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Artigos de 22-7-12- Segundo arquivo

Texto de Lúcio Costa para a revista Módulo

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Íntegra do texto como publicado por Lúcio Costa em seu livro Registro de uma Vivência.

Relato pessoal

1975

A pedido de Maria Luiza Carvalho, para o n° 40 da revista MÓDULO.


O projeto do edifício-sede do Ministério da Educação data de 1936. A sua construção, iniciada no ano seguinte, foi lenta. Em 1944 já estava praticamente concluído,
mas só foi inaugurado em 1945. Se considerarmos, portanto, como referência, a sua concepção, já tem mais de 50 anos, mas apesar da marcada época não perdeu, nem
perderá jamais, a força e carga expressiva que lhe são inerentes
É difícil ao arquiteto de hoje perceber a significação dessa obra e aquilatar o que ela representou de paixão, de esforço, de sacrifício. Os novos conceitos arquitetônicos,
formulados na década anterior, ainda não haviam sido assimilados pela opinião culta e popular e eram violentamente refutados. Mas para mim, que tinha dedicado o
chômage de 32 a 35 ao estudo da obra teórica de Le Corbusier, o problema arquitetônico parecia então indissoluvelmente entranhado no problema social, porquanto oriundos
da mesma
fonte - a revolução industrial do século XIX -, e esse vínculo de origem conferia sentido ético à tarefa em que estávamos empenhados, exigindo-nos dedicação total,
como se fôssemos, na nossa área, moralmente responsáveis pelo bom encaminhamento da meta comum.
(Nota- Chômage significa tempo de desemprego).
Isso explica porque, tendo um projeto já pronto e aprovado, em vez de darmos logo início à obra como seria normal e faria qualquer arquiteto hoje em dia, resolvemos
considerar o dito por não dito e recomeçar tudo da estaca zero. É que, apesar de se tratar de um belo projeto, tínhamos as nossas dúvidas e deliberamos submetê-lo
ao veredito do mestre.
Este projeto inicial compunha-se de um bloco mais alto na posição do atual edifício, já com a fachada sul envidraçada e quebra-sol na fachada norte, mas dispondo
de pavimento térreo com saguão ligado ao auditório, construção esta solta do bloco principal ao qual se articulavam, do lado oposto, ou seja,norte, duas alas de
menor altura, sobre pilotis baixos, enquadrando a entrada com pórtico

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carroçável precedido por um espelho d'água e pela escultura do Celso Antonio intitulada "Homem em Pé" cujo modelo já estava pronto. Nas salas de trabalho dessas
alas laterais, orientadas para leste, as janelas eram corridas, enquanto as galerias de acesso, voltadas para o poente, dispunham apenas, em cada tramo, de uma pequena
janela quadrada prevendo-se revestimento externo com granito rosa do Joá.
Mas não foi fácil conseguir a vinda de Le Corbusier, porquanto no ano anterior já aqui estivera Piacentini, o arquiteto de Mussolini - contratado pelo governo para
ajudá-lo no problema da implantação da Cidade Universitária (a escolha então oscilava entre a Praia Vermelha e a a área existente aos fundos da Quinta da Boa Vista,
onde se acha atualmente o Jardim Zoológico) -, e o ministro Capanema não se sentia em condições de pleitear nova contratação. Mas tanto fiz que me levou ao Catete,
e o Dr. Getúlio, entre divertido e perplexo diante de tamanha obstinação, acabou por aquiescer, como se cedesse ao capricho de um neto. Recorremos então ao Monteiro
de Carvalho que conhecia pessoalmente Le Corbusier, ficando estabelecido que viria por quatro semanas para examinar o problema da Cidade Universitária, fazer uma
série de conferências (realizadas no então Instituto Nacional de Música, sempre lotado) e, finalmente, para dar parecer sobre o projeto do Ministério.
Ele viajou pelo "Graf Zeppelin", que fazia em quatro a cinco dias a rota do Atlântico sul, pousando em santa Cruz. E fomos todos de madrugada esperá-lo em companhia
de Hugo Gouthier, então do gabinete do ministro, chefiado por Carlos Drummond de Andrade.
Tínhamos escritório no Edifício Castelo, na av. Nilo Peçanha 151, onde ele se instalou, mantendo inicialmente certa reserva para conosco, pois ignorando as circunstâncias
da sua convocação julgava-se convidado por iniciativa do próprio ministro, desejoso de seu parecer sobre a construção projetada.
Considerou, de saída, o terreno impróprio porque estaria dentro em pouco cercado por prédios inexpressivos. Parecia-lhe que o edifício deveria ficar voltado para
o mar e o Pão de Açúcar, fixando-se na área correspondente, antes do segundo aterro, àquela onde agora se encontra o MAM, e para ela elaborou, com extrema espontaneidade,
o belo risco de um edifício de partido baixo e alongado que serviu depois de base ao projeto definitivo. "J'ai simplement ouvert les ailes de votre bâtiment", disse
ele então num generoso understatement. Mas a troca do

