O Unico e Eterno Rei - T. H. White - Txt

T. H. White
O ÚNICO E ETERNO REI
Tradução de Maria José Silveira
Ilustrações de Alan Lee



Título original: The Sword in the Stone
1938 by T. H. White


Índice


INCIPIT LIBER PRIMUS – A Espada na Pedra
INCIPIT LIBER SECUNDUS – A Rainha do Ar e das Sombras
INCIPIT LlBER TERTIUS – O Cavaleiro Imperfeito
INCIPIT LIBER QUARTUS – A Chama ao Vento
INCIPIT LIBER QUINTOS – O Livro do Merlin
EXPLICIT LIBER


O Eterno e Futuro Rei 01
A ESPADA NA PEDRA



INCIPIT LIBER PRIMUS


Ela não é terra comum
Água, madeira ou ar,
Mas Gramarye, ilha de Merlin
Onde você e eu iremos chegar



I


Segundas, quartas e sextas eram dias de Beija-Mão e Summulae Logicales e, no resto da semana,
Princípios de Investigação, Recapitulação e Astrologia. A preceptora sempre se atrapalhava com o
astrolábio e, quando ficava especialmente atrapalhada, ela o tomava das mãos de Wart, batendo-lhe
nos nós dos dedos. Não batia nos nós dos dedos de Kay porque Kay, quando crescesse, seria Sir
Kay, o senhor da propriedade. Wart era chamado de Wart porque rimava mais ou menos com Art, e
era uma abreviatura de seu verdadeiro nome. Kay lhe dera esse apelido. Kay era chamado apenas
de Kay, pois era muito importante para ter apelido, e imediatamente teria um ataque se alguém
tentasse lhe dar um. A preceptora tinha cabelos ruivos e uma ferida misteriosa com a qual
conseguia grande prestígio ao mostrá-la, a portas fechadas, para todas as mulheres do castelo.
Diziam que estava no lugar onde ela se sentava, e que fora causada por ter se sentado, por engano,
sobre uma armadura em um piquenique. Ela acabou se oferecendo para mostrá-la a Sir Ector, que
era pai de Kay, teve um ataque histérico e foi mandada embora. Depois descobriram que ela havia
passado três anos em um hospício.

De tarde o programa era: segundas e sextas, torneio e equitação; terças, falcoaria; quartas, esgrima;
quintas, arco e flecha; sábados, a teoria da Cavalaria, com as maneiras adequadas de se receber um
golpe em qualquer situação, terminologia da etiqueta da caça e perseguição. Se, por exemplo,
fizessem a coisa errada no toque de "mort" ou no "desmanche", eram curvados sobre o corpo do
animal morto e recebiam um golpe com o lado cego da espada. Isso era chamado de ser laminado.
Era uma grosseria, uma espécie de brincadeira, como ter o cabelo raspado ao cruzar pela primeira
vez a linha do Equador. Kay, no entanto, nunca fora laminado, embora errasse com freqüência.

Quando se livraram da preceptora, Sir Ector disse:

— Afinal de contas, maldição, os meninos não podem ficar correndo o dia todo como
desordeiros... afinal de contas, maldição? Deveriam ter uma educação de primeiro grau. Quando eu
tinha a idade deles, tinha toda essa coisa de Latim e o resto às cinco, toda manhã. O tempo mais
feliz de minha vida. Passa o Porto.
Sir Grummore Grummursum, que ficou para passar a noite porque fora surpreendido no meio de
uma busca, depois de uma corrida especialmente longa, disse que, quando tinha a idade deles,
desaparecia toda manhã porque ia atrás dos falcões em vez das lições. Atribuía a essa fraqueza o
fato de nunca ter conseguido passar do futuro simples de Utor. Ficava na metade inferior da coluna
esquerda, ele disse. Na página noventa e sete, achava. Passou o Porto.

Sir Ector perguntou:


— Teve uma boa busca hoje?
— Oh, nada má — Sir Grummore disse. — Um dia esplendidamente bom, na verdade. Encontrei
um camarada chamado Sir Bruce Saunce Pite cortando a cabeça de uma donzela em Weedon
Bushes, corri atrás dele até a Mixbury Plantation, em Bicester, daí ele fugiu de novo, e o perdi em
Wicken Wood. Deve ter sido uns bons quarenta quilômetros.
— Uma perseguição das boas — comentou Sir Ector. — Mas quanto a esses meninos e todo esse
Latim e tudo isso — acrescentou o velho cavalheiro. — Amo, amas, entende?, e ficarem nesse
corre-corre de desordeiros: o que você aconselharia?
— Ah — disse Sir Grummore, colocando um dedo no nariz e dando uma piscadela para a garrafa
—, isso requer que se pense bem a respeito, se você não se importa que o diga.
— De jeito nenhum — disse Sir Ector. — Muito gentil de sua parte dizer seja o que for. Muito
amável, com certeza. Sirva mais Porto.
— Bom esse Porto.
— Ganhei de um amigo.
— Mas quanto a esses meninos — disse Sir Grummore. — Quantos eles são, você sabe?
— Dois — respondeu Sir Ector —, isto é, contando ambos.
— Eles não poderiam ser enviados a Eton, suponho? — perguntou Sir Grummore cautelosamente.
— Muito longe e tudo isso, bem sabemos.
Não era exatamente Eton que ele queria dizer, pois o Colégio da Sagrada Maria só seria fundado
em 1440, mas a um lugar do mesmo tipo. Também, estavam bebendo hidromel e não Porto, mas
mencionar o vinho moderno dá uma idéia melhor.

— Não é tanto a distância — disse Sir Ector — mas aquele gigante — qual-é-mesmo-o-nomedele?
— que está no caminho. Tem de passar pela terra dele, você sabe.
— Qual é mesmo o nome dele?
— Não consigo me lembrar no momento, por nada nesse mundo. É aquele que vive perto de Burbly
Water.
— Galapas — disse Sir Grummore.
— Exatamente esse.
— A única outra possibilidade — disse Sir Grummore — é ter um tutor.
— Você quer dizer um camarada que ensina.
— Isso mesmo — disse Sir Grummore. — Um tutor, você sabe, um camarada que ensina.
— Sirva mais Porto — disse Sir Ector. — Você precisa, depois de toda essa busca de hoje.
— Dia esplêndido — disse Sir Grummore. — Só que, atualmente, parece que nunca se mata.
Corre-se quarenta quilômetros e então, ou se cai no chão, ou você o perde completamente. O pior é

quando se começa uma busca nova.

— Matamos todos os filhotes de nossos gigantes — comentou Sir Ector. — Depois disso, eles o
fazem correr, mas logo somem.
— Perdem o faro — disse Sir Grummore —, ouso dizer. É sempre a mesma coisa com esses
grandes gigantes em um território grande. Perdem o faro.
— Mas mesmo se fosse para ter um tutor — disse Sir Ector —, não vejo como conseguir um.
— Anúncio — disse Sir Grummore.
— Já anunciei — disse Sir Ector. — Publiquei no Humberland Newsman e no Cardoile
Advertiser.
— A única outra maneira — disse Sir Grummore — é começar uma busca.
— Você quer dizer uma busca de um tutor — comentou Sir Ector.
— Isso.
— Hic, Haec, Hoc — disse Sir Ector. — Tome mais desta bebida, seja qual for o nome que ela
tenha.
— Hunc — disse Sir Grummore.
Assim ficou decidido. Quando Grummore Grummursum voltou para casa no dia seguinte, Sir Ector
deu um nó no lenço para se lembrar de começar uma busca por um tutor assim que tivesse tempo
para isso e, como não tinha certeza de como proceder, contou para os meninos o que Sir Grummore
sugerira e os advertiu para não serem desordeiros nesse entretempo. Depois, todos foram trabalhar
no feno.

Era julho, e todos os homens e mulheres capacitados da propriedade trabalhavam no campo durante
esse mês, sob a direção de Sir Ector. Naquele momento, de qualquer maneira, os meninos teriam
sido dispensados de receberem qualquer edificação.

O castelo de Sir Ector ficava numa enorme clareira em uma floresta ainda maior. Tinha um pátio e
um fosso com peixes. O fosso era cruzado por uma ponte de pedra fortificada que terminava no
meio do cruzamento. A outra metade era coberta por uma ponte de madeira levadiça que era içada
toda noite. Assim que se atravessava a ponte levadiça, estava-se no topo da rua da aldeia — existia
somente uma rua —, que se estendia por cerca de oitocentos metros, com casas de taipa e telhado
de colmo grosseiramente pintadas, de ambos os lados. A rua dividia a clareira em dois campos
enormes, o da esquerda sendo cultivado em centenas de leiras compridas e estreitas, enquanto o da
direita descia até um rio e era usado como pasto. A metade do campo da direita era proibida para
feno.

Era julho, com um clima verdadeiro de julho, como os que se tinha na Velha Inglaterra. Todo
mundo estava bronzeado, como índios pele-vermelha, com dentes faiscando e olhos brilhantes. Os
cachorros passavam com a língua de fora ou se deitavam ofegantes nas pontas das sombras,
enquanto os cavalos da fazenda suavam pelo pêlo, chicoteavam os rabos e tentavam escoicear as
mutucas da barriga com suas grandes patas traseiras. Nos campos de pastagem, as vacas


perambulavam, e podiam ser vistas galopando com os rabos levantados para o ar, coisa que
enfurecia Sir Ector.

Sir Ector ficava de pé no alto de uma meda, de onde podia ver o que todo mundo fazia, gritando
ordens por todo o campo de duzentos acres, e ficando com o rosto cada vez mais vermelho. Os
melhores ceifeiros ceifavam em uma faixa onde a relva ainda não fora cortada, as foices bramindo
sob a forte luz do sol. Com ancinhos de madeira, as mulheres juntavam o feno seco em faixas
compridas, e os dois meninos seguiam de cada lado da faixa, com forcados, virando o feno para
dentro para que ficasse em ordem para ser recolhido. Então vinham as grandes carroças, ressoando
com as rodas de madeiras guarnecidas de pontas de ferro, puxadas por cavalos ou bois brancos
vagarosos. Um homem ia em pé na carroça para receber o feno e dirigir as operações, enquanto
outro ia caminhando em um dos lados e pegando, com um forcado, o que os meninos tinham
preparado, e jogando-o para o outro homem. A carroça era conduzida ao longo da trilha entre as
duas faixas de feno, e carregada metodicamente da frente para trás, o homem em pé na carroça
gritando com voz severa onde queria que cada forcado fosse arremessado. Os carregadores
resmungavam com os meninos por não terem arrumado direito o feno e ameaçavam dar-lhes uma
surra quando os pegassem, se eles fossem deixados para trás.

Quando o vagão ficava cheio, era levado para a meda de Sir Ector e ali descarregado. A carga caía
facilmente porque tinha sido carregada com método — não como o feno moderno — e Sir Ector,
desajeitado, trepava até o topo, atrapalhando seus assistentes que verdadeiramente faziam o
trabalho, e batendo e transpirando e arranhando com seu forcado, tentando fazer a meda ficar firme,
e gritando que tudo cairia assim que os ventos do oeste chegassem.

Wart adorava apanhar o feno, e era bom nisso. Kay, que era dois anos mais velho, geralmente
ficava muito perto do feixe que tentava pegar e, em conseqüência, trabalhava duas vezes mais do
que Wart com apenas metade do resultado. Mas odiava ser vencido em qualquer coisa, e costumava
labutar com o maldito do feno — que abominava como veneno — até ficar completamente passado.

O dia seguinte à visita de Sir Grummore foi sufocante para os homens que trabalharam de ordenha a
ordenha, e depois outra vez até o pôr do sol, na batalha contra o elemento opressivo. O feno, para
eles, era um elemento, como o mar ou o ar, no qual se banhavam e mergulhavam e até respiravam.
As sementes e palhinhas grudavam-se-lhes nos cabelos, bocas, narinas e ficavam fazendo cócegas
dentro de suas roupas. Não usavam muitas roupas, e as sombras entre seus músculos flexíveis
pareciam azuis nas peles bronzeadas como nozes. Os que temiam trovões tinham se sentido
apreensivos naquela manhã.

À tarde, a tempestade irrompeu. Sir Ector manteve-os trabalhando até que os grandes relâmpagos
estavam sobre suas cabeças, e então, com o céu tão escuro como noite, a chuva veio arremessando
contra eles, deixando-os imediatamente ensopados e sem conseguir ver quase nada à sua frente. Os
meninos agacharam-se debaixo das carroças, enrolados no feno para manterem os corpos molhados
aquecidos contra o vento agora frio, e todos brincavam uns com os outros enquanto o céu desabava.
Kay estava tremendo, embora não de frio, mas brincava como os outros, pois não queria mostrar
que estava com medo. Com o último e maior dos trovões, todos os homens involuntariamente se
assustaram e cada um viu o susto do outro, então começaram a rir para afastar a vergonha.


Aquele foi o fim do trabalho com o feno e o começo das brincadeiras. Os meninos foram para casa
mudar de roupa. A velha dama que fora ama-seca dos dois rapidamente foi buscar jaquetas de
couro secas, ralhou com eles por estarem brincando com a morte, e censurou Sir Ector por ter
demorado tanto. Então eles enfiaram as roupas limpas cabeça abaixo, e correram para o pátio
fresco e reluzente.

— Eu voto para pegarmos Cully e ver se conseguimos caçar alguns coelhos — gritou Wart.
— Os coelhos não saem no molhado — disse Kay com sarcasmo, encantado por pegá-lo em
História Natural.
— Ora, vamos! Logo vai estar seco.
— Então, eu carrego Cully.
Kay insistia em carregar o açor e fazê-lo voar quando iam falcoar juntos. Tinha o direito de fazer
isso, não só por ser mais velho que Wart, mas também porque era filho legítimo de Sir Ector. Wart
não era filho legítimo. Ele não entendia isso direito, mas sentia-se triste por que Kay parecia achar
que isso, de alguma forma, o tornava inferior. Também era diferente não ter pai e mãe, e Kay lhe
dissera que ser diferente era errado. Ninguém falava com ele sobre isso, mas Wart pensava nisso
quando estava só, e sentia-se angustiado. Não gostava que as pessoas trouxessem o assunto à baila.
Como o outro menino sempre tocava no assunto quando uma questão de precedência surgia, ele
pegou o hábito de imediatamente ceder, antes que o assunto precisasse ser mencionado. Além
disso, admirava Kay e era um seguidor nato. Era um "adorador de heróis".

— Então vamos — gritou Wart, e partiram precipitadamente para as Gaiolas, derrubando alguns
carrinhos de mão pelo caminho.
As Gaiolas eram uma das partes mais importantes do castelo, perto dos estábulos e dos canis.
Ficava em frente ao solário, viradas para o sul. As janelas que davam para fora tinham que ser
pequenas, por razões de fortificação, mas as janelas que davam para o pátio interno eram grandes e
ensolaradas. As janelas tinham ripas verticais pregadas bem juntas, mas não horizontais. Não havia
vidros, e para evitar as correntes de ar para os falcões, havia lamelas de chifres nas janelas
pequenas. No fundo das Gaiolas havia uma pequena lareira e um tipo de recanto, como o lugar
onde, no quarto dos arreios, os cavalariços se sentam para limpar seus apetrechos nas noites
úmidas depois da caça às raposas. Ali havia alguns tamboretes, um caldeirão, uma banqueta com
todos os tipos de facas pequenas e instrumentos cirúrgicos, e algumas prateleiras cheias de potes.
Os potes estavam etiquetados Cardamono, Gengibre, Açúcar de Cevada, Disputa, Para o
Resfolego, Para a Prisãode Ventre, Vertigem etc. Havia pedaços de couro pendurados, que eram
cortados à medida que se tiravam pedaços para fazer peias, caparão ou trelas. Em uma fileira bem
arrumada de pregos havia campainhas indianas, tornéis e anilhas de prata, todos com um "Ector"
gravado. Em uma prateleira especial, e a mais bonita, estavam os caparões: uns muito antigos e
gretados que tinham sido feitos para as aves antes de Kay nascer, outros minúsculos, para os
esmerilhões, ou pequenos, para os falcões machos, excelentes, novos, feitos para as noites longas
de inverno. Todos os caparões, exceto os destinados aos pólos recém-capturados, tinham as cores
de Sir Ector: couro branco com baetas laterais vermelhas e um tufo de plumas cinza-azuladas no


topo, feito das penas do pescoço da garça real. Na bancada, havia uma mixórdia de bugigangas
como as encontradas em toda oficina, pedaços de corda, arame, metal, ferramentas, pedaços de pão
e queijo por onde os camundongos já tinham passado, uma garrafa de couro, algumas manoplas
desgastadas de armaduras para a mão esquerda, pregos, pedaços de saco, um par de chamarizes e
alguns entalhes toscos feitos na madeira, onde se lia: Conays 11111111, Harn 111 etc. Não estavam
escritos corretamente.

Por todo o comprimento da sala, com a luz do sol da tarde incidindo sobre eles, estavam os
poleiros onde os pássaros ficavam amarrados. Havia dois esmerilhões pequenos que mal tinham
sido tirados da liberdade parcial, uma velha falcoa peregrina que não tinha muita utilidade nessa
terra de florestas, mas que era mantida pelas aparências, um gavião peneira com o qual os meninos
aprenderam os rudimentos da falcoaria, um gavião que Sir Ector tinha a gentileza de manter para o
pároco e, engaiolado em um compartimento especial todo seu no canto do final, ficava o açor
macho Cully.

As gaiolas eram mantidas bem arrumadas, com serragem no chão para absorver os excrementos,
que eram retirados todos os dias. Sir Ector visitava o lugar toda manhã às sete horas e os dois
tratadores ficavam em posição de sentido do lado de fora da porta. Se tivessem se esquecido de
pentear os cabelos, ele mandava encarcerá-los nos quartéis. Não se incomodavam com isso.

Kay calçou uma das manoplas da mão esquerda e chamou Cully do poleiro — mas Cully, com
todas as suas penas fechadas e de mau humor, encarou-o com um olho enraivecido e se recusou a
obedecer. Então Kay o pegou.

— Você acha que devemos fazê-lo voar? — perguntou Wart, em dúvida. — Assim tão mau-
humorado como está?
— Claro que podemos fazê-lo voar, seu bobóide — disse Kay. — Ele só quer ser carregado um
pouco, só isso.
Então atravessaram o campo de feno, notando como o feno cuidadosamente revolvido estava outra
vez encharcado e perdendo sua excelência, e entraram no campo de caça onde as árvores
começavam a crescer, ainda bastante esparsas como em um parque, mas gradualmente se
compactando em direção à sombra da floresta. Os coelhos tinham centenas de tocas debaixo dessas
árvores, tão próximas umas das outras que o problema não era achar um coelho, mas achar um
coelho longe o bastante de seu buraco.

— Hob diz que não devemos fazer Cully voar se antes ele não tiver se levantado pelo menos duas
vezes — disse Wart.
— Hob não sabe nada disso. Ninguém pode dizer se um falcão está pronto para voar exceto o
homem que o está carregando.
De qualquer maneira, Hob não é mais que um enxerido — acrescentou Kay, e começou a
desprender a trela e o tornei das peias.

Quando sentiu que os arreios estavam sendo tirados e que, portanto, ele estava com ordem de caça,
Cully realmente fez alguns movimentos como se fosse se levantar. Ergueu a crista, as penas dos


ombros e a penugem macia das coxas. Mas, no último momento, pensou melhor ou pior, e aquietou-
se sem estrépito. Esse movimento do falcão fez Wart se coçar de vontade de carregá-lo. Ansiava
por tirá-lo de Kay e prepará-lo, ele mesmo, para voar. Tinha certeza de que poderia fazer Cully
ficar de bom humor coçando seus pés e eriçando-lhe suavemente as penas do peito, se pelo menos
lhe fosse permitido cuidar dele ele mesmo, em vez de ter que se arrastar atrás com a isca estúpida.
Mas sabia o quanto devia ser chato para o amigo mais velho ser permanentemente alvo de
recomendações, e assim resolveu ficar quieto. Da mesma maneira como no tiro ao alvo moderno,
nunca se deve criticar quem está no comando, assim também na falcoaria era importante não
permitir que conselhos de fora prejudicassem o julgamento do falcoeiro.

— Ô-Ôoo! — gritou Kay, jogando os braços para o alto para permitir ao falcão uma melhor
decolagem, um coelho passou em disparada pela relva toda roída à frente deles, e Cully estava no
ar. O movimento surpreendeu Wart, o coelho e o falcão, e todos os três pararam um momento, pela
surpresa. Então, as grandes asas do assassino aéreo começaram a cortar o ar, mas de modo
relutante e indeciso. O coelho sumiu em uma toca escondida. E o falcão voou, subindo como uma
criança e lançando-se alto num balanço, até as asas se fecharem e ele pousar no galho de uma
árvore. Cully olhou seus mestres lá embaixo, abriu o bico em raivosa arfada de frustração e
permaneceu imóvel. Os dois corações pararam.

II


Um bom tempo depois, quando cansaram de assobiar, e colocar iscar e seguir de árvore em árvore

o falcão perturbado e amuado, Kay perdeu a calma.
— Deixe-o ir, então — disse. — Não tem mesmo utilidade alguma.
— Ah, não podemos deixá-lo ir — disse Wart. — O que Hob vai dizer?
— O falcão é meu, não do Hob — exclamou Kay, furioso. — Que importa o que Hob diga? Ele é
um servo.
— Mas foi Hob quem treinou Cully. É fácil para nós perdê-lo, porque não tivemos que ficar em pé
com ele três noites e carregá-lo o dia todo e tudo isso. Mas não podemos perder o falcão de Hob.
Seria abominável.
— Ele merece. É um tolo e esse é um falcão estragado. Quem quer um falcão estúpido e estragado?
Se você está tão interessado nisso, então você fica. Eu vou para casa.
— Eu fico — disse Wart, com tristeza — se você mandar o Hob quando chegar lá.
Kay começou a voltar para casa na direção errada, com ódio no coração porque sabia que fizera o
falcão voar quando não estava com a disposição apropriada, e Wart de lhe gritar a direção certa.
Depois, este sentou-se debaixo de uma árvore e pôs-se a olhar para Cully lá em cima, como um
gato olhando um pardal, com o coração batendo rápido.

Era fácil para Kay, que não era realmente fã de falcoaria, exceto como ocupação adequada para um
menino de sua condição, mas Wart tinha um pouco da sensibilidade de um falcoeiro e sabia que um
falcão perdido era a pior calamidade possível. Sabia que Hob trabalhara com Cully catorze horas
por dia para lhe ensinar o ofício, e que seu trabalho fora como a batalha de Jacó com o anjo. Se
Cully se perdesse, uma parte de Hob também se perderia. Wart não queria enfrentar o olhar de
reprovação que estaria nos olhos do falcoeiro depois de tudo que ele tentara lhes ensinar.

O que deveria fazer? O melhor era ficar sentado quieto, deixando a isca no chão, até Cully se
acalmar e se aproximar em seu próprio tempo. Mas Cully não tinha a menor intenção de fazer isso.
Tinham-lhe dado uma ração generosa na noite passada, por isso não estava com fome. O dia quente

o deixara de mau humor. Os acenos e assobios dos meninos lá embaixo, e o fato de terem vindo
atrás dele de árvore em árvore, perturbara seu cérebro um tanto fraco. Agora, não sabia exatamente
o que queria fazer, mas não era o que os outros queriam. Pensou que talvez fosse legal matar algo,

por despeito.

Longo tempo depois disso, Wart estava na orla da verdadeira floresta, e Cully estava dentro dela.
Em uma série de mudanças enfurecidas de pouso, foram chegando cada vez mais perto da floresta,
até estarem mais distante do castelo do que o menino jamais estivera, e agora tinham chegado lá.

Wart não ficaria atemorizado com uma floresta da Inglaterra dos dias de hoje, mas a grande selva
da Velha Inglaterra era bem diferente. Não apenas porque nela havia javalis selvagens, cujas
manadas nesta estação estariam furiosamente fossando por ali, nem porque um dos lobos
sobreviventes poderia estar se escondendo atrás de alguma árvore, com seus olhos mortiços e
beiços escorrendo baba. Os animais selvagens e cruéis não eram os únicos habitantes da povoada
escuridão. Quando os próprios homens se tornavam maus, eles também procuravam refúgio ali,
foras-da-lei astutos e sanguinários como o corvo, e tão perseguidos quanto. Wart pensava
especialmente em um homem chamado Wat, cujo nome os aldeões usavam para assustar seus filhos.
Antes, ele vivia na aldeia de Sir Ector e Wart lembrava-se dele. Era vesgo, não tinha nariz, e era
fraco das idéias. As crianças atiravam-lhe pedras. Um dia, correu atrás das crianças, pegou uma,
deu um rugido e lhe arrancou o nariz com uma mordida. Depois, fugiu para a floresta. Agora, eles
atiravam pedras na criança sem nariz, mas Wat supostamente ainda estava na floresta, correndo
como se tivesse quatro pés e vestido de peles.

Naqueles tempos lendários, também havia magos na floresta e animais estranhos não mencionados
nos livros modernos de História Natural. Havia bandos regulares de foras-da-lei saxões — não
como Wat —, que viviam juntos, e se vestiam de verde e atiravam com flechas que nunca erravam

o alvo. Havia também alguns dragões, que eram pequenos, viviam debaixo das pedras e
assobiavam como uma chaleira.
Além disso, ainda havia o fato de que estava escurecendo. A floresta não tinha trilhas e ninguém da
aldeia sabia o que havia no outro lado. A quietude da noite começara a cair e as altas árvores
olhavam imóveis para Wart, sem fazer um único som.

Ele achou que seria mais seguro ir para casa, enquanto ainda sabia onde estava — mas era
corajoso, e não queria desistir. Sabia que se Cully passasse uma noite inteira em liberdade, tornarse-
ia selvagem outra vez e irrecuperável. Cully era uma ave em trânsito.

Mas se o pobre Wart conseguisse pelo menos marcar onde ele estava pousado, e se Hob pelo
menos chegasse com uma lanterna, ainda poderiam pegá-lo essa noite trepando na árvore, enquanto
ele estivesse sonolento e confuso com a luz. O menino conseguia mais ou menos ver onde o falcão
pousara, cerca de cem metros para o interior das árvores grossas, porque as gralhas que
procuravam abrigo à noite estavam aglomerando-se no lugar.

Fez uma marca em uma das árvores da orla da floresta, na esperança de que o ajudasse a encontrar

o caminho de volta, e então começou a tentar abrir caminho entre a vegetação rasteira, da melhor
maneira possível. As gralhas lhe avisaram que Cully imediatamente se movera mais para dentro.
A noite caiu silenciosa enquanto Wart tentava passar entre as sarças. Mas ele prosseguiu
teimosamente, escutando com toda atenção, e as fugas de Cully foram se tornando mais sonolentas e
mais curtas até que, finalmente, antes que a completa escuridão caísse, ele pôde ver seus ombros


levantados contra o céu, numa árvore acima dele. Wart sentou-se embaixo da árvore para não
perturbar ainda mais a ave até que dormisse, e Cully, imóvel sobre uma perna, ignorou sua
existência.

"Talvez", Wart disse a si mesmo, "mesmo se Hob não vier, e não vejo como ele poderia me seguir
muito bem nessa floresta sem trilha, eu poderia subir sozinho por volta da meia-noite e pegar o
Cully. Ele deve estar ali por volta da meia-noite, porque já estará dormindo a essa hora. Eu
poderia chamá-lo suavemente pelo nome, para ele pensar que é a pessoa que normalmente vem
pegá-lo quando está encapuzado. Vou ter que subir sem fazer barulho. Depois, se conseguir mesmo
pegá-lo, tenho de achar o caminho de casa, e a ponte levadiça estará levantada. Mas talvez alguém
esteja esperando por mim, pois Kay vai lhes dizer que fiquei fora. Qual será o caminho? Seria tão
bom se Kay não tivesse ido embora".

Aconchegou-se junto às raízes da árvore, tentando encontrar um lugar confortável onde a madeira
dura não espetasse suas costelas.

"Acho que o caminho é atrás daquele abeto grande com um espigão no topo. Tenho que tentar me
lembrar de que lado o sol está se pondo, assim, quando ele nascer, posso seguir pelo mesmo lado
para ir para casa. Será que alguma coisa se moveu debaixo do abeto? Ah, tomara que eu não
encontre o velho louco do Wat e não perca meu nariz a dentada! Como o Cully está irritante,
apoiado ali em uma perna só como se não existisse problema algum no mundo."

Nesse momento, houve um zunido rápido e um estalo, e Wart viu uma flecha enfiada na árvore entre
os dedos de sua mão direita. Puxou a mão, pensando que tinha sido atingido por alguma coisa, antes
de ver que era uma flecha. Depois, tudo aconteceu lentamente. Ele teve tempo de verificar muito
cuidadosamente que tipo de flecha era, e como havia entrado três polegadas na madeira sólida. Era
uma flecha preta com listas amarelas em volta, como uma vespa, e a pena do topo era amarela. As
outras duas eram pretas. Eram penas de ganso tingidas.

Wart descobriu que, embora tivesse medo dos perigos da floresta antes que acontecessem, agora
que estavam acontecendo não sentia medo. Levantou-se rápido — mas parecia devagar — e foi
para trás, do lado oposto da árvore. Enquanto fazia isso, outra flecha passou zunindo e sumiu, mas a
seguinte enterrou-se quase toda na relva, menos o penacho, e que ficou ali, imóvel, como se nunca
tivesse se movido.

Do outro lado da árvore havia um matagal de uns dois metros de altura. Era um ótimo esconderijo,
mas denunciava seu paradeiro pelo farfalhar da folhas. Escutou um outro silvo de flecha passando
pelas frondes e o que parecia a voz de um homem praguejando, mas não estava muito perto. Então
escutou o homem, ou seja lá o que fosse, correndo de um lado para o outro no matagal. Relutava em
lançar mais flechas porque elas eram valiosas e poderiam se perder na vegetação. Wart movia-se
como uma cobra, um coelho, uma coruja silenciosa. Era pequeno e a criatura não tinha chance
contra ele nesse jogo. Em cinco minutos, estava a salvo.

O assassino procurou suas flechas e foi embora resmungando — mas Wart percebeu que, embora
tivesse escapado do arqueiro, perdera o caminho e o falcão. Não tinha a menor idéia de onde
estava. Ficou deitado por meia hora, espremido debaixo da árvore caída onde se escondera para


dar tempo da coisa ir embora e para seu próprio coração parar de retumbar. Começado a bater
quando ele percebeu que havia escapado.

"Ah, agora estou realmente perdido" — pensou — "e agora praticamente não há outra alternativa
exceto ver meu nariz arrancado a dentadas, ou ser perfurado bem no meio por uma dessas flechas
de vespa, ou ser comido por um dragão sibilante ou por um lobo ou por um javali selvagem ou por
um mago — se é que magos comem meninos, e acho que comem. Agora bem que eu gostaria de ter
sido bonzinho, não ter enfurecido a preceptora quando ela se atrapalhava com o astrolábio, e ter
amado meu querido protetor Sir Ector como ele merecia".

Com esses pensamentos melancólicos, e especialmente com a lembrança do querido Sir Ector com
seu forcado e seu nariz vermelho, os olhos do pobre Wart se encheram de lágrimas, e ele se viu
completamente desolado, ali, deitado debaixo da árvore.

O sol enviou os últimos raios de sua demorada despedida e a lua se ergueu em deslumbrante
majestade sobre os topos prateados das árvores, antes que ele ousasse se levantar. Então levantou-
se, limpou os gravetos de sua jaqueta de couro e começou a vagar sem esperanças, tomando o
caminho mais fácil e se entregando a Deus. Já estava caminhando assim por quase meia hora, às
vezes sentindo-se mais animado — porque realmente era mesmo fresco e agradável a floresta no
verão sob a luz do luar —, quando se deparou com a coisa mais bonita que já vira em sua curta
vida.

Havia uma clareira na floresta, uma ampla extensão de relva sob o clarão da lua, os raios brancos
brilhando em cheio sobre os troncos das árvores do outro lado. Essas árvores eram faias, cujos
troncos ficam sempre mais belos sob uma luz perolada e, entre as faias, havia um pequeníssimo
movimento e um tilintar de prata. Antes do tilintar, havia apenas as faias, mas imediatamente depois
havia um cavaleiro com sua armadura completa, parado imóvel, silencioso e sobrenatural, entre as
árvores majestosas. Montava um enorme cavalo branco, que parecia tão embevecido quanto o
dono, empunhando na mão direita, com o cabo apoiado no estribo, uma lança de torneio alta e lisa,
que se erguia entre o topo das árvores, mais e mais alta, até se delinear contra o veludo do céu.
Tudo era iluminado pelo luar, tudo prateado, bonito demais para ser descrito.

Wart não soube o que fazer. Não sabia se seria seguro se aproximar do cavaleiro, pois havia tantas
coisas terríveis na floresta que mesmo um cavaleiro poderia ser um fantasma. E ele parecia mesmo
fantasmagórico, pairando assim para meditar no limiar da escuridão. No final, o menino acabou
decidindo que mesmo que fosse um fantasma, seria o fantasma de um cavaleiro, e os cavaleiros
eram obrigados por juramento a ajudar as pessoas em desgraça.

— Perdão — disse, quando estava bem embaixo da misteriosa figura —, mas poderia me indicar o
caminho de volta ao castelo de Sir Ector?
Com isso, o fantasma deu um salto, quase caiu de seu cavalo, e soltou um baaa
abafado através da
viseira, como um carneiro.

— Perdão — Wart começou de novo, mas parou, aterrorizado, no meio da fala.
Pois o fantasma levantara a viseira, revelando dois enormes olhos frios como gelo; exclamou numa
voz ansiosa, "O quê? O quê?"; tirou os olhos — que na verdade eram óculos com aros feitos de


chifres, embaçados por estarem dentro do elmo; tentou limpá-los com a crina do cavalo — o que só
piorou as coisas —; levantou ambas as mãos sobre a cabeça, e tentou limpá-los com seu penacho;
deixou cair a lança; deixou cair os óculos; desmontou do cavalo para pegá-los — a viseira se
fechando no processo; levantou a viseira; abaixou-se para pegar os óculos; levantou outra vez
quando a viseira se fechou de novo, e exclamou com voz queixosa: "Oh, vida!".

Wart pegou os óculos, limpou-os e entregou-os ao fantasma, que imediatamente os colocou (a
viseira se fechou a seguir) e começou a escalar o cavalo para retomar sua vida. Quando se ajeitou,
estendeu a mão para a lança, que Wart lhe entregou e, sentindo-se outra vez seguro, abriu a viseira
com a mão esquerda e segurou-a aberta. Olhou o menino com uma mão levantada — como um
marinheiro perdido à procura de terra — e exclamou:

— Ah-hah! A quem temos aqui, o quê?
— Por favor — disse Wart —, sou um menino cujo protetor é Sir Ector.
— Sujeito encantador — disse o Cavaleiro. — Nunca o encontrei na vida.
— Você poderia me indicar o caminho para o castelo dele?
— A menor idéia. Eu mesmo não conheço essas partes.
— Estou perdido — disse Wart.
— Coisa engraçada, essa. Eu já estou perdido há dezessete anos.
— Meu nome é Rei Pellinore — continuou o Cavaleiro. — Já escutou falar de mim, o quê? — A
viseira fechou com um estouro, como um eco ao "O quê", mas foi imediatamente aberta outra vez.
— Dezessete anos atrás, aconteceu a festa de São Miguel, e desde então ando atrás da Besta
Gemente. Tedioso, muito.
— Imagino que seja — disse Wart, que nunca tinha escutado falar do Rei Pellinore, nem da Besta
Gemente, mas achou que era a coisa mais segura a dizer nas circunstâncias.
— É a Sina dos Pellinores — disse o Rei, orgulhosamente. — Só um Pellinore pode agarrá-la —
isto é, claro, ou o próximo da linhagem. Todos os Pellinores são treinados com essa idéia na
cabeça. Edificação limitada, na verdade. Excrementos e tudo isso.

— Eu sei o que são excrementos — disse o menino com interesse. — É o que uma fera perseguida
vai deixando. O perseguidor os guarda na corneta para mostrar a seu senhor, e por eles é possível
dizer se é uma fera autorizada ou não, e qual é o seu estado.
— Menino inteligente — comentou o Rei. — Muito. Eu agora carrego excrementos comigo
praticamente o tempo todo.
— Hábito pouco higiênico — acrescentou, começando a parecer desalentado — e completamente
inútil. Só tem uma Besta Gemente, sabe, portanto não há dúvidas sobre se ela é autorizada ou não.
Aqui sua viseira começou a cair tanto que Wart decidiu que era melhor esquecer seus próprios
problemas e tentar alegrar seu companheiro, fazendo perguntas a respeito do único tema sobre o
qual ele parecia qualificado a falar. Mesmo a conversa com uma realeza perdida era melhor do que


ficar sozinho na floresta.

— Como ela é, essa Besta Gemente?
— Ah, nós a chamamos de Fera Glatisant,
sabe — retrucou o monarca, assumindo um ar de
entendido e começando a falar com loquacidade. — Agora, a Fera Glatisant,
ou como falamos em
inglês, a Besta Gemente (você pode dizer das duas maneiras) — acrescentou com graça —, essa
Fera tem a cabeça de serpente, ah, e o corpo de leopardo, as coxas de leão e os pés de cervo. Onde
quer que vá, essa fera faz um barulho com a barriga como se fosse o barulho de trinta parelhas de
cães de caça em perseguição.
— Exceto quando ela está bebendo, claro — acrescentou o Rei.
— Deve ser um tipo pavoroso de monstro — Wart disse, olhando em volta, preocupado.
— Um monstro pavoroso — repetiu o Rei. — A Fera Glatisant.
— E como você a persegue?
Esta parece ter sido uma pergunta errada, pois Pellinore começou a ficar ainda mais deprimido.
— Tenho uma cadela de caça — ele disse, com tristeza. — Ali está ela, ali.
Wart olhou para a direção que lhe foi indicada com um dedo desanimado e viu uma grande
quantidade de corda amarrada em volta de uma árvore. A outra ponta da corda estava atada à sela
do Rei Pellinore.

— Não a vejo bem.
— Está enrolada do outro lado da árvore, receio dizer. Ela vai sempre na direção contrária à
minha.
Wart deu a volta na árvore e viu um grande cachorro branco se coçando, atrás das pulgas. Assim
que viu Wart, começou a sacudir todo o corpo, abrindo a boca com ar apatetado, e arquejando com

o esforço de tentar lamber seu rosto, apesar da corda. Mas estava emaranhada demais para se
mover.
— É uma cadela muito boa — disse o Rei Pellinore —, só que arqueja demasiado, e se enrola nas
coisas, e vai para o lado oposto. E com isso e com minha viseira, às vezes fico sem saber para que
lado ir.
— Por que não a deixa solta?— Wart perguntou. — Ela poderia seguir a Fera do mesmo jeito.
— Ela some, sabe, e às vezes fico semanas sem vê-la.
— Fica muito solitário sem ela — o Rei acrescentou —, seguindo a Fera, e sem saber direito ondese está. É uma boa companhia, sabe.
— Ela parece ter uma natureza amigável.
— Amigável até demais. As vezes fico na dúvida se ela está mesmo caçando a Fera ou não.
— O que ela faz quando a vê?

— Nada.
— Ah, bom — Wart disse. — Imagino que depois de um tempo ela acabará se interessando.
— De qualquer maneira, já faz oito meses que vimos a Fera pela última vez.
A voz do pobre sujeito foi se tornando cada vez mais e mais triste desde o começo da conversa, e
agora, indiscutivelmente, ele começara a fungar.

— É a maldição dos Pellinores — exclamou. — A vida toda correndo atrás dessa abominável
Besta. Que utilidade tem ela, afinal? Primeiro, é preciso parar para desenrolar a cadela, depois a
viseira fecha, e já não se consegue ver com os óculos. Sem lugar para dormir, sem nunca saber
onde se está. Reumatismo no inverno, insolação no verão. Toda essa armadura horrenda leva horas
para ser colocada. Depois, ou ela torra você ou congela, e além do mais enferruja. É preciso passar
a noite inteira polindo o material. Oh, como eu gostaria de ter uma casa confortável de minha
propriedade para viver, uma casa que tivesse camas e travesseiros e lençóis verdadeiros. Se eu
fosse rico, era isso que compraria. Uma bela cama com um belo travesseiro e um belo lençol onde
pudesse me deitar, e então eu soltaria esse cavalo abominável em um prado e mandaria essa
abominável cadela ir embora se divertir, e jogaria essa abominável armadura pela janela, e
deixaria a abominável Besta perseguir-se a si mesma — isso é o que eu faria.
— Se você me indicasse o caminho de casa — disse Wart, astutamente —, tenho certeza que Sir
Ector lhe daria uma cama para passar a noite.
— Você está falando sério? — gritou o Rei. — Em uma cama?
— Uma cama de penas.
Os olhos do Rei Pellinore ficaram redondos como pires. "Uma cama de penas!", ele repetiu
lentamente.

— Com travesseiro?
— Travesseiros fofos.
— Travesseiros fofos! — sussurrou o Rei, segurando a respiração. E depois, soltando-a de uma
vez. — Que casa encantadora seu protetor deve ter!
— Acho que não deve estar a mais do que a duas horas daqui — disse Wart, aproveitando sua
vantagem.
— E esse fidalgo realmente mandou você aqui para me convidar? — (Tinha se esquecido que Wart
estava perdido.) — Que gentileza a dele, que gentileza dele, eu acho, o quê?
— Ele ficará feliz em nos ver — Wart disse, com sinceridade.
— Ah, que gentileza a dele — exclamou o Rei outra vez, começando a se atrapalhar com os vários
arreios. — E que nobre encantador deve ser para ter uma cama de penas!
— Suponho que terei de dividi-la com alguém — ele acrescentou, em dúvida.
— Poderia ter uma só para si.

— Uma cama de penas só para mim, com lençóis e um travesseiro — talvez até dois travesseiros,
ou um travesseiro e um suporte — e sem hora de levantar para o desjejum! Seus protetores têm
hora de levantar para o desjejum?
— Nunca — Wart respondeu.
— Pulgas na cama? — Nenhuma.
— Ótimo! — disse o Rei Pellinore. — Parece bom demais para dizer com palavras, devo dizer.
Uma cama de penas e tão cedo nada de excrementos. Quanto tempo daqui até lá, você disse?
— Duas horas — Wart respondeu, mas teve de gritar a segunda dessas palavras, pois os sons
ficaram sufocados em sua boca por um barulho que naquele momento se levantou bem perto deles.
— O que foi isso? — Wart perguntou.
— Atenção!
— Misericórdia!
— É a Besta!
E imediatamente o dedicado caçador esqueceu-se de tudo o mais, e se ocupou de sua tarefa.
Limpou os óculos nos fundilhos de suas calças, o único pedaço de pano acessível, enquanto o
maldito barulho de barriga inundava a redondeza. Equilibrou-os na ponta de seu comprido nariz,
imediatamente antes de a viseira automaticamente se fechar. Apertou sua lança de torneio na mão
direita e partiu a galope em direção ao barulho. Mas foi logo puxado de volta pela corda que
estava enrolada na árvore — enquanto a cadela apatetada soltava um ganido melancólico — e caiu
do cavalo com um tremendo barulho de metal. Em um segundo, já estava de novo em pé — Wart
convencido de que os óculos certamente haviam se quebrado —, e pulando em volta do cavalo
branco com um pé no estribo. A barrigueira suportou o teste e, fosse como fosse, lá estava ele de
volta à sela, com sua lança comprida entre as pernas, e depois galopando ao redor e ao redor da
árvore, na direção oposta à que a cadela se enrolara. Deu três voltas muito rapidamente, enquanto a
cadela gania e corria no outro sentido e então, depois de quatro ou cinco tentativas, ficaram ambos
livres da obstrução.


No começo, apenas mergulhou sob a superfície do sono e deslizou como um salmão em água
rasa, tão perto da superfície que se imaginava no ar. Pensou que estivesse acordado quando já
estava dormindo.

— Avante! O quê! — gritou o Rei Pellinore, brandindo sua lança no ar e agitando-se alvoroçado na
sela. Depois, desapareceu dentro da escuridão da floresta, com o desventurado cão correndo atrás
dele na outra ponta da corda.

III


O menino dormiu bem no abrigo na floresta onde se deitou, aquele tipo de sono leve mas reparador
que as pessoas têm quando começam a dormir ao ar livre. No começo, apenas mergulhou sob a
superfície do sono e deslizou como um salmão em água rasa, tão perto da superfície que se
imaginava no ar. Pensou que estivesse acordado quando já estava dormindo. Viu as estrelas sobre o
rosto, girando silenciosas e sem descanso, e as folhas das árvores farfalhando debaixo delas, e
ouviu pequenos movimentos na relva. Esses pequenos ruídos de passos e bater leve de pequenas
asas e de ventres furtivos arrastando-se pelas folhas da relva ou farfalhando no matagal, a princípio
o assustaram e interessaram, e ele se mexeu tentando ver o que era (sem conseguir), depois o
acalmaram, e então ele já não se interessou para ver o que eram, mas confiou que eram eles
mesmos, e finalmente se deixou ir, mergulhando cada vez mais e mais fundo, se aninhando na relva
perfumada, no chão generoso, nas intermináveis águas sob a terra.

Foi difícil pegar no sono ao luar brilhante do verão, mas depois que dormiu não foi difícil
continuar dormindo. O sol chegou cedo, fazendo com que se virasse em protesto, mas ao dormir
aprendera a vencer a luz, e agora a luz não conseguia acordá-lo. Eram nove horas, cinco horas
depois do alvorecer, quando ele rolou, abriu os olhos, e imediatamente despertou. Estava com
fome.

Wart escutara falar de pessoas que viviam de bagas silvestres, mas isso não parecia prático no
momento, porque era julho e não havia nenhuma. Achou dois morangos selvagens e os comeu com
gula. Estavam mais gostosos do que qualquer outra coisa que já comera, e desejou que tivesse
mais. Então, desejou que fosse abril, para que pudesse achar ovos de pássaros e comer alguns, ou
que não tivesse perdido Cully, para que seu açor pudesse pegar um coelho que ele cozinharia
esfregando dois gravetos um contra o outro, como os índios primitivos. Mas tinha perdido Cully, ou
não teria se perdido ele próprio e, de qualquer forma, provavelmente os gravetos não pegariam
fogo. Refletiu que não poderia ter se afastado mais do que cinco ou seis quilômetros de casa, e que
a melhor coisa que poderia fazer era sentar-se quieto e escutar. Então talvez escutasse o barulho
dos colhedores de feno se tivesse sorte com o vento, e poderia assim escutar qual seria a direção
do castelo.

Mas o que ele escutou foi um fraco estalido de metal que o fez pensar que o Rei Pellinore deveria
estar atrás da Besta Gemente, ali por perto. Só que o barulho era tão regular e intencional que o fez
pensar que o Rei Pellinore estaria fazendo alguma ação especial, com grande paciência e


concentração — tentando coçar as costas sem tirar a armadura, por exemplo. Seguiu em direção ao
ruído.

Havia uma clareira na floresta, e nessa clareira havia um chalé bonitinho feito de pedra. Era um
chalé que, embora Wart não pudesse ver naquele momento, estava dividido em duas partes. A parte
principal era o saguão ou "sala-para-tudo", que era alta porque ia do chão ao teto e tinha uma
lareira cuja fumaça saía por um buraco no telhado de colmo. A outra metade do chalé estava
dividida em duas por um piso horizontal que transformava a metade de cima em quarto de dormir e
escritório, enquanto a metade de baixo servia de despensa, depósito, estábulo e cocheira. Um asno
branco vivia nessa dependência de baixo, e uma escadinha de madeira levava ao quarto de cima.

Havia um poço em frente do chalé, e o ruído metálico que Wart escutara era provocado por um
senhor muito idoso que estava tirando água dali com a ajuda de uma manivela e uma corrente.

Tlin, tlin, tlin, fazia a corrente, até o balde bater na borda do poço e "Arre essa coisa toda!" disse o
velho.

— Era de imaginar que depois de todos esses anos de estudo, seria possível fazer melhor do que
apanhar água nesse "poço-de-donzela", com um "balde-de-donzela", seja quem for a donzela.
— Valha-me e valha-me aquilo! — acrescentou o velho, puxando o balde do poço com um olhar
mau-humorado —, por que não colocam luz elétrica e água encanada aqui?
Estava vestido com uma roupa larga esvoaçante, com uma estola de pele toda enfeitada com signos
do zodíaco e vários sinais cabalísticos, como triângulos com olhos, cruzes estranhas, folhas de
árvores, ossos de pássaros e outros animais, e um planetário cujas estrelas brilhavam como
pedaços de espelho refletindo o sol. Usava um chapéu pontudo, como o das "orelhas de burro", ou
como os usados pelas damas da época, só que as damas costumavam ter um pedaço de véu
flutuando a partir do topo. Também tinha uma varinha de condão de pau-santo, que deixara deitada
na grama a seu lado, e um par de óculos com armação de chifre como os do Rei Pellinore. Eram
óculos diferentes, pois não tinham a parte que se prende na orelha, e tinham mais a forma de
tesouras ou de antenas de uma vespa-caçadora.

— Perdão, senhor — Wart disse —, mas saberia me indicar o caminho para o castelo de Sir Ector,
se não se importar?
O velho cavaleiro desceu o balde e olhou para ele.

— Seu nome deve ser Wart.
— Sim, senhor, por favor, senhor.
— Meu nome é Merlin — disse o velho.
— Como está passando?
— Como está.
Quando terminaram essas formalidades, Wart teve tempo para observá-lo mais de perto. O mago
olhava para ele, sem pestanejar, com uma espécie de curiosidade firme e benevolente, o que o fez
achar que não seria de jeito algum grosseiro olhar ele também para o velho, não mais grosseiro do


que seria fitar uma das vacas de seu protetor que, com a cabeça apoiada sobre a cerca, parecia
matutar sobre quem seria ele.

Merlin tinha uma barba comprida e branca e bigodes compridos e brancos que desciam de ambos
os lados. Uma inspeção acurada mostrava que estava longe de limpo. Não que tivesse unhas sujas,
ou coisas assim, mas algum grande pássaro parecia ter feito o ninho em seus cabelos. Wart
conhecia bem os ninhos de gavião e de açor, o conglomerado desconjuntado de gravetos e coisas
avulsas tomados de esquilos e gralhas, e sabia como os galhos e raízes ficavam salpicados de
dejetos brancos, ossos velhos, folhas enlameadas e restos. Essa foi a impressão que teve de Merlin.
O velho estava riscado com sujeiras caídas sobre os ombros, entre as estrelas e triângulos da veste,
e uma grande aranha descia, vagarosa, da ponta de seu chapéu, enquanto ele fitava atentamente,
piscando um pouco, o menino à sua frente. Tinha uma expressão preocupada, como se tivesse
tentando se lembrar de um nome que começava com Chol mas que se pronunciava de maneira
completamente diferente, possivelmente Menzies ou seria Dalziel? Seus suaves olhos azuis, muito
grandes e redondos sob os óculos de tarântula, aos poucos velavam-se e se nublavam enquanto ele
fitava o menino, e então virou a cabeça com expressão resignada, como se tudo aquilo fosse
demasiado para ele, afinal.

— Você gosta de pêssegos?
— Gosto muito, realmente — Wart respondeu, e sua boca começou a salivar e ficou cheia de um
líquido doce e macio.
— São raros nesta estação — disse o velho, de maneira reprovadora, e se dirigiu ao chalé.
Wart seguiu atrás, já que essa era a coisa mais simples a fazer, e se ofereceu para levar o balde (o
que pareceu agradar Merlin, que o deu a ele) e esperou enquanto ele contava as chaves — e
resmungava e as confundia e as derrubava na relva. Finalmente, quando conseguiram entrar na casa
branca e preta com tanto esforço como se a tivessem arrombando, subiu a escada atrás de seu
anfitrião até a sala de cima.

Era a sala mais maravilhosa em que jamais entrara.

Havia um verdadeiro crocodilo pendurado nos caibros do teto, muito natural e horrível, com olhos
de vidro e cauda escamosa esticada atrás. Quando seu dono entrou na sala, ele piscou um olho em
saudação, embora estivesse embalsamado. Havia milhares de livros marrons com encadernação de
couro, alguns presos com correntes às estantes e outros escorados uns nos outros, como se tivessem
bebido demais e não confiassem muito em si mesmos. Esses tinham um cheiro denso de bolor e
couro que dava confiança. Depois, havia os pássaros empalhados, papagaios, pegas e martim-
pescador, e pavões com todas as penas exceto duas, e pássaros miúdos e besouros, e uma suposta
fênix que cheirava a incenso e canela. Não poderia ser uma fênix autêntica porque só existe uma
dessas em cada época. Sobre o consolo da lareira havia uma máscara de raposa, debaixo dela
estava escrito GRAFTON, BUCKINGHAM A. DAVENTRY, 2 H 20 MIN, e também um salmão de
uns dez quilos, com AWE, 43 MIN, BULLDOG escrito embaixo, e um basilisco parecendo vivo,
com CÃES DE CROWHURST OTTER em alfabeto romano. Havia várias presas perfuradas e
garras de tigres e leopardos montadas em padrões simétricos, e uma grande cabeça de Ovis Poli,


seis cobras de relva vivas em uma espécie de aquário, alguns ninhos de vespa solitária bem-
arrumados em um cilindro de vidro, uma colméia comum cujos habitantes entravam e saíam pela
janela sem serem perturbados, dois jovens ouriços em ramos de algodão, um casal de texugos que
imediatamente começou a gritar Yik-Yik-Yik-Yik em voz alta assim que o mago apareceu, vinte
caixas contendo lagartas enfiadas e seis com borboletinhas, e até uma espirradeira que valia seis
pences — todos se alimentando nas folhas apropriadas —, um estojo de armas com todo tipo de
armas que só seriam inventadas dali a quinhentos anos, uma caixa com bastões idem, uma cômoda
com gavetas cheias de iscas artificiais amarradas pelo próprio Merlin, outra cômoda cujas gavetas
estavam etiquetadas com Mandrágora, Mandrake, Barba de Velho etc, um punhado de penas de
peru e de ganso para fazer canetas, um astrolábio, doze pares de botas, um dúzia de bolsas de
malha, duas dúzias de tela para coelhos, doze saca-rolhas, alguns formigueiros entre duas placas de
vidro, vidros de tinta com todas as cores possíveis do vermelho ao violeta, agulhas de cerzir, uma
medalha de ouro para o melhor bolsista de Winchester, quatro ou cinco arquivos, um ninho de
camundongos do campo todos vivos, duas caveiras, muitos vidros lapidados, garrafas de Veneza,
garrafas de Bristol, um vidro de verniz de Mastic, porcelana de Satsuma e cloisonné,
a décima-
quarta edição da Enciclopédia Britânica (prejudicada como estava pelo sensacionalismo das
ilustrações populares), duas caixas de pintura (uma a óleo, outra de aquarela), três globos do
mundo geográfico conhecido, alguns fósseis, a cabeça empalhada de uma girafa, seis formigões,
algumas retortas de vidro com bico, maçaricos de Bunsen etc, e um jogo completo de cartas de
cigarros com ilustrações de aves selvagens feitas por Peter Scott.

Merlin tirou o chapéu pontudo quando entrou na sala, porque era muito alto para o teto, e
imediatamente houve uma precipitação em um dos seus cantos escuros e um bater de asas suaves, e
uma coruja amarelo-castanha pousada no solidéu que protegia o topo de sua cabeça.

— Oh, que coruja encantadora! — gritou Wart.
Mas quando chegou perto e estendeu a mão, a coruja se ergueu pela metade outra vez, ficou dura
como um atiçador de brasas, fechou os olhos de maneira a ter apenas uma minúscula fenda através
da qual espreitar — como se costuma fazer quando se tem de fechar os olhos na brincadeira de
esconde-esconde — e disse com voz indecisa:


— Não tem coruja nenhuma.
Depois, fechou completamente os olhos e se virou para o outro lado.
— É só um menino — disse Merlin.
— Não tem menino nenhum — a coruja disse, esperançosa, sem se virar.
Wart ficou tão espantado ao ver que a coruja podia falar que esqueceu a educação e chegou ainda
mais perto. Com isso, a ave ficou tão nervosa que fez uma trapalhada na cabeça de Merlin — a sala
toda estava quase branca com os dejetos — e voou para pousar na ponta mais distante da cauda do
crocodilo, fora do alcance.


— Temos tão pouca companhia que Archimedes fica acanhado com estranhos — explicou o mago,
limpando a cabeça com a metade de um pijama velho que guardava com esse propósito. — Venha,
Archimedes, quero lhe apresentar um amigo meu chamado Wart.

Aqui, ele estendeu sua mão para a coruja, que veio gingando como um ganso pelas costas do
crocodilo — vinha com esse andar bamboleante para não danificar a cauda — e pulou para o dedo
de Merlin, com todos os sinais de relutância.

— Estique seu dedo e coloque-o atrás das pernas dele. Não, levante-o por baixo da cauda.
Quando Wart fez isso, Merlin gentilmente moveu a coruja para trás, de maneira que o dedo do
menino pressionasse suas pernas por trás, e ele ou tinha de dar um passo recuando, para cima do
dedo, ou perderia completamente o equilíbrio. Ele deu o passo. Wart ficou ali parado, encantado,
enquanto a pata felpuda apertava seu dedo e as unhas afiadas espetavam sua pele.

— Diga prazer em conhecê-lo, educadamente — disse Merlin.
— Não digo — respondeu Archimedes, olhando para o outro lado, e apertando o dedo.
— Oh, ele é mesmo encantador — Wart disse outra vez. — Há muito tempo que você o tem?
— Archimedes está comigo desde pequeno, na verdade desde que tinha uma cabeça pequena como
a de uma galinha.
— Queria que ele falasse comigo.
— Talvez se você lhe der esse camundongo aqui, com polidez, ele poderá começar a conhecê-lo
melhor.
Merlin tirou um camundongo morto de seu solidéu.

— Sempre os guardo aqui, e minhocas também, para pescaria. Acho que é muito prático — e o
passou para Wart, que o estendeu, um tanto cautelosamente, para Archimedes. O bico curvado
como noz parecia capaz de provocar danos, mas Archimedes olhou atentamente o camundongo,
piscou para Wart, aproximou-se mais pelo dedo, fechou os olhos e se inclinou para a frente. Ficou
assim com os olhos fechados e uma expressão de enlevo, como se estivesse dando Graças e então,
com um mordisco lateral extremamente cômico, pegou o bocado tão gentilmente que não teria
rompido uma bolha de sabão. Continuou inclinado para a frente de olhos fechados, com o
camundongo suspenso pelo bico, como se não estivesse seguro do que fazer com ele. Então
levantou o pé direito — era destro, embora as pessoas achem que só os homens são — e agarrou o
camundongo. Segurou-o como um menino seguraria um pirulito ou um policial seu cassetete, olhou-
o, mordiscou-lhe o rabo. Virou-o para que a cabeça ficasse para cima, pois Wart tinha-o oferecido
do jeito errado e ao contrário, e engoliu-o de uma vez. Com o rabo pendendo do canto de sua boca,
olhou em torno para o público — como se fosse dizer, "Gostaria que não ficassem me encarando
assim" — virou a cabeça para o outro lado e polidamente engoliu o rabo, coçou sua barba de
marujo com o dedo do pé esquerdo e começou a eriçar as penas.
— Deixe-o sossegado — disse Merlin. — Talvez ele não queira fazer amizade com você até saber
como você é. Com corujas, as coisas nunca são muito fáceis.
— Talvez ele fique no meu ombro — disse Wart, e com isso, instintivamente, abaixou a mão, e a
coruja, que gostava de ficar o mais alto possível, subiu o degrau e se postou timidamente ao lado
da orelha dele.

— Agora, o desjejum — disse Merlin.
Wart viu que o mais perfeito desjejum estava posto caprichosamente para dois, numa mesa perto da
janela. Havia pêssegos. Havia também melões, morangos e creme, biscoitos, truta dourada no
ponto, perca grelhada que era ainda melhor, frangos condimentados a ponto de queimar a boca de
alguém, rins e cogumelos em torradas, fricassê, caril e, em chávenas grandes, a alternativa de
escolher entre café fervendo ou o melhor dos chocolates com creme.

— Ponha um pouco de mostarda — disse o mago, quando chegaram aos rins.
O pote de mostarda levantou-se e andou até seu prato sobre finas pernas de prata que gingavam
como as da coruja. Então, esticou as asas e uma delas levantou a tampa com cortesia exagerada
enquanto a outra lhe servia uma generosa colherada.

— Oh, adoro esse pote de mostarda — exclamou Wart. — Onde o conseguiu?
Com isso, o pote sorriu exultante com todo o rosto e começou a se pavonear um pouco, mas Merlin
deu-lhe umas pancadinhas na cabeça com uma colher de chá, fazendo-o sentar-se e se calar
imediatamente.

— Não é um mau pote — disse, contrariado. — Só que é inclinado a se dar certos ares.
Wart estava tão impressionado com a gentileza do velho, e particularmente com as coisas
encantadoras que ele possuía, que dificilmente pensava em lhe fazer perguntas pessoais. Parecia
mais po


lido ficar quieto e falar só quando a palavra lhe fosse dirigida. Mas Merlin não falava muito e,
quando falava, nunca era com perguntas, portanto, Wart tinha pouca oportunidade para uma
conversação. Por fim, sua curiosidade levou a melhor, e ele perguntou uma coisa que o estava
intrigando há algum tempo.

— Você se importaria se eu fizesse uma pergunta?
— É para isso que estou aqui.
— Como sabia e preparou um desjejum para dois?
O velho cavaleiro se inclinou para trás na cadeira e acendeu um cachimbo enorme de sepiolita. —
"Santa Misericórdia, ele respira fogo", pensou Wart, que nunca escutara falar de tabaco — antes de
estar pronto para responder. Depois, pareceu confuso, tirou o solidéu — três camundongos caíram

— e coçou o alto da cabeça careca.
— Você alguma vez tentou desenhar em um espelho?
— Acho que não.
— Espelho — disse Merlin, estendendo a mão. Imediatamente apareceu um pequeno espelho de
toucador de dama em sua mão.
— Não desse tipo, seu tolo — disse, irritado. — Quero um suficientemente grande para fazer a
barba.
O espelhinho desapareceu e, em seu lugar, apareceu um espelho de barba de cerca de 30


centímetros quadrados. A seguir, pediu lápis e folha em rápida seqüência; conseguiu um lápis sem
ponta e a Folha da Manhã; devolveu-os; conseguiu uma caneta tinteiro sem tinta e seis resmas de
papel marrom, bom para fazer embrulhos; devolveu-os; teve um ataque de nervos no qual disse
"pela virgem donzela" várias vezes e terminou com um lápis-carvão e papel para enrolar cigarros
que ele disse que teriam que servir.

Pôs um dos papéis na frente do espelho e fez cinco pontinhos.

— Agora — disse — quero que você ligue esses pontos para formar um w, olhando só para o
espelho.
Wart pegou o lápis e tentou fazer como lhe fora ordenado.

— Bem, não está mal — disse o mago, em dúvida — e de alguma forma parece um pouco com um
M.
Então, começou a devanear, cofiando a barba, respirando o fogo, e fitando o papel.
— E o desjejum?
— Ah, sim. Como eu sabia que o desjejum seria para dois? Foi por isso que lhe mostrei o espelho.
Agora as pessoas comuns nascem viradas para a frente no Tempo, se entende o que quero dizer, e
quase tudo no mundo também vai para a frente. Isso faz com que seja muito fácil viver, para as
pessoas comuns, assim como teria sido fácil para você juntar os cinco pontinhos em um w se
pudesse olhar para eles de frente, e não só de trás para a frente e ao revés. Mas eu, infelizmente,
nasci no lado errado do tempo, e tenho que viver de frente para trás, cercado por uma quantidade
de pessoas que vivem de trás para a frente. Algumas pessoas chamam isso de ter segunda visão.
Ele parou de falar e olhou, ansioso, para Wart.

— Já lhe falei nisso antes?
— Não, nós nos conhecemos há cerca de meia hora apenas.
— Tão pouco tempo assim? — disse Merlin, e uma grande lágrima correu até a ponta de seu nariz.
Limpou-a com o pijama e acrescentou, ansioso: — Vou ter que lhe contar de novo?
— Não sei — disse Wart —, a menos que você ainda não tenha acabado de me contar.
— Você vê, a gente se confunde com o Tempo, quando ele é assim. Para começar, todos os tempos
de verbo se misturam. Se você sabe o que vai acontecer às pessoas, e não o que já aconteceu, fica
difícil evitar que aconteça, se não quer que aconteça, será que você entende o que quero dizer?
Como desenhar no espelho.
Wart não entendeu perfeitamente, mas ia dizer que sentia muito por Merlin se essas coisas o faziam
infeliz, quando sentiu uma curiosa sensação no ouvido.

— Não mexe — o velho disse, no momento em que já ia fazer isso, e Wart permaneceu quieto.
Archimedes, que ficara esquecido em seu ombro durante todo esse tempo, estava gentilmente se
encostando nele. O bico estava bem pertinho do lóbulo da sua orelha, que as cerdas faziam coçar, e
de repente uma voz grossa e suave sussurrou, "Como tem passado?", soando bem dentro de sua

cabeça.

— Oh, coruja! — exclamou Wart, imediatamente esquecendo os problemas de Merlin. — Olha, ele
resolveu falar comigo!
Wart gentilmente encostou a cabeça nas penas macias, e a coruja amarelo-castanha, pegando-lhe a
borda da orelha com o bico, rapidamente mordiscou ao seu redor, com os menores mordisquinhos
possíveis.

— Vou chamá-lo de Archie!
— Sabia que você iria fazer algo no estilo — disse Merlin no mesmo instante, com voz severa e
zangada, e a coruja se retirou para a ponta mais distante de seu ombro.
— É errado?
— Você poderia também me chamar de Ar ou Uja — disse a coruja, azeda — e pronto, dava no
mesmo. Ou Amarelinho — resmungou com voz ainda mais azeda.
Merlin pegou a mão de Wart e disse gentilmente:

— Você é jovem e ainda não entende essas coisas. Mas aprenderá que as corujas são as criaturas
mais delicadas, sinceras e leais. Você nunca deve ser atrevido, rude ou vulgar com elas, ou fazê-las
parecer ridículas. A mãe delas é Atenas, a deusa da sabedoria, e embora com freqüência elas
estejam prontas a bancar o bufão para o divertir, essa conduta é a prerrogativa do verdadeiro
sábio. Nenhuma coruja, definitivamente, poderia ser chamada de Archie.
— Sinto muito, coruja — Wart disse.
— Eu também sinto muito, garoto — disse a coruja. — Posso entender perfeitamente que você
falou por ignorância, e me arrependo amargamente por ter sido tão mesquinho a ponto de ver ofensa
onde nenhuma intenção havia.
A coruja realmente estava arrependida, e parecia tão cheia de remorsos que Merlin teve que fazer
uma cara alegre e mudar o rumo da conversa.

— Muito bem — ele disse —, agora que terminamos o desjejum, acho que já é mais do que hora de
nós três pegarmos o caminho de volta para Sir Ector.
— Desculpe-me só um momento — acrescentou como se tivesse se esquecido de algo e, virando-se
para as coisas do desjejum, apontou-lhes um dedo nodoso e disse com voz firme:
— Lavem-se.
Com isso, toda a louça e os talheres desceram em rebuliço da mesa, a toalha sacudiu as migalhas
pela janela, e os guardanapos se dobraram sozinhos. Todos desceram correndo a escada, até onde
Merlin deixara o balde, e começou um barulho e uma gritaria como se um punhado de crianças
tivesse saído da escola. Merlin foi até a porta e gritou, "Atenção, ninguém deve se quebrar", mas
sua voz foi inteiramente abafada por guinchos esganiçados, pancadas na água e gritos de "Ai! está
gelado!", "Não vou demorar", "Cuidado, você vai me quebrar!", ou "Vem, vamos dar um caldo no
bule de chá!".


— Você vai mesmo comigo até minha casa? — perguntou Wart, que mal podia acreditar na boa
notícia.
— Por que não? De que outra maneira posso ser seu tutor? Com isso, os olhos de Wart
esbugalharam-se mais e mais, até ficarem tão grandes como os da coruja que ainda estava sentada
em seu ombro, e seu rosto foi ficando mais e mais vermelho, e sua respiração pareceu se juntar
debaixo de seu coração.
— Caramba! — exclamou Wart, enquanto seus olhos faiscavam com a excitação da descoberta. —
Então eu estava numa Busca!


IV


Wart começou a falar antes de chegar à metade da ponte levadiça.

— Vejam quem eu trouxe — ele disse. — Vejam, eu estava numa Busca! Atiraram três flechas em
mim! Tinham riscas pretas e amarelas. A coruja se chama Archimedes. Vi o Rei Pellinore. Este é
meu tutor, Merlin. Estava na Busca dele. Ele estava atrás da Besta Gemente.Quero dizer, o Rei
Pellinore. Foi terrível na floresta. Merlin fez os pratos se lavarem sozinhos. Oi, Hob. Veja, nós
trouxemos o Cully.
Hob apenas olhava para Wart, mas com tanto orgulho que Wart ficou todo vermelho. Era tão bom
voltar para casa outra vez, com todos os seus amigos e com tudo resolvido.

Hob disse com voz grave:

— Ah, senhor, ainda faremos do senhor um falcoeiro.
Veio buscar Cully, como se não conseguisse mais ficar longe dele, mas deu um tapinha em Wart
também, afagando os dois porque não tinha certeza de qual deles estava mais feliz em ver de novo.

Pôs Cully em seu próprio punho, reapossando-se do falcão como um perneta coloca sua perna de
madeira costumeira depois de a haver perdido.

— Merlin o pegou — contou Wart. — Ele mandou Archimedes procurá-lo quando estávamos vindo
para casa. Então Archimedes nos falou onde ele estava e que havia matado uma pomba e a estava
comendo. Chegamos perto e ele fugiu. Então Merlin colocou seis penas em círculo do rabo da
pomba, e fez uma laçada com um pedaço de cordão rodeando as penas. Amarrou uma ponta em um
bastão enfiado no chão e nos escondemos atrás de um arbusto com a outra ponta. Ele disse que não
ia usar mágica. Disse que não se deve usar magia nas Grandes Artes, assim como seria desleal
fazer uma grande estátua com magia. Você tem de esculpi-la com um cinzel, sabe. Então, Cully
desceu para terminar de comer sua pomba, e nós puxamos o cordão, e a laçada deslizou pelas
penas e o pegou pelas pernas. Ele ficou furioso! Mas nós o deixamos comer a pomba.
Hob fez uma mesura para Merlin que, cortesmente, a retribuiu. Olharam um para o outro com
apreço circunspecto, um reconhecendo o outro como mestre no mesmo ofício. Quando pudessem se
encontrar a sós, conversariam sobre falcoaria, embora Hob fosse por natureza um homem
silencioso. Nesse ínterim, deveriam aguardar o momento.

— Oh, Kay — Wart gritou, quando este apareceu com a ama e outras pessoas que vieram,

deliciadas, lhe dar as boas-vindas. — Veja, consegui um mago para ser nosso tutor. Ele tem um
pote de mostarda que anda.

