para uma divisão da Umbrella em Chicago,
mas desapareceu há alguns meses atrás - e eu ouvi dizer que ele está aqui, nesta cidade...".
Ela parou, vendo a expressão do repórter. Ele sabia de algo, sem dúvida - mas ela não achava que ele fosse
desistir.
"Eu não sei de nada". Ele disse, irritado. "e mesmo se eu soubesse, por que eu deveria dizer?".
Original. Se o policial não estivesse aqui, eu só daria um tiro no repórter.
Na verdade, ela não atiraria: Ada não estava lá para diversão. Ela podia usar um de seus métodos mais
persuasivos - se seu charme feminino não funcionar, uma bala no joelho ajudaria. Infelizmente, ela não podia
fazer nada com Leon por perto. Ela não tinha planejado esse encontro.
O policial não estava feliz com as respostas de Ben. "Tá bom, podemos deixá-lo aí". Leon disse, falando com
Ada, mas olhando bem irritado para Ben.
Bertolucci sorriu, tirando um anel redondo com as chaves da cela. Ada não se surpreendeu e Leon ficou mais
irritado.
"Por mim tudo bem". Bertolucci disse. "Eu não quero sair daqui mesmo. É o lugar mais seguro do prédio. Tem
mais do que zumbis por aí, acreditem em mim".
Pelo jeito que falou, Ada pensou em ter mesmo que matá-lo. As instruções de Trent foram claras - se o repórter
souber de alguma coisa sobre o trabalho de Birkin no G-virus, ele deve ser eliminado; por que, exatamente, ela
não estava certa, mas esta é a missão. Se ela pudesse ficar um momento a sós com ele, conseguiria descobrir o
quanto ele sabe.
Mas como? Ela não queria matar Leon; como regra, ela não mata inocentes - além disso, ela gostava de policiais.
"Ggrraaa!".
Um violento e inumano grito furou o silêncio. Ada girou o braço, mirando no portão que dava para o corredor. E
estava no subsolo -
"O que foi aquilo?". Leon disse. Ada esperava que ele soubesse a resposta. O eco do furioso grito não se
comparava à nada que ela já tinha ouvido - mesmo sabendo o que a Umbrella fazia, isso não era esperado.
"Como eu disse, eu não saio daqui". Bertolucci disse. "Agora vão embora antes que o tragam direto para mim!".
Covarde chorão -
"Olha, eu posso se o único policial vivo nesse prédio". Leon disse, a combinação de medo e força em sua voz fez
Ada olhar para ele. O olhar do policial estava fixado em Bertolucci, seus olhos azuis agudos e firmes.
"... e se você quiser viver, terá que vir conosco".
"Esqueça". Ben disse. "Eu vou ficar aqui até a cavalgaria chegar - e se forem espertos, farão a mesma coisa".
Leon balançou a cabeça. "E se eles demorarem dias para vir, é melhor acharmos um jeito de sair de Raccoon - e
você escutou aquele grito. Você quer ser visitado pelo que fez aquilo?".
Ela se impressionou; alguma criatura da Umbrella por aí e Leon tentando salvar um repórter inútil.
"Eu vou correr o risco". Disse Bertolucci. "e boa sorte para fugir, vocês vão precisar...".
O repórter foi até as barras, olhando entre elas, passando a mão no cabelo.
"Olha,". Disse suavemente. 'tem um canil lá atrás, com um poço no chão vocês podem chegar ao esgoto por lá,
deve ser o caminho mais rápido para fora da cidade".
Ada suspirou intensamente. Ótimo; revelou sua passagem secreta para o laboratório. Se ela correr de Leon
agora, vai levar uns cinco minutos para ele alcançá-la.
Você pode matá-lo se necessário. Ou... você o faz se perder nos esgotos e volta para Bertolucci.
Como o repórter, ela não queria ver a coisa que gritou - sendo que ele não vai fugir, enganar o policial é a melhor
saída.
O que eu não faço para evitar derramamento de sangue.
"Certo, eu vou verificar". Ela disse, e sem esperar a resposta de Leon, virou e correu.
"Ada! Ada, espere!".
Ela o ignorou, passando pelas celas e voltando para o corredor, aliviada por ainda estar vazio. Tudo poderia ser
mais fácil se ela tivesse matado os dois, mas a situação é diferente. Ela estava cansada de tantas mortes, e
cansada do que a Umbrella fez; ela não vai matar um policial, exceto se precisar.
E se ela precisar, será pela vida de um inocente ou pela finalização da missão?
Essa pergunta a disse mais sobre sua consciência do que queria admitir. Ela chegou na porta do canil; respirando
fundo e apagando qualquer emoção de sua mente, Ada entrou para esperar Leon S. Kennedy.
[14]
Tão bonita... mesmo morta, Beverly Harris era radiante. Irons não podia esperar que ela acordasse enquanto
olhava; ele a colocou cuidadosamente no gabinete de pedra debaixo da pia e trancou, prometendo que a tiraria
dali assim que tiver mais tempo. Ela se tornará o animal mais delicado que já transformou, posando eternamente
perfeita assim que prepará-la do modo certo... um sonho se realizando.
Se eu tiver tempo. Se houver tempo restando.
Ele sabia que estava sentindo pena de si mesmo de novo. Não tinha ninguém para dividir a magnitude de tudo o
que já sofreu. Ele se sentiu terrível - triste, bravo e sozinho - mas também sentiu que tudo ficou claro. Agora ele
sabia por que estava sendo perseguido.
Umbrella. Uma conspiração para me destruir, todo esse tempo...
Irons sentou na manchada mesa de seu san-tuário, seu especial e particular lugar, pensando em quanto tempo
levará para a jovem mulher aparecer.
A do corpo atlético que não disse seu nome. De certo modo, ela foi responsável por sua descoberta.
Ela o achará, claro; era uma espiã da Umbrella, a companhia que o tem observado por um tempo. Eles deviam
ter uma lista de todos os seus pertences, relatórios psicológicos e até cópias de suas contas bancárias. Tudo fazia
sentido, agora que tinha tempo para pensar; ele era o homem mais poderoso em Raccoon, e a Umbrella
designou sua queda.
Irons olhou para seus tesouros, as ferramentas e troféus que estavam nas estantes à sua frente, e não sentiu o
prazer que costumavam inspirá-lo. Os ossos polidos eram só algo para olhar enquanto sua mente trabalhava,
absorvida com a traição da Umbrella.
Anos atrás, quando ele passou a receber dinheiro da companhia para ficar cego sobre seus feitos, as coisas eram
diferentes; aí era só uma questão de política, achar uma boa posição na poderosa estrutura que controlava
Raccoon. E tudo funcionou bem por um longo tempo - sua carreira prosseguiu como previsto, ganhou o respeito
dos oficiais e cidadãos, e na maior parte, seus investimentos valeram a pena. A vida estava sendo boa.
Depois apareceu Birkin. William Birkin e sua neurótica esposa, e a filha.
Depois do que aconteceu na mansão de Spencer, ele quase se convenceu de que o S.T.A.R.S. foi o responsável,
mas agora ele percebe que foi mesmo Birkin, um ano antes da bola começar a rolar; a destruição da mansão só
adiantou as coisas. A Umbrella deve ter começado a monitorá-lo desde que conheceu Birkin - primeiro só o
observavam, instalando câmeras e microfones ocultos. Os espiões viriam depois...
Os Birkin vieram para Raccoon tal que William pudesse se dedicar ao desenvolvimento de uma versão superior ao
T-virus, baseado na pesquisa do laboratório da mansão. Por mais que William fosse esquisito e desagradável,
Irons gostava dele, desde o começo. William era o menino gênio da Umbrella, e como Irons, não reclamava de
seu cargo; Birkin era humilde, só interessado em desempenhar seu papel. Ambos eram muito ocupados para
manter uma amizade, mas havia respeito entre os dois: às vezes Irons percebia que William o observava...
E o meu erro foi deixar. Deixar o meu respeito por ele nublar meus instintos, não me deixar perceber que estava
sendo observado desde o começo.
A perda do laboratório da mansão fez passar algumas ondas pela hierarquia da Umbrella, e alguns dias depois de
explosão, Annette Birkin foi até ele com uma mensagem do marido - uma mensagem e um favor. Birkin estava
preocupado, a Umbrella iria exigir o G-virus antes de ser terminado; ele não estava satisfeito com a aplicação de
seu último trabalho, parece que a Umbrella não o deixou aperfeiçoar o processo de replicação, Irons não se
lembra direito - e com a Umbrella tentando recuperar as perdas financeiras da mansão, Birkin ficou com medo de
eles comprometerem a integridade do não-testado vírus.
Através de Annette, William pediu ajuda - e ofereceu um pequeno incentivo extra. Por cem mil, Irons teria que
ajudar a manter o G-virus encoberto - resumindo, tomar cuidado com espiões da Umbrella e ficar de olho nos
sobreviventes do S.T.A.R.S.
Dinheiro fácil, exceto por ser uma armadilha da Umbrella...
Irons foi direto para ela, e foi quando a companhia começou a conspirara contra ele, usando as informações que
conseguiram selar seu destino. Como tudo aconteceu tão rápido? O S.T.A.R.S. desapareceu, depois Birkin - e
antes de entender a situação, os ataques recomeçaram.
Irons desceu da mesa e caminhou por ela, vagarosamente tocando os cortes na madeira. Havia uma história em
cada marca, a memória de um feito - e de novo, não lhe davam prazer. A fria e calma atmosfera de seu
santuário sempre o consolou, onde praticava seus hobbies, onde ele podia ser ele mesmo - e agora não é mais
seu. Nada era, a Umbrella tirou tudo dele, tal como a cidade. Será que soltaram o vírus para pegá-lo, para roubar
seu poder - e depois mandaram aquela garota de roupa provocante para ele se divertir? Por que ela era atraente?
Eles conheciam suas fraquezas...
..e em breve ela voltará, talvez bancando a perdida, tentando me seduzir com seu indefeso comportamento.
Uma assassina da Umbrella, uma espiã exploradora, tudo o que ela é, provavelmente rindo de mim por trás
daquele rosto bonito...
Talvez a contaminação foi um acidente; da última vez que se viram, William estava instável, paranóico e exausto,
e acidentes acontecem na melhor das circunstâncias. O resto era fato, não tinha outra explicação para o quanto
arruinado Irons estava. Aquela garota estava vindo pegá-lo, ela era da Umbrella e foi enviada para matá-lo. E não
pararia aí, oh, não, ela vai achar Beverly e... e sujá-la de algum modo, só para ter certeza de que nada de Irons
sobrará.
Irons olhou em volta da pequena e suavemente iluminada sala que um dia foi sua, olhando orgulhosamente para
as bem usadas ferramentas e móveis, o doce e familiar cheiro de desinfetante emanando das irregulares paredes
de pedra.
Meu santuário. Meu.
Ele pegou o revólver que estava em sua especial mesa de corte, a VP70 ainda era sua, e sentiu um pequeno
sorriso nos lábios. Sua vida estava acabada. Tudo começou com Birkin e vai terminar aqui, pelas suas próprias
mãos. Mas não agora.
A garota vai voltar, e ele vai matá-la, antes de dizer adeus para Beverly, antes de admitir sua derrota com um
tiro. Mas ele a fará sentir seu sofrimento antes. Por cada tortura que ele sofreu, a garota iria pagar, a conta
descontada em cada osso o mais dolorosamente possível.
Ele iria morrer, mas não sozinho. Não sem ouvir a garota gritar de agonia, criando a voz para a morte de seus
sonhos - uma voz tão verdadeira que o eco atingiria o coração dos executivos da companhia que o traiu.
A sala do S.T.A.R.S. estava vazia, desarrumada, fria e empoeirada, mas Claire não queria sair. Depois de seu
aterrorizante vôo pelos corredores do segundo andar, achar o lugar de trabalho de seu irmão a deixou aliviada.
Mr. X não a seguiu, e mesmo querendo achar Sherry e Leon, ficou com medo de voltar para o corredor - e
hesitante em deixar o único lugar que se parecia com Chris.
Onde você está meu irmão? E o que vou fazer? Zumbis, fogo, morte, seu estranho chefe e a garota perdida - e
quando as coisas não podiam ficar piores, eu dou de cara com a-coisa-que-não-quer-morrer, o monstro dos
monstros. Como eu saio dessa?
Ela sentou na mesa de Chris, olhando as fotos preto e brancas que achou no findo da gaveta; as quatro eram
deles dois, sorrindo e posando na semana que passaram em Nova Iorque no natal passado. Primeiro ela quis
chorar, mas os dois sorrindo a fizeram se sentir melhor. Mais calma. Mais forte. Ela o amava, e onde quer que
ele esteja, a amará de volta - e se ambos sobreviveram a perda dos pais, reconstruíram suas vidas e dividiram
um bobo natal por não ter um lar para ir, então eles podiam enfrentar tudo. Claire podia.
Pode e vai. Eu vou achar Sherry, Leon e se Deus quiser, meu irmão - e nós vamos sair de Raccoon.
A verdade era, ela não tinha outra escolha - mas ela precisa aceitar a falta de opções antes de agir. Uma vez ela
ouviu que bravura não era a ausência do medo, era aceitar o medo e fazer o que for necessário.
Claire respirou fundo, colocou as fotos no colete e levantou da cadeira. Ela não sabe para onde Mr. X foi, e ele
não parece ser alguém que fica esperando. Ela vai voltar para a sala de Irons e ver se Sherry voltou - ou Irons.
Se X ainda estiver lá, ela pode correr.
Além disso, eu devia vasculhar a sala e tentar achar algo sobre o S.T.A.R.S.
De pé, ela olhou em volta, desejando ter achado mais informações. Tudo o que achou de útil foi uma mochila
engraçada na mesa de trás; segundo o cartão vencido da biblioteca, a mesa era de Jill Valentine. Claire nunca a
conheceu mas Chris já falou dela algumas vezes, disse que era boa com armas...
Pena que não deixou uma para trás.
Eles devem ter deixado para trás tudo o que não era importante depois da suspensão, apesar de ainda haverem
muitos itens pessoais lá. Porta retratos, copos de café e o de costume. Ela olhou para a mesa de Barry, havia
uma arma de montar quase terminada. Barry Burton era um dos amigos mais próximos de Chris, um grande e
amigável homem, maluco por armas. Claire esperou que onde quer que Chris esteja, Barry esteja cuidando dele.
Com um lança-chamas.
Falando nisso...
Ela precisa achar outra arma, ou mais munição; ela só tinha treze balas restando, um clip inteiro. Talvez ela deva
checar alguns corpos na volta para a asa leste; mesmo correndo apavorada, ela percebeu que alguns deles eram
policiais, e seu revólver era um equipamento do R.P.D.. Claire não gostou da idéia de ter que tocar cadáveres,
mas ficar sem balas era pior - principalmente com Mr. X por aí.
Claire voltou para a porta e a abriu, organizando seus pensamentos enquanto voltava para o escuro corredor.
Deixar o escritório a fez apagar a ainda vívida imagem de Mr. X, sentindo-se vulnerável de repente. Ela foi para a
direita e começou a voltar para a biblioteca, decidindo que não pensará mais no gigante, exceto se precisar, não
insistiria na memória daqueles olhos vazios, ou do modo que ergueu o punho, como se fosse destruir tudo em
seu caminho...
.. então apague tudo isso. Pense em Sherry, em como achar munição ou como lidar com Irons, caso o ache.
Pense em ficar viva.
Bem à frente o corredor virava à esquerda e Claire tentou ignorar a tarefa seguinte; se não lhe falhe a memória,
tinha um policial morto perto da curva.
- como se eu não soubesse pelo cheiro -
- e ela tinha que vasculhá-lo. Ele não parecia tão nojento -
Claire fez a curva e congelou, olhando. Seu estômago deu um nó, dizendo-a que estava em perigo antes mesmo
de seus sentidos. O corpo que ela tinha pulado a caminho do escritório do S.T.A.R.S. tinha virado uma enrolada e
sangrenta massa de carne, ossos quebrados e uniforme rasgado. A cabeça se foi, apesar de não saber se foi
arrancada ou se estava dissolvida na polpa. Parece que alguém martelou o corpo depois que passou por ele.
Mas como, eu não ouvi nada -
Algo se mexeu. Uma suave sombra sobre os restos a alguns metros dela, e na mesma hora, Claire ouviu um
áspero som, respirando -
- e ela olhou para cima, ainda incerta sobre o que via ou ouvia - a respiração e o tick das garras na madeira,
grossas e curvas, as garras de uma criatura que não podia existir. Grande, do tamanho de um homem adulto,
mas a semelhança terminava aí - era tão impossível que só o via por partes, sua mente forçando para juntá-las.
A inflamada e avermelhada carne da criatura pelada, seus longos membros que aderiam no teto. A inchada
massa cinzenta do cérebro parcialmente exposto. Um coroa cicatrizada onde os olhos deveriam estar.
- não estou vendo isso -
A cabeça da criatura rolou para o lado, sua grande boca abrindo, um longo fio de baba caindo e acertando o que
tinha sobrado do policial. Ele estendeu a língua, lisa e rosa, a superfície brilhando enquanto deslizava para fora. E
para fora. E para fora, a comprida língua ia de um lado para o outro, tão longa que tocou os restos do policial.
Ainda congelada, Claire olhava desacreditada enquanto a língua era recolhida, deixando pingar sangue. O processo
inteiro só levou um segundo, mas o tempo começou a passar, o coração de Claire batia tão forte que tudo mais
estava em câmera lenta - até quando a criatura pulou no chão de madeira, seu corpo girando no ar e
aterrissando agachado em cima do corpo mutilado.
A criatura abriu a boca de novo e gritou -
- e Claire finalmente conseguiu se mexer, apontando e atirando. O trovão das balas ecoaram pelo corredor,
bam-bam-bam -
- e ainda gritando, a criatura caiu de costas, seus braços batendo. As pernas chutaram pedaços de carne do
cadáver no chão; Claire viu um pedaço de pele, ainda com uma orelha grudada, voar pelo corredor e bater na
parede, deslizando até o chão -
- e a criatura se desvirou, partindo em um arremesso. Ele engatinhou até ela, rápido como um raio, agarrando o
chão com suas garras e uivando.
Claire atirou de novo, não ciente de que também estava gritando enquanto três balas acertaram a coisa,
atravessando a cinza massa que saia de seu crânio. Ela ia morrer, estará nela em menos de um segundo, as
garras estavam a centímetros de suas pernas -
- e tão subitamente quanto o ataque foi, estava acabado. Cada parte do robusto corpo tremeu, balançou
enquanto um líquido claro gotejava de sua cabeça, as grossas garras batendo no chão de madeira
ritimadamente. Com um último choro, a criatura morreu. Não houve erro desta vez. Ela acertou o cérebro, não
vai se levantar.
Ela olhou para o monstro, sua mente procurando por algo parecido, algum animal - mas ela desistiu, percebendo
que era uma causa perdida. Não era uma criatura natural e por mais que parecesse, ela finalmente sentiu o
cheiro - o odor não era tão picante quanto o dos zumbis. Era um amargo e oleoso cheiro, mais químico do que
animal...
.. podia cheirar como bolachas de chocolate, quem se importa? Raccoon City ganhou monstros, é hora de parar
de ficar tão surpresa ao ver um deles.
Por mais que quisesse se sentir brava e determinada, pensou seriamente em voltar para o escritório do
S.T.A.R.S. e trancar a porta. Poderia se esconder e esperar a ajuda, poderia estar a salvo -
Decida. Faça algo, de um jeito ou de outro, pare de hesitar e choramingar, por que não é só você. Estará Sherry
a salvo? Você quer viver às custas da vida dela.
Claire deu um cuidadoso passo sobre a criatura e agachou perto do que sobrou do policial, usando a ponta da
arma para virar um pedaço do uniforme. Ela respirou bile enquanto vasculhava os restos, tentando não imaginar
quem o policial foi ou como morreu.
Nada, e agora ela só tem sete balas - mas ela rejeitou o pânico, deixando a decepção abastecer sua
determinação. Se ela examinou um monte de carne, poderia examinar outro.
Com um último olhar para a criatura, Claire levantou e andou rápido para o fim do corredor, decidida: sem se
esconder e sem correr do medo. Pelo menos ela pode levar algum monstro consigo, aumentando as chances de
Sherry sobreviver.
Seria melhor morrer tentando do que não tentar. Ela não vai hesitar novamente.
[15]
Leon encontrou Ada no canil, fazendo força para erguer a enferrujada tampa do poço que tinha sido mencionada
pelo repórter. Ela tinha achado um pé-de-cabra e o colocou sob a tampa, seu bem definido bíceps brilhava com o
suor enquanto puxava a tampa. Ela conseguiu erguer a tampa um centímetro, mas deixou cair assim que ele
apareceu, o som metálico bem alto no vazio lugar.
Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, ela soltou a barra no chão de cimento e olhou para cima, dando um
meio sorriso, esfregando as mãos sujas.
"Ainda bem que está aqui. Não acho que sou forte o bastante para conseguir sozinha...".
Ele não tinha certeza antes mas aquele indefeso sorrisinho apertou o nó; ela estava enganando ele, ou tentando.
Ele conheceu Ada há vinte minutos e nunca achou que ela fosse indefesa para nada.
"Parece estar indo bem". Ele disse, guardando a arma e sem se mexer para ajudar. Ele cruzou os braços,
franzindo. Não estava bravo, só curioso.
"Qual é a pressa? Pensei que você quisesse falar com o repórter. Sobre John, seu amigo da Umbrella...".
As expressões dela ficaram frias e duras, mas não de um modo ruim; ela foi bem cuidadosa para evitar as
perguntas de Leon, mas desta vez a Sra. Wong terá que explicar algumas coisas.
Ada se levantou e o olhou. "Você ouviu - ele não ia contar nada para nós. E perigoso como esse lugar é, eu não
quero ficar esperando por aí...".
A voz dela suavizou. "... e eu nem sei se John está em Raccoon. Mas eu sei que não está aqui - e eu quero sair
da delegacia antes que seja completamente dominada".
Parecia bom, mas por algum motivo, ele sentia que Ada estava escondendo algo. Por alguns segundos, ele fez
força para achar o modo correto de fazê-la se abrir - depois deixou de lado; sob as circunstâncias, agrados ficarão
suspensos.
"O que está acontecendo, Ada? Você sabe de algo e não quer me contar?".
Ela olhou para ele de novo, e de novo, ele acha que a surpreendeu - mas o olhar dela estava mais ilegível do que
nunca.
"Eu só quero sair daqui". Ela disse, e a sinceridade na sua voz era inegável. Ele podia não acreditar em nada do
que ela disse, mas nisso ele tinha que acreditar.
Queria que fosse fácil assim, mas tem a Claire, Ben, nosso amigo idiota, e só Deus sabe lá quantos outros.
Leon balançou a cabeça. "Eu não posso ir. Como eu disse, eu posso ser o único policial restando. Se ainda houver
sobreviventes, eu preciso tentar ajudá-los. E eu acho melhor você vir comigo".
Ada deu outro sorrisinho. "Eu aprecio sua preocupação, Leon, mas eu posso cuidar de mim mesma".
Ele não duvidava - mas também não queria vê-la testar suas habilidades. Ele também não foi bem testado, mas
foi treinado para lidar com situações críticas, era seu trabalho.
E seja honesto consigo mesmo - você perdeu Claire, não pode ajudar Branagh, e Ben não quis saber de sua
proteção; você não quer falhar com Ada. E você não quer ficar sozinho.
Ada parecia saber o que ele pensava. Antes que ele pudesse falar algo convincente, ela se aproximou e tocou o
braço de Leon, o humor sumindo de seus olhos.
"Eu sei que precisa fazer sua parte aqui - nós temos que sair de Raccoon, tentar sair e pedir ajuda. E os esgotos
devem ser a melhor chance que temos...".
O toque o surpreendeu - e mandou um tremor para sua barriga, deixando-o confuso e incerto. Ele tentou
esconder a sensação, mas só um pouco.
Ada continuou, franzindo, pensativamente. "Que tal isso - me ajude com a tampa e vemos o que tem lá
embaixo. Se for perigoso, eu volto com você... mas se estiver ruim - bom, nós conversamos sobre isso depois".
Ele queria protestar, mas a verdade era, ele não podia obrigá-la a fazer algo que não queria - e ele queria muito
que ela não pensasse que ele era do tipo "machão", que ele estava aberto a um compromisso...
.. e o nome John te lembra algo? Pare de pensar em seus hormônios.
Sentindo-se estranho ao pensar nisso com ela ainda o tocando, Leon se afastou, acenando ligeiramente. Juntos,
eles se agacharam perto da tampa. Leon pegou o pé-de-cabra e encaixou na tampa; assim que ele a levantava,
Ada empurrou a barra. Com um alto rangido metálico a tampa abriu -
- e ambos se afastaram por causa do cheiro que saiu do buraco, um sufocante cheiro de sangue, vômito e urina.
"Eca, o que é isso?". Leon tossiu.
Ada sentou nos calcanhares, tampando a boca com a mão. "Os corpos da garagem, devem ter sido jogados
aqui -".
Antes que ele pudesse perguntar do que ela estava falando, um grito de puro terror ecoou pelo subsolo, filtrado
pela porta fechada. O grito continuou e continuou, um homem, o aterrorizado grito mudando para um berro de
dor.
O repórter.
Leon travou seu olhar com o de Ada, viu a mesma percepção nela - e já estavam correndo, empunhando armas
e cruzando a porta antes dos ecos morrerem.
Eu o deixei, eu não devia -
Eles correram para a área das celas, a culpa fazendo Leon correr o mais rápido que podia. Alguém ou algo achou
Bertolucci.
Sherry parou no escritório de Irons, esfregando seu colar da sorte e rezando para que Claire voltasse. Ela
engatinhou por vários túneis empoeirados para se livrar do monstro e mantê-lo longe de Claire, e tinha certeza de
que funcionou - ela não o ouviu de novo e voltou só para descobrir que Claire tinha partido; se o monstro a
tivesse achado, estaria morta e partida ao meio.
Mas ela não está aqui. Ninguém está...
Sherry sentou na ponta da mesa no meio da sala, pensando no que faria. Ela tinha se acostumado com a solidão,
mas Claire mudou tudo, queria vê-la de novo, queria estar com outras pessoas, queria tanto os pais que
começou a doer. Até Sr. Irons seria bom, apesar de Sherry não gostar dele; ela só o viu algumas vezes e ele era
estranho, orgulhoso e falso - e seu escritório era pavoroso.
Mesmo assim, ela ficaria grata com a presença dele, só para não ficar sozinha -
Passos. No corredor fora da sala.
Sherry levantou e correu para a porta aberta que ia para a sala das armaduras, esperando que fosse Claire e
pronta para correr se não fosse. Ela se escondeu atrás da porta e prendeu a respiração, olhando para o tigre
empalhado e rezando.
A porta externa abriu e fechou. Abafados e vagarosos passos no carpete, e Sherry tentou correr, ao mesmo
tempo criando coragem para dar uma olhada -
"Sherry?".
Claire.
"Estou aqui!".
Ela correu par o escritório e lá estava Claire, iluminada com um sorriso. Sherry voou nos braços dela, tão feliz em
vê-la que quis chorar.
"Eu estava procurando você". Claire disse, abraçando-a fortemente. "Não corra daquele jeito de novo, está
bem?".
Claire se ajoelhou na frente dela, ainda sorrindo - mas Sherry pôde ver a preocupação em seu olhar.
"Eu sinto muito". Sherry disse. "Eu tive que correr senão o monstro viria".
Como ele se parece?". Claire perguntou, apagando o sorriso. "Ele é meio vermelho com garras?".
Sherry suspirou. "Os homens do avesso! Você viu um, não viu?".
Claire riu, balançando a cabeça. "É, é exatamente o que eu vi, um homem do avesso... boa descrição".
Claire olhou mais seriamente para Sherry, franzindo "Homens? Existem mais deles?".
"Sim, mas nem se comparam com o monstro. Eu só o vi uma vez, de costas, e é gigante -".
"Careca? Vestindo um longo casaco?".
"Não, ele tinha cabelo, cabelo claro. E um de seus braços era todo estragado, bem mais comprido que o outro".
Claire suspirou. "Ótimo. Raccoon tem algo diferente para cada um, parece que...".
Ela segurou a mão de Sherry, esfregando-a "... e é mais uma razão para ficar comigo. Você fez um ótimo
trabalho cuidando de si mesma, foi muito corajosa - mas até acharmos seus pais, é meu dever cuidar de você. E
se o monstro vier, eu vou - eu vou chutar o traseiro dele, tá bom?".
Sherry riu, surpresa. Ela gostava de Claire falando para cima com ela. Sherry acenou e Claire esfregou sua mão
de novo.
"Bom. Então nós temos zumbis, homens do avesso, e um monstro. E um grandão careca... Sherry, você sabe o
que aconteceu em Raccoon? Como tudo isso começou, pode dizer qualquer coisa - pode ser importante".
Sherry franziu, pensando. "Bom, houve um monte de mortes em Maio e Junho passado, acho - umas dez
pessoas foram mortas. Depois a mortes pararam, e algumas semanas atrás alguém foi atacado de novo".
Claire acenou. "Certo. Mais alguém foi atacado, ou... o que a polícia fez?".
Sherry balançou a cabeça. "Eu não sei. Logo depois que aquela garota foi atacada, minha mãe ligou do trabalho
muito preocupada, disse que eu não podia sair de casa. A Sra. Willis - nossa vizinha - veio fazer o jantar para mim
e assim soube daquela garota. Mamãe ligou de novo no dia seguinte, e me disse que papai e ela estavam presos
no laboratório e não voltariam por um tempo - e então, três dias atrás, ela pediu que eu viesse para cá. Eu fui
ver se a Sra. Willis viria comigo, mas sua casa estava escura e vazia. Acho que as coisas já estão bem ruins".
Claire ouvia atentamente "Você ficou sozinha todo esse tempo? Mesmo depois que chegou aqui?".
"Bem, sim, mas eu sempre fico sozinha. Meus pais são cientistas; seus trabalhos são importantes e às vezes não
podem interrompê-los. Minha mãe sempre diz que eu sou auto-suficiente quando quero".
"Você sabe que tipo de trabalho seus pais fazem? Na Umbrella?
"Eles fazem curas para coisas, para doenças". Sherry disse orgulhosa. "Eles fazem remédios, soros que hospitais
usam...".
Sherry parou, percebendo que Claire parecia distraída, seu olhar bem distante. Era o olhar que viu muitas vezes
nos rostos de seus pais - e significava que não estavam mais ouvindo. Mas assim que parou de falar, Claire
voltou para ela, tocando seu ombro - e por algum motivo bobo, aquilo a fez querer chorar novamente.
Deve ser porque ela está me ouvindo. Porque ela quer cuidar de mim.
"Sua mãe está certa,". Claire disse gentilmente. "você é muito auto-suficiente, e o que fez até agora diz que é
muito corajosa, também. Isso é bom, por que nós duas precisamos ser fortes para sairmos daqui".
Sherry abriu mais os olhos. "Como assim. Deixar a delegacia? Mas tem zumbis por toda a parte, e eu não sei
onde os meus pais estão, e se eles precisam de ajuda ou estão me procurando -".
"Meu bem, eu tenho certeza de que eles estão bem". Claire disse rapidamente. "Eles ainda devem estar no
laboratório, escondidos em segurança, igual você esteve - esperando ajuda para, para fazer tudo ficar melhor -".
"Você diz, matar todo mundo,". Sherry disse. "eu tenho doze anos, sabe, não sou mais um bebê".
Claire sorriu. "Desculpe. É, para matar todo mundo, sim. Mas até os homens bons virem, nós ficaremos juntas. E
a melhor e mais inteligente coisa a fazer é sair do caminho deles - o mais longe possível. Você tem razão, as ruas
não são seguras, mas quem sabe nós achamos um carro...".
Claire se levantou e foi até a mesa de Irons, olhando em volta. "Talvez Chefe Irons tenha deixado as chaves do
carro aqui, ou outra arma, algo que possamos usar -".
Claire viu algo no chão atrás da mesa. Ela se agachou e Sherry foi atrás, tanto para ficar perto quanto para ver o
que ela tinha achado.
"Tem sangue aqui". Claire disse tão baixo que parecia não ter dito nada.
"E?".
Claire olhou para a parede, franzindo, depois voltou para a grande mancha de sangue no chão. "Ainda está
úmido. Repare como ela é simplesmente cortada. Devia ter mais na parede aqui...".
Ela bateu na parede, ouvindo um som vazio, oco.
"Tem alguma sala aí atrás?". Sherry perguntou.
"Eu não sei, parece que sim. E explicaria para onde ele levou... por onde ele tinha saído antes. Chefe Irons".
Claire olhou para Sherry enquanto corria a mão pela parede e empurrando. "Sherry, veja se tem algum botão ou
alavanca perto da mesa. Acho que deve estar escondido em algum lugar, talvez em uma das gavetas...".
Sherry começou a andar atrás da mesa - e tropeçou, seu pé deslizando em algum lápis. Ela se segurou na mesa
para recuperar o equilíbrio, mas ainda assim caiu de joelhos.
"Ai!".
Claire estava à sua direita, já segurando seus ombros. "Você está bem?".
"Estou. Eu só - ei! Olha!".
Sherry apontou para um botão sob a mesa, no meio de uma placa de metal. Parecia um interruptor de luz, mas
tinha que ser para a porta secreta, ela sabia.
Eu achei!
Claire viu e apertou - e atrás delas, um seção da parede deslizou para cima, desaparecendo no teto, e expondo
uma outra sala de tijolos. Um frio e úmido ar entrou no escritório; era uma passagem secreta, igual às dos filmes.
Juntas, se levantaram e entraram na abertura, Claire segurando Sherry até olhar primeiro. A pe-quena sala
estava vazia - três paredes de tijolos, chão de madeira e uma grande e antiga grade de elevador na parede da
direita, daquelas que abrem para o lado.
"Nós vamos pegá-lo? Sherry perguntou. Ela estava ansiosa e nervosa.
Claire pegou sua arma, se agachou para Sherry e sorriu - mas não era um sorriso feliz, e Sherry já sabia o que ia
ouvir.
"Meu bem, acho que vai ser mais seguro se eu descer e dar uma olhada, e você ficar aqui -".
"Mas você disse que ficaríamos juntas! Você disse que podíamos pegar um carro e fugir! E se o monstro voltar e
você não estiver aqui, ou se você morrer?".
Claire a abraçou, e Sherry quase enjoou de tanta raiva. Ela ia dizer para não se preocupar, que o monstro não vai
voltar, que nada ruim ia acontecer - e depois iria embora.
Adultos mentirosos -
Claire se afastou, tirando o cabelo do rosto de Sherry. "Eu não a culpo por estar assustada. Eu também estou.
Esta é uma situação ruim - e sinceramente, eu não sei o que vai acontecer. Mas eu quero fazer a coisa certa por
você, e isso quer dizer que eu não vou levá-la para um lugar onde pode se machucar, não se eu puder ajudar".
Sherry guardou as lágrimas e tentou de novo. "Mas eu quero ir com você... e se você não voltar?".
"Eu vou voltar,". Claire disse. "eu prometo. E se - se eu não voltar, eu quero que se esconda novamente. Alguém
virá ajudar em breve, e vão te achar".
Pelo menos estava sendo honesta; Sherry não estava gostando, e não tinha nada que pudesse mudar a decisão
de Claire. Poderia agir como um bebê ou apenas aceitar.
"Tome cuidado". Claire disse, e abraçou Sherry antes de ficar de pé e ir para a o elevador. Ela apertou o botão ao
lado da grade e um leve hum foi ouvido; depois de alguns segundos a cabine veio de baixo, parando gentilmente.
Claire abriu a grade e entrou, virando para ver Sherry.
"Fique aqui, querida, eu voltarei em alguns minutos".
Sherry forçou um aceno - e Claire fechou a grade. Ela apertou algo lá dentro e a cabine desceu, seu sorriso
saindo de visão, deixando a garota sozinha na fria passagem.
Sherry sentou-se no chão empoeirado e abraçou os joelhos. Claire era corajosa e esperta, ela voltará logo, ela
tem que voltar logo...
"Eu quero minha mãe". Sherry cochichou, mas ninguém estava lá para ouvir. Ela estava só de novo; tudo o que
menos queria.
Mas eu sou forte. Eu sou forte e posso esperar.
Ela descansou a bochecha em um joelho, tocando seu colar da sorte, e começou a esperar por Claire.
[16]
Annette Birkin sentou-se na sala de monitoramento, exausta, observando a parede de monitores centrada sobre
a mesa de vigilância. Ela tem estado lá pelo que parecem anos, esperando William aparecer, e começou a pensar
que não iria. Ela vai esperar mais um pouco - mas se não vê-lo em breve, terá que fazer outra busca.
Maldita tecnologia...
É um sistema novinho em folha, tem menos de um mês - vinte e cinco telas com um controle de canais que
deveria permiti-la ver cada canto desse laboratório. Um brilhante avanço na segurança - exceto por onze ainda
estarem funcionando, e mais da metade dessas estarem mostrando estática. Das cinco que ainda podia ver
claramente, tudo o que via - e tinha o que ver - estava morto, corpos podres e o ocasional Re3, que comia ou
dormia.
"Lickers (linguarudos). Você os chama de lickers por causa de suas línguas...".
Ela achou que tinha passado pelo pior da dor, mas o solitário som de sua voz na fria e cavernosa câmara, a fez
perceber que não tinha ninguém para responder - não haverá mais ninguém para responder. William se foi, se foi
e ela estava falando sozinha.
Annette abaixou a cabeça na mesa de controle, fechando seus cansados olhos. Pelo menos não haviam mais
lágrimas; ela já tinha despejado um oceano delas desde que a Umbrella veio atrás do G-virus. Agora só há dor,
combinada com fúria pelo que a Umbrella tinha feito.
Mais um mês, talvez dois, e nós teríamos dado a eles, sem nenhuma força. E William teria entrado para a
comissão de executivos e nós ficaríamos felizes. Todos ficariam -
Houve um fraco ruído vindo de um dos monitores. Annette olhou para cima esperando e tremendo - mas era só
um licker, um andar acima, no centro cirúrgico. Ele tinha acordado e caído do teto para jantar um dos técnicos,
uivando estupidamente para si mesmo enquanto rasgava o abdômen do corpo. O homem morto parecia ser Don
Weller, um dos intermediários do laboratório químico; ele estava tão mutilado quanto a inumana aparência do Re3
que o comia.
Ela observou o licker se alimentar, olhando para o monitor mas não o vendo; sua mente pensando no que tinha
sobrado para fazer. Ela já tinha apagado todos os computadores e os travado com códigos; o laboratório estava
pronto e sua rota de fuga era segura. Só que ela não podia terminar tudo até vê-lo de novo, ver que ele tinha
voltado para o laboratório da Umbrella. Destruir o lugar não adiantaria nada se ele não estivesse na zona de
explosão; eles o encontrariam e extrairiam o vírus de seu sangue...
.. mas a Umbrella não vai consegui-lo. Eu vou morrer antes de deixá-los conseguir, então me ajude, Deus.
Seu único consolo era que a Umbrella não conseguiria por suas mãos gananciosas na síntese de William. E nunca
porão. Tudo o que foi usado na criação do G-virus será enterrado sobre toneladas de destroços, junto com
William e todos os monstros que eles criaram para a companhia. Depois ela irá se esconder por um tempo, se
recuperar e considerar suas opções - e então, venderá o G-virus para a concorrência. A Umbrella era a maior,
mas não era a única trabalhando em armas biológicas - quando Annette estiver quite com ela, não será mais a
maior. A vingança era tudo o que tinha restado.
"Exceto por Sherry". Annette cochichou, e a lembrança de sua jovem filha fez seu coração doer. Desde que
Sherry nasceu, Annette quis ter passado mais tempo com ela, se concentrar no bebê ao invés de ser parte do
brilhante trabalho de William.
Os anos se passaram e as promoções de William continuaram vindo, o trabalho ficou mais interessante e valioso -
e apesar de ambos terem prometido fazer um esforço para desenvolver a vida familiar, continuaram adiando.
E agora é tarde demais. Nunca seremos uma família, nunca seremos pais juntos. Todo aquele tempo perdido,
trabalhando para uma companhia que acabou nos esgotando...
Não adianta mais pensar em como teria sido. Tudo o que podia fazer era não deixar a Umbrella tirar mais nada
da família Birkin. William se foi, mas ainda tinha Sherry; essa parte dele continuará, e Annette poderá ser a mãe
que deveria ter sido. Claro, ela terá de esperar alguns meses antes de pegar Sherry, esperar a coisas se
acalmarem. Mas a garota ficará bem; os policiais a levarão para morar com a irmão de William, estava em ambos
os testamentos...
.. a não ser que Irons ainda esteja vivo. Aquele gordo ganancioso achará um jeito de estragar até isso.
Ela esperava que estivesse morto; mesmo se não fosse responsável pelo que a Umbrella fez, Brian Irons era
nojento e arrogante, com a moral de uma lesma. Depois de anos de lealdade à companhia, foi comprado por
míseros cem mil dólares. Até William, que tinha uma opinião mais baixa sobre o chefe da polícia do que ela, se
surpreendeu...
Na tela, o Re3 terminou de comer. Tudo o que sobrou do corpo foram as costelas ensangüentadas e a parte de
trás do crânio. O licker saiu de visão, deixando um rastro escuro no chão. Graças ao T-virus, todas séries répteis
foram eficientes assassinos, apesar dos Re3 terem apresentado falhas - o cérebro exposto era a mais óbvia, e
também tinham um ridículo alto índice de metabolismo; mantê-los alimentados foi uma discussão constante.
Não é mais problema. Tem vários corpos por aí - mais cedo ou mais tarde poderão comer algo quente...
Annette sentiu falta de energia, não queria sair da sala - mas não podia ficar esperando William aparecer. Ela o
ouviu no nível três uns dois dias atrás, mas não o via a quase quatro; ela não podia ficar esperando. O pessoal da
Umbrella já deve estar pensando em como entrar - mesmo com o computador central apagado, haviam outros
modos de passar pelas portas -
- e William pode ter saído. Não posso mais negar isso, não importa o quanto eu queira.
Havia uma fábrica à oeste do laboratório, uma companhia de transporte que foi comprada pela Umbrella, para
assegurar que os níveis subterrâneos ficassem secretos; foi assim que a Umbrella conseguiu construir o complexo
sem levantar suspeitas, escondendo equipamentos e materiais nos galpões, e usando a grande plataforma móvel
para transportá-los. Apesar das entradas da fábrica ainda estarem fechadas, desde que verificou pela última vez,
havia uma possibilidade de que William possa ter saído - e se chegou na fábrica, podia chegar aos esgotos.
Annette esforçou-se para levantar, ignorando as cãibras nas pernas e costas enquanto pegava a arma da mesa.
Ela não sabia muito sobre armas, mas aprendeu bem rápido depois que -
- que eles vieram pegar o G-virus, os homens usando máscaras de gás, atirando e correndo - e William, pobre
William, morrendo numa poça de sangue, e eu não vi a seringa antes de ser tarde demais -
Ela respirou fundo, tentando esquecer essa terrível memória, tentando esquecer o incidente que tirou William dela
e transformou Raccoon na cidade dos mortos. Isso não importava mais. A jornada à frente não será prazerosa,
e ela tinha que se concentrar. Fuja dos Re3, humanos no primeiro e segundo estagio de infecção, os
experimentos de botânica e a série de aracnídeos - ela podia se deparar com qualquer um deles, sem mencionar
o que a Umbrella possa ter enviado.
E William. Meu marido, meu amado - o primeiro humano portador do G-virus, que já não é mais humano.
Annette estava errada sobre achar que não tinha mais lágrimas. Ela parou no meio da vasta e esterilizada sala,
cinco andares sob a superfície de Raccoon, e chorou, perdida, respondendo aos estímulos que nunca se quer
tinham tocado a dor de sua solidão.
A Umbrella sentirá muito. Uma vez certa de que William esteja fora do alcance deles, ela destruirá o laboratório,
fugirá com o G-virus, os fará entender como estragaram tudo - e que Deus ajude quem tentar impedi-la.
[17]
Ada correu pelo bloco das celas, a um passo atrás de Leon, bem a tempo de ver o repórter sair da cela e cair no
chão. "Ajude-o!".
Leon gritou, e passou por Bertolucci para verificar a cela. Ada parou em frente ao sufocado repórter, mas ignorou
a ordem, esperando ver a criatura que o atacou sair da cela -
- ele estava atrás das grades, como isso aconteceu -
Ela esperou, mirando na cela, seu coração pulando - e viu a confusão no olhar de Leon. Pelo modo como olhava,
a disse que a cela estava vazia. A não ser que o agressor fosse invisível...
Sem chance. Não comece a pensar nisso.
Ada se ajoelhou ao lado do repórter, percebendo imediatamente que ele não estava bem - nada bem. Ele tinha
se sentado e encostado na parede que dividia as duas celas. Ele ainda respirava. Ada já tinha visto essa
aparência antes, o distante olhar, a tremedeira, a palidez - mas ela não via o porquê, e isso a assustava. Não
havia ferimentos. Deve ter sido um ataque cardíaco, talvez um derrame -
- mas aquele grito.
"Ben? Ben, o que aconteceu?".
Seu vacilante olhar vidrado no dela, e Ada viu que os cantos de sua boca estavam rasgados e sangrando. Ele
abriu a boca para falar, mas tudo o que saiu foi um resmungo.
Leon se agachou junto a eles, confuso, também. Ele balançou a cabeça para ela, respondendo a pergunta que
não tinha feito; não haviam sinais do que tinha acontecido.
Ada olhou para Bertolucci e tentou novamente.
"O que foi, Ben? Você consegue nos dizer o que aconteceu?".
As trêmulas mãos do repórter subiram pelo corpo até pararem no peito. Com um esforço visível, ele tentou dizer
uma palavra.
"...abertura...".
Ada não tinha certeza. As aberturas nas paredes das celas eram muito pequenas e muito distantes do chão -
nada mais do que um tubo de ventilação que dava na garagem. Nada podia ter passado por lá.
Bertolucci ainda tentava falar. Ada e Leon se aproximaram, tentando entender suas palavras.
"... peito. Queima, tá... queimando...".
Ele estendeu a mão de repente e agarrou o braço dela, encarando-a com uma intensidade que a surpreendeu.
Ele apertou fracamente, com desespero em seus olhos.
"Eu nuca falei... sobre Irons". Ele respirou, fazendo força para continuar vivo até dizer tudo. "Ele está -
trabalhando para a Umbrella... todo esse tempo. Os zumbis - são pesquisas da Umbrella... e ele acobertou os
assassinatos, mas eu não consegui - provar, ainda... ia ser meu - furo".
Bertolucci fechou os olhos, respirando forte enquanto soltava o braço dela, e ela sentiu pena dele ao invés de si
mesma. Seu grande segredo era que a Umbrella tinha armas biológicas e Irons estava nessa. Teria sido um
grande furo.
Ele não sabe nada sobre o G-virus, nunca soube - e vai morrer sem reconhecimento.
"Jesus," Leon disse suavemente. "o chefe Irons..."
Bertolucci começou a ter convulsões, suas mãos apertando seu peito enquanto gemia de agonia. Suas costas se
curvaram, seus dedos como garras -
- e o gemido virou líquido enquanto sangue começou a borbulhar em sua boca. Engasgando e tremendo, seus
membros se debateram violentamente, espirros de sangue voando a cada tossida -
- e Ada viu vermelho surgir na camisa branca sob as mãos dele, ao som de ossos quebrando. Ela se afastou
assim que Leon tentou segurar as mãos de Ben, incerto do que estava acontecendo, mas certo de que não era
um ataque cardíaco -
- Santo Deus, o que é aquilo?
Tudo ao mesmo tempo, Ben foi para a frente e seus olhos viraram. Sangue ainda saía de sua boca e houve um
som, um horrível som de carne sendo rasgada, e sob sua camisa, algo mexeu.
"Afaste-se". Ada gritou apontando sua Beretta para Ben, e no segundo que levou para ela mirar, uma coisa
emergiu do ensangüentado peito de Bertolucci. Uma coisa do tamanho de uma mão, que abriu a boca e deu um
baixo berro, mostrando afiados e vermelhos dentes. O bicho saltou do corpo com uma chicoteante cauda, caindo
no cimento junto com pedaços de pele e carne - e correu como uma bala na direção do portão aberto para o
corredor, sua cauda balançando e pernas que Ada não conseguia ver, deixando um rastro vermelho para trás.
A coisa passou pelo portão antes de ela se lembrar que tinha uma arma; ela estava tão chocada que não pensou
em reagir. Uma criatura parasita que rasga seu peito - direto de um filme de ficção...
"O que era - você viu -". Leon disse, sem fôlego.
"Eu vi". Ada cochichou, interrompendo-o. Ela virou e olhou para Bertolucci, para seu rosto, estático numa
contorção angustiosa, e para o rasgo em seu peito.
A boca, rasgada nos cantos...
A criatura foi implantada nele - mas pelo que? Ela não sabia, e nem queria saber. Ela queria completar a missão e
sair de Raccoon o mais rápido possível. De fato, ela nunca quis tanto uma coisa. Quando se deu conta de que
houve um acidente com o T-virus, não esperava ter que lidar com organismos desagradáveis.
Ela olhou para Leon, desistindo de tentar ser razoável. Ela ia para o laboratório e não tinha o que discutir.
"Estou saindo daqui". Ela disse, e sem esperar respostas, virou-se e andou rapidamente para o portão, atenta
para não pisar no rastro de sangue.
"Espere! Olha, eu acho - Ada? Ei...".
Ela saiu no corredor de arma erguida, mas a criatura já tinha sumido. O rastro desaparecia no meio do corredor -
e viu que eles tinham esquecido a porta do canil aberta -
- e a tampa do poço também. Que ótimo.
Leon a alcançou e parou na sua frente. Por um momento, Ada achou que ele a fosse parar fisicamente.
Não faça isso. Eu não quero te machucar, mas vou se for preciso.
"Ada, por favor, não vá". Leon disse, não uma ordem, mas sim um pedido. "Eu - quando cheguei em Raccoon,
conheci uma garota e acho que ela está na delegacia. Se você puder me ajudar a encontrá-la, poderemos fugir
juntos. Teríamos mais chances -".
"Sinto muito, Leon, mas esse é um maldito país livre. Você faz o que tem que fazer, e boa sorte - mas eu não
vou ficar. Já foi o bastante. Se - quando eu sair, mandarei ajuda".
Ada passou por ele, esperando que não houvesse violência e que ele não tentasse impedi-la - vai ser muito
perigoso se ele tentar - foi quando ele a surpreendeu de novo.
"Então eu vou com você". Ele disse, seu olhar firme, decidido - e assustado. "Eu não vou deixar você ir sozinha.
Nem ninguém - não quero que você se machuque".
Ada olhou, sem saber o que dizer. Depois que Bertolucci morreu, ela não queria enganar Leon nos esgotos,
considerando o quanto extenso o sistema era... mas ele era tão bom, tão determinado em ajudar que ela estava
começando a - a não querer fazer mal a ele. Tudo seria mais fácil se ele fosse algum idiota metido a machão...
Tá bom, tire seu disfarce. Diga que é uma agente particular querendo roubar o G-virus e não quer companhia;
diga sobre o alívio que sentiu ao saber que o repórter iria morrer, ou que não tem problemas para tirar uma vida,
se for por uma boa causa - como ser paga. Veja o quanto bom ele será depois disso.
Não é uma opção. Mas havia uma parte dela que não queria admitir, uma parte que não queria ficar só. Ver o
que aconteceu com Bertolucci a fez perceber que não era tão invulnerável quanto gostava de pensar.
Então deixe-o vir, ache um lugar seguro no laboratório para deixá-lo. Sem danos nem sujeira.
Leon a olhava de perto, estudando-a - esperando sua aprovação.
"Vamos". Ela disse, e o sorriso que ele deu, apesar de vitorioso, a fez se sentir mais desconfortável.
Sem outra palavra, eles foram para o canil, Ada pensando no que estava fazendo - mas ainda capaz de fazer o
que for necessário para completar a missão.
Claire parou na frente de uma porta medieval no fim do escuro corredor o qual o elevador a tinha levado. A
delegacia era fria, mas a gelada umidade das pedras na parede do corredor fazia a delegacia parecer o verão; é
como se ela tivesse descido no calabouço de um castelo assombrado da Idade Média.
Ela respirou fundo, decidindo como entrar; ela estava certa de que Irons não gostaria de uma visita surpresa,
mas a idéia de bater era absurda - e perigosa. Haviam tochas acesas em suportes, uma de cada lado da porta
de madeira, a mesma envolta numa moldura de metal enferrujado.
Um túnel secreto, uma porta escondida com iluminação ambiente... que pessoa sã moraria aqui? Não foi o
desastre que fez isso - Irons devia ser louco bem antes do acidente da Umbrella...
Quando Sherry disse o que seus pais faziam para viver e o que aconteceu antes de chegar à delegacia, algo
clicou. A Umbrella trabalhava com doenças e a população de Raccoon certamente teve um grave caso de algo.
Deve ter sido algum tipo de acidente, um vazamento que soltou a estranha praga zumbi...
Claire mordeu o lábio, incerta do que fazer. Ela sabia que Irons estava em algum lugar lá embaixo, e não queria
vê-lo de novo; talvez ela deva voltar, pegar Sherry e tentar achar outra saída. Só porque é uma área secreta não
significa que haja uma saída lá.
Sherry estava lá em cima sozinha. E você tem uma arma, lembre-se?
Uma arma com poucas balas. Se for o esconderijo de Irons, devem haver armas lá dentro... ou apenas outro
corredor. Mas imaginar não a dirá nada.
Claire tocou a maçaneta e respirou fundo. A pesada porta abriu vagarosamente em dobradiças bem cuidadas. Ela
recuou apontando a arma -
Jesus.
Uma sala vazia, tão úmida e não receptiva quanto o corredor - mas com móveis e uma decoração que fez sua
pele arrepiar. Uma única lâmpada estava pendurada no teto, iluminando a mais pavorosa câmara que já tinha
visto. Tinha uma mesa no meio da sala, manchada e batida, um serrote e outros objetos cortantes espalhados
em cima; um balde de metal e um esfregão encostados numa parede, ao lado de uma estante cheia de
recipientes empoeirados - e o que pareciam ossos humanos, polidos e brancos, postos como troféus. Isso, e o
cheiro - um pesado e ácido cheiro químico que envolvia um outro pior. Um cheiro como loucura.
Só de olhar a sala a fez enjoar; "louco" devia ser o nome do ano do chefe da polícia - mas não havia ninguém lá.
Isso quer dizer que deve haver outra passagem secreta lá dentro. Pelo menos ela pode procurar por armas.
Engolindo, Claire entrou na sala, grata por não ter trazido Sherry; olhar para essa câmara de tortura a daria
pesadelos -
"Parada, mocinha, ou eu atiro".
Claire congelou. Cada músculo de seu corpo travou assim que Irons começou a rir atrás dela, de trás da porta
onde não pensou em olhar.
Oh, meu Deus, oh, Deus, oh, Sherry eu sinto muito -
O riso de Irons cresceu para a pura e alegre gargalhada de um louco, e Claire entendeu que iria morrer.
[18]
Tentando não respirar muito fundo, Leon alcançou os pés da escada de metal e girou rapidamente, mirando sua
arma no escuro. Água molhou suas botas enquanto seus olhos se ajustavam à baixa luz, e viu a origem do
terrível cheiro.
Partes dele, na verdade...
O túnel continuava à sua frente e estava forrado com corpos humanos feitos em pedaços. Membros, cabeças,
troncos estavam espalhados aleatoriamente pelo túnel de pedra, balançando gentilmente pelos centímetros de
água que cobriam o chão.
"Leon? Como está aí?". A voz de Ada desceu pelo círculo de luz no topo da escada, ecoando. Leon não
respondeu, seu olhar chocado fixado na terrível cena, sua mente tentando juntar as partes e trazer um número.
Quantos? Quantas pessoas?
Muitas para contar. Ele viu uma cabeça sem face, o longo cabelo cobrindo-a. O tronco de uma mulher, o seio
emerso na escura água. Um braço envolvido nos farrapos de uma camisa de policial. Uma perna, ainda usando
um tênis. Uma enrolada mão, os dedos lisos e brancos.
Uma dúzia? Vinte?
"Leon?". O tom de Ada enfatizou.
"É - parece bem". Ele disse, forçando para não alterar a voz. "Nada se move".
"Estou descendo".
Ele se afastou da escada para dá-la espaço, lembrando de algo que ela disse antes, sobre corpos sendo
jogados...
Ada desceu da escada. Os olhos dele tinham se ajustado bem o bastante para ver o olhar de nojo no rosto dela -
nojo e o que parecia tristeza.
"Houve um ataque na garagem". Ela disse suavemente. "Quatorze ou quinze pessoas morreram...".
Franzindo, ela passou por Leon para olhar os resto de perto. Quando falou de novo, parecia preocupada.
"Eu não vi o ataque, mas não acho que foram despedaçados desse jeito".
Ela olhou para cima, vendo o teto do túnel, apertando sua 9mm. Leon seguiu seu olhar, mas só viu o tom
esverdeado das pedras. Ada balançou a cabeça, olhando de volta para o mar de carne.
"Os - zumbis não fizeram isso. Algo pegou essas pessoas depois de mortas".
Leon sentiu um calafrio subir sua espinha. Era a última coisa que queria ouvir naquele lugar.
"Então não é seguro aqui. Nós devemos voltar e -".
Ada seguiu em frente, passando pelos pedaços, os movimentos da água parecendo mais altos no quieto túnel.
Droga, ela ignora todo mundo ou só eu?
Olhando onde pisava, Leon a seguiu, erguendo o braço para tocar o ombro dela. "Pelo menos eu vou na frente,
tá?".
"Tá Bom,". Ela disse. "Abra caminho".
Ele passou por ela e continuou, tentando dividir a atenção entre a escuridão à frente e os pedaços de corpos e
ossos abaixo. Bem à frente, o túnel virava à direita, e tinha alguma luz refletida na oleosa superfície da água, a
passagem estava mais clara e com menos corpos.
Leon parou a tempo o bastante para empunhar a Remington e verificar se estava carregada. Seja lá o que tinha
pego os corpos não parecia estar por perto, mas ele não queria estar despreparado.
Ada esperou sem falar, apesar dele conseguir sentir sua impaciência. Ela era tão calma quanto um soldado
veterano, demonstrando nada mais além de ansiedade para acabar logo com isso - e se ela gosta de sua
presença, deve estar fazendo muita força para não demonstrar. Não que ele queira a gratidão dela -
- mas a maioria das pessoas gostariam da presença de um policial, não é? Mesmo sendo um novato?
Talvez não, e essa não é a hora e lugar para começar a fazer perguntas. Leon começou a andar de novo,
passando por cima de um pedaço mastigado de carne que não podia identificar.
"Pare". Ada cochichou. "Ouça".
Leon obedeceu, Remington em uma mão, VP70 na outra. Ele inclinou a cabeça para ouvir, mas só percebeu um
distante gotejar -
- e uma suave pancada, como martelos abafados numa superfície forrada. Estava se aproximando, vindo do
túnel que virava logo à frente.
Por que a água não respinga, por que não ouvimos água - ?
Leon recuou um passo, erguendo ambas as armas, lembrando como Ada tinha olhado para o teto antes -
- e viu, viu e sentiu seu coração parar em meia batida. Uma aranha do tamanho de um cachorro grande,
andando pelas paredes, mexendo suas arrepiadas pernas peludas -
- impossível -
- e de repente houve uma série de ensurdecedoras explosões próximas ao seu ouvido direito,
bam-bam-bam-bam, o cano da Beretta de Ada brilhando enquanto ativava. Os ecos golpearam pelo escuro
enquanto o gigante aracnídeo pulava da parede, mergulhando na tingida água.
A aranha engatinhou na direção deles, ferida, arrastando duas de suas pernas, escuros fluídos escorrendo pelo
seu grotesco e arredondado corpo. Ela passou por cima de uma cabeça, o crânio escapando abaixo de seu
abdômen inchado, e Leon pôde ver seus brilhantes olhos negros, cada um do tamanho de uma bola de ping-pong
-
- e ele atirou com a Remington, mal sentindo o poderoso tranco da arma, sua concentração voltada para o
aracnídeo. O tiro explodiu a face alien em pedaços. A aranha virou de papo para o ar, suas grossas pernas
tremendo, curvando-se ao redor de seu corpo peludo.
Seus ouvidos apitando, seu coração pulando, Leon carregou outra bala, sua mente não só dizendo que tinha
matado uma aranha daquele tamanho, mas que seu físico estava errado, suas pernas não agüentariam tamanho
peso -
- Ada passou por ele, correndo, gritando para ele.
"Vamos, podem haver mais vindo!".
Leon correu atrás dela, seu choque contido pelo rápido comportamento de Ada - pulando sobre os pedaços de
carne e da aranha que só passou a existir depois que chegou a Raccoon.
"Solte a arma". Irons pediu, e a garota obedeceu, hesitando por um segundo. A Browning foi ao chão e Irons
teve que resistir ao desejo de rir de novo, pelo quanto estúpida ela agia. A assassina da Umbrella com certeza
ficou louca, entrando em seu santuário como se fosse dona do lugar - essa atitude lhe custou o jogo.
"Vire-se devagar - e mantenha as mãos onde eu possa vê-las". Ele disse, ainda sorrindo. "Oh, que gloriosa e fácil
conquista! A Umbrella o subestimou pela última vez.
Novamente, a garota fez o que ele pediu, virando devagar, de mãos vazias e abertas. O olhar em sua face não
tinha preço, suas expressões fixadas como uma máscara de medo e choque; ela não esperava por isso, ela
achava que seria fácil dar um fim em Brian Irons. Depois de tudo, ele era um homem quebrado, uma sombra de
seu antigo eu, sua cidade e sua vida tirada -
"Errada, não estava?". Ele disse, sentindo o humor vazando da situação, sentindo a raiva borbulhar novamente.
Ele manteve a VP70 mirada na ridícula e jovem face dela; insultando, que eles mandaram uma criança para seu
serviço sujo. E bonitinha...
"Calma, Chefe Irons". Ela disse, e mesmo bravo, ele gostou de ouvir a tensão em sua opressiva voz, o pico do
medo sob seu inútil apelo. Ele vai adorar isso, mais do que imaginava...
.. mas primeiro, algumas respostas.
"Quem te mandou? Foi Coleman, do quartel general? Ou suas ordens vêm dos superiores... alguém da comissão,
talvez? Não há mais motivos para mentir".
A garota olhou para ele, seus olhos cheios de confusão. "Eu - eu nem sei do que está falando. Por favor, deve
haver algum engano -".
"Oh, um engano, tá bom". Irons cuspiu. "E você o cometeu. Há quanto tempo a Umbrella está me observando?
Quais foram as suas ordens, exatamente - onde você deveria ter me matado, a Umbrella quis que eu sofresse
um pouco antes?".
A garota não respondeu por um momento, provavelmente tentando decidir o quanto dizer a ele. Ela era boa,
suas expressões cautelosamente montadas para mostrar somente um medo confuso, mas ele enxergava
através disso.
Ela foi pega, deve saber que não a deixarei viver e está tentando esconder a verdade. Jovem mas bem treinada.
"Eu vim para Raccoon atrás do meu irmão". Ela disse devagar, seus bem abertos olhos cinzas fixados na arma.
"Ele estava com o S.T.A.R.S. e eu só -".
"S.T.A.R.S.? É o melhor que você pode fazer?". Irons riu mais, balançando a cabeça. O S.T.A.R.S. de Raccoon
fugiu logo depois que as coisas foram para a merda - e pelo que ele ouviu falar, a Umbrella já tinha "convertido" a
organização para seus propósitos, estavam trabalhando para eliminar aqueles que cruzassem o caminho. Essa
desculpa não funcionava.
Mas há algo...
Ele estudou os olhos. "E quem é o seu irmão?".
"Chris Redfield, você conhece - eu sou Claire, a irmã dele, e eu não sei nada sobre o que a Umbrella fez e não fui
mandada para matá-lo". Ela disse rápido.
Ela se parecia com Redfield, pelo menos os olhos... Chris era um pomposo e desrespeitoso, que o desafiou
abertamente várias vezes; de fato -
"Redfield estava trabalhando para a Umbrella, não estava?". Mesmo dizendo alto, Irons pôde ver que era
verdade - e sua raiva subiu como uma maré vermelha, um calor ácido que desceu por suas veias fazendo-o
enjoar.
Até os meus empregados, todo o tempo. Fantoches traidores da Umbrella.
"A mansão de Spencer, as acusações contra a Umbrella... foi tudo armado, eles vinham provocando problemas
para - para me distrair, para então poderem roubar o vírus de Birkin...".
Irons deu um passo até a garota, sem precisar de força para puxar o gatilho, contrariando seus planos. A garota,
Claire, recuou, de braços para cima, de mãos abertas como para se proteger de sua fúria.
"Foi como o S.T.A.R.S. soube quando sair da cidade. Eles foram alertados para sair antes do vazamento do
T-virus!".
Ele deu mais um passo até ela, mas Claire parou, seus olhos mais abertos. "Então Chris não está aqui?".
Seu pequeno e esperançoso suspiro só alimentou o calor vermelho que pulava dentro de Irons - os sentimentos
eram tão poderosos que transcendiam raiva, focando suas intenções em algo brutal e preciso. Não era suficiente
ter sido traído pela Umbrella e pelo S.T.A.R.S., ter sido manipulado, atormentado, caçado -
Não, não. Eu fui enganado por essa garota, uma espiã assassina de uma família de traidores. Uma vida devotada
ao serviço, experiências, sacrifícios pessoais, e essa é a minha recompensa?
"Um tapa na cara". Ele disse, sua voz tão fria quanto essa nova selvageria que o enchia, o transformava num
caçador. "Tratando-me como um idiota. Você nem tem respeito o bastante para mentir bem".
Ele estendeu a 9mm e andou na direção dela, cada passo calculado e deliberado - e o medo dela era real desta
vez, ele riu do modo como ela recuava, seus trêmulos lábios. Ela estava apavorada, tentando achar uma arma,
observá-lo, fugir, tudo ao mesmo tempo, mas sem sucesso enquanto ele marchava.
"Eu tenho o poder,". Ele disse. "esse é o meu santuário, esse é o meu domínio. Você é a invasora. Você é a
mentirosa, você é o mal - eu vou tirar a sua pele viva. Eu te farei gritar, sua vagabunda, você vai desejar nunca
ter nascido. Seja lá quanto te pagaram, não foi o bastante".
Ela recuou até bater numa estante, tropeçando na perna da mesa, quase caindo no alçapão no canto da sala.
Irons a seguia, sentindo aquele bonito e excitante poder, sentindo prazer com a indefesa.
"Por favor, você não quer fazer isso, eu não sou quem você pensa!".
A patética súplica o fez parar e rir, querendo dá-la mais terror, querendo mostrá-la que seu controle era absoluto.
Ela estava encurralada entre um armário e o alçapão, e Irons ficou a uma distância segura, adorando o pânico
nos olhos dela - o pânico de um animal emboscado...
Irons lambeu os lábios, seu faminto olhar viajando por suas suaves formas. Outro troféu, outro corpo para
transformar... e é hora de trabalhar, de -
"Graaagh!".
Mas que -
A tampa que cobria o poço voou pelo ar, partindo com um tremendo crack, um pedaço atingindo a coxa de
Irons. Ele ficou assustado sem entender - ele estava no controle e mesmo assim algo deu errado, horrivelmente
errado -
Algo enrolou em seu calcanhar, algo que apertava tão forte que ouviu os ossos sendo esmagados, a afiada dor
subindo por sua perna -
- e ele travou o olhar com o da garota, de olho brilhando com um novo terror, e nesse instante de contato, de
claridade, ele quis tanto dizer que era um bom homem, um homem que nunca mereceu nada do que aconteceu -
- e aquilo sacudiu, e Irons estava caindo, derrubando a arma, puxado para o poço pelo grito, a dor e a besta que
o esperava lá embaixo.
[19]
Num minuto, Irons estava de pé na frente dela, olhando em seus olhos com uma terrível tristeza -
- no outro, ele se foi. Puxado para um buraco no chão por um braço musculoso e com garras, saindo de visão,
junto com Irons.
Houve outro grito da criatura, um poderoso ruído que ganhou intensidade e superou o de Irons. Estática, Claire só
pode ouvir, choque, alívio, medo enquanto os choros saiam do buraco, acertando seus ouvidos no pequeno e frio
calabouço que Irons tinha criado -
- até que os gritos cessaram, só um ou dois segundos depois - e os barulhos de carne sendo mastigada
começaram.
Claire se moveu. Ela pegou a arma de Irons e correu pela mesa no centro da sala.
Ele ia me matar e aquilo o matou -
A realidade do que ia acontecer e do que aconteceu a atingiu, fazendo de suas pernas borracha. Claire forçou
mais alguns passos para trás até encostar na úmida parede de pedra, suspirando.
Ele tinha planejado matá-la, mas não de uma vez. Ela viu como o malvado olhar dele passou pelo seu corpo,
ouviu a ansiosa antecipação em sua maluca risada -
Houve um suave ronco vindo do buraco, um som bestial, o ronco de um leão bem alimentado. Claire virou,
erguendo a arma -
- e algo explodiu do buraco, algo com braços debatendo, e Claire atirou. Uma garrafa na prateleira espatifou
enquanto a coisa acertou o chão -
- e era Irons, mas só metade dele. Ele foi dividido, cortado em dois pela coisa que o tinha pego; tudo abaixo da
cintura se foi, fiapos de pele rasgada e músculos pendurados sobre a piscina de sangue que substituía suas
pernas.
Claire recuou para a porta, ainda apontando para a abertura - e ouviu a criatura, o monstro gritar de novo, um
eco que desapareceu, caindo a uma distância que não podia imaginar. Um segundo depois, ela não o ouvia mais;
tinha ido embora.
O monstro de Sherry. Era o monstro de Sherry.
Claire foi vagarosamente até o corpo do Chefe Irons, na direção do escuro buraco - mas não era todo escuro. Ela
pôde ver luz vindo de algum lugar, o bastante para ver que havia outro andar lá embaixo, o que parecia uma
passarela gradeada de metal - e uma escada de mão.
Um sub-subsolo... uma saída?
Ela se afastou da abertura, seus pensamentos fluindo desorganizadamente, tentando absorver o que Irons tinha
dito. Chris não estava em Raccoon, os S.T.A.R.S. se foram - um bom e ruim alívio, pois significava que ele estava
bem, mas não salvaria o dia. Houve um vazamento na Umbrella que ao menos explicava os zumbis - mas e o
que disse sobre Birkin, o vírus de Birkin... é pai de Sherry?
É - talvez os zumbis sejam o resultado de algum acidente, mas e o Mr. X e os homens do avesso?
O modo como Irons falou sobre a Umbrella, sugere que a companhia farmacêutica não era uma vítima inocente.
"Como ele o chamou?".
"T-virus". Ela cochichou, e tremeu. "Tinha o novo vírus de Birkin e tinha o T-virus...".
A doença zumbi tinha um nome. Mas você não nomeia algo a não ser que saiba algo sobre ele, o que significa -
- que ela não sabia o que significava. Tudo o que sabe é que Sherry precisava sair de Raccoon e o sub-subsolo
podia ser a saída. Devia ter uma saída, o monstro dever ter ido para algum lugar...
.. e você quer seguí-lo com Sherry? Ele pode voltar - e se realmente estiver atrás de Sherry...
Pensamento infeliz - tal como voltar para as ruas. E a delegacia já está infestada por Deus sabe lá o que. Claire
checou o clip da arma de Irons, contando dezessete balas.
Ela respirou fundo, voltando a si, e olhou para os restos do chefe da polícia. Era um modo ruim de morrer, mas
não conseguiu sentir pena. Ele estava pronto para amarrá-la e torturá-la, ele riu ao implorar por sua vida, e agora
está morto; ela não estava feliz, mas também não derramaria lágrimas. Seu único sentimento sobre isso era o de
que deveria cobri-lo antes de trazer Sherry; a menina já viu violência o bastante para uma vida.
Nós, Claire pensou, e começou a procurar algo para esconder Chefe Irons.
Leon a alcançou no frio e industrial corredor que dava na entrada do esgoto, alguns degraus acima do subsolo
inundado. Ela tinha corrido na frente para posicionar as chaves de acesso ao esgoto, sem querer explicar muito
como as achou; ela só teve o trabalho de jogá-las na sala da caldeira antes que os passos dele tocassem os
degraus de metal atrás dela
Pelo menos eu não finjo estar com falta de ar...
Ada pôde ver no olhar dele que deveria suavizar as coisas; ela começou a falar na hora em que ele pisou no
corredor.
"Desculpe ter corrido". Disse oferecendo um sorriso assustado. "Eu odeio aranhas".
Leon franziu, estudando-a, e ela percebeu que deveria explicar melhor. Ela deu um passo até ele. Mantendo olho
no olho, jogando a cabeça para trás, a fim de enfatizar a diferença de altura; era pouca, mas na experiência dela,
homens respondiam bem às pequenas coisas.
"Acho que só estou com pressa em sair daqui". Ela disse rápido, perdendo o sorriso. "Espero não o ter
preocupado".
Ele derrubou o olhar antes de demonstrar interesse. Ela ficou mais surpresa quando ele recuou.
"Bom, você me preocupou. Não faça de novo, tá? Eu posso ser pouco de um policial, mas eu estou tentando - e
só Deus sabe o que encontraremos aqui".
Ele olhou para ela de novo, falando suavemente. "Eu vim com você porque eu quero ajudar, eu quero fazer o
meu trabalho - e eu não posso fazê-lo se você sair na frente. Além disso,". Ele complementou, sorrindo um
pouco. "se você correr, quem vai me ajudar?".
Foi a vez de Ada desviar o olhar. Ela forçou um sorriso. "Eu farei o possível".
Leon acenou e virou para olhar o lugar, acabando com a conversa - para o alívio de Ada. Ela estava incerta sobre
o que pensar sobre ele, mas estava desconfortável com seu respeito por ele estar crescendo; nada bom
considerando a situação.
Não havia muito o que ver no úmido corredor; duas portas. A sala da caldeira, onde jogou as chaves - ou plugs,
de preferência, estava bem à frente. A outra dava num depósito, segundo a placa na parede.
Ada seguiu Leon para a mais próxima, o depósito. Lá não havia nada de importante. Caixas, uma mesa, um baú,
mas pelo menos nenhuma aberração. Depois de uma rápida procurada eles voltaram para o corredor e foram
para a sala da caldeira.
"Como você aprendeu a atirar daquele jeito, afinal?". Leon perguntou e parou na frente da porta. Seu tom parecia
casual. "Você é muito boa. Você esteve no exército ou algo...?".
Boa tentativa, policial.
Ada sorriu, incorporando seu personagem. "Paintball, acredite ou não. Eu também ia no tiro-ao-alvo com meu tio,
mas nunca me aprofundei muito. E então, há alguns anos, um amigo do trabalho - nós éramos compradores em
uma galeria de arte de Nova Iorque - ele me levou para um daqueles fins de semana de sobrevivência e nós
demos uns tiros. Você sabe, caminhada, escalada, coisas do tipo - e paintball. É ótimo, nós íamos a cada dois
meses... eu nunca pensei que fosse usar isso de verdade".
Ela pôde vê-lo acreditar, ver que ele queria acreditar. Mas deve ter respondido algumas perguntas que queria
fazer.
"É, você é melhor do que alguns colegas meus da academia. É sério. Então, você está pronta para continuar?".
Ada acenou. Leon empurrou a porta, olhando o velho e enferrujado maquinário antes de entrar. Ada não olhou
para baixo, querendo que ele achasse o pacote amassado que havia colocado momentos atrás.
A sala era em "H", corrimãos cercavam as duas grandes caldeiras em cada lado. As fluorescentes que ainda
funcionavam criavam estranhas sombras nas paredes infiltradas. A porta que levava ao sistema de esgoto estava
no lado oposto, à esquerda, ao lado de um painel.
"Ei -". Leon se agachou, pegando os plugs que abririam a porta. "Parece que alguém derrubou algo...".
Antes que Ada pudesse perguntar o que tinha achado, ela ouviu um barulho. Um suave rastejo vindo do canto
oposto direito da sala.
Leon se levantou rapidamente, soltando os plugs e erguendo a espingarda. Ada apontou sua Beretta, lembrando
como a porta estava encostada antes de colocar os plugs no chão.
Droga, o implante.
Ela sabia antes mesmo de aparecer. A coisa tinha crescido, e bem rápido, vinte vezes seu tamanho em alguns
minutos - e ainda estava crescendo, exponencialmente.
A aparência também estava mudando. Não era mais aquela medusa que rasgou Bertolucci. A calda se foi, e a
criatura que rastejava pelo chão enferrujado agora tinha membros. Garras saiam de sua lisa pele acompanhada
pelo som de cartilagem sendo perfurada. Musculosas pernas se desenrolaram e o rastejar se tornou mais suave,
quase felino -
A espingarda e a Beretta soaram ao mesmo tempo. A criatura ainda mutava quando os tiros deformaram sua
carne. Em resposta, a coisa vomitou, um ronco que lançou um projétil de apodrecida bile verde -
- que caiu no chão e começou a se mexer. Aquilo estava vivo - e as onze ou doze criaturinhas que surgiram
pareciam saber exatamente onde a ameaça estava. Os animais multi-pernas rastejaram na direção de Ada e
Leon enquanto o implante dava um passo.
"Eu pego eles". Ada gritou, já atirando no mais próximo. Eles eram rápidos, e Ada mais ainda; ela apontou e
atirou, explodindo os bebês monstro em uma fonte de escuros fluídos.
Leon atirava de novo e de novo com a espingarda, mas Ada não podia ver como o monstro mãe estava. Cinco
dos rastejantes restando e só três balas -
- e ela ouviu a espingarda ir ao chão, ouviu tiros de revólver enquanto matava dois dos pequenos antes da arma
clicar.
Sem parar para pensar, Ada soltou a Beretta e foi para o chão. Ela pegou a espingarda pelo cano, se agachou e
desceu a arma, bem forte. Dois dos bichos viraram pasta com o impacto - mas o terceiro e último saltou em uma
inesperada propulsão -
- e pousou na coxa dela, agarrando com garras afiadas como agulhas. Ada soltou a espingarda, gritando
enquanto o animal subia sua perna, o quente e úmido peso dele fazendo-a frenética de nojo.
Sai, SAI -
Ela caiu para trás, estapeando a criatura que já estava em seu ombro, rastejando para seu rosto, para sua boca
-
- e Leon a agarrou, erguendo-a com uma mão enquanto arrancava o bicho com a outra.
Ada se agarrou nele para não cair e o animal aderiu forte ao tecido do vestido. Leon tinha um bom tato e
arrancou o bicho, gritando enquanto arremessava-o pela sala.
"O revólver!".
A arma estava presa no cinto de Leon. Ada a liberou, vendo que o bicho tinha caído perto da mãe, morta por
Leon -
- e atirou, tentando um tiro certeiro apesar de seu desequilíbrio, assustada pelo quanto perto esteve de ser
implantada. A bala ressoou no chão, lascas enferrujadas respingaram - e a criatura explodiu contra a parede de
trás. Estourada.
Nada se mexeu e os dois ficaram parados, encostados um no outro como sobreviventes de um terrível acidente -
que de certo modo eram. Tudo aconteceu em menos de um minuto e eles saíram ilesos - mas Ada não se iludirá
por terem estado perto, ou com o que acabaram de destruir.
G-virus.
Ela tinha certeza; o T-virus não seria capaz de criar algo tão complicado, não sem um time de cirurgiões - e eles
viram a coisa crescer; o quanto grande e poderosa a criatura teria ficado se eles tivessem demorado mais um
pouco? E se houver mais deles? A ida para os laboratórios não será mais uma caminhada - e Ada se sentiu grata
por Leon ter decidido ir com ela. Já que ele insiste tanto em ir na frente, se algo atacar, ela terá uma chance
melhor de sobreviver -
"Você está bem? Ele te machucou?".
Com um braço ainda segurando ela, Leon olhava em seus olhos, preocupado. E ela percebeu que podia cheirá-lo,
um limpo cheiro de sabão - e se afastou dele. Ela devolveu o revólver e esticou o vestido, procurando por cortes
a fim de não olhar para ele.
"Obrigado, eu estou bem. Não se preocupe?".
Foi mais grossa do que queria, pois estava agitada com o ataque. Ela olhou para ele e ficou incerta sobre o que
sentir ao ver que a resposta o tinha pego de surpresa. Ele piscou devagar.
"Paintball, né?". Ele disse suavemente, e virou para pegar os plugs. Ada o acompanhou, dizendo a si mesma que
era ridículo se importar com o que ele pensava dela. Eles estavam embarcando numa jornada em que ela podia
descartá-lo, ou vê-lo dar sua vida por ela...
.. ou matá-lo eu mesma. Não vamos esquecer disso. Então quem se importa se ele acha que sou uma ingrata?
Ada se curvou para pegar a espingarda, sentindo a força que precisava fazer para não desviar de suas
prioridades - e sentindo um vazio lá dentro que não sentia há muito, muito tempo.
[20]
Irons foi um homem muito mau. Doente. Sherry parecia saber o tempo todo, mas ver sua câmara de tortura
secreta fez tudo virar realidade. A sala era rude, ossos, garrafas e um cheiro pior que o dos zumbis. Por isso não
se importou tanto com o corpo incompleto sob o lençol manchado de sangue. Sherry tentou imaginar o que tinha
acontecido exatamente.
"Vamos, querida, vamos indo". Claire disse, seu tom dizendo que Irons tinha sido bastante injuriado. Tudo o que
Claire disse foi que Irons a tinha atacado e que depois algo o atacou. E que poderiam achar algum lugar seguro se
descerem pelo buraco. Sherry estava tão feliz em ver Claire que nem fez perguntas.
Não parece caber uma pessoa inteira lá... ele foi comido? Ou cortado em pedaços?
"Sherry? Vamos?".
Claire tocou o ombro dela, tirando-a de perto do que sobrou de Irons. Sherry deixou ser conduzida até o buraco
no canto.
Claire desceu a escada primeiro e depois de um segundo, disse que era seguro descer. Sherry pisou
cuidadosamente nas barras de metal, sentindo-se feliz como há dias não se sentia. Claire a ajudou nos últimos
degraus, erguendo-a e colocando-a no chão de metal. Sherry virou e olhou em volta, arregalando os olhos.
"Uau". Ela disse, a palavra ecoou e voltou nas escuras sombras que refletiam das estranhas paredes.
"É". Claire disse. "Vamos".
Claire começou a andar e Sherry a seguiu de perto, ainda olhando em volta impressionada. Era como a toca de
um cara mau num filme de espião, alguma passagem dentro de uma montanha. Elas estavam numa passarela
com corrimão nas laterais, a turva e esverdeada luz verde atravessando a grade da passarela, vinda de algum
lugar lá embaixo - apesar de a parede da direita ser de tijolos, a outra era mesmo a de uma caverna. Ela pôde
ver grandes pilares e estalactites de pedra, formações naturais esverdeadas pela fantasmagórica luz.
Sherry coçou o nariz. Interessante, mas cheirava podre. "Que lugar você acha que é esse?".
Claire balançou a cabeça. "Eu não tenho certeza. Entre o cheiro e a locação, eu diria que estamos na parte de
uma estação de tratamento de esgoto".
Sherry acenou, grata por saber - e mais ainda por ver a saída bem à frente. A passarela não era muito longa;
virava à esquerda onde estava outra escada de mão que subia. Chegando lá, Claire hesitou, olhando para a
abertura acima e depois para a caverna.
"Eu subo primeiro... que tal você vir atrás, mas ficando na escada até eu dizer que é seguro?".
Sherry acenou, aliviada. Por um segundo, ela teve medo de Claire mandá-la esperar, como antes.
De jeito nenhum. Aqui é escuro, fedorento e vazio. Se eu fosse um monstro, seria aqui onde eu estaria...
Claire subiu e Sherry foi logo atrás, segurando as frias barras firmemente. Segundos depois, os longos e finos
braços de Claire apareceram para ajudá-la a sair.
Elas estavam de volta em solo firme, um curto corredor de cimento que parecia incrivelmente brilhante depois da
caverna. Sherry deduziu que ainda estavam na estação de tratamento; o cheiro não era tão ruim apesar do
escuro e parado rio que orlava o lado esquerdo do corredor, uns trinta centímetros de profundidade por uns dois
de largura. A lodosa água ia de uma grande porta metálica até um circular túnel com grades. Acima havia um
parapeito, mas Sherry não viu escadas.
Quer dizer que... oh, eca.
"Vai ser preciso?". Ela perguntou.
Claire suspirou. "Acho que sim. Mas veja pelo lado bom - nenhum monstro consciente nos seguiria naquilo".
Sherry sorriu. Não era tão engraçado, mas ela gostou do que Claire tentava fazer - o mesmo que cobrir o corpo
de Irons ou dizer que seus pais estavam a salvo.
Ela está tentando me defender do quanto ruim estão as coisas...
Sherry gostou tanto que já estava temendo a hora em que Claire tiver que deixá-la. E terá; Claire tem uma vida
inteira em algum lugar, seus amigos e família, e quando saírem de Raccoon, ela voltará para casa e Sherry ficará
sozinha de novo. Mesmo se seus pais estiverem bem, ela ficará só... e mesmo querendo que eles estejam, não
queria ver seu fim com Claire.
Ela só tinha doze anos e já reparou que sua família era diferente da maioria. As outras crianças da escola tinham
pais que passavam tempo com elas, tinham festas de aniversário e iam acampar, tinham irmãos, irmãs e bichos
de estimação. Sherry nunca teve nada disso, mas sabia que seus pais tinham boas intenções e que a amavam -
mas às vezes, não importava o quanto boa, calma e auto-suficiente ela era, ainda estava longe deles -
"Está pronta para isso?".
A suave voz de Claire a trouxe de volta para a realidade, lembrando-a para ficar mais alerta. Sherry acenou, e
Claire entrou na escura e suja água, ajudando Sherry.
A água estava fria e melada, subindo até os joelhos de Sherry; era grossa, mas nem tanto quanto vômito. Claire
andou para a grande porta de metal à esquerda com sua nova arma, tão enjoada quanto Sherry.
"Parece que nós vamos -".
Um alto ruído no parapeito a interrompeu e ambas olharam para cima, Sherry se aproximando de Claire quando o
barulho apareceu outra vez. Pareciam passos, mas muito lentos e altos para serem normais -
- e Sherry viu um homem de casaco longo e escuro aparecer, sua boca secando de medo. Ele era gigante, uns
três metros, e sua cabeça careca tão branca quanto a barriga de um peixe. Ela não conseguia vê-lo bem por
causa do ângulo, mas viu o bastante - e pôde sentir que era mau, que havia algo muito errado e mau sobre ele.
Radiava dele como doença.
"Claire?". Ela chiou enquanto o gigante cruzava o parapeito, enquanto virava na direção delas - devagar, tão
devagar que Sherry não quis ver seu rosto, o rosto de um homem que podia assustá-la só de andar no parapeito
-
"Corre!".
Claire agarrou a mão dela e as duas correram, tormentando a grossa água na direção da porta fechada.
- não esteja trancada, não esteja trancada!
A porta estava perto mas parecia demorar para sempre, cada segundo passando enquanto lutavam contra o
peso da fria e oleosa água.
Claire achou o controle, batendo no botão com um tipo de pânico que só fez Sherry se assustar mais. A porta se
dividiu ao meio, metade deslizando para o teto e a outra mergulhando nas ondas.
Sherry não olhou para trás mas Claire sim. Seja lá o que viu, a fez tirar Sherry do chão, cruzar a porta e entrar no
longo e escuro túnel que a porta escondia. Assim, que passaram, Claire tocou na parede e a porta fechou
selando-as na escuridão.
"Não se mexa e fique quieta". Claire cochichou, e sob a fraca luz que vinha de cima, Sherry viu Claire armada,
procurando ameaças nas sombras. Sherry obedeceu, seu coração pulando, imaginando quem ou o que aquele
homem foi - era o homem que Claire havia comentado antes, mas quem ele era? Pessoas não ficam daquele
tamanho, e Claire também tinha se assustado -
Clink.
Um ruído metálico, suave e abafado na parede ao lado - e Sherry sentiu a água aos seus pés se mover de
repente, uma corrente que moveu suas pernas, tirou seu equilíbrio -
- e ela caiu, seu rosto na fria e nojenta água enquanto a corrente ficava mais forte, sugando-a para baixo. Sherry
tentou se segurar em algo, mas seus dedos só encontravam o lodo do chão de pedra, enquanto as águas a
levavam para longe de Claire.
- não posso respirar -
Ela chutou forte, agitando o corpo, seus olhos doendo de água ruim - e conseguiu respirar assim que sua cabeça
voltou à tona, assim que percebeu estar num túnel, um escuro e melado túnel não muito maior que os de
ventilação da delegacia. As rápidas águas a congelavam, respirando sufocada o sujo ar acima, forçando para não
lutar contra o impiedoso poder da água. O túnel tinha que dar em algum lugar - e quando der, deverá estar
preparada para correr.
Claire, por favor, me encontre, por favor, não desista de mim...
Ela estava perdida, cega e surda, deslizando por um escuro túnel - e cada vez mais longe da única pessoa que
pode protegê-la das criaturas que tomaram conta de Raccoon.
Annette já não duvidava mais de que seu marido havia escapado do laboratório. Não só pela metade das
entradas estarem abertas, mas também pelas cercas que circundavam a fábrica estarem derrubadas - e os
túneis do esgoto, que deveriam estar praticamente vazios, estavam cheios de portadores humanos que devem
ter vindo de fora. Mesmo avançados em termos de deterioração celular, ela teve que derrubar cinco deles a tiro
para livrar o caminho entre o teleférico e as salas de operação do esgoto.
Depois do que pareceu levar uma eternidade para cruzar as semitratadas águas do sistema, ela chegou na
plataforma que procurava. Annette subiu no corredor de concreto, olhando cuidadosamente para a porta fechada
à sua frente. Fechada e inteira, um bom sinal - mas se ele passou por ela antes de perder todos os traços de
inteligência humana, antes de virar um impensado e violento animal? Mesmo agora, ele ainda pode ter guardado
alguma memória? Ela não sabia. O G-virus ainda não tinha sido testado em humanos...
.. e se ele passou? E se chegou na delegacia?
Não. Ela não podia, não iria considerar a possibilidade. Considerando o que ela sabia sobre as mudanças
quimiofisiológicas - o que ele seria capaz de fazer se o vírus funcionar como deveria - o pensamento de vê-lo
chegar a uma população não infectada... bom, era impensável.
A delegacia é segura, ela pensou firmemente. Irons pode ser um incompetente, mas seus policiais não. Seja lá o
que William for agora, não poderá passar por eles.
Ela não conseguia acreditar em mais nada; Sherry estava lá, se tivesse feito o que deveria fazer - e além de ser
seu sangue, Sherry seria muito importante em seus planos futuros.
Annette se encostou na parede, ciente de que o tempo estava passando, mas incapaz de continuar sem
descansar. Ela estava quase no fim da área contida e tudo o que encontrou foram vários caminhos que William
pôde ter usado para escapar.
E a Umbrella estará aqui em breve. Eu tenho que voltar, eu tenho que ativar a destruição antes que eles me
impeçam.
William merecia estar em paz - mas, além disso, destruir a criatura que um dia foi seu marido erradicaria todas as
suas dúvidas sobre o sucesso de seu objetivo. Mas se ela explodir o laboratório e fugir, só para descobrir que a
Umbrella o capturou? Todos os seus esforços, todo o trabalho dele, por nada...
Annette fechou os olhos, desejando haver um modo fácil de fazer a decisão que tinha de ser feita. O fato era, a
morte de William não era tão crucial quanto fugir do laboratório. Havia uma boa chance de que ele não seja
encontrado, de que eles nem saibam de sua transformação -
- eu tenho uma chance. Ele não está aqui e em lugar algum.
Ela se desencostou da parede, caminhando vagarosamente para a porta. Ia checar os últimos túneis, ao menos
ver se as salas de controle tinham algum dano - e depois vai voltar. Voltar e terminar o que a Umbrella tinha
começado.
Annette abriu a porta e -
- e ouviu passos, ecoando pelo vazio corredor em algum lugar à frente; o corredor era em "T", os passos
derretidos uns nos outros tornando impossível saber de onde vinham - mas eram fortes, de não infectados,
talvez mais de um, e isso quer dizer uma coisa.
Umbrella. Eles finalmente vieram.
Raiva ferveu atrás dela, fazendo suas mãos tremerem, seus lábios ficarem entre seus dentes. Tinham que ser
eles, um de seus espiões assassinos. Além de Irons e alguns oficiais da cidade, só a Umbrella sabia que esses
túneis ainda eram usados - e que davam no complexo subterrâneo. A possibilidade de ser um sobrevivente
inocente não passou por sua mente; ela ergueu o revólver e esperou pelo idiota sem coração aparecer.
Uma figura ficou visível, uma mulher de vermelho, e Annette atirou -
- bam, mas estava tremendo, gritando por dentro, e errou o tiro. Ele ricocheteou no cimento da parede, pim, e a
mulher ergueu uma arma -
- e Annette atirou de novo, bam-pim, mas de repente apareceu outro, uma azulada sombra que voou na frente
da mulher, tirando-a do caminho.
Tudo isso aconteceu de uma vez -
- e Annette ouviu um choro de dor, de um homem, e sentiu uma explosão de triunfo.
Peguei ele, eu peguei ele -
Mas devem haver mais, ela não tinha acertado a mulher - e eles eram assassinos treinados.
Annette virou e correu, seu longo, branco e sujo avental de laboratório voando, seus sapatos molhados contra o
cimento. Ela tinha que voltar ao laboratório, rápido.
O tempo se esgotou.
[21]
Leon tinha parado para arrumar seus arreios, Ada passou na frente, surpresa pelos primeiros túneis estarem
vazios. Se não lhe falhe a memória, esse corredor dava no sistema de tratamento de esgoto; depois tinha o
teleférico para a fábrica, e então o elevador para o subterrâneo. As condições provavelmente ficarão piores
quanto mais perto do laboratório ficar, mas se continuar desse jeito... ela já está começando a ficar otimista.
Leon esteve bem quieto desde que entraram no esgoto, falando só o necessário - cuidando onde pisa, espere um
minuto, que caminho devemos seguir... ele era corajoso, pelo menos acima da média entre os cabeças do
departamento, e atirava bem - e não sabia nada sobre mulheres. Quando ela cortou a tentativa dele de
confortá-la, ele ficou confuso e machucado - e agora ele não sabe como interagir com ela. Leon preferiu se calar
do que ser rejeitado de novo.
Ada chegou na intersecção em "T" do corredor vazio, pensando no lugar mais fácil para se livrar de Leon -
- e viu a mulher, na hora em que atirou.
Bam!
Ada sentiu lascas do concreto espirrarem em seu ombro enquanto erguia a Beretta, uma onda de emoções e
percepções no instante que levou para reagir. Ela não teria tempo para reagir, o próximo tiro a mataria, brava por
ter sido tão estúpida - e reconheceu a mulher.
Birkin -
Ela ouviu o segundo tiro - e então foi golpeada, empurrada do caminho e caindo no chão enquanto Leon chorava
de dor e surpresa, seu corpo caindo sobre o dela.
Ada respirou fundo, chocada assim que entendeu o que tinha acontecido, assim que Leon rolou e agarrou o
braço. Ela ouviu passos correndo, Leon gemendo, e sentou.
Oh, meu Deus. Essa não -
Ele levou um tiro. Por mim.
Ada se levantou, inclinando ele. "Leon!".
Ele olhou par ela, mordendo por causa da dor. Sangue vazava por entre seus dedos, pressionados contra seu
ombro esquerdo.
"Eu estou - bem". Ele suspirou, apesar de pálido e sofrendo, ela achou que estava bem. Devia estar doendo
muito mas não ia - não irá morrer.
Eu teria morrido, Leon salvou a minha vida -
E na cauda desse pensamento, - Annette Birkin. Ainda viva.
"Aquela mulher". Ela disse, sentindo-se culpada enquanto virava para correr. "Eu preciso falar com ela".
Ada decolou, fazendo a curva e descendo o corredor, uma porta aberta no fim. Leon sobreviverá, e se conseguir
alcançar Annette todo esse maldito pesadelo acabará. Ada tinha estudado as fotos, sabia que era a esposa de
Birkin - e se ela não estiver com a amostra, com certeza sabe onde está.
Ela cruzou a porta e parou antes de pular em outro túnel cheio de água, ouvindo, analisando a superfície da água.
Nenhum respingo de água, mas haviam algumas ondas à esquerda -
- e uma escada de mão na parede, levando ao túnel de ventilação acima.
Ada pulou na água e foi para a escada na parede da frente. O túnel continuava para a esquerda, mas não tinha
saída.
Ela escalou rapidamente as barras, recusando-se a pensar em Leon (porque ele estava bem) enquanto espiava o
túnel e via que estava vazio, antes de cruzar um conjunto de pás. Através dele, outra olhada antes de passar
por outro conjunto de pás, e desceu outra escada. A gigante câmara de dois andares que abrigava o maquinário
de tratamento estava ausente de vida, tão fria, industrial e equipada quanto esperava. Havia uma ponte
hidráulica lá, erguida no andar que estava - isso quer dizer que Annette desceu pela escada oeste, a outra única
saída. Ada andou em seus mapas mentais assim que começou a cruzar a ponte.
"Largue a arma".
Atrás dela. Ada hesitou, sentindo uma dor interior. A segunda vez que estragou tudo - mas não obedecerá
Annette de jeito nenhum. A mira dela era ruim e Ada se estendeu, preparando para se jogar, girar e atirar -
Bam-pim!
O tiro acertou o chão à direita de Ada. Annette a tinha.
Ada derrubou a arma, erguendo as mãos devagar, virando para a cientista.
Jesus, eu mereço morrer por isso...
Annette Birkin andou até ela, uma Browning 9mm tremendo em uma mão estendida. Ada recuou ao ver aquela
arma balançando - mas viu uma oportunidade quando Annette se aproximou, passando a uns três metros dela.
Muito perto. Muito perto e à beira de um colapso, não é?
"Quem é você? Qual é o seu nome?!".
Ada exalou forte, gaguejando sua voz. "Ada, Ada Wong. Por favor, não atire, por favor, eu não fiz nada - ".
Annette franziu, "Ada... Wong. Eu conheço esse nome - Ada era o nome da namorada de John...".
"É, John Howe! Mas como você sabe? Você sabe onde ele está?".
"Eu sei porque John trabalhou com meu marido, William. Você já ouviu dele claro - William Birkin, o responsável
pela criação do T-virus".
Annette mostrou um pouco de orgulho e desespero, dando esperanças à Ada; uma fraqueza que podia ver. Ada
tinha lido os arquivos sobre William - leu sobre a firme subida pela hierarquia da Umbrella, os avanços em virologia
e seqüênciamento genético... e sobre a ambição científica que o tornou um verdadeiro sociopata. Parece que sua
esposa estava com os mesmos planos - isso significa que a senhora não teria problemas em puxar o gatilho.
Seja tola e não a faça duvidar.
"T-virus? O que é -". Ada piscou, e arregalou os olhos. "Doutor Birkin? Espere, Birkin, o bioquímico?".
Ela viu um feixe de prazer no rosto de Annette - mas logo se foi, ficando só desespero. Desespero e maldade em
seus profundos e vermelhos olhos.
"John Howe está morto". Ela disse friamente. "Ele morreu há três meses atrás na mansão de Spencer. Minhas
condolências - mas depois, você vai se juntar a ele, não vai? Você não vai levar o G-virus de mim, você não vai
tê-lo!".
Ada começou a tremer. "G-virus? Por favor, eu não sei do que você está falando!".
"Você sabe". Annette apertou os dentes. "A Umbrella mandou você para roubá-lo, você não pode mentir para
mim! William está morto para mim agora, a Umbrella o tirou de mim, eles o forçaram a usá-lo! Eles o
forçaram...".
Ela parou, seu olhar distante. Ada esticou-se - mas Annette voltou, seus olhos molhados de lágrimas, a arma
apontada para o rosto de Ada.
"Eles vieram uma semana atrás". Ela respirou. "Eles vieram para pegá-lo e atiraram no meu William quando não
daria as amostras. Eles levaram a maleta, eles levaram todos os finais, ambas as séries - exceto pela única que
William guardava, o G-virus...".
A voz de Annette virou um grito de repente. "Ele estava morrendo, você não vê? Ele não tinha escolha!".
Ada entendeu. Entendeu tudo. "Ele injetou em si mesmo, não foi?".
A cientista acenou, seu mole cabelo loiro caindo nos olhos, sua voz suave novamente. "O vírus revitaliza funções
celulares. Ele - o vírus mudou William. Eu não vi - o que ele fez, mas eu vi os corpos dos homens que tentaram
matá-lo... e ouvi os gritos".
Ada se aproximou, como se para confortá-la, suas expressões como uma máscara de simpatia - mas Annette
levantou a arma de novo. Mesmo na tristeza, ela não deixaria Ada se aproximar.
Mas já é perto o suficiente...
"Eu sinto tanto". Ada disse, abaixando os braços. "Então o G-virus, ele vazou, ele infectou toda a Raccoon -".
Annette balançou a cabeça. "Não. Quando os assassinos da Umbrella foram - parados, a maleta foi quebrada. O
T-virus vazou - os funcionários do laboratório atingidos pelo aerotransmissível foram contidos, só que haviam
ratos, entendeu? Ratos no esgoto...".
Ela pausou, seus lábios tremendo. "... a não ser que William, meu querido marido já tenha começado a se
reproduzir. Implantando embriões, replicando... ainda não deve ser hora para isso, mas eu - ".
Ela parou, seus olhos estreitando, a maldade fluindo novamente. Seus olhos avermelhados brilhando com
paranóia.
Preparar-se -
"Você não pode tê-lo!". Annette gritou, saliva voando de seus lábios rachados. "Ele deu sua vida para mantê-lo
longe de você, você é uma espiã e você não pode tê-lo -".
Ada agachou e pulou, jogando seus braços sob os de Annette, empurrando a arma para cima e longe das duas.
A Browning descarregou, mandando uma bala para o teto enquanto lutavam pelo controle da arma. Annette
estava fisicamente mais cansada, mas era dirigida por demônios de ódio e perda, o cume de sua insanidade
dando-a forças -
Ada soltou a arma de repente e Annette tropeçou. Ela caiu no corrimão da ponte e Ada golpeou-a com o cotovelo
na barriga, o centro do equilíbrio -
- e Annette virou, sua boca aberta de surpresa, seus braços tentando se equilibrar - e ela mergulhou sobre o
corrimão, silenciosamente, nenhum som até o thump de seu corpo atingindo o chão a uns 6 metros abaixo.
"Droga". Ada cochichou, olhando para baixo. Annette ficou lá, de barriga para baixo e parada, a arma ainda
apertada em sua mão.
Isso é ótimo. Cair numa emboscada pela segunda vez e matar a única maluca que podia te dizer onde estavam
as amostras -
Um baixo gemido flutuou do corpo de Annette Birkin - e ela se moveu, arqueando as costas, tentando rolar para
o lado.
Droga. Droga. Droga.
Ada virou e correu pela ponte, pegando a Beretta enquanto corria para o que parecia um painel de controle ao
lado da escada para o túnel de ventilação. Ela tinha que abaixar a ponte e pegar Annette antes que fuja -
- mas o painel era para a ventilação, e enquanto outro doloroso gemido - um pouco mais alto - ecoou pelo lugar,
Ada soube que não tinha muito tempo.
O depósito de lixo, eu posso cruzar o depósito e pegar um dos túneis -
Enquanto pensava isso, já estava correndo para a escada oeste, esperando que a cientista esteja machucada o
bastante para ficar lá um minuto ou dois. Havia uma pequena sacada no final da ponte onde dava para ver o
depósito, e a escada de mão na parede à direita. Ada desceu o mais rápido que podia, pulando no chão de
cimento na última barra.
O depósito de lixo era uma grande área quadrada, as paredes amontoadas com materiais industriais - ferro velho
amassado, canos enferrujados, painéis cobertos de fios, papelão podre... Ela desceu do patamar e pulou em
quase um metro de lodo, a fria meleca passando de suas pernas. Ela não se importava, só queria pegar a
senhora Birkin e encerrar suas horas em Raccoon -
- foi quando algo se mexeu. Abaixo do opaco e fedorento líquido, algo grande se moveu. Ada viu o que poderia
ser o dorso de um réptil, viu e ouviu uma pilha de tábuas caírem na água a uns três metros à frente no mesmo
instante.
Você deve estar brincando...
Seja lá o que for, era grande o bastante para fazer Ada esquecer Annette. Ada voltou para o patamar e pegou
impulso, sem tirar os olhos das ondas de lodo -
- que de repente subiram num violento espirro de escuridão e na direção dela. Ada ergueu a Beretta e começou a
atirar.
***
Havia um pequeno elevador no canto da vazia sala de reuniões, um quadrado de metal que aparentemente
descia. Claire foi até ele, fétida água pingava de suas roupas, terrivelmente perdida e ansiosa para continuar
andando e achar Sherry.
Por favor, esteja viva, querida, por favor.
Ela tinha visto o tubo de drenagem, mas não Sherry - e depois de agonizantes e longos momentos gritando na
água agitada, e tentativas de entrar no buraco, ela acabou abandonando o esforço. Sherry se foi, talvez afogada,
talvez não - a não ser que o fluxo de água revertesse, Sherry não voltará.
Claire achou os controles da pequena plataforma e apertou o botão. Um motor escondido zuniu e o elevador
desceu, levando-a para outro provável corredor vazio, talvez outra sala desconhecida - ou pior, direto para outra
criatura sobrenatural.
Ela apertava as mãos molhadas enquanto descia lentamente. Ela se sentia andando às cegas. Do túnel onde
Sherry desapareceu, ela só passou por um corredor pouco iluminado e uma sala de reuniões não decorada e de
alguma forma esterilizada.
O elevador estava descendo num corredor e ela se agachou, apontando a arma de Irons enquanto a nova
localidade aparecia.
O corredor de concreto tinha outro elevador na outra ponta, e tinha uma intersecção para a esquerda no meio
dele - e próximo à junção havia um corpo encostado na parede, o que parecia ser um policial -
Ela sentiu uma mistura de choque e sofrimento, arregalando os olhos enquanto olhava para as feições do policial,
a cor do cabelo, o físico...
.. é o - Leon?
Antes do elevador tocar o chão, Claire pulou e correu para a figura. Era Leon, e não estava se mexendo - mas
respirava, e assim que ela se agachou na frente dele, seus olhos abriram. A mão dele estava em seu braço
esquerdo, os dedos molhados de sangue.
"Claire?". Seus olhos azuis pareciam claros, cansados, porém conscientes.
"Leon! O que aconteceu? Você está bem?".
"Eu levei um tiro, devo ter apagado por um minuto...".
Ele cuidadosamente tirou a mão, expondo um pequeno e rasgado buraco acima da axila. Parecia doloroso, não
pelo menos não sangrava muito.
Estremecido, Leon colocou o tecido de seu uniforme sobre o buraco e pressionou a mão sobre ele.
"Dói pra diabo, mas acho que vou sobreviver - Ada, onde está Ada?".
Dizendo a última frase quase frenético, Leon fez força para se desencostar da parede. Com um suave gemido ele
soltou, sem condições de se mexer.
"Fique parado, descanse por um minuto". Claire disse. "Quem é Ada?".
"Eu a conheci na delegacia. Eu não consegui te achar e descobrimos como fugir de Raccoon - pelos esgotos. A
cidade não é segura, houve algum tipo de vazamento no laboratório da Umbrella, e Ada quis partir logo depois.
Alguém atirou em nós e eu fui atingido - Ada foi atrás do atirador, descendo o corredor, ela disse que era uma
mulher...".
Ele balançou a cabeça e franziu. "Eu tenho que achá-la. Eu não sei quanto tempo fiquei apagado, não mais do
que alguns minutos, ela não deve ter ido longe -".
Ele tentou se mexer de novo e Claire o impediu, empurrando-o de volta. "Eu vou. Eu - estava com uma garotinha
que agora está perdida nos esgotos. Talvez eu ache as duas".
Leon hesitou - depois acenou, desistindo. "Como está de munição?".
"Ah, sete nesta -". Ela conferiu a arma que pegou da viatura e colocou na cintura. Parece que aquele passeio foi
há milhões de anos. "- e dezessete nesta".
Ela ergueu a arma de Irons e Leon acenou de novo, sua cabeça rolando cansadamente. "Certo, isso é bom. Eu
te seguirei em alguns minutos... tome cuidado, tá? E boa sorte".
Claire se levantou, desejando que tivessem mais tempo. Ela queria contar sobre Chris e Irons, Mr. X e o T-virus,
ela queria saber o que ele sabia sobre a Umbrella, ou se sabia onde ficava a saída do esgoto -
- mas essa Ada deve estar enfrentando um atirador nesse momento e Sherry pode estar em qualquer lugar.
- Leon fechou os olhos. Claire virou e foi para a intersecção, imaginado se algum deles sairá disso com vida.
[22]
Annette doía por toda parte. Ela se sentou vagarosamente, enjoada com as centenas de dores que gritavam por
sua atenção. Seu pescoço e estômago doíam, tinha torcido o pulso e seus joelhos pareciam inchados - mas foi a
aguda dor em seu lado direito que era pior, ela achava que tinha quebrado uma costela.
Sua horrível, horrível mulher -
Annette se inclinou, segurando seu tenso pescoço com uma mão machucada, mas só viu metal e sombra; Ada
Wong, a vagabunda da Umbrella aparentemente fugiu. Ela fingia não saber de nada, mas Annette não era burra,
Ada já devia estar a caminho do laboratório - ou vindo atrás dela, ansiosa para terminar o serviço.
Umbrella, a Umbrella fez isso...
Annette se ajoelhou, usando sua raiva para superar a dor. Ela tinha que chegar ao laboratório antes dos espiões -
mas estava tão machucada!
Não posso deixar roubarem o trabalho dele...
Ela cambaleou até a porta da imensa sala, um braço envolto em seu ardente peito - e parou, inclinando a cabeça
para ouvir.
Tiros. Ecoando pelo frio ar, vindos da área de despejo - e um segundo depois ela ouviu um tremendo assobio,
mais tiros e respingos de água -
Annette sorriu, um sorriso apertado e sem humor. Talvez ela chegue no laboratório antes.
A ponte, abaixe a ponte, não a deixe escapar...
Cansada e dolorida, Annette foi para os controles hidráulicos e acionou a ponte. Os poderosos motores da ponte
abafaram os barulhos da batalha, a plataforma rotacionando e descendo até travar com um pesado clank.
Annette se desencostou da parede, caindo sobre os controles perto da porta. Ela viu os controles do túnel de
ventilação e os ligou, ainda sorrindo enquanto as pás começavam a roncar lá em cima. Ada teve problemas no
depósito de lixo e Annette não vai deixá-la voltar por onde veio; com a ponte abaixada e as pás girando, a
senhorita Wong terá lutar pelo caminho.
Tomara que seja um bando de lickers, sua vadia, espero que estejam fazendo-a em pedaços...
Annette saiu dos controles e caiu, a dor e a tontura eram demais, seus ralados e inchados joelhos acertando o
chão, espetando agulhas de agonia por suas pernas -
E a porta à sua frente abriu. Annette ergueu a arma, mas não era capaz de mirar, gastando o que restava de
sua força para não gritar de sofrimento e frustração.
William, está doendo tanto, sinto muito, mas eu não posso -
Uma jovem mulher se agachou na frente dela, com um olhar de preocupação no rosto. Ela vestia shorts e um
colete pingando água do esgoto - e segurava um grande revólver, não apontando diretamente para Annette - e
não apontando para lugar nenhum também.
Outra espiã.
"Você é Ada?". A garota perguntou, tentando tocá-la - era mais do que Annette podia suportar, ser tocada pela
dó de algum espião corporativo.
"Afaste-se de mim". Annette resmungou, estapeando fracamente a mão estendida da garota. "Eu não sou o seu
'contato', e eu não o tenho em mim. Você pode me matar, mas não vai encontrá-lo".
A garota se afastou, um olhar de confusão em seu sujo rosto. "Achar o que? Quem é você?".
As perguntas de novo, e a fúria passou, deixando-a insensível. Annette estava cansada de jogos; doía demais e
já não era mais capaz de lutar. "Annette Birkin". Ela disse exausta. "Como se não soubesse...".
Ela vai me matar agora. Está acabado, tudo acabado.
Annette não podia fazer nada. Lágrimas desceram suas bochechas, lágrimas tão fúteis quanto seus planos. Ela
desapontou William, ela falhou como esposa e como mãe, e até mesmo como cientista. Pelo menos acabará
agora, finalmente haverá um fim para a angústia -
"Você é a mãe de Sherry?".
As palavras da garota a atordoaram, tirando-a de sua exaustão como um tapa na cara.
"O que?! Quem - como você soube sobre Sherry?".
"Ela está perdida nos esgotos". A moça disse, sua voz rápida e desesperada enquanto guardava a arma no cinto.
"Por favor, você tem que me ajudar a encontrá-la! Ela foi sugada para um tubo de drenagem e eu não sei onde
procurar -".
"Mas eu pedi para ela ir à delegacia". Annette lamentou, toda a dor física esquecida, seu coração pulsando
horríveis ondas de descrença. "Por que ela está aqui? É perigoso, ela será morta! E o G-virus - a Umbrella vai
achá-la, eles vão pegá-lo, por que ela está aqui?".
A garota se estendeu para ajudá-la de novo, levantando-a, e Annette não lutou, muito fraca e assustada para
isso.
A garota a olhou intensamente, parecendo culpada, com medo e esperançosa ao mesmo tempo. "A delegacia foi
tomada - para onde a drenagem vai? Por favor, Annette, você precisa me dizer!".
A verdade mostrou-se como um raio de luz em sua exaustão e medo.
A drenagem vai para o tanque de filtragem - que é perto do bonde da fábrica.
A rota mais curta para os laboratórios.
Era um truque. A garota estava usando Sherry para chegar no laboratório, para pegar informações sobre o
G-virus. Sherry ainda estava na delegacia, segura e bem, e tudo isso é uma armação -
- mas a Umbrella conhece o caminho, por que ela perguntaria algo que já sabe? Não faz sentido.
Annette ergueu a arma, seu dolorido pulso tremendo, e se afastou da garota. Sua confusão e perguntas eram
demais - por isso não podia fazer nada, não podia apertar o gatilho.
"Não se mexa. Não me diga". Ela disse, ignorando a dor enquanto abria a porta. "Eu vou atirar se tentar me
seguir".
"Annette - eu não entendo, eu só quero -".
"Cale a boca! Cale a boca e me deixe em paz. Será que vocês todos não podem me deixar em paz?!".
Ela passou pela porta, surpreendendo a garota, apertando seu braço contra a costela contundida ou quebrada
assim que fechou a porta..
Sherry...
Era uma mentira, tinha que ser - mas não mudaria nada. Ela ainda podia, tinha que voltar para o laboratório e
terminar o que começou.
Virando, mancando e tossindo, Annette se apoiou na fria parede do túnel conector, deixando cada doloroso e
terrível passo lembrá-la do que a Umbrella fez.
Uma fria e quieta caverna, as paredes brilhavam com gelo e eu estou perdido. Perdido e exausto, correndo e
com medo por um longo tempo, então eu paro e descanso. Tão quieto, tão frio - mas meu braço dói, eu estou
sentado contra uma parede onde nasceu espinhos, e um deles está cavando minha pele, me espetando. Dói
tanto, e eu tenho que me levantar, eu tenho que encontrar alguém, eu tenho que -
- levantar.
Leon abriu os olhos, a par de que tinha apagado novamente. A percepção o fez respirar fundo, o súbito medo
fazendo-o completamente acordado.
Ada, Claire - Jesus, quanto tempo?
Ele gentilmente tirou a mão do braço, o sangue grosso entre seus dedos. Dói, mas não tanto quanto antes - e o
sangramento havia parado, pelo menos na entrada; os farrapos de seu uniforme tinham grudado no ferimento,
formando um curativo.
Ele se inclinou, tentando tocar onde a bala tinha saído; de novo, havia tecido sobre a dor pulsante do ferimento.
Não estava certo, mas só de pensar que a bala tinha varado sua carne sem acertar o osso - ele foi
extremamente sortudo.
Mesmo se tivesse arrancado meu braço, Ada ainda estaria por aí - e eu mandei Claire atrás dela. Eu preciso ir
atrás delas.
Apertando os dentes, Leon se levantou com o braço bom, seus músculos frios e duros por causa do concreto
úmido.
Seu ombro esquerdo raspou na parede e ele ofegou quando a dor intensificou brevemente. Leon esperou passar,
respirando fundo, pensando que poderia ter sido bem pior.
Quando finalmente de pé, decidiu que agüentará; ele não estava enjoado e apesar de haver sangue na parede e
no chão, não era tanto quanto imaginava. Cuidando para não mexer no ferimento, Leon virou e desceu o
corredor até a porta fechada, andando o mais rápido que podia.
Depois da porta, deu de cara com outro túnel cheio de água que ia para os dois lados; havia uma escada de mão
à sua frente à esquerda, mas nem pensou em subir com o braço ferido - além disso, havia um ventilador
barulhento no topo da escada. Ele desceu do patamar e foi para a direita na escura água, esperando achar pistas
de Ada e Claire.
Perseguir um atirador... como pôde fazer aquilo, como pôde me deixar lá?
Depois do confronto com o monstro vomitante, ele jurou não assumir mais nada sobre Ada Wong; ela era flertiva
e insociável, e se ela aprendeu a atirar brincando de paintball, ele era um executivo de banco. Mas apesar de seu
confuso comportamento e provável duplicidade, ele gostava dela; ela era esperta e confiante, ela era bonita - e
ele assumiu que havia uma pessoa decente sob aquela contraditória fachada...
.. e ela o deixou para trás e foi pegar o atirador, deixou você rolando no chão com uma bala no braço. É, ela é
ótima; peça-a em casamento.
Ele chegou onde o túnel se dividia. Havia um portão trancado à direita, então Leon seguiu à esquerda, olhando as
grossas sombras. Ele devia ter ido com Claire -
Ele parou, ouvindo algo. Tiros, distantes e abafados, vindo de algum lugar à frente, distorcidos pelo labirinto de
túneis que compunham o sistema de esgotos.
Ainda armado, Leon apertou o ferimento e começou a correr, devagar por causa da água - mas quando os tiros
pararam, ele achou um motivo para ir mais rápido.
Havia uma passagem à frente, uma fraca luz amarelada vinha de lá. Mesmo antes de chegar, viu que teria de
escolher.
Diretamente à frente estava uma alto degrau e uma pesada porta na parede do fim do túnel, água caía do teto
como uma cachoeira.
Uma escolha óbvia, exceto -
Leon parou na passagem iluminada, olhando. Outra porta, e ele não tinha tempo para decidir, os tiros podem ter
vindo de qualquer lugar -
Bam, Bam -
Para a esquerda. Leon subiu no patamar, sentindo mais dor, sentindo um molhado quente no pulso. Ele ignorou
isso, indo para a porta e a abrindo, ouvindo mais tiros enquanto passava pela ponte no meio da grande câmara e
ia até a próxima porta.
Ele entrou em um frio corredor só que bem maior e mais largo que os outros, provavelmente algum tipo de
corredor para transporte de equipamentos pesados. Ele virava para a esquerda e esquerda de novo, caixas e
cilindros de aço na esquina da primeira curva.
.. acetileno, talvez oxigênio, bom Deus, o que leva tantos tiros e não morre?
Ele ouviu mais tiros e água espirrando - e um som diferente, um profundo e gutural assobio. Estranhamente
familiar, mas muito alto para ser possível.
Um milhão de cobras, milhares de gatos gigantes, algum terrível dinossauro -
Ele correu, finalmente desistindo de manter o ferimento fechado, precisando do braço livre para ganhar mais
velocidade. O fim do túnel estava perto, ele viu um painel de luzes piscando e uma abertura à esquerda, outra
grande porta de abastecimento -
- e ele parou bem a tempo de não entrar na linha de fogo, assim que outra rápida sucessão de tiros soou, assim
que um tenebroso impacto na água fez chover no chão como um grosso lençol.
"Pare, eu estou entrando!". Ele gritou -
- e ouviu a voz de Ada, sentindo um alívio apesar do horror que estava à frente.
"Leon!".
Ela está viva!
Ele ergueu a arma, seu ferimento sangrando agora, ele apareceu na comporta aberta, tábuas quebradas
nadando no turbulento líquido. Ela estava num pequeno patamar de concreto ao lado de uma escada de mão,
apontando a Beretta para a piscina de lixo.
"Ada, o que -".
Splash!
Uma gigante explosão saiu do lago e o jogou para o corredor. Aconteceu tão rápido que ele só viu depois que
estava voando no ar. Ele caiu sobre o braço ferido e gritou, tanto pelo choque do que tinha visto quanto pela dor.
- crocodilo -
Leon ficou de pé e correu antes mesmo de saber se conseguia levantar - e o lagarto gigante, o crocodilo de nove
metros de comprimento subiu no corredor atrás dele com um poderoso rosnado. O cimento tremeu assim que o
mamute réptil saiu das águas, galões de água escura vazando de sua mandíbula cheia de dentes.
- uma boca tão grande quanto eu, maior -
Leon correu, não havia dor, seu coração martelando de pânico - e a besta rosnou de novo, um impossível berro
que sacudiu seus ossos, que fez suor explodir de todos os poros -
- e Leon deu uma olhada para trás, viu que era mais rápido que o lagarto gigante. Ele ainda estava subindo pela
comporta, suas pernas grossas e curtas pareciam troncos de árvores, sua incrível cabeça grande demais para
manobrar facilmente.
Leon trocou de arma numa onda de terror, seu ferimento gritando enquanto colocava uma bala na Remington.
Ele andou de lado, alcançando a curva -
- e descarregou todos as cinco balas o mais rápido que podia, o pesado calibre explodindo o focinho do monstro.
Ele rosnou, balançando a cabeça de lado a lado, baldes de sangue emergindo de sua sorridente face - mas ainda
vindo, tirando sua calda da piscina lá atrás.
Insuficiente, não foi o bastante -
Leon virou e correu de novo, horrorizado em ter que se retirar, com medo do que acontecerá a Ada ao fugir do
crocodilo, mas sabendo que precisará de outros cinqüenta tiros para derrubá-lo - ou uma explosão nuclear, e por
que ele ainda estava pensando? Ele precisava fugir e depois pensar no que fazer.
Agüenta aí, Ada -
Os fortes passos do gigante encheram seus ouvidos enquanto passava pelas caixas, pela fileira de cilindros de aço
-
- e parou de correr. Seus instintos gritavam por sanidade, mas ele tinha uma idéia - e enquanto o lagarto dava
outro passo, Leon virou e voltou.
Funciona, isso funciona nos filmes, por favor, Deus, esteja ouvindo.
Os cinco cilindros brilhantes estavam presos por uma corrente. Havia um botão para a mesma e Leon o apertou.
Uma ponta da pesada corrente foi para o chão.
Soltando a espingarda, ele agarrou o cilindro mais próximo, seus músculos tencionando, sangue pulsando de seu
braço ferido. Ele pode sentir finos traços de suor descendo pelo peito, sentando no calcanhar para libertar o
cilindro do pequeno suporte.
- pronto!
Leon se jogou para trás e o tubo de gás comprimido foi ao chão, rolando alguns centímetros. Ele olhou para cima
e viu que o crocodilo tinha percorrido mais quinze metros - perto o bastante para ver os sujos dentes enquanto
rosnava de novo, sentindo seu quente e podre hálito.
Leon colocou o pé no cilindro e empurrou com toda a força, o mesmo rolando vagarosamente na direção do
lagarto. Por uma incrível sorte, o corredor tinha uma ligeira inclinação e o cilindro ganhou velocidade, rolando em
um semicírculo.
Recuando, ele tirou o revólver do cinto e apontou para o tubo, forçando para não puxar o gatilho. O crocodilo
avançava, sua calda batendo tão forte na parede que fazia levantar poeira.
Vamos desgraçado -
A menos de dez metros, o crocodilo e o cilindro se encontraram - e Leon apertou o gatilho. O primeiro tiro acertou
o chão perto do tubo - e a boca sorridente abriu, a grande cabeça abaixando para empurrar o obstáculo.
- firme -
Leon atirou de novo, e -
KA-BOOM!
- e foi jogado ao chão quando o cilindro explodiu. Numa explosão de aço retorcido e gases, a cabeça da criatura
foi obliterada, desaparecendo como um balão estourado. Quase na mesma hora, uma onda de sangue acertou
Leon, pedaços de dente, ossos e carne enfumaçada caindo sobre ele como um cobertor molhado.
Enjoado, seus ouvidos zunindo e braço sangrando, Leon sentou enquanto a carcaça decapitada ia ao chão, as
pernas dobrando com o peso do réptil. Ele pressionou sua mão ensangüentada contra o ferimento, exausto,
enjoado, dolorido - e profundamente satisfeito.
"Te peguei, sua porcaria idiota". Ele disse, e sorriu. Quando Ada veio correndo um pouco depois, foi assim que o
encontrou - olhando deslumbrado e atordoado para seu serviço, sujo de sangue e sangrando, sorrindo como uma
criancinha.
[23]
Leon vestia uma camisa branca sobre o uniforme; Ada rasgou-a e fez uma atadura no braço dele, uma espécie
de tipóia antes de colocar a camiseta de volta. Ele perdeu sangue o bastante para estar tonto; e Ada aproveitou
a situação para se explicar enquanto o atendia, sentindo-se chocada com a complexidade de emoções dentro
dela.
"... e eu achei que ela me parecia familiar. Eu achava que a conhecia através de John e quase a alcancei - mas
ela deve ter me despistado. Eu me perdi nos túneis, tentando voltar...".
Nenhuma verdade, mas Leon nem percebeu - até o gentil modo como ela o tocava, ou o leve tremor em sua
voz enquanto pedia desculpas pela terceira vez, por deixá-lo para trás.
Ele salvou a minha vida. De novo. E eu acabo retribuindo tudo com mentiras, mentiras em troco de sua
generosidade.
Algo mudou nela quando ele foi baleado em seu lugar, e não conseguia mudar de volta. Pior, ela não sabia se
queria mudar de volta. Era como o nascimento de um novo sentimento, uma emoção que a enchia; era
desconfortável, mas também não era desprazeroso. O modo como destruiu o crocodilo fez esse sentimento mais
forte ainda. O buraco em seu braço foi só na carne, mas o sangue em seu corpo, ela sabia que doía muito, que
estava drenando-o,
matando-o enquanto tentava salvá-la.
Livre-se dele agora, sua mente soou, não deixe isso afetar seu trabalho - o trabalho, Ada, a missão. Sua vida.
Ela sabia que isso era a única coisa a fazer - mas quando ele ficou pronto e sua história foi contada, ela parou de
ouvir ela mesma. Ada o ajudou a se levantar e o tirou do cenário com os restos do réptil, sem parecer ter achado
uma saída quando estava perdida.
Annette se foi; assim que Leon tinha chamado a atenção do crocodilo, ela subiu a escada e checou - e viu que
Annette teve bastante senso de ligar os ventiladores e abaixar a ponte antes de fugir. Apesar de Annette estar
errada sobre os propósitos de Ada, ela terá que chegar no laboratório antes da cientista. E com Leon nessas
condições só a atrasaria.
Solte ele! Perca o peso, você não é uma enfermeira, por Deus, esta não é você, Ada -
"Estou com sede". Leon suspirou, sua respiração morna em seu pescoço. Olhando em seu rosto ensangüentado
e piscante, ela viu que a voz lá dentro seria mais fácil de ignorar. Ela terá que deixá-lo -
- mas não agora.
"Então vamos achar um pouco de água". Ela disse, e virou-o gentilmente para a direção que precisava ir.
Sherry acordou no escuro, um terrível gosto na boca, um rio de água fria puxando suas roupas. Havia um
estrondoso barulho a sua volta, como se o céu estivesse caindo, e por um segundo não podia se lembrar do que
tinha acontecido ou onde estava - e quando percebeu que não conseguia se mover, ela entrou em pânico. O som
estava enfraquecendo mais e mais até acabar - mas ela estava presa em algum rio fedorento, presa e sozinha.
Ela abriu a boca para gritar - mas lembrou do monstro que berrava, depois do gigante careca e depois de Claire.
Ela lembrou de Claire quando a impediu de gritar; de algum modo a imagem de Claire funcionava como um suave
toque, acalmando o cego terror e a permitindo pensar.
Sugada por um buraco, e agora estou - em outro lugar, e gritar não vai ajudar.
Era um pensamento forte e corajoso, fazendo-a pensar melhor. Ela se desencostou da dureza atrás e percebeu
que não estava presa; ela estava contra uma fileira de barras na parede e a força da água corrente a tinha
segurado lá - e provavelmente a salvou de ter afundado. A nojenta água ainda estava agitada, borbulhando - e o
gosto ruim em sua boca significava que havia engolido um pouco dela...
Pensar nisso abriu o resto de sua memória. Ela estava flutuando e de alguma forma foi revirada, engoliu o horrível
líquido e - apagou.
Pelo menos o barulho tinha acabado, e agora que estava mais acordada, percebeu que podia enxergar. Não
muito, mas o suficiente para ver que estava numa grande sala alagada e que havia um pequeno buraco de luz
vindo de cima.
Tem que ser uma saída. Alguém construiu esse lugar, tem que haver uma saída...
Ela nadou mais pela sala, e sentiu seus dedos do pé tocarem algo duro e plano. Sentindo-se boba por não ter
pensado nisso antes, ela respirou fundo e esticou as pernas - e ficou de pé. A água batia em seus ombros, mas
conseguia ficar de pé.
Os últimos traços de pânico se foram ao parar no meio do lugar, virando devagar, seus olhos finalmente se
adaptando à fraca iluminação - e viu a escada de mão na parede ao longe. Ainda assustada, a visão das barras
significava que tinha achado a saída. Sherry levantou o pé e foi para a escada, orgulhosa de como está se
virando.
Sem gritar nem chorar. Como Claire diz. Forte.
Ela começou a subir, agarrando as melecadas barras de metal que pareciam continuar para sempre. Ao olhar
para baixo, só viu a água movimentando onde a luz incidia. Ela também viu a origem da luz - uma estreita fenda
no teto, não muito longe de onde estava.
Quase no topo. E se eu cair não vou me machucar... não há nada para se assustar.
Sherry respirou fundo para tornar isso verdade e olhou para cima de novo.
Mais algumas barras, e quando foi tocar a próxima, sua mão bateu no teto de metal. Ela empurrou com uma
mão e -
- e a tampa não se moveu. Não mesmo.
"Droga". A palavra soou pequena e só, mais como um apelo.
Sherry colocou um cotovelo em volta da barra que segurava, tocou seu colar da sorte, e tentou de novo,
empurrando de verdade desta vez. Ela sentiu o alçapão mexer um pouco, mas não o bastante. Ela abaixou a
mão, quieta; estava presa.
Por vários minutos ela não se moveu, não querendo voltar para a água, não querendo acreditar que estava presa
- mas seus braços estavam começando a ficar cansados e ela não queria pular. Finalmente, ela começou a
descer, mais devagar do que quando subiu. Cada degrau a menos era como admitir a derrota. Ela estava a um
terço do caminho para a água quando ouviu passos acima - uma suave vibração a princípio, mas depois se
difundiram em passos distintos, mais altos, se aproximando do poço que Sherry estava.
Sherry deu um segundo para pensar em ignorar os passos, mas acabou subindo, decidindo que valia a pena
arriscar; pode não ser Claire - mas podia ser sua única chance de escapar.
Ela começou a gritar antes mesmo de chegar ao topo. "Ei! Socorro, você pode me ouvir? Ei, Ei!".
Os passos pareceram parar, e ela alcançou o topo, ainda chamando, batendo no metal várias vezes.
"Ei, ei, ei!".
Outra pancada com sua dolorida mão - e de repente estava socando o ar, uma forte luz caindo em seu rosto.
"Sherry! Oh, meu Deus, querida, que bom que você está bem!".
Claire, era Claire, e Sherry não a conseguia ver, mas estava derretida de prazer ao som de sua voz. Fortes e
quentes mãos a levantaram, quentes e úmidos braços a abraçaram fortemente. Sherry piscou e começou a
perceber as características da vasta sala através da brilhante e branca névoa.
"Como você sabia que era eu?". Claire perguntou, ainda segurando-a.
"Eu não sabia. Eu não conseguia sair sozinha, e ouvi passos...".
Sherry olhou em volta, sentindo-se impressionada por Claire tê-la ouvido.
A sala era enorme, com passarelas de metal na diagonal - e a seção do chão onde tinha saído estava no canto
mais longe da sala.
"Estou muito feliz por ver você". Sherry disse e Claire sorriu, tão feliz e espantada quanto Sherry.
Claire se ajoelhou na frente dela, seu sorriso sumindo um pouco. "Sherry, eu vi sua mãe. Ela está bem, está viva
-".
"Onde? Onde ela está?". Sherry ficou corada, empolgada com a notícia - mas sentindo uma incerteza,
tencionando os músculos de repente, ficando difícil de respirar.
Ela olhou fundo nos olhos preocupados de Claire, e percebeu que ela iria mentir de novo - que tentava dar uma
notícia ruim do melhor jeito possível. Sherry teria deixado ela fazer isso algumas horas atrás -
- mas agora não. Fortes e corajosas nós temos que ser...
"Diga-me, Claire. Diga-me a verdade".
Claire suspirou, balançando a cabeça. "Eu não sei para onde ela foi. Ela estava - com medo de mim, Sherry. Acho
que ela me confundiu com outra pessoa, alguém ruim. Ela correu de mim - mas eu tenho quase certeza de que
ela veio por aqui, e eu estava procurando por ela quando ouvi você".
Sherry acenou devagar, forçando para aceitar a idéia de que sua mãe vinha agindo estranho - estranho o
bastante para Claire suavizar.
"E você acha que ela veio para cá?" Sherry finalmente perguntou.
"Não estou certa. Eu também achei um policial, antes de ver sua mãe. Eu o conheci quando cheguei na cidade, e
ele estava num dos túneis que passei depois que você desapareceu. Ele estava ferido, ele não podia vir comigo -
então depois que vi sua mãe, eu voltei para buscá-lo, mas ele não estava mais lá."
"Morreu?".
Claire balançou a cabeça. "Não. Foi embora - então eu voltei e esse é o único caminho que sua mãe pode ter
pego. Mas como eu disse, não estou muito certa..."
Ela hesitou, olhando para Sherry pensativa-mente. "A sua mãe já te falou sobre algo chamado G-virus?".
"G-virus? Não acho que não".
"Ela já te deu algo para segurar, algum tubo de vidro, ou algo assim?".
Sherry franziu de volta. "Não, nada. Por quê?".
Claire se levantou, tocando e apertando o ombro de Sherry. "Não é nada importante".
Sherry estreitou os olhos e Claire sorriu de novo. "É sério. Venha, vamos ver se descobrimos por onde sua mãe
foi. Aposto como está procurando você".
Sherry deixou Claire dar o caminho, imaginando porque de repente tinha certeza de que Claire não acreditava no
que dizia... e imaginando porque não conseguia fazer mais perguntas.
O elevador plataforma do galpão, com uma locomotiva em cima, estava onde Annette o tinha deixado. O tempo
tinha apertado, mas ainda estava na frente dos espiões, de Ada e de sua amiguinha de roupas rasgadas...
.. dizendo mentiras como se o sofrimento de perder William não fosse o bastante para elas...
Ela tirou a chave de controle do bolso de seu rasgado avental de laboratório, apoiando-se nos controles, inserindo
a chave e girando-a. Seus trêmulos dedos tocaram o botão de ativação e uma trilha de luzes apareceram no
painel, bem claras apesar do brilho da lua cheia. Uma fresca brisa de outono soprou em seu corpo dolorido, um
amigável vento que cheirava como fogo e doença...
.. como no Dia da Bruxas, como fogueiras queimando a carne pestilenta das brincadeiras...
Quatro barulhentas buzinas soaram no ar noturno, o pesado elevador dizendo que é hora de ir. Annette subiu os
degraus para a locomotiva, incapaz de lembrar o que estava pensando. Ela estava cansada. Quanto tempo faz
que não dorme? Ela também não lembra disso?
Bati a cabeça, não foi? Ou apenas sonolência, pode ser...
Seus machucados a tinham levado para delirantes lugares que nunca imaginou existir, ela sabia o que fazer - o
sistema de disparo, a abertura do portão do trem subterrâneo, se esconder nas sombras e esperar se curar -
mas o resto ficou tão estranho, como se tivesse tomado um remédio para pensar um pouco por vez.
Estava quase acabado. Uma mágica e positiva frase que ainda podia ver, não importava o quanto cega tinha
ficado. A caminho do galpão, ela tossiu e tossiu, e depois vomitou de dor, uma escuridão que quase permaneceu
por tanto tempo que ela pensou ter perdido a visão -
- está quase acabado.
Agarrando o pensamento como um amor perdido, ela achou a maçaneta da porta metálica e entrou. O
movimento e o som de movimento a engoliram enquanto se deitava no suave banco de metal e fechava os
olhos. Alguns momentos para descansar e estará tudo acabado...
Annette afundou na escuridão, o suave hum dos motores levando-a para um profundo e distante sono. Ela
estava descendo, seus músculos relaxados, suas dores e misérias perdendo a força - e por um bom tempo
achou silêncio até que -
- até que um terrível grito esfaqueou sua escuridão, um berro de tal fúria e dor que falou para seu coração - e ela
voltou à vida, ofegando e apavorada -
- e então percebeu o que a tinha tirado de seu sono.
Foi William. Ele tinha voltado para casa, ele a tinha seguido - e a Umbrella não terá nada porque seu marido tinha
voltado para o raio da explosão.
O grito soou de novo, desta vez ecoando por um dos vários túneis secretos do laboratório enquanto descia.
Annette fechou os olhos novamente, o novo pensamento se juntado ao seu amor perdido, ambos juntos a
fazendo feliz.
William voltou. Está quase acabado.
O terceiro seguiu naturalmente enquanto voltava para o silêncio, sabendo que terá de se levantar em breve.
Quando a plataforma parar, ela levantará e estará pronta para a jornada final.
A Umbrella sofrerá pelo que fez - e todos morrerão no final.
Ela sorriu e dormiu, sonhando com William.
[24]
Leon finalmente começou a se sentir ele mesmo, sentado na sala de controle onde Ada o deixou. Ela tinha
achado um kit médico em um dos gabinetes empoeirados, junto com uma garrafa de água; já fazia dez minutos
que ela tinha saído e, a aspirina já estava funcionando, a água fez maravilhas.
Ele sentou no console cheio de botões, tentando se lembrar do que tinha acontecido depois da explosão no
esgoto; a última coisa de que se lembrava era do colapso do crocodilo e de ter sido pego por uma fraqueza logo
depois. Ada fez um curativo e o levou pelos túneis -
- e um vagão, nós ficamos num vagão por um minuto ou dois -
- e finalmente esta sala, onde ela pediu que descansasse enquanto verificava algo.
Leon tinha protestado, lembrando-a de que não era seguro, mas estava confuso o bastante para não fazer nada
exceto sentar onde ela mandou. Uma vez que bebeu um galão de água, começou a melhorar. Parece que a
perda de sangue causava desidratação...
.. aí ela me deu água e foi checar o que? E como ela sabia vir por esse caminho?
Ele mal conseguia andar e mesmo delirando, ele percebeu o quanto ela estava confiante e precisa ao escolher o
caminho? Ela era uma compradora de arte em Nova Iorque, como ela pode saber algo sobre o sistema de
esgoto de Raccoon City?
E onde ela está? Por que ainda não voltou?
Ada provavelmente salvou sua vida - mas ele não podia continuar acreditando no que ela dizia ser. Ele queria
saber o que ela estava fazendo, saber agora, e não só porque está guardando segredos, mas porque Claire
ainda estava nos esgotos. Se Ada conhece uma saída, Leon devia isso a Claire.
Leon se levantou devagar, se apoiando na cadeira e respirando fundo. Ainda fraco, não sentia tanta dor no braço
e nem enjôo - a aspirina talvez.
Ele sacou o revólver e andou para a porta da pequena e empoeirada sala de controle, prometendo que não
aceitaria mais respostas vagas ou sorrisinhos.
Ele abriu a porta e saiu num enorme galpão de madeira; estava vazio e escuro, mas a brisa noturna fez isso
quase agradável - e lá estava Ada, subindo numa plataforma elevada fora do galpão, desaparecendo atrás do
que parecia ser uma locomotiva amarela. Era um elevador de transporte industrial - e pelos oleosos trilhos que
terminavam dentro do galpão, deveria ser a parte de uma fábrica abandonada, que não estava completamente
abandonada.
"Ada!".
Com seu braço ferido pressionado contra o corpo, Leon correu para a grande plataforma hexagonal - ficou
enraivecido ao ouvir o crescente barulho dos motores, o barulho mecânico subindo no limpo céu noturno. Ada
estava partindo, não tinha ido verificar nada -
- só que ela não vai a parte alguma antes de dizer por quê.
Leon correu pela luz da lua, ouvindo a porta da locomotiva fechar enquanto passava por um painel de controle.
Depois que subiu os degraus e tentava recuperar o equilíbrio, o grande elevador começou a descer, painéis de
quase um metro cercaram o perímetro hexagonal da plataforma, levando Leon, Ada e a locomotiva para baixo
numa suave descida.
Leon abriu a porta enquanto tudo ficava escuro, o céu tornando-se apenas um ponto cada vez menor. A luz da
lua sendo trocada pelas brancas luminárias do poço do elevador.
Ao entrar, viu o surpreso olhar de Ada enquanto se levantava de um assento preso na parede, enquanto ela
erguia a Beretta e a abaixava de novo - o sentimento de culpa indo e vindo no tempo que levou para fechar a
porta.
Nenhum dos dois falou, encarando um ao outro. Leon quase a viu tentando inventar uma explicação - cansado
como estava, ele decidiu que não tinha paciência para isso.
"Para onde nós vamos?". Ele perguntou, tentando não mostrar a raiva em sua voz.
Ada suspirou - e sentou, seus ombros caindo "Eu acho que é uma saída". Ela olhou para ele. "Desculpe. Eu não
devia ter tentado partir sem você, mas eu estava com medo...".
Ele pôde ver tristeza de verdade em sua voz e em seus olhos, sua raiva diminuindo um pouco. "Com medo de
quê?".
"De que você não fosse conseguir. De que eu não fosse conseguir, tentando manter nós dois a salvo."
"Ada, do que você está falando?". Leon foi para o banco, sentando ao lado dela. Ela olhou para as mãos, falando
suavemente.
"Quanto eu estava procurando você nos esgotos, eu achei um mapa. Ele mostrava o que parecia ser algum tipo
de laboratório ou fábrica subterrânea - e se o mapa estiver certo, havia um túnel que dava fora da cidade".
Ela olhou para ele de novo. "Leon, eu não achava que você tivesse condições de fazer uma viagem como aquela,
como esta - e eu estava como medo de traze-lo comigo, de ser um túnel sem saída ou de algo nos atacar...".
Leon acenou devagar. Ela estava tentando se proteger - e a ele.
"Me desculpe". Ela repetiu. "Eu devia ter contado, eu não devia tê-lo abandonado daquele jeito. Depois de tudo o
que você fez por mim, eu - eu pelo menos te devia a verdade".
A culpa e a vergonha em seus olhos não era algo falso. Leon foi para tocar a mão dela, preparando-se para dizer
que entendia e que não a culpava -
- foi quando houve uma pancada no lado de fora. O vagão inteiro tremeu um pouco, mas suficiente para
deixá-los apreensivos.
"Deve ser um defeito na trilha...". Leon disse e Ada acenou, com uma intensidade que o fez prazerosamente
desconfortável, um calor que se espalhou por todo seu corpo -
BAM!
- e Ada voou do banco, jogada ao chão assim que uma grande e encurvada coisa varou a parede como se fosse
papel. Era uma mão, uma mão com garras bem compridas, pingando de -
"Ada!".
A mão gigante saiu e voltou, fazendo novos buracos no metal enquanto Leon se jogava ao chão, agarrando o
mole corpo de Ada, colocando-a no centro do vagão. Um terrível grito soou pela escuridão do lado de fora - foi o
mesmo grito furioso que tinha ouvido na delegacia, só que mais alto e violento - e menos humano do que antes.
Leon segurou Ada com o braço bom, sentindo um quente rastro de sangue sair do lado direito dela.
"Ada, acorde! Ada!".
E nada. Ele a abaixou gentilmente no chão e apertou o buraco de sangue em seu vestido, bem acima do quadril.
Sangue jorrava de duas profundas perfurações; não dava para saber se era grave. Ele rasgou cerca de cinco
centímetros da parte debaixo do curto vestido dela, pressionando o tecido contra o ferimento -
- e o monstro gritou de novo, e a raiva naquele grito nem se comparava com a de Leon, olhando para o falecido
rosto de Ada. Ele esticou o apertado vestido sobre a atadura improvisada, prendendo-a o melhor que podia,
depois se levantou e empunhou a Remington.
Ada tinha cuidado dele e o protegeu quando não conseguia se proteger. Leon carregou a espingarda
impiedosamente enquanto se preparava para retribuir o favor.
Quando elas chegaram no que parecia o fim da linha, foi Sherry que adivinhou por onde sua mãe devia ter ido.
Elas tinham entrado em outra cavernosa e escura câmara, mas só tinha a porta de entrada. Não parecia ter
outra saída, a não ser que Annette tivesse descido da passarela de metal e caminhado pelo vazio que as cercava.
Elas pararam na beira do chão de metal, tentando enxergar a escuridão à frente, mas sem sorte. O lugar parecia
uma doca; o chão gradeado ia da porta até a parede de trás, e terminava sem mais nem menos, dando lugar a
um interminável vazio. Ou Annette desceu e seguiu em frente ou Claire seguiu pelo caminho errado.
Então voltamos ou seguimos em frente?
Ela não queria nenhuma das opções - se bem que voltar parece melhor do que encarar uma caverna escura. E
Leon ainda deve estar lá atrás...
"Isso é algum teleférico? Sherry perguntou, e Claire se bateu mentalmente.
Plataforma, vários cabos no teto...
"É, acho que é, apesar de você ter adivinhado por mim. A minha cabeça deve estar ruim...".
O pequeno painel do outro lado da plataforma devia ser a mesa de controle. Claire foi para lá, Sherry a seguiu,
apertando seu colar dourado enquanto descrevia os barulhos do tubo de drenagem.
"... e se movia como um trem. Me assustou bastante, também. Era bem alto".
Bem abaixo do pequeno monitor estava um código de chamada. Claire digitou o código e apertou "enter" - e o
lugar se encheu com o suave hum do maquinário.
"Você é bem espertinha, sabia?". Claire disse e Sherry praticamente se iluminou, um doce sorriso em seu rosto.
Claire colocou um braço em volta dos ombros de Sherry e juntas foram esperar no fim da plataforma.
As luzes do teleférico apareceram alguns segundos depois, aumentando cada vez mais. Depois dessa, Claire
decidiu que seria fantasticamente mais otimista. O teleférico daria fora da cidade e estaria bem estocado com
água e comida, teria chuveiros e roupas limpas -
- não, apague isso. Uma banheira quente e um daqueles grosso roupões de veludo. E pantufas.
Legal, qualquer coisa que não inclua monstros e pessoas malucas. Ela olhou para Sherry e viu que ela ainda
esfregava o medalhão.
"O que tem aí?". Ela perguntou, tentando fazê-la sorrir de novo. "É a foto do seu namorado?".
"Dentro? Oh, não é para guardar nada". Sherry disse, e Claire gostou de ver as bochechas dela coradas. "Minha
mãe me deu, é para dar sorte - e eu não tenho um namorado. Os meninos da minha idade são totalmente
imaturos".
Claire sorriu. "Vá se acostumando, docinho. Alguns deles nunca crescem mais do que isso".
Já dava para ver o aspecto do teleférico, um único vagão com cerca de seis metros vindo suavemente.
"Para onde você acha que ele vai?". Sherry perguntou, e antes que Claire pudesse responder, a porta pela qual
entraram explodiu.
A porta veio para dentro, arrancada das dobradiças em um ruído metálico e caindo no chão -
- e Claire agarrou Sherry, colocando-a perto assim que Mr. X apareceu, contorcendo-se para cruzar a abertura,
seu olhar desalmado mirando nelas.
"Fique atrás de mim!". Claire gritou, sacando a arma de Irons, arriscando um olhar para o teleférico se
aproximando. Dez segundos, só dez segundos -
- mas X deu um passo gigante para elas, seus grandes braços se levantando, ainda a seis metros de distância,
mas só a quatro de seus largos passos -
"Entre no vagão quando ele parar!". Claire gritou e apertou o gatilho.
Quatro, cinco, seis tiros no peito dele. O sétimo acertando uma bochecha branca, mas Mr. X nem piscou, nem
sangrou - nem parou. Outro passo. O escuro buraco em seu rosto como prova de sua inumanidade. Claire
abaixou a mira, pernas, joelhos.
Bam-bam-bam!
- e ele pausou quando pelo menos um dos tiros acertou seu joelho esquerdo, seus olhos negros fixados nela,
marcando-a -
"Aqui, vamos!".
Sherry já estava puxando o colete dela, gritando, e Claire recuou, atirando de novo. Mais dois tiros acertaram sua
barriga -
- e ela já estava no vagão. Sherry achou o controle da porta e a mesma deslizou para o lado, Mr. X enquadrado
na pequena janela, sem vir mas também sem cair. Sem morrer.
"Siga-me!". Claire gritou, vendo os comandos luminosos à direita, sabendo que a porta não agüentaria um
segundo.
Ela correu com Sherry, agradecendo a Deus pelo designer ter sido amigável quando o botão "partir" desceu sob
suas trêmulas mãos -
- e o teleférico se moveu, deslizando da plataforma, para longe do indestrutível homem e para dentro do escuro.
Annette sentou-se no dormitório do nível quatro, esperando o computador ligar e debatendo se inicia ou não a
seqüência P-Epsilon. Quando o sistema de destruição for ativado, todas as portas serão destrancadas, até
mesmo as eletrônicas. E as criaturas que estiveram presas pelos últimos dias ficarão livres para vagar, e a maioria
delas estarão famintas...
.. famintas e quentes, sangrando puro vírus através da carne...
Ela não queria encarar nenhuma dessas criaturas, mas assim que as primeiras linhas do código apareceram na
tela, ela decidiu iniciar a seqüência. O gás P-Epsilon era um experimento que alguns microbiologistas criaram para
satisfazer a equipe de controle de danos da Umbrella. Se funcionar, o gás incapacitará qualquer criatura infectada
pelo vírus aerotransmissível - a principio - garantindo-a uma viagem segura para o túnel de transporte, mas os
espiões estavam vindo e Annette não queria tornar as coisas fáceis para eles. Ela tinha ouvido o elevador de
carga sendo chamado para a superfície a caminho do laboratório de sínteses - o que era ótimo, eles estarão aqui
para o final, e ela queria que eles lutassem por suas vidas enquanto acelerava para fora do multibilionário
complexo, para longe da brilhante explosão...
.. ele vai queimar e eu ficarei livre desse pesadelo. Fim de jogo, eu venço e a Umbrella perde, e de uma vez por
todas as criaturas assassinas -
Ela sentiu-se bem; ela queria ir direto para o computador mais próximo e ativar o sistema de destruição, mesmo
antes de coletar a amostra, só que ela mal enxergava à frente quando saiu do elevador; e ela tinha medo de
esquecer alguma coisa - ou pior, cair e não levantar mais. A viagem para o armário de remédios do laboratório de
síntese fixou tudo isso.
Epinefrina*, endorfina*, anfetamina*, oh, Deus.
Annette sabia que estava drogada, que não devia subestimar suas habilidades, mas por que não se sentir feliz?
Ela sorriu para o pequeno computador à frente e começou a digitar os códigos, sentindo como se seus dedos
fossem quebrar enquanto a adrenalina sintética corria por suas veia dilatadas.
--------------------------------------------------------------
* Epinefrina - Sinônimo de adrenalina.
* Endorfina - Analgésico.
* Anfetamina - medicamento vaso-condutor e estimulante.
-------------------------------------------------------------- Ela tinha voltado para o laboratório, William também, e a última
amostra viável do G-virus estava no seu bolso. Ela a tinha escondido numa caixa de fusíveis antes de ir procurar
William, e a recuperou quando voltou -
76E, 43L, 17A, tempo para destruição... 20, alerta vocal/corte de energia, 10, autorização pessoal, 0001 Birkin -
- e era isso. Annette não parava de sorrir, não queria parar enquanto tocava o "enter". Um toque e nada na
terra poderia pará-lo. Em dez minutos os alertas gravados serão tocados, e o elevador desligará; em quinze
começará a contagem - cinco minutos para alcançar uma distância segura de trem, outros cinco e -
Boom. Vinte minutos antes da explosão. Mais do que suficiente para chegar no túnel e ligar o trem; suficiente
para acelerar por baixo das ruas da cidade, pelas montanhas isoladas dos limites de Raccoon. Tempo o bastante
para chegar no fim da linha e ver a Umbrella perder.
Quando o relógio marcar zero, as cargas plásticas na central de força do laboratório serão ativadas. Mesmo se
onze das doze cargas explosivas falharem, uma única seria capaz de detonar as cargas secundárias embutidas
nas paredes. O sistema de destruição da Umbrella foi projetado para derrubar tudo. O laboratório se tornará um
inferno, explodindo sob a cidade morta, visível à quilômetros - e ela estará lá para ver, para ver que fez tudo dar
certo.
Isto é por você William...
O pensamento foi amargo... por um tempo, eles não - aproveitaram a relação marido e mulher. William era tão
brilhante, tão devotado ao trabalho que os prazeres da síntese tomaram o lugar da vida de casado. Mas ela
aprendeu a conviver com isso - e agora, com seu dedo tocando o fim de tudo, ela desejou que tivesse havido
mais entre eles nos últimos anos, mais do que sua adoração por seus incríveis presentes ou pela adoração dele
por sua assistência...
Este é o nosso último beijo, meu amor. Esta é minha contribuição pelo trabalho, meu ato final pelo que
compartilhamos.
É, estava certo, esse era o sentimento. Annette apertou a tecla, seu coração cantando, e viu o código de
travamento aparecer na tela em verde brilhante.
"Eu, com todo respeito, ofereço a minha demissão". Ela disse suavemente e começou a rir.
[25]
Leon tinha dado duas voltas em torno do vagão e não viu nada.
Quando a criatura finalmente saiu das sombras do teto do vagão, Leon ergueu a espingarda. A visão o fez
congelar, sua fúria rendendo-se ao medo.
Mas que droga -
A coisa ainda gritava, o brutal berro como a voz do inferno. A coisa já foi um homem - pernas e braços, pedaços
de roupas penduradas em seu grande corpo - mas tudo de humano mudou - ainda estava mudando enquanto
aumentava sua ferocidade, e Leon só conseguia olhar.
Seu corpo era inchado e ondulado com estranhos músculos. Seu braço direito era quase meio metro mais longo
que o outro, manchadas garras sobressaindo da mão. E o inquieto tumor no ombro direito parecia um olho do
tamanho de uma bola de basquete, mexendo de um lado para o outro como se procurasse algo -
- e o grito também estava mudando, mais profundo, mais áspero, o despenteado rosto caindo - derretendo até o
peito. Como cera quente, a cabeça humana escorregou para o peito esquerdo -
- e ao mesmo tempo, outro rosto estava se formando, crescendo com um terrível som de estalo, como dedos
sendo quebrados. Rachados olhos se abriram, o vermelho buraco de uma boca se formando, respirando para
gritar -
- e Leon apertou o gatilho.
Boom!
O tiro acertou o peito, um grosso e roxo sangue espirrou, cortando o grito da criatura - mas foi só isso. O novo
rosto do monstro virou para Leon, inclinando -
- e pulou na plataforma, aterrissando com as penas meio agachadas. Ele deu um passo a frente e ficou perto o
bastante para Leon sentir o estranho e químico cheiro que a pele do monstro soltava - e viu que o sangramento
no peito tinha parado, que a carne estava comendo os buracos.
A criatura levantou sua poderosa garra e Leon recuou, atirando novamente quando a mão desceu -
- shhink!
- e faíscas voaram do metal assim que o tiro acertou a criatura no estômago. O pesado calibre mal intimidou o
gigante mostro. Ele deu outro passo e Leon recuou, atirando de novo -
- e encostou nos degraus que sobem para o vagão, tropeçando e caindo sentado, o tiro indo longe sobre a
cabeça em forma de bala da criatura. Mais um passo e estará nele -
- e estarei morto -
- exceto que a criatura não deu o passo. Ao invés disso, ela virou para o parapeito da plataforma, sua bizarra
cabeça levantando, os buracos de suas narinas alargando -
- e silenciosamente, quase graciosamente, o monstro pulou para a escuridão fora da plataforma.
Por um momento, Leon não se mexeu. Não podia, estava muito ocupado tentando entender porque o monstro
não o matou. Deve ter sentido ou cheirado algo, terminou o ataque que com certeza teria ganho - e pulou fora
do transporte.
Eu não morri. Ele se foi e eu não estou morto.
Por quê? Ele não sabia, mas saber que estava vivo já bastava - e alguns segundos depois, seus confusos
sentidos o disseram que o elevador estava diminuindo a velocidade, que o poço estava ficando mais claro, a
escuridão ficando acinzentada.
Leon ficou de pé e foi ver Ada.
Sherry ouviu o monstro de longe, em algum lugar do claro e fundo buraco, e sentiu-se bem mais assustada do
que quando Mr. X - Claire o chamava assim - entrou na estação do teleférico. Claire disse que foi um problema na
máquina, mas Sherry não se convenceu. O som era tão distante e estranho que poderia ser outra coisa...
.. e se não for? E se Claire estiver errada?
Elas pararam no lado de fora do galpão, em frente a um grande buraco no chão e esperaram pelos ruídos
mecânicos cessarem. A quase lua cheia estava baixa no céu, e Sherry podia dizer que já era de madrugada pelo
tom azul no horizonte; ela não se sentia cansada. Estava assustada e ansiosa, mesmo com Claire segurando sua
mão, Sherry não queria entrar no buraco escuro onde o monstro poderia estar.
Depois de um longo tempo, o maquinário parou e Claire recuou - o poço do transporte, ela disse - e voltou para o
galpão.
"Vamos ver se podemos chamá-lo de volta - Sherry?".
Sherry não se mexeu. Ela olhava dentro do buraco, segurando seu amuleto e desejando ser corajosa como Claire
- mas ela não era, e sabia disso, e não queria descer na escuridão.