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terreno já na posse do governo federal por outro de propriedade municipal
implicaria delongas, e não se efetivou. Ele ainda tentou adaptar a sua concepção ao
terreno original, surgindo então um impasse, porque sendo o lote mais estreito na
desejada orientação sul não haveria como dispor, nessa orientação, a metragem total de piso requerida pelo programa, uma vez que então as autoridades da aeronáutica
limitavam o gabarito a dez pavimentos. Teve assim que implantar o bloco no sentido norte-sul, com fachadas para leste e oeste, o que resultou numa composição algo
contrafeita que não agradou nem a ele nem a nós. Contudo, apesar dessa frustração final, ele ainda nos deixou de quebra, sem querer- além dos planos para a Universidade,
das aulas ao vivo e daquele risco fundamental -, uma dádiva: foi durante esse curto mas assíduo convívio de quatro semanas que o gênio incubado de Oscar Niemeyer
aflorou.
Depois de sua partida nos atribuímos a tarefa de fazer novo projeto baseado na sua proposição inicial, ou seja, orientado mesmo para o sul e com a altura necessária,
determinando desde logo a Emílio Baumgart, engenheiro responsável pelo cálculo estrutural, a previsão de fundações capazes de suportar a carga definitiva, isto porque
eu, como bom carioca, entendia que, com o tempo, a coisa se resolveria. E assim de fato ocorreu.
Elaborado o projeto, enviamos um jogo de cópias acompanhado de fotografias da maquete à rua de Sèvres 35, e ele respondeu congratulando-se conosco: "Il est beau,
votre projet".
Éramos todos ainda moços e inexperientes - Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Afonso Eduardo Reidy, Jorge Moreira, Ernani Vasconcelos; o mais velho e já vivido
profissionalmente era eu. Entretanto, agimos como donos da obra, construída sem
a interferência de um empreiteiro geral, pela própria Divisão de Obras do ministério, chefiada então por Souza Aguiar, e tivemos como técnico principal para as instalações
Carlos Stroebel. Foi uma experiência difícil, tanto mais que a concepção arquitetônica do prédio era tida pela crítica e opinião pública como exótica, imprópria
para a ambientação local, além de "absurda" por deixar o térreo em grande parte vazado. Aliás, o próprio Auguste Perret, de passagem aqui, menosprezou, na presença
do ministro, o risco original de Le Corbusier, declarando que o edifício estaria dentro de pouco tempo sujo "devido à falta de cornijas" -, mas apesar desse sombrio
prognóstico as suas belas empenas continuam impecavelmente limpas.