— Estou contente por você ter voltado — disse Kay.
— Ai de mim!, onde dormistes, Senhor Art? — exclamou a ama-seca. — Olhai como sua jaqueta
limpa agora está toda suja de lama e rasgada. Que susto nos pregastes, realmente não sei não. E
olhai vosso pobre cabelo todo cheio de gravetos. Oh, minha pobre sina, meu carneirinho travesso!
Sir Ector veio alvoroçado, com as grevas ao contrário, e beijou Wart em ambas as bochechas.

— Bom, bom, bom — exclamou comovido. — Aqui estamos de novo, hein? Que diabos andamos
fazendo, hein? Pondo todo o castelo de pernas para o ar.
Mas no fundo estava orgulhoso por Wart ter ficado fora para procurar um falcão, e mais orgulhoso
ainda por ver que conseguira trazê-lo, pois durante todo esse tempo Hob ficara levantando o
pássaro no ar para todo mundo ver.

— Oh, senhor — Wart disse —, eu estava na busca que o senhor disse de um tutor, e o achei. Por
favor, ele é esse senhor aqui, e seu nome é Merlin. Ele trouxe texugos e ouriços e camundongos e
formigas e outras coisas nesse burro branco aqui, porque não podíamos deixá-los para morrer defome. É um grande mago, e pode fazer as coisas aparecerem no ar.
— Ah, um mago — disse Sir Ector, colocando seus óculos e olhando Merlin de perto. — Magia
branca, eu espero?
— Seguramente — disse Merlin, que tinha ficado pacientemente no meio da multidão, com os
braços cruzados sobre a veste nigromântica, enquanto Archimedes se sentava muito duro e
alongado no topo de seu chapéu.
— Devemos ter testemunhos — disse Sir Ector, em dúvida. — É o usual.
— Testemunhos — ordenou Merlin, estendendo sua mão. Instantaneamente, apareceram nela
pesadas tabuinhas assinadas por Aristóteles, um pergaminho assinado por Hécate, umas duplicatas
datilografadas assinadas pelo reitor do Trinity, que não se lembrava de tê-lo conhecido. Todas
confirmavam a excelente reputação de Merlin.
— Estavam dentro da sua manga — disse Sir Ector, espertamente. — Poderia fazer outra coisa?
— Árvore — ordenou Merlin. Imediatamente apareceu uma amoreira enorme plantada no meio do
pátio, com suas deliciosas frutas roxas prontas para serem colhidas. Isso era absolutamente notável,
inclusive porque as amoras só se tornariam populares nos tempos de Cromwell.
— Eles fazem isso com espelhos — disse Sir Ector.
— Neve — ordenou Merlin. — E um guarda-chuva — acrescentou rapidamente.
Antes que pudessem se virar, o céu de cobre de verão foi assumindo um bronze frio e sem luz,
enquanto os maiores flocos brancos jamais vistos começaram a flutuar no ar e a cair nas ameias.
Uma polegada de neve caiu antes que eles conseguissem falar, e todos se puseram a tremer com a
rajada invernal. O nariz de Sir Ector ficou azul, e tinha um pingente de gelo pendurado em sua


ponta, enquanto todos, exceto Merlin, tinham uma camada de neve sobre os ombros. Merlin ficou
no meio, segurando alto seu guarda-chuva por causa da coruja.

— Isso é feito com hipnotismo — disse Sir Ector, batendo os dentes. — Como aqueles wallahs das
índias.
— Mas é suficiente — acrescentou rapidamente —, é muito suficiente. Tenho certeza de que você
será um tutor excelente para ensinar os meninos.
A neve parou imediatamente e o sol voltou.

— O suficiente para dar pneumonia num corpo — disse a ama — ou assustar os comissários
elásticos — enquanto Merlin fechava seu guarda-chuva e o devolvia ao ar, onde o pegara.
— Imaginem o menino fazendo uma busca dessas sozinho — exclamou Sir Ector. — Bom, bom,
bom! Os prodígios nunca cessam.
— Não acho que foi exatamente uma busca — disse Kay. — Afinal, ele só foi atrás do falcão.
— E voltou com o falcão, senhor Kay — disse Hob, reprovando.
— Ora, está bem — disse Kay —, mas aposto que foi o velho que pegou o Cully para ele.
— Kay — disse Merlin, subitamente terrível —, foste sempre um falador orgulhoso e maldizente, e
um infeliz. Tua pena virá por tua própria boca.
Com isso, todo mundo se sentiu constrangido, e Kay, em vez de se enfurecer como seria normal,
abaixou a cabeça. Ele não era realmente, de jeito nenhum, uma pessoa má, mas inteligente,
perspicaz, orgulhoso, apaixonado e ambicioso. Era uma daquelas pessoas que não seriam nem um
seguidor nem um líder, mas só um coração que aspira, impaciente dentro do corpo impotente que
lhe serve de prisão. Merlin imediatamente se arrependeu de sua descortesia. Para endireitar as
coisas, fez uma pequena faca de caça de prata aparecer do ar e a deu para ele. O puxador do cabo
era feito com a caveira de uma doninha, azeitada e polida como marfim, e Kay adorou.


V


A casa de Sir Ector chamava-se O Castelo da Floresta Sauvage. Parecia mais uma aldeia ou vila
do que a casa de um homem só, e realmente, era uma aldeia nos tempos de perigo: essa parte da
história trata de tempos inquietos. Sempre que havia um ataque de surpresa ou uma invasão de
algum tirano vizinho, todo mundo na propriedade corria para o castelo, conduzindo os animais na
frente para os pátios, e ali permaneciam até o perigo passar. As cabanas de palha e taipa por perto
eram sempre queimadas, e tinham que ser reconstruídas depois, entre muita blasfêmia. Por esse
motivo, não valia a pena ter uma igreja na aldeia, pois teria constantemente que ser refeita. Os
aldeões iam à missa na capela do castelo. Aos domingos, vestiam suas melhores roupas e
marchavam pelas ruas da maneira mais respeitável possível, lançando olhares vagos e dignos em
todas as direções, como se relutassem em revelar para onde iam, mas, nos dias de semana, iam às
missas e vésperas com suas roupas normais, caminhando muito mais alegremente. Todo mundo ia à
igreja naquela época, e gostava.

O Castelo da Floresta Sauvage ainda está de pé e é possível ver suas lindas muralhas em ruínas,
cobertas de hera, resistindo ao sol e ao vento. Lagartos vivem ali agora,
e pardais famintos se
abrigam na hera nas noites de inverno, e uma coruja-de-igreja a percorre metodicamente, pairando
ao largo da congregação assustada e batendo na hera com as asas para afugentá-los. A maior parte
da muralha de ligação já caiu, embora seja possível rastrear o alicerce das doze torres redondas
que guardavam o castelo. Eram redondas e sobressaíam do muro sobre o fosso, para que os
arqueiros pudessem atirar em todas as direções e controlar todas as partes da muralha. Dentro das
torres há escadas em caracol. Descem dando voltas em uma coluna central, e essa coluna tem
buracos abertos por onde atirar flechas. Mesmo se o inimigo conseguisse penetrar no interior da
muralha e lutasse para abrir caminho até as torres, seus defensores poderiam se retirar pelas
escadas e atirar naqueles que os perseguiam lá dentro através dessas frestas.

A parte de pedra da ponte levadiça com seus barbacãs e as ameias da torre de entrada estão em
boas condições. Tem muitas disposições engenhosas. Mesmo se os inimigos conseguissem
atravessar a ponte de madeira, que era içada para que não conseguissem, havia uma grade de ferro
lastrada com uma tora gigantesca que os esmagaria e também os prenderia ao chão. Havia um
alçapão grande, escondido no piso do barbacã, que os acabaria levando ao fosso. Do outro lado do
barbacã, havia uma outra grade de ferro, de maneira tal que eles podiam ficar presos entre as duas
e serem aniquilados a partir de cima, enquanto as ameias, ou torreões suspensos, tinham buracos no
assoalho através dos quais os defensores poderiam jogar coisas nas cabeças deles. Por fim, no


interior da torre de entrada, havia um pequeno buraco, muito bem-feito, no meio do teto em
abóbada, com arabescos pintados e relevos. Esse buraco dava para o cômodo de cima, onde havia
um grande caldeirão, para ferver chumbo ou óleo.

Essas eram as defesas exteriores. Uma vez dentro da muralha, estava-se em uma espécie de grande
aléia, provavelmente cheia de carneiros assustados, com outro castelo completo à sua frente. Era afortaleza interior, com suas oito enormes torres redondas que ainda permanecem. É muito agradável
subir na mais alta delas, acomodar-se e ficar olhando as fronteiras, de onde vinham alguns desses
perigos antigos, com nada além do sol acima e os turistas pequeninos caminhando lá embaixo, sem
a menor preocupação com flechas nem azeite fervente. Pense em quantos séculos essa torre
inconquistável resistiu. Mudou de mãos por secessão muitas vezes, por cerco uma vez, por traição
duas vezes, mas nunca por ataque. Nesta torre o sentinela fazia a ronda. Daqui, ele guardava os
campos azuis em direção ao País de Gales. Seus velhos ossos limpos descansam hoje embaixo do
assoalho da capela, portanto você deve tomar o lugar dele.

Se olhar para baixo e não tiver medo de altura (a Sociedade de Proteção Disso e Daquilo colocou
parapeitos excelentes para evitar que você caia), pode ver a anatomia completa do pátio interno
estendida à sua frente como um mapa. Pode ver a capela, agora completamente aberta a seu Deus, e
as janelas do grande saguão com o solário por cima. Pode ver as colunas das enormes chaminés e
com que habilidade se arquitetou a entrada dos canos laterais, e as pequenas casinhas de banho
privadas agora públicas, e a enorme cozinha. Se você for uma pessoa sensível, passará dias aí,
talvez semanas, tentando adivinhar por si mesmo por dedução onde estavam os estábulos, as
gaiolas, o curral das vacas, o arsenal, os celeiros, o poço, a forja, o canil, as casernas, os quartos
dos padres, e os aposentos de Milorde e Milady. Então tudo reaparecerá à sua volta outra vez. As
pessoinhas — elas eram menores do que você, e seria um esforço para a maioria de nós conseguir
entrar nas poucas peças de armadura e manoplas antigas que sobraram — passarão apressadas sob
a luz do sol, as ovelhas soltarão seus baas
como sempre fazem, e talvez do País de Gales virá o
ziii-ffi
da flecha de tríplice penas que parecerá não ter se mexido.

Esse lugar, certamente, era um paraíso para um jovem viver. Wart corria por ali como um coelho
em seu próprio labirinto complicado. Conhecia tudo, todo mundo, todos os cheiros especiais, bons
locais para escalar, tocas macias, esconderijos secretos, lugares para saltar, para escorregar,
cantos, despensas e lugares sagrados. . Como um gato, sabia qual era o melhor lugar em cada
estação, e gritava e corria e brigava e perturbava as pessoas e tirava uma soneca e sonhava
acordado e fingia ser um cavaleiro, sem parar. Agora, ele estava no canil.

As pessoas naqueles tempos tinham idéias bem diferentes das que temos hoje sobre como treinar os
cachorros. Elas o faziam mais com amor do que com rigidez. Imagine um M.F.H. (um Senhor de
Cervos e de Cães de Caças) moderno indo para a cama com seus cães, mas Flavius Arrianus diz
que "O ideal é que eles possam dormir com uma pessoa, pois isso os faz mais humanos e porque se
alegram com a companhia dos seres humanos: também, se tiverem um noite inquieta ou estiverem
internamente perturbados, você saberá e não os usará na caça no dia seguinte". No canil de Sir
Ector havia um menino especial, chamado o Menino-Cão, que vivia dia e noite com os cães. Era
uma espécie de chefe dos cachorros, e era sua tarefa todos os dias levá-los para caminhar, tirar os


espinhos de suas patas, curar as feridas de suas orelhas, arrumar-lhes os ossos pequenos quando se
deslocavam, purgá-los dos vermes, isolá-los e cuidar deles quando estavam infectados, arbitrar
suas disputas, e dormir enrolado entre eles à noite. Se ainda me permitem uma outra citação
erudita, foi assim que, mais tarde, o Duque de York, que foi assassinado em Azincourt, descreveu
um garoto desses em seu Mestre da Caça: "Também ensinarei o menino a passear com os cães de
caça duas vezes por dia, de manhã e à tarde, enquanto o sol estiver no céu, especialmente no
inverno. Então ele deverá deixá-los correr e brincar nos prados ao sol, e depois pentear cada cão
um após o outro, e lavá-los com uma grande escova de palha, e deverá fazer isto todas as manhãs.
E depois deverá levá-los para um lugar agradável onde cresça relva macia como trigo e outras
coisas, e que lá eles possam se alimentar, pois isso é remédio para eles". Assim, como o "seu
coração e suas tarefas estão com os cães", os próprios cães ficam "bonitos e gentis e limpos,
contentes e alegres e brincalhões e agradáveis com toda a sorte de pessoas, exceto os animais
selvagens com os quais devem ser cruéis, impetuosos e maus".

O Menino-Cão de Sir Ector não era outro senão aquele que teve seu nariz arrancado pela mordida
do terrível Wat. Não tendo um nariz como os humanos, e sendo, além disso, alvo das pedras
jogadas pelas crianças da aldeia, sentia-se mais à vontade com os animais. Conversava com eles,
não em linguagem de bebê como uma donzela, mas corretamente, com seus próprios rosnados e
latidos. Todos o adoravam, e o veneravam por tirar os espinhos de suas patas, e iam imediatamente
procurá-lo quando tinham problemas. Ele sempre entendia na hora o que estava errado e, em geral,
conseguia endireitar as coisas. Era ótimo para os cachorros ter seu deus, de forma visível, entre
eles.

Wart gostava do Menino-Cão, e o achava muito inteligente por ser capaz de fazer tantas coisas com
os animais — pois conseguia que eles fizessem quase tudo apenas mexendo suas mãos — e o
Menino-Cão adorava Wart quase da mesma maneira que seus cachorros o adoravam, e achava que
Wart era quase santo porque sabia ler e escrever. Passavam muito tempo juntos, rolando no chão
com os cachorros no canil.

O canil ficava no piso térreo, perto das estrebarias, com um celeiro em cima para que fosse fresco
no verão e quente no inverno. Os cães eram alãos, de caça à vista, mestiços e de faro. Eram
chamados de Canhestro, Trowneer, Phoebe, Colle, Gerland, Talbot, Luath, Luffra, Apoio, Orthros,
Bran, Gelert, Bounce, Boy, Lion, Bungery, Toby e Diamond. O favorito de Wart chamava-se
Cavall, e ele estava justamente lambendo o nariz de Cavall — não o contrário — quando Merlin
entrou e o encontrou.

— Isso virá a ser considerado um hábito nada higiênico — disse Merlin —, embora eu mesmo não
entenda porque. Afinal, Deus fez o nariz das criaturas tão bem como fez sua língua.
— Se não melhor — acrescentou o filósofo, pensativamente.
Wart não sabia sobre o que Merlin estava falando, mas gostava quando ele falava. Não gostava dos
adultos que se colocavam no nível dele, mas os que continuavam falando do jeito normal,
deixando-o segui-los aos saltos, pulando alguns significados, adivinhando, agarrando-se às
palavras conhecidas, e rindo exultante das piadas complicadas quando de repente as entendia.
Nesses momentos, sentia o júbilo dos botos, mergulhando e saltando por mares desconhecidos.


— Vamos sair? — perguntou Merlin. — Acho que já é hora de começarmos as lições.
O coração de Wart desfaleceu ao ouvir isso. Seu tutor estava ali havia um mês, e já era agosto, mas
ainda não tinham tido nenhuma lição até o momento. Agora, de repente, lembrava-se de que era
para isso que Merlin estava ali, e pensou com pavor na Summulae Logicales e na porcaria do
astrolábio. Sabia, no entanto, que teria que se resignar, e se levantou, obediente, depois de dar um
último tapinha relutante em Cavall. Pensou que talvez não fosse tão ruim com Merlin, que seria
capaz de fazer até o velho Princípios de Investigação interessante, sobretudo se fizesse alguma
mágica.

Foram para o pátio, sob um sol tão escaldante que o calor do trabalho no feno parecia não ter sido
nada. Estava um forno. As nuvens escuras de trovões que geralmente acompanham o clima quente
estavam lá, colunas altas de cúmulos com bordas brilhantes, mas por enquanto não haveria
trovoada. Estava demasiado quente até para isso.

"Se pelo menos", pensou Wart, "eu não tivesse que entrar numa sala de aula abafada, mas pudesse
tirar minhas roupas e nadar no fosso".

Atravessaram o pátio, tendo que respirar fundo antes de o atravessarem correndo, como se
tivessem passando rápido por dentro de um forno. A sombra da torre da entrada estava fresca, mas

o barbacã, com seus muros fechados, era o mais quente de todos. Com uma última corrida pelo
deserto, alcançaram a ponte levadiça — será que Merlin adivinhara o que ele estava pensando? —
e ficaram olhando o fosso embaixo.
Era a estação dos nenúfares. Se Sir Ector não tivesse reservado uma parte livre deles para o banho
dos meninos, toda a água estaria coberta. Assim, cerca de vinte metros de cada lado da ponte eram
cortados todos os anos, e dava para mergulhar da própria ponte. O fosso era profundo. Era usado
como viveiro, para que os habitantes do castelo pudessem comer peixe às sextas-feiras e, por esse
motivo, os arquitetos tiveram o cuidado de não deixar os drenos e esgotos irem parar lá. Todos os
anos era abastecido de peixes.

— Eu gostaria de ser um peixe — disse Wart.
— Que espécie de peixe?
Estava quase quente demais até para pensar nisso, mas Wart fitou as profundezas frescas cor de
âmbar, onde um cardume de pequenas percas estava zanzando sem destino.

— Acho que gostaria de ser uma perca — ele disse. — São mais corajosas do que as tolas carpas,
e não tão assassinas quanto os lúcios.
Merlin tirou o chapéu, levantou sua vara de pau-santo no ar e disse lentamente:

— Snylrem stnemilpmoc ot enutpen dna Iliw eh yidnik tpecca siht yob sa a hsif?
Imediatamente escutou-se um forte barulho de ventania de conchas-marinhas, búzios e coisas assim,
e um cavaleiro corpulento e bem-humorado apareceu sentado em uma nuvem rechonchuda sobre as
ameias. Tinha uma âncora tatuada no estômago e, no peito, uma bonita sereia com Mabel escrito
embaixo. Cuspiu um pouco de tabaco, cumprimentou Merlin afavelmente com a cabeça e apontou


seu tridente para Wart. Wart viu que estava sem roupas. Viu que tinha caído da ponte levadiça,
pousando na água com um estalo de lado. Viu que o fosso e a ponte levadiça estavam cem vezes
maiores. Viu que tinha se transformado em um peixe.

— Ah, Merlin — ele gritou —, por favor, venha também.
— Desta vez, eu vou — disse uma tenca grande e séria ao seu ouvido. — Mas no futuro você terá
que ir sozinho. Educação é experiência, e a essência da experiência é a autoconfiança.
Wart achou difícil ser um novo tipo de criatura. Não dava certo tentar nadar como um ser humano,
pois o fazia avançar em espiral e muito devagar. Não sabia nadar como peixe.

— Não é assim — disse a tenca, séria. — Ponha seu queixo no ombro esquerdo e dê saltos para a
frente. Para começar, não se preocupe com as barbatanas.
As pernas de Wart tinham se fundido com sua coluna dorsal, e seus pés e respectivos dedos tinham
se transformado em uma barbatana caudal. Seus braços transformaram-se em mais duas barbatanas

— de um rosa delicado —, e apareceram outras tantas em algum lugar perto do estômago. Sua
cabeça estava de frente para os ombros, e assim, quando ele se dobrava ao meio, seus pés se
dirigiam para a orelha e não para sua testa. Era de um bonito verde-azeitona, com placas laminadas
riscadas por todo o corpo, e faixas escuras laterais. Não tinha certeza do que eram seus flancos e o
que eram sua frente e costas, mas o que agora parecia ser sua barriga tinham uma atraente cor
esbranquiçada, enquanto as costas estavam armadas com uma maravilhosa barbatana que podia se
eriçar para batalhas e que tinha espigões. Deu alguns saltos como a tenca orientou e viu que estava
nadando verticalmente para baixo, direto para o lodo.
— Use os pés para girar para a esquerda ou para direita — disse a tenca —, e abra essa barbatana
em sua barriga para manter a horizontal. Você está vivendo em dois planos agora, não em um.
Wart percebeu que poderia se manter mais ou menos no nível horizontal, alterando a inclinação das
barbatanas do braço e da barriga. Saiu nadando ainda vacilante, mas divertindo-se muitíssimo.

— Volte — disse a tenca. — Você tem que aprender a nadar antes de poder adquirir velocidade.
Wart retornou até seu tutor em uma série de ziguezagues e observou:
— Parece que não consigo nadar reto.
— O problema é que você não está nadando com os ombros. Nada como se fosse humano,
curvando os quadris. Tente dar seus saltos direto a partir do pescoço para baixo, e mexa o corpo
exatamente o mesmo tanto para a direita que vai mexer para a esquerda. Trabalhe também as
costas.
Wart deu dois saltos espetaculares e desapareceu completamente em um tufo de cavalinhas, a
vários metros dali.

— Está melhor — disse a tenca, agora fora da vista na água verde escura, e Wart conseguiu se
desvencilhar do sargaço com esforço infinito, contorcendo suas barbatanas laterais. Ondulou de
volta em direção à voz, com outro impulso espetacular, para se exibir.
— Ótimo —, disse a tenca, quando eles se chocaram rabo com rabo. — Mas direção é a melhor

parte do valor. — Tente fazer assim — ele acrescentou.
Sem nenhum esforço aparente, nadou de ré, por baixo de um nenúfar. Sem nenhum esforço aparente


— mas Wart, que era um aprendiz aplicado, observava o levíssimo movimento das barbatanas.
Mexeu as suas em sentido contrário ao do relógio, deu um hábil impulso na ponta do rabo, e lá
estava ele ao lado da tenca.
— Esplêndido — disse Merlin. — Agora vamos nadar um pouco.
Wart estava bem equilibrado agora e razoavelmente capaz de avançar. Estava relaxado o suficiente
para examinar o universo extraordinário no qual o cavalheiro tatuado com tridente o mergulhara.
Era diferente do universo com o qual estava acostumado. Para começar, o céu ou o firmamento
acima era agora um círculo perfeito. O horizonte estava fechado. Para que você pudesse se ver na
mesma posição de Wart, teria que imaginar um horizonte redondo, poucas polegadas acima de sua
cabeça, em vez do horizonte plano que normalmente se vê. Por baixo desse horizonte de ar, teria
que imaginar outro horizonte debaixo da água, esférico e praticamente de cabeça para baixo —
porque a superfície da água atuava parcialmente como um espelho para o que estivesse debaixo
dela. E difícil imaginar. O que o torna ainda mais difícil de imaginar é que tudo que os seres
humanos considerariam como estando acima do nível da água aparecia orlado com todas as cores
do espectro. Por exemplo, se você estivesse tentando pescar Wart, ele veria você, na beira do pires
que seria o ar exterior para ele, não como uma pessoa agitando uma vara com anzol, mas como sete
pessoas, cujas silhuetas seriam vermelha, laranja, amarelo-esverdeado, azul, anil e violeta, todas
agitando a mesma vara cujas cores seriam também variadas. Na verdade, você seria um homem
arco-íris para ele, um farol de lampejos de cores irradiantes, que se misturariam umas com as
outras, com raios por todos os lados. Você teria flamejado acima da água como Cleópatra no
poema.

A segunda coisa mais deliciosa era que Wart não tinha peso. Já não estava mais ligado à Terra e
não tinha que caminhar pesadamente por uma superfície plana, comprimido pela gravidade e pelo
peso da atmosfera. Podia fazer o que o homem sempre quis fazer, isto é, voar. Praticamente não
existe diferença entre voar na água e voar no ar. O melhor de tudo é que ele não tinha que voar
numa máquina, puxando alavancas e ficando sentado, mas podia fazê-lo com o próprio corpo. Era
como os sonhos que as pessoas têm.


A casa de Sir Ector chamava-se O Castelo da Floresta Sauvage. Parecia mais uma aldeia ou vila
do que a casa de um homem só, e realmente, era uma aldeia nos tempos de perigo.

Quando eles iam começar a sair nadando no passeio de inspeção uma carpinha tímida surgiu de
entre duas moitas ondulantes de cavalinhas e parou ali perto, pálida de agitação. Fitou-os com
olhos grandes e apreensivos e, evidentemente, queria alguma coisa, mas não conseguia se decidir.

— Aproxima-te — Merlin disse, sério.
Com isso, a carpa avançou agitada como uma galinha, caiu em lágrimas e começou a gaguejar sua
mensagem.

— Po-po-por favor, doutor — gaguejou a pobre criatura, tão rápido que eles mal podiam entender
o que ela dizia —, temos um ca-ca-so tão horrível de u-u-uma ou outra coisa em nossa família, e s-
s-s-será que o s-s-s-senhor teria um tempinho? É n-n-nossa querida Mama, que está n-n-n-nadando
só de cabeça pra cima, e e-e-e-e-está de um jeito horrível e f-f-f-falando de um jeito tão esquisito,
se n-n-não for incomodar? C-C-C-Clara disse para dizer isso, o s-s-s-senhor entende o que quero
dizer?
Aqui a pobre carpa começou a chiar tanto que com sua gagueira e sua disposição às lágrimas
tornou-se quase incapaz de falar e só conseguia encarar Merlin com seus olhos pesarosos.

— Está bem, meu jovem — disse Merlin. — Vamos, vamos, me leve até sua querida Mama e
veremos o que poderemos fazer.

Puseram-se a nadar todos os três em direção à escuridão sob a ponte levadiça, em sua incumbência
de misericórdia.

— São neuróticas, essas carpas — sussurrou Merlin, por trás de sua barbatana. — Provavelmente,
trata-se de um caso de histeria nervosa, assunto para um psicólogo e não para um médico.
Mama carpa estava deitada de costas, como o filho descrevera. Tinha os olhos semicerrados, as
barbatanas dobradas sobre o peito, e de vez em quando soltava uma borbulha. Todos os filhos
estavam à sua volta, formando um círculo, e toda vez que ela soltava uma borbulha, eles cutucavam
um ao outro e suspiravam. A Mama tinha um sorriso seráfico no rosto.

— Bem, bem, bem — disse Merlin, assumindo sua melhor pose de médico —, e como está a Sra.
Carpa hoje?
Deu umas palmadinhas nas cabeças das carpinhas e avançou com movimentos solenes em direção à
paciente. Talvez deva ser mencionado que Merlin era um peixe pesado, grande sorriso, pesando
uns dois quilos e meio, pele colorida, escamas pequenas, barbatanas adiposas, um tanto
escorregadio, e olhos brilhantes de cravo-de-defunto — uma figura respeitável.

A Sra. Carpa estendeu, lânguida, uma barbatana, suspirou enfaticamente e disse:

— Ah, doutor, finalmente o senhor veio.
— Hum — respondeu o médico, com seu tom mais grave. Depois, disse a todos que fechassem os
olhos — Wart ficou espreitando — e começou a nadar em volta da doente, em uma dança lenta e
imponente. Enquanto dançava, ele cantava. Sua canção era assim:
Terapêutico,
Elefântico,
Diagnóstico,
Buum!
Pancreático,
Microstático,
Antitóxico,
Fim!
Com catabolismo normal,
Lengaleguísmo e tagarelismo
Isso, aquilo, aquilorum
Acabe seu abundonorum
Dispepsia,
Anaemia,
Toxaemia,
Um, dois, três
Lá vai de uma vez,
E tralali-traloló para o
Pinto Pedrês



No final da canção, ele estava nadando tão perto, em volta de sua paciente, que na verdade a
tocava, roçando seus flancos marrons de escamas macias contra os dela, mais claros e ásperos.
Talvez ele a estivesse curando com seu visco — pois dizem que todos os peixes procuram a tenca
para se curar — ou talvez fosse pelo toque, por massagem ou por hipnotismo. De qualquer modo, a
Sra. Carpa de repente parou de cerrar os olhos, virou-se do lado certo, e disse:

— Ah, doutor, querido doutor, sinto que poderia comer uma pequena minhoca agora.
— Nada de minhocas — disse Merlin — por pelo menos dois dias. Vou lhe dar uma receita para
um caldo forte de algas a cada duas horas, Sra. Carpa. Temos que trabalhar para fortalecê-la, a
senhora compreende. Afinal, Roma não foi construída em um dia.
Depois, voltou a dar palmadinhas em todas as carpinhas, disse-lhes que crescessem e se tornassem
peixinhos valentes, e foi embora nadando com ar de importância em direção à escuridão. Enquanto
nadava, inflava e desinflava a boca.

— O que você quis dizer com aquilo sobre Roma? — perguntou Wart, quando já não podiam ser
escutados.
— Só os céus sabem.
Continuaram nadando. Merlin ocasionalmente lembrando Wart de trabalhar as costas, quando ele se
esquecia, e o estranho mundo das águas começou a se mostrar ao redor, deliciosamente fresco
depois do calor do ar de cima. As grandes florestas de ervas daninhas eram delicadamente
traçadas, e dentro delas vários cardumes de esgana-gatas pairavam imóveis, aprendendo a fazer
seus exercícios físicos em perfeita sincronia. A ordem de Um, todas se deitavam quietas; a Dois,
viravam-se uma para a outra; a Três, disparavam todas juntas para formar um cone, cujo vértice era
um pedaço de algo para comer. Caracóis aquáticos vagarosamente moviam-se pelos caules dos
nenúfares ou sob suas folhas, enquanto mexilhões de água doce estendiam-se no fundo sem nada
fazer de especial. Sua carne era cor rosa salmão, como um bom sorvete de morango. O pequeno
cardume de percas — era uma coisa estranha, mas todos os peixes maiores pareciam ter se
escondido — tinha circulação delicada, e elas ficavam ruborizadas ou pálidas tão facilmente
quanto uma donzela nas novelas vitorianas. Só que o rubor delas era de uma cor verde-azeitona
escura, e era o rubor da raiva. Sempre que Merlin e seu companheiro nadavam passando por elas,
levantavam suas pontudas barbatanas frontais em ameaça, e só as baixavam quando viam que
Merlin era uma tenca. Suas listras pretas laterais faziam que parecessem ter sido grelhadas, e
também podiam ficar mais escuras ou mais claras. Uma vez, os viajantes passaram por baixo de um
cisne. A criatura branca flutuava acima como um Zeppelin, todo indistinto a não ser pelo que estava
por baixo da água. Essa parte estava bastante clara e mostrava que o cisne flutuava levemente de
um lado, com uma pata dobrada sobre as costas.

— Veja — disse Wart —, é o pobre cisne da pata aleijada. Só pode bater uma perna, e a outra fica
dobrada.
— Bobagem — retrucou o cisne, vivamente, enfiando a cabeça dentro da água e fazendo-lhes uma

carranca com as narinas pretas. — Os cisnes gostam de descansar nessa posição, e você pode
guardar sua compaixão piscosa para você mesmo, ora bolas! — Continuou a encará-los de cima,
como uma cobra branca de repente descendo pelo teto, até que eles saíram de seu raio de visão.

— Você vai nadando — disse a tenca — como se não houvesse nada para temer nesse mundo. Não
percebe que este lugar é exatamente como a floresta que você teve de atravessar para me
encontrar?
— É?
Wart olhou e, a princípio, não viu coisa alguma. A seguir, viu uma pequena forma translúcida
imóvel perto da superfície. Estava fora da sombra de um nenúfar e claramente desfrutava o sol. Era
um lúcio bebê, absolutamente rígido e provavelmente adormecido, e parecia o cabo de um
cachimbo ou um cavalo-marinho achatado e esticado. Quando crescesse, seria um bandoleiro.

— Vou levar você para ver um desses — disse a tenca —, o imperador desses rufiões. Como
médico, tenho imunidade, e acredito que ele respeitará também você como meu companheiro, mas é
melhor ficar com o rabo dobrado, caso ele esteja se sentindo tirânico.
— Ele é o Rei do Fosso?
— É. Velho Jack é como é chamado, e alguns o chamam de Negro Peter, mas a maioria não o
chama por nome nenhum. Dizem apenas Sr. P. Você verá o que é ser rei.
Wart começou a seguir um pouco atrás de seu condutor, e talvez tenha sido mesmo bom que o
fizesse, pois antes que notasse já estavam chegando ao lugar de destino. Quando viu o velho
déspota, começou a recuar com horror, pois o Sr. P. tinha bem um metro e vinte de comprimento e
peso incalculável. O corpo enorme, sombrio e quase invisível entre os galhos, terminava em um
rosto já devastado por todas as paixões de um monarca absoluto — crueldade, tristeza, idade,
orgulho, egoísmo, solidão e pensamentos demasiado intensos para cérebros comuns. Ali ficava ou
pairava, a grande boca irônica permanentemente voltada para baixo, em uma espécie de
melancolia, as faces magras e bem barbeadas dando-lhe um ar de americano, como um Tio Sam.
Era impiedoso, desiludido, lógico, predatório, cruel, implacável — mas o brilho intenso de um
olho era o de um cervo ferido, grande, atemorizado, sensível e cheio de pesares. Não fez
movimento algum, mas olhou para os dois com seu olho ruim.

Wart pensou consigo mesmo que não gostava do Sr. P.

— Senhor — disse Merlin, sem prestar atenção ao nervosismo dele —, eu trouxe um jovem
professante que gostaria de aprender a professar.
— A professar o quê? — perguntou o Rei do Fosso lentamente, mal abrindo suas mandíbulas e
falando pelo nariz.
— Poder — disse a tenca.
— Deixe-o falar por si mesmo.
— Por favor — disse Wart —, eu não sei o que deveria perguntar.
— Nada existe — disse o monarca —, exceto o poder que você pretende procurar: poder de

triturar e poder de digerir, poder de procurar e poder de encontrar, poder de esperar e poder de
exigir, todos os poderes e a implacabilidade brotando da nuca.

— Obrigado.
— O amor é uma peça que as forças da evolução nos pregaram. O prazer é a isca que nos jogam.
Só existe o poder. O poder é da mente individual, mas o poder da mente não é suficiente. O poder
do corpo no final decide tudo, e só a Força é Certa.
— Agora creio que é hora de você se retirar, jovem mestre, pois estou achando essa conversa
desinteressante e cansativa. Creio que, realmente, você deve se retirar imediatamente, caso minha
boca desiludida não determine de repente que eu deva lhe apresentar minhas grandes guelras, as
quais têm também dentes. Sim, realmente acho que você devia ser sábio o bastante para ir embora
já, neste momento. Realmente, acho que deve pôr suas costas para trabalhar. E, portanto, dê já seu
longo adeus à toda a minha grandeza.
Wart sentiu-se quase hipnotizado por essas palavras pomposas, e mal notou que a boca tensa estava
cada vez mais e mais perto dele. Aproximava-se imperceptivelmente, enquanto o discurso distraía
sua atenção e, de repente, assomou-se a pouquíssimos centímetros de seu nariz. Com a última frase,
ela se abriu, horrível e enorme, a pele se esticando voraz de osso a osso e dente a dente. Dentro
dela parecia só existir dentes, dentes afiados como espinhos em filas e serras por todo lado, como
os cravos nas botas dos trabalhadores, e foi só no último segundo que ele conseguiu recuperar sua
vontade própria, reassumir seu autocontrole, entender as instruções e fugir.

Todos aqueles dentes se fecharam com estrépito atrás dele, bem na pontinha de seu rabo, enquanto
ele dava o salto mais entusiástico que jamais daria outra vez.

Em um segundo, estava de novo em terra firme, de pé ao lado de Merlin na ponte levadiça, ofegante
em suas roupas abafadas.


VI


Uma quinta-feira à tarde, os meninos estavam treinando arco e flecha, como usual. Havia dois alvos
de palha a uns quarenta e cinco metros um do outro, e depois que atiravam as flechas em um deles,
só tinham que ir até lá, recolhê-las e atirar no outro alvo, depois de olhar em torno. O clima ainda
era o mais agradável do verão, e no almoço teve galinhas, portanto Merlin retirara-se para o limite
do campo de treino e se sentara debaixo de uma árvore. E com o calor e as galinhas e o creme que
colocara em seu pudim, e o contínuo repassar dos meninos e o ruidinho das flechas nos alvos —
que dava tanto sono quanto o barulho de um cortador de grama ou de uma partida de críquete na
aldeia —, e com a dança das manchas do sol em forma de ovos entre as folhas da árvore, o velho
logo caiu no sono.

A arte de manejar o arco era uma ocupação séria naquela época. Ainda não tinha sido relegada aos
índios e aos garotos. Se você atirasse mal, ficava de mau humor, assim como ainda hoje ficam os
ricos caçadores de faisão. Kay estava atirando mal. Estava se esforçando demais e puxando na hora
de disparar, em vez de deixar por conta do arco.

— Ah, vamos embora — ele disse. — Estou farto desses alvos abomináveis. Vamos atirar no
papagão.
Abandonaram os alvos e atiraram várias vezes no papagão — que era um pássaro artificial grande,
bem colorido, preso na ponta de um bastão, parecido com um papagaio — e Kay também errou
todas as vezes. Primeiro, pensou, "Bom, vou acertar nessa porcaria, mesmo se tiver que ficar sem
meu chá até conseguir". Depois, foi ficando simplesmente chateado.

Wart disse:

— Vamos brincar de Bandoleiros, então. Podemos voltar em meia hora e acordar Merlin.
O que eles chamavam de brincar de bandoleiros consistia em sair para uma caminhada com os
arcos e atirar uma flecha cada a qualquer marca que encontrassem e concordassem que seria oalvo. Às vezes era um monte de terra levantado por alguma toupeira, às vezes uma moita de junco,
às vezes um cardo grande quase a seus pés. Variavam a distância em que escolhiam esses objetos,
às vezes escolhendo um alvo tão afastado quanto uns 110 metros — o que era mais ou menos a
maior distância a que seus arcos de jovens conseguiam chegar —, e à vezes tendo de apontar na
verdade para baixo de um cardo próximo, porque a flecha sempre levanta uns trinta ou sessenta
centímetros quando deixa o arco. Contavam cinco pontos para um tiro certeiro, e um se a flecha


ficava dentro do comprimento do arco, e depois somavam os pontos no final.

Nessa quinta-feira, eles escolheram seus alvos sabiamente. Além disso, a relva do campo fora
cortada recentemente, e assim nunca tinham que procurar muito tempo pelas flechas, o que quase
sempre acontece, como no golfe, se você atira imprudentemente perto de sebes ou lugares
abandonados. O resultado foi que se afastaram mais do que o costume e se encontraram perto da
beira da floresta selvagem, onde Cully se perdera.

— Eu voto para irmos caçar aí por essas tocas e ver se a gente pega um coelho — disse Kay. —
Vai ser mais divertido do que atirar nessas bobagens.

Eles foram. Escolheram duas árvores a cerca de cem metros de distância uma da outra, e cada um
postou-se debaixo de uma delas esperando que os coelhos tornassem a sair das tocas. Ficaram
imóveis, com os arcos já levantados e as flechas prontas, de modo a fazerem o mínimo movimento
para não perturbar as criaturas quando elas aparecessem. Não era difícil para nenhum deles ficar
parado assim, pois a primeira prova que tinham que passar nas aulas de manejo de arco era
permanecer de pé, parado, com o arco no braço esticado por meia hora. Tinham seis flechas cada
um e poderiam atirar e perder todas antes de precisarem assustar os coelhos, tendo que ir recolhê-
las. Uma flecha não faz ruído suficiente para incomodar mais do que aquele coelho em particular
que está sendo flechado por ela.

No quinto tiro, Kay teve sorte. Calculou com precisão a força certa de vento e distância, e sua
flecha pegou um jovem coelho na cabeça. O coelho ficara parado um tempão para observá-lo,
tentando descobrir o que era aquilo.

— Ah, belo tiro! — gritou Wart, enquanto corriam para pegá-lo. Era o primeiro coelho que
acertavam, e por sorte a flechada conseguira matá-lo de uma vez.
Depois que cuidadosamente o destriparam — para mantê-lo fresco — com a faca de caça que
Merlin dera a Kay, e passaram uma de suas patas traseiras sobre a outra atrás do osso tarso para
conveniência ao carregar, os dois meninos se prepararam para voltar para casa com sua presa. Mas
antes de desencordoar, tinham o costume de fazer uma cerimônia. Toda quinta-feira à tarde, depois
que a última flecha fora lançada a sério, tinham permissão de colocar mais uma no arco e atirar
direto para cima, no ar. Era em parte um gesto de adeus, em parte de triunfo, e era uma beleza. Eles

o fizeram agora como uma saudação à sua primeira presa.
Wart viu sua flecha subir. O sol já estava se pondo a oeste, rumo ao anoitecer, e as árvores onde
eles estavam os cobriam parcialmente com sua sombra. Assim, quando a flecha passou pelas
árvores e subiu rumo à luz do sol, começou a incandescer contra o anoitecer como o próprio sol.
Para cima e para cima, cada vez mais ela subiu, sem oscilar como poderia ter feito com um disparo
brusco, mas se elevando, deslizando, almejando o céu, firme, dourada e soberba. Justo no momento
em que esgotara sua força, justo no momento em que sua ambição fora turvada pelo destino e ela se
preparava para fraquejar, desistir, voltar para o regaço da terra mãe, um prodígio aconteceu. Um
corvo surgiu batendo as asas, cansado, frente à noite que se aproximava. Surgiu, não hesitou, e
levou a flecha. Voou para longe, pesado e alçando-se, com a flecha no bico.

Kay ficou amedrontado mas Wart ficou furioso. Adorara os movimentos de sua flecha, sua ambição


de queimar à luz do sol e, além disso, era a melhor flecha que tinha. Era a única com balanço
perfeito, afiada, as penas firmes, bem emplumada, a curvatura exata, e nem empenhada, nem
arranhada.

— Era um bruxo — disse Kay.

VII


Duas tardes por semana, tinha torneio e equitação porque esses eram os ramos mais importantes da
educação de um cavaleiro naqueles tempos. Merlin resmungava contra as práticas atléticas,
dizendo que hoje em dia as pessoas pareciam pensar que você era um homem educado se
conseguisse derrubar outro homem do cavalo e que a mania pelos esportes era a ruína da erudição

— ninguém estudava como antes, quando ele era pequeno, e todas as escolas públicas tinham sido
forçadas a rebaixar seus padrões — mas Sir Ector, que fora um velho membro da equipe azul de
torneio, dizia que a batalha de Crécy fora vencida nos campos de batalha de Camelot. Isso deixou
Merlin tão furioso que fez Sir Ector ter reumatismo duas noites seguidas antes de aplacar. O torneio
era uma grande arte e precisava de prática. Quando dois cavaleiros se enfrentavam em uma justa,
empunhavam a lança na mão direita, mas dirigiam os cavalos um contra o outro de maneira que
cada homem tivesse seu oponente no outro lado. De fato, segurava-se a base da lança no lado
oposto do corpo ao que o inimigo atacava. Isso parece completamente ao contrário para quem tenha
o hábito, digamos, de abrir cancelas com o cabo do chicote, mas tinha lá suas razões. Para
começar, significava que o escudo estava no braço esquerdo, e assim os oponentes atacavam
escudo contra escudo, totalmente cobertos. Também significava que um homem poderia ser
derrubado de seu cavalo com o lado ou gume da lança, em uma espécie de pancada horizontal, se
não tinha lá muito certeza de atingi-lo com a ponta. Esse era o mais simples ou o menos habilidoso
dos golpes em um torneio.
Um bom justador, como Lancelot ou Tristão, sempre usava o golpe da ponta que, embora estivesse
propenso a falhar em mãos inábeis, fazia o contato mais cedo. Se um cavaleiro atacava segurando
firme sua lança de lado para derrubar da sela seu oponente, o outro cavaleiro com sua lança
apontada diretamente para a frente o derrubaria um comprimento de lança antes que sua pretendida
derrubada se efetivasse.

Depois, havia a maneira certa de segurar a lança para o golpe da ponta. Não era bom se curvar na
sela e segurar a lança com um aperto firme preparatório para o grande choque, pois se você a
segurasse assim rigidamente, sua ponta iria oscilar para cima e para baixo a cada movimento de
sua retumbante cavalgada, e era praticamente certo perder a mira. Ao contrário, você tinha que se
sentar relaxado na sela com a lança solta e equilibrada seguindo o movimento do cavalo. Só no
momento exato do ataque é que deveria apertar os joelhos contra os flancos do cavalo, jogar o peso
para a frente, no assento, agarrar a lança com a mão toda em vez de com os dedos e o dedão,
apertar o cotovelo direito contra o corpo para agüentar o tranco.


Outra coisa era o tamanho da lâmina. Obviamente, um homem com uma lança de cem metros
acertaria um oponente com uma lança de três ou três metros e meio antes que esse último sequer
chegasse perto. Mas seria impossível fazer uma lança de cem metros e, fosse feita, seria impossível
carregá-la. O justador devia descobrir o comprimento máximo que seria capaz de manejar com a
máxima velocidade, e tinha que se fixar nisso. Sir Lancelot, que aparecerá algum tempo depois
dessa parte da história, tinha lanças de vários tamanhos e usava sua Grande Lança ou sua Lança
Menor conforme a ocasião exigisse.

Havia os lugares onde o inimigo deveria ser ferido. No arsenal do Castelo da Floresta Sauvage
havia um grande desenho de um cavaleiro com armadura, com círculos marcando os pontos
vulneráveis. Estes variavam de acordo com o estilo da armadura, portanto, era preciso estudar o
adversário antes de atacar e selecionar um ponto. Os bons armeiros — os melhores viviam em
Warrington e ainda vivem lá — tinham o cuidado de fazer com que todas as superfícies salientes e
as reentrâncias da armadura tivessem forma convexa, para que a ponta da lâmina resvalasse ao
chocar-se com elas. Curiosamente, no entanto, os escudos dos trajes góticos tendiam mais a serem
côncavos. Era melhor que a ponta de uma lâmina permanecesse no escudo em vez de ricochetear
para cima ou para baixo, e talvez atingir um ponto mais vulnerável da armadura. O melhor lugar de
todos para atingir uma pessoa era bem na crista do elmo, isto é, se a pessoa em questão era vaidosa

o suficiente para ter uma grande crista de metal em cujas dobras e enfeites a ponta encontraria um
lugar fácil para se alojar. Muitos eram vaidosos o bastante para ter essas cristas armoriais, com
ursos e dragões, ou mesmo navios e castelos como enfeites, mas Sir Lancelot sempre se contentava
com um capacete simples, ou um punhado de penas que não agüentariam uma lâmina ou, em uma
ocasião, a luva macia de uma dama.
Demoraria muito entrar em todos os detalhes interessantes de como deveria ser um torneio que os
jovens precisavam aprender, pois naqueles dias você tinha que ser um mestre do ofício do começo
ao fim. Tinha que saber qual madeira era melhor para as lanças e por quê, e até como torneá-la
para que não lascasse ou empenas-se. Havia milhares de questões controversas sobre armas e
armaduras, e todas tinham que ser entendidas.

Logo do lado de fora do castelo de Sir Ector havia um campo de justas para competições, embora
não tivesse acontecido nenhum torneio ali desde que Kay nascera. Era um prado verde, bem
cortado, com uma grande encosta relvada em volta, na qual poderiam se erguer pavilhões. Havia
uma grande tribuna de honra de madeira de um lado, construída sobre estacas, para as damas. No
momento, o campo só era usado como campo de treinamento para justas, e um quintano foi
instalado em uma ponta e uma argola na outra. O quintano era um sarraceno de madeira, enfiado em
um mastro. Seu rosto estava pintado de azul claro, com barba vermelha e olhos brilhantes. Tinha
um escudo na mão esquerda e uma espada de madeira achatada na direita. Se você o acertasse no
meio da testa tudo ficava bem, mas se sua lança o acertasse no escudo ou em qualquer parte para a
esquerda ou para a direita da linha do meio, ele então rodopiava com grande velocidade, e
geralmente conseguia lhe dar uma pancada forte com a espada enquanto você galopava ao redor,
tentando se esquivar. Sua pintura estava um tanto arranhada e a madeira esgravatada sobre seu olho
direito. A argola era só uma argola comum de ferro, amarrada a uma espécie de forca por um fio.
Se conseguisse enfiar a ponta da lança na argola, o fio se rompia, e você saía galopando orgulhoso


com a argola em sua lança.

O dia estava mais frio, como não ficava há tempos, pois o outono estava quase chegando, e os dois
meninos estavam no campo de torneio com o mestre de armas e Merlin. O mestre de armas, ou
sargento-de-armas, era um cavaleiro tenso, pálido, vigoroso, com bigodes encerados. Sempre
caminhava com o peito empinado como um pombo de papo, e em todas as ocasiões possíveis
gritava "Quando eu disser Um...". Tinha que se esforçar muito para manter a barriga pra dentro e,
com freqüência, tropeçava nos próprios pés porque não conseguia vê-los sob o peito. Geralmente,
ficava exercitando os músculos, o que aborrecia Merlin.

Wart estava sentado ao lado de Merlin, à sombra da tribuna de honra e se coçava por causa dos
percevejos da colheita. Só há pouco tempo as foices tinham sido postas de lado e o trigo se
levantava em medas, entre o restolho alto daqueles tempos. Wart ainda se coçava. Também tinha
dores nos ombros e uma orelha latejando, por ter errado algumas vezes com o quintano — pois,
evidentemente, o treino de torneio era feito sem armadura. Wart estava contente porque agora era a
vez de Kay e descansava, sonolento, à sombra, dormitando, coçando-se, revirando-se como um cão
e, em parte, se divertindo.

Merlin, sentado de costas para todo o atletismo, estava praticando um feitiço que se esquecera. Era
um feitiço para tirar a curvatura do bigode do sargento, mas até agora só conseguira desencurvar
um deles, e o sargento nem notara. Distraidamente, enrolava-o para cima a cada vez que Merlin
fazia o feitiço, e Merlin dizia, "Por mil virgens-donzelas!", e começava de novo. Uma vez, por
engano ele fez a orelha do sargento bater, e este lançou um olhar perplexo para o céu.

A distância, do outro canto do campo de torneio, a voz do sargento veio flutuando no ar parado.

— Na-nã-nã-não, Senhor Kay, não é assim de jeito nenhum. Não estás nada bem, não estás nada
bem. Deveis segurar a lança entre o polegar e o indicador da vossa mão direita, com o escudo a se
alinhar com a sutura das pernas de vossa calça...
Wart esfregou a orelha dolorida e suspirou.

— Por que você está suspirando?
— Eu não estava suspirando, estava pensando.
— O que você estava pensando?
— Ah, em nada. Estava pensando em Kay aprendendo a ser um cavaleiro.
— E com razão pode suspirar — exclamou Merlin, irritado. — Um punhado de unicórnios sem
cérebro se pavoneando e se chamando de homens educados só porque são capazes de empurrar um
ao outro do cavalo com a ponta de um pedaço de pau! Isso me deixa cansado. Ora, acredito que Sir
Ector ficaria bem mais contente se tivesse como tutor de vocês um desses velhos praticantes de
justas, um sei-lá-o-quê! que saísse gingando, apoiado nas articulações, como um gorila antropóide,
em vez de um mago de conhecida probidade e reputação internacional, com diplomas de honra de
todas as universidades européias. O problema da aristocracia normanda é que são maníacos por
jogos, é isso que eles são, maníacos por jogos.

Calou-se, indignado, e deliberadamente fez as orelhas do sargento se abanarem devagar duas vezes,
em uníssono.

— Não era bem nisso que eu estava pensando, — disse Wart. — Na verdade, estava pensando em
como seria bom ser um cavaleiro, como Kay.
— Bom, você logo será um, não será? — perguntou o velho, com impaciência.
Wart não respondeu.
— Não será?
Merlin se virou e olhou de perto o menino através dos óculos.
— Qual é o problema agora? — inquiriu, grave.
Sua inspeção lhe mostrara que seu aluno estava tentando não chorar, e se lhe falasse com voz gentil
ele certamente não resistiria mais e começaria mesmo a chorar.

— Eu não serei cavaleiro — respondeu Wart, com frieza. O truque de Merlin deu certo e ele já não
queria chorar: queria bater em Merlin. — Não serei um cavaleiro porque não sou filho legítimo de
Sir Ector. Eles farão de Kay um cavaleiro e eu serei seu escudeiro.
Merlin virou-se de costas outra vez, mas seus olhos estavam brilhando atrás dos óculos.

— Que pena — ele disse, sem compaixão.
Wart explodiu, deixando escapar todos seus pensamentos.
— Ah, eu bem queria ter nascido de mãe e pai adequados, para poder ser um cavaleiro errante —
exclamou.

— O que você faria?
— Teria uma armadura esplêndida e dúzias de lanças, e um cavalo preto com um metro e oitenta de
altura, e eu me chamaria O Cavaleiro Negro. E iria para perto de uma fonte ou de um vau ou de
alguma coisa assim e faria todos os verdadeiros cavaleiros que passassem pelo caminho lutarem
comigo pela honra de suas damas, e pouparia a vida de todos eles depois de derrubá-los. E viveria
ao ar livre, o ano todo em um pavilhão, e não faria nada a não ser lutar e sair em buscas e levar o
prêmio dos torneios, e nunca revelaria a ninguém meu verdadeiro nome.
— Sua esposa não iria gostar dessa vida.
— Ah, eu não teria esposa. Acho que elas são estúpidas. Mas teria uma dama favorita —
acrescentou pouco à vontade o futuro cavaleiro — para poder usar seu penhor no elmo e fazer
proezas em sua honra.

Uma abelha grande passou zunindo entre eles, sob a tribuna de honra, e seguiu para a luz do sol.

— Você gostaria de ver alguns verdadeiros cavaleiros errantes? — perguntou o mago, devagar. —
Agora, em favor de sua educação?

— Ah, claro! Nunca vimos nenhum torneio desde que estou aqui.

— Suponho que posso arranjar isso.
— Ah, por favor, arranje. Você poderia me levar a um, como fez com o peixe.
— Acredito que possa ser educativo, de certa forma.
— E muito educativo — disse Wart. — Não consigo pensar em nada mais educativo do que ver
cavaleiros verdadeiros lutando. Ah, por favor, você faz isso?
— Você tem preferência por algum cavaleiro?
— O Rei Pellinore — ele respondeu, imediatamente. Tinha um fraco por esse cavaleiro desde o
estranho encontro com ele na floresta.
— Esse servirá muito bem. Ponha suas mãos de lado e relaxe os músculos. Cobridas arei thurum,
catalamus, singulariter, nominativa, haec musa. Fecha os olhos e mantenha-os fechados. Bônus,
bona, bonum. Lávamos nós! Deus Sanctus, est-ne aratio Latinas? Etiam, oui, quare? Pour-quoi?
Quai substantivo et adjectivum concordai in generi, numuerum etcasus. Cá estamos.
Enquanto esses encantamentos eram ditos, o paciente sentia sensações estranhas. Primeiro, escutou

o sargento gritando com Kay, "Na-nã-não assim, não assim, mantei vossos joelhos para baixo e
balançai o corpo a partir dos vossos quadris". Então, as palavras foram diminuindo, diminuindo,
como se ele estivesse olhando para os pés pelo lado errado de um telescópio, e começaram a girar
como em um funil, como se estivessem na extremidade pontuda de um redemoinho que o estivesse
sorvendo para o ar. Depois, não tinha mais nada a não ser um barulho como um ronco e assovio
giratórios ensurdecedores, que foram aumentando como um furacão, e ele achou que não agüentaria
mais. Finalmente, houve um completo silêncio e Merlin dizendo, "Cá estamos". Tudo isso
aconteceu mais ou menos no período que um foguete barato levaria para levantar com seu silvo de
fogo, curvar depois do clímax e se dispersar em raios e estrelas coloridas. Abriu os olhos justo no
momento em que se escutaria o bastão invisível chegando ao chão.
Estavam debaixo de uma faia na Floresta Sauvage.

— Cá estamos — disse Merlin. — Levanta e limpa suas roupas. E ali, suponho — continuou o
mágico, com satisfação porque seu feitiço funcionou dessa vez sem nenhuma falha —, está nosso
amigo, o Rei Pellinore, esporeando seu cavalo em nossa direção pela planície.
— Olá, olá! — gritou o Rei Pellinore, com sua viseira estalando para cima e para baixo. — É o
jovem da cama de penas, não é?, eu diria, o quê?
— Sim, sou eu — Wart respondeu. — E estou muito feliz de rever o senhor. Conseguiu pegar a
Besta?
— Não — respondeu o Rei Pellinore —, não consegui pegar a Fera. Oh, venha já aqui, sua cadela
malvada, e deixe a moita em paz. Tcha! Tcha! Malcriada, malcriada! Ela faz o maior tumulto, está
vendo, o quê? Gosta muito de coelhos. Já lhe disse que não tem nada aí, cadela abominável. Tcha!
Tcha! Larga isso, larga isso! Ah, faça o que lhe digo, obedeça — e acrescentou: — Ela nunca me
obedece.
Nisso, a cachorra fez um faisão macho sair da moita e subir como um foguete com tremendo


estardalhaço, deixando-a tão excitada que ela correu ao redor do dono duas ou três vezes, na
extremidade da corda, ofegando rouca como se tivesse asma. O cavalo do Rei Pellinore ficou
parado, pacientemente, enquanto a corda rodeava suas pernas, e Merlin e Wart tiveram que pegar a
cadela e desenrolá-la antes que a conversa pudesse continuar.

— Eu digo muito obrigado a vocês — disse o Rei Pellinore. — E o que devo dizer. Não vai me
apresentar seu amigo, o quê?
— Este é meu tutor Merlin, um grande mago.
— Como tem passado? — disse o Rei. — Sempre gosto de conhecer magos. Na verdade, sempre
gosto de conhecer qualquer pessoa. Ajuda o tempo a passar, o quê, numa busca.
— Salve!— disse Merlin, no seu jeito mais misterioso.
— Salve! — respondeu o Rei, ansioso para causar boa impressão.
Apertaram-se as mãos.
— Você disse Salve?— inquiriu o Rei, olhando em volta, nervoso. — Pensei que estivesse a salvo,
na verdade.
— Ele quis dizer como-tem-passado — explicou Wart.
— Ah, sim, como-tem-passado? Apertaram-se as mãos outra vez.
— Boa tarde — disse o Rei Pellinore. — Como você acha que está o tempo agora?
— Acho que parece um anticiclone.
— Ah, sim — disse o Rei — Um anticiclone. Bem, acho que já devo ir andando.
Com isso, o Rei tremeu muito, abriu e fechou a viseira várias vezes, tossiu, deu um nó nas rédeas,
exclamou "Perdão?", e deu sinais de começar a sair a meio galope.

— Ele é um mago branco — disse Wart. — Não é preciso ter medo dele. É meu melhor amigo, sua
majestade, e de qualquer forma, geralmente seus feitiços se embaralham.
— Ah, sim — disse o Rei Pellinore. — Um mago branco, o quê? Como o mundo é pequeno, não é?
Como-tem-passado?
— Salve! — disse Merlin.
— Salve! — disse o Rei Pellinore. Apertaram-se as mãos pela terceira vez.
— Eu não iria embora, se fosse você — disse o mago. — Sir Grummore Grummursum está a
caminho para desafiá-lo para uma justa.
— Não, você não diga! Sir seja-lá-qual-for-seu-nome está vindo para cá para me desafiar para uma
justa?
— Com toda a certeza.
— É um homem com pontos em desvantagem?
— Eu diria que é um competidor à altura.

— Bem, devo dizer, ou vai salvar um, ou vai salvar o outro — exclamou o Rei.
— Salve! — disse Merlin.
— Salve! — disse o Rei Pellinore.
— Salve! — disse Wart.
— Agora, realmente, não vou apertar a mão de ninguém — anunciou o monarca. — Devemos
admitir que todos já nos conhecemos antes.
— Sir Grummore realmente está vindo para desafiar o Rei Pellinore para uma batalha? —
perguntou Wart, mudando rápido de assunto.

— Olhem ali — disse Merlin e os dois olharam na direção que ele apontou com o dedo.
Sir Grummore Grummursum vinha a meio galope pela clareira, em armadura completa de guerra.
Em vez de seu elmo comum com viseira, usava o elmo próprio para duelos, que parecia um grande
balde para carvão e retinia com o galope.

Vinha cantando a canção de sua velha escola:

Juntos duelaremos
Firmes dos pés aos dentes
E nunca na vida romperemos
Nosso amor pela velha turma
Em frente, em frente, em frente, frente,
Até o escudo soar e ressoar
aos estrépitos de homens honrados a lutar.


— Por Deus! — exclamou o Rei Pellinore. — Há quase dois meses não participo de uma justa
adequada, e no último inverno me fizeram entrar em dezoito. Foi quando estabeleceram as novas
contagens de pontos.
Sir Grummore chegou enquanto ele falava, e reconheceu Wart.

— Diga — disse Sir Grummore. — Você é o menino de Sir Ector, não é? E quem é esse sujeito
com o chapéu cômico?
— É meu tutor — disse Wart, rapidamente. — Merlin, o mago.
Sir Grummore olhou para Merlin — os magos eram considerados muito classe média pelos
verdadeiros competidores de justas naqueles dias — e disse, distante:

— Ah, um mago. Como-tem-passado?
— E este é o Rei Pellinore — disse Wart. — Sir Grummore Grummursum, Rei Pellinore.
— Como-tem-passado?— cumprimentou Sir Grummore.

— Salve! — disse o Rei Pellinore. — Não, não quero dizer que é para salvar alguém, o quê?
— Lindo dia — disse Sir Grummore.
— Sim, está bonito, não está, o quê?
— Estava numa busca hoje?
— Ah, sim, obrigado. Sempre numa busca, você sabe. Atrás da Besta Gemente.
— Trabalho interessante, esse, muito.
— Por Jove, sim. Gostaria de ver uns excrementos?
— Tenho melhores em casa, mas esses são muito bons, na verdade.
— Abençoado seja. Então, esses são excrementos dela.
— Sim, são excrementos dela.
— Excrementos interessantes.
— Sim, são interessantes, não são? Mas você acaba se cansando deles — acrescentou o Rei
Pellinore.
— Bom, bom. Está um dia agradável, não?
— Sim, está muito agradável.
— Suponho que ficaria melhor se a gente tivesse uma justa, hein, que tal?
— Sim, suponho que seria melhor, realmente — disse o Rei Pellinore.
— E por qual motivo lutaremos?
— Oh, pelo de sempre, suponho. Um de vocês poderia fazer a gentileza de me ajudar com o elmo?
No final, todos os três tiveram que ajudá-lo, pois, com todo o desatarrachar dos parafusos e o
afrouxar das porcas e pinos que o Rei, desajeitado, enfiara do jeito errado quando se levantara às
pressas essa manhã, foi toda uma proeza de engenharia tirá-lo do elmo e voltar a colocá-lo outra
vez lá dentro. O elmo era uma coisa enorme como um tambor de gasolina, acolchoado por dentro
com duas camadas de couro e uns três centímetros de palha.

Tão logo ficaram prontos, os dois cavaleiros se posicionaram nos dois extremos da clareira e
depois avançaram para se encontrar no meio.

— Nobre Cavaleiro — disse o Rei Pellinore —, rogo que me digas vosso nome.
— Isso só a mim diz respeito — respondeu Sir Grummore, usando a fórmula adequada.
— Dizer isso é uma descortesia, o quê? — retrucou o Rei Pellinore. — Pois nenhum cavaleiro
deve temer dizer seu nome abertamente, exceto por razões de desonra.
— Seja como for, decido que não sabereis meu nome nesse momento, não adianta perguntar.
— Então, deve ficar e lutar comigo, falso cavaleiro.
— Você não falou errado, Pellinore? — inquiriu Sir Grummore. — Acho que é "deveis ficar".

— Oh, perdão, Sir Grummore. Sim, é assim o correto, claro. Então, deveis ficar e lutar comigo,
falso cavaleiro.
Sem mais palavras, os cavaleiros se retiraram para os extremos opostos da clareira, ergueram as
lanças e se prepararam para se arremessarem um contra o outro no ataque preliminar.

— Acho que devemos subir nesta árvore — disse Merlin. — Você nunca sabe o que pode
acontecer em uma justa como essa.
Subiram na grande faia, que tinha ramos confortáveis se estendendo para todo lado, e Wart se
posicionou na ponta de um galho liso, a cerca de quatro metros e meio de altura, de onde podia ter
uma boa visão. Não tem lugar mais confortável para sentar do que uma faia.

Para poder imaginar a terrível batalha que naquele momento acontecia, há uma coisa que é preciso
saber. Um cavaleiro com sua armadura completa naqueles tempos ou, em todo caso, nos tempos
áureos das armaduras, geralmente carregava tanto ou mais que seu próprio peso em metal. Com
freqüência, pesava não menos que cento e quarenta quilos; às vezes, chegava a uns cento e sessenta.
Isso significava que sua montaria tinha que ser um carregador de peso enorme e lento, como os
atuais cavalos de fazenda, e seus movimentos eram tão atrapalhados pela carga de ferro e
acolchoamentos que se viam obrigados a se mover em câmera lenta, como no cinema.

— Aí vão eles! — gritou Wart, prendendo a respiração, tão excitado estava.
Devagar e majestosamente, os sobrecarregados cavalos moviam-se pesadamente. As lanças, que
estavam apontadas para o ar, baixaram para uma linha horizontal e apontaram uma para a outra.
Dava para ver o Rei Pellinore e Sir Grummore batendo com energia os calcanhares nos flancos de
seus cavalos e, em poucos minutos, os esplêndidos animais, trôpegos, começaram uma imitação de
trote que fazia a terra tremer. Com estrépidos, ribombar e pancadas secas, lá foram os cavalos, e
agora os cavaleiros agitavam cotovelos e pernas em uníssono, deixando suas selas verem bastante
da luz do sol. Houve uma mudança no andamento, e podia-se ver que o cavalo de Sir Grummore
decididamente começara um meio galope. No minuto seguinte, o Rei Pellinore também fazia o
mesmo. Era um espetáculo terrível.

— Meu Deus!— exclamou Wart, sentindo-se envergonhado por ter sido, com sua sede de sangue,
responsável por fazer esses dois cavaleiros lutarem frente a ele. — Você acha que eles vão se
matar?
— Esporte perigoso — disse Merlin, balançando a cabeça.
— Agora! — gritou Wart.
Com um bater de ferros de fazer gelar o sangue, os poderosos ginetes se encontraram. Suas lanças
balançaram-se, por um momento, a poucos centímetros dos elmos um do outro — ambos
escolheram o difícil golpe-da-ponta — e logo estavam galopando em direções opostas. Sir
Grummore arremessou sua lança bem no meio da faia onde eles estavam trepados, e parou exausto.
O Rei Pellinore que continuava correndo, desapareceu completamente.

— Posso olhar?— inquiriu Wart, que fechara os olhos no momento crítico.

— Seguramente — disse Merlin. — Eles vão demorar para retomar as posições.
— Uau, uau, eu diria! — gritou o Rei Pellinore numa voz abafada e distante, bem longe, entre as
moitas de tojo.
— Ei, Pellinore, ei! — gritou Sir Grummore. — Volte, meu caro companheiro, eu estou aqui!
Houve uma pausa comprida, quando as complicadas posições dos dois cavaleiros se reajustavam, e
então o Rei Pellinore estava no extremo oposto àquele de onde começara, enquanto Sir Grummore

o enfrentava a partir da que fora sua posição original.
— Cavaleiro traidor — gritou Sir Grummore
— Renda-se, covarde, o quê?— gritou o Rei Pellinore. Apontaram as lanças outras vez e
retumbaram ao ataque.
— Oh — disse Wart —, espero que não se machuquem.
As duas montarias pacientemente se acercavam, e os dois cavaleiros simultaneamente decidiram
atacar para derrubar. Cada um segurou sua lança em ângulo reto para a esquerda e, antes que Wart
pudesse dizer algo mais, houve um terrível, embora melodioso, baque. A armadura estrondou como
um motor de ônibus colidindo com uma forja, e os competidores encontraram-se sentados lado a
lado na relva verde, enquanto seus cavalos galopavam em direção oposta.

— Uma queda magnífica! — disse Merlin.
Os dois cavalos pararam, dever cumprido, e começaram resignadamente a pastar a relva. O Rei
Pellinore e Sir Grummore ficaram lá sentados, olhando um para o outro, cada um com a lança do
outro esperançosamente presa debaixo do braço.

— Bom!— disse Wart. — Que batida! Os dois parecem estar bem, até agora.
Sir Grummore e o Rei Pellinore levantaram-se com esforço.
— Defendei-vos — gritou o Rei Pellinore.
— Deus vos proteja! — gritou Sir Grummore.
Com isso, desembainharam suas espadas e lançaram-se com tal ferocidade um contra o outro que
cada um, depois de deixar um amassado no elmo do outro, sentou-se de repente para trás.

— Bah! — gritou o Rei Pellinore.
— Buuh! — gritou Sir Grummore, também sentado.
— Misericórdia — exclamou Wart. — Que combate!
Os cavaleiros agora tinham perdido a calma e a batalha era para valer. O que não importava muito,
na verdade, pois estavam tão encerrados em seus metais que não podiam causar muito dano um ao
outro. Demoravam tanto para se levantar, e era um negócio tão cansativo dar um soco quando se
carrega a oitava parte de uma tonelada, que era possível prestar atenção e avaliar bem cada etapa
da disputa.

Na primeira etapa, o Rei Pellinore e Sir Grummore mantiveram-se frente a frente por quase meia


hora, golpeando fortemente um ao outro no elmo. Só havia oportunidade para um golpe de cada vez,
e eles mais ou menos se revezavam, o Rei Pellinore atacando quando Sir Grummore estava se
recuperando, e vice-versa. No começo, se um deles deixava cair sua espada ou a enterrava no
chão, o outro dava um ou dois golpes extras enquanto ele, com paciência, a procurava ou tentava
desenterrá-la. Depois, entraram mais perfeitamente no ritmo da coisa, como os bonecos que serram
madeira nos brinquedos mecânicos das árvores de Natal. No final, o exercício e a monotonia
restauraram o bom humor dos dois e eles começaram a se aborrecer.

A segunda etapa foi introduzida como uma variante, de comum acordo. Sir Grummore caminhou a
passos pesados até um extremo da clareira, enquanto o Rei Pellinore laboriosamente caminhava até
o outro. Então, viraram-se e se balançaram para a frente e para trás uma ou duas vezes, com o
objetivo de assentarem o peso nos dedos dos pés. Quando se inclinavam para a frente, tinham que
correr para manter o equilíbrio, e se se inclinassem muito para trás, caíam. Portanto, até andar era
complicado. Quando conseguiram distribuir o peso apropriadamente à frente, a ponto de estarem
quase se desequilibrando, irromperam em um trote para se manterem de pé. Atracaram-se como se
fossem dois ursos.

Encontraram-se no meio do campo, peito a peito, com um barulho de naufrágio e dobres de grandes
sinos, e ambos, quicando com força, caíram sem fôlego para trás. Ficaram estendidos por alguns
minutos, ofegando. Então, vagarosamente, começaram a pelejar para se levantar, e era óbvio que
tinham se irritado outra vez.