Eu não posso, eu não posso descer lá, eu NÃO sou como a Claire, e não me importo se minha mãe está lá
embaixo -
Sherry sentiu um calor nas costas e olhou para cima, assustada, e viu que Claire tinha tirado o colete e estava
colocando-o em Sherry.
"Eu quero que você o use". Claire disse, e apesar do medo, Sherry sentiu uma súbita onda de pura alegria.
"Mas por que? Ele é seu, e você vai sentir frio...". Sherry disse.
Claire ignorou por um minuto, ajudando-a se vestir. Era grande demais para ela e estava um pouco sujo, mas foi
a coisa mais legal que já ganhou.
Para mim. Ela quer que eu o tenha.
Claire se ajoelhou, agora vestindo só uma fina camiseta preta e shorts. Olhando seriamente, Claire fechou o
colete no peito de Sherry e começou a falar.
"Eu quero que fique com ele porque eu posso dizer que você está com medo. Faz tempo que eu o tenho.
Quando eu o uso, sinto como se pudesse chutar traseiros. Como se nada fosse me deter. Meu irmão tem uma
jaqueta de couro com o mesmo desenho nas costas, e ele chuta traseiros - mas ele tirou a idéia de mim".
Claire sorriu de repente, um cansado e quente sorriso que fez Sherry esquecer do monstro, só por um minuto.
"E agora é seu, e toda vez que vesti-lo, eu quero que se lembre de que você é a melhor garota de doze anos
com quem eu já andei".
Sherry sorriu de volta, abraçando o tecido rosa escuro. "É um suborno, não é?".
Claire acenou sem hesitar. "Sim, é um suborno. Então, o que você me diz?".
Suspirando, Sherry pegou a mão dela, e juntas entraram no galpão para procurar os controles do elevador.
Ada acordou assim que Leon a colocou numa barulhenta cama metálica, sentindo uma pulsante dor de cabeça e
uma dor em seu lado. Sua primeira idéia foi a de ter sido baleada - mas ao abrir os olhos e ver a pálida e
preocupada face de Leon, ela lembrou.
Ele ia me beijar, acho - e então...
"O que aconteceu?".
Leon tirou o cabelo da testa dela, sorrindo um pouco. "Aconteceu um monstro. O mesmo que pegou Bertolucci,
acho. Ele atravessou a parede do transporte com a mão e te nocauteou. Você bateu a cabeça depois que - te
arranhou".
Vírus!
Ada fez força para levantar e ver o ferimento, mas a dor de cabeça a impedia. Ela tocou o galo bem acima da
têmpora* esquerda, e tremeu.
"Ei, fique parada". Leon disse. "O ferimento não é tão grave, mas você levou uma séria pancada...".
Ada fechou os olhos. Se ela foi infectada, não havia nada que podia fazer - e que ironia - se foi Birkin quem a feriu
e ainda estava quente, Ada acabaria coletando a amostra do G-virus de uma forma bem pessoal.
Respire fundo. Você não está mais no transporte, o que isso a diz?
"Onde nós estamos?". Ela perguntou, abrindo os olhos.
Leon balançou a cabeça. "Não tenho certeza. Como você tinha dito, é um laboratório ou fábrica subterrânea. O
elevador está lá fora. Eu a trouxe para a sala mais próxima".
Ada virou a cabeça para ver a janela, para ver a área do elevador.
Deve ser o nível quatro, onde a plataforma pára...
O laboratório de síntese principal ficava no nível cinco.
Leon olhava tão sinceramente, seu brilhante olhar azul tão sensível, que por alguns segundos fez Ada pensar em
abortar a missão. Eles poderiam descer para o túnel de fuga juntos, entrar no trem e sair da cidade. Podiam fugir
para bem, bem longe -
- e depois o que? Ligar para Trent e dizer que vai reembolsar? Claro. Depois você pode conhecer os pais de Leon,
ganhar um anel, comprar uma pequena casa branca com um cercado de madeira, ter alguns filhos... você pode
aprender crochê e esfregar os pés dele depois de um duro dia prendendo bêbados e fazendo paradas no trânsito.
Felizes para sempre.
Ada fechou os olhos, incapaz de olhar para ele enquanto falava.
"Minha cabeça dói muito, Leon, e o túnel que vi no mapa - eu não sei onde é exatamente...".
"Eu vou achá-lo,". Ele disse. "eu vou achá-lo e depois voltar para cá. Não se preocupe com nada, tá bom?".
"Tome cuidado". Ela sussurrou, e sentiu os suaves lábios dele tocarem sua testa, o ouviu levantar e ir para a
porta.
"Fique aqui, eu volto logo". Ele disse, e a porta abriu e fechou. Ela estava só.
Ele ficará bem. Ele se perderá tentando achar o túnel, vai voltar, verá que fui embora e pegará o elevador de
volta à superfície... eu poderei achar a amostra, escapar e tudo acabará.
Ada contou um minuto e sentou-se devagar. Foi uma bela pancada mas ainda conseguia funcionar.
Houve um barulho lá fora, e Ada se levantou, olhando pela janela. Ela conhecia o som mesmo antes de olhar, e
sentiu seu coração afundar um pouco. O elevador estava subindo, provavelmente chamado do galpão por uma
equipe da Umbrella...
.. isso quer dizer que não tinha muito tempo. E se eles o acharem -
Não, Leon ficará bem. Ele era um combatente, sabia fugir do perigo, era forte e decente - e não precisava de
alguém como ela em sua vida. Ela foi louca em considerar isso, mesmo por um momento. Era hora de arrumar
as coisas, para fazer o que veio fazer, para lembrar quem ela era - uma agente freelance*, uma mulher sem
dúvidas na hora de roubar ou matar para completar a missão, uma fria e eficiente ladra que leva o prêmio em
uma carreira sem erros. Ada Wong nunca anda com os bons, e não será um policial de olhos azuis que a fará
esquecer disso. Ada tirou as chaves e cartões do bolsar* e abriu a porta, dizendo a si mesma que estava
fazendo a coisa certa - esperando acreditar nisso.
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* Têmpora - Osso lateral superior da cabeça.
* Freelance - Autônomo(a).
* Bolsar - Bolso de vestido.
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[26]
Annette teve alguns problemas.
A ida para a sala de carga foi ruim; cruzou com um infectado, nos primeiros estágios, e o matou com um tiro na
cabeça. Ela passou sob um Re3 que não se desgrudou do teto, e parece que as outras criaturas ainda não
perceberam que estavam livres.
Mesmo assim, ela conseguiu chegar lá em menos de três minutos. Ela digitou o código com um senso de grande
conquista -
- até que a porta da sala de carga se recusou a abrir. Annette digitou o simples código de novo, com mais
cuidado - e nada. Era uma das únicas portas no complexo que não abriam automaticamente com o sistema de
destruição, mas isso não deveria ser um problema - havia uma entrada de disco debaixo dos controles, o disco
que sempre esteve lá, que por insistência da Umbrella, só os chefes da seção poderiam ter acesso -
- e claro, depois de verificar, ela viu que não estava lá. Alguém pegou.
Annette ficou parada na frente da porta trancada do saguão vazio, e sentiu o pânico alcançar a sua mente.
O lugar vai explodir e eu desperdicei quatro, quase cinco minutos agora e onde está o maldito disco?
"Calma, calma, você está bem, tudo bem...".
Um fraco eco, um suspiro de razão no brilhante saguão. Ela só tinha que descer em outro nível; ela tinha a chave
mestra, uma arma e tempo. Não muito, mas o bastante.
Respirando fundo, Annette voltou para o corredor que dava nas escadas, lembrando se de que mesmo não
conseguindo, a Umbrella ia pagar. Ela não queria morrer, não iria morrer, mas os corredores claros e sujos de
sangue, os laboratórios uma vez estéreis vão queimar de qualquer jeito, não há motivo para pânico -
- e assim que virou à direita e correu pelo corredor, seus passos altos e profundos no silêncio, uma grade de
metal caiu do teto bem na sua frente -
- e um Re3, um licker, apareceu e gritou por seu sangue.
Não!
Annette atirou, mas só acertou o ombro dele enquanto avançava, esticando um braço deformado para acertá-la.
Ela sentiu uma aguda dor no braço e atirou de novo, chocada e desacreditada -
- e o segundo tiro acertou-o na garganta. Ele gritou, sangue espirrando do pescoço, seu babante e falso grito
enquanto pulava nela de novo.
O terceiro atingiu seu gelatinoso e acinzentado cérebro, e ele caiu se contorcendo, a centímetros de suas trêmulas
pernas.
Ofegando ao ver o quanto perto ele parou, Annette olhou para seu braço sangrando, para os grandes rasgos em
seu avental -
- e algo cedeu. Algo em sua mente.
Sua mente correndo, seu coração batendo, o sangue e o licker, o licker de William, morto no chão à sua frente -
tudo isso dançava em um círculo que se juntou em um só pensamento. Um que explicava tudo isso.
Não é deles.
Era tão claro, como cristal. Ela não podia fugir da dor, porque a dor acabaria em qualquer lugar; ela tinha provas,
pingando de seu braço. William tinha entendido, mas se perdeu antes de explicar, antes de dizer o que ela
realmente precisava fazer. Ela tinha que confrontar seus agressores e fazê-los entender que o G-virus não
pertencia a eles.
Mas eles vão entender? Conseguirão?
Talvez sim, talvez não. Era o trabalho de William, seu legado, e agora era dela.
Deles não. Meu.
Ela tinha que achá-los e dizer a eles. E quando aceitarem a verdade, eles terão que deixá-la sozinha - e então, se
ainda houver tempo, ela seguirá seu próprio caminho.
Mas primeiro ela precisava de outro ato. Sorrindo, de olhos grandes e estrelados, Annette passou por cima do
licker e foi para a escada.
Leon pensou ter ouvido tiros.
Ele estava em um tipo de ala cirúrgica, a primeira sala no final da primeira passagem que pegou depois de deixar
Ada, e levantou os olhos da pilha de papéis amassados que tinha achado, ouvindo - mas os distantes
cracks não se repetiram, então voltou à busca. Ele folheou rapidamente as páginas, desesperado para achar algo
além de intermináveis listas de números e cartas sob o timbre da Umbrella.
Vamos, deve ter algo útil em tudo isso...
Ele queria sair, queria pegar Ada e sair. O cadáver estripado caído no canto era um bom motivo, mas era mais do
que isso - o ar na sala, o corredor lá fora, ele apostou que todas as salas daquele lugar estavam erradas.
Cheirava como morte, e pior, tinha uma atmosfera de algo mais escuro, algo amoral. Mal.
Eles faziam experiências aqui, testes e sabe lá Deus o que mais - e eles criaram a praga zumbi; eles criaram o
demônio que atacou Ada, eles assassinaram a cidade inteira. Seja lá o que queriam fazer, estavam praticando o
mal.
- Mal em larga escala; o elevador os tinha levado para um complexo secreto da Umbrella, um dos grandes. Pelos
números na parede, ele sabia que estava no quarto piso - e a passarela de metal que o levou para a sala de
operações, uma das três, se esticava sobre um buraco que cobria a câmara inteira, o fundo perdido na sombra.
Ele não sabia o quanto tinha descido, e nem se importava, ele só queria achar um simples mapa que indicasse a
saída.
E não está aqui...
Frustrado, Leon deixou os papéis de lado - e viu que havia um disquete de computador na mesa de metal,
escondido pelos papéis. Franzindo, Leon o pegou - "Para verificação da sala de carga" estava impresso numa
etiqueta.
Suspirando, ele o colocou no bolso e esfregou os olhos com a mão direita, seu braço esquerdo praticamente inútil
depois de carregar Ada. Ele não queria procurar um computador e ver o que tinha no disco, não queria procurar a
saída de porta em porta, ver com quais atrocidades a Umbrella tinha brincado. Ele estava cansado, com dor e
preocupado com Ada... e decidiu, enquanto ia para a porta, que deveria falar com ela. Tentar refrescar sua
mente, dizer que acharia a saída, mas o lugar é grande demais; se ela soubesse a direção, ou se lembrasse em
que andar era...
Leon abriu a porta, saiu para o corredor e -
- uma mulher armada estava na sua frente, uma 9mm apontada para seu peito. Ela estava sangrando, finos
riscos de sangue descendo pelo braço, manchando seu sujo avental de laboratório - e o olhar dela, estranho e
esbugalhado, o dizia que se mexer seria uma má idéia.
Oh, Deus, o que é isso?
"Você matou meu marido". Ela disse. "Você, sua amiga e a garota - todos vocês, vocês queriam dançar no
túmulo dele, mas eu tenho novidades para você!".
Ela tinha certeza, ele percebeu em sua alta e trêmula voz. Ele manteve as mãos abaixadas, sua voz calma e
baixa.
"Senhora, eu sou um policial e estou aqui para ajudar, está bem? Eu não quero machucá-la, eu só - "
A- mulher colocou a mão ensangüentada no bolso e tirou algo, um tubo de vidro cheio de um líquido roxo. Ela
sorriu bastante, erguendo-o acima da cabeça, ainda mirando a arma em Leon.
"Aqui está! É o que você quer, não é? Me ouça, você me ouve? Não é de vocês! Você entende o que estou
dizendo? William o fez, eu o ajudei, e não pertence a você!".
Leon acenou devagar. "Não pertence a mim, você está certa. É absolutamente seu - ".
A mulher nem ouvia. "Você acha que pode pegá-lo, mas eu vou impedi-lo, eu não vou deixá-lo pegar - tem muito
tempo, tempo para matar você, Ada e quem mais tentar pegá-lo!".
Ada -
"O que você sabe sobre Ada?". Leon perguntou, dando meio passo na direção da maluca, não muito calmo.
"Você a machucou? Me diga!".
A mulher riu, uma risada insana e sem graça. "A Umbrella a mandou, seu idiota! Ada Wong, a senhorita ame-os e
deixe-os! Ela seduziu John para pegar o G-virus, só que não é dela, também! Não é, NÃO É DE VOCES, É MEU -".
Um forte tremor abalou o chão, lançando Leon ao mesmo, uma vibração que chacoalhou as paredes -
- e crash, canos e reboque caíram do teto, uma pesada viga levando a mulher ao chão. Leon cobriu a cabeça
enquanto pedaços de cimento caíam sobre ele -
- e acabou. Leon sentou, olhando chocado para a mulher, sem saber o que tinha acontecido. Ela não se movia. A
viga de metal que a derrubou ainda estava pendurada no teto -
- e uma fria e calma voz soou de repente, de alto falantes escondidos nas paredes - feminina, calma e pontuada
pelo ritmo de um alarme.
"A seqüência de autodestruição foi ativada. Esta seqüência não pode ser abortada. Todas as pessoas devem
evacuar imediatamente. A seqüência de autodestruição foi ativada. Este programa não pode ser abortado. Todas
as pessoas devem evacuar imediatamente -".
Leon ficou de pé, correu para a mulher e pegou o cilindro de vidro da mão estendida, colocando-o na bolsa. Ele
não sabia quem ela era, mas era louca o bastante para segurar um tubo de ensaio.
Ada - ele tinha que achá-la para fugirem. Os pulsantes e penetrantes alarmes ecoavam pelos corredores,
perseguindo-o até a porta para as passarelas, junto com a indiferente voz feminina repetindo a mensagem de
destruição iminente.
A gravação não dizia quanto tempo tinham, mas sabia que não queria estar lá quando o relógio zerar.
[27]
A descida do elevador terminou num arranho de freios hidráulicos - e depois silêncio, assim que os motores
desligaram, prendendo-as no interminável poço.
"Claire? O que -".
Claire segurou a boca de Sherry com o dedo - e ouviu o que parecia um alarme lá fora, uma repetida e abafada
batida. Parecia haver uma voz também, mas Claire não conseguia entender o murmúrio.
"Vamos, meu bem, acho que o passeio acabou. Vamos ver onde paramos, tá bom? E fique perto".
Elas saíram do vagão para a plataforma, os distantes sons não mais tão distantes - e havia luz, vinda de algum
lugar atrás do vagão. Claire pegou a mão de Sherry enquanto andavam rapidamente, sem querer preocupar a
garota, mas certa de que era um alarme. Havia alguém falando, também, e Claire queria saber o que dizia.
O elevador tinha parado a alguns centímetros abaixo de algum tipo de túnel de serviço, a luz que viu, vinha de
uma lâmpada enjaulada e pendurada no teto do túnel. Não havia porta, mas tinha um pequeno buraco no fim da
passagem; dava para elas passarem agachadas.
É isso ou escalar até a superfície, provavelmente um quilômetro acima...
Sem chance. Claire ajudou Sherry a subir na passagem e depois foi sua vez, indo para a boca do buraco e
agachando para o escuro. O alarme ficou mais alto ao se aproximarem, o murmúrio se transformando numa voz
feminina. Ela forçou para entender, esperando ouvir "problema no elevador" ou "temporário" -
Mas ainda não entendia. Elas tinham que deixar o elevador e esperar saírem num lugar melhor.
Claire virou, suspirando. "É hora de engatinhar. Eu vou primeiro, e depois -".
SLAM!
Sherry gritou enquanto algo caiu no teto do vagão atrás dela, uma forte pancada no metal que o partiu. Claire a
agarrou, aproximando-a, sua respi-ração presa na garganta -
- e uma mão, duas mãos apareceram no buraco do teto. Dois grossos braços cobertos em sombra -
- e a brilhante cabeça de Mr. X ergueu-se do vagão, como uma lua morta numa noite sem estrelas.
Claire virou e empurrou Sherry para a escuridão do túnel, seu coração martelando, seu corpo subitamente
molhado de suor.
"Vai, vai, estou bem atrás de você!".
Sherry sumiu no escuro e Claire não olhou para trás, o incansável perseguidor certamente já saindo do vagão
para continuar sua determinada caçada.
Ada ouviu os gritos de Annette de onde as três passarelas se juntavam. Ela se forçou a não correr para socorrer
Leon, prometendo que se ouvir tiros, mudaria de idéia -
- mas então o lugar balançou violentamente, e a suave voz da gravação começou a falar.
Droga!
Ada se levantou furiosa com a cientista, uma parte sua doendo por Leon, sabendo o que isso significava. Annette
tinha acionado a destruição, isso quer dizer que tinham menos de dez minutos para saírem de lá -
- e Leon não conhece o caminho.
Não, não é importante. Se ela for pegar a amostra que Annette certamente tem, precisaria ser agora. Leon não
era seu problema, nunca foi, e não desistiria agora, não depois do que passou para pegar o precioso vírus de
Trent.
Ada deu um passo para fora do painel central que conectava as três passarelas - e ouviu passos vindo para ela,
fortes demais para serem de Annette. Ada deslizou para a sombra, para trás da passarela oeste, se escondendo.
Um segundo depois. Leon passa correndo, provavelmente voltando para onde ela deveria estar esperando por
ele. Ada respirou fundo enquanto tirava-o de sua mente, e correu pela passarela sul para achar Annette.
Ada se foi.
"...foi ativado. Esta seqüência de auto destruição -".
"Cala a boca, cala a boca -". Leon falou, parado no meio da sala, seu estômago apertado, suas mãos fechadas.
Quando ela ouviu o alarme deve ter entrado em pânico e fugido. Ela devia estar andando por aí, perdida e
atordoada, talvez procurando por ele enquanto a infernal voz se repetia junto com o alarme.
O elevador!
Leon foi para a porta - e viu que não estava lá, um largo e pouco fundo buraco lá fora. Ele nem tinha percebido
por estar preocupado com Ada -
- nós temos que achar aquele túnel! Sem o elevador estamos presos!
Frustrado em silêncio, Leon virou e voltou para as passarelas, rezando para achá-la a tempo.
O pequeno túnel terminava abruptamente, sobre uma queda de pelo menos dois metros em um corredor vazio.
De ouvidos zunindo, de boca seca, Sherry agarrou as bordas do buraco, fechou os olhos e saltou. Ela pousou
agachada e depois caiu, sua perna direita dobrando. Doeu, mas ela mal sentiu, levantando com as mãos e
joelhos para sair do caminho, olhando para o buraco -
- e lá estava Claire, sua cabeça saindo, seus preocupados olhos vendo que estava bem, que o corredor era
seguro... exceto por haver sirenes tocando, uma mulher falando em alto falantes, e Mr. X estar vindo.
Claire esticou o braço com a arma. "Sherry, preciso que segure isso, eu não consigo virar".
Sherry agarrou o cano, impressionada com o peso da arma. "Não aponte isso para nada". Claire disse e
praticamente mergulhou do buraco, curvando o corpo e aterrissando sobre o ombro, suas pernas batendo na
parede.
Antes de Sherry perguntar se estava bem, Claire já estava de pé, pegando a arma e apontando-a para a porta
no final do corredor.
"Corre!". Ela disse, e começou a correr, uma mão empurrando as costas de Sherry enquanto iam para a porta,
enquanto a voz as diziam que o sistema de destruição tinha sido ativado -
- e atrás delas, um som de metal retorcendo atravessou as sirenes, e Sherry correu mais rápido, aterrorizada.
[28]
Annette Birkin se arrastou para fora do pesado e frio metal, ainda segurando a arma, o G-virus se foi. Assim que
abriu a boca para gritar de fúria, sangue correu pelos seus lábios.
- meu meu meu -
De algum modo ficou de pé.
Ada disse a si mesma que não merecia a boa opinião de Leon. Nunca mereceu.
Perdoe-me...
Leon voltava da área do elevador, correndo cego com medo por ela. Assim que passou pelo centro e foi para a
passarela oeste, Ada saiu das sombras e apontou a Beretta para as costas dele.
"Leon!".
Ele virou, e Ada sentiu sua garganta travar com o alívio no rosto dele - forçando para não sentir nada, o sorriso
dele sumindo.
Oh, Jesus, me perdoe!
"Estive esperando você". Ela disse, não se orgulhando do quanto calma estava. Do quanto fria.
Os alarmes soavam, a voz mecânica tão gelada quanto a dela, dizendo que o sistema não pode ser abortado.
"O G-virus". Ela disse. "Dê ele para mim".
Leon não se mexeu. "Ela estava dizendo a verdade" Ele falou, sem raiva mas com mais dor do que Ada queria
ouvir. "Você trabalha para a Umbrella".
Ada balançou a cabeça. "Não. Para quem eu trabalho não interessa. Eu - eu".
Pela primeira vez desde criança, Ada sentiu traços de lágrimas - e de repente o odiou por isso, por tê-la feito se
odiar.
"Eu tentei!". Ela lamentou, sua postura quebrada pela corrente de raiva que corria por ela. "Eu tentei te deixar, lá
no galpão! E você teve que tirar de Annette, você não o deixou par trás!".
Ela viu pena no rosto dele e sentiu a fúria passar, levada por uma onda de dor - pelo que perdeu com ele; pela
parte de si que perdeu a um longo, longo tempo.
Ela queria contar sobre Trent. Sobre as missões na Europa e Japão, sobre como se tornou o que era, sobre cada
evento de sua miserável vida que a trouxe para cá - apontando uma arma para o homem que a salvou.
O relógio estava correndo.
"Passe ele para cá". Ela disse. "Não me faça matá-lo".
Leon olhou nos olhos dela e simplesmente disse. "Não".
Um segundo passou, e outro.
Ada abaixou a Beretta.
Leon se livrou da bala que o mataria - e Ada abaixou a arma lentamente, seus ombros caindo, uma lágrima
descendo pela bochecha de porcelana.
Leon soltou sua respiração presa, sentindo muitas coisas, tristeza, traição - uma dó pela torturante força no
escuro olhar dela -
- foi quando um tiro badalou para fora das sombras atrás dela. Os olhos de Ada arregalaram, sua boca abriu
enquanto começava a cair, a arma acertou o chão, seu corpo bateu no parapeito e mergulhou.
"Ada, não!".
Ele correu e pulou, e de alguma forma ela conseguiu agarrar a barra de metal do parapeito - enquanto ele pegava
seu pulso, o corpo dela pendurado sobre a escuridão sem fundo, sangue em seu ombro.
"Ada, agüente firme!".
"Meu". Annette suspirou.
Ela ergueu a arma de novo para atirar no outro, para recuperar o que era seu, para fazê-los pagar -
- mas a arma estava pesada demais, estava caindo e ela junto. Juntas, elas caíram no metal escuro, o escuro, o
escuro em sua mente que finalmente levou a dor embora.
William -
Foi seu último pensamento antes de dormir.
O que ele quer, por que nós?
Lá, um mezanino do outro lado, a uns três metros do outro andar lá embaixo, caixotes de madeira bem abaixo
da passarela.
"Por aqui!". Claire gritou, e elas correram. O calor emanava das máquinas quando chegaram no piso inferior da
câmara de dois andares, enquanto Claire levantava Sherry e seguia logo atrás.
Crash!
Ela virou, viu que a grande criatura estava atravessando a porta, andando e procurando -
No final da mezanino, uma porta dupla de metal. Elas correram, Claire não pensando em nada exceto como
destruir uma coisa que sobreviveu tudo isso -
- a porta estava destrancada, e elas saíram em outro mezanino; o calor lá era terrível -
- e não tinha saída.
Claire viu, depois de dar alguns passos lá dentro, que estavam no parapeito de uma casa de fundição, o
borbulhante calor estourando em bolhas na piscina lá embaixo.
Ela tinha doze balas, divididas em duas armas. Claire foi para a ponta da plataforma, Sherry ao lado, o laranja
elétrico do metal derretido banhando-as com sua fervura. Quente o bastante para queimar qualquer coisa...
Como? Como eu faço ele pular?
"Sherry, vá até lá!".
Ela apontou para o canto mais longe da plataforma, e Sherry balançou a cabeça, seu rosto tremendo de medo.
"Vá! Agora!". Claire gritou, e com um choro de terror, Sherry correu, seu medalhão batendo no colete -
- não é um medalhão -
- e Sherry gritou, Claire virou, Mr. X estava vindo.
Ele entrou na câmara, tão duro, grande e impossível quanto a primeira vez que o viu, a luz alaranjada tornando-o
ainda mais um pesadelo.
Claire se aproximou, guardando a arma de Irons no short, o plano meio formado correndo em sua aterrorizada
mente. Provavelmente não funcionará, mas ela tinha que tentar -
- ele me alcança, eu pulo no beiral, me seguro, ele cai -
Mr. X virou seu vazio olhar para ela e deu um de seus estrondosos e calculados passos, os escuros buracos de
bala em seu rosto e pescoço suavizados pela luz alaranjada -
- e ele virou para Sherry, ergueu os punhos e começou a andar.
"Ei! Ei, eu estou aqui!".
Claire começou a gritar, mas ele não a ouviu, não a viu, o monstruoso ser concentrado na pobre garotinha
encurralada na parede, esfregando o medalhão -
- e Claire sabia o que ele queria. As frases de Annette e Sherry vieram juntas, formando a resposta.
G-virus, fazê-la em pedaços, amuleto da sorte -
Não é um medalhão.
"Sherry, ele quer o colar! Jogue- o para mim!".
Se ela estiver errada, ambas estarão mortas. Mr. X chegou mais perto da garota, bloqueando-a da visão de
Claire -
- e o colar, o colar do G-virus que Annette tinha dado para a filha voou pelo ar quente, caindo no chão perto de
Claire.
Mr. X girou, seguindo o caminho do colar com seus olhos negros, esquecendo Sherry. Era verdade.
Boa garota!
Claire o pegou, balançando-o para o monstro. "Você quer isso?". Claire disse, as palavras saindo com fúria pelas
balas gastas com ele, pelos medos que ela e Sherry tiveram. "Quer? Então venha pegar seu miserável!".
O monstro estava a uns dois metros de distância quando Claire virou e jogou o medalhão na piscina fervente,
desaparecendo no metal derretido -
- e a super criatura que as tinha aterrorizado por aquela interminável noite foi direto para o parapeito, as barras de
metal cedendo com seu peso -
- e mergulhou silenciosamente no gigante tonel, uma grande onda de lava respingou, espontâneas erupções de
fogo dançando na escura
forma do corpo que desaparecia sob o fogo derretido.
Triunfo, alívio, maravilhoso - e a fria voz da gravação mudou de repente, tirando a alegria de ver Mr. X tomar um
banho de lava.
Sob o grito das sirenes -
"Restam cinco minutos para alcançar distância segura. Todas as pessoas restantes devem evacuar
imediatamente. Favor, dirijam-se à plataforma de embarque. Repito, dirijam-se à plataforma de embarque.
Repito...".
Sherry estava do lado, Claire pegou sua mão e elas correram.
A dor era incrível e Ada fechou os olhos, pensando se morreria por isso.
"Ada, agüente firme! Agüenta, eu vou te levantar!".
Através das sirenes, Ada ouviu que a contagem para a detonação tinha começado. Cinco minutos.
Ele tenta me salvar, nós morremos.
A pegada de Leon era forte, sua determinação quase tão forte quanto o orgulho dela. Quase.
Ada virou o rosto para ele, viu que apesar de tudo, ele ainda queria salvá-la.
Não desta vez. Não para mim...
A vida dela tem sido sobre egoísmo, ego e ganância. Ela viu muita gente boa morrer, e durante o caminho,
perdeu a habilidade de se importar - dizendo a si mesma que o esforço era uma perda de tempo e um sinal de
fraqueza.
Eu estava errada. Eu fui egoísta e errada, mas agora é tarde demais.
"Leon - desça, oeste, ache a sala de carga, depois das escadas - cadeiras de espera. Você vai precisar do disco,
está no meu - bolso -
"Ada, eu já tenho! Disco de carga, certo, eu já tenho, eu achei - não fale, agüente aí, deixe-me ajudar!". Ele
inclinou-se no parapeito, tentando manter o agarre.
Falar era um terrível esforço, mas ela tinha que terminar antes do tempo acabar.
"O código é 345. Pegue o elevador, Leon. Desça. O túnel - do trem dá para fora. Tem que - correr a toda
velocidade... e cuidado com Birkin, o infectado com G-virus, ele - ele já está mudando a essa hora. Entendeu?".
Leon acenou, seu olhar azul a penetrando.
"Sobreviva". Ela disse, e era uma boa palavra, uma palavra para se cumprir. Ela estava cansada, e a missão
estava preparada, e Leon viverá.
Ela soltou-se da barra metálica do parapeito, e Leon gritou seu nome, o som a seguindo para o escuro como um
amargo adeus.
[29]
Sherry estava assustada, mas Mr. X estava morto. Devia ser o monstro que a procurava na delegacia, que
queria parti-la ao meio -
- mas não havia tempo para pensar enquanto corriam pela sala dos maquinários, pelo corredor com o buraco no
teto, fazendo a curva -
- e Sherry gritou quando um zumbi avançou sobre elas, uma criatura feita de ossos, e Claire atirou.
- bang, e a cabeça branca e seca desmoronou, o corpo capotando no chão, e Claire já estava puxando Sherry
para a porta no final do corredor.
Era um elevador, Sherry se jogou numa das paredes depois que Claire a empurrou para dentro, tentando
recuperar o fôlego enquanto Claire apertava os botões. Depois de correrem de Mr. X, a descida de elevador foi
suave.
"Nós vamos conseguir". Claire disse. "Só mais um pouco".
Sherry acenou, seu coração pulando mais forte enquanto a voz dizia que restavam quatro minutos para se
safarem.
Leon sentiu como se não soubesse levantar e andar. A visão do bonito rosto dela um segundo antes de se
soltar...
ela se foi. Ela está morta.
Ele pegou a Beretta do chão, ainda estava quente com o toque dela - e estava leve demais, leve porque não
estava carregada. Nem o clip estava lá, ela nunca quis machucá-lo; ela estava mentindo, ela mentiu o tempo
todo.
"... quatro minutos para alcançar a mínima distância segura. Todas as pessoas restantes devem evacuar
imediatamente. Favor, dirijam-se para a plataforma de embarque...".
Ele tinha quatro minutos para ficar longe o bastante e cumprir o último pedido de Ada.
Ele se levantou e virou para a porta - e parou, tirando o pequeno tubo cheio do líquido roxo da bolsa. Ele sabia
que não tinha tempo, mas só levou um segundo para levar o braço para trás e arremessar a amostra o mais
forte que podia, querendo-a o mais longe possível.
Se o laboratório é o responsável por tantas mortes, que o G-virus queime com ele.
"Isso!".
A porta do elevador abriu - e havia um trem, um trem subterrâneo brilhando, o escuro túnel à esquerda. O trem
estava escuro e silencioso, não a máquina ligada e trêmula que Claire esperava ver, mas ainda era o veículo de
fuga mais bonito que já tinha visto.
Com Sherry grudada em seu braço, elas foram para a composição de três vagões, os alarmes ainda soando,
ecoando pela enorme estação. A voz já informava que elas tinham três minutos para alcançar uma distância
segura.
Entrando no trem, Claire percebeu e nem se importou com a ausência de assentos. A cabine de controle estava à
esquerda.
"Vamos colocar essa coisa na estrada". Claire disse, e o brilhante olhar de esperança no sujo e cansado rosto de
Sherry, fez o coração de Claire partir, só um pouco.
Oh, meu bem...
Claire subiu os degraus para a cabine, prometendo a si mesma que carregaria Sherry pelo túnel caso o trem não
funcionasse. Qualquer coisa para não quebrar aquele frágil olhar de esperança.
O código e o disco de verificação abriram a porta como Ada disse, a larga porta abrindo-se em um curto corredor.
Com três minutos sobrando, Leon correu pelo corredor cheio de símbolos de risco biológico, e achou a sala de
carga.
Ele não tinha tempo de parar e olhar, seu foco era pegar o elevador antes que não fosse possível escapar com
vida. Leon correu para o fundo da avermelhada sala, achando os controles da larga porta do elevador e
apertando para descer, pronto para entrar -
- e nada aconteceu, exceto por uma fileira de pequenas luzes - umas vinte talvez - que começaram a se apagar
em cima da porta. Bem devagar.
Leon apertou o botão novamente, parecia levar minutos entre os andares.
"Jesus!". Ele virou, querendo gritar se for ter esperar muito -
- e pela primeira vez deu uma olhada no lugar. As duas largas estantes que corriam o comprimento da sala
continham um tipo de "carga" bem específica - e apesar dos seis tubos de vidro em cada estante não conterem
nada além de um claro fluído vermelho, Leon sentiu calafrios só de olhar. Cada cilindro podia comportar um
homem adulto, e o fez imaginar para que foram construídos.
Não importa, eles vão explodir em alguns minutos.
Ele virou para o elevador, quase feliz por estar bravo e frustrado, por sentir algo além de perda -
- e o teto sobre a porta do elevador começou a tremer e rachar... Leon recuou, apontando sua arma para o
sólido painel de metal enquanto vinha ao chão -
- e o monstro do elevador-locomotiva aterrissou na sua frente, a mesma criatura demoníaca que machucou Ada,
que devia tê-lo matado -
Birkin - ?
- e pelo jeito que inclinou a cabeça e gritou, Leon podia dizer que veio para terminar o serviço.
O trem estava pronto, estava ligado e pronto para partir - mas parecia que o portão do túnel estava com defeito;
um painel cheio de luzes verdes e uma única vermelha, insistindo que o portão fosse aberto manualmente.
Dois minutos para alcançar distância segura.
Não vai dar, nunca conseguiremos -
"Fique aqui". Claire disse e saiu para verificar, rezando para que não fosse nada.
Leon virou e correu enquanto o monstro começava a ir em sua direção, cada poderosa passada estremecendo a
câmara, os ecos de seu terrível grito ainda nítidos.
Pense!
A espingarda não foi suficiente, ele tinha que atirar em algum lugar vulnerável, os olhos, use a Magnum.
Leon voltou para a porta de entrada. Ele girou e atirou, mirando no rosto da criatura -
- mas o rosto estava mudando de novo, a boca caindo enquanto gritava. Grandes e tortos espinhos de dente
escorreram do que sobrou da boca, do alto de seu pulsante peito - e quando outro grito explodiu de sua
garganta, Leon viu dois novos braços brotarem dos lados. Os membros formaram posições, cotovelos travando,
grossos dedos com garras crescendo.
Bam-bam-bam!
Os tiros se agruparam, explodindo na fina pele sobre o olho esquerdo. O monstro rosnou, desta vez de dor, e
Leon viu lascas de ossos e líquido arroxeado se espalharem.
Ele sacudiu a cabeça para todos os lados, expelindo mais líquido, se agachando como um sapo mutante -
- e saltou no ar, para cima e para a direita, parando numa das fileiras, grunhindo como um animal.
Droga, como ele fez aquilo -
Leon não conseguiu ver os olhos, nada além de suas costas enquanto descia - mas estava mudando de novo,
pôde ouvir sons quebrantes e ver os pedaços da espinha erguerem através da carne de suas costas.
Ele não queria ver no que iria se transformar, mas o elevador ainda não tinha chegado e só faltavam dois
minutos.
Leon recarregou e atirou no que podia ver - uma forma com seis pernas, uma forma que não era mais humana.
O tiro acertou um de seus ombros, fazendo a criatura pular. A besta voltou ao chão como uma aranha, caindo a
alguns centímetros na frente de Leon. O peito tinha se transformado numa parede de estranhos dentes, espinhos
que abriam e fechava enquanto respirava - e quando gritou de novo, foi como um demônio, como o grito de
milhares de almas morrendo.
Leon acertou dois tiros no buraco de dentes e se afastou. Sob as constantes sirenes ele ouviu o claro e animado
pin da chegada do elevador.
Claire correu para a frente do trem, olhando para a série de alavancas e botões na parede do túnel, franzindo e
abaixando a alavanca vermelha e branca. Ela ouviu o som metálico em algum lugar na frente do trem e correu
para a porta -
- quando ouviu metal de novo - o som de metal sendo partido e martelado, vindo de algum lugar atrás do trem.
Não, de jeito nenhum.
Ela olhou para o final do trem, além das barras do portão fechado - e ouviu um som como ossos no cimento, um
som que se repetia.
Passos.
Claire correu para a porta, sabendo que não podia ser Mr. X, não mesmo - ele foi derretido, se foi, e elas não
tinham mais o G-virus -
- e ela viu o movimento por detrás das grades. Algo alto, filetes de fumaça enrolando na escuridão atrás das
grades - e o forte cheiro de queimado. Ele saiu da sombra, na direção da parte de trás do trem, erguendo os
punhos -
BAM!
- e o vagão tremeu enquanto Claire percebia que era Mr. X, ou o que tinha sobrado dele - e que certamente era
um demônio vindo direto do inferno.
Ela tinha combinado onze balas no elevador; não vai ser suficiente mas era tudo o que tinha.
Claire apontou a arma de Irons, imaginando se esse será o fim.
Leon correu em volta da prateleira à sua direita, voltando para o elevador, e houveram galopantes passos bem
atrás, ele não podia parar.
Outra curva e de volta para o meio da sala -
- e ele foi atingido nas costas, uma borrachenta e quente carne que o levou ao chão.
Leon rolou quando a coisa ficou em cima dele, seus dentes intencionados a furar seu crânio. O grande olho ainda
estava lá, no ombro, olhando para ele -
- e Leon descarregou a arma no queixo da criatura, gritando, esvaziando os pesados cartuchos na cabeça do
monstro.
A besta gritou, cambaleando, caindo para o lado. Leon se levantou como um raio e correu para o elevador
aberto. O enorme animal ainda estava gritando enquanto Leon entrava no elevador e virava, apertando o
controle para descer -
- e viu a besta se mexer, mudando, gritando enquanto também virava para o elevador. Ele ganhava velocidade a
cada passo, a porta se fechando lentamente, a criatura quase voando agora -
- e Leon tinha a espingarda em suas mãos, engatilhando uma bala e atirando. O tiro acertando o peito e parando
a criatura.
- e a porta fechou, Leon estava descendo, e só restava um minuto.
[30]
BAM!
Sherry sentiu o trem balançar violentamente.
Claire!
Ela correu para a porta, lembrando que Claire disse para não sair e não se importar; ela não sabia o que era ou o
que podia fazer para ajudar, mas não poda ficar parada -
BAM!
- e o carro balançou de novo, o chão tremendo sob seus pés. Sherry alcançou a porta e apertou o botão de
abrir.
A porta abriu - e lá estava Claire apontando a arma para algo que Sherry não conseguia ver, algo atrás do trem.
O olhar de Claire passou por Sherry.
"Não saia! Feche a porta!". Claire gritou com medo e pânico.
Sherry tocou o botão e hesitou, com medo por Claire, querendo ver o que era -
- olhe rápido -
- e ela colocou a cabeça para fora, por um segundo, procurando a fonte do medo de Claire. Um cheiro de química
e carne queimada encheu a plataforma, vindo de -
Sherry gritou quando o viu, quando viu o esfarrapado e carbonizado monstro que sacudia o trem logo depois do
portão. Ela viu seu gigante punho acertar o metal do vagão, mas era a cara dele que atraia o olhar de Sherry.
Mr. X.
A pele estava queimada, toda ela. Fumaça emanava de sua cabeça, mas os olhos ainda estavam vivos -
vermelho e pretos e quentes com a fumaça, mas ainda bem vivos.
"Sherry! Feche agora!". Claire gritou sem tirar os olhos do monstro.
Sherry apertou o controle, a porta fechando enquanto Claire começava a atirar.
O elevador descia mesmo, mas não como Leon imaginava, a larga plataforma descia lentamente em ângulo,
luzes alaranjadas nas escuras paredes.
"... agora quarenta segundos para alcançar a mínima distância segura...".
"Vai vai vai - ". Leon suspirou. A voz tinha parado de mencionar a plataforma de embarque, só fazendo anúncios
de dez em dez segundos.
Chegar até aqui e morrer por causa de um elevador lento...
ele não podia aceitar isso. Ele passou por muitas coisas, o acidente com Claire, os monstros, Ada, Birkin - ele tinha
que conseguir, ou será tudo por nada.
Não parecia haver chão debaixo do elevador, ou ele já teria descido a pé.
"... vinte segundos para alcançar...".
Leon começou a tremer, tensão correndo por seus músculos, ficando difícil ele respirar. O que é distância segura?
Quanto tempo até a explosão depois que aquela voz dizer zero?
O trem terá que ser rápido. E ele tinha dez segundos para alcançá-lo, e o elevador continuava descendo sem
pressa pela escuridão.
A porta fechou e Sherry estava a salvo. Por enquanto.
Claire não podia esperar machucar a criatura, mas pelo menos distraí-la o bastante para fugir. Ela queria ter
ensinado os simples controles do trem para Sherry, queria que o veículo já estivesse se movendo, levando Sherry
para a segurança -
- mas eu não ensinei e nós temos que ir AGORA.
A mensagem já contava os dez segundos finais para a distância segura. Mr. X dava outra pancada no trem
enquanto Claire mirava e atirava.
Cinco tiros, quatro deles acertando o material que constituía a região onde uma orelha devia estar. O quinto foi
longe enquanto as pancadas ecoavam pelo lugar e a coisa que foi Mr. X virou para ela.
O que foi agora?
A gravação a distraiu por uma fração de segundo e Mr. X deu um passo na direção dela, um monstruoso passo
que o tirou das sombras.
"... três. Dois. Um. Distância mínima agora requerida. A autodestruição ocorrerá em cinco minutos. Restam cinco
minutos para a detonação".
Os alarmes ainda tocavam, mas pelo menos a voz tinha parado. Ela mal tinha percebido, seus olhos fixados na
criatura. Apesar das camadas queimadas e enfumaçadas, a pele dele não tinha perdido elasticidade; o material
avermelhado ainda contraia como músculos de verdade. Parecia um gigante pelado que se arrastou para fora de
um prédio em chamas - e se sofreu com o banho de metal derretido, ela não podia ver. Outro passo e os braços
foram ao alto, o portão de barras foi partido, as barras de metal caindo no concreto do chão.
Pelo menos ele está devagar -
Claire correu para a porta do trem, ainda com medo, mas o monstro era lento e poderoso, só que incapaz de se
mover de verdade -
- e de repente, Mr. X não estava mais andando. A criatura curvou a cintura, os joelhos -
- e se lançou do chão num dinâmico bote, seus pés deformados o impulsionando a toda velocidade.
Claire não pensou. Ela desviou para a direita evitando o ataque, correndo o mais rápido que podia. Ele quase a
pegou, os reflexos dele mais rápidos do que rápido - como se perder a pele o tivesse libertado. Assim que ela
pulou o portão destruído e entrou nas sombras, ela ouviu o arranhar de garras no cimento, viu que Mr. X tinha
descido seu braço bem aonde ela estava um segundo atrás.
Ele a teria partido -
- mas por que, sem o G-virus, sem razão -
Claire correu mais na escuridão enquanto os alto-falantes informavam quatro minutos restando.
"Restam agora quatro minutos para a detonação...".
Droga droga droga!
Quando pensou em ter um ataque de frustração, o elevador parou. Leon agarrou a fechadura da grossa cancela
de metal, querendo correr -
Ele saiu num corredor. E não haviam sinais dizendo qual direção seguir.
Direita ou esquerda?
Esses segundos de hesitação poderiam ter lhe custado a vida.
Ele ouviu uma vez que quando na frente de uma escolha, as pessoas instintivamente escolhem a direção da mão
dominante. Com a sorte que teve nesta noite em Raccoon, ele decidiu ir para o outro lado.
Esquerda. Leon correu, pensando se deveria se incomodar.
Não muito longe do portão, Claire viu uma passarela que passava sobre o trem, as escadas escondidas na
sombra -
- e ela ouviu Mr. X atrás. O terror a dirigiu, seus pés mal tocavam o chão -
- e os passos ficaram mais altos, mais rápidos, ouviu as garras dele rasgarem o cimento. Ela tinha um segundo
antes daquela mão a acertar -
- e ela virou de novo, jogando-se na escuridão do lado da escada. Mr. X passou voando, ela sentiu o vento da
mão em suas pernas enquanto caia no chão.
Ela ignorou a dor de seu cotovelo no cimento, levantando-se e procurando o monstro no escuro.
Ele pode ver, me ver?
A mão dela achou uma parede à direita. Ela estava no espaço debaixo da escada, e não sabia onde o quieto e
impossível X estava; a falta de luz não ajudaria se ele pudesse enxergar.
Ela correu as mãos pela parede e achou um interruptor. Ao apertá-lo, a textura do escuro mudou quando a fraca
luz veio de cima - e ela viu o monstro a menos de quinze metros, bem quando virava, seu olhar procurando -
- e a achando. A marcando. O único som era o de sua pele rachada - até dar um passo para a escada.
Seis ou sete tiros, acerte os olhos -
Claire saiu rapidamente de lá e ergueu a arma de Irons, apertando o gatilho, recuando para a escada.
Bam-bam-bam -
- e X se posicionava para mais um ataque, os tiros penetrando em seu rosto, dois deles ricocheteando em seu
crânio.
- bam-bam -
Ela estava na escada, subindo um degrau, as balas inúteis, Mr. X começando sua corrida. Ele estará nela antes
de poder virar, antes de subir os degraus -
- eu vou morrer -
- mas pelo menos eu o machuco antes -
Mr. X deu um passo - dois passos poderosos, diminuindo a distância entre os dois enquanto Claire mirava,
determinada a fazer os últimos tiros valerem a pena. Ela morreria e seu único arrependimento seria por Sherry, só
desejava que ela pudesse incapacitar o pesadelo X antes de morrer.
Ela atirou, e o olho esquerdo do monstro explodiu.
Isso!
Mr. X foi para a direita; não parando, mas também não indo para ela - mas ainda acertará a base da escada -
muito perto! - ela tinha que tentar o outro olho e só tinha dois segundos -
Claire mirou, achou o olho, e -
- click!
- estava sem balas, e o monstro estava chegando na base da escada, o cheiro de carne queimada enquanto
erguia sua gigante mão, e seu grande e terrível corpo era tudo o que conseguia ver.
Claire tropeçou e rolou a escada de ferro, seu corpo como uma bola -
- e gritou quando as garras da mão de X rasgaram sua coxa esquerda através do corrimão, e a distante voz
dizendo que tinham três minutos.
[31]
Ele pegou o caminho errado. As curvas o levaram para um depósito - sem saída.
"Restam três minutos para a detonação".
Leon virou e voltou por onde veio, forçando-se a correr com o que parecia o resto de suas forças.
Claire parou no chão, na base da escada e ficou de pé, sangue correndo pela perna num quente pulso de dor. Ela
correu, nada quebrado -
- mas ela sabia que isso era o começo do que ele fará com ela, uma prévia da dor real.
Mr. X ainda estava inclinado no corrimão da escada, mas assim que ela correu para o portão quebrado, o
monstro ficou a postos. Ele virou para ela, o buraco em seu olho jorrando um escuro líquido - mas ele vai se
recuperar e partir para ela como a máquina impiedosa que era. Não há nada que possa pará-lo.
Pelo menos eu morro na explosão -
Claire passou pelo metal retorcido do portão, mau se equilibrando, sangue pingando no chão enquanto dava outro
passo, por favor, que seja rápido -
"Aqui, use isso!".
Claire girou, viu Mr. X se posicionando para mais um ataque - e viu uma silhueta bem acima, na passarela sobre o
trem. Uma voz de mulher, forma de mulher, a sombra jogando algo -
- quem -
- aquilo caiu no chão, entre ela e Mr. X. era metal, e prateado - ela já viu nos filmes, era uma metralhadora - e
Claire correu. Outra última esperança, outra chance para ela e Sherry sobreviverem.
Ela alcançou a arma, viu X se jogando ao encontro dela, o trovão de seus passos vibrando o chão -
- e ela ergueu a pesada arma, recuando, sua mão trêmula achando o gatilho, seu corpo acomodando-se com a
arma. Firme no chão, braços encurvados em volta do metal, mirando -
- por favor por favor -
O monstro estava a alguns passos quando o jato de balas saíram da arma, um chocalho de pequenas explosões
que balançavam o corpo inteiro de Claire - e mergulharam no corpo da besta, a força de tantas balas parando-o e
empurrando-o para trás.
- tatatatatatatata -
A vibração parecia tentar se libertar do agarre dela. Ela mau ouvia seus próprios choros de dor e fúria enquanto
as balas furavam o abdômen dele com tal rapidez e velocidade.
- e Mr. X tentava andar, mas algo estranho e bom estava acontecendo. Sua barriga estava sendo rasgada pelas
balas, fluídos escuros descendo por suas pernas. A boca dele estava aberta, um buraco em um de seus olhos -
também sangrando.
- tatatatatata -
Claire continuou, vendo a criatura tentando se manter de pé. Vendo-o sangrar.
Com as balas ainda voando, Mr. X ergueu os braços -
- e partiu no meio.
Claire tirou o dedo do gatilho quando a parte de cima dele caiu no chão, um molhado som de carne pesada - e as
pernas tombaram, mais sangue estranho saindo das partes formando piscinas. A criatura estava morta, e
mesmo se não estivesse, não importava mais. Só se conseguir se arrastar mais rápido do que ela. Sua batalha já
tinha terminado -
- para o inferno com tudo isso, não há tempo, VAMOS!
Claire correu, ignorando o sangue em sua bota e a dor que o causava, seu olhar procurando a estranha
salvadora. Ninguém estava lá, e ela não sabia se outro minuto tinha passado, o alerta perdido com os tiros.
"Ei!". Claire gritou, indo para o trem.
"Nós temos que ir agora!".
Sem resposta, nenhum som exceto o zumbido em seu ouvido e o eco das palavras. Se ela quer salvar Sherry...
Claire virou e correu.
"- dois minutos para -".
Leon correu mais rápido. Ele já perdeu a conta das curvas do corredor, e as esperanças também, uma voz lhe
dizendo para parar, sentar e descansar -
- quando ele ouviu um fraco ruído.
O som de um maquinário pesado ganhando vida em algum lugar à frente. Não muito longe.
Trem!
Mais rápido, pernas distantes e moles, pulmões trabalhando, coração pulando - de algum modo ou de outro,
estava quase acabado.
[32]
Claire entrou no trem com um rifle gigante e uma perna coberta de sangue, mal parando para tocar os controles
da porta antes de correr para a cabine. Sherry sabia que estavam com problemas e não perguntou nada, ela a
seguiu, aliviada por Claire estar bem.
Ela está bem e já estamos indo...
Uma fraca versão da voz dos alto-falantes soou na pequena cabine de comando.
"Restam dois minutos para a detonação".
Claire soltou a arma e apertou os botões, sua atenção fixada no console. De repente, um grande som mecânico
as envolveu, um crescente motor que fez Claire bater os dentes. Sherry não sabia se foi um sorriso, mas Claire
sorriu quando o trem tremeu -
- e começou a se mover, tirando-as da plataforma.
Claire virou, viu Sherry atrás dela, e tentou sorrir. Claire tocou o ombro da garota, mas não disse nada - nem
Sherry, esperando ver o que aconteceria.
O trem ganhou velocidade, passando por alguns corredores e plataformas mal iluminadas, o túnel à frente escuro
e vazio.
O calor da mão de Claire a fez lembrar de que eram amigas, que seja qual for o futuro disso, Claire era sua
amiga -
- e ela viu um homem, um policial aparecer bem à frente, à esquerda, e o trem estava passando por ele, seus
olhos largos e desesperados em seu sujo rosto.
"Claire!".
"Estou vendo ele -".
Claire viu e correu para a porta, abrindo-a.
"Leon!". Ela gritou. "Vamos!".
Ela entrou de repente, uma parede passando, parecendo tão desesperada quanto o homem - Leon parecia.
Depois de um segundo ela virou e fechou a porta.
"Ele conseguiu?". Sherry perguntou, vendo que Claire não poderia saber.
Claire foi até ela e a envolveu em seu braço enquanto o trem acelerava e sua face se cobria de preocupação -
- e a voz disse que restava um minuto -
- e a porta de trás do vagão abriu. Leon apareceu, seu braço atado com um pano manchado, seu cabelo duro
com uma escura meleca, seus olhos azuis brilhando sob a máscara de sujeira.
"Destruição total!". Ele gritou. Claire acenou e Leon suspirou fundo. Ele foi até elas, o trem voando pelo túnel, e
abraçou Claire.
"Ada?". Claire cochichou. "Ann - a cientista?".
Leon balançou a cabeça. "Não. Eu não - não". Sherry viu que ele queria chorar.
"Trinta segundos para a detonação. Vinte e nove... vinte e oito...".
A voz da mulher continuou contando, os números parecendo duas vezes mais rápidos do que deveriam, e Sherry
enterrou a cabeça em Claire, pensando na mãe. Mamãe e papai. Ela esperava que tivessem conseguido, que
estivessem à salvo -
- mas provavelmente não.
Sherry podia ouvir o coração de Claire e a apertou mais, ouvindo o policial se aproximar delas.
"... cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Seqüência completada. Detonação".
Por um segundo não houve som. O alarme finalmente parou sobrando apenas os movimentos do trem -
- e então houve uma explosão, um som abafado, um shoomp que continuava crescendo, ficando maior.
Sherry fechou os olhos e o trem chacoalhou de repente, terrivelmente, e todos eles foram para o chão de metal.
Uma brilhante e queimada luz piscou pela janela enquanto o som de batidas de cano explodiram em volta deles,
pesadas pancadas choveram no teto -
- e o trem continuou indo, a luz sumiu e eles não estavam mortos.
O cegante flash dissipou-se, e Leon sentiu a tensão em seu corpo. Ele olhou para o lado e viu Claire sentando-se,
pegando a mão da jovem garota ao lado dela.
"Tudo bem?". Claire perguntou e a menina acenou. Ambas olharam para ele, sentindo o que ele sentia - choque,
exaustão, descrença e esperança.
"Leon Kennedy, esta é Sherry Birkin". Claire disse, sem enfatizar o "Birkin". Ele entendeu a mensagem e acenou
antes de sorrir para a garota.
"Sherry, este é Leon,". Claire continuou. "eu o conheci quando cheguei em Raccoon".
Sherry retribuiu o sorriso, um sorriso bem adulto que parecia fora do lugar; ela era muito jovem para sorrir
daquele jeito.
Mais uma proeza da Umbrella, a inocência roubada de uma criança.
Por alguns segundos eles ficaram lá sentados no chão, sorrisos sumindo. Leon mal ousou pensar que tudo estava
acabado. De novo, ele viu seus sentimentos espelhados nas sobrancelhas preocupadas de Sherry e nos cansados
olhos de Claire -
- foi quando eles ouviram um distante ranger de metal vindo da parte de trás do trem, ele não se sentiu
surpreso. Um cedente e rasgante arranhão - seguido por uma pesada pancada - e depois nada.
Sabia que não tinha acabado -
"Zumbi?". Sherry cochichou, as palavras quase perdidas no suave balançar do trem.
"Eu não sei, meu bem". Claire disse suavemente, e pela primeira vez, Leon percebeu que a perna dela estava
cortada, sangue saindo de vários arranhões.
"Que tal eu dar uma olhada?". Leon disse, tentando não assustar Sherry. Ele se levantou acenando para a perna
de Claire.
"Sherry, fique aqui com Claire, fique de olho naquela perna? Vou ver se acho alguma atadura enquanto dou uma
vasculhada, não deixe-a se mover, tá bom?".
Sherry acenou, e novamente um aceno muito maduro para a idade dela. "Tá".
"Eu volto num minuto". Ele disse, e virou para a porta de trás do trem, rezando para que não seja nada
enquanto empunhava a Remington.
Leon abriu a porta, os sons do trem se amplificando por um segundo, e depois fechou a porta.
Claire não o viu entrar no próximo vagão de onde estava; se houver mais alguma coisa no trem, nenhum deles
estará a salvo -
- não pense assim, está acabado -
- como está para Mr. X?
"O que eu faço?". Sherry perguntou. "Pressionar, né?".
Claire acenou. "É, só que nós estamos bem sujas, e acho que está começando a coagular. Vamos ver se Leon
volta com algo limpo...".
Os pensamentos dela voltaram para Mr. X.
- G-virus. Antes ele queria o G-virus.
Por que Mr. X foi para a plataforma do trem? Por que ele queria entrar no trem, a não ser que -
Claire forçou para se levantar, lutando contra a tontura e a dor na perna.
"Ei, não se mexa". Sherry disse. "Leon falou para ficar parada."
Claire podia superar seus problemas físicos, mas ver Sherry no cume do pânico era demais; se tiver G-virus no
trem e por isso Mr. X voltou, Leon terá que enfrentá-lo sozinho. Ela não podia deixar Sherry. Se Leon não voltar,
ela terá que desengatar o trem ou tentar pará-lo -
Claire cessou os pensamentos, forçando um sorriso. "Sim, senhorita, eu só queria ver se ele já tinha entrado no
outro vagão...".
Ela viu o alívio no rosto de Sherry. "Ah. Bom, então esqueça, pois eu estou cuidando de você agora, e eu digo
que você não se mexe".
Claire acenou, esperando estar errada, que Leon voltasse a qualquer segundo -
Seja lá quem projetou o veículo de fuga, pensava que os funcionários da Umbrella fossem transportados que nem
sardinha -
Seja lá quem for, não devia ser pior que a coisa na sala de carga, a coisa Birkin. Só de pensar que a criatura tinha
a ver com Sherry, era preocupante, até mesmo obsceno. Um monstro e uma maluca, ambos pais de uma
garotinha...
Ele chegou no fim do segundo vagão e espiou pela janela da porta, esquecendo os pensamentos enquanto
tentava ver alguma coisa no último vagão. Estava escuro e nada mais.
Droga.
Talvez não seja nada, mas ele tinha que olhar.
Ele respirou fundo e abriu a porta, recebendo a brisa do exterior, se segurando na grade de apoio. Não devia ser
nada, mas parecia ruim, errado.
Ele abriu a próxima porta e entrou na escuridão. Imediatamente ele ergueu a espingarda, seus sentidos dizendo
para correr quando a porta fechou. Ele recuou e procurou o interruptor de luz. Além do escuro, havia um forte
cheiro de água sanitária ou cloro, e um suave som de molhado, de movimento -
Uma única lâmpada acendeu no meio do vagão, e por um momento pensou ter perdido a consciência.
Uma coisa. Uma criatura que estava longe de humana, exceto pelo pulsante tumor em um lado, uma lisa bola
que mais parecia um olho.
Birkin.
A criatura era gigante, borbulhando uma escura pasta, expandindo seu volume até ocupar a largura do vagão.
Leon não sabia o quanto alto era. Birkin tinha grossas caudas estendidas, tentáculos de uma massa elástica e
úmida, presa em toda parte do espaço à sua frente - no teto, paredes e no chão. E enquanto Leon olhava, a
besta se moveu para frente, os escuros membros contraindo, levando o corpo para alguns centímetros à frente
de onde estava.
É loucura, mas ele estava vendo, vendo as cores preta, verde e roxa em seus tentáculos enquanto se esticavam
de novo, o material viscoso o puxando mais alguns centímetros. O corpo era nada mais do que uma caverna que
ainda tinha dentes -
-e que iria alcançá-lo em breve se não esquecer o nojo da cena.
Leon mirou no grande buraco da boca dele e puxou o gatilho, carregando outra bala, atirando, carregando,
atirando -
- e a espingarda ficou vazia, o gigante continuando a se aproximar.
Ele não sabia como matá-lo, não sabia se as balas o machucaram. Sua mente correu para achar uma resposta.
Ele podia desengatar o último vagão -
- mas a coisa ainda continuaria viva. Vivendo e mudando na escuridão do túnel, se tornando algo novo -
Os tentáculos se esticaram de novo e Leon voltou para a porta. Ele tinha que desconectar os carros, não havia
outra escolha -
- a não ser -
Ele hesitou, depois sacou a Magnum e mirou na criatura, no estranho tumor, o olho que estava em todas as
formas que Birkin já teve.
- BAM!
O efeito foi imediato, a bala perfurou a esfera - e um hiss veio de sua boca circular cheia de dentes afiados, um
som único na Terra. A carne dentro dele contraiu, ficando escura, murchando -
- e a coisa implodiu, encolhendo rapidamente, virando uma massa escura e um quarto do tamanho que tinha,
derretendo numa borbulhante poça de meleca arroxeada.
"Engula isso". Leon cochichou, olhando por alguns momentos, sem pensar em nada - e virou para se juntar às
duas, para dizer que tinha acabado.
Primeiro dia de trabalho.
"Eu quero um aumento". Ele disse, para ninguém e não pôde conter o sorriso em seu rosto, um cansado sorriso
que sumiu rapidamente... mas pelos segundos que durou, Leon se sentiu melhor do que há muito tempo atrás.
Leon estava de volta, e havia encontrado um macacão, que ele rasgou em pedaços e usou para cobrir a perna
de Claire. Tudo o que ele disse foi que agora eles estavam salvos, apesar de Sherry tê-lo visto e Claire lançou-lhe
um olhar - um daqueles olhares do tipo "não-devemos-falar-disso-agora". Sherry estava muito cansada para levar
a mal.
Ela aconchegou-se nos braços de Claire, Claire alisando seu cabelo, nenhum dos três falando. Não havia nada a
dizer, pelo menos não por enquanto. Eles estavam vivos, num trem correndo através da escuridão - e de algum
lugar não muito distante, uma luz suave surgindo, vindo da janela da cabine de controle e Sherry pensou que se
parecia muito com a luz da manhã.
[Epílogo]
Eles viram a explosão 16 quilômetros de fora da cidade, uma nuvem negra que se ergueu na luz da manhã
pendurando-se sobre Raccoon como uma terrível tempestade -
- ou um sonho ruim, Rebecca pensou, ou uma lembrança. Umbrella.
Ela não disse alto, porque não era necessário. John e David não estiveram na mansão de Spencer, mas
souberam do que a Umbrella era capaz em Caliban.
Ninguém falou quando David acelerou o carro, seus dedos apertados no volante. Desta vez, John não fez piadas.
Todos sabiam que era ruim; antes de Jill, Chris e Barry partirem para a Europa, Jill os disse sobre a suspeita de
outro acidente, e pediu que ficassem alerta. Quando as linhas telefônicas ficaram mudas, eles carregaram a van e
deixaram o Maine para ver o que podia ser feito. A única pergunta é a de quantas pessoas morreram desta vez.
Talvez este seja o fim. Uma explosão como aquela... a Umbrella não vai esconder isso tão fácil, não se tiver tão
ruim quanto parece.
John finalmente quebrou o silêncio. "Autodestruição?".
David suspirou. "Provavelmente. E se houve um vazamento, nós não entraremos; nós circularemos a cidade e
depois chamaremos ajuda de Latham. A Umbrella com certeza já está mandando sua equipe de limpeza".
Rebecca acenou junto com John. Eles não eram mais parte do S.T.A.R.S., mas David já foi capitão, e por um
bom motivo.
Eles caíram no silêncio, o amanhecer tocando as árvores que passavam pela van, Rebecca imaginando o que eles
encontrarão -
- quando ela viu as pessoas andando na estrada, balançando os braços.
"Ei -". Ela começou a falar quando David já pisava nos freios, se aproximando das três figuras. Um policial de
atadura no braço e uma jovem mulher de shorts, ambos armados, e uma garotinha de colete rosa grande
demais para ela. Eles não estavam infectados, ou pelo menos não mostravam sinais que Rebecca pudesse ver -
mas eles pareciam. Com suas roupas rasgadas e seus pálidos rostos sob a sujeira, eles com certeza podiam ser
confundidos.
"Eu falo". David, disse, seu sotaque britânico bem firme, emparelhando com os sobreviventes de Raccoon.
David abriu a janela e desligou o motor, o jovem policial adiantando um passo enquanto a mulher colocava seu
pegajoso braço no ombro da menina.
"Houve um acidente, em Raccoon". Ele disse. Mesmo cansados e feridos, havia uma cautela no tom do policial,
sugerindo o quanto ruim estavam as coisas. "Um terrível acidente. Você não quer ir lá, não é seguro".
David franziu. "Que tipo de acidente, policial?". Foi a jovem mulher que respondeu. "Um acidente da Umbrella". O
policial acenou e a garotinha loira enterrou seu rosto no corpo da mulher.
John e Rebecca trocaram um olhar, e David destravou as portas.
"Mesmo? Esses costumam ser do pior tipo". David disse gentilmente. "Nós ficaremos felizes em ajudar se
quiserem, ou podemos chamar ajuda...".
Era uma pergunta. O policial olhou para a mulher e voltou para David. Ele deve ter visto algo no rosto de David
que passou confiança; ele acenou e chamou a mulher e a garota para se aproximarem.
"Obrigado". Ele disse, a exaustão finalmente vindo. "Se você puder nos dar uma carona estará ótimo".
David sorriu. "Por favor, entrem. John, Rebecca - vocês os ajudam...?".
John pegou alguns cobertores lá atrás enquanto Rebecca pegava o kit médico, cuidando para não descobrir os
rifles perto do estepe.
Acidente da Umbrella...
Rebecca pensou no quanto sortudos foram por terem sobrevivido.
Eles começaram a falar mesmo antes de David fazer o retorno - e em pouco tempo, eles descobriram ter muito
em comum. Enquanto a menina dormia, eles voltaram por onde vieram, deixando a cidade em chamas para trás.
***
Resident Evil: City Of The Dead
[www.fyfre.com]
Autora: Stephani Danelle Perry.
Editora: Pocket Books (U.S.A.)
Tradução/Resumo: Raphael Lima Vicente e participação de Monique "Valentine".
Tradução começada em: 26 de Março de 2001.
Tradução terminada em: 26 de Maio de 2002.
Digitação começada em: 17 de Abril de 2001.
Digitação terminada em: 13 de Julho de 2002.
Resident Evil TM & © 1999
Capcom Co., Ltd
© 1999 Capcom U.S.A., Inc. Resident Evil #4 Underworld
[S.D. Perry]
[Créditos - www.fyfre.com]
Esta tradução é conteúdo exclusivo do site F.Y.F.R.E. e não deve ser copiado sem permissão da equipe do site.
Para isso, mande-nos um e-mail [team@fyfre.com].
O F.Y.F.R.E. é pioneiro nas traduções dos livros da série, e nosso trabalho já completa quase cinco anos.
Infelizmente, várias pessoas estão se utilizando de nosso árduo trabalho para ganhar dinheiro e enganar fãs
desinformados, fazendo-os comprar as traduções por um alto preço, sendo que elas podem ser lidas
gratuitamente aqui no no site. Estamos cansados de tentar tomar providências, e o único meio que temos agora
de informar do nosso trabalho de tradução é avisar no nosso próprio site. Por várias vezes, pensamos seriamente
em retirar as traduções do site, devido a tanta polêmica, mas não seria justo para com os fãs.
[Prólogo]
Associated Press, 6 de Outubro, 1998
Milhares morrem quando o fogo atinge as comunidades nas montanhas,
Doença misteriosa pode estar envolvida
Nova York, NY - A isolada população das montanhas de Raccoon City, PA, foi oficialmente declarada uma área de
desastre por oficiais estaduais e federais, enquanto dedicados bombeiros continuam travando guerra contra as
labaredas e o número de mortos continua aumentando. Estima-se agora que mais de sete mil pessoas foram
mortas pelos explosivos que atingiram Raccoon na manhã de Domingo, 4 de Outubro. Está sendo considerado o
pior desastre nos Estados Unidos em termos de vidas perdidas, desde a era industrial, e enquanto as
organizações nacionais de auxílio e a imprensa internacional se concentra nas barricadas ao redor das ruínas ainda
em chamas da cidade, amigos chocados e familiares dos cidadãos de Raccoon se reuniram, esperando por
notícias em Latham.
O diretor de Controle de Desastres Nacionais (CDN), Terrence Chavez, coordenador dos esforços das equipes de
emergência e bombeiros, lançou uma nota à imprensa na noite passada, explicando que apesar das complicações
previstas, ele espera que as últimas chamas sejam apagadas antes do meio da semana - mas que poderá levar
meses até que a origem desse fogo seja determinada, assim como se foi ou não um incêndio proposital. Chavez
disse, "A magnitude dos estragos só em termos de área torna a busca por respostas uma grande
responsabilidade, mas as respostas estão lá. Vamos chegar ao fundo disso, não importa o que aconteça."
Às 6 da manhã de hoje, setenta e oito sobreviventes foram encontrados, e seus nomes e condições mantidos
em sigilo; foram transportados para um hospital federal não revelado para observação e/ou tratamento.
Relatórios iniciais das equipes HazMat sugerem que uma doença desconhecida possa ser a responsável pelo
incrível número de vítimas, já que os cidadãos infectados não conseguiram escapar, possivelmente devido à
incapacidade causada pela doença. Há rumores de que a doença possa ter induzido psicoses violentas em alguns
dos infectados. Membros dos centros particulares e federais de controles de doenças foram chamados para
aumentar o limite de quarentena, e apesar de nenhuma declaração oficial ter sido lançada, vazaram diversas
descrições dos sintomas físicos e psicológicos em muitas das vítimas. Uma fonte, membro de uma equipe federal
de legistas, disse, "Algumas pessoas não morreram apenas queimadas ou por inalação de fumaça. Eu vi pessoas
que foram mortas a tiros ou punhaladas, [e] outras formas de violência. Vi pessoas que obviamente estiveram
doentes e morreram muito antes do fogo surgir. O incêndio foi ruim - terrível - mas não foi o único desastre que
ocorreu lá, eu apostaria dinheiro nisso."
Raccoon City foi notícia durante esse ano quando uma série de assassinatos atingiu a população. Foram mortes
aparentemente sem motivos, de extrema violência, e vários envolvendo canibalismo; tentativas de conexões já
estão sendo feitas por uma imprensa local próxima a Raccoon, entre os onze casos não solucionados de
assassinatos do último verão e os rumores de violência em massa anteriores ao incêndio.
O Sr. Chavez recusou-se a confirmar ou negar os rumores, dizendo apenas que as investigações da tragédia
continuarão...
Nationwide Today, edição da manhã, 10 de Outubro, 1998
Número de mortos em Raccoon aumenta,
conforme as equipes de busca e resgate juntam forças
NEW YORK, NY - O número oficial de corpos chega agora a quase 4500, com as ruínas de Raccoon City ainda
estando cheias de vítimas do apocalipse que aconteceu no último domingo de manhã. Enquanto tem início um luto
nacional, mais de seiscentos homens e mulheres estão trabalhando para desvendar as razões por trás da
destruição de uma cidade tão pacífica. Organizações locais de socorro, cientistas, soldados, agentes federais e
equipes de pesquisa se uniram numa mostra de determinação e objetivação, reunindo fontes e conferindo tarefas
para chegar à verdade.
O diretor da CDN, Terrence Chavez, o principal oficial da missão, reuniu-se com pesquisadores renomados de
centros de controle de doenças do mundo todo, agentes de segurança nacional de várias federações, e uma
equipe privada de microbiologistas da Umbrella Inc., a companhia farmacêutica, que está investigando a
possibilidade de haver uma ligação entre os laboratórios químicos nos arredores da cidade e uma estranha
infecção agora sendo chamada de "síndrome de Raccoon".
Estudos iniciais da doença foram vagos e inconclusivos, disse o líder da equipe da Umbrella, Dr. Ellis Benjamin,
"mas estamos convencidos de que os cidadãos de Raccoon foram infectados com alguma coisa, acidental ou
intencionalmente. Tudo o que sabemos até agora é que não parece ter sido via aérea, e que o resultado final foi
de rápida desintegração celular e morte; ainda não sabemos se foi bacteriano ou viral, ou quais eram os sintomas,
mas não descansaremos enquanto não esgotarmos nossas fontes. Independente do que descobrirmos, e se a
Umbrella teve parte nisso ou não, estamos comprometidos a levar isso até o fim. É o mínimo que podemos fazer,
considerando o quanto nossa companhia estima o povo de Raccoon." A fábrica da Umbrella e seus complexos
administrativos em Raccoon deram origem a milhares de empregos.
Os 142 sobreviventes ainda estão sendo mantidos em quarentena para observação e interrogatório em um local
não revelado. Enquanto suas identidades ainda estão sendo protegidas, o FBI divulgou uma nota listando suas
condições médicas. Dezessete sobreviventes sofreram lesões leves, mas estão em condições estáveis, setenta e
nove ainda estão na lista crítica seguida de procedimentos cirúrgicos, e quarenta e seis dos sobreviventes, mesmo
que não feridos, sofreram maiores transtornos mentais ou emocionais. Não há confirmação quanto a estarem ou
não infectados com a síndrome, mas a nota incluiu uma referência às histórias dos sobreviventes, onde
verificou-se a existência da infecção.
O Gen. Martin Goldmann, inspetor das operações militares na cidade destruída, tem esperanças de que os que
estão desaparecidos serão encontrados dentro dos próximos sete dias. "Já temos quatrocentas pessoas
trabalhando vinte quatro horas por dia e sete dias por semana, buscando sobreviventes e verificando identidades
- e eu dou a palavra de que mais duzentas chegarão na Segunda..."
Fort Worth Bugler, 18 de Outubro, 1998
Possível conspiração por funcionários da cidade na tragédia de Raccoon
FORTH WORTH, TX - Novas evidências descobertas por equipes de varredura em Raccoon City, PA, indicam que
a "síndrome de Raccoon", a doença responsável pela maioria das 7200 mortes que ocorreram em Raccoon até
agora, pode ter sido liberada sobre a população pelo Chefe da Polícia de Raccoon, Brian Irons, e vários membros
da Equipe de Táticas Especiais e Resgate (S.T.A.R.S.).
Em uma conferência ocorrida ontem à noite pelo porta-voz do FBI, Patrick Weeks, o diretor da CDN, Terrence
Chavez, e o Dr. Robert Heiner - chamado pelo líder da equipe da Umbrella, Dr. Ellis Benjamin - Weeks revelou que
há fortes evidências circunstanciais de que o desastre em Raccoon tenha sido resultado de um ato terrorista que
deu terrivelmente errado. Os subseqüentes incêndios que aos poucos atingiram a pequena cidade podem ter sido
uma tentativa de Irons ou de um de seus cúmplices para cobrir os efeitos desastrosos do plano.
De acordo com Weeks, vários documentos fora encontrados nos destroços do prédio do RPD que implicam Irons
como o líder de uma conspiração para ter como refém a fábrica química da Umbrella nos arredores da cidade.
Supostamente, Irons estava furioso com os oficiais da cidade por causa da suspensão dos S.T.A.R.S. em Julho,
por sua má condução na investigação das múltiplas mortes - os agora documentados assassinatos canibais que
tiraram as vidas de onze pessoas no último verão. Os S.T.A.R.S. de Raccoon foram suspensos depois da queda
de um helicóptero na última semana de Julho que tirou a vida de seis membros da equipe. Os cinco S.T.A.R.S.
sobreviventes foram suspensos sem pagamento depois de evidências sugerirem drogas ou abuso de álcool em
conexão com a queda - e enquanto Irons defendia publicamente a suspensão de seu time de elite, os
documentos indicam que Irons realmente ameaçava o Prefeito Devlin Harris e vários membros do Conselho da
cidade com o vazamento de produtos químicos extremamente voláteis e perigosos, se certas exigências
financeiras não fossem atendidas. Weeks continua dizendo que Irons tinha uma história de instabilidade emocional,
e que os documentos - correspondências entre Irons e um cúmplice - revelaram um plano de Irons extorquir um
resgate de Raccoon e, então, deixar o país. O cúmplice é chamado apenas como "C.R.", mas há também
referências a "J.V.", "B.B." e "R.C." - todas iniciais de quatro dos cinco S.T.A.R.S. suspensos.
Terrence Chavez disse, "Presumindo que esses documentos sejam legítimos, Irons e sua equipe planejaram
atacar a fábrica da Umbrella no fim de Setembro, o que corresponde exatamente à linha do tempo descrita pelo
Dr. Heiner para a síndrome de Raccoon atingir completa extensão. Estamos atualmente trabalhando com a
suposição de que o ataque aconteceu, e que um inesperado acidente ocorreu com resultados terríveis. Nesse
momento, não sabemos se o Sr. Irons ou se algum dos S.T.A.R.S. ainda estão vivos, mas estão sendo
procurados para interrogatório. Divulgamos uma APB oficial e todos os nossos aeroportos internacionais e
patrulhas de bordo foram alertadas. Encorajamos qualquer um com informações a respeito desse caso a nos
procurar."
O Dr. Heiner, um renomado microbiologista, assim como um membro associado da Divisão de Materiais Perigosos
da Umbrella, declararam que a mistura exata de produtos químicos lançados em Raccoon nunca serão
descobertos. "É óbvio que Irons e seu pessoal não sabiam com o que estavam lidando - e com a Umbrella
continuamente desenvolvendo novas variações de sínteses de enzimas, inibidores de crescimento bacteriano e
repressores virais, a composição letal foi certamente uma agregação acidental. Com as possíveis combinações de
materiais numeradas em milhões, as chances de duplicação da síndrome de Raccoon são astronômicas."
O diretor nacional dos S.T.A.R.S. não quis comentar, mas Lida Willis, porta-voz regional da organização, deu seu
relato ao dizer que eles estão "chocados e entristecidos" pelo desastre, e que colocaria todos os seus agentes
disponíveis em busca dos S.T.A.R.S. desaparecidos, assim como por quaisquer contatos que pudessem ainda ter.
Ironicamente, os documentos foram encontrados por uma das equipes de busca da Umbrella...
[1]
"Vai, vai, vai!". David gritou, e John Andrews pisou fundo, conduzindo a minivan por uma fechada curva enquanto
tiros soavam pela fria noite de Maine.
John viu os dois sedans pretos momentos depois, mau dando tempo para se armarem. Seja lá quem estava
atrás deles - a Umbrella, os S.T.A.R.S. corruptos ou a polícia local - não importava, eram todos da Umbrella -
"Despiste-os, John!". David pediu, conseguindo parecer frio e controlado mesmo com as balas acertando a
traseira da van. Era o sotaque - ele sempre falava assim, e onde diabos está a Falworth?
John se sentiu difuso, seus pensamentos correndo e confusos; ele arrasa numa missão, mas ataques surpresa
são de matar -
- à direita na Falworth e siga para a pista - Cristo, mais dez minutos e nós já teremos partido -
Faz muito tempo que John esteve num combate, mas nunca numa perseguição de carro. Ele era bom, mas
estavam numa minivan -
Bam bam bam!
Alguém na traseira da van estava retornando fogo, atirando pela janela aberta de trás. As explosões da 9mm no
espaço apertado eram tão altos como a voz de um Deus irritado, pulsando no ouvido de John, tornando sua
concentração ainda mais difícil.
Só mais dez malditos minutos.
A dez minutos da pista de decolagem, onde o vôo marcado estaria esperando. Era como uma piada ruim -
semanas se escondendo, esperando, sem correr riscos para depois serem achados na saída do país.
John segurou o volante enquanto desciam a Rua 6, a van muito pesada para disputar com os sedans. Mesmo
sem as cinco pessoas e um monte de artilharia, o volumoso motor não era exatamente uma usina de energia.
David o comprou por ser tão indefinível e discreta que agora eles estavam pagando por isso - se eles conseguirem
agitar seus perseguidores, seria um pequeno milagre. A única chance seria pegar trânsito e brincar de desviar. Era
perigoso, tal como saírem da pista e morrerem baleados.
"Clip!". Leon gritou, e John olhou no retrovisor, viu o jovem policial agachado na janela de trás ao lado de David.
Eles haviam tirado os bancos de trás para essa viagem, mais espaço para as armas - mas também significava
nenhum cinto de segurança; faça uma curva rápido demais e corpos sairiam voando -
Bam! Bam! Mais dois tiros dos idiotas do sedan, de um .38 talvez. John acelerou um pouco mais enquanto Leon
atirava com a Browning 9mm. Leon Kennedy era o melhor atirador, David estava provavelmente mandando-o
atirar nos pneus -
- melhor atirador depois de mim. Bom, e como nós vamos despistá-los em Exeter, Maine, às onze da noite num
dia de semana? Não tem trânsito -
Uma das mulheres jogou um clip para Leon, John não teve tempo de ver qual delas quando girou o volante para
a direita, na direção do centro da cidade. Com uma fumacenta derrapagem no asfalto, a van fez a curva na
Falworth, indo para o leste. A pista de vôo ficava à oeste, mas John nem percebeu que ninguém se preocupava
em chegar a tempo.
Primeiro as primeiras coisas; se livrar dos capangas da Umbrella. Duvido que haja espaço para todos naquele vôo.
John viu luz vermelha e azul no espelho, viu que pelo menos um dos sedans tinha colocado uma luminária giratória
no teto. Talvez sejam policiais, o que seria uma droga. A tomada de controle da Umbrella foi perfeita - graças a
ela, cada policial neste país deve achar que tem culpa pelo que aconteceu em Raccoon. O S.T.A.R.S. estava
sendo enganado, também - alguns superiores foram comprados, e seus empregados nem faziam idéia de que
virariam marionetes da companhia -
- tornando tudo mais difícil de consertar.
Nenhum dos empregados querem machucar alguém; ser conduzido pela Umbrella não era um crime, e se as
pessoas no sedan fossem policiais -
"Sem antena nem aviso não é a polícia!". Leon disse, e John sentiu um segundo de alívio antes de ver as
barricadas aparecendo à sua frente, a placa de obras na pista ao lado da rua bloqueada. Ele viu o branco rosto de
um homem em cima do colete laranja, segurando uma placa que dizia "devagar", o homem derrubando a placa e
mergulhando para o lado -
- teria sido engraçado se eles não estivessem a 130 com 3 segundos para a colisão.
"Segurem-se!". John gritou, e Claire empurrou as pernas contra a parede da van, viu David segurar Rebecca e
Leon agarrando a maçaneta -
- e a van estava arranhando, balançando, e pulando como um cavalo selvagem, de um lado para o outro -
- e Claire sentiu um espaço abaixo do lado direito da van enquanto seu corpo era comprimido para a esquerda,
sua nuca batendo dolorosamente no estepe.
- oh, droga -
David gritou algo mas Claire não ouviu sob os gritantes freios, não entendeu até David mergulhar para a direita,
Rebecca bem ao lado dele -
- e wham, a van voltou para o chão com uma incrível pancada, John parecendo ter o carro sob controle
novamente - mas ainda havia o agudo arranhar de freios travados vindo de -
CRASH!
O estrondo de metal e vidro quebrado atrás deles foi tão perto que o coração de Claire pulou uma batida.
Ela virou, viu que um dos carros tinha batido na barricada - a barricada que provavelmente teriam acertado um ou
dois segundos atrás. Ela só conseguiu ver o capô amassado, as janelas quebradas e fumaça antes do segundo
sedan bloquear sua visão, fazendo a curva e continuando a perseguição.
"Me desculpem por aquilo". John disse, parecendo estar movido por uma alegre adrenalina.
Nas poucas semanas desde que ela e Leon se juntaram aos S.T.A.R.S. fugitivos, Claire descobriu que John fazia
piadas sobre qualquer coisa. Era ao mesmo tempo sua característica mais amável e irritante.
"Estão todos bem?". David perguntou, e Claire acenou, viu Rebecca fazer o mesmo.
"Levei uma pancada mas estou bem". Leon disse, esfregando seu braço com uma expressão dolorosa. "Mas eu
não acho que -".
BAM!
Leon foi cortado pela poderosa explosão que atingiu a traseira da van. O passageiro do sedan tinha disparado
uma espingarda neles; alguns centímetros acima e os grãos de chumbo teriam passado pela janela.
"John, mudança de planos". David falou enquanto a van virava, sua fria e autoritária voz aumentando sobre os
gritantes motores. "Nós estamos na mira deles -".
Antes que ele pudesse terminar, John fez uma forçada curva à esquerda. Rebecca rolou, quase acertando Claire.
Agora a van estava indo para uma quieta rua dos subúrbios.
"Segurem seus traseiros". John gritou sobre os ombros.
O fresco ar noturno passou através da van, casas voando enquanto John ganhava velocidade. Leon e David já
estavam recarregando, agachados atrás da meia porta de metal. Claire trocou um olhar com Rebecca, que
pareceu tão feliz quanto ela se sentia. Rebecca Chambers era uma ex-S.T.A.R.S., tinha trabalhado com o irmão
de Claire, Chris, e junto com David e John, também ex-S.T.A.R.S., numa recente interrupção de planos da
Umbrella - mas a jovem mulher tinha sido treinada como médica e com conhecimentos em bioquímica. Atirar não
era seu forte - até Claire atirava melhor - mesmo sendo a única que não teve um treinamento de verdade...
.. a não ser que você desconsidere ter sobrevivido em Raccoon...
Claire tremeu involuntariamente enquanto John virou rápido à direita, desviando de um caminhão parado, o sedan
ganhando terreno. Raccoon City; os ferimentos e arranhões no corpo de Claire ainda não tinham se curado, e ela
sabia que o ombro de Leon ainda causava dor -
BAM!
Outro tiro, mas esse passou longe.
Desta vez...
"Mudança de planos", David disse, seu claro sotaque acalmando como a voz da lógica no meio do caos. Não é a
toa que ele foi o capitão do S.T.A.R.S.
"Todos preparem-se para o impacto. John, faça a próxima curva e depois freie. Acerte-os e corra, certo?".
David levou seus joelhos para cima, apoiando seus pés na parede da van. "Eles nos querem tanto, deixe-os nos
ter".
Claire deslizou e empurrou os pés contra a parte de trás do banco do passageiro, dobrando os joelhos e cabeça
deitada.
Rebecca foi para o lado de David e Leon se arrumou ficando com a cabeça perto da de Claire. Eles se olharam e
Leon sorriu fracamente.
"Isso não é nada". Ele disse, e apesar do medo, Claire sorriu de volta. Depois de passar pela loucura de Raccoon
City, fugir das criaturas assassinas da Umbrella e de gente maluca - sem falar na explosão do laboratório secreto -
se comparado à isso, uma batida de carro era como um piquenique de Domingo.
É, continue dizendo isso à si mesma, sua mente pensou, e depois não pensou em mais nada porque a van
estava fazendo a curva e John pisando nos freios; logo seriam acertados por uma tonelada de metal e vidro.
David inalou e exalou profundamente, relaxando seus músculos o melhor que podia, o grito dos pneus vindo
rápido de trás -
- e wham, uma pancada violenta, um incrível senso de vibração, um segundo que parecia levar uma interminável
e quieta eternidade -
- e um barulho vindo logo depois - vidro quebrando e o som de uma lata esmagando amplificado um milhão de
vezes. David foi jogado para frente e para trás, ouviu Rebecca emitir uma estrangulada tosse -
- e estava acabado, John já acelerando de novo enquanto David ficava de joelhos, erguendo sua Beretta. Ele
olhou para trás e viu que o sedan não se movia, espetado no meio da escura rua, a grade dianteira e faróis
esmagados. As pessoas ainda estavam atrás do rachado vidro do carro.
Não é que dirijamos mal...
A barata minivan verde que ele comprou só para ir até o aeroporto não tinha mais pára-choque, luzes, placa - ou,
ele pensou, algum modo de abrir a porta de trás; ela virou uma massa arqueada e inútil de metal mastigado.
Não foi uma grande perda. David Trapp desprezava minivans e não planejava levá-la para a Europa. O
importante é que ainda estavam vivos - e que - por enquanto eles conseguiram cortar o infinitamente longo braço
da ira da Umbrella.
Enquanto se distanciavam do carro batido, David olhou para os outros, estendendo a mão para ajudar Rebecca.
Desde Caliban, ele ficou mais próximo dela do que John. O resto de sua equipe não sobreviveu -
Ele apagou esse pensamento antes de se render, e disse para John voltar ao destino original, sem pegar as ruas
principais. Não seria bom serem vistos partindo. A Umbrella tinha atacado em Exeter uns dois meses atrás, logo
depois de retornarem de Caliban Cove.
"Bom truque, David". Leon disse. "Vou ter que me lembrar disso da próxima vez que for perseguido por
capangas da Umbrella".
David acenou desconfortavelmente. Ele gostava de Leon e Claire, mas não sabia o que sentir com mais duas
pessoas querendo-o como líder. Ele podia entender John e Rebecca, que pelo menos fizeram parte do S.T.A.R.S.
- mas Leon era um policial novato de Raccoon e Claire uma universitária, que acabou sendo a irmãnzinha de Chris
Redfield. Quando ele decidiu romper com o S.T.A.R.S., depois de descobrir sua ligação com a Umbrella, ele não
esperava continuar liderando, não queria -
- mas não era minha decisão, era...? ele não tinha pedido a lealdade deles, nem se ofereceu para fazer decisões
- e não importava, foi como tudo acabou terminando. Na guerra, ninguém tem o luxo da escolha.
David olhou em volta antes de olhar para fora, vendo as casas e prédios passarem no frio escuro. Todos
pareciam reprimidos, sempre uma conseqüência da leva de adrenalina. Rebecca estava descarregando clips e
guardando as armas, Leon e Claire sentados juntos do outro lado, sem falar. Os dois estavam sempre juntos,
sem diferença desde que David, John e Rebecca os acharam juntos saindo de Raccoon a menos de um mês
atrás, sujos e feridos, cambaleantes do encontro com a Umbrella. David não achava que havia uma conexão
romântica ali; pelo menos ainda; era mais pelo pesadelo compartilhado. Terem quase morrido juntos pode ser
uma experiência vinculosa.
Até onde David sabia, Leon e Claire eram os únicos sobreviventes de Raccoon que sabiam sobre a contaminação
pelo T-virus da Umbrella. A criança que eles tinham consigo tinha uma vaga idéia, apesar de Claire tê-la protegido
cuidadosamente da verdade. Sherry Birkin não precisava saber que seus pais foram responsáveis pela criação das
mais poderosas armas da Umbrella; era melhor para ela lembrar dos pais como pessoas decentes.
"David? Algo errado?".
Ele tirou-se de seus pensamentos e acenou para Claire.
"Desculpe. Sim, estou bem. Na verdade eu estava pensando na Sherry, como ela está?".
Claire sorriu, e David viu como ela brilhou ao dizer o nome de Sherry. "Ela está bem, está se acomodando. Kate é
como uma irmã para ela, um ótimo adicional. E Sherry gosta dela".
David acenou de novo. A tia de Sherry parece boa, e além disso, ela seria capaz de proteger Sherry se a
Umbrella decidir perseguir a garota; Kate Boyd era uma competente advogada criminal, uma das melhores da
Califórnia. A Umbrella faria um bem ficando longe da única filha de Birkin.
É uma pena que o mesmo não se aplique à nós; isso não tornaria as coisas mais fáceis...
Rebecca tinha terminado de organizar as armas e foi se sentar perto dele, tirando uma mecha solta de cabelo da
testa. Seus olhos mais velhos do que o resto do rosto; com quase 19, ela já passou por dois incidentes da
Umbrella. Tecnicamente, ela tinha mais experiência do que qualquer um deles.
Rebecca não falou por um momento, olhando para as ruas passando. Quando finalmente falou, ela manteve sua
voz baixa, seu olhar o estudando.
"Você acha que eles ainda estão vivos?".
Ele não se preocuparia em dá-la uma imagem ensolarada; jovem como era, a garota tinha um jeito para ver
através das pessoas.
"Eu não sei". Ele disse, cuidando para não deixar os outros ouvirem. Claire queria desesperada-mente encontrar
seu irmão. "Eu duvido. Nós já devíamos ter tido notícias. Ou eles estão com medo de serem pegos, ou...".
Rebecca suspirou, nem de surpresa, nem de alegria. "É. Mesmo se eles não conseguirem nos contatar - o Texas
ainda tem as freqüências abertas, não?".
David acenou. Texas, Oregon, Montana - todos canais abertos com confiáveis membros do S.T.A.R.S., e
nenhuma ligação há mais de um mês. A última mensagem foi de Jill; David a tinha decorado. De fato, a
mensagem o perseguia diariamente.
"Sãos e salvos na Áustria. Barry e Chris na pista do Quartel General da Umbrella, parece promissor.
Preparem-se".
Preparar-se para juntá-los, para chamar as poucas tropas que ele e John reuniram. Preparar-se para invadir o
verdadeiro quartel da Umbrella, o poder por trás de tudo. Preparar-se para combater o mal pela raiz. Jill, Barry e
Chris foram à Europa para descobrir os verdadeiros líderes da Umbrella, começando pelo QG internacional na
Áustria - e desde então desapareceram.
"Levantem as cabeças, crianças,". John disse lá na frente, e David desviou do sério olhar de Rebecca, desviou
para ver que já estavam na pista de decolagem.
Seja lá o que tenha acontecido com seus amigos, eles descobrirão em breve.
[2]
Rebecca apertou o cinto na pequena poltrona do pequeno avião e olhou pela janela, desejando que David tivesse
fretado um jato. Mas um gigante e sólido jato que-não-pode-ser-inseguro-porque-é-muito-grande. De onde
sentou, ela podia ver os propulsores na asa - propulsores, como numa história para crianças.
Aposto como essa belezinha vai afundar como uma pedra, caso caia do céu a alguns quilômetros por hora e
acerte o oceano...
"Como você já sabe, esse é o tipo de avião que está sempre matando estrelas do rock e o de sempre. Assim
que decolam, um forte sopro de vento os mandam direto para o chão".
Rebecca olhou para cima e viu o sorridente rosto de John; ele estava de joelhos na poltrona da frente bem acima
dela, seus fortes braços cruzados no encosto de cabeça. Ele provavelmente precisava de dois lugares; John não
era grande, ele era enorme, 110 quilos de músculo embalados em 2 metros de altura.
"Nós teremos sorte se decolarmos, arrastando seu traseiro gordo lá para cima". Rebecca retrucou, e foi
recompensada com um lapso de preocupação nos olhos castanhos de John. Ele tinha quebrado algumas costelas
e perfurado um pulmão na última missão, há menos de 3 meses, e ainda não estava apto a pegar pesado.
Por mais robusto e machão que John era, Rebecca sabia que ele era vaidoso, e que odiava não ter malhado.
John sorriu mais. "É, você deve estar certa, algumas dezenas de metros fora do chão e wham."
Ela nunca devia ter dito a ele que esse era seu segundo vôo (o primeiro foi ao lado de David para Exeter na
missão de Caliban Cove). Era exatamente o tipo de coisa que fazia John contar piadas -
O avião começou a tremer em volta deles, o motor se elevando para um profundo hum que fez Rebecca bater
os dentes. Por nada ela deixaria John ver o quanto estava nervosa; ela olhou pela janela e viu Leon e Claire indo
para os degraus de metal. Aparentemente, as armas estavam todas carregadas.
"Onde está David?". Rebecca perguntou e John balançou os ombros.
"Falando com o piloto. Nós conseguimos um, você sabe, algum amigo de um amigo de um cara em Arkansas.
Não há muitos pilotos querendo infiltrar pessoas na Europa, acho...".
John se inclinou mais perto, derrubando a voz para um falso cochicho, seu sorriso sumindo. "Eu ouvi falar que ele
bebe. Nós pagamos barato porque ele bateu um time de futebol na lateral de uma montanha".
Rebecca riu, balançando a cabeça. "Você venceu. Eu estou apavorada, tá bom?".
"Tá bom. Era tudo o que eu queria". John disse suavemente, virando enquanto Leon e Claire entravam na
pequena cabine. Eles foram para o meio do avião, pegando os dois acentos do outro lado do corredor de onde
Rebecca estava. David tinha mencionado que a região entre as asas era a mais estável, apesar de não haver
muita opção - só haviam vinte lugares.
"Já voou antes?". Claire perguntou, inclinado-se sobre o corredor, parecendo um pouco nervosa.
"Uma vez. E você?". Rebecca respondeu.
"Algumas vezes, mas sempre em grandes companhias, DC 747 ou -27, acho. Eu nem sei o que é essa coisa".
"É um DHC 8 Turbo. Eu acho". Leon disse. "David havia mencionado...".
"É um assassino, isso é o que ele é". A profunda voz de John flutuou sobre os assentos. "Uma pedra com asas".
"John, docinho... cale a boca". Claire disse amavelmente.
John tagarelou, obviamente feliz com alguém novo para brincar.
David apareceu na frente da cabine, cruzando a cortina que cobria a área antes do cockpit, e John ficou calado, a
atenção de todos voltada para David.
"Parece que estamos prontos para ir". David disse. "Nosso piloto, Capitão Evans, me assegurou que todos os
sistemas estão funcionando e que estaremos decolando em um momento. Ele pediu que ficássemos sentados
até dar outra ordem. Hum - o banheiro fica atrás do cockpit e tem um pequeno frigobar na parte de trás do avião
com sanduíches e bebidas...".
A voz dele parou, e olhou como se houvesse algo mais a dizer mas não tinha certeza do que era. Era o olhar que
Rebecca tem visto bastante nas últimas semanas, uma desconfortável incerteza. Desde o dia que Raccoon foi
pelos ares, ela achou que todos tinham aquele olhar de vez em quando...
.. porque eles não deve ser capazes de fazer isso. Aquilo devia ter sido o fim, mas não foi e agora estamos mais
assustados do que gostaríamos de admitir.
Quando as primeiras notícias saíram nos jornais, todos eles ficaram certos de que desta vez a Umbrella não seria
capaz de apagar seus rastros. A contaminação na mansão de Spencer foi pequena, fácil de encobrir depois que o
fogo consumiu a mansão e as construções em volta; as instalações em Caliban Cove estavam em terras
particulares e também muito isoladas para alguém ficar sabendo - de novo, a Umbrella varreu os destroços e
manteve sigilo. Mas Raccoon City. Milhares de pessoas mortas - e a Umbrella saiu dessa cheirando como uma
rosa, depois de plantar falsas evidências e ter seus cientistas mentindo por eles. Isso deveria ser impossível;
desanimou a todos. Que chance teria um bando de fugitivos contra um conglomerado multibilionário que podia
matar uma cidade inteira e sair ileso?
David não disse mais nada. Ele acenou animadamente e andou para se juntar a eles, parando perto de Rebecca?
"Você precisa de companhia?".
Ela podia ver que tentava dar um apoio - viu que também estava cansado. Ele tinha ficado acordado na última
noite, revendo cada detalhe da missão.
"Nah, eu estou bem". Ela disse, sorrindo para ele. "Eu sempre tenho John para me acalmar".
"Você sabe disso, querida", John disse alto, e David acenou, dando um leve aperto no ombro dela antes de se
sentar atrás dela.
Ele precisa desse descanso, nós todos; e será um longo vôo - então por que pressinto que não teremos esse
descanso?
Nervosismo, só isso.
O som do motor aumentou, e com um gago balanço o avião começou a andar. Rebecca apertou ambos os
apoios de braço e fechou os olhos, pensando que se tivesse estômago para enfrentar a Umbrella, ela certamente
sobreviveria a um passeio de avião.
Mesmo se não pudesse, era tarde demais para mudar de idéia; eles estavam a caminho, nada de voltar atrás.
Eles estavam no ar a vinte minutos, e Claire já estava cochilando, meio apoiada no ombro de Leon. Ele estava
cansado também, mas sabia que não dormiria tão fácil. Leon estava com fome - e tinha o fato de que ainda não
sabia se estava fazendo a coisa certa.
Boa hora para pensar nisso, agora que você está bem comprometido, a mente dele cochichou sarcasticamente.
Talvez você possa pedir que o deixem em Londres, você poderia ficar num pub até eles acabarem tudo... ou
morrerem.
Leon disse a si mesmo para se calar, suspirando. Ele estava comprometido; o que a Umbrella vem fazendo não
era só criminoso, era mal. Eles assassinaram milhares, criaram armas biológicas capazes de matar bilhões,
capazes de destruir seu cuidadosamente planejado futuro, e foram responsáveis pela morte de Ada Wong, uma
mulher que ele gostava e respeitava. Eles tinham se ajudado nos maus momentos daquela terrível noite em
Raccoon; sem ela, ele nunca teria escapado com vida.
Ele acreditava no que David e seu pessoal estava fazendo, e não que ele tenha medo, não era isso...
Leon suspirou de novo. Ele tem se preocupado muito com Claire e Sherry desde que fugiram de Raccoon, e o
único motivo que ele tinha era tão tolo que não merecia crédito. Se opor a Umbrella era a coisa certa a fazer - é
que ele não se sentia qualificado para estar lá.
Espere aí, isso é ridículo.
Talvez sim - mas isso o estava deixando incerto, ele precisava examinar a situação.
David Trapp fez uma carreira no S.T.A.R.S., só para ver a organização cair no controle da Umbrella; ele perdeu
dois amigos próximos na última invasão do complexo de testes de armas biológicas, tal como John. Rebecca
Chambers só estava começando no S.T.A.R.S., ela era um tipo de criança prodígio na ciência, profundamente
interessada no trabalho da Umbrella; isso mais o fato de ter passado por mais coisas do que qualquer um, faz
sua contínua dedicação incompreensível.
Claire queria achar seu irmão, a única família que tinha; seus pais já haviam falecido. Já Chris, Jill e Barry ele nunca
conheceu, mas com certeza tinham seus motivos; ele soube que a família de Barry tinha sido ameaçada,
Rebecca havia contado.
E Leon S. Kennedy? Ele entrou nessa briga ao acaso, um policial recém formado a caminho do primeiro dia de
trabalho - que acabou sendo para o Departamento Policial de Raccoon. Mas tinha Ada - ele a conheceu por
algumas horas e foi morta logo depois de admitir que era algum tipo de agente, encarregada de roubar uma
amostra do vírus da Umbrella.
Aí eu perdi um emprego e um possível relacionamento com uma mulher que mal conhecia e não podia confiar.
Claro que a Umbrella deve ser derrotada... mas eu devo estar aqui?
Ele decidiu ser policial para ajudar as pessoas e sempre soube que significava manter a paz - prender motoristas
bêbados, conter brigas em bares, pegar ladrões. Nunca em seus piores sonhos ele se encontrou no meio de uma
conspiração internacional, uma infiltração do tipo "capa e espada" contra uma companhia gigante que fazia
monstros de guerra. É um crime de tamanha escala que jamais sentiu-se pronto...
.. e esse é o seu real motivo, Oficial Kennedy?
Naquele exato momento, Claire murmurou algo em seu leve sono, aconchegando a cabeça no ombro dele antes
de se aquietar - e fez Leon desconfortavelmente a par de outro motivo para estar com os ex-S.T.A.R.S., Claire.
Ela era... ela era uma mulher incrível. Nos dias seguintes ao desastre de Raccoon, eles conversaram muito sobre
o que aconteceu, as experiências que tiveram juntos e separados. Foi como uma troca de informações,
preenchendo vazios - ela contou sobre o encontro com o Chefe Irons e a criatura que chamava de Mr. X, e ele a
disse sobre Ada e a terrível coisa que um dia foi William Birkin. Entre eles, foi possível aparecer com uma contínua
história de importantes fatos para o time de fugitivos.
Em retrospecto, apesar daquelas longas conversas terem sido essenciais para outro motivo - elas foram uma
forma de liberar o veneno que eles tomaram, como um desabafo. Se tivesse que guardar isso, ele pensou,
acabaria ficando louco.
De qualquer modo, os sentimentos que tem por ela agora são outros, calor, conexão, dependência, respeito e
outro que ele não tem nome para dar. E isso o assustava, porque nunca havia sentido algo assim por alguém
antes - e porque não sabia o quanto disso era verdade e o quanto disso era estresse pós- traumático.
Aceite, pare de se fazer de bobo. Você só está com medo de estar aqui porque ela está, e não gosta do que isso
diz sobre você?
Leon acenou por dentro, percebendo que era a verdade, o único motivo por trás da incerteza. Ele sempre
acreditou que querer estava bem, mas e precisar? Ele não gostava da idéia de ser guiado por uma compulsão
neurótica só para estar perto de Claire Redfield.
E se isso não for precisar? Talvez seja querer, e você ainda não sabe...
Ele franziu as sobrancelhas para suas patéticas tentativas de auto-análise, decidindo que seria melhor parar de se
preocupar. Seja qual for o motivo, ele já estava envolvido - e ele podia chutar o traseiro da Umbrella com o
melhor deles, porque a Umbrella merecia. Por enquanto, ele precisava ir ao banheiro, comer algo e fazer o
possível para dormir.
Leon saiu gentilmente de debaixo de Claire, da pesada cabeça, fazendo o possível para não acordá-la. Ele deslizou
para o corredor e reparou nos outros. Rebecca olhava pela janela, John folheava uma revista de musculação e
David dormia. Todos eram boas pessoas, e pensar nisso o deixou mais calmo com as coisas.
Todos eles são bons. Droga, eu sou um homem bom, lutando pela verdade, justiça e com alguns zumbis pelo
mundo...
O banheiro era na dianteira. Leon foi para lá, tocando cada assento enquanto passava, pensando no motor do
avião, um som como uma queda d´água -
- e de repente a cortina de trás da cabine do piloto foi puxada e um homem apareceu, um alto e sorridente
homem num caro sobretudo. Ele não era o piloto, e não deveria haver mais ninguém no avião. Leon sentiu sua
boca secar com um quase supersticioso pavor, mesmo com o magro e sorridente homem parecendo não estar
armado.
"Ei!". Leon gritou, recuando um passo. "Ei, nós temos companhia!".
O homem sorriu, piscando os olhos. "Leon Kennedy, eu presumo". Ele disse suavemente, e Leon subitamente
ficou certo de que seja lá quem ele era, esse homem era problema com "P" maiúsculo.
[3]
John ficou de pé antes de Leon terminar o alerta, pulando no corredor e ficando na frente de Leon num só passo.
"Quem diabos-". John resmungou, seus ombros a postos, preparados para quebrar o magro homem em dois
caso pisque em falso.
O estranho ergueu suas pálidas mãos, parecendo não conseguir conter o prazer - deixando John ainda mais
desconfiado. Ele podia fazer do cara um hambúrguer facilmente, mas por que diabos ele estava tão feliz?
"E você é John Andrews". O homem disse, sua voz baixa e calma, tão prazerosa quanto suas feições.
"Ex-especialista em comunicações e campo de escuta pelo S.T.A.R.S. de Exeter. É bom te conhecer - me diga
como estão suas costelas, ainda doem?
Droga, quem é esse cara? John já tinha quebrado duas costelas e uma terceira em Caliban, e não conhecia esse
homem - como é que esse cara o conhecia?
"Meu nome é Trent", o estranho disse calmamente, acenando para Leon e John. "Acredito que o Sr. Trapp pode
confirmar minha identidade...?.
John olhou para trás, viu que David e as garotas estavam logo ali. David deu um rápido aceno, suas expressões
tensas.
Trent. Meu Deus. O misterioso Sr. Trent.
- O mesmo Sr. Trent que havia dado mapas e pistas para Jill Valentine, antes do S.T.A.R.S. de Raccoon ter
descoberto a primeira contaminação pelo T-virus da Umbrella na mansão de Spencer. O Trent que tinha dado um
kit similar à David numa chuvosa noite de Agosto, informações sobre o laboratório da Umbrella em Caliban Cove,
onde Karen e Steve foram mortos.
Trent tem brincado com o S.T.A.R.S. - com a vida de pessoas - o tempo todo.
Trent ainda sorria, ainda de mãos erguidas. John reparou num anel preto feito de pedra num dos dedos de Trent,
o único toque de personalidade que ele parecia ter; devia caro e pesado.
"Mas o que diabos você quer?". John resmungou. Ele não gostava de segredos ou surpresas, e não gostava de
como Trent parecia totalmente inabalado com seu tamanho. A maioria das pessoas recuam quando John as
encara; Trent parecia estar se divertindo.
"Sr. Andrews, se você por favor...?".
John não se mexeu, olhando para os escuros e inteligentes olhos do intruso. Trent recuou o olhar impassivamente
e John percebeu uma fria auto- segurança naquele brilhante olhar, um que era quase mas não tão protetor. Por
maior e mais bravo que John fosse, ele não era violento - mas aquele confiante e alegre olhar fez John pensar
que o Sr. Trent poderia levar um belo soco. Não necessariamente dele, mas de alguém.
Quantas pessoas morreram só porque ele resolveu agitar um pouco as coisas?
"Tudo bem, John". David disse baixo. "Tenho certeza que se o Sr. Trent nos quisesse mau, não estaria aqui se
apresentando".
John querendo ou não querendo, David estava certo. Ele inspirou fundo e se afastou, decidindo que
definitivamente não gostava nada disso; pelo pouco que sabia do homem, não gostava mesmo.
Vou ficar de olho em você, "amigo"...
Trent acenou, apesar de nenhuma pergunta ter sido feita, e passou por John, sorrindo para todos. Ele fez um
sinal para que se sentassem em um lado do avião; tirou seu sobretudo, deixando-o de lado, movendo-se devagar
e com cuidado, sabendo que qualquer movimento brusco seria prejudicial à sua saúde. Ele vestia um terno preto,
gravata preta e sapatos; John não conhecia roupas, mas os sapatos eram da Asante. Trent tinha bom gosto, e
um monte de dinheiro para torrar com sapatos.
"Isso pode demorar um pouco". Ele disse. "Por favor, fiquem confortáveis". Trent moveu-se para o topo de uma
das poltronas do lado oposto ao grupo, tão suave que fez John ainda mais desconfortável. Ele se movia como
alguém treinado, artes marciais talvez...
Os outros sentaram ou se encostaram nas poltronas, cada um estudando o intruso, tão preocupados com sua
aparência quanto John. Trent os estudou de volta.
"Eu já conheci o Sr. Andrews, Sr. Kennedy,
Sr. Trapp...". Trent olhou para Claire e Rebecca várias vezes, seus brilhantes olhos finalmente caindo em Claire.
"Claire Redfield, certo?". Ele parecia um pouco hesitante, o que não era surpresa. Rebecca e Claire podiam ser
irmãs, ambas morenas, mesma altura, alguns anos de diferença na idade.
"Sim". Claire disse. "O piloto sabe que você está à bordo?".
John franziu, irritado por não ter perguntado isso primeiro. Era uma boa pergunta que ele não tinha pensado. Se o
piloto o deixou entrar...
Trent acenou, passando a mão em seu descabelado cabelo preto. "Sim, sabe. De fato, o Capitão Evans é um
conhecido meu, e quando eu percebi que vocês estavam indo... viajar, eu fiz com que ele estivesse na hora
certa e no lugar certo. Foi mais fácil do que parece, verdade".
"Por que?". David perguntou, uma elevação em sua voz que John só havia escutado em combate. "Por que você
faria isso, Sr. Trent?".
Trent pareceu ignorá-lo. "Eu percebi que vocês estavam preocupados com seus amigos no continente, mas
deixem-me assegurá-los de que eles estão muito bem. É sério, não há porque se preocuparem -".
"Por quê?". A voz de David soou insensível.
Trent olhou para ele, e suspirou. "Porque eu não quero que vocês vão para a Europa, e como o Capitão Evans é
o piloto, significa que vocês não vão. De fato, estaremos retornado a qualquer momento.
Claire olhou para ele, sentindo seu estômago dar um nó, sentindo esse nó se transformar numa quente e pesada
raiva.
Chris, eu não vou ver o Chris -
John se afastou da poltrona onde estava encostado e agarrou o braço de Trent antes que Claire pudesse abrir a
boca, antes que qualquer um pudesse responder.
"Diga ao seu "conhecido" para continuar indo para onde estávamos". John falou, olhando furioso para Trent. Pelo
modo como as mãos de Trent tremiam, Claire pensou haver uma boa chance de Trent ter seu braço quebrado -
e viu que não seria uma má idéia.
Trent parecia suavemente desconfortável, nada mais. "Sinto em interromper seus planos," Ele disse. "mas se
vocês ouvirem, acho que vão concordar que é o melhor a fazer - se realmente querem deter a Umbrella".
O melhor a se fazer? Chris, nós temos que ajudá-lo e os outros, que droga é essa?
Ela esperou os outros explodirem em ação, a invadirem a cabine do piloto, a amarrarem o Sr. Trent numa
poltrona e forçarem-no a se explicar - mas estavam todos quietos, olhando uns para os outros e à Trent, com
raiva - e interesse. John folgou seu agarre, procurando em David uma orientação.
"É melhor ser uma boa história, Sr. Trent". David disse friamente. "Eu sei que você - já nos ajudou antes, mas
esse tipo de interferência não é o tipo de ajuda que queremos ou precisamos".
Ele acenou para John que soltou o braço de Trent, recuando. Claire percebeu.
Se Trent estava preocupado, não havia sinais. Ele acenou para David e sua suave e musical voz começou a fluir.
"Sei que vocês estão a par de que a Umbrella Inc. tem laboratórios por todo mundo, fábricas e lugares que
empregam milhares de pessoas, gerando centenas de milhões de dólares a cada ano. A maior parte delas são
legítimas companhias químicas e farmacêuticas, e não têm relevância para essa conversa, exceto por serem bem
lucrativas; o dinheiro gerado pelo comércio legal da Umbrella os permitem financiar suas operações menos
conhecidas - operações que vocês já tiveram o desprazer de presenciar.
"Essas operações são controladas por uma divisão conhecida como White Umbrella, que mais tem a ver com as
pesquisas em armas biológicas. Poucos que sabem sobre o negócios da White Umbrella, mas só os
extremamente poderosos. Poderosos e comprometidos a criar todos os tipos de desagradáveis armas químicas,
doenças fatais... a série de vírus T e G que tem sido bastante problemática ultimamente".
É uma narração, Claire pensou com nojo, mas estava intrigada para finalmente saber onde estava se metendo...
"Por quê?". Leon perguntou. "Artilharia química não é tão lucrativo, qualquer um com uma centrífuga e material de
jardinagem pode fazer uma arma biológica".
Rebecca estava acenando. "É o tipo de trabalho que estão fazendo, aplicando rápida fusão viral em redistribuição
genética - é incrivelmente caro e tão perigoso quanto lixo nuclear. Pior".
Trent balançou a cabeça. "Eles fazem porque podem. Porque querem". Ele sorriu de leve. "Porque quando você é
mais rico e mais poderoso do que qualquer outro no mundo, você fica entediado".
"Quem fica entediado?". David perguntou.
Trent olhou para ele um pouco, e começou a falar de novo, ignorando a pergunta de voz alta.
"O foco principal da White Umbrella está em soldados bio-orgânicos - espécimes individuais, a maior parte alterada
geneticamente, todos injetados com uma variação de vírus com intenção de torná-los mais violentos, fortes e
insensíveis à dor. O modo como esses vírus se amplificam em humanos, a reação "zumbi", é nada mais do que
um efeito colateral; os vírus que a Umbrella cria não são feitos para uso em humanos, pelo menos até agora".
Claire estava interessada, mas também ficando impaciente. "Mas quando chegaremos na parte em que você nos
diz porque está aqui, porque não quer que vamos à Europa?". Ela perguntou, não se importando em esconder a
raiva em sua voz.
Trent olhou para ela, seus olhos escuros de repente ficaram simpáticos, e ela percebeu que ele sabia porque
estava nervosa, que conhecia seus motivos para querer ir à Europa. Ela percebia isso no modo como ele a
olhava, dizendo que entendia - e de repente ela se sentiu constrangida.
Ele sabe tudo sobre nós, não é...?
"Nem todos os laboratórios da White Umbrella são iguais". Ele continuou. "Tem aqueles que lidam só com dados,
outros com a química, alguns onde espécimes crescem ou sofrem cirurgias - e alguns poucos onde as criaturas
são testadas. E isso nos leva para o porquê de eu estar aqui, e porque decidi adiar seus planos.
Há uma área de teste da Umbrella pronta para ser ativada em Utah, ao norte das salinas. Bem agora, o lugar
está sendo usado por uma pequena equipe de técnicos... treinadores de espécimes, e está marcado para ficar
totalmente operacional em três semanas. O homem supervisionando as preparações finais é um dos ícones
chave da White Umbrella e se chama Reston. A tarefa deveria ser conduzida por outra pessoa, um desprezível
homenzinho chamado Lewis, mas ele sofreu um infeliz e não totalmente planejado acidente... e agora Reston
está no cargo. E por ser um homem muito importante por trás da White Umbrella, ele tem em seu poder um
pequeno livro preto. Só existem três livros iguais e os outros dois são impossíveis de serem pegos...".
"E o que há neles?". John falou. "Vá ao ponto".
Trent sorriu para John como se tivesse perguntado educadamente. "Cada livro é como um tipo de chave-mestra;
cada um tem um diretório completo de códigos usados para programar cada sistema de cada laboratório da
Umbrella. Com esse livro, qualquer um pode invadir qualquer complexo e acessar tudo desde arquivos pessoais à
situações financeiras. Eles trocarão os códigos caso algum livro seja roubado, claro - mas isso levaria meses".
Ninguém falou, só os motores do avião. Claire olhou para cada um deles, viu as pensativas feições, viu que
certamente estavam considerando a proposta de Trent - e percebeu que não estavam mais indo para a Europa.
"Mas e Chris, Jill e Barry? Você disse que estavam bem - como você sabe? Claire perguntou, e David pôde ouvir o
mal contido desespero.
"Levaria muito tempo para explicar como eu sei". Trent disse suavemente. "É certo de que não vão querer ouvir
isso, eu acho que vocês terão de confiar em mim. Seu irmão e os outros não estão em perigo imediato, eles não
precisam de companhia agora - mas a oportunidade de pegar o livro de Reston, de entrar no laboratório, se
perderá em menos de uma semana. Ainda, não há sistema de segurança, a maioria dos sistema nem estão
ligados - e ficando longe do programa de teste, não haverá criaturas para se preocuparem".
David não sabia o que pensar. Parecia bom, parecia exatamente a oportunidade que esperavam... mas também
foi assim com Caliban Cove. Com um monte de coisas.
Por confiar no Sr. Trent...
"O que você ganha com isso?". David perguntou. Por que você quer agredir a Umbrella?".
Trent balançou os ombros. Considere isso como um passatempo".
"Eu falo sério". David disse.
"Eu também". Trent sorriu, seus olhos ainda dançando com humor.
"Mas por que você tem sido tão enigmático?". Rebecca perguntou, e David acenou, vendo os outros fazerem o
mesmo. "As coisas que você deu à Jill e à David - todos enigmas e pistas. Por que não nos diz o que precisamos
saber?".
"Porque vocês precisam adivinhar". Trent disse. "Ou melhor, era necessário que vocês parecessem ter
adivinhado. Como eu disse antes, há poucas pessoas que sabem o que a White Umbrella está fazendo; se vocês
parecessem saber demais, poderia cair tudo sobre mim.
"E por que correr o risco agora?". David perguntou. "Por que precisa de nós afinal? Você deve ter alguma
conexão com a White Umbrella; por que não vai à público, ou faz sabotagem?".
"Trent sorriu de novo. "Eu estou correndo o risco porque é hora de correr o risco. Tudo o que posso dizer é que
tenho meus motivos".
Ele fala e fala, e ainda não sabemos o que diabos está fazendo ou por que... como exatamente ele consegue
isso?
"Por que você não nos conta alguns desses motivos, Trent?". John não estava engolindo nada daquilo, David
percebeu; ele franzia para o clandestino, a ponto de querer bater nele.
Trent não respondeu. Ao invés disso, ele se desencostou da poltrona e pegou seu casaco, virando para David.
"Eu acho que vão querer discutir isso depois de fazerem a decisão". Trent disse. "Se me derem licença, eu usarei
essa oportunidade para falar com nosso piloto. Se vocês decidirem não pegar o livro de Reston, eu sairei do
caminho. Eu tinha dito que vocês não tinham escolha, mas foi meu lado dramático aparecendo; sempre há uma
escolha".
Com isso, Trent virou e andou para a cabine do piloto, cruzando as cortinas sem olhar para trás.
[4]
John quebrou o silêncio cerca de dois segundos depois que Trent saiu de lá.
"Pro inferno com isso". Ele disse, parecendo tão bravo como Rebecca nunca o tinha visto antes. "Eu não sei
quanto a vocês, mas eu não estou feliz sendo manipulado desse jeito - eu não estou aqui para ser marionete do
Sr. Trent, eu não confio nele. Eu proponho fazer ele falar sobre a Umbrella, nos contar o que sabe sobre o
pessoal na Europa - e se ele nos der outra resposta negligente, nós chutaremos o traseiro evasivo dele por aquela
porta".
Rebecca sabia que ele estava muito bravo, mas não podia fazer nada. "Sim, John, mas como você se sente, de
verdade?". Ele olhou na direção dela - e sorriu, de alguma forma, aquilo quebrou a tensão de todos eles. Foi como
se todos se lembrassem de respirar ao mesmo tempo, a inesperada visita do misterioso benfeitor tornou difícil
lembrar de algumas coisas por alguns instantes.
"Nós temos o voto de John". David disse. "Claire? Eu sei que está preocupada com Chris...".
Claire acenou devagar. "É, eu quero vê-lo de novo o mais cedo possível...".
"Mas,". David disse.
"Mas - eu acho que ele está dizendo a verdade. Sobre estarem bem".
Leon estava acenando. "Eu também acho. John está certo sobre Trent estar sendo evasivo - mas eu não acho
que esteja mentindo, sobre nada. Ele não disse muito, mas eu não tive a impressão de que ele estava nos
enganando com o que iria dizer".
David virou o olhar. "Rebecca?".
Ela suspirou, balançado a cabeça. "Desculpe, John, mas eu concordo com eles. Eu acho que Trent conseguiu
alguma credibilidade; nos ajudou antes com seu jeito estranho, e o fato de estar aqui, desarmado, significa algo
-".
"- significa que ele é burro". John falou sombriamente, e Rebecca o bateu de leve no braço, percebendo de
repente, intuitivamente, o porquê de John estar tão relutante em aceitar a palavra de Trent.
John não conseguiu intimidá-lo.
Ela estava certa disso, conhecia John o bastante para saber que a indiferença de Trent iria certamente abalar
John.
Escolhendo as palavras cuidadosamente, mantendo a voz suave, Rebecca sorriu para ele. "Eu acho que você
odiou o fato de que ele não se intimidou com a sua grandeza assustadora, John. A maioria das pessoas
molhariam as calças com você se erguendo sobre elas".
Era a coisa certa a se dizer. John franziu pensativamente, depois balançou os ombros. "É, bem, talvez. Mas eu
ainda não confio nele".
"Nenhum de nós devia". David disse. "Ele está escondendo muito de si para alguém que quer nossa ajuda. A
questão é, devemos achar esse Reston ou mantermos o plano original?".
Ninguém falou por um momento e Rebecca viu que ninguém queria responder - para saber se Trent estava
dizendo a verdade, não era preciso ir a Europa. Ela também não queria falar, de alguma forma parecia uma
traição à Jill, Chris e Barry, do tipo "nós achamos algo melhor para fazer ao invés de socorrê-los".
E se eles realmente não precisam de nós...
Rebecca decidiu que é melhor falar primeiro. "Se esse lugar é tão fácil como ele diz... quando teríamos outra
chance como esta?".
Claire mordia o lábio, infeliz. Parecendo rasgada. "Se acharmos aquele livro de códigos, nós teríamos algo para
levar à Europa. Algo que realmente poderia fazer uma diferença".
"Se nós acharmos o livro". John disse, mas ainda formulava a idéia.
"Seria uma reviravolta". David falou suavemente. "Reduziria todos os excedentes contra nós de um milhão para
um, talvez alguns milhares".
"Eu tenho que admitir, seria bom revelar os planos secretos da Umbrella para a imprensa". John disse. "Copiar
todos os seus malditos segredos e imprimi-los em cada jornal do país".
Todos estavam acenando, apesar dela achar que iria demorar um pouco para se acostumar com a idéia.
Rebecca já sabia que a decisão tinha sido feita.
Parece que estavam indo para Utah.
Se todos esperavam que Trent fosse pular de alegria com a decisão, estavam enganados. Quando David o
chamou e disse, que iriam para a zona de testes, Trent só acenou, o mesmo sorriso enigmático em sua estática
face.
"Aqui estão as coordenadas para o local". Trent disse, tirando um papel do bolso da frente. "Há inclusive vários
códigos numéricos listados os quais darão permissão de entrada - apesar de ser difícil achá-la. Sinto não ter me
dedicado mais a isso".
Leon olhou enquanto David pegava o papel, enquanto Trent voltava para contar ao piloto, imaginando por que
não conseguia parar de pensar em Ada. Desde o pequeno discurso sobre a White Umbrella, memórias das
habilidades e beleza de Ada Wong, o eco de sua profunda e abafada voz tem o perseguido. Algo naquele homem
o lembrava dela; talvez a suprema auto-confiança, ou o leve sorriso traiçoeiro -
- e no final, antes daquela mulher maluca atirar nela, eu a acusei de ser uma espiã da Umbrella - e ela negou,
disse que não era de meu interesse para quem trabalhava...
Mesmo tendo entrado um pouco tarde nessa briga, Leon e Claire ouviram o que os outros sabiam sobre a
Umbrella, e que Trent já havia aprontado antes. A única constante - apesar de ser muito evasivo com
informações - era que ele parecia saber de tudo mais do que ninguém.
Não custa perguntar.
Quando Trent voltou, Leon se aproximou dele.
"Sr. Trent,". Disse cautelosamente, olhando-o de perto. "em Raccoon City, eu conheci uma mulher chamada Ada
Wong...".
Trent olhou para ele, suas expressões inalteradas. "Sim?".
"Estava pensando se você não saberia alguma coisa sobre ela, para quem trabalhava. Ela estava procurando
uma amostra do G-virus -".
Trent ergueu as sobrancelhas. "Estava?. E ela conseguiu?".
Leon estudou os escuros olhos dele, imaginando porque achava que Trent já sabia a resposta. Ele não podia,
claro, Ada foi morta antes do laboratório explodir.
"Sim, ela conseguiu". Leon disse. "No final, ela - ela se sacrificou para fazer uma escolha. Entre matar alguém e
perder a amostra".
"E esse alguém era você?". Trent perguntou suavemente. Leon percebeu que os outros estavam olhando e ficou
surpreso por não estar desconfortável. Mesmo um mês atrás, tal conversa pessoal teria sido constrangedora.
"Era". Leon disse, quase desafiador. "Era eu".
Trent acenou devagar, sorrindo um pouco. "Então parece que você não vai precisar saber de mais nada sobre
ela. Sobre sua personalidade ou motivações". Leon não sabia se ele estava evitando a pergunta ou se dizia
honestamente o que pensava - mesmo assim a simples e lógica resposta fez Leon se sentir melhor. Seja qual for
a psicologia que estava usando, Trent era bom.
Ele é suave, culto e assustador pra diabo em seu quieto jeito de ser... Ada teria gostado dele.
"... do quanto gostei de falar com você, mas tenho negócios para tratar com nosso capitão". Trent estava
falando. "Estaremos em Salt Lake em cinco ou seis horas".
Com isso, ele acenou para eles e desapareceu pela cortina de novo.
Leon olhou para os outros em volta, os viu pensativos e desconfortáveis, viu Claire parecendo querer mudar de
idéia.
Leon andou para a poltrona onde ela estava encostada de braços bem cruzados, e tocou seu ombro.
"Pensando em Chris?". Ele perguntou gentilmente.
Para a surpresa de Leon, ela balançou a cabeça, sorrindo tensamente para ele. "Na verdade não, eu estava
pensando na mansão de Spencer, na missão à Caliban Cove e o que acontece em Raccoon. Estava pensando
que não importa o quanto simples Trent diz ser, nada nunca é fácil com a Umbrella. As coisas ficam complicadas
quando ela está envolvida.
Nós já devíamos saber disso...
Ela parou de falar, e balançou a cabeça como se para esquecer, dando outro sorriso ainda mais brilhante. "Ouça!
Eu vou pegar um sanduíche, você quer alguma coisa?".
"Não obrigado". Ele disse, ainda pensando sobre o que ela tinha dito - e imaginando, de repente, se a jornada
para Utah seria o último erro que cometeriam.
Steve Lopez, o bom e velho Steve, seu rosto tão branco e vazio quanto um folha de papel, parado no meio
daquele estranho laboratório, parado e apontando sua semi para eles, dizendo para largarem as armas -
- e a raiva, a dor, a fúria vermelha que acertou John como um furacão ao saber que Karen estava morta, que
Steve tinha se tornado um daqueles soldados zumbis idiotas -
- e John gritou, o que você fez com ele, sem pensar, girando e atirando na vazia criatura atrás deles, a bala
acertando em cheio a *têmpora esquerda e o frio ar fedendo como morte enquanto a criatura caía -
- e dor! Dor rasgando por dentro enquanto Steve, seu amigo e companheiro o baleava pelas costas. John sentiu
sangue nos lábios, sentiu-se virando, sentiu mais dor do que achava que podia. Steve o tinha acertado, o doutor
maluco tinha usado o vírus nele e Steve não era mas Steve, e o mundo estava girando, gritando -
John, John acorde, você está tendo um -
"- um sonho ruim. Ei, grandalhão -".
John se sentou, seus olhos bem abertos e seu coração pulando, sentindo-se desorientado e com medo. A morna
mão em seu braço era de Rebecca, o toque gentil e confortante o fez perceber que estava acordado.
"Droga". Ele resmungou, e encostou no assento, fechando os olhos. Eles ainda estavam no avião, o leve ruído do
motor pondo o resto de sua confusão para dormir.
"Você está bem?". Rebecca perguntou e John acenou, respirando fundo algumas vezes antes de abrir os olhos
de novo.
"Eu - eu gritei ou alguma coisa parecida?".
Rebecca sorriu para ele, olhando-o de perto...
"Não. Acontece que eu estava voltando do banheiro e o vi se contorcendo que nem um coelho. Não parecia que
estava se divertindo... espero não ter interrompido nada bom".
Foi quase uma pergunta. John forçou um sorriso e evitou o assunto, olhando para a janela. "Três sanduíches de
atum antes de dormir foi uma má idéia, acho. Estamos chegando?".
Rebecca acenou. "Estamos começando a descer. Quinze ou vinte minutos, David disse".
Ela ainda o observava, calorosa e preocupada, e John percebeu que estava sendo um idiota. Guardar aquela
besteira para si era um bom motivo para perder a cabeça.
"Eu estava no laboratório". Ele disse, e Rebecca acenou, era tudo o que precisava dizer. Ela também esteve lá.
"Eu tive o mesmo há alguns dias, logo depois de decidirmos sair de Exeter". Ela disse suavemente. "Um bem
nojento. Foi uma espécie de combinação entre coisas da mansão de Spencer e de Caliban".
John acenou, pensando no quanto notável ela era. Havia enfrentado uma casa cheia de monstros da Umbrella
em sua primeira missão no S.T.A.R.S., e ainda decidiu ir com David para vasculhar Caliban.
"Você é de arrebentar, 'becca. Se eu fosse um pouco mais jovem, iria achar que estava apaixonado". Ele disse, e
gostou de ver a envergonhada reação dela. Ela era com certeza muito mais esperta do que ele, mas também
era uma adolescente - e lembrando de sua época, as adolescentes não eram contrárias a ouvir o quanto eram
legais.
"Cala a boca". Ela disse, seu tom de voz o dizendo que tinha conseguido deixá-la envergonhada, e que ela não se
incomodava.
Um momento de confortável silêncio ficou entre os dois, as últimas lembranças do pesadelo sumindo enquanto o
avião descia. Em alguns minutos, eles estarão em Utah. David já tinha sugerido irem para um hotel e começarem
a fazer planos, pois estariam partindo amanhã à noite.
Entrar, pegar o livro e dar o fora. Fácil... exceto por ser o mesmo plano para Caliban.
John decidiu que uma vez no chão, gostaria de falar com Trent. Ele está na missão, de pegar o livro e passar
algumas correntes no trabalho da Umbrella - mas ainda não estava satisfeito com as informações seletivas de
Trent. É, o homem os estava ajudando - mas porque é tão estranho? E porque não disse o que os outros
estavam fazendo na Europa, ou quem comandava a White Umbrella, ou como conseguiu ter seu piloto no vôo
deles?
Deve ser alguma viagem alucinante, não é? Manipulador.
Aquilo não parecia certo, mas John não tinha outros motivos para pensar que Trent era um espião secreto. Se ele
tiver o braço torcido só um pouquinho, talvez pudesse ficar mais acessível...
"John - eu sei que não gosta dele, mas você acha que ele está certo, que vai ser fácil? E se esse Reston não
desistir? Ou se - se algo mais acontecer?".
Ela tentava parecer profissional, sua voz leve e suave, mas o confuso olhar no fundo de seus olhos escuros a
revelou.
Algo mais? Algo como uma contaminação, algo como um cientista maluco, como monstros se libertando. Como o
"algo" que sempre acontece perto da Umbrella...
"Se alguma coisa der errado será o terrível cheiro de Reston quando borrar as calças". Ele disse, e foi novamente
recompensado com um sorriso da jovem.
"Você é um malvado". Ela disse, e John balançou os ombros, vendo o quanto era fácil fazer uma garota sorrir - e
pensando se era bom aumentar as esperanças dela.
Alguns momentos depois, o avião tocou a pista e pela primeira vez o piloto usou o interfone. Ele pediu que
ficassem sentados até o avião parar, sem se preocupar com a baboseira de esperar termos gostado do vôo ou
informar a temperatura; por aquilo John estava agradecido. O pequeno avião andou pela pista finalmente
parando, todos se levantando e se espreguiçando, vestindo seus casacos.
Assim que ele ouviu a porta externa abrir, John passou por Rebecca e foi para a cabine do piloto, determinado a
não deixar Trent sair antes de conversarem. Ele abriu a cortina, uma fria brisa passou pela pequena passagem, e
viu que era tarde demais. O piloto Evans, estava de pé na passagem.
De alguma forma, Trent conseguiu escapar nos poucos segundos que John levou para cruzar o avião. A escada
de metal do lado de fora estava vazia - e mesmo descendo-a em uma batida de coração, não restava mais nada
para ver além da interminável pista de aterrissagem, e ninguém além do homem que abriu a escada. Ao
perguntar sobre Trent, o funcionário do aeroporto insistiu que John foi o primeiro a ter saído do avião.
"Filho da mãe". John falou entre os dentes, mas não importava pois já estavam em Utah. Com ou sem Trent,
eles chegaram - e por ser mais de meia-noite, eles tinham menos de um dia para se aprontar.
[5]
Jay Reston estava feliz. De fato, há muito tempo não se sentia tão feliz, e se soubesse que seria tão bom voltar
à essa atividade, o teria feito anos atrás.
Cuidar de empregados, do tipo que sempre sujam as mãos. Fazer as coisas acontecerem e ver os resultados,
ser parte do processo. Ser mais do que uma simples sombra, mais do que uma escuridão sem nome a ser
temida.
Pensar nessas coisas o fez sentir-se forte e vivo de novo; ele tinha quase 50 anos e mau se sentia na meia
idade, e trabalhar na trincheira de novo o fez perceber o quanto havia perdido nos últimos anos.
Reston sentou na sala de controle, o pulso do planeta, suas mãos atrás da cabeça e sua atenção fixada na
parede de monitores à frente. Em uma das telas, um homem de macacão estava trabalhando numa série de
árvores da Fase Um, colocando mais uma camada de verde. O homem era Tom alguma coisa, da manutenção,
mas o nome não era importante. O importante era que Reston tinha pedido isso pessoalmente na reunião de
manhã.
Em outra tela, Kelly McMalus estava recalibrando o controle de temperatura do deserto, também a pedido de
Reston. McMalus era a responsável chefe do Scorps, pelo menos até a equipe permanente chegar; todos no
planeta eram temporários, uma das mais novas regras da White para evitar sabotagem. Uma vez que tudo
estiver funcionando, os nove técnicos e meia dúzia de cientistas preliminares - glorificados manipuladores de
espécimens na verdade, apesar de nunca tê-los chamado assim diretamente - também serão relocados.
O Planeta. Na verdade, o complexo se chamava "B.O.W. Envirotest A". (Teste ambiental de armas biológicas A),
mas Reston achou que Planeta era um nome muito melhor. Ele não tinha certeza de quem surgiu com esse
nome, mas foi numa das reuniões matutinas e acabou ficando. Referir-se ao campo de teste como Planeta o fez
sentir-se ainda mais parte do processo.
"O vídeo foi ligado hoje, apesar de haverem problemas como os microfones, que ainda não estão funcionando;
cuidarei disso o quanto antes. Os últimos Ma3k chegaram, sem danos a nenhum dos espécimens. No geral, tudo
está indo muito bem, nós esperamos ter o Planeta pronto antes do previsto...".
Reston sorriu, pensando em sua última conversa com Sidney; será que ele percebeu algum toque de inveja na
voz de Sidney, um fio de tristeza? Ele era parte de um "nós" agora, um nós que chamava o Envirotest A por um
apelido. Depois de trinta anos de delegação, ter que supervisionar os toques finais do mais caro e inovador
complexo até agora, foi uma benção de disfarce. E pensar que ficou irritado ao descobrir que o carro de Lewis
caiu de um penhasco; o acidente foi o melhor trabalho que já fez para a Umbrella, porque significava que ele
estaria supervisionando o nascimento do Planeta.
Outro técnico estava cruzando um dos monitores, carregando uma caixa de ferramentas e um rolo de corda.
Cole, Henry Cole, o eletricista que vem trabalhando no intercomunicador e sistemas de vídeo; ele estava no
corredor principal que corria entre os alojamentos e a área de teste, na direção do elevador. Reston percebeu no
dia anterior que as câmeras da superfície estavam com defeito; nenhuma das câmeras do Planeta ainda está
equipada com som, e de vez em quando os monitores do conjunto superior mostravam estática, e Reston pediu
a Cole que checasse -
- mas só depois de terminar com o sistema de comunicação. Como eu vou entrar em contato com as pessoas se
o intercomunicador ainda não funciona?
Até a irritação que sentia pelo técnico era divertida; ao invés de apertar um botão e dizer para algum subordinado
consertar, ele teria que pedir pessoalmente.
Intercomunicador, sistema de vídeo... a ponte na Fase 3 precisa de reforço, as cores da cidade, elas estão muito
monótonas...
Ele andou pela polida sala de controle depois da fileira de cadeiras de couro, tão novas que o cheiro ainda flutuava
pelo filtrado ar. Elas ficavam de frente para a parede coberta de monitores de alta resolução; em menos de um
mês, lá estarão se sentando os melhores pesquisadores, cientistas e administradores que são o coração da White
Umbrella, tal como os dois maiores financistas do programa. Até Sidney e Jackson estarão lá para ver o pontapé
inicial do programa de teste.
E Trent, Reston pensou esperançosamente. Ele certamente não recusaria um convite para a inauguração...
Reston pisou na placa de pressão em frente a pesada porta de metal, a mesma deslizando para cima com um
suave suspiro, e saiu para o largo corredor que corria o comprimento do planeta. A sala de controle não era longe
do elevador industrial, na verdade era quase em frente, mas o eletricista já tinha ido para a superfície. Em uma
semana haverá quatro elevadores operando, mas por enquanto só o industrial. Ele teria que esperar até Cole
desembarcar.
Reston chamou o elevador e esticou as mangas de seu terno, pensando em como conduzirá o tour. Já fazia um
bom tempo desde que Jay Reston teve o prazer de sonhar acordado, mas no pouco tempo de planeta,
pensando no dia em que receberá os outros e os guiará pelo complexo que havia transformado numa ágil
máquina, acabou tornando isso um passatempo. Das poucos que dirigiam a White Umbrella, que faziam as
grandes decisões, ele era o mais jovem a ser aceito no circulo interno - e mesmo Jackson já o ter assegurado de
que era tão valioso quanto qualquer outro, Reston conseguiu perceber em duas ocasiões que era sempre o último
a ser consultado. A ser considerado.
Não antes disso. Não depois de eles virem que mesmo sem uma dúzia de assistentes esperando pela minha
palavra, eu consegui deixar o Planeta pronto e funcionando sem problemas antes do previsto. Eu queria ver
Sidney fazer a metade...
Eles virão à noite, claro, e provavelmente em vários grupos. Os responsáveis pelos espécimens ficarão na entrada
para recebê-los e levá-los aos elevadores (os novos, não a monstruosidade imunda que estava esperando); na
descida, os visitantes ouvirão tudo sobre a eficiência e elegância dos dormitórios, o sistema de filtros de ar
auto-contidos, a ala cirúrgica - tudo o que fazia do Planeta a mais brilhante inovação. Do elevador, ele os levará
para a sala de controle e explicará os ambientes e a atual série de espécimens, oito de cada. Depois os levará
para o norte, na direção do começo do campo de teste.
Andaremos pelas quatro fases, depois veremos a sala de autópsia e o laboratório químico. Nós teremos que parar
e dar uma olhada no Fóssil, claro, e depois pela área de convivência - onde haverá café e aperitivos, sanduíches
talvez - e depois circular de volta à sala de controle para observar os primeiros testes. Só espécimen contra
espécimen, claro - experimentação humana deprimiria um pouco as coisas...
Um suave tom trouxe sua atenção de volta para a realidade, anunciando a chegada do elevador. A porta abriu, o
portão deslizou e Reston entrou na grande caixa, a plataforma de aço reforçado fazendo barulho sob seus pés.
Poeira soprou do metal, caindo sobre o lustroso brilho de seus sapatos.
Reston suspirou, apertando os botões que o levariam para a superfície, pensando em tudo o que teve que fazer
desde que chegou ao Planeta há dez dias. - As coisas estavam indo, mas nunca percebeu quantas
inconveniências um tinha que sofrer para tornar um lugar desse operacional - as refeições mornas e indiferentes,
a constante necessidade de prestar atenção em cada pequeno detalhe sem falar no pó; por toda parte, finas
camadas nos cabelos e roupas, entupindo os filtros... até na sala de controle. Ele teve que tomar todos os tipos
de precaução para evitar o pó no terminal central. Ele tinha que trabalhar com três programadores diferentes para
ter o computador central funcionando, mais uma das precauções da Umbrella para evitar que alguém saiba
demais; mas se o sistema cair...
Reston suspirou, batendo no pequeno e fino quadrado em seu bolso enquanto o elevador subia suavemente. Ele
tinha os códigos; se o sistema caísse, só teria que chamar novos programadores. Um contratempo, longe de um
desastre. Raccoon City, isso sim foi um desastre - mais razões para querermos que tudo corra bem com o
Planeta.
Nós precisamos. Depois do verão que tivemos, a contaminação, aqueles S.T.A.R.S. intrometidos, a perda de
Birkin - uma ação que resultou na perda de seu principal cientista e cerca de um bilhão de dólares em
equipamento, espaço e mão de obra. Não foi culpa dele, claro, ninguém o culpou - mas foi um péssimo verão
para todos eles, e tendo o Envirotest A funcionando acalmaria bastante as coisas.
Ele pensou no que Trent disse, um pouco antes de Reston partir para o Planeta - desde que não percamos a
cabeça, não havia com o que se preocupar. É um conselho calmante, mas ouvindo isso de Trent fez parecer
uma verdade. Engraçado; eles trouxeram Trent para resolver problemas, e em menos de seis meses ele se
tornou um dos membros mais respeitados do círculo. Nada abalava Trent, ele era frio; eles tinham sorte em tê-lo,
particularmente considerando a recente onda de azar.
O elevador parou e Reston arrumou os ombros, preparando-se para redirecionar os esforços do Sr. Cole - e só o
pensamento de fazê-lo pular o fez sorrir, pondo as outras preocupações de lado.
É só um zé ninguém operário, pensou feliz, e andou para cuidar dos negócios.
[6]
Havia uma meia-lua no claro céu noturno, sua pálida luz azul cruzando a vasta e aberta planície, fazendo parecer
mais frio do que estava.
E já estava bem frio, Claire pensou, tremendo apesar do aquecedor. Era outra minivan, e mesmo com três se
mexendo lá atrás, checando armas e carregando clipes, não pareciam estar gerando o mínimo de calor para
evitar o ar gelado que vinha da fina camada de metal.
"Você tem os 380?". John perguntou para Leon, que passou a caixa de munição antes de voltar a encher as
bolsas de amarrar na perna. David dirigia e Rebecca os localizava no GPS. Se as coordenadas de Trent estiverem
certas, já estavam bem perto.
Claire olhou para a pálida paisagem passando pela empoeirada estrada, os intermináveis quilômetros de nada sob
o céu aberto, e tremeu de novo. Era um lugar árido e abandonado, a estrada que estavam nada mais que um
caminho de terra sem destino algum; perfeito para a Umbrella.
O plano era simples. Deixar a van a uns 600 metros das coordenadas de Trent, armar-se com todas as armas
que tinham, entrar no complexo o mais silenciosamente possível...
"...acharemos o painel da senha, digitá-la, e entrar,". David tinha dito. "logo depois que escurecer. Com alguma
sorte, a maioria dos funcionários estarão dormindo; é só achar os alojamentos e confiná-los. Depois iremos atrás
do livro do Sr. Reston. Se nós não o acharmos em, digamos, vinte-minutos, teremos que perguntar pessoalmente
- como última tentativa
para evitar comprometer Trent. De livro nas mãos, nós voltaremos por onde viemos. Perguntas?".
A sessão de planejamento no hotel fez isso parecer fácil demais - e com as poucas informações que tinham, as
perguntas também foram poucas.
Agora, dirigindo por uma vastidão interminável e gelada, e tentando se preparar psicologicamente, não parecia
mais tão simples. Era assustador, ir a um lugar que ninguém havia estado antes para procurar um item do
tamanho de um livro de bolso.
E mais, é a Umbrella, e teremos que intimidar um bando de técnicos e possivelmente ter que bater num dos
grandões.
Pelo menos eles estavam bem armados; afinal, tinham aprenderam algo sobre lidar com a Umbrella - que levar
um pouco de fogo não era uma má idéia. Além das pistolas 9mm e múltiplos clipes para cada um, eles tinham
dois rifles automáticos M-16 A1 - um para John e outro para David - e seis granadas de fragmentação. Por
precaução, David disse.
Em caso de tudo dar errado. Em caso de nós termos que explodir alguma criatura bizarra assassina - ou centenas
delas...
"Frio?". Leon perguntou.
Claire virou-se da janela. Ele tinha terminado com as bolsas, e estava segurando uma para ela. Ela pegou,
acenando em resposta. "E você, não?".
Ele balançou a cabeça, sorrindo. "Roupa de baixo térmica. Podia ter usado uma dessas em Raccoon...".
Claire sorriu. "Você!? Eu estava correndo de shorts, pelo menos você tinha seu uniforme".
"Que já estava coberto de tripas de jacaré na metade do caminho dos esgotos". Ele disse, e ela ficou grata por
ele ter feito disso uma piada.
Ele está melhorando, nós estamos.
"Agora, crianças,". John disse severamente. "Se vocês não pararem, nós daremos meia volta -".
"Diminua". Rebecca disse lá da frente, sua quieta voz calando-os. David soltou o acelerador, a van diminuindo
para um engatinhar.
Parece - que está a 600 metros a sudeste de nossa posição atual". Rebecca disse.
Claire respirou fundo, viu John pegar um dos rifles e Leon apertar os lábios numa fria linha enquanto David parava
a van. Era hora. John abriu a porta lateral, o ar gelado e seco.
"Espero que tenham café". John suspirou e saltou da van, virando para pegar sua mochila. Rebecca carregou
alguns suprimentos médicos, e enquanto ela e David desciam, Leon tocou o ombro de Claire.
"Você está afim de fazer isso?". Ele perguntou suavemente, e Claire sorriu para dentro, pensando no quanto doce
ele era; ela esteve pensando em perguntar o mesmo. Nos dias desde Raccoon, eles ficaram bem próximos - e
apesar de não ter tido certeza, ela percebeu alguns sinais de que Leon não se importava em se aproximar. Ela
ainda não sabia se era uma boa idéia -
- e agora não é hora para decidir. O quanto antes pegarmos esse livro, o mais cedo iremos para a Europa. Para
Chris.
"Vou estar". Ela disse e Leon acenou, os dois descendo da van para se juntarem aos outros.
David colocou John na retaguarda e ficou sozinho na frente, forçando todos os pensamentos negativos para fora
da mente enquanto marchavam para onde Trent disse que o local estaria. Não era fácil; eles estavam
despreparados com menos de um dia de planejamento, sem mapas, sem noção de como Reston era, ou que
tipo de segurança estariam enfrentando -
- a lista não tinha fim, não é, e eu ainda estou levando eles. Caso tenhamos sucesso, eu posso me aposentar. A
Umbrella ficará tão bem quanto morta e ninguém jamais precisará de mim de novo.
Esse foi um pensamento que guardou consigo; uma pacífica aposentadoria. Quando os monstros por trás da
White Umbrella forem levados à justiça, ele só se preocupará em comer e tomar banho...
"Eu acho - virar à esquerda alguns graus". Rebecca disse lá de trás, trazendo-o sua atenção de volta. Ela tinha
cochichado, mas a noite estava tão fria e frágil, o ar tão perfeitamente parado que cada passo dado e cada
respiração parecia inundar o mundo.
David os guiou pelo escuro, desejando poderem usar as lanternas; já devem estar bem perto. Mesmo vestidos
de preto, ele estava preocupado em serem pegos antes de entrar - seja lá o que isso significaria; Trent não nos
deu idéia de como o lugar seria. Mesmo assim, com quase meia-lua no céu, ninguém os veria até estarem bem
debaixo do nariz deles -
Ali.
Um engrossamento de sombra bem à frente. David ergueu a mão, diminuindo os outros enquanto se
aproximavam, enquanto via um telhado metálico refletindo a luz lunar. Aí viu a cerca, e depois um monte de
construções, todas escuras e quietas.
David passou a andar agachado, acenando para os outros o seguirem, apertando o rifle automático contra o
peito. Eles chegaram perto o bastante para ver o grupo de altas estrutura térreas atrás da cerca.
Cinco, seis galpões, sem luz nem movimento - uma fachada falsa com certeza...
"Subterrâneo". Rebecca cochichou, e David acenou. Provavelmente, eles discutiram várias possibilidades e essa
parecia o mais comum. Mesmo com a pálida luz, ele pode ver que os prédios eram velhos e sujos. Havia uma
estrutura um pouco à frente dos cinco longos e alinhados galpões, todos com telhado arredondado. Era grande o
bastante para ser algum campo de teste, os galpões maiores tão grandes quanto hangares de aviões, mas o
local onde estava - sozinho no meio de um vasto deserto - velhos do jeito que eram, tinha que ser sob a terra.
Bom e ruim. Bom porque poderiam invadir o lugar sem muitos problemas; ruim porque só Deus sabe que tipo de
sistema de vigilância eles tinham. O jeito era entrar rápido.
David virou, ainda agachado, e olhou para a equipe.
"Nós vamos ter que acelerar". Disse suavemente. "e ficar abaixados. Subimos a cerca na mesma ordem - eu na
ponta, John na retaguarda. Nós temos que achar a entrada o mais rápido possível. Cuidado com câmeras e
estejam todos armados ao pisarem do outro lado".
Acenos para todo lado, faces apreensivas. David virou e foi para a cerca, cabeça para baixo, músculos apertados
e tensos. Vinte metros, o ar batendo em seus pulmões, congelando o leve suor em sua pele. Dez metros. Cinco,
e pode-se ver os avisos de "Não Ultrapasse" presos na cerca. Quando chegaram no portão, David viu a placa
dizendo que eles estavam em área particular usada pelo "Monitoramento e Mapeamento Meteorológico #7". Ele
olhou para cima e viu as silhuetas arredondadas do que deveriam ser antenas de satélite em dois dos galpões.
David tocou a cerca com o cano da M-16 e depois com a mão. Nada, e também não havia arame farpado, nem
sensores.
É óbvio, nenhuma estação meteorológica teria isso; a Umbrella é tão precavida com suas fachadas do que com
qualquer outra coisa.
Ele pendurou o rifle no ombro, agarrou o grosso arame e subiu. Eram só dois metros; foi para o topo em cinco
segundos, passou para outro lado e pulou no arenoso chão do complexo.
Rebecca foi depois, escalando rapidamente e com facilidade. David se ergueu para ajudá-la, mas ela aterrissou ao
lado dele sem perder o equilíbrio. Ela sacou sua H&K VP70, e virou para cobrir a escuridão enquanto David olhava
para a cerca.
Leon quase caiu lá de cima, mas David o ajudou, agarrando seu braço ao descer. Leon acenou para David que foi
ajudar Claire.
Até agora, tudo bem...
David varreu as sombras em volta deles enquanto John subia pelo lado de fora, seu coração pulando, todos os
sentidos alertas. Não havia som exceto o balançar da cerca sob a escuridão.
Ele olhou para trás quando John voltou para o chão, depois acenou na direção da estrutura da frente, a menor.
Se ele fosse projetar uma falsa camuflagem, ele esconderia a entrada num lugar que ninguém fosse procurar -
num armário de vassouras nos fundos do último galpão, através de um alçapão na sujeira - mas a Umbrella era
convencida, muito presunçosa para se preocupar com simples precauções
Vai estar no primeiro prédio, porque eles acreditam que a esconderam tão bem que ninguém a encontrará.
Porque se tem uma coisa que podemos contar, é que a Umbrella se acha muito esperta para ser pega...
Assim esperava. Abaixado, David foi para o prédio, rezando para que se houvessem câmeras, ninguém as
estivesse vendo.
Era tarde, mas Reston não estava cansado. Ele sentou na sala de controle, tomando pequenos goles de
conhaque numa caneca de cerâmica e pensando preguiçosamente na agenda de amanhã.
Ele fará seu relatório, claro; Cole ainda não tinha começado o sistema de comunicação, apesar de todas as
câmeras parecerem funcionar direito; o responsável pelos Ca6, Les Duvall, queria um mecânico para verificar uma
trava da jaula - e ainda tinha a cidade. Os Ma3K não brilhariam exatamente se as únicas cores forem bronze e
vermelho tijolo.
.. mandar o pessoal da construção para a Quatro amanhã. E ver como os Av1 se comportam nos poleiros -
Uma luz vermelha piscou no painel à sua frente, junto com um suave alarme. Era a sexta ou sétima vez desde a
semana passada; tinha que mandar Cole consertar isso também. A ventania lá em cima podia ser um problema
também; num dia ruim ela bate as portas dos galpões forte o bastante para disparar os sensores.
Ainda bem que estou aqui... quando o Planeta estiver totalmente funcional, sempre haverá alguém na sala de
controle para reiniciar os sensores, mas por enquanto, Reston era o único com acesso à sala. Se ele estivesse na
cama, o suave e insistente alarme o teria forçado a se levantar.
Reston esticou-se para o botão, olhando para a fileira de monitores à sua esquerda, não por esperar ver alguma
coisa, mais sim por uma questão de postura -
- e congelou, olhando para a tela que mostrava a sala de entrada a quase 400 metros acima, na visão de uma
câmera no teto do canto sudeste. Quatro, cinco pessoas, ligando lanternas, todos de preto. Os finos raios de luz
vagavam pelos consoles empoeirados, nas paredes de equipamentos meteorológicos - e iluminaram as armas que
seguravam. Revólveres e rifles.
Ah, não.
Reston sentiu quase um segundo de medo e desespero antes de lembrar quem ele era. Jay Reston não se
tornaria o homem mais poderosos do país, talvez do mundo, entrando em pânico.
Pegou o aparelho debaixo do console que o conectaria com os escritórios particulares da White Umbrella. O canal
abre assim que o tirado do gancho.
"Aqui é Reston". Ele disse, e pode ouvir a frieza em sua voz, ouvi-la e senti-la. "Nós temos um problema. Eu
quero uma ligação para Trent, eu quero que Jackson me ligue imediatamente - e enviem uma equipe agora, eu a
queria aqui para vinte minutos atrás".
Ele olhou para a tela enquanto falava, para os intrusos, e apertou os dentes, seu medo inicial virando raiva. Os
S.T.A.R.S. fugitivos com certeza...
Não importava. Mesmo se encontrarem a entrada, eles não tinham os códigos - e seja lá quem eram, iriam
pagar por tê-lo causado um segundo de aflição.
Reston colocou o comunicador de volta no suporte, cruzou os braços e olhou os estranhos movendo-se
silenciosamente pela tela, imaginando se eles sabiam que estariam mortos em meia-hora.
[7]
O galpão era frio e escuro, e havia um leve hum maquinário funcionando para quebrar o silêncio, além do pulsar
de seus corações.
Não era muito grande, talvez 9m por 6, o suficiente para dar insegurança e vulnerabilidade. Pequenas luzes
piscavam aleatoriamente por lá, como dezenas de olhos observando-os.
Cara, odeio isso.
Rebecca mirou a fina luz de sua lanterna na parede oeste, procurando algo fora do comum e tentando não ficar
enjoada. Nos filmes, detetives particulares e policiais que invadem lugares, sempre andam calmamente,
procurando evidências como se morassem no lugar; na vida real, invadir lugares que não deveria era
aterrorizante. Ela sabia que tinham o direito, de que eram os mocinhos, mas ainda assim suas mãos suavam, seu
coração martelava e desejava desesperadamente que houvesse um banheiro o qual pudesse usar. Sua bexiga
parecia ter encolhido para o tamanho de uma noz.
Eu vou ter que esperar a não ser que queira molhar território inimigo... Rebecca não queria.
Ela se curvou para olhar de perto a máquina à sua frente, um aparelho do tamanho de uma geladeira coberto de
botões; uma etiqueta na frente dizia "OGO Relay", seja lá o que for. Até onde podia dizer, a sala estava cheia de
máquinas barulhentas cobertas de botões; se os outros galpões forem iguais a este, levará uma noite inteira para
achar o painel oculto de Trent.