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Com o início da guerra os contatos eventuais se interromperam de todo, e Le Corbusier só teve notícias da obra concluída quando, terminado o pesadelo, revistas especializadas
em todos os países começaram a divulgar, como revelação, a chamada arquitetura brasileira, despertando assim o interesse de arquitetos que aqui vinham unicamente
para conhecer o Ministério, a ABI, a Pampulha, o Parque Guinle, etc., enquanto daqui partiam grupos de estudantes em excursão pela Europa, orientados por professores
nem sempre suficientemente informados mas que faziam palestras sobre o assunto. E como tanto as revistas como os improvisados divulgadores omitissem pormenores da
participação pessoal de Le Corbusier no caso, e os contatos diretos conosco ainda não houvessem sido restabelecidos, ele passou a interpretar tais ocorrências como
usurpação da parte que, de direito, lhe cabia, estado de espírito que o levou, numa espécie de revide, à défaillance de publicar como risco original seu para o edifício
efetivamente
executado um croquis calcado sobre aquela fotografia da maquete que lhe havíamos em tempo enviado junto com o projeto, desenho feito sem muita convicção e sem data
(ele sempre datava todo e qualquer risco que fizesse).
Evidentemente a sua intenção fora simplesmente evidenciar o vínculo - melhor, a
filiação - de uma coisa com a outra.
Esse risco figurou maliciosamente numa exposição havida em São Paulo, por volta dos anos 50, quando eu já havia escrito aos organizadores da mostra alertando para
o fato de se tratar de um falso testemunho que deveria ser substituído pelo risco original da edificação baixa e alongada destinada à beira-mar que, este sim, serviu
e base ao novo projeto.
Informado do que ocorria, escrevi-lhe então precisando os fatos e as circunstâncias e remetendo, inclusive, fotografia da inscrição gravada na parede do saguão de
edifício e redigida por mim em substituição ao texto omisso que me fora submetido, pois já estava prevendo as possíveis conseqüências do caso. E a coisa assim se
desfez, tanto mais que nos sucessivos encontros em Paris passou a me conhecer melhor e logo compreendeu que o empenho de todos nós fora unicamente contribuir para
a consolidação da sua obra e fazer, tanto quanto possível, na sua ausência, o que fosse do seu agrado. Assim, acatamos as suas recomendações no sentido do emprego
de "azulejos" nas vedações térreas e do gnaiss nos enquadramentos e nas empenas, bem como a preferência assinalada no seu risco por outra escultura de Celso Antonio
que não a escolhida por nós, - o "Homem

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Sentado".
A propósito dessa figura monumental, de vários metros de altura, cabe aqui, num parêntese, o registro da cena trágica que presenciei no atelier improvisado no próprio
canteiro de obras onde o escultor trabalhou anos a fio. Certa tarde o ministro - tal como Lourenço de Médici ou Julio II ele acompanhava amorosamente o trabalho
dos seus artistas, mormente os de Portinari e do Celso -, pediu que mostrássemos a obra a Aníbal Machado. O escultor, que já havia recoberto a enorme massa de alto
a baixo com panos umedecidos para a devida preservação do barro, determinou ao seu auxiliar que a descobrisse novamente, e na luz mortiça da tarde e de uma lâmpada
que lhe avivava a forte modenatura, a estátua foi aos pouco surgindo; mas, quando a tarefa ia a meio, a possante figura com seu olhar parado foi-se inclinando lentamente
para trás e desmoronou num estrondo.
Seja como for, porém, a verdade é que depois daquelas quatro semanas de 1936 não houve mais qualquer interferência de Le Corbusier, que só veio a conhecer o edifício
já pronto poucos anos antes da sua morte, quando aqui retornou para projetar a embaixada da França em Brasília.
Esse belo edifício do Ministério é, conforme já tenho dito, um marco histórico e simbólico. Histórico porque foi nele que se aplicou, pela primeira vez, em escala
monumental, a adequação da arquitetura à nova tecnologia construtiva do concreto
armado, inclusive a fachada totalmente envidraçada, o pan de verre: as experiências anteriores haviam sido todas em edifícios de menor porte. Quando, com a sua estrutura
já adiantada, fui com Oscar Niemeyer cuidar do Pavilhão do Brasil na Feira Internacional de 1939, não havia em Nova York nenhum edifício com essas fachadas translúcidas
que caracterizam a cidade, as agora chamadas "curtain wall"ou "murs rideaux". Vieram todos depois. E simbólico porque, num país ainda social e tecnologicamente subdesenvolvido
foi construído com otimismo e fé no futuro, por arquitetos moços e inexperientes, enquanto o mundo se empenhava em auto-flagelação.
Assim, as marchas e contramarchas, os obstáculos, as contrariedades, tudo valeu a pena. Mesmo a difícil deliberação de me afastar da obra quando senti que já perdia
o poder de decisão e que, portanto, a minha presença tolhia os demais; tudo valeu a pena porque, assim, o grupo não traiu a confiança do extraordinário ministro
e do nosso poeta maior que, na sua condição de eficiente mortal, lhe chefiava o gabinete.

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A minha última intervenção, já no final da obra e depois do ostracismo que me impusera, foi quanto à cor dos peitoris da fachada norte, que o Oscar pretendia azuis
como as lâminas do quebra-sol. Juntos descemos pela avenida Graça Aranha, a fim de ajuizar à distância, e me pareceu melhor fazê-los cinza, conforme felizmente ficaram.
E com essa pequena e derradeira escolha, dei por encerrado esse capítulo da minha vida profissional.

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