O Rei Pellinore não apenas se irritou como pareceu ter ficado um pouco atordoado com o impacto.
Levantou-se virado para o lado errado, e não conseguia ver Sir Grummore. Havia uma justificativa
para isso, já que tinha apenas uma fresta pela qual espiar — e ela estava a uns oito centímetros de
seus olhos por causa dos acolchoados de palha —, mas também parecia confuso. Talvez tivesse
quebrado seus óculos. Sir Grummore foi rápido e aproveitou essa vantagem.

— Tome isto! — Sir Grummore gritou, dando com as duas mãos uma violenta pancada no cocuruto
do infeliz monarca enquanto ele lentamente virava sua cabeça de um lado para o outro, olhando na
direção oposta.
O Rei Pellinore virou-se com lentidão, mas seu oponente foi muito rápido para ele. Marchara em
volta sem pressa, continuando por trás do Rei, e agora lhe dava outro golpe terrível no mesmo
lugar.

— Onde está você?— gritou o Rei Pellinore.
— Aqui — gritou Sir Grummore, golpeando-o de novo. O pobre Rei girou tão ligeiro quanto podia,
mas Sir Grummore lhe escapuliu outra vez.
— Agüente isto! — gritou Sir Grummore, com outro golpe.
— Acho que você é um mal-educado — disse o Rei.
— Outro golpe — retrucou Sir Grummore, executando-o.
E com a batida preliminar, e os repetidos golpes na nuca, e a natureza enigmática de seu oponente,
podia-se ver que o Rei Pellinore agora estava com os miolos perturbados. Balançava para a frente


e para trás, sob a saraivada de golpes que lhe estavam sendo administrados, e fragilmente agitava
os braços.

— Pobre Rei — disse Wart. — Queria que ele não apanhasse tanto.
Como se em resposta a seu desejo, Sir Grummore parou seu trabalho.
— Deseja a Pax? — perguntou Sir Grummore. O Rei Pellinore não respondeu.
Sir Grummore favoreceu-o com outra pancada e disse:
— Se você não disser pax, cortarei sua cabeça.
— Não direi — disse o Rei.
Plang! fez a espada no topo de sua cabeça.
Plang! fez outra vez.
Plang! fez uma terceira vez.
— Pax — disse o Rei Pellinore, na verdade sussurrando.
Então, justo quando Sir Grummore começava a relaxar com os frutos da vitória, o Rei girou sobre
si mesmo e gritou "Não!" a plenos pulmões, e lhe deu um bom empurrão no meio do peito.
Sir Grummore caiu para trás.


— Nossa! — exclamou Wart. — Que trapaça! Não o imaginaria capaz!
O Rei Pellinore às pressas sentou-se no peito de sua vítima, aumentando assim o peso sobre ele a
um quarto de tonelada, e tornando-lhe impossível se mexer, e começou a desapertar o elmo de Sir
Grummore.

— Você disse Pax!
— Eu disse Pax Não em voz baixa.
— É uma trapaça.
— Não é.
— Você não tem educação.
— Sim, tenho.
— Não, não tem.
— Sim, tenho.
— Não, você não tem.
— Eu disse Pax Não.
— Você disse Pax.
— Não, não disse.
— Sim, você disse.

— Não, não disse,
— Sim, você disse.
A essa altura, o elmo de Sir Grummore estava desatarrachado e dava para ver sua cabeça careca
olhando para o Rei Pellinore, com o rosto completamente vermelho.

— Renda-se, seu covarde — disse o Rei.
— Não me renderei — disse Sir Grummore.
— Você tem que se render, ou cortarei sua cabeça.
— Corte-a, então.
— Ah, vamos — disse o Rei. — Você sabe que tem que se render quando está sem o elmo.
— Finjo — disse Sir Grummore.
— Bom, eu terei que cortar sua cabeça.
— Não me importo.
O rei agitou sua espada ameaçadoramente no ar.
— Continue — disse Sir Grummore. — Eu o desafio. O rei abaixou sua espada:
— Ah, eu digo, renda-se, por favor.
— Renda-se você — disse Sir Grummore.
— Mas eu não posso me render. Estou em cima de você, afinal, não estou, o quê?
— Bom, eu finjo que me rendo.
— Ah, vamos, Grummore. Vou pensar que você não tem mesmo educação se não se render. Você
sabe muito bem que não conseguirei cortar sua cabeça.
— Não me renderei para um trapaceiro que recomeçou a lutar depois de dizer Pax.
— Eu não sou um trapaceiro.
— Você é um trapaceiro.
— Não, não sou.
— Sim, você é.
— Não, não sou.
— Sim, você é.
— Muito bem — disse o Rei Pellinore. — Pode se levantar à vontade e colocar seu elmo e
lutaremos. Não serei chamado de trapaceiro por ninguém.
— Trapaceiro! — disse Sir Grummore.
Levantaram-se e labutaram juntos com o elmo, sibilando. "Não, não sou", "Sim, você é", até que o
colocaram outra vez. Então, retiraram-se para os extremos opostos da clareira, assentaram o peso


nos dedos dos pés, e lá vieram ribombando e retumbando como dois trens extraviados.

Infelizmente, os dois estavam agora tão irritados que deixaram de prestar atenção e, na fúria do
momento, passaram um pelo outro sem conseguir se acertar. O impulso das armaduras foi
demasiado forte, e não conseguiram parar até ficarem com uma boa distância entre si, e então se
movimentaram de tal jeito que não acontecia de um entrar no campo de visão do outro. Era
engraçado observá-los porque o Rei Pellinore, tendo sido pego por trás uma vez, ficava
continuamente girando em torno de si para olhar atrás, e Sir Grummore, tendo usado ele mesmo o
estratagema, também fazia a mesma coisa. Assim, eles zanzaram por uns cinco minutos, parando,
escutando, estrepitando, agachando-se, movendo-se furtivamente, praguejaram e os pombos
abandonaram seus poleiros frondosos a meia milha de distância. Os dois cavaleiros ficaram atentos
até que se contasse três. Então, com um derradeiro tilintar em uníssono e melodioso, ambos caíram
prostrados na relva fatal.


— Você não precisará voar. Não pretendo transformá-lo em um falcão livre, mas apenas colocá-
lo nas Gaiolas por uma noite, para que você possa conversar com os outros. Esta é a maneira de
aprender, escutando os especialistas.
— Eles falam?
— Eles falam a noite toda, no fundo da escuridão. Conversam, sobre como foram pegos, sobre o
que se lembram de suas casas, sobre sua linhagem, e as grandes proezas de seus antecessores,
sobre seus treinamentos e o que aprenderam e o que aprenderão. E uma conversa de caserna, na
verdade, como a que se tem no meio de um papo de regimento da cavalaria: táticas, armas

pequenas, manutenção, apostas, caçadas famosas, vinho, mulheres e canções.

— Desmaiaram — disse Merlin. — Eu acho.
— Meu Deus — disse Wart. — Devemos descer e ajudá-los?
— Podíamos jogar água na cabeça deles — disse Merlin, pensativo —, se água houvesse. Mas não
creio que nos agradeceriam por enferrujar suas armaduras. Eles ficarão bem. Além disso, é hora de
voltarmos para casa.
— Mas eles podem estar mortos!
— Não estão mortos, eu sei. Em um ou dois minutos eles voltarão a si e irão para casa jantar.
— O pobre Rei Pellinore não tem casa.
— Então Sir Grummore vai convidá-lo para passar a noite. Serão os melhores amigos do mundo
quando voltarem a si. Sempre são.
— Você acha mesmo?
— Meu querido menino, eu sei que sim. Feche os olhos e iremos embora.
Wart desistiu frente ao conhecimento superior de Merlin.
— Você acha — ele perguntou com os olhos fechados — que Sir Grummore tem uma cama de
penas?
— Provavelmente.
— Ótimo — disse Wart. — O Rei Pellinore vai gostar disso, mesmo se tiver desmaiado.
As palavras em latim foram ditas e os passes secretos foram feitos. O funil de ruídos e assobios e o
espaço os receberam. Em dois segundos, estavam deitados debaixo da tribuna de honra, e a voz do
sargento gritava, no extremo oposto do campo, "E agora, então, Senhor Wart, e agora então. Já
andastes tirando muita soneca. Vinde aqui à luz do sol com o Senhor Kay, um-dois, um-dois, para
ver um pouco de um verdadeiro torneio".


VIII


Era um final de tarde frio e úmido, tal como pode acontecer mesmo no final de agosto, e Wart não
sabia como agüentar ficar dentro de casa. Passou algum tempo nos canis, conversando com Cavall,
depois vagou um pouco e foi ajudar a voltear o espeto na cozinha. Mas estava quente demais. Por
causa da chuva, era obrigado pelas mulheres supervisoras a ficar em casa, como acontece com
freqüência com as infelizes crianças de nossa geração, mas a mera umidade e tristeza do ar lá fora

o desencorajava a sair. Estava com ódio de todo mundo.
— Diabos o levem, menino! — disse Sir Ector. — Pelo amor de Deus, pare de ficar com esse ar
desanimado olhando pela janela e vá achar seu tutor. Quando eu era menino, o costume era estudar
nos dias de chuva, sim, e edificar nossas mentes.
— Wart é burro — disse Kay.
— Ah, para fora, já, meu patinho — disse a velha ama. — Não tenho tempo de cuidar de vossas
queixas agora, com todo essa roupa para lavar.
— Agora não, jovem Mestre — disse Hob. — Melhor ir para vosso quarto e parar de confundir as
galinhas.
— Na-nã-não — disse o sargento-de-armas. — Nada tendes a ver por aqui. Tenho já bastante a
fazer para limpar essa maldita armadura.
Até o Menino-Cão latiu para ele quando voltou aos canis. Wart se arrastou para o quarto da torre,
onde Merlin estava ocupado tricotando um gorro de dormir, de lã, para o inverno.

— Estou diminuindo a cada nova carreira — disse o mago —, mas por algum motivo está ficandomuito pontudo. Como uma cebola. É a volta do bico que sai errado toda vez.
— Acho que eu deveria ter alguma edificação — disse Wart. — Não consigo pensar em mais nada
para fazer.
— Você acha que educação é algo que você deve ter quando tudo o mais falha? — inquiriu Merlin
irritado, pois também estava de mau humor.
— Bem — disse Wart —, algumas espécies de educação.
— A minha? — perguntou o mágico, com os olhos fuzilando.
— Ah, Merlin — exclamou Wart, sem responder —, por favor, me arranje alguma coisa para fazer,

porque estou me sentindo péssimo. Ninguém me quer para nada hoje, e não sei como ser sensato.
Está chovendo tanto.

— Você deveria aprender a tricotar.
— Eu não poderia ir lá para fora e me transformar em alguma coisa, em um peixe ou algo assim?
— Você já foi um peixe — disse Merlin. — Ninguém com um pouco de esperteza precisa ser
educado duas vezes na mesma coisa.
— Bom, e se eu fosse um pássaro?
— Se você soubesse algo de alguma coisa — disse Merlin —, o que não é o caso, saberia que um
pássaro não gosta de voar na chuva porque suas penas se molham e ficam grudadas. Ficam pesadas.
— Eu poderia ser um falcão nas Gaiolas — teimou Wart. — Assim, não sairia e não me molharia.
— É muita pretensão — disse o velho — querer ser um falcão.
— Você sabe que pode me fazer virar um falcão quando quiser — gritou Wart —, mas você gosta
de me atormentar porque está chovendo. Não agüento mais isso!
— Cabeça-de-vento!
— Por favor, querido Merlin — disse Wart —, me transforme em um falcão. Se você não fizer
isso, vou acabar fazendo uma tolice. Não sei o quê.
Merlin pôs o tricô de lado e olhou seu aluno por sobre os óculos.

— Meu jovem — ele disse —, você será qualquer coisa no mundo, animal, vegetal, mineral,
protista ou vírus, pelo que me concerne, antes de deixar meu trabalho com você, mas terá que
confiar em minha visão retrospectiva superior. Ainda não é o momento de você ser um falcão —
para começar, Hob ainda está nas Gaiolas, alimentando-os —, portanto, pode se sentar por um
momento enquanto aprende a ser um humano.
— Muito bem, se isso é uma ordem — disse Wart. E se sentou. Depois de alguns minutos,
perguntou:
— É permitido falar como um ser humano ou será que se aplica aqui aquela coisa do tipo vê e
cala?
— Todo mundo pode falar.
— Ainda bem, porque queria lhe advertir que tricotou sua barba com a lã por três carreiras até
agora.
— Por mil donzelas, eu...
— Suponho que o melhor a fazer seria cortar a ponta de sua barba. Devo buscar a tesoura?
— Por que não me avisou antes?
— Eu queria ver o que aconteceria.
— Você corre o sério risco, meu caro — disse o mago —, de ser transformado em uma fatia de

pão, e torrado.

Com isso, lentamente ele começou a recuperar sua barba, resmungando para si mesmo enquanto o
fazia e tomando a maior das precauções para não dar nenhum ponto.

— Voar será tão difícil como foi nadar? — perguntou Wart quando achou que seu tutor tinha se
acalmado.
— Você não precisará voar. Não pretendo transformá-lo em um falcão livre, mas apenas colocá-lo
nas Gaiolas por uma noite, para que você possa conversar com os outros. Esta é a maneira de
aprender, escutando os especialistas.
— Eles falam?
— Eles falam a noite toda, no fundo da escuridão. Conversam sobre como foram pegos, sobre o
que se lembram de suas casas, sobre sua linhagem e as grandes proezas de seus antecessores, sobreseus treinamentos e o que aprenderam e o que aprenderão. É uma conversa de caserna, na verdade,
como a que se tem no meio de um papo de regimento da cavalaria: táticas, armas pequenas,
manutenção, apostas, caçadas famosas, vinho, mulheres e canções.
— Outro assunto deles — continuou — é comida. É um pensamento deprimente mas, claro, eles são
treinados principalmente pela fome. São um grupo faminto, os pobres coitados, pensando nos
melhores restaurantes onde costumavam ir, e em como tinham champanhe e caviar e música cigana.
É claro que todos têm sangue nobre.
— Que vergonha eles serem mantidos presos e famintos.
— Bom, eles realmente não se consideram prisioneiros, não mais que os oficiais da cavalaria.
Vêem a si mesmos como profissionais dedicados, membros de uma ordem de cavalaria ou algo
assim. Pertencer ao quadro das Gaiolas, afinal, como você sabe, é restrito às aves de rapina — e
isso ajuda muito, de fato. Sabem que ninguém das classes inferiores pode entrar ali. Seus poleiros
não abrigam melros ou esse tipo de ralé. E quanto à parte da fome, estão longe de morrer de fome
ou ter esse tipo de sofrimento. Estão em treinamento e, como todo mundo em treinamento rigoroso,
como você sabe, pensam em comida.
— Quando posso começar?
— pode começar agora, se quiser. Minha intuição me diz que Hob acabou as tarefas da noite neste
minuto. Mas primeiro, você escolhe que tipo de falcão prefere ser.
— Eu gostaria de ser um esmerilhão{1}. —Wart disse, educadamente.
A resposta agradou ao mágico.
— Uma escolha excelente — ele disse —, e se lhe agradar, procederemos de imediato.
Wart levantou-se do banco e ficou de pé em frente ao tutor. Merlin parou de tricotar.
— Primeiro, você vai diminuir de tamanho — ele disse, pressionando o topo de sua cabeça até que
Wart ficou um pouco menor que um pombo. — Agora, fique na ponta dos pés, dobre os joelhos,
grude os cotovelos nos lados, levante as mãos ao nível dos ombros e junte os indicadores com os

médios, e também os anulares com os mínimos. Olhe, é assim.

Com essas palavras, o velho nigromante ficou nas pontas dos pés e fez como explicara.

Wart imitou-o cuidadosamente e se perguntou o que aconteceria a seguir. O que aconteceu foi que
Merlin, que estava dizendo os encantamentos finais em voz baixa, subitamente transformou-se em
condor, deixando Wart sem mudança, tal como estava, nas pontas dos pés. O condor ficou lá
parado como se estivesse se secando ao sol, com uma envergadura de asas de cerca de três metros,
uma cabeça alaranjada brilhante e um carbúnculo magenta. Parecia muito surpreso e muito
engraçado.

— Volte — Wart disse.— Você transformou a pessoa errada.
— É esta sei-lá-que coisa da dama da limpeza — exclamou Merlin, voltando a ser ele mesmo. —
Depois que você deixa uma mulher em seu estúdio por meia hora, já não sabe mais onde pegar o
feitiço certo, nem se ele era mesmo o certo. Levante-se e vamos tentar de novo.

Desta vez, o já agora minúsculo Wart sentiu seus dedos do pé crescendo e arranhando o piso.
Sentiu seus calcanhares se erguerem e se estenderem para trás, e os joelhos sumirem na barriga. As
coxas ficaram pequenas. Uma membrana cresceu de seus punhos aos ombros, enquanto as penas
primárias irrompiam grandes, macias, das pontas dos dedos, e rapidamente cresciam. As penas
secundárias brotaram nos antebraços, e uma charmosa falsa primária pequena brotou da ponta de
cada dedão.

As dúzias de penas de sua cauda, com as coberturas de penas duplas no meio, cresceram em um
piscar de olhos, e todas as penas de coberturas das costas, peito e ombros deslizaram por sua pele,
escondendo as raízes das plumas mais importantes. Wart olhou rapidamente para Merlin, enfiou a
cabeça entre as pernas e deu uma olhada de lá, sacudindo as penas para colocá-las no lugar, e
começando a coçar o queixo com a garra pontuda de um dedo do pé.

— Ótimo — disse Merlin. — Agora, salte para a minha mão — ei!, cuidado para não apertar— e
escute o que tenho a dizer. Vou levar você até as Gaiolas, agora que Hob já fechou tudo para a
noite, e deixar você solto e sem capuz ao lado de Balin e Balan. Agora, preste atenção. Não se
aproxime de ninguém sem primeiro falar. Lembre-se de que a maioria está encapuzada e pode se
assustar e fazer alguma coisa temerária. Você pode confiar em Balin e Balan, também no gavião
peneira e no gavião. Não fique ao alcance da falcoa, a menos que ela o convide. Por nenhum
motivo deve se pôr ao lado do reservado especial de Cully, pois ele fica sem capuz e irá atrás de
você se tiver qualquer chance. Ele não é lá muito certo da cabeça, pobre sujeito, e se conseguir
agarrar você, nunca sairá de suas garras vivo. Lembre-se de que está visitando um tipo de caserna
militar espartana. Esses caras são soldados de carreira. Como subalterno júnior, sua única tarefa é
manter a boca fechada, falar só quando lhe falarem, e não interromper.
— Se sou um esmerilhão, aposto que sou mais do que um subalterno — disse Wart.
— Bom, para falar a verdade, é. Verá que ambos, o gavião peneira e o gavião, serão polidos com
você, mas para seu próprio bem, não interrompa os esmerilhões mais velhos nem a falcoa. Ela é a
coronela honorária do regimento. E quanto a Cully, bem, ele também é um coronel, ainda que da
infantaria, portanto, tenha cuidado com seus jeitos e trejeitos.

— Terei cuidado — disse Wart, que estava começando a se sentir um pouco assustado.
— Ótimo. Volto para pegar você de manhã, antes de Hob aparecer.
Todos os falcões estavam em silêncio quando Merlin levou o novo companheiro para as Gaiolas, e
permaneceram em silêncio por algum tempo depois que foram deixados no escuro. A chuva dera
lugar a uma lua cheia de agosto tão clara que se podia ver uma lagarta ursa peluda a uns dez metros
de distância lá fora, subindo pelo arenito áspero da torre de vigia, e só demorou alguns instantes
para os olhos de Wart se acostumarem à luz difusa do interior das Gaiolas. A escuridão tornou-se
regada de luz, com brilho de prata, e então uma cena impressionante entrou no seu campo de visão.
Na luz prateada, todas as aves de rapina estavam paradas sobre uma pata, a outra dobrada para
cima, e cada uma delas era uma estátua imóvel de um cavaleiro com armadura. Posicionavam-se
solenemente com seus elmos de plumas, com esporões e armadas. Os toldos ou telas de saco dos
poleiros moviam-se pesadamente com o roçar do vento, como estandartes em uma capela, e a
embevecida nobreza do ambiente cercava com cavalheiresca paciência a vigília os cavaleiros.
Naqueles tempos, costumavam encapuzar todos, inclusive os açores e esmerilhões, que já não são
encapuzados nas práticas modernas.

Wart prendeu a respiração ao ver todas essas figuras imponentes, tão quietas como se fossem
talhadas em pedra. Estava tão extasiado por tanta magnificência que sentiu não precisar do aviso de
Merlin para ser humilde e se comportar.

Nesse momento, houve um tinir suave de campainha. A grande falcoa peregrina havia se movido e,
com uma voz aguda e nasal, saindo de seu aristocrático nariz, disse:


— Senhores, podem palestrar.
Houve um silêncio mortal.
Só no canto distante do cômodo, que fora reservado para Cully — solto lá, sem capuz e de
profundo mau humor — foi possível ouvir o resmungo baixo do colérico coronel de infantaria.


— Malditos negros — ele estava murmurando.— Maldita administração. Malditos políticos.
Malditos bolcheviques. É um maldito punhal o que vejo diante de mim, o cabo virado para mim?
Maldito lugar. Agora, Cully, tendes apenas uma breve hora para viver, e depois serás
perpetuamente amaldiçoado.
— Coronel — advertiu a peregrina, com frieza —, não na frente dos jovens oficiais.
— Peço seu perdão, Madame — disse imediatamente o pobre coronel. — É uma coisa que entra na
minha cabeça, sabe. Uma terrível maldição.
Houve um silêncio de novo, formal, terrível e calmo.


— Quem é o novo oficial?— inquiriu a primeira voz, arrebatada e bonita.
Ninguém respondeu.
— Fale por si mesmo, Sir — comandou a peregrina, olhando direto para a frente como se estivesse
falando durante o sono.

Eles não conseguiam vê-lo, através dos caparões.

— Por favor — disse Wart —, eu sou um esmerilhão...
E parou, aterrorizado com o silêncio.
Rlan que era um dos esmerilhões verdadeiros parado ao seu lado inclinou-se e sussurrou muito
gentil em seu ouvido:


— Não tema. Chame-a de Madame.
— Sou um esmerilhão, Madame, e espero que isso lhe agrade.
— Um esmerilhão. Isso é bom. E de qual ramo dos Esmerilhões você vem?
Wart não tinha a menor idéia de qual ramo dos Esmerilhões ele vinha, mas não podia ser apanhado
na mentira agora.


— Madame — ele disse —, sou um dos Esmerilhões da Floresta Sauvage.
Houve silêncio outra vez depois disso, o silêncio de prata que ele começara a temer.
— Tem os Esmerilhões de Yorkshire — disse finalmente a coronela honorária com sua voz lenta
—, e os Esmerilhões Welsh, e os Esmerilhões do Norte. Depois, tem os de Salisbury, e vários nas
vizinhanças de Exmoor, e os Esmerilhões de Connaught. Não creio que tenha escutado falar de
nenhuma família da Floresta Sauvage.
— Deve ser um novo ramo, Madame, suponho — disse Balan.
"Bendito seja!", pensou Wart. "Vou pegar um pardal especialmente para ele amanhã e lhe dar sem
que Hob veja".


— Deve ser essa a solução, Capitão Balan, sem dúvida. O silêncio caiu de novo.
Finalmente, a peregrina tocou sua campainha. Disse:
— Procederemos com o catecismo, antes que ele preste o juramento.
Wart escutou o gavião à sua esquerda tossir nervosamente ao escutar isso, mas a peregrina não
prestou atenção.


— Esmerilhão da Floresta Sauvage — disse a peregrina, — o que é um Animal de Pata?
— Um Animal de Pata — respondeu Wart, agradecendo aos céus por Sir Ector ter decidido lhe dar
uma Edificação de Primeira Categoria — é um cavalo, ou um cão de caça, ou um falcão.
— Por que são chamados Animais de Pata?
— Porque esses animais dependem da força de suas patas, de modo que, por lei, qualquer dano
causado às patas de um falcão, cão de caça ou cavalo é reconhecido como um dano à sua vida. Um
cavalo manco é um cavalo morto.
— Certo — disse a peregrina. — Quais são seus membros mais importantes?
— Minhas asas — disse Wart, depois de um momento, adivinhando porque não sabia.

Com essas palavras, houve um tilintar exasperado de todas as campainhas, pois cada um daqueles
ídolos baixou a pata erguida, em desaprovação. Estavam agora parados sobre ambas as patas,
agitados.

— Suas o quê? — gritou a peregrina agudamente.
— Ele disse suas malditas asas — falou o Coronel Cully, de sua área privada. — E maldito seja
aquele que primeiro gritar "Pare, já basta!".
— Mas até um tordo tem asas! — gritou o gavião peneira, falando pela primeira vez, em seu tom
esganiçado de alarme.
— Pense! — sussurrou Balan, baixinho. Wart pensou febrilmente.
Um tordo tinha asas, cauda, olhos, pernas — aparentemente tudo.
— As minhas garras!
— Passa — disse a peregrina, com suavidade, depois de uma de suas majestosas pausas. — A
resposta deveria ser Patas, como para todas as outras questões, mas Garras serve.
Todos os falcões, e na verdade estamos usando o termo de maneira livre, pois alguns eram falcões
e outros não, levantaram outra vez a pata com campainha e relaxaram.

— Qual é a primeira lei da Pata?
— Pense — disse amigavelmente o pequeno Balan, por trás de sua falsa pena primária.
Wart pensou e pensou direito.
— Nunca soltar — ele disse.
— Última pergunta — disse a peregrina. — De que maneira você, como um esmerilhão, mataria um
pombo maior do que você?
Wart teve sorte nessa, pois escutara Hob descrevendo como Balan certa tarde matara um, e
respondeu com cautela:

— Eu o estrangularia com minha pata.
— Ótimo! — disse a peregrina.
— Bravo! — gritaram os outros, eriçando as penas.
— Noventa por cento — disse o gavião, depois de uma rápida soma. — Isto é, se você lhe der
meio ponto pelas garras.
— Maldito seja o diabo preto!
— Coronel, por favor!
Balan sussurrou para Wart:
— O Coronel Cully não anda muito bom da cabeça. É do fígado, nós achamos, mas o gavião
peneira diz que é pelo estresse constante de viver de acordo com os padrões elevados da Madame.
Disse que a Madame uma vez falou com ele do alto de sua posição, de cavalaria para infantaria,

entende?, e que ele imediatamente fechou os olhos e teve uma vertigem. Nunca mais foi o mesmo.

— Capitão Balan — disse a peregrina —, é descortês cochichar. Passaremos a proceder ao
juramento do novo oficial. Agora, capelão, tenha a bondade.
O pobre gavião, que já há algum tempo ficava cada vez mais nervoso, corou profundamente e
começou a gaguejar um juramento complicado referente às anilhas, peias e caparões.

— Com esta anilha — Wart escutou — eu vos doto... amor, honra e obediência... até que a peia nos
separe.
Mas antes que chegasse ao final, o capelão desmoronou completamente e soluçou:

— Ah, por favor, Madame. Peço seu perdão mas me esqueci de guardar os
artefatos.
— Os artefatos são ossos e coisas — Balan explicou —, e evidentemente, você
tem de jurar sobre
ossos.
— Esqueceu de guardar os artefatos. Mas é seu dever guardar os artefatos.
— E-e-eu sei.
— O que você fez com eles?
A voz do gavião se engasgou com a enormidade de sua confissão.
— E-e-eu os comi — soluçou o padre infeliz.
Ninguém disse nada. A negligência no cumprimento dos deveres era demasiado terrível para
palavras. Todos pararam nos dois pés e voltaram as cabeças cegas para o culpado. Nenhuma
palavra de reprovação foi dita. Durante um silêncio absoluto de cinco minutos, escutava-se apenas

o incontinente padre fungando e soluçando.
— Bem — disse a peregrina, finalmente —, a iniciação terá que ser adiada
até amanhã.
— Com a sua licença, Madame — disse Balin. — Talvez pudéssemos proceder ao ordálio esta
noite? Acredito que o candidato está solto, pois não o escutei sendo amarrado.
À menção da palavra ordálio, Wart tremeu e privadamente decidiu que Balin não ganharia nenhuma
pena do pardal de Balan no dia seguinte.

— Agradecida, Capitão Balin. Eu estava justamente refletindo sobre isso.
Balin se calou.
— Você está solto, candidato?
— Ah, Madame, sim, estou, por favor; mas não acho que queira um ordálio.
— O ordálio faz parte do costume. Deixe-me ver — continuou a coronela honorária.— Como foi o
último ordálio que tivemos? Você se lembra, Capitão Balan?
— Meu ordálio, Madame — disse o esmerilhão amigo —, foi ficar pendurado por minhas peias
durante a terceira vigília.
— Se ele está solto, não pode fazer isso.

— Sua Senhoria mesma poderia golpeá-lo, Madame — disse o gavião peneira —, judiciosamente,
claro.
— Mande-o ficar ao lado do Coronel Cully enquanto tocamos três vezes — disse o outro
esmerilhão .
— Ah, não! — gritou o coronel louco, agoniado, de seu canto escuro. — Ah, não, Sua Senhoria.
Imploro que não o faça. Sou um vilão tão desgraçado, Madame, que não respondo pelas
conseqüências. Poupe o pobre jovem, Sua Senhoria, e não nos deixe cair em tentação.
— Controle-se, coronel. Este ordálio estará de bom tamanho.
— Ah, Madame, fui avisado para não ficar perto do Coronel Cully.
— Avisado? E por quem?
O pobre Wart percebeu que agora ele teria que escolher entre confessar que era humano, e não
aprender mais dos segredos deles, ou passar por esse ordálio para ter sua educação. Não queria ser
um covarde.

— Ficarei ao lado do Coronel, Madame — ele disse, notando imediatamente que sua voz pareceu
insultante.
A peregrina não prestou atenção no tom.

— Certo — ela disse. — Mas primeiro temos que cantar um hino. Agora, capelão, se você não
comeu também os hinos como fez com os artefatos, poderia ter a gentileza de nos dirigir no Antigo,
não no Moderno, nº 23? O Hino do Ordálio.
— E você, Sr. Kee — ela voltou-se para o gavião peneira —, é melhor se manter calado pois
sempre canta num tom alto demais.
Os falcões aguardaram ao luar, enquanto o gavião contava "Um, Dois, Três". A seguir, todos
aqueles bicos curvos ou denteados se abriram dentro dos capuzes em um forte uníssono, e cantaram
assim:

A vida é sangue, derramado e oferecido.
Os olhos da águia podem encarar o embate.
As feras da caça se profere o mentido:
TIMOR MORTIS CONTURBAT ME.


Segura bem canta o predador
Pois a carne é fraca e a pata firme.
Força ao forte, ao solidário e ao senhor.
TIMOR MORTIS EXULTAT ME.


Vergonha ao indolente e desgraça ao fraco.
Morte ao miserável que foge sem voz.



Sangue ao que rasga, ao de garras, ao de bico.
TIRMOR MORTIS somos Nós.


— Muito bem — disse a peregrina. — Capitão Balan, acho que você desafinou no dó bemol. E
agora, candidato, vá e se posicione ao lado do reservado do Coronel Cully enquanto tocamos três
vezes nossas campainhas. Ao terceiro toque, você pode recuar o mais rápido que puder.
— Muito bem, Madame — disse Wart, com a audácia do ressentimento. Bateu as asas e
posicionou-se no canto extremo do poleiro de tela, ao lado do reservado de rede de corda de Cully.
— Jovem — gritou o Coronel, com voz fantasmagórica —, não se aproxime, não se aproxime. Ah,
não tenteis o demônio abominável em sua maldição.
— Não temo o senhor, Coronel — disse Wart.— Não se exaspere, pois nenhum mal virá para
nenhum de nós.
— Nenhum mal, ora bolas! Ah, afasta, antes que seja tarde demais. Sinto ânsias do eterno em mim.
— Não tema, senhor. Eles só têm que tocar a campainha três vezes.
Com isso, os cavaleiros abaixaram as patas erguidas, dando-lhes uma sacudida solene. O primeiro
doce tinido encheu o cômodo.

— Madame! Madame! — gritou o Coronel, torturado. —Tenha piedade, tenha piedade de um
maldito sanguinário. Soe a velha campainha, soe a nova. Não posso suportar um minuto a mais!
— Seja bravo, senhor — disse Wart, suavemente.
— Seja bravo, senhor! Mas se duas noites atrás encontraram duque, por volta da meia-noite, em
uma ruela atrás da Igreja de Sã Marcos, com a perna de um homem nos ombros: e ele gemia
terrivelmente.
— Não era nada — disse Wart.
— Nada! Disse que era um lobo, só que a diferença é que pele do lobo é peluda por fora, a dele
era peluda do lado de dentro. Rompa minha carne e veja. Ah, pela quietude da morte, com um
simples alfinete!
As campainhas soaram pela segunda vez.

O coração de Wart batia com força, e agora o Coronel fez um movimento lateral em sua direção no
poleiro, rata ante pata vinh; ele, batendo na madeira por onde avançava com um aperto convulsivo
a cada passada. Seus pobres olhos enlouquecidos, cismadores brilhavam ferozes à luz da lua, era
um clarão contra a escuridão persecutória de suas sobrancelhas franzidas. Nada havia de cruel nele
nenhuma paixão ignóbil. Estava aterrorizado com Wart, não triunfante, e precisava matar.

— Se isso fosse feito quando tivesse que ser feito — sussurrou o Coronel —, então melhor seria se
fosse feito rapidamente. Quem imaginaria que o jovem tinha tanto sangue dentro dele?
— Coronel! — disse Wart, mas parou aí.

— Jovem! —, gritou o Coronel. — Fale alguma coisa, me detenha, piedade!
— Tem um gato atrás de você — disse Wart, calmamente —, ou outro bicho semelhante. Olhe.
O Coronel se virou, rápido como um ferrão de vespa, ameaçando a escuridão. Não havia nada.
Outra vez, voltou seus olhos selvagens para Wart, adivinhando o truque. Então, disse com a voz fria
de uma víbora:

— A campainha me convida. Não a escute, esmerilhão, pois é um tilintar que vos chama para o céu
ou para o inferno.
As campainhas realmente estavam tocando pela terceira vez enquanto ele falava, e a honra agora
permitia se mover. O ordálio terminara e Wart podia voar. Mas quando ele se mexeu, quando voou
mais rápido do que qualquer movimento ou vôo no mundo, as terríveis foices tinham sido
disparadas das patas plantadas do Coronel — não como um relâmpago, pois seu movimento foi
demasiado rápido para ser visto —, e com um baque, com um apertão, com uma captura, como
estar sendo preso por um grande policial, as poderosas cimitarras fecharam-se sobre seu dedão em
retirada.

Elas se fecharam, e se fecharam irrevogavelmente. Aperta, aperta, e os enormes músculos das
coxas tensionaram-se em duas convulsões. Então Wart se viu a dois metros mais abaixo da tela, e o
Coronel Cully sobre uma pata, e com seu outro punho fechado, apertando algumas malhas da rede
de corda e a falsa primária de Wart, com suas penas de cobertura. Duas ou três penas menos
importantes desceram suavemente no vento, sob o brilho da lua, para o chão.

— Teste realizado — gritou Balan, deliciado.
— Uma exibição bastante cavalheiresca — disse a peregrina, sem se importar de o Capitão Balan
ter falado antes dela.
— Amém! — disse o gavião.
— Coração valente! — disse o gavião peneira.
— Poderíamos lhe ofertar a Canção do Triunfo? — perguntou Balin, excitado.
— Certamente — disse a peregrina.
E eles cantaram juntos, liderados pelo Coronel Cully a plenos pulmões, todos soando triunfalmente
as campainhas sob a magnífica claridade do luar.

Os pássaros da montanha são doces
Mas os pássaros do vale são gordinhos,
Por isso pensamos que faremos nossos ninhos
Por donde nos leve o amigo fiel.
Encontramos um coelho agachado
E o atacamos nas vitais
O coelho era como mel
E guinchou seus ais.



Uns atacaram as cotovias emplumadas
E lufadas de penas espalharam-se aos pares
Outros agarraram as perdizes nas planadas
E outros agarravam mais presas nos ares
Mas Wart, dos Esmerilhões o rei
Golpeou com pata firme antes de nós.
Suas aves e presas
Abastecem nossas mesas
E suas proezas canta nossa voz!


— Anotem minhas palavras — exclamou o bonito Balan —, teremos um rei consumado neste jovem
candidato. Agora, rapazes, juntos em coro pela última vez:
Mas Wart, dos Esmerilhões o rei
Golpeou com pata firme antes de nós.
Suas aves e presas
Abastecem nossas mesas
E suas proezas canta nossa voz!



IX


— Bom — disse Wart, quando acordou em sua própria cama na manhã seguinte. — Que turma
terrível e formidável.
Kay sentou-se na cama e começou a resmungar como um esquilo:

— Onde você esteve ontem à noite? Vou contar para meu pai e você ganhará uma surra. Você sabe
que não podemos sair depois do toque de recolher. Procurei você por todo canto. Sei que você
escapuliu.
Os meninos tinham um jeito de escapulir por um escoadouro de água de chuva até o fosso, por onde
saíam a nado em ocasiões secretas, quando era necessário sair à noite — para caçar um texugo, por
exemplo, ou pegar tencas, que só se podem pescar pouco antes do amanhecer.

— Ah, cala essa boca — disse Wart. — Estou com sono.
— Acorda, acorda, seu animal. Onde você esteve? — Kay perguntou.
— Não lhe direi.
Tinha certeza de que Kay não só não acreditaria na história, como o chamaria de mentiroso e
ficaria mais zangado do que nunca.

— Se você não me contar, vou matá-lo.
— Não, não vai.
— Vou.
Wart virou-se para o outro lado.
— Animal — disse Kay. Pegou uma dobra da pele do braço de Wart entre as unhas do polegar e
indicador, e deu um beliscão tão forte quanto pôde. Wart pulou como um salmão que subitamente
foi fisgado, e lhe deu um tremendo soco nos olhos. Em um segundo, eles estavam fora da cama,
pálidos e indignados, parecendo coelhos esfolados — pois naquele tempo ninguém usava roupas
para dormir — e agitando os braços como cataventos no esforço de acabar um com o outro.
Kay era mais velho e maior que Wart, portanto estava destinado a acabar vencendo, mas era mais
nervoso e tinha grande imaginação. Podia imaginar o efeito de cada golpe dirigido a ele, o que
enfraquecia sua defesa. Wart era apenas um furacão enfurecido.


— Deixe-me em paz, está bem? — Falava isso, mas ele mesmo não deixava Kay em paz, abaixando
a cabeça e girando os braços de tal maneira que tornava impossível para Kay fazer o que lhe fora
pedido. Socavam a cara um do outro.
Kay tinha um alcance maior e um punho mais pesado. Esticou seu braço, mais em autodefesa do que
qualquer outra coisa, e Wart enfiou seu próprio olho em sua extremidade. O céu virou uma
escuridão barulhenta e impactante, relampejando com labaredas de meteoros. Wart começou a
soluçar e ofegar. Conseguiu dar um soco no nariz do adversário, que começou a sangrar. Kay
baixou a guarda, virou as costas para Wart e disse com uma voz fria, fungada, reprovadora:

— Está sangrando.
A batalha terminara.
Kay deitou-se no piso de pedra, o sangue escorrendo de seu nariz e Wart, com um olho roxo, tirou a
enorme chave da porta para colocá-la debaixo das costas de Kay. Nenhum dos dois disse uma
palavra.
Logo Kay virou seu rosto e começou a soluçar. Ele disse:


— Merlin faz tudo por você, mas nunca faz nada por mim. Com isso, Wart sentiu que tinha sido um
bruto. Vestiu-se em silêncio e saiu para procurar o mago. No caminho, foi pego pela ama.
— Ah, meu pequenino vilão — ela exclamou, sacudindo-lhe o braço —, estivestes brigando com o
Senhor Kay. Veja vosso pobre olho, eu declaro. É o bastante para desconcertar o colégio de
cirurgiões.
— Está tudo bem — disse Wart.
— Não, não está, meu pequeno — exclamou a ama, ficando mais chateada e dando mostras de
querer esbofeteá-lo. — Vamos, respondei como fizestes isto, ou terei que chicotear-vos?
— Bati no espaldar da cama.
A velha ama imediatamente puxou-o para junto de seu amplo peito, deu-lhe palmadinhas nas costas
e disse:

— Ora, ora meu anjinho. É a mesma história que Sir Ector me contou quando o peguei com um olho
roxo, mais de quarenta anos atrás. Nada como uma boa família para ser fiel a uma boa mentira.
Vamos, meu inocente, agora vinde comigo à cozinha que num instante ponho um bife nesse roxo.
Mas não deveríeis lutar com pessoas maiores que vós.
— Está tudo bem — Wart disse outra vez, chateado com a preocupação exagerada, mas o destino
estava decidido a puni-lo, e a velha dama foi inexorável. Levou mais de meia hora até conseguir
escapar e, mesmo assim, só ao preço de levar consigo um pedaço sangrento de bife cru que
supostamente deveria colocar sobre o olho.
— Nada como um bom pedaço de alcatra para fazer sair os humores — a ama dissera e o
cozinheiro respondera:
— Desde a Páscoa ninguém por aqui cá viu melhor naco de carne crua, não, nem mais sumarenta.

"Vou levar essa coisa horrorosa para Balan", pensou Wart, voltando a procurar seu tutor.

Encontrou-o sem problemas no quarto da torre que ele escolhera assim que chegara. Os filósofos
preferem viver em torres, como podemos constatar ao visitar o quarto que Erasmo escolheu no seu
colégio em Cambridge, mas a torre de Merlin era ainda mais bonita que aquela. Era o cômodo mais
alto do castelo, diretamente abaixo da sentinela da torre de vigia, e de sua janela podia-se avistar o
campo aberto — com seus coelhos — do outro lado do parque e da coutada, até seus olhos
finalmente se perderem nas distantes copas azuis das árvores da Floresta Sauvage. Esse mar de
mata frondosa estendia-se longe, longe, em protuberâncias como a superfície de um mingau, até
finalmente se perder nas montanhas remotas que ninguém nunca visitou, e nas torres cobertas de
nuvens e nos grandiosos palácios do céu.

Os comentários de Merlin sobre seu olho roxo foram de natureza médica.

— A descoloração — ele disse — é causada pela hemorragia dos tecidos (equimoses) e passa do
púrpura escuro a verde e amarelo antes de desaparecer.
Parecia não haver resposta sensata para isso.

— Suponho que você o conseguiu — continuou Merlin — brigando com Kay?
— Sim. Como você sabe?
— Ah, bom, lá vem você.
— Eu vim lhe pedir por Kay.
— Fala. Faça sua demanda. Eu responderei.
— Bom, Kay acha que não é justo você sempre me transformar em outras coisas e a ele não. Não
lhe contei nada mas acho que ele adivinhou. Eu também acho que não é justo.
— Não é justo.
— Então, você nos transforma os dois da próxima vez que nos transformarmos?
Merlin tinha acabado seu desjejum, e estava soprando no cachimbo de sepiolita que fizera seu
pupilo pensar que ele respirava fogo. Agora, puxou uma boa baforada, olhou para Wart, abriu a
boca para falar, mudou de idéia, soprou a fumaça e encheu outra vez os pulmões.

— Às vezes a vida parece mesmo injusta — ele disse. — Você conhece a história de Elias e o rabi
Kahana?
— Não — disse Wart. — E sentou-se resignadamente na parte mais confortável do piso,
percebendo que estava se encaminhando para algo parecido com a parábola do espelho.
— Esse rabino — disse Merlin — partiu em uma jornada com o profeta Elias. Caminharam o dia
todo e, ao cair da noite, chegaram ao casebre humilde de um homem pobre, cujo único tesouro era
uma vaca. O pobre saiu correndo do casebre, com sua mulher, para darem as boas-vindas aos
estranhos e lhes oferecer toda a hospitalidade simples que podiam nessas limitadas circunstâncias,
se quisessem passar ali a noite. Elias e o rabino foram servidos de abundante quantidade do leite
da vaca, alimentados com pão feito em casa e manteiga, e colocados para dormir na melhor cama

enquanto seus gentis anfitriões se deitaram perto do fogo da cozinha. Mas, de manhã, a vaca do
pobre homem estava morta.

— Continue.
— Caminharam todo o dia seguinte e, naquela noite, chegaram à casa de um mercador muito rico,
cuja hospitalidade eles tiveram que suplicar. O mercador era frio, e orgulhoso e rico, e tudo o que
fez pelo profeta e seu companheiro foi alojá-los no estábulo e lhes dar pão e água. Na manhã
seguinte, no entanto, Elias agradeceu-lhe muitíssimo pelo que fizera e, em retribuição por sua
gentileza, mandou um pedreiro consertar um de seus muros, que estava caindo.
— O rabi Kahana, incapaz de ficar mais tempo em silêncio, implorou ao santo homem que lhe
explicasse o sentido de sua maneira de tratar os seres humanos.
— Quanto ao pobre que nos recebeu tão hospitaleiramente, — o profeta respondeu —, havia sido
decretado que sua esposa deveria morrer aquela noite mas, como prêmio pela sua bondade, Deus
levou a vaca em vez da esposa. Eu mandei consertar o muro do rico avarento porque um baú de
ouro estava escondido perto daquele lugar, e se o avarento fosse consertar o muro poderia
descobrir o tesouro. Portanto, nunca diga frente ao Senhor: o que fizestes? Mas diga em seu
coração: O Senhor de toda a Terra há de saber bem o que faz.
— É um tipo interessante de história — disse Wart, porque parecia já ter acabado.
— Lamento — disse Merlin — que você deva ser o único a receber meus ensinamentos extras, mas
entenda, fui enviado só para isso.
— Não vejo nenhum problema se Kay também pudesse vir.
— Nem eu. Mas o rabi Kahana não via porque o avarento deveria ter seu muro consertado.
— Entendo isso — disse Wart, em dúvida —, mas ainda acho que foi uma pena a vaca ter morrido.
Kay não poderia vir comigo pelo menos uma vez?
Merlin disse gentilmente:

— Talvez o que é bom para você seja ruim para ele. Além disso, lembre-se de que ele nunca pediu
para ser transformado em outra coisa.
— Ele quer ser transformado, pode ter certeza. Eu gosto de Kay, você sabe, e acho que as pessoas
não o entendem. Ele tem que ser orgulhoso porque está amedrontado.
— Você ainda não está entendendo o que quero dizer. Suponha que ele tivesse se transformado num
esmerilhão ontem à noite, e não tivesse passado no ordálio, e tivesse perdido a cabeça?
— Como você sabia que ia ter um ordálio?
— Ah, bom, lá vem você de novo.
— Muito bem — disse Wart, teimoso. — Mas suponha que ele tivesse passado no ordálio e não
tivesse perdido a cabeça. Não vejo porque você tem que supor que ele teria perdido.
— Ah, que cabeça dura! — gritou o mágico, exasperado. — Esta manhã, parece que você não está
vendo nada. O que é que você quer de mim?

— Transforme eu e Kay em cobras ou outra coisa.
Merlin arrancou seus óculos, jogou-os com força no chão e pulou sobre eles com os dois pés.
— Que Castor e Pollux me soprem para Bermuda! — exclamou, e imediatamente desapareceu com
um rugido terrível.
Wart ainda estava olhando a cadeira vazia de seu tutor com certa perplexidade quando Merlin
reapareceu, momentos depois. Perdera o chapéu, e seu cabelo e a barba estavam emaranhados,
como se um furacão tivesse passado por ali. Sentou-se outra vez, arrumando sua veste com os
dedos trêmulos.

— Por que você fez isso? — perguntou Wart.
— Não fiz isso por querer.
— Você quer dizer que Castor e Pollux realmente o sopraram para Bermuda?
— Que isto seja uma lição para você não praguejar — retrucou Merlin. — Acho melhor mudarmos
de assunto.
— Nós estávamos falando sobre Kay.
— Sim, e o que eu ia dizer antes de minha — helás!
— visita ao ainda vexado Bermoothes, era
isso. Eu não posso transformar Kay em coisas. Esse poder não me foi conferido quando me
enviaram. Por que é assim, nem você nem eu somos capazes de explicar, mas esse continua sendo o
fato. Tentei sugerir algumas das razões para esse fato, mas você não as aceita, portanto deve
simplesmente aceitar o fato em sua realidade crua. Agora, por favor, pare de falar até que eu
recupere o fôlego, e meu chapéu.
Wart sentou-se quieto enquanto Merlin fechava os olhos e começava a resmungar consigo mesmo.
Nesse instante, um curioso chapéu cilíndrico preto apareceu em sua cabeça. Era uma cartola.

Merlin o examinou, desapontado, e disse, azedo:

— E eles chamam isso de serviço de entrega! — e o devolveu ao ar. Finalmente, levantou-se em
um frenesi e exclamou: — Venha cá!
Wart e Archimedes olharam um para o outro, sem entender qual deles estava sendo chamado —
durante todo esse tempo, Archimedes esteve sentado no parapeito da janela, olhando a vista pois, é
claro, nunca saía de perto de seu dono — mas Merlin não prestava atenção neles.

— Vamos — disse Merlin, furioso, aparentemente para ninguém —, você acha que está sendo
engraçado?
— Muito bem, então, por que você faz isso?
— Isso não é desculpa. É claro que me refiro ao que estava usando.
— Mas usando agora, é evidente, seu idiota. Não quero um chapéu que usei em 1890. Você não tem
nenhum senso de época?
Merlin tirou o chapéu de marinheiro que acabara de aparecer em sua cabeça e o levantou no ar para


inspeção.

— Isto é um anacronismo — disse, severo. — É isso que é, um anacronismo desagradável.
Archimedes parecia acostumado a essas cenas, pois agora disse com voz razoável:
— Por que não pede o chapéu pelo nome, mestre? Diga, "Eu quero meu chapéu de mago", e não "Eu
quero o chapéu que estava usando". Talvez o pobre ache tão difícil viver de trás para frente quanto
você.
— Quero meu chapéu de mágico — disse Merlin, de má vontade.
No mesmo instante, o chapéu pontudo apareceu em sua cabeça.

A tensão no ar relaxou. Wart sentou-se outra vez no chão e Archimedes recomeçou sua toalete,
passando suas rêmiges e penas da cauda pelo bico para alisar os filamentos. Cada filamento tinha
centenas de ganchos ou bárbulas diminutas, através das quais os filamentos se firmavam. Ele as
estava penteando.

Merlin disse:

— Perdão. Meu dia hoje não está nada bom, essa é a verdade.
— Quanto a Kay — disse Wart — mesmo não podendo transformá-lo em outra coisa, não poderia
dar a nós dois uma aventura sem transformação?
Merlin fez um esforço visível para não perder a calma e examinar a questão sem paixão. Já estava
completamente cheio desse assunto.

— Não posso fazer nenhuma magia para Kay — ele disse lentamente —, exceto minha própria
magia, a que possuo em qualquer circunstância. Visão retrospectiva e visão de dentro, essas coisas.
Você quer dizer alguma coisa que eu possa fazer com isso?
— O que sua visão retrospectiva faz?
— Ela me diz o que você diria que vai acontecer, e a visão de dentro às vezes me diz o que está
acontecendo ou aconteceu em outros lugares.
— Tem alguma coisa acontecendo agora, alguma coisa que Kay e eu podemos ir ver?
Merlin imediatamente deu um tapa em sua cabeça e exclamou, excitado:
— Agora estou entendendo. Sim, claro que há, e vocês vão poder ver. Sim, vá chamar Kay e
apresse-se. Vocês devem ir logo depois da missa. Tomem desjejum primeiro e sigam
imediatamente depois da missa. Sim, exatamente. Vá direto até a leira de cevada de Hob no campo
e siga essa linha até chegar a alguma coisa. Será esplêndido, com certeza, e eu terei tempo para
tirar uma soneca esta tarde em vez das nojentas Summulae Logicales. Ou já tirei minha soneca?
— Não, ainda não tirou — disse Archimedes. — A soneca ainda está no futuro, Mestre.
— Esplêndido, esplêndido. E por favor, Wart, não esqueça de levar Kay com você para que eu
possa tirar minha soneca.
— O que nós vamos ver?

— Ah, não me esquente a cabeça com um pormenor desses. Agora vá logo, seja um bom menino, e
atenção para não se esquecer de levar Kay. Por que você nunca falou sobre isso antes? Não se
esqueça de seguir em frente depois da leira de cevada. Bem, bem, bem! Este é o primeiro meio-
feriado que tenho desde que comecei essas malditas aulas. Primeiro, acho que vou tirar uma
pequena soneca antes do lanche, e depois acho que tirarei uma pequena soneca antes do chá.
Depois, terei que pensar em algo para fazer antes do jantar. O que vou fazer antes do jantar,
Archimedes?
— Tirar uma pequena soneca, suponho — disse a coruja com frieza, virando as costas para o
mestre porque ela, assim como Wart, gostava de ver a vida acontecer.

X


Wart sabia que se contasse ao menino mais velho sobre sua conversa com Merlin, Kay recusaria a
condescendência e não iria. Então, não disse nada. Era estranho, mas a batalha tornara-os amigos
novamente e um podia olhar nos olhos do outro com uma espécie de afeição confusa. Seguiram
juntos sem vacilar, ainda que com timidez e sem explicações, e se viram parados, depois da missa,
no final da leira de cevada de Hob. Wart não precisou usar subterfúgios. Quando chegaram lá foi
fácil.

— Venha — ele disse. — Merlin disse-me que lhe contasse que, daqui para a frente, haveria algo
especial para você.
— Que tipo de coisa? — perguntou Kay.
— Uma aventura.
— Como chegamos lá? — perguntou Kay.
— Temos que seguir a linha a partir desta leira, e suponho que isso nos levará até a floresta.
Devemos manter o sol à nossa esquerda, mas levando em conta seu movimento.
— Está bem — disse Kay. — Que aventura é essa?
— Não sei.
Os dois caminharam pelo campo, seguindo sua borda imaginária para além do parque e da coutada,
mantendo os olhos bem abertos para algum acontecimento miraculoso. Perguntaram-se se a meia
dúzia de faisões que espantaram tinha algo de extraordinário e Kay estava prestes a jurar que um
deles era branco. Se fosse branco, e se uma águia negra subitamente mergulhasse dos céus sobre
ele, saberiam muito bem que maravilhas os aguardavam à frente, e só teriam que seguir o faisão —
ou a águia — até encontrar a donzela no castelo encantado. No entanto, o faisão não era branco.

Na borda da floresta Kay disse:

— Suponho que tenhamos que entrar aí?
— Merlin disse para seguir a linha.
— Bem — disse Kay —, eu não tenho medo. Se a aventura for para mim, com certeza será das
boas.
Então entraram, e ficaram surpresos ao perceber que a caminhada não era difícil. Era quase o


mesmo como se fosse um grande bosque de hoje, enquanto a floresta normal daquela época era
como se fosse a selva amazônica. Não havia, naqueles tempos, proprietários atirando em faisões e
providenciando para que a vegetação rasteira fosse retirada, e nem uma milésima parte dos atuais
mercadores de madeira que desbastam cuidadosamente as poucas florestas que restaram. A maior
parte da Floresta Sauvage era quase impenetrável, uma barreira enorme de árvores eternas, as
mortas caídas por cima das vivas e presas entre si por heras, as vivas lutando em competição umas
com as outras na direção do sol que lhes dava a vida, o solo encharcado por falta de drenagem, ou
cheio de gravetos e galhos velhos nos quais de repente se podia tropeçar e cair num formigueiro, ou
se emaranhar em sarças, lianas, madressilvas, espinheiros e cardos e essa coisa que as pessoas do
campo chamam de namorados, até ser feito em pedaços em poucos metros.


A maior parte da Floresta Sauvage era quase impenetrável, uma barreira enorme de árvores
eternas, as mortas caídas por cima das vivas e presas entre si por heras, as vivas lutando em
competição umas com as outras na direção do sol que lhes dava a vida, o solo encharcado por
falta de drenagem, ou cheio de gravetos e galhos velhos nos quais de repente se podia tropeçar e
cair num formigueiro, ou se emaranhar em sarças, lianas, madressilvas, espinheiros e cardos e
essa coisa que as pessoas do campo chamam de namorados, até ser feito em pedaços em poucos
metros.


Essa parte era boa. A linha de Hob apontara para o que parecia ser uma sucessão de clareiras,
lugares sombreados e rumorejantes nas quais o tomilho selvagem zumbia com as abelhas. O auge
da estação dos insetos já passara, pois era realmente a época das vespas e frutas; mais ainda havia
muitas fritilárias, com borboletas de asas castanho-alaranjada e de cores brilhantes pairando no
hortelã florido. Wart arrancou uma folha dessas e a mastigou como chiclete enquanto caminhava.

— É esquisito — disse —, mas já passaram pessoas por aqui. Olhe, ali está a marca de uma pata
de cavalo, e estava ferrada.
— Você está enxergando pouco — disse Kay —, pois ali adiante está um homem.
Sem equívocos, havia um homem no fim da clareira seguinte, sentado perto de um machado, ao lado
de uma árvore que abatera. Era um homenzinho pequeno e estranho, com uma corcunda e um rosto
cor de mogno, vestido com várias peças de couro velho que prendera nas pernas e braços
musculosos com pedaços de corda. Estava comendo um pedaço de pão e queijo de cordeiro com
uma faca que anos de afiação reduziram a um filete, as costas apoiadas numa das árvores mais altas
que eles jamais tinham visto. Cavacos brancos da madeira se espalhavam ao seu redor. O tronco da
árvore abatida parecia ter sido trabalhado há pouco. Os olhos dele brilhavam como os de uma
raposa.

— Espero que ele seja a aventura — sussurrou Wart.
— Ora — disse Kay —, em uma aventura você tem cavaleiros com armaduras, ou dragões ou
coisas parecidas, e não velhos sujos cortando madeira.
— Bem, de qualquer forma vou perguntar a ele o que acontece por aqui.
Aproximaram-se do pequeno lenhador que mastigava e parecia não tê-los visto, e perguntaram
aonde as trilhas levavam. Perguntaram duas ou três vezes antes de perceber que o pobre sujeito era
surdo ou louco, ou ambos. Nem respondia nem se mexia.

— Ora, vamos — disse Kay. — E provável que seja um tantã como Wat e não sabe nem onde está.
Vamos embora e deixemos esse velho maluco aí.
Avançaram quase um quilômetro e o caminho continuava bom. Não existiam propriamente trilhas e
as clareiras não eram contínuas. Qualquer um que chegasse ali por acaso pensaria que só existia a
clareira onde estava, com uns duzentos metros de comprimento, a menos que fosse até o final e
descobrisse outra, oculta por algumas árvores. Aqui e ali descobriam um cepo com as marcas de
um machado, mas a maior parte desses fora coberta com sarças ou arrancadas. Wart supôs que as
clareiras tinham sido feitas de propósito.

Kay agarrou Wart pelo braço, na borda de uma clareira, e apontou em silêncio para a outra ponta.
Ali havia um pequeno monte relvado, ascendendo com suavidade até um sicômoro gigantesco, com
mais de vinte e cinco metros de altura, plantado bem no topo. No monte estava um homem
igualmente gigantesco deitado à vontade, com um cão a seu lado. O homem era tão impressionante
quanto o sicômoro, pois media ou se estendia por uns dois metros e dez centímetros sem os sapatos,
e não vestia nada mais que um saiote escocês de um tecido verde comum. Tinha uma braçadeira de
couro no antebraço esquerdo. A cabeça do cachorro — que levantara as orelhas e observava os


meninos, mas sem fazer nenhum outro movimento — apoiava-se sobre o enorme peito bronzeado,
cujos músculos moviam-se suavemente, subindo e descendo. O homem parecia estar dormindo. A
seu lado, havia um arco de dois metros, com flechas de mais de setenta centímetros de
comprimento. Ele, tal como o lenhador, tinha a cor do mogno, e os cabelos encaracolados do peito
formavam um halo dourado onde o sol batia.

— Aí está — sussurrou Kay, excitado.
Aproximaram-se cautelosamente do homem, com medo do cachorro. Mas este apenas os seguiu
com os olhos, mantendo o queixo firmemente apoiado em seu amado mestre, e dando conhecimento
deles apenas com um ínfimo abanar do rabo. Mexia o rabo, sem levantá-lo, cinco centímetros de
lado, na grama. O homem abriu os olhos — obviamente não estava dormindo coisa nenhuma —,
sorriu para os meninos, e sacudiu o dedo numa direção que apontava mais adiante na clareira.
Depois, parou de sorrir e fechou os olhos.

— Desculpe-me — disse Kay —, o que está acontecendo lá? O homem não respondeu e manteve os
olhos fechados, mas levantou novamente a mão e apontou com o dedão para a frente.
— Ele quer que prossigamos — disse Kay.
— Isso com certeza é uma aventura — disse Wart. — Fico pensando se aquele lenhador mudo não
subiu naquela árvore grande onde estava se apoiando e mandou uma mensagem para essa árvore
avisando que estávamos chegando? Ele com certeza parecia estar nos esperando.
Com isso, o gigante desnudo abriu um olho e olhou para Wart com certa surpresa. Então abriu os
dois olhos e, piscando, caiu na risada, sentou, acariciou o cachorro, pegou seu arco e levantou-se.

— Mui que bem, jovens senhoritos — disse, ainda rindo. — A gente há de ir junto, então. Cabeças
novatas são as mais espertas, é o que dizem.
Kay olhou para ele completamente surpreso.

— Quem é você? — perguntou.
— Naylor — disse o gigante. — Era John Naylor nesse mundão grande aí de fora, até a gente virar
homem da floresta. Depois, foi John Little por uns tempos, como se diz na floresta, mas a maioria
do povo agora diz ao contrário e chama a gente de Little John.
— Oh! — exclamou Wart, deliciado. — Já ouvi falar de você muitas vezes, quando contam as
histórias dos saxões à noite, de você e de Robin Hood.
— Hood, não, senhorito — disse Little John, em tom reprovação — Não é jeito de chamar
ninguém, não na floresta.
— Mas nas histórias é Robin Hood — disse Kay.
— Ah, esse povo sabichão que fica sabendo das coisas pelos livros. Não sabem de tudo. Mas
vamos indo, já é tempo de a gente ir andando.
Os dois se colocaram um de cada lado do homem enorme, e tinham que correr um passo em cada
três para ficar emparelhado com ele, pois, apesar de falar bem devagar, caminhava muito rápido


descalço. O cachorro trotava nos seus calcanhares.

— Por favor — perguntou Wart —, aonde é que está nos levando?
— Ora, para Robin 'ood, pois não é? Vocês não têm esperteza o bastante para adivinhar isso
também, mestre Wart?
O gigante deu uma olhadela maliciosa com uma piscadela, pois sabia que colocara ao mesmo
tempo dois problemas para os meninos — primeiro, qual era o verdadeiro nome de Robin, e
segundo, como Little John sabia o nome de Wart?

Wart se fixou primeiro na segunda questão.

— Como é que sabe meu nome?
— Ah — disse Little John. — A gente sabe.
— E esse Robin 'ood sabe que estamos indo?
— Não, meu patinho, um senhorito instruído devia saber falar um nome instruidamente.
— Bem, qual é o nome dele? — gritou o menino, entre a exasperação e a falta de ar por ter que
correr para acompanhar o gigante. — Você disse 'ood.
— Então é 'ood, meu patinho. Robin 'ood, como a floresta que a gente está atravessando. Um grande
e belo nome é o que é.
— Robin Wood{2}!
— Sim, Robin Wood. O que mais poderia ser, já que é ele quem reina aqui. Florestas são lugares
livres, e ótimos lugares são. Deixam que você durma nelas, no inverno como no verão, e deixam
caçar nas suas áreas, senão você morre de fome; e cheirar o cheiro que aparece nas folhas novas e
brilhantes, conforme o tempo, ou quando elas caem segundo o mesmo tempo ao contrário; deixam
que a gente fique nelas sem ser visto, e se mova por dentro delas sem que ninguém escute, e
aquecem quando a gente cai adormecido — ah, são mesmo bons lugares, as florestas, para um
homem de coração e mãos livres. Kay disse:
— Mas eu pensava que todos os homens de Robin Wood usavam jaquetas e calças de lã verde.
— Isso a gente faz no inverno, quando a gente precisa disso, ou as calças de couro; mas agora pelo
verão, estar assim é mais agradável para quem fica de vigia, quando não se faz nada mais que
olhar.
— Então você estava lá de sentinela?
— Sim, e também o velho Munch, aquele com quem vocês falaram na árvore derrubada.
— E eu acho — exclamou, triunfante, Kay — que essa árvore enorme aonde estamos chegando é a
fortaleza de Robin Wood!
Estavam chegando à majestade da floresta.

Era uma tília tão grande quanto as que costumavam crescer no Moor Park, em Hertfordshire, com
não menos de trinta metros de altura e cinco de circunferência, a um metro do chão. O tronco,


parecido com o da faia, estava adornado com uma barba de pequenos galhos embaixo e, onde cada
grande galho brotara do tronco, a casca tinha se partido e estava agora descolorida pela água da
chuva ou pela seiva. As abelhas zuniam entre suas folhas brilhantes e pegajosas, cada vez mais
para o alto, na direção dos céus, e uma escada de corda desaparecia entre a folhagem. Ninguém
poderia subir sem a escada, nem mesmo com cravelhos.

— Pensou direito, mestre Kay — disse Little John. — E lá está Mestre Robin, entre suas raízes.
Os meninos, que estavam até então mais interessados no vigia encarapitado no alto daquele
dominador e sussurrante orgulho da terra, baixaram imediatamente o olhar e o cravaram no grande
fora-da-lei.

Não era o que esperavam, uma figura romântica — pelo menos no começo —, apesar de ser quase
tão alto quanto Little John. Os dois, é claro, eram as duas únicas pessoas no mundo que haviam
disparado uma flecha à distância de um quilômetro e meio, com o grande arco inglês. Era um
sujeito vigoroso, cujo corpo não tinha gordura alguma. Não estava semidespido, como John, mas
vestido discretamente com uma roupa verde desbotada, com um trompete prateado a tiracolo.
Estava barbeado, queimado de sol, vigoroso, nodoso como as raízes das árvores; mas nodoso e
maduro pela intempérie e pela poesia, não pela idade, pois mal tinha trinta anos. (Chegaria a viver
até os oitenta e sete anos, e atribuiu sua longa vida ao cheiro de terebentina dos pinheiros.) Naquele
momento estava deitado de costas e olhava para cima, mas não para os céus.

Robin Wood estava deitado feliz, com a cabeça apoiada no colo de Marian. Ela sentava-se entre as
raízes da tília, vestida com uma veste de lã verde cingida por uma aljava de flechas, e seus braços
e pés estavam nus. Soltara sua cascata de cabelos castanhos e brilhantes, que geralmente estavam
presos em um rabo-de-cavalo para melhor conveniência na caça e na cozinha, e suas madeixas
pendentes emolduravam a cabeça dele. Eles cantavam um dueto, baixinho, e ela roçava seus
cabelos macios na ponta do nariz de Robin.

A donzela Marian cantava:

Sob a árvore no bosque frondoso,
Quem comigo se deita amoroso,
Afina seu alegre trino,
Com o que canta o doce amigo.


-Venha para cá, venha para cá, venha para cá — murmurou Robin.

Aqui ele não verá
Nenhum inimigo,
Salvo o inverno e o tempo ruim.



Os dois riram de felicidade e começaram de novo, cantando os versos alternadamente:

Quem da ambição esquece,
E ama ficar deitado ao sol,
Buscando o que comer
E feliz com o que consegue,


Então, ambos juntos:

Venha para cá, venha para cá, venha para cá:
Aqui ele não verá
Nenhum inimigo,
Salvo o inverno e o tempo ruim.


A canção terminou numa risada. Robin, que estava enredando seus dedos bronzeados nos fios
sedosos que caíam sobre seu rosto, deu neles um puxão final e se pôs de pé.

— Olá, John — disse ao vê-los.
— Olá, Mestre — disse Little John.
— Então você trouxe os jovens escudeiros?
— Eles me trouxeram.
— Bem-vindos de qualquer forma — disse Robin. — Jamais ouvi falar mal de Sir Ector, e não
tenho nenhuma razão para perseguir seus escutadores. Como estão vocês, Kay e Wart, e quem
meteu vocês na floresta e nas minhas clareiras, hoje, entre todos os dias?
— Robin — interrompeu Marian —, você não pode aceitá-los!
— E por que não, coração?
— São crianças.
— Exatamente o que queremos.
— É desumano — disse ela aborrecida, e começou a pentear os cabelos.
O fora-da-lei evidentemente achou mais seguro não discutir. Virou-se para os meninos e fez-lhes
uma pergunta.

— Vocês sabem flechar?
— Pode acreditar — disse Wart.
— Posso tentar — disse Kay, mais reservado, ao ver que os outros riam da segurança de Wart.

— Vamos, Marian, empreste a eles um de seus arcos.
Ela entregou-lhe um arco e uma dúzia de flechas com setenta centímetros de comprimento.
— Atire no alvo — disse Robin, entregando-os a Wart.
Este olhou e viu um alvo a cem metros de distância. Percebeu que tinha sido um idiota e disse
alegremente:

— Sinto muito, Robin Wood, mas receio que esteja longe demais para mim.
— Não importa — disse o fora-da-lei. — Atire nele. Posso avaliar pela maneira como você
dispara.
Wart ajustou a flecha da forma mais rápida e precisa que foi capaz, abriu os pés alinhados na
direção que queria que a flecha fosse, ajustou os ombros, puxou a corda até o queixo, fez pontaria,
levantou a ponta em um ângulo de cerca de vinte graus, apontou uns dois metros à direita porque
sempre puxava para a esquerda quando soltava a corda, e mandou a flecha. Errou, mas não tão mal.

— Agora você, Kay — disse Robin.
Kay fez os mesmos movimentos e fez um bom disparo. Os dois seguraram o arco para cima da
forma certa, encontraram rapidamente e colocaram em posição a pena traseira, seguraram a corda
para esticar o arco — a maioria dos jovens não treinados inclinam-se para agarrar a ranhura da
flecha, quando esticam a corda, entre o indicador e o polegar, mas o verdadeiro arqueiro puxa a
corda com seus primeiros dois ou três dedos e deixa a flecha segui-la — e nenhum deles deixara a
ponta desviar para a esquerda enquanto armavam, nem deixaram a corda bater nos antebraços, dois
erros comuns em pessoas que não conhecem o assunto — e ambos dispararam a corda de uma vez,
sem sacudi-la.

— Bom — disse o fora-da-lei. — Não temos tocadores de alaúde por aqui.
— Robin — disse Marian, abruptamente —, você não pode pôr essas crianças em perigo. Mande-
as de volta ao pai.
— Isso eu não farei — disse —, a menos que eles queiram ir. A disputa é tanto deles quanto minha.
— Qual é a disputa?— perguntou Kay.
— É a Fada Morgana — disse. — É difícil explicá-la.
— Eu não tentaria.
Robin voltou-se zangado para sua amada.
— Marian — disse. — Ou temos a ajuda deles ou deixamos os outros três sem ajuda. Não quero
pedir aos meninos para irem até lá, mas é isso ou deixar Tuck com ela.
Wart achou que era o momento de fazer uma pergunta delicada, assim que deu uma tossida discreta
e disse:

— Por favor, quem é a Fada Morgana?
Os três responderam ao mesmo tempo.