Cada um ficou com uma parede e John foi verificar as mesas no centro. Havia provavelmente uma câmera de
segurança em algum lugar, deixando- os mais apressados - eles esperavam que os poucos empregados
significassem que ninguém estaria olhando. Se tiverem muita sorte, o sistema de segurança ainda nem estaria
conectado.
Não, isso seria um milagre. Sorte seria se entrássemos e saíssemos vivos e ilesos, com ou sem aquele livro...
Desde que saíram da van, os alarmes internos de Rebecca vem tocando até dar nos nervos. No pouco tempo
com os S.T.A.R.S., ela aprendeu que confiar na intuição era importante, talvez mais importante do que uma
arma; o instinto diz às pessoas para fugir de balas, para se esconder quando o inimigo está próximo e a saber
quando esperar para agir.
O problema é, como você sabe se é instinto ou se está se borrando de medo? Ela não sabia. Só sabia que não
se sentia bem; estava gelada e agitada, seu estômago sentindo a ansiedade e não recusava a crença de que
algo ruim iria acontecer.
Por outro lado, ela deveria estar assustada - eles todos deveriam; o que faziam era perigoso. Algo ruim poderia
acontecer e não é paranóia, é realidade -
- olá. O que foi aquilo?
Bem à direita da máquina OGO tinha algo que parecia ser um aquecedor de água, um aparelho alto e cilíndrico
com uma pequena janela de vidro na frente. Embaixo dela tinha uma bobina de papel diagramado, cheio de linhas
pretas, nada familiar - o que chamou sua atenção foi a poeira no vidro. Era a mesma fina poeira que parecia
cobrir tudo na sala... mas com uma exceção. Havia um rastro no pó, uma camada de névoa que podia ter sido
feita pelo dedo de alguém.
Um rastro na poeira?
Se alguém tivesse passado o dedo no vidro, teria limpado o caminho por completo. Rebecca tocou o corpo da
máquina, franzindo - e sentiu a granulação da superfície da poeira, minúsculos grãos sob seus dedos. Era pintado,
talvez com um spray - a poeira era falsa.
"Deve ter algo". Ela cochichou, e tocou a janela onde estava a mancha. A janela abriu estalando, abanando para
fora -
- e havia um brilhante quadrado de metal lá dentro, dez teclas num painel completamente sem poeira; o papel
também era falso, apenas uma parte do vidro.
"Bingo". John sussurrou atrás dela, e Rebecca recuou, sentindo uma descarga de empolgação enquanto os
outros se aproximavam, sentindo a tensão de cada um. A junção de suas respirações fez uma pequena nuvem
na congelante sala, lembrando-a do frio que sentia.
Tá frio demais... nós devíamos voltar para a van, voltar para o hotel e tomar um banho quente... ela podia ouvir
o desespero em sua voz interna. Não era o frio, era aquele lugar.
"Brilhante". David disse suavemente, e deu um passo adiante, erguendo sua lanterna. Ele tinha memorizado os
códigos de Trent, onze ao todo, cada um com oito dígitos.
"Vai ser o último, aposto". John cochichou. Rebecca teria rido se não estivesse tão assustada.
John se calou quando viram David digitar os primeiros números, Rebecca pensando que não ficaria tão
desapontada se não funcionassem.
Jackson tinha ligado, sua fria e culta voz informando Reston que dois times de quatro homens haviam decolado
de helicóptero de Salt Lake City e estavam a caminho. "Acontece que o nosso departamento estava entretendo
algumas das tropas". Jackson havia dito.. "Nós temos que agradecer Trent por isso; ele sugeriu que
recolocássemos antecipadamente uma parte de nossa segurança para a grande inauguração, tal como para o
pronunciamento".
Reston ficou feliz em ouvir isso, mas nem tanto. O fato de haver três homens armados e duas mulheres fuçando
a entrada do Planeta no meio da noite -
"Eles não conseguirão entrar, Jay". Jackson tinha mudado de assunto, gentilmente. "Eles não tem acesso".
Reston acabou agradecendo-o ao invés de dar suas instintivas e grosseiras respostas. Jackson Cortlandt era o
mais protetor e arrogante filho da mãe que já havia conhecido, mas também era extremamente competente - e
selvagem se precisasse ser; o último homem que cruzou o caminho de Jackson voltou em pedaços para a família
através do correio. Dizer "de jeito nenhum" para ele era pedir para pular de um prédio.
Jackson deixou bem claro, que embora tenha apreciado a ligação, seria melhor se Jay lidasse sozinho com
situações como essa no futuro - se Reston tivesse se preocupado em avaliar os procedimentos internos, teria
descoberto sobre as equipes em Salt Lake City. Não houve nenhum tapa explicito, mas Reston entendeu o
recado; ele desligou o telefone sentindo-se severamente espancado; observar os cinco invasores só o deu mais
nervosismo.
Sem códigos, sem acesso, mesmo se acharem os controles.
Vinte minutos. Tudo o que ele tinha a fazer era esperar vinte minutos, meia-hora lá fora. Reston respirou fundo e
exalou vagarosamente -
- e esqueceu de inalar de novo quando viu um deles, uma garota, abrindo a janela do painel. Eles acharam, e ele
ainda não sabia quem eram e como sabiam sobre o Planeta - e o jeito como um dos homens avançou sobre o
painel e começou a teclar, mostrou que vinte minutos era tempo demais para esperar.
Ele está chutando números aleatoriamente, não é possível -
Reston observou o alto homem de cabelos escuros continuando a digitar números, e pensou no que Trent havia
dito na última reunião. Que a White Umbrella podia sofrer vazão de informações.
Vazão de algum superior, alguém que pode saber os códigos de entrada.
Ele foi para o telefone de novo e parou, o súbito aviso de Jackson fazendo-o suar de leve. Ele tinha que cuidar
disso, tinha que impedi-los de entrar, mas todos estavam dormindo e não havia interfone. Reston tinha uma arma
em seu quarto mas se eles tiverem a senha, ele não terá tempo de -
- desativar.
Reston virou-se do monitor e correu para a porta, chutando si mesmo para fora da sala de controle. Havia um
botão manual de desligamento escondido num painel próximo ao elevador, podendo manter o elevador lá embaixo
mesmo se os intrusos tiverem os números -
- e as equipes virão coletar nosso pequeno pacote de invasores, eu terei que lidar com isso.
Ele sorriu, um sorriso totalmente sem humor, e correu em disparada.
Leon observava ansiosamente enquanto David digitava outra seqüência de números, esperando que ainda não
tivessem sido detectados. Ele não viu nenhuma câmera, mas isso não significava que não houvesse uma; se a
Umbrella consegue construir laboratórios subterrâneos gigantes, conseguiria também esconder uma câmera de
vídeo.
David apertou a última tecla - e houve um som e movimento juntos, o baixo hiss de hidráulica e o distante hum
de um motor. Um pedaço enorme da parede à direita do painel deslizou para cima. Todos ergueram suas armas
- e as abaixaram depois que viram a grossa grade de metal e o preto vazio do poço de elevador atrás.
"Nossa". John disse, um tom de admiração em sua voz que Leon tinha de concordar. A seção da parede tinha
uns três metros de comprimento, grossa e cheia de maquinários, desaparecendo no teto em questão de
segundos. Seja lá qual for o mecanismo, devia ser extremamente poderoso.
"O que foi aquilo?". Rebecca sussurrou, e Leon o ouviu um segundo depois, um distante hum. Aparentemente o
código também chamava o elevador, o crescente eco na fria escuridão do poço. Estava subindo rápido, mas
ainda seria uma longa descida. Leon imaginou, não pela primeira vez, como a Umbrella conseguiu construir algo
assim; o de Raccoon também era enorme, com sabe lá quantos pavimentos, tudo sob a cidade.
Eles devem ter mais dinheiro que Deus. E um baita arquiteto, também.
"Nós devemos ter acionado algum sistema de alerta ou alarme". David disse baixo. "Pode não estar vazio".
Leon acenou como todos; eles estavam quietos e tensos enquanto esperavam, John apontando seu rifle para a
grade.
***
Reston achou o liso painel e o abriu sem mais problemas -
- mas havia uma trava no botão, uma fina haste de metal enganchada no topo, impedindo-o de ser puxado para
baixo. Só de ver a trava, lembrou que era mais uma das precauções da Umbrella, uma que de repente pareceu
monumentalmente idiota.
As chaves, todos os empregados as tinham, eu ganhei um molho antes de vir -
Reston correu sua mãos pelo cabelo, vasculhando seu cérebro desesperadamente. Onde eu coloquei as malditas
chaves de segurança?
Quando ouviu o elevador ser chamado à superfície alguns segundos atrás, fez tudo o que pode para não gritar.
Eles tinham o código. Eles tinham armas, eram em cinco e tinham os códigos.
Leva dois minutos para subir, eu ainda tenho tempo e as chaves estão -
Deu branco. Sua mente estava vazia e os segundos estavam passando. Ele já chamou o elevador de volta, mas
não voltará se alguém abrir a grade lá em cima. Até onde sabia, os assassinos, sabotadores ou seja lá o que
eram, já tinham aberto a grade e estavam olhando o elevador subir, esperando -
- ou talvez jogando alguns quilos de explosivos no poço - ou -
- controle, eles estão no controle!
Reston virou e correu pelo largo corredor, virando à direita e correndo mais três metros pela bifurcação. Em seu
primeiro dia no Planeta, um dos construtores o mostrou todas as travas internas - geradores, armário de
remédios na cirurgia... desligamento manual do elevador. Ele bocejou o tempo todo durante o passeio e jogou as
chaves numa gaveta da sala de controle, sabendo que não precisaria delas.
Reston correu pela porta, decidindo que depois se daria uma bronca por ter esquecido as chaves, pensando em
como as coisas fugiram do controle num período tão curto de tempo. Há dez minutos estava degustando
conhaque e relaxando -
- e daqui a dez minutos você poderá estar morto.
Reston se apressou.
O elevador era grande, pelo menos três metros de largura por uns três e meio de profundidade. John apertou os
olhos quando surgiu. A brilhante luz da única lâmpada no teto quase cegando-os depois de tanto tempo no
escuro.
Pelo menos está vazio. Agora tudo o que temos que fazer é evitar sermos emboscados e mortos ao chegarmos
lá embaixo.
O elevador parou suavemente. A trava destrancou e a grade deslizou para dentro da parede. John estava mais
perto. Ele olhou para David, que acenou para ir em frente.
"Primeiro piso, sapatos, roupas masculinas e imbecis da Umbrella". John disse, não se incomodando por não ter
ouvido risadas. Todos têm seu próprio modo de lidar com o nervosismo. E seu senso de humor era bem mais
desenvolvido.
E evoluído demais para eles, pensou, examinando as paredes do elevador em busca de algo incomum. Bom,
talvez não seja muito evoluído; eles só não apreciavam seu bom gosto. Ele se manteve entretido, isso era o
importante, algo que o impedia de virar um cubo de gelo.
O elevador parecia normal, sujo, porém sólido. John entrou com cuidado, Leon atrás -
- e de repente John ouviu um barulho, bem na hora que uma luz vermelha começou a piscar no painel de
comando do elevador.
"Não se mexam". John disse, erguendo a mão, não querendo que ninguém mais entrasse até descobrir o que
significava a luz -
- e a grade de metal fechou atrás dele, a trava trancando. Ele girou, viu que Leon estava à bordo, viu Claire e
Rebecca agarrando a grade do lado de fora e David correndo para o painel.
Houve um clique vindo de cima e Leon, que estava mais perto da grade, gritou para Claire e Rebecca -
"Afastem-se!".
- pois a porta estava descendo, caindo, e as garotas recuando. John viu num piscar de olhos suas faces pálidas e
chocadas lá fora -
- e a parede fechou, mesmo não tendo apertado nada o elevador começou a descer. John correu para os
controles, apertando todos os botões até ver o que significava a luz vermelha.
"Desligamento manual". Ele disse, olhando para o jovem policial sem saber o que dizer. O simples plano tinha
acabado de ir pro espaço.
"Porcaria". Leon disse, e John acenou, concordando que isso resumia tudo.
[8]
"Droga". Claire apertou os dentes, sentindo-se desprotegida e com medo, querendo bater na parede até soltar os
amigos.
Era uma armadilha, uma armação -
"Ouçam... está descendo". Rebecca disse, e Claire também ouviu. Ela virou e viu David teclando no painel com
uma mão, lanterna na outra, seu rosto apertado.
"David". Claire começou, e parou quando David a olhou rapidamente, como se pedisse para esperar. Ele mau
parou de digitar, voltando toda sua atenção para os controles.
Ela virou para Rebecca, viu que mordia o lábio tensamente, olhando David.
"Deve estar tentando todos os códigos". Ela cochichou para Claire, e a mesma acenou, enjoada e preocupada,
querendo falar mas vendo que David precisava de concentração. Comprometendo-se, Claire se inclinou e
sussurrou com Rebecca; se ficasse parada, quieta no escuro, iria perder a cabeça.
"Acha que foi Trent?".
Rebecca franziu e balançou a cabeça. "Não. Acho acionamos um alarme silencioso ou algo assim. Eu vi uma luz
piscar no elevador antes da grade fechar".
Rebecca soou tão assustada quanto estava, Claire pensou no quanto tinha se aproximado de John. Talvez tanto
quanto de Leon. Claire instintivamente agarrou a mão de Rebecca, esfregando-a fortemente, ambas observando
David.
Vamos, um deles tem que abri-la, trazê-los de volta...
Alguns tensos segundos se passaram e David parou de teclar. Ele apontou a lanterna para cima, o reflexo
suficiente para se enxergarem.
"Parece que os números não funcionam se o elevador estiver em uso". Ele disse. Sua voz estava calma, mas
Claire podia ver seus dentes bem apertados, os músculos de seu rosto contraindo.
"Depois eu tento de novo, e de novo - sendo que alguém mais pode ter acesso aos controles do elevador,
deveríamos considerar outras opções. Rebecca - procure alguma câmera, veja os cantos e o teto; se formos
ficar aqui, precisaremos de privacidade. Claire, veja se pode achar alguma ferramenta que possamos usar na
parede - pé de cabra, chave de fenda. Se os códigos não funcionarem, forçaremos a entrada. Perguntas?".
"Não". Rebecca disse, e Claire balançou a cabeça.
"Bom. Respirem fundo e comecem".
David voltou para o painel e Rebecca foi para o canto da sala, apontando a lanterna para o teto. Claire respirou
fundo e virou, olhando para a mesa empoeirada no centro da sala.
Havia gavetas em cada lado; ela abriu a primeira, revirando papéis e pensando que David era realmente bom sob
pressão.
Pé de cabra, chave de fenda, qualquer coisa... tome cuidado, por favor, não seja morta...
Claire forçou para respirar fundo outra vez; e depois abriu a próxima gaveta, continuando sua busca.
John assumiu e Leon ficou muito feliz por segui-lo. Ele pode ter sobrevivido em Raccoon, mas o ex-S.T.A.R.S.
esteve dentro e fora de situações de combate por mais ou menos nove anos; ele venceu.
"Abaixe-se". John disse, já fazendo o mesmo, e depois deitou de bruços, armando a M-16. "Se for uma
emboscada, eles vão mirar alto quando a porta abrir; aí nós acertamos os joelhos deles".
Leon se deitou ao lado dele, apoiando o braço direito com a mão esquerda, sua 9mm apontada sem alvo para a
porta. Lá fora, o escuro passava, nada para ver além do poço com armação de metal. "E se não for?".
"Levante-se e pegue a direita, eu pego a esquerda, fique aqui se puder. Se estiver mirando numa parede, vire-se
e atire baixo".
John o olhou - incrivelmente, um largo sorriso se espalhou por seu rosto. "Pense na diversão que eles perderam.
Nós vamos transformar alguns caras da Umbrella em porcaria, e eles estão presos no escuro com frio sem nada
pra fazer".
Leon estava um pouco tenso para sorrir apesar de ter feito força. "É, algumas pessoas ficam com toda a sorte".
John balançou a cabeça, seu sorriso sumindo. "Nada para fazermos além de ir à luta". Ele disse e Leon acenou,
engolindo.
John pode ser louco, mas estava certo. Eles estavam onde estavam, pensar o contrário não mudaria nada.
Mas não custa tentar. Cristo, eu queria nunca ter pisado nessa coisa.
O elevador continuou descendo e ambos se calaram, esperando. Leon estava grato por John não ser do tipo
falante; ele gostava de fazer piadas mas levava à sério situações perigosas. Leon o viu respirando fundo, olhando
para a M-16, preparando-se para o que iria acontecer.
Leon respirou fundo algumas vezes, tentando relaxar com a cabeça abaixada -
- e o elevador parou. Houve um leve ping, um som, e a grade estava se movendo, sumindo na parede. A porta
interna sem janela ergueu-se ao mesmo tempo, uma luz suave vazando por ela -
- e não havia ninguém. Uma polida parede de concreto a seis metros de distância, um polido chão de concreto.
Um vazio cinza.
Levante, vamos!
Leon saltou do chão, seu coração rápido demais, John calado e de pé mais rápido ainda. Um rápido olhar entre
eles e ambos deram um passo para fora, Leon girando sua VP70 para a direita, pronto para atirar -
- e nada de novo. Um largo corredor que parecia ter um quilômetro de comprimento, um suave e misturado
cheiro de desinfetante com ar frio. Frio, mas nem tanto. Se comparado com a superfície, lá embaixo parecia
verão. O corredor devia ter uns cento e trinta metros, talvez mais; havia alguns corredores perpendiculares,
luminárias circulares no teto espaçadas em intervalos regulares, e nenhuma sinalização - e nenhum sinal de vida,
também.
Então quem nos trouxe para baixo? E porque, já que não pretendiam nos receber com algumas balas?
"Talvez estejam todos jogando bingo". John disse baixo, e Leon olhou para trás, viu que exceto pela disposição
dos corredores laterais, seu lado era igual ao de John. E tão vazio quanto.
Os dois voltaram para o elevador. John alcançou os controles, apertou "subir" e nada aconteceu.
"O que foi agora?". Leon perguntou.
"Não pergunte para mim, o cérebro de David não está aqui", John disse. "Eu me pareço com ele?".
"Meu Deus, John". Leon disse frustrado. "Você é o mais velho agora; me dá um tempo, tá bom?".
John deu com os ombros. "Certo. Veja o que eu acho. Talvez não foi uma armadilha. Talvez... se fosse uma,
eles teriam tentado nos pegar e estaríamos no meio de um tiroteio bem agora".
E o tempo. O elevador só ficou lá em cima por alguns segundos - como se alguém tivesse percebido que nós o
tínhamos chamado...
"Alguém estava tentando nos impedir de entrar, não é?". Leon disse, mas não perguntando realmente. "Para não
nos deixar descer".
John acenou. "Dê um prêmio para esse cara. E se estivermos certos, isso significa que estão com medo de nós,
pois não há segurança, certo? Seja lá quem nos desceu, provavelmente se trancou em alguma sala.
"Relativo ao que fazer agora,". Ele continuou. "estou aberto à sugestões. Seria bom voltar para os outros, mas
se não descobrirmos como fazer o elevador subir...".
Leon franziu, pensando, lembrando que antes de Raccoon ter destruído sua carreira, havia sido treinado como
policial.
Use as ferramentas que ganhou...
"Vasculhar o local". Leon disse devagar. "O mesmo plano de antes, pelo menos a primeira parte dele. Verificar os
empregados e depois se preocupar com o elevador. Achar Reston vai ter que esperar -".
John ergueu a não de repente, interrompendo-o, sua cabeça inclinada para um lado. Leon prestou atenção, mas
não ouviu nada. Alguns segundos passaram e John abaixou a mão. Confuso, ele balançou a cabeça, mas seus
olhos escuros estavam atentos e o rifle bem junto ao corpo.
"Boa idéia,". Ele disse finalmente. "se conseguirmos achar os malditos empregados. Direita ou esquerda?".
Leon sorriu de leve, lembrando da última vez que precisou escolher uma direção. Ele tinha ido para a esquerda no
laboratório da Umbrella em Raccoon e acabou num corredor sem saída; voltar quase custou sua vida.
"Direita". Leon respondeu. "Esquerda tem más associações para mim".
John levantou uma sobrancelha mas não disse nada; estranhamente suficiente, ele pareceu satisfeito com o
motivo de Leon.
Talvez ele seja louco. Louco o bastante para fazer piadas ruins no meio de situações como essa.
Juntos, eles voltaram para o longo e vazio corredor, indo para a direita, devagar, John vigiando a retaguarda e
Leon checando cada corredor lateral. O primeiro ficava à esquerda, a uns quatro metros do elevador.
"Espere". John disse, e entrou no curto corredor, andando rapidamente para uma porta no fundo. Ele girou a
maçaneta e voltou, balançando a cabeça.
"Pensei ter ouvido algo". Ele disse, e Leon acenou, pensando em como seria fácil para alguém matá-los.
Trancado numa sala, espera a gente passar e pow...
Mau pensamento. Leon o deixou de lado e continuou a lenta marcha pelo corredor, mirando em cada centímetro
com suas armas, Leon percebendo que a roupa de baixo térmica foi uma má idéia depois que o suor começou a
correr pelo corpo - e imaginando como a situação piorou tão rápido.
Reston teve uma idéia.
Ele quase entrou em pânico depois de ouvi-los dizer coisas que não deveriam saber, escondido na sala de controle
com a porta entreaberta. Quando ouviu um deles dizer seu nome, Reston sentiu o pânico subir pela garganta em
forma de bile, cobrindo sua mente com visões de sua própria morte horrível. Depois disso ele fechou a porta e a
trancou, encostando-se nela enquanto tentava pensar, vendo suas opções.
Quando um deles mexeu na maçaneta, ele quase gritou - mas conseguiu ficar quieto, silencioso até o intruso se
afastar. Demorou um pouco até se recuperar daquilo, até lembrar que podia dominar algo assim; estranhamente,
foi o pensamento de Trent que fez isso por ele. Trent não entraria em pânico. Trent saberia exatamente o que
fazer - e certamente não correria chorando para pedir a ajuda de Jackson.
Ao invés disso, Reston pensou várias vezes em pegar o telefone enquanto olhava os monitores, vendo-os
aterrorizar seus empregados. Eles eram eficientes, ao contrário de seus comparsas na superfície, tentando
chamar o elevador. Levou cinco minutos para reunir todos os funcionários na área de lazer; eles foram ajudados
pelo fato de haver cinco deles acordados jogando cartas no refeitório, três da construção e dois mecânicos. O
jovem branco os vigiou enquanto o outro foi para o dormitório e acordou o resto, levando-os para o refeitório,
amontoando-os com sua automática.
Reston estava desapontado com a péssima performance de seu pessoal, nenhum lutador entre eles, todos com
medo. Quando as equipes da cidade chegarem, ele terá alguma ajuda, mas até lá tudo de ruim pode acontecer.
"Achar Reston vai ter que esperar...".
E quando eles descobrirem que eu não estou no grupo de reféns? O que eles querem? O que poderiam querer se
não for pedir resgate ou me matar?
Ele estava a ponto de ligar para Sidney, mas Jackson certamente acabaria descobrindo - arriscaria o apoio de
seus colegas, arriscaria perder seu espaço no alto escalão caso sobreviva a essa invasão.
Ele já estava pegando o telefone quando percebeu que alguém estava falando. Reston se aproximou do monitor
do refeitório, franzindo, esquecendo o telefone. Haviam quatorze pessoas agrupadas no meio da sala, os dois
intrusos a uma certa distância.
Onde está o outro? Quem é o outro?
Reston tocou a tela, marcando cada rosto. Os cinco da construção. Dois mecânicos. O cozinheiro. O manipulador
de espécimes, todos os seis...
"Cole". Ele murmurou, enrugando os lábios. O eletricista, Henry Cole. Ele não estava lá.
Uma idéia começou a surgir, mas dependia de onde Cole estava. Reston mexeu nos controles dos monitores,
esperançoso, querendo ver uma chance não só de sobreviver, mas de, de - vencer. De se sobressair.
Havia vinte e duas telas na sala de controle, cerca de cinqüenta câmeras espalhadas pelo Planeta e na estação
"meteorológica". O Planeta foi construído com o vídeo em mente, um sistema bem simples; da sala de controle
podia-se ver quase qualquer parte de qualquer corredor, sala ou Fase, sendo as câmeras posicionadas em pontos
estratégicos. Achar alguém era só uma questão de apertar botões para trocar de tela.
Reston viu as áreas de teste primeiro, cada conjunto de câmeras da Fase 1 à Fase 4. Sem sorte. Tentou a área
de ciência, ala cirúrgica, o laboratório químico, até a sala de *estase; e mais uma vez não viu ninguém.
Ele não está nos dormitórios, os intrusos certamente vasculharam tudo... e não há motivo para estar na
superfície.
Reston sorriu de repente, acionando as câmeras internas e envolta das jaulas. Cole e os mecânicos tem usado as
jaulas para guardar equipamentos e ferramentas.
Ali!
Cole estava sentado no chão entre as celas 1e 9, fuçando uma caixa de pequenas peças de metal, suas magras
pernas esticadas à sua frente.
Reston olhou para o refeitório, viu que os dois intrusos pareciam estar conferindo, olhando o inútil grupo de
empregados. Na superfície, os outros três ainda mexiam no painel e procuravam pra lá e pra cá...
A idéia tomou forma, as possibilidades vindo uma a uma, cada uma mais interessante que a outra. Os dados que
podia coletar, o respeito que ganharia, resolvendo seu problema ao mesmo tempo, se auto-promovendo.
Eu podia editar as fitas juntas, ter algo para mostrar aos meus visitantes depois do Tour - e Sidney não ficará
insatisfeito quando Jackson ver o que eu consegui, como eu lidei com a situação. Serei o iluminado para uma
mudança...
Resto se levantou, ainda sorrindo, nervoso, mas esperançoso.
Ele tinha que se apressar e usar todas as suas habilidades de ator com Cole; sem problemas, considerando que
passou trinta anos de sua vida desenvolvendo-os, afiando-os... antes de se juntar à Umbrella, Reston foi um
diplomata.
Iria funcionar. Eles queriam Reston e iriam ter.
[9]
Cole estava revirando inutilmente uma caixa de transistores bipolares, achando-se um idiota, pois deveria estar
dormindo. Já devia ser quase meia-noite, tinha trabalhado duro o dia todo para o Sr. Blue, e ainda tinha que
arrastar seu traseiro cansado por mais seis horas, fazendo o mesmo. Estava cansado, tudo porque o último idiota
que andou pelo Planeta com uma caixa de ferramentas fez tudo errado.
Não é minha culpa, pensou de repente, que o tonto não conectou os leads nos MOSFETs antes de instalá-los. E
os condutes externos são uma porcaria, ele não entende o sistema de instalação do Planeta... imbecil
incompetente...
Talvez esteja pegando pesado, mas não estava distribuindo perdão depois do dia que teve. O Sr. Blue foi bem
explícito em querer as câmeras da superfície primeiro - mas depois voltou atrás e insistiu que arrumasse o sistema
de comunicação primeiro. Cole sabia que estava de saco cheio - como todos no Planeta - mas Reston era um dos
superiores; quando ele diz "pule", você pula. Cole vem trabalhando para a Umbrella há um ano e ganhou mais
dinheiro nesse período do que nos últimos cinco anos juntos. Ele não irritaria o Sr. Blue (chamado assim por seus
perpétuos ternos azuis) e ir para o olho da rua.
Você tem certeza? Depois de tudo o que viu nas últimas semanas?
Cole abaixou a caixa de transistores e esfregou os olhos; estavam quentes e coçando. Ele não tem dormido
muito bem desde que veio trabalhar no Planeta. Não que fosse do tipo sentimental, mas não dava a mínima para
o que a Umbrella fazia com o dinheiro. Porém -
- porém é difícil sentir-se bem com relação à esse lugar. É um show de aberrações.
Neste ano com a Umbrella, ele fez a instalação elétrica de um laboratório químico na costa oeste, instalou um
monte de novos circuitos para um grupo de pensadores na outra costa, e na maior parte do tempo fez
manutenção onde quer que a Umbrella o mandasse. Bom salário, nada muito difícil, colegas decentes - a maioria
como ele, fazendo coisas como as dele. E tudo o que tinha que fazer fora de lá era não falar nada do que via; ele
assinou um documento sobre isso quando foi contratado, e nunca teve problemas. Mas até então, nunca tinha
visto o Planeta.
Quando a Umbrella te entrevista, eles não explicam nada. É só "conserte aquilo". Você concerta e é pago. Até
conversas entre os empregados sobre os propósitos desse lugar são fortemente desencorajadas. Mesmo assim
palavras escapam, e Cole soube o bastante para não querer mais trabalhar para a Umbrella.
Havia criaturas que serviam de animais de teste. Ele não chegou a vê-las, nem a coisa que chamavam de Fóssil,
a aberração imóvel, mas já as ouviu algumas vezes. No meio da noite, ele ouviu um uivo arranhado que o
arrepiou até os ossos, um som como um pássaro gritando. E teve o dia na Fase 2 enquanto realinhava uma das
câmeras, quando ouviu o barulho, como unhas arranhando madeira oca - mas o som era animal também. Vivo.
Ele ouviu que foram criados especialmente para a Umbrella, algum tipo de híbridos genéticos que seriam bons
para estudo, mas híbridos de que? Todas as criaturas tinham apelidos bizarros e desagradáveis, também. Ele
ouviu alguns caras da pesquisa falando sobre eles mais de uma vez.
Dacs. Scorps. Spitters. Hunters. Soa como um elenco engraçado - de um filme de terror.
Cole se levantou, esticando seus cansados músculos, ainda com pensamentos infelizes. Tinha Reston, claro; o
cara era um tirano de grau A, e do pior tipo - do tipo com muito poder e sem nenhum pingo de paciência. Cole
estava acostumado a trabalhar com o tipo manipulador, mas o Sr. Blue era demais para sua zona de conforto. O
homem era intimidador como todo o inferno.
Mas isso não é o pior, é?
Ele suspirou, olhando em volta para as doze celas alinhadas na sala, seis de cada lado. Não, o pior estava à sua
frente. Cada cela tinha uma cama, uma bacia sanitária e uma pia - e amarras, nas paredes e nas camas.
E o bloco de celas estava a menos de seis metros da "ante-sala" do primeiro ambiente, onde as portas tem
travas pelo lado de fora.
Depois disso, eu penso seriamente sobre minhas prioridades; eu economizei o bastante para uma folga, para
ganhar perspectivas...
Cole suspirou de novo. Isso será bom para mais tarde. Por enquanto só precisava dormir. Ele virou e andou para
a porta, desligando as luzes ao abri-la -
- e lá estava Reston. Apressando-se pela curva do corredor que levava aos elevadores, parecendo
extremamente preocupado.
Droga, o que foi aquilo?
Ao vê-lo, Reston praticamente correu até ele, seu terno azul amassado, o que era fora do comum, seu pálido
olhar para a direita e esquerda.
"Henry". Reston ofegou e parou na frente dele, suspirando forte.
"Graças à Deus. Você tem que me ajudar. Há dois homens, assassinos, eles invadiram e estão aqui para me
matar, e eu preciso de sua ajuda".
Cole ficou mais surpreso com sua aparência do que com o que foi dito; ele nunca tinha visto Blue com o cabelo
fora do lugar, ou sem aquele pequeno e presunçoso sorriso, resultado de ser o dono de uma incrível fortuna.
"Eu - o quê?".
Reston respirou fundo, exalando devagar.
"Desculpe. Eu só - o Planeta foi invadido, há dois homens aqui me procurando. Eles querem me matar, Henry. Eu
os reconheci de uma tentativa frustrada há menos de seis meses; eles postaram um homem na superfície e
estou preso, eles vão me achar e -".
Ele parou, sufocado, e estava tentando não chorar? Cole o encarou, pensando. Ele me chamou de Henry. "Por
que estão tentando te matar?". Ele perguntou.
"Eu comandei uma operação contra uma rebelião hostil, uma companhia de empacotamento - o homem que
prendemos era instável e jurou que me pegaria. E agora estão aqui, trancando todos no refeitório bem agora -
mas só estão atrás de mim - eu já pedi ajuda, mas não chegarão a tempo. Por favor, Henry - você me ajuda?
Eu - eu faço valer a pena, eu te prometo. Você não vai mais precisar trabalhar de novo, seus filhos não
precisarão ter que trabalhar...".
O apelo nos olhos de Reston era desconcertante; nem teve como dizer que não tinha filhos. Ele estava
aterrorizado, seu rosto enrugado, seu cabelo prateado arrepiado em mechas. Mesmo sem a oferta monetária,
Cole teria oferecido ajuda.
Talvez.
"O que você quer que eu faça?".
Reston meio que sorriu de alívio, na verdade esfregando o braço de Cole. "Obrigado, Henry. Obrigado, eu - eu
não tenho certeza. Se você puder - eles só querem a mim, se você puder distraí-los de algum jeito".
Ele franziu, seus lábios tremendo, e olhou atrás de Cole, para a pequena sala que marcava a entrada dos
ambientes. "Aquela sala. Ela tem uma trava do lado de fora e dá na Um - se você puder atraí-los, entrar na
Um... eu poderia trancá-los lá dentro, trancar a ala inteira assim que você sair. Você vai direto para a Quatro e sai
pela ala médica, eu a destrancaria assim que você sair".
Cole acenou incerteza. Deveria funcionar, exceto por - "Eles não te conhecem? Digo, eles devem ter uma foto
sua, não?".
"Eles não saberão. Só te verão por uns segundos, quando eles fizerem a curva, você já terá ido. Assim que
entrarem, eu apertarei os controles - eu posso me esconder na área das celas".
Os olhos de Reston estavam boiando, brilhando com lágrimas não derramadas. Ele estava tão desesperado -
planos iam e vinham e esse não era tão ruim.
"Tá, tá bom". Cole disse, e o olhar de gratidão no rosto do velho homem foi acolhedor.
Quase. Seria se ele fosse um ser humano decente.
"Você não vai se arrepender disso, Henry". Reston disse, e Cole acenou, incerto sobre o que dizer.
"Você ficará bem, Sr. Reston". Disse finalmente, desconfortável. "Não se preocupe".
"Tenho certeza que sim, Henry". Reston disse, e virou, andando para o escuro bloco de celas sem mais
nenhuma palavra.
Cole parou por um segundo, e deu com os ombros pra dentro, indo para a ante-sala, tenso, mas um pouco
irritado também. O Sr. Blue estava assustado, mas ainda era um idiota.
"Não se preocupe também, Henry" ou "Tome cuidado". Nem mesmo um "Boa sorte, tomara que não atirem em
você por engano"...
Ele balançou a cabeça e entrou na pequena sala. Se ele ajudasse o Sr. Blue, pelo menos poderia ir dormir, ou
quem sabe se demitir do Planeta ou da Umbrella. Deus sabia que ele precisava descansar; ultimamente não tem
dormido bem.
Rebecca finalmente achou a câmera. A lente não maior que uma moeda estava escondida no canto sudoeste. Ela
chamou David e ele a cobriu com a mão, desejando ter procurado melhor antes de entrar com sua equipe. Ele foi
burro, John e Leon certamente se foram por causa disso.
Claire tinha achado um rolo de fita e outras cosias em sua busca. David passou a fita na câmera imaginando o
que fariam. Estava frio, tão frio que não sabia por quanto tempo seus reflexos continuariam bons. Os códigos não
estavam funcionando, seria necessário mais do que tinham para abrir a parede, e dois de sua equipe estavam
em algum lugar abaixo, talvez feridos, talvez morrendo...
.. ou infectados. Infectados como foram Steve e Karen, sofrendo, perdendo a humanidade -
"Pare com isso". Rebecca disse, e ele desceu da mesa que tinham empurrado, quase sabendo o que aquilo
significava, mas não pronto para admitir. Rebecca tinha um jeito de tirá-lo dos piores momentos.
"Parar com o quê?".
Rebecca se aproximou dele, olhando para seu rosto, segurando sua lanterna com uma mão.
"Você sabe o quê. Você está com aquele olhar, eu posso vê-lo; você está se dizendo que foi sua culpa. Que se
tivesse feito algo diferente, eles ainda estariam aqui".
Ele suspirou. "Eu aprecio sua preocupação, mas esse não é o apropriado -".
"Sim, é sim". Ela interrompeu. Se você for se culpar, não pensará direito. Você não está mais no S.T.A.R.S., você
não é o capitão de ninguém. Não é sua culpa".
Claire foi se juntar à eles, seu olhar curioso e alerta apesar da preocupação em seus delicados traços. "Você acha
que é culpa sua? Pois não é. Eu não acho".
David jogou as mãos para cima. "Meu Deus, tá bom! Não é minha culpa, e todos nós podemos analisar minha
responsabilidade quando e se sairmos daqui; por enquanto, por favor, podemos nos concentrar com o que temos
pela frente?".
Ambas acenaram.
Feliz por ter acabado com a sessão de terapia antes de ter começado, David percebeu depois que não sabia o
que fazer - que tarefas dar além das que já fizeram, como resolver a crise, o que, e como dizer. Era um
momento terrível; ele estava acostumado em ter algo com a qual lutar, algo para reagir, atirar ou planejar, mas a
situação parecia estática. Não havia um caminho para seguir, e isso era bem pior do que a culpa pela falta de
previsão.
Foi só naquele momento que ele ouviu o distante e inconfundível zunido de um helicóptero se aproximando.
Nada para dar cobertura exceto a superfície, e nunca conseguiremos chegar até a van, e só temos dois ou três
minutos -
"Nós temos que sair daqui". David disse, já pensando nas coisas que fariam se tivessem uma chance, mesmo
enquanto todos corriam para a porta.
Os funcionários foram fáceis. Houve alguns momentos tensos ao tirá-los de suas camas escuras nos dormitórios,
mas nenhum incidente. John vem desconfiando de alguns deles desde que os trouxe para o refeitório onde Leon
vigiava os jogadores de cartas - em particular, dois grandões que pareciam ter problemas com machismo, e um
magro e encurvado cara de olhos profundos que não parava de lamber os lábios. Parecia compulsivo; a cada
segundo a língua dele passava entre os lábios e aí desaparecia por mais alguns segundos. Pavoroso.
Mesmo assim, não houve problemas. Quatorze homens e nenhum querendo bancar o herói, depois que John os
apresentou uma pequena lógica. Ele foi curto e grosso: nós estamos aqui para achar algo, nós não planejamos
machucar ninguém, nós só queremos vocês fora do caminho enquanto saímos daqui. Não sejam burros e não
serão baleados. Ou a lógica ou a M-16 foi o bastante para convencê-los de que seria melhor não argumentar.
John ficou perto da porta no grande corredor, olhando o infeliz grupo sentado no meio da grande sala em volta da
longa mesa. Alguns pareciam bravos, outros assustados e a maioria só cansados. Ninguém falou, o que era bom
para John; ele não queria se preocupar com ninguém tentando elaborar uma rebelião.
Apesar de sua razoável certeza, tudo estava bem, e ficou grato por ouvir o leve toque na porta. Leon tinha saído
há cinco mas pareceu ter demorado bem mais. Ele entrou segurando um pedaço de corrente e dois arames de
cabide.
"Algum problema?". Leon perguntou, e John balançou a cabeça, mantendo a atenção no quieto grupo.
"Calados e comportados". Ele disse. "Onde você achou a corrente?".
"Caixa de ferramentas, numa das salas".
John acenou e ergueu a voz, mantendo a clama.
Muito bem, pessoal, já vamos partir. Nós agradecemos pela paciência...".
Leon o cutucou, cochichando. "Pergunte se Reston está aqui".
John suspirou. "Você acha que ele responderia se estivesse aqui?".
Leon balançou os ombros. "Não custa tentar, não é?".
Coisas mais estranhas já aconteceram...
John limpou a garganta e falou de novo. "Há um homem chamado Reston aqui? Nós só temos uma pergunta,
não iremos machucá-lo".
Os homens olharam para os dois e John imaginou por um segundo se eles sabiam o que faziam lá; se sabiam o
que a Umbrella fazia. Eles não se pareciam com nazistas, eles se pareciam com um bando de operários. Como
caras que deram duro o dia inteiro e gostariam de beber algumas cervejas à noite. Como - como caras.
E com o que nazistas se parecem? Essas pessoas são uma parte do problema, estão trabalhando para o inimigo,
não vão nos ajudar -
"O Blue não está aqui". Um grande homem de barba e camiseta respondeu, um dos que John estava de olho.
Sua voz era rouca e irritante, seu rosto ainda amassado de dormir.
John olhou para Leon, surpreso, e viu o novato do mesmo jeito. "Blue?" John perguntou. "Esse é Reston?".
Um homem de cabelo comprido e mãos manchadas de graxa no fim da mesa acenou. "Sim. Senhor Blue pra
você".
Deu para perceber o sarcasmo. Houve alguns olhares trocados entre o grupo sentado - e alguns risos.
Reston é uma das pessoas-chave, Trent disse. E como todos odeiam seus chefes... será que falariam alguma
coisa sobre ele para dois terroristas?
Reston deve ser bem impopular.
"Há mais alguém trabalhando aqui que não está nesse refeitório? Leon perguntou. "Não queremos ser
surpreendidos".
O comprometimento era óbvio, e também não conseguiriam tirar mais nada dos empregados. Eles deviam odiar
Reston, e John pôde ver através dos braços cruzados e sobrancelhas franzidas que não iriam delatar um dos
seus. Ele duvidava que houvesse mais alguém por aí. Trent havia dito que era uma equipe pequena...
.. o que significa que foi Reston que nos trouxe para baixo, significa que podemos matar dois pássaros se o
acharmos - pegaremos os livro e o faremos subir o elevador de novo. Nós trancamos Reston num armário,
encontramos David e as garotas e fugimos antes que alguma coisa inesperada aconteça.
John acenou para Leon e juntos foram para a porta. John percebeu que não queria só sair pela porta, ele tinha
uma certa simpatia por eles. Mas não muita.
"Nós vamos trancar a porta,". John disse. "vocês ficarão bem até a companhia mandar alguém, vocês tem
comida... e se não se importarem com um pequeno conselho, ouçam - a Umbrella não é o mocinho. Seja lá o
quanto vocês ganham, não é o suficiente. Eles são assassinos".
Os olhares vazios os seguiram até a porta dupla. Leon a fechou e passou a corrente nos puxadores, prendendo-a
com o arame dos cabides. John andou alguns passos e olhou para o longo corredor cinza do elevador. Havia uma
curva não muito longe dos dormitórios -
- mas Reston não está para lá, John pensou, lembrando-se do som que ouviu quando chegaram. Ele está na
direção que escolhemos, em algum lugar.
Leon terminou de prender as portas e foi até John, parecendo um pouco pálido mas ainda lúcido. "Então... agora
vamos atrás de Reston?".
"Sim". John disse, pensando em como Leon estava indo bem, dadas as circunstâncias. Não tinha muita
experiência, mas era esperto, tinha estômago e não tremia com uma arma. "Você está agüentando?".
Leon acenou. "Sim. Eu só estou - você acha que eles estão bem lá em cima?".
"Não, eu acho que estão congelando o traseiro esperando por nós". John disse sorrindo, esperando estar certo -
esperando que Reston não tenha soltado os cachorros, ou qualquer coisa do tipo, depois que desligou o elevador.
Ou chamado ajuda...
"Vamos logo com isso". John disse, e Leon acenou enquanto desciam o corredor para ver o que era o quê.
[10]
Eles saíram na escuridão do complexo, o som das hélices do helicóptero se aproximando, Rebecca viu as luzes a
pouco menos de oitocentos metros à noroeste, planando, mirando o holofote no chão do deserto.
A van, eles a acharam.
Claire também viu, mas David estava olhando para os galpões atrás deles enquanto pendurava seu rifle, seu
intenso olhar elaborando um plano.
"Eles vão ter que aterrissar do lado de fora da cerca". Ele disse. "Sigam-me de perto". Ele correu pela escuridão,
o som do helicóptero crescendo atrás deles.
Deus, espero que ele veja melhor do que eu, Rebecca pensou, apertando forte sua 9mm, o frio metal contra
seus finos dedos. Ela e Claire correram enquanto ele ia para uma das escuras estruturas, a segunda da esquerda
para a direita na linha de cinco. Ela não sabia porque ele havia escolhido aquele, mas ele tinha um motivo, sempre
tinha.
Eles correram pelo corredor preto entre o primeiro e o segundo galpão, o congelante ar queimando seus pulmões,
saindo em forma de vapor que não podia ver. O whackawhacka do helicóptero afogou seus passos, afogou quase
tudo o que David disse ao parar, uma porta de cada lado deles.
"... para nós nos escondermos até... não possamos... voltar...".
Rebecca acenou e David parou de falar, virando à esquerda, apontando a arma para a porta do primeiro galpão.
Rebecca e Claire o seguiram, Rebecca imaginando o que ele estava disposto a fazer; se as pessoas do helicóptero
descessem para vasculhar - o que com certeza iriam fazer - a porta à prova de balas os denunciaria. Parecia ser
feita de algum plástico de alta densidade - tinha uma maçaneta e um buraco de chave ao invés de um leitor de
cartão. A estrutura em si era de algum tipo de estuque sujo e empoeirado, nenhuma cor em particular que
poderia dizer; o de trás parecia igual; nenhum deles tinha janelas.
O holofote do helicóptero estava na cerca em frente ao complexo, seu brilho perfurando o escuro como uma
chama. Um nevoeiro de poeira subia pela luz, manchando-a, e Rebecca pensando em terem apenas um minuto
antes de serem vistos; o complexo não era tão grande.
Bambambambam!
Quase todo o barulho foi abafado pelo helicóptero. Mesmo no escuro, Rebecca podia ver o contorno dos buracos,
a maioria na região da fechadura. David recuou e a chutou fortemente. Outro forte chute - e ela abriu, um
profundo buraco negro na parede.
O feixe de luz se movia pelo complexo, a lisa barriga da aeronave passando quase que sobre suas cabeças
enquanto iluminava o outro lado do primeiro galpão. O trovão do motor e as nuvens de poeira fizeram Rebecca se
sentir como se a Morte estivesse se aproximando; não a morte, mas a Morte, alguma besta de poder impiedoso
e intenção implacável...
David virou e agarrou as duas, puxando-as firmemente para a porta aberta. Assim que passaram, ele acenou
para elas pararem e esperar. David empunhou seu revólver e correu pelo espaço aberto, parando junto à porta
do segundo prédio, inclinando seu copo e -
- BAM, o som da 9mm mais alta que os .233 do rifle, mas ainda perdido quando o helicóptero avançou em sua
direção - e a porta abriu, David voou pela abertura, meio segundo antes da luz iluminar o chão entre eles. Os
cartuchos das balas gratamente perdidos na poeira, as nuvens giratórias tornando difícil a respiração. Ela virou e
viu que Claire tinha coberto o rosto com a blusa, fazendo o mesmo. O frio e o pesado ar foi filtrado pelo tecido, e
apesar do ensurdecedor barulho, Rebecca pôde ouvir suas rápidas e assustadas batidas de coração.
Um segundo depois, a luz se foi; um segundo depois que a poeira pareceu estar abaixando; a súbita falta de luz
forçando seus olhos a se adaptarem -
"Você está bem?".
Rebecca pulou assim que David praticamente gritou no seu rosto, só uma sombra à sua frente. Claire deu um
pequeno grito.
"Desculpe!". David disse. "Vamos! O outro prédio!".
Quase sem enxergar, Rebecca cambaleou para fora, Claire ao seu lado. David foi atrás delas, tocando-as pelas
costas, guiando-as até o galpão. O helicóptero ainda se afastava deles, do norte para o sul, mas em breve não
haverá mais nada para ver - eles pousarão e virão vasculhar. Não havia dúvidas de que o helicóptero era da
Umbrella; a única pergunta era quantos estavam nele e quais eram suas ordens - capturar ou matar?
Assim que passaram pela porta do segundo prédio, Rebecca entendeu o que David tinha feito. Os capangas da
Umbrella iriam ver os tiros na outra porta e assumiriam que os intrusos estariam lá.
Ele só atirou no buraco da fechadura desta. Eles viriam mais tarde, mas isso nos daria mais tempo.
Assim ela esperava. O escuro estava tão frio quanto lá fora e cheirava poeira. Uma baixa luz acendeu, David
estava segurando sua lanterna. Foi o suficiente para verem que estavam cercados por caixas. Grandes,
pequenas, de papelão e madeira, alinhadas em estantes e no chão até o arqueado teto. Deviam haver milhares
delas.
"Eu vou ver o que posso fazer sobre a porta e cortar a luz". David disse. "Achar um lugar para se esconder. É a
nossa melhor opção até descobrirmos quantos são e o que pretendem fazer. Eles devem ter visão noturna, não
é bom ficar no chão - talvez um lugar alto ou um canto. As estantes seriam melhores. Entenderam?".
Ambas acenaram e a luz apagou, deixando-os na completa escuridão; antes ela podia ver silhuetas e formas.
Agora, Rebecca não conseguia ver sua mão em frente ao seu rosto.
"Qual canto?". Claire cochichou, como se o frio escuro demandasse silêncio.
Rebecca alcançou a mão de Claire, colocando-a em suas costas. "Esquerda. Vamos para a esquerda até
acharmos algo".
Ela ouviu um sussurro de movimento atrás deles enquanto David se preparava. Respirando fundo, Rebecca
esticou os braços à frente e começou a andar.
Todas as portas ao longo do corredor e estavam trancadas, com exceção de um depósito de utilidades depois do
elevador; lá não tinha nada de interessante, a não ser que prateleiras com papel higiênico e copos descartáveis
fossem importantes. Eles tinham tentado o elevador de novo, mas não tiveram sorte, e não parecia haver
fusíveis ou um quadro de força perto dele. Isso já era de se esperar e mesmo assim Leon sentiu-se agoniado. Os
outros três deviam estar preocupados de verdade...
.. e você está? E se algo deu errado lá em cima? Talvez a área de "teste" seja na superfície. Reston pode ter
libertado alguns espécimes guerreiros lá em cima e bem agora, Claire deve estar -
"O que você acha de usarmos as granadas na próxima porta trancada? Eu tenho duas". John disse, parecendo
irritado. Eles acabaram de tentar a nona porta do silencioso corredor, e estavam próximos da curva mais ao
norte. Tudo o que sabiam era que já tinham passado por Reston, ou pelo caminho que os levaria até ele.
"Vamos pelo menos ver o que há depois da curva antes de começarmos a explodir". Leon disse, apesar de
também já ter perdido a paciência. Não que se importasse em danificar algumas das propriedades da Umbrella,
só não era a prioridade - reunir a equipe era. Eles já tinham decidido que voltariam para o refeitório caso não
achassem Reston, e pegariam um funcionário para consertar o elevador, e dane-se Reston; a missão seria um
fracasso, mas pelo menos estariam vivos para lutar outro dia.
Se é que todos ainda estão vivos...
Eles chegaram na curva e a passaram, John levantando a M-16 e abaixando a voz. "Eu cubro?".
Leon acenou, movendo-se próximo a parede interna. "No três. Um... dois... três -".
Ele deu um rápido passo longe da parede, agachando-se e apontando sua semi para a asa oeste do corredor
enquanto John colocava o rifle em volta da curva. O corredor era bem mais curto, não mais que vinte metros,
acabando na abertura de uma sala sem porta. Havia uma porta à esquerda -
- e alguém cruzou a abertura no final do corredor, a rápida forma de um homem.
Reston.
Leon o viu, magro, não muito alto, usando jeans e uma camiseta azul de trabalho. Sr. Blue bem como eles
disseram...
"Parado!". John gritou, e Reston virou, assustado e desarmado. Ele viu a M-16 e pulou fora da abertura, talvez
indo para uma saída -
- e Leon correu sacudindo os braços para ganhar velocidade, John rapidamente passando-o numa veloz corrida.
Eles entraram na sala em um instante e lá estava Reston, empurrando desesperadamente uma porta à direita.
Ele olhou aterrorizado sobre os ombros quando eles entraram, seus olhos largos de pânico.
"Não quer abrir!". Ele gritou, sua voz no ápice da histeria. "Abra a porta!".
Com quem ele está falando?
"Desista, Reston". John gritou -
- e atrás deles, uma placa de metal desceu sobre a abertura, lacrando-os na sala com um brutal e pesado clank.
Leon olhou para baixo, viu que o chão era de placas de aço - e sentiu sua primeira pancada de desconforto.
Reston virou-se, suas mãos para o alto, suas finas expressões contorcidas de medo. "Eu não sou ele, não sou
Reston". Ele tagarelou, seu pálido rosto liso de suor -
- e atrás deles, uma face apareceu na janela da porta de metal, distorcida pelo grosso vidro, mas obviamente
rindo. Um homem mais velho, usando um escuro terno azul.
Ah, não -
O homem desviou o olhar por um momento, uma mão tocando algo que Leon não podia ver - e uma suave e
culta voz flutuou na sala através de um alto falante no teto.
"Sinto muito, Henry". O homem disse, seu rosto deformado pelo vidro. "E permitam-me que eu me apresente.
Eu sou Jay Reston. E seja lá quem vocês sejam, estou muito feliz em conhecê-los. Bem vindos ao programa de
teste do Planeta".
Leon olhou para John, que ainda apontava o rifle para o quase histérico Henry. John olhou para ele e Leon pôde
ver a consciência sumindo de seus olhos, ao mesmo tempo em que sumia dos seus.
Eles estavam extremamente atolados na merda.
Isso!
Reston riu atordoado. Os intrusos estavam presos e os três na superfície estavam provavelmente sendo pegos
pelas equipes - ele tinha cuidado da situação, e o fez brilhantemente.
Claro que não tem graça sem ninguém para apreciar... mas eu tenho uma audiência cativa, certo?
"Nós não estamos programados para entrar on-line antes de 23 dias". Reston disse, sorrindo largamente, já
imaginando o olhar na cara inchada de Sidney.
"Nesse tempo, eu iria iniciar nosso programa cuidadosamente projetado para um grupo de pessoas
extremamente importantes. Seria apenas com o uso de espécimes. Não tínhamos planejado colocar humanos
nas fases, por enquanto. Mas graças à vocês, eu farei minha pequena filmagem mostrando para que nossos
espécimes foram criados. Por enquanto, seus amigos na superfície vão ser pegos, sinto em dizer - mas vocês
três já são o suficiente, eu acho. Sim, vocês serão o suficiente".
Reston riu de novo, incapaz de se conter. "Vocês podem querer matar Henry antes de começar, ele vai atrasar
vocês - e ele atraiu vocês para cá, não foi?".
Cretinos!".
Henry Cole se afastou da parede e foi para a porta, socando-a com os punhos. O metal de 5cm nem balançou.
Reston balançou a cabeça, ainda sorrindo. "Eu sinto muito, Henry; nós sentiremos sua falta. Você nunca terminou
o sistema de intercomunicação, não é? Nem o áudio... mas pelo menos você arrumou este, pela qual eu posso
te agradecer. Está claro o bastante aí? Tem estática?".
Seja lá qual demônio tinha possuído o eletricista, o fazia pular na porta e respirar sufocadamente. O maior dos
intrusos, o fortão de pele escura com o rifle, foi até a porta com uma expressão ameaçadora.
"Você não vai nos fazer passar por nenhum teste". Ele disse, sua profunda voz tremendo de raiva. "Vá em
frente e nos mate, pois não estamos sozinhos - e a Umbrella vai cair, e de alguma forma estaremos lá para
ver".
Reston respirou. "Bom, vocês estão perto de não estar lá. Mas para o resto... vocês são uns daqueles
S.T.A.R.S., não são? Vocês e sua campanha popular não são nada para nós; vocês são moscas, uma amolação.
E vão participar -".
"Participe disso". O grandão gritou, agarrando sua entreperna. Mesmo pelo grosso vidro, o gesto foi inconfundível.
Vulgar. Os jovens de hoje não têm respeito pelos mais velhos...
"John, porque você não usa uma das granadas?". O outro intruso disse friamente, e Reston suspirou de novo.
"As paredes são revestidas de aço e a porta ficará de pé por mais tempo do que vocês. Vocês só conseguirão
explodir a si mesmos. Seria uma pena - mas se vocês querem, então façam".
Eles não pareciam ter uma resposta boa para isso. Ninguém falou, apesar de Reston ainda poder ouvir as
tagarelices de Cole pelo interfone.
Reston se cansou de irritá-los; as equipes na superfície logo entrarão em contato e precisaria estar na sala de
controle.
"Se os senhores me derem licença". Ele disse. "Eu tenho outras coisas para resolver - como soltar nossos
bichinhos em seus novos lares. Além de descansar eu estarei vendo como se saem; tentem passar por duas
fases pelo menos, se puderem".
Reston se afastou da janela até o painel de controle à esquerda, e digitou o código de ativação. Um dos homens
começou gritar que não iria a parte alguma, que não conseguiria fazê-los -
- e Reston apertou o botão verde, o mesmo que simultaneamente abria a porta da Um - e liberava através um
spray de gás lacrimejante na pequena ante-sala, através de aberturas no teto. Reston voltou para a janela,
interessado em ver o quanto efetivo o processo era.
Em segundos, uma névoa branca desceu envolvendo os três. Reston ouviu gritos e tosses. Um segundo depois
ouviu a porta abrir, o que significava que a tinham cruzado.
As placas pressurizadas no chão ficaram encobertas até agora, houve um baixo chiado enquanto o sistema de
ventilação funcionava, limpando a sala em menos de um minuto.
Bom. Ele precisava lembrar de elogiar o designer que havia recomendado o sistema.
"Eu farei uma nota". Reston disse para ninguém. Ele endireitou suas lapelas e virou na direção da sala de controle,
empolgado para ver como os homens lidariam com as novas adições à família da Umbrella.
[11]
Cole não tinha opção senão correr atrás dos assassinos, chocado e enjoado, seu coração adoecido com vingança
e ódio. Ele foi abandonado à morte por Reston, o homem que até encorajou os assassinos à matá-lo - ele já não
sabia mais se eram assassinos, ele não sabia o que era "stars" - ele não sabia mais nada além de seus olhos
estarem queimando e de não conseguir respirar.
Pelo menos faça ser rápido, rápido e indolor...
Depois de entrarem na Um, a porta fechou atrás deles. Cole se encostou no frio metal, forçando para recuperar
o fôlego, viscosas lágrimas vazando por entre suas pálpebras. Ele não queria vê-los puxar o gatilho, preferia não
sofrer o suspense antes de morrer; morrer já era o bastante.
Talvez eles só me deixem aqui.
A pequena esperança que o pensamento lhe trouxe foi estampada imediatamente assim que uma grande e
áspera mão agarrou seu braço e o chacoalhou.
"Ei, acorde!".
Cole abriu seus olhos molhados relutantemente, piscando rapidamente. O negro grandão estava olhando para ele,
parecendo bravo o bastante para começar a bater, seu rifle apontado para o peito de Cole.
"Você quer explicar que droga de lugar é esse?".
Cole se encolheu na porta, sua voz gaguejando. "Fase Um. Flo-floresta".
O homem rolou os olhos. "Sim, floresta, isso eu sei. Mas por quê?".
Jesus ele é enorme!
O cara tinha músculos nos próprios músculos. Cole balançou a cabeça, certo de que seria esmurrado, mas incerto
do que o homem estava perguntando.
O outro deu um passo à frente, parecendo mais preocupado do que bravo. "John, Reston ferrou ele também.
Qual é mesmo o seu nome? Henry?".
Cole acenou, desesperado para não irritar ninguém. "É, Henry Cole, Reston disse que vocês queriam matá-lo e
pediu que eu ficasse lá dentro, ele só ia trancá-los, eu juro por Deus que eu não sabia que ele faria isso -".
"Fale devagar". O mais baixo disse. "Eu sou Leon Kennedy, e esse é John Andrews. Nós não viemos para matar
Reston -".
"Mas devíamos". John resmungou, olhando em volta.
Leon continuou como se John não tivesse dito nada. "- nem ninguém. Nós só queremos algo que Reston tem, só
isso. Agora - o que você pode nos dizer sobre esse programa de teste?".
Cole exalou, limpando a água do rosto. Leon parecia sincero -
E quais são suas opções? Você pode levar um tiro, ser abandonado aqui ou cooperar com eles. Eles tem armas e
Reston disse que os espécimes de teste foram projetados para lutar com pessoas - mas como é que eu vim
parar aqui?
Cole olhou em volta para a Um, espantado em como parecia diferente agora que estava preso lá, o quanto era
ameaçadora.
As altas árvores artificiais, a vegetação rasteira de plástico e os cipós sintéticos pendurados - com a baixa luz e o
ar umedecido, as paredes escuras e o teto pintado, parecia realmente uma floresta à noite.
"Eu não sei muito". Cole disse, olhando para Leon. "Há quatro fases - floresta, deserto, montanhas e cidade. Elas
são todas grandes, cada uma do tamanho de dois campos de futebol, uma do lado da outra, esqueci as medidas
exatas.
Dizem que são habitats correspondentes à esses animais híbridos de teste; eles até são alimentados com comida
viva, ratos, coelhos e coisas do tipo. A Umbrella está testando algum tipo de controle de doenças, e esses
animais devem ter um sistema de circulação similar ao dos humanos ou algo assim, darão um bom material de
estudo...".
Cole parou, percebendo o olhar que os dois homens trocaram quando começou a falar das criaturas.
"Você acredita mesmo nisso, Henry?". John perguntou, sem parecer bravo, suas expressões neutras.
"Eu -". Cole disse, e calou-se, pensando no incrível salário e na política do bico calado.
"Você está feliz trabalhando aqui? Você acha que está sendo bem pago?".
- e sobre as jaulas - e as restrições.
"Não". Ele disse, e sentiu uma onda de vergonha por sua optada ignorância. Ele deveria saber, saberia se tivesse
tido coragem e dado um olhada de perto.
"Não, não acredito. Não mais".
Ambos os homens acenaram, e Cole ficou aliviado em ver John alterar a posição da arma suavemente, para o
outro lado.
"Então, você sabe como sair daqui?". John perguntou.
Cole acenou. "Sim, claro. Todas as fases tem portas de ligação nos cantos, alternadamente. Elas estão
destrancadas, sem chaves nem nada - exceto a última, a Quatro, está trancada pelo lado de fora".
"Então a porta que procuramos está por ali?". Leon perguntou, apontando para sudoeste. Eles estavam no canto
nordeste.
De onde estavam, a outra parede não era visível, as árvores falsas eram muito densas. Cole sabia que havia pelo
menos uma clareira de tamanho considerável, mas ainda assim era uma caminhada.
Cole acenou.
"Você pode nos falar sobre esses animais de teste? Como se parecem?". John perguntou.
"Eu nunca os vi, só estive aqui para fazer a fiação - câmeras e conduites, coisas do tipo". Ele olhou para eles
esperançoso. "Mas o quanto ruins eles podem ser?".
Os olhares deles não foram encorajadores. Cole começou a perguntar o que eles podiam dizer - quando um alto e
metálico barulho encheu o molhado ar, como um portão gigante sendo erguido. Veio lá da frente, da parede
oeste, onde Cole sabia que as jaulas ficavam -
- e um segundo depois, um agudo grito cortou o ar, uma longa e gorjeadora nota que rapidamente se juntou a
outra, e outra, e depois muitas para contar.
Havia uma batida também, tão grande que por um momento Cole não identificou - mas quando conseguiu, sentiu
vontade de gritar.
Asas. O som de gigantescas asas batendo no ar.
Eles estavam a uns quatro metros do chão, no topo de uma dupla fileira de caixas de madeira empilhadas num
canto do galpão. Até o menor movimento fazia tudo balançar um pouco, deixando Claire insegura.
Já não é o bastante Leon e John não estarem aqui, ou estarmos aqui nos escondendo de um bando de capangas
da Umbrella? Não, nós temos que ficar presos no Monte Precário numa escura geladeira. Se um espirrar muito
forte, todos vão para o chão.
"Que porcaria". Ela sussurrou, tanto para quebrar o silêncio quando para respirar. O som do helicóptero tinha
parado e ainda não ouviram nada do lado de fora.
Ela se surpreendeu ao sentir o corpo de Rebecca tremer ao seu lado, e ao ouvir um riso abafado; a jovem
bioquímica estava tentando suprimi-lo, e não estava sendo fácil. Claire sorriu prazerosamente.
Alguns segundos passaram e Rebecca falou. "É. Você está certa". E depois estavam ambas rindo. As caixas
balançaram gentilmente.
"Por favor". David disse, soando irritado. Ele estava em cima da segunda fileira de caixas, do outro lado de
Rebecca.
Claire e Rebecca pararam, e outra vez um silêncio de espera caiu sobre eles. Eles estavam no canto nordeste, as
duas ansiosas, apontando as armas para a parede à frente, na direção da outra porta. David disse que haviam
duas; ele estava olhando à sul, cobrindo a porta pela qual haviam entrado.
A risada tinha relaxado Claire um pouco. Ainda estava com frio, ainda preocupada com Leon e John apesar da
situação deles não ser tão terrível. Ruim, claro, mas já esteve em piores.
Em Raccoon, eu estava por minha conta. Tinha Sherry para cuidar, tínhamos Mr. X na nossa cola, tínhamos um
monte de zumbis para atrapalhar e estávamos totalmente perdidas. Pelo menos agora eu sei com o que estou
lidando; até um exército não é tão ruim quanto não saber o que é o que -
Lá fora, um barulho. Alguém estava puxando a porta que ela e Rebecca cobriam; um rápido puxão e silêncio de
novo - exceto por Claire ter achado ouvir passos, lá fora.
Estão checando as portas. E se a idéia de David não foi convincente ou decidiram olhar de perto?
Pelo menos David as cobria; ele era incrível, frio e eficiente, e pensava rápido como jamais viu. É como se ele
soubesse o que fazer - instantaneamente, seja qual for a situação. Mesmo agora - David havia dito que
provavelmente estavam fazendo uma varredura, começando por um lado ou outro, verificando cada prédio em
equipes.
Estratégia militar, sem brincadeira. Claire pensou no que ele disse de novo, era um plano e não uma lista de "e
se". Ainda assim, era um alívio ter algo para se concentrar.
Se um só time entrar, três ou menos, nós ficamos quietos e imóveis até eles saírem, aí corremos para a porta a
qual entramos e esperamos. Quando os ouvirmos do outro lado, sairemos e correremos para a cerca. Se eles
entrarem e nos verem, nós atiramos; pegaremos um por um enquanto passam pela porta, descemos das caixas
e corremos.
Se houverem duas ou mais equipes, esperaremos até David jogar a granada para depois atirar; mesmo se eles
tiverem visão noturna, a granada os cegarão.. se eles retornarem fogo, nós descemos das caixas e as usamos
como cobertura -
As outras opções desapareceram quando ela ouviu a outra porta ser chacoalhada. Chacoalhada - e depois
chutada.
Thunk!
A porta abriu violentamente, um retângulo de luz pálida surgiu na escuridão. O brilhante raio de uma lanterna
cortou o escuro, incidindo numa parede de caixas, depois virando para a porta.
Um suave click - e depois um baixo xingamento.
"O quê?". Uma voz diferente também sussurrou.
"Não tem luz". Uma pausa, e depois. "Bom, vamos. Eles provavelmente estão no outro, eles não passaram por
essa porta".
Graças a Deus. É hora de ir, David. Os dois vão vasculhar, mas não suspeitaram de nada.
Um segundo feixe de luz apareceu, e Claire podia ver as vagas silhuetas humanas por trás das fortes luzes,
ambos homens pela voz.
Eles começaram a andar, os feixes dançando sobre as pilhas de caixas.
Fique quieta, não se mexa, espere. Claire fechou os olhos, não querendo que nenhum dos homens se sentisse
observado; ela ouviu uma vez que esse era um truque para se esconder. Não olhar.
"Eu fico com o sul". Uma das vozes suspirou, e Claire imaginou se eles sabiam como o som era bem conduzido
no espaço aberto.
Podemos ouvir, seus babacas. Um pensamento engraçado, mas ela estava com medo. Pelo menos os zumbis
não tinham armas...
As luzes se dividiram, uma indo para longe deles, e a outra em sua direção. A luz ficou baixa, pelo menos; seja lá
quem estava segurando não imaginava que pessoas podiam subir em caixas.
Para mim está bem, apenas andem logo e saiam daqui, deixe-nos sair sem ter que lutar! David disse que
voltariam para John e Leon quando a Umbrella fosse embora; ele disse que provavelmente deixariam um ou dois
guardas e que pegar um guarda seria mais fácil do que um time inteiro -
- e uma luz estava brilhando no rosto de Claire, o cegante feixe acertando seus olhos.
"Ei!". Um surpreso grito veio lá de baixo, e então - bam, um tiro foi dado. E ouviu tanto quanto sentiu algo ceder
sob ela, enquanto Rebecca ofegou, enquanto a torre de caixas inclinou para trás.
Claire foi de costas à parede; agarrou a caixa a qual estavam deitados, um coral de gritos vindo lá de fora, a
laranja explosão de fogo vindo da arma de David -
- e com um tremor, todas as caixas vieram a baixo, e Claire mergulhou na escuridão.
Quando ouviu os prováveis bater de asas e os berros, John sentiu sua pele gelar. Ele não gostava de pássaros,
nunca gostou, e dar de cara com um bando de pássaros da Umbrella, numa estéril e surreal floresta -
"Ora bolas". Ele disse, e levantou a M-16, apertando o apoio de plástico forte entre o braço. Leon também
apontava para o alto, o teto pintado de azul noturno a pelo menos quatro metros acima das árvores mais altas.
As árvores variavam de três a talvez dez metros de altura - e bem no alto, John viu que havia "galhos" de pouso
implantados, cada um largo como uma bola de basquete.
Esses pássaros devem ter pés malditamente grandes para precisarem daquilo para pousar...
Os bravos gritos tinham parado, e John não ouviu mais o bater de asas - mas imaginou quanto tempo levaria
para pássaros decidirem procurar comida.
"Pterodátilos, só pode ser". Cole sussurrou, sua voz falhando. "Dacs".
"Você está brincando". John exalou, e pelo canto do olho, pôde ver o magro funcionário da Umbrella acenar.
"Não os de verdade, talvez, é só um apelido que eu ouvi". Cole soou certamente aterrorizado.
"Vamos para a tal porta". Leon disse, já indo para a falsa e escura floresta.
Amém.
John foi atrás dele, três, quatro metros, tentando olhar para cima e onde pisava ao mesmo tempo. Ele tropeçou
quase que imediatamente, sua bota chutando uma pedra moldada em plástico, e mal conseguiu evitar a queda.
"Isso não vai funcionar. Cole - Henry?".
John olhou para trás e viu que Cole ainda estava grudado na porta, seu pálido rosto voltado para o céu.
- teto, droga -
Leon parou e esperou, olhando para os galhos acima. "Estou te cobrindo". Ele disse.
John voltou, bravo, frustrado e seriamente desconfortável; era uma situação difícil; David e as garotas poderiam
muito bem estar lutando por suas vidas na superfície e ele não iria desperdiçar seu tempo mimando um medroso
da Umbrella. Mesmo assim, não poderiam deixá-lo para trás, não sem ao menos fazer uma força.
"Henry, ei, Cole". John tocou seu braço e Cole finalmente olhou para ele. Seus amenos olhos castanhos cheios de
medo.
John suspirou, sentindo um pouco de pena. Ele era um eletricista, pelo amor de Deus, parecia que ignorância tinha
sido seu último crime.
"Olha. Eu entendo que esteja assustado, mas se ficar aqui, vai acabar morrendo. Leon e eu já cruzamos com
alguns bichinhos da Umbrella antes; sua melhor opção é vir conosco - e além do mais, nós podemos usar sua
ajuda, você sabe mais sobre esse lugar do que nós. Certo?
Cole acenou tremendo. "Tá, tá bom. Desculpe. Eu só - estou com medo".
"Junte-se ao clube. Pássaros me dão arrepios. A parte de voar é legal, mas eles são tão estranhos, aqueles olhos
saltados e pés enrugados - você já viu um abutre? Ele tem cabeça de testículos". John tremeu, e viu Cole relaxar
um pouco, até tentou um sorriso.
"Tá bom". Cole disse de novo, mais confiante. Eles andaram para onde Leon estava, ainda vigiando o ar acima.
"Henry, sendo que nós temos as armas, o que você me diz de ir na frente? John perguntou. "Leon e eu
ficaremos de olho, precisaremos de um caminho livre para não nos preocuparmos em ter que pular coisas. Você
acha que consegue?"
Cole acenou, e viu que ainda parecia pálido, John achou que ele agüentaria. Por um tempo.
O guia passou por Leon e cambaleou para sudoeste, fazendo uma irregular trilha pela estranha floresta. Os dois
foram atrás, John percebendo que Cole na frente não fazia muita diferença.
Se você não olha por onde anda, você tropeça. John pensou, desgastado, depois de ter tropeçado pela sexta
vez num "tronco" caído. Sem contradições.
Os Dacs, como Cole os chamava, não deram as caras nem fizeram outro barulho. John viu que andar numa
floresta de plástico já era o suficiente. Era uma sensação bizarra ver a aparência realista das árvores e da grama,
sentir a umidade no ar - mas também ciente de que não havia cheiro de terra ou plantas, nem vento ou
pequenos sons de movimento, nem insetos. Era como num sonho, um de dar nos nervos.
John ainda se equilibrava, seu olhar fixado no emaranhado de galhos acima, até que Cole parou.
"Nós estamos - há uma espécie de clareira aqui". Ele disse. Leon virou, franzindo para John. "Nós vamos
contorná-la?".
John avançou um passo, olhando a área aberta por entre as árvores. Tinha pelo menos 15 metros de espaço
aberto, mas John preferia mudar de caminho; ser atacado no mergulho de um pterodátilo não soava divertido,
mesmo.
"Sim. Henry, vire à direita. Nós vamos -".
O resto de suas palavras foram perdidas assim que um alto e arranhado gorjeio estourou pela floresta inatural, e
uma forma marrom acinzentada mergulhou na clareira e voou para eles, estendendo garras de trinta centímetros
de comprimento. John viu uma envergadura de asa de dois a três metros, as asas de couro com ganchos
encurvados nas pontas. Ele viu um gritante e dentado bico, um esbelto e alongado crânio, e achatados olhos
negros do tamanho de um pires, brilhando -
- e Leon e John abriram fogo quando a criatura chegou na linha das árvores na frente deles, suas enormes garras
perfurando o sólido plástico das árvores. A ave manteve-se firme, esticando suas asas num esforço para se
equilibrar -
- e bambambam, buracos apareceram na fina carne, fileiras de sangue aguado escorrendo dos mesmos. O
animal gritou, tão perto que John não conseguia ouvir os tiros, nada além daquele trêmulo e intenso berro - e
então ele desceu, parando no escuro chão, encolhendo as asas -
- e andando para eles sobre os cotovelos como um morcego, se sacudindo por entre as esfarrapadas árvores,
dando curtos e agudos latidos. Atrás dele, outro apareceu na clareira, revelando fileiras de dentes afiados.
Isso é mau, mau, mau -
O cambaleante animal estava a menos de um metro e meio de distância quando John mirou na balançante
cabeça, no redondo e brilhante olho, e puxou o gatilho.
[12]
O mais alto, John, apontou seu rifle automático para o Av1 e soltou uma rajada de balas.
Como um feixe de destruição, elas acertaram o aquilino crânio do Dac e estourou o outro lado, fluídos escuros
espirrando nas recém pintadas árvores. Ambos os olhos estouraram como bexigas d'água.
Droga. Baixa resistência; são esses ossos ocos.
Reston olhou o outro armado mirar no segundo Dac que pousou na clareira. Mesmo sem som, Reston podia ver
o revólver pular três, quatro vezes, acertando o espécime em seu estreito peito. O esbelto pescoço do Dac
curvava selvagemente para frente e para trás numa rabiscante dança da morte antes de se esparramar no
chão, sangrando.
Reston não viu mais nenhum pousar e os três homens estavam batendo em retirada, voltando para a floresta. O
pobre Cole parecia desfeito, sua boca aberta em um calado grito, seu frouxo cabelo castanho praticamente
grudado de suor na cabeça, seus braços requebrando.
Ele merecia por não ter consertado o áudio. A falta de som o estava irritando, apesar de achar que a filmagem
não sofreria com isso. As pessoas sabiam como tiros soavam.
Os três estavam saindo do alcance, indo à oeste agora. Reston intercalou entre a câmera da árvore e a
panorâmica da parede norte. Era óbvio que Cole os estava levando para a porta de conexão - apesar de não
saber que a segunda clareira agora estava em seu caminho. Por enquanto, os Dacs também tinham recuado;
eles geralmente são atraídos para áreas abertas. Eles só tinham matado dois, o que significava que ainda havia
seis espécimes saudáveis os esperando no prado.
Reston havia soltado todas as criaturas em seus habitats logo após a ligação do Sargento Steve Hawkinson, o
homem que liderava a equipe da superfície. Ele informou que apenas duas equipes da Umbrella - nove homens
incluindo o próprio - estavam começando a varrer o complexo, e que o transporte dos fugitivos havia sido
localizado; os três ainda estavam na área, a não ser que houvesse outro veículo, uma possibilidade altamente
improvável. Reston lhe disse que a câmera da entrada foi coberta por um intruso e pediu uma reparação assim
que possível. Depois disso sentou para assistir o espetáculo.
Ele serviu outro conhaque enquanto observava os três avançarem sinuosa e lentamente por entre as árvores,
John com sua arma apontada para cima, o outro vasculhando as sombras em volta...
Esse aí também precisa de um nome. Nós temos Henry, John, e Ruivo? O cabelo dele é meio avermelhado.
Por aí, mas servirá do mesmo jeito que "Dac" serviu para os Av1. Eles não tinham relação com pterodátilos, claro,
e a sigla "Av" vinha de "Aves" - e de fato os Dacs eram mais próximos dos morcegos do que qualquer outra
coisa. Já haviam muitos na série de mamíferos. O pedido veio do próprio Jackson, os criadores de espécimes
adicionaram novas classificações para o amor de Deus, usando um pouco dos contribuintes secundários para a
seqüência de genes daquela série. Os Spitters (cuspidores), que estavam mais próximos das cobras do que dos
bodes, foram rotulados de Ca6, de Capra (caprinos), por causa dos cascos rachados....
E os Dacs se pareciam com pterodátilos, ou pelo menos com o nosso moderno conceito deles, Reston pensou,
olhando para a tela que mostrava a entrada da jaula. Dois dos animais ainda estavam lá dentro. O aerodinâmico
e musculoso corpo, o fino bico, a "crista" de osso no topo da cabeça, as asas fibrosas... eles até eram elegantes
no modo brutal de ver. Os dois na grande "caverna" dos bastidores estavam claramente agitados com todo o
movimento, andando para frente e para trás com suas asas dobradas, virando suas cabeças de lado a lado.
Reston não sabia muito do fim biológico, mas sabia que caçavam pelo movimento e pelo olfato, e que só dois
deles podiam derrubar um cavalo em menos de cinco minutos.
Mas não muito eficientes contra poder de fogo.
Não fazia diferença mesmo. Os Av1 foram criados para situações de terceiro mundo, onde as manchetes ainda
não relatavam metralhadoras. Era muito ruim morrerem tão rápido, os adestradores ficariam bem desapontados
com as perdas - mas pelo menos já foram testados contra poder de fogo.
E por falar nisso...
Os três homens estavam se aproximando da clareira, saindo do alcance da câmera norte. Lá será onde os Dacs
brincarão. Reston se inclinou para olhar, percebendo que as imagens que estava gravando fariam sua carreira - e
apesar da situação, ele estava realmente se divertindo.
David abriu fogo assim que a luz do soldado os achou, ouvindo o único tiro de uma arma lá embaixo -
- e sentiu os estilhaços de madeira à sua esquerda, um monte deles espirrando em seu braço. Ele queria muito
fazer o atirador parar de atirar, mas sabia com terror que iriam cair, que as duas mulheres se esborrachariam no
concreto se ele não fizesse algo -
- e então ele estava caindo também, as tábuas sob seu corpo desaparecendo de repente, mergulhando na fria
escuridão. David segurou sua arma, esticando seus braços para fora e dobrando os joelhos no meio segundo de
queda livre -
- e seus joelhos tocaram papelão, uma não vista caixa que foi esmagada com seu peso. Instantaneamente, ele
ficou de pé, virando na direção da outra lanterna que ainda brilhava no meio do galpão, o primeiro homem já no
chão. Sem tempo para checar Rebecca e Claire - os gritos aumentaram lá fora, quase chegando.
O portador da lanterna veio abaixo com a curta linha de tiros que David mandou da M-16, um arco de um metro
cruzando a escuridão. Os ecos das balas estouraram por entre as caixas, e quando a lanterna caiu, um único
gemido de dor e surpresa caiu junto com ela, David mirou na direção da porta aberta.
Vamos, então -
Rattatattatt-
Tiros de metralhadora lá fora... mas ninguém entrou. David foi para a esquerda e mandou uma rajada de sua
arma em resposta, não esperando acertar ninguém, as balas acertando o entorno da porta. Ele precisava ganhar
tempo, mesmo se forem alguns segundos.
"Unha". Um suave e feminino gemido veio de trás dele.
"Rebecca! Claire! Respondam!". Ele sussurrou asperamente, ainda olhando o pálido e vazio quadrado da porta
aberta.
"Aqui. Eu, Claire, estou bem, mas acho que ela está ferida -".
Droga!
David sentiu seu coração pular uma batida e recuou um passo, seus pensamentos correndo, um nó de horror em
seu estômago. Só haviam passado trinta segundos desde o primeiro tiro, e a equipe da Umbrella já devia ter
cercado o prédio, se forem mesmo bons. Eles tinham que sair antes que os atiradores se organizassem por
completo.
"Claire, venha até mim, siga minha voz - eu preciso de você cobrindo a porta. Se vir alguém, mesmo uma
sombra, atire para matar. Entendido?"
Ele a ouviu se movimentar enquanto falava e a agarrou quando chegou mais perto, puxando seu braço.
"Espere". Ele disse, e soltou outra rajada de sua arma, acertando a parede perto da porta. Ele imediatamente
entregou a M-16 para Claire enquanto retornavam fogo lá fora, as balas viajando sem direção no escuro.
"Você consegue usá-la?".
"Consigo -". Ela soou ansiosa, porém firme o bastante.
"Bom. Assim que eu disser, nós começaremos a ir para a porta oeste; você vai nos cobrir".
Ele já estava virando na direção do canto onde Rebecca estaria, quando ouviu outro abafado murmúrio de dor e
fixou-se nele, movendo-se rapidamente, ajoelhando-se perto da garota ferida. Ele sentiu o cabelo sedoso de
Rebecca sobre sua mão, sentindo o pegajoso e morno sangue.
"Rebecca, você consegue falar? Você sabe onde está ferida?".
Uma tosse - e sentiu os dedos dela tocarem seu braço, e soube que estava bem mesmo antes de falar.
"Atrás da cabeça". Ela falou, suave mas bem claro. "Possível concussão, caí com tudo sentada, os membros
parecem bem...".
"Eu vou te ajudar. Se você não puder andar, eu te carregarei, mas nós temos que ir agora -".
Para provar suas palavras, houve outro disparo da metralhadora lá fora -
- e um grito que o fez se mover mesmo antes de terminar.
"Atire na abertura!". Disseram lá fora.
David girou, se levantou e segurou Claire por trás, gritando, "Feche os olhos -". E enquanto fechava os seus no
caso de uma incendiária, rezando para que não fosse uma granada -
- mas o whump de um lançador, seguido por um alto pop e um hiss o disse que era gás. Ele se afastou de Claire,
e a sentiu ao seu lado, ouviu sua ofegante e assustada respiração.
Deus, que não seja sarin ou soman, que eles nos queiram vivos -
Em segundos, os olhos e nariz de David começaram a lacrimejar fortemente e sentiu um onda de alívio. Não é
gás nervoso; eles usaram um gás lacrimejante CN ou CS.
"Porta oeste". David disse, e Claire engasgou um afirmativo, o composto químico disseminando rapidamente no
frio ar, uma efetiva, porém não letal arma. Ainda bem.
Ele virou para trás e sentiu uma mão esfregar seu peito.
"Eu não consigo andar". Rebecca disse, tossindo, e David jogou o braço dela em volta de seu pescoço e começou
a ir para a porta o mais rápido que podia através da escuridão. Ele ouviu Claire ofegando, mas agüentando,
acompanhando eles.
David se apressou, bolando um plano, tentando não respirar muito fundo. Haverá gente em ambas as portas,
esperando -
- mas a que distância? Eles vão querer estar bem lá para dominar suas vítimas chocadas...
O plano estava pronto. Assim que alcançaram a porta, David procurou em seu estojo de perna, tirando a lisa e
redonda granada anti-pessoas, puxando o pino.
"Claire, Rebecca, atrás de mim!".
Já cegos no escuro, as lágrimas só ardiam mas não interferiram em sua mira enquanto empunhava a 9mm e a
esticava à frente, procurando a porta.
BAM!
Ele abriu um buraco na fechadura, destrancando-a, ouvindo os gritos de surpresa dos homens lá fora. Quase
sem parar, David abriu a porta, o quanto até a cerca? Cinqüenta, sessenta metros -
- e jogou a granada, um gentil arremesso pela porta, fechando-a o mais rápido possível, jogando seu peso contra
ela e agradecendo à Deus por ser bem resistente -
- e KA-WHAM, a porta lutou contra ele enquanto o impacto durou, os estilhaços martelando contra ela como uma
fera selvagem socando para entrar. David esperou. A trovoada da M68 deu lugar a gemidos e uivos de dor,
quase inaudíveis sob o apito em seus ouvidos e o grito de seus sufocados pulmões.
"Cubra a direita e vá para a esquerda!". Ele gritou, e escancarou a porta, girando a H&K de lado a lado. A pálida
luz da lua só mostrou três homens, todos no chão, todos feridos e gritando atrás do véu de suas lágrimas.
Coletes, no corpo inteiro, talvez -
Ele esperava uma corrida para frente, para seu veículo de fuga, mas virou à esquerda. Ele fixou seu molhado
olhar na escura cerca enquanto Claire e Rebecca vinham atrás dele, tossindo e lacrimejando.
"Cerca". Ele disse, o mais alto que pôde, e voltou para Rebecca, deslizando seu braço na cintura dela. Eles
pularam um dos homens no chão e começaram uma forte corrida na direção da fuga, Claire bem atrás. Ela corria
de lado, a M-16 apontada para trás, na direção da frente do complexo.
Boa garota, nós vamos conseguir, passamos pela cerca, e contornamos o complexo pelo deserto até a van -
Eles correram, diminuindo a distância mais rápido do que David esperava, a grade a 9 metros da parte de trás do
galpão o qual estavam, o galpão que havia escolhido por causa disso; os outros angulavam para frente, seria
muita distância, e o primeiro era muito óbvio -
- e estavam quase na cerca quando alguém disparou uma metralhadora atrás deles, vindo de entre o outro lado
do galpão. Pelo menos alguém da Umbrella usou a lógica e deu a volta para verificar a inesperada rota de fuga.
Claire estava lá, retornando fogo, a rápida trepidação das duas automáticas mergulhando num explosivo dueto. O
atirador invisível foi pego ou estava agachado quando as trovoadas viraram um solo, Claire perfurando o escuro
com a .233.
Rebecca vai precisar de ajuda.
"Claire! Suba e passe!". David gritou, segurando a M-16. Ela virou e escalou a cerca facilmente.
"Rebecca, vai!". David puxou o gatilho e o segurou, espalhando balas pela fria noite, ouvindo retorno
aparentemente de todo o lado, três talvez quatro atiradores -
- e houve um choro atrás dele, de Rebecca, apenas na metade da cerca. Algumas gotas mornas pingaram no
rosto de David que parou de atirar, pulando para segurá-la antes que caísse.
"Eu cubro!". Claire gritou do outro lado, e atirou pela cerca, a 9mm pulando forte, o punho de David mais ainda.
Rebecca estava pálida, ofegando asperamente, certamente com dor - mas ela conseguiu se segurar na cerca,
até mesmo subir um pouco enquanto David se apoiava na cerca e a empurrava par cima.
Ele praticamente a levou até o topo e assim que Claire a alcançou para ajudar, David virou e atirou de novo nos
soldados, ainda escondidos nas sombras, sua fúria secando as últimas lágrimas.
Malditos idiotas, ela ainda é só uma garota -
A M-16 secou e ele pulou, aí Rebecca estava entre eles, encostada pesadamente nos ombro de David, e já
estavam correndo na gelada noite do deserto.
[13]
Com apenas minutos de ataque, Leon pôde ver que Cole não tinha condições de liderar. O funcionário da Umbrella
estava andando cegamente, indo vagamente na direção que precisavam ir.
E agora que sabemos que podem atacar pelo chão... ele e John não precisavam ficar olhando para o céu.
"Henry - posso assumir a ponta como guia por alguns minutos?" Leon perguntou, olhando para John. John
acenou, não parecendo tão emotivo; ele estava firme, seu olhar pulando par lá e para cá rapidamente, suas
mãos apertando a M-16.
Talvez esteja pensando nos outros. Sobre terem sido "pegos".
"Tá, tá bom, por mim, tudo bem". Cole acenou, seu alívio bem aparente. Ele pôs seu suado e castanho cabelo
de lado e correu para trás de Leon, John ainda lá atrás.
Leon estava nervoso, os pássaros, Dacs, eram desagradáveis e perigosos, e foi um alívio tê-los visto; eles não
eram tão terríveis quanto sua imaginação o tinha feito acreditar, quando ouviu os primeiros berros. Os monstros
da mente são sempre piores do que os de verdade, e os Dacs nem resistiam muito. Enquanto John e ele ficarem
de guarda, todos conseguirão.
Ele tinham sido espantados para sul e Leon corrigiu a rota, percebendo que estava começando a identificar o que
poderia ser a parede. A disposição das árvores causava confusões; não eram tão juntas, mas estavam
espalhadas dando a impressão de densidade ao olhar para a floresta; a grossa cobertura do chão, algum tipo de
plástico moldado, não se movia sobre os pés, o relevo e as depressões do material tornavam ainda mais difícil
sentir o tamanho do lugar.
É tão estranho, tão acima - tão parecido com a Umbrella.
Era como aquele vasto laboratório sob Raccoon, completo com sua própria casa de fundição e ferrovia particular -
inacreditável, mas viu tudo pessoalmente. E Leon soube através dos ex-S.T.A.R.S., que havia uma isolada
enseada na costa de Maine guardada por equipes de zumbis, e uma mansão "deserta" na floresta, a mansão de
Spencer, aquela equipada com segredos, chaves, códigos e passagens, como o cenário de um filme de
espionagem que a ninguém convence.
Agora isso - ambientes simulados sob as áridas e planas salinas de Utah. Como Reston o havia chamado? O
Planeta. Era extravagante, decadente, desperdício imoral; ridículo, exceto -
- exceto por estarmos presos nele, e só Deus saber o que enfrentaremos depois.
Leon continuou andando, tentando não pensar como Claire e os outros estavam. Reston presumiu que o resto da
equipe havia sido capturada, mas Leon não sabia. Também não sabia o quanto Claire e Rebecca eram
engenhosas, ou o quanto brilhante David era como estrategista. Todos eles já escaparam da Umbrella antes, e
não havia motivos para não conseguirem de novo.
Leon estava tão entretido na sua conversa particular que não viu a clareira até estar praticamente na beira dela, a
menos de seis metros. Ele parou, lembrando do último ataque - e se repreendeu por não ter prestado atenção.
"Vamos recuar e retornar". Ele disse - e aí ouviu o bater de asas, e sabia que já era tarde demais. Nas murchas
sombras sobre o espaço aberto, um, dois, três deles estavam mergulhando das traves de pouso, planando em
torno da clareira.
Droga!
Um deles começou a gritar e os outros acima se esconderam nas árvores, juntando-se na música, uma
ensurdecedora e horrorosa cacofonia aguda. Leon recuou, John ao seu lado de repente, mirando o rifle na
clareira.
O primeiro voou para as árvores, chacoalhando-se de lado a lado como se para voar entre elas. Ele arremeteu no
último segundo, tão rápido que não acertaram um tiro. Assim que subiu, Leon viu dois no chão, carregando seus
vigorosos corpos entre as asas dobradas.
O barulho! Era doloroso, tão estridente e terrível quanto mil bebês gritando, e Leon sentiu a 9mm atirar mais do
que podia ouvir, o pesado metal pulando em suas mãos. Os pássaros ficaram quietos quando o mais próximo
teve sua garganta baleada. Um esfarrapado buraco estourou um pouco acima de seu estreito peito, abas de pele
escura abrindo como uma flor. Um fino sangue espirrou do ferimento e o segundo pássaro passou por cima do
outro, no chão se debatendo, fixo no ataque. Leon mirou e -
"Ei ei, ah droga -".
O histérico grito de Cole o distraiu, o tiro indo para a direita, perdendo o alvo. John abriu fogo contra o segundo
Dac, o bater da automática furando o animal. Leon girou e viu Cole recuando, outro dos ferozes pássaros
investindo na direção dele.
Como ele passou por nós?
Leon mirou, o Dac a não mais que um metro e meio de Cole, e mesmo enquanto apertava o gatilho, outra das
criaturas estava descendo diretamente sobre eles. A tão pouca distância, a bala de 9mm perfurou o peito da ave
e abriu um buraco do tamanho de um punho nas costas, o Dac morrendo antes de cair no chão. O outro
arremeteu, as pontas de suas enormes asas esfregando no chão, voltando para cima.
"Henry, fique atrás de mim!". Leon gritou, olhando para cima - e vendo outro Dac descendo das traves
diretamente acima, franzindo as asas e mergulhando na direção deles.
Ele precisava de ajuda. "John...!".
O pássaro só abriu suas asas a alguns palmos do chão, surpreendentemente gracioso no pouso. Ele virou para
Leon e iniciou o ataque. Leon ouviu os tiros atrás dele - e os ouviu parar, ouviu John resmungar, ouviu o alumínio
da M-16 bater no chão.
O Dac na frente de Leon abriu seu longo bico e berrou, uma explosão de raiva, um som de fome, andando tão
rápido quanto Leon recuava. A criatura balançava para frente e para trás e Leon não tinha munição o suficiente
para gastar, ele precisava de um tiro certeiro -
- e o pássaro pulou, um estranho e súbito salto que o deixou a trinta centímetros de distância. Com outro agudo
berro, a criatura esticou a cabeça, seu bico aberto fechando em seu tornozelo. Mesmo com a grossa bota de
couro, Leon pôde sentir a ponta dos dentes, sentir o poder da mandíbula -
- e antes que pudesse atirar, John estava lá, estava pisando no longo pescoço do Dac e apontando o revólver -
- e bam, a bala acertou sua espinha, uma vértebra em suas costas estourando, estilhaços de osso e sangue
jorrando. A ave soltou seu tornozelo e apesar do pescoço ainda se contorcer, o resto do corpo estava parado,
sangrando e imóvel.
Quantos, quantos ainda restam -
"Vamos lá". John chamou, pegando o rifle do chão e virando para correr. "Vão para a porta, nós temos que
chegar nela!".
Eles correram pela clareira, Cole atrás, o bater de asas mais atrás, outra voz aguda gritando pelo ar. Eles
voltaram às árvores, a floresta sem vida, tropeçando sobre galhos e desviando de contorcidos troncos de
plástico.
A parede. Lá está ela!
E lá estava a porta, metálica e de folha dupla, um pino solto no lado direito -
- e Leon ouviu o terrível berro em seu ouvido, a centímetros de distância, e sentiu o sopro de ar em seu pescoço
-
- e deixou suas pernas cederem, caindo no chão, e sentiu uma súbita dor assim que algo arrancou um pedaço de
cabelo de seu couro cabeludo, da parte de trás da cabeça.
"Cuidado!". Leon gritou, erguendo o olhar para ver o enorme pássaro investindo em John, quase na porta, Cole
ao seu lado.
John se virou, sem recuar. Ele ergueu seu revólver e apertou o gatilho, um tiro certeiro, e o Dac caiu como se
fosse feito de chumbo, seu pequeno cérebro de repente líquido, estourando.
Cole estava mexendo na porta, John ainda mirando sobre a cabeça de Leon, e Leon ouviu outro grito de fúria em
algum lugar atrás -
- e a porta estava aberta - e Leon correu, John o cobrindo enquanto cambaleava até Cole, saindo da fria e escura
floresta para um ofuscante calor. John vinha logo atrás, batendo a porta para fechá-la -
- e estavam na Fase Dois.
Rebecca estava correndo, sem fôlego e exausta, incapaz de parar e descansar. David e Claire estavam correndo
com ela, carregando-a, mas ainda sentia que cada passo era um esforço de pura vontade; seus músculos não
queriam cooperar, e estava desorientada, seu equilíbrio uma bagunça e seus ouvidos apitando. Ela estava ferida e
não sabia o quanto grave era - só sabia que tinha sido baleada, que tinha batido a cabeça, e que não podiam
parar até estarem bem longe do complexo.
Estava escuro, muito escuro para ver onde o chão estava, e frio; cada respiração era uma gelada punhalada em
sua garganta e pulmões. Seus pensamentos estavam confusos, mas sabia que tinha sofrido alguma disfunção
cerebral, incerta de qual; as possibilidades a assombravam enquanto pensava nelas. A bala era mais fácil; ela
sabia pela quente e latejante dor. Doía terrivelmente, mas não achava que tinha alguma fratura, e não estava
sangrando; estava mais preocupada com a perda de coerência.
Baleada no glúteo esquerdo, alojada no ísquio, sortuda, sortuda, sortuda... choque ou concussão? Concussão ou
choque?
Ela precisava parar, checar o pulso temporal, procurar sangue nos ouvidos... ou por CSF, algo que nem queria
pensar. Mesmo em seu confuso estado, ela sabia que sangrar fluído cerebrospinal era a pior conseqüência de
uma pancada na cabeça.
Depois do que pareceu um bom tempo, e mais balanços e mudanças de direção do que pôde contar, David
diminuiu, pedindo Claire que diminuísse, e que iriam deitar Rebecca no chão.
"No meu lado". Rebecca ofegou. "A bala está no lado esquerdo".
David e Claire a deitaram cuidadosamente na plana terra, respirando, recuperando o fôlego, e Rebecca nunca
ficou tão grata por deitar. Ela só pegou um lance do céu preto enquanto David a rolou; as estrelas estavam
incríveis, claras e frias sobre o fundo oceano negro...
"Lanterna". Ela disse, percebendo o quanto estranhos seus pensamentos tinham se tornado. "Tem que verificar".
"Estamos longe o bastante?". Claire perguntou, e demorou um pouco para Rebecca perceber que Claire falava
com David.
Ah, porcaria, isso não é bom...
"Deveríamos. E nós os veremos chegar". David disse brevemente e ligou sua lanterna, o feixe indo para o chão a
centímetros do rosto de Rebecca.
"Rebecca, o que podemos fazer?". Ele perguntou, e ela ouviu a preocupação em sua voz, amando-o por isso.
Eles eram como uma família, desde Caliban, ele foi um bom homem e um bom amigo...
"Rebecca?". Desta vez ele soou amedrontado.
"Ah, desculpe". Ela disse, imaginando como explicar o que estava sentindo, o que estava acontecendo. Ela decidiu
que era melhor só falar e esperá-los descobrir.
"Olhe para minha orelha". Ela disse. "Procure sangue ou um líquido claro, eu acho que tive uma concussão. Eu
não estou pensando bem. A outra orelha, também. Fui baleada e acho que a bala está alojada no meu ísquio.
Pélvis. Sortuda, sortuda. Não deve estar sangrando muito, eu posso desinfetar e cobrir se me derem meu estojo.
Tem gaze e isso é bom, a bala podia ter acertado a espinha ou ter pego a artéria femoral. Muito sangue, isso é
ruim, ferida e sendo eu a única médica -
Enquanto falava, David iluminou seu rosto e gentilmente o levantou para checar o outro lado antes de apoiar sua
cabeça no colo. As pernas dele estavam quentes, seus músculos se contorcendo.
"Um pouco de sangue no ouvido esquerdo". Ele disse. Claire, tire o estojo de Rebecca, por favor. Rebecca, você
não precisa mais falar, nós vamos te consertar; tente descansar se puder".
Sem CSF, graças a Deus...
Ela queria fechar os olhos para dormir, mas precisava terminar de dizer tudo. "Concussão soa menos importante;
significa desorientação, zumbido nos ouvidos, falta de equilíbrio - pode durar algumas horas ou talvez semanas.
Não deve ser tão grave, não é bom se mexer. Repouso. Ache o meu pulso temporal, na lateral da minha
cabeça. Se não conseguir, eu devo estar em choque - elevação de temperatura...".
Ela respirou, e percebeu que a escuridão não estava só do lado de fora. Ela estava cansada, muito, muito
cansada, e um tipo de névoa escura estava tomando conta de sua visão.
Isso é tudo, já disse tudo -
John. Leon.
"John e Leon". Ela disse, horrorizada por ter esquecido deles por um momento, forçando para se sentar. Perceber
isso foi como um tapa na cara. "Eu posso andar, eu estou bem, nós temos que voltar -".
David mau a tocou e de alguma forma, sua cabeça estava no colo dele de novo. Então Claire levantou a parte de
trás da camisa de Rebecca, dando tapinhas de leve na coxa, mandando frescas ondas de dor por seu corpo. Ela
franziu os olhos, tentando respirar fundo, tentando ao menos respirar.
"Nós vamos voltar". David disse, e a voz dele parecia estar vindo de muito longe, do topo de um poço ao qual ela
caiu.
David continuou. "Mas precisamos esperar o helicóptero partir, se é que ele o fará - e você precisará de tempo
para se recuperar..."..
Se ele disse mais alguma coisa, Rebecca não ouviu. Ela dormiu e sonhou que era uma criança, brincando na fria,
fria neve.
Deserto!
Não haviam animais à vista, deviam estar do outro lado da duna, e Cole achava que sabia quais pertenciam à
Fase Dois. Antes que John e Leon dessem um passo, antes que os ouvidos de Cole parassem de apitar devido
aos gritos dos Dacs, ele começou a tagarelar.
"Deserto, a Fase Dois é um deserto, então deve ter os Scorps, escorpiões, entenderam?".
John estava tirando um clip curvo de seu estojo de perna, franzindo sobre a artificial luz solar que vinha de cima.
Devia estar uns quarenta graus na câmara, e com as paredes brancas e a ofuscante luz, parecia estar bem mais
quente. Leon vasculhou a brilhante areia na frente deles, e virou para Cole, olhando como se tivesse comendo
algo azedo.
"Maravilhoso, isso é ótimo. Escorpiões? Scorps e Dacs... quais são os outros, Henry, você se lembra?".
Por um segundo, a mente de Cole ficou vazia. Ele acenou, revirando seu cérebro, todo o suor de seu corpo já
evaporado com o calor. "Ah - esses são apelidos, Dacs, Scorps... Hunters! Hunters e Spitters, os criadores tinham
esses apelidos -".
"Uma gracinha, como fofinho e totó". John interrompeu, alisando sua sobrancelha com as costas da mão. "Então,
onde eles estão?".
Os três olharam em volta na Fase Dois, para a enorme duna de areia que estava no meio do lugar, brilhando
como purpurina sob a gigante grade de luminárias acima. Sete, nove metros de altura, a duna bloqueava a visão
da parede sul, inclusive a porta no extremo canto direito. Não tinha mais nada para ver.
Cole balançou a cabeça sem dizer nada; os Scorps estavam por lá, e eles tinham que cruzar as quente dunas de
areia ara chegar à saída.
"Quais eram as outras fases, montanhas e cidade? Você já as viu?". Leon perguntou.
"A Três é parecida com um, como posso dizer, um abismo, no alto de uma montanha. Como um desfiladeiro
rochoso. E a Quatro é uma cidade - alguns quarteirões. Eu tive que checar as entradas de vídeo quando vim para
cá".
John olhou para cima e em volta, franzindo os olhos contra a forte luz. "Certo, vídeo... você lembra onde estão?
As câmeras?".
Por que ele quer saber isso? Cole apontou para a esquerda, para o pequeno olho de vidro embutido no alto da
parede branca. "Tem cinco delas aqui; aquela é a mais próxima...".
Com um largo sorriso, John ergueu as duas mãos e estendeu os dedos do meio para a lente. "Toma, Reston".
Ele disse bem alto, e Cole decidiu que gostava dele, e muito. Leon também, mas não só por serem seu ingresso
de saída. Seja lá quais eram suas motivações, eles certamente estavam no lado certo das coisas; e o fato de
que podiam fazer piadas numa hora como essa...
"Então, nós temos um plano?". Leon perguntou, ainda olhando para a parede de areia à frente.
"Por ali,". John disse, apontando à direita. "E depois subimos. Se ver algo, atire".
"Brilhante, John. Você devia escrever isso. Sabe, eu -".
Leon parou de repente, e Cole ouviu. Uma batida. Um som como unhas batendo em madeira oca, o mesmo som
que ouviu quando consertava uma das câmeras semana passada.
Um som de garra, abrindo e fechando. Como mandíbulas clicando...
"Scorps". John disse suavemente. "Escorpiões não deviam ser noturnos?".
"Mas isso é a Umbrella, lembra?". Leon disse. "Você tem duas granadas, eu tenho uma...".
John acenou e disse. "Você sabe usar uma semiautomática?".
O grande soldado estava observando a duna, e levou um segundo para Cole perceber que John estava falando
com ele.
"Ah, sim. Eu nunca usei uma, mas já fiz tiro ao algo algumas vezes com meu irmão, seis ou sete anos atrás...".
Ele também falou baixo, ouvindo aquele barulho estranho.
John olhou diretamente para ele, como se o analisasse, e puxou um pesado revólver de seu coldre de perna. Ele
a deu para Cole, segurando-a pelo cano.
"É uma 9mm, leva dezoito. Eu tenho mais clips se acabar. Você conhece todas as regras de segurança de uma
arma? Não aponte para ninguém ao menos que queira matar, não atire em mim ou no Leon, coisas do tipo?".
Cole acenou, pegando a arma, e era pesada - e apesar de nunca ter estado tão assustado em seus trinta e
quatro anos, o sólido peso da arma em suas mãos era um tremendo alívio. Lembrando do que seu irmão dizia
sobre segurança, Cole fuçou a arma para ver se estava carregada antes de olhar para John de novo.
"Obrigado". Ele disse, e era verdade. Ele tinha atraído esses caras para uma armadilha e eles o estavam dando
uma arma; dando-o uma chance.
"Pode esquecer. Isso significa que não temos que nos preocupar em proteger o seu traseiro ao invés dos
nossos". John disse, mas sentia um suave sorriso. "Vamos".
John na frente e Leon logo atrás, eles começaram à leste, andando devagar pelo parado cenário. A areia era de
verdade; se movia sob os pés, e com o terrível calor, seria um verdadeiro esforço.
Eles só andaram uma pequena distância quando Leon pediu uma pausa.
"Roupa de baixo térmica". Ele murmurou, guardando sua arma antes de tirar sua camisa preta e amarrá-la na
cintura. Ele vestia uma grossa e texturizada camisa por baixo. "Eu não imaginei que chegaríamos no Saara -".
Todos ouviram o som, só um segundo antes de verem - antes de vê-los, três deles, alinhando-se no topo da
duna. Pequenos rios de areia desceram por debaixo de suas múltiplas pernas, cada uma tão grossa quanto um
taco de baseball. Eles tinham garras, eram como gigantes pinças estreitas e pretas, serrilhadas no lado, e longos
e segmentados corpos que terminavam em caldas, curvando-se acima de suas costas - com um ferrão nas
pontas. Feios e caídos ferrões de pelo menos trinta centímetros.
As três criaturas cor de areia, cada uma com cerca de um metro e meio de comprimento e noventa centímetros
de altura, começaram a fazer barulho - as lisas e pontudas presas sob seus arredondados olhos aracnídeos
batiam umas nas outras, soltando aqueles cliques -
- e então todas as três criaturas, os monstros, estavam deslizando na direção deles, perfeitamente equilibrados,
apressando-se pela areia com facilidade.
E no topo da duna, outros três apareceram.
[14]
"Droga". John exalou, nem a par de que falou, e ergueu a M-16, abrindo fogo.
- bambambambam -
- e o primeiro dos escorpiões soltou um estranho e seco hiss, como ar saindo de um pneu gigante, assim que as
balas martelaram seu corpo curvado. Um grosso fluído espirrou dos ferimentos em sua face, uma face de presas
babantes e olhos de aranha, uma face com um buraco escuro para a boca. As contorcidas garras se ergueram,
caindo ao lado e se debatendo ferozmente, cavando sua própria cova rasa na areia.
Leon e Cole estavam atirando, o trovão das 9mm afogando qualquer outro hiss, produzindo ainda mais sangue
branco no segundo e terceiro dos Scorps. O fluído branco estourava em bolhas, como vômito, e haviam mais três
deles descendo -
- e o primeiro, aquele que John havia enchido de furos estava se levantando. Instavelmente, mas se levantando.
Os buracos estavam vazando com aquela meleca viscosa - e mesmo enquanto avançava para eles, John viu que
o líquido estava endurecendo, tampando os ferimentos, tão eficiente quanto gesso numa parede.
"Vai vai vai!". John gritou assim que as outras duas criaturas, derrubadas por Leon e Cole, começaram a se
mover, seus ferimentos já virando casca. O segundo trio estava na metade da duna e se aproximando rápido.
Temos que sair.
Ainda havia dois "ambientes", e já tinham usado pelo menos um terço da munição; isso passou na mente de
John na fração de segundo que levou para ele espirrar mais bolhas nos Scorps, enquanto Leon e Cole corriam à
leste.
Ele nem tentou derrubar nenhum dos seis, sabia que não faria diferença. A linha de balas era só para afastá-los
enquanto os outros dois homens fugiam, sua mente forçando para achar uma solução enquanto os impossíveis
animais balançavam suas tortas garras, escorregando na granulosa areia e jorrando mais da cola bizarra.
- granada, mas como eu pego todos de uma vez, como evitaremos os estilhaços -
O mais próximo dos Scorps estava a uns três metros a sua frente quando virou e correu, o mais rápido que podia
pelo terrível calor, sua adrenalina alta e forte. Leon e Cole estavam a cinqüenta metros à frente, Leon
ziguezagueando - olhando para frente e para trás, mirando com a semi.
John olhou para trás, viu que os escorpiões ainda vinham. Mais lentos porém sem vacilar, seus corpos vespóides
pingando branco, suas encurvadas garras erguidas e clicando. Eles também ganhavam velocidade, a cada passo,
um monte de insetos procurando almoço -
- em bando -
Eles podem não ter uma chance melhor, John soltou o rifle, a alça parando em seu pescoço, e afundou uma mão
em seu bolso, ainda conseguindo correr. Ele tirou uma das granadas, liberou o pino, virou e correu de costas. Ele
tentou avaliar a distância, o processo da M68 passando em sua frenética mente, os Scorps a uns vinte metros
atrás.
- detonador de impacto, se arma dois segundos depois do impacto, recuar por seis segundos -
"Granada!". Ele gritou, e atirou o redondo objeto para o alto, rezando para ter feito uma boa decisão enquanto
virava e corria, a granada ainda subindo enquanto John mergulhava na lateral da duna..
John se enterrou nela, empurrando com todos os músculos, escavando cego e sem fôlego. A areia estava mais
fria por baixo, ondas dela em seu rosto, tentando forçar a entrada em seu nariz e boca, mas não conseguia
pensar em mais nada além de puxar as pernas para dentro - e no que os estilhaços poderiam fazer com a carne
humana.
Um último e desesperado chute e -
- KA-WHAM -
- houve um enorme balanço em volta dele, uma incrível pressão acertando a cobertura de areia sobre ele. Ele
sentiu o peso acima dele forçar o ar para fora de seus pulmões, e usou tudo o que tinha para levar a mão à boca
para cobri-la. Respirando superficialmente, ele começou a sair, se contorcendo e chutando como uma minhoca.
Leon, será que eles se abaixaram a tempo, será que funcionou -
Ele ainda lutava contra as correntes deslizantes de grãos, respirando mais uma vez antes de usar as duas mãos
para afastar a areia. Em poucos segundos ele estava fora, cascatas de areia caindo de seu corpo, seus irritados
olhos lacrimejando. Ele as secou com uma mão, erguendo a M-16, olhando para a ameaça primeiro -
- e não eram mais ameaça. A granada deve ter caído bem na frente deles; dos seis escorpiões, quatro estavam
em pedaços. John viu uma garra ainda se mexendo, caída na areia em uma poça de branco, uma calda com um
ferrão ainda preso, uma perna, outra perna; o resto estava irreconhecível, grandes pedaços de mingau
espalhados num semicírculo.
Os dois restantes ainda estavam inteiros lá atrás, mas definitivamente não se levantariam de novo; os corpos
estavam intactos, mas os olhos e boca, as estranhas mandíbulas e os rostos se foram.
Todos explodidos. Nem um monte de meleca branca vai grudar tudo aquilo de novo...
"John!".
Ele virou, viu Leon e Cole retornando, expressões maravilhadas em ambos os rostos. John se permitiu um breve
momento de completo orgulho, vendo-os se aproximarem; ele foi brilhante, no tempo, na mira, em tudo.
Bom. o verdadeiro soldado não ganha louvores por um trabalho bem feito; para ele já bastava saber disso...
Quando o alcançaram, John voltou a si; pensar na situação deles já era o suficiente.
Eles estavam numa área de teste psicótica por causa de um maluco da Umbrella; sua equipe foi separada,
tinham munição limitada, e não havia uma saída clara de lá.
Vocês estão ferrados. Dar um tapinha nas próprias costas era como dar uma aspirina para um morto; não
adiantava nada.
Ainda assim, vendo a leve esperança nos rostos dos dois... podia não ser esperança, mas raramente é uma
coisa ruim.
"Podem haver mais deles". Ele disse, tirando areia da M-16. "Vamos sair daqui -".
- clickclickclick -
Aquele som. Todos eles congelaram, olhando um para o outro. Não estava tão perto, mas em algum lugar sobre
a duna havia pelo menos mais um Scorp.
David tinha avistado uma luz a pelo menos quatrocentos metros à sudoeste de sua posição, mas nem chegou
perto; se não fosse o frio, Claire teria se sentido aliviada. As chances de alguém encontrá-los nos intermináveis
quilômetros de escuridão eram perto de zero; os caras da Umbrella tinham fracassado. Mesmo com um holofote
do helicóptero - o qual aparentemente não iriam mais usar - seria pura sorte acharem os três...
"Como você está, Claire?".
Ela se esforçou para não bater os dentes, mas falhou. Deve ter passado uma hora, talvez mais. "Está frio pra
caramba, David, e você?".
"Também. Foi bom termos nos vestido bem, né?".
Se foi uma piada, ela não percebeu. Claire se aconchegou mais perto de Rebecca, pensando em que hora perdeu
a sensibilidade nos membros; suas mãos estavam dormentes e seu rosto parecia congelado numa máscara,
mesmo com as quase constantes mudanças de posição. David estava do outro lado de Rebecca, os três juntos o
mais próximo possível. Rebecca não tinha acordado, mas sua respiração estava lenta e constante; pelo menos
ela descansava confortavelmente.
Só ela...
"Não deve demorar muito". David disse. "Vinte, talvez vinte e cinco minutos. Eles posicionarão um ou dois
homens, depois partirão".
"É, você é quem manda". Claire disse. "Como você deduz o tempo?". Seus lábios pareciam picolés.
"Busca no perímetro, uma volta de pelo menos quatrocentos metros - considerando que eles tenham seis ou
menos homens ainda capacitados fisicamente, eu estimo quatro - ".
"Por quê?".
A voz de David tremeu com o frio. "Três homens estavam na porta de trás do prédio, dois entraram - e pelos
sons, eu diria que haviam de três a sete na frente. Oito ou doze homens; mais que isso não caberiam todos no
helicóptero. Menos que isso, eles não conseguiriam ter coberto as duas entradas".
Claire estava impressionada. "E por que vinte a vinte e cinco minutos?".
"Como eu disse, eles vão cobrir uma certa distância em volta do complexo antes de desistirem. O tamanho do
complexo vai de quatrocentos à oitocentos metros, e quanto tempo leva para um homem mediano andar essa
distância. Nós vimos aquela luz há talvez uma hora, e desde que certamente cada um foi para um lado e
verificado aquele segmento... bom, vinte a vinte e cinco minutos. Isso incluindo o tempo que levaria para verificar
a van. Essa é a minha opinião".
Claire sentiu seus lábios congelados tentarem um sorriso. "Você está tirando uma com a minha cara, não está?
Inventando?".
David pareceu chocado. "Não estou. Eu repassei isso várias vezes e eu acho -".
"Estou brincando". Claire disse. "Sério".
Um curto silêncio e então David riu, o baixo som carregado facilmente pelo frio escuro. "Claro que está. Desculpe.
Eu acho que temperatura afetou o meu senso de humor".
Claire alternou as mãos, tirando a direita de debaixo da perna de Rebecca e colocando a esquerda. "Não. Eu peço
desculpas. Não devia ter interrompido. Continue, é muito interessante".
"Nada mais a dizer". David disse, e ela ouviu o leve e rápido bater de dentes dele. "Eles vão querer ajuda médica
para os feridos, e eu duvido que a Umbrella queira que um de seus helicópteros seja visto voando pelas salinas à
luz do dia; eles deixarão um guarda e partirão".
Ela o ouviu tremer, sentiu o corpo de Rebecca mexer enquanto ele trocava sua posição. "De qualquer modo, é aí
que nós andamos. Primeiro para o complexo, um pouco de sabotagem - e então só veremos o que acontece...".
O modo como sua voz parou, o humor forçado em seu tom que se quer cobriu o desespero - diziam exatamente
o que estava pensando.
O que ambos estavam pensando...
"E Rebecca?". Ela perguntou gentilmente. Eles não podiam deixá-la, ela congelaria. Tentar invadir o complexo de
novo, tentar derrubar alguns homens armados enquanto carregavam uma mulher inconsciente...
"Eu não sei". David disse. "Antes que ela - ela disse que poderia se recuperar em algumas horas, com descanso".
Claire não respondeu. Afirmar o óbvio não ajudaria em nada.
Eles caíram no silêncio, Claire ouvindo a suave respiração de Rebecca, pensando em Chris. A afeição de David por
Rebecca era evidente; era como amor de pai e filha. Ou de irmão e irmã. Pensar nele era um modo de passar o
tempo.
-o que você está fazendo nesse momento, Chris? Trent disse que estava bem, mas por quanto tempo? Deus,
eu queria que você nunca tivesse sido convocado para a mansão de Spencer. Ou para Raccoon, para lutar pela
verdade e justiça... é desgastante, irmão...
"Você está dormindo, não está?". David perguntava isso toda vez que ficavam mais de um minuto sem falar.
"Não, pensando em Chris". Ela disse. Formar palavras era difícil, porém melhor do que deixar a boca fechada,
congelando. "E eu aposto que você está começando a desejar ter ido à Europa a final de contas".
"Eu queria". Rebecca disse fracamente. "Eu odeio esse tempo...".
Rebecca!
Claire sorriu sem sentir e nem se importou. Ela abraçou a garota enquanto David se sentava, procurando a
lanterna - e apesar de estar congelando, apesar de separada dos amigos, longe da saída e contando com
incertas probabilidades, Claire sentiu que definitivamente as coisas estavam começando a dar certo. * * * A
ligação veio logo depois que John explodiu seis dos Ar12.
Reston pensava em pipoca até então; o sistema de defesa dos Scorps estava funcionando como as projeções
sugeriam, o reparador de danos mais rápido do que esperava. O que não era esperado foi a fragilidade dos
tecidos conectivos entre os segmentos aracnídeos.
Uma granada. Uma maldita granada.
O desejo por pipoca estava tão morto quanto os Ar12. Ainda restavam dois, vagando pelo canto sudoeste, mas
Reston não tinha mais fé nos Ar - e apesar de ser uma informação importante, ele não estava tão certo de que
Jackson o agradeceria por tê-la conseguido.
Ele vai querer saber porque eu não tirei os explosivos deles antes. Porque eu soltei todos os espécimes. Porque
não liguei para Sidney, pelo menos, por um conselho. E nenhuma resposta que eu desse seria suficiente...
Quando o telefone tocou, Reston pulou na cadeira, de repente certo de que era Jackson. Essa noção ridícula
desaparecendo ao pegar o gancho - e o fez certo de que seus objetos de teste não sobreviveriam à Três.
"Reston".
"Sr. Reston - aqui é o Sargento Hawkinson, Equipe de Terra Branco Um-Sete-Zero-".
"Sim, sim. Reston suspirou, observando Cole e os dois S.T.A.R.S. se reunindo. "O que está acontecendo aí em
cima?".
"Nós-". Hawkinson respirou fundo. "Senhor, eu lamento informar que houve altercação com os intrusos e eles
escaparam do local". Ele disse muito rápido, certamente desconfortável.
"O quê?". Reston se levantou, quase derrubando a cadeira. "Como? Como isso aconteceu?".
"Senhor, nós os encurralamos no galpão de estocagem, mas houve uma explosão, dois de meus homens foram
baleados e mais três ficaram feridos - ".
"Eu não quero mais ouvir isso!". Reston estava furioso, incapaz de acreditar que tinha tais incompetentes
trabalhando para ele. "O que eu quero ouvir é que vocês não só falharam miseravelmente, como não só deixou
os três passarem pela sua droga de equipe, e que não ligou para me dizer que não conseguiu achá-los".
Houve um momento de silêncio do outro lado e Reston conseguiu calá-lo, conseguiu dar um motivo para tornar a
vida dele um inferno.
Mas Hawkinson soou propriamente arrependido. "Claro, senhor. Eu lamento, senhor. Eu voltarei com o helicóptero
para Salt Lake City e trazer alguns de nossos novos recrutas para estender nossos parâmetros de busca. Estarei
deixando meus três últimos homens de guarda, dois à leste e oeste do complexo, e um no veículo de fuga. Eu
voltarei em - noventa minutos, senhor, e nós vamos achá-los. Senhor".
Os lábios de Reston curvaram. "Assim espero, Sargento. Se não o fizer, seu traseiro não valerá nada".
Ele desligou a comunicação e jogou o telefone no gancho, ao menos pensando ter feito algo para facilitar o
processo. Um bom puxão de orelha funciona maravilhas; Hawkinson engatinharia sobre vidro para obter
resultados, exatamente como deve ser.
Reston sentou de novo, olhando para as cobaias enquanto caminhavam sobre a duna. Cole tinha uma arma
agora, e estava levando-os para a porta de conexão. Reston imaginava se John ou Ruivo faziam alguma idéia do
quanto inútil Cole era. Provavelmente não, se eles o deram uma arma...
Quando os três chegaram no topo da duna e começaram a descer do outro lado, os dois Scorps finalmente se
moveram. Diferente da última vez, Reston observou bem de perto, segurando no laço de esperança - de que
acabaria ali, de que os homens seriam derrubados. Não que Reston tivesse dúvidas sobre os Ca6 da Três, eles
certamente não sobreviverão à próxima fase...
.. mas e se sobreviverem, hein? Se sobreviverem e forem para a Quatro, e acharem uma saída? O que você
dirá à Jackson, o que você dirá no tour sem nenhum espécime vivo para ver? Aí será o meu traseiro sem valor,
não é?
Reston ignorou a baixa voz, concentrando-se no monitor. Ambos os Scorps andaram rapidamente, garras e
ferrões para o alto, seus frágeis corpos de inseto armados para atacar -
- os três homens estavam atirando, uma silenciosa batalha, os Ar desviando e simulando botes, e caindo sob as
rajadas de balas. As mãos de Reston estavam apertadas e nem percebeu; sua atenção voltada para os Scorps
no chão, esperando vê-los atacarem novamente antes dos homens alcançarem a porta -
-exceto por John e Ruivo estarem indo na direção dos animais, apontando as armas -
- e atirando nos olhos. Eles o fizeram rápido e eficiente, e mesmo com ambos os escorpiões se movendo
enquanto os três iam para a porta, as criaturas cegas só golpearam a areia. Um deles achou um alvo; em um
movimento, ele desceu seu ferrão extraordinariamente tóxico nas costas do outro. O Ar envenenado girou e
cravou sua dentada garra no abdômen do agressor; se contorceu fracamente, vivo porém incapaz de ver ou se
mover - morrendo ao lado do irmão morto.
Reston balançou a cabeça devagar, com nojo do tempo e dinheiro perdido, dos milhões de dólares e
horas-homem que gastaram no desenvolvimento dos habitantes das fases Um e Dois.
E Jackson vai querer essa informação. Uma vez as cobaias mortas e seus amigos pegos, eu conseguirei dar a
volta por cima; como alguns de nossos "prezados" espécimes. É melhor valer agora...
O ruivo estava destrancando a porta que os levaria para a Três; se não tiverem uma caixa de granadas, estarão
mortos em minutos.
Reston respirou fundo, lembrando de quem estava no controle. Hawkinson cuidaria da superfície, Jackson ficaria
agradecido, os três mosqueteiros estavam prestes a serem cegados, pisoteados e devorados. Não havia nada
para se preocupar.
Reston exalou fortemente, conseguindo de alguma forma dar um inseguro sorriso, e forçando a si mesmo relaxar
na cadeira, chamando os monitores que o mostrariam o habitat dos Ca6.
"Digam adeus". Ele disse, e serviu-se de outro conhaque.
[15]
Do terrível e ofuscante calor do deserto, eles pisaram na fria sombra de uma montanha. Eles ficaram na porta,
vasculhando a novo campo de teste, Leon imaginando se estariam enfrentando Hunters ou Spitters nessa grande
e acinzentada sala.
A cinza e pontiaguda pedra do cume da montanha se verticalizava à frente deles. Cinza também as paredes e o
teto, e a sinuosa trilha a oeste, contornando o "pico". Até a grama cerrada era cinza. A montanha parecia bem
real, talhados blocos de granito misturados com cimento, esculpidos como rochedos e pintados para combinar. O
efeito geral era de uma inóspita trilha no alto de uma árida montanha.
Exceto por não haver vento - nem cheiro. Igual às outras duas, nenhum cheiro mesmo.
"Você vai querer colocar sua blusa de novo". John disse, e Leon já estava desatando as mangas da cintura. A
temperatura tinha caído pelo menos quinze graus, já congelando o suor que ganharam na Fase 2.
"Então, para onde vamos?". Cole perguntou, seus olhos arregalados e nervosos.
John apontou diagonalmente pela sala, à sudoeste. "Que tal a porta?".
"Eu acho que ele quis dizer qual é o caminho". Leon disse, mantendo a voz baixa como os outros. Não há porque
alertar os habitantes do lugar sobre suas posições; eles estarão interagindo em breve.
Os três examinaram as opções, todas as duas: pegar a trilha cinza ou subir a montanha cinza.
Hunters ou Spitters... Leon suspirou, seu estômago já dando nó. Se eles conseguirem escapar, se ele achar
Reston, ele daria um sólido chute no traseiro do velho Sr. Blue. Seria contra o sistema que o fez ser policial, mas
aí veio a Umbrella...
"Do ponto de vista defensivo, eu optaria pela trilha". John disse, olhando para a irregular superfície da montanha.
"Nós podemos nos encurralar se subirmos".
"Tem uma ponte, eu acho". Cole disse. "Eu só fiz uma das câmeras aqui, aquela -".
Ele apontou para cima à direita, no canto. Leon mau podia vê-la - as paredes tinham uns quinze metros de altura
e sua pintura monotônica se juntava com a do teto. Criava uma ilusão de ótica fazendo a sala parecer
infinitamente vasta.
"- eu estava numa escada, eu vi por cima, mais ou menos". Cole continuou. 'Há um desfiladeiro do outro lado, e
uma daquelas pontes de madeira e corda para cruzá-lo".
Leon abriu seu estojo enquanto Cole falava, verificando a munição. "Como está a M-16?".
"Talvez quinze sobrando neste". John respondeu, tocando o pente curvo. "Mais dois completos, trinta cada... dois
clips para a H&K, e mais uma granada. "Você?".
"Sete balas aqui, três clips, uma granada. Henry, você contou?".
O funcionário da Umbrella balançou a cabeça. "Eu acho que - cinco tiros, eu atirei cinco vezes".
Ele pareceu querer dizer algo mais, trocando olhares entre Leon e John, finalmente olhando para suas botas
sujas. John olhou para Leon, que deu com os ombros; eles não sabiam nada mesmo sobre Henry Cole, exceto
por não pertencer àquele lugar como eles próprios.
"Ouçam... eu acho que essa não é a hora e lugar, mas só queria dizer que sinto muito. Quer dizer, eu sabia que
havia algo estranho sobre tudo isso. Sobre a Umbrella. E eu sabia que Reston era um idiota, e se eu não tivesse
sido tão ganancioso e burro, eu nunca teria colocado vocês nessa".
"Henry". Leon disse. "Você não sabia, tá bom? E acredite em mim, você não é o primeiro a ser enganado -".
"Sem dúvida". John interrompeu. "É sério. Os colarinhos são o problema aqui, e não caras como você".
Cole não ergueu o olhar, mas acenou, seus finos ombros baixando de alívio. John o passou mais um clip,
acenando para a trilha enquanto Cole o colocava no bolso.
"Vamos nessa". John disse para ambos mas endereçando à Cole. Leon percebeu na profunda voz uma nota de
encorajamento sugerindo que John estava começando a gostar do empregado da Umbrella. "Se ficar difícil nós
podemos voltar para a Dois. Fiquem juntos, calados e tentem atirar na cabeça ou olhos - se é que eles tem
olhos".
Cole sorriu de leve.
"Eu vou na frente". Leon disse e John acenou antes de se afastar da porta e virar à esquerda. O frio ar estava
quieto desde que entraram, nenhum som exceto o deles. Leon foi para trás, Cole andando devagar à sua frente.
A trilha era arranhada; como se alguém tivesse passado um rodo antes do cimento secar. Com o pico à direita
deles, o caminho se estendia por uns vinte metros e depois virava angulosamente à sul, desaparecendo atrás da
íngreme encosta.
Depois dos quinze metros, Leon ouviu o bater de pedras atrás deles. Cascalho solto rolando abaixo do pico.
Ele virou, surpreso, e viu o animal perto do topo do pico, a uns nove metros. Viu mas não tinha certeza do que
estava vendo, exceto por estar descendo, saltitando sobre as quatro robustas patas, como um bode das
montanhas.
Como um bode sem pele. Como - como -
Como nada que já tinha visto antes, e estava quase no chão quando ouviram um molhado som de sacudir em
algum lugar à frente, o som de uma garganta congestionada sendo limpa, ou um cachorro rosnando com a boca
cheia de sangue - e estavam cercados, os terríveis sons vindo de ambos os lados na direção deles.
Voltar para o complexo foi muito fácil. Rebecca precisou de ajuda para subir a cerca, mas parecia melhorar a cada
minuto, recuperando o equilíbrio e a coordenação. David estava mais aliviado do que pretendia, e grato pela
guarda da Umbrella, ou pela falta dela, três homens, dois na cerca e outro na van; patético.
Eles começaram a voltar assim que o helicóptero decolou e foi para o sul, esticando os músculos congelados
enquanto se moviam pelo escuro. Depois de algumas centenas de metros, David se separou das garotas para
fazer um rápido reconhecimento, depois voltou e guiou-as para a cerca e por cima dela. Antes de derrubarem os
guardas, David precisava de algum lugar seguro e quente para rever os procedimentos e melhorar a condição de
Rebecca; ele escolheu o mais óbvio dos galpões, o do meio. O que tinha duas parabólicas, uma série de antenas
e cabos descendo de um lado. Se ele estiver certo, se for o setor de comunicações, seria exatamente o lugar
que queriam estar.
E se eu estiver errado, restam mais dois para vasculhar; um será a sala do gerador, que deve ter algum tipo de
controle climático. Eu posso deixá-las lá e fazer a sabotagem sozinho...
Depois que escalaram a cerca sul, David ficou impressionado com a pobreza do plano da Umbrella. Os dois
guardas protegendo o perímetro estavam posicionados na frente e atrás, como se não houvesse chances de
alguém entrar pelas laterais. Uma vez dentro, David as guiou para o lado mais longe do último galpão, e acenou
para se juntarem.
"Prédio do meio". Ele cochichou. "Deve estar destrancado se for o que acho que é. As luzes estarão acesas. Eu
entro e depois aceno para me seguirem; se ouvirem tiros, entrem o mais rápido possível. Fiquem próximas aos
prédios e abaixem-se ao cruzá-los. Certo?".
Claire e Rebecca acenaram, Rebecca se apoiando em Claire; apesar de fraca, ela estava bem. Ela disse que ainda
estava enjoada e que sua cabeça doía, mas os confusos pensamentos que o atormentavam já tinham passado.
David virou e deslizou pela parede da estrutura mais próxima da cerca, abraçando as sombras, olhando para ter
certeza de que nenhum guarda apareça. Eles chegaram no fim, de frente à oeste e deram a volta. David
primeiro, verificando a posição do guarda. Estava muito escuro para ver, mas havia uma sombra densa atrás da
cerca metálica que o identificava. David ergueu a M-16 e mirou nele, preparado para atirar caso fossem vistos.
Pena não poder atirar agora... mas um tiro alertaria os outros. Como David não estava preocupado com os
guardas na cerca, o guarda da van poderia ser um problema; ele estava longe o bastante para usar o rádio antes
de vir para cá.
Esses dois serão fáceis, mas como se aproximar deles?
Não havia cobertura se o guarda da van os visse chegando -
Isso podia esperar; eles tinham serviço antes de se preocuparem com os guardas. Agachado, David levou Claire
e Rebecca com a M-16 apontada para a sombra na cerca. Ele segurou a respiração enquanto cruzavam o espaço
aberto. Eles conseguiram quase sem um ruído;
Depois que cruzaram, David continuou, seus anos de treinamento permitindo-o se mover tão silenciosamente
quanto um fantasma. Uma vez cobertos pela sombra do galpão, David relaxou um pouco, o pior de tudo se foi.
Eles podiam ir para o prédio do meio através do negro corredor entre as estruturas.
Em menos de um minuto eles chegaram ao destino. Acenando para as mulheres recuarem, David cruzou,
parando na porta fechada. Ele tocou a fria maçaneta de metal e a empurrou para baixo, acenando para si
mesmo ao ouvir o leve click da porta destrancada.
É aqui; o líder da equipe a deixou aberta para os guardas acessarem o satélite no caso de voltarmos. Foi um
chute, mas foi um chute calculado.
Era hora de rezar por um pouco de sorte; se as luzes estiverem acesas, abrir a porta seria como um farol para
qualquer um olhando nessa direção. Os guardas deviam estar olhando para o deserto, mas isso não significava
muito.
Respirando fundo, David empurrou a porta, percebendo que a luz estava fraca enquanto entrava e fechava a
porta. Ele encostou na porta e contou até dez, e relaxou, inalando o morno ar agradecidamente enquanto
estudava o interior. O galpão havia sido dividido em salas - e a sala a qual havia entrado estava forrada de
equipamentos de computador, grossos cabos cruzavam o chão e subiam pelas paredes...
.. tudo o que liga esse complexo ao mundo exterior...
David apertou o botão na parede, desligando a única luminária no teto. Sorrindo, ele abriu a porta para que
Rebecca e Claire se juntassem à ele.
"Fiquem contra a parede". Leon gritou, e Cole obedeceu antes mesmo de saber porque. O agitado barulho de
catarro parecia vir de algum lugar acima -
- e então viu a criatura vindo vagarosamente na direção deles, tornando impossível fugir, e mau conteve o grito.
Ele parou a uns quatro ou cinco metros de distância, e Cole ainda não parecia entender; era tão bizarro.
Ah, Jesus, o que é aquilo?
Tinha quatro patas, com cascos divididos, como um carneiro ou bode, e tinha o mesmo tamanho - só que sem
pelos, sem chifres, nada que lembrasse o desenvolvimento natural. Seus corpos atléticos eram manchados com
pequenas variações de marrom avermelhado, como a pele de uma cobra, só que sem brilho; à primeira vista,
parecia coberta de sangue seco. Sua cabeça de algum modo era anfíbia, como a de um sapo - um rosto
achatado sem orelhas com pequenos olhos escuros que saltavam de cada lado, uma boca larga também - mas
com dentes pontudos saindo de uma proeminente mandíbula inferior, um queixo de bulldog, sua cabeça também
manchada com as variações de sangue seco.
A coisa abriu a boca, expondo só alguns dentes afiados, superiores e inferiores, nenhum deles na frente - e
aquele terrível som molhado veio da escuridão de sua garganta, o bizarro chamado acompanhado pelos outros
em algum lugar do outro lado da montanha artificial.
O chamado cresceu, mais alto e profundo enquanto a coisa erguia a cabeça, voltando o rosto para o teto -
- e com um súbito movimento, a coisa abaixou a cabeça e cuspiu neles. Uma grossa bolha de semilíquido
avermelhado voou neles, em Leon, cruzando a longa distância -
- e Leon ergueu o braço para bloquear ao mesmo tempo que John começou a atirar, se afastando da parede e
espirrando no monstro -
- Cuspidor -
- com balas. A meleca atingiu o braço de Leon, teria acertado seu rosto se não tivesse se protegido, e em
resposta às balas, o cuspidor virou e saltou para a montanha esculpida - em longos e fáceis saltos que não
denotavam pânico, dor ou qualquer sentimento, levando-o para o topo em segundos. Ele começou a descer por
seis metros depois pulou agilmente para o chão, parando na frente da porta de conexão. Como se soubesse que
estava bloqueando a saída.
E nem cambaleou, meu Deus -
Os múltiplos berros de onde não tinham visão não aumentaram mais, e também não diminuíram. Os gargarejos
foram parando, um por vez, a falta de alvos tirando-os o motivo; de repente, tudo estava quieto, do mesmo jeito
que estava quando entraram.
"Mas o que bom Deus foi aquilo? John disse, tirando outro clip do estojo, suas expressões desacreditadas.
"Nem se machucou". Cole sussurrou, apertando a 9mm com tanta força que seus dedos ficaram dormentes. Ele
nem percebeu, olhando enquanto Leon tocava o pastoso e úmido punhado de meleca em sua manga -
- e soprou de dor, tirando a mão como se tivesse se queimando.
"Essa coisa é tóxica". Ele disse, rapidamente limpando os dedos na roupa e mantendo-os no alto. As pontas do
dedo do meio e indicador de sua mão esquerda ficaram vermelhos. Ele imediatamente guardou a arma no cinto e
tirou a blusa preta, cuidando para evitar contato com a gosma tóxica, empurrando-a no chão de pedra.
Cole ficou enjoado. Se Leon não tivesse bloqueado...
"Tá bom, tá bom, tá bom" John suspirou. "Isso é ruim, temos que sair daqui o mais rápido possível... você disse
que há uma ponte?".
"Sim, passa por cima do, é, penhasco". Cole disse rapidamente. "Tem uns seis metros, e não sei qual a
profundidade".
"Vamos". John disse. Ele começou a andar na direção de onde a trilha virava, bem depressa. Cole seguiu, Leon
bem atrás.
John parou a uns três metros da curva e encostou na parede, olhando para Leon.
"Você quer cobrir, ou eu?". Leon perguntou suavemente. "Eu". John disse. "Eu vou primeiro. Você corre, Henry,
vá atrás dele - e sigam em frente, entenderam? Cruzem a ponte e vão para a porta - se puderem, me ajudem
-".
O rosto de John era solene. "- e se não puderem, então não podem".
Cole sentiu a já familiar vergonha. Eles estão tentando me proteger, nem me conhecem e eu os coloquei nisso...
se ele pudesse fazer algo para retornar o favor, ele faria, apesar de ter certeza de repente de que nunca faria
algo que ajudasse; ele devia sua vida a esses caras, e várias delas já.
"Prontos?". John perguntou.
"Espere -". Leon virou e correu para onde tinha jogado a blusa. O Spitter na porta ficou quieto e imóvel como
uma estátua, observando-os. Leon recuperou a blusa e voltou, tirando um canivete de seu estojo. Ele cortou a
manga atingida e deu o resto para John.
"Se você for ficar parado, fique com o rosto coberto". Leon disse. "Já que eles não sentem as balas, você não
precisará enxergar nem atirar. Quando cruzarmos, eu gritarei. E se não for seguro do outro lado, eu vou -".
Os autoritários chamados começaram de novo, fazendo Cole lembrar de cigarras por algum motivo, o quase
mecânico ree-ree-ree de cigarras numa quente noite de verão. Ele exalou forte, tentando fingir para si mesmo
que estava preparado.
"Sem tempo". John disse. "Preparem-se para ir -".
Ele pegou a blusa, quando - pasmo - sorriu para Leon. "Cara, você precisa investir num desodorante mais forte;
você fede como um cachorro morto".
Sem esperar uma resposta, John colocou a blusa sobre a cabeça, segurando-a aberta na parte de baixo para ver
o chão. Ele correu, de cabeça baixa, Cole e Leon se preparando até que -
- houve um rápido patpatpatpat, e de repente o material preto sobre o rosto de John ficou pingando com grandes
porções de catarro venenoso vermelho, e balançou a mão para eles -
- e Leon disse. "Agora!". E Cole correu, de cabeça baixa, vendo só as botas de Leon a sua frente, o borrão cinza
do chão e suas próprias pernas. Ele ouviu um grito borbulhante à esquerda e se abaixou mais ainda, aterrorizado
-
- e ouviu passos sobre madeira à frente, e então estava na ponte, tábuas de madeira balançando sob os pés,
amarradas com finas cordas. Ele viu o precipício em forma de "V" por debaixo delas, viu que era fundo, que havia
sido escavado abaixo do nível do Planeta, uns quinze metros -
- e então estava de volta ao chão cinza, antes mesmo de ter vertigem. Ele correu, pensando em como era bom
ter apenas as botas de Leon para se preocupar, seu coração martelando as costelas.
Segundos ou minutos depois, ele não sabia, as botas foram parando, e Cole ousou erguer o olhar. A parede, a
parede, e lá estava a porta! Eles conseguiram!
"John, vai!". Leon gritou, dando alguns passos na direção a qual vieram, sua semi para o alto e preparada. "Vai!".
Cole virou, viu John arrancar a blusa preta, viu um monte de Spitters se agruparem na frente dele, seis, sete
deles berrando. John rasgou um caminho entre eles e pelo menos dois deles cuspiram. Mas John foi rápido, rápido
o bastante tal que só um pouco atingiu seu ombro, até onde Cole pode ver. As monstruosas criaturas foram
atrás dele em seus pulos, não tão rápido, mas quase.
Corre corre corre!
Cole apontou a 9mm na direção dos Spitters, pronto para atirar se conseguir um tiro certeiro, enquanto John
pisava na ponte -
- e desaparecia. A ponte ruiu e John desapareceu.
[16]
John sentiu a ponte ceder alguns segundos após as cordas arrebentarem. Ele instintivamente abriu os braços,
ainda correndo, pensando que fosse conseguir -
- mas começou a cair, seu joelhos batendo na móvel parede de tábuas de madeira, seus dedos fechado no
momento em que acharam algo sólido -
- e tudo o que ouviu foi um whoosh, depois as articulações dos dedos de sua mão direita bateram em pedra, e
agora estava balançando sobre um precipício muito fundo com um pedaço solto de madeira na mão esquerda. Ele
tinha conseguido se segurar num dos pedaços ainda presos na agora pendurada ponte; ambas as cordas que
prendiam o lado norte da ponte tinham se soltado.
John soltou a inútil tábua, ouvindo-a bater no fundo do vale com outros pedaços que haviam se soltado. Ele se
puxou para ter um melhor agarre quando -
- thwock, uma bola de muco vermelho apareceu de repente à sua frente, a menos de trinta centímetros à direita
de seu rosto, deslizando pela parede como uma corda derretida.
- como merda derretida -
Bambambam, alguém estava disparando uma 9mm. O crescente berro dos Spitters se preparando para cuspir o
disseram que definitivamente precisava sair de lá.
Ele subiu de novo, seus bíceps flexionando, a tensão contra o tecido de sua camiseta enquanto agarrava uma
das tábuas e se erguia. Lá em cima, mais tiros, mais próximos, e um grito de Leon que foi cortado por mais
disparos.
Detonem, garotos, eu estou indo -
Mão sobre mão era terrível, ainda mais com dedos sangrando e uma metralhadora pendurada no pescoço, mas
estava indo bem, segurando a próxima tábua -
- até que uma quente umidade acertou as costas de sua mão direita, e doía, era como ácido, queimando -
- e ele soltou, sacudindo o ácido da mão, esfregando-a na blusa violentamente. Ele se segurou com a esquerda,
a dor como fogo crescendo. Tudo o que podia fazer para resistir ao instinto natural era apertar o ferimento
ardente - e o modo como seu dedos começaram a formigar, ele não tinha muito tempo para se preocupar.
"Ele está bem aqui!".
Um histérico grito veio lá de cima. John jogou a cabeça para trás, viu Cole agachado na beira do abismo, sua
camisa de trabalho à frente do nariz, seu olhar frenético e assustado.
"John, me dê a sua mão". Ele gritou, e se esticou para baixo o máximo que podia, flocos de cimento caindo do
chão sob suas botas. Se ele disse mais alguma coisa, ficou perdido sob outra série de tiros explosivos que Leon
usava para manter os cuspidores afastados.
Só levou uma fração de segundo para John reagir à ordem de Cole, e naquele instante entendeu que iria sair de
lá. Henry Cole tinha um metro e sessenta e quatro e pesava uns setenta quilos - vestido. Ele estava parecendo
uma tartaruga assustada pendurada no casco de sua blusa.
Muito engraçado. Engraçado, e conveniente de um modo idiota, e apesar de sua mão ainda doer como o inferno,
ele esqueceu de senti-la por um segundo ou dois.
John sorriu, ignorando os trêmulos dedos de Cole, concentrando-se para se erguer com mão ferida. Houveram
mais daqueles sons atrás deles, mas nenhuma bomba de cuspe por enquanto.
"Mande Leon usar a granada!" Ele suspirou, e Cole virou, gritando sob outra explosão da semi de Leon. John disse
para usar a granada!".
"... disse granada! John disse para usar a granada!".
"Ainda não!". Leon gritou. "Saiam daí!".
Thwap-wap, mais duas escarradas voaram pelo abismo, uma acertando as botas de Cole, a outra à somente
centímetro do suado rosto de John.
Use sua força, John - com um último e profundo gemido, John agarrou a madeira no topo e puxou o corpo para
cima, puxando e empurrando para baixo, trazendo o joelho acima para sair.
"Estou bem, vai!".
Cole, a tartaruga assustada, não precisou de mais incentivo. Ele decolou, correndo enquanto Leon cobria John,
enquanto John corria em sua direção agachado, enfiando a mão ferida no estojo e tirando sua última granada -
ele já tinha tirado o pino quando viu Leon com a dele na mão.
"Jogue!". John berrou, alcançando Leon, Leon arremessando ao alto o poderoso explosivo nos Spitters. Os dois
estavam correndo, John olhando para trás só para ver que três, quatro animais já tinham caído no penhasco.
Sem tempo para pensar, John arremessou baixo, o mais forte que podia, sua granada desaparecendo no buraco
enquanto a de Leon caía na frente dos outros -
- e os dois estavam mergulhando e rolando, as explosões quase simultâneas, KA-WHAM-WHAM, o som de pedra
dissolvida chovendo, uma incrivelmente alta gritaria atrás deles -
"Vocês os pegaram! Vocês os pegaram!".
Cole estava de pé na frente deles, um descontraído olhar de alegria em seu rosto. John sentou, Leon ao seu
lado, ambos virando para olhar.
Eles não tinham matado todos. Dois deles ainda estavam intactos no outro lado do abismo, vivos - mas cegos e
feridos, suas pernas estouradas, um líquido escuro cobrindo o que havia sobrado de seus rostos enquanto
berravam em fúria, como um porco sendo pisado. Os outros dois deviam ter estado bem à frente da explosão;
estavam sangrando, seus corpos estilhaçados, ossos saindo do líquido como - como ossos quebrados. Do fundo
do precipício vinham mais berros, e nada apareceu para atacar. Para todos os efeitos, estava acabado.
John se levantou, estudando as costas de sua mão. Ao contrário do que parecia, a pele não tinha derretido.
Havia algumas pequenas bolhas se formando e a pele parecia queimada, mas não estava sangrando.
"Você está bem?". Leon perguntou, se levantando e sacudindo as roupas, suas jovens feições muito menos
jovens para John.
Eu não vou mais chamá-lo de recruta.
John deu com os ombros. "Acho que quebrei uma unha, mas vou viver".
Ele viu que Cole ainda estava olhando para os dois, seu corpo tremendo com o estouro de adrenalina; ele não
tinha palavras e John de repente se lembrou de como se sentiu depois da primeira batalha na qual atuou
corajosamente. O quanto ficou animado. O quanto vivo ficou.
"Henry, você é um cara engraçado". John disse, batendo no ombro do homem e sorrindo.
O eletricista sorriu incerto e os três foram para a Quatro, deixando os furiosos berros para trás.
Quando a poeira abaixou e os três homens ainda estavam vivos, Reston bateu o punho na mesa, sua raiva e
medo crescendo, seu estômago dando um nó, seus olhos largos com descrença.
"Não, não, não, seus idiotas estúpidos, vocês estão mortos!".
Sua voz estava um pouco enrolada, mas estava muito chocado para reparar nisso, para se preocupar. Eles não
sobreviverão aos Hunters, ele sabia -
- mas também não sobreviveriam aos Ca6.
Reston não conseguia acreditar que tinham chegado até esse ponto; não conseguia acreditar que dos vinte e
quatro espécimes que encontraram, todos exceto um Dac foram deixados mortos ou morrendo. E pior, não
conseguia acreditar que deixou o programa continuar, que seu orgulho e ambição não o deixaram fazer o que
devia ter feito a princípio. Não que estivesse fora de uma "liga", ele estava no círculo interno, ele já tinha superado
esse tipo de insegurança - mas já devia ter falado com Sidney, ou mesmo com Duvall; não por um conselho, mas
para ter um apoio. Afinal de contas, ele não podia ser totalmente responsável se tivesse o apoio de um dos
membros mais velhos...
Não era tarde demais. Ele faria uma ligação explicaria seu plano, explicaria que tinha algumas preocupações - ele
podia dizer que os intrusos estavam na Dois, isso pode ajudar, ele podia acertar os vídeos mais tarde... e os
Hunterts já foram testados antes, não os 3K, e sim os 121. Alguns foram soltos na mansão de Spencer; pelos
dados recolhidos, ele sabia que os homens seriam mortos na Quatro. Mesmo se não forem, não conseguirão sair,
e com o reforço da central, ele ficaria livre.
Certo de ser a decisão correta, Reston pegou o telefone.
"Umbrella, Divisões Especiais e -".
- e silêncio. A doce voz feminina foi cortada no meio da frase, sem se quer um ruído de estática.
"Aqui é Reston". Ele disse afiadamente, percebendo que uma fria mão estava tocando seu coração,
esfregando-o. "Alô? Aqui é Reston!".
Nada; e de repente percebeu que a qualidade da luz na sala havia mudado, ficou mais brilhante. Ele virou a
cadeira esperando desesperadamente que não fosse o que achava ser -
- até que os monitores que mostravam a superfície começaram a chuviscar. Todas as sete desligadas - e alguns
segundos depois, antes que Reston pudesse entender, os sete monitores apagaram.
"Alô?". Ele sussurrou no telefone mudo, sua rápida respiração quente e dolorida. Silêncio.
Ele estava só.
Andrew "Matador" Berman estava morrendo de frio e tédio, imaginando porque os Sargento se incomodou em
postar alguém na van. Os caras maus iriam voltar, eles já tinham fugido - e mesmo se decidirem voltar,
certamente não tentariam pegar o veículo. Seria suicídio.
Ou eles têm um carro reserva ou estão congelados em algum lugar na planície. Isso aqui é uma total besteira.
Andy subiu seu cachecol até as orelhas e reajustou a pega da M41. Seis quilos de rifle não parecia muito, mas
estava de pé há muito tempo. Se o Sargento não voltar logo, ele ficaria dentro da van, descansaria os pés e
sairia do frio; ele não estava sendo pago o bastante para se congelar na escuridão.
Ele se encostou no pára-choque traseiro e imaginou se Rick estava bem; ele não conhecia os outros, mas Rick
Shannon era seu amigo, e estava todo ensangüentado ao ser posto no helicóptero.
Aqueles idiotas, voltem aqui e eu lhes mostrarei sangue...
Andy deu um sorriso, pensando. Não era à toa que o chamavam de matador. Ele era um excelente atirador, o
melhor da equipe, o resultado de uma vida inteira de caça à cervos. Se o trio de imbecis aparecer...
Ele ainda estava pensando nisso quando ouviu um suave apelo sair do escuro.
"Ajude-me, por favor - não atire, por favor, me ajude, eu fui baleada -".
Uma sufocada voz feminina. Uma sensual voz e Andy pegou sua lanterna e mirou no escuro, achando a dona da
voz a menos de nove metros de distância.
Uma garota, vestida numa roupa preta apertada, cambaleando para ele. Ela estava desarmada e ferida,
mancando, seu pálido rosto aberto e vulnerável sob a brilhante luz.
"Ei, espere". Andy disse, não muito bravo. Ela era jovem. Parecia ainda mais jovem do que Andy com seus tinha
vinte e três anos.
Andy baixou a arma devagar, pensando no quanto bom seria ajudar uma mocinha aflita. Ela podia estar com os
três criminosos, provavelmente estava, mas certamente não era uma ameaça para ele; podia segurá-la até o
helicóptero chegar. E talvez fique grata pela ajuda...
.. e bancar o herói é um bom modo de ganhar pontos. Caras bons podem terminar por último, mas certamente
tem muita sorte no caminho.
A garota mancou até ele e Andy tirou a lanterna de seu rosto, não querendo cegá-la. Usando somente a nota
certa de sinceridade em sua voz - garotas engoliam essa baboseira - ele deu um passo até ela, segurando uma
mão.
"O que aconteceu? Aqui, deixe me ajudar -?".
Uma escura e pesada coisa bateu nele pelo lado, forte, levando-o ao chão e tirando o ar de si. Antes de saber o
que aconteceu, uma luz estava brilhando em seu rosto, e a M41 estava sendo tirada de suas mãos enquanto
lutava para respirar.
"Não se mexa e eu não atiro". Um homem disse, um britânico, e Andy sentiu o frio cano da arma em seu
pescoço. Ele congelou, sem ousar mover um músculo.
Ah, droga!
Andy olhou para cima, viu a garota segurando o rifle, seu rifle, olhando para ele. Ela não parecia mais indefesa.
"Vagabunda". Ele rosnou, e ela sorriu um pouco, dando com os ombros.
"Desculpe. Se servir de consolo, seus outros dois amigos caíram nessa também".
Ele ouviu outra voz feminina atrás, suave e animada. "Ei, você vai se esquentar. A sala do gerador está bem
tostada".
O matador não estava animado, e enquanto o levantavam e marchavam com ele para o complexo, ele jurou
para si mesmo que essa seria a última vez que subestimaria uma garota - e certamente lembrará disso da
próxima vez que se sentir entediado.
[17]
A Fase Quatro era mesmo uma cidade, a coisa mais esquisita que Leon já tinha visto. As três primeiras eram
bizarras, irreais, mas também eram falsas - a calma floresta, as paredes brancas do deserto, a montanha
esculpida. Em nenhum momento ele esqueceu que era tudo falso.
Isto... não é uma imitação de um habitat orgânico; isto é como deveria se parecer.
A Quatro eram vários quarteirões de uma pequena cidade à noite. Nenhum dos prédios tinham mais de três
andares - postes de luz, calçadas, lojas e apartamentos, carros estacionados e ruas de asfalto. Eles desceram de
uma montanha e caíram em Hometown, E.U.A..
Só haviam duas coisas erradas nela à primeira vista - as cores e a atmosfera. Os prédios, ou eram vermelho tijolo
ou um tipo de bronzeado ao anoitecer, eles pareciam inacabados e os poucos carros que Leon podia ver pareciam
todos pretos; era difícil dizer com as pesadas sombras.
E a atmosfera...
"Assombrada". John disse baixo, e Leon e Cole acenaram. De costas na porta, eles vasculharam a quieta cidade
e a acharam completamente calma.
Como num sonho ruim, um daqueles em que você está perdido e não consegue achar ninguém, e tudo parece
errado...
Não era como uma cidade fantasma, não tinha o ar de um lugar abandonado ou de um lugar que tinha
sobrevivido à sua utilidade; ninguém jamais viveu lá, e ninguém jamais irá. Nenhum carro já foi dirigido por suas
ruas, nenhuma criança já brincou nas esquinas, nenhuma vida já a chamou de lar... e o sentimento de vazio sem
vida era - assustador.
A porta os deixou numa rua que corria de leste à oeste, terminando bem à esquerda deles numa parede pintada
de azul meia-noite. De onde estavam, podiam ver todo o caminho de uma larga rua pavimentada. A suave luz
das luminárias causavam longas sombras, claras o bastante para andar e escuras demais para ver direito.
Havia um carro na frente deles, parado na frente de uma construção bronzeada de dois andares. John foi até ele
e socou o capô. Leon pode ouvir o vazio "tink" sob a mão dele; só a carroceria.
John voltou, vasculhando as sombras com muito cuidado.
"Então... Hunters". Ele disse, e Leon percebeu de repente o que era mais assustador do que os quarteirões na
frente deles.
"Os apelidos são todos descritivos". Ele disse, ejetando o clip de sua semi e contando as balas. Cinco sobrando, e
só tinha mais um clip cheio, apesar de John ainda ter mais dois - não, ele só tinha um, Cole estava com o outro.
E a não ser que Leon estivesse errado, John só tinha um clip cheio para a M-16; trinta balas, e mais o que
restava no rifle.
Sem mais granadas e quase sem munição....
"E agora?". Cole perguntou e John respondeu, seu olhar estreitando enquanto falava, suas expressões mais
alertas enquanto vasculhava cada esquina, cada janela.
"Pense nisso". John disse. "Pterodátilos, escorpiões, bichos cuspidores... caçadores".
"Eu - ah". Cole piscou, olhando em volta com um novo medo. "Isso não é bom".
"Você quer dizer que a saída está trancada?". Leon perguntou.
Cole acenou, e John balançou a cabeça ao mesmo tempo.
"E burro, eu usei a última granada". Ele disse suavemente. "Sem chance de explodir a porta".
"Se você não tivesse usado, nós estaríamos mortos". Leon disse. "E provavelmente não funcionaria se fosse do
mesmo tipo da porta de entrada".
John suspirou pesado, mas acenou. "Acho que devemos queimar aquela ponte quando a acharmos".
Todos ficaram quietos por um momento, um profundo e desconfortável silêncio que Cole finalmente quebrou.
"Então... olhos e ouvidos abertos, e juntos". Ele experimentou dizer, uma pergunta mais do que uma afirmação.
John levantou as sobrancelhas, afetado e sorrindo. "Nada mal. Ei, o que você vai fazer da vida se sairmos daqui?
Quer se juntar à nossa causa e ficar no pé da Umbrella?".
Cole sorriu de nervosismo. "Se sairmos daqui, me pergunte de novo".
Preparados como estariam, eles começaram à sul, andando devagar no meio da rua, os prédios escuros
observando-os com olhos vazios de vidro. Apesar de todos estarem tentando se mover silenciosamente, a vazia
cidade parecia devolver os ecos de seus suaves passos no asfalto, até de suas respirações. Nenhum dos prédios
tinham sinais de decoração, e não havia luzes até onde Leon podia ver. O sentimento de ausência de vida e
opressão o deu uma desagradável lembrança da noite em que chegou a Raccoon para seu primeiro dia de
trabalho no R.P.D., depois que a Umbrella soltou o vírus.
Exceto pelas ruas de lá cheirarem morte e por haverem canibais perambulando pela escuridão e corvos se
alimentando de cadáveres. Era uma cidade na agonia da morte...
Na metade do quarteirão, John ergueu uma mão, trazendo Leon para o presente.
'Só um minuto". Ele disse, e correu par uma das "lojas" à esquerda, uma vitrine de vidro que o lembrava uma
confeitaria, daquelas que sempre tinham bolos de casamento à mostra. John espiou pelo vidro, tentou a porta.
Para a surpresa de Leon ela abriu; John se inclinou para dentro por um longo segundo, depois fechou a porta e
voltou.
"Nem balcão nem nada, mas é uma sala de verdade". Ele disse de voz baixa. "Tem paredes e teto".
"Talvez os Hunters estejam escondidos em uma delas". Leon disse.
Isso aí, mais assustados com nós do que nós com eles, não seria bom. Devíamos ter essa sorte -
"É isso aí!". Cole disse alto, e imediatamente derrubou a voz, ficando vermelho. "Como vamos sair. Os, é, animais
são todos mantidos em celas ou túneis atrás das paredes. Eu não sei quanto as outras fases, mas há um
corredor que circunda a Quatro. Eu vi a porta dele, fica a uns seis metros do canto sudoeste. Tem que ser mais
fácil que a saída normal; pode estar trancada mas não reforçada".
John estava acenando e Leon achou mais plausível do que tentar passar por uma porta trancada pelo lado de
fora.
"Bom". John disse. "Boa idéia. Vamos ver se conseguimos -".
Algo se moveu. Algo nas sombras de um prédio de dois andares bronzeado à direita, algo que calou John e fez
todos mirarem na escuridão, tensos e atentos. Dez segundos passaram, vinte - e seja lá o que era, estava
conseguindo ficar perfeitamente imóvel. Ou...
Ou não vimos absolutamente nada.
"Não há nada lá". Cole cochichou, e Leon começou a abaixar a 9mm, pensando que algo realmente pareceu ter
se movido -
- e de repente a coisa que não podiam ver gritou, um esganiçado e terrível berro como algum tipo de pássaro,
uma besta feroz cega de raiva -
- e o escuro se moveu - Leon ainda não podia ver claramente, era como uma sombra, uma parte do prédio que
se movia, até ver os estreitos olhos brilhantes, eram claros e estavam a pelo menos dois metros do chão, e as
escuras e esfarrapadas unhas quase tocando o asfalto, e percebeu que era um camaleão assim que correu para
eles, ainda gritando.
Reston se apressou na direção da sala de controle, o peso do coldre contra sua perna fazendo-o se sentir melhor.
Sentiria-se ainda melhor se voltasse a tempo de ver os Hunters estraçalharem os três homens, apesar de se
contentar em ver apenas os corpos mortos.
Estaria perfeitamente bem, nenhum problema desde que estivessem mortos.
Reston queria beber, queria se trancar na sala de controle e esperar Hawkinson voltar. Ele sentiu um momento de
quase histeria quando percebeu que as comunicações tinham caído, mas nada tinha mudado, mesmo. O elevador
ainda estava desligado e o sargento incompetente voltaria com o helicóptero a qualquer momento; se foi o trio na
superfície que cortou as linhas - coisa que ele não duvidava - Hawkinson cuidaria deles. Se por uma pequena
chance fosse um problema técnico, um novo eletricista seria contratado assim que liberar o relatório pela manhã.
A parte ruim foi ser incapaz de contatar seus colegas, mas ele decidiu que isso funcionaria a seu favor; quem não
ficaria impressionado, que em tais circunstâncias ele ainda seria capaz de lidar com as coisas? Levando tudo em
consideração, prender os invasores no programa de teste foi seu único recurso. Ninguém o culparia, pelo menos
não muito.
Recuperar o .38 de sua sala tinha aliviado sua mente ainda mais; ele trouxe o revólver para o Planeta mais por ter
sido um presente de Jackson, e apesar de saber pouco sobre armas, puxar o gatilho era tudo o que precisava
fazer com o .38. O pesado revólver praticamente atirava sozinho, nem tinha trava de segurança...
Reston estava no meio do caminho até a sala de controle quando lhe ocorreu que deveria tirar os funcionários do
refeitório; ele tinha passado pela porta trancada duas vezes e nem se deu conta. Conhaque demais, talvez. Ele
pensou em voltar por uma batida de coração, decidindo que eles podiam muito bem esperar; acreditar que os 3K
estavam atuando como deveriam era muito mais importante. Além disso, ele pretendia demitir todos eles assim
que restabelecer contato com a sede; nenhum deles tentou defender o planeta nem seu empregador.
Sala de controle, logo à direita. Reston apressou o passo, entrando na passagem e correndo para a porta. Havia
movimento numa das telas e ele correu para a poltrona, empolgado e ansioso para vê-los morrer. Não havia
nada com que se envergonhar, eles estavam errados, afinal -
- e não estavam mortos, nenhum deles, mas Reston viu que agora era só uma questão de tempo.
Todos os três estavam atirando num dos Hunters, e enquanto olhava, um segundo animal entrou na cena, ainda
tão preto quanto o carro onde estava.
Ruivo girou para a direita, atirando na nova ameaça, mas os 3K não eram derrubados com algumas balinhas;
com um único e grande salto, o caçador diminuiu a distância entre eles, seis metros com um poderoso impulso.
Eles podiam fazer quase nove, Reston sabia através dos dados preliminares -
- e Cole passou a atirar nele também, enquanto John continuava atirando no primeiro, já da cor do asfalto. O
primeiro tinha levado tiros dos três homens; enquanto Reston olhava, o Hunter virou e se esparramou fora da
tela.
O segundo ainda brilhava preto, perfeitamente definido enquanto erguia seu musculoso braço para estapear as
balas que martelavam seu corpo. Enorme, uma figura humanóide pelada e sem sexo, a alta besta de crânio réptil
e unhas de dez centímetros jogou a cabeça para trás e uivou. Reston conhecia o som, sua mente completando a
cena enquanto a criatura começava a desaparecer na rua, as cores quase perfeitas, enquanto girava seu braço
novamente e ruivo era golpeado, caindo.
Isso!
John parou na frente do colega no chão e atirou no monstro, enquanto Cole levantava Ruivo, os dois recuando.
Houve um diálogo -
- e os dois saíram da tela, indo para sul... a criatura se machucou? John parou de atirar e houve sangue jorrando
em algum lugar, cobrindo a face do 3K, seu peito -
- os olhos, deve ter acertado nos olhos. Droga! Ele rolou e caiu. Não era um ferimento fatal mas o incapacitaria
por um tempo.
John virou e correu para seu companheiros, sem mais Hunters à vista - até onde Reston pensava. Não que
importasse, eles estavam mortos; não havia como cruzarem a cidade sem serem atacados, não podiam se
esconder - só para garantir, Reston apertou a trava da porta de conexão da Três.
Nada de partir em retirada, pessoal...
Eles não apareceram na tela que mostrava a rua a sul do ângulo da primeira câmera. Franzindo, Reston intercalou
as câmeras, usando a da fachada de um prédio -
- e viu uma porta fechar, os homens procurando abrigo dentro de uma das lojas. Reston balançou a cabeça.
Aquilo provavelmente os protegeria por mais uns cinco minutos, não mais que isso; os 3K tinham força para
rasgar essa cidade, se assim quisessem, e caçavam basicamente pelo olfato. Eles iriam rastrear os homens e
finalmente colocar um ponto final no problema, vida inúteis.
Não havia câmera no prédio o qual entraram; ele terá que esperar até eles saírem, ou até os caçadores traze-los
para fora. Reston sorriu, seus dentes rangendo, impaciente, imaginando porque os 3K estavam demorando
tanto. Era hora do teste acabar, hora do Planeta ser restaurado.
Os Hunters não iriam falhar. Ele só tinha que esperar mais alguns minutos.
Eles acharam a entrada na parte de trás do prédio do meio, depois da sala do gerador, onde haviam colocado os
três guardas resmungões. Foi uma perda de tempo ter procurado pelos controles do elevador de serviço no
primeiro prédio.
Neste há quatro, uma bateria de elevadores numa câmara carpetada contra a parede oeste. Eles não estavam
operando, mas havia uma plataforma para dois no primeiro poço que acharam, David e Claire abrindo as portas
sem esforço. Mesmo cansada e exausta, a visão da pequena plataforma presa em seu próprio sistema de polia
fez Rebecca querer rir bem alto.
Eles nunca suspeitariam, vamos entrar como sombras.
"Parece que esqueceram de trancar a porta de trás". David disse, um olhar de triunfo em seu abatido rosto.
Claire olhou para o quadrado metálico cheia de dúvidas. "Nós vamos caber aí?".
David não respondeu de imediato, virando para olhar Rebecca. Ela sabia que ele ia sugerir algo e começou a achar
um bom argumento antes de abrir a boca.
O helicóptero pode voltar, e voltará, se estiverem feridos você vai precisar de mim, e se os guardas conseguirem
fugir -
"Rebecca - eu preciso de um honesto relato de suas condições". Ele disse, suas expressões neutras.
"Estou cansada, com dor de cabeça e manca - e você precisará de mim lá embaixo, David, não estou cem por
cento, mas também não estou à beira de um colapso, e você mesmo disse que outra equipe está provavelmente
à caminho -".
David estava sorrindo, segurando as mãos no alto. "Tá bom, vamos todos. Será bem apertado, mas o peso não
será problema, vocês são pequenas...".
Ele entrou, tirando a lanterna e iluminando os cabos, depois a simples caixa dos controles na meia grade de
proteção. "... acho que cabe todo mundo. Devemos?".
Rebecca e depois Claire entraram no poço do elevador, a improvisada plataforma de serviço preenchendo só um
quarto do escuro espaço frio. Vazio acima e abaixo e só havia guarda-corpo de um lado. Claire se apoiou
desconfortavelmente na barra de metal; os três bem apertados um no outro.
"Eu queria ter uma bala de menta". Claire murmurou.
"Eu queria que você tivesse uma". Rebecca disse, e Claire riu abafado. Rebecca podia sentir o movimento das
costelas de Claire em seu braço; eles estavam embalados.
"Aqui vamos nós". David disse, e apertou os controles.
O elevador começou a descer com um alto zumbido, tão alto que Rebecca começou a pensar duas vezes sobre
esse ataque surpresa. Descia devagar, também, metade da velocidade de um elevador normal.
Deus, isso pode levar uma eternidade...
Só de pensar, Rebecca sentiu-se exausta, o barulho do motor bagunçando sua dor de cabeça. Ficar parada a fez
perceber o quanto estava doente, e enquanto o quadrado brilhante das portas abertas subia, Rebecca ficou grata
de repente por estarem grudados; servia como desculpa para se apoiar pesadamente em David, de olhos
fechados, tentando se manter sã por mais um tempo.
[18]
Eles estavam encrencados, entrando no prédio e indo para a parede de trás no escuro, suando e ofegando, Cole
esperando a fina porta estourar a qualquer segundo.
- boom, e eles entram correndo, gritando, cortando a gente em fatias antes mesmo de vê-los -
"Tenho um plano". John ofegou, e Cole sentiu um piscar de esperança, uma esperança que durou até a próxima
frase de John.
"Nós corremos que nem loucos para a parede de trás". Ele disse finalmente.
"Você ficou maluco?". Leon disse. Você viu aquele pulo, não há como correr deles -".
John respirou fundo e começou a falar, baixo e rápido. "Você está certo, mas você e eu somos bons atiradores,
podemos apagar algumas luzes da rua pelo caminho. Mesmo se puderem ver no escuro, será uma distração,
armar uma confusão, talvez".
Leon não disse nada, e apesar de não poder ver seu rosto claramente, Cole o viu esfregar seu ombro, onde a
criatura o havia golpeado. Devagar, ele já estava começando a considerar a idéia de John.
Os dois são malucos?
Cole lutou para manter o terror fora de sua voz. "Não há outra opção? Sei lá, nós podíamos... podíamos subir,
andar pelos telhados".
"Todos os prédios tem diferentes alturas". John falou. "E eu não acho que agüentariam tanto peso".
"E se nós -".
Leon interrompeu suavemente. "Nós não temos a munição, Henry".
"Então voltamos para a Fase Três, pense nisso...".
"Estamos mais perto do canto sudoeste". John disse e Cole sabia que estavam certos, sabia e não gostava nem
um pouco. Mesmo assim ele procurou outra alternativa, tentando pensar em outro caminho.
Os Hunters eram terríveis, eram as coisas mais terríveis que Cole já tinha visto -
- e de algum lugar lá fora, um deles gritou, o arranhado e furioso som estourando pelas finas paredes, e Cole
percebeu que não tinham tempo para um plano melhor.
"Tá bom, certo, tá". Ele disse, pensando que o mínimo a se fazer era aceitar e encarar o inevitável como se
tivesse coragem.
Eu não vou atrasá-los, pensou, e respirou fundo, endireitando os ombros um pouco. Se tem que ser assim, ele
não iria se envergonhar na frente deles virando um convarde chorão - e não iria diminuir suas chances de
sobreviverem tornando-se uma mala.
Cole tirou do bolso o clip que John o havia dado e trocou pelo vazio, seu coração pulando - e ficou um pouco
surpreso por perceber que agora que se comprometeu, que fez uma decisão, sentiu-se mais forte, mais
corajoso.
Eu posso muito bem morrer nessa, disse para si, e esperou pela leva de terror - mas ela não veio. Ele já estaria
morto se não fosse John e Leon, e talvez essa seria sua chance de evitar que um deles se machucasse.
Sem outra palavra, os três foram para a porta, Cole pensando em como sua vida mudou mais nas últimas horas
do que nos últimos dez anos - e do jeito que aconteceu, ele estava grato - sentia-se completo. Sentia-se real.
"Preparar...". John disse, e Cole respirou fundo, Leon sorrindo para ele sobre a suave luz da janela.
"... agora".
John puxou a porta e eles correram para a rua enquanto, envolta deles, a noite era rasgada pelos selvagens
gritos dos Hunters.
Os olhos de Reston brilhavam. Ele se inclinou para frente, olhando para a tela intensamente, deliciado com a
decisão suicida. Todos os três, arremetendo no escuro como lunáticos. Como homens mortos que não sabiam
parar de se mover.
Eles correram à sul, John na frente, Ruivo e Cole bem atrás. De uma calçada à direita deles, um Hunter saltou
para recebê-los -
- e houve um flash de luz, um brilhante estouro alaranjado vindo de cima, vidro em chamas como chuva de
purpurina na rua. Foi uma das lâmpadas da rua, e os 3K pareceram ficar furiosos enquanto o vidro caía. O
caçador vermelho-virando cinza girou o corpo em torno de si, frenético e gritando, procurando o agressor -
- e ignorou completamente os três homens. Todos os três estavam passando, erguendo as armas e atirando
para o céu, acertando mais lâmpadas, e Reston viu outro Hunter pular na rua, quase perdido, como uma sombra
entre sombras -
- e Cole, Henry Cole fintou para a esquerda depois para a direita, cravando uma bala de sua arma na cabeça de
um 3K -
- e houve um estouro de líquido, pedaços de cérebro e sangue jorrando de sua têmpora, o eletricista atirando às
cegas. Os braços do Hunter estavam espasmando, tremendo, mas já estava morto.
Cole continuou correndo, alcançando os outros enquanto mais lâmpadas explodiam.
"Não". Reston sussurrou, sem perceber que havia falado, mas bem certo de que as coisas estavam indo
horrivelmente erradas.
John correu, parou para atirar, correu de novo. Os violentos berros o seguiam, a chuva de vidro e cheiro de metal
queimado vinham até eles de toda a parte -
- e viu um caçador na rua, na frente deles, na interseção que os levaria à jaula, viu os estranhos olhos brilhantes
e o escuro buraco de sua gritante boca -
- guarde munição Jesus ele é igual à rua -
- e continuou correndo direto para a criatura, mirando, as explosivas balas de 9mm atrás dele, o monstro
barulhento a menos de três metros de distância quando John atirou.
Um curto estouro, calculado, direto na gritante e sobrenatural face -
- e o monstro não caiu. E apesar de John ter desviado, não foi o suficiente. Quase cara a cara com ele, o sangue
estava visível e abundante, a coisa levantou um dos longos braços e acertou John no peito.
O golpe acertou seu peito esquerdo e John esperava ser esmagado, jogado no ar, seu corpo esfarrapado - mas
a criatura deve ter sido enfraquecida pela bala, desorientada, cega talvez. Mesmo sentindo seu pulmão contraindo
de dor - e a porrada foi brutalmente sólida - ele já havia tomado golpes mais fortes. Ele cambaleou, mas não
caiu, e já o tinha passado virando para esquerda, indo para oeste.
John olhou para trás, viu que os outros ainda o acompanhavam, olhou para frente -
- lá está ela!
A rua terminava numa parede pintada a menos de um quarteirão à frente - e havia uma abertura feita a um
metro e meio do chão, com uns dois e meio de largura por no mínimo três de altura -
- e houve outro grito à sua direita, ele não conseguia ver o Hunter camuflado, mas bam-bam, Leon ou Cole atirou
nele, o berro ficando frenético de raiva. John ergueu a M-16 e apagou outra lâmpada, dez segundos e estamos lá
-
- e um painel azul marinho da cor da parede começou a deslizar para baixo sobre a abertura, devagar, mas
constante. Em segundos, não haveria saída.
Reston bateu desesperadamente na trava da jaula, a comporta descendo como uma lesma, suas mãos suando,
sua mente embriagada e girando com descrença.
Não não não não -
Ele havia fechado a Dois e a Três, mas ainda havia um Hunter dentro da jaula e se esqueceu dela - e agora o
animal tinha ido embora e os três homens iam fugir. Fugir dele, de suas mortes.
Rápido!
John estava olhando para trás, gritando, Ruivo bem atrás, Cole quase ao seu lado -
- e havia um Hunter a menos de seis metros atrás deles, diminuindo a distância, seu enorme corpo mudando
entre asfalto e bronze, suas garras traçando canaletas na rua.
Mate eles, mate, pule, mate!
John chegou na abertura, suas mãos no chão, impulsionando-o graciosamente. Uma de suas mãos voltou e
Ruivo estava lá, agarrando-a, sendo puxado para dentro num instante -
- e lá estava Cole, e também ia passar, a comporta não fecharia a tempo, mãos se esticando para ele -
- e o Hunter atrás dele varreu os braços para baixo, suas unhas rasgando as costas de Cole, através da blusa e
da pele, através dos músculos e talvez dos ossos.
Os outros puxaram Cole para dentro enquanto a comporta fechava.
Cole não gritou enquanto o sentavam, devendo estar em agonia. Eles os deitaram de barriga para baixo e mais
gentil possível, Leon enjoado de tristeza quanto viu o estado das costas de Cole.
Morrendo. Ele está morrendo.
Em segundos, ele ficou numa piscina do próprio sangue. Através dos farrapos de sua ensopada camisa, Leon
podia ver a carne rasgada, as fibras dos músculos cortados e o liso brilho do osso logo abaixo. Um osso
arranhado. O dano foi feito por dois longos cortes, cada um começando abaixo dos ombros e terminando na
parte inferior das costas. Ferimentos mortais.
Ele respirava baixo, leves suspiros, seus olhos fechados e suas mãos tremendo.
Inconsciente. Leon olhou para John, viu a acometida expressão, o desvio de olhar; não havia nada que podiam
fazer por ele.
Eles estavam numa gigante cela que fedia animais selvagens no final de um longo corredor de cimento, um que
aparentemente corria o comprimento das quatro áreas de teste. Estava escuro, só algumas luzes ligadas,
mostrando a jaula em sombras; as jaulas eram separadas por paredes com grandes janelas, e Leon só podia ver
a que estava perto deles, o lar dos Spitters. Estava coberto com um claro e grosso plástico, o chão coberto de
ossos.
A cela dos Hunters estava vazia, tinha pelo menos 9 metros de largura e o dobro do comprimento, com dois
baixos cochos perto da cerca. Era um frio e solitário lugar para morrer, mas pelo menos estava seguro, não
estava sentindo nenhum -
"Vire... me". Cole suspirou. Seus olhos estavam abertos, seus lábios tremendo.
"Ei, não se mexa". John disse gentilmente. "Você ficará bem, Henry, só fique onde está, não se mexa, tá bom?".
"Besteira". Cole disse. "Me virem, estou morrendo...".
John travou o olhar com o de Leon que acenou relutante. Ele não queria causar mais dor para Henry, mas
também não queria recusá-lo nada; ele estava morrendo e deviam dá-lo o que podiam.
Devagar e cuidadosamente, John ergueu Cole e o virou. Cole gemeu quando suas costas tocaram o chão, seus
olhos largos rolando, mas pareceu aliviado depois de um momento. Talvez o frio... ou talvez já tinha passado do
ponto da dor, ficando dormente.
"Obrigado". Ele suspirou, uma bolha de sangue estourando em seus pálidos lábios.
"Henry, tente descansar agora". Leon disse suavemente querendo chorar. O homem tentou tanto ser corajoso,
acompanhá-los...
"Fóssil". Cole disse, seu olhar fixando-se no de Leon. "No tubo. O pessoal disse - se sair, ele - destruir tudo. Coisa
no laboratório. Oeste. Entendeu?".
Leon acenou, entendendo perfeitamente. "Uma criatura da Umbrella no laboratório. Fóssil. Você quer que nós o
soltemos".
Cole fechou os olhos, sua branca face tão parada que Leon pensou estar acabado - mas Cole falou de novo, tão
baixo que Leon precisou se inclinar para ouvi-lo.
"Isso". Ele suspirou. "Bom".
Cole deu um último suspiro e exalou - e seu peito não levantou mais.
Minutos depois da morte de Cole, os dois homens descobriram como sair da cela dos Hunters. Reston encarou o
monitor, não sentindo nada, determinado a não ficar surpreso. Eles simplesmente não eram humanos e pronto;
quando aceitar isso nada mais o surpreenderá.
A comida era presa firmemente na cerca de aço tal que os manipuladores não precisavam entrar nas celas; a
maior parte do cocho ficava para fora; o suficiente para jogar a comida dentro e os animais a puxarem pelo lado
de dentro. Não havia preocupação de os 3K puxarem as bacias de comida para dentro ou empurrá-las para fora,
as aberturas eram muito estreitas para seus corpos.
Mas não para humanos... ou seja lá o que forem.
John e Ruivo começaram a chutar o cocho, e assim que começou a se deslocar, Reston pegou o revólver e se
levantou, afastando-se dos monitores. Não havia porque olhar. Ele falhou, os testes do Planeta provaram ser
fáceis demais e seria punido severamente pelo que fez, ou talvez morto. Mas ele não estava pronto para morrer,
ainda não - e não pelas mãos deles.
Mas e o elevador, o pessoal na superfície...
Não era seguro subir também. O complexo já devia estar infestados por esses S.T.A.R.S. agora, eles cortaram a
força e estavam esperando seus dois rapazes terminarem o serviço...
Não dá para subir, não dá para matá-los, não há tempo... o refeitório!
Seus empregados o ajudariam. Quando libertá-los, quando explicar as coisas, eles correriam ao seu lado, o
protegeriam.
Preciso ir agora, eles sairão em breve e virão atrás de mim. Tentarão vingar Cole, talvez. Tentarão me deixar
arrependido por ter feito o meu trabalho, o que qualquer um teria feito.
De alguma forma, ele duvidou que tentariam. Reston saiu, já preparando sua história, imaginando como as coisas
ficaram tão terrivelmente erradas.
[19]
Das jaulas, eles pisaram num limpo e esterilizado corredor, e viraram à esquerda - oeste - andando rapidamente
pelo vazio corredor. Nenhum deles falou; não havia nada para falar até acharem o que Cole havia chamado de
Fóssil, até descobrirem se era a decisão certa.
Pela primeira vez desde que entraram no Planeta, John não sentiu vontade de fazer piadas. Cole era um cara
bom, fez o possível para retribuir o erro de tê-los atraído para o programa de teste, fez o que pediram para fazer
- e agora estava acabado, brutalmente ferido, morrendo com sangue e dor no chão de uma jaula.
Reston. Reston pagaria por isso, e se o melhor jeito de pegá-lo era soltando um monstro da Umbrella, assim
seria. A justiça cabível.
Dane-se o livro de códigos. Se o Fóssil é tão mau quanto Cole achava ser, nós o soltaremos, libertaremos os
funcionários e fugiremos. Deixaremos o monstro encontrar Reston e derrubar esse lugar...
O corredor entortava à direita, depois seguia reto, ainda à oeste. Quando fizeram a curva, eles viram a porta à
direita - e John sabia que era o laboratório de Cole. Ele sentia.
E estava certo. A porta de metal abriu - depois de usar a chave de 9mm - e deu num pequeno laboratório com
balcões e computadores, que depois abria numa sala cirúrgica, brilhando de aço e porcelana. A porta na parede
atrás da sala de operações era a qual Cole se referia - e quando viram a criatura, John pôde ver porque Cole
insistiu em contar sobre ela, mesmo em seus últimos momentos. Mesmo se tivesse metade do poder o Planeta
viraria história.
"Cristo". Leon disse, John não achou nada para adicionar. Eles andaram devagar até o gigante cilindro no canto da
gigante sala, depois da mesa de autópsia de inox e bandejas de ferramentas brilhantes, parando na frente do
tubo. As luzes da sala estavam apagadas, mas havia uma luz direcional no teto apontada para o container,
iluminando a coisa. O Fóssil.
O tubo tinha quatro metros e meio de altura e pelo menos três de diâmetro, cheio de um claro líquido
avermelhado - e envolto no fluído, preso em tubos e fios que vinham de cima, estava o monstro. Um pesadelo.
John imaginou que se chamasse Fóssil por causa do que se parecia, ou parte disso - algum tipo de dinossauro,
um que jamais caminhou pela superfície da Terra. A criatura de três metros de altura tinha uma cor pálida, sua
granulada pele rosada por causa do líquido em volta. Não tinha rabo, mas tinha a grossa pele e as pernas de um
dinossauro. Foi certamente criado para andar erguido, e além dos pequenos olhos, o focinho arredondado de um
dinossauro carnívoro, um T-Rex ou um velociraptor, também tinha longos e musculosos braços, e mãos com lisos
e curvos dedos. Impossível como era, parecia uma mutação entre homem e dinossauro.
O que estavam pensando? Por que - por que fazer algo assim?
Estava adormecido, ou em algum tipo de coma, mas estava vivo. Conectada a uma fina mangueira, estava uma
máscara que cobria seus orifícios nasais, e uma bandana de plástico envolvendo sua gigante mandíbula, para
mantê-la fechada.
John podia não vê-los, mas tinha certeza que havia fileiras de dentes afiados na larga e curva boca da criatura.
Seus olhos estavam cobertos por uma pálpebra interna, uma fina camada de pele roxa, e podiam ver o lento
erguer de seu grande peito, os gentis movimentos de seu corpo na meleca vermelha.
Havia uma prancheta pendurada na parede próxima a Fóssil, sobre um pequeno monitor onde finas linhas verdes
piscavam.
Leon ergueu a prancheta, virando as folhas enquanto John olhava, admirado com horror. Uma de suas mãos
aracnídeas torceu, os dedos de vinte centímetros quase formando um punho.
"Aqui diz que uma autópsia está marcada para daqui três semanas e meia". Leon disse, ainda procurando. "O
espécime ficará em estase, blá blá blá... quando será injetado com uma dose letal de Hyptheion antes do
dissecamento".
John olhou para a mesa de autópsia, viu as presilhas de aço em cada lado e três serrotes de ossos embaixo. A
mesa foi aparentemente construída para acomodar grandes animais.
"Por que mantê-lo vivo afinal?". John perguntou, virando para o Fóssil adormecido. Era difícil não olhar; a criatura
era chamativa, horrível e impressionante, uma aberração que exigia atenção.
"Talvez para os órgãos ficarem frescos". Leon disse, e respirou fundo. "Então... vamos fazer?".
É uma pergunta valendo um milhão de dólares, não é? Nós não teremos os códigos - mas a Umbrella terá um
parquinho a menos para suas brincadeiras. E talvez um gerente a menos.
"É." John disse. "Sim, acho que vamos".
Os homens o ouviram quietos, seus rostos pensativos enquanto absorviam o terror que havia invadido o Planeta.
A invasão de cima, seu pedido de ajuda, como os invasores o derrubaram depois de matarem Cole a sangue frio.
Os empregados não fizeram perguntas, só ficaram sentados tomando café - alguém tinha feito café - e ficaram
ouvindo. Ninguém o ofereceu uma xícara.
"... e quando me recuperei, eu vim aqui". Reston disse, e correu uma trêmula mão sobre o cabelo,
estremecendo apropriadamente. Ele não precisava inventar tremores. "Eu - eles ainda estão por aí, em algum
lugar, talvez instalando explosivos, eu não sei... mas podemos impedi-los se trabalharmos juntos".
Ele podia ver em seus olhos que não estava funcionando, ele não os inspirava ação. Ele não era bom com
pessoas, mas podia lê-las bem o bastante.
Eles não estão acreditando, use Henry...
Os ombros de Reston pularam, um assombrado tom em sua voz. "Eles atiraram nele". Ele disse, olhando para
baixo, atordoado de tristeza. "Ele estava implorando, apelando para o deixarem viver, e eles - eles atiraram".
"Onde está o corpo?".
Reston olhou para cima, viu que Leo Yan tinha falado, um dos manipuladores de 3K. Yan não tinha nenhuma
expressão, apoiado na ponta da mesa de braços cruzados.
"O quê?". Reston perguntou, parecendo confuso, mas sabendo exatamente do que Yan estava falando. Pense,
droga, já devia ter pensado nisso -
"Henry". Alguém disse, e Reston viu que era Tom alguma coisa, da construção. Sua áspera voz estava
abertamente céptica. "Eles atiraram em Cole, te apagaram - então o corpo ainda está no bloco das celas,
certo?".
"Eu - eu não sei". Reston disse, sentindo-se quente e desidratado de tanto conhaque. Sentindo que não se
recuperaria da inesperada pergunta. "Sim, deve estar, a não ser que o moveram por algum motivo. Eu acordei
confuso, enjoado, eu queria achar vocês imediatamente, ter certeza de que não foram feridos. Eu não reparei se
ainda estava lá...".
Eles olharam para Reston, um mar de rudes faces que não estavam mais tão neutras. Reston viu descrença,
desrespeito e raiva - e nos olhos de um ou dois, viu rancor.
Por quê, o que eu fiz para inspirar tal desprezo? Eu sou o chefe e empregador deles, eu pago seus malditos
salários -
Um dos mecânicos se levantou da mesa e se adereçou aos outros. Era Nick Frewer, o que parecia ser o mais
popular entre eles.
"O que me dizem de sairmos daqui?". Nick perguntou. "Tommy, você tem as chaves do caminhão?".
Tom acenou. "Claro, mas não a chave do depósito".
"Eu tenho". Disse Ken Carson, o cozinheiro. Ele se levantou também, e aí a maioria estava de pé, se
espreguiçando e bocejando, terminando com o café.
Nick acenou. "Bom, todos façam as malas e estejam no elevador em cinco -".
"Esperem!". Reston disse, incapaz de acreditar no que estava ouvindo, que iriam fugir de suas obrigações. Que
podiam ignorá-lo. "Há mais na superfície, eles vão matar vocês! Vocês têm que me ajudar!".
Nick virou e olhou para ele, seu olhar calmo. "Sr. Reston, nós não temos que fazer nada. Eu não sei o que
realmente está acontecendo, mas acredito que você é um mentiroso - e posso não falar por todos, mas eu não
sou pago o bastante para ser seu guarda-costas.
Ele sorriu de repente, seus olhos azuis brilhando. "Além disso, eles não estão atrás de nós".
Nick virou e foi embora, e Reston pensou em atirar nele por um instante - mas só tinha seis balas e nenhuma
dúvida de que seus colegas cairiam em cima dele se ferisse um dos operários. Ele pensou em dizer que suas
vidas estavam acabadas, que não esqueceria dessa traição, mas não queria desperdiçar seu ar. E não tinha
tempo para isso.
Esconda-se.
Era tudo a se fazer.
Reston deu as costas para os insubordinados e correu, sua mente pensando nos lugares para ir, rejeitando
algumas opções por serem óbvias demais, muito expostas -
- e se decidiu. A bateria de elevadores, perto da ala médica. Era perfeito. Ninguém pensaria em olhar dentro de
um elevador que nem funcionava. Ele podia forçar a entrada em um deles e ficar a salvo lá dentro. Ao menos por
um tempo, até pensar em outra coisa para fazer.
Suando, apesar do frio cinza do quieto corredor principal, Reston virou à direita e começou a correr.
Depois do que pareceram horas de descida pelo escuro e frio duto do barulhento elevador, eles chegaram ao
fundo.
Ou no topo, dependendo de como você olha, Claire pensou, enquanto a lanterna de David acendia e o motor
desligava. Eles pararam em cima de uma cabine de elevador, vazia exceto por uma escada de mão ao lado.
Eles saíram do quadrado de metal, Claire aliviada por voltar a uma superfície mais sólida. Descer por um poço
aberto de elevador onde um passo em falso podia levá-la à morte não era sua idéia de diversão.
"Acha que alguém nos ouviu?". Claire perguntou, e viu silhueta de David mexer os ombros.
"Mesmo se estivessem a trezentos metros daqui, acho que sim". Ele disse. "Espere, eu vou descer...".
Claire acendeu sua lanterna enquanto David sentava, segurando as pontas do painel e se abaixava. Enquanto
movia a escada, Rebecca também ligou a lanterna, e Claire viu seu rosto.
"Ei, você está bem?". Claire perguntou, preocupada. Rebecca parecia doente, muito pálida e com olheiras
escuras.
"Sim, já estive melhor, mas vou sobreviver". Ela disse de leve.
Claire não estava convencida, mas antes de insistir no assunto, David as chamou.
"Certo - deixem os pés pendurados, eu os guiarei até os degraus e as ajudarei a descer".
Claire acenou para Rebecca ir primeiro, decidindo que se ela não conseguisse funcionar, provavelmente diria algo.
Enquanto David ajudava Rebecca, ocorreu a Claire que ela não diria nada se estivesse na pele da garota.
Eu iria ajudar, e não gostaria de ser deixada para trás; eu continuaria mesmo se isso fosse me matar...
Claire limpou a mente, passando pelo teto do elevador. Rebecca não era tão rebelde, ela era médica. Ela era
normal.
Assim que desceu, David acenou para Claire e os dois puxaram as frias portas de metal, Rebecca mirando sua
semi aleatoriamente na abertura que aumentava. Quando conseguiram afastar as portas alguns centímetros,
David saiu primeiro e depois acenou para o seguirem.
Uau...
Ela não sabia ao certo o que veria, e um corredor cinza não era uma das possibilidades. Ele se prolongava à
direita, terminando numa porta, e virava à esquerda, cerca de seis metros do elevador que levava à leste. Claire
não sabia sobre as direções, mas sabia que o elevador que Leon e John pegaram estava à sudoeste -
considerando que desceu reto.
Estava silencioso, perfeitamente quieto. David moveu a cabeça para a esquerda, indicando que seguiriam naquela
direção, as duas garotas acenaram.
Podemos começar pelo elevador, ver se podemos descobrir que caminho seguiram...
Claire olhou Rebecca de novo, sem querer encará-la porém insegura sobre sua saúde, ela não parecia bem e
quando Rebecca virou para a curva do corredor, Claire viu o olhar de David, acenando de leve na direção da
médica, franzindo.
Ele hesitou, e ela viu que ele sabia sobre a condição de Rebecca. Pelo menos -
- e Rebecca soltou um agudo grito de surpresa, já na curva -
- assim que um homem de terno azul apareceu e a agarrou, tirando a arma da mão dela e colocando um
revólver em sua cabeça.
Ele travou seu braço no pescoço dela, apertando, e virou seus selvagens olhos para eles, seu dedo no gatilho, um
trêmulo sorriso em seu velho rosto.
"Eu vou matá-la! Eu vou! Não me façam matá-la!".
Rebecca segurou o braço dele e ele apertou mais, suas mãos tremendo e seus olhos azuis intercalando entre
David e Claire. Rebecca fechou um pouco os olhos, seus dedos cedendo e Claire viu que estava muito fraca, que
estava a ponto de um colapso.
"Vocês não vão me matar, fiquem longe! Fiquem longe ou eu mato ela!".
O cano do revólver estava apertado na cabeça dela, se David ou Claire se moverem...
Eles só olharam enquanto o maluco começou a recuar, arrastando Rebecca para a porta no fim do corredor.
[20]
Foi assustadoramente fácil tirar Fóssil do coma. Em questão de momentos, Leon entrou no programa de
monitoramento e descobriu como drenar o cilindro. De acordo com o relógio digital que surgiu na tela, só levaria
cinco minutos.
Deus, qualquer um trabalhando aqui poderia ter feito isso, a qualquer hora. Para uma companhia tão paranóica, a
Umbrella dá muita moleza...
"Ei, olhe isso". John disse, e Leon virou-se do pequeno computador, olhando cautelosamente para o monstro.
Mesmo depois de sobreviver ao inferno de Raccoon, depois de lutar com zumbis e aranhas gigantes e até mesmo
com um crocodilo gigante, essa foi a coisa mais estranha que já tinha visto.
John estava de pé na parede do outro lado da sala, olhando para uma pintura laminada. Assim que se aproximou,
Leon viu que era um mapa do Planeta, cada área claramente identificada. O complexo tinha um layout bem
simples, basicamente um corredor que cercava as quatro fases, a maioria dos escritórios e salas em pequenas
partições do corredor.
John tocou um pequeno quadrado à leste, logo depois do elevador de serviço. "Aqui diz 'controle de teste/sala de
monitoramento,'". Ele disse. "e fica a caminho da saída".
"Você acha que Reston se escondeu lá?". Leon perguntou.
John balançou os ombros. "Se ele estava vendo as fases, é lá que deveria estar - o que me intriga é se ele não
deixou aquele livro por lá".
"Não custa tentar". Leon disse. "Vai levar uns cinco minutos para esvaziar o tubo, dá tempo - considerando que o
elevador não seja um problema".
John virou para olhar Fóssil, adormecido no gel. "Você acha que ele vai mesmo acordar?".
Leon acenou. As condições listadas no programa de monitoramento pareciam boas, a pulsação e a respiração
indicando sono profundo; não haveria porque não acordar quando o quente nutriente for drenado.
E provavelmente acordará com frio, bravo e faminto...
"É". Leon disse. "E não queremos estar aqui quando isso acontecer".
John sorriu um pouco, não seu sorriso normal, mas um sorriso. "Então vamos". Disse suavemente.
Leon voltou para o computador, banhado pelo reflexo vermelho do tubo. Fóssil flutuava pacificamente, um
gigante adormecido. Uma monstruosidade criada por monstruosas pessoas, levando uma vida inútil num lugar
construído para a morte.
Derrube tudo, Leon pensou e apertou "enter". O relógio começou a retroceder; eles tinham cinco minutos.
David achou que era Reston, mas não dava para saber. Não importava; só queria saber como tirar Rebecca dele,
e enquanto o enlouquecido homem de terno azul recuava para a porta, David percebeu que não havia nada para
fazer.
Ainda não.
"Vão embora! Me deixem em paz!". O homem - Reston - gritou, e desapareceu. Rebecca se foi, e fraca como
parecia antes da porta fechar, deixou David muito assustado.
"O que faremos?".
Ele olhou para Claire, viu a ansiedade e o medo no rosto dela, fazendo-o respirar fundo, exalando
vagarosamente. Eles não fariam nada se entrassem em pânico -
- e acabaríamos matando ela.
"Fique calma". Ele disse, sem sentir nada. "Nós não conhecemos o lugar, não podemos dar a volta e cercá-lo...
nós teremos que seguí-lo?".
"Mas ele -".
"Sim eu sei o que ele disse". David interrompeu. "Não há alternativas. Nós deixaremos eles ganharem distância e
depois os seguiremos".
E esperamos que não seja tão instável quanto parece.
"Claire - é uma tarefa cautelosa, não podemos fazer barulho. Talvez seja melhor você ficar aqui...".
Claire balançou a cabeça, um olhar de determinação em seus olhos. "Eu consigo". Disse, firme e clara. Ela não
tinha dúvidas, e apesar de não ser treinada, provou ser rápida e equilibrada.
David acenou e ambos andaram para esperar na porta, dois minutos a não ser que ouçamos algo, abriremos a
porta devagar -
Ele se forçou a respirar fundo novamente, bravo consigo mesmo por tê-la trazido com eles. Ela estava exausta e
ferida, não conseguiria lutar se Reston decidisse apertar mais sua garganta...
Não. Agüente firme, Rebecca. Nós estamos indo, e podemos esperar a noite toda para achar uma oportunidade.
Eles esperaram, David rezando para que Reston não a machucasse, jurando que se o fizer, arrancaria seu fígado
e o faria comê-lo.
***
Eles procuraram pelo elevador no interminável corredor, sem correr. O refeitório estava vazio e uma rápida
procurada nos dormitórios disse a John que os funcionários tinham fugido. Havia claros sinais de que eles estavam
com pressa em arrumar as coisas.
Espero que Reston ainda esteja aqui...
Enquanto corriam à norte pelo corredor, John decidiu que se Reston ainda estiver na sala de controle, ele o
nocautearia. Um bom e sólido soco na cara; e se não levantar antes do Fóssil, já era.
Os dois passaram pela entrada da sala de controle, ambos sabendo que precisariam mais de um elevador
funcionando do que de Reston, e como Leon disse, eles não queriam estar presentes no grand finale do Planeta.
O painel aberto na parede e a pequena luz sobre o aviso "em uso" foram o suficiente para fazer John sorrir como
criança. Um alívio, pois eles se arriscaram soltando Fóssil antes de garantir uma rota de fuga.
Leon chamou o elevador, também aliviado. "Dois, dois minutos e meio". E John acenou.
"Só uma olhadinha". Ele disse, e virou para a pequena quebra no corredor. Leon estava sem balas, mas John
ainda tinha algumas na M-16 caso Reston fizesse algo estúpido.
A porta estava destrancada. John foi primeiro, varrendo a grande sala com o rifle, e ficou espantado com o lugar.
"Caramba". Ele disse de leve. Uma fileira de cadeiras de couro de frente para uma parede cheia de monitores.
Um carpete vermelho escuro de veludo. Um brilhante e ultra-moderno console prateado e polido, e uma mesa
que parecia de mármore branco atrás.
Pelo menos não temos que revirar tudo...
Exceto por uma mesinha de café e um cantil prateado no console, não havia nada para ver. Nenhum papel ou
coisas de escritório, nem itens pessoais nem livro de códigos secretos.
"Provavelmente temos que ir". Leon disse. "Estou estimando tempo aqui, eu odiaria me atrasar".
"Tá bom, vamos -".
Houve movimento na parede de monitores, no meio da segunda fileira de cima para baixo. John se aproximou,
imaginando o que seria, os empregados se foram e havia duas pessoas na tela, não pode ser -
"Essa não". John disse, e sentiu seu estômago cair, seu olhar horrorizado fixado na tela.
Reston com uma arma. Arrastando Rebecca por um corredor, seu braço em volta do pescoço dela, seus pés
arrastando no chão, sua cabeça pendurada, seus braços frouxos.
"Claire!".
John olhou para Leon, que estava olhando para outro monitor, viu David e Claire armados, andando rapidamente
por outro corredor.
"Dá pra reencher o tubo?". John falou, seu estômago ainda amarrado, mais aterrorizado do que esteve durante a
noite toda, aquele miserável pegou a 'becca -
"Não sei,". Leon disse rapidamente. "podemos tentar, mas temos que ir agora -".
John se afastou dos monitores, procurando o laboratório num deles, sua exaustão sumindo quando mais
adrenalina caiu em sua circulação.
Ali, uma sala escura, uma única luz apontada para o tubo, para a inquieta coisa lá dentro. Em segundos, mãos
ensopadas socaram o material, arranhando, estraçalhando, uma grande e pálida perna réptil atravessando o
vidro.
Tarde demais: Fóssil acordou.
[21]
A criatura designada ReH1a da série Tyrant, mais conhecida como Fóssil, estava puramente motivada pelo seu
único instinto: comer. Todas as suas ações vinham desse único e primário impulso. Se houver algo entre ele e a
comida, Fóssil o destruiria. Se algo o atacar, se algo tentar tirá-lo da comida, Fóssil o mataria. Não havia impulso
reprodutivo porque Fóssil era o único membro de sua espécie.
Fóssil acordou com fome. Ele sentia a comida, em cargas elétricas no ar, mornas ondas de calor - e destruiria o
que a tivesse. O ambiente não era familiar para Fóssil, mas não importava; continha comida e estava com fome.
Com três metros de altura e pesando cerca de quatrocentos e cinqüenta quilos, a parede que separava fóssil da
comida não agüentou muito tempo. Havia outra parede depois da primeira, e mais outra - e as ricas sensações e
cheiros de comida estavam perto, muito perto para que Fóssil sentisse uma emoção: ele queria, uma coisa que ia
além da fome, uma poderosa extensão de seu instinto que o encorajava a ir mais rápido. Fóssil comeria qualquer
coisa, porém comida viva o fazia querer mais.
A parede que o separava da comida era mais grossa e mais dura que as outras, mas não o suficiente para que
Fóssil parasse. Ele rasgou as camadas da substância e saiu num lugar estranho, nada orgânico além do arrastar
de comida.
A comida corria para ele, era difícil de ver, mas cheirava forte. A comida ergueu uma garra e a varreu em Fóssil,
gritando de raiva, com desejo de atacar e matar; Fóssil sabia por causa do cheiro. Em segundos, Fóssil foi
cercado pela comida e de novo, ele quis. Os animais que eram comida uivaram e gritaram, dançando e pulando.
Fóssil se esticou e pegou o mais próximo.
A comida tinha unhas afiadas, mas a pele de Fóssil era grossa. Ele mordeu a comida, rasgando um grande
pedaço do corpo contorcido, e se encheu. Seu senso de propósito alcançado assim que mastigou e engoliu,
sangue quente descendo pela sua garganta, carne quente rasgando entre seus dentes.
Os outros animais continuaram atacando, ficando fácil para Fóssil comer. Ele comeu toda a comida em pouco
tempo e seu metabolismo a consumiu no mesmo período, dando à Fóssil mais força para encontrar mais. Era um
processo extremamente fácil que continuaria enquanto estivesse vivo.
Terminando com a escura e cavernosa sala que continha a barulhenta comida, Fóssil lambeu o sangue dos dedos
e abriu os sentidos, procurando pela próxima refeição. Em segundos, descobriu que havia mais, se mexendo por
perto.
Fóssil queria. Fóssil estava com fome.
[22]
A garota estava mau, sua pele branca e suas tentativas de se soltar inúteis e fracas. Reston queria se livrar dela,
largá-la e correr, mas não ousou. Ela era sua passagem para superfície; certamente não matariam um dos seus.
Ainda assim, ele queria que ela não estivesse tão doente. Ela o estava atrasando, quase incapaz de andar, e não
tinha escolha além de continuar carregando ela, ao norte pelo corredor de trás, depois a leste no canto mais
distante do complexo, na direção da porta do bloco das celas. De lá, o elevador de serviço ficaria a dois minutos
de caminhada.
Quase lá, quase no fim desta impossível e incrível noite, falta pouco...
Ele era um homem extremamente importante, era um respeitado membro de um grupo que tinha mais poder e
dinheiro que alguns países, ele era Jay Wallingford Reston - e ali estava, sendo caçado em seu próprio território,
forçado a fazer uma refém, colocando uma arma em sua cabeça e fugindo como um criminoso; era ridículo e
inacreditável.
"Muito apertado". A garota sussurrou, sua voz esganada e áspera.
"Que pena". Ele respondeu, continuando a arrastá-la pelo fino pescoço; ela devia ter pensado nisso antes de
invadir o Planeta.
Ele a puxou pela porta que dava acesso ao bloco das celas, sentindo-se melhor a cada passo. Cada passo o
deixava mais perto da saída, da sobrevivência. Ele não seria caçado por um grupo de capangas justiceiros sem
visão; ele se mataria antes.
Passadas as celas vazias, quase na porta - e a garota tropeçou, caindo nele tão forte que quase o derrubou. Ela
agarrou forte nele, tentando recuperar o equilíbrio, e Reston sentiu uma súbita leva de raiva por ela.
Vagabunda estúpida, assassina, espiã, eu devia atirar em você aqui, agora, e espalhar seu preguiçosos miolos
nas paredes -
Ele recuperou o controle antes de apertar o gatilho, a perda de compostura o assustando um pouco. Teria sido
um erro, e teria custado caro.
"Faça isso de novo e eu te mato". Ele disse friamente e chutou a porta que dava no corredor principal, gostando
do quanto impiedosa sua voz tinha soado. Tinha soado forte, como um homem que não hesitaria matar se
servisse seus propósitos - os quais descobriria seja lá quais fossem.
Depois da porta, já no corredor -
"Deixe-a ir, Reston!".
John e Ruivo estavam na curva, ambos apontando suas armas para ele. Bloqueando a passagem para o
elevador.
Imediatamente, Reston arrastou a garota de volta para dentro enquanto decidia o que fazer -
"Esqueça". Ruivo gritou. "Eles estão atrás de você, nós os vimos te seguindo. Você está cercado".
Reston apertou o cano da arma na cabeça da garota desesperado, eu tenho a refém, eles não podem, eles tem
que me deixar ir -
"Eu vou matá-la!". Ele recuou de novo, indo para a ante-sala do programa de teste, a garota forçando para ficar
de pé.
"E depois nós matamos você". John disse, sem um pingo de mentira em sua voz. "Se você machucá-la, nós
vamos te machucar. Solte-a e nós vamos embora".
Reston alcançou a porta de metal e apertou o botão que destrancava a porta da Fase Um.
"Você não quer que eu acredite nisso". Ele sorriu assim que a porta subiu; só restava um Dac vivo e havia
deixado as jaulas abertas - eu posso subir, ainda posso fugir deles, não é tarde demais!
Naquele segundo, a porta do bloco das celas abriu e os outros dois apareceram - entre Reston e os outros dois, e
agiu antes de pensar, aproveitando a chance.
Reston empurrou a garota, com força, jogando-a contra os quatro e pulando à esquerda no mesmo instante,
acertando a porta com o ombro. A porta para a Um abriu e ele passou, fechando-a. Havia uma trava e ele a
acionou, o metal soando como música.
Quanto mais longe das clareiras mais seguro estaria. Eles não podiam tocá-lo.
Fortes mãos a seguraram antes de cair no chão - e podia respirar de novo - e John e Leon estavam vivos... o
alívio era um oceano de calor crescendo nela, fazendo-a se sentir ainda mais fraca. O sufocamento prolongado
tirou quase toda a pouca força que ainda tinha. E pensar nisso fez suas duas pernas carregarem algo como a
morte; como cocô no biscoito; costumava dizer isso quando criança...
Claire a segurou - eram as fortes mãos de Claire - e todos se juntaram entorno dela, John a levantando
facilmente.
Rebecca fechou os olhos, relaxando na exaustão.
"Você está bem?". David perguntou, e ela acenou, aliviada e feliz por estarem juntos de novo, por ninguém ter se
ferido -
- ninguém exceto eu -
- e sabia que quando puder descansar, ficaria bem.
"Nós temos que sair daqui, agora. Leon disse, uma urgência em sua voz que fez Rebecca abrir os olhos, a
confortante sonolência sumindo instantaneamente.
"O que foi?". David perguntou, sua voz aguda.
John virou e começou a carregá-la pelo corredor rapidamente, chamando por sobre os ombros. "Nós dizemos na
subida, mas temos que ir o mais rápido possível, sem brincadeira".
"John?". Ela disse, e ele olhou para baixo, dando um sorriso, seus olhos escuros contando uma história diferente.
"Nós ficaremos bem,". Ele disse. "é só relaxar e começar a inventar histórias sobre seu ferimentos de guerra para
nós".
Ela nunca o viu tão inseguro. Ela começou a dizer que os ferimentos não a tinham deixado burra -
- quando um tremendo barulho veio de algum lugar à frente, um som como paredes sendo quebradas, como
vidro explodindo, como um touro numa loja chinesa -
- e John virou, correndo por onde vieram - não conseguia ver, mas ouviu o forte suspiro de Claire, ouviu David
dizer desacreditado, "Ah, meu Deus", e sentiu seu coração parar de bater com medo.
Algo muito ruim estava vindo.
[23]
Droga, não estamos rápido o bastante -
Numa nuvem de poeira e entulho, concreto e gesso, Fóssil bateu na parede da frente do elevador como a visão
do inferno. Seu focinho e mãos estavam vermelhos, espirros da violenta cor sobre o adoentado branco de sua
pele, seu gigante corpo enchendo o corredor.
"Clip!". Leon gritou, sem tirar o olhar do assombroso monstro, ainda a uns trinta metros à frente deles e não
longe o bastante. Ele ejetou o clip vazio de sua H&K, sem saber que Claire havia lhe dado um cheio enquanto
Fóssil dava um passo até eles -
- e David estava disparando a M-16, o estouro das balas no longo corredor, Fóssil dando outro longo passo
enquanto Leon carregava a arma. De repente John estava ao seu lado, pegando um clip para a metralhadora
com David, Claire do outro lado de David, os quatro mirando na criatura.
Leon achou o olho direito do monstro e apertou o gatilho, o som da 9mm perdido no meio do tiroteio, todos
atirando -
- bambambam, os sons se misturaram, ensurdecendo, Fóssil entortando a cabeça como se estivesse curioso,
dando outro passo contra a parede de balas.
"Recuem!". David gritou, e Leon recuou um passo, horrorizado pela falta de ferimentos de Fóssil. Se estava
doendo, não dava para ver, mas era tudo o que tinham. Ele tentou os olhos de novo -
- e ouviu Claire gritar algo, virando e vendo que ela tinha uma granada e a estava entregando à David.
"Vai, vai, vai!". David gritou, e John puxou o braço de Leon e ambos correram, Claire os guiando, Leon rezando
para estarem longe o bastante e não serem pegos pelos estilhaços de metal quente.
Claire correu, aterrorizada, nunca tinha visto algo assim. Um pesadelo branco manchado de vermelho, um sorriso
curvo com afiados dentes, e suas mãos, dedos longos e vermelhos -
- o que é ele, como é -
"Atire no buraco!". David gritou, e Claire pulou, tentando voar, vendo naquele segundo o rosto pálido e cansado
de Rebecca, a garota se jogando na parede de trás ainda a trinta metros de distância -
- e BOOM, ela estava voando, John à sua direita, um quente corpo caindo em suas costas - e todos caíram no
chão, Claire tentando cair sobre o ombro, mas aterrissou forte sobre o braço.
Ai ai ai!
David tinha se jogado nela, ou de propósito ou pela explosão, e quando sentou e virou, o achou franzindo de dor.
Ela viu dois, três pedaços escuros de metal fincados em suas costas, atravessando a vestimenta especial, e foi
ajudá-lo -
- e viu o monstro ainda de pé. Esfregando o peito e a barriga, as marcas escuras dos fragmentos. Algumas
lascas furaram sua carne - mas era difícil dizer com seu silêncio - e não parecia bravo do modo como deu outro
passo. Ele abriu a boca, sua pesada mandíbula de lagarto - expondo fiapos de uma carne desconhecida em seus
dentes. Silenciosamente, ele deu outro passo, sorrindo, e Claire imaginou que podia sentir seu hálito de carne ou
seja lá o que estava apodrecendo dentro dele -
Caia fora daí!
Ela se levantou, ignorando a dor em seu braço, abaixando para pegar a mão estendida de David e puxá-lo. No
segundo em que ele se levantou, ela apontou sua 9mm e começou a atirar de novo, sabendo que não era
suficiente, não sabendo mais o que fazer.
Quatro ferimentos, todos nas costas, todos queimando. David soprou o ar por entre os dentes, considerando a
dor suportável e a deixando de lado. O monstro não tinha caído, podia ter ficado mais lento, mas não estava
parando, e não tinham nada pior para jogar além de tudo o que já tinham tentado.
Corram, nós teremos que correr -
Mesmo enquanto pensava, ele estava abrindo a boca para gritar, para ser ouvido por John, Leon e Claire
enquanto esvaziavam suas armas, as balas tão inúteis quanto a granada.
"John, pegue Rebecca! Recuem, nós não podemos com ele!".
John já foi, Leon e Claire deslizando para trás e atirando - com a pequena esperança de que pudessem causar
algum dano, que uma das balas pudesse acertar alguma coisa que doesse.
"David, nós podemos entrar na área de teste, aço reforçado!". John gritou e David não estava certo do que eles
estavam falando, entendendo apenas "aço reforçado". Provavelmente não seria suficiente, mas os daria algum
tempo para bolar um plano.
"Faça isso!". David gritou, e o monstro deu dois, três passos, aparentemente sem se preocupar em hesitar.
Naquela velocidade, estaria neles em alguns segundos.
"Corram atrás de John!". Ele gritou, e deu a Leon e Claire um segundo de cobertura antes de virar e seguí-los.
Aço, aço reforçado - um pensamento que pulava em sua mente enquanto corria, Claire e Leon fazendo a curva,
a quina passando por ele enquanto via Rebecca e John na sala no fim do corredor. A sala para onde o maluco
tinha ido.
"David, aperte os botões, feche a porta!". John gritou e David viu os controles, as pequenas luzes sobre os
botões circulares, e foi até eles, ainda correndo.
Claire e Leon estavam dentro. David esticou os braços e socou o maior dos botões, esperando que fosse o certo
-
- e entrou na sala enquanto a placa de metal guilhotinava o ar logo atrás, perto o bastante para senti-lo em seu
pescoço.
Ele girou a tempo de ver o branco corpo da criatura acertar a porta, seu peito pressionando contra a grossa
janela de vidro. A porta tremeu e David viu que não duraria muito tempo.
Agüente por favor, só um minuto -
Ele virou, viu Leon na porta menor da parede sul, viu terror em seus olhos, a cor tinha abandonado seu rosto,
sua trêmula mão na maçaneta.
"Trancada". Ele disse, e lá fora o monstro batia na porta outra vez..
Reston ouviu o barulho quando estava pensando em como subir na jaula dos Av. A abertura estava a três
metros e meio do chão e não havia escada. A árvore mais próxima estava a uns dois metros, impossível - a
única saída era por onde veio, e não ousaria voltar para o corredor principal. Ele já tinha se convencido a subir na
árvore e tentar o pulo quando ouviu as batidas ecoarem da Fase Dois.
Reston andou até a porta de conexão, curioso apesar do medo. As fases eram muito bem protegidas
acusticamente; um barulho como aquele só poderia ter sido de uma bomba ou de uma equipe de demolição...
.. então é uma bomba. Eles implantaram explosivos, aqueles monstros.
Reston esperou na porta por um momento e não ouviu mais nada. O Dac solitário deu um berro em algum lugar
da câmara, aparentemente abatido com a perda de seus irmãos; ele não tentou atacar.
Explosivos...
A Fase Dois estava diretamente atrás da sala de controle, uma parede duas vezes mais grossa entre elas, o que
nos leva a crer que os renegados explodiram o centro de controle, a mais importante - e mais cara - sala do
Planeta. Não havia alvo melhor; o complexo é praticamente inútil sem a sala de controle.
Talvez me arranjaram outra saída...
Reston não faria apostas sobre os mercenários bárbaros terem finalmente ido embora, deixando os restos do
Planeta para trás -
- e se foram...?
Se foram, ele conseguirá sair. Talvez não só do Planeta mas da White Umbrella também. Ele estava certo de que
Jackson o mataria pelo que aconteceu... mas não se Reston desaparecesse.
Algumas centenas de milhares para Hawkinson, uma carona para um lugar seguro...
Podia funcionar se estimasse o tempo certo, mudasse de nome, identidade, e fosse para longe, bem longe.
Funcionaria, sim.
Acenando para si mesmo, ele abriu a porta da Dois, incerto sobre o que esperar - e ainda assim foi uma surpresa
ver os enormes buracos em duas da paredes do deserto, o cimento, madeira e aço em pedaços; cada buraco
tinha pelo menos três metros de largura por seis de altura. Ele não viu fumaça e imaginou que os sabotadores
usaram algum tipo de composto ultra-moderno, algum material que gentinha como aquela sempre tinha acesso.
O calor ainda era forte apesar das luzes, porém mais fresco com a nova ventilação - apesar de ter escutado por
longos segundos, não ouviu nada que indicasse a presença deles. A não ser que fosse alguma armadilha...
Reston balançou a cabeça, impressionado com a própria paranóia. Agora que decidiu ser livre e abandonar as
ruínas de sua vida, sentiu um tipo de elevação. Uma sensação de novas possibilidades, um renascimento. Eles se
foram, completaram a missão, arrasaram o Planeta. Reston andou pela quente areia, pulando pedaços de Scorps
espalhados, finalmente subindo na duna para espiar o buraco.
Meu deus, eles conseguiram destruir tudo!
A destruição foi quase total, o buraco quase exatamente onde a parede dos monitores estava. Vidro, arames e
circuitos, um leve cheiro de ozônio - foi tudo o que sobrou do brilhantemente projetado sistema de retorno de
vídeo.
Quatro das cadeiras de couro foram arrancadas do chão, a mesa de mármore única partida em dois - e no canto
nordeste da sala havia outro gigante buraco cercado de destroços.
E através daquele buraco...
Reston podia ver o elevador. Funcionando, as luzes acesas e a plataforma no ponto.
Foi uma armadilha? Parecia bom demais para ser verdade - mas então ouviu uma distante pancada, em algum
lugar perto do bloco das celas, e pensou na sorte estar finalmente consigo; os empregados se foram e esse som
devia ser dos S.T.A.R.S.. Longe o bastante para estar a meio caminho da superfície antes que pudessem voltar.
Reston sorriu, maravilhado por terminar assim; parecia tão anticlimático, tão mundano...
.. e eu estou reclamando? Não, nada de reclamações. Não de minha parte.
Reston cruzou o buraco, andando com cuidado para evitar os cacos de vidro.
A batalha com a comida o deixou com fome, o deixou ansioso; a parede na frente de Fóssil o deixando mais
empolgado para comer. Ele golpeou o forte obstáculo, sentindo o material ceder, ficar menos rígido -
- e apesar de não levar muito tempo para pegar os animais, Fóssil sentiu de repente o cheiro de comida nova. No
caminho por onde veio, comida livre e exposta, nada entre ela e Fóssil.
Ele voltará assim que a tiver comido. Fóssil virou e correu, faminto e querendo, determinado a comê-la antes que
fugisse.
Assim que Fóssil virou e correu, John começou a chutar a porta de aço, percebendo que era a única chance. A
incrível pancada que o monstro havia dado a deixou fraca, o grosso metal metade fora dos trilhos.
Claire e Leon começaram a chutar. Em segundos, eles a jogaram longe o bastante dos dentes de metal e acabou
caindo no chão - e segundos depois disso, eles estavam correndo para o elevador, David carregando Rebecca e
todos quietos. Fóssil voltaria, todos sabiam e não teriam chance contra ele.
"NÃO! NÃO! NÃO!".
Um homem estava gritando e quando John fez a curva, viu que era Reston, viu que estava correndo pelo longo
corredor, Fóssil se aproximando rapidamente.
Eles correram, John imaginando quanto tempo levaria para o monstro comer um ser humano inteiro. E quando
alcançaram o elevador, cruzaram as portas e Leon puxou a grade -
- todos ouviram o lamentável grito se elevar a uma intensidade sobrenatural - e parar de repente, interrompido
por um pesado e molhado som de esmagamento.
O elevador começou a subir.
[24]
Rebecca estava adormecida, o som do elevador tão calmo quanto o coração de David. Cansada como estava,
ela levantou uma incrivelmente pesada mão até o fino e preto livro preso no cinto de sua calça. Reston nem tinha
percebido, aparentemente não sabia que podia fingir um tropeço tão bem.
Ela pensou em dizer aos outros, em quebrar o silêncio no elevador para dá-los a notícia, mas achou melhor
esperar; eles mereciam a agradável surpresa.
Rebecca fechou os olhos, descansando. Eles ainda tinham um longo caminho, mas o quadro estava mudando; a
Umbrella iria pagar por seus crimes. E eles cuidariam disso.
[Epílogo]
Com John e David segurando a jovem Rebecca, e Leon e Claire sorrindo um para o outro como namorados, os
cinco exaustos soldados saíram da tela para a gentil manhã de Utah...
Suspirando, Trent reclinou em sua cadeira, girando ansiosamente seu anel de ônix. Ele esperava que tirassem um
ou dois dias de descanso antes da próxima grande batalha... talvez a última; eles mereciam um pouco de
descanso depois de tudo o que fizeram. Caso sobrevivessem ao que está por vir, ele terá que recompensá-los
amplamente.
Considerando que eu ainda estarei na posição de dar presentes...
Ele certamente estará. Quando, e se Jackson e os outros descobrirem o que realmente estava fazendo, ele terá
que desaparecer - mas haviam meia dúzia de identidades irrastreáveis que poderia escolher em qualquer canto do
mundo, cada uma delas extremamente bem remuneradas. E a White Umbrella não tinha condições de localizá-lo.
É verdadde que eles tinham poder e dinheiro, mas simplesmente não eram espertos o bastante.
E eu já vim até aqui?
Trent suspirou de novo, lembrando para não pensar com maldosa satisfação, pelo menos ainda não. Não valeria
a pena ser super confiável, ele sabia; homens melhores que os dele já morreram nas mãos da Umbrella. De
qualquer forma, ou Trent ou eles estariam mortos. E fim do problema, de um modo ou de outro.
Ele se levantou, esticando os braços sobre a cabeça e balançando os ombros para tirar a tensão; o satélite
"pirata" o permitiu ver e ouvir quase tudo e foi um noite longa e movimentada. Algumas horas de sono era tudo o
que precisava. Ele planejou ficar isolado até meio-dia, mas teria que ligar para Sidney - e o velho bebedor de chá
já devia estar agitado a essa hora, junto com os outros. Os misteriosos serviços do Sr. Trent seriam investigados
em breve, e ele teria que pegar o próximo avião; por mais que quisesse ver Hawkinson voltar e tentar derrubar
Fóssil, Trent precisava dormir mais.
Trent desligou os monitores e saiu de sua sala de operações - uma sala de estar com alguns caros ajustes - e foi
para a cozinha, que era uma cozinha normal.
A pequena casa no interior de Nova York era seu esconderijo além de lar; era dali que conduzia a maior parte de
seu trabalho. Não o grandioso e intrigante trabalho que fazia na White Umbrella, mas, sim, seu verdadeiro
trabalho. Se alguém investigasse o lugar, descobriria que a casa Vitoriana de três dormitórios pertencia a uma
velha senhora chamada Helen Black. Uma piada das suas.
Trent abriu a geladeira e tirou uma garrafa de água mineral, pensando em como Reston ficou em seu último
momento, olhando para face de sua própria morte. Adorável trabalho, esse, usando Fóssil contra ele; foi
realmente uma pena em relação a Cole. O homem teria sido uma adição para a pequena, porém crescente
resistência.
Levando a água escada acima, Trent usou o banheiro e depois andou pelo curto corredor, pensando no tempo
que ainda tinha. Nas primeiras semanas de contato com a White Umbrella, ele meio que esperava ser chamado à
sala de Jackson e levar um tiro sumariamente. Mas as semanas viraram meses e não recebeu um suspiro de
dúvida - de ninguém.
Em seu quarto, ele separou as roupas para o vôo e se despiu, decidindo que faria as malas enquanto tomava o
café, depois de ligar para Sidney. Apagando a luz, Trent sentou-se na cama por um momento, tomando um gole
da garrafa de água, repassando seus meticulosos planos para a próxima semana. Ele estava cansado, mas o
objetivo de sua vida estava finalmente sendo alcançado; não era tão fácil pegar no sono quando se estava a um
passo de culminar três décadas de planejamento e sonhos, de um desejo guardado por tanto tempo que o havia
transformado no que era...
A reta final, pensou. Ainda havia várias coisas que precisavam acontecer antes de acabar, e a maioria delas
tinham a ver com o quanto bem seus rebeldes haviam se saído. Ele tinha fé neles, mas sempre havia chance de
falharem - e na qual teria que começar tudo de novo. Não do zero, mas seria uma difícil retomada.
Eventualmente...
Trent sorriu, colocando a água no criado mudo e deslizando sob o cobertor. Eventualmente, o mal da White
Umbrella seria exposto ao clarear do dia. Matar os jogadores seria fácil, mas não ficaria satisfeito; ele queria vê-los
destruídos, financeira e emocionalmente, suas vidas tiradas em todos os sentidos. E quando esse dia chegar,
quando os líderes terminarem de ver seu preciosos esforços virando cinzas, ele estaria lá. Estaria lá para dançar
no cemitério de seus sonhos. E seria um belo dia.
Trent repassou seu discurso mentalmente, o discurso que ensaiou durante toda a vida para aquele dia. Jackson e
Sidney teriam que estar lá, tal como os "garotos" europeus e os financiadores do Japão, Mikami e Kamiya. Todos
eles sabiam da verdade, todos foram co-conspiradores na traição...
Eu estou de pé na frente deles, sorrindo, e aí digo. "Um pouco de história, caso tenham se esquecido".
"No começo da história da Umbrella - antes de haver algo como a White Umbrella - havia um cientista chamado
James Darius. Dr. Darius era um ético e comprometido microbiologista que, ao lado de sua amada esposa Helen -
uma doutora em farmacologia - gastou incontáveis horas desenvolvendo uma síntese reparadora de tecidos para
seus empregadores, um que James havia criado sozinho. Esta síntese que ocupou tanto o tempo de Darius, era
um complexo viral brilhantemente projetado que - se bem desenvolvido - tinha o potencial de reduzir incrivelmente
o sofrimento humano, podendo evitar a morte por sofrimento traumático um dia antes.
Ambos James e Helen tinham as maiores esperanças por seu trabalho - e eram tão responsáveis, tão leais e
confiantes que imediatamente foram à Umbrella, assim que perceberam o potencial do que estavam criando. E a
Umbrella Inc. também percebeu o potencial. Mas o que ela viu foi um afogamento financeiro caso esse milagre
fosse realizado. Imagine todo o dinheiro que uma companhia farmacêutica poderia perder se milhões de pessoas
parassem de morrer todo ano; então imagine o dinheiro que poderia ser feito com esse complexo viral para fins
militares. Imagine o poder.
Com incentivos assim, a Umbrella realmente não teve escolha. Ela tirou a síntese de Darius, levou as anotações e
pesquisa entregando tudo a um jovem e brilhante cientista chamado William Birkin, recém saído da adolescência e
já chefe de seu próprio laboratório. Birkin era um deles, veja. Um homem com a mesma visão, a mesma falta de
moral, um homem que podiam usar. E com sua própria marionete no lugar, eles perceberam que ter o bom Dr.
Darius por perto seria um inconveniente.
Então houve um incêndio. Um acidente; foi o que disseram, uma terrível tragédia - dois cientistas e três leais
assistentes carbonizados. Tão ruim, tão triste, caso encerrado - e assim surgiu a divisão da Umbrella chamada
White Umbrella. Pesquisa com armas biológicas. Um parque de diversões para os ricos sujos e seu bajuladores,
para homens que perderam qualquer coisa que lembrasse uma consciência há muito, muito tempo". Eu sorrio de
novo. "Por homens como vocês".
"A White Umbrella pensou em tudo, ou assim acreditavam. O que não consideraram - ou por terem pouca visão
ou por serem ignorantemente desligados - foi que o jovem filho de James e Helen, seu único filho, estava
estudando num internato enquanto seus pais eram queimados vivos. Talvez simplesmente esqueceram dele. Mas
Victor Darius não esqueceu. De fato, Victor cresceu pensando no que a Umbrella tinha feito, ou devo dizer
obcecado por isso. Chegou um tempo em que Victor não pensava em outra coisa. Foi quando decidiu fazer
alguma coisa.
"Para vingar seu pai e sua mãe, Victor Darius sabia que deveria ser extremamente engenhosos e muito, muito
cuidadoso. Desse modo, passou anos planejando. Anos aprendendo o que precisava e ainda mais, fazendo
contatos certos e movendo-se nos círculos certos, sendo mais solitário e secreto que seu inimigo. E um dia ele
assassinaria a Umbrella do mesmo jeito que assassinaram seus pais. Não era fácil, mas estava determinado, e
devotou sua vida inteira para o projeto".
Eu sorrio e digo. "Ah, e eu não mencionei que Victor Darius mudou de nome? Seria arriscado, mas decidiu usar o
nome do meio de seu pai, ou pelo menos parte dele. James Trenton Darius não o estava mais usando mesmo".
O discurso sempre mudava um pouco, mas o essencial permanecia o mesmo. Trent sabia que nunca conseguiria
se pronunciar para todos de uma vez, mas era a idéia que o fazia continuar, todos esses anos. Nas noites
quando estava tão enraivecido que não conseguia dormir, recontar essa história virou uma espécie de canção de
ninar; ele imaginava os olhares em suas cansadas e velhas faces, o terror em seus caídos olhos, a trêmula
indignação por sua traição. De alguma forma, a visão sempre amenizava sua fúria e o dava uma pequena paz.
Em breve. Depois da Europa, meus amigos...
O pensamento o guiou para a escuridão, para o doce e ausente de sonhos sono dos justos.
***
Resident Evil: Underworld
[www.fyfre.com]
Autora: Stephani Danelle Perry.
Editora: Pocket Books (U.S.A.)
Tradução: Raphael Lima Vicente
Revisão: Monnie "Red Queen"
Tradução começada em: 25 de Dezembro de 2002.
Tradução terminada em: 28 de Dezembro de 2003.
Resident Evil TM & © 1999
Capcom Co., Ltd
© 1999 Capcom U.S.A., Inc. Resident Evil #5 Nemesis - Traduzido por: www.fyfre.com
Resident Evil #5 NEMESIS
S.D. Perry
[Créditos - www.fyfre.com]
Esta tradução é conteúdo exclusivo do F.Y.F.R.E. e não deve ser copiado sem permissão da equipe do site.
Para isso, mande-nos um e-mail [team@fyfre.com].
O F.Y.F.R.E. é pioneiro nas traduções dos livros da série, e nosso trabalho já completa quase cinco anos.
Infelizmente, várias pessoas estão se utilizando de nosso árduo trabalho para ganhar dinheiro e enganar fãs
desinformados, fazendo-os comprar as traduções por um alto preço, sendo que elas podem ser lidas
gratuitamente aqui no no site. Estamos cansados de tentar tomar providências, e o único meio que temos agora
de informar do nosso trabalho de tradução é avisar no nosso próprio site. Por várias vezes, pensamos
seriamente em retirar as traduções do site, devido a tanta polêmica, mas não seria justo para com os fãs.
[Prólogo]
Carlos tinha acabado de desligar o chuveiro quando o telefone tocou. Ele enrolou a toalha na cintura e correu
pela bagunçada sala de estar. Com tanta pressa em atender ao telefone quase tropeçou numa caixa de livros
ainda fechada; ele ainda não teve tempo de achar uma secretária eletrônica desde que se mudou para a cidade,
e apenas a nova base tinha seu número. Não valeria a pena perdeu nenhuma ligação, principalmente por ser a
Umbrella que pagava suas contas.
Ele puxou o gancho com a mão ensopada e tentou não parecer sem fôlego.
"Alô?".
"Carlos, aqui é Mitch Hirami".
Inconscientemente, Carlos ergueu um pouco sua postura, ainda segurando a úmida toalha. "Sim, senhor".
Hirami era seu líder de esquadrão. Carlos só o encontrou duas vezes, pouco tempo para ter uma sólida leitura
dele, mas parecia competente o bastante - tal como os outros caras do esquadrão.
Competente, se não for apenas a fachada... Como Carlos, ninguém falava muito sobre o passado, apesar de
saber que Hirami esteve envolvido em contrabando de armas na América do Sul alguns anos atrás, antes de ter
começado a trabalhar para a Umbrella. Parecia que todos que conheceu na U.B.C.S. tinham um ou dois
segredos - a maioria envolvendo atividades não necessariamente legais.
"Ordens acabaram de chegar sobre uma situação em andamento. Estamos convocando todos o mais rápido
possível. Você tem uma hora para se apresentar, e partiremos em duas, isso será às 15:00h, *comprende?".
"Si - é, sim, senhor". Carlos é fluente em inglês há anos, mas ainda estava se acostumando a falar
integralmente. "Há alguma informação sobre o tipo de situação?".
"Negativo. Você será informado junto com o resto de nós assim que chegar".
O tom de voz de Hirami sugeria que tinha mais a dizer. Carlos esperou, começando a sentir frio com a água
secando em seu corpo.
"Diz se tratar de algum vazamento químico". Hirami disse, e Carlos pensou ter ouvido um pouco de insegurança
em sua voz. "Algo que está fazendo pessoas... fazendo-as agir diferente?".
Carlos franziu. "Diferente como?".
Hirami suspirou. "Você não é pago para fazer perguntas, Oliveira, certo? Agora você sabe tanto quanto eu.
Apenas venha para cá".
"Sim, senhor". Carlos disse, mas Hirami já tinha desligado.
Carlos colocou o telefone no gancho, incerto se deveria sentir-se animado ou preocupado com sua primeira
1
Resident Evil #5 Nemesis - Traduzido por: www.fyfre.com
missão na U.B.C.S. *Umbrella Bio-hazard Coutermeasure Service: um impressionante título para um grupo de
ex-mercenários e ex-militares, a maioria com experiência em combate e passados obscuros. O alistador em
*Honduras disse que seriam chamados para "lidar" com situações em que a Umbrella precisasse de uma ação
rápida e agressiva - e dentro da lei. Depois de três anos lutando em pequenas guerras particulares entre
gangues rivais e revolucionárias, de vida em barracas cheias de lama e comendo de latas, a promessa de um
emprego de verdade - e com um excelente salário - foi como uma prece atendida.
Bom demais para ser verdade, foi o que pensei... e se eu descobrir que estava certo?
Carlos balançou a cabeça. Ele não descobriria nada se ficasse parado enrolado numa toalha. Mesmo assim, não
deve ser pior do que se atirar numa floresta desconhecida com um bando de pendejos drogados, imaginando se
ouviria a bala que o acertaria.
Ele tinha uma hora e levava vinte minutos a pé até a base. Ele virou-se para o quarto, de repente determinado a
chegar lá mais cedo, para ver se conseguia tirar mais alguma coisa de Hirami. Ele já conseguia sentir a quente e
nervosa adrenalina em sua barriga, uma sensação com a qual crescera e conhecia melhor do que qualquer
outra - metade antecipação, metade excitação, e uma alta dose de medo...
Carlos sorriu enquanto tirava a toalha, impressionado consigo. Ele tinha passado muito tempo na selva. Agora
ele estava nos Estados Unidos, trabalhando para uma legítima companhia farmacêutica - não há nada para
temer, certo?
"Nada". Ele disse, e ainda sorrindo, foi procurar suas roupas.
Final de Setembro nos limites da cidade grande; era um dia ensolarado, mas Carlos já sentia os primeiros
suspiros de outono enquanto se apressava para a base, um tipo de ar ficando menos denso, folhas começando
a cair dos galhos acima. Não que houvesse muitas árvores; seu apartamento ficava em volta de uma grande
área industrial - algumas fábricas sombrias, terrenos cercados com grama alta, acres cheios de galpões para
depósito. A base da U.B.C.S. era na verdade um galpão reformado num terreno pertencente a Umbrella,
circundado por um moderno complexo portuário, completo com docas de carregamento e heliporto - bem
estruturado, apesar de Carlos imaginar porque foi construído numa área tão decadente. Eles podiam bancar
coisa melhor.
Carlos checou o relógio enquanto subia a Rua Everett, e passou a andar mais rápido. Ele não estava atrasado,
mas ainda queria chegar antes da reunião, ver o que os outros estavam comentando. Hirami disse que todos
estavam sendo convocados - quatro pelotões, três esquadrões de dez em cada pelotão, 120 pessoas no total.
Carlos era soldado do esquadrão A do pelotão D; ridículo como essas coisas eram planejadas, mas ele achava
ser necessário para ter todos à vista. Alguém deve saber algo...
Ele virou à direita onde a Everett cruzava com a 374th, seus pensamentos viajando, vagamente curioso para
saber onde iriam -
- quando um homem saiu de um beco alguns metros à sua frente, um estranho bem vestido sorrindo
largamente. Ele ficou lá parado, de mãos enfiadas nos bolsos de seu sobretudo, aparentemente esperando
Carlos alcançá-lo.
Carlos manteve suas expressões cuidadosa-mente neutras, estudando o homem com cautela. Alto, magro,
cabelos e olhos escuros, definitivamente caucasiano, na faixa dos quarenta anos - e sorrindo como se quisesse
contar uma piada excepcionalmente engraçada.
Carlos preparou-se para ultrapassá-lo, lembrando-se de quantos malucos viviam numa cidade de médio porte,
um inevitável risco da vida urbana.
Ele provavelmente quer me contar sobre os alienígenas monitorando suas ondas cerebrais, ou talvez contar
alguma teoria de conspiração -
"Carlos Oliveira?". O homem perguntou, mais uma afirmação do que uma pergunta.
Carlos parou, seu corpo inteiro tencionando, instintivamente derrubando a mão para onde guardava uma arma -
só que ele não carregava uma desde que cruzou a fronteira, carajo -
Como se sentisse a preocupação que causou, o estranho recuou um pouco, erguendo as mãos para o alto. Ele
parecia impressionado, mas não especialmente ameaçador.
"Quem pergunta?". Carlos perguntou. E como ele sabe o meu nome?
"Meu nome é Trent, Sr. Oliveira". Ele disse, seu escuro olhar brilhando com uma alegria mau contida. "E eu
2
Resident Evil #5 Nemesis - Traduzido por: www.fyfre.com
tenho algumas informações para você".
____________________
*Comprende - Algumas palavras no decorrer do texto estão em Espanhol.
*U.B.C.S. - Serviço de contramedidas com risco biológico da Umbrella.
*Honduras - País da América Central.
____________________
[1]
No sonho, Jill não correu rápido o bastante.
Era o mesmo sonho que ela teve todos os dias desde a missão que quase matou todos naquela terrível e
interminável noite de Julho. Foi na época em que alguns cidadãos de Raccoon foram feridos pelo segredo da
Umbrella, em que a administração do S.T.A.R.S. não era totalmente corrupta, na época em que ela ainda era
burra o bastante para achar que as pessoas acreditariam em sua história.
No sonho, ela e os outros sobreviventes - Chris, Barry e Rebecca - esperavam ansiosamente pelo resgate no
heliporto do laboratório secreto, todos exaustos, feridos e muito cientes de que as construções em volta e abaixo
iriam se auto-destruir. Estava amanhecendo, uma fria luz surgindo em raios por entre as árvores que
circundavam a mansão de Spencer, o silêncio quebrado somente pelo bem vindo som do helicóptero se
aproximando... seis membros do S.T.A.R.S. estavam mortos, levados por humanas e inumanas criaturas que
vagavam pelo complexo, e se Brad não pousasse logo, não haveria sobreviventes. O laboratório iria explodir,
destruindo as provas do vazamento do T-virus da Umbrella e matando a todos.
Chris e Barry balançavam os braços, tentando apressar Brad. Jill olhou no relógio, enjoada, sua mente ainda
tentando entender tudo o que havia acontecido, tentando organizar tudo. Umbrella Pharmaceutical, a única e
maior contribuinte para a prosperidade de Raccoon City e uma das maiores forças corporativas do mundo, criou
monstros secretamente em nome de pesquisas com armas biológicas - e brincando com fogo, eles acabaram se
queimando bastante.
Isso não importava mais, tudo que importava era fugir de lá -
- e nós temos três minutos, quatro no máximo -
CRASH!
Jill olhou em volta, viu pedaços de concreto voarem e choverem pelo ar sobre o canto noroeste do heliporto.
Uma garra gigante se esticou para fora do buraco, se apoiando na rasgada fenda -
- e o pálido e desajeitado monstro, aquele que Barry e ela tentaram matar no laboratório, o Tyrant, saltou para o
heliporto. Ele ergueu-se de seu ágil agachar... e foi na direção deles.
Era abominável, pelo menos dois metros e meio de altura, já foi humano, talvez, e agora não era mais. Sua mão
direita, normal. A esquerda, um massivo e quitinoso conjunto de garras. Seu rosto tinha sido terrivelmente
alterado, seus lábios foram cortados parecendo estar sorrindo para ele através do tecido vermelho. Seu corpo nu
não tinha sexo, o grosso e vermelho tumor que era seu coração batia molhado fora de seu peito.
Chris mirou no pulsante músculo com a Beretta e atirou, cinco balas de 9mm penetrando em sua cadavérica
carne; o Tyrant nem diminuiu o ritmo. Barry gritou para se espalharem, e já estavam correndo, Jill puxando
Rebecca, o trovão da .357 de Barry estourando atrás delas. Acima, o helicóptero circulava e Jill podia sentir os
segundos indo embora, quase acreditou ter sentido a explosão da construção sob seus pés.
Ela e Rebecca sacaram suas armas e começaram a atirar. Jill continuou a apertar o gatilho mesmo enquanto via
a criatura levar Barry ao chão, investindo rapidamente enquanto ia atrás de Chris, atirando e gritando, envolvida
por um crescente terror, por que ele não morre?
Lá de cima, um grito, e algo caiu do helicóptero. Chris correu para o objeto, e Jill não viu mais nada - nada além
de Tyrant enquanto voltava sua atenção para ela e Rebecca, indiferente para com os tiros que continuavam
abrindo buracos sangrentos em seu estranho corpo. Jill virou e correu, viu a garota fazer o mesmo, e sabia -
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Resident Evil #5 Nemesis - Traduzido por: www.fyfre.com
sabia - que o monstro estava atrás dela, o rosto de Jill Valentine gravado no cérebro de lagarto.
Jill correu, correu, e de repente não havia heliporto, nem mansão, só um milhão de árvores e os sons: suas
botas batendo na terra, o pulsar de sangue em seus ouvidos, sua respiração agitada. O monstro estava quieto
atrás dela, uma calada e terrível força, implacável e tão inevitável quanto a morte.
Eles estavam mortos, Chris e Barry, Rebecca, e até mesmo Brad, ela sabia, todos menos ela - e enquanto
corria, ela viu a sombra de Tyrant erguer-se à sua frente, sobrepondo a sua própria, e o vultuoso som de suas
monstruosas garras descendo, fundindo-se com seu corpo, matando-a, não -
Não -
"Não!".
Jill abriu os olhos, a palavra ainda em seus lábios, o único som na quietude de seu quarto. Não foi o grito que
imaginava, e sim um fraco e engasgado choro de uma mulher sentenciada, pega pelo pesadelo do qual não
havia saída.
No qual estou. Nenhum de nós foi rápido o bastante.
Ela ficou parada por um momento, respirando profundamente, afastando a mão de sua Beretta carregada sob o
travesseiro; isso virou um reflexo, um do qual não se arrependia de ter desenvolvido.
"Exceto contra pesadelos". Ela murmurou e se sentou. Ela vem falando sozinha há dias; às vezes, ela acha que
isso é a única coisa que a deixa sã. Uma luz cinza passava pela persiana, deixando o pequeno quarto numa
sombra. O relógio digital no criado mudo ainda funcionava; ela devia estar grata por ainda haver energia elétrica
e era mais tarde do que imaginava - quase três da tarde. Ela havia dormido por mais de seis horas, foi máximo
que conseguiu nos últimos três dias. Considerando o que estava acontecendo lá fora, ela não podia deixar de se
culpar. Ela devia estar lá fora, devia estar fazendo mais para salvar aqueles que ainda podiam ser salvos...
Esqueça, você sabe muito bem. Você não pode ajudar ninguém se desistir. E aqueles que você ajudou -
Ela não ia pensar nisso agora, ainda não. Quando ela finalmente voltou para os subúrbios naquela manhã,
depois de quase quarenta e oito horas de "ajuda" sem dormir, ela ficou a beira de um colapso, forçada a encarar
a realidade do que tinha acontecido a Raccoon: a cidade estava irrecuperavelmente perdida para o T-virus ou
alguma variante dele.
Como os cientistas na mansão. Como o Tyrant.
Jill fechou os olhos, pensando sobre o sonho, sobre o que significava. Era igual aos eventos reais exceto pelo
final - Brad Vickers, o piloto da equipe Alpha do S.T.A.R.S., tinha jogado algo para fora do helicóptero, um lança
mísseis que Chris usou para explodir o Tyrant enquanto ia em sua direção. Todos eles fugiram a tempo... mas
de certo modo não importava. Com todo o bem que fizeram desde então, eles também poderiam estar mortos.
Não é nossa culpa, Jill pensou brava, ciente de que queria acreditar nisso mais do que tudo. Ninguém escutou -
a sede, nem o Chefe Irons, nem a Imprensa. Se eles tivessem ouvido, se tivessem acreditado...
Estranho como tudo isso aconteceu há apenas seis semanas; parece que foi há anos. Os oficiais da cidade e os
jornais locais aproveitaram tudo sobre a reputação do S.T.A.R.S. - seis mortos, o resto contando histórias
fantásticas sobre um laboratório secreto, sobre monstros e zumbis, e uma conspiração da Umbrella. Eles foram
suspensos e ridicularizados - mas o pior de tudo foi nada ter sido feito para prever o avanço do vírus. Ela e os
outros só puderam esperar que a destruição do local pusesse um fim no perigo imediato.
Nas semanas seguintes, tantas coisas aconteceram. Eles descobriram a verdade sobre o S.T.A.R.S., que a
Umbrella - tecnicamente a White Umbrella, a divisão encarregada de pesquisas bio-letais - estava subornando
ou chantageando membros chave pelo país a fim de continuar suas pesquisas desimpedidamente. Eles
descobriram que vários membros do conselho de Raccoon City estavam na lista de pagamento da Umbrella e
que provavelmente havia mais de um local manipulando doenças criadas pelo homem. A busca por informações
sobre Trent, o estranho que falou com ela antes da desastrosa missão dizendo ser "um amigo do S.T.A.R.S.",
não deu em nada. Porém, muitas informações interessantes sobre o Chefe Irons apareceram: parecia que o
chefe esteve envolvido em um possível estupro e que a Umbrella sabia disso e mesmo assim o ajudou a ganhar
sua posição atual. Talvez o mais difícil foi ter que se separarem, a tomar difíceis decisões sobre o que precisava
ser feito e sobre suas próprias responsabilidades para com a verdade.
Jill sorriu fracamente; a única coisa com a qual se sentia bem era que pelo menos seus amigos tinham saído
antes de tudo começar. Rebecca Chambers juntou-se com outro grupo pequeno de S.T.A.R.S. dissidentes
averiguando rumores de laboratórios da Umbrella. Brad Vickers, fiel à sua convardice natural, saiu da cidade
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para evitar a fúria da Umbrella. Chris Redfield já estava na Europa, investigando o quartel general da companhia
e esperando Barry Burton e a equipe de Rebecca se juntarem... e por Jill que ficou de investigar os escritórios
locais da Umbrella antes de se juntar com os outros.
Mas há cinco dias, algo terrível aconteceu em Raccoon. Ainda estava acontecendo, se abrindo como uma flor
venenosa, e a única esperança era esperar alguém de fora perceber.
Quando os primeiros casos foram relatados, ninguém os conectou com as histórias dos S.T.A.R.S. sobre a
mansão de Spencer. Várias pessoas foram atacadas no final da primavera e início do verão - acreditavam ser o
ato de um assassino maluco; o R.P.D. logo o prenderia. Mas a pessoas só começaram a prestar atenção
quando o Departamento Policial de Raccoon teve que armar barricadas nas estradas por ordens da Umbrella
três dias atrás. Jill não sabia como estavam conseguindo manter as pessoas longe da cidade, mas estavam -
nenhuma encomenda, nem correio e as linhas telefônicas mudas. Os cidadãos que tentavam deixar a cidade
eram mandados de volta sem saber o porquê.
Tudo parecia tão surreal, aquelas primeiras horas depois que Jill descobriu sobre os ataques e as barricadas.
Ela tinha ido até o R.P.D. procurar o Chefe Irons, mas ele se recusou a falar com ela. Jill sabia que alguns
policiais escutariam, que nem todos eram cegos ou corruptos como Irons - e mesmo com a natureza bizarra dos
ataques que tinham presenciado, ainda não estavam preparados para aceitar a verdade.
E quem os culparia?. "Escutem, policiais - a Umbrella, a empresa responsável por erguer nossa bela cidade,
vem fazendo experiências com vírus no próprio quintal. Eles vêm desenvolvendo criaturas anormais em
laboratórios secretos, aí as injetam com algo que as tornam fortes e violentas. Quando humanos são expostos a
essa coisa, tornam-se zumbis, por falta de um termo melhor. Zumbis podres, desalmados e comedores de
carne, que não sentem dor e tentam comer outras pessoas. Eles não estão totalmente mortos, mas estão quase
lá. Então, vamos trabalhar juntos, está bem? Vamos sair nas ruas e derrubar cidadãos desarmados, seus
amigos, vizinhos, caso contrário vocês serão os próximos".
Sentando na beira da cama, Jill suspirou. Ela foi um pouco mais sensível desta vez, mas não importava o quanto
soava, ainda assim era uma história maluca. Claro que ninguém acreditou nela, nem depois. Não na luz do dia e
na segurança de seus uniformes. Foi somente depois de escurecer, quando a gritaria começou...
Isso foi no dia 25 de Setembro e hoje era dia 28, e a polícia certamente estava quase toda morta; a última vez
que ouviu tiros foi... ontem? Na noite passada? Deviam ter sido os vândalos, mas não importava mais. Raccoon
estava morta exceto pelos contaminados que vagavam pelas ruas, procurando comida.
Sem dormir e com uma quase constante descarga de adrenalina, os dias passaram iguais para ela. Depois da
força policial ter sido destruída, Jill passou seu tempo procurando sobreviventes, infinitas horas andando pelos
becos, batendo em portas, vasculhando prédios atrás de refugiados. Ela achou dúzias, e com a ajuda de alguns
deles, conseguiram achar um lugar seguro, uma escola de ensino médio. Jill tinha se certificado de que estavam
seguros antes de voltar para a cidade e procurar mais.
E não encontrou ninguém. E nesta manhã, quando voltou para a escola...
Ela não quis pensar nisso, mas algo nela dizia que devia, que não devia se esquecer. Nesta manhã, ela tinha
voltado e a barricada se fora. Destruída por zumbis ou talvez derrubada pelo lado de dentro, alguém que olhou
para fora e viu um irmão, tio ou filha no meio da multidão de mortos-vivos. Alguém pensou estar salvando a vida
de um amado sem perceber que já era tarde demais.
O lugar tinha virado um matadouro, o ar impregnado com o cheiro de merda e vômito, as paredes decoradas
com grandes espirros de sangue. Jill quase desistiu, mais cansada do que nunca, incapaz de ver outra coisa
além dos corpos daqueles que foram sortudos o bastante para morrer antes que o vírus tomasse conta de seus
organismos. Enquanto andava pelos corredores quase vazios, matando alguns portadores que ainda vagavam
por lá - as pessoas que tinha encontrado, que haviam chorado de alívio quando foram encontradas algumas
horas atrás - qualquer esperança que ainda tinha se perdeu, levada pela descoberta de que tudo o que estava
fazendo era inútil. Saber a verdade sobre a Umbrella não salvou ninguém, e os cidadãos que pensou ter levado
à segurança - cerca de setenta homens, mulheres e crianças - estavam mortos.
Ela não se lembrava de como chegou em casa. Ela não vem pensando direito, e mau conseguia ver através dos
olhos inchados de tanto chorar. Fora isso, milhares morreram, era uma tragédia tão vasta que parecia
incompreensível.
Podia ter sido evitada. E era culpa da Umbrella.
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Jill puxou a Beretta debaixo do travesseiro, permitindo a si mesma sentir pela primeira vez a imensidão do que a
Umbrella tinha feito. Durante os últimos dias, ela manteve o controle de suas emoções - houve pessoas para
guiar, ajudar, e não houve espaço para nenhum sentimento pessoal.
Mas agora...
Ela estava pronta para sair de Raccoon e fazer os malditos responsáveis saberem como ela se sentia. Eles
tinham roubado sua esperança, mas não podiam impedi-la de sobreviver.
Jill engatilhou uma bala e apertou os dentes, um grito de puro ódio em seu estômago. Era hora de partir.
[2]
Eles estariam em Raccoon City em menos de uma hora.
Nicholai Ginovaef estava preparado e acreditava que sua equipe se sairia bem - melhor que os outros. Os
outros nove que compunham o esquadrão B o respeitavam; ele percebeu isso em seus olhos, e como
certamente morreriam, sua performance seria digna de uma menção. Afinal de contas, ele os tinha treinado
praticamente sozinho.
Não havia conversa no helicóptero que transportava o pelotão D pelo fim da tarde, nem entre os líderes de
equipe, os únicos que usavam fones de ouvido. Havia muito barulho para os soldados ouvirem uns aos outros, e
Nicholai não tinha nada a dizer para Hirami nem para Cryan - ou para Mikhail Victor. Victor era seu superior, o
comandante do pelotão inteiro. Era o cargo que deveria pertencer a Nicholai; Victor não tinha as qualidades que
um verdadeiro líder deveria ter.
Eu tenho. Eu fui escolhido para ser um *Watchdog, e quando tudo estiver acabado, eu serei a pessoa com a
qual Umbrella terá que lidar, quer queira ou não.
Nicholai manteve sua face como uma pedra, mas ele sorria por dentro. Quando a hora chegar, "eles", os homens
que controlavam a Umbrella, iriam descobrir que o haviam subestimado.
Ele estava sentado perto dos líderes dos esquadrões A e C contra uma parede da cabine, acalmado pelo
constante e familiar balançar da aeronave. O ar estava carregado por tensão e pesado com o cheiro de suor
masculino, também familiar. Ele já havia liderado homens para a batalha antes - e se tudo correr conforme o
planejado, jamais teria que fazê-lo de novo.
Ele deixou o olhar passear pelos apertados rostos dos soldados, imaginando se algum deles sobreviveria por
mais de uma ou duas horas. Era possível, ele achava. Tinha o assustado sul africano do grupo de Cryan... e em
sua própria equipe, John Wersbowski, que fez parte de uma lavagem étnica alguns anos atrás, Nicholai não se
lembrava qual. Ambos os homens tinham uma combinação de profundo auto-controle e suspeita que poderiam
dá-los a chance de escapar de Raccoon, apesar de difícil - e seria difícil. A reunião não tinha preparado
nenhum deles para o que estava por vir...
Já a reunião particular de Nicholai dois dias antes foi diferente; Operação Watchdog, assim chamada. Ele
conhecia os números projetados, lhe foi informado o que esperar e como eliminar a sujeira, a doença que anda,
da forma mais eficiente. Eles contaram sobre as unidades perseguidoras em forma de Tyrant que seriam
enviadas e como evitá-las. Ele sabia mais do que qualquer um ali.
Estou mais preparado do que a Umbrella pode imaginar... porque eu sei os nomes de seus "cães".
Mais uma vez, ele reprimiu um sorriso. Ele possuía informações que a Umbrella não sabia que ele tinha, isso
vale muito dinheiro - ou valerá, em breve. Como fachada, a U.B.C.S. seria enviada para resgatar civis; é o que
os soldados sabiam. Mas Nicholai era um dos dez escolhidos para coletar e registrar dados sobre os infectados
com o T-virus, humanos ou não, e como agiam contra soldados treinados - o real motivo para o envio da
U.B.C.S.. No helicóptero que levava o pelotão A, estavam outros dois, disfarçados; já havia seis em Raccoon -
três cientistas, dois funcionários e uma mulher que trabalha para a cidade. O décimo era um policial, um
assistente pessoal do chefe da polícia. Cada um deles provavelmente devia conhecer um ou dois dos outros
coletores de informações - mas graças às suas habilidades bem desenvolvidas na computação e algumas
senhas "emprestadas", Nicholai era o único que conhecia todos eles, tal como seus respectivos lugares de
arquivamento de relatórios.
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Não seria uma surpresa para os contatos caso não reportassem? Não seria impressionante se apenas um
Watchdog sobrevivesse e pudesse dar seu preço que quisesse pelas informações que conseguisse? E não seria
incrível se um homem ficasse milionário gastando apenas um pouco de esforço e algumas balas?
Nove pessoas. Ele estava há nove pessoas de ser o empregado da Umbrella que tinha as informações que
precisavam. A maioria, se não todos da U.B.C.S. morreria rapidamente, e depois estaria livre para encontrar os
outros Watchdogs, pegar seus dados e tirar suas miseráveis vidas.
Por enquanto não podia fazer nada; Nicholai sorriu. A missão promete ser excitante, um verdadeiro teste para
suas muitas habilidades... e quando acabar, ele será um homem muito rico.
Apesar do apertado assento e o abafado ruído dos motores do helicóptero, Carlos não prestava muita atenção
ao seu redor. Ele não conseguia parar de pensar em Trent e a esquisita conversa que tiveram duas horas atrás,
tentando decidir o que havia de útil nela.
Para começar, Carlos confiou no cara o máximo que conseguiu agüentar. O homem estava muito feliz; não tão
extrovertido, mas Carlos teve a definitiva impressão de que Trent ria sobre algo por debaixo do pano. Seus olhos
escuros dançavam levemente de humor enquanto dizia à Carlos que tinha informações para ele, caminhando
para o beco de onde havia saído como se Carlos não tivesse perguntas.
E realmente não tinha. Carlos tinha aprendido a ser muito cuidadoso em seu trabalho, mas também sabia
algumas coisas sobre ler as pessoas - e Trent, apesar de estranho, não foi ameaçador.
O beco estava frio e escuro, com um leve cheiro de urina. "Que tipo de informações?". Carlos tinha perguntado.
Trent agiu como se não tivesse ouvido a pergunta. "No centro comercial da cidade, você encontrará um
restaurante chamado Grill 13; fica no final da rua da fonte, bem ao lado do teatro, não tem erro. Se você
conseguir chegar por volta de -". Ele olhou no relógio. "- digamos, 19:00 horas, eu poderei ver o que posso
fazer para ajudá-lo".
Carlos nem soube por onde começar. "Hei, sem ofensas, mas do que diabos você está falando?".
Trent sorriu. "Raccoon City. É para onde você está indo".
Só Deus sabe como ele sabia meu nome, mas esse bato não está jogando com todas as cartas.
"Ah, ouça, Sr. Trent -".
"Apenas Trent". Ele interrompeu Carlos, ainda sorrindo.
Carlos começou a se irritar. "Que seja. Eu acho que você pegou o Oliveira errado... e eu aprecio a sua, é,
preocupação, eu realmente tenho que ir".
"Ah, sim, ligaram do trabalho". Trent disse, seu sorriso sumindo. "Entendo, eles não vão dizer tudo o que precisa
saber. Será pior, bem pior. As horas seguintes poderão ser negras, Sr. Oliveira, mas eu acredito em suas
habilidades. Apenas lembre-se - Grill 13, dezenove horas. Canto nordeste da cidade".
"Sim, claro". Carlos disse, acenando, voltando para a luz do dia, usando um sorriso forçado. "Combinado. Eu vou
me lembrar".
Trent sorriu de novo, afastando-se dele. "Tome cuidado em quem você confia, Sr. Oliveira. E boa sorte".
Carlos virou e começou a andar rapidamente. O homem ficou olhando, de mãos nos bolsos de novo, sua postura
casual e relaxada. Para um maluco, ele não parecia maluco...
.. e parece bem menos maluco agora, não é?
Carlos ainda conseguiu chegar mais cedo no escritório, mas ninguém parecia ter ouvido nada sobre o que
estava acontecendo. Na curta reunião ministrada pelos líderes de pelotão da U.B.C.S., foram apresentados
alguns fatos: um vazamento de produto tóxico-químico ocorreu no começo da semana em uma isolada
comunidade, causando alucinações que levavam à violência. A química tinha se dissipado, mas pessoas
comuns continuavam atormentadas pelos que foram afetados; havia evidências de que os danos poderiam ser
permanentes, e a polícia local não conseguia manter as coisas sobre controle. A U.B.C.S. estava sendo enviada
para ajudar a evacuar os cidadãos que não foram afetados, e usar a força para protegê-los se necessário. De
qualquer modo era confidencial.
E em Raccoon City. O que significava que Trent sabia de algo afinal... mas o que isso quer dizer?
Se ele estava certo sobre onde íamos, como fica o resto? O que eles não disseram que precisávamos saber? E
o que podia ser pior, bem pior do que um monte de gente maluca e violenta?
Ele não sabia, e não gostava de não saber. Ele tinha colocado as mãos numa arma pela primeira vez aos doze
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anos para ajudar a defender sua família de um bando de terroristas, e se tornou profissional aos dezessete -
durante quatro anos agora, ele foi pago para colocar a própria vida em risco pela causa dos outros. Mas ele
sempre soube quem seus inimigos eram. Ir às cegas não era muito legal, nem um pouco. O único consolo era
que estava indo com dezenas de soldados experientes; seja lá o que for, eles seriam capazes de resolver.
Carlos olhou em volta, pensando em estar com um bom grupo. Não necessariamente com bons homens, mas
combatentes adeptos, o mais importante no combate. Eles até pareciam preparados, seus olhos insensíveis e
atentos, seus rostos determinados -
- exceto pelo líder do esquadrão B, que olhava fixamente para o nada e sorria como um tubarão. Como um
predador. Carlos ficou inseguro de repente, olhando para o homem, Nicholai alguma coisa, cabelo branco
arrepiado, forte como um levantador de peso. Carlos nunca viu alguém sorrir daquele jeito...
O russo encontrou o olhar de Carlos, e seu sorriso alargou por um momento, de um modo que fez Carlos querer
encostar as costas numa parede, de arma na mão -
- e o momento tinha acabado, Nicholai acenando desatentamente e desviando o olhar. Era apenas outro
soldado cumprimentando um camarada, nada mais. Ele estava paranóico, o encontro com Trent o havia deixado
no limite, e sempre ficava um pouco ansioso antes de um combate...
Grill 13, perto do teatro.
Carlos não se esquecerá. Por precaução.
____________________
*Watchdog - "Cão-de-guarda" em inglês.
____________________
[3]
O plano de Jill era margear a cidade em direção à sudeste, usando ruas laterais e cortando por dentro dos
prédios o máximo que puder: as ruas principais não eram seguras, muitas delas foram bloqueadas para conter
os zumbis antes que a situação piorasse. Se ela conseguisse distanciar-se ao máximo à sul, seria capaz de
cruzar fazendas até a Rota 71, um dos caminhos até a rodovia principal.
Até agora está tudo bem. Se continuar assim, eu chego na 71 antes de escurecer.
Levou menos de uma hora para ir dos subúrbios até o aparentemente vazio prédio de apartamentos onde ela
estava agora, tremendo um pouco com o úmido frio que emanava do mau iluminado corredor. Ela tinha se
vestido mais pela facilidade de locomoção do que por proteção - uma blusa justa, mini-saia, botas e uma bolsa
de cintura para carregar munição extra. A roupa apertada a envolvia como uma segunda pele e a permitia se
movimentar rapidamente. Ela também carregava uma simples blusa de moletom branca amarrada na cintura
para usar quando sair da cidade - por enquanto, ela preferia passar frio e ter seus braços livres.
O Imperial era um modesto prédio de apartamentos na ponta mais ao sul da área residencial de Raccoon. Jill
descobriu em sua última excursão que uma vez infectados, os zumbis saíam em busca de comida assim que
possível, abandonando suas casas e indo para as ruas. Nem todos eles, claro, mas o suficiente para ser mais
seguro cortar pelos prédios do que andar em locais abertos.
Um barulho. Um leve gemido vindo de trás de uma das portas no final do corredor. Jill parou, de arma na mão,
tentando ouvir de que lado veio e percebendo no mesmo instante que podia sentir o cheiro de gás.
"Droga". Ela sussurrou, tentando lembrar o planta do prédio enquanto o oleoso e picante cheiro enchia suas
narinas. Virar à direita onde o corredor terminava em forma de "T", e...
.. e, direita de novo? Ou a portaria ficava ali mesmo? Pense, você esteve aqui dois dias atrás, Jesus, deve ser
um baita vazamento -
Houve outro gemido adiante, definitivamente vindo da esquerda. Era o vazio e demente som que os zumbis
faziam, o único som que "conseguiam" fazer até onde sabia. A porta estava arrombada e Jill quase pôde ver as
trêmulas ondas de gás invadindo o corredor.
Ela segurou a Beretta mais forte e recuou um passo. Ela tinha que voltar por onde veio, ela não queria arriscar
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um tiro nem se defender com as mãos; uma única mordida seria capaz de passar a infecção para ela. Mais um
passo atrás e -
Creak.
Jill virou-se, instintivamente erguendo sua arma assim que uma porta abriu a pelo menos cinco metros dali. Um
encurvado homem arrastando os pés apareceu na escuridão bloqueando-a da porta dos fundos. Ele tinha a pele
enrugada e os olhos mortos de um contaminado, como se um pedaço da bochecha faltando não fosse uma
prova decisiva; zumbis não sentiam dor. Quando ele abriu a boca e gemeu de fome para ela, foi possível ver a
base de sua cinza e esfolada língua, e nem o forte cheiro de gás podia superar o enjoativo odor da carne
apodrecida.
Jill virou, viu que o corredor à frente estava vazio. Ela não tinha escolha senão passar pelo apartamento com o
vazamento e esperar que o morador fosse lento o bastante para não pegá-la.
Vai. Agora.
Ela decolou, ficando o mais perto que podia da parede direita, sentindo os efeitos do gás enquanto movia os
braços para ganhar velocidade - uma leve distorção de luz, uma sensação de enjôo, um gosto ruim na garganta.
Ela passou pela porta arrombada, aliviada por não ter aberto mais, lembrando de repente que a portaria ficava à
direita. Ela fez a curva e -
- bam, colidiu com uma mulher, levando-a ao chão. Jill inclinou-se dela, acertando a parede de gesso com seu
ombro direito, tão forte que o fino pó branco caiu sobre elas. Ela mau percebeu, atenta demais com a mulher
caída e as três figuras de pé no pequeno hall de entrada, voltando suas atenções para Jill. Todos estavam
contaminados.
A mulher, vestida nos farrapos do que uma vez foi uma camisola branca, balbuciava algo enquanto tentava se
sentar.
Só lhe restava um dos olhos, a vermelha e rasgada cavidade brilhando sob a luz acima. Os outros três, todos
homens, na direção de Jill, gemendo, seus gangrenosos braços erguendo-se lentamente; dois deles
bloqueavam a parede de metal e vidro que dava na rua - sua saída.
Três de pé, uma se arrastando, alcançando suas pernas e pelo menos dois atrás dela. Jill correu de lado para a
porta de segurança, arma apontada para a descascada testa do mais próximo, a menos de dois metros. A
parede de caixas de correio atrás deles eram de metal, mas não tinha escolha senão esperar que a
concentração de gás fosse menos intensa ali.
A criatura avançou e Jill atirou, saltando ao mesmo tempo para a porta enquanto a bala penetrava no crânio
dele-
- e ela tanto ouviu quanto sentiu a explosão, sssssh-BOOM, um deslocamento de ar em fúria que a empurrou
na direção a qual tinha saltado, forte, tudo se movendo rápido demais para entender cronologicamente - seu
corpo doendo, a porta dissolvendo, o mundo borrando em variações de branco. Ela se encolheu e rolou, asfalto
firme batendo em seu ombro, os horríveis odores de carne frita e cabelo queimado passando por ela enquanto
cacos de vidro escurecidos forravam a rua.
Jill ficou de pé, ignorando tudo enquanto girava para atirar de novo, enquanto as chamas consumiam os restos
do Imperial. Ela piscou seus molhados olhos e os arregalou, tentando ver através das chamas que cobriam tudo
a sua volta.
Pelo menos dois zumbis estavam no chão, provavelmente mortos, mas outros dois ainda tropeçavam nos
destroços, suas roupas e cabelo queimando. À direita e atrás de Jill havia restos de uma barreira policial,
cavaletes, anteparos e carros estacionados; ela podia ouvir mais deles gemendo do outro lado.
E lá, à sua esquerda, já virando a mole e pendurada cabeça na direção dela, estava um único homem de roupas
rasgadas e pintadas com sangue seco. Jill mirou e apertou o gatilho, passando uma bala através de seu cérebro
virulento, andando na direção dele enquanto ainda caia; havia um container de lixo atrás do corpo agonizante e
depois, várias quadras do centro comercial, sua melhor opção de fuga agora.
Tenho que ir à oeste, ver se consigo contornar as barricadas.
Com o perigo imediato passado, ela parou um pouco para contar os ferimentos - abrasões no joelho e um
ombro ralado sujo de areia; podia ter sido muito pior. Seus ouvidos apitavam e sua visão ainda sofria, mas isso
era passageiro.
Ela chegou no container e deu seu melhor para curvar-se sobre ele e olhar para cada lado da escura rua
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norte-sul. A lixeira estava entre a parede lateral de uma loja de roupas da moda e um carro batido, limitando sua
visão. Jill ouviu por um momento, procurando choros de fome ou o inconfundível arrastar de pés dos
contaminados, mas não ouviu nada.
Com o ouvido nessas condições não ouviria uma banda passando, ela pensou irritada e pulou em cima do latão.
Do outro lado da rua havia uma porta que achava dar num beco, mas estava interessada em saber o que havia à
esquerda - com sorte, uma saída direta da cidade.
Jill desceu, olhou para os dois lados e sentiu tentáculos de pânico envolver seu cérebro. Havia dezenas deles,
em ambos os lados, o mais próximo já andando para afastá-la da lixeira.
Anda, Jillzinha!
A voz de seu pai. Jill não hesitou, deu dois largos passos e jogou seu ombro ferido contra a enferrujada porta à
sua frente. A porta balançou, mas não abriu.
"Vamos". Ela disse sem perceber, concentrando-se na porta, não importa o quanto perto estejam, eu tenho que
passar -
Ela golpeou a porta novamente, o forte cheiro de carne podre envolvendo-a, e a porta ainda firme.
Concentre-se! Vai, agora! De novo, a autoritária voz de seu pai, seu primeiro professor. Jill se recompôs, recuou
e sentiu o frio esfregar de dedos em seu pescoço, um sopro de hálito podre em sua bochecha.
Crash, a porta abriu, batendo nos tijolos atrás, e Jill a cruzou, correndo, lembrando de um galpão à frente e à
direita, sua pulsação a toda força. Atrás dela, crescentes uivos de decepção, de fome frustrada, ecoando pelo
beco que a salvaria. Uma porta à frente.
Por favor, esteja aberta -
Jill agarrou a maçaneta, empurrou-a e a porta metálica abriu num quieto e bem iluminado espaço aberto,
Graças a Deus -
- e viu um homem de pé no piso mais abaixo; ela ergueu a Beretta, mas não atirou, analisando-o antes de
abaixá-la. Apesar de suas roupas rasgadas e sujas de sangue e suas expressões amedrontadas, ele não era
um infectado... ou pelo menos era um que não havia se transformado por completo.
Jill sentiu alívio correr por ela ao ver outra pessoa, e percebendo o quanto sozinha tem estado. Mesmo tendo
uma pessoa destreinada ao seu lado, alguém para ajudar e ser ajudada...
Ela sorriu trêmula, indo para os degraus da plataforma elevada de metal a qual estava, já fazendo mudanças de
planos. Eles tinham que achar uma arma para ele, ela tinha visto uma espingarda descarregada no Bar Jack
dois dias atrás, eles estavam bem perto e podiam achar munição -
- e juntos podemos passar por uma das barricadas! Ela só precisava de alguém para vigiar e ajudá-la a
empurrar alguns carros.
"Nós temos que sair daqui". Ela disse, forçando mais esperança do que conseguia. "A ajuda não virá, ao menos
por enquanto, mas cai entre nós -".
"Você está louca?". Ele interrompeu, seu febril olhar para todos os lados. "Eu não vou a lugar nenhum, moça.
Minha própria filha está lá fora em algum lugar, perdida...".
Ele parou de falar, olhando para a porta que Jill acabara de usar, como se pudesse enxergar através dela.
Jill acenou, lembrando a si mesma de que ele provavelmente estava em choque. "Mais um motivo para -".
Ele a interrompeu de novo, sua voz em pânico elevando-se a um grito que preencheu todo o lugar. "Ela está lá
fora, e provavelmente está morta como todos eles, e se eu não sair por ela, você deve estar maluca se acha que
vou sair por você!".
Jill colocou a Beretta na cintura da saia, erguendo as mãos rapidamente, mantendo sua voz suave. "Ei, eu
entendo. Eu sinto muito sobre sua filha, sério, mas se nós sairmos da cidade, podemos chamar ajuda, podemos
voltar - talvez ela esteja escondida em algum lugar, e o melhor jeito de achá-la é chamando ajuda".
Ele recuou um passo e ela pode ver o terror sobre sua raiva. Ela já tinha visto isso antes, a falsa fúria que
algumas pessoas usavam para evitar ficarem com medo, e sabia que não conseguiria convencê-lo.
Mas eu tenho que tentar...
"Eu sei que você está assustado". Ela disse suavemente. "Eu também estou. Mas eu vou - eu era um dos
membros do Esquadrão de Táticas Especiais e Resgate; nós fomos treinados para operações perigosas e eu
realmente acredito que posso tirar a gente daqui. Você estará seguro se vier comigo".
Ele recuou outro passo. "Vá para o inferno, sua, sua vagabunda". Ele disse, depois virou e correu pelo chão de
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cimento. Havia um container de estocagem no canto do galpão. Ele engatinhou para dentro, ofegando enquanto
puxava as pernas. Jill só pegou um lance de seu vermelho e suado rosto enquanto fechava as portas. Ela ouviu
o clink metálico da trava seguido por um abafado grito que definia sua decisão.
"Vá embora!. Me deixe em paz!".
Jill sentiu sua própria explosão de raiva, mas sabia que era inútil, tão inútil quanto tentar argumentar mais.
Suspirando, ela virou e voltou para os degraus, evitando com cuidado a depressão que acabava de dominá-la.
Ela checou o relógio - era 4:30h - e sentou-se, repassando seu mapa mental da zona residencial de Raccoon.
Se o resto das ruas também estiverem dominadas, ela teria que voltar para o centro e tentar achar outra direção.
Ela tinha cinco clips cheios, quinze balas em cada, mas precisava de mais poder de fogo... como uma
espingarda, talvez. Se ela não conseguir achar balas, ao menos poderia espancá-los com ela.
"Bar Jack, então". Ela disse baixo, e apertou o calcanhar das mãos contra os olhos, imaginando como iria sair
dessa.
[4]
Eles chegaram na cidade no final da tarde, 16:50h segundo Carlos, e estavam se preparando para descer sobre
um terreno vazio. Aparentemente havia um complexo subterrâneo por perto, pertencente à Umbrella, ao menos
era o que lhes foi dito na reunião.
Carlos alinhou-se com sua equipe, metralhadora pendurada no ombro enquanto se prendia no cabo de salto e
esperava Hirami abrir a porta. Bem à frente de Carlos estava Randy Thomas, um dos caras mais amigáveis do
esquadrão A. Randy olhou para trás e fingiu resmungar, apontando seu dedão e indicador para Carlos, fingindo
atirar. Carlos sorriu, encolhendo a barriga como se tivesse levado um tiro. Uma brincadeira idiota, mas ajudou
Carlos a relaxar um pouco assim que seu líder puxou a porta e o som de vários helicópteros encheu a cabine.
De dois em dois, os homens deslizavam pelas cordas duplas de rapel presas ao corpo da aeronave. Carlos se
aproximou da abertura, apertando os olhos contra o forte vento para ver onde estavam pisando. Seu helicóptero
criava uma longa sombra sob os últimos raios do sol do dia, podendo ver outros pelotões no chão, alinhando-se
por esquadrão. E era sua vez; ele saiu um segundo depois de Randy, o medo da queda livre mandando seu
estômago para o peito. Um borrão de céu passou e estava no chão, desprendendo-se da corda e correndo para
onde Hirami estava.
Alguns minutos depois, todos estavam no chão. Quase em harmonia, os quatro helicópteros giraram à oeste e
foram embora, o barulho sumindo enquanto poeira assentava sobre os soldados. Carlos sentiu-se alerta e
preparado enquanto os líderes de pelotão e esquadrão começavam a apontar para diferentes direções,
designando rotas previamente elaboradas na base.
Finalmente, quando os helicópteros ficaram menores, eles conseguiram ouvir de novo - e Carlos foi pego pelo
silêncio das redondezas. Nenhum carro, nenhum som industrial apesar de estarem à beira de uma cidade de
bom porte. Estranho só prestarmos atenção nesses barulhos quando estão ausentes.
Mikhail Victor, supervisor do pelotão D, estava quieto com Hirami e os outros dois líderes de esquadrão, Cryan e
o russo esquisito. Enquanto os supervisores dos pelotões A, B e C davam direções, os esquadrões moviam-se
atentos e silenciosos. Seus passos pareciam altos demais no ar frio, e Carlos viu olhares de vaga insegurança
em algumas das faces que passavam, um olhar que também sabia estar usando. Provavelmente estava tudo
quieto porque as pessoas estavam em casa dentes, ou isoladas em algum lugar, mas mesmo assim o silêncio
era sobrenatural...
"Esquadrão A, passo acelerado!". Hirami falou, e até sua voz parecia estranhamente silenciosa, mas Carlos
esqueceu o assunto assim que começaram a correr atrás dele. Se não lhe falhasse a memória da reunião, todos
seriam direcionados para oeste, para o coração de Raccoon City, os pelotões separando-se para cobrir uma
área maior. Depois de quase cem metros, o esquadrão A estava sozinho, trinta soldados marchando por uma
área industrial não muito diferente de onde a base ficava; terrenos abandonados com lixo espalhado, passagens
de terra com grama a cortar, armazéns cercados.
Carlos franziu, incapaz de ficar em silêncio. "Fuchi". Ele disse, usando metade de seu fôlego. Cheirava como
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gases dentro de uma sacola cheia de peixes.
Randy recuou alguns passos para correr ao lado de Carlos. "Disse algo, irmão?".
"Eu disse que algo está fedendo". Carlos falou. "Está sentindo?".
Randy acenou. "Sim, pensei que fosse você".
"Ha, ha, você me mata, cabrón". Carlos sorriu gentilmente. "A propósito, isso significa bom amigo".
Randy sorriu também. "É, aposto. E aposto -".
"Parem! E calem a boca aí atrás!".
Hirami ordenou uma parada, erguendo a mão para o alto pedindo silêncio. Carlos pôde ouvir fracamente outro
esquadrão uma ou duas quadras à norte, o bater de suas botas no pavimento. E um segundo depois, ele podia
ouvir outra coisa.
Gemidos e roncos, vindos de algum lugar à frente deles, bem suave, porém aumentando. Como se os pacientes
de um hospital tivessem sido expulsos. Ao mesmo tempo, o cheiro ficava mais forte, pior - e familiar, como...
"Que droga". Randy murmurou, seu rosto ficando pálido, e Carlos sabia que era o mesmo que Randy devia
conhecer.
Não é possível.
Era o cheiro de um corpo humano apodrecendo no sol. Era cheiro de morte. Carlos o conhecia muito bem, mas
nunca esteve tão grande, tão abrangente. À frente deles, Hirami estava abaixando a mão, incerto, um olhar de
profunda preocupação em seus olhos. Os angustiados sons de pessoas com dor estavam ficando mais altos.
Hirami estava para falar quando -
- quando tiros vieram de algum lugar próximo, de um dos outros esquadrões, e entre os estouros de fogo
automático, Carlos pôde ouvir homens gritando.
"Em linha!". Hirami gritou, erguendo ambas as mãos com as palmas viradas para o céu, sua voz quase inaudível
sobre os tiros.
Em linha reta, cinco homens olhando para frente e cinco olhando para o caminho de onde viemos. Carlos correu
para sua posição, sua boca seca de repente, suas mãos úmidas. Os curtos estouros de metralhadora à norte de
suas posições estavam ficando mais longos, afogando qualquer outro som, mas o cheiro certamente estava
piorando. Para aumentar sua preocupação, ele pôde ouvir mais tiros, porém suaves e distantes, acompanhando
os mais próximos; seja lá o que estava acontecendo, parecia que toda a U.B.C.S. estava ocupada.
Carlos vigiava adiante, rifle preparado, vasculhando a rua vazia que se prolongava à frente e terminava em
forma de "T" três quadras dali. Uma M16 carregada com um pente de trinta balas não era motivo de brincadeira,
mas ele estava com medo - do que ainda não sabia.
Por que ainda estão atirando por lá, o que resiste a tantos tiros? O que é -
Carlos viu o primeiro, uma atordoada figura que saiu de trás de um prédio dois quarteirões à frente deles. Um
segundo apareceu do outro lado da rua seguido por um terceiro, um quarto - de repente, pelo menos uma dúzia
de pessoas cambaleantes estavam na rua, vindo em sua direção. Eles pareciam estar bêbados.
"Cristo, o que há de errado com eles, porque estão andando daquele jeito?".
Quem falou estava ao lado de Carlos, seu nome era Olson, que estava voltado trás. Carlos olhou para trás e viu
pelo menos dez se aproximando, aparecendo do nada, e percebeu que o tiroteio à norte estava enfraquecendo,
os tiros menos concentrados e intermitentes.
Carlos voltou a olhar para frente e sentiu seu queixo cair para o que viu e ouviu; eles estavam perto o bastante
para perceber características individuais, seus estranhos gritos claramente audíveis agora. Roupas rasgadas e
sujas de sangue apesar de alguns estarem quase pelados; rostos pálidos manchados de vermelho, com olhos
que não eram nada; o modo como vários esticavam os braços, tentando alcançar os soldados a uma quadra de
distância. E as desfigurações - braços faltando, grandes pedaços de pele e músculos rasgados, partes do corpo
inchadas e úmidas de putrefação.
Carlos já tinha assistido aos filmes. Essas pessoas não estavam doentes. Elas eram zumbis, os mortos-vivos, e
por um momento, tudo o que podia fazer era olhá-los se aproximando. Impossível, chale, seu cérebro lutou para
aceitar o que estava vendo, ele se lembrou do que Trent disse, sobre as horas negras.
"Atirem, atirem!...", Hirami gritava como se estivessem longe, e o súbito e violento martelar das metralhadoras ao
lado de Carlos o trouxe para a realidade. Ele mirou na rasgada barriga de um gordo usando um pijama
esfarrapado e atirou.
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Três disparos, pelo menos nove balas acertaram a corpulenta barriga do homem, desenhando uma irregular
linha curva. Sangue escuro espirrou, manchando suas calças. O homem mancou, mas não caiu. Se não for por
outro motivo, ele parecia ainda mais ansioso para alcançá-lo, como se o cheiro do próprio sangue o tivesse
excitado.
Alguns dos zumbis tinham caído, mas continuavam se arrastando sobre o que sobrou de seus estômagos,
tentando rasgar o asfalto com os dedos em sua única motivação.
O cérebro, tem que acertar o cérebro, nos filmes era o único jeito de matá-los -
O mais próximo estava à cerca de seis metros agora, uma desolada mulher que parecia normal exceto pelo
opaco brilho do osso sobre seu cabelo. Carlos localizou o crânio exposto e atirou, sentindo um louco alívio
quando ela caiu e ficou lá.
"A cabeça, mirem na cabeça -". Carlos gritou, mas Hirami também estava gritando, sons de terror que
rapidamente foram acompanhados pelos dos outros enquanto a linha começava a se desfazer.
- ah, não -
Lá atrás, os zumbis os tinham alcançado.
Nicholai e Wersbowski foram os únicos do B que conseguiram, e só eles porque tiravam vantagem de onde
podiam - Nicholai tinha empurrado Brett Mathis nos braços de uma das criaturas quando estava próxima,
ganhando alguns segundos preciosos para escapar. Ele viu Wersbowski atirar na perna esquerda de Li pelo
mesmo motivo, derrubando o soldado e deixando-o para distrair o mais próximo dos contaminados.
Juntos, eles conseguiram chegar à saída de emergência de um prédio residencial a uns dois quarteirões de
onde os outros foram pegos. Os tiros não paravam enquanto subiam os degraus enferrujados, os gritos de
homens morrendo chegando ao silêncio, perdendo-se entre os choros dos famintos malditos.
Nicholai pesou suas opções cautelosamente enquanto escalavam a saída de emergência. Como previu, John
Wersbowski era um sobrevivente e certamente não tinha problemas em fazer o que fosse necessário para
continuar um; ruins como as coisas estavam em Raccoon - de fato, pior do que Nicholai tinha imaginado - pode
valer a pena ter um homem como esse dando cobertura.
E se estivermos cercados, haveria alguém para ser sacrificado e eu poder fugir...
Nicholai franziu quando chegaram na cobertura, enquanto Wersbowski olhava para o que podia ser visto de três
andares acima. Infelizmente, o elemento de sacrifício funcionava para os dois. Além disso, Wersbowski não era
um idiota confiável como Mathis e Li; pode ser difícil livrar-se dele.
"Zumbis". Wersbowski murmurou, apertando o rifle. De pé ao lado dele, Nicholai seguiu seu olhar para onde a
equipe B ficou de pé pela última vez, para os corpos que forravam a rua e as criaturas que continuavam a se
alimentar. Nicholai não pôde deixar de sentir um pouco de desapontamento; eles morreram em minutos, quase
sem lutar...
"Então, qual é o plano, senhor?".
O sarcasmo era óbvio, tanto no tom como no olhar meio impressionado e meio enjoado que deu para Nicholai.
Obviamente, Wersbowski o tinha visto empurrar Mathis. Nicholai suspirou, balançando a cabeça, a M16 folgada
em suas mãos; ele não tinha escolha, mesmo.
"Eu não sei". Disse suavemente, e quando Wersbowski olhou de volta para o local da luta, Nicholai apertou o
gatilho da metralhadora.
Um trio de balas martelou o abdômen de Wersbowski, derrubando-o contra o baixo parapeito de cimento.
Nicholai imediatamente ergueu a arma e mirou num dos chocados olhos de Wersbowski, atirando mesmo
enquanto compreensão inundava o rosto lavado do soldado, sabendo que cometera o erro fatal de baixar a
guarda.
Em menos de um segundo estava acabado, e Nicholai estava sozinho na cobertura. Ele olhou vaziamente para
o corpo sangrando, imaginando - e não pela primeira vez - porque não sentiu culpa ao matá-lo. Ele já ouviu o
termo anti-social e pensou que provavelmente se aplicava... e ele não entendia como as pessoas continuavam
vendo isso como algo negativo. Era a tal da simpatia, ele achava, a carga de humanidade agindo como se a
incapacidade de se "relacionar" estivesse errada.
Mas nada me incomoda, e eu nunca hesito em fazer o que precisa ser feito, não importa o quanto os outros
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percebam; o que há de tão terrível nisso?
Verdade, ele era um homem que sabia se controlar. Disciplina era seu segredo. Ao deixar sua terra natal, um
ano depois já nem pensava mais em russo. Quando se tornou um mercenário, ele treinou dia e noite com todos
os tipos de armas e testou suas habilidades contra os melhores da área; ele sempre venceu, pois não importava
quem era o oponente, Nicholai sabia que não ter consciência o libertava, era como ter inimigos atrapalhados.
Isso era um presente, não era?
O corpo de Wersbowski não respondeu. Nicholai checou o relógio já aborrecido com seus pensamentos
filosóficos. O sol estava baixo no céu e era apenas cinco da tarde; ele ainda tinha muito que fazer se quisesse
sair de Raccoon com tudo o que precisava. Primeiro, ele tinha que pegar um laptop e acessar os arquivos que
criou na noite anterior, mapas e nomes; deveria haver um trancado no prédio do R.P.D., mas precisava ser
extremamente cuidadoso na área já que os dois Tyrants estariam por lá. Um estava programado para achar uma
amostra química, e Nicholai sabia que havia um laboratório da Umbrella não muito longe da delegacia. O outro,
a criação mais avançada tecnologicamente, estava encarregada de eliminar os S.T.A.R.S. renegados, se é que
ainda estavam em Raccoon. E o escritório do S.T.A.R.S. ficava no R.P.D.. Ele não estaria em perigo se ficasse
fora do caminho deles, mas odiaria ficar entre eles e o alvo se tudo o que ouviu fosse verdade. A Umbrella
estava tirando todas as vantagens da situação de Raccoon, dando passos eficazes - usando os novos modelos
do Tyrant, se é o que são - além da coleta de dados; Nicholai admirava sua eficiência.
Nicholai ouviu um novo disparo e reflexivamente recuou da beira da cobertura, olhando para baixo, vendo dois
soldados passarem correndo momentos depois. Um estava ferido, uma mancha rasgada e com sangue perto de
seu calcanhar direito, e se apoiava no outro pesadamente. Nicholai não conseguiu identificar o homem ferido,
mas o outro era o hispânico que o encarava no helicóptero.
Nicholai sorriu quando os dois cambalearam para fora de visão; alguns soldados iriam sobreviver, claro, mas
provavelmente sofreriam o mesmo destino que o homem ferido, que certamente foi mordido por um dos
infectados.
Ou o destino que aguardava o hispânico. Fico imaginando, o que ele fará quando seu amigo começar a ficar
doente? Quando começar a mudar?
Provavelmente tentará salvá-lo em algum patético tributo à honra; seria seu fim. Sério, eles estão tão bons
quanto mortos.
Impressionado com o quanto previsíveis eram, Nicholai balançou a cabeça e foi pegar a munição de
Wersbowski.
[5]
A caminho do Bar Jack, Jill pensou ter ouvido tiros.
Ela parou no beco que a levaria para a porta dos fundos da taverna, de cabeça inclinada para o lado. Pareciam
tiros, uma metralhadora automática, mas estava muito longe para ter certeza. Mesmo assim, seus espíritos
elevaram-se um pouco ao pensar que poderia não estar lutando sozinha, que a ajuda poderia estar a caminho...
.. certo. Uma centena de caras aterrissaram com bazucas, inoculações e uma marmita, talvez um jantar de
carne com meu nome nele. Todos são atraentes, heteros, solteiros, com formações universitárias e dentes
perfeitos...
"Que tal ficar na realidade?". Ela disse suavemente e ficou aliviada por soar normal mesmo no silêncio úmido e
sombrio do beco de trás. Ela esteve sozinha e com frio no galpão, mesmo depois de ter achado uma garrafa
térmica com café ainda morno no escritório superior; a idéia de ter que andar pela cidade morta novamente,
sozinha -
- é o que tenho que fazer, pensou firmemente, então vou fazer. Como seu querido e encarcerado pai se cansou
de dizer - desejar que as coisas fossem diferentes não as tornariam reais.
Ela deu alguns passos adiante, parando quando estava a um metro e meio de onde o beco se bifurcava. À sua
direita ficavam uma série de ruas e becos que a levariam mais adentro da cidade; esquerda a faria cruzar um
pequeno pátio levando-a diretamente para o bar, considerando que conhecia bem a área como pensava.
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Jill se aproximou da junção, andando o mais atenciosamente possível, suas costas contra a parede sul. Estava
quieto o bastante para arriscar uma olhada no beco da direita, sua arma na frente; tudo limpo. Ela mudou de
lado para olhar na direção que precisava ir -
- e ouviu, uunnh, o leve e fraco choro de um homem infectado, meio escondido pela sombra a uns quatro
metros de distância. Jill mirou na parte mais escura da sombra e esperou entediada até ele aparecer,
lembrando-se de que não era mais humano. Ela sabia disso, sabia desde os eventos na mansão de Spencer,
mas encorajava os sentimentos de dó e tristeza toda vez que precisava derrubar um deles. Dizer a si mesma
que cada zumbi estava além da salvação a permitia sentir compaixão por eles.
Mesmo a desajeitada e decomposta bagunça que agora estava no seu campo de visão já foi uma pessoa. Ela
não iria, não podia se abalar com isso, mas esquecer de que também eram vítimas, ela perderia um elemento de
sua própria humanidade.
Um único tiro na têmpora direita e o zumbi caiu numa poça de seus próprios fluidos. Ele já estava nessa há
muito tempo, seus olhos cobertos de catarata, sua carne cinza-esverdeada escorregando pelos ossos; Jill teve
que respirar pela boca ao passar sobre ele, alerta para não tê-lo em suas botas...
Outro passo e estava olhando para o pátio -
- e viu mais dois lá, e também um vulto de movimento desaparecendo no beco, na direção do bar. Era muito
rápido para estar contaminado. Jill só reparou na calça camuflada e na bota preta de combate, mas era o
suficiente para confirmar o que esperava - uma pessoa. Era uma pessoa viva.
Do curto lance de degraus que desciam para o pátio, Jill despachou ambos os zumbis, seu coração pulando de
esperança. Roupa camuflada. Ele ou ela era um militar, enviado talvez para reconhecimento; pode ser que sua
fantasia não fosse tão impossível assim. Ela passou pelas criaturas caídas, correndo assim que entrou no beco,
subindo alguns degraus, dez metros de tijolo e estava na porta dos fundos.
Jill respirou fundo e abriu a porta com muito cuidado, não querendo surpreender ninguém carregando uma arma
-
- e viu um zumbi avançando pelo chão de lajotas, gemendo famintamente enquanto esticava os braços para um
homem de colete amarelo, um homem que apontou o que parecia ser um revólver de baixo calibre para a
criatura, e atirou.
Jill imediatamente o ajudou, conseguindo com dois tiros o que o homem não conseguiu com cinco; o infectado
caiu de joelhos, e com um último gemido, ele morreu caindo no chão como água. Jill não sabia dizer se era
homem ou mulher e nem se importava.
Ela virou sua ansiosa atenção para o soldado, uma apresentação surgindo em seus lábios até perceber que era
Brad Vickers, piloto do Alpha Team do S.T.A.R.S. Brad, cujo apelido era Chickenheart Vickers, aquele que
abandonou o Alpha Team na mansão de Spencer ao ficar com medo, aquele que se borrou ao descobrir que a
Umbrella sabia seus nomes. Um bom piloto e excelente hacker de computadores, mas quando empurrar virava
empurrão, Brad Vickers tornava-se um medroso.
Mas estou feliz em vê-lo, sem ressentimentos.
"Brad, o que você está fazendo aqui? Você está bem?". Ela fez o possível para não perguntar como sobreviveu,
isso ela teria que imaginar - excepcionalmente por estar armado com uma barata semi-automática .32 e por ser
o pior atirador do S.T.A.R.S.. Contudo, ele não parecia bem - havia espirros de sangue seco em seu colete e
seus olhos estavam fundos, largos e balançando com pânico mau contido.
"Jill". Eu não sabia que ainda estava viva!". Se ele estava feliz em vê-la, estava escondendo bem, e ainda não
tinha respondido sua pergunta".
"É, bom, eu podia dizer o mesmo". Ela disse, tentando não soar muito acusativa. Ele podia saber coisas que
precisava. "Quando você chegou aqui? Você sabe o que está acontecendo fora da cidade?".
Era como se cada palavra compusesse seu medo. Sua postura era tensa, enrolada e trêmula. Ele abriu a boca
para responder, mas nada saiu.
"Brad, o que foi? O que há de errado?". Ela perguntou, mas ele já estava recuando para a porta da frente do bar,
balançando a cabeça para os lados.
"Está vindo atrás de nós". Ele suspirou. "Atrás do S.T.A.R.S.. Os policiais estão mortos, eles não poderão
detê-lo, do mesmo jeito que não puderam deter isso -". Brad apontava uma trêmula mão para a criatura no
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chão. "Você verá".
Ele estava no ápice da histeria, seu cabelo castanho liso de suor, seus dentes apertados. Jill foi na direção dele,
incerta do que fazer. Seu medo era contagioso.
"O que está vindo, Brad?".
"Você verá!".
Com isso, Brad virou e abriu a porta, pânico passando por ele enquanto saia na rua e corria sem olhar para trás.
Jill deu um passo na direção da porta e parou, pensando de repente que podia haver coisas piores do que ficar
sozinha. Tentar cuidar de alguém enquanto tenta fugir - principalmente um homem desesperado com histórico
de convardice, assustado demais para ser razoável - era uma má idéia.
Ela sentiu um arrepio ao pensar no que ele disse, o que exatamente estava vindo atrás do S.T.A.R.S.?
Ele acha que eu descobrirei.
Desordenada, Jill o desejou sorte e virou para o polido balcão, esperando que a antiga Remington ainda
estivesse sobre o balcão - e imaginando o que diabos Chickenheart Vickers estava fazendo em Raccoon, e o
que exatamente o tinha assustado tanto.
Mitch Hirami estava morto. Sean Olson também, Deets, Bjorklund, Waller, Tommy e os dois caras novos os
quais Carlos não recordava os nomes, exceto que um vivia estalando os dedos e o outro tinha sardas -
Pare, esqueça isso! Não importa agora, tudo o que importa é sairmos daqui.
Os gemidos estavam longe o bastante para Carlos achar que poderiam descansar um minuto, depois de ter
corrido por uma eternidade. A força de Randy parecia diminuir a cada passo, e Carlos precisava
desesperadamente recuperar o fôlego, só para pensar -
- sobre como morreram, sobre a mulher que mordeu a garganta de Olson e o sangue que corria de sua
bochecha, sobre o modo como Waller começou a rir, alto e insano logo depois de largar a arma e deixar-se ser
pego, sobre o som de alguém gritando orações para o céu -
Pare com isso!
Eles se encostaram na parede de trás de uma loja de conveniências, uma área de reciclagem fechada com
cerca e apenas uma entrada, e uma clara visão da rua. Não havia sons exceto o de pássaros ao longe,
passando sobre eles na fria brisa do fim da tarde que cheirava levemente à podridão. Randy escorregou até se
sentar, tirando sua bota direita para ver o ferimento. Seu tornozelo estava brilhando de sangue, tal como o colar
de sua camiseta.
Ele e Randy foram os únicos que conseguiram, e foi por pouco; já estava parecendo um pesadelo.
Os outros já tinham sido derrubados, e havia pelo menos seis canibais vindo para eles. Carlos atirou de novo, o
cheiro de pólvora e sangue misturando com a podridão para fazê-lo enjoado com uma aterrorizante adrenalina,
tão desorientado que não viu Randy cair. Só percebeu quando o crânio de Randy bateu no chão, alto mesmo
sobre os gemidos dos mortos.
Randy foi mordido por um rastejante através do couro da bota; Carlos o acertou com a coronha da M16
quebrando seu pescoço, sua mente gritando inutilmente que a coisa estava comendo o calcanhar de Randy, e
levantou o quase inconsciente soldado com uma força que não sabia ter. E eles correram, Carlos arrastando o
companheiro ferido para fora da carnificina, seus pensamentos incoerentes, tão assustadores para ele quanto
para o resto. Por alguns minutos, ele esteve loco, incapaz de entender o que havia acontecido e o que ainda
estava acontecendo -
"Ah, Jesus, caramba...".
Carlos olhou para baixo com a voz de Randy, percebendo que suas palavras estavam um pouco ininteligíveis, e
viu os buracos rasgados da profunda mordida quatro dedos acima do tornozelo. Sangrava constantemente, o
interior da bota ensopada.
"Me mordeu, aquela coisa me mordeu. Mas estava morta, Carlos. Todos estavam... não estavam?". Randy olhou
para cima, seus olhos atordoados de dor e algo mais, algo que nenhum dos dois deveria ter - confusão, o
suficiente para Randy não conseguir se concentrar.
Estado de choque, talvez. Seja o que for, Randy precisava de um hospital. Carlos agachou ao seu lado, seu
coração enjoado assim que rasgou um pedaço da camiseta de Randy e a dobrou para pressionar o ferimento.
Estamos feridos, não há policiais lá fora, nem paramédicos, esta cidade está morrendo se já não morreu. Se
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quisermos ajuda, teremos que encontrar sozinhos, e ele não têm condições de lutar.
"Isso pode doer um pouco, mano, mas temos que impedir sua bota de ficar toda molhada". Carlos disse,
tentando parecer relaxado enquanto pressionava o tecido contra o calcanhar sangrando. Não havia motivo para
assustá-lo, principalmente se estiver tão cansado quanto Carlos imaginava. "Aperte firme, tá bom?".
Randy apertou os dentes, um violento tremor correndo por ele, mas fez como Carlos pediu, segurando o curativo
improvisado no lugar. Quando Randy inclinou para frente, Carlos estudou a parte de trás de sua cabeça,
tremendo por dentro ao ver o arranhão desfigurado e sangrento debaixo de seu negro cabelo crespo. Pelo
menos não parecia sangrar mais.
"Nós temos que sair daqui, Carlos". Randy disse. "Vamos para casa, tá? Eu quero ir pra casa".
"Logo". Carlos disse suavemente, "Vamos só sentar aqui mais um minuto e depois vamos".
Ele pensou em todos os carros quebrados que viu, as pilhas de móveis, cadeira e tijolos nas ruas, barricadas
feitas às pressas. Considerando que podiam achar um carro com as chaves dentro, seria impossível passar
pelas ruas. Carlos não tinha licença para dirigir, mas já pilotou um helicóptero algumas vezes - bom, se
passarem perto de um aeroporto.
Nunca conseguiremos a pé. Mesmo se Randy não estivesse ferido, a U.B.C.S. inteira foi derrotada, ou quase.
Deve haver centenas, talvez milhares daquelas coisas por ai.
Se puderem achar outros sobreviventes, podiam se juntar... mas procurar alguém nesse pesadelo já seria um
pesadelo. O restaurante de Trent passou pela cabeça, mas o ignorou; pro inferno com aquela coisa maluca, eles
tinham que sair da cidade, e precisariam de ajuda para isso. Os líderes de esquadrão eram os únicos que tinham
rádio e conheciam o plano de retirada, e não havia chances de Carlos voltar lá -
- mas eu não preciso, certo?
Ele fechou os olhos por um minuto, percebendo que não percebeu o óbvio; talvez estivesse mais assustado do
que pensava. Havia mais de um rádio no mundo; só tinha que encontrar um. Fazer contato com os helicópteros
- ou melhor, para qualquer um ouvindo - e esperar alguém aparecer.
"Eu não me sinto muito bem". Randy disse, tão baixo que Carlos mau ouviu, a pronúncia um pouco melhor do
que antes. "Coça, está coçando".
Carlos esfregou seu ombro levemente, o calor da febril pele de Randy emanando por debaixo da camiseta.
"Você ficará bem, irmão, agüente firme, eu vou tirar a gente daqui".
Ele soou confiante. Carlos só queria ter convencido a si mesmo.
[6]
Ted Martin, um magro homem perto dos quarenta anos foi baleado várias vezes na cabeça. Nicholai não sabia
se havia sido assassinado ou se foi morto depois de contrair o vírus, e não se importava; o que importava era
que Martin, cujo cargo oficial era Relações Públicas e Pessoais do Chefe da Polícia, economizou o tempo que
Nicholai teria levado para caçá-lo.
"Muita generosidade de sua parte". Nicholai disse, sorrindo para o Watchdog morto. Ele também teve a cortesia
de morrer onde deveria estar, na sala detetive da asa leste do Departamento Policial de Raccoon.
Um excelente início para minha aventura; se todos forem assim tão fáceis, será uma noite bem curta.
Nicholai passou por cima do corpo e agachou em frente ao cofre no canto da sala, rapidamente aplicando a
simples combinação de quatro dígitos fornecida por seu contato na Umbrella: 2236. A porta de aço abriu,
revelando alguns papéis - um deles parecia ser o mapa da delegacia - uma caixa de balas de espingarda, e o
que seria o melhor amigo de Nicholai até sair de Raccoon: um dos melhores do mercado. Sorrindo, ele ergueu o
laptop e o levou para a mesa, a porta do cofre fechando sozinha atrás dele.
Sua viagem para a delegacia foi razoavelmente tranqüila exceto pelos sete mortos-vivos que matou à
queima-roupa para evitar barulho; eles foram vergonhosamente fáceis de matar, isso quando se presta atenção
à sua volta. Ele ainda não se deparou com nenhum dos bichinhos da Umbrella, o único desafio que esperava
encontrar; havia um apelidado de "brain sucker" (sugador de cérebro) o qual esperava muito encontrar, um
rastejante de múltiplas pernas e garras assassinas...
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Resident Evil #5 Nemesis - Traduzido por: www.fyfre.com
Uma coisa por vez; por enquanto você precisa de informações.
Ele já tinha decorado os nomes e rostos das vítimas e tinha uma idéia geral de quando cada um deveria fazer o
contato, não necessariamente quando; todos os Watchdogs tinham horários diferentes, sujeitos a mudanças,
mas na maioria são precisos.
Martin deveria reportar à Umbrella do terminal de computador no balcão da recepção do R.P.D. às 17:50h, daqui
a vinte minutos; seu último relatório deve ter sido logo após meio dia.
"Vamos ver se você teve sucesso, Oficial Martin". Nicholai disse, rapidamente digitando os códigos que tinha
adquirido para acessar a atualização dos relatórios de progresso da Umbrella. "Martin, Martin... ah, aí está
você!".
O policial não tinha feito seus dois últimos contatos, sugerindo que estava morto ou incapacitado há pelo menos
nove horas. Nenhuma informação para coletar ali. Nicholai leu cuidadosamente os números dos outros
Watchdogs, feliz com o que viu. Dos oito restantes, três falharam em relatar - um dos cientistas, um funcionário
da Umbrella e uma mulher que trabalhava para o saneamento da cidade. Considerando que estivessem mortos
- e Nicholai rezava para isso - só restavam cinco.
Dois soldados, dois cientistas e um outro da Umbrella...
Nicholai franziu, olhando para os locais de contato de cada um. Uma cientista, Janice Thomlinson, estaria no
complexo de laboratórios subterrâneo, o outro no hospital perto do parque; o funcionário da Umbrella reportaria
de uma estação de tratamento de água abandonada nos limites da cidade, uma fachada para um campo de
teste químico da Umbrella. Nicholai não via problemas em achar nenhum deles... mas ambos os soldados
Watchdogs foram tirados do mapa.
"Onde vocês estarão...". Nicholai disse, teclando ausentemente, sua frustração crescendo. Ao verificar pela
última vez na noite passada, ambos reportariam de St. Michael Clock Tower...
Droga.
Estavam lá ontem, seus nomes listados perto do seu; ambos foram marcados como móveis, tal como ele. Eles
reportariam pelo laptop de onde fosse mais conveniente, e só precisariam fazê-lo uma vez por dia - o que
significava que poderiam estar em qualquer lugar de Raccoon City, qualquer lugar mesmo.
Uma fervente névoa vermelha o envolveu, rasgando-o. Sem pensar, Nicholai cruzou a sala e chutou o corpo de
Martin o mais forte que conseguiu, duas vezes, ventilando sua raiva, sentindo uma profunda satisfação com os
molhados sons, o balançar do corpo e o quebrar de costelas -
- e terminou, voltando a ser quem era, ainda frustrado, mas controlado. Ele exalou forte e voltou para trás da
mesa, pronto para revisar seus planos. Apenas demoraria mais para achá-los, e só; não era o fim do mundo. E
talvez falhassem em reportar, morrendo convenientemente como Martin e os outros três.
Ele podia esperar, mas não contar com isso. Só podia contar com sua própria perseverança e habilidade. A
Umbrella não enviaria resgate por pelo menos uma semana - ou pelo tempo máximo que conseguirem esconder
o desastre - ou se forem chamados pelos Watchdogs com resultados completos, no máximo. Com seis dias
para encontrar só cinco pessoas, Nicholai estava certo de que seria o único a ser resgatado.
"Eu nem precisarei de seis". Nicholai disse, acenando firmemente para o esparramado e amontoado cadáver de
Martin. "Três dias, tenho certeza que consigo em três".
Com isso, Nicholai se inclinou para frente e começou a baixar os mapas que precisaria, novamente feliz.
Jill não conseguiu achar munição para a calibre 12, mas a levou assim mesmo, ciente de que sua munição não
duraria para sempre; daria um belo taco, e talvez possa achar balas mais tarde. Ela estava decidida a escalar
uma das barricadas quando viu algo que a fez mudar de idéia, algo que jamais esperava ver de novo.
Um Hunter. Como os da mansão, nos túneis.
Ela parou quieta na escada de incêndio externa de uma botique ainda na área residencial, vendo-o na rua logo
depois de uma van que bloqueava a saída da escada. Ele não a viu; ela o observou andar a passos largos até
sair de visão, era um pouco diferente dos que viu antes, mas bem parecido - a mesma estranha, graciosa e
maligna postura, as pesadas e curvas garras, a cor verde-escura. Ela prendeu a respiração, seu estômago
dando nós, lembrando...
.. curvado tal que seus impossíveis e longos braços quase tocavam o chão de pedra do túnel, ambos os pés e
mãos dotados de grossas e brutais garras. Pequenos e claros olhos estudando-a de seu achatado crânio réptil,
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seu tremendo grito agudo ecoando pelo subterrâneo escuro antes de saltar...
Ela o matou naquela ocasião, mas a tinha custado quinze balas de 9mm, um pente inteiro. Mais tarde, Barry
disse que eram chamados de Hunters (caçadores), uma das armas biológicas da Umbrella. Havia outros
monstros na mansão - cães ferozes sem pele; um tipo de planta carnívora gigante que Chris e Rebecca
mataram; aranhas do tamanho de um boi; e as escuras coisas mutantes com ganchos afiados no lugar de mãos,
aqueles que se penduravam no teto na casa de força do laboratório, parecidos com macacos.
E o Tyrant, o pior porque você vê que já foi humano; antes das cirurgias, antes da alteração genética e do
T-virus.
Sendo assim, não era apenas o T-virus solto em Raccoon. Ruim quanto isso possa parecer, não era
exatamente chocante; a Umbrella tem brincado com coisas muito perigosas, causando carnificina, como um
Deus aberrante despreparado para as conseqüências; às vezes, pesadelos não vão embora.
A não ser - a não ser que fizeram isso de propósito.
Não. Se pretendessem destruir Raccoon City, teriam evacuado seu próprio pessoal antes... não teriam?
Era uma pergunta que a perseguia a caminho da delegacia. Ver o Hunter a convenceu sobre o que fazer depois;
ela simplesmente precisava ter mais munição, e sabia que haveria alguma na sala dos S.T.A.R.S., no armário de
armas - 9mm, talvez cartuchos de espingarda, ou até mesmo um dos melhores revólveres de Barry.
Ao menos a delegacia não estava tão longe. Ela grudou nas crescentes sombras, desviando facilmente dos
zumbis que encontrou; muitos deles estavam decompostos demais para moverem-se mais rápido que uma lenta
caminhada. Um dos portões que teve de cruzar estava fortemente amarrado, os nós ensopados de óleo. Ela se
deu um chute mental por ter esquecido de trazer uma faca; sorte ter pego um isqueiro no Bar Jack apesar da
preocupação em chamar atenção com a fumaça - até passar pelo portão e ver a pilha de destroços queimando
mais adiante, bem perto do escritório de vendas da Umbrella. Dano causado pelos vândalos, talvez. Ela pensou
em parar e apagar as chamas, mas não parecia haver perigo de se espalharem pelo chão de cimento e parede
de tijolos do beco.
Então, aqui estava ela, de pé na frente dos portões do jardim do R.P.D.. O vandalismo foi terrível por ali. Carros
sucateados, barricadas destruídas, cones de emergência laranja espalhados pela rua, mas não havia corpos no
meio da bagunça. À sua direita havia um hidrante de rua que jorrava água para o céu. O gentil respingar de água
teria sido agradável em outra circunstância - num quente dia de verão, crianças rindo e brincando. Saber que
nenhum bombeiro ou funcionário viria consertar o hidrante a machucou por dentro, e pensar nas crianças... era
demais; ela bloqueou o pensamento, determinada a não pensar em coisas que não podia resolver. Ela já tinha
muitas preocupações.
Tais como estocar suprimentos... então o que você está esperando? Um convite por escrito?
Jill respirou fundo e empurrou os portões, franzindo com o ranger de metal enferrujado; ela abaixou sua arma,
aliviada, e cuidadosamente fechou os portões antes de ir para as pesadas portas de madeira do R.P.D.. Muitos
policiais morreram nas ruas, o que tornaria as coisas mais fáceis para ela, por mais terrível que parecia; não
haveriam muitos contaminados para encontrar ao entrar -
Sqreeak!
Atrás dela, os portões abriram. Jill girou, quase atirando na figura que entrou no pátio, até perceber quem era.
"Brad!".
Ele cambaleou na direção da voz dela, e viu que estava seriamente ferido. Ele apertava seu lado direito, sangue
pingando de seus dedos, um olhar de completo terror em seu rosto enquanto a alcançava com a outra mão, sem
fôlego.
"Juh - Jill!".
Ela foi até ele tão concentrada que quando Brad desapareceu de repente, Jill não entendeu o que tinha
acontecido. Uma parede preta tinha descido entre eles, uma escuridão que emitia um profundo e estrondoso
grito de fúria, que avançava sobre Brad e estremecia o chão a cada passo.
"Sstaarrss". A coisa disse claramente, a palavra quase escondida sobre o ondulante roncar de um animal
selvagem, e Jill sabia o que era mesmo antes de ver seu rosto; ela o conhecia como conhecia seus sonhos.
Tyrant.
Brad recuou, balançando a cabeça como se negasse a aproximação da criatura, andando em meio círculo e
parando quando suas costas tocaram tijolos. Na fração de segundo que levou para alcançá-lo, Jill pôde vê-lo de
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perfil; o tempo pareceu parar naquele instante, permitindo-a vê-lo de verdade, para ver que não era o seu
pesadelo, Tyrant, porém não menos terrível; de fato, era pior.