— É uma malvada — disse Little John.
— É uma fada — disse Robin.
— Não é não — disse Marian. — É uma feiticeira.
— A questão é que ninguém sabe exatamente o que ela é. Na minha opinião, é uma fada — disse
Robin. — E essa opinião — acrescentou, olhando para a mulher — eu mantenho.
Kay perguntou:

— Quer dizer que ela é uma dessas pessoas que usa jacintos como chapéus e passam o tempo todo
sentadas em cogumelos venenosos?
A risada irrompeu.

— Certamente que não. Essas criaturas não existem. A Rainha é de verdade, e uma das piores.
— Se os meninos têm que se meter nisso — disse Marian —, é melhor que você explique desde o
começo.
O fora-da-lei soltou um profundo suspiro, descruzou as pernas, e o olhar enigmático voltou ao seu
rosto.

— Bem — disse —, suponha que Morgana é a rainha das fadas, ou de alguma maneira tem a ver
com elas, e que as fadas não são o tipo de criaturas que sua ama lhes contou. Algumas pessoas
dizem que elas são As Mais Velhas de Todos, que viviam na Inglaterra antes da chegada dos
romanos — antes de nós, saxões, antes dos próprios Antigos — e que foram empurradas para os
subterrâneos. Alguns dizem que parecem humanas, como anões, e outros dizem que parecem
pessoas comuns, e outros dizem que não se parecem com nada, mas assumem várias formas
conforme lhes convém. Seja o que for que pareçam, possuem a sabedoria dos antigos celtas. Lá
dentro de suas tocas, sabem de coisas que a raça humana já esqueceu, e boa parte delas não são
boas de ouvir.
— Fale baixo — disse a senhora dourada, com um estranho olhar, e os jovens notaram que o
pequeno círculo se estreitou.
— Bem, agora — disse Robin, abaixando a voz — a questão sobre essas criaturas das quais estou
falando, e vocês me desculpem, mas não voltarei a mencioná-las, é que não têm coração. Não é
tanto que queiram fazer o mal, mas que se você agarrar uma e abrir seu peito, não vai achar nenhum
coração lá dentro. Têm o sangue frio como os peixes.
— Estão por toda a parte, mesmo quando as pessoas estão falando.
Os meninos olharam ao redor.
— Fiquem quietos — disse Robin. — Não preciso lhes dizer mais nada. Dá má sorte falar delas. A
questão é que acredito que essa Morgana é a rainha dos... bem... das Boas Gentes, e sei que às
vezes ela vive em um castelo ao norte da nossa floresta, chamado Castelo Chariot. Marian acha que
a rainha não é exatamente uma fada, mas uma necromante amiga delas. Outras pessoas dizem que
ela é filha do Conde da Cornualha. Não se preocupem com isso. O que importa é que nesta manhã,

com seus encantamentos, o Povo Mais Velho de Todos levou como prisioneiro um dos meus servos
e um dos seus.

— Não o Tuck? — gritou Little John, que não sabia dos acontecimentos recentes porque tinha
ficado de sentinela.
Robin assentiu com a cabeça.

— A notícia chegou das árvores do norte, antes que chegasse sua mensagem sobre os jovens.
— Ai de mim, pobre Frei!
— Conte como aconteceu — disse Marian. — Mas talvez seja melhor você explicar os nomes.
— Uma das poucas coisas que sabemos — disse Robin — sobre as Abençoadas é que atendem por
nomes de animais. Por exemplo, podem ser chamadas de Vaca, ou Bode, ou Porco, e assim por
diante. Então, se você estiver chamando uma de suas próprias vacas, deve sempre apontar para ela
quando chamar. De outra forma, pode estar invocando uma fada — uma Pessoinha, eu deveria ter
dito — que atende pelo mesmo nome, e, uma vez que a invoque, ela vem e pode levá-lo.
— O que aparentemente aconteceu — disse Marian, continuando a história — é que o seu Menino-
Cão lá do castelo levou seus cães de caça para a borda da floresta, onde iriam defecar, e por acaso
viu o Frei Tuck conversando com um velho chamado Wat, que vive por ali...
— Desculpem — gritaram os dois meninos —, será o velho que vivia em nossa aldeia antes de
perder o juízo? Ele arrancou o nariz do Menino-Cão com uma mordida, na verdade, e agora vive na
floresta, uma espécie de ogro.
— É a mesma pessoa — respondeu Robin —, mas coitado... Não é bem um ogro. Vive de ervas e
raízes e bolotas, e não machucaria uma mosca. Acho que contaram uma história errada para vocês.
— Imagine Wat vivendo de bolotas!
— O que aconteceu — disse Marian, com paciência — foi isto: os três se juntaram para passar o
tempo, e um dos cães de caça (acho que era o que chamam de Cavall), começou a pular em cima do
pobre Wat, para lamber seu rosto. Isso assustou o velhote, e o seu Menino-Cão gritou, "Venha cá,
Cachorro!" para fazer com que parasse. E não apontou com o dedo. Ele devia ter apontado,
entende.
— E o que aconteceu?
— Bem, meu homem Scathelocke, ou Scarlett, como o chamam nas baladas, estava cortando
madeira ali por perto, e diz que eles desapareceram, simplesmente desapareceram, incluindo o
cachorro.
— Meu pobre Cavall!
— Então as fadas os aprisionaram.
— Você quer dizer o Povo da Paz.
— Desculpe.

— Mas a questão é que se Morgana é realmente a rainha dessas criaturas, e se queremos trazê-los
de volta antes que sejam encantados — uma de suas antigas rainhas chamada Circe costumava
transformar seus cativos em porcos —, temos que procurá-los no castelo dela.
— Então, temos que ir até lá.

XI


Robin sorriu para o menino mais velho e deu-lhe uma palmada nas costas, enquanto Wart pensava
desesperançado em seu cachorro. O fora-da-lei pigarreou e começou a falar outra vez.

— Você está certo quanto a ir até lá — disse —, mas tenho que lhes contar a parte desagradável.
Ninguém pode entrar no Castelo Chariot, exceto um garoto ou uma garota.
— Quer dizer que você não pode entrar lá?
— Vocês podem.
— Suponho — explicou Wart quando pensou sobre o assunto — que seja como essa coisa dos
unicórnios.
— Certo. O unicórnio é um animal mágico, e somente uma donzela pode capturá-lo. As fadastambém são mágicas e só pessoas inocentes podem entrar em seus castelos. É por isso que levam as
crianças de berço.
Kay e Wart sentaram-se em silêncio por algum tempo. Depois Kay disse:

— Bem, estou dentro. Afinal, é minha aventura.
Wart disse:
— Também quero ir. Gosto muito do Cavall. Robin olhou para Marian.
— Muito bem — disse. — Não vamos fazer muito alarde sobre isso, mas temos que conversar
sobre planos. Acho que é bom para vocês irem realmente sem saber no que estão se metendo, mas
não vai ser tão ruim quanto imaginam.
— Iremos com vocês — disse Marian. — Nosso bando vai acompanhá-los até o castelo. Vocês só
vão ter que fazer a parte final da entrada.
— Sim, e o bando provavelmente vai ser atacado depois pelo grifo dela.
— Ela tem um grifo?
— Realmente, lá tem um. O Castelo Chariot é guardado por um bem feroz, como um cão de guarda.
Temos que passar sem que ele nos veja no caminho de ida, senão ele dará o alarme e vocês não
conseguirão entrar. Vai ser uma tremenda entrada furtiva.
— Teremos que esperar anoitecer.

Os jovens passaram uma manhã agradável, acostumando-se com dois dos arcos de Marian. Robin
insistiu nisso. Disse que nenhum homem podia disparar com o arco do outro assim como não
conseguia ceifar com a foice do outro. Na refeição do meio-dia comeram carne de caça fria com
hidromel, como todo mundo. Os fora-da-lei foram aparecendo para a refeição como se
obedecessem a um truque de mágica. Em um momento não havia ninguém na borda da clareira e, no
seguinte, meia dúzia estava lá — homens queimados de sol e vestidos de verde que apareciam
silenciosamente de dentro de uma moita ou desciam das árvores. No final havia quase cem deles,
comendo alegremente e rindo. Eram fora-da-lei hão porque fossem assassinos, ou por alguma razão
parecida. Eram saxões que se revoltaram contra a conquista de Uther Pendragon e se recusavam a
aceitar um rei estrangeiro. Os pântanos e as florestas selvagens da Inglaterra estavam cheios deles.
Eram como os soldados da resistência em outras ocupações. A comida era servida em um
caramanchão, onde Marian e seus ajudantes cozinhavam.

Os guerrilheiros, em geral, colocavam uma sentinela para receber as mensagens nas árvores e
dormiam durante a tarde, em parte porque muito da sua caçada tinha que ser feita em horas nas
quais a maioria dos trabalhadores dormia, e em parte porque os animais selvagens tiram uma
soneca à tarde, e assim devem fazer seus caçadores. Nessa tarde, entretanto, Robin chamou os
meninos para uma conversa.

— Olhem — disse —, é bom que saibam como vamos fazer. Meu bando de cem vai marchar com
vocês até o castelo da Rainha Morgana, em quatro grupos. Vocês dois estarão no grupo de Marian.
Quando chegarmos a um carvalho que foi atingido por um raio no ano da grande tempestade,
estaremos a um quilômetro e meio do lugar onde o grifo fica de guarda. Vamos nos encontrar lá, e
depois teremos que nos movimentar como sombras. Teremos que passar pelo grifo sem dar alarme.
Se conseguirmos isso e tudo for bem, vamos parar a cerca de uns quatrocentos metros do castelo.
Não podemos nos aproximar mais, por causa do ferro na ponta de nossas flechas, e a partir daí
vocês terão que ir sozinhos.
— Agora, Kay e Wart, devo explicar a vocês sobre o ferro. Se nossos amigos foram realmente
capturados por... pelas Boas Pessoas... e se a Rainha Fada Morgana for realmente sua rainha, temos
uma vantagem do nosso lado. Nenhuma das Boas Pessoas suporta a proximidade do ferro. A razão
disso é que os Mais Velhos de Todos começaram nos dias da pedra, antes que o ferro fosse
inventado, e todos os seus problemas vieram com o novo metal. Os povos que os venceram tinham
espadas de aço (que é ainda melhor que o ferro), e foi assim que conseguiram expulsar os Velhos
para os subterrâneos.
— Essa é a razão pela qual temos que ficar distantes esta noite, para não provocarmos neles
nenhuma sensação desconfortável.
Mas vocês dois, com uma faca escondida à mão, estarão a salvo da Rainha, desde que não a
deixem cair. Um par de pequenas facas não vai provocar alarme, a menos que sejam mostradas.
Tudo o que terão que fazer é caminhar o último trecho segurando bem seu ferro; entrar no castelo
com segurança; achar o caminho até a cela onde os prisioneiros estão. Logo que os prisioneiros
estiverem protegidos por seu metal, poderão caminhar com vocês. Estão compreendendo, Kay e
Wart?


— Sim, sim — disseram os dois. — Compreendemos tudo perfeitamente.
— Há mais uma coisa. O mais importante é segurar seu ferro, mas a coisa mais importante depois
disso é não comer. Quem come qualquer coisa na fortaleza de vocês sabem quem tem que ficar lá
para sempre, então, para o bem de todos, não comam nada que esteja dentro do castelo, mesmo que
pareça muito apetitoso. Vão se lembrar disso?
— Vamos sim.
Depois desse esclarecimento, Robin saiu para dar ordens a seus homens. Fez um longo discurso
para eles, explicando sobre o grifo e a caminhada furtiva e sobre o que os meninos fariam.

Quando terminou seu discurso, que foi ouvido em perfeito silêncio, uma coisa estranha aconteceu.
Ele começou novamente do começo e falou do começo ao fim com as mesmas palavras. Quando
terminou a segunda vez, disse:

— Agora, capitães.
Os cem homens se dividiram em grupos de vinte que se dirigiram a diferentes partes da clareira e
rodearam Marian, Little John, Much, Scarlett e Robin. De cada grupo elevou-se um rumor forte.

— Que será que estão fazendo?
— Escuta — disse Wart.
Estavam repetindo o discurso, palavra por palavra. Provavelmente nenhum deles podia ler ou
escrever, mas haviam aprendido a escutar e a lembrar. Era dessa maneira que Robin mantinha
contato com seus combatentes noturnos, sabendo que cada homem sabia de cor tudo o que o próprio
líder sabia, e assim podia confiar que, se necessário, cada homem poderia agir sozinho.

Quando os homens repetiram suas instruções, e todos sabiam todas as palavras do discurso, houve
uma distribuição de flechas de guerra, uma dúzia para cada um. Essas flechas tinham cabeças
maiores, afiadas como navalhas, e estavam aparelhadas com penas em uma ranhura quadrada.
Houve uma inspeção dos arcos, e dois ou três homens receberam cordas novas. Depois tudo ficou
em silêncio.

— Agora vamos — gritou Robin alegremente.
Acenou com o braço e os homens, sorrindo, levantaram os arcos em saudação. Depois houve um
suspiro, um farfalhar, um galho extraviado que quebrou, e a clareira da tília gigante ficou tão vazia
quanto tinha estado antes da chegada do Homem.

— Venham comigo — disse Marian, tocando os meninos no ombro. Atrás deles as abelhas
zumbiam nas folhas.
Foi uma marcha longa. As clareiras artificiais que levaram à tília na forma de uma cruz já não eram
mais úteis depois da primeira meia hora. Depois disso, tinham que abrir caminho pela floresta
virgem da melhor maneira que podiam. Não seria tão ruim se pudessem empurrar e cortar os galhos
para abrir caminho, mas deviam caminhar em silêncio. Marian mostrou como eles podiam ir de
lado, um lado depois do outro; como parar de imediato quando uma sarça os agarrava, e como
soltá-la com paciência; como pisar cuidadosamente e apoiar o peso naquela perna quando tivessem


certeza de que não havia um graveto embaixo daquele pé; como distinguir de relance os lugares que
pareciam dar passagem mais fácil; e como uma espécie de ritmo no movimento os ajudaria, apesar
dos obstáculos. Apesar de haver uma centena de homens invisíveis ao seu redor, movendo-se na
direção do mesmo objetivo, não escutavam outro som além do que faziam.

Os meninos tinham ficado aborrecidos no começo, ao serem incluídos no grupo de uma mulher.
Preferiam ter ido com Robin, e achavam que ser colocados sob o comando de Marian era como
serem cuidados por uma ama. Mas logo descobriram seu erro. Ela fizera objeções à ida dos dois,
mas agora que a presença deles lhe fora ordenada, aceitou-os como companheiros. Em primeiro
lugar, era impossível acompanhar seu ritmo, a menos que ela os esperasse — pois Marian podia se
mover de quatro ou até mesmo se contorcer como uma cobra tão rapidamente quanto eles podiam
caminhar —, e em segundo lugar, era um soldado completo, o que eles não eram. Era uma
verdadeira Weyve
— uma mulher fora-da-lei —, exceto pelos cabelos longos, que a maioria delas
costumava cortar. Um dos conselhos que ela lhes deu antes que a conversa tivesse que parar foi
este: mirem para o alto quando dispararem em uma batalha, e não para baixo. Uma flecha baixa
bate no chão, uma alta pode matar na segunda fila.

"Se um dia eu tiver que casar" — pensou Wart, que tinha dúvidas sobre o assunto — "hei de me
casar com uma garota como essa: um tipo de raposa dourada".

Na verdade, embora os meninos não soubessem disso, Marian podia piar como uma coruja,
soprando na mão fechada, ou dar um assovio agudo entre a língua e os dentes com os dedos no
canto da boca; podia chamar todos os pássaros imitando o pio deles, e compreender muito do seu
linguajar— como quando os chapins avisam que uma águia está chegando; e podia dar cambalhotas.
Mas nenhuma dessas façanhas era necessária naquele momento.

O lusco-fusco chegou com uma garoa — era a primeira garoa do outono —, e na escuridão as
famílias dispersas da coruja marrom chamavam uns aos outros, os pequenos com guinchos e os
mais velhos com o adequado hoooorooo, hooooroooo. O ruído de tuuu-wiii, tuuu-wooo, que os
poetas atribuem à coruja, na verdade é um som de família, feito por vários pássaros.
Proporcionalmente, à medida que sarças e obstáculos ficavam mais difíceis de ver, passavam a ser
mais fáceis de sentir. Era estranho, mas no silêncio cada vez mais profundo, Wart descobriu que
era mais capaz de se movimentar silenciosamente, em vez de menos. Ao ficar reduzido ao toque e
ao ruído, viu que era mais sensível a estes, e que podia ir mais silenciosa e rapidamente.

Era por volta das completas ou, como a chamaríamos, umas nove horas da noite — e haviam
percorrido pelo menos onze quilômetros na fatigante floresta —, quando Marian tocou Kay no
ombro e apontou na escuridão azulada. A essa altura, eles conseguiam ver no escuro tão bem
quanto seres humanos podem, e muito melhor do que os citadinos jamais conseguirão, e lá estava
diante deles, alcançado depois de onze quilômetros na floresta sem trilhas pelas habilidades de
Marian, o carvalho atingido. Decidiram, sem nem um murmúrio, alcançá-lo tão silenciosamente que
nem mesmo os membros de seu próprio exército, que talvez já estivessem lá esperando, ouviriam
sua chegada.

Mas o homem imóvel tem vantagem sobre o homem em movimento, e mal tinham chegado às pontas
das raízes quando mãos amigas os receberam, bateram em suas costas tão levemente como uma


penugem, e os guiaram para se sentarem. As raízes estavam cheias de gente. Era como ser membro
de um bando de estorninhos, ou de gralhas empoleiradas. No mistério da noite, uma centena de
homens respirava ao redor de Wart, como o pulsar do próprio sangue que podemos escutar quando
lemos ou escrevemos a altas horas. Estavam no útero escuro e silencioso da noite.

Naquele instante, Wart notou que os gafanhotos chirriavam sua nota aguda, tão baixo que era quase
inaudível, como o guincho do morcego. Chirriavam um depois do outro. Depois que Marian
chirriou três vezes por conta de Kay, Wart e dela mesma, chirriaram mais cem vezes. Todos os
fora-da-lei estavam presentes, e era o momento de avançar.

Ouviu-se um farfalhar, como se o vento tivesse movido as últimas folhas do carvalho de
novecentos anos. Em seguida, uma coruja piou baixinho, um rato-do-campo guinchou, um coelho
bateu os pés, uma raposa latiu sua tosse rouca como a de um leão, e um morcego guinchou acima de
suas cabeças. As folhas farfalharam de novo, pelo tempo necessário para se contar até cem, e então
Marian, que fizera o bater de pés do coelho, ficou rodeada por seu bando de mais de vinte. Wart
sentiu um homem, de cada lado seu, segurar suas mãos, enquanto permaneciam em círculo, e depois
notou que o chirriar dos gafanhotos recomeçara outra vez. O ruído ia em círculo, em sua direção e,
quando o último gafanhoto esfregou as patas no chirrio, o homem à sua direita apertou sua mão.
Wart chirriou. Imediatamente, o homem à sua esquerda fez o mesmo, e também apertou-lhe a mão.
Foram vinte e dois gafanhotos, antes que o bando da Donzela Marian estivesse pronto para partir
em sua última caminhada através do silêncio.

A última etapa da caminhada poderia ter sido um pesadelo, mas para Wart foi o paraíso. De
repente, viu-se na exaltação da noite, e sentia-se incorpóreo, silencioso, transportado. Sentia que
podia chegar até um coelho que se alimentava e agarrá-lo pelas orelhas, peludo e chutando, antes
que ele percebesse sua presença. Sentia que poderia correr entre as pernas dos homens a seus dois
lados, ou lhes tirar as brilhantes adagas das bainhas, enquanto eles se mexiam sem se dar conta
disso. A paixão do segredo noturno era um vinho em suas veias. Era realmente pequeno e jovem o
suficiente para se mover tão secretamente quanto os guerreiros. A idade e o peso deles os fazia
moverem-se lentamente, apesar de toda sua experiência de vida na floresta, e a juventude e leveza
de Wart o fazia mais móvel, apesar de sua falta de prática.

Era uma caminhada fácil, exceto pelo perigo. Os arbustos rareavam e as samambaias ruidosas
raramente cresciam na terra pantanosa, e assim podiam movimentar-se três vezes mais rápido.
Avançavam como em um sonho, sem ter por guia os pios das corujas ou

o guincho dos morcegos, mas mantidos juntos pelo ritmo obrigatório que a floresta adormecida lhes
impunha. Alguns deles estavam temerosos, outros vingativos por conta dos camaradas feitos
prisioneiros e alguns, na verdade, como se não tivessem corpos, no sonambulismo da ação furtiva.
Mal tinham se esgueirado uns vinte minutos quando Marian parou de avançar. Apontou para a
esquerda.

Nenhum dos meninos lera o livro de Sir John de Mandeville, portanto, não sabiam que um grifo era
oito vezes maior que um leão. Agora, olhando à esquerda na sombra silenciosa da noite, viram
recortado contra o céu e as estrelas algo que jamais teriam acreditado possível. Era um jovem grifo


em sua primeira plumagem.

A parte frontal, e dali até as patas dianteiras e o ombro, assemelhava-se a um enorme falcão. O
bico persa, as longas asas, das quais a primeira rêmige dianteira era a mais longa, e as poderosas
garras, tudo era igual ao falcão mas, como observou Mandeville, o todo tinha oito vezes o tamanho
de um leão. A partir dos ombros, acontecia uma mudança. Onde um falcão comum ou uma águia se
contentaria com as doze penas de sua cauda, esse falco leonis serpentis começava a apresentar ocorpo leonino e as patas traseiras da fera da África e, depois disso, uma cauda de serpente. Com
seus sete metros de altura sob o luar misterioso, a cabeça adormecida inclinada sobre o peito, de
forma que o bico perverso repousava sobre as penas do peito, os meninos viram um autêntico grifo
que valia muito mais a pena ver do que uma centena de condores. Os dois soltaram a respiração
entre os dentes e se apressaram, guardando nos recônditos da memória a visão majestosa de terror.

Finalmente, estavam perto do castelo, e chegou o momento em que os fora-da-lei tinham que se
deter. O capitão tocou silenciosamente as mãos de Kay e Wart, e os dois avançaram pela floresta
que ficara rarefeita, na direção de um brilho fraco que se via para além das árvores.

Encontraram-se em uma ampla clareira ou planície. Pararam de chofre, surpresos com o que viram.
Era um castelo inteiramente feito de comida, exceto que, na torre mais alta, estava pousado um
urubu, com uma flecha no bico.

Os Mais Velhos de Todos eram glutões. Provavelmente porque raramente tinham o suficiente para
comer. Pode-se ler até hoje um poema escrito por um deles, conhecido como a Visão de Mac
Conglinne. Nessa Visão há uma descrição do castelo feito com diferentes tipos de comida. A parte
inglesa do poema é assim:

Um lago de leite fresco contemplo
Nas brumas de urna planície macia
Vejo uma casa bem construída
Telhada com manteiga
Suas duas suaves portas de pudim de creme,
Seus batentes de coalhada e manteiga.
Camas de glorioso toucinho,
Muitos escudos defino queijo prensado.
Sob as amarras desses escudos
Estavam homens feitos de queijo fresco e doce,
Homens que não saberiam ferir um Celta,
Portando lanças de macia manteiga velha.
Um enorme caldeirão cheio de carne
(Pensei em me atracar com ele),
Coziafolhudas couves marrom-esbranquiçadas,
Um vaso cheio até a borda de leite.
Uma casa de bacon de quarenta costelas,
Um trançado de tripas — suporte de panelinhas —



Com todas as comidas agradáveis ao homem,
Me parecia que de tudo havia nela.
De lingüiças eram feitos
Seus belos caibros,
Esplêndidas as traves e os pilares
De deliciosa carne de porco.


Os meninos ficaram ali, maravilhados e nauseados, diante de tal fortaleza.

Levantava-se de um lago de leite, numa luz própria, fantasmagórica — um brilho gordurento e
amanteigado. Era esse aspecto fantástico do Castelo Chariot que os Mais Antigos — sentindo,
afinal, as facas escondidas — pensaram que seria tentador para as crianças. Era para tentá-las a
comer.

O lugar cheirava como se fosse ao mesmo tempo um armazém, um açougue, uma fábrica de
laticínios e uma peixaria. Era horrível para além da imaginação — doce, pegajoso e pungente —,
de forma que eles não sentiram o menor desejo de provar nem mesmo uma partícula daquilo. A
tentação verdadeira era fugir dali.

No entanto, havia prisioneiros a ser resgatados.

Passaram se atolando pela imunda ponte levadiça — de manteiga, e ainda com pêlos de vaca —
afundando até as canelas. Tremeram diante das tripas e dos miúdos. Apontaram as facas de ferro
para os soldados feitos de queijo macio e doce, e estes fugiram.

Finalmente chegaram na câmara interna, onde a própria Fada Morgana estava estendida em sua
gloriosa cama de toucinho.

Era uma mulher de meia-idade, gorda e desleixada, com cabelos negros e um leve bigode, mas era
feita de carne humana. Quando viu as facas, fechou os olhos bem fechados — como se estivesse em
transe. Talvez, quando estivesse fora desse castelo muito estranho, ou quando não estivesse fazendo
essa magia de tentar o apetite, ela fosse capaz de assumir formas mais bonitas.

Os prisioneiros estavam atados em incríveis pilares de carne de porco.

—Sinto muito se este ferro a está ferindo — disse Kay —, mas viemos resgatar nossos amigos.

A Rainha Morgan estremeceu.

— Diga a seus homens de queijo para desamarrá-los. Ela não iria fazer isso.
— É magia — disse Wart. — Você acha que devemos ir até lá e beijá-la ou fazer algo assim
horrível?
— Talvez se fôssemos até lá e a tocássemos com o ferro?
— Você faz isso.
— Eu não. Você.
— Vamos juntos.

Então eles se deram as mãos para se aproximar da Rainha. Ela começou a se contorcer como uma
lesma. Estava agoniada diante do metal.

Finalmente, e justamente quando a alcançavam, houve um ri-bombo ou murmúrio de água e lama —
e toda a aparência fantástica do Castelo Chariot se dissolveu e sumiu, deixando os cinco humanos e
um cachorro de pé, parados no meio da clareira da floresta, que ainda cheirava vagamente a leite
azedo.

— Deus do céu! — disse Frei Tuck. — Deus do céu e mais! Vou para o inferno se não acreditei
que estávamos liquidados!
— Mestre! — disse o Menino-Cão.
Cavall se contentou em latir selvagemente, mordendo-lhe os calcanhares, deitando de costas e
tentando balançar o rabo nessa posição, e se portando, no geral, como um idiota. O velho Wat
tocava sua juba.

— Então, foi isso — disse Kay —, essa foi minha aventura, e agora temos que voltar para casa
rápido!

XII


Mas a Fada Morgana, apesar de não suportar o ferro em sua forma de fada, ainda tinha o grifo. Em
um passe de mágica, soltou-o de sua corrente dourada no momento em que seu castelo desapareceu.

Os fora-da-lei ficaram satisfeitos com o sucesso, e menos cuidadosos do que deveriam ser.
Decidiram dar uma volta, passando longe de onde tinham visto o monstro amarrado, e marcharam
pelas árvores sombrias sem pensar no perigo.

Houve um ruído como o de um trem de ferro apitando e, respondendo a isso — sobrepondo-lhe
como a voz da fênix —, o trompete prateado de Robin começou a tocar.

— Tum, tum, turun tun tun, tututuntum — tocava o trompete. — Tara, tara, taratatá, taratatatá. Fi, fi.
fi, fi, firi fi fi.
Robin tocou sua música de caça e os arqueiros emboscados giraram quando o grifo atacou.
Colocaram adiante os pés esquerdos e, no mesmo movimento, soltaram uma chuva de flechas que
caiu como se fosse uma nevasca.

Wart viu a criatura cambalear, com uma flecha com mais de meio metro saindo de entre seus
ombros. Viu sua própria flecha voar longe, e rapidamente se inclinou para pegar outra do cinto. Viu
a fila de seus companheiros arqueiros oscilar como se obedecesse a um sinal preestabelecido, e
cada homem se abaixou para pegar a segunda flecha. Escutou as cordas soarem novamente, o silvo
das flechas no ar. Viu a falange de flechas brilhar como piscadelas à luz do luar. Até então, em toda
a sua vida, ele só tinha atirado em alvos de palha que faziam um ruído de fluut! E sempre desejara
ouvir o ruído que esses mísseis perfeitos e mortais fariam ao atingir carne sólida. Agora ouvia.

Mas o grifo tinha escamas duras como as de um crocodilo e só as flechas mais bem colocadas não
resvalavam. O monstro continuava avançando. Soltava gritos agudos enquanto avançava. Os
homens começaram a cair, jogados à esquerda e à direita pelo rabo que chicoteava.

Wart estava arrumando a flecha em seu arco. A pena de galo não se ajustava. Tudo se movia
lentamente.

Ele viu o enorme corpo negro avançando contra o luar. Sentiu a garra que o atingiu no peito. Sentiu
ele mesmo girar vagarosamente, com um peso cruel por cima dele. Viu o rosto de Kay em algum
lugar naquele universo que girava, corado de excitação à lua das estrelas, e a Donzela Marian, do
outro lado, com a boca aberta, gritando. Antes de resvalar para a escuridão, achou que ela gritava


para ele.

Eles o tiraram de baixo do grifo morto e descobriram a flecha de Kay enfiada no olho do monstro.
Este tinha morrido em pleno salto.

Então houve um momento em que ele se sentiu mal — enquanto Robin colocava sua clavícula no
lugar e fazia uma tipóia com o pano verde de seu capuz —, e, depois disso, todo o bando foi
dormir, todos mortos de cansaço, ao lado do cadáver. Era tarde demais para voltar ao castelo de
Sir Ector, ou mesmo para regressar ao acampamento dos fora-da-lei na grande árvore. Os perigos
da expedição tinham terminado e tudo o que podia ser feito naquela noite era acender fogueiras,
postar sentinelas e dormir onde se encontravam.

Wart não dormiu muito. Sentou-se apoiado em uma árvore, observando as sentinelas vermelhas
passando de lá para cá à luz das fogueiras, escutando suas senhas e pensando nos acontecimentos
excitantes do dia. Estes giravam e giravam em sua cabeça, às vezes fora de ordem e de trás para
frente, ou aos pedaços. Viu o grifo saltando, ouviu Marian gritando "Belo disparo!", escutou o
zumbir das abelhas misturado com o chirrio dos gafanhotos, e disparou e disparou, centenas de
milhares de vezes, em alvos que se transformavam em grifos. Kay e o Menino-Cão liberado se
mexiam, adormecidos ao seu lado, parecendo estranhos e incompreensíveis como acontece com as
pessoas quando dormem, e Cavall, encostado em seu ombro são, lambia-lhe de vez em quando as
faces quentes. A alvorada chegou devagar, tão devagar e pausadamente que era impossível
determinar quando na verdade amanhecera, como acontecia nos meses de verão.

— Bem — disse Robin, depois que despertaram e comeram o desjejum de pão e carne de caça fria
que haviam trazido —, você vai nos amar e nos deixar, Kay. Caso contrário, vou ter Sir Ector
armando uma expedição contra mim para levar você de volta. Obrigado por sua ajuda. Posso lhe
dar um presentinho de agradecimento?
— Foi ótimo — disse Kay. — Absolutamente ótimo. Posso levar o grifo que matei?
— É muito pesado para carregar. Por que não leva só a cabeça?
— Isso será suficiente — disse Kay — se alguém não se importar em cortá-la. É meu grifo.
— O que vai fazer com o velho Wat? — perguntou Wart.
— Depende do que ele queira fazer. Talvez queira ficar por conta própria e comer bolotas, como
costumava, ou se quiser unir-se ao nosso bando teremos prazer em acolhê-lo. Ele fugiu da sua
aldeia, de forma que não acho que queira voltar para lá. O que você acha?
— Se você quiser me dar um presente — disse Wart, lentamente —, eu gostaria de tê-lo. Você acha
que isso seria certo?
— Na verdade, não acho certo — disse Robin. — Não acho muito bom dar pessoas de presente:
elas podem não gostar. Pelo menos é assim que nós, saxões, sentimos. O que você quer fazer com
ele?
— Não quero ficar com ele ou coisa assim. Sabe, tenho um tutor que é mago e pensei que poderia
ser capaz de restaurar o juízo dele.

— Bom menino — disse Robin. — Claro que pode levá-lo. Sinto muito ter pensado mal de você.
Pelo menos, podemos perguntar a ele se gostaria de ir.
Quando alguém foi buscar Wat, Robin disse:

— É melhor você mesmo falar com ele.
Trouxeram o pobre velho, sorrindo, confuso, horrendo e muito sujo, e o colocaram diante de Robin.
— Vá em frente — disse Robin.
Wart não sabia exatamente como colocar a questão, mas disse:
— Olhe, Wat, você gostaria de ir para casa comigo, por favor, só por um tempo?
.— Aba duga buga gufa lula — disse Wat, puxando os cabelos, inclinando-se e balançando os
braços em várias direções.

— Vem comigo?
— Dib dub déb dob.
— Jantar? — perguntou Wart, desesperado.
— Rrr! — gritou afirmativamente a criatura, e seus olhos brilhavam de prazer com a perspectiva de
receber algo para comer.
— Por ali — disse Wart, apontando na direção que ele sabia, pelo sol, ser a do castelo de seu
protetor. — Jantar. Venha comigo. Eu levo.
— Mestre — disse Wat, lembrando-se de repente de uma palavra, a palavra que tinha se
acostumado a dirigir aos grandes personagens que lhe presenteavam com comida, seu único meio
de vida. Estava decidido.
— Bem — disse Robin —, foi uma grande aventura, e lamento que estejam indo. Espero vê-los
novamente.
— Venham a qualquer hora — disse Marian —, quando estiverem aborrecidos. É só seguir as
clareiras. E você, Wart, cuidado com essa clavícula durante alguns dias.
— Mandarei alguns homens com vocês até a borda da floresta — disse Robin. — Depois vão ter
que ir por conta própria. Espero que o Menino-Cão possa carregar a cabeça do grifo.
— Adeus — disse Kay.
— Adeus — disse Robin.
— Adeus — disse Wart.
— Adeus — disse Marian, sorrindo.
— Adeus — gritaram os fora-da-lei, acenando com os arcos. E Kay e Wart e o Menino-Cão e Wat
e Cavall e sua escolta partiram na longa jornada para casa.
Tiveram uma imensa recepção. O regresso no dia anterior de todos os cães de caça, exceto Cavall
e o Menino-Cão, e quando Kay e Wart não voltaram à noite, tinha armado a maior confusão na


casa. A ama ficara histérica. Até a meia-noite, Hob tinha percorrido as vizinhanças da floresta —
os cozinheiros deixaram queimar o assado do jantar— e o sargento-de-armas tinha polido todas as
armaduras duas vezes e afiado o corte de todas as espadas e machados para o caso de uma invasão.
Finalmente, alguém pensou em consultar Merlin, que descobriram já em sua terceira soneca. O
mago, para o bem da paz e para ter paz no resto do seu descanso, usara sua visão para contar a Sir
Ector exatamente o que os meninos estavam fazendo, e quando se podia esperar que voltassem.
Profetizou até os minutos do regresso.

Assim, quando a pequena procissão de guerreiros que regressava ficou à vista da ponte levadiça,
foi saudada por todos da casa. Sir Ector estava parado no meio com uma grossa bengala, com a
qual pretendia dar-lhes umas bordoadas por terem saído dos limites e provocado tanta confusão; a
ama tinha insistido em trazer o estandarte que era costume içar quando Sir Ector voltava para casa
das férias, quando menino, e onde estava escrito Bem-Vindo ao Lar; Hob esquecera seus amados
falcões e estava parado ao lado, protegendo os olhos de águia para ser o primeiro a vê-los; os
cozinheiros e todo o pessoal da cozinha batiam em panelas e frigideiras, cantando "Não voltarás
para casa?" ou outra música assim, mas fora do tom; o gato da cozinha miava; os cães tinham
escapado do canil porque não havia ninguém para cuidar deles e se preparavam para caçar o gato
da cozinha; o sargento-de-armas tinha o peito tão inchado de prazer que parecia capaz de explodir
a qualquer momento, e ordenava a todos que se preparassem para a saudação quando ele dissesse,
"Um, Dois!".

— Um, Dois! — gritou o sargento.
— Hurra! — gritaram todos, obedientemente, inclusive Sir Ector.
— Olhem só o que eu trouxe — gritou Kay. — Matei um grifo e Wart foi ferido.
— Au-au-au! — latiram os cães de caça, e pularam em cima do Menino-Cão, lambendo-lhe o rosto,
arranhando-lhe o peito, cheirando-o todo para saber o que tinha acontecido com ele, e olhando com
esperanças para a cabeça do grifo que o Menino-Cão segurava bem alto para que não pudessem
comê-la.
— Bendito seja! — exclamou Sir Ector.
— Ai de mim, meu pobre rouxinolzinho — gritou a ama, deixando cair o estandarte. — Coitado!
Com seu braço numa tipóia verde, que Deus nos ajude!
— Está tudo bem — disse Wart. — Ah, não me abrace. Dói.
— Posso mandar empalhar? — perguntou Kay.
— Bem, com os diabos — disse Hob. — Não é o nosso velho Wat, o que ficou lunático?
— Meus queridos, queridos meninos — disse Sir Ector. — Estou tão feliz em vê-los de volta.
— Velho cabeça tonta — exclamou a ama, triunfante. — Onde meteu a bengala?
— Então! — disse Sir Ector. — Como se atreveram a sair dos limites e nos deixar aqui agoniados?
— É um grifo de verdade — disse Kay, que sabia que não havia nada a temer. — Matei dúzias
deles. Wart quebrou a clavícula. Resgatamos o Menino-Cão e Wat.

— Isso é o resultado de minhas lições de arco e flecha para esses jovens — disse o sargento,
orgulhoso.
Sir Ector beijou ambos os meninos e ordenou que o grifo fosse exibido diante dele.

— Bem! — exclamou. — Que monstro! Vamos empalhar e pôr na sala de jantar. Como disse que
era o tamanho disso?
— Dois metros de orelha a orelha. Robin disse que deve ser um recorde.
— Vamos fazer uma crônica do feito.
— É um dos bons, não é? — comentou Kay, com uma calma estudada.
— Mandarei que Sir Rowland Ward o faça — disse Sir Ector, na maior alegria —, com uma
pequena placa de marfim, com O PRIMEIRO GRIFO DE KAY escrito com letras negras, e a data.
— Ora, deixai de criancice — exclamou a ama. — Vamos, Mestre Wart, meu inocente, vamos logo
para vossa cama neste instante. E vós, Sir Ector, deveis vos envergonhar de estar brincando com
cabeças de monstros como esse galinhão enquanto a pobre criança está à beira da morte. Vamos,
sargento, pegue o cavalo e vá até Cardoyle buscar o cirurgião.
Ela sacudiu o avental para o sargento, que desinchou o peito e saiu enxotado como uma galinha.

— Está tudo bem — disse Wart. — Estou dizendo, é só uma clavícula quebrada, e Robin a colocou
no lugar ontem à noite. Não está mais doendo.
— Deixe o menino em paz, ama — ordenou Sir Ector, ficando do lado dos homens contra as
mulheres, ansioso por restabelecer sua superioridade depois do assunto da bengala. — Merlin
cuidará dele se for preciso, sem dúvida. Quem é esse Robin?
— Robin Wood — exclamaram juntos os meninos.
— Nunca ouvi falar.
— Você o conhece como Robin Hood — explicou Kay, com ar de superioridade. — Mas na
verdade é Wood, como a floresta da qual ele é o espírito.
— Ora, ora, ora, então vocês andaram metidos com esse malandro! Vamos tomar o desjejum,
meninos, e me contem tudo sobre ele.
— Já tomamos — disse Wart —, horas atrás. Por favor, posso levar Wat comigo para ver Merlin?
— Bem, é o velho que ficou louco e foi viver na floresta. Onde é que vocês o encontraram?
— As Boas Gentes o capturaram com o Menino-Cão e Cavall.
— Mas nós matamos o grifo — Kay acrescentou. — Eu mesmo o matei.
— Então, agora quero ver se Merlin pode restabelecer o juízo dele.
— Mestre Wart — disse a ama com firmeza. Ela ficara sem fôlego com a repreensão de Sir Ector.
— Mestre Wart, vosso quarto e vossa cama é para onde deveis ir, e já. Velhos bobos podem ser
velhos bobos, pelo sim ou pelo não, mas não servi a Família por cinqüenta anos para que me

ensinem minhas obrigações. Ficar com caprichos por conta de um sem juízo enquanto vosso
próprio braço pode estar caindo no chão!


Ora, a floresta pertencia tio rei, que tinha todo o direito de mandar seus cães caçarem nela. [...]
O rei estava no seu direito. Mas isso não eliminava o fato de que Sir Ector via a floresta como
sua floresta, e se ressentia com a intrusão dos cães de caça reais — como se os seus não fossem
suficientemente bons!

— Sim, seu peru velho — acrescentou, voltando-se arrebatada para Sir Ector —, e vós podeis
manter aquele mago longe do quarto do pobre garoto até ele descansar, isso podeis fazer!
— Brincando com monstros e lunáticos — continuou a vitoriosa enquanto levava seu indefeso
cativo para longe do campo de batalha. — Nunca vi coisa igual.
— Por favor, alguém diga a Merlin para cuidar do Wat — gritou a vítima por sobre os ombros, em
tom cada vez mais débil.
Ele acordou em sua cama fresca, sentindo-se melhor. A velha brigona que cuidara dele tinha
fechado as janelas com as cortinas, portanto o quarto estava escuro e confortável, e ele pôde
perceber, por um raio dourado de sol que iluminava o chão, que já era tarde. Não se sentia apenas


melhor. Sentia-se muito bem, tão bem que era impossível ficar na cama. Virou-se rapidamente para
tirar o lençol, mas parou com o chiado ou arranhão do osso em seu ombro, que tinha esquecido
durante o sono. Então levantou-se com mais cuidado, deslizando da cama e apoiando-se em uma
mão para se erguer, enfiou os pés descalços nos chinelos e conseguiu enrolar mais ou menos um
roupão no corpo. Saiu silenciosamente pelas passagens de pedra e subiu a gasta escada circular
para encontrar Merlin.

Quando chegou à sala de aula, descobriu que Kay estava recebendo sua Edificação de Alto Nível.
Estava fazendo ditado pois, quando Wart abriu a porta, escutou Merlin pronunciando em tom
medido a famosa mnemônica medieval:

— Barabara Celarent Darri Ferioqui Prioris.
E Kay dizendo:
— Espere um pouco. Minha pena está seca.
— Você vai apanhar — disse Kay, quando o viu. — Devia estar de cama, morrendo de gangrena ou
coisa assim.
— Merlin — disse Wart. — Com Wat você fez o quê? Diga-me o quê.
— Você deve tentar falar sem assonâncias — disse o mago. — Por exemplo, "o menino pequenino
está sozinho, coitadinho" é infeliz, mesmo como assonância. E sua frase é no mínimo ambígua. "O
que é o quê?" Eu poderia responder como uma charada, ou se fosse o Rei Pellinore, "O que é oquê, quê?" É preciso ser muito cuidadoso com o jeito de falar.
Era evidente que Kay estava se saindo bem no ditado e que o velho cavalheiro estava de bom
humor.

— Você sabe o que eu quis dizer — disse Wart. — O que você fez com o velhote sem nariz?
— Ele o curou — disse Kay.
— Bem — disse Merlin —, você pode chamar disso, ou não. E claro, quando já se viveu neste
mundo tanto tempo quanto eu, e de trás para a frente também, aprende-se uma ou duas coisas sobre
patologias. Mas as maravilhas da psicologia analítica e da cirurgia plástica ainda são um livro
fechado para esta geração, receio.
— O que você fez com ele?
— Oh, eu simplesmente o psicanalizei — respondeu, pomposo, o mago. — Isso, e claro, costurei
narizes novos, nos dois.
— Que tipos de narizes? — perguntou Wart.
— Foi engraçado — disse Kay. — Ele queria usar o nariz do grifo para um, mas não deixei. Então,
ele pegou os narizes dos dois leitões que vamos comer hoje à noite, e usou. Pessoalmente, acho que
eles vão grunhir.
— Uma operação delicada — disse Merlin —, mas realizada com sucesso.
— Bom — disse Wart, duvidando. — Espero que esteja tudo bem. O que eles fizeram depois?

— Foram para o canil. O velho Wat sente muito pelo que fez com o Menino-Cão, mas diz que não
se lembra de nada. Diz que de repente tudo ficou negro, quando uma vez as crianças estavam lhe
jogando pedras, e que não se lembra de nada depois disso. O Menino-Cão o perdoou e disse que
não se importava. De agora em diante, trabalharão juntos no canil e não pensarão mais no passado.
O Menino-Cão diz que o velho foi bom para ele quando foram prisioneiros da Rainha das Fadas, e
sabe que não devia ter jogado pedras nele, para começar. Diz que pensou muitas vezes nisso
quando os outros garotos começaram a jogar pedras nele também.
— Bom — disse Wart —, fico feliz em saber que tudo terminou bem. Você acha que posso ir
visitá-los?
— Pelos céus, não faça nada que chateie sua ama — exclamou Merlin, olhando ansiosamente para
ele. — Aquela velha me atacou com uma vassoura quando fui ver você esta tarde, e quebrou meus
óculos. Será que você não pode esperar até amanhã?
Na manhã seguinte, Wat e o Menino-Cão já eram os melhores amigos do mundo. A experiência
comum de terem sido apedrejados pela multidão e depois atados a colunas de carne de porco pela
Fada Morgana serviria como um elo entre os dois e tópico de lembranças, quando se deitavam
entre os cachorros à noite, para o resto de suas vidas. Também, pela manhã, tinham arrancado os
narizes que Merlin gentilmente lhes dera. Explicaram que se acostumaram a não ter nariz e que,
além disso, preferiam viver com os cachorros.


XIII


Apesar de seus protestos, o infeliz inválido ficou confinado em seu quarto por três dias mortais.
Ficava sozinho, exceto na hora de dormir, quando Kay vinha, e Merlin se viu limitado a gritar sua
edificação através do buraco da fechadura, nos momentos que sabia que a ama estava ocupada
lavando roupas.

A única diversão do menino eram os formigueiros — aqueles entre vidros que tinha trazido quando
regressou do chalé de Merlin na floresta.

— Será que você não poderia me transformar em outra coisa enquanto estou trancado aqui? —
gemia desesperado atrás da porta.

— Não posso fazer encantamentos através do buraco da fechadura.
— Através do quê?
— DO BURACO DA FECHADURA.
— Oh!
— Você está aí?
— Sim.
— Quê?
— Quê?
— Que confusão essa gritaria! — exclamou o mago, esmagando seu chapéu com os pés. — Que
Castor e Pollux... Não, de novo não. Ai!, minha pressão...
— Você pode me transformar numa formiga?
— No quê?
— Uma FORMIGA! Esse é um encantamento pequeno, não é? Esse pode passar pelo buraco da
fechadura?
— Não acho que deva fazer isso.
— Por quê?

— São perigosas.
— Você poderia me ver com sua visão de dentro e me trazer de volta se as coisas se complicarem.
Por favor, me transforme em alguma coisa, ou acabo fraco da cabeça.
— Essas formigas não são normandas, meu jovem. Vieram da África. São beligerantes.
— E eu sei lá o que é beligerante.
Houve um longo silêncio atrás da porta.
— Bem — finalmente disse Merlin. — Ainda estamos muito no começo
de sua educação. Mas em
algum momento você teria que passar por isso. Deixe-me pensar. Existem dois formigueiros nessa
geringonça?
— Existem dois pares de placas.
— Apanhe uma palha do chão e a coloque entre os dois formigueiros, como uma ponte. Já fez isso?
— Sim.
O lugar onde ele se encontrava parecia um grande campo de pedregulhos, com uma fortaleza
achatada numa ponta — entre as placas de vidro. Penetrava-se na fortaleza por túneis na rocha e,
em cada entrada de cada túnel, havia um letreiro onde estava escrito:

TUDO O QUE NÃO É PROIBIDO É OBRIGATÓRIO

Ele leu o aviso com desagrado, apesar de não entender seu significado. Pensou consigo mesmo:
Vou explorar um pouco, antes de entrar. Por alguma razão, o aviso provocou nele uma relutância
em avançar, fazendo o túnel tosco parecer sinistro.

Balançou cuidadosamente suas antenas, considerando o aviso, familiarizando-se com seus novos
sentidos, plantando firmemente os pés no mundo dos insetos, como se para se agarrar nele. Limpou
as antenas com as patas dianteiras, alisando-as e torcendo-as de tal maneira que parecia um vilão
vitoriano torcendo os bigodes. Bocejou — pois as formigas bocejam e também se espreguiçam,
como os seres humanos. Então, tomou consciência de algo que estivera aguardando ser percebido

— que havia um ruído articulado em sua cabeça. Ou era um ruído ou um cheiro complicado, e a
maneira mais fácil de explicar era dizer que parecia uma transmissão de rádio. Chegava através
das antenas.
A música tinha um ritmo monótono como um pulsar, e as palavras que a acompanhavam eram sobre
junho-punho-cunho, ou mamã-mamã-mamã, ou aqui-ali, ou lá-dá-cá. No começo, ele estava
gostando, principalmente as que falavam de amor-flor-calor, até descobrir que não variavam.
Depois de uma ou duas horas, isso o fez ficar enjoado.

Havia também uma voz em sua cabeça, durante as pausas da música, que parecia estar dando
ordens. Dizia "Todos os que têm dois dias de idade devem se mover para a Ala Oeste", ou
"Número 210397/WD deve se apresentar ao esquadrão da sopa, em substituição ao número
333105/ WD que caiu do formigueiro". Era uma voz frutada, mas de alguma forma parecia
impessoal — como se seu encanto fosse o resultado de uma longa prática, como um truque de circo.
Era sem tom.


O menino, ou talvez devêssemos dizer a formiga, afastou-se da fortaleza logo que se sentiu
preparado para zanzar por ali. Inquieto, começou explorando o deserto de pedregulhos, relutando
em visitar o lugar de onde vinham as ordens, e também chateado com a visão estreita. Descobriu
pequenos caminhos entre os pedregulhos, trilhas esparsas ao mesmo tempo sem sentido e
propositais, que levavam ao depósito de grãos, e também em várias outras direções que ele não
conseguia compreender. Uma dessas trilhas terminava num torrão com uma cavidade natural por
baixo. Na cavidade — mais uma vez com a estranha aparência de propósito sem sentido —
descobriu duas formigas mortas. Estavam deitadas e arrumadas, mas ao mesmo tempo
desarrumadas, como se uma pessoa muito arrumada as tivesse levado até ali, e depois esquecido a
razão quando lá chegou. Estavam dobradas, e não pareciam nem alegres nem tristes por estarem
mortas. Estavam lá, como um par de cadeiras.

Enquanto observava os cadáveres, uma formiga viva desceu pela trilha carregando uma terceira.

A formiga disse:

— Salve, Barbaras!
O menino disse — Salve! — com educação.

Em um ponto, sobre o qual nada sabia, ele tinha sorte. Merlin se lembrara de lhe dar o cheiro
adequado para esse formigueiro — pois, se cheirasse a qualquer outro formigueiro, teria sido
morto imediatamente. Se a Senhorita Cavell fosse uma formiga, teria que escrever em sua estátua:
CHEIRAR NÃO É SUFICIENTE.

A nova formiga colocou o cadáver vagamente e começou a arrastar os outros dois em várias
direções. Parecia não saber onde colocá-los. Ou melhor, sabia que uma certa arrumação devia ser
feita, mas não conseguia imaginar como seria. Era como um homem com uma xícara de chá numa
mão e um sanduíche na outra, querendo acender um cigarro com um fósforo. Mas quando o homem
pensaria em deixar a xícara e o sanduíche — antes de pegar o cigarro e o fósforo — essa formiga
deixaria o sanduíche e pegaria o fósforo, depois deixaria o fósforo no chão para pegar o cigarro,
depois colocaria o cigarro no chão e levantaria o sanduíche, depois abaixaria a xícara e levantaria

o cigarro, até finalmente abaixar o sanduíche e pegar o fósforo. A formiga tendia a depender de
uma série de acidentes até alcançar seu objetivo. Era paciente e não pensava. Depois de ter
colocado as três formigas mortas em várias posições, estas finalmente estariam alinhadas embaixo
do torrão, e isso era o que tinha que fazer.
Wart observou esses arranjos primeiro com surpresa, depois com aflição e, finalmente, com
desagrado. Queria perguntar como era possível não pensar nas coisas com antecedência — esse
sentimento incômodo que as pessoas têm ao ver um serviço ser mal executado. Mais tarde começou
a desejar poder fazer várias perguntas, tais como "Você gosta de cuidar dos mortos?" ou "Você é
um escravo?" ou mesmo "Você é feliz?"

A coisa extraordinária é que ele não podia fazer essas perguntas. Para poder fazê-las, teria que
traduzi-las para a língua das formigas através das antenas — e descobria agora, com uma sensação
de impotência, que não existiam palavras para o que queria dizer. Não havia palavras para
felicidade, liberdade, gostar, assim como não havia palavras para seus opostos. Sentia-se como um


mudo tentando gritar "Incêndio!". O mais próximo que conseguia chegar até mesmo de Certo e
Errado era dizer Feito e Não Feito.

A formiga terminou de mexer com os cadáveres e voltou para a trilha, deixando-os jogados ao
acaso. Então viu que Wart estava no caminho, e parou, mexendo suas antenas em direção a ele,
como se fosse um tanque. Com o rosto mudo e ameaçador como se fosse um elmo, e seu aspecto
peludo, talvez fosse mais parecida com um cavaleiro de armadura ou com um cavalo de armadura:
ou uma combinação dos dois: um centauro peludo de armadura.

A formiga disse novamente:

— Salve, Barbaras!
— Salve.
— O que você está fazendo?
O menino respondeu fielmente:
— Não estou fazendo nada.
A formiga ficou desconcertada com isso durante vários segundos, como você ficaria se Einstein lhe
contasse suas últimas idéias sobre o espaço. Em seguida, estendeu os doze segmentos de sua antena
e falou por cima dele para o azul.

Disse:

—105978/UDC contatando do quadrado cinco. Tem uma formiga maluca aqui no quadrado cinco.
Câmbio.

A palavra que usou para maluca foi Não-Feita. Mais tarde, Wart descobriria que havia apenas duas
qualificações na linguagem, Feito e Não-Feito, que se aplicavam a todas as questões de avaliação.
Se as sementes que os coletores achavam eram doces, eram sementes Feitas. Se alguém as tivesse
temperado com um pó venenoso, seriam sementes Não-Feitas, e assim por diante. Mesmo os
punhos, mamas, flores etc. ficavam completamente descritas, nas irradiações, quando se
declaravam que eram Feitas.

A irradiação parou um momento e a voz frutada disse:

— G. H. Q. respondendo a 105978/UDC. Qual é o número dela. Câmbio.
A formiga perguntou:
— Qual o seu número?
— Não sei.
Quando essa notícia foi transmitida para o quartel-general, veio uma mensagem dizendo para
perguntar se ele podia fazer um relatório sobre si mesmo. A formiga perguntou a ele. Usou as
mesmas palavras que a irradiação usara, e na mesma voz. Isso o fez sentir-se desconfortável e com
raiva, duas emoções das quais não gostava.

— Sim — disse com sarcasmo, pois era óbvio que a criatura percebia o sarcasmo —, caí de ponta

cabeça e não me lembro de nada.

— 105978/UDC relatando. Formiga Não-Feita esqueceu de tudo porque caiu do formigueiro.
Câmbio.
— G.H.Q. respondendo a 105978/UDC. Formiga Não-Feita é o número 42436/WD, que caiu do
formigueiro hoje de manhã quando trabalhava no esquadrão da papa. Se for competente para
continuar com seus deveres — era mais fácil dizer "Se for competente para continuar seus deveres
na linguagem das formigas", pois era simplesmente Feito, como tudo o mais que era Não-Feito.
Mas chega de questões de linguagem. — Se for competente para continuar com seus deveres,
instrua 42436/WD para voltar para o esquadrão da papa, dispensando 210021/WD, que foi
enviado para substituí-lo. Câmbio.
A criatura repetiu a mensagem.

Parece que Wart, mesmo se quisesse, não poderia ter dado explicação melhor do que dizer que
tinha caído de ponta-cabeça, pois as formigas de vez em quando caem mesmo. Eram de uma
espécie de formigas chamada Messor Barbaras.

— Muito bem.
A arrumadora de cadáveres não prestou mais atenção nele e se arrastou pela trilha atrás de outra
formiga morta, ou qualquer outra coisa que precisasse ser removida.

Wart foi pelo caminho oposto, para unir-se ao esquadrão da papa. Memorizou seu próprio número
e o número da unidade que teria que substituir.

O esquadrão da papa estava postado diante de uma das câmaras externas da fortaleza como se fosse
um círculo de adoradores.

Ele se uniu ao círculo, anunciando que 2100021/WD devia voltar para o formigueiro central.
Depois, começou a se empanturrar com a papa doce, como os demais. Faziam a papa raspando as
sementes que os outros tinham coletado, mastigando as migalhas até que estas se transformavam
numa espécie de papa ou sopa, e depois engolindo-a para armazená-la em seu próprio papo. No
início, a coisa lhe pareceu deliciosa, e começou a comer com vontade, mas depois de poucos
segundos perdeu a graça. Não conseguia compreender por quê. Mastigava e engolia rapidamente,
imitando o resto do esquadrão, mas era como se comessem um banquete de nada, ou como um
jantar no palco, representado. De certa forma, era como um pesadelo, no qual se continuava a
comer enormes quantidades de gororoba sem ser capaz de parar.

Uma procissão que ia e vinha circulava em torno da pilha de sementes. As formigas, depois de
encherem o papo até a borda, caminhavam de volta para a fortaleza, substituídas por uma procissão
de formigas vazias que vinham da mesma direção. Nunca apareciam formigas novas na procissão,
apenas aquela mesma dúzia indo e voltando, como fariam durante toda as suas vidas.

De repente, ele compreendeu que o que comia não ia para seu estômago. Uma pequena proporção
daquilo penetrara em seu ser privado no começo, mas agora o volume principal estava sendo
armazenado numa espécie de estômago superior, ou papo, de onde podia ser removido. Ocorreu-
lhe então que, quando entrasse na corrente que voltava, teria que vomitar a provisão em um balde


ou coisa parecida.

O esquadrão da papa conversava entre si enquanto trabalhava. No começo, achou que isso era um
bom sinal, e ficou atento para ouvir o que pudesse.

— Oh, Ark! — disse um deles. — Nuss ouviduss chega de novuss a canção da mamã-mamã-mamã.
Eu achuss essa canção mamã-mamã-mamã adorávelsss (Feita). E tão classudasss (Feita).
Outra observação:

— Eu achusss que nossa amada Líder é maravilhosa, concordasss?, Dizem que ela foi picada
maisss de trezentassss vezesss na última guerra, e recebeuss a Cruzzzz de Valor das Formigasss.
— Que sorte termusss nascidusss no formigueirusss "A", conrdassss? Não seria horrorosusss ser
uma dessassss horrorosassss "B"?
— Que coisa terrívelsss essa históriasss sobre 310099/WD! EU achusss que é clarusss que ela
foissss imediatamente executada, por ordem direta de nossa amada Líder.
— Oh, Ark! Aí vem de novusss aquela canção mamã-mamã-mamã. Eu achusss...
Dirigiu-se com o papo cheio para o ninho, deixando-as dar outra volta. Elas não tinham novidades,
nenhum escândalo, nada sobre o que conversar. Ali não aconteciam novidades. Mesmo as
observações sobre a execução eram feitas em fórmulas, e só variavam quanto ao número de
registro da criminosa. Quando terminavam com a mamã-mamã-mamã, voltavam para a amada
Líder, e depois para os imundos Barbaras B e para a última execução. E assim iam em círculo.
Mesmos as amadas, maravilhosas e coisas assim eram todas Feitas, e as horríveis eram Não-
Feitas.

O menino se viu no saguão da fortaleza, onde centenas e centenas de formigas estavam lambendo ou
se alimentando nas creches, carregando larvas para várias alas para conseguir uma temperatura
estável, e abrindo e fechando as passagens de ventilação. No meio, a Líder sentava-se
complacentemente, pondo ovos, ouvindo as transmissões, dando instruções ou ordenando
execuções, rodeada por um mar de adulação. (Mais tarde, ele aprendeu com Merlin que o método
de sucessão entre essas Líderes variava de acordo com as inerentes espécies de formiga. Nas
Bothriomyrmex,
por exemplo, a ambiciosa fundadora de uma Nova Ordem invadiria um
formigueiro de Tapinoma
e pularia nas costas da antiga tirana. Ali, disfarçada pelo cheiro da
invadida, lentamente cortava a cabeça da falecida, até ela mesma adquirir o direito à Liderança.)

Não havia nenhum balde para depositar a papa, afinal. Quando alguém queria uma refeição, o
parava, fazia que abrisse a boca, e se alimentava direto dali. Não o tratavam como pessoa e,
realmente, eram mesmo impessoais. Ele era um garçom-robô do qual os comedores-robôs se
alimentavam. Nem mesmo seu estômago era seu.

Mas não precisamos entrar em muitos detalhes sobre as formigas — não é um assunto agradável.
Basta dizer que o jovem continuou a viver entre elas, adaptando-se a seus hábitos, observando-as
de forma a compreender o mais que pudesse, mas incapaz de fazer perguntas. Isso não apenas
porque a linguagem delas não dispunha das palavras que interessavam aos humanos — seria
impossível
perguntar-lhes se acreditavam na Vida, na Liberdade e na Busca da Felicidade —, mas


também porque era perigoso fazer perguntas. Para elas, uma pergunta era sinal de insanidade. A
vida não era questionável: era dirigida. Ele rastejava do formigueiro para as sementes e depois de
volta, exclamava que a canção da mama era adorável, abria o papo para regurgitar, e tentava
compreender o mais que pudesse.

No meio da tarde, uma formiga exploradora zanzou pela ponte de palha que Merlin tinha ordenado
que ele fizesse. Era uma formiga exatamente da mesma espécie, mas veio do outro formigueiro. Foi
descoberta por uma das formigas coletoras e assassinada.

As irradiações mudaram depois dessa notícia ser divulgada — ou melhor, mudaram depois que
espiãs descobriram que o outro formigueiro tinha um bom estoque de sementes.

Mamã-mamã-mamã foi substituída por Terra das formigas, Terra das formigas acima de tudo, ea
corrente de ordens foi interrompida para dar lugar a palestras sobre a guerra, patriotismo ou sobre
a situação econômica. A voz frutada disse que sua amada pátria estava sendo cercada por uma
horda de imundos Outros-formigueiros, no que o coro irradiado cantava:

Quando o sangue de outros jorrarem das picadas
Então tudo estará bem para as companheiras amadas.


Também explicava que a Formiga-Antepassada ordenara em sua sabedoria que os covardes dos
Outros-formigueiros deveriam sempre ser escravos dos Deste-Formigueiro. A pátria amada
atualmente só contava com uma bandeja de alimentação — uma situação lamentável que tinha de
ser remediada para a raça eleita não perecer. Uma terceira declaração dizia que a propriedade
nacional Deste-Formigueiro estava ameaçada. Suas fronteiras prestes a serem violadas, seus
animais domésticos, os besouros, a serem seqüestrados, e seu estômago comunal a ser esvaziado.
Wart escutou com atenção duas dessas transmissões, para que pudesse lembrar bem depois.

A primeira estava arranjada da seguinte maneira:

A. Somos tão numerosos que estamos famintos.
B. Portanto, devemos encorajar famílias ainda maiores para que sejamos mais
numerosos e mais famintos.
C. Quando formos tão numerosos e famintos como devemos ser, obviamente teremos
o direito de tomar os estoques de sementes dos outros. Além do mais, teremos,
então, um exército numeroso e faminto.
Só depois que esse exercício de lógica foi posto em prática, e a produção dos viveiros triplicado

— ambos os formigueiros, nesse ínterim, recebendo de Merlin papa suficiente para todas as suas
necessidades, pois temos que admitir que nações famintas nunca parecem estar tão famintas que não
possam arranjar meios para adquirir armamentos muito mais caros do que as outras —, foi então

que o segundo tipo de conferência começou. Era assim que esta se desenrolava:

A. Somos mais numerosos que eles, portanto temos direito à sua papa.
B. Eles são mais numerosos que nós, portanto estão perversamente tentando roubar
nossa papa.
C. Somos uma raça poderosa e temos o direito natural de subjugar esses fracotes.
D. Eles são uma raça poderosa e, contra a natureza, estão tentando subjugar nossa
raça indefesa.
E. Temos que atacá-los como autodefesa.
F.Eles nos atacam ao se defenderem.
G. Se não atacarmos hoje, eles nos atacarão amanhã.
H. De qualquer forma, não estamos, de maneira alguma, atacando-os. Estamos lhes
oferecendo benefícios incalculáveis.
Depois desse segundo tipo de palestra começaram os serviços religiosos. Estes datavam — como
Wart descobriu mais tarde — de um passado tão fabuloso e antigo que dificilmente se poderia
datá-lo, um passado no qual as formigas ainda não tinham adotado o comunismo. Vinham de uma
época em que as formigas eram como os homens, e alguns desses serviços eram muito
impressionantes.

O salmo de um deles — começando, se relevarmos a diferença de linguagens, com as palavras bem
conhecidas, "A Terra e tudo que há nela é da Espada, até onde alcançam os bombardeiros e o que
lá bombardeiam" — terminava com a conclusão terrível: "Explodi vossas cabeças, O vós, Portões,
e sejam explodidas vós, Portas Eternas, para que o Rei da Glória possa entrar. E quem é o Rei da
Glória? Também o Senhor dos Fantasmas, Ele é o Rei da Glória".

Uma característica estranha é que as formigas comuns não se emocionavam com as canções, nem se
interessavam pelas palestras. Aceitavam tudo isso como fatos naturais. Para elas, eram rituais,
como as canções da mama ou as conversas sobre a Amada Líder. Não percebiam essas coisas
como boas ou más, excitantes, racionais ou terríveis. Não se importavam nadinha com elas, mas as
aceitavam como Feitas.

O tempo de guerra logo chegou. As preparações estavam prontas, os soldados treinados ao
máximo, as muralhas do formigueiro tinham slogans patrióticos pintados, como "Ferrões ou papa?"
ou "Consagro-me a vós, meu Cheiro", e Wart estava desesperado. As vozes que repetiam dentro de
sua cabeça, e que não podia desligar — a falta de privacidade, quando alguns comiam do seu
estômago e outros cantavam dentro do seu cérebro, o terrível vazio que substituía o sentimento, a
privação de todos salvo dois valores, a monotonia total mais do que a maldade: isso tudo começou
a matar a alegria de viver que pertencia à sua juventude.

Os terríveis exércitos estavam a ponto de entrar na batalha, para disputar as fronteiras imaginárias
entre suas placas de vidro, quando Merlin veio salvá-lo. Com um passe de mágica, colocou o
enfermo explorador do reino animal de volta à sua cama, e lá ele ficou, muito feliz por estar de


volta.



XIV


No outono todos se preparavam para o inverno. De noite, passavam o tempo salvando os
mosquitos-bernes das velas e candeeiros. Durante o dia, levavam as vacas para o restolho alto e as
ervas daninhas que sobraram depois da ceifa. Os porcos eram levados às clareiras da floresta,
onde os jovens batiam nas árvores para fazer as bolotas caírem. Cada um tinha uma tarefa diferente.
Do celeiro, chegava o invariável ritmo do mangual debulhando cereais; nos campos, os vagarosos e
tremendamente pesados arados de madeira sulcavam para cima e para baixo, para a cevada e o
trigo, enquanto os semeadores ritimadamente trabalhavam ao lado, com os alforjes pendurados nos
pescoços, atirando com a mão direita por sobre o pé esquerdo e vice-versa. Grupos de
forrageadores vinham atrás com carroças pesadas que enchiam com palhas, observando sabiamente
que tinham de:

Pôr as palhas em casa antes do verão acabar
Para o gado no estábulo nela se deitar.


Enquanto outros arrastavam lenha para as lareiras do castelo o ar da floresta vibrava com o som
das marretas e cunhas.

Todos estavam felizes. Vistos de certa forma, os saxões eram escravos de seus senhores normandos

— mas, se vistos de outra forma, eram como os trabalhadores agrícolas que hoje se viram com
alguns xelins por semana. Mas nem o aldeão nem o trabalhador agrícola passavam fome quando o
senhor era um homem como Sir Ector. Nunca foi boa política econômica para o proprietário de
gado deixar seu gado passar fome, então por que um proprietário de escravos faria isso com seus
escravos? A verdade é que até hoje o trabalhador agrícola resigna-se a receber tão pouco dinheiro
porque não tem que dar sua alma em troca, na barganha — como aconteceria na cidade —, e a
mesma liberdade de espírito se mantém no campo desde os primeiros tempos. Os aldeões eram
trabalhadores. Moravam na mesma choça de um único cômodo com suas famílias, algumas
galinhas, sujeira de porcos, ou com uma vaca possivelmente chamada Crumbocke — algo
realmente espantoso e não higiênico! Mas gostavam disso. Eram saudáveis, livres para respirar um
ar sem fumaça de fábrica e, o que era mais importante para todos eles, seus interesses pessoais

estavam ligados às suas habilidades no trabalho. Sabiam que Sir Ector tinha orgulho deles. Eram
mais valiosos para ele que seu próprio gado e, como ele valorizava seu gado mais que qualquer
coisa exceto os filhos, isso certamente significava muito. Ele caminhava e trabalhava ao lado de
seus aldeãos, pensava no seu bem-estar e distinguia o bom do mau trabalhador. De fato, era um
verdadeiro fazendeiro — uma dessas pessoas que parecia que pagavam ao trabalhador tantos xelins
por semana mas que, na verdade, pagavam mais da metade disso em horas extras voluntárias,
proporcionavam uma cabana grátis, e possivelmente davam presentes extras de leite e ovos e
cerveja caseira.

Em outras partes de Gramarye, é claro, existiam senhores déspotas e malvados — bandidos feudais
que o Rei Arthur teria por atino castigar —, mas o mal estava nas pessoas más que abusavam dele,
não no sistema feudal.

Sir Ector passava por essas atividades com expressão carrancuda, quando uma velha senhora, que
estava sentada na beira de um de seus campos de trigo para espantar as gralhas e os pombos,
levantou-se de repente a seu lado com um guincho terrível, ele pulou vários centímetros no ar.
Estava bem nervoso.

— Maldição! — disse Sir Ector. Depois, considerando o assunto com mais atenção, acrescentou
em voz alta e indignada — Esplendor de Deus!
Tirou a carta do bolso e a leu novamente.

O Suserano do Castelo da Floresta Sauvage era mais que um fazendeiro. Era um capitão militar,
pronto para organizar e liderar a defesa de suas terras contra os bandidos, e era também um
esportista que, quando tinha tempo, tirava um ou dois dias para participar de justas. Sir Ector era
também um M. F. H. — ou seja, Senhor de Cervos e de Cães de Caça — e caçava com sua própria
matilha. Clumsy, Trowneer, Phoebe, Colle, Gerland, Talbot, Luath, Luffra, Apollon, Orthros, Bran,
Gelert, Bounce, Boy, Lion, Bungey, Toby, Diamond e Cavall não eram cãezinhos de estimação.
Eram os Cães de Caça da Floresta Sauvage, sem apelação, duas vezes por semana a serviço,
caçando com seu Senhor.