Entre dois e dois metros e meio de altura, humanóide, seu ombros impossivelmente largos, braços mais longos
do que deveriam ter sido. Somente suas mãos e cabeça eram visíveis, o resto de seu corpo era coberto de
preto, exceto pelo que pareciam ser tentáculos, cordas de carne pulsando levemente, metade debaixo do
colarinho, os pontos de origem escondidos. Sua pele sem pêlos era da cor e textura de uma pele mau
cicatrizada, e a face não parecia ter sido prioridade de seu criador. Olhos brancos e deformados estavam
situados abaixo do normal e separados por um irregular traçado de costura cirúrgica. Seu nariz era mau
formado, porém a característica dominante era a boca, ou a falta dela; a metade inferior de sua cabeça era de
dentes, gigantes e quadrados, sem lábios entre gengivas vermelho-escuras.
O tempo voltou ao normal quando a criatura esticou o braço e cobriu o rosto inteiro de Brad com a mão, ainda
rosnando enquanto Brad tentava dizer algo, ofegando alto sob a mão -
- e houve um horrível e molhado som de respingo, pesado, porém liso, como alguém socando um pedaço de
carne. Jill viu um tentáculo de carne saindo por trás do pescoço de Brad e entendeu que estava morto, que
sangraria em segundos. Boba, ela viu que o tentáculo estava mexendo, balançando como uma cobra cega,
gotas de sangue pingando de seu comprimento. O Tyrant apertou a mão contra o crânio de Brad e com um
único movimento, levantou o piloto morto e o jogou para o lado, retraindo o tentáculo assassino para dentro da
manga antes de Brad cair no chão.
"Sstaarrss". Ele disse de novo, virando para ela, Jill sentindo um medo que jamais sentiu.
A Beretta seria inútil. Ela virou e correu, cruzando as portas do R.P.D., fechando-as e trancando-as por dentro,
tudo por instinto; ela estava assustada demais para pensar no que estava fazendo, assustada demais para não
fazer nada além de se afastar da porta dupla assim que o monstro as golpeou, balançando-as nas dobradiças.
Elas resistiram. Jill estava parada, ouvindo o pulsar de sangue em seus ouvidos, esperando o próximo
empurrão. Longos segundos se passaram e nada aconteceu - e completos minutos passaram antes de ousar
desviar o olhar, e mesmo sabendo que estava acabado ela não ficou aliviada.
Brad estava certo, estava indo atrás deles - e agora que estava morto, estaria indo atrás ela.
[7]
Deus me ajude, eu finalmente vi com meus próprios olhos; Deus ajude todos nós.
Eles mentiram para nós. Dr. Robison e o pessoal da Umbrella deram uma coletiva no hospital essa manhã e
insistiram que não havia motivo para pânico - que os casos atendidos eram fatos isolados, que as vítimas
estavam sofrendo de gripe; de acordo com eles, a então chamada doença canibal que os S.T.A.R.S. estavam
investigando em Julho, é o que alguns cidadãos "paranóicos" estavam comentando agora. O Chefe Irons
também esteve aqui, ele apoiou os doutores e reiterou seus pontos de vista sobre a incompetência do
S.T.A.R.S.; caso encerrado, certo? Nada para se preocupar.
Nós estávamos voltando para o escritório depois da entrevista coletiva, indo à sul na Rua Cole, e havia uma
agitação no trânsito, alguns carros parados e uma pequena multidão. Nenhum policial na cena. Eu pensei que
fosse um pequeno acidente e comecei a desviar, mas Dave queria bater algumas fotos; ele ainda tinha dois rolos
de filme sobrando, porque não? Nós saímos do carro e de repente pessoas estavam correndo, gritando por
ajuda, e vimos três pedestres deitados no meio da rua, e sangue por toda parte. O agressor era jovem, quase
vinte anos, homem branco - ele estava sentado de pernas abertas ao lado de um homem mais velho, e...
Minhas mãos estão tremendo, eu não sei como dizer isso, mas é meu trabalho. As pessoas têm que saber. Eu
não posso deixar isso me abalar.
Ele estava comendo um dos olhos do homem mais velho. As outras duas vítimas estavam mortas, massacradas,
uma mulher mais velha e uma mais nova, ambas com gargantas e olhos ensangüentados. O abdômen da mais
nova tinha sido estripado.
Era o caos, histeria total - choradeira, gritaria e até gargalhadas insanas. Dave bateu duas fotos e depois
vomitou em si mesmo. Eu queria fazer algo, eu queria, mas as pessoas estavam mortas e eu estava com medo.
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O agressor parou de mastigar, enterrando seus dedos no outro olho do homem, sem se importar com mais nada;
ele ainda gemia como se estivesse insatisfeito, sangue por todo o corpo.
Nós ouvimos sirenes e recuamos como todos fizeram. A maioria foi embora, mas alguns ficaram, pálidos,
enjoados e assustados. Eu ouvi a história através de um lojista gorducho que não parava de espremer as mãos
- o jovem aparentemente apenas vagava pela rua e agarrou uma mulher, e começou a mordê-la. O lojista disse
que o nome da mulher era Joelle alguma coisa, andava com a mãe, Sra. Murray (ele não sabia o primeiro
nome). A Sra. Murray tentou impedir o ataque e o rapaz avançou nela. Dois homens tentaram ajudar,
empurrando o agressor, mas um deles também foi pego. Depois disso, ninguém tentou mais ajudar.
Os policiais chegaram e antes de olharem para a bagunça na rua - ou para aberração atacando o companheiro
do lojista no chão - limparam o local e o tornou seguro. Três viaturas cercaram o agressor, e o lojista não pôde
ver o que aconteceu. Mandaram ele fechar a loja e ir para casa, o mesmo que disseram para todos nós. Quando
disse para um dos policiais que eu e Dave éramos da imprensa, ele confiscou a câmera; disse que era
evidência, o que era uma total e completa besteira, como se tivessem o direito...
Ouçam-me, preocupado com a liberdade jornalística neste ponto. Não importa. Às quatro horas desta tarde,
uma hora atrás, o Prefeito Harris declarou lei marcial; bloqueios foram colocados por toda parte e fomos isolados
do resto do mundo. Segundo Harris, a cidade entrou em quarentena para que a "infeliz doença que está
flagelando nossas pessoas" não se espalhasse. Ele não a chamaria de doença canibal, mas não há dúvidas - e
de acordo com nossa freqüência policial, os ataques estão crescendo exponencialmente.
Eu acredito que já deva ser tarde demais para todos nós. A doença não é aerotransmissível ou a já teríamos
pego, mas os indícios sugerem que você a contrai ao ser mordido por um deles, igual nos filmes que eu
costumava assistir na seção dupla de terror quando pequeno. Isso explicaria o incrível crescimento dos ataques
- e também diz que se a cavalaria não vier logo, estaremos todos mortos, de um jeito ou de outro. A polícia
fechou a imprensa, mas eu tentarei espalhar o que sei nem que precise ir de porta em porta. Dave, Tom, Kathy,
Sr. Bradson - todos foram para casa ficar com a família. Eles não se importam mais em informar as pessoas, e é
tudo o que restou para mim. Eu não quero...
Era tudo. Carlos abaixou os papéis amassados que tinha achado, colocando-os na mesa do repórter, sua boca
uma linha apertada. Ele tinha matado dois zumbis no corredor... talvez um deles fosse o escritor, um doloroso
pensamento que fez tudo pior devido ao apelo emocional - quanto tempo demorou para o repórter mudar?
E se ele estiver certo sobre a doença, quanto tempo Randy ainda tinha?
Havia um rádio policial e algum tipo de receptor manual em cima de um balcão do outro lado da sala, mas de
repente só conseguia pensar em Randy, lá embaixo e piorando, esperando Carlos voltar. Ele agüentou bem até
aqui, conseguindo subir em duas barricadas com pouca ajuda, mas mau conseguindo ficar de pé sozinho ao
chegarem no prédio da imprensa de Raccoon. Carlos o tinha deixado no andar térreo debaixo de um telefone
público mudo, não querendo arrastá-lo para cima; alguns focos de incêndio pequenos estavam perto dos
primeiros degraus, e Carlos ficou com medo de Randy se queimar...
.. o que deveria ser a menor de suas preocupações agora. Puta, que confusão. Por que não nos disseram o que
estava acontecendo?
Carlos apagou o desespero que a pergunta tinha causado; era algo que resolveria com as autoridades
apropriadas quando saírem de lá. Ele provavelmente seria deportado, já que só estava no país através da
Umbrella, mas e daí? No momento, voltar à antiga vida soava como piquenique.
Ele correu para o equipamento de radio e o ligou, incerto do que fazer em seguida; ele nunca tinha usado um, e
sua única experiência com rádio de dois pontos foi com um par de walkie-talkies que usava para brincar quando
criança. 200 CHANELL MUITI-BAND estava escrito em cima do aparelho, e havia um botão para varredura. Ele
o apertou e observou o pequeno visor digital mostrar números sem sentido. Exceto por estática e alguns cliques,
nada aconteceu.
Ótimo. Ajudou muito.
O rádio era o que queria, e pelo menos parecia um walkie-talkie apesar de dizer AM/SSB TRANSCEIVER na
lateral. Ele o levantou, imaginando se haviam canais, ou se havia algum botão de memória -
- e ouviu passos no corredor. Um lento arrastar de pés.
Ele largou o rádio no balcão e empunhou seu rifle, virando para a porta, já reconhecendo os passos arrastados e
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sem destino de um zumbi. Aquela era a única sala aberta do segundo andar; a não ser que quisesse pular uma
janela, o corredor e as escadas eram a única saída. Ele teria que matá-lo para voltar...
Essa não, ele deve ter passado por Randy, e se ele foi pego? E se -
E se o zumbi for Randy?
"Não, por favor". Ele suspirou, mas uma vez considerada a possibilidade, não pode deixar de pensar nisso. Ele
andou para a porta, sentindo suor correr pelas costas de seu pescoço. Os passos continuaram, aproximando-se
- e foi um pé mancando que ele ouviu?
Por favor, não, eu não quero matá-lo!
Os passos pararam do lado de fora da porta - e então Randy Thomas apareceu, cambaleando, suas feições
nulas e livres de dor, fiapos de baba pendurados em seu lábio inferior.
"Randy? Pare aí, mano, tá bom?". Carlos ouviu a própria voz sair com um desolado medo. "Diga algo, tá bom
Randy?".
Um tipo de enjoada compreensão encheu Carlos quando Randy inclinou a cabeça para frente e continuou
avançando, levantando os braços. Um breve e borbulhante gemido emergiu de sua garganta, e foi o som mais
solitário que Carlos já pensou ter ouvido. Randy não o via de verdade, não entendia o que dizia; Carlos se tornou
comida e nada mais.
"Lo siento mucho". Carlos disse, e repetiu em inglês como se ainda restasse algo de Randy. "Eu sinto muito.
Agora durma, Randy".
Carlos mirou cuidadosamente e atirou, desviando o olhar assim que viu o grupo de buracos aparecerem bem
acima da sobrancelha direita de Randy, apenas ouvindo, sem ver o corpo de seu camarada caindo no chão. Por
um longo tempo ele simplesmente ficou quieto, de ombros caídos enquanto olhava para as próprias botas,
imaginando como tinha ficado tão cansado tão rápido... e dizendo a si mesmo que não havia nada que poderia
ter feito.
Finalmente, ele voltou para o rádio, apertando o interruptor e acionando o receptor manual com o polegar. "Aqui
é Carlos Oliveira, membro da equipe U.B.C.S. da Umbrella, esquadrão Alpha, Pelotão Delta. Estou no prédio da
imprensa de Raccoon. Alguém pode me ouvir? Nós fomos separados do resto do pelotão e agora nós - eu
preciso de ajuda. Requisito assistência imediata. Se você puder ouvir isso, por favor, responda".
Nada além de estática; talvez precisasse tentar canais específicos; ele podia passar de um em um e repetir a
mensagem. Ele desligou o rádio, olhando para todos os botões, e viu, estampado no endosso, ALCANCE DE 8
QUILÔMETROS.
O que significa que eu posso contatar qualquer pessoa na cidade, muito útil - exceto que ninguém irá responder
porque estão mortos. Como Randy. Como eu.
Carlos fechou os olhos, tentando pensar, tentando sentir qualquer coisa parecida com esperança. E lembrou de
Trent. Ele checou o relógio, percebendo a loucura que isso era, pensando que era a única coisa que ainda fazia
sentido; Trent sabia, ele sabia o que estava acontecendo e disse a Carlos para ir quando a casa caísse. Sem
Randy para se preocupar e sem um caminho para fora da cidade...
Grill 13, Carlos tinha um pouco mais de uma hora para achá-lo.
Jill tinha acabado de chegar na sala do S.T.A.R.S. quando o controle de comunicações no fundo da sala ganhou
vida. Ela bateu a porta e correu para ele, palavras jogadas no meio da estática.
"... é Carlos... Raccoon... fomos separados... pelotão... ajuda... assistência... se você puder ouvir... responda...".
Jill pegou o fone de ouvido e apertou o botão para transmitir. "Aqui é Jill Valentine, Esquadrão de Táticas
Especiais e Resgate! Não estou te escutando claramente, por favor, repita - qual é sua posição? Você me
ouve? Câmbio!?".
Ela franziu para ouvir algo, qualquer coisa - e viu que a luz sobre o botão de retransmitir não estava acesa. Ela
apertou vários botões e insistiu em retransmitir, mas a luz verde-clara se recusou a acender.
"Droga!". Ela não sabia nada sobre comunicações. Seja lá o que estivesse quebrado, ela não seria a pessoa
para concertar.
Bom, pelo menos eu não sou a única sem um remo no Riacho da Porcaria...
Suspirando, Jill soltou o fone de ouvido e virou para olhar o resto da sala. Exceto pelos papéis espalhados no
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chão, parecia a mesma sala de sempre. Algumas mesas cheias de arquivos, computadores, itens pessoais,
prateleiras sobrecarregadas, uma máquina de fax - e atrás da porta, o alto e reforçado cofre de aço de armas
que esperava não estar vazio.
Aquela coisa lá fora não morreria tão fácil. Aquele matador de S.T.A.R.S..
Ela tremeu, sentindo o nó de medo em sua barriga apertar e ficar mais pesado. O porquê de ele não ter
derrubado a porta e a matado, ela não sabia; ele era forte o bastante. Só de ter pensado nisso a fez querer
engatinhar para algum lugar escuro e se esconder. Ele tornou os zumbis que ela encontrou pelo caminho tão
perigosos quanto bebês. Não é verdade, claro, mas depois de ver o que aquele Tyrant fez com Brad...
Jill engoliu forte e tirou isso da mente. Esconder-se dele não iria ajudar.
Era hora de voltar aos negócios. Ela parou em sua mesa, pensando na última vez que se sentou lá. Ela era uma
pessoa totalmente diferente; parecia ter passado uma vida inteira desde então. Ela abriu a gaveta de cima e
começou a revira-la - e lá, atrás de uma caixa de clips de papel, estava o conjunto de ferramentas que sempre
manteve no escritório.
Isso! Ela pegou o pequeno embrulho de tecido e o desenrolou, olhando para as pinças e barras de torção com
um olho treinado. Às vezes, ter crescido como filha de um ladrão profissional valia a pena. Ela teve que atirar em
algumas portas nos últimos dias, o que não era tão fácil ou seguro como as pessoas achavam; ter um conjunto
de pinças decente seria de grande ajuda.
Além disso, eu não tenho a chave do cofre de armas - mas isso nunca me impediu antes. Ela praticava quando
ninguém estava por perto só para ver se conseguia, e sempre teve poucos problemas; o cofre era antigo.
Jill ajoelhou-se em frente à porta, inseriu a barra e a pinça, e gentilmente sentiu as engrenagens. Em menos de
um minuto, ela foi recompensada pelo esforço; a pesada porta abriu e lá, bem a vista, estava a resposta de aço
inox para uma de suas preces.
"Seja abençoado, Barry Burton". Ela suspirou, erguendo o pesado revólver da prateleira vazia. Uma Colt Python
357 Magnum, seis tiros com tambor móvel para fora. Barry era o especialista em armas do Alpha Team e
diga-se de passagem, totalmente maluco por armas. Ele já tinha levado Jill para atirar várias vezes, ele tinha
três, todas de calibres diferentes - mas a .357 era o xodó. Tê-la deixado para trás, por engano ou de propósito,
parecia um milagre... tanto como as vinte balas extras numa caixa no chão o cofre. Não havia balas de
espingarda, mas havia balas de 9mm soltas numa das gavetas.
Valeu a viagem - e com as pinças eu posso descer as escadas e procurar materiais confiscados na sala de
evidências...
As coisas estavam melhorando. Tudo o que precisava fazer era sair da cidade no escuro, evitar zumbis, animais
violentos geneticamente alterados e a criatura Tyrant que se auto proclamou a *nêmese para o S.T.A.R.S. Uma
Nêmese feita para ela.
Surpreendentemente, o pensamento a fez sorrir. Adicione uma forte explosão e tempo ruim à mistura e ela teria
sua própria festa.
"Whee". Ela disse suavemente, e começou a carregar a Magnum com suas instáveis mãos, e tem estado assim
há muito tempo.
[8]
Enquanto avançava com dificuldade pelo sistema de esgotos sob as ruas da cidade, Nicholai se viu fascinado
pelo cuidadoso planejamento da infra-estrutura de Raccoon. Ele estudou os mapas, claro, mas ver tudo em
primeira mão era outra coisa. A Umbrella tinha construído um parque de diversões perfeito; que infelicidade
terem arruinado tudo.
Havia várias passagens subterrâneas que conectavam as instalações pertencentes à Umbrella umas com as
outras, algumas mais óbvias que outras. Do subsolo do prédio da delegacia, ele entrou na rede de esgoto que o
levaria ao laboratório subterrâneo de vários andares onde a Umbrella fazia sua pesquisa mais séria. Pesquisas
também foram conduzidas no laboratório da mansão de Spencer em Raccoon Forest, e haviam três fábricas
"abandonadas" ou galpões de teste nos limites da cidade, mas os melhores cientistas trabalhavam na cidade e
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sob ela. Isso certamente tornaria seu trabalho mais fácil; ir de uma área para outra usando os subterrâneos seria
bem menos perigoso.
Mas não por muito tempo. Em dez ou doze horas, nenhum lugar será seguro. Os seres orgânicos que a
Umbrella usava eram mantidos sedados, cresciam em Raccoon e eram mandados à outros lugares para teste
em campo. Com a operação virtualmente arruinada, as criaturas fugiriam e tentariam achar comida; algumas
certamente já escaparam, e a maioria apareceria sem dúvida após terem perdido algumas injeções.
E não seria divertido? Um pouco de tiro ao alvo para saborear durante as buscas, e com munição para se
divertir.
Segurando o rifle sobre o cotovelo de seu braço direito, ele esticou o braço e deu um tapinha nos pentes extras
que pegou de Wersbowski; ele não pensou em checá-los antes, mas uma rápida olhada antes de descer nos
esgotos o deixou satisfeito. Os soldados da U.B.C.S. eram munidos de .233 completamente encapados,
projetados para irem diretamente ao alvo; Wersbowski tinha se equipado com pontos ocos, balas que em
contato expandiam e achatavam para causar maior dano. Nicholai já tinha planejado limpar o pequeno arsenal
do laboratório; com sessenta balas adicionais de HP poderia andar tranqüilamente...
.. que não é o caso agora...
A fria e suja água que corria pelos escuros túneis beirava seus joelhos e cheirava terrivelmente como urina e
mofo. Ele já cruzou com sete mortos e vivos, a maioria usando aventais da Umbrella, apesar de haverem alguns
civis também - pessoal da manutenção ou talvez almas azaradas que se aventuraram nos esgotos para saírem
da cidade. Ele desviou da maioria, tanto para não gastar munição quanto para não alertar alguém sobre sua
posição.
Ele chegou a uma junção em forma de "T" e virou à direita depois de procurar movimento nas duas direções.
Como na maior parte de sua viagem até agora, não havia nada além do suave bater de água poluída em pedras
cinzas e o reflexo da luz amarelada sobre a superfície oleosa. Era um úmido e miserável ambiente, e Nicholai
não deixava de pensar nas A334, as minhocas. Na reunião dos Watchdogs, elas foram descritas como
sanguessugas gigantes que nadavam na água em grupos, uma das mais novas criações da Umbrella. Ele tinha
medo e nojo de te que se deparar com elas, e odiava surpresas, odiava a idéia de que uma porção delas podia
estar deslizando na água agora, bocas abrindo, caçando o calor e a nutrição do sangue humano.
Quando viu o piso elevado no fim do túnel, sentiu vergonha o alívio que sentiu. Ele rapidamente bloqueou o
sentimento, preparando-se para o encontro; uma conferida no relógio enquanto saía da água disse que estava
bem na hora. A Dra. Thomlinson estaria reportando em dez minutos.
Nicholai se apressou pelo curto corredor à sua frente, irritado com o suave barulho de suas botas molhadas
enquanto alcançava a porta. Ele ouviu por um momento e nada; deu um leve empurrão na porta e ela abriu,
revelando uma sala vazia de descanso para funcionários - mesa, cadeiras, armários - e, presa na parede
oposta, uma escada de mão descendente. Ele entrou e fechou a porta gentilmente.
A escada descia para o pequeno depósito de onde a Dra. Thomlinson reportaria; um computador estaria
escondido sob alguns materiais de limpeza em uma das prateleiras. Se leu o mapa corretamente e considerando
que ela estaria vindo do laboratório, ela subiria através da pequena plataforma de elevador no canto da sala.
Nicholai sentou e esperou, tirando a mala do ombro e puxando o laptop; ele queria rever os mapas depois do
encontro com a boa doutora.
Thomlinson era pontual, chegando quatro minutos antes do horário previsto. Ao som do rangente motor, Nicholai
mirou o rifle no canto, descansando seu dedo no gatilho. Uma alta e despenteada mulher ergueu-se em visão,
um distraído olhar em seu rosto manchado. Ela vestia um sujo avental de laboratório e carregava uma arma que
mantinha apontada para o chão; obviamente esperava que seu ponto de contato fosse seguro.
Nicholai não deu chance para ela reagir à sua presença. "Largue a arma e saia da plataforma. Agora".
Ela era fria, ele tinha que admitir. Exceto pelo leve arregalar de olhos, não houve um sinal de alarme visível em
suas feições. Ela fez o que ele pediu, o cair da semi-automática alto enquanto dava alguns passos na quieta
sala.
"Algo novo para relatar, Janice?".
Ela o estudou, seu olhar castanho-claro o vasculhando enquanto cruzava os braços. "Você é um dos
Watchdogs". Ela disse. E não era uma pergunta.
Nicholai acenou. "Esvazie seus bolsos na mesa, doutora. Devagar".
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Thomlinson sorriu. "E se eu não fizer?". Sua voz foi grossa, profunda e sedutora. "Você vai... tirar de mim?".
Nicholai pensou por alguns segundos sobre o que ela estava sugerindo e apertou o gatilho, apagando seu
amável sorriso com um súbito cuspir de fogo. Realmente, ele não tinha tempo para aquele jogo particular, ele
devia ter atirado à primeira vista e não ter ficado tentado. Além disso, seus pés estavam gelados e molhados,
coisa que detestava; nada como botas molhadas para tornar um homem miserável.
Mesmo assim, era uma pena; ela era seu tipo, alta e cheia de curvas, sem dúvida inteligente. Ele andou até seu
esparramado corpo e pescou um disquete de seu bolso do peito, sem olhar para a confusão sangrenta que seu
rosto tinha virado, lembrando a si mesmo de que isso era trabalho.
Só restavam quatro. Nicholai colocou o disquete num saco plástico e o vedou, colocando na mala. Haveria
tempo para ver seu conteúdo mais tarde, depois que coletasse tudo.
Ele virou para o computador portátil e abriu os mapas do sistema de esgoto, franzindo enquanto traçava seu
próximo destino. Pelo menos outros seiscentos metros de caminhada pelo escuro antes de subir. Ele olhou para
a Dra. Thomlinson de novo e suspirou; talvez tenha cometido um erro. Uma rápida luta o teria aquecido... apesar
de não gostar de ter que matar uma mulher depois de ter se divertido com ela, de qualquer tipo; da última vez,
ele experimentou sentimentos de puro arrependimento.
Não importa. Ela estava morta, ele tinha as informações e era hora de continuar. Quatro restando, e poderia
esquecer do trabalho pelo resto de sua vida extremamente rica, investindo nos prazeres que os pobres só
podiam sonhar.
Carlos sabia que estava perto. Da área perto do prédio da imprensa, onde toda a sinalização começava com
norte, ele acabou perdido numa série de becos à leste - o que deveria ser o centro comercial que Trent
mencionou.
Ele disse centro comercial, nordeste... mas onde está o teatro? E ele disse algo sobre uma fonte não foi?
Carlos parou na frente de uma barbearia no cruzamento de dois becos, já incerto para onde ir. Não havia placas
e a luz do dia já tinha dado seu último suspiro; estava completamente escuro e só tinha dez minutos antes das
19 horas, graças a um erro que o fez voltar para a área industrial da cidade - nada que pudesse ser considerada
como tal, como Trent havia colocado. Dez minutos... e depois? Quando encontrar o desconhecido Grill 13, o que
deveria acontecer? Trent disse algo sobre ajudar... será que Trent ainda poderia fazer algo caso chegasse
atrasado?
Seguir à esquerda o faria voltar para a imprensa, ele pensou - ou seria para trás? Bem à frente, só havia uma
porta que ainda não tinha tentado, valia a pena dar uma olhada -
Ele não o viu chegar, porém ouviu.
Ele tinha dado um único passo quando a porta atrás dele abriu fortemente - e a coisa era tão rápida que ele
ainda estava se virando, levantando o rifle em reação ao som quando a coisa o alcançou.
Mas que -
Uma onda de fétida escuridão, uma impressão de garras escuras e brilhantes e corpo como o exoesqueleto de
um forte inseto gigante -
- e algo rasgou o ar a centímetros de distância de seu rosto, teria acertado se não tivesse recuado um passo.
Carlos tropeçou em seu próprio pé e caiu, olhando com um espanto aterrorizado quando alguma coisa voou
sobre seu rosto voltado para cima, saltando ligeiramente para a parede à sua direita e continuando a correr de
lado a lado, aderindo nos tijolos num desengonçado galope. Apavorado, Carlos a acompanhou até onde seu
pescoço permitiu, de cotas no chão, vendo enquanto a coisa girava em suas últimas três pernas e pulava no
chão.
Ele podia simplesmente ter esperado ser alcançado, incapaz de acreditar em seus olhos mesmo enquanto a
criatura estapeava uma de suas seis pernas com longas e afiadas garras em seu pescoço, mas apenas gritou -
e o triunfante gemido que emergiu de sua curva e inumana cara inchada foi o suficiente para fazer Carlos se
mover.
Num piscar, Carlos rolou até se ajoelhar e abrir fogo na apressada e berrante coisa, sem perceber que também
estava gritando, um baixo e rouco grito de terror e descrença. A criatura cambaleava enquanto as balas
perfuravam sua quebradiça carne, seus membros abanando para todos os lados, a qualidade de seu berro
mudando para um furioso uivo de dor. Carlos continuou, espirrando mortais metais quentes na criatura,
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continuando mesmo depois de tê-la derrubado e só se movendo por causa dele, as balas chacoalhando seu
flácido corpo. Ele sabia que estava morta, mas não conseguia para de atirar até a M16 secar e o beco voltar ao
silêncio, com exceção de sua torturada respiração. Ele recuou contra a parede, trocou o pente da metralhadora e
tentou desesperadamente entender o que diabos tinha acabado de acontecer.
Ele finalmente se recuperou o bastante para se aproximar da coisa morta - estava morta; até um inseto gigante
do tamanho de um homem com seis pernas e que subia em paredes morria quando seu cérebro vazava do
crânio. Era uma verdade com a qual podia contar no meio daquela loucura.
"Mais morto que merda". Ele disse, olhando para o contorcido corpo da criatura, e por só um segundo, sua
mente tentou fazê-lo negar o que estava vendo. Zumbis já eram uma coisa ruim, e finalmente recusou o fato de
que Raccoon tinha sido tomada por mortos-vivos; eles só estavam doentes, a tal doença canibal que havia lido,
porque essa coisa de zumbi só acontecia nos filmes. Do mesmo jeito que não existiam monstros nem insetos
assassinos gigantes com garras que subiam nas paredes e gritavam daquele jeito -
"No hay piri". Ele suspirou seu velho lema, a expressão soando como um apelo desta vez, seus pensamentos
seguindo um tipo de oração desesperada, Não transpire, relaxe, fique frio. E depois de um tempo se acalmou;
seu coração desacelerou para quase normal, e começou a se sentir como uma pessoa de novo, e não um
animal aterrorizado que perdeu a cabeça.
Então havia monstros em Raccoon City. Não devia ser uma surpresa, não depois do dia que teve; além disso,
eles morriam como qualquer outra coisa, certo?".
Ele não sobreviveria se perdesse a cabeça, e já tinha passado por muitas coisas para desistir agora.
Com isso, Carlos deu as costas para o monstro e andou pelo beco, forçando a si mesmo a não olhar para trás. O
monstro estava morto e ele estava vivo, e havia boas chances de haverem mais por aí.
Trent pode ser minha única saída, e agora só me resta... droga! Três minutos, ele só tinha três malditos minutos.
Carlos saiu em disparada, subindo alguns degraus até uma única porta no final do beco, cruzando-a - e chegou
numa espaçosa e bem iluminada cozinha. Uma cozinha de restaurante.
Uma rápida olhada em volta e não havia ninguém, e estava silencioso com exceção de um leve soprar de gás de
um grande cilindro na parede de trás. Ele respirou fundo, mas não sentiu cheiro de nada; talvez seja outra coisa
-
- e não sairia daqui mesmo que fosse gás tóxico nervoso. Tem que ser aqui, esse é o lugar que Trent pediu que
eu viesse.
Ele andou pela cozinha, passando pelas bancadas e fogões de metal brilhante, indo para o salão principal. Havia
um cardápio numa das bancadas com GRILL 13 escrito na frente com letras douradas. Era assustador o quanto
aliviado se sentia; em questão de horas, Trent passou de um estranho esquisito para seu melhor amigo no
mundo.
Eu consegui, e ele disse que podia ajudar - talvez uma equipe de resgate estivesse a caminho ou marcou para
me buscarem aqui... ou talvez houvessem armas guardadas lá na frente, não tão bom quanto uma evacuação,
mas eu pegarei o que puder.
Havia uma abertura na parede que divida a cozinha do salão, um balcão por onde os cozinheiros passavam os
pedidos. Carlos podia ver que o pequeno salão ligeiramente mais escuro estava vazio, apesar de ter levado um
tempo para ter certeza; a chama dançante de uma lamparina a óleo ainda queimava sobre o balcão, projetando
inquietas sombras.
Ele contornou a parede divisória através da passagem lateral e entrou no salão, notando um suave cheiro de
comida frita no frio ar enquanto procurava. Ele não sabia ao certo o que esperar e definitivamente não via -
nenhum envelope em branco em cima de uma mesa, nenhum pacote misterioso, nenhum homem vestindo um
sobretudo esperando. Havia um telefone público perto da entrada principal; Carlos andou até lá e pegou o
receptor, e como todos os outros da cidade, estava mudo.
Ele checou o relógio pela que parecia ser a milésima vez na última hora e viu que era 19:01h - e sentiu uma
onda de raiva e frustração que só servia para aumentar seu medo. Estou sozinho, ninguém sabe que estou aqui
e ninguém pode me ajudar.
"Estou aqui". Ele disse, virando para a sala vazia, sua voz aumentando. "Eu cheguei, estou no horário e onde
diabos está você?".
Como resposta, o telefone tocou, o estridente som fazendo-o pular. Carlos foi desajeitado até ele; seu coração
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batendo abobalhado, seus joelhos de repente fracos de esperança.
"Trent? É você".
Uma breve pausa e a suave e musical voz de Trent invadiu seu ouvido. "Hola, Sr. Oliveira! Estou tão feliz em
ouvir sua voz!".
"Cara, nem metade do quanto estou em ouvir a sua". Carlos se apoiou na parede segurando o receptor bem
apertado.
"Isso aqui é uma baita encrenca, amigo, todo mundo está morto e há coisas lá fora, como - tem monstros, Trent.
Você pode me tirar daqui? Me diga que sim!".
Houve outra pausa e Trent suspirou, um pesado som. Carlos fechou os olhos já sabendo o que ouviria.
"Sinto muito, mas isso está fora de cogitação. O que eu posso é dar informações... mas sobreviver é com você.
E eu temo que as coisas possam ficar piores, muito piores antes de melhorarem".
Carlos respirou fundo e acenou para si mesmo, sabendo que isso já era o de se esperar. Ele estava por conta
própria.
"Tá bom". Ele disse e abriu os olhos, erguendo os ombros e acenando de novo. "Pode falar".
______________________
*Nêmese ou nêmesis - Castigo. Deusa grega da vingança. Nemesis em inglês.
______________________
[9]
Comentários, descrição de delito relatado - 29-087:
Duas das doze pedras preciosas que fazem parte do "relógio fechadura" do portão ornamental principal da
prefeitura, foram removidas entre (aproximadamente) 21:00h de ontem (24 de Setembro) e 5:00h desta manhã.
Como o comércio local está fechado durante esse horário, saqueadores estão danificando propriedade pública e
levando o que lhes parece valioso. O presente oficial acredita que o delinqüente pensou que as jóias fossem
reais, e parou depois de remover duas (uma azul e outra verde) quando ele/ela percebeu que eram de vidro.
Esse portão (portão da "prefeitura") é uma das várias entradas/saídas que levam ao complexo municipal. O
portão está agora trancado devido ao seu complicado (e na opinião do presente oficial, ridículo) mecanismo, o
qual requer a presença de todas as pedras para ser destrancado. Essa entrada/saída permanecerá trancada até
o poder público remover o portão ou até as duas pedras forem achadas e reinstaladas. Devido à falta de
potencial efetivo nesse momento, não há escolha se não suspender a investigação do caso.// oficial relator
Marvin Branagh.
Comentários adicionais, caso 29-087, M Branagh
26 de Set. - Uma das jóias perdidas (azul) apareceu dentro do prédio do R.P.D.. São 20:00h. Bill Hansen, o
falecido proprietário do restaurante Grill 13, estava aparentemente carregando a falsa jóia quando veio aqui
procurando abrigo no começo da noite. O Sr. Hansen morreu um pouco depois de chegar, morto a tiros por
policiais depois de sucumbir aos efeitos da doença canibal. A jóia foi achada em seu corpo, apesar de eu
do presente oficial não ter como saber se ele a roubou ou onde a outra possa estar.
Com a cidade agora sob lei marcial, nenhum esforço será feito para encontrar a segunda jóia ou para recolocar a
primeira - mas com várias ruas em volta do complexo bloqueadas, a necessidade dessas jóias pode até certo
ponto tornar-se relevante.
Anotação: este será meu último relatório escrito até a atual crise ser resolvida. Trabalho escrito não parece -
agora, a necessidade de documentar delitos parece secundária sob a vigência da lei marcial, tal como estar
sozinho nesse serviço.
Marvin Branagh, R.P.D.
Jill colocou o relatório datilografado e o anexo escrito à mão de volta na gaveta de evidências, tristemente
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imaginando se Marvin ainda estava vivo; parecia improvável, o que era um deprimente pensamento. Ele era um
dos melhores oficiais no R.P.D., sempre bondoso sem sacrificar a conduta profissional.
Um profissional de primeira. Maldita Umbrella.
Ela tirou da gaveta uma peça de vidro azul em forma de losango, olhando-a pensativamente. O resto da sala de
evidências foi um fracasso, os armários trancados e gavetas sem nada útil como arma; certamente não foi a
única que pensou em vasculhar a sala. A jóia, por outro lado...
Marvin estava certo sobre as ruas estarem bloqueadas em volta do portão da Prefeitura; ela havia tentado cruzar
a área e encontrou quase tudo bloqueado. Não que houvesse muita coisa por lá - o portão dava num pequeno
jardim com trilhas pavimentadas, tudo bem arranjado para apenas uma estátua sem graça do ex-prefeito
Michael Warren. Depois dela vinha a Prefeitura, não muito usada desde que construíram a nova corte judicial na
zona residencial. No final, a trilha se dividia em duas, uma à norte e a outra à oeste - um posto de
abastecimento com oficina e lojas de carros usados à norte, e a oeste...
"Ah, não, o bonde!".
Porque ela não havia pensado nisso antes? Jill sentiu uma onda de excitação, diminuída de leve pela vontade de
dar um tapa na testa. Ela tinha se esquecido completamente do caminho. O velho bonde de dois carros era
coisa de turista, mas ia para os subúrbios mais à oeste, depois do parque da cidade e através de alguns dos
mais caros bairros. Havia um suposto complexo abandonado da Umbrella por esse caminho também, onde
ainda poderia haver carros funcionando e estradas livres. Considerando que o bonde estivesse em condições de
correr, esse seria o jeito mais fácil para sair da cidade de mãos abaixadas.
Exceto pelas barricadas, o único jeito de chegar até lá é através do portão - e eu só tenho uma das jóias.
Ela não tinha ferramentas para derrubar o grande e pesado portão sozinha... mas o relatório de Marvin dizia que
Bill Hansen estava com a jóia azul, e seu restaurante só estava a três ou quatro quarteirões dali. Não havia
como saber se também estava com a verde ou se estava no Grill, mas valeria a pena verificar. Se não estiver lá,
não pioraria as coisas, mas se conseguir achá-la, poderá sair da cidade mais cedo do que esperava. Com
Nemesis andando por aí, poderá não ser cedo o bastante.
Então estava decidido. Jill virou e andou para a porta, colocando a jóia azul na bolsa. Ela queria checar a sala de
revelação do R.P.D. antes de partir, ver se conseguia achar um daqueles coletes de fotógrafo; ela não tinha
nenhum carregador rápido para a Colt, e queria alguns bolsos para carregar as balas soltas. Ela pensou em
deixar a espingarda para trás. Jill tinha improvisado um suporte no ombro usando o cinto de um homem morto, e
carregá-la era ruim, ainda mais sem munição - e a .357 como fogo adicional - ela não via motivos para
carregá-la mais...
Ela saiu no corredor e foi para a esquerda, deliberadamente não olhando para um corpo caído sob a janela sul.
Era uma jovem mulher que havia matado da escada, e tinha quase certeza de que conhecia a garota - uma
secretária/recepcionista que trabalhava no balcão de entrada nos fins de semana, Mary alguma coisa. A sala de
revelação ficava em frente ao vão sob a escada; ela teria que passar a alguns centímetros do corpo, mas achou
que conseguiria evitar olhar de perto caso ela -
CRASH!
Duas das janelas implodiram, espirrando cacos de vidro sobre o corpo da recepcionista, pedaços dele
arranhando as pernas descobertas de Jill. No mesmo instante, uma gigante massa negra se arremessou para
dentro, maior que um homem, do tamanho de -
- um matador de S.T.A.R.S. -
Foi tudo que pensou no tempo que teve, Jill recuou pelo caminho que veio, se jogando na porta da sala de
evidências, enquanto atrás dela, vidro foi esmagado assim que se levantava, ouviu a nota inicial de seu único
objetivo, "SSst -".
Ela correu, tirando o pesado revólver de sua cintura, cruzando a sala de evidências até a outra porta e entrou na
sala da equipe de patrulha. Uma curva fechada para a esquerda assim que entrou e mesas passaram, cadeiras,
estantes e uma mesa derrubada com respingos de sangue e fluídos de pelo menos dois policias, seus corpos
caídos apenas obstáculos em seu caminho.
Jill pulou sobre eles, ouvindo a porta abrindo, não, desintegrando atrás dela, o som de destroços e madeira
quebrando sem conseguir abafar a fúria de Nemesis.
Vaivaivairápido -
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Ela abriu a porta correndo, ignorando a pontada de dor que envolveu seu ombro ralado, virando para a direita
quando pisou no saguão.
Shhh-BOOM!
Um clarão de luz e fumaça voou depois dela, explodindo um irregular buraco no chão a menos de um metro
dela. Estilhaços de mármore queimado e cerâmica voaram, estourando no ar como uma fonte de barulho e
calor.
Jesus, ele está armado!
Ela correu mais rápida, descendo a rampa lateral para o piso rebaixado do saguão, lembrando que tinha
trancado as portas da frente, a lembrança como um soco no estômago. Ela nunca conseguirá abri-las a tempo,
sem chance -
- e BOOM, outra explosão do que parecia ser um lança-granadas ou algo maior, perto o bastante a ponto de
sentir o vento perto de sua orelha direita, pôde ouvir o sopro da incrível velocidade pouco antes das portas se
escancararem à sua frente. Elas ficaram penduradas pelas dobradiças, balançando enquanto ela corria pelo
escuro frio da noite.
"Ssstaarrrsss!".
Perto, muito perto. Instintivamente, Jill sacrificou um segundo de velocidade e pulou para o lado, tirando os pés
do chão, mau percebendo que o corpo de Brad havia sumido e sem se importar. Mesmo enquanto pousava,
Nemesis passou por ela, atropelando o espaço que ocupava um instante antes. Sua desaceleração custou
vários passos, ele era rápido, mas pesado demais para parar, seu tamanho monstruoso dando-a o tempo que
precisava. Um rangido enferrujado e cruzou os portões, batendo-os em seguida, tirando a espingarda das
costas.
Ela virou e colocou a arma entre os puxadores do portão, ambos rachando contra o cano antes que ela tivesse
tempo de soltá-la, atrás dos portões, Nemesis gritava de raiva animal, um demoníaco som de sede por sangue
tão forte que Jill estremeceu compulsivamente. Ele estava gritando por ela, era o pesadelo de novo, ela estava
marcada para morrer.
Jill virou e correu, o grito sumindo atrás dela.
Quando Nicholai viu Mikhail Victor, soube que teria de matá-lo. Tecnicamente, não havia motivo, mas a
oportunidade era muito atraente para deixá-la passar. Por alguma sorte, o líder do pelotão D conseguiu
sobreviver, uma honra que não merecia.
Nós vamos cuidar disso...
Nicholai estava se sentindo bem; ele estava à frente da programação que tinha feito para si mesmo, e o resto de
sua jornada pelos esgotos foi tranqüila. Seu próximo alvo era o hospital, o qual podia alcançar rapidamente se
usasse o bonde em Lonsdale Yard; ele tinha tempo suficiente para descansar por alguns momentos, pausando
sua perseguição. Ter voltado à superfície e ver Mikhail do outro lado da rua, de cima de uma dos prédios da
Umbrella - um alvo perfeito - era como uma recompensa cósmica por seu trabalho até agora. Mikhail nunca
saberia o que o acertou.
O líder de pelotão estava dois andares abaixo, de costas para a parede do barracão de um ferro-velho enquanto
trocava a munição. Uma luz de segurança, seu brilho ofuscado com o intenso movimento de insetos noturnos,
iluminando claramente sua posição - e tornaria impossível identificar seu assassino.
Bom, você não pode ter tudo; sua morte teria que ser o suficiente.
Nicholai sorriu e ergueu a M16, saboreando o momento. Uma fria brisa noturna balançou seu cabelo enquanto
estudava a vítima, notando com muita satisfação o medo no rosto de Mikhail. Um tiro na cabeça? Não; com
chances de Mikhail ser infectado, Nicholai não perderia a ressurreição. Ele também teria tempo o bastante para
observar. Ele abaixou o cano milimetricamente, avistando uma das joelheiras de Mikhail. Muito doloroso... mas
ele ainda usaria os braços e provavelmente atiraria às cegas; Nicholai não queria arriscar ser baleado.
Mikhail tinha terminado de inspecionar o rifle e estava olhando em volta como se planejasse o próximo passo.
Nicholai mirou e atirou, um único tiro, extremamente feliz com sua decisão ao ver o líder de pelotão se reclinar,
agarrando a barriga -
- e de repente, Mikhail se foi, contornando a esquina de um prédio e sumindo. Nicholai pôde ouvir os passos no
cascalho desaparecendo.
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Ele xingou baixo, apertando os dentes com frustração. Ele queria ter visto o homem se contorcendo, sofrendo
com o doloroso e certamente fatal ferimento. Parecia que os reflexos de Mikhail não eram tão pobres quanto
pensava.
Então, ele morre em algum lugar no escuro ao invés de onde eu possa vê-lo. O que isso significa? Não que eu
não tenha outra coisa para ocupar meu tempo...
Não tinha funcionado. Mikhail estava seriamente ferido e Nicholai queria vê-lo morrer. Só levaria alguns minutos
para achar o rastro de sangue e persegui-lo - uma criança poderia fazer isso.
Nicholai sorriu. E quando eu achá-lo, poderei oferecer ajuda, bancar o camarada preocupado - quem fez isso
com você, Mikhail? Aqui, deixe-me ajudá-lo...
Ele virou e correu para a escada, imaginando o olhar de Mikhail ao descobrir quem foi o responsável por sua
situação, ao compreender seu fracasso como líder e homem.
Nicholai imaginou o que tinha feito para merecer tanta alegria; até agora, aquela havia sido a melhor noite de
sua vida.
Quando a conversa terminou, a linha ficou muda e Carlos sentou-se num dos assentos, pensando nas coisas
que Trent lhe havia dito. Se tudo o que disse era verdade - e Carlos acreditava que sim - a Umbrella teria muito
que responder.
"Por que você está me contando tudo isso?". Carlos tinha perguntado logo no fim, sua cabeça girando. "Por que
eu?".
"Porque eu estive vendo a sua ficha". Trent respondeu. "Carlos Oliveira, mercenário por contrato - exceto por
sempre ter lutado pelo lado bom, sempre do lado dos fracos e oprimidos. Já arriscou a vida duas vezes em
assassinatos, ambos bem sucedidos - um tirano traficante de drogas e um pedófilo, se não me falhe a memória.
E nunca oprimiu um civil, nenhuma vez. A Umbrella está envolvida em práticas extremamente imorais, Sr.
Oliveira, e você é exatamente o tipo de pessoa que deveria estar trabalhando para impedi-los".
De acordo com Trent, o T-virus da Umbrella - ou G-virus, aparentemente havia dois tipos - foram criados e
usados em monstros caseiros para torná-los armas vivas. Quando humanos são expostos ao vírus, contraem a
doença. E Trent disse que os administradores da U.B.C.S. sabiam para onde estariam enviando seu pessoal e
provavelmente o fizeram de propósito - tudo em nome da pesquisa.
"Os olhos e ouvidos da Umbrella estão por toda parte". Trent disse. "Como eu disse antes, tome cuidado em
quem confia. É sério, ninguém é seguro".
Carlos se levantou da mesa abruptamente e andou para a cozinha, perdido com pensamentos. Trent havia se
recusado a falar sobre seus motivos para derrubar a Umbrella, apesar de Carlos ter tido a impressão de que
Trent também trabalhava para a corporação; isso explicaria por que era tão reservado.
Ele está sendo cuidadoso, protegendo o pescoço - mas como poderia saber de tanto? As coisas que me disse...
Uma confusão de fatos, alguns pareciam totalmente arbitrários - havia uma jóia verde falsa na câmara fria sob a
cozinha; Trent disse que fazia parte de um par e se recusou a dizer onde a outra estava ou porque eram tão
importantes.
"Apenas faça-as terminarem juntas". Trent havia dito - como se Carlos fosse achar a outra por acaso. "Quando
achar a azul terá sua explicação".
Por mais enigmaticamente inútil que isso parecia ser, Trent também disse que a Umbrella tinha dois helicópteros
no complexo de tratamento de água abandonado à oeste e norte da cidade. Talvez o mais útil de tudo foi Trent
ter dito que havia uma vacina sendo produzida no hospital da cidade, e apesar de ainda não ter sido sintetizada,
havia pelo menos uma amostra lá.
"Apesar de haverem boas chances do hospital não ficar lá por muito tempo". Ele disse, deixando Carlos imaginar
de novo como Trent ficou sabendo. O que acontecerá? E como Trent sabia disso?
Trent parecia achar a sobrevivência de Carlos importante; ele parecia confiante de que Carlos seria uma parte
significante da luta contra a Umbrella, mas Carlos ainda não tinha certeza do porquê, nem se queria entrar
nessa. No momento, tudo o que queria era sair da cidade... mas por algum motivo Trent havia decidido oferecer
informações, e Carlos estava agradecido.
Se bem que um pouco mais teria sido melhor - chaves para um carro de fuga blindado, talvez, ou algum tipo de
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spray antimonstro.
Carlos ficou parado na cozinha, olhando para o aparentemente pesado alçapão onde deveria estar a escada do
porão. Trent também disse que provavelmente havia mais armas em uma torre do relógio, não muito longe do
hospital; isso e os helicópteros a norte do hospital e da torre do relógio, definitivamente útil.
Mas por que me deixar vir até aqui se sou tão importante? Ele poderia ter me parado a caminho da base.
Muito daquilo não fazia sentido, e Carlos estava querendo apostar que Trent não tinha contado tudo. Carlos não
tinha escolha se não confiar um pouco nele, mas iria tomar cuidado ao depender das informações de Trent.
Carlos agachou próximo ao alçapão, agarrou as alças e puxou. Era pesada, mas podia agüentar, inclinando para
trás e usando as pernas para se equilibrar. A não ser que os cozinheiros fossem fisiculturistas, deveria haver um
pé-de-cabra em algum lugar por ali.
A porta principal do restaurante abriu e fechou. Carlos colocou a tampa de lado e virou, ainda agachado, M16
apontada para a entrada da cozinha. Ele não achava que zumbis fossem capazes de abrir portas, não tinha idéia
do que podiam fazer ou quem mais poderia estar andando por aí.
Lentos e cuidadosos passos vinham na direção da cozinha. Carlos prendeu a respiração, pensando em Trent,
imaginando de repente se ele tinha planejado -
- e a última coisa que esperava ver era um revólver .357 aparecendo, empunhado por uma atraente e
extremamente séria mulher que entrou rápida e abaixada, mirando em Carlos antes que pudesse piscar.
Por um segundo, eles se olharam, parados, e Carlos pôde ver nos olhos dela que não hesitaria em atirar se
achasse necessário. Sendo que se sentia do mesmo jeito, ele decidiu que seria melhor se apresentar.
"Meu nome é Carlos". Ele disse claramente. "Eu não sou um zumbi. Calma aí, tá?".
A garota o estudou por um momento, e acenou devagar, abaixando o revólver. Carlos tirou o dedo do gatilho e
fez o mesmo enquanto ambos se erguiam, cuidadosamente.
"Jill Valentine". Ela disse, e parecia começar a dizer algo quando a porta dos fundos abriu à força, a forte
trovoada somada ao som de um grito profundo e quase humano que levantou os pelos das costas do pescoço
de Carlos.
"Sstaarrsss!". Seja lá o que tinha berrado, o grito ecoou pelo restaurante, gigantes passos pulsando na direção
deles, implacáveis e decididos.
[10]
Não havia tempo para perguntas, sem tempo para imaginar como a tinha achado tão rápido. Jill acenou para o
jovem rapaz ficar atrás dela; ela procurou desesperadamente em volta por algo que poderia distraí-lo enquanto
fugiam. Eles se abaixaram atrás da abertura na parede, Carlos se movendo como se tivesse experiência; ao
menos ele tinha o bom senso de ficar quieto enquanto o assassino de S.T.A.R.S. aparecia na cozinha, ainda
gritando.
Fogo! Havia uma lamparina a óleo em cima da abertura. Jill não hesitou; ele os alcançaria em segundos se não
agisse imediatamente, e talvez um pouco de óleo incandescente o retardaria.
Ela acenou para Carlos ficar abaixado, erguendo a lamparina e levantando-se, apoiando-se na abertura e
armando o braço para trás. O volumoso Nemesis tinha acabado de aparecer na cozinha quando ela atirou a
lamparina, grunhindo com a força que levou para vencer a distância.
A lamparina voou e então tudo desacelerou, tanta coisa acontecendo que sua mente a mostrava um fato por
vez. A lamparina quebrou nos pés do monstro, vidro e óleo respingando e empoçando, um raso lago de fogo se
espalhando; a criatura ergueu seus grandes punhos gritando de raiva; Carlos gritou e agarrou sua cintura,
derrubando-a, o desajeitado movimento levando os dois ao chão -
- e houve um poderoso estouro de brilho e som, o segundo desde que acordou, um deslocamento de ar que
martelou seus ouvidos, e Carlos estava tentando protegê-la, segurando-a no chão enquanto dizia algo em
espanhol, enquanto o tempo voltava ao normal e algo começava a queimar.
Deus, de novo? Desse jeito, a cidade inteira vai explodir... O pensamento foi vago e desorientado, sua mente
confusa até lembrar de respirar. Uma profunda inalação e Jill empurrou os braços de Carlos levantando-se,
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precisando ver.
A cozinha estava estourada, escurecida e com utensílios e panelas para todo lado. Ela viu vários cilindros na
parede do fundo, um deles a provável origem da explosão, o metal fumegante contorcido como pétalas abertas.
Uma forte fumaça subia do ardente corpo no chão, Nemesis deitado como um gigante caído, suas roupas pretas
chamuscadas e queimadas. Ele não se movia.
"Sem ofensas, mas você tem algum problema?". Carlos perguntou, olhando para ela como se a pergunta fosse
retórica. "Você podia ter feito churrasco da gente!".
Jill olhava para Nemesis, ignorando Carlos, a .357 apontada para suas pernas imóveis; sua cabeça e tronco
estavam escondidos por uma baixa estante. A explosão foi forte, mas depois de tudo o que pensou, preferiu ter
certeza antes de deduzir qualquer coisa.
Atire, atire enquanto está deitado, você pode não ter outra chance -
Nemesis se mexeu, um leve movimento nos dedos da mão que podia ver, e os nervos de Jill dispararam. Ela
queria sair, queria estar bem longe antes de se levantar, antes de se recuperar da explosão como certamente
iria.
"Nós temos que sair agora". Ela disse, virando para Carlos. Jovem, bonito, obviamente inabalado pela explosão,
ele hesitou depois acenou, segurando sua metralhadora apertada contra o peito. Parecia uma M16, militar, e
estava vestido para combate - um com sinal.
Espero que haja mais de onde você veio, Jill pensou, indo para a porta em ritmo acelerado. Carlos bem atrás.
Ela tinha muitas perguntas para ele e percebeu que ele também deveria ter algumas para ela... mas podiam
conversar em outro lugar. Qualquer lugar onde podiam ficar seguros. Qualquer lugar.
Assim que saíram, Jill não pôde se conter; ela saiu em disparada, o jovem soldado a acompanhando, correndo
pelo frio escuro da morta cidade enquanto imaginava se havia qualquer lugar onde poderiam ficar seguros.
A garota, Jill, correu por um quarteirão antes de diminuir. Ela parecia saber aonde ia, e obviamente tinha algum
tipo de treinamento policial, talvez, apesar daquele jamais ser o uniforme. Carlos estava desesperadamente
curioso, mas guardou sua respiração, concentrando-se em acompanha-la.
Do restaurante, eles desceram a rua, passando pelo teatro que Trent havia mencionado, virando à direita depois
da fonte decorativa; mais meio quarteirão e Jill indicou uma porta para varredura padrão. Carlos acenou,
parando de um lado da porta, rifle apontado para cima.
Jill puxou a maçaneta e Carlos entrou, pronto para atirar em qualquer coisa que se mexer, Jill cobrindo-o. Eles
estavam em algum tipo de armazém, no final de uma passarela que terminava em forma de "T" quinze metros à
frente. Parecia vazio.
"Deve estar vazio". Jill disse baixo. "Eu vim por aqui minutos atrás".
"Melhor prevenir do que remediar, né?". Carlos disse, de arma para o alto e sentindo parte da tensão abandonar
seu corpo. Ela era definitivamente profissional.
Eles avançaram pelo armazém, checando cuidadosamente antes de dizer outra palavra. Estava frio e mau
iluminado, porém não cheirava tão mau quanto o resto da cidade, e parados no meio da junção em "T", eram
capazes de ver qualquer coisa se aproximando antes de pegá-los. No geral, parecia o lugar mais seguro no qual
esteve desde o helicóptero.
"Eu queria perguntar algo caso não se importe". Jill disse finalmente, voltando toda sua atenção para ele.
Carlos abriu a boca para falar e as palavras apenas saíram. "Você vai me convidar para sair, não é? É o
sotaque, as garotas adoram o sotaque. Vocês o ouvem e não conseguem se agüentar".
Jill o encarou, seus olhos largos, e por um momento ele pensou ter cometido um erro, ela não perceberia que
estava brincando. Foi uma estupidez fazer piadas sob essas circunstâncias. Assim que estava para se
desculpar, o canto da boca dela ergueu um pouco.
"Eu pensei que você não fosse um zumbi". Ela disse. "Mas se é o melhor que pode fazer, talvez deva reavaliar
sua situação".
Carlos sorriu, deliciado com a resposta - e de repente pensou em Randy, de suas brincadeiras antes de pousar
em Raccoon. Seu sorriso apagou e viu o brilho de humor deixar o rosto dela também, como se lembrasse onde
estavam e o que tinha acontecido.
Quando falou de novo, seu tom foi mais frio. "Eu ia te perguntar se você foi o mesmo Carlos que mandou a
mensagem há cerca de uma hora, uma hora e meia atrás".
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"Você ouviu?". Carlos perguntou surpreso. "Quando ninguém respondeu, eu não pensei -".
Cuidado em quem confia. As palavras de Trent piscaram em sua mente, lembrando-o de que não tinha idéia
sobre quem era Jill Valentine. Ele parou de falar, encolhendo os ombros, indiferente.
"Eu só captei parte dela, e não podia responder de onde estava". Jill disse. "Você disse algo sobre pelotão, não
disse? Existem outros, ah, soldados aqui?".
Fale o básico e nada sobre Trent. "Havia, mas acho que estão todos mortos agora. A operação inteira foi um
desastre, diga-se de passagem".
"O que aconteceu?". Ela perguntou, estudando-o intensamente. "E com quem você está afinal, Guarda
Nacional? Eles vão enviar reforços?".
Carlos a olhou, imaginando quanto cuidado deveria tomar. "Nenhum reforço, eu acho. Quer dizer, eu tenho
certeza que mandarão alguém eventualmente, mas sou apenas um soldado, eu realmente não sei de nada -
nós pousamos e os zumbis atacaram. Talvez alguém conseguiu escapar, mas até onde eu sei, você está
olhando para o único membro vivo da U.B.C.S.. Isso significa Umbrella Bio-hazard Coutermeasure -".
Ela o interrompeu, a expressão em seu roto perto do nojo. "Você está com a Umbrella?".
Carlos acenou. "Sim. Eles nos mandaram para resgatar sobreviventes". Ele queria dizer mais, dizer o que
suspeitava - qualquer coisa para mudar o olhar dela, como se tivesse acabado de descobrir que ele era um
estuprador ou coisa do tipo - mas o conselho de Trent continuava se repetindo.
Os lábios de Jill curvaram-se. "Não fale besteira? A Umbrella é a responsável pelo que aconteceu aqui, como se
não soubesse - não adianta mentir. O que você realmente está fazendo aqui? Diga a verdade, Carlos, se esse
for o seu nome".
Ela realmente estava irritada, e Carlos sentiu um momento de incerteza, imaginando se ela era uma aliada,
alguém que sabia a verdade sobre a Umbrella - ma também podia ser uma armadilha.
Talvez ela trabalhe para eles e está tentando me testar, tentando desmascarar minha lealdade...
Carlos permitiu um toque de raiva invadir sua voz. "Eu sou apenas um soldado, como havia dito. Eu sou - todos
nós - somos pistoleiros de aluguel. Sem política, entendeu? Eles não nos dizem nada. E no momento, eu não
estou interessado se a Umbrella é ou não é responsável. Se eu vir alguém que precise de ajuda, eu farei meu
trabalho, caso contrário, eu só tentarei sair daqui".
Ele a encarou, determinado a manter seu papel. "E por falar em quem-oque-porquê, o que você faz aqui?". "O
que você fazia naquele restaurante? E o que era aquela coisa que você explodiu".
Jill o encarou por outro segundo, e soltou-se, suspirando. "Eu também estou tentando fugir. Aquela coisa é um
dos monstros da Umbrella, está me caçando, e duvido muito que esteja morto, mesmo agora - o que significa
que não estou a salvo. Eu pensei que talvez houvesse... eu estava procurando por um tipo de chave, eu pensei
que estivesse no restaurante".
"Que tipo de chave?". Ele perguntou, e de alguma forma, ele já devia saber.
"É uma jóia, faz parte de um mecanismo de fechadura do portão da Prefeitura. Existem duas jóias, na verdade,
eu já tenho uma. Se conseguir outra e abrir o portão, haverá um caminho para fora da cidade - um bonde que
vai para oeste, para os subúrbios".
Carlos manteve seu rosto neutro, mas estava pulando por dentro. O que Trent disse?
Ir para oeste primeiro... e quando eu encontrar a jóia azul, entenderei sua importância... mas o que isso me diz
sobre Jill Valentine? Devo confiar agora ou não? O que ela sabe?
"Sério,". Ele disse, mantendo seu tom constante. "eu vi algo assim no porão do restaurante. Uma jóia verde".
Os olhos de Jill arregalaram. "Mesmo? Se pudermos pegá-la... Carlos, nós temos que voltar".
"Se esse for meu nome". Ele disse, pego em algum lugar entre irritação e espanto. Ela parecia saltar de
temperamento para temperamento, energética depois divertida, depois brava, depois empolgada; era cansativo,
e ainda não sabia se podia virar as costas para ela. Ela parecia sincera...
"Me desculpe". Ela disse, tocando seu braço levemente. "Eu não devia ter dito aquilo, é só - a Umbrella e eu não
somos melhores amigos. Houve um acidente em um de seus laboratórios, aqui, há cerca de seis semanas.
Pessoas morreram. E agora isso".
Carlos derreteu um pouco com o calor de sua mão. Jesus, Carlos era um idiota para um primor, e ela era algo
para se olhar.
"Carlos Oliveira,". Ele disse. "a seu serviço".
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Calma, garoto. Sair da cidade, disse Trent, mas você tem certeza de que quer andar com alguém que pode
acabar te matando? Você precisa limpar a mente antes de partir com a cuero senhorita Valentine.
Imediatamente, ele começou a argumentar consigo mesmo. É, tome cuidado, mas vai deixá-la sozinha? Ela
disse que o monstro estava atrás dela...
Ele brincava com isso às vezes, mas não era machista; ela podia se virar sozinha, e já tinha provado isso. E se
fosse uma espiã da Umbrella... bom, então ela merecia isso, não é?
"Eu - eu não acharia certo partir sem ao menos tentar achar alguns dos outros". Ele disse, e agora que sabia
que existir um modo de fugir, ele percebeu que era verdade. Até uma hora atrás, a idéia teria sido ridícula; mas
agora, armado com as informações de Trent, tudo tinha mudado. Ele ainda estava assustado, claro, mas saber
algo sobre a situação o fez sentir menos vulnerável. Apesar dos riscos, ele queria andar por mais algumas
quadras antes de partir, tentando ajuda alguém. Ele queria tempo para pensar, para organizar as idéias.
Isso... mais saber que ela sobreviveu, significa que eu também posso.
"Eu vi o portão do qual você falou, aquele perto da redação do jornal, si? Por que não nos encontramos lá... ou
melhor, no bonde".
Jill franziu e acenou. "Tá bom. Eu voltarei para o restaurante enquanto você anda por aí, e te esperarei no
bonde. Ao passar pelo portão, siga o caminho e mantenha-se à esquerda, você verá placas para Lonsdale
Yard".
Por alguns segundos ninguém falou, e Carlos viu, no cauteloso modo como o olhava, que Jill também tinha seus
próprios receios sobre ele. Sua desconfiança o fazia confiar mais nela; se ela fosse anti-Umbrella, faria sentido
ela não querer andar com um de seus empregados.
Pare de debater e ande logo, pelo amor de Deus!
"Não parta sem mim". Carlos disse, querendo soar levemente. Ele soou muito sério.
"Não me faça esperar muito". Ela respondeu e sorriu, e considerou que ela estava bem apesar de tudo. Depois
ela virou e correu devagar, voltando por onde vieram.
Carlos a ouviu partindo, imaginando se estava louco por não ir com ela - e depois de um momento, ele virou e
andou rapidamente para a outra saída antes que mudasse de idéia.
Para alguém que sangrava como um porco, Mikhail estava surpreendentemente rápido. Durante pelo menos
vinte minutos, Nicholai seguiu pingos escuros através de um longo bloqueio, sobre cascalho e asfalto, grama e
escombros, e ainda não tinha avistado o homem morrendo.
Talvez morrendo seja uma palavra muito forte, considerando...
Nicholai tinha planejado desistir caso não achasse o líder de pelotão em alguns minutos, porém quanto mais
procurava, mais determinado ficava. Ele acabou ficando nervoso, também - como Mikhail ousa fugir de sua justa
punição? Quem ele pensava que era, desperdiçando o precioso tempo de Nicholai? Para frustrá-lo ainda mais,
Mikhail tinha coberto uma grande distância e estava levando Nicholai de volta ao centro da cidade; outro
quarteirão e já estaria no R.P.D. de novo.
Nicholai abriu outra porta, vasculhou outra sala e suspirou. Mikhail devia saber que estava sendo seguido - ou
simplesmente não tinha o bom senso para cair e morrer. De qualquer modo, não deveria, não poderia demorar
muito agora.
Nicholai andou pelo pequeno e arrumado escritório, aparentemente parte de uma garagem, os redondos pingos
de sangue arroxeados sob o azul linóleo das lâmpadas enjauladas acima. Os pingos pareciam estar diminuindo;
ou o ferimento estava fechando - improvável - ou Mikhail tinha achado tempo para cobrir o ferimento.
Nicholai rangeu os dentes, retomando sua confiança. Ele se cansará, diminuindo, talvez procurando um lugar
para descansar. Eu vi onde acertei, ele não irá muito longe.
Ele saiu para a escura e cavernosa garagem, o frio ar pesado com cheiro de gasolina e graxa - e algo mais. Ele
parou e respirou fundo. Uma arma havia sido disparada recentemente, ele tinha certeza.
Nicholai moveu-se rápida e silenciosamente pelo caminho, esticando o pescoço perto de um furgão branco que
bloqueava uma das fileiras de carros, e viu o que parecia ser um cachorro esparramado numa poça de sangue,
seu estranho corpo na posição fetal.
Ele foi em sua direção, enjoado e assustado ao mesmo tempo. Eles o avisaram sobre os cães, o quanto rápido
se infectavam, e sabia que estudos tinham sido feitos sobre sua viabilidade como armas na mansão de
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Spencer...
.. e foram considerados perigosos demais quando se voltavam para seus manipuladores. Não podiam ser
treinados e seu nível de decomposição era mais alto que o do outros organismos.
Verdade, o animal metade sem pele aos seus pés parecia e cheirava como um pedaço de carne crua exposta ao
sol durante muito tempo. Acostumado com a morte do jeito que era, Nicholai ainda sentiu ânsia, mas continuou a
estudar a criatura, certo de que o canino foi um alvo recente de tiros.
Certo o bastante. Dois buracos de entrada abaixo da amassada aba da orelha esquerda... mas não de uma M16,
os buracos eram bem maiores. Nicholai recuou, franzindo. Alguém além de Mikhail Victor tinha passado por essa
garagem na última meia hora, e provavelmente não era um soldado da U.B.C.S., a não ser que tenha trazido
armas próprias, um revólver talvez -
Nicholai ouviu algo. Sua cabeça levantando, sua atenção voltada para a porta de saída, bem à frente, às duas
horas. Um leve som de deslizamento, um humano infectado se esfregando na porta talvez - ou talvez um
homem ferido, escorregando e morrendo contra a saída, exausto demais para continuar.
Nicholai foi para a porta, esperançoso - e sorriu com o som da voz de Mikhail, esforçada e cansada, flutuando
através do velho metal.
"Não... saiam daqui!".
Nicholai abriu a porta avidamente, arrancando o sorriso do rosto enquanto avaliava a situação. Uma grande área
bagunçada, bloqueada, carros empilhados numa inútil barricada, mais dois cães mortos no chão.
Mikhail estava deitado perto do portão da garagem, parcialmente encostado na parede e tentando
desesperadamente erguer seu rifle. Sua pálida face estava molhada de suor e suas mãos tremiam fortemente. A
cinco metros dali, metade de uma pessoa estava se impulsionando na direção do condenado homem,
arrastando-se com as pontas dos dedos rasgados, sua podre e assexuada face com um permanente sorriso.
Seu progresso era lento, porém constante; parecia que a parte debaixo do corpo -certamente com metade do
sistema digestivo - não impedia o infectado de querer comer.
Será que eu banco o herói, salvando meu líder de ser devorado? Ou aproveito o espetáculo?
"Nicholai, me ajude, por favor...". Mikhail falou roucamente, rolando sua cabeça para vê-lo, e Nicholai não
resistiu. A idéia de Mikhail ficar grato por ter salvado sua vida parecia extraordinariamente... divertida, por falta
de um termo melhor.
"Agüente firme, Mikhail". Nicholai disse forçadamente. "Eu cuidarei disso!".
Ele arremeteu e pulou, descendo seu calcanhar no crânio do infectado, fazendo uma careta quando uma grande
seção de seu escalpo deslizou umidamente do osso. Ele desceu o calcanhar de novo, e novo, e o ex-humano
morreu com um grosso e despedaçado som de esmagamento, seus braços espasmando, seus dedos sem carne
dançando levemente no asfalto. Nicholai virou, voltando e ajoelhando-se perto de Mikhail.
"O que aconteceu?". Ele perguntou, sua voz pesada de preocupação enquanto olhava para o ensangüentado
estômago de Mikhail. "Algum deles te pegou?".
Mikhail balançou a cabeça, fechando os olhos como se estivesse exausto demais para mantê-los abertos.
"Alguém atirou em mim".
"Quem? Por que?". Nicholai fez o possível para parecer chocado.
"Eu não sei quem foi e porque? Eu pensei que alguém estivesse me seguindo, também, mas - talvez me
confundiu com um deles. Um zumbi".
Na verdade, isso não está tão longe da verdade...
Nicholai teve que conter outro sorriso; ele merecia um prêmio por sua atuação.
"Eu vi... alguns homens conseguiram escapar". Mikhail suspirou. "Se conseguirmos chegar no local do resgate,
chamar o transporte...".
A Torre do Relógio St. Michael era o suposto local de resgate para onde os soldados deveriam levar os civis
sobreviventes. Nicholai sabia da verdade - que uma equipe de reconhecimento desceria primeiro disfarçada de
médicos de emergência, e nenhum helicóptero apareceria a não ser que a Umbrella desse a ordem. Sendo que
os líderes estavam provavelmente mortos, Nicholai teve que imaginar se algum soldado sabia sobre o "resgate",
mas não era importante para ele. Isso não afetaria seus planos.
Ele descobriu que não estava gostando daquele jogo tanto quanto imaginava. Mikhail confiava demais nas
pessoas, era como caçar um cachorro amigável. Era quase vergonhoso olhar, também, o modo como se rendeu
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a dor...
"Eu não acho que esteja em condições de viajar". Nicholai disse friamente.
"Não é tão ruim. Dói como o inferno, e perdi um pouco de sangue, mas se conseguir recuperar o fôlego,
descansar por alguns minutos...".
"Não, parece muito grave". Nicholai disse. "Mortal. De fato, eu acho -".
Creeaak.
Nicholai parou de falar assim que a porta da garagem abriu perto deles, um lento movimento, e um dos soldados
da U.B.C.S. apareceu, seus olhos iluminando-se ao vê-los, sua metralhadora abaixando - mas não muito.
"Senhores! Soldado Carlos Oliveira, esquadrão A, Pelotão Delta. Eu estou... caramba, como é bom ver vocês".
Nicholai acenou vaziamente, infinitamente incomodado quando Carlos se agachou ao lado deles, checando o
ferimento de Mikhail, fazendo perguntas idiotas. Ele estava noventa e nove por cento certo de que poderia
matá-los antes que entendessem a situação, mas até um por cento era muito arriscado considerando o que
estava em jogo. Ele teria que esperar... e talvez achar um jeito de usar as novas circunstâncias a seu favor.
E caso não... bom, pessoas dão as costas para seus amigos o tempo todo, não é? E nenhum deles tinha
motivos para desconfiar de Nicholai.
Como era o ditado, sobre um obstáculo ser apenas uma oportunidade disfarçada? Tudo ficaria bem.
[11]
Jill parou no portão da Prefeitura, as duas jóias apertadas firmemente na mão suada. A área estava segura até
onde podia ver, e o restaurante estava vazio; ela não sabia como, mas estava sendo perseguida, e queria ir
embora.
Sua corrida pelos becos atrás do restaurante a haviam deixado sem fôlego e nem um pouco assustada. Ela
quase tropeçou no corpo de uma criatura incomum, uma que não conseguia ver na escuridão - mas a silhueta
de múltiplas garras penduradas foi o suficiente para mantê-la correndo. Não se parecia com nada que já tenha
visto antes; isso e a inevitável perseguição de Nemesis a deixou num suave pânico. Ela usou isso para dar
velocidade a seus esforços, cuidando para não perder o controle. Ela sabia por experiência que manter contato
com o instinto animal era vital para a sobrevivência; um pouco de medo era uma coisa boa, mantinha a
adrenalina fluindo.
O relógio ornamental estava instalado sobre um bloco de pedra. Ela encaixou a jóia azul no lugar, o vidro em
forma de diamante liberando um suave zumbido elétrico, o círculo de jóias piscando. O losango verde encaixou
do mesmo jeito, completando o círculo. Houve um pesado rangido e os dois portões deslizaram, revelando um
caminho cheio de sombras e envolto por cercas vivas.
Não parecia ruim de onde estava. Ela começou uma quieta caminhada, aguçando os sentidos. Frio, escuro, uma
leve brisa que se movia prometendo chuva, agitando as folhas das árvores, gelando o suor de seu rosto e
braços. Ela podia ouvir o distante gemido de um zumbi ecoando pelo ar, e viu o pálido reflexo de luz lunar nas
pedras do chão. Alerta, mas sem perceber perigo imediato, ela avançou mais, seus pensamentos voltados para
Carlos Oliveira.
Ele estava falando a verdade sobre ser um dos contratados pela Umbrella e provavelmente não sabia do que a
companhia era realmente capaz, mas também estava escondendo algo. Ele não mentia tão bem quanto achava,
e sua aparente disposição para mentiras não pegou bem. Por outro lado, ele não parecia ser mau - talvez um
mentiroso com boas intenções, ou pelo menos um que não queria mal. Ele provavelmente estava tentando ser
cauteloso - fazendo o mesmo que ela. Seja qual for o caso, ela não tinha tempo para fazer maiores
interpretações, e ficaria com a primeira impressão: ele era um dos mocinhos. Se isso fosse ajudá-la ou não, já
era outra história; por enquanto, ela queria se aliar com qualquer um que não pretendia matá-la.
Mas eu deveria me juntar com alguém? E se ele ficar no caminho de Nemesis, e -
Como uma indireta, ela ouviu, uma malevolente coincidência que pareceu surreal, como uma piada mortal.
"Sstaarrss -".
Por falar no demônio, ah, não, onde ele está? Jill estava quase no meio do pequeno jardim, onde os três
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caminhos se juntavam, e o som veio de algum lugar à frente - ou de trás? A acústica era estranha, o pequeno
pátio adiante fazendo o som parecer vir de toda parte. Ela virou, procurando, mas a passagem atrás dela e as
duas que saíam do pequeno pátio estavam cobertas de sombras.
Qual caminho... ela deu um passo no espaço aberto, ganhando mais acesso para fuga e espaço para manobrar,
caso seja necessário.
Um sólido e pesado passo. Outro. Jill inclinou a cabeça -
- e lá, à frente e à esquerda, no caminho que levava ao bonde. Um grosso escuro ainda fora de uma clara visão.
Volte, para o prédio da imprensa ou para a delegacia, não, não vai dar para despista-lo, mas ainda havia ao
posto de abastecimento, tem uma porta de enrolar metálica e um monte de carros, melhor para se esconder -
Adiante e à direita. Um plano simples era melhor do que nada, e não tinha tempo para considerar mais opções.
Jill decolou, seu leve bater de botas perdido sob um súbito estrondo, o crescente berro e o denso pisar de pés
semi-sintéticos na passagem. Ela estava profundamente consciente de si, de seus músculos contraindo, do som
de seu coração e respiração enquanto voava pelas pedras. Num instante, ela estava no pequeno portão que
levava mais à norte, através de uma quadra cheia de carros abandonados depois de um posto de
abastecimento/oficina, na direção de -
Ela não lembrava. Se a rua estiver vazia, ela poderia ir na direção da região industrial da cidade, esperando não
encontrar com um grupo de zumbis. Caso barricadas tenham sido erguidas -
- aí eu estou ferrada, mas de qualquer jeito já é tarde demais.
Ela deixou o resto de seu corpo bem treinado terminar o pensamento, rapidamente cruzando o portão e correndo
em disparada para a relativa segurança de um labirinto de carros. Ela podia senti-lo vindo, e mergulhou nas
sombras, entendendo seu lugar na caçada. Ela era a presa, ela tinha que ser tão evasiva quanto Nemesis era
determinado; se fizesse certo, ela sobreviveria e o monstro passaria fome. Se não conseguir...
Sem tempo, chega de pensar. A nêmese estava vindo. Jill correu.
No escritório do estacionamento, Carlos achou metade de uma garrafa com água, fita isolante e uma camisa
social masculina, ainda no pacote - o mais próximo de material esterilizado que conseguiriam ter. Ele
imediatamente começou a fazer o que podia por Mikhail enquanto Nicholai olhava para os carros quebrados no
escuro de metralhadora na mão. O pátio fora da garagem estava calmo exceto pela áspera respiração de Mikhail
e o solitário berro de um distante corvo.
Carlos não sabia muito além de curativo simples, mas não achou que o ferimento estivesse tão ruim; a bala tinha
atravessado o lado de Mikhail, não muito longe do osso da bacia; dois ou quatro centímetros para dentro e
estaria ferrado, um tiro no fígado ou no rim seria morte garantida. Mesmo assim, seu intestino devia ter sido
perfurado; isso provavelmente o mataria, mas com atenção médica, ele ficaria bem por enquanto.
Carlos limpou e cobriu o ferimento, comprimindo, amarrando tiras da camiseta em volta do tronco de Mikhail
para pressionar. O líder de pelotão parecia estar agüentando a dor apesar de estar enjoado com a perda de
sangue.
Pelo canto do olho, Carlos percebeu que Nicholai estava se movendo. Ele terminou de prender a atadura com
fita e olhou para cima, viu que o líder de esquadrão havia tirado um computador portátil da mochila e estava
digitando, seu olhar concentrado. Ele havia tirado o rifle do ombro e estava sentado perto de uma caminhonete
amassada.
"Senhor - é, Nicholai, eu terminei". Carlos disse, levantando. Mikhail tinha insistido para deixarem as
formalidades de lado, dizendo que a situação demandava flexibilidade. Carlos tinha concordado apesar de ter
achado que Nicholai não havia gostado muito; ele parecia ser do tipo que seguia o manual de instruções.
Mikhail, pálido e de olhos fundos, levantou-se apoiado nos cotovelos. "Você consegue usar essa coisa para
chamar o resgate?". Sua voz foi fraca.
Nicholai balançou a cabeça, suspirando. Ele fechou o computador e o colocou na mochila. "Eu o achei na
delegacia e pensei que fosse ser útil - listas de barricadas, talvez, ou mais informações sobre esse desastre".
"Deu sorte?". Mikhail perguntou.
Nicholai foi até eles, suas expressões negativas. "Não. Eu acho que nossa melhor opção é tentar chegar à torre
do relógio".
Carlos franziu. Trent havia falado sobre haver armas na torre do relógio, e que partir de lá, deveria continuar à
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norte; com o bonde da Jill e essa nova informação, ele se sentiu perseguido por coincidências. "Por que a torre
do relógio?".
Mikhail respondeu, falando suavemente. "Evacuação. É para onde nós deveríamos levar os civis e chamar os
transportes. Os sinos do relógio estão programados para tocar por computador, um sistema que emite um sinal
quando o programa está sendo usado. Nós tocamos os sinos e o helicópteros vem. Bonitinho, né?".
Carlos imaginou por que ninguém tinha se preocupado em incluir essa pequena informação na reunião, mas
decidiu não perguntar. Realmente não importava agora; eles tinham que chegar ao bonde. Ele não conhecia
bem Nicholai, mas Mikhail não era ameaça, não em suas condições, e precisava chegar ao hospital. Trent falou
que havia um não muito longe da torre do relógio.
Mas os olhos e ouvidos da Umbrella -
Não. Suas histórias eram as mesmas que a dele; eles lutaram e viram seus colegas morrerem, se perderam,
procuraram uma saída e acabaram aqui. Parece estranho ter mais duas pessoas envolvidas de repente. Trent o
estava fazendo questionar os motivos de todo mundo agora, imaginando quem estaria envolvido na suposta
conspiração da Umbrella, preocupando-se com o que dizer e não dizer.
Além disso, a Umbrella ferrou eles também. Por que ajudariam os desgraçados que nos colocaram aqui? Trent
pode estar dizendo a verdade, mas não está aqui. Eles estavam, e eu preciso deles. Nós precisamos deles. Jill
não recusaria ter alguns soldados ao seu lado.
"Tem um bonde que podemos usar para sair daqui". Carlos disse. "Direto para a torre do relógio, eu acho. Está
perto, vai para oeste... e com todas aquelas coisas procurando por carne fresca -".
"Nós podíamos usá-lo para sair da cidade". Nicholai interrompeu, acenando. "Considerando que os trilhos
estejam desimpedidos. Ótimo. Você tem certeza de que está em condições para funcionar?".
Carlos hesitou, e deu com os ombros. "Eu não cheguei a vê-lo. Eu encontrei uma - policial, eu acho, uma
mulher, ela falou sobre ele. Ela estava a caminho de lá para ver, ela disse que esperaria por mim. Eu quis ver se
conseguia achar mais alguém antes de partir". Carlos quase se sentiu culpado em falar dela para eles, e
percebeu que estava se deixando levar pelo papo de espião de Trent. Por que manter Jill em segredo? Quem se
importa?
Mikhail e Nicholai trocaram um olhar e depois acenaram. Carlos estava agradecido. Finalmente um plano de
verdade, um plano de ação. Pior do que ficar atolado na merda era ficar atolado na merda sem direções.
"Vamos". Nicholai disse. "Mikhail, você está pronto?".
Mikhail acenou, e juntos, Carlos e Nicholai o ergueram, suportando seu peso pela metade. Eles entraram na
garagem e quase alcançaram o escritório quando Nicholai soltou um inofensivo palavrão e parou.
"O que?". Mikhail fechou os olhos, respirando fundo.
"Os explosivos". Nicholai disse. "Não acredito que esqueci porque tinha seguido esse caminho. Depois que achei
Mikhail, eu acabei -".
"Explosivos?". Carlos perguntou.
"É. Logo depois que os zumbis atacaram, e meu esquadrão -". Nicholai engoliu, obviamente tentando manter
sua postura. "- depois que os zumbis atacaram, eu acabei num canteiro de obras na área industrial. Um prédio
estava sendo demolido, eu acho, e haviam algumas caixas com avisos de explosivos. Havia um trailer trancado,
eu ia arromba-lo mas outro bando deles apareceu".
Ele encontrou o olhar de Carlos sinceramente. "Eles pensariam duas vezes antes de nos atacar se tivermos
algumas dinamites RDX. Você acha que consegue chegar no bonde sem mim? Eu posso te encontrar lá".
"Eu acho que não devemos nos separar". Mikhail disse. "Teremos maiores chances se -".
"Se tivermos um jeito de mantê-los longe". Nicholai completou a frase. "Nós não podemos ficar sem munição,
não sem outra coisa de reserva. E há mais para se considerar, as criaturas...".
Carlos não achava a idéia de se separar muito boa, também, mas ao se lembrar daquela coisa cheia de garras
perto do restaurante -
- e aquele grande feón dentro do restaurante? Jill disse que viria atrás dela novamente...
"Tá bom". Carlos disse. "Nós esperaremos no bonde".
"Bom. Não vai demorar". Sem mais palavras, Nicholai virou e andou rapidamente para fora da garagem.
Carlos e o pálido Mikhail se esforçaram em silêncio. Eles passaram pelo escritório e saíram na rua antes de
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Carlos perceber que Nicholai não tinha se preocupado em saber como chegar até o bonde.
***
Nicholai teria que resistir à vontade de verificar o computador quando saísse do alcance deles; ele tinha perdido
tempo demais bancando o honesto líder de esquadrão com os dois soldados. Já tinha se passado dezenove
minutos desde que o Capitão Davis Chan preencheu um relatório de status em um dos escritórios de vendas da
Umbrella - a duas quadras da garagem - e se Nicholai tiver muita sorte, ele pode pegar Chan em ação,
checando textos atualizados ou tentando entrar em contato com um dos administradores.
Nicholai correu por um beco cheio de panfletos, saltando sobre vários corpos espalhados, evitando os braços e
cabeças caso não estejam mortos. E realmente, uma das criaturas estouradas no final do beco esticou-se e
tentou agarrar sua bota esquerda. Nicholai pulou sobre ele sem problemas, sorrindo um pouco com o frustrado
gemido. Quase tão patético quanto o de Mikhail.
Mas Carlos Oliveira. Mais esperto do que parecia, e definitivamente mais inteligente - não mais que ele, claro, e
Nicholai vai querer matá-lo o quanto antes...
.. ou não. Eu poderia poupá-lo completamente.
Nicholai cruzou uma porta de metal à direita e entrou em outro beco forrado de restos humanos, considerando
suas opções enquanto corria. Ele não precisava ir para a torre do relógio, somente para o hospital - e não
precisava pegar o bonde. Enganar Mikhail e Carlos era mais divertido, porém não uma necessidade. Ele até
podia deixá-los viver, se assim escolhesse...
Ele sorriu, fazendo uma curva no sinuoso beco. Que graça isso teria? Não, ele queria ver a confiança nos olhos
deles desmoronar, vê-los perceberem o quanto burros tinham sido -
Tic tic tic.
Nicholai congelou, entendendo o som instanta-neamente. Garras sobre pedra bem à frente, o quase gentil bater
vindo das sombras acima à direita. A única luminária do local estava atrás dele na curva do beco, uma das
fluorescentes de segurança barulhentas que mau tinha força para se manter; ele recuou até ela, os tics se
aproximando rápido, a criatura ainda fora de visão.
"Mostre-se, então". Ele resmungou, frustrado com outro problema de tempo. Ele tinha que chegar ao escritório
de vendas antes que Chan desaparecesse, ele não tinha tempo para lutar com uma das aberrações da
Umbrella, por mais que quisesse.
Tic tic tic.
Dois deles! Ele pode ouvir garras arranhando cimento à sua direita, onde tinha acabado de estar, ao mesmo
tempo um infernal berro soou à sua frente, um som igual ao de loucura, como almas sendo rasgadas -
- e lá estava ele, gritando, saltando do escuro enquanto o outro o acompanhava na canção monstruosa.
Ouvindo tudo em estéreo, Nicholai viu as garras em forma de gancho erguerem-se de um deles, as
proeminentes e babantes mandíbulas, os brilhantes olhos de inseto, e sabia que o outro estava a apenas um
segundo atrás de seu irmão, preparando-se para saltar enquanto o primeiro ainda pousava.
Nicholai abriu fogo, o chocalho da metralhadora perdido sob os gritos dos gêmeos, as balas achando o destino
no primeiro, seu grito mudando enquanto contorcia-se até parar a três metros de distância, buracos sangrentos
surgindo em seu negro exoesqueleto como flores abrindo explosivamente. Tal como o primeiro, o segundo se
contorceu até cair imóvel, seu agudo berro virando gargarejo até o silêncio.
Nicholai ficou de pé, abatido, incerto sobre a espécie - ou era o brain sucker (sugador de cérebro) ou o mais
anfíbio deimos, outro cheio de pernas da família. Ele esperava mais ferocidade e método de ataque, mas não
tinha entendido como haviam sido tão rápidos.
Se eu estivesse um segundo atrasado...
Sem tempo para imaginar, ele estava com pressa. Ele avançou, passando rapidamente pelos escuros e
ensangüentados membros espalhados, correndo assim que passou.
A cada passo mais longe das criaturas mortas, ele sentia sua compostura voltar, sentia uma descarga de
realização esquentá-lo por dentro. Eles foram rápidos, mas ele foi mais - e com tais monstros soltos na cidade,
ele não teria que se preocupar com Carlos, Mikhail ou ninguém escapando do destino. Se não conseguir fazer
com as próprias mãos, ele podia ter certeza de que seus camaradas certamente virariam presas de uma
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dezenas de horrores, seus reflexos inadequados falhando, a falta de habilidade assegurando suas mortes.
Nicholai apertou a pega da M16, uma onda de elevação adicionando velocidade a cada passo. Raccoon não era
um lugar para os fracos. Ele não tinha o que temer.
[12]
A porta de aço que protegia a entrada da loja de conveniências estava abaixada e trancada, mas Jill havia
conseguido entrar pela oficina, chegando na loja por uma porta lateral. Era uma boa loja, bem protegida contra
ladrões e certamente contra zumbis - mas Jill não tinha dúvidas de que se Nemesis quisesse entrar, nada o
impediria. Ela só tinha que esperar que não a tivesse seguido até lá...
.. apesar de fazer isso muito bem.
Jill não tinha idéia. Ele sentia seu cheiro? Talvez não, considerando sua caminhada cuidadosa e sem respiros
até o posto; ela tinha pulado de sombra em sombra, ouvindo o barulhento e desajeitado progresso de Nemesis
enquanto procurava por ela no meio do monte de carros abandonados. Se perseguisse pelo cheiro, já a teria
pego... mas como sabia quem ela era, especificamente? Se uma mulher de seu tamanho entrasse no caminho,
seria confundida com Jill?
Jill andou pela oficina bem iluminada, suas botas fazendo barulhos molhados sobre o chão grudento de óleo,
seus pensamentos bem longe enquanto reconhecia o local e checava as portas. Ela não sabia como Nemesis foi
programado para achar e matar os S.T.A.R.S., ou porque parecia interromper a perseguição às vezes; com Brad
morto, ela era o único membro do S.T.A.R.S. ainda em Raccoon.
A não ser... Irons, o chefe da polícia, já foi um membro da equipe B uns vinte anos atrás, e provavelmente ainda
estava na cidade...
Jill balançou a cabeça. Ridículo. Chris tinha conseguido informações o suficiente para ter quase certeza de que
Irons estava trabalhando para a Umbrella, do mesmo jeito que suspeitava do misterioso Sr. Trent - a diferença
era que Trent parecia querer ajudá-los, enquanto Irons era um corrupto que não se importava com ninguém
além de si mesmo. Se Irons estiver na lista de Nemesis, Jill até ficaria de acordo.
Da oficina, ela entrou num tipo de combinação entre escritório e sala de descanso - uma máquina de soda, uma
pequena mesa com algumas cadeiras e uma escrivaninha bagunçada. Jill tentou o telefone a princípio, ouvindo
o sinal mudo que esperava.
"Agora é só esperar, eu acho". Ela disse para ninguém, encostada no balcão. Se Nemesis não aparecer em
alguns momentos, ela sairia de novo e voltaria para o bonde. Ela imaginou se Carlos já estava lá, e se achou
algum sobrevivente de seu pelotão - como era mesmo? Umbrella Bio-Hazard alguma coisa. Provavelmente
uma de suas ramificações semi-legítimas; seria bom para relações públicas, assim que as notícias sobre
Raccoon vazassem.
A administração da Umbrella seria capaz de apontar para sua força tarefa especial e dizer à mídia o quanto
rápido agiu ao saber do acidente.
Exceto que não chamará de acidente, porque isso significaria negligência de sua parte; com certeza já
arrumaram um bode expiatório pronto para ser crucificado, algum desafortunado empregado a ser culpado pela
morte de milhares...
Não se ela puder ajudar, não se seus amigos puderem ajudar; de um modo ou de outro, a verdade viria à tona.
Tinha que vir.
Jill reparou em algumas ferramentas - um conjunto de chaves inglesas, pés-de-cabra - e percebeu que seria
útil levar algumas coisas para o bonde. Não seria bom chegar lá e acabar precisando de uma chave-de-fenda
ou coisa do tipo, algo de que precisassem buscar lá. Ela não sabia nada sobre mecânica, talvez Carlos tivesse
mais experiência -
Thump! Thump! Thump!
Jill se agachou atrás do balcão assim que ouviu as lentas e pesadas batidas na porta da oficina, persistentes e
constantes.
Nemesis. Não, as pancadas eram altas mas não poderosas, ou eram humanas ou -
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"Uuhh". O gentil choro de fome foi filtrado pela porta, acompanhado por outro, depois um terceiro, depois um
coral. Contaminados, e parecia um grande grupo deles. Qualquer alívio que sentiu ao perceber que não era
Nemesis, se foi; uma dúzia de zumbis socando a porta como se houvesse uma placa escrita com néon dizendo
COMIDA BOA.
E como exatamente vou sair daqui agora.
O simples plano de se esconder até Nemesis ir embora foi arruinado. Ela precisava de outro plano, de
preferência um que tivesse mais do que alguns segundos para estudar.
Então pense em algo já. A não ser que queira sair e bater em todo mundo.
Jill suspirou, o baixo nó de enjôo em seu estômago tão constante que já nem reparava mais. Lá fora, os
apodrecidos infectados continuavam gemendo, batendo desesperadamente na porta.
É melhor rever suas opções; ela só tinha alguns minutos para gastar.
Eles chegaram ao bonde sem problemas.
Carlos estava sentindo-se esperançoso quando entraram na área da estação, iluminada por uma grande massa
de escombros em chama de um lado - nenhum zumbi, nenhum monstro, e Mikhail não parecia estar piorando. O
portão da Prefeitura estava aberto, várias jóias acopladas em algum tipo de relógio num pedestal ao lado. Carlos
esperava que ela conseguisse, mas ainda assim era um alívio.
"Lá está". Mikhail disse, e Carlos acenou torcendo o nariz quando uma corrente de fumaça cheirando podridão
passou por eles. À direita deles estava uma grandiosa e antiga construção, ou era a estação de bonde ou o
suposto prédio da Prefeitura. À frente, depois de um monte de caixas que bloqueavam o caminho, estava o
bonde já fora de moda, sua pintura vermelha levemente desbotada. Assim que se aproximavam, Carlos pôde ver
que um segundo vagão estava engatado, quase todo escondido na sombra da marquise do prédio.
Jill provavelmente estava esperando por eles. Carlos empurrou algumas das caixas para o lado com a perna,
Mikhail encostado contra a parede da estação.
"Quase lá". Carlos disse.
Mikhail sorriu fracamente. "Aposto como ficará agradecido quando colocar o meu traseiro num assento".
"Ficaria mais colocando o meu próprio. Uma passagem só de ida fora daqui".
Mikhail conseguiu uma risada. "Eu ouvi".
Eles andaram sob a marquise, Carlos procurando movimento através das janelas de ambos os vagões. Ele não
viu nada; pior, ele não sentiu nada. O lugar parecia totalmente deserto, quieto e sem vida.
Espero que não esteja cochilando aí dentro, Jill Valentine.
A porta deslizante do primeiro vagão estava trancada; para alívio mútuo, a do segundo não. Depois de vasculhar
o vagão por entro para ter certeza de estar vazio, Carlos ajudou Mikhail a subir, deitando-o num assento sob a
janela. Assim que o líder de pelotão deitou, pareceu desmaiar.
"Eu vou checar o outro vagão e ver se consigo acender as luzes". Carlos disse, Mikhail gemeu em resposta.
Sem novidade, Jill não estava no outro vagão, mas Carlos achou o controle elétrico perto do assento do
condutor. Ao apertar um botão, uma fileira de luzes acima acendeu, iluminando um velho chão de madeira e
assentos de vinil vermelho ao longo da lateral.
"Onde está você, Jill?". Carlos sussurrou, sentindo uma verdadeira preocupação por ela. Se algo aconteceu, ele
se sentiria um pouco responsável por não tê-la acompanhado ao restaurante.
Mikhail estava quase inconsciente quando Carlos o verificou, mais para sono do que para coma. Até um médico
olhar o ferimento, descanso era provavelmente o melhor para ele.
Havia um painel de controle na parte de trás do último vagão, e Carlos se ajoelhou para examinar. Seu coração
caiu quando descobriu ser parte de um sistema primário de energia, e que alguns componentes estavam
faltando. Ele não sabia nada sobre bondes, mas não precisava ser gênio para saber que uma máquina não
funcionaria se os cabos fossem arrancados, principalmente em um sistema tão antigo. Parecia estar faltando um
fusível também.
"Hijo de la chingada". Ele cochichou e ouviu uma frágil risada.
"Eu sei espanhol o suficiente para saber que você não deveria beijar a sua mãe com essa boca". Mikhail disse.
"O que foi?".
"Está faltando um fusível". Carlos disse. "E esses circuitos foram encurtados. Teremos que arrumar isso para
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fazer essa coisa andar".
"À nordeste daqui...". Mikhail começou, e parou para respirar um pouco antes de continuar. "Tem um posto de
gasolina. Loja de reparos. Era um dos pontos de referência no... mapa da cidade, antes dos subúrbios.
Provavelmente deve haver equipamento lá".
Carlos pensou nisso. Ele não queria deixar Mikhail sozinho, Jill ou Nicholai podia aparecer a qualquer minuto...
.. mas não iremos à parte alguma sem um cabo de energia e um fusível de alta voltagem, e Mikhail está
escorregando por um abismo; que escolha eu tenho?
"Está bem". Carlos disse suavemente, indo até Mikhail. Ele olhou para baixo, preocupado com a cor de suas
bochechas, o oleoso suor em seu pálido rosto. "Acho que vou até lá - quer ir comigo?".
"Ha ha". Mikhail sussurrou. "Tenha cuidado".
Carlos acenou. "Tente dormir um pouco. Se alguém aparecer, diga que já volto".
Mikhail já estava começando a cochichar. "Claro". Ele falou.
Carlos certificou-se de que o rifle de Mikhail estava carregado, e colocou perto do assento acolchoado, à fácil
alcance. Ele olhou em volta procurando algo para dizer, palavras de conforto, e finalmente apenas virou e foi
para a saída. Mikhail não era burro, ele sabia quais eram os riscos.
Sua vida e outras coisas.
Carlos respirou fundo e abriu a porta, rezando para o posto não estivesse longe demais.
Chan não estava lá e não havia como saber para onde tinha ido, Nicholai o perdeu por alguns minutos. O
computador de onde aparentemente reportou ainda estava quente, o vidro do monitor arrepiando de eletricidade
estática. Impulsivamente, Nicholai ergueu o monitor e o arremessou pela sala, mas não ficou satisfeito com sua
mundana explosão de vidro e plástico barato. Ele queria sangue. Se Chan voltasse para o escritório, Nicholai
bateria nele severamente antes de tirar sua vida.
Ele caminhou pelo pequeno e bagunçado escritório, enfurecido. Ele me atiça com sua ignorância. Ele é tão
burro, tão distraído, como pode ser tão inferior e ainda estar vivo? Nicholai sabia que não era um pensamento
estritamente racional, mas estava furioso com Chan. Davis Chan não merecia ser um Watchdog, ele não
merecia viver.
Gradualmente, Nicholai se controlou, respirando profundamente, forçando a si mesmo a contar até cem em
pares. Ainda era o começo do jogo. Além disso, o plano de Nicholai dependia da posse das informações que a
Umbrella queria - e se pretendia roubar essas informações, deveria dar algum tempo para os outros Watchdogs
as coletarem. Os relatórios de campo diários eram apenas um resumo de condições e contagem de corpos,
usados mais como marca-ponto; conteúdo de verdade estaria sendo armazenado em discos, transcritos de
documentos achados ou recolhidos dos arquivos de alguém, somente reportados se o Watchdog considerar de
extrema importância.
E... enquanto eu espero, posso encontrar com meus companheiros no bonde.
Nicholai parou de andar, percebendo que tinha gostado de enganar Carlos e Mikhail. De alguma forma, ter um a
mais no jogo o tinha tornado mais interessante. Será que eles suspeitaram? O que estavam falando sobre sua
repentina partida? O que pensavam dele?
E como seria presenciar a lenta e crucial perda de vida de Mikhail, vê-lo perder sua capacidade de raciocinar
enquanto o jovem protagonista, Carlos, luta ingenuamente para entender as estranhezas? Nicholai podia
desativar o mecanismo dos sinos ao chegarem na torre do relógio... talvez voluntariar-se corajosamente a
procurar o hospital e trazer suprimentos -
Nicholai riu de repente, um áspero latido na quieta sala. Ele tinha que matar o Dr. Aquino - o cientista que
deveria reportar do hospital, o mesmo que trabalhava com a vacina - de qualquer forma, ele sabia que Aquino
fora ordenado a destruir o hospital antes de sair de Raccoon, eliminando as evidências de sua pesquisa. E
também havia uma espécie orgânica específica guardada no hospital cuja Umbrella decidiu abandonar, a série
Hunter Gamma. Sendo assim, a destruição do hospital significaria cumprir dois objetivos pelo preço de um.
Parecia que os HG não eram efetivos em custo, apesar de ter havido uma séria discussão sobre destruir ou não
os protótipos. Se Nicholai pudesse atrair Carlos para combater um deles, teria valiosas informações de sua
autoria para vender... e ele também estaria cumprindo dois objetivos com apenas uma ação.
Tudo surgiu de uma vez, havia um tipo de simetria nisso tudo. Ele abandonaria esse plano caso algo desse
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errado, claro, ou se achasse que não combinaria com seus objetivos. Ele não era idiota - mas ter um projeto
para ocupar seu tempo livre o impediria de ficar frustrado demais.
Nicholai virou e foi para a porta, impressionado com a própria indulgência. Raccoon City era como um reino
assombrado onde ele ditava as regras, capaz de fazer como quisesse - tudo o que quisesse. Mentir, matar,
banhar-se na glória da derrota de outro homem. Era tudo seu por submeter-se, e com uma recompensa no
final.
Nicholai voltou a se sentir como ele mesmo. Era hora de jogar.
[13]
Jill tinha finalmente decidido abrir a porta metálica de enrolar quando ouviu tiros lá fora, o alto e intenso barulho
de uma metralhadora. Dizer que estava aliviada era pouco; as incansáveis pancadas dos mortos lá fora
estiveram devorando seus nervos, quase a fazendo atirar em si mesma, só para não ouvi-los mais - e agora,
em questão de segundos, o silêncio retornou.
Ela foi rapidamente para a porta lateral até a oficina, andando abaixada na ponta dos pés sob um carro vermelho
em cima de um elevador hidráulico, encostando seu ouvido no fino metal. Tudo estava quieto, os infectados
certamente mortos -
Bam-bam-bam!
Jill se jogou para trás assim que alguém socou a porta, seu coração contendo-se.
"Ei, tem alguém aí dentro? Os zumbis estão mortos, pode abrir agora!".
O sotaque era inconfundível; Carlos Oliveira. Aliviada, Jill girou a trava, anunciando-se enquanto erguia a porta.
"Carlos, aqui é Jill Valentine".
Ela estava feliz em vê-lo, e o olhar no rosto dele era tão sinceramente animado que quase se sentiu tímida de
repente. Ela se afastou da porta para que ele pudesse entrar.
"Que bom que você está bem, quando não te achei no bonde pensei...". Carlos parou de falar, o que havia
"pensado" obvio demais. "Bom, é muito bom vê-la de novo".
Sua aparente séria preocupação por ela foi uma surpresa, e não sabia como responder - com irritação, por estar
sendo protegida? Ela não se sentia irritada. Ter alguém interessado em seu bem estar, principalmente
considerando o tipo de caos no qual estava, era - -até que bom.
O fato de alguém ser alto, moreno e bonito também não era algo tão ruim, né? Jill instantaneamente derrubou o
pensamento. Verdade ou não, era uma questão de sobrevivência; eles podiam se olhar mais tarde, se
sobreviverem juntos.
Carlos não pareceu notar seu leve desconforto. "Então, o que está fazendo aqui?".
Jill deu um leve sorriso. "Eu fiquei encurralada. Não me diga que viu o monstro de Frankenstein vagando lá
fora?".
Carlos franziu. "Você viu ele de novo?".
"Ele não, aquilo. Aquilo se chama Tyrant, se é o que eu acho ser - talvez uma variação. Bio-sintético,
extremamente forte e difícil de matar. E parece que a Umbrella descobriu como programá-lo para uma tarefa
específica - nesse caso, me matar".
Carlos olhou cético. "Por que você?".
"É uma longa história. Resumindo, eu sei demais. Em todo caso, eu estava me escondendo aqui, e -".
Carlos terminou para ela. "Mas uma gangue de zumbis apareceu e não te deixou partir, certo?".
Jill acenou. "E você? Você disse que conseguiu achar o bonde, e o que faz aqui?".
"Eu encontrei outros dois caras da U.B.C.S. um deles levou um tiro e ainda está vivo, mas não muito bem.
Mikhail. Nicholai - o outro - sabia onde achar explosivos, então eu e Mikhail fomos para o bonde esperá-lo.
Parece que há um resgate aguardando, se conseguirmos chegar na torre do relógio e tocar os sinos. Nós
tocamos os sinos, os helicópteros vêm".
Ele percebeu as expressões de Jill e balançou o ombro, sorrindo.
"É, eu sei. É algum tipo de sinal computadorizado, eu não sei como funciona. São boas notícias exceto pelo
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bonde não estar funcionando, precisamos de algumas coisas - um cabo de energia e um daqueles fusíveis
antigos, para começar. Mikhail disse que havia uma loja de reparos por aqui; ele é um dos líderes de pelotão, ele
deu uma olhada no mapa antes de pousarmos...".
Carlos franziu, depois acenou para si mesmo como se resolvesse algum quebra-cabeça. "Nicholai deve ter visto
um mapa também, isso explicaria porque não precisou de direções".
"Carlos, Mikhail, Nicholai - a Umbrella não discrimina nacionalidades, não é?". Jill fez a piada fora de hora, mais
para encobrir um profundo senso de insegurança. Ela achava Carlos de bom coração, mas os outros dois
soldados da Umbrella, um deles líder de pelotão - quais eram as vantagens de ter três caras que foram
enganados pelo seu empregador? A Umbrella era o inimigo, ela tinha que ter isso em mente.
Carlos já estava andando, sua atenção voltada no carro erguido. "Se estavam revirando a parte elétrica deveria
haver... ali, é aquilo que estou procurando!".
Parecia que Carlos tinha visto o cabo que queria, um emaranhado de cordas e arames sob o capô do carro,
alguns deles conectados numa máquina que Jill não conhecia, e outros sobre o chão oleoso.
"Cuidado!". Jill disse, indo até lá enquanto ele se esticava para pegar um dos cabos, verde escuro. Ela tinha uma
desconfiança instintiva de aparelhos elétricos, e acreditava que pessoas que mexiam com essas coisas estavam
querendo ser eletrocutadas.
"Não esquenta". Carlos disse descontraído. "Só um verdadeiro baboso deixaria qualquer um desses ligados na
-".
Crack!
Uma faísca branca-alaranjada foi cuspida da ponta de um dos cabos no chão, alto e brilhante, tão explosiva
quanto um tiro. Antes que Jill pudesse respirar, o chão de cimento estava em chamas - não houve crescimento
gradual nem senso de expansão, simplesmente começou a flamejar, as chamas a sessenta, noventa
centímetros de altura, e aumentando.
"Por aqui!". Jill gritou, correndo para a porta lateral, o fogo alimentado pelo óleo jogando calor contra sua pele
nua. Quando atingir o tanque de combustível do carro, vai explodir, nós temos que sair daqui -
Carlos estava logo atrás dela, e enquanto corriam pelo escritório, Jill sentiu seu sangue gelar. Dane-se o carro,
ele não seria nada se comparado ao que aconteceria se o fogo atingisse os tanques subterrâneos do posto.
Havia uma corrente na polia ao lado da porta de aço que bloqueava a porta da frente. Jill correu para ela, mas
Carlos estava um passo à frente. Ele soltou a corrente e puxou, mão após mão, a porta erguendo-se vagarosos
centímetros para cima junto com o frenético bater de articulações metálicas.
"Agache e engatinhe". Carlos disse, gritando para ser ouvido sobre o barulho da porta e sobre as ondas de fogo
espalhando-se pela loja.
"Carlos, os tanques externos -".
"Eu sei, agora vai!".
A ponta da porta estava a quase cinqüenta centímetros do chão. Jill desceu, agachando-se contra o frio chão,
gritando para Carlos antes de se arrastar para fora.
"Pode parar, está bom o bastante!".
E ela passou, ficando de pé e virando para agarrar a mão de Carlos e levantando-o. Dentro da loja, algo
explodiu, um abafado whoop, talvez um botijão de gás ou aquele armário cheio de óleo automotivo, Jesus, eu
devo estar amaldiçoada, as coisas não param de explodir perto de mim -
Carlos agarrou seu braço, tirando-a de seu estado de choque. "Vamos!".
Não precisou dizer duas vezes. Com a crescente luz tocando as janelas da loja, iluminando os corpos de laranja,
pelo menos oito infectados, ela correu, Carlos ao seu lado. O engarrafamento estava ruim, a rua estava
obstruída, nenhum caminho livre para conseguirem a tempo. Jill pôde sentir os segundos voarem enquanto
corriam pelo labirinto de ferro-velho e vidro quebrado. A primeira explosão de verdade e o som de janelas
estilhaçando esteve muito perto, eles ainda não estavam longe o bastante, mas tudo o que podiam fazer era o
que estavam fazendo - além de estarem rezando para que o fogo não chegasse aos tanques de alguma forma.
Talvez devêssemos nos proteger, talvez estejamos fora do raio de explosão e -
Por algum motivo, ela não ouviu - ou sim, ela ouviu uma repentina e total ausência de som. Concentrada demais
em costurar o silencioso trânsito na escuridão, a circulação de sangue em seus ouvidos, o tempo passando,
talvez. Tudo o que sabia era que estava correndo, e depois houve uma gigante onda de pressão que a
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impulsionou para frente, erguendo-a ao mesmo tempo, a lateral de uma caminhonete batida se aproximando
rapidamente e Carlos gritou algo - e depois não houve nada além de escuridão, nada além de um distante sol
que corria pelos cantos de sua escuridão, enviando-lhe sonhos de furiosa luz.
Mikhail estava afundando, descendo num febril delírio que certamente o mataria. Tudo o que conseguiu ouvir do
condenado homem foi que Carlos havia ido pegar algumas coisas para consertar o bonde e que voltaria logo. Se
tivesse mais, Nicholai teria que esperar - até a febre de Mikhail passar ou Carlos voltar, nenhuma das opções
parecia boa. Mikhail só iria piorar, e a profunda e estrondosa explosão que agitou o chão sob o bonde, que tinha
lançado um relâmpago no céu noturno à norte, sugeria que tinha acontecido um incêndio no posto de gasolina -
não necessariamente culpa de Carlos, mas Nicholai suspeitava que sim, e que Carlos Oliveira tinha virado
churrasco.
O que significa que terei de achar um cabo de energia sozinho se quiser carona para o hospital.
Irritante, mas não tinha outra escolha. Nicholai tinha achado uma caixa de fusíveis e um galão de 20 litros de
óleo mixado, mais do que suficiente para levar o bonde até o hospital - mas nenhum cabo, nenhuma fiação que
pudesse completar os circuitos. Nicholai imaginou porque Carlos não procurou na sala de manutenção da
estação, e decidiu que foi por falta de imaginação.
"Não, não, não pode - atirem! Atirem à vontade, eu acho... eu acho...".
Nicholai levantou o olhar da inspeção no painel de controle do bonde, curioso, mas seja lá o que Mikhail disse foi
perdido assim que retornou ao seu problemático sono, o velho assento rangendo com seus pesados
movimentos. Era patético. Ele podia ao menos ter dito algo interessante.
Nicholai ficou de pé e se espreguiçou, virando para a porta. Ele já tinha adicionado óleo no rudimentar tanque do
motor, mas tinha pego o fusível errado. Ele pegaria outro ao voltar para o centro, provavelmente todo o caminho
até a mesma garagem maldita onde havia perseguido Mikhail; ele tinha visto algumas prateleiras de
equipamento lá. Ir e voltar estava ficando cansativo, mas pelo menos a maioria dos canibais do caminho já
tinham sido mortos, e não demoraria muito - e quando retornasse, recompensaria a si mesmo contando à
Mikhail quem foi o responsável por sua iminente morte.
Ele saiu para a área de embarque, pensando vagamente onde passaria a noite quando viu duas figuras
cambaleando na direção do bonde, suas formas meio escondidas na vasta luz de uma barricada em chamas no
canto nordeste do pátio. Ao se aproximarem, viu que Carlos tinha conseguido escapar da morte e trazido uma
mulher consigo, certamente a mesma que o informou sobre o bonde. Ambos estavam chamuscados, suas peles
avermelhadas e borradas de cinzas; talvez não estivessem tão longe do local da explosão...
.. e mais uma vez, que comecem os jogos!
"Carlos! Você está ferido? Algum de vocês?". Ele avançou para que pudessem vê-lo melhor, seu rosto
profundamente preocupado.
Carlos estava obviamente feliz em vê-lo. "Não, eu - ambos estamos bem, só um pouco detonados. O posto
pegou fogo e explodiu. Jill apagou por um minuto ou dois, ela está...".
Carlos subitamente limpou a garganta, acenando para a mulher. "É, Jill Valentine, este é o Sargento Nicholai
Ginovaef, U.B.C.S.".
"Só Nicholai, por favor". Ele disse, e ela o olhou, suas expressões ilegíveis. Parecia que a Senhorita Valentine
não estava interessada em fazer amigos. Isso o agradou, apesar de não saber porque. Ela carregava um
revólver .357 na mão e o que parecia uma 9mm presa na cintura de sua mini-saia extremamente justa.
"Nós estamos em dívida com você por ter dito à Carlos sobre o bonde. Você está com a polícia?". Nicholai
perguntou.
O olhar de Jill estava fixado no dele, não houve como negar o tom desafiador em sua resposta. "A polícia está
morta. Eu estou com o S.T.A.R.S., Esquadrão de Táticas Especiais e Resgate".
Ora, ora, que ironia. Imagino se já se encontrou com a pequena surpresa da Umbrella... Se tivesse,
provavelmente não estaria de pé na frente dele; a não ser que não estivesse funcionando bem, um Tyrant podia
dividir um homem adulto em dois sem usar um quarto de sua força. Alguém como Jill Valentine não teria
chances contra algo bem mais avançado como o novo brinquedo da Umbrella que foi programado para
aparecer.
Nicholai ficou agradecido com a estranha coincidência de conhecer um membro do S.T.A.R.S.; fez parecer como
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se tudo estivesse em ordem, como se seus pensamentos estivessem refletindo no mundo à sua volta...
"Como está Mikhail?".
Nicholai desviou do direto olhar de Jill para responder à Carlos, não querendo parecer combativo. "Não muito
bem, eu acho. Nós devemos partir o mais rápido possível. Você achou algo útil? Mikhail disse que você foi pegar
algumas coisas para arrumar o bonde".
"Já era, queimou tudo". Carlos disse. "Acho que teremos de -".
"Você conseguiu os explosivos?". Jill interrompeu, ainda o encarando cuidadosamente. "Onde estão?".
Não muito hostil, mas quase; nenhuma surpresa, considerando a situação. O problema com os S.T.A.R.S. era
que tinham descoberto informações sobre as verdadeiras pesquisas da Umbrella na mansão de Spencer. Eles
perderam a credibilidade mais tarde, claro, mas a Umbrella vem tentando se livrar deles desde então.
Se todos forem tão desconfiados como ela, está explicado porque a Umbrella não conseguiu.
"Não havia explosivos". Ele disse devagar, de repente decidindo pressioná-la um pouco, para ver o quando era
franca. "Tudo o que encontrei foram caixas vazias. Sra. Valentine, há algo te incomodando? Você parece...
tensa?".
Ele deliberadamente deu um agudo olhar para Carlos, como se estivesse bravo por ter trazido uma mulher tão
desconfiada. Carlos ficou corado e se manifestou rapidamente, tentando mudar de assunto.
"Acho que todos nós estamos no limite, e a coisa mais importante agora é Mikhail. Nós temos que tirá-lo daqui".
Nicholai segurou o olhar de Jill mais um pouco e acenou, voltando sua atenção para Carlos. "De acordo. Se você
puder conseguir o cabo, eu vou ver o que posso fazer sobe o fusível - há uma central elétrica não muito longe
daqui, vou procurar lá. Na garagem onde achamos Mikhail, tenho certeza que vi cabos de bateria, nos
encontraremos aqui em meia hora".
Carlos acenou. Nicholai ignorou o aceno de Jill, endereçando-se à Carlos. "Bom. Eu verei Mikhail antes de ir.
Movam-se".
Ele virou na direção do bonde como se tudo estivesse resolvido, parabenizando-se em silêncio enquanto subia.
Eles iriam buscar o cabo para ele enquanto tudo o que precisava fazer era subir alguns degraus na estação e
abrir uma caixa.
O que significa que tenho muito tempo de sobra. Fico imaginando o que falarão de mim em minha ausência...
talvez ele os encontre na volta, os observaria por um minuto ou dois antes de aparecer.
Nicholai andou até onde Mikhail dormia e sorriu para ele, satisfeito. As coisas estavam ficando interessantes,
finalmente. Carlos estava trabalhando para ele, Mikhail na porta da morte, e a adição da mulher do S.T.A.R.S.
tinha engordado a trama. Ele olhou pela janela do bonde e viu que os dois tinham ido, desaparecendo no escuro.
Jill Valentine desconfiava dele, mas só pelo que sabia sobre a Umbrella; ele tinha certeza de que ela se
acalmaria, dado o tempo certo.
"E se não o fizer, eu a mataria junto com o resto de vocês". Ele disse suavemente.
Mikhail soltou um leve suspiro de sofrimento mas continuou dormindo, e depois de um momento, Nicholai saiu
silenciosamente.
[14]
Apesar de terem muito que conversar, Jill não teve vontade, nem Carlos. Eles tinham que pegar um cabo de
força, voltar para o bonde, e não morrer durante o processo - não é exatamente a hora de bater papo, mesmo
se as ruas parecessem seguras. E depois de quase terem morrido, eles apenas correram da estação, Carlos
não podia imaginar conversa.
Sobre o que falaríamos, afinal? Sobre o tempo? Sobre quantos de seus amigos estão mortos? Que tal se aquele
monstro irá ou não aparecer e matá-la, ou talvez sobre a lista dos dez motivos pelos quais não gosta de
Nicholai...
Jill estava obviamente desconfortável com Nicholai - quase que certamente por seus sentimentos pela Umbrella
- e Nicholai não devia gostar muito dela também, apesar de Carlos não ter certeza do porquê; o líder de
esquadrão foi perfeitamente educado, e até animado. Carlos gostou da atitude de Jill, desconfiada e desafiadora,
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apesar desse atrito tê-lo deixado um pouco ansioso. Por mais clichê que fosse, eles precisavam ficar juntos se
quisessem sobreviver.
De qualquer jeito, Jill não estava se voluntariando a discutir seus sentimentos sobre o assunto, e Carlos estava
ocupado debatendo consigo mesmo se dizia ou não aos outros sobre Trent, e ambos estavam protegendo o
próprio traseiro. Eles andaram em silêncio do bonde para o centro da cidade e estavam quase na garagem
quando viu alguém que conhecia.
O corpo estava encostado no canto de um sinuoso beco, não muito longe de dois grotescos corpos de criaturas
da Umbrella que Carlos viu duas vezes nas últimas horas, igual ao que tinha matado perto do restaurante; pela
aparência do corpo, já estava lá há algum tempo - o que significa que Carlos também passou por ele sem
perceber. Era muito triste perceber que nem olhava mais para seus rostos, e ficou surpreso com o sentimento.
"Ei, eu conheci esse cara". Carlos disse, agachando-se ao lado dele, tentando lembrar o nome - Hennessy?
Não, Hennings. Alto, cabelo escuro, uma fina cicatriz que ia do canto da boca até a bochecha. Um único tiro na
cabeça, nenhum sinal claro de decomposição...
.. e o que diabos está fazendo aqui?
Jill estava andando um pouco à frente de Carlos. Ela virou e voltou, olhando sorrateiramente para o relógio.
"Sinto muito sobre seu amigo, mas temos que ir". Ela disse gentilmente.
Carlos balançou a cabeça e começou a cutucar o corpo em busca de munição ou algum documento de
identificação. "Não, não éramos amigos. Eu o conheci na base logo depois de ser contratado, ele trabalhava
para outra unidade da U.B.C.S., eu acho. Ele era um ex-militar e definitivamente não veio para Raccoon
conosco... hola, o que é isso?".
Carlos tirou um pequeno livro de couro da jaqueta de Hennings, e abriu. Um diário. Ele folheou até o final e viu
que a última anotação estava datada do dia antes de ontem.
"Isso pode ser importante". Ele disse, levantando. "Tenho certeza de que Nicholai o conhecia, e vai querer ver
isso".
Jill franziu. "Se é importante você deveria ler agora. Talvez ele... talvez ele mencione Nicholai ou Mikhail".
A última frase foi dita com mais cautela, e Carlos entendeu onde ela queria chegar, e não gostou muito. "Olha,
Nicholai é meio orgulhoso, mas você não o conhece. Ele perdeu todo o seu esquadrão hoje, homens que
provavelmente conhecia e trabalharam com ele por anos, então porque você não dá um tempo para ele?".
Jill não se redimiu. "Por que você não lê o livro enquanto eu pego o cabo? Você quer dizer que esse cara era um
tipo de agente, que trabalhava para a Umbrella e que tecnicamente não deveria estar aqui. Eu quero saber o que
ele disse em suas últimas horas, você não?".
Carlos olhou para ela e acenou relutantemente, deixando a tensão ir. Ela estava certa; se houvesse algo
importante nas anotações de Hennings sobre o que estava acontecendo em Raccoon, poderia ser útil para eles.
"Tá. Pegue todos os cabos que achar e volte rápido, tá bom?".
Jill acenou e se foi um segundo depois, desaparecendo nas sombras sem barulho. Incrível como era silenciosa;
isso leva muito treino. Carlos já ouviu falar nos S.T.A.R.S., apesar de não saber muito sobre eles, sabia que
eram bons; Jill Valentine certamente comprovou isso.
"Vamos ver o que você disse à si mesmo, Hennings". Carlos murmurou, abriu o diário e começou a ler a última
anotação.
Eu não sabia que seria assim. Eu devo tudo à eles, mas teria recusado isso se soubesse. É a gritaria, eu não
agüento mais, e quem liga se meu disfarce foi descoberto. Todos morrerão, não importa. As ruas estão cheias
de gritaria e isso também não importa.
Quando a companhia me salvou dois anos atrás, eles disseram que eu estaria trabalhando no lado escuro, o que
para mim estava bom. Eu estava para ser executado e teria concordado com dez anos limpando merda, e o que
os representantes me disseram não parecia tão ruim - outros sentenciados e eu seríamos treinados para
resolver problemas, lidando com os aspectos ilegais de suas pesquisas. Eles já têm sua organização legítima,
algumas unidades paramilitares, o pessoal do risco biológico e uma boa equipe de proteção ambiental. Nosso
trabalho seria arrumar a bagunça antes que muitas pessoas percebessem, e certificar que essas pessoas nunca
tenham a chance de falar.
Seis meses de treinamento intensivo e já estava pronto para qualquer coisa. Nossa primeira missão foi para nos
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livrarmos de alguns objetos de teste que se esconderam. Essas pessoas queriam ir à público falar sobre a droga
a qual foram injetadas, ela deveria reduzir o processo de envelhecimento mas acabou dando câncer em todos.
Demorou um pouco, mas pegamos todos eles. Eu não me orgulho disso, nem de nada que fiz durante o último
ano e meio, mas aprendi a viver com isso.
Eu fui especialmente selecionado para a operação Watchdog. Eles plantaram muitos de nós aqui logo depois da
primeira contaminação, por precaução, mas nem todos foram escolhidos para ser um Watchdog. Eles disseram
que eu era mais empenhado que os outros, que eu não tremeria vendo os outros morrendo. Viva para mim. Eu
trabalhei num depósito por duas semanas como especialista em inventário, esperando algo acontecer, entediado
até o pescoço - e de repente tudo aconteceu de uma vez só, eu não durmo há três dias e todo mundo fica
gritando até os canibais os pegarem, aí eles morrem ou torna-se um deles.
Eu tentei achar alguns dos outros, os espiões, mas não achei ninguém. Eu só conheço alguns deles, quatro das
pessoas selecionadas para Watchdogs - Terry Foster, Martin, aquele russo esquisito, e o médico de óculos do
hospital. Talvez estejam mortos, talvez escaparam ou talvez estejam à caminho. Eu não me importo. Eu não
reporto desde anteontem, e a Umbrella que vá para o inferno. Tenho certeza de que verei todos eles lá.
Eu decidi puxar o gatilho, um tiro na cabeça para não voltar. Eu queria ter sido executado, eu merecia aquilo.
Ninguém merece isso aqui.
Eu sinto muito. Se alguém achar isso, acredite no que digo.
O resto das páginas estava em branco.
Carlos ajoelhou-se perto de Hennings num tipo de confusão e examinou sua fria mão direita por resíduos de
pólvora. Estava lá. Alguém deve ter pego a arma depois -
"Carlos?".
Ele olhou para cima e viu Jill segurando um monte de cabos, um olhar preocupado e curioso em seu bonito e
sujo rosto.
"Aquele russo esquisito". Quantos poderia haver? Carlos não sabia o que eram os Watchdogs, mas achou que
Nicholai tinha algumas explicações para dar - e que seria uma boa idéia voltar para Mikhail o mais rápido
possível.
"Eu acho que te devo desculpas". Carlos disse, seu estômago dando nós de repente. Nicholai achou Mikhail logo
depois de ter sido baleado, supostamente por um estranho qualquer...
"Pelo quê?". Jill perguntou.
Carlos colocou o diário no colete, olhando Hennings pela última vez, sentindo pena, nojo e uma crescente raiva
- pela Umbrella, por Nicholai e por si mesmo dada tanta ingenuidade.
"Eu explico na volta". Ele disse, apertando sua metralhadora tão forte que suas mãos começaram a tremer, a
raiva ainda aumentando como uma inundação negra. "Nicholai estará esperando por nós".
Depois de instalar o novo fusível no painel de controle do bonde, Nicholai decidiu esperar dentro da estação pelo
retorno de Jill e Carlos. Muitas das janelas do primeiro andar estavam quebradas, e estava escuro dentro; ele
seria capaz de ouvir qualquer conversa privada, o último minuto de conversa entre eles. Nicholai não tinha
dúvidas de que Jill teria algumas palavras de alerta para Carlos à respeito da Umbrella, talvez sobre Nicholai, e a
verdade era, ele não conseguia se agüentar; ele queria saber o que a S.T.A.R.S. tinha para dizer, qual bobagem
paranóica ela diria e como Carlos reagiria. Ele se reuniria com eles um pouco depois de entrarem, diria que
estava checando o prédio por suprimentos e por aí vai.
Passearemos juntos ou viajarei sozinho? Talvez fiquemos juntos esta noite, procurando comida, fazendo turnos
de vigia. Eu podia matá-los enquanto dormem; eu podia chamar ambos para me acompanharem no hospital e
soltar os Hunters; eu podia desaparecer e deixá-los partir achando que seu querido amigo havia se perdido.
Nicholai sorriu, uma brisa fresca passou pela vidraça estilhaçada e pelo seu rosto. De verdade mesmo, suas
vidas estavam em suas mãos. Era um sentimento poderoso, até intoxicante, ter esse tipo de poder. O que tinha
começado com uma aventura financeira havia se tornado algo novo, bem mais que isso. Um entendimento do
destino humano como jamais experimentou. Ele sempre soube que era diferente, aquelas fronteiras sociais não
se aplicavam à ele como os outros entendiam; ir para Raccoon foi uma amplificação daquilo, era como uma
realidade alternativa na qual eles eram os estranhos, os invasores, e ele era o único que sabia o que estava
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acontecendo. Pela primeira vez em sua vida, ele esteve livre para fazer do jeito que queria.
Nicholai ouviu o portão do pátio ranger devagar e cuidadosamente, e ele recuou da janela. Um segundo depois,
os dois jovens soldados apareceram, andando tão quietos quanto ele próprio. Ele percebeu que eles
vasculharam o pátio como se esperassem problemas.
Talvez encontraram o Tyrant. Isso certamente apimentaria as coisas. Se Jill estivesse sendo perseguida,
Nicholai pretendia deixá-la por conta do monstro; ele mataria qualquer um burro o bastante para entrar em seu
caminho; Nicholai ficaria muito feliz em deixá-lo passar.
Jill estava um pouco à frente de Carlos, e enquanto avançavam com cuidado, Nicholai viu que ela carregava
vários cabos pendurados no ombro. Talvez ele os deixe viver mais um pouco, estavam provando serem bons em
cumprir tarefas.
"Tudo limpo". Carlos suspirou, e Nicholai sorriu para si mesmo. Ele podia ouvi-los perfeitamente.
"Ele já deve ter voltado, se não encontrou alguma das criaturas". Jill cochichou.
O sorriso de Nicholai diminuiu um pouco. Era impossível, mas estavam vasculhando por ele?
"Sugiro que nos aproximemos como se não soubéssemos de nada". Carlos disse, mantendo a voz baixa.
"Subimos, fazemos ele soltar a arma. Ele tem uma faca também".
O que é isso, o que aconteceu. Nicholai estava confuso, incerto. O que eles estão sabendo?
Jill estava acenando. "Deixe que eu faça as perguntas. Eu sei mais sobre a Umbrella, eu acho que tenho
chances melhores para convencê-lo e que sabemos tudo sobre essa missão Watchdog. Se achar que já
sabemos -".
"- então não se importará em esconder nada". Carlos completou. "Tá bom. Vamos fazer isso. Deixe a arma
preparada caso ele esteja planejando alguma festa surpresa".
Jill acenou de novo, e ambos se ergueram, Carlos pendurando a metralhadora no ombro. Eles foram para o
bonde, sem se preocuparem em fazer barulho.
A fúria que tomou conta de Nicholai foi tão apaixonante, tão envolvente que por um momento ele ficou cego por
ela. Lampejos de preto e vermelho golpearam seu cérebro, inconseqüentes e violentos, mas a única coisa que o
impedia de descer para o pátio e assassinar os dois foi o fato de estarem preparados para seu ataque. Ele
quase fez isso, a necessidade de machucá-los era tão forte que as conseqüências seriam irrelevantes. Foi
necessário todo o seu controle para ficar parado, tremendo e sem gritar de raiva.
Depois de um tempo indeterminado, ele ouviu o motor do bonde roncar para a vida, o som finalmente passando
por ele. Sua mente voltou a funcionar de novo, mas só podia pensar de modo simples, já que sua raiva era
grande demais para pensamentos complexos.
Eles sabiam que não dizia a verdade. Eles sabiam algo sobre a operação Watchdog, sabiam que estava
envolvido, e agora eram seus inimigos. Não haveria estragos no cuidadoso planejamento que fez, nenhuma
chance de confiança para o camarada Nicholai. Tudo foi uma perda de tempo... e para piorar, ele teria que ir
andando para o hospital.
Nicholai apertou os dentes, afogando-se, o impotente ódio como um segredo doente implodindo dentro de si.
Eles fizeram isso com ele, roubaram sua capacidade de controle como se tivessem o direito.
Meus planos, meu dinheiro, minha decisão. Tudo meu, e não deles, meu - depois de um momento, o mantra
começou a funcionar, acalmando-o de leve, as palavras acalmando com sua verdade. Meu, eu decido, eu.
Nicholai respirou fundo várias vezes e fixou-se na única coisa que podia trazê-lo alívio enquanto ouvia o bonde
se distanciando.
Ele acharia um meio de fazê-los se arrepender. Ele os fará implorar por piedade, e rirá enquanto gritam.
[15]
Jill ficou de pé ao lado de Carlos nos controles do bonde, olhando para fora enquanto as ruínas de Raccoon
passavam vagarosamente. Eles não conseguiam ver muito através do único farol amarelado da dianteira, mas
havia inúmeros pequenos incêndios fora de controle, e uma meia lua jogando sua pálida luz em tudo - ruas
cheias de escombros, janelas quebradas, sombras vivas que vagavam sem destino.
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"Continue devagar". Jill disse. "Se os trilhos estiverem bloqueados e estivermos rápidos demais...".
Carlos olhou irritado para ela. "Nossa, eu não tinha pensado nisso. Gracias".
Seu sarcasmo pedia uma resposta, mas Jill estava cansada demais para fazer piadas, e seu corpo parecia um
único e grande machucado. "Tá bom, desculpe".
Os trilhos desenrolavam-se à frente deles enquanto Carlos guiava cuidadosamente, desacelerando quase que
por completo a cada curva. Jill queria sentar, talvez ir para o outro vagão com Mikhail e deitar - eram poucos
quilômetros até a torre do relógio e alguém correndo podia facilmente acompanhá-los - mas sabia que Carlos
também estava cansado; ela podia sofrer de pé mais alguns minutos com ele.
Por um acordo não falado, eles não discutiram sobre Nicholai, talvez porque a especulação sobre onde estava e
o que fazia, não serviria para nada; seja lá o que pretendia, eles estavam saindo da cidade. Considerando que
sobreviveriam, Jill estava mais comprometida em ver a Umbrella pagar pelos seus crimes, pois era a Umbrella e
não Nicholai, que carregava a responsabilidade pela morte de Raccoon.
Sua intuição sobre Nicholai estava certa, ele sabia sobre as maldades da Umbrella, e Jill não percebeu um pingo
de decepção nele. Pelo que leu no diário que Carlos achou, parecia que a companhia estava preparada para a
contaminação de Raccoon e preparou uma equipe secreta para fazer relatórios sobre a catástrofe. Era
repugnante, mas não uma surpresa.
Estamos lidando com a Umbrella, afinal. Se eles podem projetar vírus e máquinas assassinas para serem
infectadas, por que não investir em assassinato em massa? Faça algumas anotações, documente algumas
agressões -
Crash!
Jill caiu em Carlos quando o bonde chacoalhou, o som de vidro quebrando vindo do vagão de trás. Meio
segundo depois, eles ouviram Mikhail soltar um tenebroso grito - de medo ou dor, Jill não sabia.
"Aqui, assuma os comandos". Carlos disse, mas Jill já estava no meio do vagão, o pesado revólver empunhado.
"Eu cuido disso, continue andando". Ela gritou, não querendo pensar no que era enquanto ia para a porta. Para
fazer o bonde balançar daquele jeito -
-- tinha que ser um dos monstros. E Mikhail mau podia se sentar.
Ela empurrou a porta e pisou na plataforma de ligação, o pesado barulho das rodas nos trilhos parecendo
incrivelmente alto enquanto abria a segunda porta, o desamparo de Mikhail no topo de seus pensamentos.
Essa não.
Os elementos do cenário eram simples e mortais: uma janela quebrada e vidro por toda parte; Mikhail à sua
esquerda, suas costas contra a parede da porta enquanto lutava para ficar de pé, usando a metralhadora como
muleta - e o matador de S.T.A.R.S. de pé no meio do vagão, sua cabeça jogada para trás, sua grande boca sem
lábios abrindo enquanto gritava sem palavras. As janelas restantes vibravam com a força de seu berro insano.
Jill abriu fogo, cada tiro como uma explosão ensurdecedora, o alto calibre acertando o peito superior enquanto
continuava gritando. O impacto das balas o fez recuar alguns passos, mas se houve algum outro efeito, ela não
conseguia ver.
A partir do sexto tiro, a metralhadora de Mikhail a acompanhou, os projéteis menores furando as gigantescas
pernas de Nemesis assim que acabou a munição de Jill. Mikhail ainda estava apoiado na parede e sua mira era
ruim, mas Jill aceitaria qualquer ajuda. Ela sacou a Beretta - mesmo com um carregador automático, demoraria
muito para carregar a .357 - e abriu fogo, quatro tiros no rosto -
- e não funcionou -
- e Nemesis parou de gritar voltando sua atenção para ela, seus brancos olhos rasgados como cataratas, seus
grandes dentes lisos e brilhantes. Tentáculos iguais a cobras em volta de sua cabeça sem cabelo.
"Saia daqui!". Mikhail gritou, e Jill olhou para ele, sem ao menos considerar a idéia enquanto atirava de novo -
até perceber um instante depois que ele estava segurando uma granada, um dedo temendo entre o anel. Ela
reconheceu o formato sem pensar nele - uma RG34 Czech, Barry também colecionava granadas anti-pessoas
- enquanto mandava outra bala em sua costurada sobrancelha, mas sem efeito. Granada de impacto, uma vez
puxado o anel, detonaria em contato -
- e Mikhail não sobreviveria, seria suicídio -
"Não, você sai daqui, fique atrás de mim". Ela gritou, e o matador de S.T.A.R.S. deu um largo passo adiante,
diminuindo a distância quase pela metade.
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"Saia daqui!". Mikhail ordenou de novo e puxou o anel, uma expressão de incrível concentração e propósito em
seu pálido rosto. "Eu já estou morto! Vai, agora!".
Sua Beretta atirou mais uma vez e recuou.
Jill girou e correu, deixando Mikhail para enfrentar o monstro sozinho.
Carlos ouviu os gritos em meio aos tiros enquanto tentava parar o bonde, desesperado para ajudar Jill e Mikhail,
mas estavam no meio de uma curva relativamente fechada, e os controles mau cuidados combatiam seus
esforços. Ele estava a um segundo de se juntar à eles quando a porta atrás dele abriu fortemente.
Carlos girou, apontando sua M16 com uma mão enquanto mantinha a outra instintivamente na válvula, e viu Jill.
Ela praticamente voou pelo vagão, suas feições como uma máscara de horror, seu nome surgindo entre os
lábios dela -
- e um tremendo balanço de fogo e barulho estourou atrás dela, fazendo-a mergulhar, rolando desajeitada
sobre o ombro enquanto um boom-crash ecoava do segundo vagão. Línguas de fogo passaram pela janela da
porta assim que o chão tremeu violentamente. Carlos pulou no assento, o apoio do braço acertando forte o
bastante para trazer lágrimas aos seus olhos.
Mikhail!
Carlos deu um vacilante passo em direção à porta -e só viu pedaços em chamas do vagão rasgado sendo
puxado, distanciando-se enquanto o bonde ganhava velocidade. Não havia chances de Mikhail ter sobrevivido,
e Carlos começou a ter sérias dúvidas sobre suas próprias chances assim que Jill se aproximou, sua face
assombrada pelo que tinha visto.
O bonde entrou em outra curva, e ficou fora de controle, balançando para frente e para trás como um navio em
mares tempestuosos, exceto pelos trovões e relâmpagos estarem sendo causados pelo vagão raspando em
prédios e batendo em carros, criando grandes plumas de faíscas. Ao invés de diminuir, o bonde parecia ganhar
velocidade a cada impacto, colidindo no escuro em uma série de agudos gritos metálicos.
Carlos lutou contra a gravidade para agarrar a válvula, ciente de que tinham descarrilado, de que Mikhail se fora,
de que a única esperança era o freio manual. Se tiverem muita sorte, as rodas travariam.
Ele puxou o freio manual o mais forte que pôde -
- e nada aconteceu, nada mesmo. Eles estavam ferrados.
Jill chegou na frente apoiando-se nos assentos e barras enquanto o bonde continuava a sacudir e raspar.
Carlos a viu olhar inconformada para a válvula sob os dedos dele, viu desespero em seus olhos, e sabia que
precisavam saltar.
"Os freios!". Ela gritou.
"Não funcionam! Nós temos que pular!".
Ele virou, pegou a metralhadora pelo cano e usou a coronha para quebrar a janela ao lado, um súbito balanço
lateral mandou cacos de vidro em seu peito. Ele segurou na lisa moldura da janela com uma mão, e esticou-se
para agarrar Jill -
- e a viu descer o cotovelo num pequeno painel de vidro na parte debaixo do console, um olhar de desesperada
esperança no rosto dela enquanto apertava o botão que ele não conseguia ver -
SKREEEEEEE -
Freio de emergência.
- e incrivelmente, o bonde estava parando, inclinando um pouco para a esquerda antes de equilibrar-se,
continuando a deslizar sobre o decrescente brilho das faíscas. Carlos fechou os olhos e agarrou a inútil válvula,
ansioso, tentando preparar-se para o impacto - e alguns segundos depois, um suave e anti-climático esmago
disse que sua viagem havia acabado; o vagão parou em cima de uma pilha de pedaços de concreto no meio de
um gramado bem cuidado, perto de algumas estátuas sombrias e arbustos. Um último tremor balançou o vagão
e estava acabado.
Silêncio, exceto pelos estalos de metal resfriando. Carlos abriu os olhos, quase incapaz de acreditar no
assustador passeio que fizeram pela cidade. Ao lado dele, Jill deu um trêmulo respiro. Tudo aconteceu tão
rápido que foi um milagre terem sobrevivido.
"Mikhail?". Ele perguntou delicadamente.
Jill balançou a cabeça. "Foi o Tyrant, a punição do S.T.A.R.S. Mikhail tinha uma granada, o monstro continuou
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andou até nós e ele -".
Sua voz parou, e ela começou a recarregar suas armas, concentrando-se nos simples movimentos. Eles
pareciam acalmá-la. Quando falou de novo, sua voz soou firme.
"Mikhail sacrificou-se quando viu que Nemesis estava vindo para mim".
Ela desviou o olhar, olhando para o escuro lá fora assim que uma fria brisa passou pelas janelas estilhaçadas do
bonde. Seus ombros caíram. Carlos não sabia o que dizer. Ele deu um passo até ela, tocando gentilmente um
de seus ombros arranhados, e sentiu o corpo dela endurecer sob seus dedos. Ele rapidamente tirou a mão, com
medo de tê-la ofendido de alguma forma, e percebeu que ela olhava para algo lá fora, um olhar de pura
surpresa em suas delicadas feições.
Carlos seguiu seu olhar, olhando para fora e para cima, vendo uma torre de três ou quatro andares erguendo-se
sobre eles, em forma de silhueta contra um fundo de nuvens noturnas. A face de um brilhante relógio branco
estava no topo e marcava quase meia-noite.
"Alguém nos ama, Carlos". Jill disse, e Carlos só conseguiu acenar, calado.
Eles estavam na torre do relógio.
***
Nicholai andou pelos trilhos refletindo a luz da lua, sem se preocupar em se esconder enquanto marchava à
oeste. Ele seria capaz de ver qualquer coisa vindo e a mataria antes que o alcançasse; ele estava irritado e
agradeceria pela oportunidade de estourar as tripas de alguma coisa humana ou não.
Sua raiva tinha diminuído um pouco, dando lugar a um estado de consciência pessimista. Não havia mais
condições de perseguir o líder de pelotão e os dois jovens soldados - basicamente, não havia tempo o bastante.
Levaria pelo menos uma hora para chegar à torre do relógio; se conseguirem descobrir como tocar os sinos, já
não estariam mais lá quando chegar.
Nicholai franziu, tentando se lembrar de que os planos não tinham mudado, de que ainda tinha um roteiro para
seguir. Quatro pessoas ainda esperavam por ele inconscientemente. Depois do Dr. Aquino, havia os soldados -
Chan e o Sargento Ken Franklin - e o funcionário da fábrica, Foster. Quando todos estiverem fora do caminho,
Nicholai ainda tinha que organizar os dados, marcar uma reunião e sumir de helicóptero. Ele tinha muito o que
fazer... e ainda não podia deixar de se sentir enganado pelas circunstâncias.
Ele parou de andar, inclinando a cabeça para o lado. Ele ouviu um barulho, um impacto de algum tipo mais
adiante, talvez até uma pequena explosão abafada pela distância. Um segundo depois, ele sentiu uma levíssima
vibração vindo dos trilhos. A linha corria pelo meio da rua, qualquer coisa sólida podia fazê-la vibrar -
- mas eram eles, Mikhail, Carlos e Jill Valentine. Eles esbarraram em algo, ou algo deu errado com o motor, ou...
Ele não sabia o quê, mas de repente ficou certo de que eles encontraram problemas. Isso reforçou o sentimento
positivo de que ele era o único com habilidade; os outros precisavam confiar na sorte, e nem toda sorte era boa.
Talvez nos encontremos de novo. Tudo é possível, especialmente num lugar como esse.
Adiante e à esquerda, entre um prédio e um terreno cercado, veio um ronco borbulhante. Três infectados
cambalearam até o espaço aberto, dez metros de onde ele estava. Ele estava muito longe para vê-los
claramente sob a pálida lua, mas Nicholai viu que nenhum deles estava em boa forma; dois não tinham braços e
o terceiro parecia ter perdido metade das pernas, dando a impressão de estar andando ajoelhado, cada passo
criando um barulho igual a alguém estalando os lábios.
"Uhllg". O mais próximo reclamou, e Nicholai atirou em seu cérebro desintegrado. Mais dois tiros e os outros se
juntaram ao primeiro, caindo no asfalto como leves tapas.
Ele sentiu-se bem melhor. De alguma forma ganhou uma oportunidade para ver seus camaradas novamente - e
percebeu estar confiante de que os veria - ele era um homem superior e triunfaria no final.
Isso o encheu com nova energia. Nicholai passou a correr devagar, animado para enfrentar qualquer desafio que
encontrar.
[16]
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A porta do bonde estava retorcida e Jill e Carlos teriam que sair por uma janela, Carlos parecendo tão esgotado
quanto Jill se sentia. Era uma coincidência muito estranha de terem parado exatamente onde precisavam, mas
as últimas horas - semanas também foram estranhas. Jill pensou que ajudaria se parasse de deixar as coisas a
surpreenderem.
A torre do relógio parecia sem vida, nada se movendo exceto a fina coluna de fumaça de óleo fervendo do
sistema elétrico do bonde. Eles andaram para a fonte decorativa na frente da porta principal, olhando para o
gigante relógio acima e para o pequeno campanário que cobria a torre, os pensamentos de Jill pesados com
imagens de Mikhail Victor. Ela nem tinha sido apresentada formalmente ao homem salvou sua vida, e achou ter
perdido um valioso aliado. A força de caráter que levou para morrer e deixar outra viver... heróico era a única
palavra que servia.
De repente ele até matou Nemesis, o monstro estava praticamente sobre ele quando a granada explodiu...
pensando com otimismo, ela só podia desejar.
"Então, acho que devemos tentar achar o mecanismo do sino". Carlos disse. "Você acha seguro nos separarmos
ou -"
Caw!
O áspero choro de um corvo o interrompeu, e Jill sentiu uma nova onda de adrenalina em suas veias. Ela
agarrou a mão de Carlos assim que um alvoroçado som encheu o escuro acima e em volta deles, o som de asas
batendo no ar.
A sala de quadros na mansão, observada de cima por dezenas de olhos negros brilhantes esperando para
atacar. E Forest Speyer, do Bravo Team, Chris disse que tinha sido rasgado por dezenas, talvez centenas deles.
"Vamos!". Ela puxou Carlos, lembrando da implacável perversidade dos corvos modificados da mansão de
Spencer. Carlos parecia saber o que era melhor além de perguntas assim que uma dezena de berros rouca
cortou o ar. Os dois contornaram a fonte até a porta dupla frontal da torre.
Trancada.
"Me dê cobertura!". Jill gritou, procurando suas pinças na bolsa, os gritos se aproximando deles -
- e Carlos se jogou nas portas, batendo forte o bastante para estilhaços voarem. Ele recuou alguns passos
correndo e voou nelas de novo, bam -
- e as portas abriram para dentro, Carlos tropeçando e se esparramando nas lajotas de bom gosto que cobriam
o chão, Jill entrando rapidamente atrás dele. Ela agarrou as alças da porta e as bateu o quanto antes. Houveram
dois socos abafados do outro lado, acompanhados por um coro de berros famintos e bater de asas, e
começaram a recuar, o barulho se distanciando. Jill encostou-se nas portas, exalando fortemente.
Deus, será que isso não vai acabar mais? Será que teremos de enfrentar cada besta demoníaca dessa cidade
antes de fugirmos?
"Pássaros zumbis? Você tá brincando?". Carlos disse, levantando-se do chão enquanto Jill trancava as portas
manualmente. Ela não se preocupou em responder, virando para examinar o grandioso saguão da torre do
relógio.
O lugar a fez lembrar da mansão de Spencer, as luzes baixas e ornamentação gótica, criando uma desgastada e
elegante atmosfera. Uma larga escadaria de mármore dominava o amplo saguão, levando ao segundo andar
com janelas de vitral. Havia uma porta de cada lado do saguão, duas mesas de madeira bem à frente, e à
esquerda...
Jill inspirou e sentiu algo apertar por dentro. Não que esperasse encontrar um santuário intocado, só por estar
mais longe do centro, e percebeu que carregava esperança - uma esperança perdida ao ver mais morte.
A cena contava uma história, do tipo misteriosa. Cinco cadáveres masculinos, todos eles vestidos com roupas
militares. Três deles deitados perto das mesas, aparentemente vítimas de um infectado; o corpo baleado do
infectado estava ali perto. A carne das vítimas tinha sido mastigada, seus crânios esmagados e vazios. O quinto
corpo, um jovem, tinha baleado a própria cabeça, provavelmente depois de ter derrubado o zumbi. Será que ele
se matou por desespero ao ver os amigos devorados? Será que de alguma forma foi o responsável por aquilo?
Ou ele conhecia o infectado e se matou depois de ter sido forçado a tirar sua vida?
Jamais poderemos saber. São apenas outras vidas perdidas nessa tragédia, uma das milhares da cidade.
Carlos se aproximou do corpo, franzindo. Com uma apertada expressão no rosto, ela teve a impressão de que
ele os conhecia. Ele agachou entre eles e puxou uma mochila manchada com um risco de sangue, fazendo um
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rastro vermelho pelas lajotas. Jill pôde ouvir metal tocando metal dentro da mala, e provavelmente estava
pesada, o bíceps de Carlos contraindo para erguê-la.
"É o que penso que é?". Jill perguntou.
Carlos levou a mala para uma das mesas e tirou o conteúdo. Jill sentiu uma inesperada explosão de alegria com
o que estava lá; ela correu para a mesa, mau acreditando na sorte deles.
Meia dúzia de granadas iguais à que Mikhail tinha, RG34; oito pentes de trinta balas para M16, aparentemente
completos; e mais do que poderia imaginar, um lançador de granadas US M79 com um monte de gordos
cartuchos de 40mm.
"Armas na torre do relógio". Carlos disse, pensativo. Antes que Jill pudesse perguntar o que ele quis dizer, ele
pegou um dos cartuchos e sussurrou de leve.
"Chumbo grosso". Ele disse. "Um desses teria estourado aquela porcaria de Nemesis espantajo".
Jill ergueu a sobrancelha. "Espantajo?".
"Literalmente, espantalho,". Carlos disse. "mas é usado como esquisito ou aberração".
Apropriado. Jill acenou na direção dos homens que estavam com as armas. "Você os conhecia?".
Desconfortável, Carlos balançou os ombros, passando-a três granadas. "Todos são da U.B.C.S., eu já os tinha
visto de passagem, mas eu não conheço - não conhecia eles. Eles eram apenas soldados, provavelmente não
tinham idéia de onde estavam se metendo quando entraram para a Umbrella, ou quando foram enviados para
cá. Como eu". Ele parecia bravo e um pouco triste, e mudou de assunto de repente, lembrando do quanto perto
estavam de escapar de Raccoon City. "Você quer ficar com o lança-granadas?".
"Pensei que nunca ofereceria". Jill disse, sorrindo. Ela poderia usar a arma que, segundo Carlos, explodiria a
porcaria do Nemesis. "Agora só precisamos achar algum botão em algum lugar, apertá-lo, e esperar nosso táxi
chegar".
Carlos sorriu de leve em resposta, guardando os pentes de M16 nos bolsos do colete. "E tentar não morrer,
como todos nesse maldito lugar".
Jill não respondeu à isso. "Escada acima?".
Carlos acenou. Armados e preparados, eles começaram.
O segundo andar da torre do relógio era na verdade uma sacada interna que circundava o saguão. Corria por
três paredes do saguão e terminava em uma única porta, a qual deveria levar para outra escadaria - até o
campanário, se Carlos lembrou do termo corretamente. Onde os sinos ficavam.
Está quase acabado, quase acabado... ele deixou o pensamento afugentar todos os outros, cansado demais
para considerar seus sentimentos de raiva, tristeza e medo, ciente de que não faltava muito para chegar ao seu
limite. Ele poderia organizar suas emoções assim que saísse de Raccoon.
A sacada interna era tão ricamente adornada quanto o saguão, ladrilhos azuis que combinavam com o azul dos
vitrais, uma viga arqueada suportada por colunas brancas. Eles podiam ver tudo do topo da escada, e parecia
estar vazio, nenhum monstro ou zumbi a vista. Carlos respirou mais fácil e viu que Jill também parecia mais
calma. Ela levava a Colt Python como ajuda.
Como Trent sabia que haveria armas aqui? Será que ele sabia que eu estaria pegando-as de homens mortos?
Carlos percebeu de repente que estava subestimando o poder de Trent. Tinham que haver mais armas no
prédio, Jill e ele apenas esbarraram numa mala pessoal. A opção - de que Trent sabia sobre os soldados
mortos - era muito estranha.
Eles começaram a andar pela primeira asa da sacada, um do lado do outro, Carlos imaginando o que Jill diria se
ele contasse sobre Trent. Ela provavelmente pensaria que ele estava brincando, a coisa toda era tão misteriosa,
igual um romance de espionagem -
Algo se moveu. Na frente deles, depois da primeira curva, algo no teto, um relance de escuro movimento. Carlos
debruçou-se no peitoril, mas seja lá o que fosse, ou estava escondido atrás de um dos arcos ou era apenas algo
que seu exausto cérebro criou para mantê-lo acordado.
"O que é?". Jill suspirou no ombro dele, seu revólver preparado.
Carlos procurou por mais alguns longos segundos e balançou a cabeça, virando para ela. "Nada, eu acho,
pensei ter visto algo no teto, mas -".
"Droga!".
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Carlos girou assim que Jill apontou sua arma para o teto bem na frente deles, assim que uma criatura do
tamanho de um cachorro grande ia de encontro à eles, uma coisa corcunda e com várias pernas, seus grossos e
peludos pés andando pegajosamente no teto mais rápido do que poderia imaginar.
Jill descarregou três balas antes que Carlos pudesse piscar, mas não antes de registrar o que estava vendo. Era
uma aranha, grande o bastante para que Carlos pudesse ver seu próprio reflexo nos brilhantes olhos enquanto
caia no chão. Escuros fluídos jorravam de suas costas enquanto suas pernas multicoloridas se debatiam no ar,
sangue viscoso empoçando ao seu redor. A silenciosa e violenta dança durou um segundo ou dois antes de se
encolher, morta.
"Eu odeio aranhas". Jill disse, um olhar de repugnância em seu rosto enquanto andava novamente, vasculhando
o teto. "Todas aquelas pernas, aquele estômago inchado... eca".
"Você já viu dessas antes?". Carlos perguntou, incapaz de não olhar para o corpo fechado como um punho.
"Já, no laboratório da Umbrella na floresta. Não vivas, as que eu vi estavam mortas".
Jill aparentou calma enquanto pulavam a aranha e continuavam a andar, Carlos lembrando do quanto sortudo foi
de ter se aliado à ela. Ele já conheceu muitos homens corajosos em suas experiências, mas duvidava que
muitos deles, postos no lugar dela, sairiam-se tão bem quanto Jill Valentine.
O resto da sacada estava vazia, apesar de Carlos ter notado com certo desconforto um monte de teias no teto,
montes da coisa branca e grossa acumulados em cada canto; ele não ligava muito para aranhas mesmo.
Quando alcançaram a porta e a cruzaram, Jill passando abaixada, Carlos ficou aliviado por sair ao ar livre
novamente.
Eles saíram numa ampla laje bem na frente da torre, um isolado lugar cercado por um parapeito adornado,
alguns holofotes queimados e algumas plantas. Havia uma abertura parecida com uma porta um andar acima na
torre, e nenhum meio de chegar lá. Parecia não ter saída, nenhum lugar para ir exceto voltar por onde vieram.
Carlos suspirou; pelo menos os corvos, se é o que eram, tinham migrado para outro lugar.
"E agora?". Carlos perguntou, olhando para o pátio escuro lá embaixo, o bonde ainda soltando fumaça. Quando
não recebeu resposta, Carlos virou e a viu parada na frente de uma placa de cobre, presa entre as pedras da
parede da torre. Ela abriu sua bolsa e tirou um conjunto de pinças.
"Você desiste muito fácil". Jill disse, selecionando algumas das peças. "Vigie os corvos, e verei o que poso fazer
para conseguir uma escada".
Carlos a cobriu, imaginando vagamente se havia algo que ela não podia fazer, respirando o cheiro de chuva no
frio vento que soprava na laje. Um momento depois houve uma série de cliques seguidos por um leve hum de
maquinário, e uma estreita escada metálica de mão começou a descer logo abaixo da abertura.
"O que me diz se ficar vigiando por mais alguns minutos?". Jill perguntou, sorrindo.
Carlos sorriu, notando a empolgação dela; estava realmente quase acabado. "Tá bom".
Jill escalou a escada e desapareceu na abertura acima. Ela gritou um segundo depois dizendo estar tudo limpo,
e durante os vários minutos seguintes, Carlos passeou pela laje, pensando no que faria depois de ser resgatado.
Ele queria falar com Trent de novo, sobre o que precisaria ser feito para acabar com a Umbrella; para o que der
e vier, ele estaria lá.
Eu aposto que Trent ficaria interessado em falar com Jill, também. Quando os helicópteros vierem, nós
bancaremos os idiotas até nos deixarem ir, aí planejaremos o próximo passo - depois de comer, de tomar um
banho e de dormir por umas vinte e quatro horas, claro...
Ele estava tão fixado no pensamento que não reparou nas expressões de Jill quando voltou, não percebeu que
não havia sinos tocando. Ele sorriu para ela... e sentiu seu coração afundar, entendendo que a aventura ainda
não tinha acabado.
"Está faltando uma engrenagem do mecanismo,". Ela disse. "e precisamos dela para fazê-los tocar. A boa
notícia é, eu aposto que está em algum lugar do prédio".
Carlos ergueu uma sobrancelha. "Como você sabe?".
"Eu achei isso perto de uma das outras engrenagens". Jill disse, e lhe passou um esfarrapado cartão postal.
A foto da frente era de três pinturas penduradas uma ao lado da outra, cada uma com um relógio no meio.
Carlos virou o cartão e viu "St. Michael Clock Tower, Raccoon City" impresso elegantemente no canto superior
esquerdo. Abaixo disso, estava uma linha impressa de um verso, o qual Jill leu em voz alta.
"Dê sua alma para a deusa. Ponha suas mãos juntas para rezar por ela".
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Carlos a olhou. "Você está sugerindo que nós rezemos pela engrenagem perdida?".
"Ha ha. Eu estou sugerindo que a engrenagem está onde esses relógios estão".
Carlos devolveu o cartão. "Você disse que essa é a boa notícia - qual é a ruim?". Jill sorriu amargamente, uma
expressão totalmente sem humor. "Eu duvido que a peça estará em algum lugar visível. É um tipo de
quebra-cabeça, como os que eu encontrei na mansão de Spencer - e alguns deles quase me mataram".
Carlos não perguntou. Por enquanto, ele não queria saber.
[17]
Depois de persegui-lo por quase meia hora, Nicholai achou o Dr. Richard Aquino no quarto andar do maior
hospital de Raccoon City. Ver o Watchdog fez Nicholai feliz de um modo que não podia explicar, nem para si
mesmo. Uma sensação de que tudo estava de bem com o mundo, de que as coisas estavam se desenrolando
como deveriam...
.. comigo no topo, tomando decisões. Em um momento só restariam três, três cachorrinhos para caçar na terra
dos mortos-vivos, ele pensou sonhadoramente. Pode ficar melhor do que isso?
Aquino só estava trancando uma porta, um olhar de medo transpirante em seu pálido rosto enquanto seu olhar
vagava pelo lugar apreensivamente. Ele guardou as chaves no bolso e virou para o corredor que levava para o
elevador, trazendo seus manchados óculos para a ponta do nariz. Nicholai estava impressionado pelo fato de
nem estar armado.
Nicholai saiu das sombras, planejando se divertir. Depois de ter gasto mais de uma hora para chegar ao hospital
andando, o ratinho do Dr. Aquino ainda teve coragem de tentar se esconder dele - se bem que olhando para ele
agora, Nicholai pensou que o cientista nem sabia que estava sendo caçado e evitou Nicholai por acidente.
Aquino parecia ser o tipo de homem que podia se perder no próprio jardim; e mesmo naquele momento o
"cão-de-guarda" não tinha percebido que estava acompanhado, que Nicholai estava só a três metros de
distância.
"Doutor". Nicholai disse em voz alta, e Aquino pulou girando, suspirando, balançando as mãos involuntariamente
à sua frente; a surpresa foi total. Nicholai não conseguiu conter um leve sorriso.
"Quem, quem é você?". Aquino gaguejou. Ele tinha olhos azuis aguados e um péssimo penteado.
Nicholai se aproximou, intimidando o cientista abertamente com seu tamanho. "Eu estou com a Umbrella. Eu vim
ver como vocês estão se saindo com a vacina... entre outras coisas".
"Com a Umbrella? Eu não - que vacina, eu não sei do que você está falando".
Desarmado, sem habilidades físicas e não consegue mentir sem ficar vermelho. Ele deve ser brilhante.
Nicholai abaixou a voz conspiratoriamente. "A Operação Watchdog me enviou, Doutor. Você não vem
arquivando relatórios de detalhes ultimamente. Eles estiveram preocupados com você".
Aquino pareceu na beira de um colapso por causa do alívio. "Ah, se você sabe sobre - eu pensei que você fosse
- sim a vacina, eu tenho estado ocupado; meu, é, contato queria a síntese inicial dividida em etapas, então não
há uma amostra misturada produzida - mas eu posso assegurar que é apenas uma questão de combinar
elementos e tudo fica pronto". O doutor praticamente tagarelou em seu esforço para submeter-se.
Nicholai balançou a cabeça de modo zombador, como se não acreditasse. "E você fez tudo isso sozinho?".
Aquino sorriu de leve. "Meu assistente, Douglas, me ajudou, que Deus o tenha. Eu sinto que tenho estado um
pouco sobrecarregado desde sua morte, antes de ontem. É por isso que eu perdi os últimos relatórios...".
Ele parou de falar, e tentou outro sorriso. "Então... é você que foi enviado para recolher a amostra - Franklin,
não é?".
Nicholai não pode acreditar em sua própria sorte, ou na ingenuidade de Aquino; o homem estava preste a
entregar o único antídoto existente dos vírus T e G, só porque Nicholai disse ter sido enviado pela Umbrella. E
agora outro de seus alvos estava aparecendo -
"Sim, está certo". Nicholai disse suavemente. "Ken Franklin. Onde está a vacina, Doutor?".
Aquino procurou suas chaves. "Aqui. Eu tinha acabado de escondê-la - a vacina base, nós mantemos a média
separada - eu a escondi aqui por segurança, até você chegar. Eu pensei que você viesse amanhã à noite, você
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está mais adiantado do que eu esperava".
Ele abriu a porta e o convidou. "Há um cofre refrigerado na parede atrás daquele quadro de paisagem sem graça
- uma recente adição de um rico paciente, um excêntrico, não que isso seja relevante...".
Nicholai passou pelo doutor tagarela, interrompendo-o, ainda pasmo por Aquino ter sido selecionado para
Watchdog, quanto percebeu ter deixado o cientista em sua retaguarda.
Tudo veio ao mesmo tempo naquele instante, uma cena completa na mente de Nicholai - o burro e nerd falante
da ciência, deixando seus inimigos à vontade, deixando-os subestimar suas habilidades -
Essa consciência só levou uma fração de segundo, e Nicholai já estava se movendo.
Ele se ajoelhou e girou os braços, agarrando os tornozelos de Aquino e literalmente varrendo-o do chão. Aquino
uivou e caiu em cima de Nicholai. Uma seringa caiu no chão e Aquino tentou alcançá-la, mas Nicholai ainda
segurava suas esqueléticas pernas. O doutor nem tinha músculos. De fato, Nicholai achou bem fácil segurar o
alvoroçado doutor com um braço enquanto alcançava sua faca presa na bota com o outro.
Nicholai sentou, puxou Aquino mais próximo e esfaqueou sua garganta.
Aquino colocou as mãos no pescoço enquanto Nicholai tirava a lâmina, olhando para seu assassino com olhos
arregalados e chocados, sangue jorrando sobre seus dedos enquanto o coração continuava fazendo seu
trabalho.
Nicholai também olhou, sorrindo sem dó. Aquino tinha sido golpeado para morrer, e o fato de ter atacado
Nicholai só fez a morte mais prazerosa, além de ser uma necessidade.
O cientista finalmente caiu, ainda apertando sua borbulhante garganta, perdendo a consciência. Ele morreu
rapidamente depois disso, um último espasmo e pronto.
"Melhor você do que eu". Nicholai disse. Ele vasculhou o resfriante corpo e achou várias outras seringas e um
código de quatro dígitos num pedaço de papel - sem dúvida era a combinação do cofre. Aquino certamente não
esperava que Nicholai aparecesse para roubar a vacina.
Nicholai levantou e andou para o cofre, repassando seus planos como sempre fazia depois de qualquer ocorrido
inesperado. Aquino estava esperando Ken Franklin buscar a amostra, o que significava que Franklin iria
aparecer, a não ser que o doutor estivesse mentindo. Nicholai acreditava nele. Aquino foi tão convincente porque
esteve dizendo a verdade, uma excelente técnica para distrair o oponente...
.. então eu sintetizo a vacina, talvez eu cace um pouco enquanto espero o Sargento Franklin, me livro dele - e
destruo o hospital, junto com a pesquisa de Aquino. Se a Umbrella estiver observando, vai pensar que tudo está
acontecendo conforme o planejado. Depois disso, só restará Chan e o empregado da fábrica, Terence Foster...
Dane-se Mikhail e os outros dois, eles não eram mais importantes. Quanto mais cedo se tornar o único
Watchdog sobrevivente, mais valioso Nicholai ficaria. E com a vacina TG em mãos, não haveria limite para a
recompensa da Umbrella.
Ao chegarem nas salas de trás, Jill estava quase pronta para admitir derrota. Eles foram à toda parte,
destrancando portas, revirando cada sala extremamente bem mobiliada, pulando sobre cadáveres e fazendo
mais alguns. Uma parede de vidro quebrada no salão antes da capela permitiu que vários infectados entrassem,
e encontraram outra aranha gigante no corredor depois da biblioteca.
Durante o caminho, ela contou um pouco sobre a mansão de Spencer e arredores, histórias as quais precisou
desenterrar depois da desastrosa missão do S.T.A.R.S.. O velho Spencer, um dos fundadores da Umbrella, era
um fanático por esconderijos e passagens secretas, e contratou George Trevor, um arquiteto conhecido por sua
criatividade, para projetar a mansão e renovar alguns dos locais históricos da cidade, amarrando lugares de
Raccoon nas fantasias de espião de Spencer.
"Isso tudo foi trinta anos atrás,". Jill disse. "e o cara era completamente maluco por elas, é por aí vai. Assim que
tudo ficou pronto, ele trancou a mansão e levou a sede da Umbrella para a Europa".
"O que aconteceu com George Trevor?". Carlos perguntou. Eles pararam em outra porta, que devia ser uma das
últimas salas.
"Ah, essa é a melhor parte". Jill disse. "Ele desapareceu um pouco antes de Spencer sair da cidade e ninguém
jamais o viu de novo".
Carlos balançou a cabeça devagar. "Que lugarzinho pra se viver, viu?".
Jill acenou, abrindo a porta e recuando, revólver empunhado. "É, eu estive pensando nisso".
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Nada se movia. Pilhas de cadeiras à direita. Três estátuas, bustos femininos, bem à frente. Haviam dois corpos
abraçados à esquerda da porta, um casal, fazendo Jill erguer a sobrancelha e desviar o olhar - e lá, pendurados
na parede sul dentro de molduras douradas, estavam os três relógios.
Eles andaram na sala, Jill estudando seu redor impacientemente. Parecia normal...
.. tão normal quanto aquela sala da mansão que acabou virando um compactador de lixo gigante. Por força do
impulso, Jill encostou uma cadeira na porta para mantê-la aberta enquanto ia olhar as pinturas.
Bom, os tipos de pinturas. Ela supunha serem chamadas de mídia combinada. As três pinturas eram de três
mulheres, uma em cada tela, e cada uma contendo um relógio octogonal - o primeiro e o último marcando
meia-noite, o do meio marcando cinco horas. Uma pequena cavidade em forma de concha avançava sob cada
moldura. As obras estavam intituladas como deusa do passado, presente e futuro, da esquerda para a direita.
"O cartão postal dizia algo sobre colocar as mãos juntas". Carlos disse. "Como se fossem os ponteiros do
relógio, certo?".
Jill acenou. "É, faz sentido. Só é obscuro o bastante para incomodar".
Ela esticou o braço e tocou levemente a concha da pintura do meio, a de uma mulher dançando. Houve um fraco
clique e a concha desceu como uma balança, o peso de sua mão empurrando-a para baixo. Ao mesmo tempo,
os ponteiros do relógio começaram a girar.
Jill puxou a mão, com medo de ter tirado algo do lugar, e os ponteiros voltaram para a configuração anterior.
Nada mais aconteceu.
"Mãos juntas...". Ela sussurrou. "Você acha que eles querem dizer que todos os ponteiros devem marcar a
mesma hora? Ou querem dizer literalmente, mãos alinhadas?".
Carlos balançou os ombros e tocou a concha da deusa do futuro, definitivamente a mais arrepiante de todas. A
do passado era uma jovem garota sentada numa colina, a do presente era uma mulher dançando... e a do futuro
era a figura de uma mulher em um justo vestido de festa, seu corpo posando sedutoramente - mas com a
careca e brilhante face de uma caveira.
Jill conteve o arrepio e não deixou nenhum pensamento entrar no tema da morte iminente, como se já não
tivesse tido o bastante disso.
A concha que Carlos tocou desceu, e de novo, foram os ponteiros da deusa do presente que se moveram.
Aparentemente, os outros dois estavam presos em meia-noite.
Jill se afastou da parede e cruzou os braços pensando - e de repente conseguiu adivinhar como o
quebra-cabeça funcionava, se não estivesse errada. Ela girou, esperando que as peças faltando estivessem por
perto, e sorriu ao ver as três estátuas - ah, a simetria - e os três objetos que seguravam em seus finos dedos de
pedra.
"É um quebra-cabeça de peso". Jill disse, andando para as estátuas. Vendo de perto, ela viu que cada uma
segurava uma concha contendo uma única pedra do tamanho de um punho. Ela as ergueu, sentindo os globos,
notando os pesos diferentes.
"Três pedras, três conchas". Ela continuou, voltando para as pinturas, entregando a pedra escura - feita de
obsidiana ou ônix, ela não sabia - para Carlos. A outra era de cristal claro e a terceira de âmbar brilhante.
"E o objetivo é fazer o relógio do meio marcar meia-noite". Carlos disse, pegando a pedra.
Jill acenou. "E tenho certeza que há uma lógica para seguir, uma combinação de cor, como preto para morte,
talvez... ou talvez matemática. Não importa, não levará muito tempo para tentar todas as combinações".
Eles começaram tentando cada pedra em uma pintura por vez, depois usando todas, Jill estudando
cuidadosamente o relógio do presente com cada depósito. Parecia que cada pedra tinha diferentes valores
dependendo do lugar onde fosse colocada. Jill estava começando a achar que sabia - era certamente
matemático - quando por acaso acharam a solução.
Com a de cristal no passado, obsidiana no presente e âmbar no futuro, o relógio do meio alcançou meia-noite,
tocando levemente. O ponteiro dos minutos começou a correr no sentido anti-horário clicando - e então a face
do relógio saiu da parede, empurrada por um mecanismo que Jill não podia ver. No buraco revelado estava a
brilhante engrenagem dourada do mecanismo dos sinos que estava faltando.
Inteligente, seus idiotas, mas não inteligente o bastante.
Carlos estava franzindo, suas expressões claramente confusas. "O que diabos é isso, afinal? Por que alguém
esconderia a engrenagem, e de modo tão complicado?".
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Jill tirou a brilhante peça do esconderijo, lembrando de seus próprios pensamentos sobre a mesma situação há
seis semanas, de pé nos escuros corredores da mansão de Spencer. Por que, por que um sigilo tão elaborado?
Os arquivos que Trent a entregou pouco antes da missão eram cheios de respostas para os enigmas da
mansão, sorte a dela; sem eles, ela nunca poderia ter escapado. A maioria dos pequenos e bizarros
mecanismos eram muito complicados para serem práticos, prudentes ou funcionais. Qual era o objetivo?
Depois de ter pensado muito, Jill finalmente concluiu que o verdadeiro quadro de diretores da Umbrella, aqueles
que ninguém conhecia, eram fanáticos paranóicos. Eles eram crianças auto-envolvidas, brincando com jogos de
agente secreto e apostando com a vida de outras pessoas, só porque podiam. Porque ninguém nunca os
explicou que esconder brinquedos e fazer mapas do tesouro era algo que as pessoas superavam com o
crescimento.
E porque ninguém as impediu. Ainda.
De repente, animada para acabar com tudo, colocar a engrenagem, tocar o sino e apenas partir, Jill respondeu
para Carlos do modo mais simples. "Eles são loucos, por isso. Cem por cento malucos de primeira categoria.
Está pronto para sair daqui, ou não?".
Carlos acenou soberbamente, e depois de olhar em volta pela última vez, eles voltaram por onde vieram.
[18]
Carlos observou Jill subir a escada de mão outra vez, tentando não elevar as esperanças de novo. Se isso não
funcionar, ele ficaria profundamente - não, magistralmente decepcionado.
Dane-se. Se não funcionar, nós deveremos apenas sair, ou ver se podemos chegar àquela fábrica e conseguir
uma carona. Ela está certa, esse pessoal é andar lurias, perdidos no espaço; o quanto antes sairmos de seu
território, melhor.
Ele olhou neutramente para o escuro pátio por mais alguns momentos, tão distraído que imaginou como faria
mais alguma coisa, como daria outro passo; parecia impossível. Tudo o que motivava era seu desejo de partir,
sair daquele holocausto e recuperar-se.
Quando o primeiro e estrondoso badalar de sinos surgiu, o profundo e oco tom ecoando do topo da torre, Carlos
percebeu que não podia esconder sua esperança. Ele tentou, dizendo a si que poderia haver um problema no
programa, dizendo que a Umbrella enviaria assassinos, que o piloto seria um zumbi; nada adiantou. Um
helicóptero estava a caminho, ele sabia, ele acreditava; ele só esperava que a equipe de resgate não tivesse
problemas para achar um local de pouso -
- holofotes! Havia quatro deles na laje e uma velha caixa de controle perto da porta; a luz guiaria o helicóptero
mais rápido. Carlos correu para a caixa, erguendo o olhar para ver se Jill já estava descendo. Ainda não -
- e quando olhou para frente de novo, ele viu que não estava sozinho. Como num passe de mágica, a gigante e
mutilada aberração que vinha perseguindo Jill, simplesmente estava lá, perto o bastante para Carlos sentir o
cheiro de queimado, rosnando, seu apertado e desorientado olhar voltado para o topo da escada.
"Carlos, cuidado!". Jill gritou, o monstro Nemesis o ignorou completamente, seus tentáculos que pareciam cobras
sem olhos debatendo-se em volta de sua colossal cabeça. Mais um passo e estaria na base da escada - e Jill
ficaria encurralada.
- ela disse que balas não o machucavam -
Desesperado para fazer algo, Carlos viu o grande botão verde no painel dos holofotes e correu para ele, incerto
sobre o que esperar. Distraí-lo, talvez, se tiverem sorte -
- e todos os quatro holofotes acenderem de uma vez, cegando-o, aquecendo instantaneamente o ar em torno
deles e iluminando a torre, provavelmente visível a quilômetros. Uma das luzes estava completamente no rosto
da aberração. A luz forçando a coisa a recuar um passo, mãos gigantes cobrindo os olhos, e Carlos agiu.
Ele correu para o cego Nemesis, a M16 alta, e bateu o rifle contra seu peito, o mais forte que pôde.
Desequilibrado, o monstro cambaleou para trás, suas pernas tocando o antigo parapeito -
- e com um frágil estalo, uma larga seção do parapeito cedeu, caindo na escuridão, Nemesis mergulhando logo
depois. Carlos ouviu um doentio thump lá embaixo no mesmo instante que as lâmpadas super-aqueceram e
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desligaram, deixando formas escuras flutuarem nos olhos de Carlos por um momento.
O grandioso e melódico badalar continuava enchendo o ar enquanto Jill descia da escada e empunhava o
lança-granadas, juntando-se à Carlos no parapeito quebrado.
"Eu... obrigada". Jill disse, olhando nos olhos dele, seu próprio olhar sincero e estável. "Se você não tivesse
acendido as luzes, eu estaria morta. Obrigada".
Carlos ficou impressionado e um pouco agitado com sua sinceridade. "De nada". Ele disse, de repente muito
ciente do quanto atraente ela era - não só fisicamente - e o quanto pouca era a experiência que tinha com
mulheres. Ele era um mercenário autodidata de vinte e um anos, e não teve exatamente todo o tempo do mundo
e oportunidade para namorar.
Ela não deve ser tão velha, vinte e cinco pelo lado de fora, e talvez ela -
Jill estalou os dedos na frente dele, trazendo-o de volta à realidade e lembrando-o do quanto cansado estava.
Ele esteve totalmente fora de si.
"Você ainda está comigo?".
Carlos acenou, limpando a garganta. "Sim, desculpe. Você disse algo?".
"Eu disse que precisamos ir. Se ele ainda está irritado com uma granada na cara, eu duvido que uma queda do
segundo andar o mataria".
"Certo". Carlos disse. "É melhor nós darmos uma volta. Eles provavelmente jogarão uma corda se não puderem
aterrissar".
Jill acenou. "Vamos lá".
Iluminado por dentro pela profunda voz do oco metal, Carlos imaginou de repente se Nicholai ainda estava vivo
- e se estivesse, o que faria ao ouvir os sinos?
Nicholai ouviu os sinos no caminho de volta para o centro e rosnou irritado, recusando-se a cair na isca. Ele não
esperava que o trio fosse conseguir, mas e daí? Davis Chan tinha arquivado outro relatório, de uma boutique
feminina, e Nicholai queria perseguí-lo.
E por que me importar se eles fugiram com suas vidas miseráveis, com tudo o que consegui?
Nicholai tirou a caixa metálica do bolso pela terceira vez desde que deixou o hospital, incapaz de resistir. Dentro
havia um frasco de vidro com um líquido roxo sintetizado que o assistente de Aquino tinha deixado para trás.
Nicholai sabia que seria mais seguro armazenar a amostra em algum lugar, porém o pequeno frasco
representava sua autoria perante os outros Watchdogs e uma recente elevação de status com a Umbrella; ele
era um líder, um supervisor de homens inferiores, e descobriu que carregar a vacina e tocá-la de vez em
quando, o fazia se sentir poderoso. Sustentado, de certo modo.
Sorrindo, Nicholai guardou a caixa no bolso à fácil alcance, e começou a andar de novo, ignorando as
badaladas. As coisas estavam indo muito bem - ele tinha a vacina; ele sabia onde Chan estava e onde Franklin
estaria em menos de quarenta e oito horas; ele já tinha equipado o hospital para explodir e apertaria o botão
assim que seu encontro com Franklin acabasse. Nicholai pensou em dar um pulo na fábrica e livrar-se de
Terence Foster enquanto esperava por Franklin, havia tempo de sobra -
- do mesmo jeito que havia tempo para caçar Mikhail, fingir ser um nobre membro da equipe e decidir qual deles
morreria primeiro...
Os clamorosos sinos vibravam nele, seguindo-o para lembrá-lo de seu fracasso, mas ele se recusou a se
distrair com a fuga dos três incompetentes. Ele estava se aproximando do centro, podia ver as combinadas
chamas das centenas de pequenos e não tão pequenos incêndios encaixotando a escura cidade; mesmo se
quisesse, ele não voltaria para a torre do relógio antes do primeiro helicóptero chegar. E ele não queria. Ele teve
a oportunidade depois de ter matado Aquino, mas decidiu que não valia seu tempo. Foi a decisão certa... e as
estranhas dúvidas que se reviravam dentro dele com o som dos sinos deviam ser ignoradas; não significava
nada, o fato de terem sobrevivido, não significava que eram tão bons quanto ele.
Além disso, ele ainda tinha que derrubar alguns cães para garantir seu monopólio de informações. Ele
acreditava que Chan podia ter decidido ficar na boutique de onde reportou, já que era tão tarde. Nicholai iria
matá-lo, pegar seus dados e passar a noite em algum lugar na cidade. Na reunião dos Watchdogs, foi falado
que a comida era escassa, mas Nicholai sabia que podia se virar - comida enlatada, talvez. Pela manhã, ele
faria seu próprio relatório para manter seu disfarce, e passaria o dia caçando suas próprias informações, indo à
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oeste novamente.
Tudo estava bem, e enquanto cruzava os subúrbios na direção da cidade, o som de um helicóptero e
aproximando não o incomodou nem um pouco. Deixe aqueles molengas desgraçados correrem, ele sentia-se
ótimo, sob controle, melhor do que ótimo. Só estava com dor de cabeça por causa dos malditos sinos.
Eles refizeram todo o caminho pela torre do relógio, Jill querendo ter certeza antes de saírem e encontrarem-se
com o helicóptero, de que Nemesis tinha se confundido ou que tivesse muito tempo para andar por aí. Enquanto
andavam eles inventaram uma história para contar ao comandante da evacuação - Jill seria Kimberly Sampsel
(o nome de sua melhor amiga da quinta série), ela trabalhava numa galeria de arte local, não tinha família e
mudou-se para Raccoon recentemente. Carlos a tinha achado logo depois que seu líder de pelotão foi morto por
zumbis, o outro único membro sobrevivente da U.B.C.S.. Juntos, eles chegaram na torre do relógio e fim de
história.
Eles decidiram não mencionar Nicholai, Nemesis, ou qualquer outra criatura não identificada que encontraram; a
idéia era parecer o mais ignorante possível em relação aos fatos. Nenhum deles queria testar a lealdade da
equipe de resgate, e Jill não tinha dúvidas de que haveria alguém no helicóptero para interrogá-los, sendo assim
quanto mais simples a história, melhor. Eles só tinham que rezar para que ninguém tivesse a foto dela em mãos.
Eles se preocupariam em fugir deles depois de terem saído da cidade.
Eles pararam na porta dupla da entrada do saguão por um momento, olhando um para o outro, Jill sentindo uma
estranha mistura de felicidade e ansiedade. O resgate estava vindo, porém estavam tão perto de fugir que ela
sentiu medo de algo dar errado.
Talvez seja porque a Umbrella esteja fazendo o resgate, só Deus sabe se eles não vão esquecer o caminho de
volta...
"Jill? Antes de partirmos, eu quero te dizer uma coisa". Carlos disse, e por alguns segundos, Jill pensou que sua
ansiedade estava preste a ser confirmada, de que ele iria contar algum segredo terrível que vem guardando -
mas então viu suas cuidadosas e pensativas expressões, e pensou diferente.
"Tá bom, manda". Ela disse neutramente, pensando no modo como ele a olhou na laje. Ela já tinha visto esse
olhar antes, em outros homens - e não sabia o que sentir ao certo com isso vindo de Carlos. Antes de partir
para a Europa, Chris Redfield e ela estavam ficando bem próximos...
"Antes de vir para cá, eu fui avisado por um cara sobre Raccoon, sobre o que estava acontecendo". Carlos
começou, e Jill teve bastante tempo para se sentir uma idiota com sua suposição.
Trent!
"Ele me disse que passaríamos por maus bocados e se ofereceu para me ajudar. Eu pensei que ele fosse louco
a princípio -".
"- mas aí você chegou aqui e descobriu que ele não era".
Carlos a encarou. "Você o conhece ou algo assim?".
"Provavelmente tanto quanto você. Aconteceu o mesmo comigo, pouco antes da mansão, ele me deu
informações sobre ela - e me disse para tomar cuidado em quem confiava. Trent, não é?".
Carlos acenou, e apesar de ambos terem aberto a boca para falar, nenhum deles disse uma palavra. Foi o som
do helicóptero se aproximando que os interrompeu, que fez ambos sorrirem e trocarem olhares de alegria e
alívio.
"Vamos falar dele mais tarde". Carlos disse, abrindo as portas, o bater das pás de helicóptero enchendo o
saguão enquanto os dois saíam para o pátio.
Jill só viu um deles mas não se importou, obviamente não restava mais ninguém para evacuar, e assim que a
aeronave pairou sobre o bonde batido, ela e Carlos começaram a acenar com os braços e gritar.
"Aqui! Nós estamos aqui!". Jill gritou, e até viu o rosto barbeado do piloto, o sorriso dele iluminado pelas luzes do
painel enquanto se aproximava -
- perto o bastante que pôde ver seu sorriso desaparecer no mesmo instante que ouviu uma arma disparar à sua
direita, um olhar de crescente terror na jovem face do piloto.
Shhhh -
Uma linha de fumaça colorida, riscando na direção do helicóptero, vindo de alguém no telhado das salas
adjacentes da torre, superfície ao ar, bazuca ou um lança mísseis -
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- BOOM!
"Não". Jill sussurrou, mas o som ficou perdido assim que o míssil atingiu o helicóptero e explodiu, Jill pensando
vagamente que deveria ser um míssil com sensor térmico para causar os danos que estava causando enquanto
a aeronave girava na direção deles, adernando para um lado, fogo saindo pela despedaçada cabine.
Carlos agarrou seu braço e a puxou, quase a tirando de suas botas, levando-a para o pátio enquanto um alto e
ascendente relincho estourava sobre eles, o helicóptero em chamas avançando desgovernado enquanto se
abaixavam atrás da fonte -
- e então a aeronave colidiu com a torre. Pedaços de metal, pedra e madeira em chamas choveram sobre eles
enquanto o helicóptero perfurava a cobertura do saguão, e como a voz da destruição, Jill ouviu o triunfante grito
de Nemesis elevar-se sobre tudo.
[19]
Carlos ouviu o grito do monstro e começou a se levantar, ainda segurando o braço de Jill. Eles tinham que fugir
antes que ele a visse -
- e as portas do prédio abriram fortemente como se fossem feitas de madeira balsa, destroços do helicóptero
saindo num estouro de estilhaços fumegantes.
Antes que Carlos pudesse se abaixar, um grande pedaço de pedra escura da parede externa do prédio socou
seu lado esquerdo. Ele ouviu e sentiu uma costela ceder, sentindo no mesmo instante a intensa dor.
"Carlos!".
Jill curvou-se sobre ele, seu olhar indo para frente e para trás entre ele e a parte da torre que não podia ver, o
lança-granadas ainda firme nas mãos dela. O Nemesis tinha parado de roncar; entre isso e o súbito e brutal
silêncio dos sinos, Carlos podia ouvir algo batendo pesadamente no chão, seguido pelo esmagamento de frágeis
pedras em um lento e constante ritmo. Crunch. Crunch.
Está vindo, ele pulou do telhado e está vindo -
"Corre". Carlos disse, e viu que ela entendeu, que não tinha escolha, decolando um segundo antes. Com as
botas chutando o chão, ela o deixou sozinho o mais rápido que pôde.
Carlos virou a cabeça e se sentou, não querendo sentir a dor, e viu a criatura de pé numa pilha de concreto
quebrado e madeira em chamas, sem perceber que a bainha de seu colete de couro estava pegando fogo
enquanto o olhar da coisa procurava Jill. Como antes, ele não parecia ver Carlos.
Desde que eu não cruze seu caminho, Carlos pensou, apoiando-se nas frias pedras da fonte, levantando seu
rifle. Não está doendo, não está, não está.
Com um único e poderoso movimento, Nemesis ergueu o lança-mísseis até o ombro e mirou enquanto Carlos
começava a atirar.
Cada chacoalho da M16 mandava um novo pulso de agonia através de seus ossos, mas sua mira era boa
apesar da dor. Pequenos buracos escuros apareceram no rosto da criatura, e Carlos pôde ouvir o ping do
ricochete no lança-mísseis. Os carnudos tentáculos que se ergueram sob o longo casaco do monstro,
debatiam-se na parte superior do corpo como se estivessem fora do controle, enrolando e desenrolando com
uma grande velocidade.
Carlos viu que ele estava virando a bazuca na sua direção, mas continuou atirando, sabendo que não
conseguiria se levantar a tempo e correr. Fuja, Jill, vai!
O monstro o viu e atirou, e Carlos viu o estouro de luz e movimento vindo até ele, sentiu o calor do míssil
anti-tanques altamente explosivo brilhando contra sua pele -
- e de alguma forma não estava morto, mas algo não muito longe atrás dele explodiu. A força da explosão
levantando e arremessando-o contra a lateral da fonte; a dor era espetacular e mau ficou consciente,
determinado a dar mais alguns segundos para Jill.
Parcialmente deitado na beira da fonte, Carlos começou a atirar de novo, mirando no rosto, balas indo para todo
lado enquanto lutava para controlar a arma.
Morra, apenas morra logo... mas não estava morrendo, nem se quer estava vacilando, e Carlos sabia que só
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tinha meio segundo antes de virar uma mancha no gramado.
O lança-mísseis estava apontado diretamente para o rosto de Carlos quando aconteceu, um tiro em um em um
milhão -
Carajo!
- assim que um dos pings metálicos tornou-se uma explosão, uma súbita e quente luz aparecendo. O monstro
foi empurrado para trás assim que sua arma desintegrou, caindo fora de visão.
O rifle de Carlos secou. Ele esticou o braço para pegar outro pente e houve mais dor. Ele perdeu o caminho da
luz, a escuridão levando-o ao chão.
Jill viu Carlos cair e ficou onde estava, de pé entre o bonde e uma cerca viva. Ela viu Nemesis sumir, jogado nos
destroços em chamas com a falha de sua bazuca, mas sua confirmada habilidade para driblar a morte a
manteve longe de Carlos. Se ainda estiver vindo, ela queria mantê-lo concentrado somente nela.
O lança-granadas parecia leve em suas mãos, alta adrenalina dando-a uma segunda vontade de vingança - e
quando Nemesis se ergueu, com um ombro queimado, sua carne vermelha e preta inchada e visível sob a roupa
arruinada, Jill atirou.
A "granada" carregada com chumbo grosso, como se fosse um super cartucho de escopeta, enviou uma
concentrada explosão de milhares de projéteis pelo pátio - mas errou completamente o uivante Nemesis, o tiro
cavando novos buracos no que restou da fachada frontal da torre.
Nemesis parou de gritar mesmo com seu peito ainda queimando, a pele quebradiça e chamuscada agora. Ele
virou seu corpo para Jill enquanto ela abria a arma e a carregava com outro cartucho de sua mala, rezando para
que ele estivesse mais seriamente ferido pelo tiro de sorte de Carlos do que parecia.
Ele abaixou a cabeça e correu para ela, sua gigante disparada levando-o rapidamente até ela. Em um segundo
tinha cruzado o pátio, seus tentáculos espalhados como se fossem agarrá-la.
Jill saltou para a esquerda e começou a correr cegamente, ainda segurando o cartucho, passando entre um
canteiro de arbustos e o muro oeste do pátio. Ela pôde ouvi-lo entrar no caminho atrás dela ao terminar o
percurso; ele quase a pegou, sua velocidade era extraordinária, deixando-o a um braço de distância enquanto
contornava o fim do canteiro -
- e algo acertou seu ombro direito, algo sólido e liso, escavando sua pele como um gigante dedo sem ossos. Ele
picou, mil vespas inundando seu sistema com veneno ao mesmo tempo, e ela entendeu que um dos tentáculos
a tinha picado.
Ahdrogadrogadroga, ela não podia pensar nisso, não havia tempo, mas Nemesis parou de repente, jogou a
cabeça para trás e contou sua vitória às frias estrelas, e Jill parou, colocou o cartucho na arma e a desdobrou ao
meio para fechar -
- e atirou quando ele partiu para cima dela de novo. O tiro acertou o berrante Nemesis bem abaixo do lado
direito da cintura, perfurando a carne de sua coxa, pedaços de pele e músculo voando atrás dele -
- e ele caiu depois de alguns momentâneos passos, com um espirro de pele devastada.
Apressada para recarregar, Jill acabou derrubando o penúltimo cartucho no chão, rolando para longe. Ela
conseguiu segurar o quinto firmemente e estava fechando a arma quando Nemesis sentou, olhando para ela.
Jill mirou na parte debaixo das costas e atirou, o trovão da arma apenas um abafado som sob o apito em seus
ouvidos. Nemesis estava se movendo, levantando ao ser atingido, os projéteis acertando baixo e à esquerda, o
que seria um tiro renal fatal para humanos. Aparentemente não para o matador de S.T.A.R.S.. Ele cambaleou e
ficou de pé, começando a se afastar mancando, uma das gigantes mãos cobrindo o novo ferimento.
Indo embora, ele está indo embora -
Seus pensamentos eram lentos e pesados. Levou um tempo para ela entender que sua partida não era algo
bom. Ela não podia deixá-lo partir, deixá-lo se recuperar para voltar - ela tinha que tentar matá-lo enquanto
estava fraco.
Jill sacou sua Python e tentou mirar, mas sua visão dobrou de repente e não conseguiu se concentrar na figura
fugindo, arrastando-se pelos destroços em chamas. Ela sentiu-se tonta e febril, e pensou com certeza que tinha
sido infectada pelo T-virus.
Ela não precisava ver o ferimento no ombro para saber se era grave, ela podia sentir o sangue deslizando pelo
seu lado, encharcando a cintura de sua saia. Ela queria acreditar que o vírus estava sendo lavado de seu
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sistema, mas não podia se enganar, mesmo estando tão ferida.
Por alguns segundos ela considerou a .357 carregada em sua mão - e depois pensou em Carlos, e sabia que
devia esperar. Ela tinha que ajudá-lo se pudesse, ela devia isso a ele.
Convocando o resto de sua força, Jill foi até Carlos. Ele estava perto da fonte, gemendo e meio consciente,
machucado, mas ao menos não via sangue, talvez estivesse bem...
Foi seu último pensamento antes de sentir seu corpo a trair desistindo, derrubando-a no chão e deixando-a
num sono muito profundo.
Escuro, badalar, e escapar, fogo e escuridão e balas, não posso ouvir, Jill correndo do fogo e a coisa atirando,
míssil de alto poder apontado -
apontado para minha -
cara.
Carlos voltou a si apressado, confuso, dolorido e procurando pelo combate, por Nemesis e Jill. Ela terá
problemas se aquela coisa pegá-la...
Era uma quieta e calma noite, fogo baixo queimando por toda parte, iluminando com um laranja dançante e
quente o bastante para fazê-lo suar. Carlos forçou a sim mesmo para se mexer, engatinhando para ficar de pé e
segurando suas costelas firmemente, seus dentes apertados de dor. Fraturada ou quebrada, talvez duas delas,
mas precisava pensar em Jill agora, tinha que esquecer os efeitos das várias explosões e -
"Ah, não". Ele disse, esquecendo sua dolorida exaustão e correndo para ela. Jill estava caída num caminho de
grama queimada, perfeitamente imóvel exceto pelo constante sangramento em seu ombro direito. Ainda estava
viva, mas talvez não por muito tempo.
Carlos engoliu sua dor e a levantou, o peso morto de seu corpo fazendo-o querer gritar, com a insanidade que
tinha se desenrolado e crescido em Raccoon, que tinha imposto suas impiedosas garras sobre Jill e ele. A
Umbrella, monstros, espiões, e até Trent - tudo isso era loucura, era um conto de fadas de terror... mas o
sangue era bem real.
Ele a segurou firme, virando e procurando. Ele tinha que levá-la para dentro, para um lugar seguro, um lugar
onde poderia tratar seus ferimentos, onde ambos pudessem descansar um pouco. Havia uma capela na quase
intacta asa oeste; não havia janelas e a porta tinha boas travas.
"Não morra, Jill". Ele disse, e esperou que ela estivesse ouvindo enquanto o carregava pelo pátio em chamas.
[20]
Tempo passando. Escuro, escuro e fragmentos de milhares de sonhos, girando até ganharem foco para uma
breve olhada antes de se embaralharem de novo. Ela era uma criança na praia com seu pai, o gosto de sal no
vento. Ela era uma adolescente bobona, apaixonada pela primeira vez; uma ladra, roubando de estranhos ricos
como seu pai lhe havia ensinado; uma estudante, treinando para o S.T.A.R.S., aprendendo como usar suas
habilidades para ajudar as pessoas.
Mais escuro. O dia em que seu pai foi preso por um grande roubo. Amores que traiu, ou que a traíram.
Sentimentos de solidão. E sua vida em Raccoon City, a completa morte da luz.
Becky e Priscilla McGee, sete e nove anos, as primeiras vítimas. Estripadas, partes delas comidas. Achar o
helicóptero acidentado do Bravo Team fora da mansão; o cheiro de pó e podridão lá dentro. Descobrir sobre a
conspiração da Umbrella, sobre a corrupção e colaboração de alguns poucos membros do S.T.A.R.S.. A morte
do capitão traidor, Albert Wesker, e o ataque final de Nemesis.
Várias vezes, meio acordada, ela engoliu água fria e dormiu de novo, mais lembranças recentes aparecendo. Os
sobreviventes perdidos, as pessoas que tentou salvar, os rostos das crianças em sua maioria. Todos eles se
foram. A morte brutal de Brad Vickers. Carlos. O olhar estático e sem emoções de Nicholai, e o sacrifício de
Mikhail. E reinando sobre tudo como um epítome demoníaco do mal, o monstro além-Tyrant, a nêmese, sua
terrível voz chamando por ela, seus terríveis olhos a seguindo por onde quer que fosse, não importa o que
fizesse.
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A coisa mais perturbadora, apesar de tudo, era que havia algo acontecendo com seu corpo, e estava muito
desacordada, e não menos desagradável com isso. Era como se suas veias estivessem aquecendo e
expandindo. Como se cada célula estivesse engordando e ficando pesada com estranhos temperos, grudando
nas células ao redor, todas fervendo levemente. Como se o corpo inteiro fosse um vaso cheio de calor líquido.
Finalmente, o gentil som de chuva correu pelos limites de sua plenitude e ela ansiou por vê-la, por sentir sua
frieza na pele, mas era uma longa luta para abandonar a escuridão. Seu corpo não queria, protestando em voz
alta quando chegava perto da superfície de cinza, a penumbra entre os sonhos e a chuva - mas determinada,
ela venceu.
[21]
Carlos estava sentado com suas costas contra a porta comendo um coquetel de frutas de uma lata quando ouviu
Jill se agitar, o regular e consistente som de sua profunda respiração ficando mais leve. Ela virou a cabeça de
lado a lado, ainda adormecida, porém, o movimento foi a ação mais deliberada que viu em quarenta e oito horas.
Ele se levantou o mais rápido que pôde, forçado a tomar cuidado com o beliscão de suas costelas amarradas
bem apertado, e se apressou até o altar elevado onde ela estava.
Ele pegou a garrafa d´água na base do tablado, e quando levantou de novo, ela abriu os olhos.
"Jill? Eu vou te dar água agora. Tente me dar uma força, tá bom?".
Ela acenou, e Carlos sentiu-se cheio de alívio, apoiando sua cabeça no alto enquanto ela tomava alguns goles
da garrafa. Foi a primeira vez que respondeu claramente, e sua cor parecia boa. Por dois dias ela bebeu quando
ele a fez beber, ao menos engolia apesar de ter estado branca como um fantasma e completamente fora de si.
"Onde estamos?". Jill perguntou fracamente, fechando seus olhos enquanto deitava a cabeça no travesseiro
improvisado, um pedaço e carpete enrolado. O cobertor era feito de cortinas não queimadas que achou no salão
do lado de fora.
"Na capela da torre do relógio". Ele disse suavemente, ainda sorrindo. "Nós estamos aqui desde - desde que o
helicóptero caiu".
Jill abriu os olhos de novo, obviamente ciente e consideravelmente concentrada. Ela não estava infectada, ele
esteve com muito medo, mas ela estava bem, tinha que estar.
"Quanto tempo?".
Falar parecia tão cansativo para ela que Carlos tentou resumir tudo o que tinha acontecido, para economizá-la
perguntas. "O Nemesis atirou no helicóptero e nós dois fomos feridos. Seu ombro estava... machucado, mas eu
tenho trocado os curativos e não parece haver infecção. Nós estamos aqui há dois dias, nos recuperando, você
dormiu o tempo todo. Hoje é primeiro de Outubro, eu acho, o sol se pôs há uma hora e está chovendo desde a
noite passada...".
Ele parou, sem saber o que mais dizer e não querendo que ela voltasse a dormir, não agora. Ele ficou sozinho
com os próprios pensamentos durante muito tempo.
"Ah, eu achei uma caixa de coquetel de frutas no baú daquela sala de estar - aquela com o tabuleiro de xadrez,
lembra? Água também, alguém estava estocando, eu acho, sorte a nossa. Eu não quis deixa-la sozinha, eu
estive, é, cuidando de você". Ele não disse que a esteve limpando, trocando as cortinas sob ela quando
necessário; ele não quis deixá-la constrangida.
"Você está ferido?". Ela perguntou, franzindo, piscando devagar.
"Umas duas costelas fraturadas, nada demais. Bom, talvez quando precisar puxar a fita adesiva, isso vai doer
que nem uma desgraça. Tudo o que consegui achar foi fita isolante".
Ela sorriu de leve, e Carlos suavizou a voz, quase com medo de perguntar. "Como você está?".
"Dois dias? Sem mais helicópteros?". Ela perguntou, desviando o olhar, e ele sentiu-se um pouco tenso. Ela não
tinha respondido sua pergunta.
"Mais nenhum". Ele disse e percebeu pela primeira vez que suas bochechas estavam vermelhas demais. Ele
tocou a lateral de seu pescoço, e sua tensão aumentou, era febre, nada grave, mas ela não a tinha uma hora
atrás quando verificou pela última vez. "Jill, como se sente?".
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"Nada mau. Nada mau mesmo, quase sem dor". Sua voz era constante, não afetada.
Carlos deu um sorriso torto. "Bien, si? Isso é bom, significa que podemos fazer as malas e sair daqui em
breve...".
"Eu estou infectada com o vírus". Ela disse, e Carlos congelou, seu sorriso sumindo.
Não, não, ela está errada, não é possível.
"Faz dois dias, você não pode estar". Ele falou firmemente, dizendo a ela o que vem dizendo a si mesmo. "Eu vi
um dos outros soldados virar zumbi, não deve ter levado mais de duas horas do momento em que Randy foi
mordido até ele mudar. Se você estivesse, algo já teria acontecido".
Jill rolou para o lado cuidadosamente, franzindo um pouco, fechando os olhos de novo. Ela soou incrivelmente
cansada. "Eu não vou discutir com você Carlos. Talvez seja uma mutação diferente por ter vindo do Nemesis, ou
talvez consegui algum tipo de imunidade por ter estado na mansão de Spencer. Eu não sei, mas estou com o
vírus". A voz dela tremeu. "Eu posso sentir, eu posso me sentir piorando!".
"Tá, tá bom, shhh". Carlos disse, decidindo que partiria imediatamente. Ele levaria o revólver de Jill além da
metralhadora, e certamente algumas granadas de mão.
O hospital estava perto, e havia pelo menos uma amostra da vacina lá, foi o que Trent disse. Carlos quis ter
procurado o hospital antes para pegar suprimentos, mas esteve muito cansado e machucado para sair, a
princípio - depois não quis arriscar deixar Jill sozinha e inconsciente, perigoso por vários motivos.
Eu sairei pela frente e seguirei à oeste, ver se consigo achar alguma placa... Trent também disse algo sobre o
hospital não ficar lá por muito tempo; Carlos esperava não estar atrasado demais.
"Tente voltar a dormir". Carlos disse. "Eu vou sair por um tempo, para tentar achar algo que possa ajudá-la. Eu
não demorarei".
Jill já parecia estar meio desacordada, mas ela ergueu a cabeça e forçou para ser clara, falando com cuidado.
"Se você voltar e eu estiver - mais doente, eu quero que me ajude. Eu estou perguntando agora, pois posso não
conseguir depois. Você entende?".
Carlos quis protestar, mas sabia que pediria a mesma coisa se tivesse a doença. Ser sugado até a morte, mas
Raccoon era a prova de que havia coisas piores.
Como ter que atirar em alguém com a qual se importa.
"Eu entendo". Ele disse. "Descanse agora. Eu volto logo".
Jill dormiu, e Carlos começou a se equipar. Pouco antes de partir, ele olhou para o rosto adormecido dela por um
longo momento, silenciosamente rezando para que ela ainda fosse Jill quando voltasse.
O hospital acabou sendo mais perto do que imaginava, a menos de duas quadras de distância.
Nicholai esperou Ken Franklin ansiosamente, sabendo que a morte o Watchdog marcaria o começo do fim do
jogo. A crescente frustração de Nicholai estava para acabar.
Isso se o desgraçado aparecer... mas não, ele estava vindo, e depois Nicholai voltaria aos trilhos. Ele olhou pela
janela do canto do escritório que escolheu, vasculhando a vazia e escura rua - que também era sua rota de fuga
caso o sargento desse trabalho - pela décima vez, querendo que o errante Watchdog se apressasse.
Nada correu como planejado, e apesar de ter feito o melhor possível, Nicholai estava perdendo a paciência. A
busca por Davis Chan foi um espetacular fracasso; Nicholai se quer o viu durante os dois dias que ficou na
cidade - e por duas vezes o evasivo soldado conseguiu evitar um confronto depois de reportar, fazendo Nicholai
correr por toda a cidade.
Nicholai também tinha planejado ir para a "estação de tratamento" da Umbrella e se livrar de Terence Foster no
começo do dia, mas se envolveu em outra caçada - ele tinha visto uma americana asiática não infectada perto
do R.P.D., vestindo um apertado vestido vermelho sem mangas e segurando uma arma como se soubesse o
que fazer com ela. Ela entrou na delegacia e se foi. Nicholai a procurou por cerca de quatro horas, mas não viu a
mulher misteriosa de novo.
Sendo assim, três alvos estavam vivos. Pelo menos ele conseguiu coletar algumas informações para seu
crédito, descobrindo alguns relatórios particulares de laboratório sobre a força da maioria dos zumbis - mas já
teve o bastante, bancando o caçador, comendo grãos enlatados frios e dormindo com um olho aberto. Segundo
suas contas, já tinha matado quatro Hunters Beta, três aranhas gigantes e três brain suckers. E dezenas de
zumbis, claro, apesar de não considerá-los de grande importância na contagem, não mais. Eles apenas ficavam
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mais lentos e mais persistentes; Raccoon já cheirava como uma fossa gigante, e só ficaria pior enquanto os
contaminados continuarem se decompondo, virando uma grande e pegajosa pilha de carne mau cheirosa.
Até lá eu já terei partido. Afinal de contas, Franklin estará aqui a qualquer minuto.
Depois de dois dias de objetivos não cumpridos, Nicholai viu seu encontro com Franklin no hospital como algo
sólido, algo com o qual podia contar - uma morte certa. E como tem passado longas e solitárias horas imerso no
crescente caos de incerteza, a morte de Ken Franklin tinha se tornado extremamente importante. Uma vez
morto, Nicholai poderia explodir o hospital; uma vez explodido, Nicholai poderia caçar Chan e Foster, e assim
poderia partir. Tudo se encaixaria assim que matasse Franklin.
Enquanto abraçava esse pensamento, ele ouviu passos no corredor. De coração inchado de prazer, Nicholai
posicionou-se ao lado da janela e esperou Franklin achá-lo. O bagunçado escritório/depósito ficava no quarto
andar, não muito longe de onde havia matado e escondido o Dr. Aquino.
Apareça, Sargento...
Quando o Watchdog abriu a porta, Nicholai estava apoiado casualmente no canto, de braços cruzados. Franklin
estava carregando uma VP70 de 9mm top de linha, e a tinha travado no rosto de Nicholai num piscar de olhos.
Nicholai não se moveu.
"Você não devia estar aqui". Franklin disse friamente, sua voz profunda e mortal. Ele avançou na sala, sem tirar
o olhar - ou a semi-automática - de Nicholai.
É hora de ver quem é mais esperto. Qualquer um poderia armar uma emboscada, mas era preciso uma certa
quantidade de inteligência e habilidade para fazer o oponente cair numa. Nicholai fingiu um leve e rude
nervosismo.
"Você tem razão, eu não devia. Aquino deveria estar aqui - mas parou de preencher relatórios ontem. Eles
pensaram que ele estava muito ocupado, trabalhando no antivírus, mas o estive procurando desde a última noite
e não consegui achá-lo". Na verdade, Nicholai tinha preenchido vários relatórios de status como o nome do Dr.
Aquino desde que o matou, para manter as aparências.
"Quem é você?". Franklin perguntou. Ele era alto e musculoso, pele bem escura e óculos aparentemente
delicados, com armação de arame. Entretanto, não havia nada de delicado no modo como olhava para Nicholai.
Nicholai descruzou os braços e os abaixou bem devagar. "Nicholai Ginovaef, U.B.C.S.... e Watchdog. Eu fui
enviado para verificar as coisas quando o doutor se ausentou. Você é Franklin, certo? Você teve algum contato
com Aquino desde sua chegada? Ele mencionou onde guardaria a amostra, ou entregou alguma combinação ou
chave?".
Franklin não abaixou a arma, mas obviamente estava confuso. "Ninguém me disse sobre mudança de planos.
Quem você disse que o enviou?".
Essa parte era arriscada. Nicholai sabia o nome de quatro homens importantes que poderiam ter feito mudanças
na agenda da Umbrella, e havia boas chances de que um deles fosse o contato de Franklin, e já o teria
informado.
"Eu não disse". Nicholai falou. "Mas acho que não há problema em contar... Trent me colocou nessa".
Ele escolheu o homem do qual sabia menos, mesmo depois de toda sua cuidadosa pesquisa, na esperança de
que Franklin também não soubesse muito sobre ele. Trent era um enigma, esgueirando-se em volta dos outros
chefões como uma sombra oculta. Nicholai nem sabia seu primeiro nome.
Funcionou para o sargento. Franklin abaixou a arma, ainda desconfiado, mas obviamente querendo acreditar.
"Então, você não achou Aquino? E a vacina?".
Nicholai suspirou, balançando a cabeça, e depois olhou deliberadamente para a esquerda, para um espaço
escondido fora da visão de Franklin, atrás de uma prateleira sobrecarregada. "Nenhum sinal do doutor... mas
este era seu escritório, e tem um cofre na parede aqui atrás. Você sabe como abrir uma dessas coisas?".
Nicholai sabia que Franklin sabia - em eu arquivo pessoal, arrombamento de cofre estava listada entre suas
habilidades. Nicholai não dava a mínima se Franklin conseguiria ou não abri-lo; o importante era que para
chegar ao cofre, o sargento teria que dar as costas para Nicholai.
Eu sou melhor nisso, melhor do que Aquino, Chan ou esse tolo, eu provarei isso. Eu nunca darei as costas para
ninguém, nunca. Claro, seria desonroso de sua parte...
Franklin acenou, guardando a VP70 e andando na direção do canto onde Nicholai estava. "É, sei um pouco.
Mesmo assim eu posso dar uma olhada".
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Nicholai acenou vaziamente. "Bom. Eu estava começando a achar que ficaria preso aqui por um tempo".
"Talvez fosse o melhor". Franklin disse, passando por ele até o pequeno cofre embutido atrás da estante. "Do
jeito que as coisas estão lá fora, eu tenho pensado em me esconder por um tempo em algum lugar, esperar até
as coisas se acalmarem".
Nicholai deu um silencioso passo até Franklin, olhando a VP70 no coldre. "Não é uma má idéia".
Franklin acenou, franzindo ao ver o teclado. "Chan está fazendo isso, ele disse que as informações estarão lá
amanhã, então porque não, não é?".
Davis Chan!
Nicholai conteve-se parado, decidindo - e então avançou e puxou a 9mm, não querendo dançar pelo que
queria. Ele empurrou Franklin ao mesmo tempo, desequilibrando-o, usando a fração de segundo de sua
recuperação para exibir a pesada arma.
"Chan - me diga onde ele está e você vive". Nicholai falou. Com a mão livre, ele tocou a vacina no bolso, para
dar sorte. Ela tinha virado uma espécie de talismã para lê, um lembrete de como ele era bom - e dava sorte, ele
sabia.
Franklin e agora Chan, os dois únicos Watchdogs sem local de reportagem definido. Incrível.
Franklin recuou um passo, de mãos para o alto. "Ei, vá com calma -".
"Onde ele está?".
Franklin estava suando. "Na estação de rádio, tá bom? No cemitério. Olha, eu não te conheço, e não me importa
o que está fazendo -".
"Ótimo". Nicholai disse, e baleou Franklin no abdômen, duas vezes.
"Uuh!". Franklin gemeu forte enquanto sangue espirrava na parede atrás dele. O sargento foi para trás e caiu
sentado, de braços espalhados, com uma expressão de surpresa em suas escuras feições. Nicholai ficou um
pouco surpreso; ele esperava algo melhor de um dos cães soldados.
Nicholai ergueu a arma, mirando-a na testa de Franklin -
- quando ouviu a porta abrir, botas entrando na sala. Com a arma ainda apontada para Franklin morrendo,
Nicholai agachou-se e espiou através de um espaço na estante -
- e viu Carlos Oliveira parado, olhando em volta atentamente, apontando um pesado revólver .357, certamente
tentando descobrir de onde os tiros vieram.
Era um presente do destino. Nicholai se fez visível, o olhar idiota de Carlos focalizado antes mesmo de perceber
que havia alguém na sala.
"Te peguei". Nicholai sussurrou.
[22]
Nicholai o pegou de jeito. Carlos largou o revólver e ergueu as mãos. Ele tinha que ganhar tempo.
Fale com ele, ganhe sua atenção. Jill precisa tê-lo de volta, com ou sem vacina.
"Hola, colega". Carlos disse de leve. "Fiquei pensando se o veria de novo, depois que nosso passeio para fora
do centro explodiu em porcaria. Foi um monstro, acredite se quiser. Então, qual é a sua história? Matou algo
interessante ultimamente?".
De trás de uma estante junta à parede lateral, alguém gritou de dor. Nicholai não desviou o olhar, e Carlos pôde
ver que ele tinha o tato certo. Nicholai estava presunçoso, irritado... e intrigado.
"Estou para matar você - sendo assim, não, nada interessante. Me diga, Mikhail já morreu? E como está a vadia
da sua amiga, Srta. Valentine?".
Carlos olhou fixamente para ele. "Ambos mortos. Mikhail morreu no bonde e Jill contraiu o vírus. Eu... eu tive que
derrubá-la algumas horas atrás". Ele provavelmente não se safaria dessa e não queria Nicholai atrás de Jill;
Carlos rapidamente mudou de assunto. "Você atirou em Mikhail, não foi?".
"Atirei". Os olhos de Nicholai cintilaram. Ele tocava o bolso da frente enquanto falava, tirando algo que parecia
ser um porta cigarros de metal. "Se tivesse tanta sorte, essa seria a cura para o que matou sua amiga. Se você
tivesse chegado mais cedo... de certo modo, suponho que eu seja em parte, responsável por ambas as mortes,
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você não acha?".
A amostra. A única coisa que poderia salvar Jill agora, e Carlos estava sob a mira da arma de um maluco que a
possuía.
Pense! Pense em algo!
Houve outro áspero lamento de dor atrás da estante. Carlos inclinou a cabeça e pôde ver um homem caído nos
fundos da sala, visível entre duas pilhas de arquivos. Carlos não conseguia ver seu rosto, mas a barriga dele
estava ensopada de sangue.
"E aquele cara soma três.". Carlos disse, tentando desesperadamente manter a conversa, tentando não encarar
a caixa metálica que Nicholai segurava. "Você não é do tipo que corre atrás? Me diga se isso tem um propósito,
ou apenas gosta de matar pessoas?".
"Eu gosto de matar pessoas que são tão inúteis quanto você". Nicholai disse, colocando a vacina em seu bolso
aberto. "Você consegue pensar em uma razão para merecer viver?".
Outro gemido veio do homem atrás da estante. Carlos olhou entre as pilhas de novo e viu uma granada de
impacto em suas trêmulas mãos, o anel já puxado; Carlos percebeu que o homem devia ter gemido para
encobrir o som, e uma parte sua admirou o claro pensamento, tudo um instante antes de começar a recuar,
mãos ainda erguidas. A granada era uma RG34, o mesmo modelo que Carlos tinha em seu colete, e queria o
máximo de distância possível.
"Eu sou um excelente atirador, eu tenho uma natureza generosa, e uso o fio dental todos os dias". Carlos disse,
recuando outro passo, tentando parecer profundamente assustado e cobrindo-se de bravura.
"Vai ser um baita desperdício". Nicholai disse sorrindo, estendendo o braço.
Jogue a maldita granada!
"Por quê?". Carlos perguntou rapidamente. "Por que está fazendo isso".
O sorriso de Nicholai se transformou, virando o mesmo sorriso predatorial que Carlos o viu usando no
helicóptero, o que parecia ter acontecido há milhões de anos.
"Eu tenho qualidades de liderança". Nicholai disse, e pela primeira vez, Carlos pôde ver a insanidade em seus
tenebrosos olhos. "Isso é tudo o que precisa saber -".
"Morra!". O homem ensangüentado disse. Carlos percebeu um piscar de movimento atrás da estante, e já estava
mergulhando, tentando se esconder atrás de uma mesa quando uma janela quebrou e -
- BOOM, pastas e livros voaram pelo ar e materiais explodidos choveram, madeira, papel e estilhaços de metal,
a pesada estante entortando com um trovão. Ela caiu no chão com um tremendo barulho e tudo ficou quieto, e
bagunça por toda parte.
Carlos sentou, um braço envolto em suas latejantes costelas, lágrimas de dor em seus olhos. Ele as ignorou e
pegou o revólver enquanto se levantava.
Nicholai tinha sumido. Carlos cambaleou até os destroços no canto, lembrando que uma janela havia quebrado
antes da granada explodir. Apesar de estar escuro e chovendo lá fora, Carlos podia ver a cobertura de um prédio
adjacente um andar abaixo.
Bam! Bam!
Carlos pulou para trás quando dois tiros acertaram a parede externa, a nem meio palmo de distância de seu
rosto. Ele se repreendeu silenciosamente por ter colocado a cabeça fora da janela, como um baboso desatento.
Ele recuou da janela e virou, só para dar de cara com os restos sangrentos e carbonizados do atirador da
granada.
"Gracias". Carlos disse quieto. Ele queria poder pensar em algo mais para dizer, mas decidiu que seria um
simbolismo sem utilidade; o cara estava morto, ele não ouviria nada.
Carlos voltou para a sala, pensando, imaginando como alcançaria Nicholai. Não seria fácil, mas não havia outra
escolha -
- e viu o brilho de metal pelo canto do olho e parou. Ele piscou, sentindo um tipo de pavor quando percebeu o
que era - e o ergueu, um enorme levantamento de peso para seus ombros e seu coração.
Ele ia salvar Jill. O pendejo maluco tinha derrubado a vacina.
Nicholai andou rapidamente pela chuva na direção da frente do hospital. Está tudo bem, ele estará morto ao
toque de um botão e eu o apertarei, eu posso cortar a energia e prendê-lo -
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Ele riu bem alto de repente, pensando nos tubos de contenção no subsolo onde os Hunters Gamma eram
mantidos, cada um flutuando em seu próprio útero transparente. Cortar a energia causaria uma drenagem
automática para que não se afogassem com o fluído não-arejado.
Morra, ou morra lutando, Carlos. Nicholai foi esperto, ele tinha pensado à frente e agora só precisava apertar
alguns botões, e Carlos ficaria no escuro com os Hunters anfíbios atrás dele, e talvez Carlos fosse morto antes
do hospital ir pelos ares, mas iria morrer não importava como.
Jill estava dormindo de novo, e estava doente. Quente e dolorida, e seus sonhos tinham sumido, pulsando,
substituídos por contorcidas sombras. Sombras com texturas imperfeitas e nevoentas. Náusea guerreava com
um vazio não realizado, com uma sede mortal e um crescente calor.
Ela rolou para um lado e depois para o outro, tentando achar alívio para a rastejante coceira que tinha se
implantado em todo o seu corpo, que fez as feias sombras ficarem maiores enquanto continuava dormindo.
Carlos achou agulhas, seringas e meia garrafa de *Betaína no escritório de um médico do terceiro andar. Ele
também achou um armário cheio de amostras de remédios, e estava tentando decifrar os rótulos procurando
analgésicos, quando as luzes apagaram.
"Droga". Ele abaixou a amostra, tentando se adaptar ao escuro. Levou cerca de um segundo e meio para
acreditar que tinha sido Nicholai, e mais um segundo para decidir que precisava sair de lá, e rápido. Com certeza
Nicholai não cortou a energia para que Carlos machucasse do dedão do pé no escuro. Seja lá o que Nicholai
estivesse planejando, Carlos achou melhor descobrir outra hora.
Ele saiu da sala para o corredor, devagar, suas mãos à frente. Assim que alcançou a escadaria, as luzes de
emergência avermelhadas do hospital ganharam vida. O efeito era de outro mundo, a luz clara o bastante para
enxergar, deixando tudo numa suja sombra.
Carlos começou a descer a escada, de dois em dois degraus, de polegar no martelo da Python. Ele ignorou a
dor em seu lado, decidindo que tombaria mais tarde quando não estiver com tanta pressa. Ele só conhecia duas
opções para sair do hospital - a janela pela qual Nicholai havia pulado e a porta da frente. Certamente haviam
mais, mas não queria perder tempo tentando achá-las; em sua experiência, a maioria dos hospitais eram
labirintos.
A porta da frente era sua melhor aposta. Nicholai provavelmente não acreditava que Carlos tivesse tanta
coragem para usar a saída mais óbvia, assim Carlos esperava.
Ele chegou no patamar entre o primeiro e o segundo andar quando ouviu uma porta abrir violentamente em
algum lugar abaixo, ecoando pela escadaria, fazendo-o congelar. O som que se seguiu - o furioso e agitado
grito como o de um porco, de uma criatura mutante - o fez voltar a andar. Seus pés mau tocavam os degraus,
mas ainda não estava rápido o bastante; enquanto voava pelo último lance, uma monstruosa figura saltou na
frente da saída para o andar térreo.
Era gigante, humanóide, alta, larga e pingando meleca. Seu corpo tinha um tom azul-esverdeado escuro, quase
preto na fraca luz vermelha. Com suas desproporcionais mãos membranosas e pés, sua grande e arredondada
cabeça e boca, lembrava nada mais do que um colossal e melecado sapo.
Sua poderosa mandíbula desceu e outro pontiagudo grito preencheu a escadaria, ecoando. Carlos ouviu pelo
menos outros três responderem ao primeiro, um feroz coro emergindo de algum lugar lá embaixo.
Carlos abriu fogo, a primeira bala acertando a porta de metal e criando um ensurdecedor tornado de som. Antes
que pudesse apertar o gatilho novamente, a criatura anfíbia estava pulando, gritando enquanto saltava na
direção de Carlos, abrindo seus braços musculosos.
Carlos abaixou-se reflexivamente, atirando enquanto escorregava vários degraus abaixo, rolando em seu
ferimento para que pudesse acompanhar a queda da criatura. Três, quatro balas plugadas no barulhento corpo
anfíbio enquanto caia de ponta cabeça -
- e estava morto quando aterrissou, escuras gotas de um fluído aguado e repulsivo espumando de seu
espasmante corpo.
Carlos ficou de pé, correndo e já cruzando a porta mesmo enquanto ouvia os irmãos da criatura começarem
seus ferozes e ensurdecedores lamentos. Não é tão difícil de matar, talvez, mas não queria considerar suas
chances caso houvessem três ou mais deles saltando ao mesmo tempo.
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Já no saguão, ele bateu a porta, viu que uma chave era necessária para trancá-la, e virou para procurar algo e
bloqueá-la -
- mas ao invés disso, ele viu uma pequena luz piscando do outro lado, o brilho chamando sua atenção no meio
do oceano vermelho de móveis revirados e corpos mortos.
Uma pequena luz brilhando numa pequena caixa, a caixa presa num pilar. O relógio de um conjunto de
detonação.
Carlos tentou pensar em algo mais além disso, e não conseguiu, sabendo apenas que não estava lá quando
chegou; era uma bomba, Nicholai a tinha colocado, e de repente os monstros sapo eram o menor dos
problemas.
Sua mente estava curiosamente vazia enquanto corria pelo saguão, um pânico sem palavras e sem pensamento
dominando-o, pressionando-o a correr mais rápido e mais longe, e para não perder tempo pensando. Ele
tropeçou sobre um sofá esfarrapado e nem percebeu que tinha caído ou sentido dor, ele estava indo rápido
demais, só podia ver as portas de vidro do prédio.
Bam, e passou pelas portas, o negro do asfalto respingando sobre seus pés, chuva garoando em seu rosto
suado. Filas de carros amassados e abandonados, brilhando como jóias molhadas sob a luz da rua. O bater de
seu estremecido coração -
- e a explosão foi tão massiva que sua audição não conseguia dar conta de toda ela, um tipo de ka-WHAMM
que era mais movimento do que som. Seu corpo foi jogado como uma folha de árvore num quente e violento
furacão, o solo e o céu ficando conectados, interligados.
Ele estava derrapando no pavimento molhado, tombando até parar bruscamente contra um hidrante de incêndio,
sentindo a enorme dor em sua lateral e sentindo gosto de sal com o sangramento no nariz.
A quase uma quadra de distância, o hospital tinha sido reduzido a ruínas fumegantes, pedaços menores dele
ainda caindo, quebrando no chão como granizo mortal. Algumas partes estavam pegando fogo, mas a maior
parte tinha se desintegrado, virando poeira, a poeira assentando e transformando-se em lama enquanto o céu
continuava jogando água em tudo.
Jill.
Carlos se fez de pé e começou a mancar de volta à torre do relógio.
Nicholai percebeu que tinha perdido a vacina enquanto se afastava do hospital correndo, quando restava um
minuto antes de tudo ir pelos ares. Quando estava tarde demais.
Não havia escolha senão continuar correndo, e foi o que fez, e quando o hospital explodiu, Nicholai ficou
andando para lá e para cá a três quadras de distância, perdido em raiva. Tão perdido que não percebia estar
gemendo agoniado, que o som estava vindo dele, ou que mordia apertado o suficiente para estalar dois dentes.
Depois de um longo tempo, ele lembrou que ainda precisava matar mais duas pessoas, e começou a se
acalmar. Ser capaz de expressar sua raiva seria construtivo; não era saudável guardar ressentimento.
A operação Watchdog era seu interesse. A vacina era um extra, um presente - então, de certo modo, não tinha
perdido nada.
Nicholai disse isso a si mesmo várias vezes a caminho de Davis Chan; o fazia se sentir melhor, mas não tanto
quanto lembrar de que havia afiado sua faca antes de ir para Raccoon. Ele tinha certeza de que Chan a
apreciaria.
_____________________
*Betaína - Alcalóide: Composto orgânico com propriedades farmacológicas encontrado em caules, raízes ou
folhas das plantas, neste caso, principalmente na beterraba. Outros exemplos de alcalóides: morfina, quinino,
cafeína...
_____________________
[23]
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Quando Jill acordou, ainda estava chovendo lá fora, e sentiu-se como ela de novo. Fraca, sedenta, faminta e
definitivamente sofrendo com o ombro ferido, e cerca de mil dores a menos - mas ainda era ela. A doença se
fora.
Desorientada e um pouco confusa, ela sentou devagar e olhou em volta, tentando juntar os pedaços do que
tinha acontecido. Ela ainda estava na capela da torre do relógio, e Carlos estava esparramado num dos
assentos frontais. Ela se lembrava de ter dito a ele que estava com o vírus, e ele dizendo que estava indo buscar
algo...
.. mas eu estava doente, eu tinha a doença... e eu não só me sinto melhor agora, como definitivamente não
tenho mais o vírus. Como -
"Ah, meu Deus". Ela suspirou, vendo a seringa e o frasco vazio no banco do órgão ao lado do altar, entendendo
de repente o que tinha acontecido, se não como. Carlos tinha achado o antídoto.
Jill sentou por um momento, levemente coberta pela mistura de emoções que a acertaram - choque, gratidão e
relutância em acreditar que realmente estava bem. Sua felicidade por estar viva e razoavelmente bem foi
equilibrada pela culpa de ter sido curada enquanto outros morreram. Ela imaginou se existia mais antídoto, e
percebeu que poderia haver galões dele em algum lugar, o fato de que dezenas de milhares morreram era
simplesmente obsceno.
Finalmente, ela se levantou do leito e pôs-se de pé, esticando-se cuidadosamente, e verificando a si própria.
Considerando tudo o que havia acontecido, ela estava surpresa com o quanto bem estava. Exceto pelo ombro
direito, ela não tinha ferimentos sérios, e depois de beber um pouco d´água, ela finalmente se sentiu acordada e
capaz de andar sem qualquer problema.
Nas duas horas seguintes, Jill comeu três latas de coquetel de frutas, bebeu meia garrafa de água, limpou e
recarregou todas as armas. Ela também se limpou, o máximo que pôde, com água e uma camiseta suja. Carlos
nem se mexeu, profundamente adormecido - e do jeito que estava enrolado e segurando seu lado esquerdo, Jill
considerou que a aventura até o hospital tinha sido dura.
Jill também pensou no que fariam depois. Eles não podiam ficar. Eles não tinham suprimentos nem munição
para continuarem vivos, e não tinham como saber quando - ou se o resgate estaria vindo; ela nem queria mais
supor isso. Por mais difícil que fosse de acreditar, parecia que a Umbrella tinha conseguido encobrir a situação,
e se conseguiram por tanto tempo, poderia levar mais alguns dias até a história vazar. E para aumentar a
pressão, ela também não conseguia se convencer de que Nemesis estava morto; assim que estiver recuperado,
ele voltaria. Eles tiveram muita sorte por ainda não terem sido atacados.
Antes de se aliar à Carlos, ela estava planejando ir para a instalação abandonada da Umbrella à norte da cidade.
Ela passou a acreditar que não havia nada como um lugar abandonado da Umbrella - eles adoravam demais
suas operações secretas - e podiam ter deixado as estradas ao redor abertas para que os funcionários
pudessem fugir. Ainda assim, valia a pena olhar, e também foi a melhor opção que encontrou. Além disso, o
caminho mais rápido para fora da cidade, a partir de onde estavam, era passando pela fábrica abandonada.
Carlos continuou dormindo, perfeitamente imóvel exceto pelo levantar de seu peito, seu rosto pesado de
exaustão... e uma vez decidido o curso de ação, Jill o observou por um tempo e decidiu que precisava deixá-lo
para trás. Era uma decisão bem mais difícil, mas só porque não queria ficar sozinha, um motivo egoísta. A
verdade era, ele estava ferido por ter ficado entre ela e Nemesis, e ela não queria colocá-lo nessa posição de
novo.
Eu vou verificar a fábrica, talvez ache um rádio e chame ajuda. Se tudo estiver bem, seguro, eu volto para ele.
Se estiver ruim... bom, eu acho que apenas voltarei se puder. O lugar ficava a quase um quilômetro e meio dali
se não lhe falhe a memória, ela podia chegar lá cortando através do Memorial Park, logo atrás da torre do
relógio, um passeio bem curto. Era pouco mais de duas da madrugada, ela poderia ir e voltar antes do
amanhecer. Com sorte, Carlos ainda estaria dormindo ao retornar, talvez ouvindo boas notícias.
Ela decidiu deixar um bilhete caso aconteça algo no caminho. Ela não conseguiu achar uma caneta ou lápis,
mas encontrou uma velha máquina de escrever manual, debaixo de um livro de canções. Ela usou o verso de
um rótulo de coquetel de frutas. O teclar das peças era tão calmante quanto a chuva que continuava caindo no
telhado, sons que a faziam muito grata por estar viva.
Ela pegou o lança-granadas mesmo sabendo que restava uma bala - Carlos deve ter achado aquela que tinha
derrubado no pátio - lembrando do dano que o matador de S.T.A.R.S. tinha causado. Ela também pegou a
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Beretta, deixando o revólver com Carlos para que tivesse algo mais pesado que a metralhadora. Por precaução.
Jill deixou o bilhete no altar, onde Carlos olharia assim que acordasse, e agachou ao lado dele, tocando sua
sobrancelha. Ele estava definitivamente apagado, nem mesmo um reflexo enquanto ela tirava seu cabelo sujo da
testa, imaginando como agradeceria por tudo o que tinha feito.
"Durma bem". Ela suspirou, e antes que mudasse de idéia, ela levantou e virou, correndo para a porta sem olhar
para trás.
Havia uma pequena sala atrás do pequeno cemitério do Memorial Park, normalmente usada para guardar
ferramentas. Ela foi tomada como uma das várias estações da Umbrella enquanto ocorria a deflagração em
Raccoon - e como um local de descanso para operadores, cada uma em um lugar escondido onde pudessem
organizar arquivos sem serem vistos, e receber atualizações gerais da Umbrella, caso tivessem acesso imediato
a um computador. Nicholai não tinha planejado parar em nenhuma das estações de recepção; ele achava que
eram um risco desnecessário da parte da Umbrella, por mais bem escondidas que estivessem - no cemitério,
estava escondida atrás de uma parede falsa. A Umbrella não queria ninguém rastreando sinais vindos da cidade,
por isso as estações só recebiam, outra precaução, mas Nicholai ainda as achava perigosas. Se ele quisesse
emboscar um agente, ele invadiria uma das estações.
Ou se eu quisesse matar um. Apesar de nesse caso eu só tenha que entrar... ou esperar um pouco.
Ele ficou parado nas sombras de um grande monumento a alguns metros da sala falsa, pensando no quanto
bom seria matar o Capitão Chan. Nicholai tinha considerado apenas arrombar a porta escondida e atirar nele,
mas precisava relaxar, entrar em um estado de mente melhor. Chan sairia para ir ao banheiro ou para fumar
mais cedo ou mais tarde, e permitindo que sua ansiedade crescesse, Nicholai seria capaz de descarregar
algumas de suas mais desagradáveis emoções. Ele não fazia isso sempre; ele não era louco ou coisa do tipo, e
geralmente preferia as coisas fluindo - mas às vezes, criar um suspense antes de uma morte íntima, era algo
que o tirava da depressão.
Nicholai observou a porta - na verdade, um canto com dobradiça - aproveitando a fria chuva apesar de saber o
quanto miserável ficaria depois dela, correndo molhado por aí. Ele estava para tirar a vida de alguém. As coisas
tinham saído do controle por alguns momentos ao notar a perda da vacina, mas quem estava no controle,
agora? Davis Chan estava para morrer e Nicholai era o único que sabia disso, porque tinha decidido o destino de
Chan.
E Carlos estava morto, por minha causa. E Mikhail, e três Watchdogs até agora. Ele não podia dizer nada sobre
Jill Valentine, mas Nicholai tinha adorado o abalado olhar na cara de Carlos quando foi sugerido. O que sabia, a
única coisa que realmente importava, era que seus inimigos estavam mortos e ele ainda estava de pé.
Quando Davis Chan saiu na chuva alguns momentos depois, Nicholai liberou a maior parte de seus sentimentos
negativos de auto-compaixão e frustração não direcionada. E quando sua faca terminou com Chan, quinze
minutos depois, ele voltou a ser o que era. Chan, claro, não lembrava mais nada humano, mas Nicholai
agradeceu sinceramente aos restos mortais por o terem colocado nos trilhos.
2:50h 2 de Outubro
Carlos:
Eu fui para a estação de tratamento de água diretamente à nordeste da torre do relógio, a cerca de um
quilômetro e meio. A Umbrella é dona do lugar e pode haver recursos que possamos usar. Eu voltarei assim que
der uma vasculhada. Espere por mim aqui, por ao menos algumas horas. Se eu não voltar de manhã, você pode
tentar fugir sozinho.
Eu sou muito grata a você, por muitas coisas. Fique aqui e descanse um pouco, por favor. Eu não demorarei.
Jill
Carlos leu o papel enrolado mais duas vezes, depois pegou seu colete e levantou, olhando no relógio. Ela tinha
partido há menos de meia hora, ele ainda podia alcançá-la.
Ficar não era uma opção. Ela tinha deixado ele para trás por estar ferido ou por não quere colocá-lo mais em
perigo... nenhuma delas era aceitável para ele. E ele nunca teve a chance de dizer a ela o que Trent havia dito,
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sobre haverem helicópteros no complexo da Umbrella à noroeste da cidade, porém nordeste de onde estavam
agora, depois do passeio de bonde. Obviamente o mesmo lugar.
"Você pode detonar todos os monstros da Umbrella, mas consegue pilotar um helicóptero?". Carlos murmurou,
travando um pente novo na M16. Se ela tivesse acordado ele...
Ele foi para a porta, tão pronto quanto deveria estar, tentando não respirar fundo demais. Machucava, mas ele
agüentava. Ele já teve dores piores e conseguiu fazer o que precisava; uma vez, ele andou seis klicks
(quilômetros) com um calcanhar fraturado, e não piorou mais do que aquilo.
Carlos não perdeu tempo tentando convencer a si mesmo de que falar sobre Trent era o motivo de estar indo
atrás dela. Ele não podia ficar parado sem fazer nada e pronto. Ela estava tentando protegê-lo e ele admirava o
sentimento, mas não podia ficar lá e -
Nicholai. Ele está lá fora e ela não sabe.
Ele sentiu-se enjoado pensando no malvado brilho dos olhos de Nicholai. Carlos correu para fora da capela e foi
para a chuva. Ele tinha que achá-la.
[24]
A chuva tinha virado um chuvisco, mas Nicholai nem percebeu, andando debaixo de uma grossa cobertura de
folhas de outono voltando do cemitério. Outros cinqüenta ou sessenta metros e ele podia cortar à leste, paralelo
à trilha que corria direto para a estação de tratamento de água. Ele nunca usava passagens em lugares públicos
se podia evitá-las, por não gostar da sensação de exposição.
Na última checagem, Terence Foster ainda estava vivo e bem, arquivando relatórios de status ambiental na
estação de tratamento, perfeitamente desinformado de que, como último Watchdog vivo, suas horas estavam
contadas. Nicholai já tinha decidido matá-lo na hora, nada de conversa. Ele achou os dados de Watchdog de
Chan facilmente; sobre uma pequena mesa na estação de recepção; ele acharia o de Foster, também. Ele faria
uma rápida codificação dos dados coletados como seguro de vida, depois chamaria o transporte pelo rádio e
marcaria uma reunião com os tomadores de decisões. Nicholai tinha acabado de chegar na fileira de pinheiros
atrás da cerca de um dos espelhos d´água do parque, quando viu Jill Valentine andando casualmente pela beira
da água sob uma linha de postes de iluminação de ferro batido, e indo na direção que ele queria ir. As luzes
baixas refletiam a água nela, dando um ar fantasmagórico a ela, mas com certeza estava viva.
Ele não devia estar surpreso, mas estava. O olhar de dor no rosto de Carlos quando falou sobre ela... Nicholai
estava certo de que era verdade, ele não duvidou um segundo de que estava morta.
Ah, bom, foi a última mentira que contou. Muito nobre da parte dele, tentar proteger a garota de quem ele
considerava ser o vilão mais covarde... como se isso fosse me atrasar.
Não seria perda de tempo se ele a matasse agora. Nicholai ergueu o rifle, mirou cuidadosamente na parte de
trás da cabeça - e hesitou, curioso apesar da pressa em resolver seus negócios em Raccoon. Como ela
conseguiu evitar o caçador de S.T.A.R.S. todo esse tempo? Onde ela estava quando seu amante latino o
encontrou no hospital? E para onde exatamente ela estava indo?
Ele decidiu segui-la, pelo menos até aparecer uma oportunidade fácil de conseguir as respostas que queria.
Sendo assim, com ela no caminho principal e ele atrás de uma cerca de um metro, ele não conseguiria se
locomover muito bem; mandar ela não se mexer, largar as armas e ficar imóvel enquanto subia a cerca, não era
a opção mais desejável.
Nicholai voltou a afundar nas sombras e contou vagarosamente até vinte, deixando-a se afastar o suficiente
para não ouvi-lo se mover entre as árvores. Ele a seguiria pela trilha principal até chegar na ponte sobre o
grande lago de patos, confrontando ela na metade da ponte onde não havia como fugir.
Satisfeito com seu plano, Nicholai começou a andar o mais quieto possível. Ele já a tinha perdido de vista, e
caso não estivesse correndo, ele a alcançaria antes de --
"Parado". Sua voz era calma e clara, o cano da semi-automática fortemente pressionado na lateral de sua
cabeça. "Ah, mas solte o rifle primeiro, sim".
Nicholai fez o que ela pediu, chocado, tirando a alça do rifle e deixando-o cair. Como ele foi visto? Como foi que
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ela conseguiu dar a volta sem que ele percebesse?
E o quanto ela realmente sabe sobre mim?
"Por favor, não atire". Ele disse, sua voz gaguejando. "Jill, sou eu, Nicholai".
A arma ficou onde estava. "Eu sei quem você é. E eu sei que está trabalhando para a Umbrella, não só como
soldado. O que é a Operação Watchdog, Nicholai?".
Ela já sabia algo sobre isso. Se ele mentisse, perderia qualquer credibilidade que viesse a ganhar com ela.
Diga e faça o que for preciso. "A Umbrella enviou vários outros e eu para recolher informações sobre os
contaminados". Ele disse. "Mas eu não sabia que seria assim, eu juro, eu nunca teria concordado com isso se eu
soubesse. Eu só quero sair vivo, é tudo com que me importo".
O cano ainda ficou pressionado em sua têmpora. Ela era cautelosa, ele tinha que reconhecer.
"O que você sabe sobre a estação de tratamento de água aqui perto?". Ela perguntou.
"Nada. Quer dizer, eu sei que a Umbrella é dona, e só. Por favor, você deve acreditar em mim, eu só quero -".
"E a vacina para o vírus, o que você sabe sobre ela?".
A barriga de Nicholai deu um nó, mas manteve as aparências. "Vacina? Não há vacina".
"Besteira, ou eu estaria morta. Prove que você quer cooperar, e talvez possamos bolar alguma coisa. O que
você ouviu sobre uma vacina para o T-virus?".
Carlos. O olhar em seu rosto quando falou sobre ela... e quando viu a caixa da amostra.
Nicholai não confiou em si para falar, a profundeza de sua súbita e interior perturbação como uma força física,
forçando-o a agir - mas não podia, e ele tinha que convencê-la de que era apenas mais um capanga da
Umbrella, senão ela atiraria. Ele abriu a boca para falar, incerto do que iria dizer -
- e foi salvo pelo chão sob eles. Houve um profundo tremor e a terra balançou, fazendo ambos tropeçarem
como bêbados, folhas e galhos caindo em seus pés. A arma girou para fora de sua cabeça enquanto Jill lutava
por equilíbrio.
Por mais desorientador que era ficar de pé, Nicholai não acreditou que fosse um terremoto de verdade. Estava
só em volta deles; por um motivo, ele pôde ver que a água nas piscinas mau se movia. O tremor continuou mais
e mais, parecendo crescer em magnitude, e Nicholai sabia que não teria oportunidade melhor para fugir.
Fingindo pânico, Nicholai ergueu os braços e gritou, notando cuidadosamente onde seu rifle estava. "É um dos
mutantes! Corra!".
Era mais provável ser um monstro do que qualquer outra coisa, e dizer para ela correr seria bom para ele - ela
pensaria duas vezes antes de atirar em alguém tentando ajudá-la.
O tremor estava se intensificando enquanto Nicholai corria de Jill, um braço ainda acenando freneticamente. Ele
gritou para ela correr de novo enquanto pegava o rifle e fugia, sem olhar para trás, esperando que ela
acreditasse em sua atuação. Caso não, ele sentiria a bala mais cedo ou mais tarde -
- e depois de vinte metros, o chão que ele pisava estava praticamente imóvel, apesar de ainda poder sentir e
ouvir o rebuliço de terra atrás dele.
Distante o suficiente, ache cobertura e atire nela -
Havia um grande carvalho bem à frente. Ainda correndo, Nicholai esticou seu braço direito e virou para a
esquerda, agarrando a árvore e deixando seu próprio peso girar seu corpo. Assim que ficou seguro atrás do
enrugado tronco, ele olhou para trás preparando a M16 assim que a avistou, afastando-se do tremor na direção
oposta.
Agora você morre, sua vagabunda de um bilhão de dólares -
- e o rebuliço de repente virou um ronco, e uma enorme fonte de branco enlameado jorrou do chão, bloqueando
seu tiro, árvores tombando em volta. Um estranho, horrível e crescente ronco irrompeu da fonte, um assobio
grave, e quando uma pálida coluna chacoalhou-se cinco metros no ar e depois curvou-se para baixo de
repente, Nicholai percebeu que era um animal, um que certamente nunca existiu - o rangente círculo de afiados
dentes e presas nas extremidades da branca minhoca gigante eram provas o bastante.
A coisa abaixou-se de novo, arqueando, um híbrido titânico de larva e enguia, de verme e cobra, tão larga
quanto a altura de um homem - e mergulhou para longe de Nicholai.
Na direção de Jill Valentine.
Nicholai virou e correu, sorrindo, xingando Jill e Carlos enquanto driblava árvores no escuro, indo para o
complexo, gargalhando enquanto os amaldiçoava pelo eterno inferno.
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Jill estava correndo, saltando pela beira da água, e só percebeu que o monstro estava vindo quando ele voltou
ao chão a alguns metros dela. Uma leva de fétido ar soprou sobre ela, um cheiro de barro e carne úmida vindo
da boca carnívora da minhoca.
Minha nossa!
Ela correu mais rápido, querendo ganhar uma certa distância antes de ousar olhar para trás, uma granada não
seria suficiente, era melhor correr -
Adiante, o espelho d´água arredondado virava, alguns bancos no canto, uma fila de árvores atrás dela. O chão
estava roncando de novo, mas Jill estava quase lá; se ela fizer a curva, ficará bem - a piscina artificial era
nivelada com o cimento, com sorte, a coisa iria se nocautear -
- e os bancos e árvores à sua frente explodiram pelo ar de repente, erguidos numa onda de terra, a cega e
sondante minhoca vomitando terra de sua boca dentada enquanto varria sua cabeça na direção dela.
Jesus, ele é rápido! Jill ergueu a Beretta que ainda segurava firmemente e enterrou duas balas em sua barriga
inchada, a minhoca roncando de novo, profundo e assobiando como o rosnar de um crocodilo atacando.
Jill girou e decolou, seu coração pulando, já ouvindo e sentindo o início de outro terremoto. O monstro chegaria
na frente dela de novo, ela sabia, ela ainda não tinha saído da região da piscina. Cruzá-la iria atrasar o monstro.
Pense, se você não consegue correr, o que pode usar para detê-lo, terra, água, árvores, lâmpadas -
Lâmpadas. Várias estavam inclinadas por causa dos movimentos subterrâneos da larva gigante, como árvores
desarraigadas prestes a cair. Na piscina.
Não há tempo para planejar, ela tinha que derrubá-las na água e atrair o monstro. Ela deu o último passo e
parou tempo o bastante para girar noventa graus à direita, agitando a água. Ela estava danificada, rodamoinhos
de água espumando sendo drenados pela rachadura no concreto.
O monstro se ergue e depois cai, leva um segundo ou dois para levantar de novo - Um segundo ou dois, é o
tempo que ela terá para sair da água, considerando que ela consiga derrubar a luminária à tiros primeiro, e que a
minhoca monstruosa faça o favor de mergulhar na piscina.
Ter calculado chances significava que ela teria que pensar, e o chão já estava tremendo, chacoalhando forte o
bastante para deixá-la de joelhos. Ela caiu e deslizou por uma grossa camada de grama e lama, e então passou
a tentar ficar de pé e esvaziar a arma -
- e a coisa estava emergindo pelo canto da piscina a menos de três metros à sua direita, borrando o céu
nublado com uma explosão de terra e pedras, concreto e água. Havia uma única luminária entre ela e o monstro,
já tocando a água.
Anda!
Jill recuou mais rápido do que achava ser possível, parando assim que viu a criatura no alto começando a
inclinar, lençóis d´água caindo de sua inchada forma.
Ela abriu fogo enquanto rolava e ficava de pé, os primeiros tiros erraram o alvo, o terceiro e quarto causando um
som metálico no poste. A minhoca estava descendo, criando uma onda de lava enquanto o quinto tiro estourou a
lâmpada. O monstro a esmagaria caso não se mexesse, perto, vai ser perto -
Bam! Bam!
Foi o sétimo tiro que conseguiu, e os resultados foram espetaculares. Houve um grande zumbido pipocando
assim que Jill jogou-se para trás e para o lado, a lâmpada imersa na piscina que esvaziava rapidamente. A
carne semi-gelatinosa da gritante minhoca tremia e chacoalhava enquanto se levantava, balançando de agonia.
Sua pálida pele começou a escurecer e ficar quebradiça enquanto uma nociva e oleosa fumaça saia de sua
garganta, a parte enterrada de seu corpo arremessando enormes espirros de pedra e terra. A coisa se abaixou
mais uma vez, o som sobrenatural tornando-se chocado e engasgado -
- e caiu morto antes de atingir o chão, antes de sua camada externa de pele começar a enrolar, revelando a
cozinhada carne de suas entranhas.
Jill ficou de pé, a mão esquerda apertando seu latejante ombro enquanto se afastava da minhoca fritando, o
cheiro fazendo-a nausear várias vezes. Ela tinha conseguido, ela tinha matado a maldita coisa! O quente cheiro
de uma vitória triunfante vagou por ela enquanto respirava outra onda de cheiro de minhoca tostada. Eu
consegui, e depois ela se abaixou e vomitou.
Quando não restava mais nada para expelir, Jill se levantou trêmula e começou a ir à leste de novo, pensando
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em seu confronto com Nicholai. Ele não mentia tão bem quanto pensava, e se antes ela só suspeitava, agora ela
estava certa de que ele era uma má notícia.
Seus planos não tinham mudado, mas ela teria que ser bem mais cuidadosa ao chegar na estação de
tratamento de água. Ela não duvidava de que Nicholai estaria lá... e se ele a visse primeiro, ela morreria antes
de saber o que a acertou.
A barricada era uma enorme pilha de carros, com três e quatro intercalados de altura, erguida entre vários
prédios no fim do quarteirão em forma de um torto semi-círculo. Carlos ainda podia ver as marcas do pesado
maquinário que a construiu, iguais às que achou nas últimas três ruas que tentou. A Umbrella e o R.P.D. não
estavam desocupados enquanto selavam a cidade.
Carlos parou na frente da parede de metal parcialmente amassada, experimentando uma quase desesperada
indecisão. Volte, tente ir à norte primeiro e depois à leste - ou tente escalar uma das precárias barricadas, que
pareciam ter sido construídas para impedi-lo de achar Jill.
Afinal, é o que parece. Tudo o que havia à norte da torre do relógio era um grande parque, e talvez esse fosse o
único jeito de chegar ao complexo da Umbrella; ele não conseguia imaginar Jill escalando uma parede de carros
com um ombro ruim, sendo que passar entre eles seria muito perigoso...
.. mas você está considerando que ela chegou até aqui, uma pequena voz soou. Talvez ela já esteja morta,
talvez Nemesis a pegou, ou Nicholai, ou -
Carlos inclinou a cabeça para o lado, franzindo, seus pensamentos interrompidos por distantes ruídos. Tiros?
Possivelmente, mas a leve garoa que caía estava distorcendo e abafando o som. Ele nem sabia de que direção
tinha vindo... mas de repente ficou mais ansioso para achar Jill.
"Afinal de contas, foi eu que corri atrás da vacina, é melhor você não se matar". Ele murmurou de leve, mas
estava perto demais da verdade para ser engraçado. Ele tinha que fazer algo, agora.
Carlos olhou para a parede de carros novamente, escolhendo o caminho que parecia ser mais seguro, sobre
uma minivan e dois compactos. Ele respirou mais fundo do que podia, cruzando os dedos mentalmente e
começando a subir.
[25]
"Não, escute, você tem que ouvir - eu não sei de nada, você não quer fazer isso. Eles me pediram para fazer
relatórios sobre amostras de solo e água, é isso, eu não sou ameaça para você! Eu juro!".
Foster estava cavando a própria cova, e Nicholai decidiu que fazê-lo esperar pela morte seria cruel,
principalmente um homenzinho tão deplorável. O pesquisador já estava se agachando no canto nordeste de sua
sala, suas feições de rato apavorado suadas e coradas. Só tinha levado menos de cinco minutos para achá-lo
assim que chegou na estação.
"... e eu vou embora, tá bom?". Foster ainda tagarelava. "Eu irei embora e você nunca mais me verá de novo,
juro por Deus, porque você quer me matar, eu não sou ninguém. Me diga o que quer e eu faço, seja o que for,
peça para mim, cara, tá? Vamos conversar, tá bom?".
Nicholai percebeu que estava apenas olhando para Foster, como se tivesse entrado em transe com os pulos do
histérico homem. Foi um interminável dia em uma série deles... mas por mais que quisesse sair de lá, terminar a
operação inteira, Nicholai sentiu-se estranhamente obrigado a dizer algo.
"Não há nada pessoal nisso, tenho certeza que entenderá". Nicholai disse. "É sobre dinheiro... ou era no
começo, mas agora as coisas estão diferentes".
Foster acenou rapidamente de olhos arregalados. "É, claro que são diferentes".
Agora que começou, Nicholai não conseguia parar. De repente parecia importante que alguém entendesse pelo
que ele estava passando, pelo que ainda estava disposto a fazer - mesmo que fosse alguém como Foster.
"O dinheiro ainda é o maior motivo, claro. Mas depois que vim para cá, depois de Wersbowski, eu comecei a
sentir como se estivesse em um lugar especial. Eu senti... eu senti como se as coisas estavam finalmente se
tornando o que deveriam ser. Do jeito que minha vida deveria ter sido. Circunstâncias extremas, entendeu?".
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Foster mexeu a cabeça de novo, mas sabiamente não disse nada.
"Mas então Carlos brincou comigo; ele não podia ter morrido na explosão por que Jill recebeu o antídoto. E eu
estou começando a achar que ela é o motivo, as coisas mudaram por causa dela". Enquanto falava, ele sentiu a
verdade daquilo, uma luz estava amanhecendo em sua mente. Era verdade, falar ajudava.
"Desde o começo, ela arruinou a armação que eu tinha com Carlos e Mikhail. Manipuladora, haviam muitas
como ela. Ela provavelmente dormiu com os dois, também. Os seduziu".
"Vagabundas, todas elas". Foster concordou sinceramente.
"Aí ela ficou doente e mandou Carlos roubar a vacina. Eu não estou tirando a culpa dela nisso tudo, não mesmo,
mas tem algo sobre ela... é como se sua presença alterasse as coisas, fazendo tudo dar errado de alguma
forma. Eu nem acho que esteja morta agora. Se o caçador não consegue matá-la, um mutante certamente não
o fará".
Nicholai levantou silenciosamente, perdido em pensamentos. Ele nunca foi supersticioso, mas as coisas
realmente eram diferentes. Jill Valentine era -
- uma mulher, ela era só uma mulher e você não está pensando claramente, não está pensando há dias -
Nicholai piscou, e o pensamento se foi, e Foster ainda estava no canto, olhando-o com uma expressão de terror
cauteloso. Como se achasse que Nicholai fosse louco. Nicholai sentiu uma onda de ódio pelo homenzinho, por
tentar brincar com ele, fazê-lo falar e depois julgá-lo por isso. Ele merecia morrer, tal como qualquer um deles.
"Eu não sou louco,". Nicholai gritou, bravo. "e chega de falar nisso! Você é o último, depois de você estará
acabado e é assim que as coisas são, então seja um homem e aceite isso!".
Três balas, um estouro de tat tat tat através de um dos apelantes olhos verdes de Foster, e a cabeça do
pesquisador foi para trás, sangue espirrando na porta em que estava encostado, seu corpo caindo sem vida no
chão frio.
Nicholai não sentiu nada. O último Watchdog morto, e não houve sentimento de realização ou conquista. Apenas
outro corpo no chão à sua frente e um profundo desejo de sair de Raccoon, de onde as coisas tinham ficado tão
azedas.
Nicholai balançou a cabeça, seu coração pesado, e começou a vasculhar o escritório atrás dos dados de Foster.
Jill parou na frente da estreita ponte que conectava o portão de trás do Memorial Park com o pavimento superior
do complexo da Umbrella, suspensa sobre o que deveria ser um brejo ou um pântano, a julgar pelo cheiro de
grama e lama. Estava escuro demais para dizer só olhando, mas o odor era inconfundível - tal como as pegadas
frescas que iam de onde estava até o lado oposto. Como esperava, Nicholai estava lá.
Maravilhoso. Que prazer.
Nicholai à parte, ela estava grata por ter achado a ponte; ela esteve preocupada com o parque não ter saída e
ter que voltar. A ponte convenientemente levava ao andar superior; fazia sentido que os escritórios e salas de
controle - esperançosamente um deles teria um sistema de transmissão - ficassem no andar superior do prédio
de dois pavimentos, o térreo era onde a água era tratada. Considerando que a Umbrella não tivesse se
importado com o layout do prédio, ela conseguiria entrar e sair facilmente. Se não houver um rádio, ela daria a
volta em torno do andar térreo para verificar as estradas.
Ela se aproximou cuidadosamente da ponte de madeira e metal, respirando fundo, concentrando-se enquanto
tocava o baixo corrimão de madeira para se equilibrar. Lidar com criaturas da Umbrella, acidentais ou criadas,
exigia habilidade e concentração, mas encarar um adversário humano exigia mais do que isso; pessoas são bem
menos previsíveis do que animais, e se ela quisesse ficar longe de Nicholai, ela teria que ficar o mais alerta
possível, sua intuição e lucidez armadas para sentir o ataque a caminho -
- como agora -
Jill congelou na metade do caminho, tocando a trava de segurança da Beretta com o dedão, algo estava muito
errado e não sabia dizer o que era-
Ka thud! Atrás dela.
Jill girou, coração a toda, e viu Nemesis de pé a seis metros de distância, seu horrível corpo transformado pelo
fogo e tiros de granada. Seu peito e braços estavam nus, deixando claro para ela como os inquietos tentáculos
eram presos, brotando de suas costas superiores e ombros. A maior parte de sua pele tinha sido queimada,
revelando fibrosos músculos vermelhos em pedaços de preto acinzentado.
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"Starsss". Ele resmungou, dando um passo adiante, e ela viu que seu lado direito inferior estava retalhado onde
tinha acertado com o lança-granadas. A carne da base de seu tórax até a metade da coxa parecia macarrão
queimado, esmagado e fatiado - mas duvidava muito que sentia dor, e tinha poucas ilusões de que sua força
tivesse sido afetada.
Num instante, sua mente drogada com adrenalina correu por centenas de opções e a trancou com a melhor
delas. A laje da torre do relógio. Carlos tinha empurrado ele para baixo, mas estava cego, distraído -
- distraia a coisa!
Ela abriu fogo, mirando na parte mais óbvia de sua face deformada, seus dentes brancos - e viu pelo menos
dois tiros quebrarem o sinistro sorriso, pálidos estilhaços explodindo como um espirro.
O matador de S.T.A.R.S. gemeu, seus carnudos tentáculos esticando-se como uma capa atrás dele,
enquadrando a besta num emaranhado de membros trêmulos.
- não está sofrendo, talvez, mas está sentindo algo -
- VAI AGORA!
Jill continuou atirando enquanto corria para ele, seus instintos gritando para ela correr na outra direção, sua
lógica lembrando-a de que não poderia correr rápido o bastante.
Nemesis ainda uivava quando Jill se jogou nele, empurrando para cima e para frente a fim de chicoteá-lo no
peito como Carlos tinha feito, encolhendo por dentro ao sentir sua pele nas mãos, molhada, granulada, fria -
- e ele cambaleou para trás, caindo pesadamente na beira da ponte, a centímetros do espaço vazio. Seu peso e
massa ajudaram Jill enquanto rezava para que a ajudassem, ela ouviu a explosiva rachadura de uma
desgastada tábua sob seus calcanhares, o corrimão lateral quebrando enquanto o gigante caía sobre as tábuas
-
- mas dois, três dos tentáculos estavam agarrando o corrimão do outro lado, o hesitante Nemesis esticando os
braços, forçando para recuperar o equilíbrio.
Jill pulou, sabendo que não podia deixá-lo se levantar de novo, e desceu ambos os pé em seu arruinado
abdômen, saltando do corpo do monstro com toda sua força.
Ela caiu solidamente nas pranchas de madeira, gritando de dor assim que seu ombro ferido absorveu a maior
parte do impacto - mas a visão dos cipós de carne cedendo enquanto Nemesis perdia o agarre, a fizeram muito
bem... assim como a tenebrosa pancada na água que ouviu pouco depois.
Ela cambaleou para ficar de pé e cruzou o resto da ponte, agradecendo silenciosamente ao encontrar a porta de
acesso ao complexo destrancada. Dentro, um curto corredor virava à esquerda quatro metros e meio à frente,
chão de grades metálicas e paredes de concreto. Ela rapidamente trancou a porta pela qual passou e apoiou-se
nela, apontando sua arma para a curva enquanto recuperava o fôlego.
Nenhum passo lá fora ou dentro, nada além de um fraco som de maquinário vindo de algum lugar mais adentro
do complexo. Quando passou a respirar quase normalmente, ela andou, ansiosa para sair antes que Nemesis
retornasse. Ela tinha que pedir ajuda e fugir, ou apenas fugir; Nemesis não desistiria, e ela não podia evitá-lo
para sempre.
Mais adiante no corredor, ela viu uma porta de enrolar metálica à direita, de frente para a continuação do
corredor que não podia ver. Mais um passo à frente e ela espiou em volta da curva. Vazio, outro corredor que
virava à direita. Ela recuou um passo e olhou a porta metálica de perto, do tipo que abria com um cartão
magnético.
O nome da sala estava bem acima da porta; em estêncil preto: COMMUNICATIONS. Jill sentiu uma corrente de
esperança, e viu que não havia fechadura manual. O leitor de cartão à direita da porta era o único modo de
entrar.
Frustrada, Jill virou. Ter cruzado com Nemesis tinha mudado as coisas. Ela podia partir, ficar longe dele e de
Nicholai e tentar pensar em algo diferente, ou podia continuar, procurar o cartão e pensar em outras
possibilidades.
Jill sorriu exausta. Na verdade, ambas opções soavam terríveis, mas a primeira parecia melhor. Ao menos suas
roupas teriam uma chance de secar.
Tremendo, Jill andou pelo corredor adjacente, vagamente com inveja de Carlos, quente e dormindo na capela.
O complexo da Umbrella era uma série de pequenos prédios térreos e um com dois pavimentos, posicionados
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entre várias áreas abertas com lixo empilhado - pilhas de móveis usados, carros velhos e sucata eram os
principais competidores por espaço. Se houverem helicópteros por lá, Carlos considerou estarem atrás dos
galpões - quase impossíveis de se contornar, claro, a não ser que quisesse escalar outra pilha de carros.
Não, só se eu precisar, muito obrigado. Sua escalada tinha sido o suficiente para durar o resto da vida. Ele tinha
batido os dois joelhos fortemente no teto de um caminhão enquanto descia, e mancou o resto do caminho até o
complexo.
Ele parou num pequeno e lotado pátio, onde esperava achar uma cerca, memorizando o layout do amplo
complexo o melhor que podia antes de ir para o prédio principal. Ele queria ter certeza de que Jill estivesse bem
antes de procurar o helicóptero. Assim que alcançou o prédio, Carlos quebrou a primeira janela que conseguiu
alcançar com a coronha da M16 e puxou-se para cima.
Ele sentou na moldura da janela, olhando para uma longa e estreita sala, pobremente iluminada e forrada com
corpos. À direita ficava uma porta dupla com uma placa de saída acima, provavelmente dando acesso ao galpão
principal; ele tentaria essa porta quando fosse procurar os helicópteros. À esquerda, ficava uma escada metálica
de mão que subia até uma abertura no teto. Ele não queria mais nada.
Bom, um elevador, talvez, ele pensou enquanto se jogava da janela, suas costelas atadas protestando. E se não
fosse pedir demais, se de repente eu acordasse e descobrisse que tudo isso foi um sonho ruim, não seria nada
mau, também.
A sala cheirava podridão e sangue, um cheiro com o qual já tinha se acostumado. Cheirava igual Raccoon, e
enquanto subia a escada lentamente, ele pensou que morreria feliz se apenas pudesse fazer isso respirando ar
puro e fresco.
A tampa de metal no topo da escada levantou facilmente, presa em dobradiças terminando apoiada num gradil
lateral. Carlos emergiu cuidadosamente em outra escura sala com ar de esconderijo, cercada de consoles,
armários e nenhum corpo -
"Caramba". Ele suspirou, afastando-se da escada e indo para o console da parte frontal, embaixo de grandes
janelas que se voltavam para o pátio escuro. Era um velho sistema de comunicações, e mesmo enquanto
levantava os fones de ouvido, pôde ouvir o barulho de estática vindo do pequeno alto-falante preso num painel
lateral, seguido por uma fria voz feminina.
"Atenção. O projeto Raccoon City foi abandonado. Manobras políticas para retardar os planos federais falharam.
Todos devem evacuar imediatamente para fora do raio de explosão de dezesseis quilômetros. Mísseis serão
lançados ao amanhecer do dia. Essa mensagem está sendo transmitida em todos os canais disponíveis, e será
repetida em cinco minutos".
Ele colocou os fones e começou a apertar botões. "Alô? Alguém pode me ouvir, eu ainda estou na cidade, alô?".
Nada. Carlos correu para a porta no fundo da sala, seus pensamentos repetindo-se infinitamente, amanhecer,
Jill, helicóptero, amanhecer, Jill -
- e a porta, uma porta metálica de enrolar estava firmemente trancada. Sem fechadura nem nada. Ele não podia
entrar no prédio.
E eu nem sei se ela está lá, talvez já tenha voltado, talvez...
Talvez muitas coisas, e por mais que quisesse achá-la, se não achasse uma rota de fuga segura, eles não iriam
conseguir.
Ele se afastou da porta, sem querer ir embora, sabendo que não tinha escolha. Ele tinha que achar um dos
helicópteros dos quais Trent tinha falado, e certificar-se de que funcionavam e tinham combustível. Talvez
pudesse voar pelo complexo, chamar a atenção dela, ou encontrá-la voltando para a torre do relógio.
E se eu não conseguir. Ele não terminou o pensamento, ciente sobre o destino de Jill caso falhasse.
Quase sem perceber a dor em seu lado, Carlos correu para a escada, seu coração pulando e cheio de pavor.
[26]
Quando Nicholai viu Jill passando hesitantemente pela porta até as operações de tratamento, ele imediatamente
recuou para fora do campo de visão, através da porta de segurança lateral e entrando num grande e vazio
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corredor que levava à sala do tanque de resíduos químicos. Uma feroz alegria tomou conta dele enquanto
fechava a porta com cuidado, sentimentos de vingança e auto-afirmação elevando seu espírito.
Depois de ter achado o disco de dados de Foster, ele preparou seu laptop para combinar os arquivos. Foi
quando ouviu o alerta do quartel general. Não foi surpresa, era uma das várias possibilidades projetadas, mas o
acabou deprimindo. Uma parte dele ainda queria terminar com Jill e Carlos, pelo que tinham feito com ele, e
ainda esteve considerando uma última olhada em volta antes de chamar o resgate. Não havia tempo para isso
com mísseis a caminho, e ele estava indo fazer a ligação quando ouviu os passos.
Ela está aqui, eu estava certo sobre ela e agora está aqui!
Ele tinha que estar certo, senão os destinos em Raccoon não a teriam enviado. Ele podia ver agora, que tudo o
que aconteceu desde que chegou em Raccoon estava predestinado. Destino, testando-o, dando-o presentes e
depois os tomando de volta, para ver o que ele faria. Tudo fazia perfeito sentido e agora havia um relógio
correndo, ele tinha que fugir e lá estava ela.
Eu não falharei. Eu fui bem sucedido até agora e foi por isso que esse sincronismo aconteceu. Para que antes
de retornar à civilização, eu pudesse restabelecer o controle que eu tinha. Ele podia perguntá-la sobre Carlos e
Mikhail, ele podia interrogá-la completamente... e se houvesse tempo, ele poderia dominá-la de um modo mais
prazeroso, uma despedida da qual poderia relembrar pelos anos seguintes.
Nicholai rapidamente moveu-se para trás da porta, seus passos ecoando no largo corredor, rifle preparado. Ele
tinha conquistado isso e ficaria exatamente com o que merecia.
Jill entrou em algum tipo de sala de operações, seus sentidos bem aguçados enquanto olhava pelo espaço
aberto, decorado com o estilo clássico dos laboratórios da Umbrella - vazias e frias paredes de cimento,
parapeitos de metal que separavam a sala de dois níveis de modo absolutamente funcional, nada brilhante ou
colorido à vista.
Se sangue não estiver contando... respingos de sangue manchavam o chão em volta da baixa mesa que
dominava a sala. Não deve ser obra de Nicholai, diferente do corpo que achou no escritório perto da sala com
canos de vapor quebrados. Um baixo homem com mais de trinta anos, baleado no rosto, seu corpo ainda estava
quente. Ela não tinha dúvidas de que Nicholai estava por perto, e percebeu estar quase desejando encontrá-lo
logo, só para não ter que olhar sobre os ombros a cada passo dado.
Ela não avistou nada parecido com um cartão ou com um rádio na sala, e decidiu continuar - ela podia seguir
pela porta lateral no canto à sua esquerda ou descer. Porta lateral, ela decidiu, na remota possibilidade de
Nicholai ter seguido por lá; até agora, ela esteve em todas as salas que conseguiu entrar do pavimento superior,
e não queria descer e arriscar ser pega por trás por trás.
Ela andou até a porta, imaginando de novo o que havia sido feito com os corpos daqueles que morreram no
complexo. Ela tinha visto muitas manchas de sangue, mas apenas alguns corpos.
Talvez foram colocados lá embaixo..., ela pensou, abrindo a porta de segurança e varrendo com a Beretta para a
direita e para a esquerda. Um corredor tão grande quanto uma sala, com uma pequena quebra à direita na
parede oposta. Totalmente vazio. Ela entrou... ou a Umbrella ordenou que tudo fosse limpo para que seus
empregados não tivessem que trabalhar passando por cima de seus colegas, ou -
"Quieta, vadia". Nicholai disse atrás dela, apertando o cano de seu rifle em sua nuca. "Mas largue a arma
primeiro, caso não se importe".
Um sarcástico repronunciamento do que tinha dito no parque, e ela não deixou de perceber o toque de alegria
quase histérica em sua voz. Ela não foi cuidadosa e iria morrer por isso.
"Tá, tá". Ela disse, deixando a 9mm escorregar por seus dedos e cair no chão. Ela ainda tinha o lança granadas
preso em suas costas, mas era inútil - no tempo que levaria para desatar a arma, ele poderia esvaziar um pente
inteiro nela e ainda ter a chance de recarregar.
"Vire-se devagar e recue, mãos juntas à sua frente. Como se estivesse rezando".
Jill fez o que ele queria, recuando até suas costas tocarem a parede, com mais medo do que queria admitir
quando viu o inquieto sorriso e o modo como seus olhos rolavam de lado a lado.
Ele piscou. Seja lá o que estivesse errado com ele, estar em Raccoon tinha transformado isso numa total
psicose. O modo como a olhava de cima para baixo a encheu com um tipo diferente de medo. Ela conhecia
vários modos efetivos para evitar o ataque de um estuprador - mas isso considerando ainda estar fisicamente
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apta a lutar, e ela duvidava muito que Nicholai se aproximaria dela sem antes atirar algumas balas bem
localizadas.
Ela olhou para sua esquerda, para a quebra no corredor que terminava em uma porta fechada. Não vai dar,
tente conversar com ele.
"Eu pensei que você quisesse apenas sair da cidade". Ela disse, neutramente, incerta sobre o tom que usar. Ela
sempre ouviu que pessoas loucas deviam ser tratadas com humor, mas ela podia ver que não faria muita
diferença; Nicholai queria matá-la e ponto final.
Ele andou casualmente até ela, vestindo seu trêmulo sorriso. Um trovão soou acima, um som distante. "Eu quero
sair agora que tenho todas as informações. Eu matei todos os outros pelas suas, os Watchdogs. A Umbrella
lidará comigo, somente eu, e serei extremamente rico. Está tudo equilibrado, e agora que você está aqui, meu
sucesso está garantido".
Contudo, Jill estava curiosa. "Por que eu?".
Nicholai se aproximou, mas ficou a uma distância segura. "Porque você tomou o antídoto". Ele disse com um
tom de ´na verdade´. "Carlos o roubou a seu pedido, não tente negar. Diga-me, você está trabalhando por
iniciativa própria ou foi enviada para atrapalhar meus planos? O quanto Carlos e Mikhail sabem?".
Cristo, como respondo isso? O tremor soou acima novamente, e Jill se distraiu com ele, confusa demais com a
lógica bizarra de Nicholai para responder. Estranho poderem ouvir através do pesado teto... não tão estranho
quanto pensar no clima em uma hora como essa. Ela tinha que dizer algo para ao menos prolongar sua vida;
enquanto estiver respirando, ainda restará uma chance.
"Por que deveria te dizer algo? Você vai me matar de qualquer jeito". Ela disse, como se tivesse algo para dizer.
O sorriso de Nicholai sumiu, e depois reapareceu, acenando. "Você está certa, eu vou". Ele mirou o rifle no
joelho esquerdo dela e lambeu os lábios. "Mas não antes de nos conhecermos melhor, eu acho que temos
tempo o suficiente para -".
Crash!
Jill caiu para trás, certa de que foi baleada, mas ele não atirou, foi o trovão -
- e o teto estava caindo, parte dele, pedaços de gesso e concreto chovendo enquanto Nicholai gritava e atirava
violentamente -
- e desapareceu.
Nicholai a tinha sob seu controle, ela sangraria e gritaria e ele seria vitorioso, ele tinha vencido -
- foi quando o teto cedeu, escombros caindo sobre ele e algo grande, frio e duro o segurou por trás do pescoço.
Nicholai atirou, gritando, uma bruxa, ela é uma -
- e ele foi puxado para o escuro acima pela grande e gelada coisa. Uma mão, o chocado rosto de Jill sendo a
última coisa que viu antes dos dedos apertarem, antes de uma corda viva se enrolar em torno de sua cintura. A
mão e a corda puxavam em direções opostas e Nicholai sentiu seus ossos quebrarem, pele e músculos
esticando-se enquanto sangue enchia sua boca, gritando -
- isso está errado eu controlo pare -
- e ele foi rasgado ao meio, e não sabia de mais nada.
Jill só pôde ver parte do que aconteceu, mas foi o suficiente. Enquanto uma cachoeira de sangue corria pela
beira do buraco no teto, respingando no chão, ela ouviu o rouco grito de Nemesis e viu um tentáculo aparecer
entre a chuva de vermelho, procurando -
Ela não ousou correr sob o buraco. Ela virou e correu para a porta no fim do corredor, desatando o lança
granadas das costas, sua única arma -
- bam, ela empurrou a porta e a cruzou, entrando num escuro e cavernoso abismo, uma onda de mau cheiro
acertando-a como um tapa na cara. Ela bateu a porta e esticou a mão até a única luz que conseguia ver, um
brilhante quadrado vermelho em um painel perto da entrada.
Era um interruptor de luz, e enquanto filas de barras fluorescentes piscavam, ela viu e entendeu duas coisas
simultaneamente. Os funcionários da Umbrella haviam sido empilhados lá, a origem do incrível odor - e não
havia outras portas. Ela estava encurralada e tinha uma única bala no lança granadas para se defender.
Ah, Deus, pense, pense -
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Lá fora, ela ouviu Nemesis dizer a única palavra que sabia, o terrível grito encorajando-a a se mover, a fazer
algo. Ela correu para a enorme montanha de corpos, a única coisa na gigante câmara em forma de "U" que não
estava presa no chão. Talvez um deles tivesse uma arma.
O segmentado chão de metal soava ocamente sob seus pés, dizendo-a onde estava - algum tipo de sala de
lançamento de lixo, o chão obviamente capaz de se abrir e derrubar o conteúdo em algum lugar abaixo, algum
tonel com produtos químicos, num contêiner, ou no esgoto. Não importava, pois ela não tinha idéia de como
operar tal sistema; tudo com o que se preocupava era achar algo que pudesse usar contra Nemesis.
Os corpos estavam num avançado estágio de decomposição, pesadas, quentes e gasosas ondas de fedor
radiando dos escurecidos e inchados corpos, a pilha alta até sua bochecha. Jill não podia deixar ser afetada; ela
largou o lança granadas e imediatamente começou a revirar os corpos, levantando aventais pegajosos, enfiando
a mão em bolsos que desgrudavam sob seus dedos. Canetas e lápis, pacotes ensopados de cigarros, dinheiro
trocado - um cartão magnético, provavelmente aquele que procurava, maravilha, isso não é -
BOOM! BOOM!
Gigantes punhos socaram a porta, ecoando pela câmara. A porta cederia em segundos, ela teria que usar o que
tinha. Ela não teria chances de matá-lo, mas poderia contorná-lo.
Guardando o cartão magnético na beira de sua bota esquerda, ela pegou o lança granadas e correu para a
porta, pensando na boa idéia que Nicholai tinha lhe dado, o mínimo que pôde, maluco desgraçado.
Jill se posicionou ao lado da porta, perto do espaço que ela ocuparia. Ela não ficou bem ao lado, o plano iria por
água abaixo caso terminasse esmagada.
BOOM, e a porta abriu, batendo na parede a centímetros de onde estava, Nemesis entrando, braços e
tentáculos bem abertos enquanto roncava por sangue.
Ele está mudando, crescendo -
Jill mirou em suas costas desfiguradas e atirou, a carga penetrando na carne a menos de três metros de
distância.
Gritando, a criatura cambaleou para frente, e antes que pudesse recuperar o equilíbrio de novo, Jill cruzou a
porta e correu, rezando para que tivesse tempo de chamar ajuda e fugir antes de ser encontrada novamente. Ela
correu pelo corredor, erguendo a Beretta, acelerando pela próxima sala e pelo corredor seguinte.
Pelo menos tempo para ligar; ela podia não sobreviver para encontrar o resgate, mas Carlos ainda podia, se
Deus quisesse.
Só havia um helicóptero, mas estava em excelente estado, abastecido e pronto para voar. Se Carlos pudesse
achar Jill, poderiam conseguir.
Ele sentou no assento do piloto, olhando os controles, repassando as instruções básicas que conseguia lembrar.
Ele foi ensinado por outro mercenário sem treinamento, e já fazia um tempo, mas estava certo de que podia
decolar. Era um velho helicóptero de dois lugares com um teto máximo de 1.200m, e alcance de talvez 320km.
Ele ainda não sabia o que alguns botões faziam, mas não eram necessários para tirá-los do chão. A haste
cíclica movia a aeronave para frente, para trás e para os lados. O controle coletivo alterava o impulso,
controlando a altura.
Carlos checou seu relógio e ficou infelizmente surpreso ao ver que vinte minutos haviam passado desde que
ouviu o alerta sobre os mísseis. Ele tinha passado alguns minutos verificando o helicóptero, e houve alguns
zumbis vagando pela área que precisou matar...
Não vem ao caso. Agora eles tinham entre vinte e quarenta minutos no máximo. O complexo era grande demais,
ele nunca conseguiria vasculhá-lo a tempo -
- então use o maldito rádio, idiota!
Carlos pegou os fones de ouvido, incrédulo por não ter pensado nisso antes, prometendo a si mesmo de que
bateria em si pela percepção atrasada, quando tiver tempo. Considerando que haveria algum.
"Alô, aqui é Carlos Oliveira com a Umbrella, eu estou em Raccoon City, entendido? Ainda há pessoas vivas aqui.
Se você puder me ouvir, você tem que impedir o lançamento do míssil. Alô? Entendido?".
Não dava para saber se alguém estava recebendo seu sinal. A Umbrella provavelmente tinha um bloqueio em
todas as transmissões para fora, ele só tinha que tentar e -
"Carlos? É você? Câmbio".
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Jill?
Ele se sentiu fraco de alívio assim que a voz dela entrou em seu ouvido, talvez o som mais doce que já ouviu.
"Sim! Jill, eu achei o helicóptero, nós temos que sair daqui agora! Onde você está? Câmbio".
"Numa sala de rádio, no complexo da Umbrella - o que você disse sobre lançamento de míssil? Câmbio".
Ela estava tão perto! Carlos riu, nós sairemos daqui, está acabado! "Os federais explodirão a cidade em meia
hora, ao amanhecer, mas está tudo bem, estamos prontos para voar - consegue ver a escada no meio da sala?
Câmbio?".
"Sim, está - eles vão explodir Raccoon, você tem certeza?". Ela soou totalmente confusa que esqueceu de usar
o protocolo de comunicação.
Não temos tempo para isso!
"Jill, eu te asseguro. Ouça - desça a escada e comece a correr, você chegará onde estou, não há outro lugar
para ir. Passe pelo salão de cimento até a placa saída, siga o caminho lá fora e atravesse um grande galpão -
tem algum tipo de gerador de energia lá, você terá que contornar alguns equipamentos. A porta dos fundos
estará às onze horas da entrada, entendeu? Eu estarei do outro lado. E é melhor correr para cá, nada de
passear por aí".
Houve uma leve pausa e Carlos pôde ouvir o apertado sorriso em sua voz quando respondeu. "Passear por aí é
o que você pensa. Estou a caminho, câmbio desligo".
Sorrindo, Carlos ligou o helicóptero enquanto o céu azul escuro começava a clarear, preparando o amanhecer.
[27]
Jill deslizou pela escada e começou a correr, sua mente girando com as notícias sobre Raccoon. Ela não fazia
idéia do que estava acontecendo fora da cidade nos últimos dias para que a conclusão fosse apagar a área de
quarentena da existência.
Claro que precisava ser explodida, eles o fariam assim que tivessem coletado seus dados, para ter certeza de
que todas as evidências fossem destruídas -
Jill saltou sobre um corpo, depois outro, e chegou na porta com a placa de saída, como Carlos disse. Ela cruzou
a porta e foi recebida por um maravilhoso ar fresco, pesado com orvalho.
Ao amanhecer, ele disse que lançariam ao amanhecer. Meia hora era uma estimativa generosa. Jill correu mais
rápido, por um corredor sinuoso feito de carros empilhados e sucata, e havia um galpão bem à frente. Era
grande, baixo e largo, e já estava pensando em horas quando chegou nas pesadas portas reforçadas com aço.
Onze horas... ela não podia ver a porta de trás por causa da gigante parede de maquinários, canos e proteção
de metal, mas Carlos disse que precisaria contornar alguns equipamentos. Ela virou à direita -
- e parou, olhando para o monstruoso aparato que Carlos tinha confundido com um gerador. Era algum tipo de
canhão laser, enorme, cilíndrico, ela já os tinha visto antes, mas nem tinham metade do tamanho - tinha pelo
menos três metros de altura e seis de comprimento. Dezenas de cabos saíam por vários buracos até a parede
de maquinários, e estava apontado para a porta da frente, fazendo-a imaginar no que eles iam testá-lo...
A porta de trás abriu forte. Jill apontou a Beretta reflexivamente e viu Carlos, o grave som de um helicóptero lá
fora.
"Jill, vamos!".
Ele estava obviamente feliz em vê-la, mas ela podia ler a urgência em seu rosto, um lembrete do que estava
vindo enquanto a porta fechava atrás dele.
Ela correu na direção dele em silêncio, balançando a cabeça. "Desculpe, eu fiquei surpresa, é um canhão laser,
o maior de todos -".
Ka-rash!
Perto do teto da porta da frente, uma gigante massa explodiu da parede, desaparecendo de visão enquanto caía
no chão atrás da parede de maquinários. Jill só teve a impressão de um inchado e bulboso corpo cercado por
garras e tentáculos, e soube que estava certa sobre Nemesis. Ele estava evoluindo.
Pouco depois houve outra pancada. Faíscas estouraram e voaram de um alto painel perto da entrada, e um uivo
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borbulhante irrompeu na sala, o choro de Nemesis terrivelmente mudado, mais profundo, mais áspero.
"Vamos!". Carlos gritou, e Jill correu para ele enquanto chacoalhava a maçaneta da porta de trás -
- e a porta não abriu. Jill notou as pequenas luzes piscando no painel ao lado e entendeu que Nemesis tinha
causado um curto circuito nos mecanismos de trava.
Eles estavam trancados no galpão com a coisa que foi o matador de S.T.A.R.S. e que gritava por sangue.
[28]
Carlos ouviu a coisa gritar e percebeu quem era. Ele viu um lance do monstro enquanto caía, mas estava grande
e Carlos suspeitava de que estavam ferrados.
Jill levantou a voz para gritar e Carlos só conseguiu ouvir o quase interminável grito de Nemesis.
"Onde está a .357?".
Carlos balançou a cabeça. Ele estava com a M16, mas tinha deixado o revólver e os pentes no helicóptero.
"Lança-granadas?". Ele retrucou, e foi a vez de Jill balançar a cabeça.
Uma 9mm e talvez vinte balas restando na metralhadora. Nós teremos que estourar a porta, é nossa única
chance -
Carlos sabia mesmo enquanto pensava. As portas de entrada e de saída eram bem fortes, eles teriam mais
sorte explodindo um buraco na parede -
- e a resposta foi até ele, e viu que Jill também já sabia pelo modo como o olhava, seus olhos largos e piscando.
O uivo do monstro vingador predominava, porém, um horrível e molhado barulho tinha começado, o som de algo
vasto e grudento se movendo devagar e constante pelo cimento.
Está vindo atrás dela.
"Você sabe usá-lo?". Carlos perguntou, já se livrando de qualquer confronto com seja lá o que Nemesis tinha se
tornado.
"Talvez, mas -".
Carlos interrompeu. "Eu vou distraí-lo - faça aquela coisa funcionar e me avise quando abaixar".
Antes que Jill pudesse protestar, Carlos passou correndo por ela, determinado a fazer o que puder para manter
o monstro longe dela, pelo menos está mais lento, se eu puder atrasá-lo mais um pouco -
Ele chegou na esquina da parede de equipamentos, respirou fundo, e fez a curva - e gritou involuntariamente
com nojo da massa ondulante e transpirante que se arrastava em sua direção, impulsionando o corpo com
apêndices sem forma, dotados de garras e da cor de bolhas. Carnudos caroços ergueram-se e caíram como
bolhas numa panela de ensopado ao longo de suas contorcidas costas, finos jatos de um escuro fluído jorrando
de dezenas de pequenos cortes em sua pele, molhando o chão, lubrificando sua passagem.
Carlos escolheu o caroço levemente alto no topo da gigante e pulsante criatura e atirou, as balas mergulhando
na carnuda superfície como seixos numa correnteza, tat, tat, tat -
- um dos tentáculos na frente do corpo chicoteou, batendo nas pernas de Carlos forte o bastante para
derrubá-lo.
Carlos se arrastou para trás apesar da dor em suas costelas, impressionado com sua incrível velocidade, mas
nem um pouco apavorado. O monstro se movia lentamente, mas seus reflexos eram incrivelmente rápidos, o
tentáculo tinha percorrido três metros de espaço aberto para derrubá-lo, aparentemente sem esforço.
"Puta madre". Ele suspirou o pior palavrão que conseguiu pensar enquanto rolava para ficar de pé e recuava. Ele
já estava na curva, a dez metros ou menos do canhão onde Jill apertava botões freneticamente. Ele distraia o
monstro como uma mosca distraia um avião. Quanto tempo temos até o amanhecer -
De repente, o monstro uivou de novo, um coro de som, cada pequeno orifício de seu corpo abrindo, mil bocas
gritando, criando um ronco ensurdecedor.
Nemesis não iria parar. Carlos recuou mais e atirou, um desperdício de balas, mas era tudo o que podia fazer -
- foi quando ouviu o poderoso e crescente hum de uma grande turbina girando rápido e mais rápido, e Jill
gritando para ele correr, e Carlos correu.
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Ela não tinha conseguido achar o botão principal, não havia cabos ou botões para conectar, e não sabia o
suficiente sobre máquinas para tentar descobrir. Ela viu Carlos cair e seu coração parou, mas forçou a si mesma
a continuar tentando, sabendo que era tudo o que tinham.
Depois de um segundo de busca desesperada e frenética, ela encontrou os botões de ligar na base do canhão,
e a máquina tremeu maravilhosamente para a vida.
"Corre!". Jill gritou, empurrando os controles que erguiam o canhão devagar e precisamente, seus movimentos
marcados digitalmente numa pequena tela perto da base. Ela pôde sentir a energia crescendo, o ar ao seu redor
aquecendo, e assim que Carlos saiu do caminho e Nemesis apareceu, ela se sentiu aterrorizada, quase
dominada por um intenso e violento sentimento de auto-satisfação.
Ele tinha matado Brad Vickers e a perseguiu impiedosamente pela cidade. Ele tinha matado a equipe de resgate
deixando-os presos em Raccoon, a infectou com uma doença, a aterrorizou e feriu Carlos - e não importava se
tinha sido programado para fazer essas coisas; ela o odiava do fundo de si, o desprezava mais do que tudo que
já desprezou.
A gigante aberração mutante avançava centímetro por centímetro sobre uma onda de meleca enquanto o hum
do canhão alcançava um explosivo auge, o som afogando todos os outros. As palavras de Jill ficaram inaudíveis,
mesmo para ela.
"Você quer S.T.A.R.S., eu te darei S.T.A.R.S., sua porcaria". Ela disse, e desceu a mão no botão de ativação.
[29]
Uma brilhante luz branca, porém, chamuscada com um elétrico tom de laranja e azul, expelida pelo bico do
canhão laser em um feixe de concentrada fúria. Arcos de calor e luz estouravam sobre a superfície do canhão
como raios em miniatura, e o laser encontrou o contorcido e pulsante corpo de Nemesis e começou a comer.
A criatura que uma vez foi o orgulho da seção de desenvolvimento da Umbrella gemeu e se debateu,
balançando seus múltiplos membros num frenesi de confusa agonia. O fino feixe de luz perfurou sua carne,
implacável como estava provando ser, derretendo camadas de tecido e soldando materiais mais duros - ossos,
cartilagem e metal flexível - numa fundida e inútil massa.
A criatura começou a queimar e depois a fazer fumaça, e enquanto o cérebro fritava por dentro de seu corpo
deformado, Nemesis deixava de existir, seu programa eliminado, seu improvável coração estourando
silenciosamente, bem no interior.
Alguns segundos depois, o canhão superaqueceu e desligou automaticamente.
[30]
O helicóptero levantou vôo e acelerou, um leve chacoalho no começo, mas Carlos rapidamente achou o
equilíbrio. Os primeiros raios de luz estavam crescendo pelo céu à leste enquanto a cidade condenada descia
sob eles. Parecia tão estranho estar partindo, depois de dias desejando isso, trabalhando só para isso.
"Nicholai está morto". Jill disse, sua voz fria e clara através dos fones de ouvido. Foi a primeira coisa que ela
disse depois que decolaram. "Nemesis o pegou".
"Não foi grande perda". Carlos respondeu.
Eles caíram no silêncio de novo, Carlos contente por apenas voar, por ter a chance de ficar parado. Ele estava
muito cansado e só queria ficar longe o bastante de Raccoon antes que os mísseis chegassem.
Depois de um momento, Jill esticou a mão e tocou a dele, e isso também o deixou contente.
Jill segurou a mão de Carlos enquanto o sol subia lentamente no horizonte, dando ao céu maravilhosas
camadas de rosa, cinza e amarelo limão. Era bonito, e Jill percebeu que, por mais que tentasse, não conseguia
sentir pena de Raccoon. A cidade foi seu lar por um tempo, mas se tornou dor e morte para milhares de
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pessoas, e pensou que explodir tudo seria a melhor coisa que podia acontecer.
Nenhum deles falou enquanto o sol continuava levantando, enquanto quilômetros voavam abaixo deles,
florestas, fazendas e estradas vazias, parecendo frescas e brilhantes sob a gentil e quente luz.
Quando o céu piscou branco e a onda de choque os acertou pouco depois, Jill não olhou para trás.
[Epílogo]
Trent esteve ocupado quase o dia todo, assistindo reuniões, ganhando a simpatia da mídia com algumas de
suas emissoras compradas, e explicando a diferença entre HARM - mísseis de ar ao chão que o exército usou
em Raccoon - e SRAM para os três líderes da White Umbrella. Jackson, em particular, ficou descontente por
não terem usado os mísseis táticos maiores; ele não parecia entender que um acidente nuclear proposital nos
Estados Unidos devia ser mantido no maior sigilo possível. Irônico como um homem com tanto dinheiro e poder
conseguia ser tão indiferente com a realidade que ajudara a criar.
Trent finalmente teve alguns momentos para si no começo da noite, depois de uma revisão final nos relatórios
Watchdog. Ele levou uma xícara de café para a sacada do quarto que usava quando ia para os escritórios em
DC. O vivaz anoitecer era refrescante depois de um dia de ar reciclado e luzes fluorescentes.
Do vigésimo andar, a cidade parecia surreal, sons distantes e formas borradas. Sem olhar para nada em
particular, Trent provou o café, pensando em tudo o que tinha testemunhado nos últimos dias da privacidade de
sua casa. As poucas dezenas de estações remotas da Umbrella não captavam nada do satélite pirata que
mandava informações para sua sala secreta de monitores; ele conseguiu acompanhar vários dramas que se
desenrolaram nas últimas horas da cidade.
Teve um policial novato, Kennedy, e a irmã de Chris Redfield - ambos escaparam por pouco da explosão no
laboratório, conseguido salvar Sherry Birkin, a jovem filha de um dos melhores cientistas da Umbrella. Trent não
teve contato com eles, mas sabia que Leon Kennedy e Claire Redfield tinham se tornado parte da luta. Eles
eram jovens, determinados e cheios de ódio pela Umbrella; não podia ter sido melhor.
As altas esperanças por Carlos Oliveira deram certo, e por ter juntado forças com Jill Valentine... Trent ficou
completamente atônito com a fuga deles, feliz por seus dois inadvertidos soldados terem trabalhado tão bem
juntos, sobrevivendo apesar da infecção de Jill, do russo lunático e do caçador de S.T.A.R.S.. O uso de unidades
Tyrant ainda estava sendo questionado por muitos dos pesquisadores da Umbrella; por mais mortalmente
eficientes que fossem, eles também eram muito caros, e Trent sabia que os debates continuariam, abastecidos
pela perda de várias unidades na destruição da cidade.
Ada Wong...
Trent suspirou, desejando que ela tivesse sobrevivido. A alta e bonita agente asio-americana que tinha enviado
foi tão brilhante quanto competente. Na verdade, ele não a viu morrer, mas as chances de ter sobrevivido à
explosão do laboratório e da destruição de Raccoon eram próximas de zero. Infelizmente, diga-se no máximo.
Mas no geral, Trent estava satisfeito do modo como as coisas estavam andando. Até onde podia dizer, ninguém
na companhia tinha a menor idéia de quem ele realmente era ou do que estava fazendo. Os três homens mais
poderosos na Umbrella confiavam nele mais a cada dia, completamente desinformados sobre seu objetivo -
destruir a organização, de fora e por dentro, devastar a vida de seus líderes e entregá-los à justiça; organizar
um exército de elite de homens e mulheres comprometidos com a queda da Umbrella, e guiá-los o máximo que
puder.
Se seus métodos eram complicados, o motivo era simples: vingar a morte de seus pais, ambos cientistas,
assassinados quando ele era criança para que a Umbrella pudesse lucrar com seus estudos.
Trent sorriu para si, bebendo mais um pequeno gole da xícara. Soava tão melodramático, tão grandioso. Fazia
quase trinta anos desde que seus pais foram queimados vivos no suposto acidente no laboratório. Ele deixou a
dor para trás há muito tempo - porém, sua decisão nunca mudou. Ele tinha mudado de nome, de passado,
desistiu de algum dia voltar a ter uma vida normal - e não se arrependia de nada, mesmo agora que dividia a
responsabilidade pela morte de tantas pessoas.
Estava escurecendo. Lá embaixo, a iluminação pública piscava para a vida, mandando para cima um suave
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brilho que iluminaria o céu noturno como uma auréola sobre a cidade. Mesmo assim, até que era bonito.
Trent terminou o café e ausentemente traçou o logotipo da Umbrella na lateral da xícara com os dedos,
pensando sobre escuridão e luz, bom e mal, e os tons de cinza que existiam entre tudo. Ele precisava ser
cuidadoso, e não só para evitar ser descoberto, eram aqueles tons de cinza que o preocupavam.
Depois de alguns momentos, Trent deu as costas para a escuridão e entrou. Ele ainda tinha muito o que fez
antes de ir para casa.
***
Resident Evil: Nemesis
[www.fyfre.com]
Autora: Stephani Danelle Perry.
Editora: Pocket Books (U.S.A.)
Tradução: Raphael Lima Vicente.
Tradução começada em: 9 de Maio de 2004.
Tradução terminada em: 15 de Novembro de 2004.
Digitação começada em: 8 de Janeiro de 2005.
Digitação terminada em: 2 de Abril de 2005.
Dias trabalhados na tradução: 68 dias
Dias trabalhados na digitação: 63 dias
Páginas de caderno usadas para traduzir: 219 pgs.
Resident Evil TM & © 2000
Capcom Co., Ltd.
© 2000 Capcom U.S.A., Inc.
88 Resident Evil #6 CODE: Veronica
[S.D. Perry]
Esta tradução é conteúdo exclusivo do F.Y.F.R.E. e não deve ser copiado sem permissão da
equipe do site. Para isso, mande-nos um e-mail [team@fyfre.com].
O F.Y.F.R.E. é pioneiro nas traduções dos livros da série, e nosso trabalho já completa quase cinco
anos. Infelizmente, várias pessoas estão se utilizando de nosso árduo trabalho para ganhar
dinheiro e enganar fãs desinformados, fazendo-os comprar as traduções por um alto preço, sendo
que elas podem ser lidas gratuitamente aqui no no site. Estamos cansados de tentar tomar
providências, e o único meio que temos agora de informar do nosso trabalho de tradução é avisar
no nosso próprio site. Por várias vezes, pensamos seriamente em retirar as traduções do site,
devido a tanta polêmica, mas não seria justo para com os fãs.
[Prólogo]
Encarado pela morte eminente, cercado por infectados e pessoas morrendo, enquanto destroços
do helicóptero em chamas choviam do céu, tudo o que Rodrigo Juan Raval conseguia pensar era a
garota. Nela e em um jeito de sair de lá.
Ela também morrerá
anda!
Ele mergulhou para se proteger atrás de uma lápide em branco enquanto o cemitério chacoalhava.
Com um som de metal se estilhaçando em alta velocidade, uma grande parte do helicóptero em
chamas caiu no canto mais distante do cemitério, espirrando combustível nos apodrecidos
prisioneiros e soldados. Brilhantes e oleosas linhas de combustível espalharam-se pelo chão como
lava grudenta
e quando Rodrigo caiu no chão, sentiu uma tremenda dor na barriga, duas de suas costelas
quebrando contra um pedaço de mármore escuro escondido debaixo do mato. A dor foi súbita e
terrível, paralisante. Mas de alguma forma ele não desmaiou. Ele não podia se dar ao luxo.
Uma das pás do rotor cortou a terra a sessenta centímetros dele, levantando areia para o alto. Ele
ouviu um novo coral de gemidos sem palavras, os infectados reclamando da chuva de areia. Um
guarda infectado passou por ali, seu cabelo brilhando como uma tocha, seus olhos cegos
vasculhando.
Eles não sentem, não sentem nada, Rodrigo lembrou a si desesperadamente, concentrando-se em
sua respiração, com medo de andar enquanto a dor ia de um berro para um mero grito. Não são
mais humanos.
O ar estava pesado com uma enjoativa fumaça, cheiro de decomposição acelerada e carne
queimada. Ele ouviu alguns tiros em algum lugar no complexo carcerário, mas só alguns; a batalha
estava acabada, e todos eles tinham perdido. Rodrigo fechou os olhos pelo tempo que conseguiu
ousar, certo de que nunca mais veria outro nascer do sol. E por falar em dia ruim.
Tudo começou há dez dias, em Paris. A Redfield tinha invadido a administração do quartel general
e criado uma infernal e violenta briga antes que Rodrigo a pegasse. A verdade era, ele teve sorte
ela tinha sacado a arma e estava vazia.
É, muita sorte, ele pensou amargamente. Se ele soubesse o que o futuro lhe reservava ele teria
recarregado a arma para ela.
A recompensa por tê-la pego com vida foi a chance de levar sua unidade de segurança de elite
para combater contaminados vivos no complexo Rockfort, numa remota ilha do Atlântico Sul. A
garota terminaria virando uma cobaia para os cientistas, ou talvez uma isca para seu problemático
irmão e os rebeldes do S.T.A.R.S., dos quais Rodrigo não parava de ouvir. Dezessete pessoas
foram seriamente feridas e outras cinco morreram durante a presença da Redfield na
administração do quartel general. Boa parte deles não era confiável e Rodrigo não dava a mínima
para eles, mas capturar a garota significaria que ele poderia conseguir um bom pagamento. A
Umbrella podia transformá-la numa barata gigante de néon, ele não ligava, e certamente fariam
1
algo pior.
Sortudo de novo, era o que parecia. Ele teve dez dias para preparar suas tropas, dez dias
enquanto o quartel tentava interrogá-la sem sucesso. A viagem Paris/*Capetown/Rockfort foi fácil.
Os pilotos eram de primeira e a garota ficou sabiamente calada. Todos os seus homens tinham
sido preparados psicologicamente para a oportunidade, o astral estava alto assim que tocaram o
chão e começavam a se prepara para os primeiros tiros.
E então, menos de oito horas depois do pouso em sua segunda visita à ilha o complexo foi
brutalmente atacado por desconhecidos, um repentino e preciso ataque aéreo. Com certeza foi
financiado por uma corporação, tecnologia de ponta e munição ilimitada os helicópteros e aviões
cruzaram o céu como um trovejante pesadelo negro, o ataque bem planejado e impiedoso. Até
onde podia dizer, tudo foi atingido o presídio, os laboratórios, o centro de treinamento... ele
pensou que a casa dos Ashford podia ter sido poupada, mas não apostaria nisso. O ataque foi
devastador o bastante, porém imediatamente superado pelo que veio em seguida o destruído
laboratório de segurança máxima vazou meia dúzia de variações do T-virus, e um número de
B.O.W.s experimentais escaparam. A série T transformava humanos em canibais sem cérebro, um
infeliz efeito colateral, mas não tinha sido criado para pessoas. Através dos questionáveis milagres
da ciência moderna, a maioria das armas vivas nem lembrava humanos, e o vírus as tornava
máquinas de matar.
O caos prosseguiu. O comandante da base, aquele maníaco esquisito Alfred Ashford, não fez
nada, e foi a vez dos soldados graduados liderarem. Os prisioneiros eram inúteis, mas havia
soldados suficientes no chão para lançarem uma defesa e contra-ataque sem sucesso; seus
próprios homens caíram tão rápido quanto os outros, eliminados a caminho do heliporto por um trio
de OR1, a espécie T-Virus da vez.
Todo aquele treinamento perdido em apenas um ou dois minutos. Os OR1 eram particularmente
asquerosos, violentos, agressivos e extremamente poderosos. Felizmente, apenas alguns deles
tinham escapado... mas apenas alguns foram o suficiente. Os soldados os chamavam de
Bandersnatches, por causa dos longos braços. Engraçado como sua equipe foi tão cuidadosa para
evitar infecção, usando máscaras desde as primeiras bombas e ainda assim foram mortos por
uma forma do vírus.
Pelo menos foi rápido, antes de saberem o tamanho do problema em que estavam. Rodrigo
pensou, invejando a esperança deles. Ele estava ferido, exausto, e tinha visto coisas que o
assombrariam pelo resto da vida, independente do quanto longa ela seria. Eles foram sortudos.
Rockfort tinha se tornado um inferno na terra. O vírus criado pelo homem era um aerotransmissível
de vida curta e tinha se dispersado rapidamente, infectando cerca de metade da população da
ilha... mas os novos infectados correram atrás da outra metade, espalhando a doença. Alguns
conseguiram escapar logo depois, mas entre os infectados e as criaturas à solta, fugir tinha se
tornado uma fria opção. A ilha inteira estava infestada.
Talvez foi o que deveria ser. Talvez todos nós tivemos o que merecíamos.
Rodrigo sabia que não era um homem ruim, mas não queria se enganar, ele também não era o
mocinho. Ele já se fez de cego para coisas muito ruins em troca de um bom pagamento, e por mais
que quisesse entregar a verdade, ele não podia negar sua participação no apocalipse que agora o
cercava. A Umbrella vinha brincando com fogo... mesmo depois de Raccoon City, do desastre em
Caliban Cove e no complexo subterrâneo, ele nunca considerou que algo assim poderia acontecer
com sua equipe e consigo.
Outro cadáver passou perto de seu abrigo temporário, um razoável tiro de espingarda onde seu
queixo deveria estar. Rodrigo instintivamente agachou mais, e novamente teve que se esforçar
para não desmaiar, a dor chocantemente intensa. Ele já tinha quebrado costelas antes; mas isso
era diferente, algo interno. Fígado perfurado, talvez, morte certa se não conseguir ajuda.
Considerando que a onda de azar ainda permanecia, ele acabaria perdendo todo o sangue antes
que alguém o comesse...
Seus pensamentos estavam vagando, a dor tinha se aprofundado e por mais que quisesse
descansar, havia a garota, ele não podia se esquecer dela. Ele estava perto agora, muito perto. Um
dos guardas a tinha deixado inconsciente antes de fazer o exame físico e preencher o formulário, e
isso tinha sido antes do ataque. Ela ainda devia estar na cela de isolamento, a entrada para o
subsolo estava atrás dos destroços do helicóptero.
Quase lá, depois posso descansar.
A maioria dos quase humanos tinha se afastado dos destroços em chamas, seguindo algum
2
instinto primário, talvez. Ele tinha perdido sua arma a caminho, e se pudesse correr para trás das
lápides da parede oeste...
Rodrigo sentou-se calmamente, a dor piorando, fazendo-o se sentir enjoado e fraco. Devia haver
um frasco de líquido hemostático no kit de primeiros socorros do presídio, ele poderia ao menos
diminuir o sangramento interno apesar de já estar preparado para aceitar a morte, tanto quanto
qualquer um.
Mas não antes de chegar até a garota. Eu a capturei, eu a trouxe aqui. É minha culpa, e se eu
morrer, ela morre também.
Apesar de todo o terror que tinha testemunhado naquele dia, os amigos que tinha perdido e o
constante sofrimento de uma horrível morte, ele não conseguia parar de pensar nela. Claire
Redfield tinha sangue nas mãos, claro, mas não de propósito, não como a Umbrella. Não como ele.
Ela não tinha matado por ambição, ela não o tinha feito ser indiferente por todos esses anos... e ter
visto sua equipe de elite virando espaguete pelos monstros, ter passado a tarde lutando por sua
vida, estava claro que levar a Umbrella para a justiça era o que os mocinhos faziam. A garota
merecia algo por aquilo, mesmo se não for para morrer sozinha e no escuro. E aconteceu de ele
estar com um molho de chaves tiradas do cinto de um guarda, com certeza uma delas serviria.
Faíscas subiam dos destroços para o céu escurecendo, pequenos insetos brilhantes sumindo,
ocasionalmente acertando um dos zumbis mais próximos, chiando em sua pele cinza antes de
apagar. Eles não se incomodavam. Rodrigo apertou os dentes e ficou de pé, ciente de que a jovem
Claire não duraria dez minutos sozinha, ciente de que queria dá-la uma chance. Não era o mínimo
que podia fazer; era simplesmente a única coisa restando.
.....................................................
*Capetown - Capital da África do Sul.
.....................................................
[1]
A cabeça de Claire doía.
Ela esteve meio adormecida, lembrando de coisas, até que o distante som de um trovão preencheu
o escuro, levando-a mais perto da consciência. Ela sonhou com a insanidade que tinha virado sua
vida nos últimos meses, e mesmo que uma parte consciente dela sabia ser real, ainda parecia
inacreditável demais. Momentos do que tinha acontecido na Raccoon pós-vírus continuavam
aparecendo, imagens da criatura inumana que perseguia a garotinha no meio da devastação,
memórias da família Birkin, o encontro com Leon, as orações para Chris.
Outro trovão, mais alto, e ela percebeu que algo estava errado, mas parecia não conseguir
acordar, parar de lembrar. Chris, seu irmão, tinha se aprofundado na Europa, e eles o seguiram, e
agora ela estava com frio, com dor de cabeça e não sabia porque.
O que aconteceu? Ela se concentrou, mas a lembrança viria em partes, imagens e pensamentos
desde as semanas em Raccoon City. Ela não parecia controlar as memórias. Era como assistir um
filme em um sonho, e ainda assim não conseguia acordar.
Imagens de Trent no avião e um deserto, um disco de códigos que por fim foi inútil para achar seu
irmão. O longo vôo para Londres, o salto para a França
um telefonema, "Chris está aqui, ele está bem". A profunda e amigável voz de Barry Burton.
Rindo, o incrível alívio a enchendo, sentindo a mão de Leon em seu ombro
Foi o começo, e a levou para a próxima lembrança um encontro foi arranjado, num dos postos de
vigilância da ala administrativa do quartel general, no território da Umbrella. Leon e os outros
esperavam na van, olhei no relógio, coração pulando de empolgação, onde ele está, onde Chris
está?
Claire não sabia que estava ferrada até as primeiras balas passarem por ela, perseguindo-a sob o
feixe de um holofote, até dentro de um prédio -
correndo por corredores, ensurdecida por metralhadoras e um helicóptero do lado de fora, balas
perto o bastante para cravar estilhaços de piso em suas roupas
3
e uma explosão, soldados armados caindo sob a fúria do estouro, e... eu fui pega.
Eles a seguraram por mais de uma semana, tentando de tudo para fazê-la falar. Ela falou também,
sobre ir pescar com Chris, ideologia política, suas bandas favoritas... resumindo, ela não sabia de
nada vital; ela estava apenas procurando pelo irmão, e só, e de alguma foram ela os convenceu de
que não sabia nada de importante sobre a Umbrella. O fato de ter dezenove anos ajudava, pois
parecia tão mortal quanto uma escoteira. O que ela realmente sabia, como o sinistro Trent ou o
paradeiro de Sherry Birkin, a filha dos cientistas, ela enterrou fundo e deixou lá.
Quando eles perceberam que ela não era uma informante, eles a levaram. Agredida fisicamente,
assustada, dois jatos particulares e um helicóptero depois, veio a ilha. Ela nem a viu, estava
usando um capuz, a sufocante escuridão só aumentando seu medo. Rockfort Island (Ilha Rockfort),
não foi o que o piloto disse? Foi uma longa viagem de Paris, algo mais para seu conhecimento.
Trovão, houve um som de trovão. Ela lembrou de estar sendo empurrada através de um lamacento
cemitério em uma manhã cinzenta, ela tinha visto lápides através de seu capuz. Descendo uma
escada, bem vinda a sua nova casa e BOOM
O chão estava tremendo, chacoalhando. Claire abriu os olhos só para ver a luz acima apagar, as
grossas barras de metal de sua cela de repente marcadas em negativo e flutuando para a
esquerda na escuridão. Ela deitou de lado no sujo e úmido chão.
Isso não é bom, não, é melhor você levantar. Ignorando o pulsar em sua cabeça, ela engatinhou
para ficar de joelhos, seus músculos rígidos e doloridos. A escuridão da úmida sala estava bem
silenciosa, exceto pelo som de água pingando, lenta e solitária; parecia que ela estava sozinha.
Não por muito tempo. Ah, Deus, eu estou atolada agora. A Umbrella a tinha, e considerando a
bagunça que tinha feito em Paris, era improvável que serviriam sorvete e depois a libertariam.
A renovada avaliação de sua situação deu um nó em seu estômago, mas fez o possível para deixar
o medo de lado. Ela tinha que pensar direito, analisar suas opções, e precisava estar pronta para
agir. Ela não teria sobrevivido em Raccoon se tivesse entrado em pânico
só que você está numa ilha controlada pela Umbrella. Mesmo passando pelos guardas, para
onde você irá?
Um problema por vez. Primeiro, ela devia tentar se levantar. Exceto pelo doloroso inchaço em sua
têmpora direita, ela não achava estar ferida
Houve outro barulho, abafado e distante, e um pouco de pó caiu do teto, ela pôde senti-lo em sua
nuca. Ela tinha interpretado esses barulhos em seus sonhos semiconscientes como um trovão,
mas definitivamente parecia que Rockfort estava sob artilharia pesada. Ou do Godzilla. Que diabos
estava acontecendo lá fora?
Ela ficou de pé, franzindo com a dor na cabeça enquanto se espanava com os braços, esticando os
rígidos músculos. A sala subterrânea a estava fazendo desejar ter vestido algo mais quente do que
o jeans e o colete sem mangas para o encontro com Chris
Chris! Por favor, esteja a salvo! Em Paris, ela tinha atraído a equipe de segurança da Umbrella
para longe de Leon e os outros, Rebecca e os dois S.T.A.R.S. de Exeter; Chris não tinha sido
pego, Claire considerou que já devia estar reunido com a equipe agora. Se ela pudesse achar um
computador com internet, ela podia mandar uma mensagem para Leon...
.. é, apenas entorte as barras de aço, ache algumas metralhadoras e extermine a população da
ilha. Ah, depois invada o sistema de comunicação altamente protegido e ache um computador
desse tipo. Você também pode dizer a Leon que não sabe onde fica Rockfort
Uma voz interna mais alta a interrompeu pense positivo, droga, seja sarcástica depois, caso
sobreviva. O que você pode fazer?
Boa pergunta. Não havia guarda. Estava extremamente escuro, um pingo de luz vindo de algum
lugar à direita, o que poderia ser uma vantagem caso
Claire apalpou os bolsos de repente, desejando esperançosamente que ninguém a tivesse
revistado enquanto esteve inconsciente, certa de que alguém deve ter esquecido de olhar o bolso
interno do colete, lá estava!
"Idiotas.". Ela suspirou, tirando o velho isqueiro de metal que Chris a tinha dado um tempo atrás,
seu confortável peso nas mãos. Quando a revistaram atrás de armas, um soldado fedendo tabaco
o tinha achado, mas devolvido quando ela disse que fumava.
Claire colocou o isqueiro de volta no bolso, não querendo cegar seus olhos agora que estava se
acostumando ao escuro. Havia luz suficiente para ela saber como a sala era uma mesa um
armário diretamente à frente de sua cela, uma porta aberta à esquerda a mesma pela qual tinha
entrado uma cadeira e alguma coisa empilhada à direita.
4
Tá bom, você conhece o ambiente. O que mais você descobriu?
Sua voz interna foi mais calma desta vez. Claire procurou nos outros bolsos rapidamente, achando
alguns elásticos de cabelo e duas balas de menta numa embalagem amassada. Ótimo. A não ser
que ela queira derrubar o inimigo com uma pequena e refrescante bala de menta, ela estava sem
sorte
Passos, no corredor fora da sala, chegando mais perto. Seus músculos apertaram e sua boca
secou. Ela estava desarmada e presa, e o modo como alguns dos guardas a olharam durante o
transporte...
.. podem vir. Estou desarmada mas não sou inofensiva. Caso alguém a quisesse atacar
sexualmente ou de outra forma, ela faria questão de causar alguns danos. Já que ia morrer, não
iria sozinha.
Thump. Thump. Era apenas uma pessoa, e seja lá quem fosse, estava ferido ou ferida. Os passos
eram instáveis e lentos, arrastados, quase como...
Não, sem chance.
Claire prendeu a respiração quando uma figura masculina entrou mancando na sala, seus braços
na parte da frente. Ele andava como um dos zumbis, como um bêbado, cambaleando, e
imediatamente foi até a cela dela. Reflexivamente, Claire recuou, aterrorizada com as implicações
se houve algum tipo de contaminação na ilha, ela terminaria morrendo de fome, na pior das
hipóteses.
Jesus, outra contaminação? Milhares tinham morrido em Raccoon City. Quando a Umbrella
aprenderá que suas experiências insanas não valem a pena?
Ela precisava enxergar. Se for um guarda bêbado, ao menos estava sozinho, ela podia derrubá-lo.
E se for um infectado, ela estaria a salvo no momento. Provavelmente. Eles não podiam abrir
portas, ao menos os de Raccoon não. Ela pegou o isqueiro, abriu a tampa em acionou o
mecanismo.
Claire o reconheceu na hora e suspirou, recuando outro passo. Alto e encorpado, hispânico talvez,
bigode e impiedosos olhos escuros. Era o homem que a tinha detido em Paris, que a tinha
escoltado para a ilha.