Isso era o que a carta dizia, se a traduzirmos do latim:

Do Rei para Sir Ector etc.

Mandamos a vós William Twyti, nosso caçador, e seus companheiros, para caçar na
Floresta Sauvage com nossos cães de caça de javalis (canibus nostris porkericis),
para que capturem dois ou três javalis. Vós deveis fazer que a carne que
capturarem seja salgada e mantida em boas condições, mas as peles vós deveis
branqueá-las as que vos forem dadas, como o dito William vos dirá. E ordenamos
que proporcioneis o necessário a eles pelo tempo que estiverem convosco por
ordem minha, e o custo etc, deverá ser contado etc. Testemunhado na Torre de
Londres, 20 de novembro, no décimo segundo ano de nosso reinado.


UTHER PENDRAGON

Ora, a floresta pertencia ao Rei, que tinha todo o direito de mandar seus cães caçarem nela. Até
porque mantinha uma boa quantidade de bocas famintas — em sua corte e seu exército —, de forma
que era natural que desejasse o máximo de javalis, gamos, cabritos etc, para serem salgados
conforme possível.

O rei estava no seu direito. Mas isso não eliminava o fato de que Sir Ector via a floresta como sua
floresta, e se ressentia com a intrusão dos cães de caça reais — como se os seus não fossem
suficientemente bons! Bastava o Rei encomendar um par de javalis e ele ficaria feliz de oferecê-
los. Temia que suas reservas de caça fossem perturbadas por um bando de selvagens cortesãos —
nunca se sabe o que esses tipos da cidade são capazes de fazer —, e que o caçador do Reino, esse
tal de Twyti, zombasse de suas humildes instalações de caça, perturbasse os criados da caça e
talvez até mesmo interferisse na administração do seu canil. Na verdade, Sir Ector era tímido. E
havia outra coisa. Onde guardar esses cães de caça reais? Será que ele, Sir Ector, teria que deixar
ao relento seus próprios cães para poder colocar os do Rei em seu canil?

— Esplendor de Deus! — repetia, infeliz, o senhor. A coisa era tão ruim como pagar o dízimo.
Sir Ector enfiou a maldita carta no bolso e saiu da lavra batendo o pé. Os trabalhadores,
observando-o ir-se, comentaram alegremente:

— Nosso velho senhor parece que não sabe mais para onde ir. Era um detestável ato de tirania,
isso é o que era. Acontecia todos os anos, mas era isso mesmo. Sempre resolvia o problema do
canil da mesma maneira, mas ainda assim ficava preocupado. Teria que convidar especialmente
seus vizinhos para o encontro, para parecer o mais impressionante possível aos olhos do caçador
real, e isso significava ter que mandar mensageiros pela floresta até Sir Grummore etc. E teria que
mostrar a caça. O Rei tinha escrito cedo assim evidentemente pretendia enviar o sujeito logo no
começo da estação. A estação só começava no dia 25 de dezembro. O sujeito poderia mesmo
insistir num desses malditos encontros no dia depois do Natal — só exibição e nada de prático —,
com centenas de pessoas a pé gritando e espantando o javali e pisando as sementes e acabando por
perturbar a diversão. E como diabos ele iria saber, no começo de novembro, onde estariam os
melhores javalis na época do Natal? Com varas de javalis e porcos selvagens, você nunca sabia
onde é que estava. E outra coisa. O cão que seria usado no verão seguinte para a caça de cervos
sempre era iniciado no Natal, na caçada de javalis. Era, de fato, o começo do seu treinamento —
que passava por lebres e bichos menores, até a verdadeira presa —, e isso queria dizer que esse tal
de Twyti viria com uns filhotes que só serviriam para atrapalhar todo mundo.
— Diacho! — disse Sir Ector, e pisou num poço de lama. Ficou parado melancólico por ali,
observando seus dois jovens tentando agarrar as últimas folhas do outono. Não tinham saído
expressamente com essa intenção, e nem mesmo naqueles tempos distantes acreditavam realmente
que a cada folha apanhada correspondia a um mês feliz no ano seguinte. Só que, como o vento oeste
espalhava para longe as folhas douradas, estas pareciam fascinantes e difíceis de agarrar. E pelo
simples divertimento de agarrá-las, de gritar e rir e ficar tontos ao olharem para o alto, e disparar

para agarrar as criaturas que pareciam vivas ao girar para escapar, os dois saltavam como jovens
faunos no final do ano. O ombro de Wart já estava novamente bom.

O único tipo, refletiu Sir Ector, que realmente poderia ser útil para mostrar ao caçador real uma
caça realmente boa era esse tal de Robin Hood. Robin Wood, como parecia que o chamavam agora

— algum modismo da hora, com certeza. Mas Wood ou Hood, esse era o sujeito que saberia onde
encontrar um bom dentuço. Há meses ele andaria se banqueteando com as criaturas, disso não
duvidava, mesmo que estivessem fora da estação.
Mas dificilmente poderia pedir a um sujeito que fizesse uma caçada e não convidá-lo para a festa.
E o que diriam os caçadores do Rei e seus vizinhos se tivessem um guerrilheiro como colega
convidado? Não que esse Robin Wood fosse um mau sujeito: era um bom tipo e bom vizinho.
Muitas vezes dera dicas para Sir Ector quando um bando de invasores se aproximavam vindo dos
Pântanos, e nunca incomodou o cavaleiro nem sua propriedade de maneira alguma. E que importava
se caçasse um pouco de vez em quando? A floresta tinha seiscentos quilômetros quadrados, diziam,
e isso era suficiente para todos. Viver e deixar viver era o lema de Sir Ector. Mas isso não mudava

o pensar dos vizinhos.
Outra coisa era a confusão. Poderiam ser muito divertidas essas caçadas nas florestas praticamente
artificiais de Windsor, onde o Rei caçava, mas na Floresta Sauvage era coisa bem diferente.
Suponha que os famosos cães de caça reais disparem atrás de um unicórnio ou algo semelhante?
Todo mundo sabe que não se consegue agarrar um unicórnio sem uma donzela virgem como isca
(caso em que o unicórnio simplesmente repousaria sua cabeça branca e chifre de madrepérola no
colo dela), e assim os filhotes iam correr léguas e léguas pela floresta adentro sem alcançá-lo, e se
perderiam, e o que diria Sir Ector a seu soberano? E não eram apenas os unicórnios. Havia também
a Besta Gemente da qual todos tinham escutado falar muito. Se você tivesse a cabeça de uma
serpente, o corpo de um leopardo, os quadris de um leão e os pés de cervo e fizesse um ruído como

o de uma matilha de trinta pares de cães de caça, é de supor que uma boa quantidade de filhotes
reais seria destroçada antes que você caísse. E seria bem-feito. E o que diria o Rei Pellinore se o
Senhor William Twyti conseguisse realmente matar sua besta? Depois havia os pequenos dragões
que viviam debaixo das pedras e chiavam como chaleiras — bichos perigosos, muito perigosos
mesmo. Ou suponha que encontrassem um dos dragões bem grandes? E suponha que encontrassem
um grifo?
Sir Ector encarou essas alternativas melancolicamente por algum tempo, e depois começou a se
sentir melhor. Seria muito bom, concluiu, se o Senhor Twyti e seus cães detestáveis enfrentassem a
Besta Gemente, sim senhor, e fossem todos devorados por ela. Todos eles.

Animado com essa visão, deu a volta pelas bordas do campo e marchou para casa. Na cerca onde a
velha estava sentada para espantar gralhas, teve a sorte de ver alguns pombos se aproximando antes
que ela os visse ou vissem a ele, o que lhe deu oportunidade de soltar um grito tal que o fez sentir-
se recompensado pelo próprio pulo causado pelo susto que ela lhe dera. Afinal, iria ser uma noite
boa.

— Boa noite — disse Sir Ector, afável, quando a velha se recuperou o suficiente para lhe fazer uma
mesura.

Sentiu-se tão bem depois disso que chamou o pároco, quando ia pela metade da rua da aldeia, e o
convidou para jantar. Depois, subiu até o solário, que era sua câmara especial, e sentou-se
pesadamente para escrever uma mensagem submissa ao Rei Uther, durante as duas ou três horas que
lhe restavam antes da refeição. E levaria mesmo todo esse tempo, com todo o afiar das penas, o uso
excessivo de areia para apagar os borrões, o subir até o alto da escada para perguntar ao mordomo
como soletrar palavras, e o começar de novo se tivesse errado.

Sir Ector sentou-se no solário, enquanto a luz invernal lançava raios laranjas sobre sua cabeça
calva. Ficou garatujando e fazendo borrões, mordendo laboriosamente a ponta da pena enquanto a
câmara do castelo escurecia ao seu redor. Era tão grande quanto o saguão principal que estava
embaixo, e podia ter grandes janelas abertas para o sul porque estava no segundo andar. Havia
duas lareiras onde as toras cinzentas de madeira se avermelhavam com a retirada da luz solar. Em
volta, alguns de seus cães favoritos fungavam em sonhos, ou se cocavam atrás de pulgas, ou roíam
ossos de carneiro que arrastaram da cozinha. A falcoa peregrina, encapuzada, estava no poleiro do
canto, ídolo imóvel pensando em outros céus.

Se você fosse agora ao solário do Castelo Sauvage, o encontraria vazio de mobílias. Mas o sol
ainda fluiria por aquelas janelas de pedra com sessenta centímetros de espessura, e, quando
cruzasse os caixilhos de madeira, refletiria neles um vivo colorido de arenito — a cor ambarina do
tempo. Se você fosse ao antiquário mais próximo, poderia encontrar algumas boas imitações do
mobiliário que supostamente esteve ali. Seriam arcas de carvalho e armários com painéis góticos
com estranhas faces de homens ou anjos — ou demônios — esculpidas em preto, polidas com cera
negra, carcomidas e brilhantes, testemunhas sombrias da vida passada em sua solidez de caixão.
Mas a mobília do solário não era assim. As cabeças de demônios estavam lá, assim como o
drapejo esculpido nos painéis, mas a madeira seria seis, sete ou oito séculos mais nova. Portanto,
na luz cálida do pôr-do-sol, não eram apenas os caixilhos que tinham um brilho ambarino. Todas as
arcas sólidas da sala (que serviam para sentar quando se colocavam tapetes coloridos sobre elas)
eram de carvalho novo e dourado, e as bochechas dos demônios e querubins brilhavam como se
tivessem tomado um bom banho.


XV


Era noite de Natal, véspera do dia da grande caçada. Deve-se lembrar que isso acontecia na velha
Alegre Inglaterra de Gramarye, quando os barões rosados comiam com os dedos e faziam servir
faisões com todas as penas da cauda balançando, ou cabeças de javali com as presas enfiadas
novamente no assado — quando não havia desemprego porque havia poucas pessoas a empregar
—, quando a floresta retinia com cavaleiros batendo nos elmos uns dos outros, e os unicórnios
galopavam com seus pés prateados sob o luar invernal e sopravam seu hálito azul no ar gelado.
Tais maravilhas eram grandes e tranqüilizadoras. Mas na Velha Inglaterra havia ainda uma
maravilha maior. O clima se comportava.

Na primavera, as florzinhas obedientemente brotavam nos prados, o orvalho brilhava e os pássaros
cantavam. No verão, o tempo ficava maravilhosamente quente por pelo menos quatro meses e, se
chovia, era apenas o suficiente para as necessidades agrícolas, e eles davam um jeito de fazer que
só chovesse quando estivessem na cama. No outono, as folhas avermelhavam e sacudiam frente ao
vento oeste, temperando de glória seu triste adeus. E no inverno que legalmente se restringia a dois
meses, a neve caía regularmente, com um metro de altura, mas nunca virava lama.

Era noite de Natal no Castelo Sauvage e, ao redor do castelo a neve caía como devia cair. Pendia
pesadamente das muralhas como uma espessa cobertura sobre um bolo muito bom e, em alguns
lugares convenientes, transformava-se em claros pingentes de gelo do maior comprimento possível.
Pendurava-se nos galhos das árvores em bolas redondas, mais perfeitas que maçãs, e
ocasionalmente deslizava dos tetos da aldeia quando percebiam a oportunidade de cair sobre algum
tipo divertido e assim dar prazer a todos. Os rapazes faziam bolas de neve, mas nunca enfiavam
pedras para machucar os outros, e os cães, quando levados a passear, mordiam-nas e rolavam
nelas, e ficavam surpresos mas deliciados quando elas desapareciam nas camadas mais fundas.
Patinavam no fosso, que rugia com os ossos deslizantes usados como patins, e castanhas quentes e
ponche quente eram servidos nas margens para todo mundo. As corujas piavam. Os cozinheiros
jogavam muitas migalhas para os passarinhos. Os aldeãos usavam seus cachecóis vermelhos. O
rosto de Sir Ector brilhava ainda mais vermelho. E mais vermelhas que tudo brilhavam as lareiras
dos chalés acesas na rua principal, à noite, enquanto o vento uivava lá fora e os lobos da Velha
Inglaterra vagavam babando da forma adequada, ou às vezes espreitando pelos buracos de
fechadura com seus olhos sangüíneos.

Era noite de Natal e todas as coisas que deviam ser feitas tinham sido feitas. A aldeia inteira fora


cear no saguão. Havia cabeça de javali e carne de veado e porco e bife e carneiro e capões — mas
não peru, já que esse pássaro ainda não tinha sido inventado. Havia pudim de ameixas e passas que
deixavam as pontas dos dedos azuis, e quanto hidromel se desejasse. Havia se bebido à saúde de
Sir Ector com "O maior respeito, Senhor", ou "Com os melhores cumprimentos natalinos, meus
senhores e senhoras, e muitos". Houve murmúrios para se representar uma excitante história
dramática na qual São Jorge e um Sarraceno e um Doutor divertido faziam coisas surpreendentes, e
também um coro cantando "Adeste Fidelis" e "Canção da Donzela", com vozes altas e límpidas de
tenor. Depois disso as crianças que não tinham ficado enjoadas com o jantar brincaram de cabra-
cega e outros jogos adequados, enquanto os jovens e donzelas dançavam danças folclóricas no
meio, depois que removeram as mesas. Os velhos sentavam-se perto das paredes, segurando taças
de hidromel e sentindo-se felizes por terem passado da idade dessas brincadeiras, danças e pulos,
e as crianças que não tinham enjoado sentavam-se com eles e logo adormeciam, as pequenas
cabeças reclinadas sobre os ombros. Na mesa principal Sir Ector sentava-se com os cavaleiros
visitantes, que lá estavam para a caçada do dia seguinte, sorrindo e acenando e bebendo Borgonha
ou xerez ou vinho fortificado.

Depois de um tempo, pediu-se silêncio para ouvir Sir Grummore. Ele levantou-se e cantou a
canção da sua velha escola, entre grandes aplausos, mas esqueceu da maior parte da letra e teve
que ficar murmurando por trás do bigode. Depois, o Rei Pellinore foi cutucado e ficou de pé e
cantou timidamente:

Oh, nasci um Pellinore no famoso Lincolnshire, terra excelente.
E por mais de dezessete anos, cacei a Besta Gemente.
Até que amigo fiquei de Sir Grummore na melhor parte de um ano inclemente.
(Desde então) é meu prazer crescente
Numa cama de penas e mansamente
Dormir as noites em casa, minha gente.


— Sabem — explicou o Rei Pellinore, enrubescendo enquanto sentava-se com todos dando-lhe
palmadinhas nas costas —, o velho Grummore me convidou à sua casa, o quê?, depois de termos
feito uma boa justa juntos, e desde então deixei que minha Besta bestial morra por conta própria,
quê?
— Muito bem — disseram todos. — Vive-se a própria vida enquanto se pode.
William Twyti, que chegara na noite anterior, foi chamado, e o famoso caçador levantou-se com a
cara muito séria, e com os olhos vesgos fixos em Sir Ector, cantou:

Conhecem William Twyti
Com seu casaco ajustado?
Conhecem William Twyti
Que nunca chegou atrasado?



Sim, conheço William Twyti
Que devia ser amordaçado
Com seus cães e trompete mal tivesse chegado.


— Bravo! — gritou Sir Ector. — Ouviram só essa, hem? Disse que devia ser amordaçado, meu
caro amigo. Raios me partam se não pensei que ele ia se gabar quando começou. Bons sujeitos,
esses caçadores, não? Sirvam vinho para o Mestre Twyti, com meus cumprimentos.
Os meninos estavam agachados embaixo dos bancos, perto da lareira, Wart com Cavall em seus
braços. Cavall não gostava do calor e da gritaria e do cheiro de hidromel, e queria escapar, mas
Wart o segurou firme porque precisava de algo para abraçar, e assim Cavall foi obrigado a ficar,
arfando com a grande língua rosada de fora.

— Agora é a vez de Ralph Passelewe.
— O bom e velho Ralph.
— Quem matou a vaca, Ralph?
— Silêncio, por favor, para Mestre Passelewe falar.
Nesse instante, um velhote muito ágil levantou-se do canto mais distante e humilde do saguão, tal
como se levantara em todas as ocasiões semelhantes no último meio século. Tinha pelo menos
oitenta e cinco anos de idade, estava quase cego, quase surdo, mas ainda capaz e desejoso de
cantar com voz trêmula a mesma canção que cantara para deleite da Floresta Sauvage desde antes
de Sir Ector ser enrolado em uma espécie de faixa de linho, em seu berço. Não o escutavam na
mesa principal — estava longe demais no Tempo para ser capaz de fazer sua voz chegar ao outro
lado do salão —, mas todos conheciam o que a voz rachada cantava, e todos adoravam. Isto é o que
ele cantou:

Qua-quando o Velho Rei Cole pa-passeava na praça,
Vi-viu a be-bela dama p-pisando na po-poça
E-ela le-levantou a sa-saia
Pa-para p-por cinta pu-pular,
E aí e-ele viu se-seu to-tornozelo
Na-não foi uma lo-loucura?
Na-não pôde deixar de vê-lo. E-e ajudar.


A canção tinha uns vinte versos desse tipo, nos quais o pobre Rei Cole via cada vez mais coisas
que não deveria ver, e todos aplaudiam no final de cada estrofe até que, ao acabar, o velho Ralph
foi soterrado por congratulações e sentou-se sorrindo vagamente diante da taça reabastecida de
hidromel.

Chegara o momento de Sir Ector encerrar as manifestações. Levantou-se com imponência e


pronunciou o seguinte discurso:

— Amigos, rendeiros e outros. Desacostumado como sou de falar em público...
Houve um débil aplauso, pois todos reconheciam o discurso que Sir Ector fazia nos últimos vinte
anos, e o recebiam como a um irmão.

— ...Desacostumado como sou de falar em público, é meu prazeroso dever — poderia dizer que é
meu muito prazeroso dever — dar as boas-vindas a todos e a todo mundo presente a essa nossa
festa caseira. Foi um bom ano, e digo sem medo de contradição, tanto no pasto como no arado.
Todos sabemos que a vaca Cumbrocke da Floresta Sauvage ganhou o primeiro prêmio da Feira de
Gado de Cardoyle pela segunda vez: mais um ano e ficaremos de vez com essa taça. Mais poder
para a Floresta Sauvage. Agora que estamos sentados aqui esta noite, sinto a falta de alguns rostos
que partiram e de alguns novos que foram acrescentados ao círculo familiar. Esses assuntos estão
nas mãos da toda-poderosa Providência, pela qual todos nos sentimos gratos. Nós mesmos
primeiro fomos criados e depois poupados para nos juntarmos e desfrutarmos a festa desta noite.
Penso que devemos todos agradecer pelas bênçãos que nos foram dadas. Esta noite temos em nosso
seio o famoso Rei Pellinore, cujos labores para livrar nossa floresta da temível Besta Gemente são
conhecidos de todos. Deus abençoe o Rei Pellinore. (Viva, viva!) Também Sir Grummore
Grummursum, um esportista, e digo diante dele, que ficará plantado em sua sela enquanto sua Busca
não terminar. (Hurra!) Finalmente, por último, mas não em último lugar, estamos honrados pela
visita do mais famoso caçador de Sua Majestade, Mestre William Twyti, o qual nos mostrará, estou
certo, tanta esportividade amanhã que iremos esfregar os olhos e desejar que uma matilha de cães
reais possa sempre caçar na Floresta que todos nós amamos tanto. (Viva, viva, e várias imitações
de gritos de caça.) Obrigado, queridos amigos, pelas boas-vindas espontâneas que deram a esses
cavalheiros. Sei que eles irão aceitá-las com o espírito sincero e cálido do coração com que as
ofertamos. E agora é o momento em que devo encerrar minhas breves observações. Outro ano já
quase terminou e chegou a hora de olharmos para o futuro desafiador. Como será a Feira de Gado
do próximo ano? Amigos, só posso desejar a todos um Natal muito feliz e, depois do Padre
Sidebottom dar as graças em nome de todos, concluiremos cantando o Hino Nacional.
Os vivas que estouraram no final do discurso de Sir Ector foram abafados pelos psius, pois
abafavam o final das Graças que o vigário rezava em latim, e depois todos se levantaram e, à luz
do fogo, cantaram:

Deus salve o Rei Pendragon,
Possa seu reino ser longo,
Deus salve o Rei.
E que seja o mais glorioso,
Grande e soberbo,
Magnífico e estrondoso
Deus salve nosso Rei.



Apenas uma coisa era capaz de mexer com o Mestre William Twyti. Verão ou inverno, neve ou
sol, ele galopava e corria atrás de javalis e cervos, e todo o tempo sua alma estava em outro
lugar.

As últimas notas esmaeceram, o saguão esvaziou-se da jubilosa humanidade. As lanternas
faiscaram nas ruas da aldeia, enquanto todos voltavam para suas casas em grupos, temendo os
lobos do luar, e o Castelo da Floresta Sauvage adormeceu pacificamente e às escuras, no estranho
silêncio da neve sagrada.


XVI


Wart levantou cedo no dia seguinte. Fez um esforço deliberado no momento que acordou, jogou
para o lado a grande manta de pele de urso debaixo da qual dormia e mergulhou seu corpo no ar
gelado. Vestiu-se furiosamente, tremendo, dando pulos para se manter aquecido, soprando bafos
azuis em si mesmo como se estivesse cuidando de um cavalo. Quebrou o gelo de uma bacia e
mergulhou o rosto, fazendo caretas como se comesse algo amargo, disse ui-iiii
e esfregou
vigorosamente com uma toalha o rosto que picava. Então, já se sentia razoavelmente aquecido e foi
para os canis provisórios para ver os caçadores do Rei fazendo seus últimos ajustes. Visto à luz do
dia, o Mestre William Twyti parecia um homem enrugado, com olhar atormentado e uma expressão
melancólica no rosto. Durante toda sua vida fora obrigado a perseguir os mais variados animais
para a mesa real e, quando os caçava, a esquartejá-los corretamente. Era mais que um meio
açougueiro. Tinha que saber que partes os cães deviam comer e que partes dar a seus assistentes.
Tinha que cortar tudo bonito, deixando duas vértebras na cauda para fazer o lombo atraente, e
quase desde quando podia se lembrar tinha estado ou perseguindo um cervo ou cortando-o em
pedaços.

Não gostava particularmente de fazer isso. Os cervos e corças em manadas, os javalis isolados, as
cabeças das raposas, a opulência das martas, os bandos de cabritos-monteses, as famílias de
texugos e as alcatéias de lobos — todos eram vistos por ele mais ou menos como algo que se
esfolava ou estripava e depois levava para casa para cozinhar. Podia-se conversar com ele sobre
ossos e esporões, sebo e gordura, excrementos e estéreos deste ou daquele jeito, mas ele era
apenas educado. Sabia que você estaria apenas exibindo seus conhecimentos daquelas palavras
que, para ele, eram parte de seu ofício. Você poderia falar de um enorme javali que quase o
destroçara no inverno passado, e ele apenas o observaria com o olhar distante. Fora atingido
dezesseis vezes por grandes javalis, e suas pernas tinham vergões brancos e brilhantes que se
estendiam até o torso. Enquanto você falava, ele continuaria cuidando do trabalho que o ocupava no
momento. Apenas uma coisa era capaz de mexer com o Mestre William Twyti. Verão ou inverno,
neve ou sol, ele galopava e corria atrás de javalis e cervos, e todo o tempo sua alma estava em
outro lugar. Mas ao mencionar lebre
para o Mestre Twyti, ele podia continuar galopando atrás do
maldito cervo que parecia ser seu objetivo, mas teria um olho por cima do ombro procurando o
bicho. Era a única coisa sobre a qual falava. Estava sempre sendo enviado para um castelo e outro,
por toda a Inglaterra, e enquanto estivesse ali os súditos locais o festejavam e mantinham sua taça
cheia, e lhe perguntavam sobre suas grandes caçadas. Ele respondia distraído e com monossílabos.


Mas se alguém mencionasse um bando de lebres, imediatamente ficava atento, e então batia a taça
no tampo da mesa e começava a discursar sobre as maravilhas desse assombroso animal,
declarando que nunca se podia prever exatamente seu comportamento, pois a mesma lebre podia
uma hora ser macho e na outra fêmea, e se tinha gordura se consumia e se roía, coisas que nenhum
animal da terra fazia, exceto ela.

Wart observou o grande homem em silêncio durante algum tempo e depois entrou outra vez em casa
para ver se havia alguma esperança de desjejum. De fato havia, pois todo o castelo passava pelo
mesmo tipo de excitação nervosa que o tirara da cama tão cedo, e até Merlin se vestira com
calções que iriam virar moda séculos mais tarde entre os guardas de universidade.

A caçada
de javalis era divertida. Nada parecida com o desentocar de texugos ou com a caçada à
raposa de hoje. Talvez a coisa mais parecida seja a caçada a coelhos com furões — salvo que se
usavam cães em vez de furões; a caça, em vez de um coelho, era de um javali, que podia facilmente
matar você e, em vez de uma espingarda, se carregava uma lança para javalis da qual sua vida
dependia. Em geral, não se caçavam javalis a cavalo. Talvez a razão para isso fosse porque a
estação de caça de javalis acontecia nos dois meses de inverno, quando a neve da Velha Inglaterra
era bem capaz de se embolar sob os cascos dos cavalos e fazer do galope coisa bem perigosa. O
resultado era que você ficava a pé, armado apenas com a lança, contra um adversário que pesava
muito mais e que podia destripá-lo de cima a baixo e jogar sua cabeça por cima das ameias. Só
havia uma regra na caçada de javali: agüentar. Se o javali atacasse, você tinha que abaixar um
joelho e virar a ponta da lança na direção do bicho. Tinha que segurar o cabo da lança com a mão
direita, apoiando-o no chão para agüentar o choque, enquanto estendia ao máximo a mão esquerda
com a ponta na direção do javali que atacava. A lâmina era afiada como uma navalha, e tinha uma
guarda — barra horizontal — a uns quarenta e cinco centímetros da ponta. Essa guarda evitava que
a lança entrasse mais de quarenta e cinco centímetros no peito do animal. Sem a guarda, um javali
atacando poderia ter ímpeto para chegar até o final da lança, mesmo que esta o atravessasse, e ferir

o caçador. Mas com a guarda o bicho parava na distância da lança, com quarenta e cinco
centímetros de aço dentro dele. Era nessa situação que você tinha que agüentar.
O bicho pesava entre noventa e cento e oitenta quilos, e seu único objetivo na vida era grunhir, se
arremessar e esquivar até conseguir chegar a seu atacante e mastigá-lo em pedacinhos, enquanto o
único objetivo do atacante era não deixar a lança cair, prendendo-a firmemente embaixo do braço,
até que alguém viesse liquidar o bicho de vez. Se conseguisse manter firme sua ponta da lança,
sabia que havia pelo menos o comprimento da lança entre eles, não importa quanto o javali
conseguisse arrastá-lo pela floresta. Se você refletir sobre isso, vai compreender a razão pela qual
todos os esportistas do castelo se levantaram cedo para a caçada e tomaram seu desjejum com certa
dose de emoções abafadas.

— Ah — disse Sir Grummore, roendo a costeleta de porco que tinha entre os dedos -, baixou a
tempo para o desjejum, hein?
— Sim, baixei — disse Wart.
— Bela manhã para caçar — disse Sir Grummore. — Está com a lança afiada, hein?

— Sim, estou — disse Wart. E foi até o aparador pegar também uma costeleta.
— Vamos, Pellinore — disse Sir Ector. — Coma alguns desses franguinhos aqui. Você ainda não
comeu nada esta manhã.
O Rei Pellinore disse:

— Acho que não, obrigado de qualquer forma. Acho que não estou lá muito bem esta manhã, quê?
Sir Grummore tirou o nariz de perto da costeleta e perguntou de repente:
— Nervos?
— Oh, não — exclamou o Rei Pellinore. — Oh, realmente não é nada disso, quê? Acho que tomei
algo ontem à noite que entrou em desacordo comigo.
— Bobagem, meu caro amigo — disse Sir Ector —, aproveite e coma uns franguinhos para manter
a força.
Serviu dois ou três capões ao desafortunado rei, e este sentou-se miseravelmente na ponta da mesa,
tentando engolir uns pedacinhos.

— Vai precisar disso lá pelo final do dia, ouso dizer — disse Sir Grummore, com boa intenção.
— Acha que sim?
— Sei que sim — disse Sir Grummore, e piscou para seu hospedeiro.
Wart notou que Sir Ector e Sir Grummore comiam com apetite exagerado. Achou que ele mesmo
não conseguiria comer mais que uma costeleta e, quanto a Kay, este tinha ficado longe da sala de
desjejum.

Quando terminou o desjejum, e Mestre Twyti foi consultado, a cavalgada da caçada dirigiu-se para

o ponto de encontro. Talvez os cães de caça parecessem — aos olhos de um mestre de caça de hoje
— uma matilha muito heterogênea. Havia uma meia dúzia de alãos brancos e negros, que pareciam
galgos com cabeça de buli terriers ou coisa pior. Esses, que eram os cães de caça especiais para
javalis, estavam com focinheiras por causa de sua ferocidade. Os gaze-hounds,
dos quais havia
dois, caso fossem necessários, na verdade não eram mais que galgos, segundo a terminologia
moderna, enquanto os lymers
eram uma espécie de cruzamento do sabujo e do perdigueiro
encarnado de hoje. Estes últimos estavam com co-leiras e eram conduzidos com cordas. Os
brachets
eram como os beagles, e trotavam ao lado do dono da maneira como os beagles sempre
trotaram, e que é encantadora.
Com os cães de caça iam as pessoas a pé. Merlin, com seus calções de correr, parecia Lord Baden-
Powell, exceto, é claro, que este não tinha barba. Sir Ector estava vestido com roupas de couro
"sensatas", não era considerado esportivo caçar de armadura — e caminhava ao lado de Mestre
Twyti, com aquela expressão de enfado importante que sempre foi usada por mestres caçadores.
Sir Grummore, logo atrás, arfava e perguntava a todos se tinham afiado suas lanças. O Rei
Pellinore ficara atrás com os aldeãos, achando que havia mais segurança onde havia mais gente.
Todos os aldeãos estavam ali, todas as almas masculinas da propriedade, desde Hob, o falcoeiro,
até o velho Wat sem nariz, todos os homens carregando uma lança ou um forcado ou uma foice


presa em um pedaço grosso de pau. Até mesmo algumas das jovens namoradeiras tinham vindo,
com cestas de provisões para os homens. Era realmente uma grande caçada.

Na borda da floresta chegou o último participante. Era um homem alto e distinto, vestido de verde,
e trazia um arco de dois metros.

—Bom dia, Senhor — ele cumprimentou, afavelmente, Sir Ector.

— Ah, sim — disse Sir Ector. — Sim, sim, bom dia, hein? Sim, bom dia.
Sir Ector levou o cavalheiro de verde para um lado e disse num sussurro tão alto que podia ser
escutado por todos.

— Pelo amor de Deus, meu caro amigo, seja cuidadoso. Este é o próprio caçador do Rei, e aqueles
outros dois são o Rei Pellinore e Sir Grummore. E bom você ser um bom sujeito, meu caro amigo,
e não diga nada controverso, está bem, meu velho? Vai ser um bom sujeito?
— Claro que sim — disse o homem, tranqüilizando-o —, mas acho que seria melhor se fôssemos
apresentados.
Sir Ector enrubesceu profundamente e chamou:

— Ah, Grummore, venha até aqui um momento, sim? Quero lhe apresentar um amigo meu, velho
chapa, um chapa chamado Wood, velho chapa. Wood com W, sabe, não com H. Sim, e este é o Rei
Pellinore. Mestre Wood, Rei Pellinore.
— Salve — disse o Rei Pellinore, que realmente não abandonava o hábito de falar assim quando
estava nervoso.
— Como está? — disse Sir Grummore. — Não é parente do Robin Hood, suponho?
— Oh, não, por nada — interrompeu rapidamente Sir Ector. — Dabliu, dois os e de no final, sabe,
como essa coisa com que fazem mobília, sabe, e lanças, e — bem, você sabe — lanças e
mobílias{3}.
— Como está
passando? — disse Robin.
— Salve — disse o Rei Pellinore.
— Bem — disse Sir Grummore -, é engraçado que os dois se vistam de verde.
— Sim, é engraçado, não é? — disse Sir Ector, ansioso. — Ele usa verde como luto por uma tia
que morreu ao cair de uma árvore.
—Desculpe-me, por favor — disse Sir Grummore, agastado por ter tocado num assunto delicado, e
tudo ficou bem.

— Agora, então, Sr. Wood — disse Sir Ector quando se recuperou. — Onde vamos fazer a
primeira tentativa?
Logo que essa questão foi colocada, Mestre Twyti foi envolvido na conversa, e seguiu-se uma
breve confabulação na qual todo tipo de palavras técnicas, como "bostas", foram usadas. Depois


houve uma longa caminhada pela floresta invernal, e a diversão começou.

Wart já não tinha a sensação de pânico que atacara seu estômago quando comia seu desjejum. O
exercício e o vento gelado tinham lhe dado alento, e agora seus olhos brilhavam quase tanto quanto
os cristais de gelo sob a luz branca do sol de inverno, e seu sangue disparava com a excitação da
caçada. Observava o treinador de cães que segurava as correias dos dois sabujos, e viu os cães
puxarem cada vez mais à medida que o covil do javali se aproximava. Observava como, um a um
até chegar nos gaze-hounds
— que não caçam pelo cheiro —, os vários cães de caça ficavam
inquietos e começavam a ganir com desejo. Notou que Robin parara e pegara uma bosta, que
entregou para Mestre Twyti, e então toda a cavalgada fez alto. Tinham chegado ao local perigoso.

Até esse momento a caçada de javali era igual à caçada de filhotes, no sentido de que se procurava
encurralar o animal. O objetivo da caçada era matar o javali o mais rapidamente possível. Wart
assumiu sua posição no círculo ao redor da cova do monstro, dobrou um joelho na neve e apoiou a
base de sua lança no chão, preparado para qualquer emergência. Sentiu o silêncio que caiu sobre o
grupo e viu Mestre Twyti acenar silenciosamente para o tratador soltar os lymers.
Imediatamente,
os dois sabujos mergulharam no refugio cercado pelos caçadores. Os cães corriam em silêncio.

Passaram cinco longos minutos nos quais nada aconteceu. Os corações trovejavam no peito dos que
estavam no círculo, e uma pequena veia ao lado de cada pescoço pulsava em harmonia com cada
coração. As cabeças viravam, rápidas, de um lado para o outro, cada homem avaliando seus
vizinhos, e o sopro da vida corria docemente com o vento norte, e cada um compreendeu como era
bela a vida que, em poucos segundos, uma presa fedorenta poderia arrancar de um ou outro deles,
caso as coisas dessem errado.

O javali não expressou sua fúria com a voz. Não houve confusão no refúgio nem latidos dos
sabujos. Apenas, a uns noventa metros de onde estava Wart, de repente apareceu uma criatura negra
parada na margem da clareira. Nem parecia ser um javali, pelo menos nos primeiros segundos em
que ficou ali parada. Surgira rápido demais para se parecer com alguma coisa. E estava atacando
Sir Grummore antes que Wart reconhecesse o que era.

A coisa negra disparou na neve branca, levantando pequenos flocos. Sir Grummore — também
parecendo negro contra a neve — levantou mais flocos ao dar um salto rápido e virar-se. Um tipo
de grunhido, mas nenhum barulho de queda, chegou claramente trazido pelo vento norte, e o javali
desapareceu. Quando este sumiu, mas não antes, Wart soube algumas coisas acerca dele — coisas
que não teve tempo de notar enquanto o javali estava ali. Lembrou-se da espessa crina de pêlos
duros espetados nas costas afiladas, o vislumbre de uma presa amarelada, as costelas
proeminentes, a cabeça baixa, e a chama vermelha de um olho porcino.

Sir Grummore levantou-se incólume, sacudindo a neve e pondo a culpa em sua lança. Viam-se
algumas gotas de sangue congelando na terra branca. Mestre Twyti levou o trompete aos lábios.
Quando as primeiras e excitantes notas ecoaram pela floresta, os alões foram soltos e todo o grupo
começou a se mover. Os lymers
que tinham levantado o javali — a palavra correta para desentocá-
lo — continuaram a persegui-lo, para recompensá-los pelo trabalho. Os brachets
davam o tom
musical. Os alões galopavam latindo pela neve. Todos começaram a gritar e a correr.


— Eia, eia! — gritavam os aldeões. — Vamos, vamos! Avante, Sir, avante!
— Busca, busca! — gritava ansioso Mestre Twyti. — Vamos, vamos, senhores, dêem espaço para
os cães, por favor.
— Olhe, olhe! — gritou o Rei Pellinore. — Alguém viu para que lado o bicho foi? As as cy avaunt,
cy as avaunt, as cy avauntl
— Agüenta firme, Pellinore! — gritou Sir Ector. — Cuidado com os cães, cuidado com os cães!
Sozinho você não consegue pegá-lo, sabe disso. Il est hault. Il est haulú
Til est ho ecoavam todos. Tilly-ho cantavam as árvores. Tally-ho murmuravam os distantes bancos
de neve, enquanto os galhos pesados, perturbados pelas vibrações, deixavam cair silenciosos e
brilhantes flocos de neve sobre a terra fofa.

Wart se viu correndo junto do Mestre Twyti.

Num certo sentido era como caçar lebres, só que acontecia numa floresta onde às vezes até se
mover era difícil. Tudo dependia da música dos cães de caça e das várias notas que o mestre
caçador entoava para anunciar onde estava e o que fazia. Sem eles, o grupo se perderia em dois
minutos — e mesmo com eles, metade se perdeu em três minutos.

Wart colou-se a Twyti como um carrapicho. Era capaz de se movimentar com tanta rapidez quanto

o caçador porque, apesar de este ter toda uma vida de experiência, Wart era menor e passava mais
facilmente pelos obstáculos e, ademais, tinha recebido lições da Donzela Marian. Notou que Robin
também mantinha o passo, mas logo os resmungos de Sir Ector e os balidos do Rei Pellinore
ficaram para trás. Sir Grummore desistira logo, depois de perder quase todo o fôlego com o ataque
do javali, e ficou bem atrás declarando que sua lança já não devia estar bem afiada. Kay ficou com
ele, para que não se perdesse. Os aldeões a pé logo se extraviaram por não entenderem as notas do
trompete. Merlin tinha rasgado as calças e parou para consertá-las com magia.
O sargento tinha inchado tanto o peito gritando o chamado de caça e dizendo para as pessoas para
que lado deviam ir que perdera por completo o sentido de orientação e chefiava um bando
desconsolado de aldeãos, em fila indiana e passo acelerado, na direção errada. Hob ainda estava
correndo.

— Busca, busca! — arquejava o caçador, dirigindo-se a Wart como se este fosse um sabujo. —
Não tão rápido, mestre, estão se desalinhando.

No momento em que falava, Wart notou que a música dos cães estava mais fraca e queixosa.

— Parem — disse Robin — ou vamos cair em cima dele. A música parou.
— Busca, busca! — gritou Mestre Twyti a plenos pulmões. — Em linha, oh-oh, oh-oh! — Volteou
o talabarte para a frente e, levando o trompete aos lábios, começou a tocar para reunir os cães.
Respondeu uma única nota, de um dos lymers.
— Oh-oh. Arere. Para trás — gritou o caçador.
A nota do lymer cresceu em confiança, falhou e depois elevou-se num ladrar forte.

— Oh-oh para trás! Aqui, ho! Amigo. Escute o valente Beau-mont! Aqui, aqui, espere, espere,
espere.
O lymer foi interrompido pelos latidos em tenor dos brachets. O ruído foi crescendo com o
trovejar sedento de sangue dos alões cobrindo as notas mais baixas.

— Eles cercaram o bicho — disse Twyti rapidamente, e os três humanos começaram novamente a
correr, enquanto o caçador tocava tu-tu-tu-ru-ru em encorajamento.
O terrível javali estava encurralado num aglomerado de arbustos. Encontrara refúgio perto do
tronco de uma árvore derrubada por alguma ventania, numa posição inexpugnável. Estava na
defensiva, com o beiço superior contorcido no rosnado. O sangue do golpe de Sir Grummore
brotava espesso entre as cerdas do lombo e descia pela perna, enquanto a baba da queixada caía na
neve tingida de vermelho e a derretia. Os olhinhos dardejavam em todas as direções. Os cães
estavam ao redor, latindo na sua cara, e Beaumont, com a espinha quebrada, retorcia-se a seus pés.
Não prestava mais atenção alguma ao cão, que já não podia lhe fazer mal. Estava furioso, excitado
e sanguinário.

— Oh-oh! — exclamou o caçador.
Avançou com a lança em riste à frente, e os cães, encorajados pelo mestre, avançaram com ele,
passo a passo.

A cena mudou tão de repente como um castelo de cartas caindo. O javali já não estava encurralado,
mas atacando Mestre Twyti. Quando atacou, os alões se aproximaram, mordendo-o ferozmente no
ombro, pescoço ou perna, de forma que o que apareceu diante do caçador não era um javali, e sim
um amontoado de animais. Ele não ousava usar a lança com medo de atingir os cães. O amontoado
avançou sem freio, como se os cães não contassem para nada. Twyti reverteu a lança, esperando
conter o ataque com o cabo, mas no momento em que fazia isso a batalha desabou em cima dele.
Ele saltou para trás, tropeçou numa raiz e a batalha o soterrou. Wart saltava ao redor, tentando usar
sua lança em desespero, mas não encontrava um lugar onde se atrevesse a enfiá-la. Robin, no
mesmo movimento, jogou de lado sua lança e desembainhou a espada, meteu-se no meio dos
rosnados, e calmamente puxou um alão pela perna. O cão não se soltava, mas havia espaço onde
seu corpo estivera. E ali ele enfiou a espada vagarosamente uma, duas e três vezes. Toda a
superestrutura começou a desabar, se recuperou um pouco, desabou outra vez, e caiu pesadamente
pelo lado direito. A caçada terminara.

Mestre Twyti puxou vagarosamente uma perna debaixo do javali, levantou-se, segurou o joelho
com uma das mãos e o moveu com cuidado em várias direções, assentiu consigo mesmo e esticou
as costas. Depois pegou sua lança e, sem dizer nada, arrastou-se até Beaumont. Ajoelhou-se a seu
lado e colocou a cabeça do cão no colo. Acariciou-a e disse:

— Escutem o Beaumont. Devagarzinho, Beaumont, mon amy. Oyez à Beaumont, o Valente. Busca,
le douce Beaumont, busca, busca.
Beaumont lambeu sua mão, mas não conseguiu sacudir a cauda. O caçador acenou para Robin, que
estava de pé, atrás, e fixou seus olhos nos do cão.


— Bom cão, Beaumont, o Valente, durma agora, meu velho amigo Beaumont, meu bom e velho cão.
A espada de Robin guiou Beaumont para fora deste mundo, para que corresse livre com Orion e
rolasse pelas estrelas.

Por um instante, Wart não gostou de estar olhando Mestre Twyti. Aquele homem estranho e rijo
como couro levantou-se sem dizer nada e chicoteou os cães para que soltassem o corpo do javali,
como estava acostumado a fazer. Colocou o trompete nos lábios e soprou sem tremer as quatro
longas notas do mort. Mas estava tocando as notas por uma razão diferente, e surpreendeu Wart
porque parecia estar chorando.

O toque do trompete fez a maioria dos extraviados chegar no dedo tempo. Hob já estava lá e Sir
Ector chegou em seguida, afastando os galhos com sua lança de javali, cheio de importância e
gritando:

— Muito bem, Twyti. Esplêndida caçada, muito. Assim é que se caça uma besta selvagem, é o que
digo. Quanto pesa?
Os outros foram chegando em grupos, o Rei Pellinore saltando de um lado para o outro e gritando:

— Tally-ho! Tally-ho! Tally-ho! — ignorando que a caçada tinha terminado. Quando lhe
informaram isso, parou e disse, com voz débil. — Tally o quê? — e depois ficou em silêncio.
Até a fila indiana do sargento acabou chegando, ainda em marcha forçada, e parou na clareira
enquanto o sargento lhes explicava com grande satisfação que se não fosse por ele, todos estariam
perdidos. Merlin apareceu segurando os calções pois não conseguira ajeitá-los com sua mágica. Sir
Grummore chegou coxeando com Kay, dizendo que fora uma das melhores caçadas que já vira,
apesar de não ter visto nada, e então a tarefa de "desmanche" do açougueiro pôde ser feita como
deveria.

Aqui houve um pouco de excitação. O Rei Pellinore, que não passara muito bem o dia inteiro,
cometeu o erro fatal de perguntar quando os cães receberiam sua parte em carniça. Ora, como todos
sabem, a carniça é uma recompensa de entranhas etc. que é dada aos cães sobre a pele da besta
morta (sur le quir), e, como todo mundo sabe, um javali morto não é esfolado. É estripado sem que
a pele seja tirada, e já que não a pele não foi tirada, não pode haver carniça. Todos sabemos que os
cães são recompensados com um fouail, ou mistura de intestinos e pão cozidos sobre uma fogueira
e, é claro, o pobre Rei Pellinore usara a palavra errada.

Assim, o Rei Pellinore foi curvado por cima da animal morto, no meio de muitos hurras, e o
monarca, que protestava, recebeu uma boa pranchada com a lâmina da espada de Sir Ector. O Rei,
então, saiu vagando pela floresta murmurando:

— Vocês são um bando de cafajestes mal-educados.
O javali foi esquartejado, os cães recompensados, e os aldeões que estavam por ali de pé,
conversando em grupos, pois se sentassem na neve iam se molhar, comeram as provisões que as
jovens tinham levado em cestos. Um pequeno barril de vinho, providencial-mente enviado por Sir
Ector, foi aberto, e todos puderam se servir. Os pés do javali foram atados, um pau enfiado entre
eles e dois homens levantaram o bicho nos ombros. William Twyti ficou atrás, e cortesmente


menosprezou a presa.

Nesse instante o Rei Pellinore reapareceu. Antes mesmo que o vissem, puderam escutar suas
pisadas nos galhos e os gritos:

— Vejam, vejam! Venham logo. Aconteceu uma coisa terrível! Surgiu dramaticamente na beira da
clareira, no momento em que sacudia um galho cuja carga era muito pesada e despejou quilos de
neve em sua cabeça. O Rei Pellinore nem prestou atenção. Saiu debaixo do monte de neve como se
não tivesse notado nada, ainda gritando:
— Olhem, olhem!
— O que é, Pellinore? — gritou Sir Ector.
— Oh, venham rápido! — gritou o Rei, e virando-se distraído, sumiu novamente na floresta.
— Será que ele está bem, você acha? — inquiriu Sir Ector.
— Temperamento excitável — disse Sir Grummore. — Muito.
— Melhor segui-lo e ver o que está fazendo.
O cortejo afastou-se lentamente na direção do Rei Pellinore, seguindo o rumo errático das pegadas
frescas na neve.

Não estavam preparados para o espetáculo que encontraram. No meio de uma moita de tojo morto
estava sentado o Rei Pellinore, com lágrimas escorrendo pelo rosto. No colo, tinha uma enorme
cabeça de serpente, que ele acariciava. Na outra ponta da cabeça de serpente havia um corpo
comprido e magro, amarelo e com manchas. No final do corpo havia umas coxas de leão que
terminavam nos cascos fendidos de um cervo.

— Pronto, pronto — dizia o Rei. — Eu não ia deixar você de vez. Era só porque queria dormir
numa cama de penas, só um pouquinho. Já estava voltando, honestamente que estava. Oh, por favor
não morra, Besta, e não me deixe sem um pouco do seu excremento.
Quando viu Sir Ector, o Rei assumiu o controle da situação. O desespero lhe deu autoridade.

— Ora vamos, Ector — exclamou. — Não fique aí parado como um bobo. Traga logo para cá
aquele barril de vinho.
Trouxeram o barril e deram um gole generoso para a Besta Gemente.

— Pobre criatura — disse, indignado, o Rei Pellinore. — Definhou, positivamente definhou de
desgosto porque ninguém se interessou mais por ela. Como pude ficar todo esse tempo com Sir
Grummore, sem nunca pensar na minha velha besta, é algo que realmente não sei como aconteceu.
Olhem estas costelas, vejam. Parecem as argolas de um barril. E deitada aí sozinha na neve, quase
sem vontade de viver.Vamos, Besta, veja se pode tomar outro gole disto. Vai lhe fazer bem.
— Esparramando-me num colchão de penas — acrescentou o monarca com remorso, olhando para
Sir Grummore — como... como um rim!
— Mas como... como você encontrou isso? — gaguejou Sir Grummore.

— Desabei em cima. E nada tenho que agradecer a vocês. Correndo como um bando de paspalhões
e batendo uns nos outros com as espadas. Topei com a besta aqui nesta moita de tojo, com neve acobrir-lhe todas as costas e lágrimas nos olhos e ninguém que cuidasse dela nesse mundo enorme. É
o que acontece quando não se leva uma vida regular. Antes, estava tudo bem. Levantávamos na
mesma hora, fazíamos a busca em horas regulares e íamos para a cama às dez e meia. Agora, vejam
só! Está completamente destroçada e será culpa sua se ela morrer. Sua e de sua cama.
— Mas Pellinore! — disse Sir Grummore.
— Cale a boca — respondeu de imediato o Rei. — Não fique aí balindo como um idiota, homem.
Faça alguma coisa. Ache outra vara para que possamos levar a velha Gemente até a casa. Vamos,
Ector, perdeu o juízo? Temos que levá-la para casa e colocá-la diante do fogo da cozinha. Mande
alguém preparar pão e leite. E quanto a você, Twyti, ou seja lá como queira se chamar, pare de
brincar com esse trompete e corra na frente para preparar alguns cobertores aquecidos.
— Quando chegarmos em casa — concluiu o Rei Pellinore —, a primeira coisa que faremos será
lhe dar uma refeição nutritiva, e então, se já estiver bem pela manhã, vou lhe dar umas duas horas
de vantagem e, depois, a viver novamente a velha vida. Que tal isso, Gemente, o quê? Venha cá,
Robin Hood ou seja lá quem você for — pode achar que eu não sei, mas eu sei —, pare de ficar
apoiado nesse arco com esse olhar de pedaço de pau negligente. Mexa-se, homem, e chame esse
sargento cheio de músculos para ajudá-lo a carregar a Besta. Vamos, vamos, levantem devagar.
Vamos, seus engraçadinhos, e cuidado para não tropeçar. Camas de penas e carniças, realmente.
Muita infantilidade. Vamos, avancem, prossigam, passo adiante, marchem! Cabeças tontas é o que
eu digo.
— E quanto a você, Grummore — acrescentou o Rei, mesmo depois de ter concluído —, pode se
enrolar na sua cama e se sufocar por lá.

XVII


— Acho que já é tempo — disse Merlin, olhando-o uma tarde por cima dos óculos — de você ter
outra dose de educação. Isto é, o Tempo passa.
Era uma tarde no começo da primavera e tudo o que se via da janela parecia belo. O manto do
inverno desaparecera, levando consigo Sir Grummore, Mestre Twyti, Rei Pellinore e a Besta
Gemente, esta tendo ressuscitado graças à influência dos bons cuidados e de pão e leite. Saltara
para a neve com todos os sinais de gratidão, para ser seguida, duas horas mais tarde, pelo excitado
Rei, e os observadores da muralha puderam ver como ela confundiu suas pegadas na neve de
maneira muito engenhosa, ao alcançar os limites da floresta. Corria para trás, dava saltos de meio
metro para o lado, apagando as pegadas com a cauda, trepando em ramos horizontais e executando
outros truques com satisfação evidente. Também viram o Rei Pellinore — que obedientemente tinha
ficado com os olhos fechados e contado até dez mil enquanto isso tudo acontecia — ficar muito
confuso quando chegou ao ponto difícil e, finalmente, galopar na direção errada arrastando o cão
atrás de si. Era uma tarde adorável. Pela janela da sala de aula, os lariços da floresta distante já
tinham atingido todo seu verdor resplandecente, a terra faiscava e inchava com milhões de gotas, e
todos os pássaros do mundo voltavam para casa para namorar e cantar. No final da tarde, os
aldeãos iam para suas hortas plantar feijões, e parecia que, com todas essas ocorrências, e com as
lesmas (coincidentemente com os feijões), os brotos, os carneiros e os pássaros, todas as coisas
vivas tinham conspirado para aparecer.

— O que você gostaria de ser? — perguntou Merlin.
Wart olhou pela janela, escutando o canto dobrado dos tordos no sereno.

— Uma vez já fui pássaro, mas apenas na gaiola, e nunca tive oportunidade de voar — disse. —
Ainda que não se deva ter a mesma educação duas vezes, você não acha que eu poderia ser um
pássaro para aprender isso?

Ele fora pego pela mania de pássaros que ataca as pessoas sensíveis na primavera, e que às vezes
leva até a excessos, como fazer criação de pássaros.

— Não vejo nenhuma razão porque não — disse o mágico. — Por que não tentar isso hoje à noite?
— Mas os pássaros dormem de noite.
— É a melhor oportunidade para observá-los sem que saiam voando. Você poderia ir com

Arquimedes esta noite, e ele lhe contaria sobre eles.

— Você iria comigo, Arquimedes?
— Adoraria — disse a coruja. — Estou mesmo querendo dar um passeio.
— Você sabe porque os pássaros cantam, ou como? — perguntou Wart, pensando no tordo. — É
uma linguagem?
— Claro que é uma linguagem. Não é uma grande linguagem como a fala humana, mas é extensa.
— Gilbert White observa, ou vai observar, como você queira colocar — disse Merlin —, que "a
linguagem dos pássaros é muito antiga e, como outras formas antigas de falar, pouco é dito, mas
muito é sugerido". Ele também diz em algum lugar que "as gralhas, na estação de reprodução, às
vezes tentam cantar, na alegria de seus corações, mas sem grande sucesso".
— Gosto das gralhas — disse Wart. — É engraçado, mas acho que são meus pássaros favoritos.
— Por quê? — perguntou Arquimedes.
— Bem, gosto delas. Gosto da sua insolência.
— Pais negligentes, filhos atrevidos e insolentes — citou Merlin, que estava com espírito de
professor.
— É verdade — disse Arquimedes, refletindo — que todos os corvídeos têm um senso de humor
distorcido.
Wart explicou:

— Adoro a maneira como elas gostam de voar. Não voam simplesmente, como os outros pássaros,
mas voam com prazer. É adorável vê-las voar em bando de volta ao ninho, à noite, todas alegres e
mexendo umas com as outras de maneira rude. As vezes viram de costas e desabam, só para
parecer ridículas, ou então porque se esqueceram de que estão voando e começam a se coçar com
força para se livrar das pulgas, sem pensar.
— São pássaros inteligentes, a despeito do humor rasteiro. — disse Arquimedes. — São pássaros
que têm parlamentos, sabe, e um sistema social.
— Quer dizer que têm leis?
— Claro que têm leis. Elas se reúnem no outono, num campo, para debater o assunto.
— Que tipo de leis?
— Ah, bem, leis sobre a defesa da ninhada, casamento e coisas assim. Não é permitido casar fora
da ninhada e, se uma perde o sendo da decência, e traz uma virgem preta de uma comunidade
vizinha, todo mundo se reúne para destruir seu ninho tão logo seja construído. Mandam o
transgressor para os subúrbios, sabe, e é por isso que todo bando de gralhas têm ninhos espalhados,
várias árvores distantes.
— Outra coisa de que gosto nelas é sua disposição — disse Wart. — Podem ser ladras e
brincalhonas, e brigam e maltratam umas às outras e se provocam aos gritos, mas têm a coragem de

atacar os inimigos em chusma. Acho que é preciso coragem para atacar uma águia, mesmo estando
em bando. E mesmo quando estão nisso, fazem palhaçadas.

— São uma chusma — disse Arquimedes, com soberba. — Você disse a palavra certa.
— Bem, pelo menos é uma chusma de pândegos — disse Wart —, e eu gosto delas.
— E qual é o seu pássaro favorito, Archimedes? — Merlin perguntou educadamente, para manter a
paz.
A coruja pensou um pouco sobre o assunto e depois disse:

— Bem, é um pergunta complicada. É um pouco como perguntar qual o seu livro preferido. No
geral, contudo, acho que devo preferir o pombo.
— Para comer?
— Estava deixando de fora esse aspecto — disse a coruja em tom civilizado. — Na verdade, o
pombo é o prato favorito de todos os predadores grandes o suficiente para pegá-los, mas eu
pensava apenas nos hábitos domésticos.
— Descreva-os.
— O pombo é uma espécie de Quaker — disse Arquimedes. — Veste-se de cinza. Filho amoroso,
amante fiel, pai prudente e sabe, como todos os filósofos, que a mão do homem está contra si.
Aprendeu durante séculos a arte de escapar. Nenhum pombo jamais cometeu um ato de agressão ou
se voltou contra seus perseguidores: mas nenhum outro pássaro, da mesma maneira, tem tantas
habilidades escapar. Aprendeu a pular de uma árvore do lado contrário ao homem e a voar tão
baixo para que haja uma sebe entre eles. Nenhum outro pássaro consegue estimar tão bem as
distâncias. Vigilante empoado, oloroso, de penas frouxas — o que faz os cães não gostarem de tê-
los na boca — e protegidos contra o chumbo por essas mesmas penas, os pombos arrumam uns para
os outros com verdadeiro amor, alimentam com
muita solicitude seus filhos habilmente escondidos,
e fogem dos agressores com verdadeira filosofia — uma raça de amantes da paz em permanentes
caravanas em vagões com toldos para fugir dos índios. São individualistas adoráveis que
sobrevivem às forças do massacre apenas com a sabedoria da fuga.
— Sabe que um casal de pombos sempre se empoleira de costas um para o outro, para que possam
vigiar nas duas direções? — acrescentou Arquimedes.
— Sei que nossos pombos domésticos fazem assim — disse Wart. — Acho que a razão por que as
pessoas estão sempre tentando matá-los é que eles são muito gananciosos. O que eu gosto nos
pombos selvagens é como batem as asas, como sobem e fecham as asas e mergulham, em seus vôos
de namoro, e até parecem voar como pica-paus.
— Não parecem muito com os pica-paus — disse Merlin.
— Não, não parecem — admitiu Wart.
— E qual o seu pássaro favorito? — perguntou Arquimedes, considerando que se deveria permitir
ao mestre a ocasião para se manifestar.

Merlin juntou os dedos como Sherlock Holmes e respondeu imediatamente.

— Prefiro o tentilhão. Meu amigo Lineu o chama de coeleb
ou pássaro solteiro. O bando tem o bom
senso de se separar no inverno, ficando todos os machos em um bando e todas as fêmeas em outro.
Assim, pelo menos nos meses de inverno, reina a perfeita paz entre eles.
— A conversa surgiu a partir da questão de se os pássaros podiam falar — observou Arquimedes.
— Outro amigo meu sustenta, ou irá sustentar — disse Merlin imediatamente, na sua voz mais
doutoral —, que a questão da linguagem dos pássaros parte da imitação. Aristóteles, você sabe,
também atribui a tragédia à imitação.
Arquimedes suspirou profundamente e observou em tom profético:

— E melhor mesmo você tirar isso do peito.
— É assim — disse Merlin. — O gavião-peneira, ou seu primo gavião-quiriquiri, mergulha sobre
um rato, e o pobre rato, trespassado pelas garras aguçadas, solta sua agonia em um só grito de
quíiiii!
Da próxima vez que o gavião vê um rato, sua própria alma grita quiii
em imitação. Outro
gavião, talvez sua própria companheira, atende a esse grito, e depois de alguns milhões de anos
todos os gaviões-peneiras chamam uns aos outros com seu grito individual de quii-quíii.
— Você não pode construir toda essa história a partir de um pássaro — disse Wart.
— Nem quero. Os falcões gritam como suas presas. O pato selvagem grasna como os sapos que
come, e os picanços também, como criaturas em desespero. Os melros e os tordos fazem um
estalido como as cascas de caracol que despedaçam. Os vários tentilhões fazem o ruído de
sementes quebrando e o pica-pau imita o bater na madeira que faz para tirar os insetos que come.
— Mas nenhum pássaro canta apenas uma nota!
— Não, claro que não. Os cantos de chamada surgem com a imitação, e depois os vários cantos de
pássaros se desenvolvem subindo e descendo a partir disso.
— Percebo — disse Arquimedes, friamente. — E quanto a mim?
— Bem, você sabe perfeitamente — disse Merlin — que o munsaranho sobre o qual vocês pulam
grita kwiik!
É por isso que os filhotes seus se chamam Kee-wick.
— E os velhos? — perguntou, sarcástico, Arquimedes.
— RUUU,
ruuu
— gritou Merlin, recusando-se a ceder. — É óbvio caro amigo. Depois de seu
primeiro inverno, é assim que faz o vento nas árvores ocas onde preferem dormir.
— Percebo — disse Arquimedes, mais friamente que nunca. — Desta vez, note-se, não se trata de
uma questão de presas.
— Ora, vamos — respondeu Merlin. — Existem outras coisas além daquilo que você come. Até
mesmo os pássaros de vez em quando bebem, por exemplo, ou se banham na água. São as notas
líquidas de um rio que escutamos no cantar de um papo-roxo.
— Parece então — disse Arquimedes — que não se trata apenas do que comemos, mas também do
que bebemos ou escutamos.

— E por que não?
A coruja disse resignadamente:
— Oh, bem.
— Acho a idéia interessante — disse Wart para encorajar seu tutor. — Mas como é que surge uma
linguagem a partir dessas imitações?
— No começo, eles repetem — disse Merlin —, e depois fazem variações. Vocês parecem não
perceber quanto significado reside no tom e na velocidade da voz. Suponha que eu diga "que belo
dia" assim simplesmente. Vocês responderiam, "sim, é mesmo". Mas seu eu dissesse, "que belo
dia" em um tom carinhoso, vocês poderiam me considerar uma pessoa simpática. Mas, de novo, se
eu dissesse "que belo dia", perdendo o fôlego, vocês poderiam procurar ver que bicho me mordeu
e me assustou. Foi assim que os pássaros desenvolveram sua linguagem.
Você se importaria em nos contar, já que sabe tanto sobre o assunto — disse Arquimedes —,
quantas coisas variadas nós pássaros somos capazes de expressar alterando a velocidade e a ênfase
das emissões de nossas notas de chamada?

— Ora, uma quantidade enorme de coisas. Você pode cantar kwiik
num tom carinhoso, se estiver
apaixonado, ou kwiik
com raiva, como desafio ou ódio. Pode cantar numa escala crescente, como
um grito de chamada, se não souber onde está seu parceiro, ou para chamar a atenção deste se
estranhos estiverem por perto do ninho. Ao se aproximar do velho ninho durante o inverno pode
cantar kwiik
apaixonadamente, um reflexo condicionado dos prazeres que já desfrutou lá dentro, e
se eu me aproximar de repente, você pode gritar kwiik-kwiik-kwiik
como um alarme sonoro.
— Para falar sobre reflexos condicionados — falou Arquimedes, azedo —, prefiro olhar para os
ratos.
— E pode. E quando encontrar um, posso afirmar que você vai fazer outro som característico das
corujas, embora nem sempre mencionado nos livros de ornitologia. Refiro-me ao ruído tak
ou tsi,
que os seres humanos chamam de estalar os lábios.
— E o que se supõe que esse som imita?
— Obviamente o ruído dos ossos do rato quebrando-se.
— Você é um professor esperto — disse Arquimedes —, e quanto ao que diz respeito às pobres
corujas, vamos deixar morrer o assunto. Tudo o que posso dizer a partir de minha experiência
pessoal é que a coisa não é bem assim. O chapim pode dizer não apenas que está em perigo, mas
também qual o tipo de perigo. Pode dizer "Cuidado com o gato", ou "Olha lá o falcão", ou
"Cuidado com a coruja marrom" tão claramente como o ABC.
— Não nego isso — disse Merlin. — Só estou falando sobre as origens da linguagem. Suponha que
você tente me dizer qual a canção de algum pássaro que não tenha sido originalmente uma
imitação?
— O bacurau — disse Wart.

— O zumbido das asas das abelhas — respondeu imediatamente seu tutor.
— O rouxinol — gritou Arquimedes, desesperado.
— Ah — disse Merlin, reclinando-se em sua confortável poltrona —, agora devemos imitar o canto
da alma de nossa adorada Proserpina, espreguiçando-se para despertar em sua essência líquida.
— Tiriu — disse Wart, suavemente.
— Piiu — acrescentou, baixinho, a coruja.
— Música! — concluiu o necromante em êxtase, incapaz de sequer começar uma pequena imitação.
— Olá — disse Kay abrindo a porta da sala de aula. — Desculpem o atraso para a aula de
geografia. Estava tentando flechar alguns passarinhos com minha besta. Olhem, flechei um tordo.

XVIII


Wart estava deitado, mas desperto como lhe fora dito que ficasse. Tinha que esperar até Kay
adormecer, e então Arquimedes iria lhe levar a magia de Merlin. Estava deitado debaixo da grande
manta de pele de urso e olhava pelas janelas as estrelas da primavera, já não geladas e metálicas,
mas como se tivessem sido recém-lavadas e inchado com a umidade. Era uma noite adorável, sem
chuva ou nuvens. O céu entre as estrelas era do veludo mais profundo e carregado. Emolduradas
pela grossa janela oeste, Alderbarã e Betelgeuse competiam com Sírio acima do horizonte, a
estrela-cão-de-caça olhava para seu mestre Orion, que ainda não se erguera no horizonte. Pela
janela entrava também a fragrância das flores que desabrochavam, pois as groselhas e cerejas
selvagens, as ameixas e o pilriteiro já tinham florescido, e não menos que cinco rouxinóis
disputavam um concurso de beleza ao alcance do ouvido perto do caramanchão e das árvores que
assomavam.

Wart estava deitado de costas, com a pele de urso meio jogada Para o lado e as mãos cruzadas
atrás da cabeça. Estava bonito demais para que dormisse, e temperado demais para a coberta.
Observava as estrelas numa espécie de transe. Logo já seria verão, quando poderia dormir nas
ameias e observar as estrelas flutuando tão perto do seu rosto como se fossem mariposas — e, pelo
menos na Via Láctea, como se fossem pólen de mariposas. Ao mesmo tempo, estariam tão distantes
que pensamentos inexprimíveis de espaço e eternidade se embaralhariam no seu peito anelante, e
ele se imaginaria caindo cada vez mais para cima entre elas, nunca as alcançando, nunca chegando
ao fim, tudo deixando e perdendo na velocidade tranqüila do espaço.

Dormia a sono solto quando Arquimedes veio chamá-lo.

— Coma isso — disse a coruja, e entregou-lhe um rato morto.
Wart sentia-se tão estranho que pegou a coisa peluda sem protestos e a atirou na boca sem nenhum
pressentimento de que seria desagradável. Assim, não se surpreendeu quando o bocado revelou-se
excelente, com um gosto frutado, como se estivesse comendo um pêssego com a casca, ainda que,
naturalmente, a casca do pêssego não fosse tão saborosa como a do rato.

— Agora é melhor sairmos voando — disse a coruja. — Basta dar um pulo até o peitoril da janela,
para que se acostume antes de decolarmos.
Wart pulou para o peitoril e automaticamente deu um impulso extra com suas asas, tal como quem
salta sacode os braços. Aterrissou no peitoril com um baque, como as corujas costumam fazer, não


conseguiu parar a tempo e tropeçou direto para fora da janela.

"Assim", pensou alegremente consigo mesmo, "é que acabo quebrando meu pescoço".

Era curioso, mas não estava levando a vida seriamente. Percebeu as muralhas do castelo passando
como um raio por ele, e o chão e o fosso como se nadando para cima. Balançou as asas e o chão
afundou novamente, como a água escorrendo por um vazamento. Em um segundo aquela batida das
asas perdeu o efeito, e o chão começou a subir de novo. Bateu novamente as asas. Era estranho
avançar assim, com a terra subindo e descendo debaixo dele, no profundo silêncio de suas asas de
penugem franjada.

— Pelo amor de Deus — ofegou Arquimedes, balançando no escuro a seu lado —, para de voar
como um pica-pau. Qualquer um podia confundi-lo com uma corujinha-buraqueira, se essas
criaturas já tivessem sido importadas. O que você está fazendo é acelerar a velocidade de vôo com
uma batida da asa. Com essa batida você sobe, mas depois perde a velocidade de vôo e começar aentrar em estol. Então, você dá outra batida e reverte a queda, subindo de novo. É uma confusão se
manter ao seu lado.
— Bem — disse Wart, descuidado —, se parar de fazer isso vou me esborrachar de uma vez.
— Idiota — disse a coruja. — Balance as asas lentamente o tempo todo, como eu, em vez de ficar
dando esses pulos com elas.
Wart fez o que lhe foi dito e ficou surpreso ao descobrir que a terra ficara estável e se movia por
baixo dele sem oscilação, numa passada regular. Nem sentia que estava se movendo.

— Assim é melhor.
— Como tudo parece estranho — observou o menino com algum espanto, agora que tinha tempo de
olhar ao redor.
E, realmente, o mundo parecia estranho. De certa forma, a melhor descrição seria dizer que se
parecia com o negativo de uma fotografia, pois ele via um raio além do espectro visível aos olhos
humanos. Uma câmara infravermelha tira fotografias no escuro, quando não podemos ver, e também
tira fotografias à luz do dia. As corujas são assim, portanto não é verdade que só possam ver de
noite. Vêem igualmente bem de dia, só que têm a vantagem de também enxergar bastante bem à
noite. Assim, preferem naturalmente caçar nessas horas, quando as outras criaturas estão mais à sua
mercê. Para Wart, as árvores verdes pareceriam esbranquiçadas à luz do dia, como se estivessem
cobertas com a florescência de maçãs, e agora, à noite, tudo tinha o mesmo tipo diferente de
aparência. Era como voar no lusco-fusco que reduzia tudo a sombras da mesma cor, e, tal como no
lusco-fusco, havia uma quantidade considerável de escuridão.

— Está gostando? — perguntou a coruja.
— Muito. Sabe, quando fui um peixe, havia partes da água que eram mais frias ou quentes que
outras, e agora é a mesma coisa aqui no ar.
— A temperatura — disse Arquimedes — depende da vegetação do fundo. Arvores e ervas
provocam calor acima delas.

— Bem — disse Wart —, posso entender porque os répteis que desistiram de ser peixes decidiram
virar pássaros. Realmente é divertido.
— Você está começando a juntar as partes — notou Arquimedes. — Importa-se se nos sentarmos?
— E como fazer isso?
— É preciso entrar em estol. Isso significa que você deve se levantar até perder velocidade de vôo
e então, quando sentir que começa a cair, senta-se. Nunca reparou como os pássaros voam para
cima para se empoleirar? Não descem direto nos galhos, mas mergulham por baixo e sobem. No
final da subida, param e pousam.
— Mas os pássaros aterrissam também no chão. E os patos selvagens na água? Não podem subir
para sentar lá.
— Bem, é perfeitamente possível aterrissar em superfícies planas, porém é mais difícil. É preciso
deslizar em velocidade de estol o tempo todo e, então, aumentar a resistência ao ar curvando as
asas, abaixando as patas, cauda etc. Já deve ter reparado que poucos pássaros fazem isso com
graça. Observe como um corvo desaba e como o pato selvagem espalha água. Os que têm a asa
como uma concha, como a garça-real e o maçarico, parecem conseguir aterrissar melhor. Na
verdade, nós, corujas, não somos tão ruins nisso.
Para pessoas da província, que apenas conheciam o desmantelado campo de torneios do castelo
de Sir Ector, a cena que viram foi maravilhosa. [...] Em toda a volta da arena havia um inundo
de cores tão deslumbrantes e movimentadas e faiscantes que faziam a pessoa piscar os olhos. As



madeiras da tribuna de honra estavam pintadas de escarlate e branco. Os pavilhões de seda das
pessoas famosas, armados por todo lado, eram azul-celeste, verde, cor de açafrão e
quadriculados. As bandeiras e bandeirolas que flutuavam por todo lado ao vento brusco
agitavam-se com todas as cores do arco-íris...

— E os pássaros de asas compridas como o andorinhão, suponho que sejam os que fazem pior, já
que nem podem levantar de uma superfície plana.
— As razões são diferentes — disse Arquimedes —, mas o fato é verdadeiro. Mas temos que
conversar voando? Começo a ficar cansado.
— Eu também.
— As corujas gostam de pousar a cada cem metros.
Wart imitou Arquimedes disparando para o galho que tinham escolhido. Começou a cair justo
quando estava em cima dele, agarrou o galho com os pés peludos no último momento, balançou
para trás e para a frente duas vezes, e viu que tinha pousado com sucesso. Dobrou as asas.

Enquanto Wart sentava-se quieto admirando a paisagem, seu amigo começou a fazer uma
conferência sobre o vôo dos pássaros. Contou como, apesar de a andorinha ser um voador tão bom
que podia dormir voando a noite inteira, e embora o próprio Wart admirasse a maneira como as
gralhas se divertiam com seus vôos, o verdadeiro aeronauta das camadas mais baixas era o
maçarico. Explicou como os maçaricos se divertiam com acrobacias aéreas, e faziam figuras
espetaculares como mergulhos em parafusos, voltas em queda e espirais ascendentes pela simples
graça da coisa. Eram as únicas aves que tinham prática em deslizar do alto para aterrissar —
exceto ocasionalmente o mais velho, alegre e mais belo de todos os aeronautas conscientes, o
corvo. Wart prestou pouca ou nenhuma atenção à conferência e, em vez disso, acostumava os olhos
com as estranhas tonalidades da luz, e observava Arquimedes pelo canto de um deles. Pois
Arquimedes, enquanto falava, buscava distraidamente seu jantar. Essa busca era uma cena estranha.

O pião que está girando e começa a perder velocidade, começa vagarosamente a fazer círculos com
a extremidade de cima antes de cair. A ponta debaixo do pião continua no mesmo lugar, mas a
ponta de cima faz círculos cada vez maiores quando vai chegando o final. Era isso que Arquimedes
distraidamente fazia. Seus pés permaneciam parados, mas ele movia a parte superior do corpo,
girando e girando, como alguém no cinema tentando ver por detrás de uma mulher gorda, sem ter
certeza de que lado conseguiria a melhor visão. Como ele podia girar quase completamente sua
cabeça em cima dos ombros, pode-se imaginar que valia a pena observar essa palhaçada.

— Que é que você está fazendo? — perguntou Wart.
No momento em que perguntou, Arquimedes desapareceu. Primeiro havia uma coruja falando sobre
os maçaricos, e depois não havia mais coruja. Só, bem abaixo de Wart, escutou-se um baque e uma
mexida nas folhas, quando o torpedo aéreo voou direto no meio de uma moita, sem levar em conta
os obstáculos.


Em um minuto a coruja estava sentada de volta a seu lado no galho, degustando distraidamente um
pardal morto.

— Posso fazer isso? — perguntou Wart, mostrando uma inclinação sanguinária.
— Para falar a verdade — disse Arquimedes, depois de mastigar seu bocado —, não pode. O rato
mágico que o transformou numa coruja é o suficiente para você — que, afinal, passou o dia
comendo como um humano —, e as corujas não matam por prazer. Além disso, espera-se que eu
esteja trazendo você aqui para educá-lo e, logo que terminar meu lanche, é isso que faremos.
— Aonde você vai me levar?
Arquimedes terminou de comer o pardal, limpou delicadamente o bico na folhagem, e virou os
olhos completamente para Wart. Esses olhos grandes e redondos tinham, como expressou um
famoso escritor, uma floração de luz como a floração púrpura em um cacho de uva.

— Agora que você aprendeu a voar — disse —, Merlin quer que experimente os Gansos
Selvagens.
O lugar onde se encontrou era absolutamente liso. No mundo humano raramente vemos superfícies
lisas, pois as árvores e casas e sebes dão um perfil ondulado à paisagem. Mesmo a grama estende a
miríade de suas lâminas. Mas aqui, no ventre da noite, a lama molhada, ilimitada, era tão lisa
quanto um pudim negro. Se fosse areia molhada, ainda assim teria aquelas pequenas marcas de
ondas, como o palato da boca.

Nessa enorme vastidão lisa, vivia um elemento — o vento. Pois o vento era um elemento. Era uma
dimensão, um poder da escuridão. No mundo humano, o vento vem de algum lugar e vai para outro
e, nessa caminhada, passa pelos lugares — árvores ou ruas ou cercas-vivas. Este vento vinha de
lugar nenhum. Horizontal, infinito, sem ruído, exceto por uma ressonância tangível, seu peso
dimensional assombroso se estendia pela lama. Podia-se traçar nele uma linha com uma régua. A
titânica linha cinza era inamovível e sólida. Podia-se pendurar um guarda-chuva ali, e este ficaria
pendurado.

Wart, rosto voltado para esse vento, sentia-se como não criado. Exceto pela solidez molhada sob
seus pés palmípedes, vivia no nada — um nada sólido, como o caos. Suas sensações eram as de um
ponto geométrico, existindo misteriosamente na menor distância entre dois pontos; ou como uma
linha desenhada numa superfície plana que tivesse comprimento, largura, mas nenhuma magnitude.
Nenhuma magnitude! Era a própria essência da magnitude. Era energia, corrente, força, direção,
uma torrente constante do mundo em limbo.

Fronteiras tinham sido colocadas nesse purgatório profano. Longe, ao leste, talvez a uns dois
quilômetros de distância, havia uma inquebrantável muralha de som. Oscilava um pouco, parecendo
se expandir e contrair, mas era sólida. Era ameaçadora, desejosa vitima — pois era o oceano
imenso e implacável.

Cerca de uns três quilômetros a oeste havia três pontos de luz formando um triângulo. Eram as
fracas lamparinas de cabanas de pescadores, que tinham se levantado cedo para pegar a maré nos
canais complicados do pântano de sal. Suas águas às vezes corriam na direção contrária à do


oceano. Essas eram as características completas de seu mundo — o ruído do mar e essas três
pequenas luzes: escuridão, planura, vastidão e umidade; e, no golfo da noite, a corrente do golfo de
vento.

Quando a luz do dia começou a aparecer, o menino descobriu, por premonição, que estava no meio
de uma multidão de pessoas como ele. Estavam pousados na lama, que agora começava a ser
perturbada pelo mar raivoso, baixo, que retornava, ou então já estavam correndo pela água,
despertados por ela, mas fora da perturbação da arrebentação. Os que estavam pousados eram
grande chaleiras, os bicos enfiados debaixo das asas. Os que nadavam, às vezes mergulhavam as
cabeças e as sacudiam. Alguns, caminhando pela lama, levantavam-se e sacudiam vigorosamente as
asas. O silêncio profundo era quebrado pelo tagarelar de uma conversa. Havia cerca de
quatrocentos deles na vizinhança cinzenta — criaturas muito bonitas, os Gansos Selvagens de testa
branca, os quais, uma vez vistos de perto, homem algum jamais esqueceria.

Muito antes de o Sol aparecer, todos já se preparavam para o vôo. Grupos familiares constituídos
no ano anterior iam se reunindo em bandos, e esses bandos por sua vez se uniam a outros,
possivelmente sob o comando de um avô, ou então de algum líder proeminente do bando. Quando
os grupos se completaram, surgia um leve tom de excitação nas falas. Começavam a mover as
cabeças de um lado para o outro, às sacudidelas. Então,,voltando-se para o vento, de repente
estavam todos voando juntos, quatorze ou quarenta de uma vez, com as amplas asas escavando a
escuridão e um grito de triunfo nas gargantas. Depois, giravam, subindo rapidamente, e
desapareciam de vista. Vinte metros acima e já desapareciam na escuridão. As primeiras saídas
não vocalizavam muito. Tendiam a ser taciturnos antes de o Sol nascer, fazendo apenas
observações ocasionais, ou gritando seu aviso de alarme de uma nota só ao perceberem alguma
ameaça. Escutando o aviso, todos subiam verticalmente para os céus.

Wart começou a sentir-se incomodado. Os esquadrões nas sombras ao seu redor, muito próximos a
ele, largando a cada minuto, o contagiavam. Começou a ficar inquieto e a querer seguir o exemplo
deles, mas estava acanhado. Talvez os grupos familiares, pensou, se ressentissem com sua intrusão.
E não queria voar sozinho. Queria se juntar e desfrutar do exercício do vôo matinal, que
evidentemente era um prazer. Havia camaradagem, disciplina livre e joie de vivre.

Quando o ganso que estava a seu lado estendeu as asas e saltou, ele automaticamente fez o mesmo.
Uns oito dos que estavam perto tinham batido os bicos e ele os imitara como se aquilo fosse
contagioso, e agora, com os mesmos oito, se viu asa a asa subindo horizontalmente pelo ar. No
momento em que deixou a terra, o vento tinha desaparecido. Sua agitação e brutalidade sumiram,
como se cortada por uma faca. Wart estava dentro dele, e em paz.

Os oito gansos se estenderam em formação de linha, com espaços regulares entre si, ele no final.
Tomaram o rumo leste, onde haviam estado as luzes fracas e agora, diante deles, a bola do sol
começava a aparecer. Uma explosão de laranja-vermelho rompeu a escuridão do banco de nuvens
para além da terra. O resplendor se espalhou, o pântano salgado tornando-se cada vez mais visível
abaixo. Ele o via como uma charneca ou pântano de características indefinidas que se tornara
marítimo por acidente — suas urzes, ainda parecendo urzes, tendo se associado com algas marinhas
até se tornarem urzes salgadas e encharcadas, com frondes escorregadias.


Os riachos que deviam correr pela charneca eram de água do mar sobre lama azulada. Havia redes
compridas aqui e ali, levantadas em postes, nas quais gansos distraídos podiam se chocar. Esses,
ele agora se dava conta, devem ter sido a origem dos avisos. Dois ou três marrecos pendiam de
uma delas, e bem longe, a leste, um homem que parecia uma mosca laborava em cima da lama, com
diminuta persistência, para encher sua bolsa.

O Sol, quando se levantou, tingiu de chamas o mercúrio dos riachos e a própria lama brilhante. Os
maçaricos, que piavam suas queixas fúnebres desde muito antes de a luz aparecer, saíram voando
do meio das ervas daninhas. Os patos selvagens, que tinham dormido na água, chegavam piando
suas notas duplas, como os silvos de um foguetinho. Os marrecos, penosamente, levantavam vôo da
terra, contra o vento. As narcejas corriam e se acotovelavam como camundongos. Uma nuvem de
pequenas narcejas do norte, mais compactas que os estorninhos, girava no ar com o ruído de um
trem. Aos gritos animados, a guarda negra dos corvos subiu dos pinheiros nas dunas. Pássaros
costeiros de todos os tipos povoavam a linha da maré, enchendo-a de atividade e beleza.

O alvorecer, o alvorecer marinho e a maestria do vôo coordenado tinham beleza tão intensa que o
menino quis cantar. Queria cantar um coro à vida e, já que mil gansos estavam ao seu lado no ar,
não teve que esperar muito. As linhas dessas criaturas, ondulando como fumaça nos céus ao saudar

o nascer do sol, cantavam e riam ao mesmo tempo. Cada esquadrão tinha uma voz diferente, alguns
na pândega, outros triunfantes, outros sentimentais ou alegres.
A abóbada da alvorada se enchia de arautos, e isso é o que cantavam:

Tu, mundo que gira, deslizando sob nossas asas aladas,
Levanta o venerável sol para saudar os favoritos da alvorada.
Veja, em cada peito o escarlate e o vermelhão,
Escuta, de cada garganta o clarim e o carrilhão.
Escuta as selvagens linhas em formações vibrantes,
Trompetes e caçadores celestiais, corcéis da aurora brilhante.
Livre, livre; longe e longe; e belo em asa ondulante,
Chega o ganso de testa branca com seu som cantante.


Wart estava em um campo comum, em plena luz do dia. Seus companheiros de vôo pastavam à sua
volta, arrancando a relva com puxões laterais dos bicos pequenos e flexíveis, inclinando os
pescoços em voltas abruptas, bem diferentes das curvas graciosas do cisne. Sempre, enquanto se
alimentavam, um deles ficava de guarda, o pescoço levantado como se fosse uma cobra. Tinham se
acasalado nos meses de inverno, ou então nos invernos anteriores, assim tinham a tendência de se
alimentar aos pares dentro da família e do esquadrão. A jovem fêmea, sua vizinha na planura de
lama, estava em seu primeiro ano. Mantinha um olhar inteligente em sua direção.

Observando-a cautelosamente, ele notou sua compleição compacta e roliça e um conjunto de sulcos
no pescoço. Esses sulcos, ele verificou com o canto dos olhos, eram o resultado de uma diferença
na plumagem. As penas eram côncavas, o que separava uma das outras, formando uma textura de


cristas que ele achou graciosa.
Naquele instante a jovem gansa deu-lhe um empurrão com o bico. Ela estava de sentinela.


— Agora é a sua vez — disse, abaixou a cabeça sem esperar resposta e, no movimento, começou a
pastar. Para se alimentar, ela saiu de perto dele.
Ele ficou de sentinela. Mas não sabia o que estava vigiando, nem conseguia perceber inimigo
algum, só as moitas de capim e seus companheiros bicando. Mas não estava chateado de ficar de
sentinela para eles.

— O que você está fazendo? — ela perguntou, passando por ele depois de uma meia hora.
— Estou de guarda.
— Então, continue — ela disse com um risinho, ou seria um grasnido? — Você é bobo.
— Por quê?
— Você sabe.
— Honestamente — ele disse. — Não sei. Estou agindo errado? Não compreendo.
— Bique o seguinte. Você já está aí pelo menos o dobro do tempo que lhe toca.
Fez como ela tinha dito, e o ganso adiante dele assumiu o posto, e então ele foi comer ao lado dela.
Eles mordiscavam, observando um ao outro com os olhos redondos.

— Você acha que eu sou estúpido — disse ele timidamente, confessando pela primeira vez a um
animal o segredo de sua verdadeira espécie —, mas isso é porque não sou um ganso. Nasci
humano. Na verdade este é meu primeiro vôo.
Ela ficou levemente surpresa.

— Não é comum — disse. — Os humanos geralmente experimentam os cisnes. Os últimos que
andaram por aqui foram os Filhos de Lir. De qualquer forma, acho que somos todos anseriformes.
— Já ouvi falar dos Filhos de Lir.
— Eles não gostaram. Eram definitivamente nacionalistas e religiosos, sempre circulando ao redor
de uma das capelas na Irlanda. Pode-se dizer que mal notaram os outros gansos.
— Eu estou gostando.
— Achei que sim. Por que lhe mandaram para cá?
— Para minha educação.
Os dois pastaram em silêncio, até que suas próprias palavras o lembraram de algo que queria
perguntar.

— As sentinelas — perguntou. — Estamos em guerra?
Ela não compreendeu a palavra.
— Guerra?

— Estamos combatendo pessoas?
— Combatendo? — ela perguntou em dúvida. — Às vezes, os machos combatem por suas fêmeas ecoisas assim. Mas é claro que não se derrama sangue, é só uma rixa, para saber quem é o melhor. É
isso que você quer dizer?
— Não. Quero dizer combater contra exércitos, contra outros gansos, por exemplo.
Ela estava se divertindo.
— Que ridículo! Você quer dizer um bando de gansos ficar se atracando ao mesmo tempo. Seria
divertido ver.
Seu tom o surpreendeu, pois seu coração, sendo tão jovem, ainda era um coração terno.

— Divertido vê-los se matando?
— Se matarem? Um exército de gansos matando uns aos outros?
Ela começou a compreender a idéia, devagar e cheia de dúvidas, com uma expressão de desgosto
no rosto. Quando compreendeu, saiu de perto. Foi para outra parte do campo em silêncio. Ele a
seguiu, mas ela lhe deu as costas. Dando voltas para captar seu olhar, ficou surpreendido com o
desgosto que viu — como se ele tivesse feito alguma sugestão obscena.

Ele disse, queixoso:

— Desculpe-me. Eu não compreendo.
— Pare de falar no assunto.
— Desculpe-me.
Depois acrescentou, aborrecido:
— Uma pessoa pode perguntar, acho. Parece uma pergunta natural, com as sentinelas.
Mas ela estava realmente zangada.
— Pare com isso de uma vez! Que mente horrível você deve ter! Não tem o direito de dizer essas
coisas. E é claro que existem sentinelas. Aí estão os falcões e as águias, não é? E as raposas e os
arminhos e os humanos com suas redes? Todos são inimigos naturais. Mas que tipo de criatura
pode ser tão baixa a ponto de sair em bandos para assassinar outros de seu próprio sangue?
— As formigas fazem isso — ele disse, obstinadamente. — E eu só estava tentando aprender.
Ela se abrandou, esforçando-se para ser compreensiva. Se pudesse, gostaria de ter uma mente
aberta e, na verdade, tinha tendências literárias.

— Meu nome é Lyo-lyok. É melhor você dizer que se chama Kee-kwa, e então os outros poderão
pensar que veio da Hungria.
— Todos vocês vêm de diferentes lugares?
— Bem, em grupos, é claro. Aqui estão alguns da Sibéria, alguns da Lapônia e vejo um ou dois da
Islândia.

— Mas não brigam entre si pelo pasto?
— Puxa, como você é bobo! — ela disse. — Não existem fronteiras entre os gansos.
— E o que são fronteiras, por favor?
— Linhas imaginárias sobre a Terra, suponho. Mas como se pode ter fronteiras quando se voa?
Essas suas formigas — e também os humanos — acabariam não tendo que deixar de brigar, se
voassem.
— Eu gosto de lutar — disse Wart. — É uma coisa de cavaleiros.
— Porque você é um bebê.

XIX


Havia algo de mágico no tempo e no espaço controlado por Merlin, pois Wart teve a sensação de
ter passado muitos dias e noites entre o povo cinza, naquela única noite de primavera quando
deixara seu corpo dormindo sob a pele de urso.

Ele começou a gostar de Lyo-lyok, embora ela fosse uma garota. Ele sempre lhe fazia perguntas
sobre os gansos. Ela ensinava o que sabia com gentileza e, quanto mais ele aprendia, mais amava
seus bravos, nobres, calmos e inteligentes parentes. Ela contou-lhe como cada Ganso de Testa
Branca era um indivíduo — não governado por leis ou líderes, exceto quando isso acontecia
espontaneamente. Não tinham reis como Uther, nem leis como as duras leis normandas. Não
possuíam coisas em comum. Qualquer ganso que achasse algo bom para comer considerava aquilo
como seu e bicava qualquer um que tentasse roubá-lo. Ao mesmo tempo, nenhum ganso reclamava
nenhum direito territorial em lugar algum do mundo — exceto seu ninho, e este era propriedade
privada. Ela contou-lhe muito sobre as migrações.

— Suponho que o primeiro ganso que fez o vôo da Sibéria até Lincolnshire e voltou — disse ela —
teve ter criado sua família na Sibéria. Então, quando o inverno chegou e era preciso descobrir
comida, deve ter tentado refazer o caminho pela rota que só ele conhecia. Mas foi seguido por sua
família crescente, ano após ano; foi seu piloto e almirante. Quando chegou seu momento de morrer,
obviamente os melhores pilotos eram seus filhos mais velhos que tinham percorrido com ele a rota
mais vezes que os outros. Naturalmente, os filhos mais novos e os recém-emplumados estariam
inseguros quanto ao caminho e, portanto, devem ter ficado agradecidos por ter alguém para seguir.
Talvez, entre os filhos mais velhos, haveria alguns reconhecidos por todos como estúpidos, e
dificilmente a família confiaria neles.

— É assim que se escolhe um almirante — disse ela. — Pode ser que Wink-wink, no outono, venha
até nossa família e diga: "Desculpem-me, mas será que por acaso vocês têm um piloto confiável? O
pobre vovô morreu na época das cerejas, e Tio Onk não é eficiente. Estamos buscando alguém a
quem seguir". E aí nós diremos: "O Tio-avô vai ficar feliz se vocês pegarem carona conosco. Mas,
vejam bem, não nos responsabilizamos se as coisas não forem boas". "Muito obrigado", ele dirá.
"Tenho certeza de que se pode confiar no Tio-avô. Vocês se importam se eu tocar nesse assunto
com os Honks que, fiquei sabendo, estão com a mesma dificuldade?" "De maneira nenhuma".
— E assim — ela explicou — foi como o Tio-avô se tornou um almirante.
— É uma boa maneira.

— Olhe só as divisas dele — ela disse, respeitosamente, e ambos deram uma olhada no imponente
patriarca, cujo peito realmente era cheio de listras negras, tal como as fitas douradas na manga dos
almirantes.
Começou uma excitação crescente no bando. Os jovens gansos flertavam abertamente ou se reuniam
em grupos para discutir seus nilotos. Também faziam brincadeiras, como crianças na expectativa de
uma festa. Um desses jogos consistia em fazer um círculo, enquanto os jovens machos, um depois
do outro, iam até o meio com os pescoços esticados, fingindo assobiar. Quando estavam no meio
do círculo corriam o último pedaço batendo as asas. Mostravam, assim, como eram valentes, e que
almirantes excelentes seriam quando crescessem. Também começou a se espalhar entre eles o
estranho hábito de sacudir os bicos para os lados, que era comum antes do vôo. Os anciãos e
sábios, que conheciam as rotas de migração, também começaram a ficar inquietos. Ficavam atentos
às formações de nuvens, avaliando o vento e sua força, e de onde estava vindo. Os almirantes,
cheios de responsabilidades, desfilavam pelo tombadilho com passadas imponentes.

— Por que estou inquieto? — ele perguntou. — Por que estou com essa sensação no meu sangue?
—Espere e verás — disse ela, misteriosamente. — Amanhã, talvez, ou depois de amanhã...

Quando o dia chegou, havia uma diferença entre o pântano salgado e a lama da margem. O homem
que parecia uma formiga caminhando pacientemente todas as manhãs até suas grandes redes, com as
marés bem gravadas na cabeça — pois um erro ali significava morte certa -, ouviu um clarim
distante no céu. Já não viu milhares nas planícies de lama, e não viu nenhum nos pastos de onde
viera. A seu modo, era um sujeito simpático — pois ficou solenemente parado e tirou o chapéu de
couro da cabeça. Ele fazia isso, religiosamente, todas as primaveras, quando os gansos selvagens o
deixavam, e todos os outonos, quando via o primeiro bando regressar.

Um vapor leva dois ou três dias para cruzar o Mar do Norte — muitas horas passando por cima das
águas viscosas. Mas para os gansos, para os marinheiros do ar, para as cunhas angulares que fazem
retalhos das nuvens, para os cantores dos céus com o vento por trás — uns cento e dez quilômetros
por hora atrás de outros cento e dez — para esses misteriosos geógrafos — a quase cinco
quilômetros acima, dizem, com os cúmulos a seus pés em vez de água — para eles a coisa era
diferente.

As canções que cantavam estavam cheias disso. Algumas eram vulgares, outras eram sagas, outras
até leves. Uma boba que divertia Wart era assim:

Zanzamos pelos céus ao som de clonk
E baixamos sobre os pastos com um plonk
Hank-hank, Hink-bink, Honk-honk.
Baixamos o pescoço, soltando um plink
Como a água pinga na pia com um tlink
Honk-honk, Hank-hank, Hink-hink.
Vamos comer em grupo fazendo hank



Rasgando a relva com um yank
Hink-hink, Honk-honk, Hank-hank.
Mas Hink ou Honk gostamos todos do Plonk,
E Honk ou Hank gostamos todos do Yank
E Hank ou Hink fazemos todos um yink
Para Honk, ou Hank ou Hink!


Uma sentimental era assim:

Selvagem e livre, selvagem e livre.
Tragam meu ganso ãe volta para mim, para mim.


E uma vez, quando passavam por uma ilha rochosa habitada por gansos-bernacas, que pareciam
solteironas com luvas de couro preto, chapéus de cozinheiro cinzas e contas azeviche, todo o
esquadrão disparou, escarnecendo:

Bernaca Br anta se espoja na lama,
Bernaca Branta se espoja na lama,
Bernaca Branta se espoja na lama,
Enquanto voando vamos nós
Glória, glória, vamos lá, querida.
Glória, glória, vamos lá, querida.
Glória, glória, vamos lá, querida.
Para o Pólo Norte voando juntos


Uma das canções mais escandinavas era chamada de "Dádiva da Vida"

Ky-yow respondeu: a dádiva da vida é a saúde.
Pé de pato, Pena lisa, Pescoço flexível,
Olho limpo: Esses têm a riqueza do mundo.
Velho Ank respondeu: A honra é toda nossa.
Desbravador de caminhos, Provedor do povo, Planejador e
Sábio comandante:
Estes ouviram a chamada.
Lyo-lyok o alegre disse: Amor tive por vida.
Penas macias, Passos suaves, Ninho quente e
Caminhar na linha: Esses vivem para sempre.



Aahng era por Apetite: Ah, comer!
Comedor de gororoba, Rasgador de grama,
Espreitador de
Restolho, Enchedor de papo:
Esses batem as asas.
Wink-wink louva a Camaradagem, a livre e justa Fraternidade.
Alinhe-se à popa, Escalonem, Ponta à frente,
Sobre as nuvens: Esses aprendem a Eternidade.
Mas eu escolhi as fortes cadências que ficam no ar.
Música de trompete, Canções de risos, Coração épico,
Imitador do mundo. Esse é Lyow, o cantor.


Às vezes, quando desciam das alturas dos cirros para apanhar melhores ventos, viam-se no meio de
rebanhos de cúmulos imensas torres moldadas com vapor, tão brancas quanto roupa recém-lavada esólidas como merengues. Às vezes, uma dessas florescências do céu, esses salpicos brancos de
neve de um gigantesco Pégaso, se estenderiam diante deles por milhas e milhas. Eles estabeleciam

o curso em direção a elas, observando como ficavam cada vez silenciosa e imperceptivelmente
maiores, um crescimento imóvel — e então, quando estavam quase nelas, quando estavam prestes a
chocar os narizes contra aquela massa aparentemente sólida, o sol obscurecia. Espectros de bruma
subitamente se moviam como serpentes do ar, girando ao redor deles por um segundo. A umidade
cinza os envolvia, e o sol, moedinha de cobre, se esvanecia. As asas próximas às suas próprias
asas sombreavam o nada, até que cada pássaro era um som solitário, uma presença depois da não-
criação. E lá pairavam no nada não mapeado, aparentemente sem velocidade, sem direita nem
esquerda, sem topo nem fundo, até que então, de repente, a moedinha de cobre brilhava e as
serpentes encolhiam. Então, num instante, estavam novamente no mundo adornado de jóias — o mar
abaixo deles como turquesa e todos os belos lugares do paraíso recém-criados, com o orvalho doÉden ainda pairando.
Um dos marcos da migração chegava quando passavam uma flésia sobre o oceano. Havia outros
marcos quando, por exemplo, uma linha de vôo cruzava com uma fila indiana de cisnes que iam ara
Abisco, fazendo um ruído que parecia o latido de cães abafado por um lenço, ou quando
ultrapassavam uma coruja chifrada avançando, intrépida, sozinha —, entre cujas penas quentes da
costa dizia-se, um pequeno filhote pegava carona. Mas a ilha solitária era o melhor.

Era uma cidade de pássaros. Todos chocando, todos discutindo e no entanto, todos amistosos. No
alto do rochedo, onde a turfa curta era encontrada, uma miríade de mergulhões ocupava-se com
suas tocas. Abaixo deles, na Rua do Bico Afiado, os pássaros estavam tão pertos uns dos outros, e
em plataformas tão estreitas, que tinham de ficar de costas para o mar, segurando-se fortemente
com as patas. Na Rua das Alcas, abaixo daquela, as alcas mantinham seus rostos afilados, que
pareciam brinquedos, virados para cima, tal como os tordos quando estão chocando. Mais abaixo
estavam os Cortiços das Gaivotas-de-Bico. E todos os pássaros que, como os humanos, só punham
um ovo cada um, estavam tão apertados que suas cabeças se entrelaçavam — e tinham tão pouco


desse nosso famoso espaço vital que, quando um novo pássaro insistia em pousar na saliência que
já estava lotada, um dos outros tinha que cair fora. Eram como uma multidão incontável de
vendedoras de peixe na maior banca de mercado do mundo, se metendo em brigas particulares,
comendo em sacos de papel, xingando o árbitro, ralhando com seus filhos e se queixando dos
maridos.

— Mexa um pouco para lá, titia — diziam. Ou:
— Saia do caminho, vovó.
— A danada da Flossie foi para lá e se sentou em cima dos pequenos.
— Guarde o caramelo no bolso e assoe o nariz.
— Ora, ora, se não é o tio Albert com a cerveja.
— Tem espaço para uma criança?
— Lá se foi tia Emma. Caiu da plataforma.
— Meu chapéu está no lugar?
— Droga, que confusão!
As espécies se mantinham mais ou menos juntas, mas não brigavam por isso. Aqui e ali, na Rua das
Alcas, via-se às vezes uma gaivota cinza sentada em uma saliência, decidida a manter seus direitos.
Havia talvez uns dez mil deles e o barulho que faziam era ensurdecedor.

Depois vinham os fiordes e ilhas da Noruega. Foi sobre uma dessas ilhas, aliás, que o grande W.

H. Hudson escreveu uma história verdadeira de ganso, que devia fazer as pessoas pensarem. Havia
um fazendeiro na costa, conta ele, cujas ilhas sofriam com as raposas —, então ele colocou uma
armadilha para raposas em uma delas. Quando foi ver a armadilha no dia seguinte, descobriu que
um velho ganso selvagem fora capturado, obviamente um Grande Almirante, por causa da sua
dureza e das muitas divisas. Esse fazendeiro levou o ganso vivo para sua casa, cortou as pontas das
suas asas para que não voasse, amarrou suas pernas e o soltou com seus próprios patos e galinhas
no quintal. Ora, um dos efeitos da praga de raposas era que o fazendeiro tinha de trancar o
galinheiro à noite. Ele costumava juntá-las ao entardecer e, depois, trancava a porta. Depois de um
tempo, começou a notar uma coisa curiosa: as galinhas já não precisavam ser reunidas; ficavam
esperando por ele na choça. Ele observou esse processo uma tarde, e descobriu que o potentado
cativo assumira a responsabilidade de reuni-las, o que descobrira com sua própria inteligência.
Toda noite, na hora de fechar, o sagaz velho almirante convocava seus companheiros domésticos
cuja liderança havia assumido, e prudentemente os reunia, com esforço próprio, no lugar adequado,
mo se tivesse compreendido totalmente a situação. E os gansos selvagens livres, que haviam sido
liderados por ele, nunca mais usaram na outra ilha — que anteriormente era um de seus abrigos —,
onde seu capitão tinha sumido.
Finalmente, para além das ilhas, estava o pouso de destino do primeiro dia de viagem. Oh, o sopro
de delícia e autocongratulação! Eles desabavam dos céus, deslizando de lado, fazendo acrobacias e
até mergulhos giratórios de nariz para baixo. Estavam orgulhosos de si mesmos e de seu piloto,


ansiosos pelos prazeres familiares que os aguardavam.

Percorriam o último trecho planando, com as asas curvadas para baixo. No último momento
cavavam o vento com elas, agitando-as vigorosamente. Depois — bump — estavam no chão.
Mantinham as asas acima da cabeça por um instante e depois as dobravam rápida e graciosamente.
Tinham cruzado o Mar do Norte.

— Bem, Wart — disse Kay com voz exasperada —, você quer ficar com toda a coberta? E por que
está suspirando e resmungando tanto? Também estava roncando.
— Eu não ronco — respondeu Wart indignado.
— Ronca sim.
— Não ronco.
Ronca sim. Buzina que nem um ganso.
— Eu não.
— Sim.
Eu não. E você ronca pior. Não, eu não ronco. Sim, você ronca.
— Como posso roncar pior se você não ronca? Quando terminaram a discussão já estavam
atrasados para o café da manhã. Vestiram-se apressados e correram para a primavera.

XX


Era tempo de colher o feno outra vez, e Merlin passara o ano todo com eles. O vento visitou-os, e a
neve, e a chuva, e o sol outra vez. Os meninos estavam com as pernas mais compridas, mas de resto
tudo era igual.

Seis anos se passaram.

As vezes, Sir Grummore vinha fazer uma visita. Às vezes, o Rei Pellinore era visto galopando
pelas cercanias atrás da Besta, ou com a Besta atrás dele se acontecesse de ficarem muito
atrapalhados. Cully perdeu as listras verticais de sua plumagem do primeiro ano e se tornou mais
cinza, mais soturno, mais louco, e caracterizado por elegantes faixas horizontais onde antes estavam
as listras compridas. Os esmerilhões eram soltos a cada inverno e outros novos apanhados no ano
seguinte. O cabelo de Hob ficou branco. O sargento-de-armas desenvolveu uma barriga e quase
morria de vergonha, mas continuou a gritar Um-Dois, numa voz mais rouca, em toda as ocasiões
possíveis. Ninguém mais pareceu mudar em nada, exceto os meninos.

Cresceram muito. Corriam como potros selvagens, como antes, e iam ver Robin quando queriam, e
tiveram inúmeras aventuras, compridas demais para serem registradas.

A educação extra de Merlin seguia como antes, pois naqueles tempos, mesmo os adultos eram tão
infantis que não viam nada de desinteressante em serem transformados em corujas. Wart foi
transformado em vários animais diferentes. A única diferença era que agora, nas lições de torneio,
Kay e seu companheiro eram concorrentes fortes para o sargento barrigudo e, acidentalmente,
davam-lhe o troco por muitos dos tabefes que haviam recebido antes. Depois de adolescentes,
ganharam mais e mais armas autênticas como presentes nos aniversários, até que no final tinham
armaduras completas e arcos de quase um metro e oitenta de comprimento, que lançavam as flechas
grandes. Não era de bom-tom usar um arco maior do que sua própria altura, pois se considerava
que, fazendo isso, você estaria gastando energia desnecessária, como se usasse uma espingarda de
elefante para atirar em um ovis ammon. Em todo o caso, os homens sensatos tinham o cuidado de
não usar um arco maior do que eles. Era uma forma de bazófia.

Com a passagem dos anos, Kay tornou-se mais difícil. Sempre usava um arco maior do que ele, e
não atirava com precisão. Perdia a cabeça e desafiava quase todo mundo para uma luta e, nos
poucos casos em que realmente chegava a lutar, invariavelmente saía perdendo. Também ficou
sarcástico. Fazia o sargento passar maus momentos, atormentando-o por causa da barriga, e fazia o
mesmo com Wart, por causa do pai e da mãe, quando Sir Ector não estava por perto. Não parecia


querer fazer isso. Era como se não gostasse, mas não pudesse evitar.

Wart continuava a ser estúpido, a gostar de Kay, e a se interessar por pássaros.

Merlin parecia ficar mais jovem a cada ano — o que era nada mais que natural, pois realmente
ficava.

Archimedes se casou e criou várias ninhadas simpáticas de jovens de penas no quarto da torre.

Sir Ector teve ciática. Três árvores foram atingidas por raios. Mestre Twyti vinha todo Natal, sem
alterar um fio de cabelo. Mestre Passelewe lembrou-se de um novo verso sobre o Rei Cole.

Os anos passavam normalmente e a neve da Velha Inglaterra caía como se esperava que caísse —
às vezes com um pássaro de peito vermelho em um canto da pintura, um sino de igreja ou uma
janela iluminada do outro —, e acabou se aproximando o momento de Kay ser iniciado como um
completo cavaleiro. A medida que o dia se aproximava, os dois rapazes se distanciavam — pois
Kay não queria mais se juntar a Wart nos mesmos termos, porque precisaria ter mais honras como
cavaleiro e não poderia dar-se ao luxo de ter intimidade com seu escudeiro. Wart, que teria de ser

o escudeiro, seguia-o desconsolado enquanto lhe era permitido, e depois, sentindo-se
completamente infeliz, ia tentar se divertir sozinho, da melhor maneira que podia.
Ia para a cozinha.

"Bom, agora sou uma Cinderela", disse a si mesmo. "Embora eu tenha recebido, até o presente
momento, e por alguma razão misteriosa, a melhor parte de nossa educação, agora devo pagar por
meus prazeres e por ter visto todos aqueles maravilhosos dragões, feiticeiras, peixes, girafas,
formigas, gansos selvagens e outros iguais, sendo um escudeiro de segunda classe e segurando para
Kay suas lanças extras, enquanto ele faz a ronda de uma ou outra fonte e tem uma justa com todos os
que passam por lá. Não importa, foi bom enquanto durou, e não é tão ruim assim ser Cinderela,
quando você está numa cozinha com um fogão grande o suficiente para assar um boi."

Wart olhou com triste afeição para a cozinha agitada, colorida pelas chamas a ponto de parecer um
inferno.

Naqueles tempos, a educação de qualquer cavalheiro civilizado costumava passar por três etapas,
pajem, escudeiro, cavaleiro e, de qualquer maneira, Wart passara pelas duas primeiras. Era como
ser filho de um cavalheiro moderno que enriqueceu com o comércio, pois então o pai o teria
iniciado de baixo, em sua educação de boas-maneiras. Como pajem, Wart aprendera a pôr a mesa
com três toalhas e um forro, a trazer a carne da cozinha, e a servir Sir Ector ou seus hóspedes com

o joelho dobrado, uma toalha limpa sobre os ombros, uma para cada visitante, e uma para limpar as
bacias. Foram-lhe ensinadas todas as artes nobres do bem servir e, desde quando pode se recordar,
permaneciam-lhe agradavelmente na ponta do nariz os vários aromas da menta — usada para
refrescar a água nos jarros — ou do manjericão, camomila, erva-doce, hissopo e alfazema — que
lhe ensinaram a esfregar nos pisos de junco —, ou de angélica, açafrão, anis e estragão, que eram
usados para temperar os antepastos que ele devia carregar. Portanto, estava acostumado com a
cozinha, sem contar o fato de que todo mundo que vivia no castelo era um amigo que poderia ser
visitado em qualquer ocasião.

Wart sentou-se perto do enorme fogão e olhou a seu redor com prazer. Olhou para os compridos
espetos que, com freqüência, tinha girado quando era menor, sentado atrás de um velho anteparo de
palha ensopada de água, para que ele mesmo não se assasse, e para as conchas e colheres, cujos
cabos podiam ser medidos em metros, com as quais estava acostumado a regar a carne. Olhou, com
água na boca, os preparativos para o jantar — uma cabeça de javali com um limão entre as
mandíbulas e bigodes de amêndoas quebradas, que seria servido com uma fanfarra de trombetas;
um tipo de torta de carne de porco com molho de maçã ácida, creme apimentado, e várias pernas de
pássaros, ou folhas condimentadas saindo do topo para mostrar o que havia dentro — e um mingau
de aspecto absolutamente delicioso. Disse a si mesmo, com um suspiro, "Não é tão ruim assim ser
um servo, afinal".

— Ainda suspirando? — perguntou Merlin, que apareceu vindo de algum lugar. — Como estava
naquele dia em que fomos assistir à justa do Rei Pellinore?
— Ah, não — disse Wart. — Ou melhor, ah, sim, e pela mesma razão. Mas realmente não me
importo. Tenho certeza de que serei um escudeiro melhor do que o velho Kay seria. Olhe o açafrão
naquele mingau. Combina com a luz do fogo nos presuntos defumados.
— É lindo — disse o mago. — Só os tolos querem ser grandes.
— Kay não quer me contar o que acontece quando se é feito cavaleiro — disse Wart. — Diz que é
muito sagrado. O que acontece?
— Só uma grande agitação. Você vai ter que tirar a roupa dele e colocá-lo em uma banheira
enfeitada com vários penduricalhos, e depois dois cavaleiros experientes aparecerão —
provavelmente Sir Ector chamará Sir Grummore e o Rei Pellinore — e os dois se sentarão na beira
da banheira e lhe farão um longo discurso sobre os ideais de cavaleiros como eles. Quando
acabarem, despejarão um pouco da água do banho sobre ele e farão sobre ele o sinal da cruz, e
então você terá que conduzi-lo até uma cama limpa para se secar. Depois, você vai vesti-lo como
um eremita e levá-lo para a capela, e lá ele ficará acordado a noite toda, guardando sua armadura e
dizendo orações. As pessoas dizem que é solitário e terrível essa vigília, mas realmente não é nada
solitária porque o vigário e o homem que cuida das velas e um guarda armado, e provavelmente
você também, como seu escudeiro, terão que sentar com ele ao mesmo tempo. De manhã, você o
conduzirá à cama para ter um bom sono — depois que se confessar e assistir à missa e oferecer
uma vela com uma moeda enfiada o mais próximo possível da chama acesa — e depois, quando
todos repousarem, você o vestirá de novo com as suas melhores roupas para o jantar. Antes do
jantar, você o conduzirá até o salão nobre, com suas esporas e lanças todas prontas, e o Rei
Pellinore colocará sua primeira espora, e Sir Grummore a segunda, e então Sir Ector o cingirá com
sua lança e o beijará e lhe dará uma palmada no ombro, dizendo, "Seja um bom cavaleiro".
— E só isso?
— Não. Vocês vão outra vez à capela, e Kay oferece sua espada ao vigário, e o vigário a devolve
para ele, e depois disso nosso bom cozinheiro o encontra na porta e reclama as esporas como
prêmio e diz, "Guardarei essas esporas para vós, e se em algum momento não vos comportardes
como um verdadeiro cavaleiro deve se comportar, eu as jogarei na sopa".

— Esse é o final?
— Sim, exceto pelo jantar.
— Se eu fosse feito cavaleiro — disse Wart, olhando sonhadoramente para o fogo —, insistiria em
fazer minha vigília sozinho, como Hob faz com seus falcões, e pediria a Deus que me deixasse
enfrentar todo o mal do mundo em minha própria pessoa, assim, se eu vencesse, nenhum mal
restaria, e se perdesse, seria o único a sofrer.
— Seria extremamente pretensioso de sua parte — disse Merlin —, e você seria vencido e sofreria
por isso.
— Não me importaria.
— Não? Espere até acontecer e veja.
— Por que as pessoas, como adultos, não pensam da maneira que eu penso como jovem?
— Ah, céus! Você está me deixando confuso. Por que não espera até crescer para saber o motivo?
— Não acho que isso seja uma resposta, de jeito nenhum — respondeu Wart, com toda a razão.
Merlin torceu as mãos.
— Bem, enfim, suponha que eles não lhe deixem enfrentar todo o mal do mundo?
— Eu poderia pedir — disse Wart.
— Você poderia pedir — repetiu Merlin.
Ele enfiou a ponta de sua barba na boca, olhou tragicamente para o fogo e começou a mastigá-la
ferozmente.


XXI


O dia da cerimônia se aproximava, os convites para o Rei Pellinore e Sir Grummore foram
enviados, e Wart cada vez mais se refugiava na cozinha.

— Vamos, Wart, meu caro rapaz — dizia Sir Ector, com pesar. — Não imaginei que você fosse
ficar assim. Esse mau-humor não combina com você.
— Não estou de mau-humor — disse Wart. — Não me importo com nada e estou muito feliz por
Kay se tornar um cavaleiro. Por favor, não pense que estou chateado.
— Você é um bom rapaz — disse Sir Ector. — Sei que não está realmente chateado, então anime-
se. Bem sabe que Kay, à sua maneira, não é tão mau assim.
— Kay é um ótimo sujeito — disse Wart. — Só não estou feliz porque ele não quer mais ir lançar
os falcões nem fazer qualquer outra coisa comigo.
— Ele é ainda muito jovem — disse Sir Ector. — Isso passa.
— Tenho certeza que sim — respondeu Wart. — É só que ele não quer que eu vá com ele, nesse
momento. E então, claro, eu não irei.
— Mas irei — acrescentou. — Assim que ele me ordenar, farei exatamente o que ele disser.
Sinceramente, acho Kay uma boa pessoa, e não estava de jeito nenhum chateado.
— Tome uma taça desse vinho das Canárias — disse Sir Ector —, e vá ver se o velho Merlin
consegue alegrar um pouco essa cara.
— Sir Ector me deu uma taça de vinho das Canárias — disse Wart — e me mandou ver se você
conseguia me alegrar um pouco.
— Sir Ector é um homem sábio — disse Merlin.
— Bom — disse Wart —, e então?
— A melhor coisa a fazer quando se está triste — respondeu Merlin, começando a fumar e soltar
baforadas — é aprender alguma coisa. Essa é a única coisa que nunca falha. Você pode ficar velho
e trêmulo em sua anatomia, pode passar a noite acordado escutando a desordem de suas veias, pode
sentir saudades de seu único amor, pode ver o mundo ao seu redor ser devastado por lunáticos
malvados ou saber que sua honra foi pisoteada no esgoto das mentes baixas. Só há uma coisa para
isso: aprender. Aprender por que o mundo gira e o que o faz girar. Essa é a única coisa da qual a

mente não pode jamais se cansar, nem se alienar, nem se torturar, nem temer ou descrer, e nunca
sonhar em se arrepender. Aprender é o que lhe resta. Veja a quantidade de coisas que existem para
aprender — ciência pura, a única pureza que existe. Você pode estudar Astronomia no decorrer de
uma vida, História Natural em três, Literatura em seis. E então, depois que tiver exaurido um milhar
de tempos de vida em Biologia e Medicina e Teo-crítica e Geografia e História e Economia — ora,
você pode começar a fazer uma roda de carroça com a madeira apropriada, ou passar cinqüenta
anos aprendendo a começar a vencer seu adversário em esgrima. Depois disso, pode começar outra
vez a Matemática, até chegar a época de aprender a arar a terra.

— Além de todas essas coisas — disse Wart —, o que você me sugere agora?
— Deixe-me ver — considerou o mago. — Tivemos uns curtos seis anos disso, e nesse tempo acho
que terei razão em dizer que você foi várias espécies de animal, vegetal, mineral etc. — muitas
coisas na terra, ar, fogo e água.
— Não sei muito — disse Wart — sobre os animais e a terra.
— Então é melhor você conhecer meu amigo texugo.
— Nunca conheci um texugo.
— Ótimo — disse Merlin. — Além de Archimedes, ele é a criatura mais culta que conheço. Você
gostará dele.
— Por falar nisso — acrescentou o mago, parando no meio do feitiço —, tem uma coisa que devo
lhe dizer. Esta é a última vez que serei capaz de transformá-lo em outra coisa. Toda a magia para
esse tipo de coisa já foi gasta, e esse será o final de sua educação. Quando Kay for armado
cavaleiro, meu trabalho estará terminado. Você, então, terá que partir para ser seu escudeiro no
vasto mundo, e eu irei para outro lugar. Você acha que aprendeu alguma coisa?
— Eu aprendi e fui feliz.
— Então, está bem — disse Merlin. — Tente se lembrar do que aprendeu.
Prosseguiu com o feitiço, apontou sua vara de pau santo para a Ursa Menor que, nesse momento,
começara a brilhar na escuridão ao se pendurar pela cauda na Estrela do Norte, e exclamou,
alegremente:

— Aproveite bem essa última visita. Dê minhas lembranças ao Texugo.
A voz pareceu vir de muito longe e Wart se viu de pé ao lado de um outeiro antigo, parecido com
um gigantesco monte de toupeira, com um buraco preto à sua frente.

"O texugo vive lá dentro", disse a si mesmo, "e eu devo entrar e falar com ele. Mas não vou. Já era
ruim o bastante nunca ser um cavaleiro, e agora meu próprio e querido tutor que encontrei na única
Busca que certamente farei vai ser tirado de mim, e não haverá mais aulas de História Natural.
Muito bem, terei uma última noite de felicidade antes de minha condenação, e como sou um animal
agora, serei um animal mesmo, e pronto."

E assim ele zanzou, ferozmente, pela neve do crepúsculo, pois era inverno.


Quando você estiver se sentindo desesperado, uma boa coisa para ser é um texugo. Em relação aos
ursos, lontras e doninhas, é a coisa mais próxima de um urso que ainda resta na Inglaterra, e sua
pele é tão grossa que não faz diferença se o mordem. Quanto à sua própria mordida, existe algo na
formação de suas mandíbulas que a faz quase impossível de ser deslocada — portanto, por mais
que a coisa que você estiver movendo tente se desvencilhar, não há nenhum motivo para você soltá-
la. Texugos são uma das poucas criaturas que podem mastigar tudo o mais, desde ninhos de vespas
e raízes a coelhinhos.

E aconteceu que um ouriço foi a primeira coisa que apareceu no caminho de Wart.

— Porco-espinho — disse Wart, examinando sua vítima com olhos embaçados, míopes —, vou
mastigar e engolir você.
O ouriço, que escondera seus espertos olhinhos de botão e comprido nariz sensível dentro do corpo
enroscado, e que ornamentara seus ferrões com um arranjo de não muito bom gosto de folhas
mortas, antes de ir dormir durante o inverno em seu ninho de relva, acordou e guinchou do jeito
mais lamentável.

— Quanto mais você guinchar — disse Wart —, mais eu vou mastigar. Isso faz o sangue ferver
dentro de mim.
— Ah, Mistre Tejugão — gritou o ouriço, mantendo-se bem fechadinho. — Bonzinho Mistre
Tejugão, tenhai misererecórdia de um pobre ouricinho e não sejai tão tirârânico. Nossa sina,
mistre, é não ser mastigados e engolidos. Tenhai piedosidade, bondadoso senhor, de um servo
inútil, picadilho de pulgas, que serquer sabe qual das mãos é a direreita e qual é a esquereda.
— Ouriço — exclamou Wart, sem complacência —, abstenha-se de gemer, nem uma vez, nem duas.
— Ai! de minha pobrezeza, de minha querida esponsa e meus filhinhos.
— Aposto que não tem nenhum. Saia já daí, seu covarde. Prepare-se para enfrentar seu destino.
— Senhor Mistre Tejugão — implorou o infeliz —, por favorzinho, não sejai maumau, meu doce
Mistre Tejugão, meu senhorzinho. Compadeçai de um pobre ouricinho. Concedai-lhe o grato
esplendoroso ar da vida a este mais humildinho dos animais, senhor dos senhores, e ele cantará sua
glóriria em doces canções ou lhe mostrará como susugar o leitinho das vacas no orvalhalinho todo
perolado.
— Cantar? — perguntou Wart, muito espantado.
— Ah, sim, cantar — exclamou o ouriço. E às pressas começou a cantar de uma maneira muito
apaziguadora, mas um pouco abafada porque não ousava se desenrolar.
E cantou, muito fúnebre, para dentro do estômago:

Ah, Genevieve
Doce Genevieve,
Seus dias vêm,
Seus dias vão,



Mas à luz da Memória
De tanto tempo atrás.
Os sonhos gentis retornarão,


E também cantou, sem fazer pausa alguma entre as canções, Lar Doce Lar e A Velha Ponte Rústica
do Moinho. Depois, por ter acabado seu repertório, respirou fundo, embora trêmulo, e começou
outra vez com Genevieve. E depois seguiu com Lar Doce Lar e A Velha Ponte Rústica do Moinho.

— Vamos — disse Wart —, pode parar com isso. Eu não vou te comer.
— Clementíssimo Mistre — suspirou humildemente o ouriço. — Bendiremos os santos e o
conserelho de governantes por vós e vossos gentis maxilares, enquanto as pulgas saltararem e os
ouriconhos não trepaparem nas chaminés.
Então, receando que sua breve caída na prosa pudesse endurecer o coração do tirano, lançou-se
sem fôlego à Genevieve pela terceira vez.

— Pelo amor de Deus, pare de cantar — disse Wart. — Desenrola. Não lhe farei nenhum mal.
Vamos, seu ouricinho tolo, me diga onde aprendeu essas canções.
— Desenrola é uma palavra — respondeu, trêmulo, o ouriço, que não se sentia nada impaciente no
momento —, mas enrola é outra. Se é para veres meu narizinho nu, senhor, nesse momentoso
momento, poderias sessentir um comichãozinho em vossos brancos dentes? E tudo é amor e medo
na guerra, pelo que todos sabemos. Vamos, então, cantar outrara vez em vossa honra, gentil Mistre
Tejugão, sobre aquela ponte rústica do moinho?
— Não quero escutá-la outra vez. Você canta muito bem, mas já foi suficiente. Desenrola, seu
idiota, e me diga onde aprendeu a cantar.
— A gente não é um ouriço comum — tremeu a pobre criatura, permanecendo tão firmemente
enrolada como antes. — A gente foi criada um a unzinho, por um gentil-homem muito do bem-
nascido, ele era sim, como a gente teria sido criada no peito da mamãezinha. Ah, não mastigai
nossos órgãos vitais maciozinhos, adororado Mistre Texugão, pois ele era um cavaleiro nato,
certamente, ele era, e criou a gente toda com leitinho de vaca chupado de louça de porcelilana. Ah,
só há pouquinhos ouricinhos tratados com louça de porcelilana, só pouquinhos.
— Não sei sobre o que você está falando.
— Ele era um gentil-homem, era, ele era sim. Do jeito que vou lhe dizendo. Ele pegou a gente
quando a gente era bem pequenininho e nos dava comidinha como não existe mais, não, não. E era
um gentil-homem que nos dava comidinha na salalara dele, como nunca um ouricinho viu antes nem
há de ver. Comidinha na porcelilana, e ai! que foi um dia triste quando ele sumiu por nada, por
caprichinho, foi, pode ter certeza.
— Qual era o nome desse gentil-homem?
— Ele era um gentil-homem, ele era. Não com nome próprio, nada assim de se lembrar, mas era um
gentil-homem, ele era sim, e dava comidinha para a gente em porcelilana.

— Ele se chamava Merlin? — perguntou Wart, curioso.
— Era, era sim o nome esse. Um nome distintoso era, mas a gente não dava conta de enrolar a
língua para dizer assim. Ah, Mirli ele chamava ele mesminho, e dava comidinha pra gente em
porcelilana, como um gentil-homem muito respeitaculoso.
— Ah, vamos, desenrola — exclamou Wart. — Conheço o homem que criou você e acho que vi
você quando era um bebê no algodão em rama no velho chalé dele. Vamos, ouriço, lamento tê-lo
assustado. Somos amigos e, pelos velhos tempos, quero ver seu narizinho cinzento e úmido se
mexer.
— Mexer o nariz é um falar — disse o ouriço, obstinado —, e não mexer esse nariz é outro. Agora,
por favor, vade embora Mistre Texugão e deixai um pobre sujeitinho tirar sua soneca de inverno.
Pensai em besouros e mel, adoroso barão, e que bandos de anjos cantem para seu repouso.
—Tolice — exclamou Wart. — Não lhe farei nenhum mal porque conheço você desde que era
pequeno.

— Ah, esses texugos — disse a pobre coisa para seu estômago — saem zanzando por aí sem
nenhum mal no coração. Que o Senhor vos abençoe, mas sem quererer mordem aqui e ali sem nemse dar conta e, Deus vos abençoe, mas o que pode um ouricinho fazerer? É por causa da pele deles,
é por isso sim, desde novinho ficam morderendo um ao outro e também a mamãezinha deles, e não
sentem nada e então mordem os outros da mesma maneira. Até com meu nobre mestrinho, senhor
Mirli, eles ficavam nos calcanharares dele com seus yik-yik, quando queriam comer, os que elecriava de pequeninos — e santa igreja!, como eles choraravam! Ai de mim! É uma coisa terrível ter
qualquer coisa com os texugos, todo mundo sabe.
— Não olham por onde andam — acrescentou o ouriço, antes que Wart pudesse protestar. — Vão
tropeçando de um lado para o outro como se fosse taperete com seus pezinhos. Passar por eles um
momento é uma sina, porque sem nenhuma intenção má eles zapzip, assim mesmo, por autodefesa
de cego com fome, e então, como você fica?
— O único ponto bonzinho de acertar neles — continuou o ouriço — é no nariz. O calcanhanhar de
Aquiles deles, é sim, como diz nas escrituras deles. Acerte um deles no nariz e bim-bam, e avidinha boa dele vai embora antes de ele poderer nem cheirar. É um belo golpe de mistre, é sim.
— Mas como um pobre ouricinho vai acertarar um no nariz? Não tem com que bater, nem jeito de
segurarar? E então eles vêm onde a gente está e pedem pra gente se desenrolar!
— Está bem, não precisa se desenrolar — disse Wart, resignado. — Lamento ter despertado você,
companheiro, e lamento tê-lo assustado. Acho você um ouriço charmoso, e encontrá-lo me fez ficar
mais contente outra vez. Volte a dormir como estava quando cheguei e eu vou procurar meus
amigos texugos, como me disseram para fazer. Boa noite, ouriço, e boa sorte na neve.
— A noite pode ser boa — murmurou o porco resmungão —, e também, outra vez, pode não ser.
Primeiro é para desenrolar e depois para enrolar. Uma coisa num momento e outra coisa no
seguinte. Ai ai, mundo complicadinho. Mas boa noite, minhas senhoras, é meu lema, venha granizo,
venha neve, e assim continuaremos proximamente.

Com estas palavras, o humilde animal se enrolou ainda mais aconchegado que antes, deu vários
resmungos ásperos, e já estava longe longe, em um mundo de sonho tão mais profundo do que
nossos sonhos humanos, como um sono completo de inverno é muito mais longo do que o sossego
de uma única noite.

"Bom", pensou Wart, "sem dúvida, ele consegue superar seus problemas bem rapidamente.
Engraçado cair no sono de novo tão rápido assim. Aposto que o tempo todo ele não esteve mais do
que semi-acordado, e vai pensar que foi apenas um sonho quando acordar na primavera, como
certamente vai acontecer".

Observou por um momento a bolinha suja de folhas, ervas e pulgas, enrolada firmemente dentro do
seu buraco, depois resmungou e se dirigiu outra vez para o monte do texugo, seguindo suas próprias
pegadas oblongas deixadas na neve.

— Então Merlin o enviou a mim — disse o texugo — para terminar sua educação. Bom, eu só
posso lhe ensinar duas coisas: cavar e amar sua casa. Esses são
os verdadeiros propósitos da
filosofia.
— Você me mostrará sua casa?
— Sem dúvida — disse o texugo —, embora, claro, eu não a use toda. É uma velha construção
irregular e grande demais para um homem só. Suponho que algumas de suas partes podem ter mil
anos. São cerca de quatro famílias que moram nela, aqui e ali, em largura e comprimento, do porão
ao sótão, e às vezes passamos meses sem nos encontrar. Um velho e louco lugar é o que deve
parecer a vocês, gente moderna, mas, enfim, é aconchegante.
Foi caminhando devagar pelos corredores do lugar encantador, rolando de uma perna para outra,
com a estranha cauda larga de texugo, a máscara branca de sua cara, com suas faixas pretas,
parecendo fantasmagórica na escuridão.

— Se quiser lavar as mãos, é no final daquela passagem — disse. Os texugos não são como as
raposas. Têm um sítio especial onde deixam seus ossos usados e refugos, verdadeiras fossas na
terra, e quartos cujas camas reviram com freqüência, para mantê-las limpas. Wart ficou encantado
com o que viu. Admirou sobretudo o Grande Saguão, que era o cômodo central do outeiro — era
difícil saber se deveria pensar nele como um colégio ou como um castelo —, e as várias suítes e
túneis de ligação se irradiavam a partir daí. Estava um pouco coberto de teia de aranha por ser um
tipo de sala comum que não era cuidada por uma família em particular, mas era decididamente
solene. O texugo a chamava de Sala do Acordo. Ao redor das paredes apaineladas havia quadros
antigos de texugos falecidos, famosos em sua época pela erudição ou religiosidade, iluminados de
cima por luzes de pirilampos. Havia cadeiras imponentes com as armas dos texugos gravadas a
ouro nos assentos de marroquim — o couro estava rasgando —, e um retrato do Fundador sobre a
lareira. As cadeiras estavam arrumadas em semicírculo ao redor do fogo, e havia muitos leques de
mognos com os quais todos podiam proteger os rostos do calor das chamas, e um tipo de tabuleiro
em declive por meio do qual os decantadores poderiam ir do meio para a ponta do semicírculo.
Algumas togas pretas estavam penduradas na galeria externa, e tudo era extremamente antigo.
— Estou solteiro no momento — disse o texugo, se desculpando, quando voltaram para seu quarto,

muito bem-arrumado, com papel de parede florido —, por isso, lamento, mas tenho só uma cadeira.
Você terá que se sentar na cama. Sinta-se em casa, meu querido, enquanto faço um pouco de
ponche, e me diga como vão as coisas no mundão lá de fora.

— Ah, vão do mesmo jeito. Merlin está bem, e Kay será armado cavaleiro na próxima semana.
— Uma cerimônia interessante.
— Que braços enormes você tem — comentou Wart, observando-o misturar a bebida com uma
colher. — E também eu, por falar nisso — e olhou para seus próprios músculos arqueados. Ele era
praticamente um tórax firme sustentando um par de antebraços, poderosos como coxas.
— É de cavar — disse a sábia criatura, com complacência. — A toupeira e eu, e suponho que você
teria que se pôr a cavar bastante para competir conosco.
— Encontrei um ouriço lá fora.
— É mesmo? Hoje em dia dizem que ouriços podem transmitir febre de porco e doenças do pé e da
boca.
— Eu o achei muito agradável.
— Eles têm mesmo um tipo de apelo patético — disse o texugo, com tristeza —, mas receio dizer
que, no geral, simplesmente os mastigo. Há algo de irresistível no barulhinho de carne de porco na
boca.
— Os egípcios — acrescentou, e com isso queria dizer os ciganos — também são fãs deles como
comida.
— O meu não queria se desenrolar.
— Você deveria tê-lo jogado na água, e então ele teria lhe mostrado rapidamente as pernocas.
Tome, o ponche está pronto. Sente-se perto do fogo e fique à vontade.
— É ótimo sentar aqui com a neve e o vento lá fora.
— É mesmo. Vamos brindar à boa sorte de Kay como cavaleiro.
— Boa sorte a Kay, então.
— Boa sorte.
— Bem — disse o texugo, abaixando seu copo outra vez com um suspiro. — Diga-me, o que deu
em Merlin para enviá-lo aqui?
— Ele falou em aprendizagem — disse Wart.
— Ah, bom, se é aprendizagem o que lhe traz aqui, você veio ao lugar certo. Mas você não acha um
pouco chato?
— Às vezes acho — disse Wart —, e às vezes não. No fim, posso agüentar uma boa quantidade de
aprendizagem se for sobre História Natural.
— Estou justamente escrevendo um ensaio nesse momento — disse o texugo, tossindo de modo

acanhado para mostrar que estava absolutamente determinado a continuar — que explica por que o
Homem se tornou o rei dos animais. Talvez você queira ouvi-lo?

— É para meu doutorado, sabe — acrescentou apressado, antes que Wart pudesse protestar. Tinha
pouquíssimas chances de ler seus ensaios para alguém, portanto, não se conformaria se deixasse
essa oportunidade escapar.
— Muito obrigado — disse Wart.
— Será bom para você, querido rapaz. É justamente o ideal para coroar uma educação. Estudar os
pássaros e os peixes e os animais: depois, terminar com o Homem. Que afortunada foi sua vinda!
Agora, com os diabos, onde coloquei o manuscrito?
O velho escarafunchou por ali com suas grandes garras até virar um monte de papéis sujos de terra,
uma ponta dos quais fora usada para acender alguma coisa. Então sentou-se em sua poltrona de
couro, que tinha uma depressão funda no meio; pôs seu capelo de veludo com borla; e apareceu
com umas lunetas que equilibrou na ponta do nariz.

— Huum! — fez o texugo.
Imediatamente, ficou paralisado pela timidez, e sentou-se ruborizado com seus papéis, incapaz de
começar.

— Vamos — disse Wart.
— Não está muito bom — ele explicou, com recato. — É só um rascunho, sabe. Ainda tenho que
alterar muita coisa antes de enviá-lo.
— Tenho certeza de que é interessante.
— Ah, não, não é nem um pouco interessante. É só uma coisa esporádica que fiz em uma meia hora
esporádica, só para passar o tempo. De qualquer forma, é assim que começa.
— Huum! —-fez o texugo. A seguir, adotou uma voz impossivelmente alta em falsete e começou a
ler tão rápido quanto podia.
— As pessoas perguntam, com freqüência, como uma questão ociosa, se o processo da evolução
começou com a galinha ou com o ovo. Havia um ovo de onde a primeira galinha surgiu, ou foi uma
galinha que botou o primeiro ovo? Minha tendência é dizer que a primeira coisa criada foi o ovo.
— Quando Deus manufaturou todos os ovos a partir do qual deveriam depois emergir os peixes e
as serpentes e os pássaros e os mamíferos e mesmo os ornitorrincos, ele chamou os embriões à Sua
frente e viu que eram bons.
— Talvez eu deva explicar — acrescentou o texugo, abaixando seus papéis nervosamente e
olhando para Wart por cima deles — que todos os embriões se parecem muito. Eles são o que
você é antes de nascer e, quer você vá ser um sapo ou um pavão ou um leopardo ou um homem,
quando você é um embrião, parece um ser humano particularmente repulsivo e desamparado. Eu
continuo como a seguir:
— Os embriões ficaram diante de Deus, com suas mãos frágeis unidas educadamente sobre seus

estômagos e as cabeças pesadas respeitosamente inclinadas, e Deus lhes falou.

— Ele disse: "Agora, embriões, aqui estão vocês, todos parecendo exatamente iguais, e Nós lhe
daremos a chance de escolher o que vocês querem ser. Quando crescerem, de qualquer maneira,
ficarão maiores, mas Nós temos o prazer de lhes conferir mais uma dádiva. Vocês podem alterar
qualquer parte de si mesmos em qualquer coisa que pensem que lhes será útil mais tarde na vida.
Por exemplo, no presente momento, não podem cavar. Aquele que quiser transformar suas mãos em
um par de pás ou ancinhos pode fazer isso. Ou, para dizer de outra maneira, no momento vocês só
podem usar suas bocas para comer. Aquele que quiser usar a boca como arma agressiva, basta
pedir para mudá-la e será um crocodilo °u um tigre de dentes de sabre. Agora, então, levantem e
escolham suas ferramentas, mas lembrem-se de que crescerão como aquilo que escolheram e
deverão se manter assim".
— Todos os embriões refletiram sobre o assunto, e então, um por um, aproximaram-se do trono
eterno. Eram permitidas duas ou três especializações, assim alguns escolheram usar os braços
como máquinas voadoras e as bocas como armas, ou trituradoras ou perfuradoras ou Colheres,
enquanto outros escolheram usar os corpos como barcos e as mãos como remos. Nós, texugos,
pensamos muito e decidimos pedir três privilégios. Pedimos para transformar nossas peles em
escudos, nossas bocas em armas, e nossos braços em ancinhos. Esses privilégios nos foram dados.
Todos se especializaram de um jeito ou de outro, e alguns de maneiras bem esquisitas. Por
exemplo, um dos lagartos do deserto decidiu trocar todo o corpo por mata-borrão, e um dos sapos
que vivia nas secas antípodas decidiu simplesmente ser uma garrafa-d'água.
— Os pedidos e sua aceitação demoraram dois longos dias — eram o quinto e o sexto, pelo que me
lembro —, e no finalzinho do sexto dia, quase na hora de fechar para o domingo, já tinham passado
todos os embriõezinhos exceto um. Esse embrião era o do Homem.
— "Bom, nosso homenzinho", disse Deus. — "Você esperou até o último momento e teve bastante
tempo para decidir, e Nós temos certeza de que deve ter refletido bem todo esse tempo. O que
poderemos fazer por você?"
— "Por favor, Deus" — disse o embrião — "acredito que O Senhor me fez na forma na qual estou
agora por razões que só o Senhor conhece, e acho que seria indelicado modificá-la. Se puder
escolher, continuarei como estou. Não trocarei nenhuma das partes que o Senhor me deu por outras
ferramentas sem dúvida inferiores, e permanecerei toda minha vida como embrião sem defesa, me
esforçando ao máximo para obter para mim mesmo alguns instrumentos frágeis a partir da madeira,
do ferro e de outros materiais que o Senhor achar conveniente colocar frente a mim. Se eu quiser
barco, tentarei construir um com árvores, e se eu quiser voar, construirei uma carruagem que o faça
por mim. Provavelmente, estou sendo muito tolo ao recusar me aproveitar da gentileza que o
Senhor nos ofereceu, mas me esforcei ao máximo para refletir bem sobre isso, e agora espero que
as fracas decisões deste pequeno inocente conte com o Seu beneplácito".
— "Muito bem", exclamou o criador, deliciado. — "Venham aqui, todos vocês embriões com seus
bicos e não sei mais o quê, para ver Nosso primeiro homem. Ele foi o único, entre todos vocês, que
adivinhou nosso pequeno enigma, e Nós temos o grande prazer de conferir a ele a Ordem de
Domínio sobre as Aves do Ar, e as Feras da Terra, e os Peixes do Mar. Agora, o resto de vocês

pode partir para se amar e se multiplicar, pois é hora de fechar para o final de semana. Quanto a
você, Homem, será nu de ferramenta por toda a sua vida, mas será um usuário de ferramentas.
Parecerá um embrião até que o enterrem, mas todos os outros serão embriões frente a seu poderio.
Eternamente subdesenvolvido, permanecerá sempre, em potência, como Nossa imagem, capaz de
ver algumas das Nossas tristezas e sentir algumas das Nossas alegrias. Em parte, estamos tristes
por você, Homem, mas em parte, esperançosos. Agora, vá e tente fazer o melhor possível. E,
escuta, Homem, antes de partir...