Pelo menos não é um zumbi. Não é um alívio tão grande, mas aproveitaria qualquer chance.
Ela congelou por um momento, sem saber o que esperar. Ele parecia diferente, e era mais do que
seu rosto sujo de terra ou as pequenas manchas de sangue em sua camiseta branca. Era como se
houvesse alguma mudança interna, pelo modo como suas expressões estavam. Antes, ele parecia
um assassino a sangue frio. Agora... ela não tinha certeza, e quando ele tirou um molho de chaves
do bolso, ela rezou para que tivesse mudado para melhor.
Sem uma palavra, ele abriu a porta da cela e olhou para ela sem expressões antes de acenar com
a cabeça para o lado o sinal universal para "caia fora".
Antes que pudesse agir, ele virou e se afastou, definitivamente ferido pelo modo como segurava a
barriga com uma trêmula mão. Tinha uma cadeira entre a mesa e a parede oposta; ele sentou
pesadamente e pegou um pequeno frasco da mesa com seus dedos sujos de sangue. Ele
chacoalhou o frasco, do tamanho de um carretel de linha, antes de arremessá-lo pela sala,
resmungando para si mesmo.
"Perfeito...".
O frasco vazio quicou no chão de cimento, rolando e parando logo fora da cela. Ele olhou na
direção dela, cansado, sua voz pesada com exaustão. "Anda. Pode sair daqui".
Claire deu um passo na direção da porta da cela e hesitou, imaginando se era algum tipo de
armadilha ser baleada tentando "fugir" passou por sua mente, e não parecia tão impossível,
considerando para quem ele trabalhava. Ela ainda lembrava claramente do olhar nos olhos dele
quando apontou a arma no rosto dela, um frio desprezo curvando seus lábios.
Ela limpou a garganta apreensivamente, decidindo pedir uma explicação. "O que você quer dizer
exatamente?".
"Você está livre". Ele disse, resmungando para sim de novo enquanto se esparramava mais na
cadeira, o queixo indo até o peito. "Eu não sei, deve ter sido algum tipo de força especial, todos os
soldados foram eliminados... não há como escapar". Ele fechou os olhos.
Seus instintos a diziam que ele realmente queria libertá-la, mas ela não arriscaria. Ela saiu da cela
e pegou o frasco do chão, andando bem devagar, observando ele com cuidado enquanto se
aproximava. Ela não achava que sua atuação era falsa; ele estava mau, uma palidez acinzentada
sobre sua pele escura, como uma máscara transparente. Sua respiração não tinha ritmo e suas
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roupas cheiravam suor e fumaça.
Ela olhou para o frasco, uma ampola de seringa vazia com um impronunciável nome na etiqueta,
reparando na palavra hemostático. Hemo era sangue... algum tipo de anti-sangramento?
Talvez um ferimento interno... ela queria perguntar por que ele queria libertá-la, perguntar como
estava lá fora e para onde ela devia ir mas ela podia ver que ele estava à beira de desmaiar,
suas pálpebras tremendo.
Eu não posso apenas sair, não sem tentar ajudá-lo
que se dane! Vá agora!
Ele pode morrer...
Você pode morrer! Vá logo! A disputa interna foi breve, mas a emoção venceu a razão, como
sempre. Ele não deve tê-la soltado por alguma afinidade pessoal, mas seja qual for o motivo, ela
estava agradecida. Ele não devia tê-la soltado, mas foi o que fez.
"E você?". Ela perguntou, imaginando se havia algo que pudesse fazer por ele. Ela certamente não
iria carregá-lo para fora, e ela não era médica
"Não se preocupe comigo". Ele disse, levantando a cabeça para olhá-la por um segundo,
parecendo irritado por ela ter perguntado.
Antes que ela pudesse perguntar o que tinha acontecido lá fora, ele perdeu a consciência, seus
ombros caindo, seu corpo congelando. Ele estava respirando, mas sem um médico, ela não
apostaria se continuaria.
O isqueiro estava ficando quente, mas ela agüentou o calor tempo o bastante para vasculhar a
sala, começando pela mesa. Havia uma faca de combate, alguns papéis avulsos... ela viu seu
próprio nome em um deles e vasculhou o documento enquanto colocava a faca no cinto.
Claire Redfield, prisioneira número WKD1196, data de transferência, blá, blá, blá... escoltada por
Rodrigo Juan Raval, Oficial Comandante da 3ª Unidade de Segurança, Umbrella, Paris.
Rodrigo. O homem que a tinha capturado e a libertado, e que agora parecia estar morrendo bem
na frente dela. Ela não podia fazer nada sobre isso, não se pudesse achar ajuda.
Coisa que eu não posso fazer daqui, ela pensou, fechando o isqueiro super aquecido depois de
terminar a busca. Nada além de tranqueira, na maioria uniformes de prisioneiros e papelada na
mesa. Ela achou o par de luvas sem dedos que tinham tirado dela, suas velhas luvas para andar
de moto, e as vestiu, grata pelo pequeno calor que elas proporcionaram. Tudo o que ela tinha para
se defender era a faca, uma arma mortal nas mãos da pessoa certa... e as suas infelizmente não
eram.
Cavalo dado não se olha os dentes. Há cinco minutos você estava presa e desarmada, pelo menos
você tem uma chance agora. Você devia estar feliz por Rodrigo não ter descido aqui para te matar.
Mesmo assim, ela ainda não sabia lutar com uma faca. Depois de uma breve hesitação, ela
rapidamente vasculhou Rodrigo por armas, sem sucesso. Ela achou um molho de chaves, mas não
o pegou, sem querer carregar algo que pudesse chamar a atenção de alguém indesejável. Se ela
precisar das chaves, ela podia voltar.
É hora de detonar esse lugar, ver o que tem lá fora.
"Vamos nessa". Ela disse suavemente, só para fazê-la andar, ciente de que estava mais
assustada com o que vira a achar... E também porque não tinha escolha. Enquanto estiver na ilha,
estará na posse da Umbrella e até entender a situação, não podia planejar uma fuga.
Apertando a faca, Claire saiu da sala, imaginando se a loucura da Umbrella acabaria algum dia.
Sozinho, Alfred Ashford sentou nos largos degraus de sua casa, cego com raiva. A destruição tinha
finalmente parado de chover do céu, mas sua casa tinha sido danificada, a casa deles. Ela tinha
sido construída pela bisavó de seu avô a brilhante e bela Veronica, que Deus a tenha no
isolado oásis que nomeou de Rockfort, aonde construiu uma vida mágica para si e para seus
descendentes... e agora, num piscar de olhos, algum terrível grupo de fanáticos ousou tentar
destruí-la. A maior parte da arquitetura do segundo andar foi atingida, portas esmagadas, apenas
os dormitórios deles ficaram de pé.
Animais grosseiros cretinos. Eles nem podem imaginar o tamanho de sua própria ignorância.
Alexia estava chorando lá em cima, seu delicado coração agora doendo com a perda. O mero
pensamento da dor desnecessária de sua irmã alimentou sua raiva, fazendo-o querer agir. Mas
não havia ninguém em que pudesse descontar, todos os oficiais de comando e cientistas chefe
estavam mortos, até mesmo sua equipe pessoal. Ele viu tudo acontecer da sala de monitoramento
secreta de sua mansão particular, cada pequeno monitor contando uma história de sofrimento
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brutal e incompetência patética. Quase todo mundo morreu, e o resto correu como um coelho
assustado; quase todos os aviões da ilha tinham decolado. Sua cozinheira particular foi a única
sobrevivente na mansão de recepção, mas ela gritou tanto que ele foi forçado a atirar nela.
Nós ainda estamos aqui, longe das mãos sujas do mundo. Os Ashford sobreviverão e prosperarão,
para dançar nos túmulos de seus adversários, para beber champanhe nos crânios de suas
crianças.
Ele se imaginou dançando com Alexia, segurando-a de perto, dançando ao dinâmico som dos
gritos de seus inimigos... a felicidade não seria pequena, o olhar de sua irmã gêmea travado no
seu, compartilhando a consciência da superioridade sobre o homem comum, sobre a estupidez
daqueles que tentaram destruí-los.
A questão era, quem foi o responsável pelo ataque? A Umbrella tinha muitos inimigos, de legítimas
companhias farmacêuticas até acionistas particulares (a perda de Raccoon City foi desastrosa para
o mercado) até os poucos concorrentes da White Umbrella, o departamento disfarçado para
pesquisa com armas biológicas. Umbrella Pharmaceutical, a criação de Lord Oswell Spencer e o
avô de Alfred, Edward Ashford, foi extremamente lucrativa, um império industrial... mas o
verdadeiro poder está nas atividades clandestinas, operações das quais tornaram-se vastas
demais para passarem desapercebidas. E havia espiões por todo lado.
Alfred fechou o punho, frustrado, seu corpo inteiro como um conduite vivo de furiosa tensão e de
repente sentiu a presença de Alexia atrás dele, um aroma de gardênia no ar. Ele estava tão
mergulhado em seu caos emocional que nem a ouviu se aproximar.
"Você não deve se desesperar, meu irmão,". Ela disse gentilmente, e desceu um degrau para
sentar-se perto dele. "nós prevaleceremos; nós sempre prevalecemos".
Ela o conhecia tão bem. Quando ela ficou longe de Rockfort durante todos aqueles anos, ele ficou
muito sozinho, com muito medo de perder um pouco do laço especial com ela... mas agora
estavam mais próximos do que nunca. Eles nunca conversaram sobre sua separação, sobre as
coisas que aconteceram depois das experiências no complexo Antártico, ambos apenas muito
felizes por estarem juntos, a ponto de não dizerem nada para não estragar o momento. Ela sentia o
mesmo, ele tinha certeza.
Ele olhou para ela por longos segundos, amenizado por sua graciosa presença, impressionado
com sua beleza, como sempre. Se ele não a tivesse visto chorando no quarto, não saberia que
tinha derrubado uma lágrima. Sua pele de porcelana estava radiante, seus olhos azul-céu, claros e
brilhantes. Mesmo hoje, o mais escuro dos dias, a imagem dela o dava tal prazer...
"O que eu faria sem você?". Alfred perguntou suavemente, sabendo que a resposta seria dolorosa
demais para considerar. Ele quase pirou de solidão enquanto ela esteve fora, e ainda tinha
estranhos pesadelos em que se encontrava sozinho, em que Alexia o abandonava. Era um dos
motivos pela qual a encorajava a nunca deixar a segurança de sua residência particular, localizada
atrás da mansão de visitantes. Ela não se importava; tinha seus estudos e estava ciente de que era
muito importante, muito delicada para ser admirada por qualquer um, muito feliz sendo sustentada
pelo afeto de seu irmão, confiando nele como seu único contato com o mundo exterior.
Se eu pudesse ficar com ela o tempo todo, só nós dois, escondidos... mas não, ele era um Ashford,
responsável pelo patamar dos Ashford na Umbrella, responsável pelo complexo inteiro de Rockfort.
Quando seu incompetente pai, Alexander Ashford, desapareceu quinze anos atrás, o jovem Alfred
assumiu sua posição. As pessoas chave por trás da pesquisa com armas biológicas da Umbrella
tentaram mantê-lo fora do grupo, mas só porque ele os intimidava, os incomodava com a
supremacia natural de sua família. Agora eles mandavam relatórios regularmente, respeitosamente
explicando as decisões que tomaram em sua ausência, deixando claro que entrariam em contato
com ele imediatamente caso precisassem de sua opinião.
Eu suponho que devo entrar em contato, dizer o que tinha acontecido... ele sempre deixou esses
problemas para seu secretário pessoal, Robert Dorson, que se juntou aos outros prisioneiros ao
demonstrar curiosidade demais em relação à Alexia.
Ela estava sorrindo para ele agora, seu rosto brilhando com compreensão e adoração. Sim, ela
estava muito melhor para ele desde que voltou para Rockfort, verdadeiramente mais devotada a
ele do que sempre foi para ela.
"Você vai me proteger, não vai?". Ela disse, nem foi uma pergunta. "Você vai descobrir quem fez
isso conosco, e então mostrará a eles o que acontece com quem tenta destruir um legado tão
poderoso quanto o nosso".
Cheio de amor, Alfred levantou a mão para tocá-la, mas parou, ciente de que ela não gostava
7
muito de contato físico. Ele acenou, parte de sua raiva voltando só de pensar em alguém tentando
machucar sua amada Alexia. Nunca, não enquanto ele viver, deixaria isso acontecer.
"Sim, Alexia,". Ele disse apaixonadamente. "eu os farei sofrer, eu juro".
Ele podia ver nos olhos dela que acreditava nele, e seu coração encheu de orgulho, enquanto seus
pensamentos voltavam-se para a descoberta do inimigo. Um absoluto ódio pelos agressores de
Rockfort estava crescendo dentro dele, pela mancha de fraqueza que tentaram colocar no nome
dos Ashford.
Eu os ensinarei a se arrepender, Alexia, e eles nunca se esquecerão da lição.
Sua irmã confiava nele. Alfred morreria antes de desapontá-la.
[2]
Claire apagou o isqueiro na base da escada coberta e respirou fundo, tentando se preparar
psicologicamente para o que viria em seguida. O frio do escuro corredor a empurrando como uma
mão gelada, mas ainda assim hesitou, a faca meio suada entre seus dedos enquanto guardava o
isqueiro em seu colete. Ela não estava muito a fim de subir para o desconhecido, mas não tinha
para onde ir a não ser que quisesse voltar para a cela. Ela sentia cheiro de óleo queimado, e
adivinhou que as sombras dançando no topo dos degraus de cimento eram de fogo.
Mas o que há lá em cima? Esse é um complexo da Umbrella...
E se estiver igual a Raccoon City, e se o ataque libertou um vírus, ou algumas das criaturas que a
Umbrella criava? Ou será que Rockfort era apenas um presídio para seus inimigos? Talvez os
prisioneiros se rebelaram, talvez as coisas estão ruins apensas sob o olhar de Rodrigo...
..talvez você devesse subir os malditos degraus e ver por si mesma ao invés de ficar aí tentando
adivinhar, que tal?
De pulsação acelerada, Claire forçou a si mesma para dar o primeiro passo, vagamente
imaginando porque os filmes faziam isso parecer tão fácil, atirar-se corajosamente no provável
perigo. Depois de Raccoon, ela sabia. Talvez ela não tivesse muita escolha sobre o que fazer, mas
não significava que não estava com medo.
Ela subiu devagar, aguçando os sentidos enquanto nova adrenalina varria seu sistema, lembrando
do pequeno lance que teve do pequeno cemitério quando os guardas a trouxeram. Não ajuda
muito, ela só tinha visto algumas lápides, bizarramente ornadas para um cemitério de presídio.
Havia definitivamente um incêndio perto do topo da escada, mas aparentemente não tão grande -
não havia calor descendo, só uma fresca e úmida brisa que carregava o impregnante odor. Parecia
calmo, e assim que chegou no topo, ouviu pingos de chuva evaporando ao cair no fogo, um som
estranho, porém confortante.
Quando emergiu da escadaria, ela viu a origem do fogo, a metros de distância. Um helicóptero
tinha caído, uma grande parte dele queimando no meio da fumaça. À sua esquerda havia uma
parede, e outra atrás dos destroços; à direita, o cemitério, sombrio e coberto pela crescente chuva
e pelo cair da noite.
Claire franziu ao olhar para a chuva e viu um número de escuras formas, apesar de nenhuma estar
se movendo; mais lápides, ela pensou. Um suspiro de alívio cruzou pela sua ansiedade; seja lá o
que tinha acontecido, parecia ter acabado.
Incrível como ela poderia estar aliviada estando sozinha num cemitério à noite. Há seis meses, sua
imaginação teria aparecido com todos os tipos de coisas horríveis. Parecia que fantasmas e
espíritos amaldiçoados não assustavam mais, não depois de seus encontros com a Umbrella.
Ela entrou à direita seguindo um caminho em forma de U, andando devagar, lembrando de como
tinha sido conduzida pelo cemitério antes de ser levada escada abaixo. Ela identificou o que
poderia ser um portão depois da linha de túmulos no centro do pátio, ou ao menos um espaço
aberto na parede mais distante -
- e de repente ela estava voando, o som de uma explosão atrás dela, WHUMP, uma onda fervente
de calor jogando-a na lama. A úmida luz da lua ficou mais clara de repente, o odor de combustível
queimando cobrindo seu nariz e olhos. Ela aterrissou sem graça, mas conseguiu não se machucar
com a faca, tudo acontecendo tão rápido que mal teve tempo para registrar a confusão.
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- acho que não me machuquei - o tanque de combustível do helicóptero deve ter explodido -
"Unnnh...".
Claire ficou de pé instantaneamente, o suave, patético e inconfundível gemido inspirando uma ação
quase apavorada, o som acompanhado por outro, e outro. Ela girou e viu o primeiro tropeçando em
sua direção, vindo do que restou do helicóptero, um homem, suas roupas e cabelo em chamas, a
pele de seu rosto escurecida e cheia de bolhas.
Ela virou de novo e viu mais dois emergindo do chão de lama, seus rostos com um adoentado
branco acinzentado, seus dedos esqueléticos sedentos em sua direção, apertando o ar enquanto
se arrastavam na direção dela.
Droga! Igual em Raccoon, o vírus da Umbrella tinha transformado eles em zumbis, roubando sua
humanidade e suas vidas.
Ela não tinha tempo para descrença e medo, não com três deles se aproximando, não quando
percebeu que havia outros ao longo do caminho. Eles surgiram das sombras, faces brutalizadas
voltando-se lentamente para ela, bocas abrindo, seus olhares vazios e sem movimento. Alguns
vestiam farrapos de uniformes, camuflados ou cinza chapado, guardas e prisioneiros. Afinal, houve
um vazamento.
"Uhhhh...".
"Ohhh...".
As transições de choro traziam lembranças, cada gemido como o de um homem faminto num
banquete. Amaldiçoada seja a Umbrella pelo que fez! Era mais que trágico, a transformação de
humano para criaturas apodrecidas sem mente, morrendo enquanto andavam. O fim inevitável de
cada contaminado era a morte, mas ela não podia ficar de luto por eles, não agora, sua pena
limitada pela necessidade de sobrevivência.
Vai vai vai AGORA!
Sua avaliação e decisão tomaram menos de um segundo e já estava se movendo, nenhum plano
exceto o de fugir. Com o caminho bloqueado em ambas as direções, ela saltou para o centro do
pátio, escalando as pedras de mármore que marcavam o local de descanso dos verdadeiros
mortos. Sua calça suja de lama grudando em suas pernas, atrasando-a, suas botas escorregando
nas lisas lápides, mas ela conseguiu subir em duas delas e se equilibrar, a salvo por enquanto.
Por um segundo! Você tem que sair daí, rápido. A faca não ajudaria, ela não ousaria chegar perto o
bastante para usá-la - uma única saborosa mordida a faria se juntar à turma deles, caso não a
comessem antes.
O de rosto escurecido estava mais perto, seu cabelo derretido, parte de sua camisa ainda
queimando. Ele estava perto o bastante para ela sentir o oleoso e nauseante cheiro de carne
queimada, coberto pelo odor de combustível que o tinha cozinhado. Ela tinha dez, quinze segundos
no máximo antes que ele chegasse perto o bastante para agarrá-la.
Ela olhou para o canto sudeste do pátio, seus braços abertos para manter o equilíbrio. Só havia
dois deles entre ela e a saída, mas era demais, ela nunca conseguiria passar por entre os dois. Ela
aprendeu com Raccoon que eles eram lentos, e que suas habilidades de raciocínio eram nulas -
eles viam uma presa e iam atrás dela em linha reta, independente do que estava no caminho. Se
ela ao menos pudesse afastá-los do portão -
Boa idéia, só que havia muitos deles no chão, seis ou sete, ela terminaria cercada -
- mas não se você subir nas lápides
Havia vários zumbis de cada lado da linha central de túmulos, mas apenas um de pé no fim da
linha, diretamente na frente dela... e esse mau se agüentava de pé, um olho pendurado, um braço
quebrado e solto.
Era um plano arriscado, um tropeço e estaria frita, mas o homem queimado já estava alcançando
seu tornozelo com suas mãos carbonizadas e trêmulas, chuva gotejando em sua face voltada para
cima.
Claire saltou, braços remando assim que pousou com ambos os pés na estreita superfície da pedra
ao lado. Ela começou a cair para frente, balançando e girando o corpo para manter seu centro de
gravidade, mas não estava funcionando, ela iria cair -
- e sem pensar, ela rapidamente pulou de novo, e de novo, usando as desordenadas lápides como
pedras num rio, usando sua falta de equilíbrio como fonte de impulso. Um infectado de cara
desintegrada esfregou suas canelas, gemendo de fome, mas ela já tinha passado por ele, saltando
para a próxima. Ela não tinha tempo para considerar como ia parar - e era necessário - porque as
pedras acabavam com o próximo salto, e seu próximo movimento foi um salto, caindo e rolando no
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chão de lama um metro abaixo.
Oof, uma queda difícil, mas ela continuou e ficou de pé, ou quase, suas pernas escorregando no
barro. O zumbi de um olho avançou sobre ela, gargarejando, bem perto - mas ela rapidamente o
contornou, ficando em seu lado cego, de faca preparada. A criatura girou de novo para procurar
sua refeição, mas ela ficou facilmente fora de seu campo de visão.
Ela arriscou desviar o olhar de sua desajeitada dança com o zumbi e viu os outros se aproximando.
A chuva ficou mais intensa, lavando a lama de seu corpo.
Está funcionando, só mais alguns segundos -
Frustrado com sua falta de sucesso, o zumbi parcialmente cego varreu o ar com seu braço bom.
Suas unhas sujas rasparam no peito dela e o zumbi gemeu ansiosamente, mas não conseguiu
agarrar nada.
Deus, ele está encostando em mim -
Com um choro sem palavras de medo e nojo, Claire retalhou com a faca, profundamente, cortes
quase sem sangue em seu pulso. O zumbi continuou agarrando ela, indiferente com os danos que
ela estava fazendo, e Claire decidiu que era hora de partir.
Ela jogou os braços para trás, fechou as mãos e as jogou no peito da criatura, empurrando o mais
forte que podia. Ela virou de novo para a linha central de lápides enquanto a criatura caia para trás,
os outros muito perto agora.
Como ela conseguiu subir tão rápido ela não sabia; um segundo ela estava no chão, no outro ela
estava no topo angulado de uma lápide de granito. Ela viu que a saída estava livre, os zumbis
agora agrupados na parede oeste.
Sua segunda jornada por cima das pedras foi um pouco mais controlada do que a primeira, cada
salto bem pensado, ela não iria escorregar e se machucar seriamente. A chuva estava afinando e
ela conseguiu ouvir os enlameados passos de seus lentos perseguidores; a não ser que algum
deles se lembre como correr, estavam muito longe para alcançá-la.
Agora eu só devo rezar para que a porta não esteja trancada, ela pensou enjoada, pulando da
última lápide. O portão estava aberto, mas a porta depois dele não; se estiver trancada, estaria
condenada.
Três gigantes passos de onde aterrissou e cruzou o portão, tocando a maçaneta da porta de metal
da parede de pedras. Ela abriu sem problemas e preparou a faca, esperando que se houvessem
infectados do outro lado, talvez as chances seriam melhores. Atrás dela, os canibais lamentaram a
perda, gemendo alto assim que sumiu.
Era algum tipo de pátio, com pilhas de destroços espalhados, vigiados por uma baixa torre de
segurança. Havia um caminhão tombado à esquerda, um pequeno foco de incêndio lá dentro. A
noite estava caindo rapidamente, mas a lua também estava subindo, cheia ou quase, e assim que
fechou a porta, pôde ver que não havia perigo imediato - nenhum zumbi apareceu. Haviam vários
corpos espalhados, nenhum se mexendo, e ela cruzou os dedos mentalmente para que algum
deles tivesse uma arma e munição -
Uma brilhante luz acendeu de repente, um holofote na torre de vigilância, a potência dela
cegando-a instantaneamente -
- e ela desviou o olhar instintivamente, o ensurdecedor clicar de uma metralhadora começou a
soar, balas mergulhando na lama aos seus pés. Cega e apavorada, Claire procurou cobertura, o
pensamento de que estaria melhor trancada na cela passando em sua mente.
A batalha cessou por um tempo, os últimos tiros há talvez uma hora, mas Steve Burnside pensou
em ficar mais um pouco onde estava, só por precaução. Além disso, ainda chovia um pouco, um
amargo vento oceânico passando. A torre de vigilância era segura e seca, nenhum cadáver e
nenhum zumbi, era capaz de ver qualquer um e teria muito tempo para reagir... com uma pequena
ajuda da metralhadora montada na janela, claro, uma baita arma. Ele derrubou todos os zumbis do
pátio sem uma gota de suor. Ele tinha um revólver também, uma 9mm semi-automática que tinha
pego de um guarda, que também era uma baita arma, mas nem tanto.
Fique aqui mais uma hora, caso não comesse a chover de novo, e ache uma saída dessa ilha.
Ele pensou em pegar um avião, ele já viu seu... já esteve numa cabine algumas vezes, mas achou
que um barco seria melhor - não cairia se quebrasse o casco.
Steve encostou casualmente na janela de cimento, olhando para o pátio iluminado pela lua,
imaginando se deveria procurar uma cozinha antes de dar o fora. Os guardas não passaram
servindo almoço, eles estavam morrendo, e não pareciam estocar doces na torre, ele já tinha
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procurado. Steve estava faminto.
Talvez eu devesse ir para a Europa, pedir um prato internacional, eu posso ir para onde eu quiser
agora, qualquer lugar mesmo. Não há nada me impedindo.
O pensamento devia tê-lo deixado empolgado, mas não, só o fez sentir-se ansioso e meio
estranho, e voltou a pensar em sua fuga. O portão principal da prisão estava trancado, e pensou
que se procurasse nos guardas acharia uma das chaves emblema. Ele tinha achado o carcereiro,
Paul Steiner, mas suas chaves tinham sumido.
Tal como seu rosto, Steve pensou, não tão triste com isso. Steiner foi um completo idiota,
desfilando por aí como se fosse o Rei Bosta da montanha do Cocô, sempre sorrindo quando outro
prisioneiro era levado para a enfermaria. E ninguém jamais voltava de lá -
- a porta...
Steve congelou, olhando para a porta de metal na frente da torre. O cemitério ficava do outro lado,
e sabia que estava cheio de zumbis, ele verificou logo depois de ter baleado os zumbis do pátio.
Jesus, eles sabem abrir portas? Eles eram vegetais vivos com cérebro derretido, eles não deviam
abrir portas, e se podiam fazer isso, do que mais seriam capazes -
- não entre em pânico. Você tem uma metralhadora, lembra?
Todos os outros prisioneiros estavam mortos. Se for uma pessoa, ele ou ela não seria seu amigo...
e se não for humano, ele o tiraria de sua miséria. De qualquer modo, ele não hesitaria, e não ficaria
com medo. Medo era coisa de maricas.
Steve segurou o holofote com sua mão direita, sua esquerda já no gatilho da metralhadora. Assim
que a porta abriu, ele engoliu seco e ligou a luz, atirando assim que o alvo ficou evidente.
A arma cuspiu um feixe de balas, o punho chacoalhando sua mão, balas levantando pequenos
espirros de lama. Ele reparou em algo vermelho, uma camisa talvez, e então seu alvo estava
mergulhando para fora da linha de fogo, movendo-se rápido demais para ser um dos canibais. Ele
ouviu algo sobre monstros que a Umbrella tinha criado, e com ou sem metralhadora, ele rezou para
Deus que não encontrasse um deles.
Eu não estou com medo, não estou - Ele andou com ao holofote para a direita e continuou
atirando, um repentino suor de ansiedade em sua sobrancelha. A pessoa ou a coisa estava atrás
da parede perto da base da torre, fora de visão, mas se não conseguir matar a coisa, ao menos
podia espantá-la. Lascas de cimento voavam sob o feixe de alta-intensidade iluminando as pernas
de um guarda da prisão, lama, e destroços, mas sem acertar o alvo -
- e houve um movimento rápido como relâmpago atrás da parede, a visão de um pálido rosto
voltado para cima -
BAM! BAM! BAM!
- e o holofote estilhaçou, pedaços quentes de vidro espirrando no chão da sala. Steve gritou
involuntariamente enquanto se afastava da metralhadora, alguém estava atirando nele, e ele não
se importava se era coisa de maricas, ele estava quase sujando as calças.
"Não atire!". Ele gritou, sua voz falhando. "Eu desisto!".
Houve um silêncio mortal por alguns segundos, e então uma voz feminina surgiu da escuridão,
baixa e de alguma forma espantada.
"Diga alguma coisa".
Steve piscou incerto, confuso - e lembrou de respirar de novo, sentindo suas bochechas ficarem
vermelhas enquanto o medo ia embora.
"Eu desisto" isso foi totalmente ruim. Nada bom para primeiras impressões.
"Eu estou descendo". Ele disse, aliviado por sua voz não ter falhado desta vez, decidindo que uma
pessoa fazendo uma piada depois de ter sido metralhada não devia ser tão má. Se ela for inimiga,
ele tinha a 9mm... mas amiga ou não, não havia chance de ele pedir para ela não atirar de novo,
isso o faria parecer pior.
E era uma garota... talvez bonitinha...
Ele fez o possível para ignorar esse pensamento, sem motivos para elevar suas esperanças. Por
via das dúvidas, ela tinha noventa anos, careca e fumava... mas mesmo não sendo assim, mesmo
sendo muito bonita, ele não aceitaria assumir a responsabilidade por uma vida que não seja a sua,
que se dane. Ele estava livre agora. Ter alguém contando com ele seria tão ruim quanto depender
dos alguém...
O pensamento era desconfortável, e ele o deixou de lado. De qualquer modo, a situação não era
exatamente romântica, com monstros correndo por aí e morte em cada canto. Morte nojenta, do
tipo com larvas e pus.
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Steve desceu para o pátio, seus olhos ajustando-se ao pós-holofote para encontrá-la. Ela estava
de pé no meio do pátio, armada... e quando ele se aproximou, fez de tudo para não encará-la.
Ela estava suja de lama e molhada, e era a moça mais bonita que já tinha visto, seu rosto como o
de uma modelo, olhos grandes e bonitas e serenas expressões. Cabelo avermelhado e rabo de
cabalo pingando. Três ou quatro centímetros mais baixa do que ele e talvez a mesma idade - ele
faria dezoito em alguns meses e ela não devia ser mais velha. Ela vestia jeans, botas e um colete
vermelho sem mangas por cima de uma apertada meia-camiseta preta, sua reta barriga de fora, o
conjunto inteiro acentuando seu corpo atlético... e apesar de parecer cansada e desconfiada, seus
olhos azuis acinzentados brilhavam forte.
Diga algo legal, seja maneiro...
Steve queria pedir desculpas por ter atirado nela, dizer quem ele era e o que tinha acontecido
durante o ataque, dizer algo delicado e interessante -
"Você não é um zumbi". Ele disse, xingando a si mesmo enquanto dizia. Brilhante.
"Não brinca". Ela disse pacificamente, e percebeu de repente que a arma dela estava apontada
para ele, ela a mantinha baixa, mas estava definitivamente mirando. Até quando ele parou, ela
recuou um passo e levantou a arma, observando ele atentamente, seu dedo no gatilho, o cano a
centímetros de seu rosto. "E quem diabos é você?".
O garoto sorriu. Se ele estava nervoso, estava fazendo um ótimo trabalho para esconder. Claire
não tirou de dedo do gatilho, mas já estava quase convencida de que ele não era uma ameaça. Ela
tinha apagado a luz, mas ele poderia ter descido no pátio e a eliminado facilmente.
"Relaxa, gatinha,". Ele disse, ainda sorrindo. "Meu nome é Steve Burnside, eu sou - eu era um
prisioneiro aqui".
"Gatinha?" Que ótimo. Nada a incomodava mais do que uma cantada. Por outro lado, ele
certamente era mais jovem do que ela, o que significava que ele estava provavelmente tentando
acentuar seu machismo, tentar ser mais homem do que garoto. Com sua experiência, havia poucas
coisas mais detestáveis do que alguém tentando ser algo que não era.
Ele a olhou de cima para baixo, obviamente a analisando, e ela recuou outro passo, a arma
estável; ela não arriscaria. A arma era uma M93R, uma 9mm italiana, um excelente revólver e
aparentemente arma padrão para os guardas da prisão; Chris tinha uma delas. Ela a tinha achado
depois de mergulhar no chão para se proteger, perto do cara morto de uniforme... e se ela atirar no
jovem Sr. Burnside a essa distância, a maior parte de seu rosto bonito iria para o chão. Ele se
parecia com um ator conhecido, o protagonista daquele filme sobre o navio que afunda; a
semelhança era impressionante.
"E eu acho que você não é da Umbrella também". Ele disse casualmente. "A propósito, me
desculpe por atirar em você daquele jeito. Eu não achei que havia mais alguém vivo por aqui, e
quando a porta abriu...". Ele deu com os ombros.
"Mesmo assim". Ele disse, levantando uma sobrancelha, obviamente tentando fazer chame. "Qual
é o seu nome?".
A Umbrella certamente não contratou esse garoto, ela tinha mais certeza disso a cada palavra que
saia da boca dele. Ela abaixou a semi-automática vagarosamente, imaginando porque a Umbrella
aprisionaria alguém tão jovem.
Eles quiseram te prender, lembra? E ela só tinha dezenove anos.
"Claire. Claire Redfield,". Ela disse. "eu fui trazida aqui como prisioneira ainda hoje".
"Falando em tempo". Steve disse, e ela teve que sorrir com aquilo; ela esteve pensando na mesma
coisa.
"Claire, esse é um belo nome,". Ele continuou, olhando nos olhos dela. "Eu não me esquecerei
dele".
Ai, Deus. Ela pensou se calava a boca dele agora ou depois - ela e Leon estavam bem chegados.
- e decidiu que o calaria depois. Não havia dúvidas de que iria com ele para achar uma saída, e
não queria ter que agüentar as cantadas dele ao longo do caminho.
"Bom, por mais que eu quisesse passear por aí, eu tenho que pegar um avião,". Ele disse,
suspirando melodramaticamente. "caso eu encontre um. Eu procuro você antes de decolar. Tome
cuidado, esse lugar é perigoso".
Ele foi para a porta ao lado da torre, no lado oposto da porta que ela tinha usado. "Te vejo depois".
Ela estava surpresa e quase não achou sua voz a tempo. Ele era maluco, ou apenas burro? Ele já
estava na porta antes dela falar, correndo atrás dele.
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"Steve, espere! Nós devemos ficar juntos -".
Ele virou e balançou a cabeça, suas expressões incrivelmente condescendentes. "Eu não quero
que você me siga, tá? Sem ofensas, mas você só vai me atrasar".
Ele sorriu triunfantemente, empenhando-se no contato visual o melhor podia. "E você
definitivamente será uma distração. Olha, apenas fique de olhos e ouvidos bem abertos, você
ficará bem".
Ele cruzou a porta e sumiu antes que pudesse falar algo. Chocada e incomodada, ela observou a
porta fechar, imaginando como ele tinha sobrevivido até agora. Sua atitude sugeria que ele
considerava tudo isso como um grande jogo de video game, onde jamais poderia se machucar ou
morrer. Parecia que machismo valia alguma coisa... a única coisa que garotos renegados tinham
de sobra.
Isso e testosterona.
Se sua principal preocupação era aparentar ser um cara maneiro, ele não conseguiria ir muito
longe. Ela tinha que ir atrás dele, ela não podia deixá-lo morrer -
Arroooooooo...
O terrível, feroz e solitário som que apareceu de repente na calma noite, era igual a um que já tinha
ouvido antes, em Raccoon City, e vinha de trás da porta que Steve tinha usado. Era inconfundível.
Um cachorro infectado pelo T-virus, de animal doméstico a assassino brutal.
Depois de uma rápida busca nos guardas mortos, ela achou mais dois clipes cheios e um pela
metade. Despreparada como não deveria estar, Claire respirou fundo algumas vezes e empurrou a
porta vagarosamente com o cano da 9mm, esperando que Steve Burnside tenha sorte até ela o
achar... e que ao achá-lo, sua própria sorte não mude para pior.
[3]
Por mais terrível e dolorosa que seja a destruição em Rockfort, Alfred não podia negar que gostou
de derrubar alguns de seus empregados a caminho da sala de controle principal do complexo. Ele
não fazia idéia do quanto gratificante seria vê-los doentes e morrendo, pulando em cima dele com
fome os mesmos homens que zombavam dele pelas costas, que o chamavam de anormal, que
fingiram amizade com os dedos cruzados e agora mortos pelas suas mãos. Haviam escutas e
câmeras escondidas espalhadas no complexo, instalados por seu próprio paranóico pai, um
monitor escondido em suas casa; Alfred sempre soube que não gostavam dele, que os
empregados da Umbrella o temiam, mas não o respeitavam como merecia.
E agora...
Agora não importava, ele pensou, sorrindo, saindo do elevador para ver John Barton no final do
corredor, indo na direção dele com os braços estendidos. Barton era o responsável por treinar a
milícia de armas leves da Umbrella, ao menos em Rockfort, e era um bárbaro vulgar
fanfarronando por aí com seu cigarro barato, tensionando seus músculos ridiculosamente
inchados, sempre suando, sempre sorrindo. A pálida e ensangüentada criatura tropeçando em sua
direção não tinha mais a mesma aparência, mas era o mesmo homem.
"Você não está sorrindo mais, Sr. Barton". Alfred disse baixo, levantando seu rifle calibre .22,
usando a mira para colocar um pequeno ponto vermelho sobre o olho esquerdo injetado de sangue
do treinador. O babante Barton não percebeu
Bam!
certamente teria apreciado a excelente mira e escolha de munição de Alfred. A .22 estava
carregada com balas de segurança, balas projetadas para se expandirem com o impacto
designadas "seguras" por não atravessarem o alvo e ferir alguém. O tiro de Alfred estilhaçou o olho
de Barton e certamente uma boa parte de seu cérebro, resultando em uma inofensiva morte. O
grande homem caiu no chão, uma poça de sangue se espalhando em volta dele.
Algumas das BOWs não o atacaram, e estava aliviado por muitas delas estarem trancadas ou
mortas devido ao ataque ele certamente não andaria por aí caso houvessem algumas delas
soltas mas não achava os zumbis tão assustadores. Alfred tinha visto muitos homens e
mulheres também virarem zumbis com o emprego do T-virus, experimentos que presenciou em
13
sua infância e que ele mesmo conduziu como adulto. Nunca houve mais do que cinqüenta ou
sessenta prisioneiros vivendo em Rockfort ao mesmo tempo; entre o Dr. Stoker, o anatomista e
cientista que trabalhava na "enfermaria", e a constante necessidade de alvos para treinamento e
peças de reposição, nenhum prisioneiro do complexo apreciava a hospitalidade da Umbrella por
mais de seis meses.
E onde estaremos daqui a seis meses, fico imaginando.
Alfred passou por cima do corpo de Barton, indo para a sala de controle para falar com seus
contatos no quartel general da Umbrella. Será que a Umbrella escolherá reconstruir Rockfort?
Alfred concordaria? Alexia e ele estiveram perfeitamente a salvo do vírus durante seu período
"quente", ambas as passagens de sua casa para o resto do complexo bloqueadas pelo ataque,
mas sabendo que o inimigo da Umbrella podia usar medidas extremas, será que Alfred aceitaria
reconstruir o laboratório tão perto de sua casa? Os Ashford não temiam nada, mas também não
eram inconseqüentes.
Alexia nunca concordaria em fechar o complexo, não agora, não estando tão perto de seu
objetivo...
Alfred parou onde estava, olhando para os rádios e equipamentos de vídeo, para o monitor em
branco do computador que o olhava com olhos mortos. Ele olhava, mas não via, um estranho vazio
crescendo dentro dele, o confundindo. Onde estava Alexia? Qual objetivo?
Ela se foi.
Era verdade, ele podia sentir em seus ossos mas como ela podia deixá-lo, como podia sabendo
que ela era seu coração, que ele morreria sem ela?
A monstruosidade, gritando e cega, um fracasso e estava frio, tão frio, a formiga rainha nua,
suspensa no mar e ele não podia tocá-la, só podia sentir o forte vidro sob seus carentes dedos.
Alfred respirou, o pesadelo imaginário tão real, tão horrível que não sabia onde estava, o que fazia.
Distantemente, ele sentiu suas mãos apertando algo, os músculos de seu braço tremendo
e houve um estouro de estática no console à sua frente, alto e quebradiço, e Alfred percebeu que
alguém estava falando.
"... por favor, se alguém puder me ouvir aqui é o Doutor Mario Tica, no laboratório do segundo
pavimento,". A voz disse, falhando de medo. "Eu estou trancado, e todos os tanques quebraram,
eles estão acordando por favor, você tem que me ajudar, eu não estou infectado, eu estou de
roupa, juro por Deus, você tem que me tirar daqui ".
Dr. Tica, trancado na sala dos tanques do embrião. Tica, que tem constantemente enviando
relatórios particulares para a Umbrella sobre o progresso do projeto Albinóide, relatórios secretos
diferentes dos que mandava para Alfred. Alexia tinha sugerido mandá-lo para o Dr. Stoker há
alguns meses... ela não ficaria feliz em ouvi-lo agora?
Alfred esticou o braço e desligou o apelo de Tica, sentindo-se muito melhor. Alexia o tinha alertado
sobre esses sentimentos, os flashes de intensa solidão e confusão estresse, ela insistiu, dizendo
que ele não devia levá-los a sério, que ela nunca o abandonaria voluntariamente, ela o amava
muito para fazer isso.
Pensando nela, pensando em todos os problemas e sofrimento que as defesas incompetentes da
Umbrella tinham trazido, Alfred decidiu abruptamente que não faria a ligação. O quartel general
certamente já ouviu falar do ataque, e estaria enviando uma equipe em breve; realmente, não havia
necessidade de falar com eles... além disso, eles não mereciam ouvir suas observações da
situação, não mereciam saber com antecedência dos perigos que encontrariam. Ele não era um
empregado, não era um criado que precisava reportar aos seus superiores. Os Ashford tinham
criado a Umbrella; eles é que deviam estar reportando para ele.
E eu falei com Jackson há apenas uma semana, sobre a Redfield
Alfred sentiu seus olhos arregalarem, sua mente trabalhando insanamente. Claire Redfield, irmã de
Chris Redfield, ele, o intrometido do S.T.A.R.S., tinha chegado algumas horas antes do ataque. Ela
foi pega em Paris, dentro do prédio administrativo do quartel general da Umbrella, alegando estar à
procura de seu irmão e eles a enviaram para Alfred, para mantê-la presa enquanto decidiam o
que fazer com ela.
Mas... e se o plano foi para atrair o irmão dela, para acabar com sua rebeldia de uma vez por
todas, um plano que eles convenientemente esqueceram de contá-lo? E se ela foi seguida até
Rockfort por Redfield e seus amigos, sua presença como um sinal para atacar...
.. ou ela se deixou capturar de propósito?
Era como seu um quebra-cabeça estivesse sendo resolvido. Claro, claro que ela deixou. Garota
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esperta, ela fez sua parte muito bem. Se a Umbrella causou o ataque sabendo ou não, não
importava mais, não agora, ele lidaria com eles depois; o que importava era que a Redfield ainda
podia estar viva, roubando informações, espionando, talvez até, até planejando machucar sua
Alexia
"Não". Ele suspirou, o medo imediatamente se transformando em fúria. Certamente esse foi o
plano desde o começo, causar o máximo de estrago possível na Umbrella e Alexia era
indubitavelmente a mente mais brilhante trabalhando na pesquisa com armas biológicas, talvez a
mais brilhante em todas as áreas.
Claire não faria isso. Ele a acharia... ou melhor, esperaria ela chegar até ele como certamente faria.
Ele podia observá-la, esperar como um caçador, ela como sua presa.
E por que matá-la de imediato, se você pode se divertir com ela antes? Era a voz de Alexia em
seus pensamentos, lembrando de suas brincadeiras na infância, o prazer que dividiam em seus
próprios experimentos, criando ambientes de dor, observando coisas sofrendo e morrendo. Isso
tinha forjado seus laços com aço, compartilhando coisas tão íntimas...
.. eu posso mantê-la viva, deixar Alexia brincar com ela, eu podia inventar um labirinto para ela,
ver como ela lidaria com alguns de nossos bichinhos... havia muitas possibilidades. Com poucas
exceções, Alfred podia destrancar a maioria das portas da ilha por computador; ele podia
conduzi-la facilmente para onde quiser, e matá-la com sua sensatez.
Claire Redfield o tinha subestimado, todos tinham, até agora... e se as coisas correrem do jeito que
Alfred desejava, o dia terminaria mais feliz do que a triste discórdia que marcou seu início.
Se haviam cães infectados ali, estavam se escondendo. O pátio aberto que Claire entrou estava
forrado de corpos, sua carne acinzentada sob a pálida luz da lua com exceção dos incontáveis
espirros de sangue; nenhum cachorro, nada se movendo além das nuvens no céu. Claire parou por
um momento, observando as sombras, analisando o ambiente antes de se afastar da porta.
"Steve". Ela suspirou asperamente, com medo de gritar, com medo do que possa estar a espreita.
Infelizmente, Steve Burnside sumiu tal como o rosnado do cachorro; parece que ele disparou
correndo.
Por que? Por que ele escolheria ficar sozinho? Talvez ela esteja errada, mas aquele papo de
atrasar Steve não parecia sério. Quando ela desembarcou em Raccoon, encontrar com Leon fez
toda a diferença; eles não ficaram juntos o tempo todo, mas só de saber que havia mais alguém
por aí tão assustado como ela... ao invés de se sentir indefesa e isolada, ela foi capaz de formar
um plano claramente, objetivos mais do que apenas sobrevivência achar transporte para fora da
cidade, procurar Chris, cuidar de Sherry Birkin.
E simplesmente pela segurança, ter alguém para vigiar sua retaguarda é muito melhor do que ir
sozinho, sem dúvida.
Seja qual fosse o motivo dele, ela tentaria convencê-lo, caso o ache. Esse pátio era maior do que
o outro, uma longa cabana térrea à sua direita, uma parede sem portas à esquerda, talvez a parte
de trás de um prédio maior. Havia um foco de incêndio baixo em uma das janelas quebradas da
parede, e havia vários destroços entre os corpos, evidências de um forte ataque. Diretamente à
sua direita havia um portão trancado e depois dele um caminho de terra e uma porta fechada... ou
Steve entrou na cabana ou deu a volta em torno dela, seguindo o caminho até o fim e virando à
direita.
Ela decidiu tentar a cabana primeiro... e enquanto subia os poucos degraus da varanda ao longo
da cabana, ela pensou em quem teria atacado Rockfort, e porque. Rodrigo disse algo sobre uma
equipe de forças especiais, e se fosse verdade, quem ordenou o ataque? Parecia que a Umbrella
tinha seus inimigos, o que era uma boa notícia mas o ataque à ilha não era. Prisioneiros
morreram junto com seus empregados, e o T-virus talvez o G-virus, também, e só Deus sabe
quantos outros sem diferenças entre os culpados e os inocentes.
Ela subiu na sacada, e segurando a 9mm, ela gentilmente empurrou a porta, seu percurso definido
por dois contaminados que viu lá dentro, ambos cambaleando em volta da mesa. Um segundo
depois, houve uma pancada na porta, um baixo e triste gemido saindo.
Então o caminho é... ela duvidava que o convencido do Steve teria deixado alguém de pé se
tivesse entrado na cabana, e ela teria ouvido os tiros
a não ser que o pegaram primeiro.
Claire não gostou da idéia, mas a dura realidade era que ela não poderia gastar munição para
descobrir. Ela contornaria a cabana para ver onde dava... e se não conseguir achá-lo, ela o
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deixaria por conta própria. Ela queria fazer a coisa certa, mas também estava muito certa de que
queria salvar seu traseiro; ela tinha que voltar para Paris, para Chris e os outros, coisa que
certamente não conseguiria fazer se gastasse toda sua munição e acabasse virando o almoço de
alguém.
Ela voltou pela varanda, todos os seus sentidos alertas enquanto se aproximava da quina da
cabana. Ela não tinha se esquecido dos cães zumbi, e procurou o som de patas sob a lama, e pelo
pesado arfar que lembrava através de sua experiência em Raccoon. A úmida e fria noite estava
quieta, uma brisa correndo levemente pelo pátio, ouvindo apenas sua respiração.
Uma rápida olhada na esquina e nada, só a metade de um homem para fora de um buraco do
porão, uns cinco metros adiante. Outros dez depois dele e o caminho virava à direita de novo, para
o alívio de Claire ela tinha visto o fim daquele caminho através do portão e estava vazio.
Então ele deve ter passado por aquela porta, a da parede oeste... também era um alívio saber de
algo, ter certeza de algo em se tratando da Umbrella. Ela começou a andar, pensando sobre o que
convenceria o jovem machão a ficar com ela. Talvez se o contasse sobre Raccoon, se explicasse
que ela tinha prática com desastres da Umbrella...
Claire estava para pular o corpo do homem quando ele se mexeu.
Ela pulou para trás, sua semi apontada para a cabeça ensangüentada do homem, seu coração
martelando e ela percebeu que ele estava morto, que alguém ou algo o estava puxando pelas
pernas para dentro do buraco, fortes e ritmados puxões
como um cachorro recuando com algo pesado na boca.
Ela não pensou em nada depois disso, instintivamente saltando sobre o corpo e correndo, ciente
de que o cão se é o que era não se preocuparia para sempre. Perceber que esteve a menos de
um metro dele aumentou sua velocidade ao fazer a curva, suas botas socando a molhada e dura
terra, seus braços remando. Zumbis eram lentos, desengonçados; os cães eram violentos e
velozes. Mesmo armada, ela não tinha interesse em enfrentar um deles, uma única mordida e
também seria infectada.
Arrroooooo! O rosnado veio de longe, além do buraco de algum lugar na parte de trás do pátio.
Droga, quantos Não importava, ela já estava quase lá, sua salvação à frente e à esquerda. Sem
ousar olhar para trás, ela não diminuiu o passo até alcançar a porta, agarrar a maçaneta e
empurrar. Ela abriu facilmente, e não vendo nada com dentes diretamente à frente, ela pulou e
bateu a porta
só para ouvir vários lamentos de zumbis, para sentir o cheiro de podridão dos contaminados
assim que algo bateu forte na porta atrás dela e começou a arranhar, rosnando como um monstro
feroz.
Quantos cães, quantos zumbis? O pensamento cruzou mente em pânico, a necessidade de poupar
munição profundamente gravada depois de Raccoon, e se eu estiver à beira de um beco sem
saída? Ela quase voltou apesar do risco, até ver onde os zumbis estavam.
A passagem em que entrou estava pesada com sombras, mas podia ver vários infectados
trancados num cercado à esquerda dela. Um deles estava batendo na porta gradeada, suas quase
esqueléticas mãos com fitas de tecido penduradas, indiferente com a dor de seu corpo
desintegrando.
Deve ser o canil...
Claire avançou alguns passos, olhando preocupada para a simples e frágil trava que mantinha a
porta fechada e viu os três zumbis livres enquanto o primeiro ia para cima dela, sua boca
pingando com saliva e outro líquido escuro, seus dedos sem carne esticando-se para tocá-la. Ela
ficou tão distraída com os enjaulados que não percebeu haver mais deles.
Ela reflexivamente derrubou seu peso e chutou o peito da criatura, um sólido e efetivo chute lateral
que o derrubou. Ela pode sentir sua bota afundar na carne deteriorada, mas não tinha tempo para
sentir nojo, já levantando a 9mm
e com um metálico crash, a porta do canil escancarou, e subitamente estava enfrentando sete ao
invés de três. Eles se amontoaram na direção dela, desviando desajeitadamente de um contêiner,
de alguns barris e de seus amigos caídos.
Bam! Ela atirou no mais próximo sem pensar, um limpo buraco em sua têmpora direita, entendendo
que estava ferrada enquanto ele caía no chão. Muitos e muito perto, ela nunca conseguiria
os barris! Um deles estava marcado como inflamável, o mesmo truque que usei em Paris
Claire mergulhou atrás do contêiner para se proteger, mudando a arma para sua mão esquerda
enquanto aterrissava. O alvo marcado em sua mente, ela atirou, somente seu braço para fora
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enquanto os zumbis confusos procuravam, gemendo de fome
Bam! Bam! B
KA-BLAM!
O contêiner bateu em seu ombro direito, derrubando-a de costas. Ela se curvou como uma bola,
seus ouvidos apitando enquanto entalhes de metal queimando choviam do alto, caindo em cima do
contêiner, alguns deles caindo em sua perna esquerda. Ela os afastou, mal acreditando que tinha
funcionado, que estava viva.
Ela sentou, agachando-se, olhando para o que tinha restado dos zumbis. Só um deles ainda
estava inteiro, apoiado no canil, suas roupas e cabelo pegando fogo; a parte de cima de outro
estava tentando se arrastar para ela, sua escura e borbulhante pele rasgando enquanto avançava.
Os outros estavam em pedaços, a terra em chamas clamando os restos patéticos como seu.
Claire rapidamente despachou os dois vivos, sua cabeça doendo um pouco com o fim triste que
eles tiveram. Desde Raccoon City, seus sonhos foram assombrados por zumbis, por criaturas
fedorentas que se alimentavam de carne viva. A Umbrella não teve intenção de criar esses
monstros, como se fossem cadáveres vivos vindos diretamente dos filmes, e era matar ou morrer,
não havia escolha.
Exceto por terem sido pessoas há pouco tempo. Pessoas com famílias e vidas, que não mereciam
morrer de tal modo, não importava que males tinham cometido. Ela olhou para os pobres corpos
queimados, sentindo-se quase enjoada de dó e um baixo, mas insistente ódio pela Umbrella.
Claire balançou a cabeça e fez o possível para esquecer, ciente de que carregar essa dor poderia
fazê-la hesitar em algum momento crucial. Como um soldado na guerra, ela não podia humanizar
o inimigo... apesar de não saber ao certo quem o inimigo era, e desejou fervorosamente que os
líderes da Umbrella queimassem no inferno pelo que tinham feito.
Sem querer ser surpreendida novamente, ela cuidadosamente verificou as sombras antes de dar o
próximo passo. No fundo do canil estava uma guilhotina de verdade, manchada com o que parecia
ser sangue de verdade. Olhar para o dispositivo a fez tremer, fazendo-a se lembrar do Chefe Irons
e de seu calabouço secreto; Irons era a prova viva de que a Umbrella não fazia testes psicológicos
antes de contratar seus empregados. Atrás do nojento aparelho de execução estava uma porta,
mas Steve obviamente não tinha passado por ela, não com os zumbis trancados. Ao lado do canil
havia uma porta metálica de enrolar, trancada... e ao lado dela, a única porta que ele poderia ter
usado, pois a passagem não continuava a partir dali.
Claire andou para a porta, sentindo-se cansada e velha de repente, suas emoções gastas. Ela
checou a 9mm e tocou na maçaneta, imaginando se jamais veria seu irmão. Às vezes, apoiar-se
na esperança tornava tudo mais difícil, tornava tudo mais pesado porque não conseguia deixá-la
de lado, nem por um momento.
***
Steve pulou quando ouviu a explosão lá fora, olhando em volta no pequeno escritório como se
esperasse as paredes caírem. Depois de algumas batidas de coração, ele relaxou. Desde o
ataque, os focos de incêndio no presídio ocasionalmente atingiam algo combustível, um cilindro de
oxigênio ou querosene, e bum, outra explosão.
Na verdade foi esse tipo de explosão que o manteve vivo ele tinha sido nocauteado por um
pedaço de parede quando um barril de óleo explodiu, os destroços cobrindo ele completamente,
escondendo ele. Quando ele finalmente acordou, o espetáculo de zumbis tinha acabado, todos os
guardas e prisioneiros mortos...
Péssima lembrança. Ele voltou sua atenção para a tela do computador, para o diretório de arquivos
que encontrou ao acaso enquanto procurava por um mapa da ilha. Algum tonto escreveu a senha
em uma nota e colocou no disco rígido, dando fácil acesso a algumas coisas obviamente secretas.
Pena que a maioria das coisas era besteira orçamento do presídio, nomes e datas que não
reconhecia, informações sobre algum tipo de liga metálica antidetecção... essa até que era
interessante, considerando o fato de ter precisado passar por dois detectores de metal para chegar
ao escritório, nada que três ou quatro balas bem colocadas não dessem conta do recado. Isso
também foi bom; ele achou uma das peças-chave do portão principal numa gaveta, o que
definitivamente teria acionado o detector.
Tudo o que eu preciso é de um maldito mapa até o barco ou avião mais próximo e fim de papo. Ele
também buscaria a garota depois de abrir caminho, bancar o cavaleiro de armadura brilhante... e
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ela certamente ficaria agradecida, talvez o bastante para querer
Um nome no diretório de arquivos chamou sua atenção. Steve franziu, olhando mais de perto.
Havia uma pasta intitulada Redfield, C... como em Claire Redfield? Ele a abriu, curioso, e ainda
estava lendo, completamente absorvido quando ouviu um barulho atrás dele.
Ele pegou sua arma da mesa e girou, brigando consigo mentalmente por não ter prestado mais
atenção e lá estava Claire, a arma dela apontada para o chão, um leve olhar irritado no rosto
dela.
"O que você está fazendo?". Ela perguntou casualmente, como se não tivesse assustado ele. "E
como você passou pelos zumbis lá fora?".
"Eu corri". Ele respondeu, incomodado com a pergunta. Ela achava que ele era indefeso ou o quê?
"E eu estou procurando por um mapa... ei, você tem algum parente chamado Christopher
Redfield?".
Claire franziu. "Chris é meu irmão. Por quê?".
Irmãos. Então está explicado. Steve foi até o computador, vagamente imaginando se toda a família
Redfield detonava. O irmão dela certamente detonava, ex-piloto da Força Aérea e membro do
S.T.A.R.S., atirador de elite e um baita espinho na pele da Umbrella. Steve jamais diria isso em voz
alta, mas estava bem impressionado.
"Você deve dizer para ele que a Umbrella o está vigiando". Ele disse, recuando para que ela
pudesse ver o que estava na tela. Aparentemente Chris estava em Paris, apesar da Umbrella não
ter localizado seu paradeiro. Steve ficou grato por ter achado um arquivo que significasse algo para
ela; um pouco de gratidão de uma garota bonita era sempre uma coisa boa.
Claire olhou a informação e apertou algumas teclas, olhando para ele com alívio. "Deus abençoe
os satélites particulares. Eu posso falar com Leon, é meu amigo, ele já deve estar com Chris
agora...".
Ela já tinha começado a digitar, dando explicações enquanto movia as mãos sobre o teclado. "Tem
um quadro de mensagens que sempre usamos... ali, viu? `Entre em contato assim que possível,
todos estão aqui.' Ele escreveu na noite em que fui pega".
Steve deu com os ombros, sem interesse na vida dos amigos de Claire. "Volte um arquivo, a
latitude e longitude dessa pedra estão lá". Ele disse, sorrindo um pouco. "Porque você não dá as
direções para o seu irmão, deixe-o vir pra salvar o dia?".
Ele esperou outro olhar irritado, mas Claire apenas acenou, suas expressões mortalmente sérias.
"Boa idéia. Eu vou dizer que houve um vazamento nessas coordenadas. Eles saberão o que quero
dizer".
Ela era bonita, mas bem ingênua. "Foi uma piada". Ele disse, balançando a cabeça. Eles estavam
no meio do nada.
Ela estava olhando para ele. "Muito engraçado. Eu vou contar pro Chris quando ele aparecer".
Sem aviso, uma ardente raiva cresceu dentro dele, um tornado de irritação e desespero e um
monte de coisas que mal podia entender. Mas o que ele sabia era que a Senhorita Claire estava
errada, ela era burra, orgulhosa e equivocada.
"Você está brincando? Você acha que ele vai aparecer, do jeito que as coisas estão aqui? E olhe
para as coordenadas!". As palavras saíram mais quentes, rápidas e mais altas do que queria, mas
não se importou. "Não seja tão idiota acredite em mim, você não pode depender de pessoas
como elas, você só vai se machucar no final, e não terá ninguém para culpar a não ser você".
Agora ela estava olhando para ele como se tivesse perdido a cabeça, e sentiu uma esmagadora
onda de vergonha, como se tivesse pirado sem motivo algum. Ele podia sentir lágrimas ameaçando
cair, contribuindo para sua humilhação, e não iria chorar na frente dela como um bebê, de jeito
nenhum. Antes que ela dissesse algo, ele virou e correu, ficando vermelho.
"Steve, espere!".
Ele bateu a porta do escritório e continuou andando, querendo apenas sair dali, que se dane o
mapa, eu tenho a chave, eu me viro, vou matar qualquer coisa que tentar me impedir
Depois dos detectores de metal e do longo corredor, de arma pronta, uma parte dele estava
amargamente desapontada enquanto passava pelo canil, quase tropeçando pela segunda vez em
molhadas e queimadas partes de corpos não havia nada para matar, ninguém para contestar,
para impedi-lo de pensar em seja lá o que estava pensando.
Ele cruzou a porta que dava atrás da cabana e começou a contorná-la, suando, seu coração
pulando, seu cabelo grudando na pele apesar do ar frio e ele estava tão concentrado em sua
própria loucura e na necessidade de correr, que não ouviria nem veria nada até que fosse tarde
18
demais.
Wham, algo acertou ele por trás, derrubando-o no chão. Steve imediatamente rolou de costas, um
súbito terror mortal bloqueando tudo mais e havia dois deles, dois dos cães de guarda, um deles
fazendo a volta depois do salto, o outro rosnando profundamente, suas pernas duras e cabeça
abaixada enquanto se aproximava devagar.
Jesus, olhe para eles
Eles eram rottweilers, eram; eles foram infectados, dava para perceber em seus olhos
avermelhados e em seus focinhos pingando, em seus músculos estranhos flexionando sob sua
melecada pele. E pela primeira vez desde o ataque, a imensidão da loucura da Umbrella seus
experimentos secretos e sua ridícula mentalidade capa e espada atingiram seu lar. Steve gostava
de cães, muito mais do que gostava de gente, e o que aconteceu com os dois pobres animais não
era justo.
Nada justo, hora errada e lugar errado, eu não merecia nada disso, eu não fiz nada errado
Ele nem estava ciente de que o objeto de sua piedade tinha mudado, que estava admitindo a
seriedade da situação, o quanto estava encrencado; ele não teve tempo para perceber. Passou
menos de um segundo desde que rolou no chão, e os cães estavam se preparando para atacar.
Tudo acabou e outro segundo, o tempo que levou para atirar uma vez, girar e atirar de novo.
Ambos os animais morreram instantaneamente, o primeiro na cabeça, o segundo no peito. O
segundo cachorro deu um único ip de dor ou medo ou surpresa antes de cair na lama, e o ódio de
Steve pela Umbrella se multiplicou exponencialmente com um som estrangulado, sua mente
repetindo de novo e de novo, o quanto injusto tudo era enquanto ficava de pé e começava a correr.
Ele tinha a chave do portão principal; ele não seria mais um prisioneiro.
Hora de um pequeno troco, ele pensou com raiva, de repente esperando, rezando para cruzar com
um deles, um dos desgraçados superiores idiotas que trabalhavam para a Umbrella. Talvez se ele
os ouvisse implorar pela morte, poderia se sentir melhor.
[4]
Chris Redfield e Barry Burton estavam recarregando as armas na sala dos fundos do esconderijo
em Paris, quietos e tensos, nenhum deles falando. Foram péssimos dez dias, sem saber o que
aconteceu com Claire, sem saber se a Umbrella a tinha viva...
.. pare, sua voz interna disse firmemente. Ela ainda está viva, tem que estar. Considerar a
alternativa era impensável.
Ele vem dizendo isso há dez dias, e já estava cansado. Foi ruim o bastante saber que ela esteve
em Raccoon City atrás dele. Leon Kennedy, o amigo policial dela, tinha escrito para eles sobre seu
primeiro encontro. Ela sobreviveu a Raccoon só para ser seqüestrada por Trent a caminho da
Europa, ela, Leon e os três renegados do S.T.A.R.S.; eles terminaram encarando outro grupo de
monstros da Umbrella, em um complexo em *Utah. Chris não sabia nada disso, achava que ela
estava a salvo estudando na universidade.
Ouvir que ela tinha se envolvido na luta contra a Umbrella era ruim mas saber que a Umbrella a
tinha capturado, que sua irmãzinha poderia estar morta... estava matando ele, consumindo-o por
dentro. Era tudo o que podia fazer para não invadir o quartel general da Umbrella com
metralhadoras exigindo respostas, mesmo sabendo que isso seria suicídio.
Barry enchia o cartucho enquanto Chris os pegava e embalava, o forte e familiar cheiro de pólvora
no ar. Ele estava aliviado por seu amigo de longa data parecer entender sua necessidade de
silêncio, o constante click-click do recarregador era o único som na sala.
Também era um alívio ter algo para fazer depois de uma semana parado e rezando, esperando
que Trent entrasse em contato trazendo notícias, ou oferecendo ajuda. Chris nunca conheceu
Trent, mas o estranho misterioso ajudou o S.T.A.R.S. algumas vezes no passado, trazendo
informações internas sobre a Umbrella. Apesar de suas motivações serem desconhecidas, seu
objetivo parecia claro o bastante destruir a divisão secreta de armas biológicas da companhia.
Infelizmente, esperar por Trent era um tiro no escuro; ele sempre aparecia quando era conveniente
para ele, e sem saber como encontrá-lo, a ajuda dele parecia cada vez mais distante.
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Click-click. Click-click. O repetitivo som era tranqüilizante, um silencioso processo mecânico na
quietude do esconderijo alugado. Todos tinham trabalhos específicos em sua busca pela
destruição da Umbrella, tarefas que mudavam de dia para dia conforme a necessidade. Chris tem
ajudado Barry com as armas na última semana, mas geralmente cuidava da vigilância do quartel
general. Eles receberam uma mensagem de Jill algumas semanas atrás, ela estava a caminho de
Paris, e Chris sabia que sua juventude mal gasta viria a cair bem para reconhecimento interno.
Leon veio a ser um hacker decente, ele estava no computador na sala ao lado; ele mal dormiu
desde a captura de Claire, passando a maior parte do tempo tentando rastrear os movimentos
recentes da Umbrella. E o trio de S.T.A.R.S., que veio com Claire e Leon para a Europa
Rebecca, do S.T.A.R.S. de Raccoon, e dois S.T.A.R.S. de Maine, David e John estava
atualmente em Londres, negociando com um vendedor de armas. Depois de tudo que passaram
juntos, os três trabalhavam bem juntos.
Não há muitos de nós, mas temos as habilidades e a determinação. Já Claire...
Com seus pais falecidos, ele e Claire desenvolveram um relacionamento muito próximo, e achava
que a conhecia bem; ela era esperta, durona e independente, sempre foi... mas também era
apenas uma universitária. Diferente do resto deles, ela não tinha nenhum treinamento formal de
combate. Ele não podia evitar pensar que ela teve sorte até agora, e em se tratando da Umbrella,
sorte não era o suficiente.
"Chris, venha aqui!". Era Leon, e parecia urgente. Chris e Barry olharam um para o outro, Chris
vendo sua própria preocupação espelhada no rosto de Barry, e ambos se levantaram. De coração
na garganta, Chris seguiu na frente pelo corredor até onde Leon estava trabalhando, empolgado e
com medo ao mesmo tempo.
O jovem policial estava de pé ao lado do computador, suas expressões ilegíveis.
"Ela está viva". Foi tudo o que Leon disse.
Chris nem tinha noção do quanto as coisas tinham sido ruins para ele até ouvir aquelas três
palavras. Foi como se seu coração tivesse sido libertado depois de ter sido preso num torniquete
por dez dias, a sensação de alívio físico como se fosse emocional, sua pele ganhando cor.
Viva, ela está viva
Barry bateu no ombro dele, rindo. "Claro que ela está, ela é uma Redfield".
Chris sorriu, voltando sua atenção para Leon e sentiu seu sorriso sumir ao ver as cuidadosas
expressões do policial. Havia algo mais.
Antes que ele perguntasse, Leon apontou para o monitor respirando fundo. "Eles a prenderam
numa ilha, Chris... e houve um acidente".
Com um passo, Chris já estava sobre o computador, ele leu a breve mensagem duas vezes, a
realidade dela difícil de engolir.
Infecção a aproximadamente 37S 12W seguido de ataque, motivo desconhecido. Nenhum cara
mau sobrando, eu acho, encurralada no momento. Tome cuidado, eles sabem a cidade se não a
rua. Tentarei voltar em breve.
Chris levantou, olhando silenciosamente para Leon enquanto Barry lia a mensagem. Leon sorriu,
mas parecia forçado.
"Você não a viu em Raccoon". Ele disse. "Ela sabe se virar sozinha, Chris. E ela conseguiu achar
um computador, não foi?".
Barry se estendeu, pegando o gancho de Leon. "Isso quer dizer que ela não está presa,". Ele disse
seriamente. "e se a Umbrella conseguiu outra contaminação, não iria se preocupar com outra
coisa. O importante é que ela está viva".
Chris acenou ausente, sua mente já pensando no que levaria para a viagem. As coordenadas a
colocavam num ponto incrivelmente isolado, bem no Atlântico Sul, mas tinha uma dívida para
acertar com um velho amigo da Força Aérea, ele podia levá-lo de avião até Buenos Aires, talvez
até Capetown; ele podia alugar um barco lá, equipamento de sobrevivência, corda, kit médico,
muita munição...
"Eu vou com você". Barry disse, lendo suas expressões rigorosamente. Eles eram amigos há muito
tempo.
"Eu também". Leon disse.
Chris balançou a cabeça. "Não, de jeito nenhum".
Ambos começaram a protestar e Chris ergueu a voz para se sobressair.
"Vocês viram o que ela disse sobre a Umbrella estar perto de mim, de nós". Ele disse firmemente.
"Isso significa que nós devemos mudar, talvez para uma dos estados fora da cidade alguém tem
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que ficar aqui, esperar Rebecca e os outros voltarem, e precisamos achar uma nova base de
operações. E não se esqueçam da Jill, ela deve chegar em breve".
Barry franziu, coçando a barba, sua boca apenas uma linha. "Eu não gosto da idéia. Ir sozinho é
uma má idéia...".
"Nós estamos numa fase crucial agora, e vocês sabem disso". Chris disse. "Alguém tem que cuidar
da casa, Barry, e você é o cara. Você tem a experiência e conhece todos os contatos".
"Tá bom, mas ao menos vá com o garoto". Barry disse, apontando para Leon. Leon não reclamou
do título, melhorando a postura, ombros para trás e cabeça erguida.
"Se não for por você, faça por Claire". Barry continuou. "O que acontecerá com ela se você for
morto? Você precisa de um reforço, alguém para segurar a barra".
Chris balançou a cabeça, imóvel. "Barry, você sabe que isso deve ser o mais discreto possível. A
Umbrella já deve ter enviado uma equipe de reforço. Apenas um, entrar e sair antes que alguém
perceba".
Barry ainda franzia, mas não pressionou mais, nem Leon, apesar de Chris poder ver que estava
tentando; o policial e Claire tinham obviamente ficado mais próximos.
"Eu vou trazê-la de volta". Chris disse, suavizando o tom de voz olhando para Leon. Leon hesitou,
mas depois acenou, suas bochechas corando, fazendo Chris imaginar o quanto realmente tinham
se aproximado.
Mais tarde eu me preocupo com as intenções dele se voltarmos vivos
quando voltarmos vivos, ele se corrigiu rapidamente. "Se" não era uma opção.
"Está decidido". Chris disse. "Leon, procure um bom mapa da área, geográfico, político, tudo,
nunca se sabe o que pode ajudar. Responda a mensagem de Claire em caso de ela ter outra
chance de ver mensagens diga que estou a caminho. Barry, eu quero levar muita coisa, mas tem
que ser leve, algo que eu possa escalar sem muitos problemas, uma *Glock talvez... você é o
especialista, você decide".
Ambos acenaram e viraram para começar, e Chris fechou os olhos por apenas um segundo,
rapidamente fazendo uma oração em silêncio.
Por favor, por favor, fique a salvo até eu chegar aí, Claire.
Não foi muito mas Chris sabia que teria muito tempo para rezar nas próximas longas horas.
A sala de monitores secreta estava atrás de uma parede de livros na residência particular dos
Ashford. Depois de voltar para seu lar, atrás da mansão de recepção "oficial", Alfred pendurou o
rifle e imediatamente andou para a parede, tocando a lombada de três livros numa rápida
sucessão. Ele sentiu uma centena de pares de olhos o observando nas sombras do hall de
entrada. Apesar de ter se acostumado com a dispersa coleção de bonecas de Alexia, ele desejava
que às vezes elas não o olhassem tão intensamente. Havia momentos em que ele desejava mais
privacidade.
Enquanto a parede girava, ele ouviu o som dos morcegos escondidos e franziu, apertando os
lábios. Parecia que o telhado foi danificado durante o ataque.
Sem problemas, sem problemas. Preocupações para outro dia. Ele tinha negócios mais
importantes que exigiam sua atenção. Alexia aparentemente se trancou em seus aposentos mais
uma vez, o que era melhor; Alfred não a queria mais preocupada, e a notícia de um possível
assassino em Rockfort certamente a deixaria. Ele entrou na sala secreta e fechou a parede atrás
dele.
Havia setenta e cinco câmeras diferentes que ele podia escolher para observar em um dos dez
monitores na pequena sala mas a maioria dos equipamentos do complexo foram danificados ou
destruídos, deixando ele com apenas trinta e uma ativas. Sabendo dos tolos objetivos de Claire,
roubar informações e procurar Alexia, Alfred decidiu se concentrar na aproximação dela partindo do
presídio. Ele não tinha dúvidas de que ela apareceria em breve; alguém como ela não tinha os
bons modos de morrer no ataque ou depois... apesar de suas expectativas estarem crescendo
junto com seu interesse no jogo, ele começou a se sentir ansioso com o fato dela já poder estar
morta.
Aliviado, sua aposta inicial estava correta. Outro prisioneiro cruzou o portão principal do presídio,
seguido logo depois pela Redfield. Impressionado com o progresso deles, Alfred observou
enquanto Claire tentava alcançar o jovem rapaz, prisioneiro 267 de acordo com as costas do
uniforme, e não tinha idéia de que estava sendo seguido.
Ao chegar no topo da escadaria depois da ponte, ele parou incerto entre o palácio de recepção e o
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complexo de treinamento, Alfred digitou 267 no teclado sob sua mão esquerda e achou um nome,
Steve Burnside. Não era familiar para ele, e enquanto o garoto hesitava indeciso, Alfred voltou sua
atenção para a outra detenta, curioso sobre a jovem mulher que seria sua adversária em breve.
Claire estava andando pela ponte danificada sobre o abismo um momento ou dois atrás de
Burnside, andando como uma atleta. Ela parecia bem auto-confiante, cuidadosa, mas sem se
importar com o direito de cruzar a ponte... e também não olhava para a escuridão cheia de névoa
logo abaixo, as grandes paredes do precipício estendendo-se dezenas de metros abaixo, e não
hesitou. Na quente segurança de sua casa, Alfred sorriu, imaginando o delicioso medo dela... e foi
pego lembrando da brincadeira que Alexia e ele fizeram com um guarda uma vez.
Eles tinham seis ou sete anos de idade, e Francois Celaux era o comandante do turno, um dos
favoritos de seu pai. Ele era muito bajulador, um puxa-saco, mas só com Alexander Ashford. Pelas
costas de seu pai, ele ousou rir de Alexia ao tropeçar durante a chuva, sujando seu novo vestido
azul de lama. Tal ofensa não ficaria impune.
Ah, como nós planejamos, discutindo tarde da noite sobre uma punição cabível para seu
imperdoável comportamento, nossas mentes infantis vivas e pensando em todas as
possibilidades...
O plano final foi simples, e o executaram perfeitamente apenas dois dias depois, enquanto
Francois trabalhava como guarda no portão principal. Alfred tinha implorado docemente ao
cozinheiro para levar o café da manhã para Francois, uma cortesia para funcionários favorecidos...
e a caminho da ponte, Alexia adicionou um ingrediente especial à amarga mistura, apenas umas
gotas de uma substância paralisante que ela mesma tinha sintetizado. A droga paralisava a carne,
mas permitia que o sistema nervoso continuasse funcionando, para que a vítima não pudesse se
mover ou falar, mas sentir e entender o que estava acontecendo.
Alfred se aproximou dos portões bem devagar, tão devagar que o impaciente Francois foi ao seu
encontro. Sorrindo, Alfred estava ciente de que Alexia tinha retornado para a mansão e estaria
olhando e ouvindo pelos monitores Alfred estava usando um pequeno microfone ele se
aproximou do parapeito antes de oferecer a meia-xícara para Francois. Ambos os gêmeos
observaram deliciados enquanto o guarda bebia. E em segundos, ele estava ofegando, se
apoiando fortemente no parapeito da ponte. Para alguém olhando, parecia que ele e o garoto
estavam olhando para o abismo... exceto por Alexia, claro, que mais tarde disse ter aplaudido sua
performance de inocência.
Eu olhei para ele, para as congeladas expressões de medo em suas indelicadas feições, e
expliquei o que tínhamos feito. E o que iríamos fazer.
Quando ele finalmente entendeu que estava indefeso contra uma criança, Francois conseguiu dar
um leve grito apesar da mandíbula fechada. Durante uns cinco minutos, Alfred xingou alegremente
Francois de cria dos porcos, caipira ignorante e espetou a coxa dele com uma agulha de costura
incontáveis vezes.
Paralisado, Francois Celaux só conseguiu agüentar a dor e a humilhação, certamente arrependido
de sua estúpida conduta contra Alexia enquanto sofria em silêncio. E quando Alfred se cansou da
brincadeira, ele chutou os sujos calcanhares do guarda algumas vezes, descrevendo cada
sentimento seu por Alexia enquanto Francois deslizava paralisado sob o parapeito e mergulhava
para a morte.
E então eu gritei, fingindo chorar enquanto os outros corriam para a ponte, tentando
desesperadamente consolar seu jovem patrão enquanto perguntavam um ao outro como tal coisa
terrível podia ter acontecido. E mais tarde, bem mais tarde, Alexia foi até meu quarto e beijou
minha bochecha, seus lábios quentes e suaves, seus cachos sedosos fazendo cócegas em meu
pescoço
Os monitores afastaram sua atenção das doces lembranças, Claire parada no mesmo ponto onde
Burnside tinha hesitado. Bravo consigo mesmo pela falta de cuidado, Alfred passou um tempo
procurando pelo jovem machão, passando de câmera em câmera até achá-lo nos degraus da
mansão de recepção. Rapidamente, Alfred checou o painel de controle do console para ter certeza
de que todas as portas da mansão estavam destrancadas, suspeitando de que o garoto
conseguiria se virar bem sozinho
e cacarejou de prazer quando viu Claire escolhendo o mesmo caminho que seu companheiro.
O quanto esquisito será seu terror ao implorar por sua vida ajoelhada no sangue resfriado do Sr.
Burnside...
Se ele quiser recebê-los propriamente, ele precisava partir agora mesmo. Alfred levantou e abriu a
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parede mais uma vez, sua empolgação crescendo enquanto a fechava e ia para o hall principal. Ele
queria muito contar seus planos para Alexia antes de partir, compartilhar algumas de suas idéias,
mas sabia que tempo era um fator
"Estarei observando, meu querido". Ela disse.
Assustado, Alfred olhou para cima e a viu no topo da escadaria, não muito longe da boneca gigante
pendurada no teto, uma das favoritas de Alexia.
Ele ia perguntar como ela sabia, mas percebeu o quanto boba a pergunta era. Claro que ela sabia,
ela conhecia seu coração; era o mesmo que batia entre seus seios cor de neve.
"Agora vá, Alfred". Ela disse, presenteando-o com seu sorriso. "Aproveite por nós dois".
"Irei, minha irmã". Ele disse, devolvendo o sorriso, mais uma vez agradecido por ser irmão de tal
criação milagrosa, tinha sorte por ela entender suas necessidades e desejos.
Era como uma distorção bizarra da realidade, Claire concluiu, fechando as portas da mansão. Do
desorganizado frio cheio de morte do presídio até onde estava agora... era difícil de acreditar, mas
não tinha escolha.
O grande, rebaixado e bonito saguão belamente projetado abria-se diante dela com somente
algumas pegadas sujas no chão de lajotas, e alguns borrões de sangue numa das paredes cor de
creme. Havia também algumas rachaduras perto do teto, e uma única marca escura de mão num
dos pilares decorados da parede oeste, gotas de sangue escorridas na base da palma.
Então os prisioneiros não foram os únicos a terem uma péssima tarde. Era classista e insignificante
para ela, mas a fez se sentir melhor saber que os superiores da Umbrellla também levaram um
chute no traseiro.
Ela parou onde estava por um momento, aliviada por ter saído do frio, e ainda chocada com as
diferentes faces do complexo de Rockfort. Atrás dos pilares à sua esquerda havia uma porta azul, e
uma segunda porta no canto noroeste do saguão. Bem à frente havia uma mesa de recepção de
mogno polido e um lance de escada que corria junto à parede da direita levando até o balcão
superior decorado com um retrato estranhamente danificado. O rosto da pessoa pintada foi
arranhada por algum motivo.
Claire desceu os degraus, agachou e passou o dedo numa das pegadas de lama; ainda fresca, e
mais pegadas indo para a porta do canto. Ela não podia dizer se eram de Steve, mas havia boas
chances. Ele deixou um rastro, o portão aberto do presídio e algumas balas fora da mansão, junto
com dois cães mortos. Para um cara certamente perturbado, até que atirava bem...
.. então porque estou passando por tantos problemas para ajudá-lo? Ela pensou mau humorada.
Ele não quer minha ajuda, não parecia querê-la, e não é que não tenho nada melhor para fazer.
Quando ele partiu correndo, ela não o seguiu imediatamente, querendo receber uma mensagem de
Leon o quanto antes; ela também se sentiu forçada a vasculhar o escritório em busca de um kit
médico, algo para ajudar Rodrigo, mas não tinha achado nada útil
"Ajuda! Me ajudemmm!". Um berro abafado, em algum lugar do prédio.
Steve?
"Me tirem daqui! Ei, alguém me ajude!".
Claire já estava correndo armada para a porta do canto. Ela pulou na pesada porta de madeira, a
porta abrindo em um longo corredor. Steve gritou de novo, o som vindo do fim do corredor. Claire
hesitou tempo o suficiente para ver que os três corpos no chão não se levantariam mais e então
correu, escolhendo a porta diretamente à frente.
"Socorro!".
Deus, o que está acontecendo com ele? Ele estava em pânico, sua voz falhando.
Chegando no final do corredor, Claire empurrou a porta e varreu o local com o revólver e não viu
nada, uma sala com vitrines de vidro e sofás estofados. Um alarme estava tocando em algum
lugar, mas não conseguia ver a origem.
Havia movimento à esquerda. Claire girou, desesperada pelo alvo e viu que um filme estava
sendo projetado numa tela na parede, silencioso e instável. Um casal de crianças loiras e bonitas,
olhando intensamente um nos olhos do outra. O menino estava segurando algo, algo se movendo
uma libélula, e ele está
Claire desviou o olhar involuntariamente, enojada. O menino estava arrancando as asas do inseto,
sorrindo, ambos sorrindo.
"Steve!". Por que ele não gritava mais, onde ele estava? Só podia ser a sala errada
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"Claire? Claire, aqui dentro! Abra a porta!".
A voz dele vinha de trás da tela de projeção. Claire correu pela sala, vasculhando a parede, sem
notar que a criança no filme tinha colocado a libélula torturada num recipiente cheio de formigas e
estavam observando o inseto ser devorado.
"Que porta, onde?". Claire gritou, correndo suas ansiosas mãos pela parede, empurrando a vitrine
de vidro, puxando a tela de projeção
e a tela retraiu, desaparecendo no suporte. Atrás estava um painel, um teclado e seis desenhos
em duas fileiras de três, um botão sob cada um.
"Claire, faça alguma coisa, eu to derretendo aqui!".
"O que eu faço, como você entrou aí? Steve!".
Sem resposta, e pôde ouvir o desespero crescendo em sua voz, pôde senti-lo corroendo seu
cérebro
concentre-se. Faça, agora.
Claire lutou contra o quase pânico, a clara voz de intelecto em sua mente. Se ela entrar em pânico,
Steve morre.
Não há porta. Só um painel com pictogramas.
Isso, essa era a chave. Steve gritou outro apelo aterrorizado, mas Claire apenas olhou concentrada
para os desenhos, cada um é diferente, um barco, uma formiga, um revólver, uma faca, um
revólver, um avião
Não eram todos diferentes, havia dois revólveres, porém de diferentes modelos, os botões
etiquetados como "C" e "E". Nada mais combinava, e sua primeira impressão era de que se tratava
de um daqueles testes de inteligência, em que dois tinham algo em comum. Sem questionar seu
raciocínio, Claire acionou os dois botões, acendendo os dois desenhos
e a sua direita, uma vitrine de vidro deslizou da parede. O alarme parou, e um sopro de calor
seco foi expelido da abertura, envolvendo ela. Meio segundo depois, Steve cambaleou para fora e
caiu de joelhos, seu rosto e braços vermelhos. Ele estava segurando um par de armas iguais, o
que pareciam ser *Lugers douradas.
Acho que escolhi os desenhos certos.
Ela se curvou sobre ele, tentando se lembrar quais eram os efeitos do superaquecimento enjôo e
náusea, ela pensou. "Você está bem?".
Steve levantou a cabeça para olhar para ela. Com suas bochechas vermelhas e leves expressões
de vergonha, ele não parecia nada além de um garotinho que tomou sol demais. Então ele sorriu, e
a ilusão foi perdida.
"Por que você demorou tanto?". Ele disse, levantando sem ajuda.
Claire enrijeceu, fazendo cara feia. "De nada".
O sorriso dele sumiu um pouco e abaixou a cabeça, tirando o cabelo da testa. "Desculpe... e me
desculpe por antes, também. Obrigado, mesmo".
Claire suspirou. Quando ela decidiu que ele era um total idiota, ele resolve sem gentil.
"E olha o que eu achei". Ele disse, erguendo as duas armas e mirando numa das vitrines. "Elas
estavam penduradas na parede lá dentro, completamente carregadas e tudo. Legais, né?".
Ela teve que resistir a súbita vontade de agarrar os ombros dele e chacoalhar. Ele tinha coragem,
ela tinha que reconhecer, e obviamente tinha algumas habilidades de sobrevivência... mas ele não
entende que teria morrido se ela não tivesse escutado seus gritos?
Este lugar deve estar cheio de armadilhas, também; o que eu faço para evitar que ele fuja de
novo?
Ela o viu fingir atirar numa estante, imaginou vagamente se o lance machão era apenas um modo
de lidar com o medo e uma abordagem diferente lhe ocorreu, uma que tinha chances de
funcionar.
Ele queria bancar o Sr. Cara Durão, que seja. Apele para seu ego.
"Steve, eu entendo que você não quer companhia, mas eu quero,". Ela disse, fazendo o possível
para parecer sincera. "eu... eu não ficar sozinha lá fora".
Ela pôde ver seu peito estufar, e sentiu um grande alívio, sabendo que tinha funcionado bem antes
que ele dissesse uma palavra. Ela também sentiu um pouco de culpa por estar manipulando ele,
mas só um pouco; era por uma boa causa.
Além disso, não é exatamente uma mentira. Eu realmente não quero ficar sozinha lá fora.
"Eu acho que você pode vir comigo". Ele disse expansivamente. "Digo, se você estiver com medo".
Ela só sorriu, apertando os dentes, ciente de que se abrisse a boca para agradecer, não saberia o
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que sairia.
"E, além disso, eu sei como tirar a gente daqui". Ele adicionou, sua pose desaparecendo, seu
jovem entusiasmo voltando. "Tem um pequeno mapa debaixo da mesa da recepção. Segundo ele,
existe uma doca a oeste daqui, e um aeroporto depois dela. O que significa que nós temos uma
escolha, apesar das minhas habilidades de pilotagem estarem um pouco duvidosas, eu escolho
navegar. Nós podemos ir agora".
Talvez ela o tenha subestimado um pouco. "Sério? Ótimo, isso é...". Claire parou. Rodrigo, ela não
podia se esquecer dele, nós podíamos carregá-lo até a doca...
"Você não quer voltar comigo para a prisão, primeiro?". Ela perguntou. "O cara que me tirou da cela
está lá, ele está muito ferido ".
"Um dos prisioneiros?". Steve perguntou, animado.
Ô ou. Ela podia mentir, mas Steve acabaria descobrindo. "Hum, eu acho que não... mas ele me
deixou sair, e eu devo uma a ele ".
Steve estava franzindo, e ela completou rapidamente. " e essa parece a coisa, eh, honrável a se
fazer, ao menos levar um kit médico, num é?".
Ele não estava caindo nessa. "Esquece, se ele não é um prisioneiro, então trabalha para a
Umbrella, ele não merece. Além disso, eles vão enviar tropas em breve; é problema deles,
deixem-os cuidarem disso. Então, você vem ou não?".
Claire olhou para ele quadrada, vendo raiva e dor em seus olhos escuros, certamente causados
pela Umbrella. Ela não podia culpá-lo pelo que sentia, mas não concordava com ele, não no caso
de Rodrigo. E ela não tinha dúvidas de que Rodrigo morreria antes da Umbrella aparecer.
"Eu acho que não". Ela disse.
Steve virou, deu alguns passos na direção da porta e parou, suspirando fundo. Ele virou para ela
claramente exasperado. "De jeito algum vou arriscar meu pescoço para ajudar um empregado da
Umbrella, e sem ofensas, mas eu acho que você é totalmente maluca querendo... mas eu vou te
esperar, está bem? Dê um band-aid para ele ou qualquer coisa e me encontre na doca".
Surpresa, Claire acenou, menos do que ela desejava, porém mais do que ela esperava,
principalmente depois de seu esquisito discurso pessoas-vão-te-desapontar
ah!
Pela primeira vez, ela pensou no motivo porque Steve disse todas aquelas coisas, porque estava
negando o trauma do que tinha acontecido, do que estava acontecendo. Ele estava lá sozinho,
afinal... como não abandonar o problema?
Claire sorriu gentilmente para ele, lembrando do quanto se sentiu irritada quando seu pai morreu
quando era pequena. Ser afastado da família não devia ser muito melhor. "Vai ser bom voltar pra
casa". Ela disse suavemente. "Aposto como seus pais ficarão felizes ".
A desprezível interrupção de Steve foi imediata e extrema. "Olha, vá para a doca se quiser, pois eu
não vou esperar o dia inteiro, entendeu?".
Espantada, Claire acenou calada, mas Steve já estava saindo da sala. Ela desejou não ter dito
nada, mas era tarde demais... mas ao menos ela sabia o que não dizer. Coitado, ele deve sentir
muito a falta dos pais. Ela vai ter que ser um pouco mais compreensiva.
Com uma última olhada na pequena sala, Claire foi para a porta, imaginando o que fazer com
Rodrigo. Steve estava certo, a Umbrella já deve ter uma equipe a caminho, eles cuidariam dele,
mas ela queria estabilizá-lo antes de partir. Ela tinha que achar aquele anticoagulante; ela não
sabia muito sobre primeiros socorros, mas ele parecia achar que funcionaria. Ela abriu as duas
portas restantes no corredor a caminho do saguão, parando brevemente na primeira para ver
alguns retratos pintados, algum tipo de galeria histórica de uma família chamada Ashford. Havia
uma urna quebrada no canto, nada interessante. Na outra porta havia uma sala de conferência,
apenas alguns papéis espalhados e silêncio.
Claire voltou para o saguão principal, decidindo olhar o andar de cima antes de voltar por onde
veio; escada acima depois da ponte que levava à prisão e ela não queria cruzar aquele pesadelo
rangente de novo ela ignorou uma porta a fim de seguir o rastro de Steve...
Uma pequena luz vermelha no chão chamou sua atenção, como um daqueles indicadores laser,
sua professora de geometria usava uma. O ponto vermelho andou em sua direção e Claire olhou
para cima, acompanhando o feixe fino até
Gah! Ela procurou cobertura assim que o primeiro tiro acertou uma lajota a centímetros de onde ela
estava, estilhaços de cerâmica voando. Ela se jogou atrás de um dos pilares decorados quando o
segundo tiro trovoou no saguão quebrando mais lajotas do piso.
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Ela ficou de pé, tentando ficar o mais espremida possível, imaginando se realmente viu o que
achava ter visto um magro homem loiro usando um rifle com mira laser, vestindo o que parecia
uma jaqueta de clube de iatismo, vermelha, completa com echarpe bufante e tranças douradas.
Como se fosse a idéia de uma criança sobre o que uma nobre autoridade deveria usar.
"Meu nome é Alfred Ashford", uma irritante e esnobe voz soou. "Eu sou o comandante desta base
e eu exijo que você me diga para quem está trabalhando!".
O quê? Claire desejou ter algo brilhante para dizer, alguma resposta rápida, mas não conseguiu
achar nada melhor.
"O quê?". Ela perguntou bem alto.
"Ah, não há porque fingir ignorância". Ele continuou, sua voz zombante mudando de lugar, como se
descesse a escada. "Srta. Claire Redfield. Eu sei o que você tem planejado. Eu sabia desde o
começo mas você não está lidando com qualquer um, Claire. Não quando lida com um Ashford".
Ele riu, uma alta e afeminada risada, e na hora Claire decidiu que ele era pirado, ela estava
conversando com um maluco.
Isso aí, faça ele falar, você não quer perder a localização dele. Ela podia ver a luz vermelha
tremendo na parede atrás dela enquanto ele tentava manter o pilar na mira.
"Tá bom, eh, Alfred. O que eu estou planejando?". Ela verificou sua 9mm para ter certeza de que
tinha uma bala engatilhada, o mais quieta possível.
Foi como se ela não tivesse dito nada. "Nosso legado de profunda supremacia e inovação está
além da contestação". Alfred disse arrogantemente. "Nós podemos traçar nossa hereditariedade
até a realeza européia, minha irmã e eu, e algumas das maiores mentes da história. E eu não
acredito que os seus superiores não te contaram isso, não é?".
Meus superiores? "Eu não faço idéia do que você está falando". Claire gritou, observando o ponto
vermelho, decidindo que podia dar uma espiada do outro lado do pilar, talvez dar um tiro antes que
ele a visse. Quanto mais Alfred falava, mais ela sentia que conhecê-lo cara a cara seria uma má
idéia. Pessoas mentalmente perigosas eram imprevisíveis.
Ele tinha mencionado uma irmã... as crianças no filme da libélula? Ela não tinha provas, mas seus
instintos gritavam um grande sim. Parecia que ele não tinha mudado muito. De criança perturbada
para perturbado.
"Claro, se você quiser se render,". Alfred falou, "eu posso poupar a sua vida. Desde que você
confesse traição a seus superiores ".
Agora!
Claire levou a mão em volta do pilar, armada
e bam, madeira e gesso explodiram perto do rosto dela, o tiro estilhaçando o reboco do pilar
enquanto ela recuava. Ela jogou todo seu peso contra o pilar, sua respiração rápida e seca. Se ele
tivesse sido um fio de cabelo mais preciso...
"Você é uma coelhinha veloz,". Alfred disse, sua surpresa inconfundível. "ou devo dizer uma rata?
É isso que você é, Claire, uma rata. Apenas uma rata enjaulada".
Novamente, aquela risada insana e forçada... mas desta vez não estava avançando, e sim
acompanhando ele escada acima. Passos, e então uma porta fechou, e ele sumiu.
Isso não completa bem as coisas? O que seria um desastre biológico sem um doido ou dois? Era
quase engraçado, se ela não estivesse tão assustada. Alfred era um maluco.
Claire esperou um momento para ter certeza de que ele tinha ido embora, e então respirou fundo,
aliviada, mas não relaxada. Ela não iria, não podia relaxar até estar bem longe de Rockfort,
deixando a Umbrella, os monstros e a insanidade para trás.
Deus, ela estava cansada dessa encrenca. Ela cursava o segundo ano de faculdade, ela gostava
de motos e de dançar, e de um bom leite quente em um dia chuvoso. Ela queria Chris, e queria ir
pra casa... e sendo que nenhum dos dois parecia provável no momento, ela decidiu que cederia a
um bom e sólido ataque nervoso, completo com gritos histéricos e socos no chão.
Era quase tentador, mas isso teria que esperar, também. Ela respirou fundo. Alfred tinha subido as
escadas, e Claire achou melhor verificar a outra porta que deixou passar depois da ponte, ver se
conseguia achar algo lá para Rodrigo.
Pelo menos as coisas não vão ficar piores, ela pensou triste, sentindo um estranho senso de déjà
vu enquanto abria a porta principal. Parecia Raccoon... mas aquilo foi muito pior, pior que um
desastre isolado como esse.
Bem diferente.
Claire não tinha como saber o que iria encontrar pela frente, as coisas nem tinham começado a
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piorar.
.....................................................
*Utah Estado dos Estados Unidos.
*Glock Fabricante austríaca de armas com componentes plásticos.
*Luger Pistola semi-automática alemã.
.....................................................
[5]
A suposta doca não era exatamente uma doca, para o desgosto de Steve, e não havia um barco à
vista. Ele estava esperando um longo cais com passarelas de madeira e gaivotas, e meia dúzia de
barcos para escolher, cada um com uma despensa cheia de comida e camas macias. Ao invés
disso, ele achou uma pequena área à beira de uma lagoa acinzentada, isolada do oceano por um
paredão de pedras que não conseguia enxergar na escuridão. Havia uma plataforma pequena com
um timão de navio na ponta, provavelmente algum monumento idiota em homenagem ao oceano,
ou qualquer coisa, uma mesa bagunçada, um mofado colete salva-vidas pendurado no canto, uma
vez brilhante laranja agora um tom mostarda manchado. Nada maior que uma canoa jamais
ancoraria naquela doca; resumindo, uma droga.
Ótimo. Então como todo mundo fugiu da ilha, nadando?
Agora ele tinha que achar outra rota de fuga, e disse que encontraria Claire aqui. Ele não podia
apenas partir, mas também não queria ficar esperando.
Ele ainda podia abandonar ela.
Steve fez cara feia, chutando o maquinário enferrujado. Talvez ela fosse um pouco tagarela, um
pouco ingênua... mas ela tinha salvado sua vida, e ela querer ajudar um cara da Umbrella só
porque ele a tinha libertado isso era... era bom, era uma coisa boa. Deixá-la para trás era errado.
Incerto sobre o que fazer em seguida, ele andou para o timão e o girou, surpreso com o quanto
suave ele girava, considerando o quanto ruim o resto da "doca" era
e com um baixo ruído mecânico, a plataforma abaixo dos pés dele se afastou abruptamente da
parte pavimentada e deslizou sobre a água, enquanto bolhas gigantes começavam a estourar na
superfície da água na frente dele.
Deus! Steve segurou o timão com uma mão, apontando uma das Lugers douradas para as bolhas.
Se for uma das criaturas da Umbrella, levaria chumbo
e um pequeno submarino emergiu da água como um peixe escuro de metal, a escotilha abrindo
convenientemente na frente dele. Uma escada de metal descia para o submarino aparentemente
vazio. Diferente do resto do local, o pequeno submarino parecia forte e bem cuidado.
Steve olhou para ele. Que droga é essa? Parecia uma atração temática de um parque de
diversões, tão estranho que não sabia o que pensar.
Seria mais estranho do que tudo o que eu vi hoje?
Observação feita. O mapa da mansão era vago, apenas algumas setas e as palavras doca e
aeroporto... e aparentemente você deve passear de submarino para chegar lá. A Umbrella era uma
companhia estranha.
Ele pisou na primeira barra da escada e hesitou, sua pele ainda vermelha por causa do último
desconhecido que enfrentou. Ele não preferia se afogar ao invés de cozinhar.
Ah, dane-se, só descobrirá tentando.
Novamente, observação feita. Steve desceu a escada e quando saiu dela, acionou uma placa
sensível no piso. Acima dele, a escotilha fechou. Ele rapidamente pisou na placa de novo e a
escotilha abriu. Ao menos era bom saber que não sufocaria.
O interior do submarino era bem simples, tão grande quanto um banheiro grande, com uma escada
tipo marinheiro no meio. Havia um pequeno banco na lateral, nada atrás e uma mesa de controle
na frente.
"Vamos ver o que temos aqui". Steve murmurou, indo para os controles. Eles eram
riduculosamente simples, uma única alavanca de dois níveis a alavanca estava para cima,
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marcando "principal". A parte de baixo estava marcada "transporte", e Steve sorriu, impressionado
por ser tão fácil. Isso é que é "fácil de usar".
Ele pisou na placa sensível de novo para fechar a escotilha, imaginando se Claire ficaria
impressionada com sua descoberta enquanto abaixava a alavanca. Ele ouviu um suave barulho
metálico e o submarino começou a se mexer, descendo. Havia uma única janela, mas estava
escuro demais para ver algo além de bolhas subindo.
O passeio anticlimático estava acabado em dez segundos. O submarino parecia estar parando e
ele ouviu um barulho agudo e metálico vindo da escotilha, como se estivesse raspando em algo
certamente não era um barulho do ambiente aquático.
Yeesh. Era como aqueles aquários em que você anda num túnel vendo os peixes. Ele nunca
gostou dessas coisas, achando fácil demais o vidro quebrar enquanto um tubarão estiver
passeando pelo local... ou algo pior.
Suficiente. Steve saiu no corredor e andou, fazendo duas curvas, olhando deliberadamente para
frente. Foi a primeira vez desde o ataque à ilha que se sentiu tenso de verdade. Nem tanto
claustrofobia como medo primário, como algo surgindo na água escura vindo na direção do vidro,
um animal ou outra coisa uma mão pálida, talvez, ou um rosto branco morto pressionado contra o
vidro, sorrindo para ele
Ele não podia fazer nada. Ele saiu em disparada, e quando chegou na porta que aparentemente o
tirava daquele ambiente, chamou a si mesmo de marica, mas estava vastamente aliviado.
Ele abriu a porta e viu dois, três... quatro zumbis ao todo, e todos eles bem animados com sua
presença. Cada um deles virou e começou a mancar até ele, os farrapos de suas roupas
uniformes da Umbrella sem dúvida pendurados em seus braços esticados. Havia um cheiro de
peixe morto.
"Unnnh". Um deles gemeu, e os outros o acompanharam, os gemidos suaves de certo modo, meio
tristes e perdidos. Considerando o que a Umbrella o tinha feito passar, ele não sentia compaixão.
Nem um pouco.
A sala era dividida ao meio por uma parede, os três zumbis da esquerda incapazes de ver o
solitário da direita... ou talvez podiam, ele pensou, olhando melhor. Cada um dos três tinham olhos
que pareciam brilhar um estranho vermelho escuro. Eles o lembraram de um filme que viu uma
vez, sobre um homem com uma super visão raios-X, que via todo tipo de coisa.
Acho que nunca veremos o que eles vêem. Steve mirou no mais próximo, fechou os olhos e bam,
um limpo buraco aparecendo em sua testa cinza-esverdeada como mágica. Os olhos vermelhos
da criatura pareciam apagar enquanto caia de joelhos, depois de cara no chão, sploosh. Grosseiro.
Os companheiros do zumbi nem perceberam e continuaram vindo. O avanço do solitário foi
interrompido por uma mesa; ele continuou andando assim mesmo, aparentemente sem saber que
não iria a parte alguma.
Steve derrubou o próximo igual ao primeiro, com um único tiro, mas por algum motivo não sentiu
nada de mais com isso. Atirar neles daquele jeito não o incomodava quando estava na prisão
depois pareceu bom e até poderoso; ele ficou preso lá o bastante para deixá-lo de saco cheio, e
ter algum controle de novo parecia com o natal, como um ótimo e grande presente de natal que
aguardou o ano inteiro, como ele costumava esperar...
Cale a boca. Steve não queria pensar nisso, era besteira. Ele não sentia mais vontade de bater
palmas toda vez que derrubava um deles, e daí? Isso só queria dizer que ele estava ficando
entediado.
Ele apressadamente atirou nos últimos dois, os tiros parecendo mais altos do que antes,
praticamente ensurdecedores. Uma rápida vasculhada por algo útil se clips de papel e xícaras
sujas de café fosse úteis, ele estaria bem e já estava pronto para seguir em frente. Havia duas
portas na parede de trás, uma de cada lado da sala; ele escolheu a da esquerda. Ele leu uma vez
que dada uma escolha, a maioria das pessoas escolhia a direita.
Depois de verificar a munição, ele passou por um grande aquário que dominava a parede esquerda
da sala e cuidadosamente abriu a porta, captando o máximo que podia com uma única olhada.
Escuro, cavernoso, cheira água salgada e óleo, nenhum movimento. Ele cruzou a porta, varrendo o
local com a Luger
e gargalhou, uma corrente de pura alegria lavando seu sistema enquanto sua risada ecoava de
volta para ele. Era um hangar aquático, e havia um baita avião aquático bem na sua frente. Grande
para ele, pois só tinha pilotado um daqueles jatos particulares.
Profundamente agradecido, Steve andou até o avião, parado logo abaixo da plataforma gradeada
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sob seus pés. Ele era um piloto inexperiente, mas achava que sabia o suficiente para não cair.
Primeiro as prioridades, entrar no avião e checar o combustível, condições gerais, aprender os
controles...
Ele parou na beira da plataforma e olhou para baixo, franzindo. Ele estava a pelo menos três
metros acima da escotilha, e parecia estar bem trancada.
Havia um maquinário à sua esquerda, alguns painéis acesos. Steve andou e olhou para eles,
sorrindo ao ver o controle para ligar a plataforma de acesso. O sistema também devia abrir a porta
do avião, de acordo com o pequeno diagrama.
"Presto". Ele disse, apertando o botão. Um alto som mecânico soou no gigante hangar, fazendo ele
recuar, mas parou depois de alguns segundos, assim que a plataforma para dois subiu até a beira
da plataforma.
Ele pisou na plataforma, estudou o painel de controle e começou a xingar, cada palavra ruim que
podia lembrar, duas vezes. Ao lado dos três espaços em forma de hexágono estava escrito "insira
as peças aqui". Sem as peças, sem energia.
Elas podiam estar em qualquer lugar da maldita ilha! E quais as chances das três estarem juntas?
Ele respirou fundo, se acalmou um pouco, e passou os minutos seguintes tentando entender como
os controles do avião estavam conectados com o resto do sistema, procurando um jeito de evitar
as peças. E depois de um cuidadoso e pensativo debate, ele começou a xingar de novo. Quando
finalmente cansou disso, rendeu-se ao inevitável.
Steve virou e começou a vasculhar a área, olhando em cada rachadura, formulando teorias sobre o
paradeiro das peças hexagonais enquanto corria as mãos sobre os maquinários sujos de poeira e
graxa e decidiu que iria dançar sobre todos os ossos do próximo funcionário da Umbrella que
matar, só por ter trabalhado num lugar tão complicado. Chaves, emblemas, peças e submarinos;
incrível como conseguiam fazer alguma tarefa.
O contaminado estava usando um avental de laboratório e sua mandíbula estava perdida por aí;
ele gargarejava e cuspia horrivelmente, sua língua batendo fracamente contra o pescoço. Claire
não sabia se era homem ou mulher, apesar de achar isso desnecessário. Por mais patético e
revoltante que era a visão, ela o tirou de sua miséria com um único tiro na têmpora, e depois
vasculhou a área escritório/inventário antes de voltar para o corredor, desencorajada com sua
falta de sucesso. A porta que abriu depois de sair da mansão, dava num grande pátio de terra e
totalmente utilitário mais parecido com o presídio do que com a mansão, apesar de não saber do
que o local se tratava depois de ter vasculhado algumas salas; algum tipo de local de teste, talvez,
ou um campo de treinamento para guardas e soldados.
Talvez um prédio construído para acabar com as esperanças, ela pensou, olhando para a porta de
entrada. Ela tinha entrado há uns dez minutos, esperando que Rodrigo não estivesse morto, que
Steve tivesse achado um barco, que o Sr. Psicopata Ashford e sua irmã não estivessem
planejando explodir a ilha e em apenas dez minutos todas essas esperanças dançaram. Tudo o
que ela realmente queria era um frasco de remédio, porque assim estaria a um passo de partir.
Ela tinha tentado o andar de cima primeiro, tendo um pequena e empolgante aventura que levou
alguns anos de sua vida. Tudo o que achou lá em cima foi um pequeno e trancado laboratório com
um monte de vidro quebrado no chão, do que parecia ser um dos tanques de contenção. Ela viu
tudo isso através de uma janela de observação, e estava para partir quando um pobre cara
ensangüentado vestindo uma roupa especial se jogou na janela. Foi seu último ato; a roupa não
tinha ajudado muito, sua cabeça praticamente explodiu, manchando o interior do capacete com
sangue. Isso não fez muito bem para o coração dela, quase a matando de susto, e para acabar
com a experiência do andar de cima, uma porta de emergência deve ter sido acionada pelo cara e
ela praticamente teve que rolar as escadas para não ficar presa.
Whee.
Ela já matou nove zumbis até agora, três deles com aventais de laboratório, e nenhum algodão
sequer. Nada no vestiário e ela procurou em praticamente cada dos armários, revirando cuecas e
pornografia nada na pequena e estranha sala de banho, nadica de nada.
Ela tinha pensado que uma companhia farmacêutica deveria ter alguns remédios em algum lugar,
mas isso parecia improvável no momento.
Claire voltou para o corredor que levava a outro pátio. Ela esperava achar algo para Rodrigo sem
ter que deixar o prédio, mas não tinha jeito.
Se eu me perder, é só seguir a trilha de corpos, ela pensou, andando rapidamente pelo corredor.
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Não era engraçado, mas ela não se sentia politicamente correta no momento. Ela estava ficando
sem munição, também, o que a fez menos inclinada a ter uma mente positiva.
Ela saiu do relativo calor do corredor para o pátio enevoado, o cheiro do oceano permeando na fria
e cinza noite. Um pequeno foco de incêndio ardia contra uma parede. O complexo de Rockfort
inteiro era estranho, ela pensou, uma mistura de novo e velho. Não eficiente, mas interessante; o
pequeno pátio era pavimentado com pedras, definitivamente não era recente
Claire congelou. O fino feixe vermelho de uma mira laser fatiou a neblina mais adiante, vindo de
cima na direção dela. Era uma sacada acima dela, a escada de acesso contra a parede leste.
Escada, se esconda!
Foi tudo o que ela teve tempo de pensar antes que o ponto vermelho passasse pelo seu peito. Ela
se atirou dali assim que o primeiro tiro cortou o ar, enterrando-se numa fonte miniatura de
estilhaços de pedra.
Ela rolou e ficou de pé e correu para a escada, o feixe vermelho balançando para lá e para cá,
tentando achá-la. Bam, um segundo tiro, não acertou, mas passou perto o bastante para ouvi-lo
cortando o ar, um som como o de uma mosca. Ela reparou no atirador antes de se esconder atrás
da balaustrada de pedra da escada, não surpresa ao ver o cabelo loiro e o casaco vermelho com
detalhes dourados.
Ela estava mais brava do que assustada. Depois de tudo o que passou não aprendeu a ser mais
cuidadosa e quase foi morta por um maluco elitista esquisito como ele.
Isso acaba agora. Claire levantou a arma acima da mureta de pedra e atirou duas vezes na direção
de Alfred. Ela foi imediatamente recompensada com um grito de surpresa. Não é tão bom quando
os animais retornam fogo, não é?
Pronta para aumentar a surpresa dele, Claire subiu três degraus e arriscou olhar para por cima da
mureta só para vê-lo cruzar a porta da parede oeste.
Ela subiu a escada e correu atrás dele, passando pela porta e descendo o corredor iluminado pela
lua, dutos de luz fria gentilmente perfurando as sombras. Não era uma decisão consciente
persegui-lo, ela apenas o seguiu, não querendo cair em mais uma de suas emboscadas. Ela podia
ver o que parecia ser uma máquina de refrigerante no fim do corredor, ainda podia ouvir seus
passos correndo
e ouviu uma porta bater antes de alcançar o final do corredor, uma pequena área com duas
velhas máquinas de venda e duas portas para escolher.
Claire hesitou, olhando para cada porta e colocou as mãos nos joelhos para recuperar o fôlego,
desistindo da perseguição. Com sua experiência, ele estaria de pé atrás de uma das portas,
esperando ela passar.
Pega de bobeira. Não seria uma grande vitória. Com alguma sorte, ela estaria deixando a ilha em
breve, Alfred Ashford apenas uma lembrança ruim.
Depois de um momento, ela se ergueu, indo verificar as máquinas de venda uma de aperitivos e
a outra de bebidas. Ela percebeu de repente que estava faminta e sedenta. Quando foi sua última
refeição?
As máquinas estavam quebradas, mas alguns chutes fortes resolveram o problema; a maioria era
besteira, mas havia algumas embalagens de nozes e latas de suco de laranja. Não exatamente um
jantar, mas considerando as circunstâncias, uma abundante boquinha. Ela comeu rapidamente,
guardando alguns pacotes no colete para mais tarde, sentindo-se mais concentrada quase que
imediatamente.
Bom... porta número um ou porta número dois? Minha mãe mandou a porta cinza, à direita do
corredor. Ela duvidava que Alfred tivesse paciência para ainda estar esperando, mas não deixou de
ter cautela só por precaução, abrindo a porta com o cano da 9mm.
Claire relaxou. Uma pequena e aconchegante sala, dois sofás, uma antiga máquina de escrever na
mesa e um grande e empoeirado baú no canto. Parecia bem seguro; Alfred deve ter ido pela porta
número um. Ela entrou para vasculhar, atraída para um conjunto de objetos no sofá, uma bolsa
amontoada entre os outros itens, que incluía duas agulhas novas e uma seringa, uma caixa de
fósforos à prova d´água, meia caixa de munição de 9mm e um pequeno frasco pela metade do
mesmo hemostático que Rodrigo estava precisando, exatamente o que estava procurando. Havia
outros itens curiosos no kit de sobrevivência improvisado, uma caneta, uma pequena chave de
fenda, uma camisinha... ela rolou os olhos, sorrindo. Interessante o que algumas pessoas
consideravam uma necessidade. O sorriso dela sumiu quando reparou nas marcas de sangue na
bolsa, mas ainda se sentia melhor do que nos últimos dias.
30
Ela abasteceu a bolsa e a amarrou na cintura, transferindo algumas coisas de seus bolsos cheios.
Ela mau podia acreditar em sua sorte. O remédio era sua maior preocupação, e foi um alívio maior
achar mais munição. Até um único pente de balas seria bem vindo.
O resto da busca na sala terminou em nada. Ela sentia que o fim estava próximo, um fim para essa
terrível e horrorosa noite.
Volte para a prisão, dê o remédio para Rodrigo, depois veja se Steve teve sorte em encontrar uma
carona pra casa, ela pensou feliz, saindo da sala. Foi um passeio difícil, mas se comparado a
Raccoon, isso era um piquenique
O pesado chacoalho da porta metálica fechando a envolveu, seu momento de alegria dissipado
enquanto o corredor, sua saída, era bloqueada com um estrondo.
Não! Claire correu para a porta de enrolar metálica, batendo nela com os punhos, já sabendo que
não havia chance. Ela estava presa, a única possibilidade de escapar residindo na porta que ainda
não havia tentado. A que Alfred tinha escolhido.
"Bem-vinda, Claire". Uma voz soou, esnobe e pretensiosa como antes, com o mesmo falso tom.
Havia um alto-falante acima das máquinas, no canto superior da área.
Olá, Alfred, ela pensou com tristeza, não querendo dar o gostinho de raiva e medo para ele. O
complexo inteiro devia ter circuito sonoro. Ela foi burra por não ter pensado nisso, só porque não
via uma câmera, não significava que não existia uma.
"Você está prestes a entrar num parque de diversões especial, nada grande,". Alfred continuou. "e
tem um amigo meu que eu gostaria muito de apresentá-la; acredito que vocês se divertirão juntos".
Fantástico, mal posso esperar.
"Não morra cedo, Claire. Eu quero me divertir".
Ele deu aquele insano, irritante e forçado cacarejo, e parou.
Claire olhou vaziamente para a porta que deveria usar, pensando nas opções. Provavelmente foi a
melhor coisa que Chris já lhe ensinou, que sempre havia uma escolha, independente do perigo, e
pensar nas alternativas causava um efeito tranqüilizante.
Eu posso me esconder na sala ao lado, viver de petiscos e refrigerante enquanto eu espero a
Umbrella aparecer. Eu posso sentar aqui e rezar para que uma amigável equipe venha me
resgatar. Eu posso tentar passar pela porta de aço, ou por uma das paredes... com aquela chave
de fenda e alguns arranhões nos cotovelos, eu posso fugir daqui a 10.000 anos. Eu posso me
matar. Ou eu posso passar pelo parquinho do Alfred, ver o que tem lá.
Havia um número de variações, mas ela achou que resumiam bem a situação... e apenas uma
delas fazia algum sentido.
Tecnicamente, nenhuma delas fazia sentido! Parte dela gritou. Eu devia estar em meu dormitório,
comendo pizza fria e estudando para alguma prova!
Objeção anotada, ela pensou secamente, pegando um pente de balas cheio em sua nova bolsa,
colocando outro em seu sutiã para acesso rápido. Era hora de ver o que Alfred e seus
subordinados tinham aprontado por lá, ver se a Umbrella tinha finalmente encontrado a fórmula
perfeita para seus guerreiros bio-orgânicos.
Claire foi até a porta e parou, imaginando se deveria entrar na batalha com algum profundo
pensamento sobre sua vida, ou amor, imaginando se estava pronta para morrer... e decidiu que
poderia se preocupar com isso mais tarde. Se não houver um mais tarde, ela não precisaria se
preocupar com isso, não é?
"Deus, eu sou esperta". Ela murmurou, e empurrou a porta antes que perdesse os nervos.
[6]
Tudo estava perfeito.
As câmeras estavam dispostas para que pudesse ver de quatro ângulos diferentes, todas
coloridas, a "arena de batalha" bem iluminada, sua poltrona confortável. Ele só se arrependia de
não ter retornado para sua mansão privada e assistir o entretenimento com Alexia ao seu lado. A
sala de controle do complexo de treinamento tinha câmeras que podiam ser movidas ao toque de
um botão, garantindo a melhor visão possível.
31
Alfred sorriu, olhando Claire hesitando na porta, bem satisfeito com os frutos de seu plano. Ela o
perseguiu como previsto, caiu em sua armadilha sem nenhum esforço. Ele não esperava que ela
fosse atirar nele, mas devia ter sido previsto. E era verdade, isso fez a antecipação de sua morte
ainda mais doce, a adição de uma vingança pessoal à mistura.
Os OR1, uma bem sucedida B.O.W. criada especificamente para combate em campo, era um dos
favoritos de Alfred. A minhoca An3 era impressionante, com certeza, o Hunter 121 padrão era
rápido e letal, mas os OR1 eram especiais - a estrutura esquelética humana era visível,
principalmente na face e no tronco, dando-os a aparência clássica da Morte. O crânio deles
emergia sobre tendões sintéticos parecidos com cordas, como um cruel ceifador moderno. Eles
não eram só perigosos; sua aparência inspirava terror, no nível mais básico do instinto.
Os empregados da ilha o chamavam de Bandersnatches (membros elásticos), uma palavra sem
sentido de algum poema que se aplicava perfeitamente, considerando sua característica única e
funcionalidade. Havia trinta deles em Rockfort, metade deles em estase, apesar de Alfred só ter
contado oito deles desde o ataque
oh! Claire estava abrindo a porta.
Exaltado, Alfred voltou toda sua atenção para a garota, sua mão esquerda nos controles da
câmera, sua direita planando sobre o sistema de trancas da área de armazenamento.
Claire pisou no largo mezanino superior do galpão aberto de dois pavimentos, de arma na mão,
tentando olhar para todos os lados ao mesmo tempo. Alfred deu um zoom em seu rosto, querendo
apreciar seu medo, mas ficou desapontado por sua falta de expressões. Depois que decidiu não
estar em perigo imediato, ela só pareceu observar, nada mais.
Aí eu aperto este botão...
Alfred cacarejou, incapaz de conter sua empolgação, tocando de leve com seu indicador direito os
botões das comportas dos depósitos, um no mezanino e um beirando o elevador de carga no piso
inferior. Com seu capricho, Claire Redfield iria morrer. Verdade, ela não era importante, sua morte
tão insignificante quanto sua vida deve ter sido mas era o controle que importava, seu controle.
E a dor, a esquisita tortura, o olhar em seus olhos ao perceber que sua existência está no fim...
Alfred controlou seu corpo tão forte como controlava sua vida, e se orgulhou da habilidade com a
qual controlou seus desejos sexuais, não sentir nada a não ser que queira mas só de pensar na
morte de Claire o inspirava uma paixão que ia além da atração física, além das palavras, muito
além até do simples alcance de consciência humana.
Alexia sabe, Alfred pensou, certo de que sua linda irmã o estava observando, também, de que ela
entendia o que não podia ser explicado. Com a morte de Claire, eles ficariam o mais próximo que
duas pessoas podiam ficar; era a maravilha de seu relacionamento, o auge do legado dos Ashford.
Ele não podia se conter mais. Enquanto Claire olhava cuidadosamente para o centro do galpão,
Alfred trancou a porta atrás dela primeiro, selando sua rota de fuga e então apertou o botão da
comporta do andar superior.
Instantaneamente, a fina porta de enrolar de metal abriu a menos de três metros dela e enquanto
Claire cambaleava para trás, tentando se distanciar da ameaça desconhecida, um Bandersnatch
completamente maduro deu um passo para fora, pronto para atacar. Era linda, a criatura. Entre
dois e trinta e dois e sessenta metros de altura, sua face como a de uma caveira sorrindo, sua
cabeça abaixada e ameaçadora. A desproporcional parte superior do corpo carregando sua arma
principal o braço direito, tão grosso quanto uma de suas pernas, mais comprido que a metade de
seu corpo ereto, a palma de sua mão grande o bastante para cobrir o peito de um homem. Seu
braço esquerdo era murcho, pequeno e deformado, mas o Bandersnatch só precisava de um.
Alfred esperava alguma reação dela, um palavrão ou um grito, mas permaneceu quieta enquanto
alcançava uma distância segura. Ela abriu fogo quase que imediatamente.
O Bandersnatch roncou, um berro áspero e gutural antes de colocar seu truque em ação. Alfred já
tinha visto dezenas de vezes, mas nunca se cansava.
O grande braço direito estendeu-se na direção de Claire, cerca de quatro metros, o músculos
construídos, os tendões elásticos e ligamentos esticando.
e derrubou Claire no chão praticamente sem nenhum esforço, a garota se esparramando antes
que o braço do Bandersnatch voltasse à posição original.
Isso, isso!
Claire recuou sentada o mais rápido que podia, só parando quando suas costas encontraram a
parede. Alfred ampliou a imagem para ver que uma fina camada de suor tinha coberto seu rosto, e
mesmo assim não possuía expressões além de um intenso estado de alerta. Ela ficou de pé e
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correu junto à parede, velozmente, provavelmente não querendo ser jogada do mezanino.
Alfred sorriu, ignorando o desapontamento que a falta de terror dela o tinha trazido. Ela ficaria sem
parede em alguns segundos, encurralada no canto
e então uma série de golpes, acertando ela até a morte contra a parede... ou um simples agarrão
no pescoço dela, um aperto e um movimento para o lado... ou irá brincar com ela, arremessando
ela por aí como uma das bonecas da Alexia?
Alfred se curvou empolgado, mudando o ângulo de uma das câmeras, observando a garota
condenada erguer sua arma, mirando cuidadosamente apesar de sua infeliz posição
bam!
O bandersnatch gritou mais alto que os tiros, balançando a cabeça violentamente, fluidos escuros
escorrendo de sua face em movimento. Ele borrifou as paredes do mezanino com líquido, sangue e
outras coisas, tentando desesperadamente erguer o braço, para proteger ou aparar o ferimento.
Tudo aconteceu tão rápido, tão violentamente, era como olhar um gêiser explodir em um lago
calmo.
Os olhos. Ela mirou nos olhos.
Bam!
Claire atirou de novo, e de novo, e o Bandersnatch gritou de fúria e mais dor, ainda tentando
proteger sua cabeça ferida enquanto cambaleava em círculos... e então, para o espanto de Alfred,
a criatura foi ao chão, seus espasmos ficando cada vez menos urgentes, seu grito virando um
rouco protesto contra a morte.
Abalado com a descrença, Alfred finalmente viu uma emoção no rosto de Claire dó. Ela andou
para perto da criatura e atirou mais uma vez, congelando os movimentos da criatura de uma vez
por todas. Depois ela virou e foi para a escada, como se tivesse acabado de sair de um almoço
entre amigas.
Não-não-não-não!
Isso estava errado, tudo errado, mas não tinha acabado, ainda não. Furioso, ele apunhalou o outro
botão, libertando a segunda criatura, a porta desenrolando atrás de uma pilha de caixas no nível
inferior.
Você não vai ter tanta sorte desta vez, ele pensou desesperadamente, ainda quase incapaz de
acreditar no que acabara de ver. Claire ouviu a segunda porta abrir, mas a pilha de caixas impedia
sua visão, escondendo a nova ameaça. Ela parou aos pés da escada, bem quieta, procurando a
exata fonte do barulho.
O segundo Bandersnatch saiu de sua jaula e sem esforço algum, subiu no topo da pilha de caixas
três metros acima e sem Claire perceber, sua atenção intensamente fixada no canto escuro na
frente da escada.
O Bandersnatch saltou para ela. Claire o viu no último instante, tarde demais para sair de seu
caminho. A criatura envolveu sua cabeça com seus dedos musculosos e a levantou, estudando ela
como um gato estuda um camundongo.
Ou um rato, Alfred pensou, algumas de suas alegrias voltando ao ver a garota soltando a arma e
lutando para se libertar, agarrando a pega de aço do OR1 com suas mãos em pânico
e a concentração de Alfred foi interrompida pelo som de vidro quebrando em algum lugar fora
daquela câmera, e alguém estava atirando, a repentina fúria de barulho e movimento fazendo o
Bandersnatch gritar, soltando Claire.
O que é ?
A janela, Alfred respondeu a si mesmo, olhando com horror enquanto o jovem prisioneiro,
Burnside, saltou para o campo de visão da câmera, disparando dois revólveres ao mesmo tempo,
estourando a surpresa criatura surpresa, e depois gritando de agonia quando Claire pegou sua
arma e juntou-se ao combate.
O Bandersnatch tentou atacar, seu braço girando na direção do novo agressor, mas foi
desencorajado pela enorme quantidade de balas colocadas em seu corpo, finalmente caindo num
dos caixotes. Morto.
Sem ter consciência da decisão, Alfred acionou os controles do elevador de carga, uma parte dele
lembrando que havia pelo menos mais um OR1 lá embaixo, junto com mais infectados. Os dois
jovens cambalearam quando o chão sob seus pés começou a descer, levando-os para o subsolo
do complexo de treinamento. Não havia câmeras funcionando lá, mas curtir a morte dos dois já não
era mais uma prioridade desde que morram.
Não pode, não pode estar acontecendo. Os OR1 deviam ter despachado Claire e seu amigo sem
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esforço algum, mas estavam vivos e foram seus animais que sofreram e morreram. Ele tentou se
convencer de que os dois pereceriam no subsolo, que foi lacrado e isolado desde o primeiro
vazamento viral, mas de repente, nada mais parecia certo.
"Alexia". Alfred suspirou, sentindo o sangue encher seu rosto, sentindo seu ser corar de vergonha.
Ele tinha que fazê-la ver que não foi sua culpa, que sua armadilha tinha funcionado perfeitamente,
que o impossível tinha acontecido... e que ele teria de aceitar a subseqüente frieza em seu olhar, o
tom de desapontamento em sua doce voz enquanto lhe dizia que entendia.
A única coisa que superava sua vergonha era o novo ódio que sentia por Claire Redfield,
queimando mais forte do que milhares de estrelas. Nenhum sacrifício seria grande demais para
garantir o tormento de Claire, o dela e de seu cavaleiro de armadura brilhante.
Até que os dois ofereçam penitências de carne e sangue, Alfred não descansaria. Ele jurou.
"Steve, do outro lado". Claire disse no instante que a plataforma de carga começou a descer. Steve
acenou. Claire recarregou a arma e Steve subiu em duas caixas, ambas as Lugers erguidas. Como
se por um acordo silencioso, nenhum deles falou enquanto o elevador descia, ambos olhando
atentamente para o que viria a seguir.
Ele salvou minha vida, Claire pensou, vendo trilhos engraxados passando pela parede, sangue
ainda pulsando em suas veias de quando percebeu que iria morrer. E Steve Burnside, que tinha
considerado ser bem intencionado, mas perturbado e meio incompetente, tinha impedido isso de
acontecer.
Mas ele pode apenas ter adiado o inevitável...
Ela não sabia o que Alfred tinha em mente agora, mas não queria conhecer mais nenhum de seus
"amigos". Duas aberrações com cara de caveira e braços elásticos já foram o suficiente. Ela foi
incrivelmente sortuda de escapar com alguns arranhões e um torcicolo.
Claire esperava que o elevador fosse deixá-los em algum depósito de B.O.W.s, mas se
desapontou no bom sentido. O amplo elevador-plataforma apenas parou. Só havia uma saída
visível, e apesar de não ter ilusões sobre a segurança do outro lado da porta, parecia que não
estavam em perigo no momento.
"Ei, Claire, veja isso!".
Steve desceu das caixas, segurando o que parecia ser um par de metralhadoras, pequenas,
escuras, e aparentemente mortais com pentes compridos.
"Estava em cima de uma das caixas". Steve disse feliz. Ele já tinha colocado as Lugers douradas
no cinto. "Nove milímetros, igual às Lugers e as armas dos guardas. Ah, antes que me esqueça,
toma".
Ele procurou em um dos bolsos da calça camuflada e tirou três pentes para a M93R. "Eu vasculhei
alguns guardas voltando da doca. Eu prefiro as Lugers, e agora que eu achei essa...". Ele levantou
as armas, sorrindo. `Eu não preciso de equipamento extra. Pode ficar com a arma também".
Claire aceitou os pentes e a arma agradecida, sem saber como agradecer pelo que ele tinha feito,
determinada a tentar.
"Steve... se você não tivesse aparecido naquela hora...".
"Esquece,". Ele disse, dando com os ombros. "estamos quites agora".
"Bom, obrigado mesmo assim". Claire disse, sorrindo calorosamente.
Ele retribuiu o sorriso, e ela viu um piscar de interesse em seu olhar, uma sinceridade bem
diferente de seu comportamento anterior. Incerta sobre o que fazer, por ele ou por si mesma, ela
continuou a conversação.
"Eu pensei que você fosse esperar na doca". Ela disse.
"Não era uma doca de verdade". Steve disse, e contou o que aconteceu desde que se separaram.
O avião era uma ótima notícia; ter que resolver o bizarro fetiche por enigmas da Umbrella não era
tão bom.
"... e quando eu não as achei, eu pensei em ver se você tinha achado algo parecido". Ele terminou,
balançando os ombros de novo, forçando para não parecer frio. "Foi quando eu ouvi os tiros. E
você, algo interessante? Além de se encontrar com alguns dos monstros da Umbrella?".
"Eu diria, você sabe algo sobre Alfred Ashford?".
"Apenas que ele e a irmã são totalmente birutas". Steve disse prontamente. "e que os guardas tem
tinham medo dele. Eu sabia, o modo como eles evitavam falar sobre ele. Ele mandou seu próprio
secretário para a enfermaria, eu ouvi dizer. Havia um médico perturbado trabalhando lá, acho,
muitos prisioneiros foram levados para a enfermaria e nunca voltaram. Não precisa ser gênio,
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entende?".
Claire acenou, fascinada apesar de tudo. "E a irmã dele?".
"Eu nunca ouvi muito sobre ela, só que ela é do tipo reservada. Eu acho que seu nome é Alexia...
Alexandra, talvez, eu não lembro. Por que?".
Claire o contou sobre seus encontros com Alfred, seguido por uma sinopse de onde esteve e o que
tinha achado. Quando ela mencionou que tinha o medicamento que estava procurando, Steve fez
cara feia e depois piscou, suas expressões claramente demonstrando uma mudança de
consciência.
"Talvez esse cara da Umbrella ".
"Rodrigo". Claire completou.
"Certo, que seja,". Steve disse impaciente. "talvez ele saiba de algo sobre as peças-chave. Onde
elas estão".
Boa idéia. "Seria um saco vasculhar a ilha inteira, não é?". Claire disse. "Você está a fim de uma
viagem até a prisão? Se é que conseguiremos sair daqui, né?".
"Ah, eu vou abrir caminho". Steve disse sem nenhuma dúvida em sua voz. "Deixe essa parte
comigo".
Claire abriu a boca para falar dos efeitos negativos da superconfiança, especialmente quando a
Umbrella está envolvida, mas fechou boca de novo. Talvez foi a confiança em si mesmo que o
trouxe até aqui que por não aceitar a possibilidade da derrota, ele estaria assegurando a si
mesmo uma vitória.
Bom na teoria, ruim na prática. Ela estaria lá para dá-lo cobertura, no mínimo.
"Nós estávamos no primeiro andar do complexo de treinamento,". Ele continuou. "o que significa
que estamos no subsolo... sei por causa da minha ".
Steve balançou a cabeça, frustrado por algum motivo, mas antes que pudesse perguntar, ele
continuou como se nada tivesse acontecido.
"Tem uma sala da caldeira, e uma área do esgoto... seguiremos esse caminho, basicamente". Ele
disse apontando para a porta.
Claire decidiu não falar nada sendo que aquela era a única porta, ela já tinha chegado àquela
conclusão. "Estou logo atrás de você".
"Fique perto". Steve disse curto e grosso, indo para a porta e olhando sobre o ombro, tentando
parecer durão, seus dentes e olhos apertados. Claire ficou presa entre irritação e gargalhadas,
finalmente decidindo que aquilo era aceitável. Então ele estava abrindo a porta, e a realidade de
sua situação voltou para ela, flutuando no cheiro de tecido gangrenoso. Ela parou de se preocupar
com as pequenas coisas, concentrando-se na necessidade de sobrevivência.
***
O que Steve sabia sobre armas podia ser resumido em cinco segundos, mas sabia do que gostava.
E ele decidiu na hora ao puxar o gatilho de seu mais novo achado que aquela era a arma.
Ele saiu da plataforma de carga pronto para chutar traseiros, e viu sua chance a menos de 3
metros de distância. Havia cinco deles ao todo bom, cinco e meio, incluindo a bagunça se
arrastando no chão perto das prateleiras e tudo o que tinha que fazer era tocar o gatilho, e então
se encontrou lutando como nunca para evitar que a arma voasse de suas mãos.
Bam bam bam bam bam bam bam
Ele varreu a arma para a direita e para a esquerda, soltando o gatilho quando o último cérebro
suíço fez companhia ao seu crânio suíço. Tudo acabou em segundos, tão rápido que parecia
surreal como se ele tivesse tossido e o prédio veio abaixo.
Claire tinha cuidado da pizza no chão durante o fuzilamento, e quando ele virou para ela, triunfante,
ele ficou um pouco surpreso ao ver que ela não estava sorrindo... até ele pensar por um segundo e
começar a sentir vergonha. Até onde ele sabia, eles não eram mais pessoas. Ele sabia que se
fosse infectado, gostaria que alguém o matasse, para impedi-lo de ferir mais alguém sem falar
que isso lhe garantiria uma morte rápida, melhor do que apodrecer por aí.
Mas eles já foram humanos. O que tinha acontecido com eles era totalmente péssimo e injusto,
sem dúvida.
E talvez ele devesse ser mais respeitoso mas por outro lado, a arma era extremamente legal, e
eles eram zumbis. Eles eram cobaias perfeitas, não uma que gostaria de brincar por aí, mas
decidiu que poderia ao menos não rir disso na frente de Claire. Ele não queria que ela pensasse
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que ele era um idiota com sede de sangue.
Ele apontou para a porta à frente e à direita, bem certo de que estavam na direção certa. Segundo
ele, o caminho levaria até bem perto do pátio frontal do complexo de treinamento.
Claire acenou, e Steve liderou mais uma vez, abrindo a porta e a cruzando. Eles estavam parados
no topo de um curto lance de escada que descia para a área da caldeira. Era uma sala cheia de
grandes e velhos maquinários barulhentos, bom, Steve não sabia como uma caldeira realmente se
parecia. Havia quatro zumbis vagando entre eles e a saída, alguns degraus acima do outro lado da
sala assobiante.
Steve ergueu a metralhadora e estava para atirar quando Claire tocou seu braço, se aproximando
dele.
"Olhe". Ela disse, e apontou a 9mm para o grupo de zumbis estranhando, ele viu que ela mirava
baixo para algo atrás dos zumbis
e pow, BOOM, três criaturas caíram, queimadas e soltando fumaça. Atrás deles, o que restou do
que parecia ser um barril de combustível, apenas entalhes retorcidos de metal envoltos por fumaça
tóxica. O quarto zumbi foi atingido, mas não tão forte. Claire o derrubou com um único tiro na
cabeça antes de falar de novo.
"Isso economiza munição". Ela disse, e passou por ele para descer os degraus. Steve a seguiu,
levemente intimidado, bancando o descolado, como se já tivesse pensado nisso. Se tinha uma
coisa que sabia sobre garotas, era que elas não gostavam de caras que resmungavam feito
patetas.
Não que eu ligue para o que ela pensa de mim, ele pensou consigo. Ela é apenas... até que legal,
e só.
Claire chegou na próxima porta e esperou ele chegar, acenando estar pronto. Assim que ela abriu
a porta, eles relaxaram, ele viu seus ombros caindo e sentiu seu coração batendo de novo. Uma
passagem escura feita de pedras, totalmente deserta, um trecho sem parede adiante à direita.
Havia água corrente em algum lugar abaixo, e um estreito portão bem à frente, igual àqueles
elevadores antigos.
"Isto está começando a parecer fácil demais". Claire disse suavemente.
"É". Steve suspirou. Mais uma armadilha do parquinho maligno do Alfie.
Eles estavam na metade do caminho quando ouviram o eco vindo de algum lugar abaixo da água
escura um estranho e alto, agudo e inumano garganteio, mas não era de animal, também. Soou
bastante zangado e pelos sons de movimento na água, estava se aproximando.
Steve já estava pronto para atirar quando Claire agarrou seu braço e começou a correr,
praticamente arrancando-o do chão. Eles estavam no elevador em dois segundos, Claire
empurrando a grade para o lado e jogando Steve no pequeno elevador, saltando logo em seguida
e fechando a grade.
"Tá bom, caramba, não precisa empurrar". Steve disse, esfregando o braço indignado.
"Desculpe". Ela disse, jogando uma mecha de cabelo atrás da orelha. "É só que eu já ouvi aquele
som antes. Hunters, devia ser esse nome, péssima notícia. Haviam um monte deles soltos em
Raccoon".
Ela sorriu tremendo, o que de repente fez ele querer abraçá-la, ou segurar sua mão. Mas não fez
nada.
"Traz algumas lembranças ruins, sabe?". Ela disse.
Raccoon... foi o lugar bombardeado há alguns meses, se ele se lembrava bem, bem antes de ter
vindo para Rockfort. Foi o próprio chefe da polícia que fez isso. "Umbrella tinha algo a ver com
Raccoon?".
Claire pareceu surpresa, mas sorriu um pouco, voltando sua atenção para os controles do
elevador.
"Longa história. Eu conto quando sairmos daqui. Então, primeiro andar?".
"Sim". Steve disse, mas mudou de idéia. "Na verdade, talvez nós devêssemos ir para o segundo.
De lá poderemos ver o pátio de cima, o que há nele".
"Sabe, você é mais esperto do que parece". Claire disse provocando, apertando o botão. Steve
ainda estava pensando numa resposta quando o elevador parou, e Claire abriu a grade.
Havia uma porta automática à direita, então foram para a esquerda, o curto corredor vazio. Havia
apenas uma porta naquela direção, também, mas tiveram sorte, a maçaneta girou quando Claire
tentou.
Novamente, nenhuma surpresa. A porta deu num velho mezanino empoeirado de madeira, dando
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vista para uma grande sala cheia de tranqueiras um jipe militar enferrujado, pilhas de velhos
galões de óleo e caixas quebradas. Parecia mais um depósito do que outra coisa, e apesar de bem
iluminado, havia vários montes de porcaria impossíveis de ver se estivessem lá embaixo. Apesar
de tudo, Steve ouviu barulhos arrastados.
Ele deu alguns passos à esquerda, tentando ver o canto sob o mezanino, e Claire seguiu. As
tábuas rangendo sob seus pés.
"Não parece muito firme ". Claire começou a falar, e foi interrompida por um gigante craaack,
pedaços do assoalho voando e ambos caindo lá embaixo.
Droga
Steve nem teve tempo para amortecer o impacto, tudo acabou muito rápido. Ele caiu de lado,
estalando o ombro, seu joelho esquerdo batendo em um pedaço de madeira.
Quase que imediatamente, uma pirâmide de barris vazios caíram atrás dele, batendo ocos no chão
e Steve ouviu o gemido faminto do zumbi.
"Claire?". Steve chamou, ficando de pé, procurando ela e o zumbi. Lá estava ela, no meio dos
barris, ainda no chão, esfregando o calcanhar. Seu revólver estava a uns três metros dela. Steve
viu seus olhos arregalarem e acompanhou seu olhar, um único zumbi indo para ela
e tudo o que pôde fazer foi olhar, seu corpo de repente a milhões de quilômetros de distância.
Claire disse algo, mas ele não conseguiu ouvir, concentrado demais no contaminado. Era um
homem grande e gordo, mas alguém tinha arrancado parte de seus intestinos. Os ferimentos
abertos e grudentos em sua barriga estavam pingando, a camiseta escura ainda mais escura com
a camada de sangue grudada no tecido. Seu rosto estava cinza e seus olhos vazios, como todos
eles, e tinha mordido a própria língua ou a comido sua boca suja de sangue.
Claire disse outra coisa, mas Steve lembrou de algo, uma súbita e vívida memória tão real que foi
quase como reviver a experiência. Ele tinha quatro ou cinco anos quando seu pai o levou para seu
primeiro desfile, um desfile de ação de graças. Ele estava sentado nos ombros do pai, vendo os
palhaços passarem, cercado por pessoas gritando bem alto, e ele tinha começado a chorar. Ele
não se lembrava o porquê; mas ele lembrava que seu pai estava olhando para cima, seus olhos
preocupados e cheios de amor. Quando ele perguntou o que estava errado, sua voz foi tão familiar
e amorosa que Steve envolveu os bracinhos no pescoço do pai e escondeu o rosto, ainda
chorando, mas sabendo que estava seguro, que não estaria em perigo enquanto seu pai o
estivesse segurando
"Steve!".
Claire praticamente gritou seu nome e ele viu que o zumbi estava quase em cima dela, seu
dedos cinza fechando em volta do seu colete, erguendo ela até sua boca sangrenta.
Steve gritou, também, abrindo fogo, o trovão das balas rasgando o rosto e corpo de seu pai,
derrubando ele para longe de Claire. Ele continuou atirando, continuou gritando até seu pai
congelar no chão e as balas acabarem, apenas cliques secos vindos da arma, e então Claire
estava tocando seu ombro, virando-o enquanto ele chamava por seu pai, chorando.
Eles sentaram por alguns minutos. Quando ele conseguiu falar, ele falou sobre o assunto,
abraçando os joelhos e de cabeça abaixada. Falou sobre seu pai, que tinha trabalhado para a
Umbrella como motorista, e foi pego tentando roubar a fórmula de um de seus laboratórios. Ele
falou sobre sua mãe que foi baleada por um trio de soldados da Umbrella em sua própria casa,
sufocando e sangrando e morrendo no chão da sala quando Steve voltou da escola. Os homens
levaram Steve e seu pai para Rockfort.
"Eu pensei que ele tivesse morrido no ataque aéreo". Steve disse, enxugando os olhos. "Eu queria
que se sentisse mal sobre isso, mas só estava pensando na mamãe... mas eu não queria que ele
morresse, não queria, eu... eu amava ele também".
Dizer isso em voz alta fez ele começar a chorar de novo. Os braços de Claire estavam ao redor
dele, mas ele mal os sentia, tão triste que achou que fosse morrer. Ele sabia que precisava se
levantar, ele tinha que achar as chaves e fugir com Claire, mas nada disso parecia importante
agora.
Claire ficou quieta na maior parte do tempo, apenas ouvindo e confortando, até que levantou e
disse para ele ficar onde estava, que voltaria em breve para assim partirem. Isso era bom, ele
queira ficar sozinho. Ele estava mais exausto do que jamais esteve, tão cansado e pesado que não
queria se mover.
Claire foi embora, e Steve decidiu que deveria procurar os brasões, em breve, assim que parasse
de tremer.
37
[7]
Na fria escuridão, Rodrigo descansou inseguro. Então ele ouviu um ruído no corredor, e fez força
para abrir os olhos, para se preparar. Ele ergueu sua arma, apoiando seu pulso na mesa quando
percebeu que não tinha força para segurá-la.
Eu vou matar qualquer um que mexer comigo, ele pensou, mais por hábito do que por outro motivo,
grato por ter uma arma mesmo se já for um homem morto. Um guarda zumbi caiu da escada e se
arrastou para a cela pouco tempo depois que a garota partiu. Rodrigo o matou com sua bota e
pegou sua arma, ainda no coldre da perna quebrada.
Ele esperou, desejando poder voltar a dormir, tentando ficar alerta. A arma acalmou sua mente,
levou boa parte de seu medo. Ele iria morrer logo, era inevitável... mas ele não queria se tornar um
deles, independente de qualquer coisa. Suicídio deveria ser um pecado particularmente ruim, mas
sabia que se não conseguisse eliminar um dos contaminados a tempo, comeria uma bala antes
que a criatura o tocasse. Ele provavelmente iria para o inferno.
Passos, e alguém estava se aproximando, bem rápido. Um zumbi? Seus sentidos não estavam
funcionando bem, ele não sabia dizer se as coisas estavam acelerando ou se ele estava ficando
devagar, mas ele sabia que atiraria em breve ou perderia a chance.
De repente, uma luz pequena mas penetrante e lá estava ela, de pé na frente dele como um
sonho. A Redfield, viva, segurando um isqueiro no alto. Ela o deixou aceso na mesa como uma
lamparina.
"O que você está fazendo aqui?". Rodrigo murmurou, e ela estava revirando sua bolsa ao redor da
cintura sem olhar para ele. Ele deixou a pesada arma cair de seus dedos, fechando os olhos por
um segundo ou por um momento. Quando ele abriu de novo, ela estava tocando seu braço, com
uma seringa na mão.
"É um medicamento hemostático". Ela disse, suas mãos e voz suaves, a picada da agulha curta e
rápida. "Não se preocupe, você não vai ter overdose nem nada, alguém escreveu a dosagem no
verso do frasco. Ele vai diminuir o sangramento interno bem devagar, e você ficará bem até a ajuda
chegar. Eu vou deixar o isqueiro aqui... foi meu irmão que deu pra mim. Traz sorte".
Enquanto ela falava, Rodrigo se concentrava em acordar, em superar a indiferença que tinha
tomado conta dele. O que ela estava dizendo não fazia sentido, pois ele a tinha soltado e ela se
fora. Por que ela voltaria para ajudá-lo?
Porque eu a deixei ir. A percepção o comoveu, o inundou com sentimentos de vergonha e gratidão.
"Eu... você foi muito gentil". Ele suspirou, desejando ter algo que pudesse fazer por ela, algo que
pudesse dizer para retribuir sua compaixão. Ele procurou em suas memórias, rumores e fatos
sobre a ilha, talvez ela pudesse escapar...
"A guilhotina,". Ele disse, piscando, tentando não distorcer demais suas palavras. "a enfermaria fica
atrás dela, a chave está no meu bolso... deve haver segredos lá. Ele sabe das coisas, peças dos
quebra-cabeças... você sabe onde fica a guilhotina?".
Claire acenou. "Sei. Obrigado, Rodrigo, isso vai me ajudar muito. Agora descanse, tá bom?".
Ela esticou a mão e tirou o cabelo da testa dele, um simples gesto tão doce e gentil que o fez
querer chorar.
"Descanse". Ela disse de novo, e ele fechou os olhos, mais calmo, mais em paz do que jamais se
sentiu durante a vida. Seu último pensamento antes de apagar foi que se ela pudesse perdoá-lo
pelas coisas que fez, mostrasse tanta piedade quanto merecia, talvez ele não fosse para o inferno,
afinal.
Rodrigo estava certo sobre os segredos. Claire parou no fim do corredor subterrâneo secreto,
tentando impedir a si mesma de abrir a porta não identificada à sua frente.
A enfermaria em si era pequena e desagradável, nada mais do que esperaria de uma clínica da
Umbrella nenhum equipamento médico à vista, nada moderno. Havia apenas uma maca na sala
da frente, o chão de madeira mal cuidado em volta dela manchado de sangue, uma bandeja de
instrumentos com aparência medieval ao lado. A sala adjacente estava irreconhecível; ela não
sabia dizer para que propósito servia, mas parecia uma mescla entre sala de recuperação e um
38
crematório. Cheirava como tal também.
Havia um pequeno e bagunçado escritório depois da primeira sala, um único corpo esparramado
perto da porta, um homem de avental sujo que tinha morrido com um olhar de terror no fino e
chamuscado rosto. Ele não parecia ter sido infectado, e sendo que não havia infectados na sala e
nenhum ferimento óbvio, ela pensou que tivesse morrido de ataque cardíaco ou algo parecido. A
contorcida expressão em suas feições, olhos arregalados e boca retorcida, sugeriam que ele tinha
morrido de susto.
Claire passou por ele cuidadosamente e achou o primeiro segredo do lugar quase que por
acidente. Sua bota tinha chutado algo enquanto entrava no escritório, uma peça de mármore ou
pedra que rolou pelo chão e que acabou descobrindo ser uma incomum chave. Era um olho de
vidro que pertencia a uma grotesca face de plástico do boneco de anatomia do escritório,
encostada no canto.
Considerando o que Steve tinha dito, sobre ninguém voltar da enfermaria, e considerando o que
ela já sabia sobre a insanidade que a Umbrella parecia atrair, Claire não ficou surpresa ao
descobrir a passagem atrás da parede do escritório. Um gasto conjunto de degraus de pedra foi
revelado ao colocar o olho no boneco, que também não a surpreendeu. Era um segredo, um
truque, e a Umbrella se resumia em segredos e truques.
Então abra a porta. Acabe logo com isso.
Certo. Ela não tinha o dia todo. Ela não queria deixar Steve sozinho por muito tempo, também, ela
estava preocupada com ele. Ele teve que matar o próprio pai; ela não podia imaginar o tipo de
dano psicológico que isso causaria em alguém...
Claire balançou a cabeça, irritada com sua própria perda de tempo. Não importava que ela estava
num lugar assustador e estéril, onde muitas pessoas poderiam ter morrido, onde ela podia sentir a
penetrante atmosfera de terror emanando das frias paredes, tentando envolvê-la como uma
mortalha...
"Não importa". Ela disse, e abriu a porta.
Imediatamente, três contaminados tropeçaram na direção dela, ganhando sua atenção, impedindo
que ela visse os detalhes da grande sala onde estavam. Todos os três estavam severamente
desfigurados, membros faltando e longas tiras de pele rasgada, sua carne podre esfolada e crua.
Eles se moviam devagar, dolorosamente arrastando-se até ela, e ela pode ver cicatrizes mais
velhas na pele exposta. Mesmo enquanto mirava no primeiro, o nó de temor em seu estômago
estava aumentando, deixando-a enjoada.
Ao menos acabou rápido mas a terrível suspeita que crescia em sua mente, que esperava ser
falsa, foi confirmada com uma única olhada em volta.
Meu Deus.
O salão era estranhamente elegante, a quieta iluminação vinda de candelabros pendurados. O
chão era de lajotas, com uma passadeira de carpete elegante até a área de estar do outro lado do
salão. Havia uma poltrona estofada de veludo e uma mesa de centro de cerejeira, a poltrona
posicionada de modo que alguém sentado nela pudesse ver todo o salão... pior do que o calabouço
do Chefe Irons, escondido no subterrâneo de Raccoon.
Havia duas piscinas construídas sob medida, uma com um pelourinho fixado no peitoril, e a outra
com uma jaula suspensa. Correntes penduradas nas paredes, umas com algemas bem usadas e
outras com colares de couro algumas com ganchos. Haviam alguns mecanismos elaborados que
ela não olhou de perto, coisas com engrenagens e estacas de metal.
Engolindo a bile de volta, Claire focou na área de estar. A elegância dos móveis e da sala em si
tornava as coisas piores, adicionando um toque de ego deturpado para a óbvia psicose de seu
criador. Como se não fosse suficiente gostar de torturar pessoas, ele ou ela queria observar no
luxo, como algum aristocrata maluco.
Ela viu um livro na mesinha e andou para pegá-lo, mantendo seu olhar para frente. Zumbis,
monstros e morte em vão eram coisas horríveis, trágicas ou aterrorizantes, ou tudo isso mas o
tipo doentio representado pelas correntes e pelos dispositivos em volta dela estava apavorando
sua alma, pois a fazia desistir de sua fé na humanidade.
O livro era na verdade um diário, com capa de couro e papel grosso de alta qualidade. A primeira
página dizia ser propriedade de um tal de Dr. Enoch Stoker, sem título ou qualquer outra inscrição.
"Ele sabe das coisas, peças dos quebra-cabeças...".
Claire não queria tocá-lo quanto mais lê-lo, mas Rodrigo parecia achar que isso ajudaria. Ela
folheou algumas páginas, viu que nada estava datado, e começou a vasculhar a estreita e
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aracnídea escrita por uma palavra ou nome familiar, alguma coisa sobre quebra-cabeças, talvez...
ali, uma anotação que fazia várias referências a Alfred Ashford.
Ela respirou fundo e começou.
Nós finalmente discutimos hoje sobre os detalhes de minhas preferências e prazeres. O Sr.
Ashford não quis compartilhar as suas, mas estava mais incentivador do que quando cheguei há
seis semanas. Ele foi informado no começo que minhas necessidades não eram convencionais,
mas agora ele sabe de tudo, até as pequenas coisas. Eu estava desconfortável no começo, mas o
Sr. Ashford Alfred, ele insistiu que eu o chamasse de Alfred provou ser um animado
expectador. Ele disse que sua irmã e ele apoiavam fortemente a pesquisa nos limites da
experiência. Ele me disse que eu deveria pensar neles como espíritos semelhantes, e que aqui, eu
tenho total liberdade.
Foi estranho, descrever em voz alta meus sentimentos, sensações e pensamentos que nunca tinha
compartilhado. Eu contei como tudo tinha começado, quando eu ainda era um menino. Sobre os
animais que usei no começo e mais tarde com outras crianças. Até então eu não sabia que era
capaz de matar, mas eu sabia que ver sangue me excitava, que causar dor preenchia um vazio e
solitário espaço dentro de mim, com profundas sensações de poder e controle.
Eu acho que ele entende sobre gritos, sobre o quanto importante os gritos são para mim e
Já chega. Isso não era o que estava procurando, e a estava fazendo querer vomitar. Ela virou
algumas páginas, achou outra anotação sobre Alfred e sua irmã, viu algo sobre uma casa particular
e voltou um pouco, franzindo.
Alfred participou hoje de uma das minhas autópsias vivas, e depois de tudo disse que Alexia tinha
perguntado por mim, queria saber se eu tinha tudo o que precisava. Alfred protegia Alexia, não
deixava ninguém chegar perto dela. Eu ainda não pedi para conhecê-la, e nem pretendo fazer
isso; Alfred quer que sua casa particular continue privada, e manter Alexia só para si. Ela fica atrás
da mansão de recepção, ele me disse, e a maioria das pessoas não sabe de sua existência. Eu
acho que ele aprecia ter uma conhecida com interesses em comum.
Ele disse que Rockfort tem muitos lugares que requerem chaves incomuns tais como o olho que
ele me deu algumas novas, outras bem velhas. Edward Ashford, o avô de Alfred, era
aparentemente obcecado por segredos, uma obsessão compartilhada por outros fundadores da
Umbrella, segundo Alfred. Ele e Alexia são os únicos vivos que conhecem todos os esconderijos de
Rockfort, ele disse. Alfred ganhou molhos completos feitos para os dois herdeiros quando assumiu
a posição de seu pai. Eu brinquei dizendo que era sempre bom ter chaves reserva em caso de ficar
preso, e ele riu. Ele disse que Alexia sempre o deixaria entrar.
Eu acredito que gêmeos tem laços mais apertados do que a maioria dos irmãos que de modo
figurativo, se você cortar um, o outro sangrará. Eu gostaria muito de testar essa teoria de modo
mais literal, levando em conta níveis de dor. Eu descobri que preencher um ferimento fresco com
cacos de vidro e costurá-lo é um
Enojada, Claire largou o livro e limpou as mãos em seu jeans, decidindo que já tinha informações o
suficiente para continuar. Ela desejava sinceramente que o corpo lá em cima fosse do Dr. Stoker,
que seu coração escuro o tivesse deixado na mão e que o pensamento de ir pro inferno tivesse
congelado seu rosto numa máscara de terror e ela percebeu abruptamente que já teve o
suficiente daquela atmosfera, que se passasse mais um segundo na enfermaria, certamente iria
vomitar. Ela virou e andou rápido para a porta, corria a toda quando chegou na escada. De dois em
dois degraus, ela chegou lá em cima e correu pela sala, sem olhar para o corpo, sem pensar em
mais nada exceto na necessidade de sair.
Quando ela chegou no lado de fora que levava para a porta da guilhotina, ela se jogou na parede e
ofegou pulmões cheios de ar, concentrando-se em manter sua garganta para baixo. Levou alguns
minutos antes que estivesse fora da zona de perigo.
Quando se sentiu pronta, Claire colocou um pente novo em sua semi-automática e começou a
voltar para o complexo de treinamento. Ela percebeu que tinha perdido a segunda arma que Steve
a tinha dado em algum lugar entre o salão de tortura e a porta da frente, mas não havia nada no
mundo que a faria por os pés lá dentro de novo. Ela iria atrás de Steve, e eles iriam achar aquelas
malditas chaves, e iriam dar o fora do hospício que a Umbrella tinha criado em Rockfort.