— "Sim?", perguntou Adão, voltando-se para trás.
— "Nós só queremos dizer" — disse Deus, acanhado, torcendo as mãos. — "Bem, Nós só
queremos dizer, Deus lhe abençoe".
— É uma boa história — disse Wart, em dúvida. — Gosto mais dessa do que a de Merlin sobre o
rabino. E é interessante, também.
O texugo ficou todo confuso.

— Não, não, meu rapaz. Você exagera. No máximo, uma parábola menor. Além disso, receio que
seja um pouco otimista.
— Como?
— Bem, é verdade que o homem tem a Ordem de Domínio e é o mais poderoso dos animais — se
com isso se quer dizer o mais terrível —, mas ultimamente eu às vezes duvido se ele é o mais
abençoado.
— Eu não acho que Sir Ector seja muito terrível.
— De qualquer maneira, se Sir Ector fosse passear à beira de um rio, não apenas os pássaros
fugiriam dele e os animais também, mas até os peixes disparariam para o outro lado. Eles não
fazem o mesmo uns com os outros.
— O homem é o rei dos animais.
— Talvez. Ou deveríamos dizer o tirano? E depois, de qualquer maneira, temos que admitir que ele
tem uma quantidade de vícios.
— O Rei Pellinore não tem muitos.
— Ele iria para a guerra se o rei Uther declarasse uma guerra. Você sabe que o Homo sapiens é
quase o único animal que trava guerras?
— As formigas também.
— Não diga "as formigas também" de uma maneira geral, meu caro rapaz. São mais de quatro mil
tipos diferentes de formigas, e de todos esses tipos só consigo me lembrar de uns cinco que são
beligerantes. São cinco formigas, uma térmita que conheço, e o Homem.
— Mas as alcatéias de lobos da Floresta Sauvage atacam nosso rebanhos de ovelhas todo inverno.
— Lobos e ovelhas pertencem a espécies diferentes, meu amigo. A verdadeira guerra é a que
acontece entre bandos da mesma espécie. Das centenas de milhares de espécies, só posso me

lembrar de sete que são beligerantes. Mesmo o Homem tem algumas variedades, como os Esquimós
e os Ciganos e os Lapões e alguns Nômades da Arábia, que não guerreiam, porque não disputam
fronteiras. A verdadeira guerra é mais rara na Natureza do que o canibalismo. Você não acha que
isso é um tanto desastroso?

—Pessoalmente — disse Wart —, eu gostaria de ir para a guerra, se pudesse me tornar um
cavaleiro. Gostaria dos estandartes e das trombetas, das armaduras brilhantes e dos ataques
gloriosos. E ah! gostaria muito de realizar grandes proezas, de ser corajoso e dominar meus
próprios medos. Na guerra, Texugo, você não tem coragem, e resistência, e camaradas a quem
ama?

O sábio animal pensou por um longo tempo, olhando absorto o fogo.

No final, pareceu mudar de assunto.

— De quem você gosta mais — perguntou —, das formigas ou dos gansos selvagens?

XXII


O Rei Pellinore chegou para o importante final de semana em um estado de grande agitação.

— Vocês sabem? quer dizer, já escutaram? — exclamou. — É um segredo, o quê?
— O que é um segredo, o quê? — eles lhe perguntaram.
— Ora, o Rei — exclamou sua majestade. — Vocês sabem sobre o Rei?
— Qual é o problema com o rei? — inquiriu Sir Ector. — Não me diga que ele está vindo caçar
com aqueles seus malditos cães ou algo parecido, é?
— Ele está morto — gritou o Rei Pellinore, tragicamente. — Está morto, o pobre sujeito, e nunca
mais vai poder caçar.
Sir Grummore levantou-se, respeitosamente, e tirou seu boné de ficar em casa.

— O Rei está morto — ele disse. — Longa vida ao Rei. Todos os outros sentiram que também
deveriam levantar-se, e a ama dos rapazes começou a chorar.
— E agora, e agora — ela soluçava. — Sua real majestade morta e acabada, um cavaleiro tão
respeitável. Recortei muitas iluminuras dele feitas à mão, dos Missais Ilustrados, sim, e preguei no
consolo da lareira. Desde o tempo em que estava de fraldas, direto para as Torres do mundo, e
visitando várias regiões como o Príncipe Encantador, não havia uma pintura dele que eu não
recortasse, sim, e lhe dirigia meus últimos pensamentos todas as noites.
— Componha-se, ama — disse Sir Ector.
— É solene, não é? o quê? — disse o Rei Pellinore. — Uther, o Conquistador, 1066 a 1216.
— Um momento solene — concordou Sir Grummore. — O Rei está morto. Longa vida ao Rei.
— Devemos baixar as cortinas — disse Kay, que sempre foi um respeitador das maneiras corretas
— ou abaixar as bandeiras a meio mastro.
— Tem razão — disse Sir Ector. — Que alguém vá avisar o sargento-de-armas.
Obviamente, era tarefa de Wart executar essa ordem, pois era agora o mais jovem nobre presente,
portanto, saiu correndo alegremente para achar o sargento. Logo, os que ficaram no solário
puderam ouvir uma voz gritando: "Agora, Um-Dois, luto especial para sua majestade, abaixem
quando eu disser Dois!", e a seguir, o agitar de todos os estandartes, bandeiras, pendões, flâmulas,


bandeirolas, insígnias, pavilhões e reconhecimentos, enchendo de animação os torreões nevados da
Floresta Sauvage.

— Como você soube? — indagou Sir Ector.
— Eu estava galopando pelas cercanias da floresta atrás da Besta, sabe, quando encontrei um fradesolene de veste cinzenta, e ele me contou. É uma notícia realmente de última hora.
— Pobre velho Pendragon — disse Sir Ector.
— O Rei está morto. Longa vida ao Rei — disse Sir Grummore.
— Está muito bem para você
ficar dizendo isso, meu querido Grummore — exclamou o Rei
Pellinore, com petulância —, mas quem é o Rei que deve ter essa vida tão longa, o quê, segundo
você?
— Bem, seu herdeiro — disse Sir Grummore, um tanto desconcertado.
— Nosso abençoado monarca — disse a ama, lacrimosa — nunca teve herdeiros. Qualquer um que
estuda a família real sabe disso.
— Misericórdia! — exclamou Sir Ector. — Mas com certeza ele deve ter algum parente próximo?
— Exatamente — exclamou o Rei Pellinore, muito excitado. — Essa é a parte excitante, o quê?
Nenhum herdeiro nem parente próximo, e quem vai sucedê-lo no trono, o quê? Era por isso que meu
frade estava todo nervoso, e por isso ele estava perguntando quem seria o sucessor, quem? O quê?
— Você quer dizer que não existe um Rei de Gramarye? — exclamou Sir Grummore, com
indignação.
— Nem a sombra de um — exclamou o Rei Pellinore, todo importante. — E houve sinais e
prodígios de grande portento.
— Acho que isso é um escândalo — disse Sir Grummore. — Só Deus sabe o que acontecerá com
nossa querida e velha terra. Com certeza, por causa dos heréticos e dos comunistas.
— Que tipo de sinais e prodígios? — perguntou Sir Ector.
— Bom, apareceu um tipo de espada em uma pedra, o quê, em uma espécie de igreja. Não dentro
da igreja, se entende o que quero dizer, e não dentro da pedra, mas esse tipo de coisa, o quê, como
se poderia dizer.
— Não entendo o que a igreja tem a ver — disse sir Grummore.
— Está numa bigorna — explicou o rei.
— A igreja?
— Não, a espada.
— Mas pensei que você tivesse dito que a espada estava dentro da pedra.
— Não — disse o Rei Pellinore, — A pedra está fora da igreja.
— Olha aqui, Pellinore — disse Sir Ector. — Descanse um pouco, meu velho, e depois comece

tudo de novo. Tome, beba um pouco deste corno de hidromel e vá com calma.

— A espada — disse o Rei Pellinore — está presa em uma bigorna que está numa pedra. Passa
direto pela bigorna e entra na pedra. A bigorna está grudada na pedra. A pedra está do lado de fora
da igreja. Passa o hidromel.
— Não acho isso muito prodigioso — observou Sir Grummore. — O prodígio é que deixem esse
tipo de coisa acontecer. Mas nunca se sabe hoje em dia, com todos esses agitadores saxões.
— Meu querido companheiro — exclamou Pellinore, ficando outra vez excitado —, não é onde a
pedra está, o quê, que estou tentando dizer, mas o que está escrito nela, o quê, e onde ela está.
— O quê?
— Quê? No punho.
— Ora, vamos, Pellinore — disse Sir Ector. — Fique sentado bem quieto com seu rosto virado
para a parede por um minuto e depois nos diga o que você está querendo dizer. Vá com calma, meu
velho. Não precisa se apressar. Fique sentado quieto, olhando para a parede, isso meu bom
companheiro, e fale o mais devagar que puder.
— Há palavras escritas nessa espada nessa pedra do lado de fora dessa igreja — explicou o Rei
Pellinore, bem humilde —, e essas palavras são as seguintes. Oh, por favor, tentem me escutar,
vocês dois, em vez de ficar me interrompendo o tempo todo por nada, pois isso faz a cabeça de
qualquer mortal se confundir.
— Que palavras são essas? — perguntou Kay.
— Essas palavras dizem assim, pelo que pude entender do que o velho frade de veste cinzenta
falou — disse o rei Pellinore.
— Continue, vamos — disse Kay, pois o Rei tinha feito uma pausa.
— Continue — disse Sir Ector. — O que essas palavras nessa espada nessa bigorna nessa pedra do
lado de fora dessa igreja dizem?
— Com certeza, propaganda comunista — disse Sir Grummore.
O Rei Pellinore fechou bem os olhos, estendeu os braços em ambas as direções e anunciou com
letras maiúsculas:

— AQUELE QUE TIRAR ESTA ESPADA DESTA PEDRA E BIGORNA É POR DIREITO O REI NASCIDO PARA
GOVERNAR TODA A INGLATERRA.
— Quem disse isso? — perguntou Sir Grummore.
— A espada diz isso, como estou falando.
— Bem faladeira essa espada — observou sir Grummore, cético.
— Está escrito nela — exclamou o Rei Pellinore, chateado. — Escrito nela em letras de ouro.
— Então, por que você não a tirou de lá? — perguntou Sir Grummore.

— Mas já lhe disse que eu não estava lá. Tudo isso que estou contando para vocês foi aquele frade
de quem lhes falei quem me contou, como estou lhes contando.
— E essa espada com essa inscrição foi tirada da pedra? — inquiriu Sir Ector.
— Não — sussurrou o Rei Pellinore, dramático. — Aí é que está toda a excitação. Ninguém
consegue de jeito nenhum tirar essa espada, apesar de todos ficarem tentando até para se divertir, e
então tiveram que convocar um torneio para toda a Inglaterra, no Primeiro Dia do Ano, para que o
homem que vier ao torneio e puxar a espada possa ser o Rei de toda a Inglaterra para sempre, o
quê, eu digo.
— Oh, pai — exclamou Kay. — O homem que tirar a tal espada da pedra será o Rei de toda a
Inglaterra. Não podemos ir ao torneio, pai, e tentar uma vez?
— Não me ocorreria essa idéia — disse Sir Ector.
— Até Londres é uma grande distância — disse Sir Grummore, balançando a cabeça.
— Meu pai foi lá uma vez — disse o Rei Pellinore.
— Oh, é claro que podemos ir — disse Kay. — Quando eu for armado cavaleiro, terei que ir a um
torneio em algum lugar, e esse acontece justamente na data certa. Todas as melhores figuras estarão
lá, e poderemos ver os cavaleiros famosos e os grandes reis. Não importa a espada, claro, mas
pense no torneio, provavelmente o maior que jamais houve em Gramarye, e todas as coisas que
poderemos ver e fazer. Meu querido pai, se me ama, deixe-me ir a esse torneio, para que eu tenha a
chance de levar o melhor prêmio de todos, em meu primeiro combate.
— Mas, Kay, eu nunca estive me Londres — disse Sir Ector.
— Mais um motivo para ir. Acredito que alguém que não for a um torneio como esse estará
provando que não tem sangue nobre nas veias. Pense no que as pessoas vão dizer de nós se não
formos e não tentarmos nossa chance com a espada. Dirão que a família de Sir Ector era demasiado
vulgar e sabia que não teria chance.
— Todos sabemos que a família não tem chances — disse Sir Ector —, isto é, quanto a espada.
— Tem gente demais em Londres — observou Sir Grummore, como uma conjetura desconfiada. —
É o que dizem.
Deu um suspiro profundo e virou os olhos arregalados para seu anfitrião.


— E lojas — acrescentou o Rei Pellinore, de repente, também começando a respirar fundo.
— Maldição! — exclamou Sir Ector, batendo o corno de bebida na mesa com tal força que
espirrou. — Vamos todos a Londres, então, e ver o novo Rei!
Todos se levantaram como um só homem.

— Por que eu não seria tão digno quanto meu pai? — exclamou o Rei Pellinore.
—Que os raios me partam! — exclamou Sir Grummore. — Afinal, maldição, é a capital!
— Hurra! — gritou Kay.

— Deus tenha misericórdia — disse a ama.
Nesse momento, Wart chegou com Merlin, e todo mundo estava muito excitado para reparar que, se
ele já não fosse um adulto, estaria prestes a chorar.

— Ah, Wart — exclamou Kay, esquecendo no momento que estava se dirigindo a seu escudeiro,
voltando à familiaridade de sua juventude. — O que você acha? Vamos todos a Londres para um
grande torneio no Primeiro Dia do Ano!
— Vamos?
— Sim, e você vai carregar meu escudo e lanças para as justas, e eu sairei vitorioso e serei um
grande cavaleiro!
— Bom, fico feliz por estarmos indo — disse Wart —, porque Merlin também está de partida.
— Ah, não vamos precisar de Merlin.
— Ele está de partida — repetiu Wart.
— De partida? — perguntou Sir Ector. — Pensei que fôssemos nós que estivéssemos partindo.
— Ele está indo embora da Floresta Sauvage.
— Ora, Merlin, o que é isso? Não estou entendendo nada — disse Sir Ector.
— Vim dizer adeus, Sir Ector — disse o velho mago. — Amanhã meu aluno Kay será armado
cavaleiro, e na próxima semana meu outro aluno partirá como seu escudeiro. Já não tenho mais
utilidade aqui, e chegou minha hora de ir embora.
— Vamos, vamos, não diga isso — disse Sir Ector. — Acho que você é um velho companheiro
muito útil, seja para o que for. Você fica e me ensina, ou vira o bibliotecário ou algo assim. Não se
deixa um velho pai sozinho, depois de suas crianças abandonarem o ninho.
— Nós todos nos encontremos outra vez — disse Merlin. —. Não há motivo para tristeza.
— Não vá — disse Kay.
— Tenho que ir — retrucou o tutor. — Tivemos um bom tempo, enquanto éramos jovens, mas é da
natureza do tempo passar. Existem muitas outras coisas nas outras partes do reino das quais devo
cuidar no momento, e é um momento especialmente ocupado para mim. Vamos, Archimedes, diga
adeus à nossa companhia.
— Adeus — disse Archimedes, com carinho para Wart.
— Adeus — disse Wart, sem olhar para ele, de jeito nenhum.
— Mas você não pode ir — exclamou Sir Ector. — Não sem um mês de aviso prévio.
— Não posso? — retrucou Merlin, assumindo a posição sempre usada por um filósofo que tinha a
intenção de se desmaterializar. Pôs-se na ponta dos pés, enquanto Archimedes segurava firme em
seu ombro, e começou a girar lentamente, como um pião, e cada vez mais e mais rápido até ser
apenas uma mancha de luz esverdeada. Em poucos segundos não havia mais ninguém ali.

— Adeus, Wart — gritaram duas vozes fracas do lado de fora da janela do solário.
— Adeus — disse Wart, pela última vez. E o pobre infeliz saiu rapidamente da sala.

XXIII


A elevação de Kay ao grau de cavaleiro aconteceu em meio a grandes preparativos. Seu banho
suntuoso teve que ser preparado na despensa, entre dois porta-toalhas e uma velha caixa de jogos
selecionados, contendo um tabuleiro de palha já muito gasto para dardos — era chamado de
fléchette
naquele tempo — porque todos os outros quartos estavam cheios de pacotes. A ama
passava o tempo todo fazendo ceroulas novas para todo mundo, partindo do princípio de que o
clima de qualquer lugar fora da Floresta Sauvage seria traiçoeiro ao extremo e, quanto ao sargento,
poliu toda a armadura até quase ficar quebradiça, e afiou o gume das espadas até quase no final.

Finalmente, chegou a hora de partir.

Talvez, se você não viveu na Velha Inglaterra do século XII, ou seja lá quando foi, nem num castelo
remoto nas fronteiras dos Pântanos, achará difícil imaginar as maravilhas daquela viagem.

O caminho, ou trilha, a maior parte do tempo seguia pelos altos espinhaços das serras ou colinas, e
eles podiam olhar, dos dois lados, para os pântanos desolados onde suspiravam os juncos cobertos
de neve, e onde o gelo estalava, e ao pôr-do-sol vermelho, os patos grasnavam alto no ar deinverno. Toda a região era assim. Às vezes, aparecia uma charneca de um lado do espinhaço, e uma
floresta de cem mil acres no outro, com todos os grandes galhos cobertos de branco. Em alguns
momentos, podiam ver um fio de fumaça entre as árvores, ou um ajuntamento bem distante de
construções entre os juncos impenetráveis, e duas vezes passaram por cidades bem respeitáveis,
com várias estalagens das quais se gabar, mas no conjunto era uma Inglaterra não civilizada. Os
melhores caminhos tinham, de cada lado, o mato limpo no cumprimento de um tiro de arco, para
evitar que os viajantes fossem mortos por ladrões escondidos.

Eles dormiam onde podiam, algumas vezes na cabana de algum camponês que tivesse condições de
recebê-los, às vezes no castelo de um cavaleiro irmão que os convidava para descansar um pouco,
às vezes à luz do fogo e pulgas de um galpão pequeno e sujo, com um ramo amarrado em um mastro
do lado de fora — era essa a tabuleta usada pelas estalagens naquele tempo — e uma ou duas vezes
em campo aberto, todos amontoados para se proteger do frio, entre os cavalos pastando. Aonde
quer que fossem e onde quer que dormissem, o vento do leste soprava nos juncos, e os gansos
selvagens voavam alto na luminosidade noturna, grasnando para as estrelas.

Londres estava cheia até a borda. Se Sir Ector não tivesse a sorte de ser o proprietário de uma
pequena terra em Pie Street, onde agora havia uma respeitável estalagem, eles teriam tido
dificuldades para encontrar alojamento. Mas ele era o proprietário, e para falar a verdade, retirava


a maior parte de seus dividendos dessa fonte, portanto conseguiram três camas para os cinco.
Consideraram-se afortunados.

No primeiro dia do torneio, Sir Kay conseguiu colocá-los a caminho das liças pelo menos uma hora
antes que as justas tivessem qualquer chance de começar. Passara a noite acordado, imaginando
como iria vencer os melhores barões da Inglaterra, e não foi capaz de comer seu desjejum. Agora,
ia à frente da cavalgada, com as faces pálidas, e Wart desejou poder fazer alguma coisa para
acalmá-lo.

Para pessoas da província, que apenas conheciam o desmantelado campo de torneios do castelo de
Sir Ector, a cena que viram foi maravilhosa. Era uma enorme cavidade verde na terra, quase tão
grande como a arena de um campo de futebol. Era três metros mais baixa que o terreno ao redor,
com encostas em declive, e a neve havia sido removida dali. Fora mantido quente com palhas, que
tinham sido tiradas esta manhã, e agora a relva cerrada brilhava verde na paisagem branca. Em
toda a volta da arena havia um mundo de cores tão deslumbrantes e movimentadas e faiscantes que
faziam a pessoa piscar os olhos. As madeiras da tribuna de honra estavam pintadas de escarlate e
branco. Os pavilhões de seda das pessoas famosas, armados por todo lado, eram azul-celeste,
verde, cor de açafrão e quadriculados. As bandeiras e bandeirolas que flutuavam por todo lado ao
vento brusco agitavam-se com todas as cores do arco-íris, a esticarem-se e bater nos mastros, e a
linha divisória no meio da arena era também feita de quadrados de tabuleiro em preto e branco. A
maioria dos combatentes e seus acompanhantes ainda não tinham chegado, mas se podia ver a partir
dos poucos que já estavam ali como as pessoas importantes transformariam o cenário em um
amontoado de flores, e como as armaduras brilhariam, e as mangas festonadas dos arautos
dançariam ao vento, quando levassem as cometas de bronze aos lábios para sacudir as nuvens
felpudas do inverno com toques de júbilo e fanfarras.

— Meu Deus! — exclamou Sir Kay. — Esqueci minha espada em casa.
— Não pode combater sem uma espada — disse Sir Grummore. — Completamente irregular.
— Melhor voltar e buscá-la — disse Sir Ector. — Dá tempo.
— Meu escudeiro fará isso — disse Sir Kay. — Que maldito erro para cometer! Vamos, escudeiro,
volte com toda a rapidez à estalagem e traga minha espada. Ganhará um xelim se chegar a tempo.
Wart ficou tão pálido quanto Sir Kay estava, e olhou como se fosse esbofeteá-lo. Então, disse:

— Isso será feito, mestre.
Virou seu vagaroso palafrém contra a corrente dos que chegavam.

"Oferecer dinheiro para mim!", exclamou Wart consigo mesmo. "Baixar os olhos do alto de sua
bela montaria para esse pangaré e me chamar de Escudeiro! Oh, Merlin, dê-me paciência com o
bruto, e não me deixe jogar seu maldito xelim na sua cara!"

Quando chegou à estalagem, ela estava fechada. Todo mundo fora ver o famoso torneio, e todo o
pessoal da casa seguira a multidão. Aqueles eram tempos sem lei e não era seguro deixar sua casa
— ou mesmo nela dormir — a menos que tivesse certeza de que ela estaria inexpugnável. As
venezianas de madeira aparafusadas nas janelas do térreo tinham cinco centímetros de espessura, e


as portas possuíam trancas duplas.

"E agora, o que faço", perguntou-se Wart, "para ganhar meu xelim?".

Olhou, pesaroso, para a pequena estalagem sem abertura e começou a rir.

"Pobre Kay", pensou. "Toda essa coisa do xelim foi só porque ele estava assustado e infeliz, e
agora tem motivos para isso. Bom, ele terá algum tipo de espada, nem que eu tenha que invadir a
Torre de Londres".

"Como é que uma pessoa faz para conseguir uma espada?", ele continuou. "Onde posso roubar
uma? Será que conseguiria tocaiar algum cavaleiro, mesmo estando montado nesse pangaré, e tomar
sua arma pela força? Tem que haver algum ferreiro ou homem de armas numa grande cidade como
esta, cuja loja deveria estar aberta".


— Meu Deus! — exclamou Sir Kay. — Esqueci minha espada. [...]
— Melhor voltar e buscá-la — disse Sir Ector. — Dá tempo.
— Meu escudeiro fará isso — disse Sir Kay. — Que maldito erro para cometer! Vamos,
escudeiro, volte com toda a rapidez à estalagem e traga minha espada. Ganhará um xelim se
chegar a tempo.

Wart ficou pálido e olhou corno se fosse esbofeteá-lo. Disse:

— Isso será feito, mestre.
Virou seu vagaroso palafrém contra a corrente dos que chegavam. "Oferecer dinheiro para
mim? exclamou Wart consigo mesmo. "Baixar os olhos do alto de sua bela montaria para esse
pangaré e me chamar de Escudeiro! Oh, Merlin, dê-me paciência com o bruto, e não me deixe
jogar seu maldito xelim na sua cara!"

Virou sua montaria e saiu a meio galope. No final da rua, havia uma igreja tranqüila, com um tipo
de praça em frente à sua porta. No meio da praça, havia uma grande pedra com uma bigorna, e uma
bela espada novinha estava enfiada na bigorna.

"Ora", pensou Wart, "suponho que isso seja uma espécie de memorial de guerra, mas terá que
servir. Tenho certeza de que ninguém se chateará com Kay por causa de um memorial de guerra, se
souberem de sua situação desesperada".

Amarrou as rédeas em um mourão da cerca, percorreu a passos largos a trilha de cascalho, e
segurou a espada.

— Venha, espada — disse. — Peço sua clemência para lhe tirar por uma causa nobre.
"Isto é extraordinário", pensou Wart. "Sinto-me estranho quando seguro esta espada, e vejo tudo
muito mais claramente. Vejo as lindas gárgulas da igreja e do monastério ao qual ela pertence. Vejo
de que maneira esplêndida os estandartes famosos da nave estão ondulando. Como aquele nobre
teixo levanta as cascas vermelhas de sua madeira para reverenciar Deus. Como a neve está limpa.
Posso sentir o cheiro de algo como matricária e a sarça doce — e será música o que estou
escutando?"

Era música, seja da flauta de Pã ou flautins, e a luz no adro da igreja era tão clara, mas não
estonteante, que se poderia pegar um alfinete a vinte metros de distância.

— Tem alguma coisa neste lugar — disse Wart. — Tem pessoas. Oh, pessoas, o que vocês
querem?
Ninguém respondeu, mas a música era alta e a luz, linda.

— Pessoas — exclamou Wart —, tenho que pegar esta espada. Não é para mim, mas para Kay.
Depois a trago de volta.
Ainda nenhuma resposta, e Wart virou-se outra vez para a bigorna. Viu as letras douradas, que não
leu, e as jóias no pomo do punho, cintilando sob a bela luz.

— Venha, espada — Wart disse.
Segurou o cabo com as duas mãos e puxou contra a pedra. Houve um melodioso acorde de flautins,
mas nada se moveu.
Wart soltou o cabo, quando estava começando a sentir as palmas da mão arderem, e deu um passo



atrás, vendo estrelas.

— Está bem presa — disse.
Ele a segurou outra vez e puxou com toda a força. A música tocou mais forte e a luz ao redor do
adro da igreja brilhou como ametista; mas a espada continuava presa.

— Ah, Merlin — exclamou Wart — ajude-me com esta espada.
Houve uma espécie de barulho agitado e um acorde longo tocou. Ao redor de toda a igreja
apareceram centenas de velhos amigos. Levantaram-se juntos das paredes da igreja, como os
fantasmas de Punch e Judy dos velhos tempos, e havia texugos e rouxinóis e gralhas e lebres e
gansos selvagens e falcões e peixes e cães e unicórnios caprichosos e vespas solitárias e
crocodilos e porcos-espinhos e grifos e os milhares de outros animais que ele conhecera. Eles
assomavam pela parede da igreja, os amigos e ajudantes de Wart, e todos falaram solenemente em
turnos. Alguns tinham saído dos estandartes da igreja, onde estavam pintados em heráldica, outros
das águas e do céu e dos campos ao redor — mas todos, até o menor camundongo, tinham vindo
ajudar por conta do amor. Wart sentiu sua força crescer.

— Trabalhe suas costas — disse um lúcio (ou chuço) saído de um dos estandartes heráldicos —
como você fez uma vez quando eu ia agarrá-lo. Lembre-se de que a força brota da nuca.

— E esses antebraços — perguntou um texugo, com seriedade —, que estão unidos por um tórax?
Vamos, meu querido embrião, encontre a sua ferramenta.
Um esmerilhão, pousado no topo do teixo, exclamou:

— Vamos lá, Capitão Wart, qual é a primeira lei da pata? Acho que uma vez escutei algo parecido
com "nunca soltar?".
— Não trabalhe como um pica-pau teimoso — advertiu com carinho uma coruja amarelo-castanha.
— Mantenha a força equilibrada, meu queridinho, e conseguirá.
— Agora, Wart — disse um ganso de testa branca —, se uma vez você foi capaz de voar pelo
grande Mar do Norte, com certeza é capaz de coordenar alguns pequenos músculos das asas aqui e
ali. Junte sua força com o espírito de sua mente, e ela sairá como manteiga. Vamos, vamos, Homo
sapiens,
pois todos nós, seus humildes amigos, estamos aqui esperando para comemorar.
Wart aproximou-se da grande espada pela terceira vez. Estendeu sua mão direita com suavidade e a
puxou tão gentilmente como se a puxasse de uma bainha.

Houve muitos aplausos, um barulho como o de um realejo que não parava. No meio do barulho,
depois de um longo tempo, ele viu Kay e lhe deu a espada. As pessoas no torneio estavam fazendo
um terrível rebuliço.

— Mas esta não é a minha espada — disse Sir Kay.
— Foi a única que consegui encontrar — respondeu Wart. — A estalagem estava fechada.
— É uma bela espada. Onde você a encontrou?
— Eu a encontrei presa a uma pedra, no adro de uma igreja. Sir Kay, muito nervoso, estava

observando o torneio, esperando sua vez. Não prestou muita atenção ao seu escudeiro.

— É um lugar estranho para achar uma espada.
— Tem razão, e ela estava presa através de uma bigorna.
— O quê? — gritou Sir Kay, virando de repente para ele. — Você disse mesmo que esta espada
estava presa em uma pedra?
— Estava — disse Wart. — Era uma espécie de memorial de guerra.
Sir Kay o encarou, espantado, por vários segundos, abriu a boca, fechou-a outra vez, passou a
língua pelos lábios, então virou as costas e mergulhou na multidão. Estava procurando Sir Ector, e
Wart o seguiu.

— Pai — gritou Sir Kay —, venha aqui um instante.
— Sim, meu rapaz — disse Sir Ector. — Esse pessoal consegue cair de maneira esplêndida. Ora,
qual é o problema, Kay? Você está branco como um lençol.
— Você se lembra daquela espada que o Rei da Inglaterra iria puxar?
— Sim.
— Então, aqui está ela. Eu a tenho. Está em minha mão. Eu a puxei da pedra.
Sir Ector não disse bobagem alguma. Olhou para Kay e olhou para Wart. Depois, olhou para Kay
de novo, durante muito tempo e amorosamente, e disse:

— Vamos de novo para a tal igreja.
— Agora, então, Kay — ele disse, quando chegaram ao adro da igreja. Olhou com gentileza para
seu primogênito, mas direto nos olhos. — Aqui está a pedra, e você está com a espada. Ela o fará o
Rei da Inglaterra. Você é meu filho, do qual me orgulho e sempre me orgulharei, seja o que for que
você faça. Você jura que você a puxou com sua própria força?
Kay olhou para seu pai. Também olhou para Wart e para a espada.

Então, entregou a espada para Wart em completo silêncio. E disse:

— Sou um mentiroso. Foi Wart quem a puxou.
Quanto a Wart, houve um tempo depois disso em que Sir Ector lhe dizia para pôr a espada outra
vez na pedra — o que ele fazia e Sir Ector e Kay tentavam em vão puxá-la. Wart a tirava para eles,
e a colocava de novo na pedra uma ou duas vezes. Depois disso houve um outro momento ainda
mais doloroso.

Ele viu que seu querido protetor estava parecendo muito velho e sem forças, e que estava se
dobrando com dificuldade, para pôr no chão seu joelho com gota.

— Senhor — disse Sir Ector, sem olhar para cima, embora estivesse falando com seu próprio
rapaz.
— Por favor, não faça assim, pai — Wart disse, ajoelhando-se também. — Deixe-me ajudá-lo a se

levantar, Sir Ector, porque assim está me fazendo infeliz.

— Não, não, meu senhor — disse Sir Ector, com algumas velhas lágrimas muito delicadas. —
Nunca fui vosso pai nem de vosso sangue, mas reconheço bem que sois de um sangue mais alto do
que eu poderia pensar.

— Muita gente me falou que o senhor não era meu pai — disse Wart —, mas isso não importa nada.
— Senhor — disse Sir Ector, com humildade —, sereis meu bom e benevolente senhor quando
fordes Rei?
— Não faça assim! — disse Wart.
— Senhor — disse Sir Ector —, não vos pedirei nada a não ser que façais de meu filho, vosso
irmão de criação, Sir Kay, senescal de todas as vossas terras?
Kay também estava se ajoelhando, e isso era mais do que Wart podia suportar.

— Oh, parem — ele exclamou. — Claro que ele pode ser o senescal, se eu tiver que ser esse Rei e,
oh, meu pai, não se ajoelhe assim porque destroça meu coração. Por favor, levante, Sir Ector, e não
faça tudo tão horrível. Oh, meu Deus, meu Deus. Queria nunca ter visto esta maldita espada, afinal.
E Wart também começou a chorar.


XXIV


Talvez devesse ter um capítulo sobre a coroação. Os barões naturalmente fizeram um rebuliço mas,
como Wart estava preparado para continuar colocando a espada na pedra e puxando-a outra vez até

o Juízo Final, e como não havia ninguém mais que pudesse fazer a mesma coisa, no final tiveram
que desistir. Alguns celtas se revoltaram, e foram subjugados mais tarde, mas no geral, o povo da
Inglaterra e os guerrilheiros como Robin ficaram contentes e sossegaram. Estavam cansados da
anarquia que fora a parte deles sob Uther Pendragron: cansados dos suseranos e de gigantes
feudais, dos cavaleiros que faziam o que lhes aprouvesse, da discriminação racial, e da regra da
Força como Direito.
A coroação foi uma cerimônia esplêndida. E ainda mais esplêndido é que ela foi como um dia de
aniversário ou Natal. Todo mundo enviou presentes para Wart, por sua proeza de ter aprendido a
tirar espadas de pedras, e vários burgueses da Cidade de Londres lhe pediram que os ajudassem a
tirar rolhas emperradas de garrafas, a desentupir torneiras que estavam entupidas, e outras
emergências domésticas que não haviam conseguido resolver. O Menino-Cão e Wat se associaram
e lhe enviaram uma mistura para indisposição, contendo quinino e absolutamente sem preço. Lyolyok
enviou-lhe flechas feitas com suas próprias penas. Cavall veio, simplesmente, e lhe deu seu
coração e sua alma. A ama da Floresta Sauvage enviou-lhe uma mistura para tosse, trinta dúzias de
lenços todos marcados, e um par de camisas com peito duplo. O sargento lhe enviou suas medalhas
da Cruzada, para serem preservadas pela nação. Hob passou a noite em agonia, sem poder dormir,
e enviou Cully com peias novinhas de couro branco, anilhas e campainhas de prata. Robin e Marian
fizeram uma expedição que durou seis semanas e enviaram um manto completo feito de peles de
martas dos pinhais. Little John enviou um arco de teixo, de dois metros de comprimento, que ele
próprio não era capaz de manejar. Um ouriço anônimo enviou quatro ou cinco folhas sujas com
pulgas. A Besta Gemente e o Rei Pellinore pensaram juntos e enviaram um pouco do excremento
mais perfeito, embrulhado em folhas verdes da primavera, dentro de um corno dourado com
talabarte de veludo vermelho. Sir Grummore enviou uma grosa de lanças, todas com as armas da
sua velha escola. Os cozinheiros, atendentes, aldeães e guardas do Castelo da Floresta Sauvage,
que receberam uma moeda de ouro cada um e foram enviados para a cerimônia num char-à-banc
puxado por um boi, pago por Sir Ector, trouxeram uma enorme imitação em prata da vaca
Crumbocke, que ganhara o campeonato pela terceira vez, e Ralph Passelewe para cantar no
banquete da coroação. Archimedes enviou seu próprio trineto, para que se empoleirasse no


espaldar do trono do Rei no jantar, e fizesse bagunça no chão. O Lorde Prefeito e os Regedores da
Cidade de Londres fizeram uma subscrição para um espaçoso aquário-gaiola-com-casa-de-bichos
na Torre, no qual todas as criaturas eram deixadas sem alimento um dia por semana para o bem de
seus estômagos — e onde, pela comida fresca, boas acomodações, atenção constante, e todas as
conveniências modernas, os amigos de Wart se recolheram na velhice de suas asas, patas e
barbatanas, para o pôr-do-sol de suas vidas felizes. Os cidadãos de Londres enviaram cinqüenta
milhões de libras para manutenção da casa dos bichos, e as Ladies da Inglaterra confeccionaram
um par de pantufas de veludo preto com as iniciais de Wart bordadas em ouro. Kay enviou seu
próprio troféu do grifo, com afeto sincero. Houve muitos outros presentes de bom gosto, de vários
barões, arcebispos, príncipes, reis tributários de terra de sepultura, corporações, papas, sultões,
comissões reais, conselhos distritais, czares, beis, mahatmas, e assim por diante, mas o melhor
presente de todos foi enviado com todo afeto pelo seu próprio protetor, o velho Sir Ector. Esse
presente era um grande chapéu orelha-de-burro, mais parecido com uma serpente de faraó, cujo
topo se podia acender. Wart acendeu-o e o deixou brilhar. Quando a chama tinha praticamente se
apagado, Merlin estava de pé diante dele, com seu chapéu de mago.

— Então, Wart — disse Merlin —, aqui estamos nós, ou estávamos, outra vez. Como você fica bem
com essa coroa. Não me era permitido contar-lhe antes, ou até então, mas seu pai era, ou será, o rei
Uther Pendragron, e fui eu mesmo, disfarçado de mendigo, quem o levou para o castelo de Sir
Ector, nas suas fraldas douradas. Sei tudo sobre seu nascimento e parentesco e quem lhe deu seu
verdadeiro nome. Sei os sofrimentos que o esperam, e as alegrias, e como já não haverá ninguém
que ousará chamá-lo pelo amigável nome de Wart. No futuro, será seu glorioso destino suportar o
fardo e desfrutar a nobreza de seu próprio título: portanto, agora, eu lhe rogo o privilégio de ser o
primeiríssimo de seus súditos a se dirigir a você como — meu amado soberano, Rei Arthur.
— Você ficará comigo por muito tempo? — perguntou Wart, sem entender muito do que estava se
passando.
— Sim, Wart — disse Merlin. — Ou melhor, como eu deveria dizer (ou terei dito?), Sim, Rei
Arthur.

Personagens deste volume


Os símbolos da partida em "A espada na pedra"


Sir Ector é o padrasto de Arthur e o pai biológico de Kay. Ele tem bom caráter e bom
temperamento, é algo pomposo e vociferante. Embora quase sempre pareça uma caricatura, Sir
Ector demonstra em geral ser menos tolo do que esperamos que venha a ser.

Sir Kay é o irmão adotivo de Arthur e um cavaleiro da Távola Redonda. Mimado quando criança,
Kay continua ruim e egoísta ao crescer -mas, no fundo, conserva uma decência essencial.

O Rei Pellinore é um acréscimo literário original de White ao cast arturiano. É o primeiro
cavaleiro que Arthur vem a encontrar. Um simpático inútil cuja missão na vida é caçar a Besta
Gemente, Pellinore acaba por se tornar um grande cavaleiro depois de seu casamento. Sua herança
de bondade e carinho sobrevive em seus filhos.

Sir Grummore é o confidente e melhor amigo de Sir Ector.

Uther Pendragon é o rei da Inglaterra durante a infância de Arthur -e seu verdadeiro pai. Quando
Pendragon morre, o novo rei é decidido em uma prova pelo qual só Arthur têm condições de
passar: o da espada na pedra.

A Fada Morgana é uma bruxa que Kay e Arthur derrotam temporariamente na Floresta Sauvage.
Ela é a filha do Conde da Cornualha e de Igraine -portanto, meia-irmã de Arthur.

Robin Wood, um personagem resultante dos anacronismos de White em 0 único e eterno rei, é o
Robin Hood da outra lenda famosa e não contemporânea à do rei Arthur. Aqui ele é um rebelde
saxão que vive na floresta e proporciona a Kay e Arthur a grande aventura de combater a Fada
Morgana.


Marian é a mulher de Robin, cuja força e determinação Wart admira intensamente.

Twyti é um javali enviado à Floresta Sauvage pelo rei Uther Pendragon.

Lyo-Lyok é um ganso que ensina a Arthur o sentido da paz e expõe a ele a crueldade da guerra.
Merlin transforma Arthur em um ganso e Lyo-Lyok torna-se seu professor durante o tempo em
transformação.


O Eterno e Futuro Rei 02


A RAINHA DO AR E DAS SOMBRAS



Título original: The queen of air and darkness
1939 by T. H. White


INCIPIT LIBER SECUNDUS


Quando estarei morto e livre
Dos erros cometidos por meu pai?
Quanto tempo, quanto tempo, até a espada e o féretro
Adormecerem a maldição de minha mãe?



I


Havia uma torre redonda com um cata-vento. O cata-vento tinha a forma de um corvo, com uma
flecha no bico para indicar a direção do vento.

No alto da torre havia um quarto circular, curiosamente sem conforto. Tinha correntes de ar. Havia
um cubículo no canto leste com um buraco no piso. Esse buraco controlava as portas exteriores da
torre, das quais havia duas, e por ele as pessoas podiam jogar pedras se estivessem sitiadas.
Infelizmente o vento costumava passar pelo buraco e pelas seteiras sem vidro e subir pela chaminé

— a menos que estivesse ventando do outro lado e, nesse caso, ia para baixo. Era como um túnel
de vento. O segundo inconveniente era o quarto estar cheio de fumaça de turfa, não de seu próprio
lume, mas do lume do quarto de baixo. O complicado sistema de ventilação sugava a fumaça pela
chaminé. As paredes de pedra suavam com a temperatura úmida. A própria mobília era
desconfortável. Consistia apenas de montes de pedras — que eram boas para serem jogadas pelo
buraco — ao lado de algumas bestas genovesas enferrujadas com suas flechas e um monte de turfa
para o fogo que não fora aceso. As quatro crianças não tinham camas. Se o quarto fosse quadrado,
eles poderiam ter uma cama de fechar, mas, do jeito que era, tinham que dormir no chão — onde se
cobriam com palhas e mantas de lã escocesa da melhor maneira que podiam.
Com as mantas, os meninos tinham erguido uma tenda improvisada sobre suas cabeças e debaixo
dela estavam deitados bem juntos, contando uma história. Podiam ouvir a mãe atiçando o fogo no
quarto de baixo, o que as fazia sussurrarem, temendo que ela pudesse escutá-los. Não que tivessem
medo de apanhar se ela subisse até lá. Eles a adoravam completamente e sem críticas, porque o
caráter dela era mais forte do que o deles. Nem tinham sido proibidos de conversar depois de hora
de ir para cama. Era mais como se ela os tivesse criado — talvez por indiferença ou por preguiça
ou mesmo por algum tipo de crueldade possessiva — com uma noção imperfeita do certo e do
errado. Era como se nunca pudessem saber quando estavam sendo bons ou quando estavam sendo
maus.

Eles estavam sussurrando em gaélico. Ou melhor, estavam sussurrando em uma estranha mistura de
gaélico com a antiga língua da Cavalaria — que lhes fora ensinada porque precisariam dela quando
crescessem. Conheciam pouco o inglês. Anos mais tarde, quando se tornassem cavaleiros famosos
na corte do grande rei, falariam inglês perfeitamente — todos eles, exceto Gawaine, que, como
líder do clã, faria questão de manter o sotaque escocês de propósito, para mostrar que não se
envergonhava de sua origem.


Gawaine contava a história porque era o mais velho. Estavam deitados juntos, como estranhas rãs,
magrinhas e misteriosas, os corpos bem-feitos e prontos para se completarem e fortalecerem assim
que lhes fosse dada uma nutrição decente. Tinham cabelos claros. Os de Gawaine eram bem ruivos
e os de Gareth mais claros que a palha. Tinham entre dez e quatorze anos de idade, e Gareth era o
mais novo dos quatro. Gaheris era uma criança apática. Agravaine, que vinha depois de Gawaine,
era o brigão da família — matreiro e inclinado ao choro, temia a dor. Isso porque tinha grande
imaginação e usava a cabeça mais do que os outros.

— Muito tempo atrás, meus heróis — Gawaine contava —, antes de termos nascido ou sermos
sequer pensados, havia uma formosa avó em nosso futuro, chamada Igraine.
— É a Condessa da Cornualha — disse Agravaine.
— Nossa avó é a Condessa da Cornualha — Gawaine concordou — e o cruel rei da Inglaterra se
apaixonou por ela.
— O nome dele era Uther Pendragon — disse Agravaine.
— Quem está contando a história? — Gareth perguntou, chateado. — Cala a boca.
— O Rei Uther Pendragon — continuou Gawaine — mandou chamar o Conde e a Condessa da
Cornualha...
— Nosso avô e nossa avó — disse Gaheris.
— ... e declarou que os dois deveriam ficar com ele em sua casa na Torre de Londres. Então,
quando eles estavam lá dentro com ele, ele pediu para nossa avó se tornar sua mulher e não ficar de
jeito nenhum com o vovô. Mas a casta e formosa Condessa da Cornualha...
— Vovó — disse Gaheris. Gareth exclamou:
— Maldição! Não dá mesmo para nos deixar em paz? Houve uma discussão abafada, pontuada por
chiados, socos e queixas.
— A casta e formosa Condessa da Cornualha — retomou Gawaine — rejeitou as propostas
amorosas do Rei Uther Pendragon e contou a nosso avô o que acontecera. Ela disse: "Acredito que
fomos chamados aqui para que eu fosse desonrada. Portanto, meu esposo, aconselho que partamos
imediatamente, que viajemos a noite toda até chegar a nosso próprio castelo". Assim, eles fugiram
da fortificação do Rei no meio da noite...
— Na escuridão da noite... — corrigiu Gareth.
— ... quando todas as pessoas da casa tinham ido dormir e, então, à luz de uma lanterna furtiva,
selaram seus bravos corcéis saltitantes, de olhos de fogo, pés de vento, simétricos, beiços grandes,
cabeças pequenas e partiram para a Cornualha, tão velozes quanto podiam.
— Foi uma jornada terrível — disse Gaheris.
— Eles mataram os cavalos que cavalgavam — disse Agravaine.
— Isso eles não fizeram — disse Garret. — Vovô e vovó não cavalgariam nenhum cavalo até matá-
los.

— Eles os mataram? — perguntou Gaheris.
— Não, não mataram — disse Gawaine, depois de pensar um pouco. — Mas por pouco.
Continuou a história.
— De manhã, quando o Rei Uther Pendragon soube o que ocorrera, ficou assustadoramente furioso.
— Cruelmente furioso — sugeriu Gareth.
— Assustadoramente furioso — repetiu Gawaine. — O Rei Uther Pendragon ficou
assustadoramente furioso e disse: "Hei de ter a cabeça daquele Conde da Cornualha em uma
bandeja de torta, por meu santuário!". Então, ele enviou uma carta a nosso avô na qual lhe dizia
para se abastecer e se fortificar, pois em quarenta dias ia expulsá-lo do castelo mais forte que
tivesse!
— Ele tinha dois castelos — Gawaine disse, orgulhoso. — Eram o Castelo Tintagil e o Castelo
Terrabil.
— Assim, o Conde da Cornualha levou nossa avó para Tintagil, e ele mesmo foi para Terrabil, e o
Rei Uther Pendragon foi sitiá-lo.
— E lá — Gareth gritou, incapaz de se conter — o rei ergueu muitos pavilhões, e houve uma
grande guerra entre ambas as partes, e muitas pessoas morreram!
— Mil? — sugeriu Gaheris.
— No mínimo duas mil — disse Agravaine. — Nós, gaélicos, não mataríamos menos que duas mil.
Na verdade, provavelmente foi um milhão.
— Então, quando nosso avô e avó venciam os cercos, e parecia que o Rei Uther seria
completamente derrotado, apareceu um mago perverso chamado Merlin...
— Um nigromante — disse Gareth.
— E esse nigromante, nem dá para acreditar, por meio de suas artes infernais conseguiu pôr o
traiçoeiro Uther Pendragon dentro do castelo da vovó. Vovô imediatamente fez uma retirada de
Terrabil, mas foi morto na batalha...
— Traiçoeiramente.

— E a pobre Condessa da Cornualha...
— A casta e formosa Igraine...
— Nossa avó...
— ... foi feita prisioneira pelo desalmado sulista inglês, o desleal Rei do Dragão e depois,
embora ela já tivesse três filhas encantadoras, diga-se o que quiser...
— As três encantadoras Irmãs da Cornualha.
— Tia Elaine.
— Tia Morgana.
— E mamãe.
— E embora já tivesse essas encantadoras filhas, ela foi forçada a se casar com o rei da
Inglaterra — o homem que matou seu esposo!
Em silêncio, eles refletiram sobre a enorme perversidade inglesa, esmagados por seu desfecho. Era
a história favorita da mãe deles, nas raras ocasiões em que se dava ao trabalho de lhes contar
alguma, e eles a sabiam de cor. Finalmente, Agravaine citou um provérbio gaélico, que a mãe
também lhes ensinara:

— Quatro coisas em que um lothiano{4} não pode confiar: chifre de vaca, pata de cavalo, rosnado

de cachorro e risada de inglês — sussurrou.

Os quatro mexeram-se na palha, inquietos, escutando um movimento misterioso no quarto de baixo.

O quarto de baixo dos contadores de história estava iluminado por uma única vela e pela luz cor de
açafrão do lume de turfa. Era um quarto pobre, para ser da realeza mas, pelo menos, tinha uma
cama — a grande cama de quatro colunas e dossel que era usada como trono durante o dia. Um
caldeirão de ferro com três pernas fervia sobre o fogo. A vela estava frente a uma lâmina de bronze
polido, que servia de espelho. Havia dois seres vivos no quarto, uma rainha e um gato. Ambos
tinham cabelos pretos e olhos azuis.

O gato preto deitava-se de lado à luz do fogo como se estivesse morto. Isso porque suas pernas
estavam amarradas juntas, como as de um cervo que vai ser carregado para casa, depois da caçada.
Desistira de tentar se desvencilhar e agora estava deitado, olhando o fogo pela ranhura dos olhos,
com os flancos arfando, curiosamente resignado. Ou então estava exausto — pois os animais sabem
quando se aproximam do fim. Diante da morte, a maioria deles tem uma dignidade recusada aos
seres humanos. Esse gato, com as pequenas chamas dançando em seus olhos oblíquos, talvez
estivesse vendo o desfile de suas oito vidas anteriores, revendo-as com estoicismo animal, para
além da esperança ou medo.

A rainha pegou o gato. Estava tentando um feitiço muito conhecido, para se divertir ou para passar

o tempo de alguma maneira, enquanto os homens estavam longe, na guerra. Tratava-se de um
método de se tornar invisível. Ela não era uma feiticeira séria como sua irmã Morgana Le Fay —
sua cabeça era muito leviana para levar qualquer grande arte a sério, ainda que fosse a negra. Fazia
isso porque as pequenas magias corriam em seu sangue — como acontecia com todas as mulheres
de sua raça.
Na água fervente, o gato teve convulsões horríveis e deu um grito assustador. Seu pêlo molhado
boiava no vapor, reluzindo como o flanco de uma baleia lanceada quando ele tentava pular ou
nadar com os pés atados. Sua boca se abriu de maneira hedionda, mostrando toda a goela rosa e os
dentes brancos de gato, afiados como espinhos. Depois do primeiro berro não foi mais capaz de
articular, apenas arreganhou as mandíbulas. Logo estava morto.

A Rainha Morgause de Lothian e das Órcades sentou-se ao lado do caldeirão e esperou. De vez em
quando, mexia o gato com uma colher de madeira. O fedor da pele fervida começou a encher o
quarto. Um observador teria visto, à luz benévola da turfa, que criatura refinada a rainha parecia
essa noite: os grandes olhos profundos, o cabelo cintilando com brilho negro, o corpo bem-feito e o
vago ar de vigilância ao escutar os sussurros no quarto acima.

Gawaine disse:

— Vingança!
— Eles não haviam feito nenhum mal ao Rei Pendragon.
— Só queriam ser deixados em paz.
Era a injustiça do rapto de sua avó da Cornualha que feria Gareth — a imagem de pessoas fracas e
inocentes vitimadas por uma tirania impossível de resistir. — a velha tirania dos inimigos — que


era sentida como um mal pessoal por todo lavrador das Ilhas. Gareth era um menino generoso.
Odiava a idéia da força contra a fraqueza. Isso fazia seu coração dilatar-se como se fosse sufocar.
Gawaine, por outro lado, tinha raiva porque era um ato cometido contra sua família. Não achava
errado a força abrir seu caminho, mas apenas que era profundamente errado qualquer coisa
acontecer contra o seu próprio clã. Não era nem inteligente nem sensível, mas era leal —
obstinadamente algumas vezes, e até de maneira irritante e estúpida mais tarde na vida. Para ele,
então, era como sempre haveria de ser: que vivam as Órcades, com razão ou sem ela. O terceiro
irmão, Agravaine, ficava emocionado porque era um assunto que se referia a sua mãe. Ele tinha
sentimentos curiosos em relação a ela, os quais guardava para si. Quanto a Gaheris, ele fazia e
sentia o que os outros faziam e sentiam.

O gato se desfez em pedaços. A longa fervura despedaçou sua carne até que nada restasse no
caldeirão exceto uma escuma grossa de pêlo e gordura e pedaços de carne. Por baixo, os ossos
brancos giravam no redemoinho da água, os pesados mais no fundo e as membranas leves
levantando-se graciosamente, como folhas ao vento do outono. A rainha, franzindo levemente o
nariz pelo mau cheiro do denso cozido sem sal, coou o líquido para uma segunda panela. No fundo
do coador de flanela restou um sedimento de gato, uma massa empapada de pêlos emaranhados e
pedaços de carne e ossos finos. Ela soprou no sedimento e começou a revolvê-lo com o cabo da
colher, levantando-o para deixar passar o calor. Logo pôde pegá-lo com os dedos.

A rainha sabia que todo gato preto puro possuía um determinado osso que, se fosse colocado na
boca depois de cozido o gato vivo, era capaz de tornar a pessoa invisível. Mas ninguém sabia
exatamente, mesmo naqueles tempos, qual era esse osso. Por isso a magia tinha que ser feita em
frente a um espelho, para que o osso certo pudesse ser encontrado por experimentação.

— E a pobre Condessa da Cornualha...
— A casta e formosa Igraine...
— Nossa avó...
— ... foi feita prisioneira pelo desalmado sulista inglês, o desleal Rei do Dragão e depois,
embora ela já tivesse três filhas encantadoras, diga-se o que quiser...
— As três encantadoras Irmãs da Cornualha.
— Tia Elaine.
— Tia Morgana.
— E mamãe.
— E embora já tivesse essas encantadoras filhas, ela foi forçada a se casar com o rei da
Inglaterra — o homem que matou seu esposo!
Não que Morgause achasse graça na invisibilidade — na verdade, ela a teria detestado, porque era
linda. Mas os homens estavam fora. Era algo para passar o tempo, um feitiço fácil e bem
conhecido. Além disso, era um pretexto para se demorar frente ao espelho.

A rainha raspou as sobras do gato em dois montes, um deles uma pilha caprichada de ossos


mornos, o outro uma miscelânea informe que exalava um vaporzinho. Depois, escolheu um dos
ossos e o levou até os lábios vermelhos, erguendo o dedo mindinho. Segurou-o entre os dentes e
ficou parada em frente ao bronze polido, olhando-se com indolente prazer. Atirou o osso no fogo e
pegou outro.

Ninguém estava ali para vê-la. Era estranho, nessas circunstâncias, a maneira como ela se virava e
tornava a virar, do espelho até a pilha de ossos, sempre colocando um osso na boca e se olhando
no espelho para ver se desaparecera, logo a seguir jogando o osso fora. Movia-se tão
graciosamente, como se estivesse dançando, como se realmente alguém estivesse observando-a ou
como se fosse suficiente ela mesma se ver.

Por fim, mas antes de ter testado todos os ossos, perdeu o interesse. Atirou os últimos no chão, sem
paciência, e jogou os restos da bagunça pela janela, sem se importar com o lugar onde caíssem. Em
seguida, abafou o fogo, estendeu-se na grande cama com um movimento estranho e lá ficou, na
escuridão, durante um longo tempo sem dormir — seu corpo movendo-se, desgostoso.

— E esta, meus heróis — concluiu Gawaine —, é a razão pela qual nós da Cornualha e dasÓrcades devemos ser contra os reis da Inglaterra, para sempre, e mais ainda contra o clã Mac
Pendragon.
— Foi por isso que nosso pai foi lutar contra esse tal Rei Arthur, seja ele quem for, pois Arthur é
um Pendragon. Nossa mãe falou.
— E nós devemos manter nosso feudo vivo para sempre — disse Agravaine —, porque mamãe é
uma Cornualha. Lady Igraine é nossa avó.
— Devemos vingar nossa família.
— Porque mamãe é a mulher mais bonita do mundo das serranias altas, extensas, importantes e
prazerosamente mutantes.
— E porque nós a amamos.
Realmente, eles a amavam. Talvez todos nós sejamos assim: damos a melhor parte de nossos
corações, sem crítica, àqueles que, em troca, mal pensam em nós.


II


Nas ameias de seu castelo em Camelot, durante um intervalo de paz entre as duas Guerras Gaélicas,

o jovem rei da Inglaterra estava em pé com seu tutor, olhando ao longe as vastidões púrpuras do
entardecer. Uma luz suave inundava a terra abaixo, e o rio vagaroso serpenteava entre a abadia
venerável e o castelo imponente, enquanto a água flamejante ao pôr-do-sol refletia pontas e
torreões e bandeirolas suspensas, imóveis, no ar tranqüilo.
O mundo estendia-se frente aos dois observadores como um brinquedo, pois eles estavam na torre
alta que dominava a cidade. A seus pés, podiam ver a relva que ia até a muralha exterior — era
horrível olhá-la assim de cima — e a pequena figura de um homem, com dois baldes em uma canga,
indo em direção à casa dos animais. Eles podiam ver, mais além da casa da ponte levadiça, para
onde não era tão horrível olhar porque não estava verticalmente abaixo, o guarda da noite
assumindo o posto do sargento. Batiam os calcanhares e faziam continências e apresentavam armas
e trocavam as senhas tão festivamente como repique de sinos — mas para os dois era como se tudo
estivesse sendo feito em silêncio, pois estava muito longe. Pareciam soldadinhos de chumbo, os
pequenos guardas, e não se escutavam suas passadas sobre o gramado luxuriante mordiscado pelas
ovelhas. Mais além, fora dos muros da fortaleza, havia o ruído distante de velhas viúvas
pechinchando, e pirralhos gritando em embates corporais, e alguns bodes soltos por ali, e dois ou
três leprosos com capuzes brancos tocando as campainhas enquanto caminhavam, e o ruge-ruge dos
hábitos das freiras que bondosamente visitavam os pobres, duas a duas, e uma discussão
acontecendo entre alguns senhores interessados em cavalos. Do outro lado do rio, que corria
diretamente por baixo das muralhas do castelo, havia um homem lavrando o campo, com seu arado
amarrado ao rabo do cavalo. O arado de madeira gemia. Perto dele, uma pessoa em silêncio
pescava salmão com minhocas — os rios não eram poluídos naqueles tempos — e, mais além, um
asno dava seu concerto musical ao cair da noite. Todos esses ruídos chegavam muito fracos aos
dois na torre, como se eles estivessem escutando pelo lado contrário de um megafone.

Arthur era um homem jovem, no começo da vida. Tinha belos cabelos, mas um rosto ingênuo, ou de
alguma maneira carente de malícia. Era um rosto aberto, com olhos gentis e uma expressão
confiável ou leal, como a de um bom aprendiz que desfruta o fato de estar vivo e não acredita no
pecado original. Para começar, nunca tinha sido tratado de maneira injusta, portanto, era gentil com
as outras pessoas.

O rei estava vestido com um manto de veludo que pertencera a Uther, o Conquistador, seu pai,


adornado com as barbas dos quatorze reis vencidos nos tempos antigos. Infelizmente, alguns desses
reis tinham barbas vermelhas, outros pretas, alguns grisalhas, e também o comprimento de suas
barbas era desigual. A guarnição parecia uma serpente emplumada. Os bigodes estavam pregados
ao redor dos botões.

Merlin tinha uma barba branca que chegava até a cintura, óculos com aros de chifre e um chapéu
cônico. Ele o usava em homenagem aos servos saxões do país, cujo barrete nacional era ou um tipo
de touca de mergulho, ou o barrete frígio, ou então esse cone de palha.

Os dois falavam de vez em quando, conforme as palavras lhes chegavam, entre os encantos dos
ruídos do entardecer.

— Bem — disse Arthur —, devo reconhecer que é bom ser rei. Foi uma batalha excelente.
— Acha?
— Claro que foi excelente. Lembra-se do jeito que Lot das Órcades correu, quando comecei a usar
Excalibur?
— Primeiro, ele o derrubou.
— Isso não foi nada. Eu ainda não estava usando Excalibur. Assim que desembainhei minha fiel
espada, eles correram como coelhos.
— Virão de novo — disse o mágico —, todos os seis. Os Reis das Órcades, de Carloth, de Gore,
da Escócia, da Torre e os Cem Cavaleiros de fato já começaram a formar a Confederação Gaélica.
Você deve se lembrar que seu direito ao trono não é nada convencional.
— Deixe que venham — respondeu o Rei. — Não me importo. Da próxima vez, eu os vencerei
completamente e então veremos quem é que manda.
O velho enfiou a barba na boca e começou a mastigá-la, como geralmente fazia quando ficava
perturbado. Mordeu um cabelo que ficou preso entre dois dentes. Tentou tirá-lo com a língua,
depois puxou-o com os dedos. Por fim, começou a enrolar a barba em duas pontas.

— Suponho que um dia você aprenderá — ele disse. — Mas Deus sabe que é de cortar o coração,
um trabalho penoso.
— É?
— É? — exclamou Merlin colérico. — É? É? É? Isto é tudo que você consegue dizer. É? É? É?
Como um menino de escola.
— Acabo cortando sua cabeça se não for mais cuidadoso.
— Corte-a. Seria uma boa coisa se o fizesse. Pelo menos eu não teria que continuar sendo seu tutor.
Arthur tirou o cotovelo da ameia e olhou para o velho amigo.
— Qual é o problema, Merlin? — perguntou. — Estou fazendo alguma coisa errada? Se estiver,
lamento muito.
O mago desenrolou sua barba e suspirou.


— Não é tanto o que você está fazendo — ele disse. — É como você está pensando. Se tem uma
coisa que não consigo suportar é estupidez. Sempre digo que a estupidez é o Pecado contra o
Espírito Sagrado.
— Sei que você diz.
— Agora você está sendo sarcástico. O rei o pegou pelo ombro e girou-o:
— Diga — pediu —, o que está errado? Você está de mau humor? Se fiz algo estúpido, me diga.
Não fique irritado.
Isso teve o efeito de deixar o velho nigromante ainda mais enraivecido que antes.

— Dizer a você! — exclamou. — E o que vai acontecer quando não tiver ninguém para lhe dizer?
Você nunca vai pensar por si mesmo? O que vai acontecer quando eu estiver fechado naquele meu
desgraçado túmulo, posso saber?
— Eu não sabia que havia um túmulo nessa história.
— Ah, esqueça o túmulo! Que túmulo? Do que estou falando, afinal?
— Da estupidez — disse Arthur. — Era da estupidez que você estava falando quando começou.
— Exatamente.
— Bem, não é suficiente dizer "exatamente". Você ia dizer algo sobre isso.
— Não sei mais o que ia dizer sobre isso. Você deixa a pessoa tão transtornada com seus issos e
aquilos que, tenho certeza, depois de dois minutos com você, ninguém sabe mais do que estava
falando. Sobre o que começamos a falar?
— Começamos a falar sobre a batalha.
— Agora me lembro — disse Merlin. — Foi justamente aí que começamos.
— Eu disse que tinha sido uma boa batalha.
— Eu me recordo.
— Bem, foi uma boa batalha — ele repetiu, na defensiva. — Foi uma batalha divertida, e eu venci,
e foi boa.
Os olhos do mago velaram-se como os de um abutre, enquanto ele desaparecia dentro de sua mente.
Houve silêncio nas ameias por vários minutos, enquanto um casal de falcões peregrinos, que foram
soltos para procurar comida no campo próximo, voou sobre suas cabeças numa caçada brincalhona,
gritando qui-qui-qui, suas campainhas tocando. Merlin deixou seus olhos outra vez olharem para
fora.

— Foi esperto de sua parte vencer a batalha — ele disse lentamente.
Arthur aprendera que devia ser modesto, mas era demasiado ingênuo para perceber que o abutre ia
atacar.

— Ah, bem. Foi sorte.

— Muito esperto — Merlin repetiu. — Quantos de seus solados de infantaria morreram?
— Não me lembro.
— Não?
— Kay disse...
O rei parou no meio da frase e olhou para ele.
— Bem — disse. — Não foi divertido, então. Eu não havia pensado nisso.
— Calcularam mais de setecentos. Eram todos soldados a pé, evidentemente. Nenhum dos
cavaleiros se machucou, exceto o que quebrou a perna ao cair do cavalo.
Quando viu que Arthur não responderia, o velho continuou com uma voz mais amarga.

— Estava me esquecendo — acrescentou — de que você teve alguns machucados bastante
desagradáveis.
Arthur examinou as unhas.

— Detesto quando você fica pedante. Merlin ficou encantado.
— Este é o espírito da coisa — disse, tomando o braço do rei e sorrindo contente. — É assim que
deve ser. Defenda-se a si mesmo, é o que precisa fazer. Pedir conselho é uma coisa fatal. Além
disso, logo não estarei aqui para lhe aconselhar.
— O que é isso que você fica falando, isso de que não vai estar aqui, e o tal túmulo e coisas assim?
— Não é nada. Dentro de algum tempo, estou destinado a me apaixonar por uma moça chamada
Nimue, e então ela irá aprender meus feitiços e vai me trancar em uma caverna por vários séculos.
É uma das coisas que acontecerão.
— Mas, Merlin, que horrível! Ficar preso em uma caverna por séculos como um sapo num buraco!
Temos que fazer alguma coisa sobre isso.
— Besteira — respondeu o mago. — Sobre o que mesmo eu estava falando?
— Sobre essa moça...
— Eu estava falando sobre conselhos, e como você nunca deve aceitá-los. Bom, vou lhe dar alguns
agora. Eu lhe aconselho a pensar sobre batalhas, e sobre seu reino de Gramarye, e sobre o tipo de
coisas que um rei deve fazer. Você pensará sobre isso?
— Sim. Claro que pensarei. Mas sobre essa moça que aprende os feitiços...
— Veja, este é um problema do povo tanto quanto dos reis. Quando você disse que a batalha tinha
sido divertida, estava pensando como seu pai. Quero que você pense como você mesmo, para que
seja um motivo de honra toda essa educação que tenho lhe dado... mais tarde, quando eu for apenas
um velho preso em um buraco.
— Merlin!
— Ora, ora! Estava brincando para ter sua compaixão. Não importa. Disse isso para causar efeito.

Para falar a verdade, será interessante ter um descanso por alguns séculos e, quanto a Nimue, faz
um bom tempo que estou esperando por ela. Não, não, a coisa importante é essa questão de pensarpor-
você-mesmo e a questão das batalhas. Você já pensou seriamente sobre a situação do seu país,
por exemplo, ou vai passar toda sua vida como Uther Pendragon? Afinal, você é o rei deste lugar.

— Não pensei muito a respeito.
— Não, não pensou. Então, deixa-me pensar um pouco por você. Suponha que pensemos sobre seu
amigo gaélico, Sir Bruce Sans Pitié.
— Aquele sujeito!
— Exatamente. E por que você fala dele assim?
— Ele é um porco. Sai matando donzelas — e, assim que um cavaleiro de verdade aparece para
salvá-las, ele foge a galope o mais rápido que pode. Ele cria cavalos especialmente velozes para
que ninguém possa alcançá-lo e apunhala as pessoas pelas costas. E um saqueador. Eu o mataria
assim que o agarrasse.
— Bem — disse Merlin —, não o acho muito diferente dos outros. O que significa toda essa
Cavalaria, na verdade? Significa ser rico o bastante para ter um castelo e uma armadura, e então,
de posse deles, obrigar o povo saxão a fazer o que ele quer. O único risco que corre é sair um
pouco machucado se acontecer de encontrar outro cavaleiro pela frente. Lembra-se daquele torneio
que você assistiu entre Pellinore e Grummore, quando era menino? E a armadura que faz isso.
Todos os barões podem fatiar as pessoas pobres tanto quanto quiserem, é um dia de trabalho ferir
um ao outro, e o resultado é que este país está devastado. A Força é o Direito, este é o lema. Bruce
Sans Pitié é apenas um exemplo da situação geral. Veja Lot e Nentres e Uriens e todos da quadrilha
gaélica lutando contra você pelo reino. Admito que tirar espadas de pedras não é uma prova legal
de paternidade, mas os reis dos Antigos não estão lutando contra você por causa disso. Rebelaram-
se, embora você seja o soberano feudal, simplesmente porque o trono está inseguro. As
dificuldades da Inglaterra, costumamos dizer, são as oportunidades da Irlanda. Esta é a chance que
eles têm de ajustar as contas raciais, fazer correr um pouco de sangue por esporte e ganhar algum
dinheiro com os resgates. Essa turbulência nada custa a eles mesmos porque estão vestidos com
suas armaduras — e você também parece se divertir com isso. Mas veja como está o país. Veja os
celeiros queimados, as pernas dos mortos boiando nos charcos, os cavalos de barrigas inchadas à
beira dos caminhos, moinhos caindo, dinheiro enterrado e ninguém ousando sair de casa com ouro
ou ornamentos nas roupas. Isso é a Cavalaria, atualmente. Esta é a marca de Uther Pendragon. E
você ainda vem dizer que a batalha foi divertida!
— Eu estava pensando em mim mesmo.
— Eu sei.
— Eu deveria ter pensado nas pessoas que não tinham armaduras.
— Exato.
— A Força não é o Direito, é, Merlin?

— Ahá! — respondeu o mago, abrindo um grande sorriso. — Ahá! Você é um rapaz esperto,
Arthur, mas não vai pegar seu velho tutor assim. Está tentando me atrapalhar me fazendo pensar por
você. Mas não me deixo agarrar. Sou uma raposa muito velha para isso. Você terá de pensar o resto
por si mesmo. Será a Força o Direito — e se não, por que não, dê as razões e faça um plano. Além
disso, o que você vai fazer sobre isso?
— O que... — começou o Rei, mas viu a carranca se formando. — Muito bem — ele disse. —
Pensarei sobre isso.

E começou a pensar, passando a mão pelo lábio superior, onde cresceria o bigode.

Houve um pequeno incidente antes de deixarem a torre. O homem que passara carregando os dois
baldes até onde estavam os animais voltou com os baldes vazios. Passou diretamente abaixo deles,
parecendo minúsculo, em direção à porta da cozinha. Arthur, que estava brincando com uma pedra
solta que tinha deslocado de um dos balestreiros, cansou de pensar e se debruçou com a pedra na
mão.

— Como Curselaine parece pequeno.
— Ele é miúdo.
— O que aconteceria se eu deixasse essa pedra cair na cabeça dele?
Merlin calculou a distância.
— A nove metros e sessenta centímetros por segundo — ele disse —, acho que o mataria.
Quatrocentos g
são suficientes para esmagar seu crânio.
— Nunca matei ninguém desse jeito — disse o rapaz, em tom curioso.
Merlin observava.
— Você é o rei — ele disse. Depois acrescentou:
— Ninguém vai poder lhe dizer nada se você tentar. Arthur ficou parado, debruçado com a pedra
na mão. Depois, sem mover o corpo, seus olhos se enviesaram para encontrar os de seu tutor.
A pedra levou o chapéu de Merlin com um zunido, e o velho saiu correndo atrás dele pelas
escadas, agitando sua vara de pau-santo.