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Steve chorou por um tempo, e rolou para lá e para cá, ciente de que tinha feito uma Grande Coisa
por experiência de vida, havia as pequenas coisas, depois as grandes, e depois as Grandes com
G maiúsculo. Havia algumas coisas que mudavam a vida de uma pessoa para sempre, e esta era
uma delas. Ele teve que matar seu próprio pai. Seus pais, boas pessoas inofensivas, estavam
mortos. Isso significava que não tinha mais ninguém no mundo para amá-lo agora, e foi esse
pensamento que continuava se repetindo, fazendo-o chorar e rolar para lá e para cá.
Foi o pensamento das Lugers que finalmente o chacoalhou de seu inferno emocional particular,
que o fez lembrar onde estava e o que estava acontecendo. Ele ainda se sentia completamente
terrível, doendo por dentro e por fora, mas começou a sintonizar-se no ambiente, desejando que
Claire estivesse com ele, desejando um copo d'água.
As Lugers. Steve esfregou seus olhos inchados e tirou as armas do cinto, olhando-as. Era
besteira, sem importância mas em algum lugar no fundo de sua mente, ele finalmente percebeu
que ao tirar as armas da parede, ficou preso e o aquecimento começou. Foi uma armadilha... e até
onde podia imaginar, o único propósito de uma armadilha assim era para evitar que alguém
pegasse as armas.
O que significa que elas poderiam ser úteis para algo além de atirar. É, elas eram douradas,
bonitas e provavelmente bem caras, e os Ashford não tinham problemas financeiros... e se as
armas tiverem algum valor sentimental, porque estavam sendo usadas como parte de uma
armadilha?
Ele decidiu que queria voltar e olhar mais de perto o local onde estavam, ver se colocá-las de volta
faria alguma coisa. Era uma caminhada de dois minutos de volta para a mansão, melhor, ele
poderia ir e voltar em cinco; Claire esperaria por ele caso voltasse primeiro.
E se eu ficar aqui, vou ficar chorando. Ele queria, precisava de algo para fazer.
Steve ficou de pé, sentindo-se trêmulo e meio vazio enquanto sacudia a terra de suas calças,
incapaz de evitar olhar para onde seu pai tinha morrido. Ele sentiu uma onda de alívio quando viu
que Claire tinha coberto o corpo com um retalho de pano. Ela era uma ótima garota... apesar de,
por algum motivo, ele sentiu-se estranho sobre ela, sobre querer dizer tudo aquilo para ela. Ele
não tinha certeza do que sentia.
Ele saiu de lá, e ficou vagamente surpreso por ver que não estava no pátio frontal do complexo de
treinamento. Ele também ficou vagamente surpreso por ver que na pequena área de muros altos
havia o que parecia ser um tanque Sherman da Segunda Guerra Mundial. Gigante, com esteiras
encrostadas de lama, canhão giratório, o conjunto completo.
Ele poderia ter ficado interessado antes, ou ao menos mais do que apenas surpreso não havia
motivo algum para haver um tanque na base de Rockfort mas tudo o que queria fazer agora era
verificar a armadilha das Lugers, ver se ao menos conseguia contribuir com algo que pudesse
tirá-los da ilha. Ele ficou mal imaginando se Claire não estava demorando por estar interrogando o
cara da Umbrella, sendo que foi idéia dele.
Do outro lado do tanque estava uma porta que dava no pátio do complexo de treinamento. Ao
menos seu senso de direção não estava completamente perdido. Parecia mais escuro do que
antes; Steve olhou para cima e viu que o céu tinha ficado nublado de novo, bloqueando a lua e as
estrelas. Ele estava na metade do pátio quando ouviu um trovão, alto o suficiente que fez o chão
parecer tremer sob seus pés. Ao alcançar o outro lado, começou a chover de novo.
Steve apertou o passo, virando à direita ao sair e correndo para a mansão. A chuva estava pesada
e fria, mas era bem vinda. Ele abriu a boca e voltou o rosto para o céu, deixando a chuva lavá-lo.
Steve ficou ensopado em apenas alguns segundos.
"Steve!".
Claire.
Ele sentiu seu estômago dar um pequeno nó, virando para vê-la se aproximar. Ela o alcançou
antes do portão para a mansão, usando uma preocupada expressão no rosto.
"Você está bem?". Ela perguntou, estudando as dúvidas dele, tirando a chuva de seus olhos com
um piscar.
Steve queria dizer que estava ótimo, que tinha sacudido o pior de tudo e que estava pronto para
voltar ao espancamento de zumbis, mas quando abriu a boca nada disso foi de dito.
"Eu não sei. Eu acho que sim". Ele disse honestamente. Ele conseguiu sorrir um pouco, sem
querer que ela se preocupasse demais e não querendo falar sobre isso, também.
Ela parecia entender, mudando de assunto suavemente. "Eu descobri que os gêmeos Ashford têm
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uma casa particular atrás da recepção". Ela disse. "E eu não tenho cem por cento de certeza, mas
as chaves que estamos procurando podem estar lá. Há uma boa chance".
"Você descobriu tudo isso com o, eh, Rodrigo?". Steve perguntou cheio de dúvidas. É difícil
imaginar que um empregado da Umbrella diria tudo isso para o inimigo.
Claire hesitou, depois acenou. "Indiretamente sim". Ela disse, e de repente ele teve a sensação de
que ela não queria dizer algo. Ele não pressionou, apenas esperou.
O problema é chegar na casa,". Ela continuou. "Eu tenho certeza de que está bem trancada. Eu
acho que devemos fuçar a recepção mais um pouco, ver se achamos um mapa ou uma
passagem...".
Ela tirou seu cabelo molhado dos olhos sorrindo. "... e, você sabe, sair da chuva antes que
fiquemos ensopados".
Steve concordou. Eles cruzaram o portão para o bonito jardim, passando por cima de alguns
corpos pelo caminho. Ele contou sua idéia sobre as Lugers, idéia que ela considerou importante
perseguirem apesar de ter apontado que com a família Ashford comandando a ilha, os
quebra-cabeças da Umbrella poderiam não ser tão lógicos.
Eles pararam na porta da frente para fazerem o que podiam com suas roupas, o que não foi muito
afinal. Ambos estavam ensopados e fizeram o melhor que podiam para tirar o excesso. Felizmente,
seus pés estavam secos; roupas molhadas eram uma droga, mas tentar andar por aí com botas
encharcadas eram um pé no saco.
De armas para cima, Steve abriu a porta. Tremendo de frio, eles entraram
e ouviram uma porta fechar, escada acima e à direita.
"Alfred,". Steve disse em voz baixa. "quer apostar quanto? O que me diz de fazemos alguns
buracos em seu traseiro?".
Ele foi na direção da escada, a pergunta retórica. Aquele canalha lunático precisava estar morto,
por mais motivos que Steve podia contar.
Claire o alcançou e tocou seu ombro. "Escute, eu descobri essas coisas lá na prisão... ele não é só
maluco, mas seriamente desordenado. Como um psicopata desordenado".
"Tá, entendi". Steve disse. "Mais um motivo para pegá-lo o mais rápido possível".
"Apenas... vamos tomar cuidado, está bem?".
Claire parecia preocupada, e Steve sentiu-se protetor de repente, bom divertimento.
Ah, sim, ele não vai escapar, ele disse bravo, mas acenou para Claire. "Pode deixar".
Eles subiram rapidamente, parando do lado de fora da porta que tinham ouvido fechar. Steve deu
um passo à frente de Claire, que levantou uma sobrancelha, mas não disse nada.
"No três". Ele suspirou, girando a maçaneta bem devagar, aliviado por estar destrancada. "Um
dois três!".
Ele empurrou a porta com o ombro, bem forte, invadindo a sala e a varrendo com a pistola, pronta
para atirar em qualquer coisa que se movesse - mas nada se moveu. A sala, um bem iluminado
escritório com estantes de livros, estava vazio.
Claire seguiu adiante e virou à esquerda, depois do sofá e mesa de centro da parede norte.
Desapontado, Steve foi atrás dela, esperando outra porta para outro corredor, tão cansado
daqueles labirintos idiotas em todo canto que podia apenas
Ele parou e olhou, exatamente como Claire. Três metros adiante havia uma porta com dois
espaços vazios em um brasão na altura do peito, os espaços na forma de Lugers.
Steve sentiu uma descarga de adrenalina, de vitória. Ele não tinha motivos para acreditar que
tinham achado o caminho para a casa privativa dos Ashford, mas acreditava mesmo assim. Tanto
quanto Claire.
"Eu acho que conseguimos,". Ela disse suavemente. "quer apostar quanto".
[8]
Minha nossa. Isto é... uau, Claire pensou.
"Uau". Steve suspirou, e ela acenou, sentindo-se completamente fora de si enquanto analisava o
novo ambiente. Ela tinha dito assassino maluco? Parece mais com uma convenção de assassinos.
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Eles encontraram outro quebra-cabeça depois das Lugers, um que tinha a ver com números e uma
passagem bloqueada, mas eles o ignoraram completamente com ambos empurrando a
passagem não ficou bloqueada por muito tempo. Lá fora novamente, eles conseguiram ver a casa
privativa, no topo de uma baixa colina como uma águia em repouso sob a chuva. Era uma mansão,
porém diferente da que eles acabaram de deixar era bem mais velha e escura, cercada pelas
gastas ruínas do que uma vez foi algum tipo de jardim. Querubins de pedra com olhos cegos e
dedos quebrados os observavam enquanto iam na direção da casa, gárgulas com asas erodidas,
pedaços de mármore sob os pés.
Definitivamente de arrepiar... mas de longe tão apavorante, que não está nem na mesma categoria.
Eles pararam no saguão, iluminado por algumas velas estrategicamente posicionadas. Havia um
cheiro de velho no ar, como o de pó e papel velho. O chão era formado por um carpete aveludado,
mas era tão velho que estava gasto em alguns lugares; era difícil distinguir outra cor além de
"escuro". A uma vez grandiosa escadaria estava diretamente na frente deles, levando aos dois
andares superiores; ainda havia um tipo de modesta elegância em seus envelhecidos corrimãos e
degraus ondulados, igual à empoeirada biblioteca à direita e às velhas pinturas penduradas nas
paredes. A palavra assombrada descreve o lugar perfeitamente... com exceção das bonecas.
Pequenos olhos os encaravam de todos os lados. Bonecas chinesas de porcelana frágil, muitas
delas quebradas ou desbotadas, vestidas para o chá da tarde com roupas de seda manchada.
Crianças de plástico, com olhos de plástico abertos e bocas rosas fechadas. Bonecas de pano com
estranhos rostos de botão, pedaços do estofamento saindo pelos membros. Havia montes delas,
pilhas, até bebês de pano enfiados em espetos. Claire não via ordem sã para a organização delas.
Steve a cutucou, apontando para cima. Por um segundo, Claire pensou estar olhando para Alexia,
pendurada no teto mas claro que era outra boneca, em tamanho real, vestida para seu bizarro
linchamento com um simples vestido de gala, a barra e florida flutuando até seus calcanhares
sintéticos.
"Talvez nós devêssemos ". Claire começou a falar e congelou, ouvindo. O som de alguém
falando filtrado até eles lá de cima, a voz de uma mulher. Ela parecia irritada, a fluência de seu
discurso rápido e rude.
Alexia.
A irritada voz foi seguida por um tom chorão e apelativo que Claire reconheceu imediatamente
como sendo de Alfred.
"Vamos lá bater um papo". Steve sussurrou, e foi para a escada sem esperar por uma resposta.
Claire correu atrás dele, incerta sobre ser uma boa idéia, mas não querendo deixá-lo ir sozinho.
As bonecas os observaram em silêncio com olhos sem vida, mantendo sua vigília e paz como o
fizeram por tantos anos.
Alfred nunca se sentia tão perto de Alexia se não estivessem em seus aposentos, onde brincavam
e riam quando pequenos. Ele se sentia perto dela agora, também, mas também profundamente
perturbado por sua raiva, querendo desesperadamente fazê-la feliz novamente. Afinal, foi culpa
sua tê-la deixado preocupada.
"... e eu simplesmente não entendo porque essa Claire e o amigo estão provando ser um desafio
para você". Alexia disse, e apesar da vergonha, ele não conseguia parar de adorá-la, enquanto ela
desfilava pela sala em seu vestido sedoso. Sua irmã gêmea era tremendamente refinada quando
zangada.
"Eu não vou falhar de novo, Alexia, eu prometo ".
"Claro, não vai". Ela disse diretamente. "Porque eu pretendo cuidar disso eu mesma".
Alfred ficou horrorizado. "Não! Você não deve se arriscar querida, eu... e não permitirei isso!".
Alexia o encarou por um momento depois suspirou, balançando a cabeça. Ela deu um passo até
ele, seu olhar suave e amável novamente.
"Você se preocupa demais, irmão". Ela disse. "Você deve sempre se lembrar de abraçar a
dificuldade com orgulho e vigor. Nós somos os Ashford, afinal. Nós ".
Os olhos de Alexia arregalaram, sua face empalidecendo. Ela virou na direção da janela com vista
para o corredor lá fora, seus finos dedos subindo ansiosamente para o colar em seu pescoço. "Tem
alguém no corredor".
Não!
Alexia devia ser mantida a salvo, ninguém devia tocá-la, ninguém! Era Claire Redfield, claro,
finalmente lá para completar sua missão, assassinar sua amada. Frenético para protegê-la, Alfred
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deu meia volta, procurando ali, o rifle estava apoiado na penteadeira de Alexia, onde o tinha
deixado antes de abrir a passagem para o sótão. Ele correu para a passagem, sentindo o medo
dela como seu, a ansiedade compartilhada como se eles fossem um só.
Alfred alcançou a arma e hesitou, confuso. Alexia tinha insistido em lidar com a situação, ela
poderia ficar irritada novamente se ele interferisse... mas, e se algo acontecesse com ela, e se ele
a perdesse...
A maçaneta da porta chacoalhou de repente, bem na hora que Alexia andou e pegou o rifle
sozinha. Ela mal teve tempo de erguer o rifle antes da porta abrir violentamente. Foi a primeira vez
em quase quinze anos que seu quarto foi invadido, e Alexia ficou tão chocada que não atirou de
imediato, não querendo que Alfred se machucasse, não querendo morrer. Os dois prisioneiros
tinham ambas as armas apontadas para ela.
Alexia se conteve, recusando se aterrorizar por duas crianças que a olhavam estranhamente.
Aparentemente não estavam acostumados a encontrar seus superiores.
Use isso a seu favor. Mantenha-os distraídos.
"Srta. Redfield, e Sr. Burnside,". Alexia disse, seu queixo empinado, seu tom de voz tão digno
quanto o nome Ashford requeria. "finalmente nos encontramos. Meu irmão me disse que vocês
causaram uma baita confusão".
Claire andou até ela, o cano da arma abaixando enquanto examinava o rosto de Alexia. Alexia
recuou involuntariamente, repelida pelo avanço e suas roupas molhadas, mantendo seu olhar na
arma de Claire.
Alexia recuou outro passo. Ela ficou encurralada entre a penteadeira e o pé da cama, mas
novamente tudo a seu favor. Quando eles acreditarem que não sou uma ameaça...
"Você é Alexia Ashford?". O rapaz perguntou, impressionado ou apavorado, de boca aberta.
"Eu sou". Ela não seria capaz de tolerar tal grosseria por muito tempo, não de alguém tão inferior.
Claire acenou devagar, ainda olhando nos olhos dela, impertinentemente. "Alexia... onde está seu
irmão?".
Alexia virou para olhar Alfred e ficou pasma, porque ele não estava no quarto. Ele a tinha deixado
para enfrentar essas pessoas sozinha.
Não, não pode ser, ele nunca me abandonou assim
Houve movimento à sua direita e percebeu que era apenas o espelho, e... e...
Alfred estava olhando para ela. Era seu rosto, seu batom e cílios, mas seu cabelo, sua jaqueta. Ela
levantou a mão direita até a boca, chocada, e Alfred fez o mesmo, olhando para ela. Sentindo o
próprio espanto.
Como se fossem um só.
Alexia gritou, derrubando o rifle, esquecendo tudo exceto os dois intrusos enquanto passava por
eles, sem se importar se atirariam ou não. Ela correu para a porta que conectava seu quarto ao de
Alfred, gritando de novo assim que viu a longa peruca loira no chão, o bonito vestido ao lado.
Chorando, ela passou pela porta, um painel giratório, fugindo para o quarto de Alfred
meu quarto
sem saber para onde ia, correndo para a escada. Estava acabado, tudo acabado, tudo arruinado,
tudo uma farsa. Alexia se foi e nunca voltará, e ele tinha ela era
Os gêmeos de repente sabiam o que devia ser feito, a resposta brilhando na bagunçada escuridão
de suas mentes, mostrando-os o caminho. Eles alcançaram a escada e a desceram fazendo
planos, entendendo que era hora de finalmente ficarem juntos, porque finalmente era hora.
Mas antes, eles destruiriam tudo.
"Meu Deus". Steve disse, e quando não conseguiu pensar em outra coisa, ele repetiu.
"Então a Alexia nunca esteve aqui". Claire disse, com a mesma expressão confusa que ele
acreditava estar usando. Ela andou e pegou a peruca balançando a cabeça. "Você acha que ela
realmente existiu?".
"Talvez quando criança". Steve disse. "Um velho guarda na prisão disse que a viu uma vez, uns
vinte anos atrás. Quando Alexander Ashford comandava as coisas".
Por alguns segundos, eles apenas olharam o quarto, Steve pensando em como Alfred reagiu ao
ver a si mesmo no espelho. Foi tão patético que Steve quase sentiu dó do cara.
Acreditar por todo esse tempo que sua irmã vivia aqui talvez a única pessoa no mundo que não o
considerava um maluco total e acabou descobrindo que nem isso tinha.
Claire se sacudiu como quem sente um frio repentino e voltou à realidade. "É melhor nós
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procurarmos aquelas chaves antes que os gêmeos voltem".
Ela apontou com a cabeça para a escada de mão na cabeceira da cama. Ela levava a um buraco
quadrado no teto. "Eu vejo lá em cima, você vê aqui embaixo".
Steve acenou, e assim que Claire desapareceu no teto, ele começou a abrir gavetas e revirá-las.
"Você não vai acreditar no que tem aqui em cima". Claire gritou, bem quando Steve descobriu uma
gaveta cheia de lingerie de seda, calcinhas, sutiãs e outras coisas que não podia ficar adivinhando.
"Idem". Ele respondeu, imaginando até que ponto Alfred foi para fingir ser Alexia. Ele decidiu que
não queria saber.
Ele ouviu Claire andando lá em cima enquanto ia para a penteadeira e começava a vasculhar.
Muita maquiagem, perfumes e jóias, mas nenhuma peça ou emblema, nem uma chave doméstica.
"Nada ainda, mas... ei, tem outra escada!". Claire gritou.
Isso é bom, Steve pensou, achando uma caixa de envelopes com pequenas flores brancas no
papel. Ele estava com mais medo de Alfred voltar e queria sair daquele quarto de irmãos psicóticos
o mais rápido possível. Havia um pequeno cartão branco em cima dos envelopes. Steve o pegou,
reparando na forte escrita feminina.
Querido Alfred você é um brilhante e corajoso soldado, sempre lutando para restaurar o nome
dos Ashford para sua glória original. Meus pensamentos estão sempre com você, meu amado.
Alexia.
Eca. Steve soltou o cartão, fazendo cara feia. Era sua imaginação, ou Alfred tinha desenvolvido
uma relação seriamente anormal com sua irmã imaginária?
É, mas aquilo não era real, não podiam fazer nada... físico. Eca duplo. Novamente, Steve decidiu
não querer saber
"Steve! Steve, eu acho que as encontrei! Estou descendo!".
Tomado por uma instantânea descarga de esperança e otimismo, Steve sorriu, olhando para a
escada, as palavras como música para seus ouvidos. "Não brinca?".
As pernas curvilíneas de Claire apareceram, sua voz bem mais clara e apresentando a mesma
empolgação na resposta enquanto descia rapidamente. "Sem brincadeira. Tinha um pequeno
carrossel lá em cima, e um sótão, dê uma olhada nesta chave em forma de libélula ".
Subitamente um alarme começou a soar, ecoando pela enorme casa, alto e persistente. Claire
saltou da cama, segurando três emblemas e um fino objeto de metal. Os dois travaram o olhar,
compartilhando e confusão, e Steve percebeu que conseguia ouvir o alarme lá fora também, junto
com uma vazia e metálica voz através de um barato sistema de comunicação. O parecia estar
sendo transmitida para a ilha inteira.
Antes que um dos dois pudessem dizer uma palavra, a calma voz começou a dividir espaço com as
sirenes, fria e feminina, era uma gravação.
"O sistema de autodestruição foi ativado. Todos devem evacuar imediatamente. O sistema de
autodestruição foi ativado. Todos devem...".
"Aquele desgraçado". Claire berrou, e Steve a acompanhou, xingando o engomadinho esquisito em
silêncio mas apenas por dois segundos. Eles tinham que ir para o avião.
"Vamos". Steve disse, pegando o rifle de Alfred e tocando as costas de Claire, apressando-a para
a porta. O Centro Carcerário e de Treinamento da Umbrella em Rockfort lugar onde Steve sofreu
por sua mãe e onde perdeu seu pai, onde os últimos descendentes da linhagem dos Ashford
ficaram insanos e onde os inimigos da Umbrella desencadearam o começo do fim estava para ir
pelos ares, e ele particularmente não queria estar por perto.
Claire não precisava de explicações para isso. Juntos, eles atropelaram a porta e correram,
deixando para trás o que havia sobrado das bizarras fantasias de Alfred.
Depois de ativar a seqüência de destruição em sua casa privativa, Alfred e Alexia correram para a
sala de controle principal, Alexia assumindo os complicados controles da mesa. Por toda parte ao
redor deles, luzes piscavam e o computador ditava instruções sob as sirenes. Estava uma
confusão, irritante para ela, mas certamente aterrorizante para os assassinos.
Alexia tinha um plano de fuga, uma chave para o hangar subterrâneo onde os jatos ficavam, mas
ela tinha que ter certeza de que os pirralhos ficariam para trás. Até ela ter certeza de que
morreriam, ela e Alfred não podiam partir.
Ah, eles vão morrer, ela pensou, sorrindo, esperando que nenhum deles fosse pego por uma
explosão direta. É melhor que fiquem feridos por estilhaços, que morram lentamente em tormenta...
ou que talvez fossem caçados e mortos pelos predadores sobreviventes da ilha, engolidos em
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grandes pedaços ensangüentados.
Alexia ligou o sistema de câmeras da mansão de recepção, ansiosa para ver Claire e seu pequeno
cavaleiro cobertos de medo, ou gritando de pânico. Ela não viu nada disso; a mansão estava vazia,
as luzes e sons do desastre iminente inúteis, alertando corredores vazios e salas fechadas.
Eles ainda devem estar na nossa casa, assustados demais para fugir, esperando
desesperadamente que a destruição não os atingisse... não iria, claro, independente do que
acontecesse na ilha, a casa não seria afetada
Alexia os achou depois e sentiu seu bom humor desaparecer, seu ódio fervendo para raiva. O
monitor os mostrou na doca do submarino, o rapaz girando o timão. O céu estava começando a
clarear, mudando de preto para azul escuro, a fraca luz da lua se pondo definindo suas traiçoeiras
e furtivas silhuetas.
Não. Não havia chance para eles. Verdade, o avião de carga ainda estava atracado e a ponte
levantada, mas Alfred tinha jogado os emblemas no mar após o ataque aéreo. Eles não tinham a
mínima chance...
.. só que os emblemas estavam no meu quarto.
"Não!". Alexia gritou, socando a mesa de controle com o punho, furiosa. Ela não passaria por isso,
não iria! Ela os matará em pessoa, arrancar seus olhos e rasgá-los ao meio!
Tente o Tyrant, Alfred cochichou em seu ouvido.
A raiva de Alexia virou paixão, alegria. Isso. Isso, o Tyrant ainda estava em estase! E era
inteligente o bastante para seguir instruções, desde que fossem simples, direto ao ponto.
"Vocês não vão escapar!". Alexia gritou, gargalhando, girando de prazer e vitória... e depois de um
momento, Alfred se juntou à comemoração, incapaz de negar o quanto profundamente gratificante
seria, enquanto mudava seu discurso para a contagem final.
O caminho para o avião foi uma sujeira - a corrida violenta para fora da casa dos Ashford, a
escorregadia descida da colina molhada de chuva até a recepção e escada abaixo, outra escada
até a doca onde Steve chamou o submarino. Cada passo do caminho parecia acelerar os alarmes,
a contínua voz lembrando-os do óbvio.
Enquanto saíam do submarino, a insensível voz feminina começou uma nova mensagem e
apesar das palavras não serem exatamente iguais, Claire teve uma súbita lembrança de Raccoon,
de estar parada na plataforma do trem enquanto outro anúncio de autodestruição anunciava que o
fim estava próximo.
"O sistema de destruição está agora ativo. Faltam cinco minutos para a detonação inicial".
"Bom, isso é uma droga". Steve disse, pela primeira vez desde que saíram da mansão. E apesar
do medo de não conseguirem fugir a tempo, da exaustão e das terríveis lembranças que ela levaria
consigo, a expressão facial de Steve a fez achar o comentário engraçado.
É uma droga mesmo, não é?
Claire começou a rir, e apesar de ter tentado parar imediatamente, ela não conseguiu. Parecia que
até a morte iminente não conseguiria fazer a risada parar. Isso ou a histeria acabou sendo mais
divertido do que imaginava... e o olhar no rosto de Steve não estava ajudando.
Histérica ou não, ela sabia que precisava andar. "Vai". Ela falou apertado, empurrando-o para
frente.
Ainda olhando para ela como se tivesse perdido o controle, Steve agarrou seu braço e a trouxe
consigo. Depois de alguns degraus cambaleantes e perceber que a risada dela poderia acabar
matando os dois Claire conseguiu se conter.
"Eu estou bem". Ela disse, respirando fundo, e Steve a soltou, um olhar de alívio em seu rosto
pálido.
Eles correram algumas escadas abaixo e através de um túnel submerso, e assim que alcançaram
a porta no final do corredor, o computador lhes informou que outro minuto havia passado, que
restava apenas quatro minutos. Isso tinha acabado com qualquer chance de começar a rir de novo.
Steve abriu a porta e correu para a direita, ambos saltando sobre o trio de cadáveres, todos
contaminados, todos com uniforme da Umbrella. Claire pensou em Rodrigo, e seu coração apertou.
Ela esperava que ele estivesse seguro onde estivesse, e que estivesse em condições de fugir do
complexo... mas não podia se enganar quanto suas chances. Ela o desejou sorte silenciosamente,
e seguiu Steve através de outra porta.
Sua jornada havia terminado numa grande e escura caverna, um hangar para aviões aquáticos, e a
esperança de fuga parada bem na frente deles um pequeno avião de carga flutuando logo após a
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plataforma que estavam. Não muito longe à direita, a luz azul do amanhecer definia a passagem
para o mar.
"Ali". Steve disse, e correu para o pequeno elevador no fim da plataforma, um com um painel de
controle. Claire o alcançou, tirando os três emblemas da bolsa.
"A seqüência de autodestruição está agora ativada. Restam três minutos para a detonação inicial".
O painel de controle tinha três espaços hexagonais. Steve pegou duas das peças e juntos, eles
encaixaram as três.
Ah, Deus, por favor, por favor , por favor
Deu para ouvir um click as luzes do painel acenderam, e um profundo ruído veio do maquinário.
Steve riu, e Claire percebeu que estava prendendo a respiração quando repentinamente começou
a respirar de novo.
"Agüente firme". Steve disse, e varreu sua mão sobre o painel, apertando tudo.
Com um pequeno chacoalho, o elevador começou a abaixar na diagonal, e a porta de cantos
arredondados do avião abriu, expondo um pequeno conjunto de degraus. Claire sentiu que tudo
parecia acontecer em câmara lenta, um tipo de surrealidade enquanto o elevador encontrava-se
com a base dos degraus, chacoalhando de novo; era difícil imaginar que estava finalmente
acontecendo, que estavam saindo da ilha amaldiçoada da Umbrella.
Que se dane acreditar, apenas vá!
Eles entraram no avião, Steve correndo para iniciar o vôo enquanto Claire verificava rapidamente o
resto do lugar - uma grande e praticamente vazia área de carga constituía a parte de trás do avião,
separada da cabine por uma porta a prova de som. Não havia muito conforto além de um armário
atrás do assento do piloto e um armário embutido que continha dois galões de água, para o alívio
de Claire.
Apesar de abafado, eles ainda podiam ouvir o alerta soando pelo hangar enquanto Steve achava
os controles da porta, a mesma levantando e trancando assim que a contagem marcava dois
minutos. Claire correu até ele, e seu coração realmente começando a bater; dois minutos não era
muito.
Ela queria ajudar, perguntar o que podia fazer, mas toda a atenção de Steve estava no painel. Ela
lembrou o que ele disse sobre habilidades de vôo duvidosas, mas sendo que não possuía
nenhuma, ela ficou quieta. Os segundos passaram e ela teve que se conter para não tagarelar,
para não distraí-lo.
Os motores começaram a ligar, o som aumentando e estabilizando, os nervos de Claire também
e quando a voz feminina falou de novo, Claire se viu agarrando a cadeira de Steve por trás, seus
dedos brancos.
"Resta agora um minuto até a detonação inicial, 59... 58... 57...".
E se for complicado de mais e ele não conseguir, Claire pensou, certa de que estava para explodir.
"44... 43..."
O Steve ergueu-se de repente, agarrando uma alavanca olhando para a direita e empurrando-a
para frente antes de segurar o manche. O som do motor ficou mais alto, e bem devagar, o avião
começou a andar.
"Está pronta?". Ele perguntou, um sorriso em sua voz, e Claire quase caiu de alívio, seus joelhos
fracos.
"30... 29... 28...".
O avião passou pela baixa ponte de metal, perto o bastante para ver as ondas. Houve uma forte
pancada acima, como se a ponte tivesse acertado o avião, mas eles continuaram em movimento,
devagar e constante.
"17... 16...".
Steve manobrou em mar aberto, a contagem chegando a dez... e então ficou longe demais para
ser ouvida assim que os motores ficaram bem mais altos enquanto ganhavam velocidade, o suave
passeio ficando turbulento enquanto começavam a voar sobre as ondas. Havia luz o bastante para
Claire ver a costa da ilha à direita, rochosa e traiçoeira. Tinha baixos penhascos cercando a maior
parte de Rockfort, levantando-se das águas como as paredes de um forte.
Logo depois que Steve puxou o manche para trás, para levantar o veloz avião, Claire viu as
primeiras explosões, o som alcançando-os um segundo depois uma série de profundos booms
que se distanciavam rapidamente, desaparecendo enquanto Steve levantava-os gentilmente.
Assim que o avião de carga decolou, gigantes nuvens de fumaça preta subiram ao céu matutino,
formando sombras sobre o complexo desintegrado. Chamas estavam por toda parte, e apesar de
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não conhecer o layout do lugar, pensou ter visto a casa particular dos Ashford sendo engolida pelo
fogo, uma imensa luz laranja atrás do que tinha sobrado da mansão de recepção. Ainda havia
estruturas de pé, imensos pedaços estavam faltando, reduzidos a escombros e poeira.
Claire respirou fundo e exalou devagar, sentindo músculos amarrados começarem a desatar.
Estava acabado. Outro complexo da Umbrella perdido, por causa de uma integridade científica que
continuavam a violar, por causa da ausência de moral que parecia ser um elemento fundamental
nas normas de uma companhia. Ela esperava que a alma torturada e distorcida de Alfred Ashford
pudesse finalmente pudesse ter achado um pouco de paz... ou seja lá o que realmente merecia.
"Então, para onde?". Steve perguntou casualmente, e a tirou de seus pensamentos, Claire se
afastou da janela lateral, sorrindo, pronta para beijar o piloto.
Steve encontrou o olhar dela, sorrindo e enquanto olhavam nos olhos, os segundos esticaram,
pela primeira vez ela percebeu que ele não era uma criança. Nenhuma criança olharia para ela do
modo como ele a estava olhando... e apesar de sua decisão de não encorajá-lo, ela não desviou o
olhar. Ele era atraente, mas ela tinha passado as últimas doze horas pensando nele como um
irmão insolente não exatamente fácil de se livrar, mesmo se quisesse. Por outro lado, depois de
tudo o que passaram, ela se sentia íntima dele, de modo sólido, forte, uma afeição que parecia
perfeitamente natural...
Claire interrompeu o contato visual primeiro. Eles estavam livres e a salvo durante um minuto e
meio; ela queria digerir aquilo um pouco antes de seguir adiante.
Steve voltou sua atenção para os controles, corado e houve uma pancada no teto, como da
última vez no hangar.
"O que foi isso?". Claire perguntou, olhando para cima como se esperasse algo atravessar o metal.
"Não faço a mínima idéia". Steve disse, franzido. "Não há nada lá em cima ".
CRUUNCH!
O avião parecia balançar no ar e Steve tentou compensar, enquanto Claire olhava instintivamente
para trás. O som destrutivo vinha da área de carga.
"A comporta abriu". Steve disse, apertando uma pequena luz piscando no painel, e depois outro.
"Eu não consigo fechá-la".
"Eu vou até lá". Claire disse, e sorriu com a triste expressão de Steve. "Apenas mantenha a gente
no ar, tá bom? Eu prometo não pular".
Ela virou para a porta, e assim que Steve olhou para frente, ela pegou o rifle atrás do assento do
piloto, aquele que Alfred tinha derrubado. Ela ainda tinha a semi-automática, mas a mira laser
significava precisão - e sendo que não queria encher o avião de buracos, a .22 era a melhor
escolha. Teve um monstro ou dois na ilha, e podem estar com um passageiro clandestino, mas não
queria que Steve se preocupasse, ou se envolvesse. Ambos precisavam dele no comando.
Seja lá o que for, eu vou te que resolver, ela pensou firmemente, tocando a maçaneta. Ela
provavelmente estava subestimando um probleminha mecânico, uma placa solta do teto e uma
dobradiça quebrada. Ela abriu a porta
e entrou, batendo a porta antes que Steve ouvisse o barulho, demais para um pequeno
A comporta estava faltando, arrancada de lá, nuvens e céu passavam incrivelmente rápido.
Confusa, Claire deu um passo adiante e viu qual era o problema.
Mr. X, ela pensou de repente, lembrando da monstruosa coisa em Raccoon, o perseguidor
implacável de sobretudo escuro mas a enorme criatura abaixada perto dos trilhos hidráulicos não
era igual. Era humanóide, gigante e careca como o monstro X, sua pele semelhante, quase um
cinza metálico escuro porém, era mais alto e musculoso, como um fisiculturista de dois metros e
meio de altura, seus ombros extremamente largos, seu abdômen detalhado com músculos. Não
tinha sexo, um calombo em sua virilha, e as mãos não eram humanas, eram bem mais letais. Seu
punho esquerdo era uma massa redonda de carne maior que a cabeça de Claire inteira, sua mão
direita era uma mistura de carne e facas curvas, duas delas com pelo menos trinta centímetros.
E não está usando um casaco, ela pensou enquanto o monstro virava seus brancos para ela antes
de olhar para cima e gritar, uma explosão de fúria e sede de sangue.
Aterrorizada, mas determinada, Claire levantou sua agora ridícula arma enquanto a criatura ia para
a ela, e colocou o ponto vermelho em seu olho direito incolor. Ela apertou o gatilho
e ouviu o clique seco do pente vazio, ensurdecedoramente alto mesmo em meio aos ferozes
ventos que passavam pela porta danificada.
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[9]
Não havia um palavrão forte o bastante para expressar precisamente seu terror. Claire largou a
inútil arma instantaneamente e correu, desviando para a direita, não querendo ser encurralada no
canto, sem acreditar que tinha esquecido de conferir a arma. havia seis ou sete caixas empilhadas
do lado direito da porta da cabine, mas sem cobertura lá, em ambos os lados; a criatura iria
encurralá-la.
Vai vai vai!
Enquanto ela corria ao lado da parede direita, a enorme criatura virava lentamente para
acompanhá-la, ela tirou a 9mm do cinto e a destravou sem olhar, com medo de perdê-lo de vista.
Ele andou para ela sobre suas troncudas pernas, totalmente concentrado nos passos dela.
A área de carga não era tão grande, talvez dez metros comprimento por três e meio de largura. Ela
logo chegou na traseira do avião, o vento gelado subitamente puxando-a tentando sugá-la para as
nuvens. Agachando, tentando não tropeçar, Claire cruzou o espaço aberto e alcançou a outra
parede, agarrando um pedaço torto de metal com seus dedos trêmulos.
A criatura estava a quase seis metros de distância. Claire segurou na parede, esperando ele
chegar mais perto antes de correr de novo. Pelo menos era lento, mas ela precisava pensar em
algo, ela não podia ficar andando em círculos.
Ela estava de olho na criatura, podia vê-la claramente... mas o que aconteceu depois foi algum
tipo de ilusão ótica. Ele abaixou sua cabeça um pouco e
e de repente estava a um metro e meio, a distância coberta em menos de uma fração de
segundo, e estava descendo seu braço direito, partindo o ar com um whoosh, as facas brilhando
Claire não pensou, ela correu, seu estômago de repente na garganta, seu próprio movimento
desapercebido. Por um segundo ela foi apenas um corpo, agachando e correndo e então estava
do outro lado do avião, perto das caixas, olhando para a criatura que virava devagar.
Ah, que se dane! O avião sobreviveria a alguns buracos, ela abriu fogo, mandou oito balas de 9mm
na direção do peito dele e acertou todos. Ela viu buracos aparecerem perto de onde seu coração
estaria se fosse humano, nenhum sangue exceto a exposição de um tecido escuro e úmido,
formando um inchaço esponjoso em torno dos ferimentos. A criatura parou onde estava e andou
novamente depois de dois segundos, um lento passo depois do outro, seu objetivo inalterado.
Uma facada de pânico a acertou, tenho que dar o fora daqui, ele vai me matar, Steve, talvez outra
arma
Não, ela não podia, e não iria ajudar, apenas tornaria as coisas piores. O Mr. X tinha sido
programado para um único propósito, obter uma amostra do vírus; ela suspeitava que essa criatura
estivesse especificamente atrás dela, e se ela deixasse a área, a criatura rasgaria a porta, matando
ela e Steve. Ao menos assim, ele terá uma chance. E a 9mm era o maior poder de fogo a bordo
se ele agüentava oito balas no peito, outra arma não faria diferença.
Tente tiros na cabeça, como no monstro de braço comprido.
Ela podia tentar, mas sentia que algo que não sangrava provavelmente não ficaria cego. Seus
olhos eram estranhos, talvez nem fossem usados para visão... e também tinha o fato de estarem
num avião em movimento, um que balançava e tremia; sem chão firme, como ela iria mirar?
Tudo isso passou em sua mente em um segundo e já estava andando de novo, indo para a parte
traseira mais uma vez com medo de correr, com medo de ficar parada, imaginando quanto tempo
restava antes dele correr de novo e o que ela faria depois
e ele abaixou a cabeça como antes e, de novo, o corpo de Claire reagiu, mas uma idéia estava
se formando, também. Ela saiu da parede e correu para ele, angulando seu trajeto, se não
funcionar, estarei morta
e ela sentiu o frio de sua estranha carne quando passou correndo por ela, passou tão perto que
pode sentir o cheiro podre. E então ambos estavam em lados opostos, ele virando lentamente,
mecanicamente. Tinha funcionado, por pouco; um centímetro mais perto e um passo mais devagar,
já estaria acabado.
Armas não funcionavam, ela não podia fugir, então era a criatura que devia ir, mas como? A
correnteza de ar na abertura era forte, mas não sugaria a pesada monstruosidade... ela tinha que
tirar seu equilíbrio, talvez atraí-lo até a abertura e desviar, ela não era forte o bastante para
empurrá-lo...
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Pense, droga! Ele começou a ir na direção dela de novo, um passo, dois. Ela olhou em volta o
bastante para examinar o chão perto da abertura, procurando algum que possa fazê-lo tropeçar,
talvez um trilho hidráulico
O trilho hidráulico.
Usado para empurrar caixas pesadas até a comporta, para carga e descarga. De fato, duas caixas
vazias estavam na plataforma metálica no início dos trilhos, do lado direito da porta da cabine, os
controles do lado esquerdo.
Muito devagar, não tem jeito. Talvez devagar por estar carregando muito peso; se houvesse
apenas um contêiner vazio ou dois, a que velocidade iria? Ela tinha que ver os controles, tinha que
Houve um movimento borrado, e a massa de espetos estava indo na direção da cabeça dela.
Claire pulou para frente, mas não foi rápida o bastante. Os espetos não há pegaram, mas seu
braço sim, batendo dolorosamente em sua orelha, levando-a ao chão.
Instantaneamente, a criatura ajoelhou e desceu o braço direito, mas ela já estava em movimento,
rolando assim que caiu no chão. As lâminas da mão acertaram o chão e faíscas voaram, a criatura
gritando de raiva enquanto Claire ficava de pé, tentando não reparar nos pontos pretos que
cruzavam a sua visão e no assobio de sua audição. Ela correu até os controles enquanto a criatura
ficava de pé, seus movimentos novamente mecânicos, tão sem emoções quanto furioso há alguns
segundos.
Alguns passos largos e estava olhando para o simples painel de controle, liga/desliga, teclado
numérico para especificar o peso, botões para frente e para trás, um pequeno visor, e
desligamento de emergência. Claire apertou o botão de ligar, digitando o peso máximo que podia,
pouco menos de três toneladas.
Ela olhou para a criatura, ainda a uma distância segura, e viu que estava a um ou dois passos de
ficar diretamente no caminho da plataforma. Sua mão pairou sobre o botão azul de acionamento,
que mandaria a carga através do compartimento a uma incrível velocidade. Alguns quilos de caixa
onde três toneladas eram previstas, iria bater na criatura como um taco de golfe.
Quase... quase... agora!
Quando a criatura ficou quase que diretamente na frente dos trilhos, Claire apertou o botão e
nada aconteceu, absolutamente nada.
Droga! Ela mexeu no interruptor de novo, talvez não o tivesse ligado e viu o que estava no visor,
e gemeu alto e apertado. As simples instruções diziam, "Carregando espere o sinal".
Bom Deus, quanto tempo vai demorar?
A criatura ainda estava a seis metros de distância, andando quase que totalmente ao longo dos
trilhos. Ela pode não ter melhor chance, porque outro golpe poderia muito bem significar sua morte
mas se ficasse onde estava e a criatura a alcançasse antes que a plataforma fosse carregada,
ela ficaria encurralada e seria esmagada contra a porta da cabine.
É melhor correr.
É melhor ficar.
Claire hesitou um pouco demais, e a criatura moveu-se de novo. O monstro ia para ela como um
desastre natural e era tarde demais, sem tempo para virar e entrar na cabine
ping!
e ele desceu sua mão esquerda cheia de espetos assim que Claire apertou o botão, seus olhos
fechando, certa de que o mundo desapareceria numa nevasca de dor
e a criatura se afastava dela, rosnando, as caixas vazias tirando-o do chão, empurrando-o para
longe. Antes que pudesse aceitar que o plano tinha funcionado, a criatura usou uma de suas
incríveis explosões de velocidade e ficou na frente das velozes caixas, o suficiente para começar a
contê-las
mas Claire não esperou para ver quem era mais forte. Ela abriu fogo de novo, duas, três balas
acertando-o na cabeça, sem causar danos conseguindo distraí-lo. A criatura lutou durante outro
meio segundo, e então ele e as duas caixas sumiram, mergulhando no céu.
Claire olhou para os jatos de atmosfera passando por um tempo, sabendo que deveria sentir-se
aliviada que tinha matado o monstro, que tinha sobrevivido a outro desastre da Umbrella, que
finalmente, finalmente estavam a salvo... mas ela foi chacoalhada, qualquer possibilidade de sentir
fortes emoções lançada pela comporta junto com o grandalhão Mr. X.
"Por favor, que esteja acabado". Ela disse suavemente, e virou e abriu a porta da cabine.
Enquanto subia os dois degraus da área dos pilotos, Steve olhou para ela, franzindo. "O que
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aconteceu? Tá tudo bem?".
Claire acenou, sentando ao lado dele, completamente acabada. "Tá. Marque mais um ponto para
os mocinhos. Ah, a comporta da área de carga se foi".
"Você tá brincando?". Steve perguntou.
"Não". Claire disse, e bocejou amplamente, de repente tomada pelo cansaço. "Ei, eu vou
descansar meus olhos por um minuto. Se eu dormir, me acorde em cinco minutos, tá?".
"Claro". Steve disse, parecendo confuso. "A comporta se foi".
Claire não respondeu, o escuro já convocando ela, seu corpo derretendo no assento...
.. e então Steve estava balançando ela, repetindo seu nome várias vezes.
"Claire! Claire!".
"Que foi". Ela murmurou, certa de que não tinha dormido enquanto abria os olhos, imaginando
porque Steve a torturaria desse jeito até que viu suas expressões, e um trovão de alarme a
sacudiu, acordando-a.
"O que, o que foi?". Ela perguntou, melhorando a postura.
Steve parecia muito preocupado. "Há um minuto, nós mudamos de direção e os controles travaram
de repente". Ele disse. "Eu não sei o que é, não temos rádio, mas todo o resto parece estar
funcionando bem exceto por não conseguir virar e mudar a altitude e a velocidade. Parece estar
travado no piloto automático".
Antes que ela pudesse dizer algo, houve um som de estática vindo de um monitor instalado perto
do teto. Linhas flutuantes se espalharam pela tela, mas quando a imagem apareceu, estava clara o
bastante.
Alfred!
Parecia que ele também estava voando, preso no primeiro assento de um caça a jato, ou algo
similar. Ele ainda tinha restos de maquiagem no rosto, seus olhos contornados de preto, e quando
falou, foi com a voz de Alexia.
"Minhas desculpas,". Ele rugiu. "mas eu não posso deixá-los escapar agora. Parece que vocês
escaparam de outro de meus brinquedos malvados, malvados".
"Maluco travestido". Steve repreendeu, mas Alfred não ouviu ou não se importou.
"Aproveitem o passeio". Alfred disse, cacarejando, e com um zumbido final de estática, o monitor
ficou em branco.
Claire olhou para Steve, que olhou sem resposta, e ambos olharam para o mar de nuvens, olhando
silenciosamente enquanto os primeiros raios de luz surgiam.
Steve estava sonhando com seu pai quando começou a acordar, com medo por algum motivo, o
sonho indo embora enquanto lembrava de onde estava. Claire soou sonolenta no fundo da
garganta e se aconchegou mais perto, sua cabeça contra seu ombro esquerdo, sua respiração
quente em seu peito.
Oh, Steve pensou, com medo de se mexer, não querendo acordá-la. Eles tinham adormecido lado
a lado contra a parede da cabine, e aparentemente tinham se aproximado em dado momento. Ele
não tinha idéia de quando foi isso, ou quanto tempo tinham dormido, mas ainda estavam voando, a
luz do sol ainda atravessando as janelas.
Eles tinham conversado por um tempo depois que Alfred tomou controle do avião, mas não sobre o
que iriam fazer depois que seu seqüestro terminasse. Claire respondeu, já que não havia nada que
pudessem fazer, não havia motivo para se preocupar. Ao invés disso, eles comeram Claire tinha
pego alguns pacotes de nozes das máquinas automáticas, coisa que fez Steve eternamente grato
e fizeram o possível para se limpar usando uma garrafa de água, e depois conversaram. De
verdade.
Ela contou sobre ter ido para Raccoon City procurar Chris, e tudo o que aconteceu lá, e tudo o que
sabia sobre a Umbrella e o tal espião Trent... e ela falou sobre um monte de outras coisas,
também. Ela estava na faculdade, era dois anos mais velha que ele, e pilotava uma moto, mas
provavelmente desistiria por ser muito perigoso. Ela gostava de dançar, então gostava de dance
music, mas também gostava de grunge, achava política chata e sanduíche era sua comida favorita.
Ela era totalmente, incrivelmente legal, a garota mais legal que já tinha conhecido e melhor, ela
estava interessada no que ele tinha a dizer. Ela riu com muitas de suas piadas, achou legal ele ser
corredor, e quando ele falou sobre seus pais, ela ouviu sem ficar incomodada.
E era tão esperta e bonita...
Ele olhou para ela, para seu cabelo desarrumado e longas mechas, seu coração batendo mesmo
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tentando relaxar. Ela se moveu de novo, sua cabeça caindo um pouco para trás e seus lábios
levemente abertos estavam perto o bastante para ele beijá-los, tudo o que precisava fazer era
abaixar o rosto alguns centímetros, e queria tanto que começou a fazê-lo, abaixando sua boca na
direção da dela
"Mmmm". Ela murmurou, ainda totalmente adormecida, e ele parou, recuando, seu coração
batendo ainda mais rápido. Ele queria, mas não daquele jeito, não se ela não quisesse. Ele pensou
que ela queria, mas ela também falou um pouco sobre seu amigo Leon, e ele não tinha certeza de
que eram apenas amigos.
Sentindo-se torturado, tê-la tão perto, mas não para si, ele ficou aliviado quando ela se afastou
segundos depois. Ele ficou de pé, esticando as pernas, e andou para frente do avião, imaginando
se o tanque de combustível reserva estava sendo usado, o pensamento de ter que lidar com
aquele Ashford maluco de novo estava consumindo seus pensamentos positivos. Ele esperava que
Claire dormisse mais um pouco, ela estava muito cansada
até ver o que estava do lado de fora, e ler o destino, perceber que a altitude tinha caído
consideravelmente. O avião estava começando a arremeter um pouco. No mapa ao lado da
bússola, estava uma latitude-longitude aproximada de sua posição.
"Claire, acorde! Você tem que ver isso!".
Alguns segundos depois ela estava ao seu lado, esfregando os olhos os quais abriram bastante
ao olhar pela janela. Havia neve estendendo-se até onde podiam ver.
"Estamos sobre a Antártida". Steve disse.
"No Pólo Sul?". Claire perguntou, incrédula. Ela agarrou o assento do co-piloto enquanto o avião
subia e descia. "Pingüins e baleias assassinas, e tudo mais?".
"Eu não sei sobre a vida selvagem, mas estamos na latitude de 82.17 Sul". Steve disse.
"Definitivamente o fundo do mundo. E não tenho certeza, mas acho que estamos para pousar.
Estamos perdendo velocidade".
Talvez o plano de Alfred fosse jogá-los no meio do nada para morrerem congelados. Nada original,
mas certamente daria certo. Steve desejou colocar as mãos no cara por apenas um minuto, só um.
Ele não era muito lutador, mas Alfred derreteria como bolinho de creme.
"Nós devemos estar indo para lá". Claire disse, apontando para a direita, e Steve olhou, quase
incapaz de enxergar através da nevasca... e então viu outros aviões, e os longos e baixos prédios
a apenas alguns minutos de distância.
"Você acha que são da Umbrella?". Steve perguntou, sabendo antes que ela dissesse. Onde mais?
O nariz do avião continuava descendo, levando-os para o lugar planejado por Alfred, mas Steve
estava aliviado. Visitar a Umbrella de novo que seria uma droga, claro, mas ao menos outra pessoa
estaria no comando, nem todos os funcionários da Umbrella eram distorcidos como Alfred. Ele não
conseguia imaginar todo mundo largando o que estava fazendo para puxar o saco de Alfred.
Talvez Claire e ele pudessem negociar com alguém, ou subornar...
Eles estavam se aproximando do primeiro passo, o passeio estava ficando conturbado, as asas
provavelmente pesadas com gelo quando Steve percebeu que estavam muito baixo e muito
rápido. O trem de pouso tinha abaixado em algum momento, mas não podiam aterrissar com essa
velocidade e altitude.
"Levanta, levanta...". Steve disse, vendo os prédios ficarem grandes muito rapidamente, sentindo
gotas de suor correndo por toda parte. Ele sentou na cadeira do piloto, agarrando o manche e
puxando e nada aconteceu.
Ah, Deus.
"Ponha o cinto, nós vamos cair!". Steve gritou, pegando o seu enquanto Claire pulava no assento, o
cinto travando assim que tocaram o chão
e alarmes começaram a tocar assim que o trem de pouso foi esmagado e arrancado, a barriga do
avião batendo no chão. A cabine balançou violentamente, os cintos de segurança a única coisa
que os impedia de bater a cabeça no teto. Claire soltou um grito assim que uma onda de neve
bateu no pára-brisa, e houve um gigante rasgo de metal atrás deles enquanto a cauda ou uma asa
era arrancada
e a cortina de neve saiu do pára-brisa para eles verem o prédio bem à frente, o avião fora de
controle deslizando na direção dele, fumaça em algum lugar, ele iriam bater e
52
[10]
A cabeça de Claire doía. De novo.
Algo pegava fogo, ela podia sentir o cheiro da fumaça e estava com muito frio, e de repente
lembrou o que tinha acontecido a neve, o prédio, a batida. Alfred.
Ela abriu os olhos e levantou a cabeça, a ação complicada e estranha, pois ainda estava presa no
assento, agora inclinado cerca de 45 graus e lá estava Steve em seu assento, imóvel.
"Steve! Steve, acorde!".
Steve gemeu e murmurou algo, e Claire respirou mais fácil. Depois de algumas tentativas ela
conseguiu se soltar, de pé no painel de instrumentos. Ela não podia ver muito pelo pára-brisa por
causa da inclinação, mas parecia que estavam dentro de um grande prédio. Havia uma passarela
lateral de metal a uns quinze metros na frente deles e apesar do profundo poço do lado direito do
avião, ela podia ver um pedaço da passarela a uns dois metros abaixo.
Mas cadê todo mundo? Onde está qualquer um? Se este fosse um complexo da Umbrella, porque
não havia uma dezena de soldados arrastando os dois para fora dos destroços? Ou ao menos
alguns zeladores irritados...
Steve se aproximou, e ela pode ver um baita inchaço em sua testa. Ela tocou sua têmpora direita e
descobriu que tinha um galo igual, cerca de um centímetro maior do que a descoberta quando
acordou... ontem? Um dia antes?
Deus, como o tempo passa quando você vive levando pancada na cabeça.
"O que está queimando? Steve perguntou, abrindo seus turvos olhos.
"Eu não sei". Claire disse. Havia apenas um traço de fumaça na cabine, ela considerou que estava
vindo de outra parte do avião. De qualquer modo, ela não queria ficar por perto caso algo
explodisse. "Mas nós devemos sair daqui. Você consegue andar?".
"Estas botas foram feitas para andar". Steve resmungou, e Claire sorriu, ajudando-o com o cinto.
Eles pegaram o que restou do armamento aos seus pés, a metralhadora de Steve e sua 9mm.
Infelizmente, eles tinham pouca munição, e dois pentes estavam faltando. Ela tinha vinte e sete
balas, ele tinha quinze. Eles dividiram a munição e com nada restando para fazer a bordo, Steve se
posicionou sobre a passarela e saltou os últimos metros.
"O que tem aí?". Claire perguntou, sentada na beira do buraco e guardando a arma no cinto.
Estava frio o bastante para ver sua respiração, mas pensou que podia agüentar mais um pouco.
"Nada de mais". Steve disse, olhando em volta. "Nós estamos num prédio redondo eu acho que é
um prédio em torno de um poço de mineração, tem uma queda livre no meio. Não tem ninguém
aqui".
Ele olhou para ela acima e estendeu os braços. "Pode descer, eu te pego".
Claire duvidou. Ele estava em forma, mas tinha o físico de um corredor, nada muscular. Por outro
lado, ela não podia ficar no avião o dia inteiro, e ela odiava pular de coisas mais altas que um
metro, ela certamente queria uma ajuda...
"Estou descendo". Ela disse, e saltou do buraco, hesitando o máximo que pôde
e ela estava caindo, Steve emitiu um "oof", e ambos estavam no chão, Steve deu costas para o
chão com seus braços em volta dela, Claire em cima dele.
"Bela pegada". Ela disse.
Au, num foi nada". Steve disse, sorrindo.
Ele estava quente. E atraente, e doce, e obviamente interessado, e por alguns segundos, nenhum
deles se moveu, Claire satisfeita por se conter... e Steve querendo mais, ela podia ver no modo
como ele olhava seu rosto.
Pelo amor de Deus, você não está de férias! Anda!
"Nós provavelmente devemos...".
"... descobrir onde estamos". Steve completou, e apesar de perceber um pouco de decepção em
seus olhos, ele fez o melhor que pôde para esconder, suspirando melodramaticamente enquanto
derrubava os braços como se fingisse rendição. Relutante, ela ficou de pé e o ajudou a levantar.
Realmente parecia uma mina, uns 20 metros de diâmetro, a passarela que estavam correndo por
metade da lateral havia duas escadas de mão e ao menos duas portas, todas à esquerda e no
nível inferior. Só havia uma porta naquele nível, à direita, mas Steve confirmou que estava
trancada.
53
"Onde você acha que todos estão?". Ele perguntou em voz baixa. Certamente havia a chance de
fazer eco dado o tamanho da câmara vazia.
Claire balançou a cabeça. "Fazendo bonecos de neve?".
"Ha Ha". Steve falou. "O Alfred não devia estar aparecendo agora com um lança-chamas?".
"É, provavelmente". Claire disse. Ela estava pensando nisso. "Talvez ele ainda não esteja aqui, ou
não esperava que batêssemos, então ele está em um dos outros prédios onde deveríamos ter
pousado... se não pudermos chegar nos outros aviões antes que ele nos ache...".
"Vamos fazer isso". Steve disse. "Você quer se separar? Podemos cobrir mais lugares assim,
acelerar o processo".
"Com Alfred vagando por aí? Eu voto não". Claire disse, e Steve acenou, parecendo aliviado.
"Então, por ali". Claire disse, e andou para a primeira escada, Steve logo atrás.
Uma curta descida depois e estavam na primeira porta, porta dupla na verdade. Também trancada.
Steve se ofereceu para dar um pontapé, mas ela sugeriu que verificassem as outras primeiro. Ela
estava se sentindo cada vez mais desconfortável com o quanto quieto as coisas estavam, e não
queria o forte eco de uma porta arrombada anunciando sua presença, mas precisariam estar em
coma para não terem notado a colisão do avião...
A próxima, a única outra porta antes da abertura que levava a uma escadaria. Claire girou a
maçaneta que colaborou suavemente; Claire e Steve prepararam suas armas por precaução e
com o aceno de Steve, ela abriu a porta
e sentiu sua boca abrir, totalmente chocada.
Quais são as chances?
Era um dormitório escuro e fedido, e com o som da porta abrindo, três, quatro zumbis viraram para
eles, todos recém infectados, ainda com quase toda a pele. Só um estava em estado de gangrena,
o cheiro ruim de carne quente e podre pesado no ar.
Steve ficou pálido, e assim que ela fechou a porta, ele engoliu forte, parecendo e soando meio
enjoado. "Um daqueles caras trabalhou em Rockfort. Ele era cozinheiro".
Claro! Por um segundo ela pensou que poderia ter havido um vazamento aqui também, mas seria
uma coincidência grande demais. Ao menos um daqueles aviões lá fora veio da ilha,
provavelmente um bando de funcionários desesperados que não perceberam estar infectados,
presumivelmente não cientistas.
Mais canibais viróticos doentios... e o que mais? Claire deu com os ombros, tentando imaginar que
tipo de soldado da Umbrella desejaria um ambiente gelado... e que animais nativos podem ter sido
infectados depois de sua chegada.
"Nós definitivamente devemos sair daqui". Steve disse.
Bom, talvez Alfred tenha sido devorado, Claire pensou. Pensamento otimista, pois certamente
mereciam sossego. "Vamos".
O último lugar para verificar era a escadaria que marcava o fim da passarela, descendo para a
quase total escuridão. Lembrando dos fósforos que encontrou em Rockfort, Claire deu sua arma
para Steve e pescou a caixinha da bolsa, dando metade a ele antes de pegar a arma de volta.
Steve assumiu a dianteira, acendendo dois fósforos na metade da escada e levando-os ao alto.
Não iluminavam muito, mas era melhor do que nada.
Eles chegaram no fim da escada e avançaram para o estreito corredor, Claire alerta enquanto o
escuro os cercava. Algo cheirava mau, como grãos apodrecendo, e apesar de não haver nada se
mexendo, não pareciam estar sozinhos. Ela geralmente confiava em seus instintos, mas estava tão
calmo e silencioso, nem mesmo um suspiro de som ou movimento...
Nervosismo, ela pensou esperançosa.
Eles só conseguiam enxergar um metro à frente, mas andavam o mais rápido possível, a sensação
de estarem totalmente expostos e vulneráveis empurrando-os adiante.
Alguns passos adiante e ela podia ver que o corredor se dividia, eles podiam ir reto ou à esquerda.
"O que você acha". Claire suspirou e de repente o corredor explodiu em movimento, asas
batendo e o cheiro podre soprando neles. Steve xingou quando os fósforos apagaram,
completando a escuridão. Algo esfregou no rosto de Claire, emplumado, leve e silencioso, e ela
reflexivamente afugentou a coisa, sem saber no que atirar.
"Vamos!". Steve gritou, agarrando seu braço e puxando-a. Ela cambaleou atrás dele sem fôlego, e
de novo, algo agitado tocou seu rosto, seco e empoeirado
e então Steve a estava puxando através de uma porta e batendo-a atrás deles, ambos ofegando
apoiados nela, Claire tremendo, totalmente enojada.
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"Mariposas". Steve disse. "Jesus, elas eram enormes, você viu elas? Grandes como pássaros,
como águias ". Ela o ouviu cuspindo, como se estivesse tentando limpar a boca.
Claire não respondeu, procurando um fósforo. A sala estava escura e queria ter certeza de que não
havia mais delas por aí, mariposas, eca!
De alguma forma elas pareciam piores do que zumbis, elas podiam se esfregar diretamente em
você, voar no seu rosto ela tremeu de novo, e acendeu o fósforo.
Steve a trouxe para um escritório aparentemente livre de mariposas gigantes e qualquer outra
surpresa da Umbrella. Ela viu um par de candelabros em um baú à sua direita e acendeu as velas
imediatamente, entregando uma delas para Steve antes de olhar em volta, a suave luz de vela
iluminando seu refúgio. Mesa de madeira, prateleiras, dois quadros a sala era
surpreendentemente agradável, considerando o aspecto funcional do complexo. E não era fria.
Eles procuraram armas e munição nas não acharam nada.
"Ei, talvez haja algo que possamos usar ali". Steve disse, indo para a mesa. Havia vários papéis e
o que parecia ser uma coleção de mapas espalhados na mesa mas de repente, Claire ficou mais
interessada na coisa branca presa atrás do ombro direito de Steve.
"Não se mexa". Ela disse, aproximando-se dele. Tinha uma grossa meleca parecida com teia
segurando a coisa, o objeto em si com uns quinze centímetros de comprimento e meio deformado,
como um ovo de galinha esticado.
"O que é? Tira daí". Steve disse, tenso, e Claire aproximou a vela, viu que a coisa não era
totalmente opaca. Ela conseguia ver dentro, um pouco...
.. uma gosma branca se mexendo lá dentro. Era um casulo, a mariposa tinha colocado um casulo
nele.
Claire quis vomitar, mas se conteve, olhando em volta atrás de algo para arrancá-lo. Havia papel
amassado no cesto de lixo perto do baú, e ela pegou um pedaço.
"Espere um segundo". Ela disse, impressionada com o quanto casual ela soou enquanto tirava o
casulo do ombro dele. Não queria sair, a úmida teia agarrando firme, mas Claire conseguiu,
soltando o casulo no chão instantaneamente. "Saiu".
Steve virou e abaixou perto do papel, segurando a vela e levantou abruptamente, tão enjoado
quanto parecia. Ele desceu sua bota no casulo, forte, e geléia clara espirrou sob a sola.
"Ah, Deus". Ele disse, sua boca para baixo. "Me lembre de vomitar depois que tivermos comido. E
da próxima vez que formos lá, nada de fósforos".
Ele checou suas costas e nada, graças a Deus e então eles dividiram os papéis sobre a mesa,
Steve pegando os mapas e sentando no chão, Claire olhando o resto na mesa.
Inventários, contas, contas, listas... Claire esperou que Steve fosse mais sortudo. Pelo que
conseguiu entender, eles estavam no que a Umbrella chamava de "terminal de transporte", e foi
construído numa mina abandonada ela não sabia exatamente que tipo de mina, mas haviam
vários pedidos de novos equipamentos e materiais de construção. Quase o suficiente para
construir uma cidade pequena.
Ela achou uma série de mensagens entre dois senhores extremamente chatos, discutindo o
orçamento da Umbrella para o próximo ano. Era ainda mais chato porque tudo parecia
perfeitamente dentro da lei. Aquela sala pertencia a um deles, Tomoko Oda, e foi dele que Claire
achou algo interessante, uma observação no meio de seus incontáveis relatórios datados da
semana passada.
Obs: a propósito, lembra da história que você me contou quando vim aqui pela primeira vez, sobre
o "monstro" prisioneiro? Não ria, mas eu finalmente o ouvi, há duas noites, neste escritório. É tão
assustador quanto as histórias dizem, um tipo de grito irritado de sofrimento que ecoou dos níveis
inferiores. Meu assistente disse que os funcionários vêm ouvindo isso durante os últimos quinze
anos, quase sempre tarde da noite dizem que ele grita daquele jeito porque alguém esqueceu de
alimentá-lo. Eu também ouvi dizer que ele é um fantasma, uma brincadeira, um experimento
científico que deu errado, e até um demônio. Eu ainda não formei minha opinião, e sendo que
nenhum de nós está autorizado a ir lá embaixo, eu suponho que isso continuará um mistério. Eu
vou te contar, depois de ouvir aquele horrível e insano grito, eu não me interesso em descer além
do B2.
Avise-me sobre aquele carregamento de válvulas de retenção. Atenciosamente, Tom.
Parecia que os trabalhadores de cima não sabiam o que acontecia embaixo. Talvez fosse melhor
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para eles, Claire pensou... talvez não, considerando a situação atual.
Steve riu de repente, um curto latido de vitória, e ficou de pé, sorrindo largamente. Ele abriu um
mapa político da Antártida sobre a mesa.
"Nós estamos aqui,". Steve disse, apontando para uma marcação em vermelho que alguém
desenhou. "entre este posto japonês, Dome Fuji, e o pólo em si, em território australiano. E bem
aqui fica uma estação de pesquisa australiana estamos falando de quinze a vinte e cinco
quilômetros no máximo".
Claire sentiu seu coração pular uma batida. "Que ótimo! Se acharmos um bom equipamento
podemos ir andando...".
E se conseguirmos sair desse lugar, ela pensou, parte de seu entusiasmo desaparecendo.
Steve desdobrou um segundo mapa. "Espere, essa não é a parte boa. Veja isso".
A cópia de uma planta. Claire estudou os diagramas a mão, vista lateral e superior de um alto
prédio e seus três andares, os níveis de salas claramente rotulados e se levantou, agitada
demais para ficar parada. Era um mapa do prédio que estavam, não era alto, mas sim profundo.
"É aqui que nós estamos agora". Steve disse, apontando para um pequeno quadrado denominado
"escritório do gerente", no nível B2. Ele traçou o dedo para baixo, para a esquerda e para baixo de
novo, parando numa área de forma incomum no fim do diagrama. O pequeno texto dizia "câmara
de mineração", e havia um túnel rabiscado a lápis saindo da câmara dizendo "para a
superfície/inacabado" também, a lápis.
"E é para lá que precisamos ir". Claire completou, balançando a cabeça incrédula. O mapa que
Steve achou pouparia horas de procura, e com o pouco de munição que tinham, também salvaria
suas vidas.
"Isso. Se encontrarmos portas fechadas, nós as quebramos ou atiramos na fechadura, talvez".
Steve disse feliz. "E é quase um minuto andando daqui. Nós estaremos voando daqui a pouco".
"Mas aqui diz que o túnel não está acabado ". Claire começou, mas Steve a interrompeu.
"E daí? Se eles ainda estão trabalhando nele, deve haver algum equipamento por lá". Steve disse,
empolgado. "Aí diz câmara de mineração, certo?".
Ela não podia contestar sua lógica, e não queria. Era quase bom demais para ser verdade, e ela
estava mais do que preparada para boas notícias... e apesar de significar outra corrida pelas
mariposas, desta vez, eles estariam preparados.
"Você ganhou o prêmio". Claire disse, cedendo ao seu próprio entusiasmo.
Steve ergueu sua sobrancelha inocentemente. "Sério? E qual é o prêmio?".
Ela ia responder que estava aberta a sugestões quando um inesperado e alarmante barulho a
impediu, invadindo o escritório de todos os lados vindo de lugar nenhum. Por uma fração de
segundo ela achou que fosse uma sirene, era tão alto e penetrante, mas nenhuma sirene
começava tão profunda e baixa, ou tinha níveis de intensidade com sentimentos de medo. Havia
fúria no som, uma raiva cega tão completa que era incompreensível.
Congelados, eles ouviram enquanto o incrível e apavorante berro se esticava e morria, Claire
imaginando quanto tempo havia passado desde sua alimentação. Ela não tinha dúvidas de que era
uma das criações da Umbrella. Nenhum fantasma podia produzir um som tão visceral, e nenhum
humano podia produzir tal raiva.
"Vamos agora". Claire disse baixo, e Steve acenou ansioso e de olhos arregalados enquanto
dobrava os mapas e os colocava de lado.
Eles aprontaram suas armas, bolaram um rápido plano e numa contagem até três, Steve abriu a
porta.
Enquanto o ronco da monstruosidade ecoava, Alfred sorriu através das grossas barras de metal da
úmida cela, admirando o trabalho de sua irmã. Ele também ajudou, claro, mas ela foi o gênio que
criou o vírus T-veronica, aos dez anos de idade... e apesar de ela ter considerado seu primeiro
experimento um fracasso, Alfred não concordou. O resultado era profundamente gratificante de um
modo particular.
As coisas estavam bem mais claras, desde que deixou Rockfort. Memórias tinham retornado,
coisas que tinha enterrado ou perdido, sentimentos que esquecera. Depois de quinze anos na
escuridão, de confusão e fantasias instáveis, Alfred sentiu que seu mundo finalmente estava
ficando em ordem e agora ele entendia porque sua casa tinha sido atacada, e o quanto isso foi
bom.
"Eles também sabiam que era hora". Alfred disse. "Se não fosse pelo ataque, eu teria continuado
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achando que ela estava comigo".
Ele observou impressionado enquanto o monstro virava sua corrompida face na direção da porta,
ouvindo. Ele estava acorrentado à sua cadeira, vendado, mãos presas para trás... e apesar de não
ter sido capaz de nada durante uma década e meia, ele ainda respondia ao som das palavras.
Talvez ele ainda reconhecesse sua voz em algum nível de instinto animal.
Eu devia alimentá-lo, Alfred pensou, não querendo que ele morresse antes de Alexia acordar...
mas isso seria um breve, muito em breve talvez o processo já tenha começado. O pensamento o
encheu de imaginação, ele estaria presente no miraculoso renascimento dela.
"Eu senti tanto a falta dela". Alfred disse, suspirando. Tanto que ele criou um reflexo dela, para
compartilhar os solitários anos de espera. "Mas ela logo emergiria como uma rainha soberana,
sendo eu seu fiel soldado, e nunca nos separaremos de novo".
Isso o lembrou de sua tarefa final, um último objetivo a ser cumprido antes que pudesse iniciar
confortavelmente a espera final. Sua alegria ao descobrir o avião acidentado durou pouco ao
achá-lo vazio, mas ao lembrar do layout do complexo, ele percebeu que só poderiam estar em um
lugar ou dois. Ele pegou um rifle da sala de armamentos em um dos outros prédios, uma
Remington de ação rápida 30.06 com uma magnífica mira telescópica, um delicioso brinquedo que
queria tentar usar. Ele não queria que Claire e seu amiguinho aparecessem num momento
inoportuno, atrapalhando a celebração
De repente, Alfred começou a rir, uma idéia lhe ocorrendo. O monstro tinha que comer... porque
não trazê-lo os dois intrusos? Claire Redfield trouxe destruição para Rockfort, tentou enterrar o
nome dos Ashford, tal como o monstro tentara, de certo modo.
Ele consumirá os agentes inimigos em honrar ao retorno de Alexia... e então teremos uma reunião
familiar particular, só nos três.
Ao som de sua gargalhada, a monstruosidade ficou agitada, puxando suas correntes com tal força
que Alfred parou de gargalhar. Ele deu outro tremendo e longo grito, desejando se libertar, mas
Alfred acreditava que as correntes agüentariam mais um pouco.
"Eu volto logo". Alfred prometeu, levantando seu rifle e indo embora, imaginando o que Claire
acharia de conhecer o pai de Alexia e Alfred sob circunstâncias tão incomuns em outras palavras,
sua própria morte sangrenta.
A monstruosidade era atraída por calor do corpo e cheiro de medo, como Alfred gostava de
acreditar, querendo muito ver a pobre Claire sendo perseguida na escuridão.
Assim que Alfred começava a subir as escadas para o segundo nível, Alexander Ashford gritou de
novo, como fez quinze anos atrás quando seus próprios filhos o drogaram, roubando sua vida.
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Eles correram pela escuridão, Steve na frente de Claire, deixando a porta do escritório aberta.
Havia luz o suficiente para ver onde o corredor virava à direita, que era toda a luz de que
precisavam.
direita, andar, porta direita, andar, degraus à esquerda passou por sua mente, as direções
simples para não cometer nenhum erro. A imagem do que Claire tinha tirado de suas costas ainda
estava fresca em sua memória, e eles não sabiam o que mais as mariposas podiam fazer.
Dois saltos à frente e a primeira mariposa foi para eles, um borrão quieto e esbranquiçado, e Steve
abriu fogo.
Bam-bam-bam! Três tiros e a coisa desintegrou, suaves barulhos enquanto os pedaços caíam no
chão, e o resto delas veio, flutuando do corredor que ele e Claire queriam. Eles voavam sobre uma
nuvem de cheiro podre, sombrias e fracas formas... e o que era aquilo, a grande coisa do tamanho
de um homem presa no teto com teia?
não pense nisso agora, vai logo
"Agora!". Steve disse, e Claire correu atrás dele, desviando para a direita até o fim do corredor
enquanto ele abria fogo, duas, três explosões.
Pedaços macios de asas, calor e meleca repulsiva choviam enquanto ele atirava nas formas
escuras adiante, fazendo-o engasgar, as mariposas morrendo tão quietas quanto seu ataque. Ele
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sentiu uma delas em seu cabelo, sentiu algo quente tocando seu couro cabeludo, e se debateu
desesperadamente, atirando, arrancando um casulo grudento da cabeça.
"Está aberta!". Claire gritou, mais perto do que esperava, e apesar de planejar recuar, a sensação
do casulo no cabelo foi o suficiente. Ele abaixou, cobriu a cabeça com um braço e correu.
Ele viu a silhueta dela na passagem da porta à direita e acelerou, correndo diretamente para o
braço esticado dela. Claire agarrou sua camiseta de mão cheia e o puxou de lá, batendo a porta
atrás deles e então virou e começou a atirar, protegendo o corpo dele com o seu.
"Ei, o que".
Bam! Bam! A sala era enorme, os tiros ecoando para longe.
Havia um traço de luz vindo de algum lugar, mas Steve os ouviu antes de vê-los. Zumbis,
gemendo e ofegando, aproximando-se deles. Ele só podia perceber os contornos, cambaleando e
avançando, viu dois deles indo ao chão e mais dois ocupando o mesmo lugar.
"Eu estou bem!". Ele disse entre os tiros, Claire dando um passo ao lado, gritando para ele cuidar
do lado direito.
Steve mirou e atirou, piscando e espremendo os olhos no escuro, tentando tiros na cabeça. Ele
derrubou três deles, depois um quarto, tão perto que ele sentiu sangue espirrando em sua mão. Ele
a limpou imediatamente na calça, rezando para não ter nenhum corte aberto, para que não ficasse
sem munição, mas havia outro zumbi, e outro
e então Claire o estava puxando de novo e ele parou de atirar, deixando-a guiá-lo para onde a
sala de mineração deveria estar. Atrás deles, zumbis arrastavam os pés e uivavam, numa
perseguição em câmera lenta. Ele tropeçou num corpo quente e pisou em outro, sentindo algo
quebrar sob seus pés e por mais indefeso e assustado que parecia, não foi nada se comparado
ao grito de dor de Claire, sentindo os dedos dela soltarem seu braço.
"Claire!". Aterrorizado, Steve tentou agarrá-la, mas só encontrou ar
"Cuidado onde pisa, eu machuquei meu dedão". Claire disse, irritada, não mais distante que meio
metro, e ele sentiu seus joelhos enfraquecerem. Ele também podia sentir um corrimão de metal frio
contra seu ombro direito os degraus para a sala de mineração. Eles tinham conseguido.
Juntos, eles subiram os degraus, Claire ainda na frente e quando ela abriu a porta, luz de
verdade vazou, perfurando a escuridão.
"Graças a Deus". Steve murmurou, segurando a porta enquanto Claire entrava
e antes que pudesse seguir, ele ouviu aquela perturbada gargalhada afeminada que tinha
aprendido a odiar, e Claire jogou uma mão para trás acenando para ele parar, e ele soltou a porta e
não se moveu, deixando-a apoiada na perna de Claire enquanto Alfred dizia algo e ela erguia as
mãos vagarosamente.
Parecia que Alfred tinha rendido Claire...
.. mas não eu, Steve pensou, sem perceber que sorria um pouco. Alfred tinha muito que
responder, mas Steve estava certo de que em um minuto ou dois, não haveria mais nada para ele
dizer, jamais.
Ele a tinha. Como previsto, eles bom, ela tinha descoberto o túnel, a única saída do terminal que
não precisava de chave. Ela não era burra, de modo algum, mas ele era superior, em intelecto e
estratégia. Entre outras coisas.
Ainda parada na porta, Claire ergueu as mãos, suas expressões irritantemente vazias. Por que ela
não estava com medo?
"Largue a arma". Alfred mandou, seu dedo no gatilho do rifle. Sua voz amplificada naturalmente
pelo poço de mineração que ocupava a maior parte do chão, ecoando pela fria câmara, soando
autoritária e um pouco cruel. Ele gostava de como soava forte, e soube que tinha funcionado
quando ela soltou a arma sem hesitar.
"Chute-a para cá". Ele ordenou, e ela obedeceu, arma batendo contra o concreto. Alfred não a
pegou, e a chutou para o parapeito à sua esquerda, ambos escutando sua única esperança
quicando nas pedras congeladas, perdida nas profundezas do poço.
Que maravilha exercer tanto controle!
"O que aconteceu com seu companheiro de viagem?". Ele perguntou, com desprezo. "Ele sofreu
um acidente? Ah, e afaste-se da porta, se não se importa. E mantenha as mãos onde eu possa
vê-las".
Claire avançou, a porta quase que totalmente fechada atrás dela, e ele viu um flash de tristeza
cruzar seu rosto, soube imediatamente que tinha marcado um ponto. Menos comida para o papai,
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mas Alfred duvidava que a monstruosidade iria reclamar.
"Ele está morto". Ela disse. "O que aconteceu com Alexia? Ou estou falando com ela você sabe,
vocês dois se parecem muito...".
"Cale a boca, mocinha". Alfred resmungou. "Você não merece dizer o nome dela. Você já sabe que
é hora dela retornar, foi por isso que seus amigos atacaram Rockfort, para atraí-la ou vocês
esperavam matá-la logo de cara, interromper seu primeiro suspiro?".
Claire agiu confusa, determinada a continuar seu disfarce, mas Alfred não queria ouvir mais
nenhuma de suas mentiras. O jogo estava perdendo interesse para ele. Perto do iminente triunfo
de Alexia, nada mais importava.
"Eu já sei de tudo,". Ele falou. "não precisa se preocupar. Agora venha comigo ".
Claire olhou de repente para cima e à direita, para a plataforma elevada onde o túnel começava.
"Cuidado!" Ela gritou, indo ao chão enquanto Alfred virava, vendo apenas a grande escavadeira e a
escura entrada do túnel
e a porta abrir violentamente atrás de Claire, o rapaz mergulhando e aterrissando de lado,
apontando a arma para ele, para ele.
Furioso, Alfred girou o rifle e apertou o gatilho, três, quatro vezes, mas não teve tempo bastante
para mirar apropriadamente, os tiros explosivos desorientados
e foi como se uma mão gigante empurrasse Alfred para trás, levando seu fôlego, o rapaz atirando
até a arma clicar.
O camaleão Alfred cambaleou mais um passo para trás e abriu a boca para rir, pronto para matar
os dois e, e o rifle não estava mais em suas mãos, ele o tinha largado por algum motivo, e seu riso
foi apenas uma molhada e dolorosa tosse
e algo cedeu atrás dele, e então estava caindo no poço de mineração. Ele aterrissou numa
grossa camada de gelo e começou a levantar, mas havia uma grande dor em seu peito. Seria
possível ter sido baleado?
Quase sem som, o gelo cedeu à sua volta e ele gritou, caindo, Alfred tinha que vê-la mais uma
vez, tinha que tocá-la, mas podia ouvir seu pai gritando também, indo para ele, e então tudo foi
perdido em dor e escuridão.
O som do terrível e monstruoso berro que surgiu para encontrar o de Alfred os fez andar, Claire
parando tempo suficiente para pegar a Remington antes de alcançar Steve na plataforma elevada.
Com Steve sem balas e a sua chutada no poço, era a única arma.
Eles entraram na cabine de uma grande escavadeira amarela, na frente de um túnel ascendente,
Steve assumindo o volante e de novo, eles ouviram aquele profundo e insano grito, e que
definitivamente estava mais perto, o monstro prisioneiro solto em algum lugar.
Steve apertou um monte de botões, acenando e sussurrando consigo mesmo. Claire ouvia
enquanto verificava o rifle apenas seis balas descobrindo que o maquinário de escavação, um
enorme trator em forma de prego, na verdade, aquecia para derreter o gelo. Ela não se importava
como funcionava, desde que saíssem de lá antes que o monstro os achasse.
Com o pesado maquinário ganhando vida, Steve explicou que o túnel provavelmente não foi
terminado porque os trabalhadores resolveram não usar o aquecedor a fim de não inundar o
complexo.
"Mas nós não". Ele disse, sorrindo. "O que você acha de fazermos um lago?".
"Vai nessa". Ela disse, sorrindo também, desejando estar um pouco mais entusiasmada. Deus, eles
estavam escapando, e com Alfred Ashford finalmente morto, não havia ninguém em seu caminho.
Mas porque ela se sentia tão insegura?
Foi aquela baboseira sobre a irmã dele... loucura, sim, mas trouxe uma pergunta que ainda não
tinha resposta por que Rockfort tinha sido atacada?
Steve acelerou e a máquina avançou. Não havia cinto de segurança, e Claire colocou uma mão no
teto, a escarradeira balançando mais do que o avião antes de bater. A visão estava quase
totalmente bloqueada pelo parafuso gigante, mas deu pra perceber quando atingiram o fundo do
túnel.
O barulho foi incrível, ensurdecedor, como pedras num liquidificador vezes cem. Tinha um cheiro
deu vapor queimado, e enquanto avançavam em total escuridão, ela podia ouvir o gelo derreter
mesmo sob o barulho, enquanto cachoeiras lavavam a cabine.
O barulho parecia não acabar mais enquanto continuavam subindo e então o veículo gaguejou
chacoalhando, a tração forçando e de repente luz inundou a cabine, cinza, sombria e bonita.
59
A escavadeira se arrastou para fora do novo buraco perto da torre, Claire reconhecendo o heliporto
enquanto Steve apontava para os veículos de neve perto da base. Estava nevando, o úmido frio
entrando na cabine um minuto depois de chegarem na superfície. Havia um vento soprando, a
neve levemente inclinada não uma nevasca, mas constante.
"Terra ou ar". Steve perguntou, e Claire percebeu que ele estava começando a tremer. Tal como
ela.
"Você é quem manda, menino voador". Ela disse. No helicóptero seria mais rápido, mas ficar no
chão parecia mais seguro. "Dá pra decolar com o parafuso?".
"Desde que não fique pior". Ele disse, olhando para a torre, mas não parecia certo. Ela estava para
sugerir um dos carros de neve quando ele deu com os ombros, abrindo a porta e deslizando para
fora, chamando-a por sobre o ombro.
"Eu sugiro a torre, menina voadora". Ele disse. "Podemos ver se realmente temos escolha".
Ela também saiu, jogando o pescoço para trás, mas não conseguiu ver o topo da torre. E estava
frio, de congelar.
"Que seja, vamos andar rápido". Claire disse, pendurando o rifle no ombro.
Steve correu para a escada, Claire o seguindo, congelada, mas alegre, de repente feliz por poder
escolher, por decidir o que podiam fazer, e como podiam fazer. E de qualquer modo, eles estariam
na estação australiana em torno de uma hora, envoltos num cobertor e bebendo algo quente,
contando suas histórias.
Bom, ao menos as partes mais plausíveis, ela pensou, subindo a escada recém lixada atrás dele.
Até mesmo as pessoas com mais mente aberta do mundo não acreditariam em metade do que
tinham para contar.
Sua alegria estava por um fio enquanto se aproximavam do topo, três andares acima, seus dentes
batendo e quando Steve virou, franzindo, ela não quis mais nada além de ficar quente.
"Não tem helicóptero". Ele disse, neve começando a grudar em seu cabelo. "Eu acho que iremos
".
Ele viu algo atrás dela e sua face de repente se contorceu com terror e surpresa. Ele se esticou
para levantá-la, mas ela já estava em movimento.
"Vai!". Ela disse, e ele virou para destrancar a escada, Claire a meio passo atrás dele. Ela não
sabia o que ele tinha visto
sim você sabe
mas pelo olhar no rosto dele, ela sabia que não o queria atrás dela.
Era a coisa, o monstro, estava solto e vindo atrás de você, seu medo bem motivado, e então, Steve
a estava puxando pelo braço, arrastando-a pelos últimos degraus. Ela cambaleou pela grande e
vazia plataforma, as linhas de pouso parcialmente cobertas pela neve, uma neblina acinzentada
tornando difícil enxergar.
"Me dê o rifle". Ele pediu, e ela ignorou, virando para ver se era verdade, para ver se identificava a
terrível dor que o fazia gritar daquele jeito
e assim que ele subiu na plataforma, ela viu que era verdade, e reconheceu o problema
imediatamente. Ela empunhou o rifle e recuou, acenando para Steve ficar atrás dela.
Alfred acordou num mundo de dor. Ele mal podia respirar, e tinha sangue em seu rosto, nariz e
boca, e quando tentou se mexer, a agonia foi instantânea e abrangente. Cada centímetro dele
estava quebrado, cortado, esmagado ou perfurado, e sabia que iria morrer. Tudo o que restou foi
sua rendição ao escuro. Ele estava com muito medo, mas doía tanto que talvez dormir fosse o
melhor...
.. Alexia...
Ele não podia desistir, não tendo estado tão perto não estando tão perto. Ele forçou a abertura
dos olhos, e viu através de uma fina camada vermelha, que estava numa das plataformas do nível
inferior que se sobressaía do poço de mineração. Ele tinha caído pelo menos três níveis, talvez
tanto quanto cinco.
"Aa, lexii-aa". Ele suspirou, e sentiu sangue borbulhando em seu peito, sentiu ossos estalando
enquanto se movia, sentiu medo da dor que enfrentaria mas ele iria até ela, porque ela era seu
coração, seu grande amor, e ganharia forças vendo seu nome nos lábios dela.
"Me dá o rifle". Steve disse de novo, observando a coisa dar seu primeiro passo na direção deles,
mas Claire não estava escutando. Ela tinha um olho na mira telescópica, estava vendo o que ele
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via, ampliado e o que ele viu era uma abominação.
De olhos vendados, suas mãos amarradas para trás, vestindo apenas uma capa de couro
manchada em torno da cintura, a criatura tinha sofrido terrivelmente, sem dúvida; ele podia ver as
cicatrizes, as amarras velhas, marcas de sangue nas algemas em seus calcanhares. Parecia
quase humano, mas seu tamanho exagerado e pele estranha uma variação de cinzas,
sustentado por magros músculos rasgados em alguns lugares, expondo carne crua. Seu peito
estava descoberto, e ele podia ver um vermelho pulsante no centro do tórax, um alvo fácil e por
alguns segundos, Steve pensou estarem a salvo, o monstro não tinha armas
e houve o som de algo eclodindo e rasgando, e quatro tentáculos assimétricos, como as pernas
de um inseto, desdobraram-se de suas costas, o mais longo com cerca de três metros, brotando
de seu ombro direito como a cauda de um escorpião. Ele deu outro passo à frente e um líquido
escuro estava sendo borrifado de seu corpo, de seu peito ou das costas. Assim que as gotículas
tocavam o cimento congelado, um denso gás roxo começou a evaporar, soprado pelo vento em
várias direções.
A coisa soltou um rosnado pesado sem palavras, e deu outro passo na direção deles, seus novos
braços passando sobre sua cabeça sem cabelo, balançando de um lado ao outro. Ele mal podia se
equilibrar, quando o pensamento lhe ocorreu, Steve já estava correndo.
Vá abaixado, cabeça para baixo, empurre ele enquanto ainda está na beirada
"Steve!". Claire gritou amedrontada, mais ele já estava quase lá, perto bastante de seu ácrido gás
natural para agredir suas narinas, devia ser veneno, tenho que afastá-lo dela
e pouco antes de empurrá-lo, algo violento o acertou, uma pancada nas costas que o fez voar
para o chão.
"Steve!". Claire gritou de novo, desta vez horrorizada, porque ele estava deslizando pelo gelo, e
apesar de estar lutando para parar, de repente não havia mais plataforma.
Steve estava a apenas alguns passos do monstro quando seu estranho braço ou acertou,
jogando-o para o lado.
"Steve!".
Steve deslizou pelo chão como uma pedra achatada na água, e desapareceu no fim da plataforma.
Ah, meu Deus, não!
Claire perdeu fôlego, a dor emocional atingindo ela como um soco, agudo e forte no estômago. Ele
estava tentando protegê-la, e tinha lhe custado a vida. Por um segundo, ela não conseguiu se
mover nem respirar, não conseguiu sentir o frio e nem se importar com o monstro.
Mas só por um segundo.
Ela olhou para o cambaleante e torturado animal indo na sua direção, sabia que sua fúria vinha
sendo alimentada há tempos, longos anos de abuso, experiências, e não sentia nada. O coração
de Claire tinha se fechado, sua mente de repente mais fria que seu corpo. Ela corrigiu a postura,
posicionando uma bala na câmara do rifle, avaliando a situação com critério.
Ela certamente podia contorná-lo, deixá-lo na plataforma e alcançar um quilômetro antes que ele
pudesse fazer a volta mas isso não era uma opção, não mais. Sua morte seria por piedade, mas
isso não cabia a ela calcular.
Eu matei Steve, e agora vou matar a coisa, ela pensou, e andou para o canto noroeste do
heliporto, o mais distante da escada. De tentáculos pairando sobre a cabeça, o monstro virou-se
dolorosamente devagar, seu rosto cego finalmente em sua direção.
Ele deu um outro ronco profundo e desalmado, e seu corpo expeliu mais líquido, algum tipo de
ácido ou veneno, provavelmente. Ela imaginou quem tinha criado tal coisa, e como ele não era
um zumbi infectado pelo T-virus, e pelo seu estado de abuso e tormento, não era uma arma
desenvolvida. Ela acreditava que nunca descobriria.
Claire empunhou o rifle e olhou através da mira, focalizando a massa pulsante em seu peito, e
depois em seu vazio rosto cinza. Ela não sabia quanto a massa em seu peito, mas tinha certeza de
que não sobreviveria a um tiro na cabeça de uma 30.06. Ela não queria perder tempo perseguindo
o monstro, ou causar dor desnecessária; ela só o queria morto.
Ela mirou no meio da testa. Ele tinha um queixo forte e um fino nariz abaixo da pele enrugada,
podendo um dia ter sido bonito, ou até mesmo um aristocrata.
Talvez seja outro Ashford, ela pensou com gozação e ironia.
A cabeça do monstro partiu ao meio quando a bala encontrou seu alvo. Pedaços de osso e massa
cerebral voaram, todos tão cinza quanto o cinza do céu, vapor subindo da tigela que um dia foi seu
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crânio caindo sobre os joelhos, os braços mutantes chacoalhando sob a neve, sua face arruinada
indo de encontro ao chão.
Claire não sentiu nada, nenhum prazer, medo ou pena. Estava morto, e só, e era hora de partir. Ela
ainda não sentia o frio, embora seu corpo chacoalhasse violentamente e seus dentes batiam fora
do controle, e ela soube que era a hora de se esquentar
"Claire?".
A voz era fraca, trêmula e inconfundivelmente de Steve, vinda do canto leste da plataforma. Claire
olhou para o espaço vazio durante uma fração de segundo, totalmente confusa e correu,
mergulhando de joelhos e mãos sobre a suave camada de neve, esticando o pescoço para
encontrá-lo estranhamente abraçado num cano dar estrutura de apoio, agarrando o metal
congelado com os dois braços e uma perna.
Seu rosto estava quase azul de frio, mas quando a viu, seus olhos acenderam, um olhar de incrível
alívio cruzando suas pálidas feições.
"Você está viva". Ele disse.
"Essa fala é minha". Ela respondeu, soltando o rifle e debruçando-se para agarrar seu braço. Foi
difícil, mas em outro minuto, Steve estava de volta na plataforma, e ambos ficaram de joelhos, frio
demais para fazer qualquer coisa além de esperar.
"Eu sinto muito, Claire". Ele disse miseravelmente, seu rosto enterrado no ombro dela. "Eu não
consegui pará-lo".
O coração dela se abriu quando o encontrou vivo, e agora estava apertado dolorosamente. Ele
tinha dezessete anos de idade, sua vida destruída pela Umbrella, e quase morreu tentando
salvá-la. Outra vez. E ele sentia muito.
"Não se preocupe, eu o peguei desta vez". Ela disse, determinada a não chorar. "Você pega o
próximo, tá bom?".
Steve acenou, sentando nos calcanhares e olhando para ela. "Eu vou". Ele disse, tão
veementemente que ela teve de sorrir.
"Legal". Ela disse, e levantou, estendendo a mão para ele. "Isso vai me poupar trabalho. Agora
vamos pegar o carro de neve, sim?".
Apoiados um ao outro e ficando próximos para aquecer, eles foram para a escada, nenhum deles
querendo se separar.
[12]
Alexia Ashford viu seu irmão morrer aos seus pés, sangrando com muita dor, estendendo o braço
para tocar seu tanque de estase com admiração em seus olhos. Ele nunca foi muito brilhante ou
competente, mas ela o amava, muito. Sua morte era uma grande tristeza... mas também o sinal
que estava esperando. Era hora de sair.
Ela sabia durante meses que o fim estava próximo ou o começo, a emersão de uma nova vida na
Terra. Sua estase permaneceu estável durante os quinze anos que precisou, sua mente e corpo
inconscientes da vida sem ciência de que estava suspensa em fluído amniótico congelado, suas
células adaptando-se vagarosamente ao T-Veronica.
No ano passado, isso tinha mudado. Ela tinha previsto que dado tempo suficiente, o T-Veronica
elevaria a consciência para novos patamares, expandindo áreas da mente que ultrapassariam os
simplistas sentidos humanos, e ela estava correta. Durante os últimos dez meses, apesar da
estase, ela começou a experimentar, testar sua lucidez... e conseguiu enxergar através de seus
olhos humanos, quando desejasse.
Alexia projetou sua mente e desligou as máquinas de suporte. O tanque começou a drenar, e ela
olhou para seu querido irmão, triste por estar morto. Ela decidiu não empregar suas emoções, mas
ela já foi humana como ele; parecia apropriado.
Quando o tanque esvaziou, Alexia o abriu, pisando em seu novo mundo. Havia poder em todo lado,
seu poder, mas naquele momento ela sentou em frente ao tanque e apoiou a cabeça
ensangüentada de Alfred no colo, sentindo a tristeza.
Ela começou a cantar, uma canção infantil que seu irmão gostava, tirando o cabelo de sua pálida
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face. Havia tristeza nas linhas em torno de seus olhos e boca, e ela imaginou como devia ter sido
sua vida. Ela pensou se ele ficou em Rockfort, na casa de Veronica, o lar de seus ancestrais.
Ainda cantando, ela tentou alcançar seu pai e ficou surpresa ao não encontrá-lo, talvez morto ou
além do alcance de sua percepção. Ela tinha tocado sua mente recentemente, estudando o que
tinha restado dela. De certo modo, ele foi responsável pelo que ela tinha se tornado; o T-Veronica
tinha despedaçado sua mente, levando-o à loucura... como teria feito com ela, caso não tivesse
testado nele antes.
Ela ampliou sua percepção, encontrando doença e morte nos níveis superiores do terminal. Uma
pena. Ela estava pensando em começar suas experiências de novo, imediatamente; sem objetos
de teste, ela não tinha motivos para ficar.
Ela encontrou duas pessoas não muito longe do complexo da Umbrella e decidiu flexionar seu
controle sobre substâncias, para ver quanto esforço seria necessário e descobriu que mal
precisava de esforço. Ela se concentrou por alguns segundos, viu um homem e uma mulher dentro
de um veículo de neve, e desejou que fossem trazidos de volta para o complexo.
Instantaneamente, linhas de matéria orgânica rasgaram um caminho através do gelo, na direção do
veículo. Impressionada, Alexia observou com seus sentidos enquanto um tentáculo gigante de
substância recém-formada subia e abraçava o veículo, erguendo-o no ar sem esforço algum e
depois o arremessou na direção do complexo. O veículo capotou várias vezes, o motor pegando
fogo, finalmente parando contra um dos prédios da Umbrella.
Ambos ainda estavam vivos, e ela pensou, satisfeita. Ela podia usar um deles numa experiência
que vinha planejando há semanas, e certamente acharia um bom uso para o outro mais tarde.
Alexia continuou cantando para seu irmão morto, intrigada pelas mudanças que estavam por vir,
procurando ganhar o máximo de domínio sobre seus poderes. Ela acariciou o cabelo dele,
sonhando.
[13]
As coisas foram de mal a pior bem rápido quando ele finalmente alcançou a ilha. Chris ficou de pé
no topo do rochedo no começo da noite, recuperando o fôlego, xingando a si mesmo. Tudo estava
naquela mochila armas e munição, equipamento de escalada para que pudesse voltar ao barco,
lanterna, kit básico de primeiros socorros, tudo.
Nem tudo. Você ainda tem três granadas no seu cinto, sua mente lhe disse. Ótimo. Na metade da
subida ele perdeu o equilíbrio e perdeu a mochila, mas parecia que ainda tinha seu senso de
humor.
É, vai ser um longo caminho para salvar Claire. Barry estava certo. Eu devia ter trazido reforços.
Bom. Ele podia ficar parado lá o dia inteiro desejando que as coisas fossem diferentes, ou podia ir
andando; ele escolheu andar.
Chris se curvou e entrou na baixa caverna que escolheu como ponto de partida, uma área isolada,
mas definitivamente conectada o resto do complexo havia uma antena de rádio do lado de fora, e
quando corrigiu a postura, viu que ele estava numa grande câmara aberta, as paredes e teto em
sua forma natural, mas o chão completamente nivelado.
Havia luz em algum lugar adiante, e Chris foi até ela, cruzando os dedos para que não
atrapalhasse nenhum jantar de militares da Umbrella. Ele duvidava. Pelo que tinha visto da ilha, o
ataque mencionado por Claire tinha sido extremamente brutal.
Ele tinha dado doze passos dentro da sombria caverna quando um pequeno tremor a chacoalhou,
fazendo pedras e poeira choverem em sua cabeça e bloqueando a entrada que acabara de
cruzar, o som das rochas bem distintos. Parece que o ataque tinha tornado a ilha um pouco
instável.
"Que maravilha". Ele murmurou, mas de repente ficou feliz sobre as granadas. Não que fossem
ajudar muito aqui. Mesmo se conseguisse explodir a abertura sem trazer tudo abaixo, ainda seria
muito alto para pular, e a corda estava na mochila; a não ser que estivesse tendo aulas, Claire não
poderia descer sem ajuda
"O que?". Alguém sussurrou, e Chris se abaixou na defensiva, procurando nas sombras
63
e viu um homem no chão da caverna, encostado numa parede. Ele vestia uma camiseta branca
rasgada com sangue, suas calças e botas militares ele era da Umbrella, e não estava muito bem.
No entanto, Chris virou de lado, pronto para chutar seu traseiro caso espirrasse.
"Eu não sabia que ainda tinha gente por aqui". O homem disse, fraco, e tossiu um pouco. "Pensei
que eu fosse o último... depois da autodestruição".
Ele torceu de novo, obviamente não muito longe da morte. Suas palavras sumiram, criando um nó
no estômago de Chris. Autodestruição?
Ele agachou, tentando manter seu tom de voz. "Estou aqui procurando uma garota, seu nome é
Claire Redfield. Você sabe onde ela está?".
Ao ouvir o nome de Claire, o homem sorriu, mas não para Chris. "Um anjo. Ela fugiu. Eu ajudei... a
deixei ir. Ela tentou me salvar, mas foi tarde demais".
A esperança se renovou."Você tem certeza que ela fugiu?".
O homem condenado acenou. "Ouvi os aviões partindo. Vi um jato saindo do subsolo, debaixo
do...". Ele tossiu. "do tanque. Você deve ir, também. Não há mais nada aqui".
Chris pôde sentir um pouco de seu estresse e medo ir embora, tensões em seu pescoço e costas
aliviando. Se ela foi embora, estava a salvo.
"Obrigado por ajudá-la". Ele disse, com sinceridade. "Qual é seu nome?".
"Raval. Rodrigo Juan Raval".
"Eu sou irmão de Claire, Chris". Ele disse. "Deixe eu te ajudar, Rodrigo, é o mínimo que posso
fazer e ".
Eeaaaaaaa!
Um ensurdecedor choro animal preencheu a caverna, e na mesma hora, outro tremor aconteceu,
um dos ruins, o solo tremendo tão forte que Chris perdeu o equilíbrio
e terra irrompeu, e Chris pensou ser uma explosão, uma fonte de areia e rochas cuspindo para
cima mas continuou subindo, e Chris conseguiu ver uma grossa e asquerosa meleca por debaixo
dela, por de sentir o cheiro de enxofre e podridão, viu o imenso cilindro de borracha continuar
subindo
e então gritou de novo, o topo do cilindro ser contorcendo, pequenos tentáculos em sua uivante
garganta, e Chris ficou de pé, tirando uma granada do cinto
e a minhoca gigante voltou ao chão, de boca aberta
e engoliu Rodrigo antes de mergulhar no solo onde estava sentado. O monstro mergulhou no
solo como um mergulhador na água, seu impossível e longo corpo arqueando, acompanhando o
resto.
Jesus!
Chris se afastou de lá enquanto o chão continuava tremendo, a criatura remanejando pedras, terra
e areia em torno dele, e percebeu que devia matá-la ou fugir rápido, que podia facilmente surgir de
novo para outro lanche rápido.
Ele correu para parede de fora da caverna, bolando um plano de emergência enquanto o verme
emergia do chão atrás dele, sua boca insana abrindo enquanto hesitava no ápice da elevação,
pronto para mergulhar sobre ele, pedras chovendo
e Chris tirou o pino da granada e correu na direção da parte da criatura que se encontrava com o
chão.
Loucura, isso é loucura
Ele agachou pouco antes de alcançar o sujo e musculoso corpo, e posicionou a granada no chão
bem na frente da criatura, com o máximo de cuidado para não ativá-la e então procurou
cobertura atrás do corpo da minhoca, rolando no chão, cobrindo a cabeça enquanto a criatura
começava a descer, berrando
e BOOM, a explosão fez o chão tremer mais forte do que o animal, o berro parou, o som da
granada abafado por meia tonelada de tripas da minhoca que voaram em todas as direções,
fedendo e quentes, pintando as paredes da caverna com baldes de gosma viscosa.
Chris rolou pelo chão, ensopado, observando a frente do animal se contorcendo, já morto e
enquanto seus músculos e reflexos apertavam pela última vez, a minhoca expeliu um jato de ácido
estomacal e pedras por seu ventre, vomitando sua última refeição.
Rodrigo!
Antes que o enorme corpo tocasse o chão, Chris já estava ao lado de Rodrigo, horrorizado e
indefeso, dominado pelo choque e pela dor. Ele estava coberto por uma bile amarela, e Chris podia
ver lugares onde o líquido já tinha começado corroer sua pele.
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Rodrigo soltou um leve gemido, fraco demais para gritar com a incrível dor, e Chris rasgou a
própria camiseta para limpar o rosto de Rodrigo.
"Você vai ficar bem, apenas relaxe, não tente falar". Chris disse, totalmente ciente de que Rodrigo
estaria morto em minutos, talvez segundos. Ele continuou falando, mantendo o tom de voz apesar
do pavor.
Rodrigo abriu os olhos, e apesar de estarem cheios de sofrimento, também tinham aquele molhado
e distante olhar de alguém que está partindo, alguém perto de se livrar da dor e do medo.
"Direito... bolso...". Rodrigo suspirou. "O anjo... deu... para sorte".
Rodrigo respirou fundo bem devagar, e exalou com a mesma velocidade, uma exalação que
parecia não terminar mais, e então se foi.
Chris automaticamente fechou seus olhos entre abertos, triste e ao mesmo tempo aliviado com a
morte de Rodrigo, pelo fim de uma vida, mas também pelo fim do sofrimento.
Descanse, amigo.
Suspirando, Chris alcançou o bolso de Rodrigo, sentiu um metal morno e tirou o velho e pesado
isqueiro que tinha dado a Claire há muito tempo. Para dar sorte.
Chris o segurou em seu peito, de repente tomado por uma onda de amor por sua irmã. Ela
carregou o isqueiro com ela durante anos, mas desistiu dele para aliviar a mente de um homem
morrendo, possivelmente o homem responsável por sua captura.
Ele o guardou em seu bolso e levantou, grato pela oportunidade de devolvê-lo para ela e de
dizer que o objeto tinha feito a diferença nas últimas horas de Rodrigo, que tinha sorrido ao ouvir
seu nome. Mesmo Claire não precisando ser resgatada, a viagem de Chris para ilha já tinha valido
a pena.
O fedor da caverna estava chegando até ele, e agora que sabia que sua irmã estava a salvo, tudo
que restava era ir para casa. A entrada tinha sido bloqueada, e ele não tinha uma arma decente,
mas se alguém ativou o sistema de autodestruição da Umbrella parecia que todos os seus
laboratórios ilegais tinham esse tipo de dispositivo, um bom jeito de destruir evidências caso algo
desse errado então não teria problemas para achar o tanque que Rodrigo tinha mencionado,
poderia ter outro jato à disposição.
"Não tenho escolha". Ele disse suavemente, e com uma oração final por Rodrigo, ele foi atrás do
que procura.
***
Havia uma briga prestes a começar em um dos monitores restantes da sala de controle, e Albert
Wesker, frustrado com um dia de procura sem resultados e não querendo enfrentar outro longo
vôo, puxou uma caixa e sentou para observar. Ele tinha dispensado todo mundo e estava sozinho
mas disse que tinha esquecido de alguém, que alguém ainda estava andando pela ilha...
.. mas não por muito tempo, ele pensou, feliz, desejando que a recepção fosse melhor; graças
àquele fracassado Alfred Ashford, o sistema de autodestruição tinha bagunçado tudo... e
finalmente, algo interessante estava para acontecer.
Deus, ele está desarmado!
Maluco, pouco ou totalmente ignorante quanto à situação da ilha. Wesker sorriu. O homem
desarmado estava andando pelo complexo de treinamento um andar abaixo, e estava para
encontrar uma das mais novas armas biológicas da Umbrella, uma que estava presa nos esgotos
até que Wesker apareceu e a libertou. Eles estavam próximos; quando o idiota fizer a curva, estará
morto.
Wesker ajustou seus óculos escuros, prazerosamente despreocupado com seus afazeres.
Sweepers (varredores), era como a Umbrella os chamava, mas eles eram basicamente Hunters
com garras venenosas enormes anfíbios violentos. Na opinião de Wesker, os Hunters, a série
121, já era perfeitamente eficaz sem o toque extra de veneno.
Mas é a cara da Umbrella, sempre desperdiçando recursos, fazendo brincadeiras enquanto podiam
estar vencendo guerras.
Sim, sim, mas em alguns segundos haveria carnificina. Wesker deixou seu desgosto pela
companhia de lado e se curvou para assistir.
O idiota sem arma um homem alto com cabelo castanho avermelhado, era tudo o que a estática
permitia enxergar estava a dois passos do desastre, o Sweeper esperando na próxima curva...
até que ele parou e encostou na parede danificada.
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Wesker franziu. O homem começou a recuar, devagar e com cuidado, ainda encostado na parede.
Talvez não fosse um idiota completo.
Ele tinha recuado metade do corredor quando o Sweeper finalmente perdeu a paciência, decidindo
entrar em ação. Não havia sistema de som ativo, mas a criatura tinha levantado a cabeça e estava
gritando, aquele esquisito e rouco grito ecoando até Wesker através do prédio arruinado um
segundo depois.
"Pega ele". Wesker falou, ansioso, olhando para o pobre condenado... bem a tempo de vê-lo
arremessando algo, algo pequeno e escuro, o Sweeper saltando ainda gritando, o objeto caindo à
sua frente
E o prédio chacoalhou, os monitores mostrando branco e depois preto, o profundo trovão do
explosivo fazendo o chão tremer.
Wesker ficou impressionado. E furioso. A criatura era um milagre da ciência, um guerreiro criado
para batalhar quem era o idiota que o tinha explodido?
Um idiota morto, Wesker pensou, empurrando a caixa e indo para a escada. Ele desceu dois
degraus por vez, cuidadosamente passando por alguns focos de incêndio, ciente de que estava
canalizando todas as suas frustrações e preocupações para o desconhecido soldado, sem se
importar. Alexia não estava em Rockfort, o que significava que precisava ir para a Antártida, para o
único outro complexo que poderia estar; para o que mais Alfred teria ido lá? E se Wesker não
achá-la antes de acordar, irá para casa de mãos vazias... o que o levaria ao fracasso, e se havia
alguma coisa que Wesker odiava, era perder.
Ele marchou através dos destruídos restos do complexo de treinamento, alcançando o corredor
que queria, silenciando seus passos enquanto avançava. Ainda havia fumaça no ar quando
alcançou a curva onde o conflito tinha acontecido, não tinha sobrado muito do Sweeper. A maior
parte dele estava grudada nas paredes e no teto.
Ali, adiante e a esquerda; ele podia cheirar o intruso, podia sentir o cheiro de suor e ansiedade
emanando do pequeno laboratório onde estava refugiado.
Isso vai machucá-lo mais do que machucaria a mim, ele pensou, seu humor aumentando um
pouco com a possibilidade de uma pequena interação pessoal.
Não querendo ser explodido, Wesker não hesitou, não deu a chance para o cara ficar alerta. Ele
invadiu a sala, viu o futuro cadáver de costas e andou. Movendo-se do modo como só ele podia
num segundo ele estava na porta, no outro ele estava contornando o intruso, levantando-o pelo
pescoço
Ah, não!
Chris, que esteve no S.T.A.R.S. de Raccoon, levado sob o comando de Wesker para a mansão
de Spencer, onde acabou arruinando os planos de Wesker. Chris Redfield o fez perder dinheiro e,
por pouco, sua vida mas o pior de tudo, ele foi o principal responsável pelo maior fracasso da
carreira de Wesker.
Wesker se recuperou rapidamente, uma obscura e maravilhosa alegria tomando conta de seu
corpo. "Chris Redfield, enquanto eu viver e respirar o que o trouxe a Rockfort, se não se importa
em...".
Wesker parou, ainda olhando para a avermelhada face de Redfield enquanto lutava inutilmente
contra seus dedos. A garota, claro! Ele nem sabia que Chris tinha uma irmã, mas a carta que Alfred
Ashford tinha deixado para trás explicava tudo... incluindo seus planos para a jovem Claire
Redfield.
"Ela não está aqui". Wesker disse, sorrindo. Com sua mão livre, ele ajustou os óculos escuros.
"Você... você está morto". Chris engasgou, e Wesker sorriu mais, não se importando em responder
tal afirmação.
"Não mude de assunto, Chris. Você quer saber onde Claire está, hein? Você sabia que o avião
dela fez com pequeno desvio não planejado para a Antártida?".
Chris estava morrendo de choque lentamente, mas Wesker podia ver que a notícia sobre sua irmã
o estava afetando mais do que sua morte iminente. Maravilha!
"Há experiências sendo conduzidas lá". Wesker zombou sussurrando, como se estivesse contando
um segredo. "Eu planejo ir para lá, ver se consigo fazer um ou dois dos experimentos... me diga, a
sua irmã é atraente? Será que ela estaria interessada em alguma ação, porque eu tenho uma
dureza que você não imagina ".
Chris golpeou Wesker, a indefesa fúria em seus olhos absolutamente maravilhosa. Ele acertou
Wesker no rosto, derrubando seus óculos escuros no chão... e Wesker riu, levantando olhar e
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piscando devagar, deixando-o ver. Ele próprio ainda não estava acostumado, o olho felino
vermelho e dourado ocasionalmente o surpreendia na frente do espelho e causaram o efeito
exatamente como esperava.
"O que... é você?". Chris roncou.
"Eu estou melhor, é isso". Wesker disse. "Novos patrões, você sabe. Depois da mansão de
Spencer, eu precisei de uma pequena ajuda para ficar de pé, coisa que eles estavam perfeitamente
desejando fornecer. Você acha que Claire gostará?".
"Monstro". Chris resmungou.
Eu vou te mostrar o monstro, seu merda.
Wesker começou a fechar a mão, devagar, observando os olhos de Chris saltarem, a veia em sua
testa inchando
e foi interrompido pelo som de uma gargalhada. Fria, feminina, preenchendo a sala,
cercando-os.
"Vocês não querem jogar comigo?". A voz disse, a mesma mulher, suave, sensual e perigosa, e
então começou a rir de novo, um impiedoso e bonito som que finalmente terminou em nada.
Alexia!
Deus, ela já tinha acordado... e o tipo de poder que a fez achá-lo aqui, que a fez se projetar tão
longe...
Wesker jogou Chris para o lado, mal ouvindo a parede de gesso rachar sob seu inútil corpo, seus
pensamentos tomados por Alexia. Ele tinha que ir até ela imediatamente. Ele precisava dela, e não
apenas pela amostra... ele pegaria o que pudesse.
"Estou indo". Ele disse, pegando seus óculos escuros e movendo-se, correndo pelo arruinado
complexo até onde seu avião particular esperava. Chris Redfield era seu passado; Alexia era seu
futuro.
Chris engatinhou e ficou de pé logo depois que Wesker partiu, machucado numa dúzia de lugares,
sua garganta terrivelmente dolorida. Ele não sabia o que tinha acontecido exatamente, não sabia
quem era a mulher ou porque Wesker parecia tão ansioso em achá-la mas agora ele sabia quem
tinha atacado Rockfort, e suspeitava do motivo. Albert Wesker deveria ter morrido quando a
mansão de Spencer explodiu, mas parecia que tinha vendido sua alma para alguém novo pelo
preço de sua vida, alguém obviamente tão sujo e imoral quanto Umbrella alguém desejando
matar em troca de sua necessidade, por algo que a Umbrella tinha.
Chris não se importava. No momento, tudo com que se importava era Claire, e chegar nesse
complexo da Antártida. Ele sabia que a Umbrella tinha uma base legítima lá... devia ser a mesma,
e se não fosse, alguém lá saberia dizer onde os experimentos eram conduzidos.
Ele só tinha uma granada restando. Se ele pudesse achar o aeroporto subterrâneo, não teria
problemas para entrar, e podia pilotar qualquer coisa com asas. Ele usaria o rádio para localizar a
base da Umbrella, e caso não achasse uma arma, usaria as próprias mãos.
Tudo o que importava era Claire. E já estava a caminho.
[14]
Eles estavam a algumas horas de distância.
Dois homens conectados pela história, um era seu inimigo, o outro... Alexia não sabia, ainda não,
mas sabia que estava atrás da garota que havia tirado do veículo de neve. Provavelmente o garoto
também. Nenhum deles conseguiria escapar, claro... mas ela estava procurando pelas intrigas e
pretensões, os dramas que a humanidade deles traria ao seu lar. Ela aproveitaria a chance de
observar suas tendências naturais e instintos antes de alterar suas vidas para sempre.
Ela parou no grande salão fazendo considerações: possíveis futuros, sua próxima transformação,
as mudanças psicológicas e estruturais que sua nova síntese causaria nos humanos, como daria
boas-vindas a seus novos convidados... e lhe ocorreu que seu lar, nas profundezas do gelo e da
neve, seria difícil para eles encontrarem. Ela imediatamente desejou que as portas fossem abertas,
que obstáculos fossem removidos... e ela ouviu, viu e sentiu os resultados no mesmo instante,
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presente numa centena de lugares ao mesmo tempo enquanto fechaduras eram quebradas e
paredes derrubadas, enquanto destroços eram empurrados de lado e aberturas alargadas.
Ela estava preparada. As coisas fluiriam mais rápido agora... e o que aconteceria nas próximas
horas, a certo grau, definiria suas escolhas para um futuro próximo. Tudo ainda era tão novo, os
modelos de sua nova vida escritos apenas na areia...
Sorrindo com suas próprias noções poéticas, Alexia foi conferir a primeira série de injeções para o
garoto.
[15]
Algo estava muito, muito errado no complexo da Umbrella na Antártida, mas Chris não sabia o que
era.
No quinto nível da escura e deserta base, dezenas de metros abaixo da neve, Chris parou na
frente do que parecia ser uma grande mansão feita de tijolos brancos. Uma fonte atrás dele, vasos
de plantas, até um carrossel decorado. Ele tinha sido conduzido até lá, presumivelmente porque
alguém queria que ele entrasse, mas ele não sabia quem ou o porquê.
Seus instintos diziam para sair de lá, mas ele os ignorou. Ele precisava. Não sabia se era um
animal indo para o abate, ou se estava sendo levado para Claire. Desde que pousou o jato no
hangar, ele foi guiado durante cada passo do caminho entrando em corredores e ouvindo portas
trancando atrás dele, outras abrindo à sua frente... duas vezes, ele encontrou jóias no frio chão de
cimento, apontando numa direção em particular, e uma vez, depois de fazer uma curva errada,
todas as luzes se apagaram. Elas acenderam de novo quando ele voltou para o caminho "correto".
Já foi estranho bastante achar o complexo depois de cruzar intermináveis quilômetros de gelo e
neve... e vê-lo pela primeira vez, surgindo das vazias planícies como uma miragem...
Mas ser atraído para algum lugar como um animal, sem saber o motivo...
Chris estava assustado, mais assustado do que queria admitir. Ele tentou parar, procurar armas ou
pistas, mas tudo se desligava, toda a porta trancava exceto as que deveria seguir, claro. As
câmeras que deviam observar seus movimentos estavam tão bem escondidas que ele não viu
nenhuma delas... até parecia que seu pastor conhecia sua mente, sabia que sinais mostrá-lo para
seguir adiante. A princípio ele achou que fosse Wesker, que tudo seria uma armação para
capturá-lo mas por que se preocupar? Ele podia ter estrangulado Chris na ilha se quisesse. Não,
ele estava sendo guiado por algum motivo, e parecia não ter escolha senão continuar... a não ser
que não quisesse achar Claire.
Ele respirou fundo e abriu a porta da frente da mansão, entrando.
Era bonita, tão extravagante quanto a fachada sugeria, uma grande escadaria, pilares decorados
e estranhamente familiar, apesar de ter levado um momento para entender, as cores e decorações
diferentes. Era a configuração o mesmo desenho básico do saguão principal da mansão de
Spencer. Era surreal, mas tão perfeitamente harmoniosa no meio de todas as outras estranhezas
que ele nem se importou.
Chris parou por um momento, esperando, olhando em volta por outro sinal e então ouviu o que
parecia ser uma risada vindo de trás da escada. Era a mesma risada que tinha ouvido no complexo
em Rockfort, aquela mulher.
O que ela disse? Algo sobre querer jogar?
Definitivamente se parecia com um jogo, como se ele fosse um personagem controlado por alguém
se divertindo e estava começando a deixá-lo irritado. Ficar com medo só o deixava mais bravo.
Chris foi até a parede do fundo, pronto para confrontar a mulher, para exigir algumas respostas
Mas quando ele contornou um dos pilares decorados, viu que não havia ninguém lá.
"Mas que diabos é isso". Ele murmurou, virando
e lá estava Claire. Presa com teia na parte de trás da escada, como se feita por uma aranha
gigante, de olhos fechados, sua cabeça abaixada.
Wesker não ficou surpreso ao achar partes do complexo antártico construídos à semelhança da
mansão de Spencer. A extravagância subterrânea era um incrível desperdício, mas como tinha
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reparado outras vezes, era coisa da Umbrella.
Tudo se resumia a intrigas, no começo. Depois, tudo virou um filme de espionagem ruim.
Oswell Spencer e Edward Ashford foram responsáveis pela criação do T-virus, mas esse foi sua
única realização; o resto era dinheiro jogado fora. Verdade, os complexos inteiros com exceção
dos laboratórios, claro eram uma cara piada, mantidos por homens velhos e crianças com pouca
imaginação e dinheiro demais.
Ciente de que Alexia o estava observando, Wesker fez seu tempo, indo de andar em andar,
eliminando alguns zumbis restantes. Ele não carregava uma arma, ele simplesmente agarrava
seus pescoços e os deixava asfixiar. Em duas ocasiões, ele foi visto por outras criaturas, ele as
sentiu, mas não as viu, e elas não atacaram, talvez o reconheceram como um deles.
Wesker continuou andando, certo de que Alexia o encontraria quando estivesse preparada. Ele
tinha deixado seu jato a uma certa distância do complexo, querendo ter certeza de que ela
entendia como ele era diferente que os elementos não o afetavam, que era mais forte do que
cinco homens juntos, com melhor resistência e sentidos mais aguçados. Ele também queria que
ela o visse respeitando seu espaço, que ele seria paciente... e que estava extremamente
determinado.
Na hora que quiser, querida, ele pensou, andando por um frio corredor no quinto subsolo. Ele já
tinha passado por ali antes, mas sabia que a mansão estava lá, e suspeitava de que ela iria querer
recebê-lo em grande estilo. Mas não importava, ela podia jogá-lo numa cocheira e não faria
diferença, mas ele sabia que ela era provavelmente tão vaidosa e mimada quanto seu irmão.
Apesar de poderosa e brilhante, ela também era uma menina rica de vinte e cinco anos que passou
quinze desses anos dormindo.
Rica, bonita... travessa. Ela provavelmente ainda não entendia seus poderes, e não demoraria
muito, ele podia sentir. Ele sentiu a fria calmaria do corredor e avançou para a mansão novamente.
Claire acordou devagar, seu corpo dolorido segurado gentilmente por mãos quentes. Ela foi
deitada, a frieza do chão a acordando, e quando abriu os olhos, viu seu irmão. Sorrindo para ela.
"Chris!". Ela sentou e o abraçou, ignorando seus músculos doloridos, tão feliz em vê-lo que por um
momento ela se esqueceu de tudo mais. Era Chris, era ele, finalmente!
"Ei, irmãzinha". Ele disse, abraçando fortemente suas costas, o familiar som de sua voz fazendo-a
segura. Ela desejou que pudesse durar para sempre, depois de tanto tempo!
"Claire... eu acho que devemos sair daqui agora". Ele disse, e pôde sentir a preocupação por trás
de suas palavras, lembrando-a de tudo que tinha acontecido. "Eu não sei exatamente o que está
acontecendo, mas não acho seguro".
"Nós temos que achar Steve". Ela disse, e começou a levantar, preocupada. Chris a ajudou,
segurando-a enquanto se equilibrava.
"Quem é Steve?".
"Um amigo". Claire disse. "Nós escapamos de Rockfort juntos, e íamos escapar daqui também
mas algo... algum tipo de criatura agarrou o carro de neve e o arremessou ".
Ela olhou para Chris, de repente, mais do que apenas preocupada. "Antes de eu apagar, eu o ouvi
dizer meu nome ele está vivo, Chris, não podemos deixá-lo ".
"Não vamos". Chris disse firmemente, e Claire sentiu-se fraca de alívio. Chris tinha vindo, ele sabia
tudo sobre a Umbrella, ele encontraria Steve e os tiraria de lá.
Risada. Uma mulher estava rindo, uma alta e cruel risada. Chris saiu de trás da escada, Claire o
seguiu, ambos olhando para o andar de cima, e havia uma mulher, era
Alfred?
Não, não era Alfred. E isso significava...
"Então existe uma Alexia". Claire disse suavemente.
Ainda rindo, Alexia Ashford virou e foi embora, saindo por uma porta no topo da escada.
"Ela deve saber onde Steve está". Chris disse, apressado, ao mesmo tempo que Claire pensou, e
então ambos estavam correndo, subindo, Claire o ultrapassando rapidamente, pronta para arrancar
a verdade da irmã de Alfred a tapas
e CRASH, atrás dela, a escada desmoronando, Claire rolando para o chão enquanto um
gigantesco tentáculo destruía o andar de cima, igual ao que tinha pego o veículo de neve
e então sumiu, recolhendo-se para a parede através do buraco que tinha criado, deixando um
lance de escada destruído para trás. O lance principal ainda estava inteiro, mas Claire estava presa
no andar superior. Ela teria que descer.
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"Claire!".
Claire se ajoelhou, viu Chris lá embaixo, franzindo com uma dor em sua perna, no meio de madeira
e gesso quebrado.
"Você está bem?". Claire perguntou, e Chris acenou e então houve um grito, e ela sentiu seu
sangue gelar.
Veio da porta que Alexia tinha cruzado, e era de Steve, não havia dúvida na consciência de Claire.
Era de Steve, e ele estava sofrendo.
Não posso deixar Chris, mas
"Chris, é ele". Claire disse, trocando olhares entre seu irmão e a porta, sem saber o que fazer.
"Vá, eu te alcanço!". Chris disse.
"Mas ".
"Vá! Eu ficarei bem, tome cuidado!".
Aterrorizada, Claire virou e correu, esperando não chegar tarde demais.
Wesker entrou no grande saguão da mansão subterrânea, e viu que não era mais grandiosa. Algo
tinha acontecido com a escadaria, parte do balcão superior em pedaços no chão.
Ele ouviu alguém se mexendo atrás de um grande pedaço do andar superior, ainda pendurado pelo
carpete, e deu um passo adiante
e lá estava ela. Parada no topo da escadaria usando um longo e escuro vestido, seu sedoso
cabelo loiro amarrado atrás de seu pálido e bonito rosto.
"Alexia Ashford". Wesker disse, surpreso por estar ansioso agora que o momento tinha chegado.
Ela parecia humana, delicada e indefesa, mas ele sabia que não.
Faça seu arremesso, e faça direito.
Wesker limpou a garganta, dando um passo adiante e tirando seus óculos escuros. "Alexia, meu
nome é Albert Wesker. Eu represento um grupo que sempre admirou seu trabalho e que esteve
ansiosamente esperando por seu, é, retorno".
Ela o observou indiferente, de cabeça levemente inclinada, postura ereta e rígida. E parecia uma
debutante em sua primeira festa social.
"E permita-me dizer que é uma honra pessoal conhecê-la". Wesker disse sinceramente. "Meus
empregadores contaram tudo sobre você. Eu sei que seu pai a inoculou com os genes de sua
tataravó, Veronica que com esse material genético, a verdadeira fundação da linhagem dos
Ashford, ele criou você e Alfred para serem gênios. Veronica certamente ficaria orgulhosa".
"Eu sei que você criou o T-Veronica em sua homenagem...". Cuidadoso, ele não deveria
mencionar o que aconteceu a seu pai, não estrague tudo. "... e que você é o único, é, ser vivo com
acesso ao vírus".
"Eu sou o vírus". Alexia disse friamente, estudando-o com olhos estreitos.
"Sim, claro". Wesker disse. Deus, ele odiava essa porcaria diplomática, ele era péssimo nisso, mas
queria impressioná-la, impressioná-la com o quanto valiosa era para certos partidos interessados.
"Então". Ele continuou, pensando no quanto fácil as coisas teriam sido se a tivesse achado em
estase. "Eu apreciaria muito todos nós apreciaríamos muito se você concordasse em fazer uma
reunião particular com meus empregadores, para discutir uma aliança. Eu posso garantir que não
ficará desapontada".
Ela esperou para ver se já tinha acabado e então riu, bem alto. Wesker sentiu-se corado. Ficou
claro o que ela achava de seu pedido.
Certo. A gentileza acabou.
Wesker deu um passo à frente e esticou a mão. "Nós queremos uma amostra do T-Veronica". Ele
disse, o disfarce sumindo de sua voz. "E eu insistirei que você o dê para mim".
Quando ela começou a descer a escada, por um segundo ele pensou que ela o faria mas então
ela começou a mudar, e ele parou de pensar. Ele só pôde olhar, seu medo voltando multiplicado
por dez.
Um degrau abaixo, e seu vestido se desfez em chamas, sob veias de luz dourada, a luz vindo de
seu corpo. Outro degrau, e sua pele mudou para um cinza-escuro, seu cabelo desaparecendo,
mechas de carne cinza crescendo do topo de sua cabeça até enquadrar-seu rosto. Sua nudez foi
transformada no próximo degrau, assim que uma armadura áspera cresceu sobre uma perna até a
virilha, enrolando para suportar um dos seios e cobrir seu braço direito. Ao chegar no primeiro
degrau, ela não se parecia mais com Alexia Ashford.
Sem fôlego, Wesker tentou tocá-la e com as costas da mão, ela o acertou, e ele voou para perto
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da porta de entrada.
Que poder!
Ele se levantou, entendendo que força poderia ser útil, e se preparou para mover, para usar seu
próprio poder
e com um sorriso, ela abanou o braço e fogo se espalhou pelo chão de mármore, cercando-o.
Ela abaixou o braço e o jato de chamas cessou, mas o que estava no chão continuou queimando,
sobre pedra bruta.
Wesker soube aí que ele estava acabado. Se ela optasse por matá-lo, seria melhor para ele. Sem
outra palavra, ele virou e saiu de lá, correndo assim que a porta fechou atrás dele.
O metade-criatura foi embora, e segundos depois, o jovem rapaz o seguiu, acreditando ter
escapado sem ser visto. Alexia os observou correndo, impressionada e um pouco desapontada.
Ela esperava mais.
O metade-criatura não era ameaça, e ela decidiu se livrar dele. Sua arrogância a tinha agradado,
tanto quanto sua patética "oferta". O jovem rapaz, por outro lado... corajoso e capaz de
auto-sacrifício, leal e cheio de compaixão. Fisicamente uma boa cobaia. E ele amava sua irmã,
que estava para morrer serviria para uma interessante reação fisiológica.
Alexia decidiu criar um confronto para fazê-los interagir. Ela testaria uma nova forma para si e
veria se o sofrimento o tornaria mais forte, ou se provaria ser um dom
Ela riu, imaginando uma forma apropriada para adquirir. Exceto por Alfred, ninguém mais sabia o
simples segredo do T-Veronica, que era baseado na química de uma formiga rainha. Ela tentaria
uma configuração insetóide, vivenciar as forças e vantagens que tal forma dispunha.
Sua decepção tinha passado. A garota e o garoto morreriam, e depois iria atrás do rapaz.
[16]
Através das salas e corredores da mansão, Claire teve que correr, com medo de ouvi-lo gritar
novo, com medo de não saber onde procurar. Passados os aveludados corredores, pela chegou
numa área carcerária, celas dos dois lados do corredor, o ambiente frio e escuro mais uma vez.
Um solitário infectado tentou alcançá-la através das barras, uivando.
"Steve!".
Sua voz ecoou de volta para ela, cheia de tensão e medo, e sem uma resposta de Steve. Havia
uma pesada porta de metal à sua direita, diferente das outras, reforçada com barras de aço. Ela a
abriu, achando a ante-sala de uma ainda maior.
"Steve!".
Sem resposta. A sala maior era comprida e mal iluminada, como um grande corredor, e ela não
conseguia ver o que havia no final dele. Ela viu um portão suspenso que separava os dois
ambientes, que definitivamente a fez parar. Ela olhou em volta e achou um pedaço de madeira
quebrada no chão, e a posicionou obstruindo o trilho do portão na parede, não querendo terminar
presa.
Ela correu pelo salão, intimidada pelas enormes estátuas de cavaleiros alinhadas nas sombrias
paredes, sua ansiedade crescendo a cada segundo. Onde ele estava, por que tinha gritado?
Ela estava na metade do corredor quando o viu, sentado numa cadeira na parede do fundo, com
um tipo de barra bloqueando seu peito.
Ah, Deus...
Claire correu, e enquanto se aproximava, viu que se tratava da barra de um comprido machado,
uma alabarba, a lâmina firmemente fincada na parede atrás dele. Ele parecia muito pequeno e
muito jovem, seus olhos fechados e cabeça abaixada mas dava para perceber sua respiração, o
que diminuiu sua ansiedade.
Ela ficou ao seu lado e puxou o gigante machado, que não soltou. Ela agachou perto dele, tocando
seu braço, ele tremeu, abrindo os olhos.
"Claire!".
"Steve, Graças a Deus você está bem, o que aconteceu? Como você veio parar aqui?".
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Steve tentou puxar o machado e não conseguiu. "Alexia, deve ter sido a Alexia, ela se parecia com
o Alfred ela me injetou algo, ela disse que faria o mesmo que tinha feito com seu pai, mas que
desta vez faria certo ".
Ele empurrou o machado de novo, fazendo força, mas não estava se movendo. "Em outras
palavras, ela estava pirada. Eu acho que ela e Alfred eram bem próximos afinal de contas...".
Steve parou de falar, suas bochechas corando de repente. Suas mãos começaram a se contorcer,
seu corpo tremendo.
"O que é isso?". Claire perguntou, com medo, com muito medo, por seu corpo estar se curvando
seus dedos fechando um punho, seus olhos aterrorizados.
"C... Claire...".
Sua voz foi o apagando, seu nome virando um grunhido, e então estava se torcendo na cadeira,
suas roupas rasgando. Ele abriu a boca e um gemido aguado saiu, assustado no começo e depois
bravo. Furioso.
"Não". Claire suspirou, começando a recuar, e Steve segurou o machado, tirando-o da parede,
levantando. Seu corpo continuou encurvando, sua cabeça tombando, seus músculos inchando
debaixo da pele que estava ficando cinza esverdeada. Espinhos brotaram de seu ombro esquerdo,
dois, três deles, enquanto suas mãos alongavam-se, enquanto um enorme ferimento sem sangue
crescia em suas costas, enquanto seus olhos ficavam vermelhos e selvagens.
A coisa que uma vez foi Steve Burnside abriu a boca e gritou, enfurecida, e Claire virou e saiu
correndo, doente com a perda e o pavor, correndo mais do que podia.
O monstro a seguiu, varrendo com o machado, a afiada lâmina cortando o ar. Ela conseguia sentir
o vento causado pela lâmina e de alguma forma ganhou mais velocidade, suas pernas pulando,
acelerando mais rápido.
O monstro varreu de novo, o som vasto e ensurdecedor. Mais rápido, mais rápido, a ante-sala logo
à frente
e o portão estava descendo, estava para trancá-la junto com o monstro, como, não importava,
ela tinha que ir mais rápido ou estaria morta
e com um último e forte impulso, Claire mergulhou no espaço entre o portão e o chão, deslizando
sobre o estômago, o portão batendo atrás dela.
O monstro mugiu, começou a balançar o machado em abandono, faíscas voando enquanto
atacava as barras de metal. Chocada, Claire o observou quebrar três delas, dobrando o aço com a
ferocidade de seus golpes, antes de perceber que podia fugir dali.
A porta, eu a deixei aberta, ela pensou deslumbrada, e se levantou, e deu um passo na direção da
saída quando
algo atravessou a parede, não o monstro, mas sim uma coisa que a agarrou como uma cobra
constritora, levantando-a, outro tentáculo. O monstro continuou agredindo o metal, e o atravessaria
em segundos, o tentáculo a segurando firmemente.
Acordada de seu deslumbre, Claire bateu no tentáculo, mas o material era impenetrável. Ele
simplesmente a segurou, esperando pelo monstro atravessar o portão.
O monstro queria espancá-la e cortá-la, queria parti-la ao meio, e continuou batendo a arma nas
barras, e finalmente, surgiu um buraco por onde podia passar.
Ela fazia barulhos entre a coisa que a segurava, barulhos ofegantes que faziam seu sangue quente
em e excitado, que o fez levantar o machado, desejando o fim dela.
Ele desceu o machado, forte, lembrando do que tinha dito a ela, prometido a ela
você pega o próximo
eu vou
e a coisa, ele, parou a lâmina quase tocando sua cabeça. O tentáculo esperou, apertando ainda
mais, e ele lembrou.
Claire.
Steve levantou o machado novamente, com força. Ele era muito forte e desceu o machado no
tentáculo, fatiando ele.
Com um espirro de fluído verde, a grossa mangueira abanou e acertou seu peito, arremessando-o
contra a parede, e depois desaparecendo. Ele sentiu e ouviu costelas quebrando, sentiu o fervor de
seu sangue esfriando, sentiu sua força indo embora.
A dor veio, aguda, intensa e em todo lugar, mas ele abriu os olhos e ela estava lá, em segurança,
ela estava alcançando sua mão. Claire Redfield, tocando sua mão com lágrimas nos olhos.
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O monstro se fora.
Ela tocou sua mão e ele a levou até seu rosto, para seu bonito rosto, apoiando-a em sua
bochecha.
"Você está quente". Ele suspirou.
"Agüente aí,". Ela disse, apelando, o nó em sua garganta chocando-a. "por favor, meu irmão veio e
vai nos levar com ele, por favor, não morra!".
Os olhos de Steve estavam agitados, como se estivessem tentando ficar abertos.
"Estou feliz por seu irmão ter vindo". Ele sussurrou, sua voz falhando. "Estou feliz por ter te
conhecido. Eu... eu te amo". Depois da última palavra, sua cabeça tombou, seu peito murchou e
não levantou mais, e Claire ficou sozinha.
Steve se fora.
[17]
Chris correu, sabendo que seu tempo era curto enquanto Alexia Ashford continuasse viva, com
medo de ela já ter pego Claire.
"Claire!". Ele gritou, batendo seu punho em cada porta que passava. Não adiantava gritar; se Alexia
tivesse apenas metade do poder que ele suspeitava, ela já saberia onde ele estava... e onde Claire
estava.
Por favor, por favor, não a machuque, ele pensou, o pensamento repetindo enquanto corria por
outro corredor, cruzando uma porta, outro corredor, e outro. Ele não sabia se algo poderia impedir
Alexia, mas se pudesse achar Claire e seu amigo, e levá-los para o elevador de emergência, ele
tentaria ativar o sistema de autodestruição antes de partir. Alexia estava na metade do caminho até
o poder absoluto e o puro mal, ela era um apocalipse esperando para acontecer, e precisava ser
impedida.
"Claire!".
Através de um corredor familiar, outra imitação da mansão de Spencer, cruzando uma porta que
dava em uma sombria prisão, celas alinhadas nas paredes. Ele tinha que achá-la, sem ela, não
partiria. Ele queria Alexia morta, mas não colocaria a vida de Claire em risco, por nada, e tirá-la de
lá era sua principal prioridade
e alguém estava chorando atrás de uma das portas fechadas. Chris parou de correr e escutou,
tentando não respirar, isolando a incansável persistência de um contaminado preso em uma das
celas. Outro choro...
Claire, ah, Graças a Deus você está viva!
Ele abriu a porta, pronto para agredir qualquer coisa próxima a ela e a viu sentada no chão,
gemendo, seus braços em volta de um jovem rapaz, seu corpo nu escoriado. Ele estava morto.
Ah, não.
Só podia ser Steve, o amigo de Claire, e apesar de triste pelo garoto que nunca conheceu, o
coração de Chris estava partido por ela. Ela parecia tão frágil, tão sozinha... mais um ponto para
Alexia. Chris não tinha dúvida de que Steve tinha morrido por causa daquela vadia maluca. E por
mais que quisesse sentar e confortar Claire, estender sua mão e compartilhar seu sofrimento, ele
sabia que precisavam sair.
"Nós temos que ir agora, Claire". Ele disse o mais gentil possível e ficou aliviado quando ela
acenou, cuidadosamente deitando seu amigo, fechando seus olhos com uma trêmula mão. Ela o
beijou na testa e levantou.
"Tá". Ela disse, acenando de novo. "Estou pronta".
Ela não olhou para trás, e apesar de tudo, ele estava orgulhoso dela. Ela era forte, mais forte do
que ele poderia ter sido se perguntado para deixar alguém que amava.
Juntos, eles correram pelo corredor, Chris considerando que deveriam estar perto do canto
sudoeste do prédio, onde tinha pousado seu jato e visto o elevador de emergência. O sistema de
autodestruição deveria ficar consideravelmente perto do elevador para tornar uma fuga possível; se
apenas pudesse achar o elevador, ele verificaria cada andar durante a subida.
73
Havia uma escada no fim do corredor, e Chris correu até lá, Claire ao seu lado. Ele conseguia
sentir os segundos passando enquanto subia os degraus, sentiu como se o tempo os estivesse
alcançando, que Alexia tinha parado de jogar.
Passada a porta no topo da escada, cruzando uma grande plataforma de metal Chris riu alto
quando olhou para trás, viu as portas do elevador de emergência.
"O quê?". Claire perguntou.
Ele apontou para as portas, sorrindo. "Ele vai nos levar direto para o jato".
Claire acenou, sem sorrir, mas parecendo aliviada. "Ótimo. Vamos".
Chris virou para olhar a parede de frente para o elevador. "Eu tenho que verificar uma coisa
primeiro". Ele disse, querendo olhar a outra porta mais de perto, a que parecia uma porta de
segurança. "Você vai, eu irei logo atrás".
"Esquece". Claire disse, firme. Ela foi atrás dele, seus olhos vermelhos de tanto chorar, mas seus
dentes apertados, determinada. "De modo algum vamos nos separar de novo".
Chris se curvou para o olhar o mecanismo de abertura das portas e suspirou, levantando. Já devia
ser o sistema de destruição; a trava era complicada e única, requerendo uma chave que não
possuía. Além disso, à direita da porta havia um lançador de granadas trancado, um que não
reconhecia, a etiqueta do lacre dizendo somente em caso de emergência.
Melhor assim, devemos sair enquanto podemos, ele pensou, mas não estava contente. O quanto
poderosa Alexia ficaria antes de outra oportunidade como essa?
"Ei espere um segundo" Claire disse, e começou a revirar a pequena bolsa em sua cintura. Antes
que ele pudesse perguntar, ela estava segurando uma chave de metal, na forma de uma libélula.
Não havia dúvidas de que serviria na fechadura.
"Eu a achei em Rockfort". Ela disse, inclinando-se e pressionando a chave no rebaixamento. Ela
serviu perfeitamente, a porta destrancando com um sólido clique.
"Você vai ativar o sistema de autodestruição, não vai". Claire disse, não exatamente em forma de
pergunta. "Você tem o código?".
Chris não respondeu, pensando que havia um número incrível de coincidências na vida, e que às
vezes, funcionavam a favor de um indivíduo.
"Código Verônica". Ele disse, suavemente, e abriu a porta, pronto para derrubar tudo, entendendo
que deveria ser assim.
[18]
O garoto estava morto, mas a garota não. E agora o jovem homem estava tentando destruir o lar
de Alexia, e não era um jogo, uma experiência ou algo para observar, ele tinha que morrer com dor
e miséria. Como ele ousou considerar tal coisa? Ele devia estar ajoelhado diante dela, um inútil
suplicante à disposição para ela fazer o que quisesse, como ele ousa?
Alexia viu os irmãos correndo de sua traiçoeira façanha, sentiu eles desejando partir enquanto a
seqüência automática começava, luzes e sons pulsando, sistemas desligando pelo terminal. Sua
perfídia era inútil, claro. Ela seria capaz de interromper a seqüência com o mínimo de esforço,
usando seu controle sobre o orgânico para servir cada conexão no complexo, mas foi a insolência
que a deixou tão furiosa. Ele tinha testemunhado a glória de suas habilidades, ele tinha visto e
fugido de medo... e ainda podia se dar ao luxo de tirar uma vida como a dela?
Alexia se conteve, reunindo todo o seu poder, tornando-se completa. Ela sabia que o rapaz tinha
achado uma arma perto do teclado, um revólver que alguém tinha deixado para trás. Ela não fez
objeção, sabendo que a arma o daria esperança, e que para uma vitória ser completa, o vencedor
ficaria com tudo. Ela iria tirar sua esperança, ela iria tirar a vida de sua irmã e depois tiraria a sua.
Ao adquirir sua totalidade, ela imaginou se tornando líquida, percorrendo as estruturas ao seu redor
tão facilmente quanto as extensões orgânicas que controlava, e então estava fazendo isso, indo
confrontar os intrusos.
Eles ficaram desacreditados, como se esperassem conseguir. Ela deslizou para fora de seu
hospedeiro orgânico, desdobrando-se, virando para olhar seus nublados olhos, seus estremecidos
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rostos tolos. Ela os viu olharem para ela, curiosos apesar de sua raiva.
Eles conversaram na frente dela, ele insistindo que cuidaria das "coisas", que a garota deveria
fugir. A garota concordou, mas insistiu que ele sobrevivesse. Depois desse comentário absurdo, a
garota virou e correu para o elevador.
Alexia foi interceptá-la, levantando a mão para atacá-la
e uma perfuração apareceu em sua carne, distraindo-a. Uma bala tinha entrado em seu corpo.
Ela virou e sorriu para ele, para a arma em suas mãos, e alcançou dentro de si, tirando a bala e a
jogando nele. Por mais gratificante que sua reação fosse, a garota não estava mais lá.
Era hora de expandir seus limites, Alexia decidiu. Para mostrá-lo quem ela era e o que podia
fazer... e impor o medo de Deus sobre ele, porque ao fechar os olhos, imaginando e desejando, ela
parou de ser Alexia Ashford e se tornou Ira, divina e impiedosa.
[19]
"O sistema de autodestruição foi ativado". Uma gravação começou, reverberando pelo poço, o eco
misturando com o resto da mensagem. "Você tem quatro minutos e quarenta segundos para
alcançar a distância mínima de segurança". Chris já estava alerta mesmo antes da luta começar.
Alexia levantou a mão para acertar Claire e Chris atirou, a .357 pulando em sua mão, o tiro se
sobrepondo às sirenes, ensurdecedoramente explosivo.
Isso! Um tiro certeiro, bem na barriga, e Claire já estava no elevador, apertando o botão e entrando
na cabine
mas ao invés de sangrar, ao invés de cambalear, Alexia sorriu para ele. Ela levantou uma de
suas mãos acinzentadas e a fez penetrar em seu corpo, a carne afrouxando como água em
movimento. Um segundo depois ela retirou a bala e gentilmente a jogou em sua direção.
Ruim, isso é muito, muito ruim, Chris pensou, e então ela começou a mudar.
A flexível mulher agachou na grade de metal e sua carne líquida começou a tremer, formando altos
e baixos em todo o se corpo, o tecido borbulhando, expandindo. Os altos virando montanhas, os
baixos virando vales, tudo cinza e inchado enquanto seus membros começavam a dobrar em si
mesmos. Seus braços curvaram e se juntaram à massa expandindo, as pernas desaparecendo no
meio de tudo, a textura ficando áspera e ressecada, veias como cabos levantando, e ela continuou
inchando. Sua cabeça rolou para baixo e se tornou parte do gigante corpo, o cinza virando um
músculo avermelhado, o roxo e azul dos vasos sanguíneos conectando-se como se carregados
pela maré.
"Você tem quatro minutos para alcançar a distância mínima de segurança". Alguém disse, e Chris
mau ouviu, ele estava recuando, cada vez mais convicto de que aquilo não acabaria bem. O
elevador estava bloqueado, e ela continuava crescendo.
Grossos tentáculos saíram de baixo da elefântica massa, ondulando como ondas, espalhando-se
pela plataforma. As costas de Chris tocaram a parede, e a coisa, o massivo tumor se separou de
uma cintura que não existia, abrindo gigantes asas, asas de libélula, expelindo uma retorcida e
deformada face humana.
A face abriu a boca e um alto grito rouco saiu, suas asas tremendo com a vibração do poderoso
som e então cuspiu nele, um fino jato verde amarelado de bile que atingiu a plataforma aos seus
pés, começando a corroer o metal.
"Droga!". Chris gritou, e mal teve tempo de sair do caminho enquanto um dos tentáculos atacava.
Ele tinha que ficar de olho na boca e nos tentáculos ao mesmo tempo
e dos circulares e trêmulos buracos que nasceram ao redor da base de seu gigante corpo,
rastejantes criaturas começaram a sair.
Chris correu para o canto mais distante de Alexia e levantou a .357, sem saber onde atirar. As
pequenas subcriaturas estavam caindo na plataforma, como pedras achatadas com tentáculos,
alguns parecidos com besouros e outros como nunca tinha visto antes, e todos estavam vindo em
sua direção, e bem rápido.
Os olhos, se não puder matá-la, ao menos poderia cegá-la mas os olhos já eram cegos, esferas
cinzas com escuridão sob elas, e ele já sabia o quanto eficazes as balas eram contra ela.
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Isso fez sua decisão. Chris mirou e atirou
e a pulsante e inchada criatura gritou de novo, desta vez com dor, uma de suas asas caindo na
plataforma.
Alguns dos pequenos organismos tinham alcançado ele, um deles saltando em sua perna,
tentando subir. Enojado, ele o varreu de lá, mas logo outro assumiu seu lugar, e um terceiro. Um
tentáculo voou em seu rosto, vindo de uma das criaturas. Chris o bloqueou, por pouco.
Anda!
"Você tem três minutos para alcançar a distância mínima de segurança".
Chris correu ao longo da parede, chegando no canto em frente à criatura e mirou de novo, tentando
a outra asa. Ele errou o primeiro tiro, mas acertou o segundo.
Ela uivou, a asa pendurada por fiapos de tecido, e cuspiu de novo, o jato de bile errando seu rosto
por centímetros. Agora a coisa só tinha as duas asas de cima, e apesar de saber que a tinha
machucado, não parecia ter sofrido nenhum ferimento grave.
E só tenho duas balas sobrando.
Devia haver algo que pudesse fazer, algum modo de pará-la, o sistema de autodestruição iria
mandá-los para o inferno e seria tudo culpa sua. Ele saltou quando outro tentáculo atacou da base
da criatura, tentando pensar, essa era uma baita emergência e ele tinha que pensar
somente em caso de emergência.
O inflamado monstro gritou. Mais besouros estavam pulando nele, mas ele os ignorou, tendo
apenas que virar a cabeça para ver a cavidade da arma perto da porta, aquela com uma barra de
segurança. Um lançador de mísseis ou de granadas, que seja, era uma beleza, mas a barra ainda
estava abaixada, não tinha liberado.
"Você tem dois minutos para alcançar a distância mínima de segurança".
Ka-chunk.
A barra levantou.
Chris correu e tirou a arma, levantando-a e mirando no arregaçado corpo da criatura. Ele não
sabia o que a arma faria, mas esperava que fosse boa, esperava que fosse acabar com aquela
vadia.
Não havia trava de segurança, nada para abastecer. Chris puxou o gatilho
e uma fúria de luz branca e calor partiu do cano, explodindo no alvo como uma flecha em um
balão. O efeito foi enorme, a explosão monstruosa.
Uma fonte de sangue e gelatina cinza espirrou do rasgado buraco, respingando em seu rosto, mas
ele só tinha olhos para a aberração Alexia gritando enquanto sua carne e estrutura cediam,
murchando
A parte de cima da criatura estava tentando se livrar da massa morrendo, as duas asas se
debatendo freneticamente, mas com apenas duas, ela não podia se libertar... e estava morrendo,
ele sabia porque podia ver seu sangue drenando, porque a cor de sua horrível pele estava
mudando, ficando pálida, as subcriaturas estavam encolhendo, por causa do absoluto ódio em sua
face... e pela absoluta surpresa.
Enquanto o monstro Alexia silenciava e começava a cair, sua cria derretendo, Chris ouviu que
restava apenas um minuto.
Claire.
Ele largou a arma incendiaria e correu.
[20]
Claire estava acabada e não havia nada que pudesse fazer. Steve estava morto, e Chris tanto
poderia voltar como não, e de um jeito ou de outro, tudo iria pelos ares em breve, e ela não tinha
nada o que dizer sobre isso.
"Você tem dois minutos para alcançar a distância mínima de segurança". O computador a informou
educadamente, e Claire mostrou o dedo do meio para o alto-falante mais próximo. Se existisse
inferno, ela já saberia o que tocavam nos elevadores ao invés de música.
Só havia um jato onde o elevador a tinha deixado, e Claire apoiou-se no parapeito na frente dele,
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seus braços cruzados bem apertado, seu olhar fixado nas portas do elevador. Ela olhava e
esperava, sua ansiedade crescendo, uma parte dela acreditando que ele não apareceria enquanto
os alarmes soavam pelo hangar vazio, ecoando de volta para ela.
Não me deixe, Chris, ela pensou, apertando seus braços mais forte. Ela pensou em Steve,
lembrando do ataque de riso que ele a tinha inspirado na ilha. O modo como ele a tinha olhado,
como se fosse louca.
Venha agora, Chris, ela pensou, fechando os olhos e desejando o mais forte que podia. Ela não
podia perdê-lo, também, seu coração não agüentaria.
Restava um minuto para alcançar uma distância segura.
Quando o chão tremeu sob seus pés, ela pensou em chorar, mas não houve lágrimas. Ao invés
disso, ela olhou para o elevador, certa de que ele se fora, tão certa disso que quando a porta do
elevador abriu, quando ele saiu, ela pensou estar alucinando.
"Chris!". Ela perguntou, sua voz quase um sussurro, e ele estava correndo para ela, espirros de
sangue e algo mais espalhados por seu rosto e braços, e foi aí que ela entendeu que era real. Ela
não teria alucinado sobre ele com meleca na cara.
"Chris!".
"Entre". Ele ordenou, e Claire pulou no banco de trás, feliz, assustada e ansiosa, sozinha e aliviada,
desejando que Steve estivesse com eles e triste por não estar. Havia mais sentimentos, dezenas,
mas no momento, ela não podia lidar com nenhum deles. Ela os afastou e não pensou em nada,
não sentiu nada além de esperança.
Chris a prendeu apertado e começou a apertar botões, o pequeno jato acordando. Acima deles, o
teto se dividiu ao meio, as nuvens acima enquanto ele os tirava do hangar, suavemente. Alguns
segundos depois, eles estavam acelerando, deixando o morto complexo para trás.
Os ombros de Chris relaxaram, e ele limpou a testa com as mãos, tentando esfregar a meleca mau
cheirosa.
"Eu podia tomar um banho". Ele disse de leve, e as lágrimas finalmente vieram, acumulando nos
cílios inferiores.
"Não me deixe sozinha de novo, tá bom?". Ela perguntou, fazendo o possível para deixar as
lágrimas fora de sua voz.
Chris hesitou, e ela instantaneamente soube porque, sabia que não estava acabado para eles dois.
Aquilo seria pedir demais.
"Umbrella". Ela disse, e Chris acenou.
"Nós temos que resolver isso, de uma vez por todas". Ele disse firmemente. "Nós precisamos,
Claire".
Claire não sabia o que dizer, finalmente optando por não dizer nada. Quando a explosão ocorreu
um momento depois, ela não olhou. Ela fechou os olhos, encostou no assento e desejou não
sonhar caso finalmente dormisse.
[Epílogo]
Há milhas de distância, Wesker ouviu a explosão, e pôde ver a fumaça subindo logo depois,
pesadas e escuras nuvens. Ele pensou em fazer a curva e voltar, mas desistiu; não havia porque.
Se Alexia não estivesse morta, seus comparsas descobririam em breve; droga, o mundo inteiro
descobriria em breve.
"Espero que você tenha ficado aí, Redfield". Ele disse baixo, sorrindo um pouco. Claro que ficou;
Chris não era tão brilhante e rápido para ter fugido a tempo...
.. mas pode ter tido sorte o bastante.
Wesker tinha que reconhecer isso; Redfield tinha uma sorte dos diabos.
Foi uma pena Alexia ter recusado sua proposta. Ela era algo, aterrorizante e maligna, mas
definitivamente algo. Seus empregadores não ficariam felizes ao descobrir que voltou sem ela, e
não podia culpá-los; eles tinham investido muito no ataque a Rockfort, e ele tinha praticamente
prometido resultados.
Eles continuarão vivendo. E se não gostarem, podem procurar um cara novo. Trent, por outro
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lado...
Wesker fez cara feia, não desejando a próxima reunião. Ele devia ao cara. Depois do fiasco na
mansão, Trent tinha literalmente tirado seu traseiro do fogo, e cuidou para que fosse
consertado, melhor do que novo. E foi responsável pela introdução de Wesker a seus novos
empregados, homens com reais aspirações ao poder, e meios de conseguí-lo.
E...
E ele nunca admitiria isso em voz alta, mas Trent o assustava. Ele era tão discreto, educado e
tranqüilo ao falar mas com um brilho nos olhos que sempre parecia estar sorrindo, como se tudo
fosse uma piada e ele era o único que entendia. Na experiência de Wesker, aqueles que riam eram
os mais perigosos; eles não pareciam ter nada para provar, e eram no mínimo levemente insanos.
Só estou grato por estarmos do mesmo lado, Wesker afirmou para si, acreditando nisso porque
queria. Porque ir contra alguém como ele não era um bom plano.
Bom. Ele podia se preocupar com Trent mais tarde, depois de se desculpar com os agentes
apropriados. Pelo menos o escoteiro Redfield estava morto, e Wesker ainda estava bem vivo,
trabalhando para o lado que iria vencer no final.
Wesker sorriu, desejando o fim. Seria espetacular.
O sol tinha nascido e estava refletindo na neve, criando uma brilhante radiação, ofuscante em sua
perfeição. A aeronave continuou voando, sua sombra perseguindo a luz sobre as brilhantes
planícies.
FIM
***
Resident Evil - Code: Veronica
[www.fyfre.com]
Autora: Stephani Danelle Perry.
Editora: Pocket Books (U.S.A.)
Tradução: Raphael Lima Vicente.
Revisão: Monnie ~ Red Queen
Tradução e digitação simultânea começada em:
15 de Outubro de 2005.
Tradução e digitação simultânea terminada em:
25 de Março de 2007.
Dias trabalhados na tradução: 58 dias
Resident Evil TM & © 2001
Capcom Co., Ltd.
© 2001 Capcom U.S.A., Inc.
***
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Edgar Madruga
Salvador/BA
De: Lucas
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Os moderadores não atendem pedidos em PVT.
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16:15
Ricardo
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