Arthur estava feliz. Como o homem no Éden antes da queda, desfrutava sua inocência e boa sorte.
Em vez de ser um pobre escudeiro, era um rei. Em vez de ser um órfão, era amado por quase todo
mundo exceto os gaélicos, e amava todo mundo em troca.

No que a ele se referia, nunca houvera, até então, algo como uma única partícula de tristeza na
superfície alegre e suave do mundo brilhando como o orvalho.


III


Sir Kay escutara histórias sobre a Rainha das Órcades e estava curioso sobre ela.

— Quem é a Rainha Morgause? — ele perguntou um dia. — Ouvi dizer que é linda. Por que esses
Antigos querem lutar contra nós? E como é seu esposo, o Rei Lot? Qual é seu nome realmente?
Ouvi alguém chamá-lo de rei das Ilhas Exteriores, mas há outros que o chamam de rei de Lothian edas Órcades. Onde fica Lothian? É perto de Hy Brazil{5}? Não posso entender o motivo dessa
revolta. Todo mundo sabe que o rei da Inglaterra é o senhor de todos os feudos. Ouvi dizer que elatem quatro filhos. É verdade que não se dá bem com seu esposo?
Eles voltavam a cavalo de um dia nas montanhas, onde estiveram caçando tetraz com falcões
peregrinos, e Merlin fora com eles pelo prazer da cavalgada. Recentemente, tornara-se vegetariano

— por princípio um adversário de esportes sanguinolentos, embora tenha participado da maioria
deles em sua despreocupada juventude — e mesmo agora, secretamente, adorava ficar apenas
observando os falcões. Os círculos magníficos que formavam enquanto esperavam — pequenas
manchas no céu — e o br-r-r-r que faziam ao ceifar a tetraz, e a maneira como a vítima infeliz,
morta instantaneamente, era jogada de ponta-cabeça na urze — essa era uma tentação à qual ele se
rendia apesar do desagradável reconhecimento de que era um pecado. Consolava-se dizendo que a
tetraz era para a panela. Mas era uma desculpa esfarrapada, pois ele tampouco aceitava carne como
comida.
Arthur, que cavalgava com cautela, como um jovem monarca sensato, afastou os olhos de uma
moita de tojos que poderia esconder uma emboscada naqueles tempos de anarquia, e fixou os olhos
em seu tutor. Com a metade de sua mente tentava adivinhar qual das perguntas de Kay o mago
escolheria responder, mas com a outra metade ainda estava atento às possibilidades bélicas da
paisagem. Sabia que os falcoeiros estavam bem atrás deles — o carregador com os falcões
encapuzados em uma armação quadrada apoiada nos ombros, com um homem armado a cada lado

— e a que distância mais à frente estava o próximo lugar adequado para uma flecha de William
Rufus.
Merlin escolheu a segunda pergunta.

— As guerras nunca são feitas por uma razão — disse. — São guerreadas por dúzias de razões, emuma confusão. É a mesma coisa com as revoltas.
— Mas deve haver uma razão principal — disse Kay.

— Não necessariamente. Arthur observou:
— Devemos seguir em trote, agora. Há um campo plano por três quilômetros depois daqueles tojos,
e então podemos ir a meio galope de novo, para esperar os homens. Os cavalos poderão tomar
fôlego.
O chapéu de Merlin caiu. Eles tiveram que parar para pegá-lo. Depois, puseram os cavalos para
andar tranqüilamente em fila.

— Uma razão — retomou o mago — é a rixa imortal entre Gael e vocês. A Confederação Gaélica é
formada por representantes de uma raça antiga que foi expulsa da Inglaterra por várias raças que
são representadas por vocês. Naturalmente, sempre que possível, eles gostam de atazanar suas
vidas.
— A história racial não depende de nós — disse Kay. — Ninguém sabe que raça é qual. De
qualquer modo, são todos servos.
O velho olhou para ele de um modo que parecia divertido.

— Uma das coisas mais chocantes em um normando — disse — é que ele realmente não sabe nada
sobre coisa alguma exceto sobre si mesmo. E você, Kay, como um fidalgo normando, leva essa
peculiaridade a seu extremo. Pergunto-me se você sequer sabe o que é um gaélico. Algumas
pessoas os chamam de celtas.
— Celta é um tipo de machadinha-de-batalha — Arthur disse, surpreendendo o mago com essa
informação mais do que ele tinha se surpreendido durante várias gerações. Pois era verdade, esse
era um dos significados da palavra, embora Arthur não devesse saber disso.
— Não me refiro a essa espécie de celta. Estou falando sobre o povo. Vamos continuar chamando-
os de gaélicos. Refiro-me aos Antigos que vivem na Bretanha e na Cornualha e em Gales e na
Irlanda e na Escócia. Pictos e tal.
— Pictos? — perguntou Kay. — Acho que escutei falar de pictos. Não eram pictóricos? Pintados
de azul?
— E supostamente fui eu quem cuidei de sua educação! O Rei disse, pensativo:
— Você se importaria de me falar sobre as raças, Merlin? Suponho que devo entender essa
situação, se houver uma segunda guerra.
Desta vez foi Kay quem pareceu surpreso.

— Vai haver uma segunda guerra? — perguntou. — É a primeira vez que escuto falar disso. Pensei
que a revolta tivesse sido esmagada no ano passado.
— Eles formaram uma nova confederação quando voltaram para casa, com cinco novos reis,
portanto agora são onze ao todo. Os novos também pertencem ao sangue antigo. São Clariance do
Norte de Humberland, Idres da Cornualha, Cradelmas do Norte de Gales, Brandegoris de
Stranggore e Anguish da Irlanda. Será uma verdadeira guerra, é o que temo.
— E tudo por causa das raças — disse seu irmão de criação com desgosto. — Mesmo assim, pode

ser divertido.
O rei ignorou-o.

— Vamos — disse a Merlin. — Quero que você me explique. — Mas — acrescentou rapidamente,
quando o mago começou a abrir a boca — nada de muitos detalhes.
Merlin abriu e fechou a boca duas vezes, antes de ser capaz de obedecer a essa restrição.

— Há quase três mil anos — ele disse — este país que você governa pertenceu a uma raça gaélica
que lutava com machadinhas de cobre. Há dois mil anos eles foram escorraçados para o oeste por
outra raça gaélica com espadas de bronze. Há mil anos, houve uma invasão dos teutões, pessoas
que tinham armas de ferro, mas não atingiram toda as Ilhas de Pictos porque os romanos chegaram
no meio e confundiram as coisas. Os romanos foram embora cerca de oitocentos anos atrás, e então
outra invasão teutônica — de um povo chamado principalmente de saxão — expulsou a turma toda
para o oeste, como é o costume. Os saxões estavam começando a se estabelecer quando seu pai, o
Conquistador, chegou com seu bando de normandos, e é onde estamos hoje. Robin Wood era um
partidário saxão.
— Pensei que nosso nome fosse Ilhas Britânicas.
— E é. As pessoas misturam os bês e os pês. Nada como a raça dos teutões para confundir as
consoantes. Na Irlanda, eles ainda falam de um povo chamado Formorianios que, na verdade, eram
os Pomeranios, enquanto...
Arthur interrompeu-o nesse momento crítico.

— Então chegamos a isso — ele disse, — nós, normandos, temos os saxões como servos, enquanto
os saxões antes tinham uma espécie de sub-servos que eram chamados de gaélicos — os Antigos.
Nesse caso, não vejo porque a Confederação Gaélica quer lutar contra mim — como um rei
normando — quando na verdade foram os saxões que os expulsaram, e isso centenas de anos atrás,
de qualquer maneira.
— Você está subestimando a memória gaélica, querido jovem. Eles não distinguem vocês. Os
normandos são uma raça de teutões, como os saxões que seu pai conquistou. Para os antigos
gaélicos, vocês dois são ramos de um mesmo povo estrangeiro, que os expulsou para o norte e
oeste.

— Há quase três mil anos este país que você governa pertenceu a uma raça gaélica que lutava
com machadinhas de cobre. Há dois mil anos eles foram escorraçados para o oeste por outra
raça gaélica com espadas de bronze. Há mil anos, houve uma invasão dos teutões. pessoas que
tinham armas de ferro, mas não atingiram toda as Ilhas de Pictos porque os romanos chegaram
no meio e confundiram as coisas. Os romanos foram embora cerca de oitocentos anos atrás, e
então outra invasão teutônica — de um povo chamado principalmente de saxão — expulsou a
turma toda para o oeste, como é o costume.
Kay disse, sem pestanejar:

— Não agüento mais essas histórias. Afinal, supostamente já somos adultos. Se continuarmos
assim, vamos acabar fazendo ditado.
Arthur sorriu e começou com a voz cantada da qual se recordavam muito bem: Barbara Celarente
Darii Ferioque Prioris, enquanto Kay cantava os quatro versos seguintes em antifonia com ele.

Merlin disse:

— Você pediu.

— E agora já sabemos.
— O principal é que a guerra vai acontecer porque os teutões ou seja á como você os chame
derrotaram os gaélicos tempos atrás.
— Certamente que não — exclamou o mago. — Nunca disse nada semelhante.
Os jovens abriram a boca, estupefatos.
— Eu disse que a guerra acontecerá por várias razões, não por uma. Outra das razões para esta
guerra em particular é porque a
Rainha Morgause é quem veste as calças. Ou talvez eu deva dizer os saiotes escoceses.
Arthur perguntou, com atenção:

— Vamos deixar isso bem claro. Primeiro, você vem e me diz que Lot e o resto tinham se rebelado
porque eles eram gaélicos e nós normandos, mas agora você me diz que isso tem a ver com as
calças da Rainha Morgause. Poderia definir melhor?
— Existe a rixa dos gaélicos com os normandos sobre as quais estivemos falando, mas existem
também outras rixas. Certamente você não se esqueceu que seu pai matou o Conde da Cornualha
antes de você nascer? A Rainha Morgause era uma das filhas desse conde.
— As Encantadoras Irmãs da Cornualha — observou Kay.
— Exato. Vocês mesmos se encontraram com uma delas — a Rainha Morgana Le Fay. Quando
eram amigos de Robin Wood encontraram-na em uma cama de banha de porco. A terceira irmã era
Elaine. Todas as três são feiticeiras de um tipo ou outro, embora Morgana seja a única que leva
seriamente a coisa.
— Se meu pai matou o pai da Rainha das Órcades — disse o Rei —, então eu acho que ela tem uma
boa razão para querer que seu esposo se rebele contra mim.
— Esta é apenas uma razão pessoal. Razões pessoais não são motivos para uma guerra.
— E além disso — o Rei continuou —, se minha raça expulsou a raça gaélica, então eu acho que ossúditos da Rainha das Órcades também têm um bom motivo.
Merlin coçou o queixo no meio da barba, com a mão que segurava as rédeas, e ponderou.

— Uther, seu pranteado pai, era um agressor — disse por fim. — Assim como seus predecessores,
os saxões, que expulsaram os Antigos. Mas se continuarmos a viver voltados para o passado desse
jeito, nunca colocaremos um final nisso. Os Antigos, eles também, foram agressores contra a raça
anterior das machadinhas de cobre, e mesmo o povo das machadinhas foi agressor contra algum
bando mais antigo de esquimós que viviam em grutas. Se você continuar indo para trás, chegará a
Cairn e Abel. Mas a questão é que a conquista dos saxões teve sucesso, como também teve sucesso
a conquista dos normandos contra os saxões. Por mais brutal que tenha sido, seu pai dominou os
desafortunados saxões há muito tempo, e quando um grande número de anos se passa deve-se estar
pronto para aceitar o status quo. Também, eu gostaria de assinalar, a conquista normanda foi um
processo de unir pequenas unidades em grupos maiores — enquanto a revolta atual da

Confederação Gaélica é um processo de desintegração. Eles querem despedaçar o que podemos
chamar de Reino Unido em um monte de pequenos reinos disparatados, cada um por si. E por isso
que não se pode dizer que a razão deles seja uma boa razão.

Ele coçou o queixo outra vez e ficou colérico.

— Jamais tive estômago para esses nacionalistas — exclamou. — O destino do Homem é unir, não
dividir. Se você continua essa divisão, vai acabar como um grupo de macacos em árvores
separadas, atirando castanhas uns nos outros.
— Mesmo assim — disse o rei — parece ter havido bastante provocação. Talvez eu não deva
lutar.
— E se render? — disse Kay, mais divertido que desalentado.
— Eu poderia abdicar.
Eles olharam para Merlin, que se recusou a olhar para eles e continuou sua marcha, olhando direto
para frente, mastigando sua barba.

— Devo renunciar?
— Você é o Rei — disse o velho teimosamente. — Ninguém pode dizer nada se você fizer seja o
que for que fizer.
Mais tarde, ele começou a falar com um tom mais gentil.

— Você sabia — perguntou um tanto melancólico — que eu mesmo fui um dos Antigos? Meu pai
era um demônio, dizem, mas minha mãe era gaélica. O único sangue humano que tenho vem dos
Antigos. No entanto, aqui estou eu denunciando as idéias do nacionalismo, sendo o que os políticos
deles chamariam de um traidor — porque, com esse tipo de xingamento, podem ganhar pontos num
debate de pouco valor. E sabe de outra coisa, Arthur? A vida já é demasiado dura, mesmo sem
territórios e guerras e rixas entre nobres.

IV


O feno estava seguro e os cereais estariam prontos para serem colhidos em uma semana. Eles
estavam sentados à sombra no começo do campo, observando os trabalhadores bronzeados, de
dentes brancos, parecendo fatigados, ocupados ao pôr-do-sol, guardando as gadanhas, afiando as
foices e, no geral, deixando as coisas prontas para o final do ano de cultivo. Havia paz nos campos
que estavam perto do castelo, e nenhuma flecha tinha que ser temida. Enquanto observavam os
ceifeiros, debulhavam com os dedos as cabeças das espigas e mordiam o grão delicioso, testavam

o leite espesso do trigo e a polpa mais seca e menos abundante da aveia. O gosto granulado da
cevada pareceria estranho para eles, pois ainda não tinha sido introduzida em Gramarye.
Merlin continuava explicando.

— Quando eu era jovem — ele dizia — havia a idéia corrente de que era errado lutar em guerras
de qualquer tipo. Uma grande quantidade de pessoas, naquele tempo, declarava que nunca lutaria
por coisa alguma.
— Talvez estivessem certas.
— Não. Há uma razão muito boa para a luta: se um outro homem a começa. Sabe, as guerras são
uma perversidade, talvez a maior perversidade de uma espécie perversa. São tão terríveis que não
deveriam ser permitidas. Quando você tem absoluta certeza de que um outro homem vai começá-la,
então é o momento em que você tem uma espécie de obrigação de pará-lo.
— Mas ambos os lados sempre dizem que foi o outro que começou.
— Claro que dizem, e é uma boa coisa que seja assim. Pelo menos, mostra que os dois lados têm
consciência, dentro de si mesmos, de que a perversidade da guerra está em começá-la.
— Mas as razões — protestou Arthur. — Se um lado estiver fazendo o outro morrer de fome, de
uma maneira ou de outra, com algum tipo de meio econômico pacífico que não seja exatamente uma
guerra, então o lado que está morrendo de fome pode ter que lutar para sair dessa situação, se é que
você entende o que digo.
— Eu entendo o que você acha que quer dizer — disse o mago
— mas está errado. Não há razão para a guerra, nenhuma, e seja qual for a injustiça que sua nação
possa estar cometendo contra a minha
— exceto a guerra — minha nação estaria errada se começasse
a guerra para corrigir isso. Um

assassino, por exemplo, não pode alegar que sua vítima era rica e o estava oprimindo, portanto por
que uma nação poderia? As injustiças devem ser corrigidas pela razão, não pela força.

Kay disse:

— Vamos supor que o Rei Lot das Órcades dispusesse seu exército ao longo de nossa fronteira ao
norte, o que poderia nosso rei fazer a não ser enviar seu próprio exército para ficar ao longo da
mesma fronteira? Então, supondo que os homens de Lot desembainhassem suas espadas, o que
poderíamos fazer exceto desembainhar as nossas? A situação poderia ainda ser mais complicada
que isso. Parece que a agressão é uma coisa difícil sobre a qual se ter certeza.
Merlin estava chateado.

— Só porque você quer que pareça assim — ele disse. — Obviamente, Lot seria o agressor por
ameaçar com sua força. Você sempre pode reconhecer o vilão, se mantiver a mente justa. Como
último recurso, é definitivamente aquele que dá o primeiro golpe.
Kay continuou com seu argumento.

— Vamos dizer que sejam dois homens, em vez de dois exércitos. Eles estão de frente um para o
outro. Desembainham as espadas, fingindo que é por outro motivo, movimentam-se para ficar do
lado fraco um do outro e até fazem ataques simulados com as espadas, fingindo atacar, mas sem
fazê-lo. Você quer dizer que o agressor será aquele que realmente der o primeiro golpe?
— Sim, se não tiver outra coisa para decidir isso. Mas em seu exemplo, obviamente é o homem que
primeiro levou seu exército até a fronteira.
— Essa história do primeiro golpe acaba não significando nada. Suponha que ambos ataquem ao
mesmo tempo, ou suponha que você não possa ver quem atacou primeiro porque são tantos que
estão um frente ao outro.
— Mas quase sempre existe algo mais para definir isso — exclamou o velho. — Use seu bom
senso. Veja a revolta gaélica, por exemplo. Que razão tem o nosso rei para ser o agressor? Ele já é
o soberano feudal. Não é sensato pensar que ele está atacando. As pessoas não atacam o que lhes
pertence.
— Eu com certeza não me sinto como se tivesse começado — disse Arthur. — Na verdade, nem
sabia que começaria até que começou. Suponho que isso se deve ao fato de eu ter sido criado no
campo.
— Qualquer homem de bom senso — continuou seu tutor, ignorando a interrupção —, que mantém a
cabeça no lugar, pode dizer qual lado foi o agressor em noventa guerras em cem. Em primeiro
lugar, ele pode ver qual lado provavelmente se beneficiará com a guerra, e este é um forte motivo
para a suspeita. Pode ver que lado começou a ameaça de força ou foi o primeiro a se armar. E
finalmente, com freqüência, pode apontar quem deu o primeiro golpe.
— Mas suponha que um lado faça a ameaça — continuou Kay — mas o outro lado é quem dá o
primeiro golpe.
— Ora, vá colocar sua cabeça num balde. Não estou dizendo que todas as guerras podem ser

definidas. Desde o princípio do argumento eu disse que há muitas guerras nas quais a agressão é
clara como água, e que nessas guerras é dever dos homens decentes lutar, a qualquer preço, contra

o criminoso. Se você não tiver certeza de que ele é um criminoso — e deve tentar avaliar isso com
cada grama de justiça que puder reunir — então seja um pacifista, seja como for. Recordo-me que
fui um pacifista fervoroso uma vez, na guerra dos Bôeres, quando meu próprio país foi o agressor,
e uma jovem me denunciou na Noite de Mafeking.
— Conte-nos sobre a Noite de Mafeking — pediu Kay. — A gente acaba de cabeça quente com
essas discussões sobre o certo e o errado.
— A Noite de Mafeking... — começou o mago, que estava preparado para contar fosse o que fosse
a quem quer que fosse. Mas o rei o interrompeu.
— Conte-nos sobre Lot — disse. — Quero saber sobre ele, se tiver que enfrentá-lo. Pessoalmente,
estou começando a me interessar pelo certo e o errado.
— O Rei Lot... — começou Merlin no mesmo tom de voz, só para ser interrompido por Kay.
— Não — disse Kay. — Fale sobre a rainha. Ela parece mais interessante.
— A Rainha Morgause...
Arthur assumiu o direito de veto pela primeira vez em sua vida. Merlin, vendo sua sobrancelhalevantada, voltou ao Rei das Órcades, com inesperada humildade.

— O Rei Lot — retomou ele — é simplesmente um membro do seu reino e da realeza fundiária. É
um nada. Você não precisa pensar sobre ele, de nenhuma maneira.
— Por que não?
— Em primeiro lugar, ele é o que costumávamos chamar, em minha juventude, de um Cavaleiro de
Ascendência. Seus súditos são gaélicos e também sua esposa, mas ele mesmo é importado da
Noruega. Sua origem é a mesma que a sua, ele é um membro da classe dominante que conquistou as
Ilhas muito tempo atrás. Isso significa que sua atitude em relação à guerra é a mesma que seu pai
teria tido. Ele não se importa um nabo com as raças, mas vai à guerra da mesma maneira que meus
amigos vitorianos costumavam ir a caça à raposa ou, então, para aproveitar os saques. Além disso,
a mulher manda nele.
— Às vezes — disse o Rei — gostaria que você tivesse nascido virado para frente como as outras
pessoas. O que é isso de vitorianos e Noite de Mafeking...
Merlin ficou indignado.

— A ligação entre as guerras dos normandos e a caça vitoriana à raposa é perfeita. Deixe seu pai e
o Rei Lot fora do assunto por um momento, e veja a literatura. Veja os mitos normandos sobre as
figuras lendárias como os reis angevinos. De Guilherme, o Conquistador, a Henrique III, eles
dedicavam-se às guerras por temporadas. A temporada chegava e lá iam eles se enfrentar em
armaduras esplêndidas que reduziam o risco de ferimentos ao mínimo de um caçador de raposas.
Veja a batalha decisiva de Brenneville, na qual novecentos cavaleiros estavam no campo de
batalha, e apenas três morreram. Veja Henrique II tomando dinheiro emprestado de Stephen, para

pagar suas próprias tropas para lutar contra Stephen.

Veja a etiqueta esportiva, segundo a qual Henrique teve que retirar seu cerco assim que seu inimigo
Louis se juntou aos defensores dentro da fortaleza, porque Louis era seu soberano feudal. Veja o
cerco do monte St. Michel, no qual foi considerado pouco esportivo vencer porque os defensores
ficaram sem água. Veja a batalha de Malmesbury, que foi abandonada por causa do mau tempo.
Essa é a herança que você recebeu, Arthur. Você se tornou o rei de um domínio no qual os
agitadores populares odeiam-se por razões raciais, enquanto a nobreza luta por diversão e nem os
maníacos raciais nem os soberanos param para pensar no bando de soldados comuns, que são os
únicos que realmente ficam feridos. A menos que você consiga fazer o mundo se mexer por razões
melhores do que as do presente, rei, seu reinado será uma série infinita de batalhas mesquinhas, nas
quais os agressores terão ou motivos desprezíveis ou esportivos, e o pobre será o único a morrer.
É por isso que tenho lhe pedido para pensar. É por isso...

— Acho que Dinadan está nos acenando para avisar que o jantar está pronto — disse Kay.

V


A casa de Mãe Morlan nas Ilhas Exteriores era pouco maior que um grande canil — mas era
confortável e cheia de coisas interessantes. Havia duas ferraduras pregadas na porta; cinco estátuas
compradas de peregrinos, rodeadas por rosários usados para intervalos de orações, se a pessoa
gostar de orações; vários feixes de linho-de-fada por cima da caixa de sal; alguns escapulários
enrolados no atiçador de brasas; vinte garrafas de uísque escocês, todas vazias exceto uma; um
monte de palmas secas, relíquia dos Domingos de Ramos dos últimos setenta anos; e uma grande
quantidade de fios de lã para amarrar o rabo da vaca quando ela está parindo. Havia também uma
grande lâmina de foice que a velha senhora esperava usar caso viesse um ladrão — se alguém fosse
tolo o bastante para tentar entrar ali — e, na chaminé, estavam penduradas madeiras de freixo que
seu falecido marido tinha intenção de usar para o mangual, junto com peles de enguia e pedaços de
couro de cavalo. Debaixo da pele de enguia havia uma grande garrafa de água benta e, em frente do
lume de turfa, estava sentado um dos santos irlandeses que viviam na colméia de celas das Ilhas
Exteriores, com um copo da água-da-vida em sua mão. Era um santo relapso, que sucumbira à
heresia pelagiana de Celestius e acreditava que a alma era capaz de se salvar sozinha. Estava
justamente ocupado salvando-a com Mãe Morlan e o uísque.

— Que Deus e Maria estejam convosco, Mãe Morlan — cumprimentou. — Nós viemos para
escutar uma história, sobre qualquer coisa.
— Que Deus e Maria e André estejam convosco também -exclamou a mulher feia e velha. — E
vêm vocês me pedindo uma história qualquer, com sua reverência aqui entre as cinzas!
— Boa noite, São Toirdealbhach, não o vimos por causa da escuridão.
— A benção de Deus para vocês.
— A mesma benção para o senhor também.
— Deve ser sobre assassinos — disse Agravaine. — Sobre assassinos e corvos que arrancam os
olhos com bicadas.
— Não, não — disse Gareth. — Deve ser sobre a moça misteriosa que se casa com um homem
porque ele roubou o cavalo mágico do gigante.
— Glória ao Senhor — comentou São Tbirdealbhach. — É mesmo uma história estranha a que
vocês querem depois de querer qualquer uma.

— Vamos, São Toirdealbhach, conta uma o senhor mesmo.
— Conta sobre a Irlanda.
— Conta sobre a Rainha Maeve, que desejava o touro.
— Ou dance para nós uma jiga.
— Misericórdia para os fedelhos malcriados, pensar em sua santidade dançando uma jiga!
Os quatro representantes das classes superiores sentaram-se onde puderam — havia apenas dois
bancos — e olharam para o santo homem em silêncio receptivo.

— Será uma história com moral, a que vocês querem?
— Não, não. Nada de moral. Gostamos de histórias sobre batalhas. Vamos, São Toirdealbhach, que
tal aquela vez em que o senhor quebrou a cabeça do Bispo?
O santo tomou um grande gole de seu uísque branco e cuspiu no fogo.

— Havia uma vez um rei — começou, e toda a audiência fez um barulho farfalhante com as nádegas
para se acomodar.
— Havia uma vez um rei — disse São Toirdealbhach —, e esse rei, o que vocês acham?, era
chamado de Rei Conor Mac Ness. Era grande como uma baleia e vivia com seus parentes em um
lugar chamado Tara dos Reis. Não demorou muito e esse rei teve que enfrentar os sanguinários
O'Haras e, no conflito, ficou ferido com uma bala mágica. Vocês devem saber que os heróis antigos
gostavam de fazer, eles mesmos, balas com os miolos de seus adversários — que eles enrolavam
nas palmas das mãos em pedaços pequenos, e depois deixavam secando ao sol. Acredito que
depois eles as atiravam com arcabuzes, sabem?, como se fossem fundas ou flechas. Bom, e se era
assim, esse velho rei foi atingido nas têmporas com uma dessas balas, e ela se alojou em um osso
de seu crânio, em um ponto crítico qualquer. "Agora, estou bem-arranjado", disse o Rei, e mandou
chamar os antigos sábios e outros para aconselhá-lo sobre as práticas obstétricas. O primeiro sábio
disse: "Sois um homem morto, Rei Conor. Esta bala está no lóbulo de vosso cérebro. " O mesmo
disseram todos os outros sábios, independentemente da autoridade da pessoa ou credo. "Oh, o quefarei?", exclamou o Rei da Irlanda. "É uma má fortuna evidentemente, quando um homem não pode
lutar um pouco sem chegar ao fim de seus dias. " "Nada de tagarelar agora", disseram os cirurgiões,
"há uma coisa que pode ser feita, e essa exata coisa é se manter longe de qualquer excitação não
natural daqui para frente". "Além disso", disseram os outros, "deveis ficar longe também de toda
excitação natural, ou a bala causará uma ruptura, e a ruptura se transformará num fluxo, e o fluxo em
uma conflagração que causará uma abstrusão absoluta de todas as funções vitais. É sua única
esperança, Rei Conor, ou se deitará peremptoriamente entregue aos vermes para que o comam. "
Bem, por Deus!, era uma situação muito precária, como vocês podem imaginar. Lá estava o pobre
Conor em seu castelo, e não podia nem rir nem lutar nem tomar um pequeno gole de algo destilado,
nem olhar para uma jovem donzela, de qualquer forma, por medo de seu cérebro explodir. A bala
ficou em suas têmporas, meio dentro, meio fora, e a tristeza ficou dentro dele daquele dia em
diante.
— Que lástima esses doutores — disse Mãe Morlan. — Vaias, porque não eram nada espertos.

— O que aconteceu com ele? — perguntou Gawaine. — Viveu muito tempo no quarto escuro?
— O que aconteceu com ele? Eu ia chegar lá. Um dia houve uma tremenda tempestade e as paredes
do castelo chacoalharam como uma rede, e grande parte do barbacã caiu. Foi a pior tempestade
acontecida naquele lugar em muito tempo, e o Rei Conor saiu correndo no meio das forças da
natureza, procurando conselho. Encontrou um de seus sábios em algum lugar por lá e perguntou a
ele o que poderia ser. Esse era mesmo um homem sábio e respondeu ao Rei Conor. Disse que
naquele dia nosso Salvador fora enforcado em uma árvore pelo povo judeu, e a tempestade
irrompera por causa disso, e falou ao Rei Conor sobre o evangelho de Deus. Então, o que vocês
pensam?, o Rei Conor da Irlanda voltou correndo para seu palácio para pegar sua espada, em fúria
santa, e voltou correndo com ela pela tempestade para defender o Salvador — e foi assim que ele
morreu.
— Ele morreu?
— Sim.
— Nossa!!!
— Que maneira bonita de morrer — disse Gareth. — Não foi uma coisa boa para ele, mas foi
grandiosa.
Agravaine disse:

— Se meus médicos me dissessem para ser cuidadoso, eu nunca perderia meu controle por nada.
Eu pensaria no que aconteceria, fosse como fosse.
— Mas não foi um gesto de fidalgo?
Gawaine começou a mexer nervosamente os dedos.
— Foi tolo — acabou dizendo. — Não fez nenhum bem.
— Mas ele estava tentando fazer o bem.
— Não era nada com sua família — disse Gawaine. — Não sei porque ele ficou tão excitado.
— Claro que era com a família dele. Era com Deus, que é da família de qualquer pessoa. O Rei
Conor saiu para defender o lado da justiça, e deu sua vida por isso.
Agravaine, impaciente, mexeu o traseiro nas cinzas macias e cor de ferrugem da turfa. Achava
Gareth um tolo.

— Conte a história de como os porcos foram feitos — ele pediu, para mudar o assunto.
— Ou aquela sobre o grande Conan que foi transformado em uma cadeira — disse Gawaine. —
Ou, de alguma maneira, ficou pregado nela, e eles não conseguiram tirá-lo de lá. Então, tiveram de
puxá-lo pela força, e aí foi necessário fazer um enxerto em seu traseiro, só que era de pele de
ovelha, e desde então as meias usadas por Fianna eram feitas com a lã que crescia em Conan!

— Não, essa não — disse Gareth. — Vamos deixar de histórias. Vamos sentar, meus heróis, e
conversar com sabedoria sobre assuntos sérios. Vamos falar sobre nosso pai, que está longe
fazendo a guerra.

São Toirdealbhach tomou um grande gole de uísque e cuspiu no fogo.

— A guerra não é grande coisa — ele observou, entregando-se a reminiscências. — Eu mesmo fui
muito a guerras uma época, antes de me tornar um santo. Mas me cansei delas.
Gawaine disse:

— Não entendo como as pessoas podem se cansar de guerras. Tenho certeza de que nunca me
cansarei. Afinal, é a ocupação de um nobre. Quero dizer, seria como ficar cansado de caçar ou dos
falcões.
— A guerra — disse Toirdealbhach — poderia ser uma boa coisa se não tivesse muita gente nela.
Quando tem muita gente lutando, como você sabe por que está lutando? Houve boas guerras na
Velha Irlanda, mas era por causa de uma bula papal ou coisa assim — e cada homem tinha seu
coração envolvido nisso desde o começo.
— Por que você se cansou das guerras?
— Foi o grande número delas acabou com elas, completamente. Quem vai querer matar um mortal
por algo que ele não entende, ou por coisa alguma? Em vez disso, fiquei com os combates de
homem a homem.
— Isso deve ter sido há muito tempo.
— Ah, sim — disse o santo, arrependido. — Aquelas balas de que eu lhes falei antes: os miolos
não eram muito úteis se não fossem tirados em combates de homem a homem. Essa era a virtude
deles.
— Eu me inclino a concordar com Toirdealbhach — disse Gareth. — Afinal, qual é a vantagem de
matar pobres soldados que não sabem de nada? Seria muito melhor se as pessoas que estão com
raiva combatessem uma a outra, elas mesmas, cavaleiro contra cavaleiro.
— Mas não se pode ter nenhuma guerra assim — exclamou Gaheris.
— Seria absurdo — disse Gawaine. — É preciso ter gente, grande quantidade de gente, em uma
guerra.
— Caso contrário, você não pode matá-los — explicou Agravaine.

Foi a pior tempestade acontecida naquele lugar em muito tempo, e o Rei Conor saiu correndo no
meio das forças da natureza, procurando conselho. Encontrou um de seus sábios em algum lugar
por lá e perguntou a ele o que poderia ser. Ele disse que naquele dia nosso Salvador fora
enforcado em uma árvore pelo povo judeu, e a tempestade irrompera por causa disso, e falou ao
Rei Conor sobre o evangelho de Deus. Então o Rei Conor da Irlanda voltou correndo para seu
palácio para pegar sua espada, em fúria santa, e voltou correndo com ela pela tempestade para
defender o Salvador — e foi assim que ele morreu.

O santo serviu-se com outra dose de uísque, cantarolou para si mesmo alguns versos de Água-davida,
boa sorte para você, querida, e dirigiu o olhar para Mãe Morlan. Estava sentindo uma nova
heresia chegar, possivelmente por causa do álcool, e tinha algo a ver com o celibato do clero. Ele
já tinha uma sobre a forma da tonsura, e a comum sobre a data da Páscoa, assim como sua própria
questão pelagiana — mas a atual começava a fazê-lo sentir como se a presença das crianças fosse
desnecessária.

— Guerras — disse, com desgosto. — E como crianças como vocês estão querendo falar disso, me
digam, vocês que não são maiores que pintinhos de galinhas? Já é hora de ir embora, agora, antes

que eu jogue uma praga em vocês.

Santos, como os Antigos sabiam muito bem, eram uma classe de gente que não se devia irritar,
portanto as crianças rapidamente se levantaram.

— É pra já — disseram. — Sua Santidade, sem ofensa, por favor. Nós só queríamos fazer uma
troca de idéias.
— Idéias! — exclamou, pegando seu atiçador de brasas e, num piscar de olhos, eles já estavam do
lado de fora da porta baixa, parados sob os raios do sol na rua de areia, enquanto os anátemas do
santo ou seja lá o que fosse troavam atrás deles, no interior escuro.
Na rua, havia dois asnos roídos pelas traças procurando capim nas fendas de uma parede de pedra.
Suas pernas estavam atadas juntas, de tal modo que só podiam mancar, e seus cascos estavam
cruelmente crescidos, parecendo chifres ou patins retorcidos. Os meninos imediatamente se
dirigiram até eles, uma nova idéia aparecendo bem clara em suas cabeças tão logo viram os
animais. Já não queriam escutar histórias nem discutir questões de guerra. Levariam os asnos para

o pequeno porto atrás das dunas de areias, caso os homens que estavam fora com seus botes
tivessem feito uma pescaria. Os asnos seriam úteis para transportar os peixes.
Gawaine e Gareth revezaram-se com o asno gordo, um deles chicoteando-o enquanto o outro
cavalgava-o em pêlo. De vez em quando, o asno dava um pulo, mas se recusava a trotar. Agravaine
e Gaheris sentaram-se ambos no asno magro, o primeiro montado de costas para frente, de maneira
a ver o traseiro do animal — ao qual chicoteava furiosamente com uma raiz grossa de sargaço.
Batia ao redor do orifício do asno, para doer mais.

Era uma cena estranha a que apresentavam ao chegarem junto ao mar — os meninos magros com
narizes afilados e uma gota de suor na ponta de cada um, os punhos ossudos saindo para fora dos
casacos — os asnos tentando fugir em pequenos círculos, dando um saltinho quando o sargaço batia
nos quadris cinzentos. Era estranho porque estava circunscrito, porque estava concentrado em uma
única intenção. Poderiam ser um sistema solar em si mesmo, sem nada mais no espaço, enquanto
giravam e giravam em direção às dunas e ao capim áspero do estuário. Provavelmente, os planetas
também têm algumas idéias nas cabeças.

A idéia que os meninos tinham era machucar os asnos. Ninguém havia lhes dito que isso era cruel, e
tampouco ninguém dissera nada aos asnos. Dentro do seu mundo, conheciam bem a crueldade para
se surpreenderem. Assim, o pequeno círculo constituía uma unidade — os animais relutantes em se
mover e os meninos decididos a movê-los, as duas partes unidas pelo elo da dor com a qual todos
concordavam sem questionar. A dor em si era uma questão tão natural que desaparecera do quadro,
como se por um processo de cancelamento. Os animais não pareciam sofrer, e as crianças não
pareciam se divertir com o sofrimento deles. A única diferença era que os meninos estavam
violentamente agitados enquanto os asnos estavam tão estáticos quanto lhes era possível.

Nessa cena tipo Éden, e quase antes da lembrança do interior da casa de Mãe Morlan desaparecer
de suas cabeças, apareceu sobre as águas um barco mágico, uma barcaça com velas feitas de um
tecido de seda, mística, maravilhosa, fazendo uma música a seu próprio modo quando sua quilha
sulcava as ondas. Dentro, havia três cavaleiros e um cachorro com enjôo de mar. Seria impossível


imaginar algo menos adequado do que isso à tradição do mundo gaélico.

— Eu digo — disse a voz de um dos cavaleiros na barcaça, enquanto ainda estavam longe —, tem
um castelo, não é, o quê? Eu digo, não é um castelo bonito!
— Pára de fazer o barco jogar, meu caro amigo — disse o segundo —, ou nos fará cair no mar.
O entusiasmo do Rei Pellinore evaporou-se com a repreensão, e ele deixou os meninos petrificados
de espanto ao cair no choro. Eles podiam escutar os soluços, misturado com o bater das ondas e
com a música da barcaça, que se aproximava.

— Oh, mar! — exclamou o Rei Pellinore. — Quisera estar com você, o quê? Quisera estar no
fundo bem fundo, isso eu quisera. Pobre de mim! pobre de mim! pobre de mim!
— Não adianta dizer "pare por mim!", meu velho. A coisa vai parar quando quiser. É uma magia.
— Eu não estava dizendo "pare por mim" — retrucou o Rei. — Estava dizendo "pobre de mim"!
— Bom, ela não vai parar.
— Não me importa se vai parar ou não. Eu disse "pobre de mim"!
— Bom, pára, então.
E a barcaça mágica parou, justo onde os botes geralmente eram puxados para a terra. Os três
cavaleiros saíram, e se podia ver que o terceiro era um homem negro. Era um pagão ou sarraceno
culto, chamado Sir Palomides.

— Que boa atracada, salve! — disse Sir Palomides.
As pessoas vieram de todos os cantos, em silêncio e devagar. Quando estavam perto dos
cavaleiros, andavam lentamente, mas à distância, corriam. Homens, mulheres e crianças se
precipitavam sobre as dunas ou desciam pelas falésias do castelo mas, ao se aproximar,
começavam a andar bem lentamente. A cerca de uns vinte metros, pararam todos. Formaram um
anel, observando os recém-chegados sem dizer nada, como os visitantes ficam olhando os quadros
no museu dos Uffizzi. Estudando-os. Não havia nenhuma pressa, nenhuma necessidade de passar
para o quadro seguinte. Na verdade, não havia outros quadros — nunca houvera, desde que
nasceram, exceto as cenas costumeiras do reino de Lot. O modo como encaravam não era
exatamente ofensivo, nem amigável. Quadros existem para serem absorvidos. Começavam pelos
pés, sobretudo porque os estrangeiros vestiam roupas exóticas de cavaleiros-com-armaduras, e os
olhares avaliavam a textura, a construção, a articulação e o preço provável dos sapatões. Depois
subiam para as joelheiras, as calças e mais para cima. Devem ter levado quase meia hora para
chegar aos rostos, que deveriam ser os últimos a serem examinados.

Os gaélicos cercaram os ingleses de bocas abertas, enquanto as crianças da aldeia gritavam as
notícias ao longe e Mãe Morlan veio correndo de saias arregaçadas e os botes no mar voltaram
para terra com os remos a toda. Os jovens príncipes do reino desceram dos asnos como em transe e
se juntaram ao círculo. O próprio círculo começou a se fechar sobre seu foco, movendo-se tão lenta
e silenciosamente como o ponteiro de minutos de um relógio, exceto pelos gritos reprimidos dos
retardatários que também faziam silêncio tão logo sentiam a mesma influência. O círculo ia se


contraindo porque queria tocar os cavaleiros — não agora, não por cerca de meia hora ou mais,
não antes do exame se completar, talvez nunca. Mas gostariam de poder tocá-los no final, em parte
para ter certeza de que eram reais, em parte para avaliar melhor o preço de suas roupas. E,
enquanto a avaliação continuava, algumas coisas começaram a acontecer. Mãe Morlan e as
mulheres velhas começaram a rezar o rosário, enquanto as jovens mulheres beliscavam umas às
outras e riam; os homens, depois de tirar os bonés em respeito às orações, começaram a trocar
comentários em gaélico como "Olhe o homem preto, Deus se coloque entre nós e o mal", ou "Será
que eles ficam nus para dormir, e como é que tiram essas panelas de ferro?" — e nas mentes tanto
das mulheres quanto dos homens, independentemente da idade e das circunstâncias, começou a
crescer, de maneira quase visível, quase tangível, o enorme e incalculável miasma que é a
principal característica do cérebro gaélico.

São cavaleiros sassenach{6}, eles estavam pensando — podiam dizer isso pelas armaduras — e, se
fossem mesmo, eram cavaleiros do Rei Arthur contra quem o próprio rei deles tinha se revoltado
pela segunda vez. Teriam vindo, com a típica esperteza dos sassenach,
para atacar o Rei Lot por
trás? Teriam vindo como representantes do soberano feudal — o Senhor de Todos — para fazer
uma avaliação para um novo tributo? Seriam membros de uma Quinta Coluna? Ainda mais
complicado que isso — pois certamente nenhum sassenach
seria tão ingênuo para vir vestido de
sassenach
— talvez não fossem, absolutamente, representantes do Rei Arthur? Estariam eles, por
algum propósito quase esperto demais para ser crível, apenas disfarçados deles mesmos? Onde
estava a armadilha? Sempre havia uma em qualquer coisa.

As pessoas do círculo se aproximaram, os queixos caindo ainda mais, os corpos inclinados para
frente e se curvando como se fossem sacos ou espantalhos, os olhos miúdos cintilando em todas as
direções com insondável sutileza, os rostos assumindo uma expressão de estupidez canina até mais
vazia do que na verdade era.

Os cavaleiros juntaram-se para se proteger. Na verdade, eles não sabiam que a Inglaterra estava emguerra com as Órcades. Estavam envolvidos em uma aventura, o que os mantivera afastados dasúltimas notícias. Provavelmente, ninguém nas Órcades lhes contaria.

— Não olhem agora — disse o Rei Pellinore — mas tem algumas pessoas a nossa volta. Vocês
acham que eles são legais?

VI


Em Carlion, tudo estava na maior confusão com os preparativos para a segunda campanha. Merlin
fizera algumas sugestões sobre a maneira de vencê-la mas, como envolvia uma emboscada com
ajuda secreta do exterior, tinham que manter segredo. O exército de Lot que se aproximava
vagarosamente era tão mais numeroso que fora necessário recorrer ao estratagema. A maneira
como se desenrolaria a batalha era um segredo conhecido só por quatro pessoas.

Os cidadãos comuns, que estavam na ignorância da alta política, tinham um monte de coisas a fazer.
Havia chuços para serem afiados, e as pedras de amolar da aldeia rugiam dia e noite; havia
milhares de flechas para serem emplumadas, portanto havia luzes nas casas dos flecheiros a todas
as horas, e os desafortunados gansos dos campos eram perseguidos constantemente pelas
camponesas excitadas atrás de suas penas. Os pavões reais estavam tão nus quando uma vassoura
velha — a maioria dos atiradores gostava de ter o que Chaucer chamou de adornos de pavão,
porque eram mais elegantes — e o cheiro de cola fervente subia para os céus. Os armadores,
executando as armaduras, martelavam sem parar com tilintar musical, trabalhando em turnos
duplos, e os ferreiros colocavam ferraduras nos cavalos de batalha, e as freiras não paravam de
tricotar cachecóis para os soldados ou fazer o tipo de bandagem que chamavam de mechas. O rei
Lot já havia solicitado um rendez-vous
para a batalha, em Bedegraine.

O rei da Inglaterra subiu, com esforço, os duzentos e oito degraus que levavam à torre onde ficava

o quarto de Merlin, e bateu na porta. O mago estava dentro, com Arquimedes sentado no espaldar
de sua cadeira, ocupado em achar a raiz quadrada de menos um. Esquecera-se como se fazia isso.
— Merlin, quero falar com você — disse o Rei, ofegante. Merlin fechou o livro com estrépito,
pulou da cadeira, agarrou sua varinha mágica de pau-santo e correu para Arthur como se estivesse
tentando enxotar uma galinha extraviada.
— Vá embora! — gritou. — O que você está fazendo aqui? O que significa isso? Você não é o rei
da Inglaterra? Vá embora e mande alguém me chamar! Saia do meu quarto! Nunca se viu uma coisa
dessas! Vá embora imediatamente e manda alguém me chamar!
— Mas eu estou aqui.
— Não, não está — retrucou o velho, com engenho. E empurrou o rei para fora da porta, fechando-
a em sua cara.
— Ora! Ora! — disse Arthur, e tristemente desceu a escada de duzentos e oito degraus.

Uma hora mais tarde, Merlin apresentou-se no Salão Real, em resposta a um chamado, levado por
um pajem.

— Assim está melhor — ele disse, e sentou-se confortavelmente em uma arca com tapete.
— Levante-se — disse Arthur, e bateu palmas para um pajem levar embora o assento.
Merlin ficou em pé, fervendo de indignação. O branco dos nós de seus dedos descorou pela força
com que os apertava.

— Em relação a nossa conversa sobre o tema da Cavalaria — começou o Rei com um tom
petulante...
— Não me lembro dessa conversa.
— Não?
— Nunca fui tão insultado em toda a minha vida.
— Mas eu sou o Rei — Arthur disse. — Você não pode se sentar na frente do Rei.
— Bobagem.
Arthur começou a rir mais do que seria adequado, e seu irmão de criação, Sir Kay, e seu velho
protetor, Sir Ector, saíram de trás do trono, onde estavam escondidos. Kay tirou o chapéu de
Merlin e colocou-o em Sir Ector, e Sir Ector disse:

— Bem, abençoada seja minha alma, agora sou um nigromante. Hocus-pocus.
Todo mundo começou a rir, e finalmente Merlin também acabou rindo, e assentos foram trazidos
para que todos pudessem se sentar, e garrafas de vinho foram abertas para que a reunião não
passasse a seco.

— Você está vendo — disse, orgulhoso, o Rei — eu convoquei um conselho.
Houve uma pausa, pois era a primeira vez que Arthur fazia um discurso, e queria fazer o melhor
possível.

— Bem — continuou. — É sobre a Cavalaria. Quero falar sobre isso.
Merlin imediatamente o observou com olhar aguçado. Seus dedos nodosos tremiam no meio das
estrelas e sinais secretos de sua veste, mas ele não ajudaria o orador. Podia-se dizer que esse era
um momento crítico em sua carreira — o momento para o qual vivera de frente para trás por sabe
Deus quantos séculos, e agora teria certeza se tinha ou não vivido em vão.

— Tenho pensado — disse Arthur — sobre a Força e o Direito. Não acho que as coisas tenham de
ser feitas porque você é capaz de fazê-las. Acho que têm de ser feitas quando você deve fazê-las.
Afinal, um centavo é um centavo de qualquer maneira, por mais Força que possa ser exercida, em
qualquer dos lados, para provar que é ou não é. Está claro? Ninguém respondeu.
— Bem, eu estava conversando com Merlin nas ameias um dia, e ele disse que a última batalha que
tivemos — na qual setecentos soldados rasos foram mortos — não era tão divertida quanto achei
que tivesse sido. Certamente, as batalhas não são divertidas quando pensamos sobre elas. Quero

dizer, as pessoas não deviam ser mortas, deviam? É melhor ficarem vivas. Muito bem. Mas o
curioso é que Merlin me ajudou a vencer as batalhas. Na verdade, continua me ajudando, e
esperamos vencer a batalha de Bedegraine juntos, quando ela acontecer.

— Venceremos — disse Sir Ector, que estava a par do segredo.
— Isso me parece inconsistente. Por que ele me ajuda a fazer a guerra, se elas são más?
Ninguém falou nada, e o Rei começou a falar com agitação.
— Só posso pensar — ele disse, começando a se ruborizar — só posso pensar que eu... que nós...
que ele... que ele quer que eu a vença por uma razão.
Ele parou e olhou para Merlin, que virou a cabeça para outro lado.

— A razão é... será?... a razão é que se eu puder ser o senhor de meu reino, vencendo essas
batalhas, eu poderei pará-las depois e então fazer algo sobre a questão da Força. Adivinhei? Estou
certo?
O mago não virou a cabeça, e suas mãos continuaram quietas em seu colo.

— Estou! — exclamou Arthur.
E começou a falar tão rapidamente que mal podia acompanhar a si mesmo.
— Vejam vocês — ele disse. — A Força não é o Direito. Mas há muita Força destruindo esse
mundo e algo tem de ser feito em relação a isso. É como se as pessoas fossem metade horríveis e
metade boas. Talvez elas sejam mais do que metade horríveis, e quando são deixadas por si
mesmas ficam selvagens. Vejam o barão médio que temos hoje, pessoas como Sir Bruce Sans Pitié,
que simplesmente sai galopando por aí com sua roupa de aço, fazendo exatamente o que lheapetece, por esporte. É nossa idéia normanda que as classes superiores tenham o monopólio do
poder, sem respeitar a justiça. Então o lado horrível predomina, e há roubos e estupros e pilhagem
e torturas. As pessoas viram animais.
"Mas, vejam, Merlin está me ajudando a vencer minhas duas batalhas para que eu possa pôr um fim
nisso. Ele quer que eu endireite as coisas.

"Lot, Uriens, Anguish e os outros como eles são o velho mundo, a ordem antiga que querem que
prevaleça para realizar seus desejos particulares. Tenho que vencê-los com suas próprias armas —
eles as forçam sobre mim, porque vivem pela força — e só depois o verdadeiro trabalho começará.
Esta batalha de Bedegraine é a parte preliminar, vocês vêem. É sobre depois
da batalha que Merlin
quer que eu pense."

Arthur parou outra vez para comentários ou encorajamentos, mas o rosto do mago continuava
virado. Apenas Sir Ector, sentado a seu lado, podia ver seus olhos.

— Agora, o que pensei foi isso — disse Arthur. — Por que não se pode fazer a Força trabalhar
pelo Direito? Sei que parece sem sentido mas, quero dizer, não se pode dizer que isso
simplesmente não é possível. A Força está lá, na metade má das pessoas, não podemos esquecer
disso. Não podemos cortá-la, mas deve ser possível direcioná-la, se é que vocês me entendem, de
maneira que seja útil em vez de má.

O público estava interessado. Inclinaram-se para frente para escutar melhor, exceto Merlin.

— Minha idéia é que se pudermos vencer esta batalha que está a nossa frente, e pudermos controlar
bem o país, então criarei uma espécie de Ordem de Cavaleiros. Não punirei os cavaleiros maus,
nem enforcarei Lot, mas tentarei atraí-los para nossa Ordem. Teremos que fazer com que isso seja
uma grande honra, compreendem?, e fazer com que seja uma moda e coisas assim. Todos deverão
querer participar dela. E então farei com que o juramento da Ordem seja que a Força deve ser
usada somente para o Direito. Estão compreendendo? Os cavaleiros da minha Ordem cavalgarão
pelo mundo todo, vestidos de aço e empunhando suas espadas — o que dará vazão à vontade de
lutar, entendem, uma vazão para o que Merlin chama de espírito de caça à raposa, mas terão jurado
atacar apenas em benefício do bem, defender virgens contra Sir Bruce, restaurar o que foi feito de
errado no passado e ajudar o oprimido e assim por diante. Percebem a idéia? Será usar a Força, em
vez de lutar contra ela, e transformar uma coisa má em coisa boa. Isso, Merlin, foi tudo o que pude
pensar a respeito. Pensei o mais que pude e suponho que estou errado, como sempre. Mas eu me
esforcei. Não consigo pensar em coisa melhor. Por favor, diga alguma coisa!
O mago levantou-se tão reto como um pilar, esticou os braços em ambas as direções, olhou para o
teto e disse as primeiras poucas palavras do Nunc Dimittis{7}.


VII


A situação em Dunlothian estava complicada. Quase toda situação tendia a sê-lo quando tinha
ligação com o Rei Pellinore, mesmo no Norte mais distante. Para começar, ele estava apaixonado

— era por isso que chorara na barcaça. Foi o que explicou à Rainha Morgause na primeira
oportunidade — porque estava apaixonado e não mareado.
O que aconteceu foi isso. O rei tinha perseguido a Besta Gemente alguns meses antes, na costa sul
de Gramarye, quando o animal entrou no mar. Ela nadara para longe, sua cabeça de serpente
ondulando na superfície como uma cobra d'água, e o rei fez sinal para um navio que passava como
se fosse para alguma Cruzada. Sir Grummore e Sir Palomides estavam no navio e gentilmente se
dispuseram a mudar seu caminho para ir atrás da Besta. Os três chegaram à costa de Flandres, onde
a Besta desapareceu em uma floresta, e lá, enquanto descansavam em um castelo hospitaleiro,
Pellinore se apaixonou pela filha da Rainha de Flandres. Isso foi bom enquanto durou — pois a
dama de sua escolha era uma criatura despachada, de meia-idade, decidida, que sabia cozinhar,
cavalgar em linha reta e arrumar camas — mas as esperanças de ambas as partes foram desfeitas
logo no começo pela chegada da barcaça mágica. Os três cavaleiros tiveram que entrar nela e
sentaram-se para ver o que acontecia, porque supostamente cavaleiros nunca devem recusar uma
aventura. Mas a barcaça imediatamente se pôs a navegar, por sua própria conta, deixando a filha da
Rainha de Flandres acenando ansiosa seu lencinho de bolso. A Besta Gemente pôs a cabeça para
fora da floresta antes que eles perdessem a terra de vista, parecendo, pelo que puderam ver à
distância, ainda mais surpresa que a dama. Depois disso, eles navegaram até chegarem às Ilhas
Exteriores, e quanto mais longe iam, mais saudoso ficava o rei, o que tornou sua companhia
intolerável. Passava o tempo escrevendo poemas e cartas, que nunca poderiam ser enviadas, ou
falando a seus companheiros sobre a princesa cujo apelido no círculo familiar era Piggy —
Porquinha.

Uma situação como essa poderia ser aceitável na Inglaterra, onde algumas vezes apareciam pessoas
como Pellinore, e até contavam com uma espécie de tolerância por parte de seus companheiros.
Mas em Lothian e Órcades, onde os ingleses eram os tiranos, isso adquiria uma impossibilidade
quase sobrenatural. Nenhum dos ilhéus conseguia entender o que o Rei Pellinore tentava esconder

— ao fingir ser ele mesmo —, e era considerado mais sábio e seguro não mencionar a nenhum dos
cavaleiros visitantes os fatos sobre a guerra contra Arthur. Era melhor esperar até que seus
estratagemas fossem descobertos.

Além disso, havia um problema que perturbava particularmente os meninos. A Rainha Morgause
procurava conquistar os visitantes.


— O que nossa mãe está fazendo com os cavaleiros na montanha? — perguntou Gawaine uma
manhã, quando caminhavam em direção à cela de São Toirdealbhach.
Gaheris respondeu com certa dificuldade, depois de uma longa pausa:

— Eles estão caçando um unicórnio.
— Como se faz isso?
— É preciso uma virgem para atraí-lo.
— Nossa mãe saiu para caçar unicórnios e para servir de virgem para eles — disse Agravaine, que
também sabia dos detalhes.
Sua voz soou estranha ao fazer essa observação. Gareth protestou:

— Não sabia que ela queria um unicórnio. Nunca falou nada sobre isso.
Agravaine o olhou de esguelha, limpou a garganta e citou:
— Meia palavra é suficiente para o bom entendedor.
— Como vocês sabem disso? — perguntou Gawaine.

— Nós escutamos.
Eles sabiam um jeito de escutar pela escada em espiral, nos momentos em que eram excluídos do
interesse da mãe.
Gaheris explicou, com eloqüência pouco comum, pois era um menino taciturno:


— Ela disse a Sir Grummore que essa melancolia amorosa do rei poderia acabar se ele voltasse a
se interessar por seus antigos objetivos. Eles haviam contado que esse rei tinha o hábito de
perseguir uma Besta que se perdeu. Então, a mãe disse que eles deviam caçar unicórnios, e que ela
seria a virgem para eles. Eles ficaram surpresos, eu acho.
Caminharam em silêncio, até Gawaine sugerir, quase como se fosse uma pergunta:


— Ouvi dizer que o rei está apaixonado por uma mulher de Flandres, e que Sir Grummore já é
casado. E que o sarraceno tem a pele negra por dentro.
Ninguém respondeu.


— Foi uma longa caçada — disse Gareth. — Ouvi dizer que não pegaram nada.
— Esses cavaleiros gostam de ficar jogando esse jogo com nossa mãe?
Gaheris explicou pela segunda vez. Embora fosse calado, era bom observador.
— Acho que eles não entenderam nada.
Continuaram caminhando, relutantes em revelar seus pensamentos.
A cela de São Toirdealbhach era como uma colméia de palha fora de moda, exceto que era maior e
feita de pedra. Não tinha janelas, só uma porta, pela qual era preciso passar agachado.


— Sua Santidade — eles gritaram quando chegaram, batendo nas pesadas pedras sem argamassa.
— Sua Santidade, viemos escutar uma história.
Toirdealbhach era uma fonte de nutrição mental para eles — uma espécie de guru, como Merlin
fora para Arthur, e que lhes deu a pouca cultura, a única que jamais teriam. Recorriam a ele como
cachorrinhos famintos, ansiosos por qualquer tipo de comida, quando a mãe os punha para fora de
casa. Ele os ensinara a ler e escrever.


— Ah, vocês — disse o santo, pondo a cabeça para fora da porta. — Que a prosperidade do
Senhor esteja com vocês esta manhã.
— A mesma prosperidade para o senhor.
— Têm alguma novidade?
— Nenhuma — disse Gawaine, suprimindo o unicórnio. São Toirdealbhach soltou um suspiro
profundo.
— Também não tenho nenhuma — disse.
— Poderia nos contar uma história?
— Essas histórias, agora. Não tem nada de bom nelas. Por que eu lhes contaria uma história, eu e

minhas heresias? Faz mais de quarenta anos desde que lutei uma batalha natural, e também nada de
ficar sabendo de nenhuma donzela durante todo esse tempo, então como poderia lhes contar
histórias?

— O que nossa mãe está fazendo com os cavaleiros na montanha?
— perguntou Gawaine uma manhã, quando caminhavam em direção à cela de São
Toirdealbhach. Gaheris respondeu com certa dificuldade, depois de uma longa pausa:
— Eles estão caçando um unicórnio.
— Poderia contar uma história sem donzelas nem batalhas.
— E para que serviria isso, hein? — ele exclamou, com indignação, saindo para a luz do sol.
— Se pensar em lutar em uma batalha — disse Gawaine, sem mencionar as donzelas —, talvez se
sinta melhor.
— Que tristeza! — exclamou Toirdealbhach. — Por que quero ser santo é uma charada! Se eu
pudesse rachar alguém com minha velha clava — e tirou debaixo de sua veste uma arma que
parecia terrível — não seria melhor do que todos os santos da Irlanda?
— Conte-nos sobre a clava.
Eles examinaram o porrete cuidadosamente, enquanto sua santidade lhes contava como um bom
porrete deveria ser feito. Explicou que apenas uma raiz crescida servia, porque os ramos comuns
quebravam logo, sobretudo se fossem de árvores comuns, e como untar o porrete com banha de
porco, e enrolá-lo e enterrá-lo em um monturo para endurecer, e depois poli-lo com grafite e sebo.
Mostrou o buraco por onde se colocava o chumbo, e os cravos na ponta, e os entalhes no punho que
representavam os antigos escalpos. Em seguida, ele a beijou com reverência e recolocou-a sob sua
veste com um suspiro profundo. Estava atuando, e com toda a ênfase.

— Conte-nos a história do braço negro que desceu pela chaminé.
— Ah, meu coração não está nisso — disse o santo. — Não tenho mais coração para nada. Estou
inteiramente enfeitiçado.
— Acho que nós também estamos enfeitiçados — disse Gareth. — Tudo parece dar errado.
— Sucedeu uma coisa parecida uma vez — Toirdealbhach começou — e foi com uma mulher.
Havia um esposo que vivia em Malainn Vig com essa mulher. Havia uma filha que tinham entre
eles. Um dia o homem saiu para cortar madeira no pântano e quando chegou a hora do jantar, essa
mulher mandou a menina levar o jantar para ele. Quando o pai estava sentado comendo seu jantar,
essa menina de repente deu um grito, "Olha, pai, está vendo o grande navio lá longe no horizonte?
Eu posso fazê-lo vir até a praia seguindo o rochedo". "Você não pode fazer isso", disse o pai. "Eu
sou maior que você e não posso. " "Bom, então fique me olhando", disse a menina. E ela foi até a
fonte que estava perto e remexeu a água. O navio aproximou-se do rochedo.
— Ela era uma bruxa — explicou Gaheris.
— Era a mãe que era a bruxa — o santo disse, e continuou a história.

— "Agora", ela falou, "posso fazer o navio bater no rochedo. " "Você não consegue fazer isso",
disse o pai. "Bom, então fique me olhando", disse a menina, e ela pulou na fonte. O navio bateu no
rochedo e se espatifou em mil pedaços. "Quem lhe ensinou a fazer essas coisas?", perguntou o pai.
"Minha mãe. Enquanto você está trabalhando, ela me ensina a fazer coisas em casa, na tina de
madeira. "
— Por que ela pulou na fonte? — perguntou Agravaine. — Ela ficou molhada?
— Silêncio.
— Quando esse homem chegou em casa com sua esposa, arrumou seu cortador de turfa e tomou seu
assento. Então, disse: "O que você andou ensinando para nossa filha? Eu não quero ter uma bruxa
em minha casa e não ficarei mais com você". Então, ele foi embora, e elas nunca mais viram nada
dele. Eu não sei como elas ficaram depois disso.
— Deve ser horrível ter uma mãe que é bruxa — disse Gareth, quando ele terminou.
— Ou uma esposa — disse Gawaine.
— É pior não ter esposa nenhuma — disse o santo, e desapareceu dentro de sua cova com rapidez
repentina, como o homem do relógio meteorológico sueco que se recolhe dentro de um buraco
quando o tempo vai ser bom.
Os meninos sentaram-se ao redor da porta, sem surpresa, esperando alguma coisa acontecer.
Ficaram pensando na questão das fontes, bruxas, unicórnios e no que as mães faziam.

— Tenho uma proposta a fazer, meus heróis — disse Gareth, inesperadamente —, que cacemos um
unicórnio nós mesmos.
Eles o olharam.

— Seria melhor do que não fazer nada. Há uma semana que não vemos nossa mãe.
— Ela se esqueceu de nós — disse Agravaine, amargo.
— Não, ela não fez isso. Você não deve falar assim de nossa mãe.
— É verdade. Nós nem sequer servimos o jantar.
— Isso é porque ela precisa ser hospitaleira com esses cavaleiros.
— Não, não é.
— É por que, então?
— Não vou dizer.
— Se pudermos caçar um unicórnio — disse Gareth — e trouxermos esse unicórnio que ela quer,
talvez elas nos deixe servir o jantar.
Eles refletiram sobre a idéia com um comecinho de esperança.

— São Toirdealbhach — eles gritaram —, venha aqui de novo. Nós queremos caçar um unicórnio.
O santo pôs a cabeça para fora do buraco e os examinou, suspeito.

— O que é um unicórnio? Como eles são? Como a gente pode pegar um deles?
O santo balançou a cabeça solenemente e desapareceu pela segunda vez, para retornar de quatro
poucos momentos depois com um volume grande, a única obra secular que tinha entre seus
pertences. Como a maioria dos santos, ganhava a vida copiando manuscritos e neles desenhando
gravuras.

— Vocês precisam de uma donzela como isca — ele disse.
— Temos um monte de servas — disse Gareth. — Podemos levar qualquer uma das servas ou a
cozinheira.
— Elas não iriam.
— Podemos levar a ajudante de cozinha. Podemos obrigá-la a ir conosco.
— E depois, quando pegarmos o unicórnio que a mãe quer, vamos trazê-lo para casa em triunfo e
dar para ela! Vamos poder servir o jantar todas as noites!
— Ela ficará contente.
— Talvez ficar depois do jantar, seja qual for o evento!
— E Sir Grummore nos fará cavaleiros. Ele dirá: "Jamais se viu um feito tão formidável, por meu
santuário!".
São Toirdealbhach colocou seu precioso livro na grama fora da sua cova. A grama era arenosa,
com caracóis vazios e pequenas conchas amareladas com uma espiral púrpura espalhados por
cima. Ele abriu o livro, que era um bestiário chamado Liber de Natura Quorundam Animalium, e
mostrou que tinha gravuras em todas as páginas.

Os meninos o fizeram ir passando rapidamente o pergaminho, com seu lindo manuscrito gótico,
pulando os encantadores Grifos, Bisões, Crocodilos, Mantícoras, Chaladrius, Cinomulgi, Sereias,
Peridexions, Dragões e Aspidocelones. Para seus olhares ansiosos, o Antílope roçava em vão seus
chifres complicados na árvore do tamarisco, enroscando-se e tornando-se presa fácil para seus
perseguidores; em vão os Bisões emitiam suas flatulências para despistar seus perseguidores. Os
Peridexions, no alto de árvores que os colocavam fora do alcance dos dragões, passaram
despercebidos. A Pantera exalava seu hálito aromático para atrair as presas, mas não lhes
interessou. O Tigre, que poderia ser enganado se uma bola de vidro fosse atirada a seus pés, na
qual, vendo-se a si mesmo refletido, pensava ver seus próprios filhotes; o Leão, que poupava os
homens caídos ou cativos, tinha medo de galos brancos e apagava os próprios rastros com seu rabocomo folhagem; o Íbex, que podia pular de montanhas sem se machucar porque quicava sobre seus
chifres encaracolados; o Yale, que podia mexer os chifres como orelhas; a Ursa que costumava
parir seus filhotes como pedaços de matéria informe que podia lamber na forma que bem quisesse;
a ave Chaladrius que, se olhasse para uma pessoa, sentada no anteparo de sua cama, indicava que
essa pessoa morreria; os Ouriços que colhiam uvas para sua prole, rolando sobre elas e trazendo-
as nas pontas de seus espinhos; mesmo o Aspidocelone, que era uma criatura enorme como a baleia
com sete barbatanas e expressão de ovelha, na qual você podia atracar seu barco por engano se não
prestasse atenção: mesmo o Aspidocelone mal os interessou. Por fim, encontraram o lugar do


Unicórnio, que os gregos chamavam de Rhinoceros.

Parecia que o Unicórnio era tão rápido e manso como o Antílope, e só poderia ser capturado de
uma maneira. Era preciso ter uma donzela como isca, e, quando o Unicórnio a visse sozinha, vinha
imediatamente pousar seu chifre no colo dela. Havia a gravura de uma virgem pouco confiável,
segurando o chifre da pobre criatura com uma mão, enquanto chamava alguns lanceiros com a outra.
Sua expressão de má fé era contrabalançada pela confiança estúpida com que o unicórnio a olhava.

Assim que as instruções foram lidas e a gravura digerida, Gawaine imediatamente se apressou para
buscar a ajudante de cozinha.

— Vamos — ele disse —, você tem de vir conosco até a montanha para pegar um unicórnio.
— Oh, Senhor Gawaine — exclamou a jovem que ele agarrara, cujo nome era Meg.
— Sim, é preciso. Você tem de ser a isca, seja lá como for. Ele virá e colocará a cabeça no seu
colo.
Meg começou a chorar.

— Ora, o que foi, não seja tola!
— Oh, Senhor Gawaine, eu não quero um unicórnio. Tenho sido uma jovem honesta, sim senhor, e
tenho todas essas panelas para lavar, e se Dona Truelove me pegar gazeteando o trabalho, vai me
espancar, Senhor Gawaine, vai sim.
Ele a pegou com firmeza pelas tranças e a puxou para fora.

No vento frio do alto da montanha, eles discutiram a caçada. Pelas tranças, seguravam Meg, que
chorava sem parar, para que não fugisse, e a passavam de um para o outro, se o menino que a
estivesse segurando precisasse de ambas as mãos para gesticular.

— Pois bem — disse Gawaine. — Sou o capitão. Sou o mais velho, portanto sou o capitão.
— A idéia foi minha — disse Gareth.
— A questão é que o livro diz que a isca deve ficar sozinha.
— Ela fugirá.
— Você fugirá, Meg?
— Sim, por favor, Senhor Gawaine.
— Essa não!
— Então, ela tem que ficar amarrada.
— Ai!, Senhor Gaheris, é mesmo vossa vontade, tenho que ser amarrada?
— Cale a boca. Você é só uma menina.
— Não tem nada com que amarrá-la.
— Eu sou o capitão, meus heróis, e ordeno que Gareth vá correndo para casa buscar uma corda.

— Não farei isso.
— Mas você acabará com tudo, se não fizer isso.
— Não sei porque devo ir. Fui eu quem teve a idéia.
— Então, eu ordeno nosso Agravaine a ir.
— Eu não.
— Que vá Gaheris.
— Eu não.
— Meg, sua malvada, não é pra você fugir, escutou bem?
— Sim, Senhor Gawaine. Mas, ai!, Senhor Gawaine!
— Se achássemos uma raiz de urze bem forte, poderíamos amarrar as pontas de suas tranças juntas,
enrolando-as bem.
— Vamos fazer isso.
— Ai, ai!
Depois que amarraram a virgem, os quatro meninos ficaram ao seu redor, discutindo o próximo
passo. Tinham surrupiado do arsenal lanças verdadeiras de caçar javali, portanto estavam
adequadamente armados.

— Essa donzela será minha mãe — disse Agravaine. — Isso era o que mamãe estava fazendo
ontem. E eu vou ser Sir Grummore.
— Eu serei Pellinore.
— Agravaine pode ser Grummore, se quiser, mas a isca tem que ficar sozinha. É isso que o livro
diz.
— Ai!, Senhor Gawaine, ai!, Senhor Gawaine!
— Pare de choramingar. Você vai assustar o unicórnio.
— E agora precisamos sair daqui e nos esconder. Foi por isso que nossa mãe não conseguiu pegá-
lo, porque os cavaleiros ficaram com ela.
— Eu vou ser Finn MacCoul.
— E eu serei Sir Palomides.
— Ai!, Senhor Gawaine, pelo amor de Deus não me deixe sozinha.
— Pare de resmungar — disse Gawaine. — Você é tola. Deveria ficar orgulhosa de ser a isca.
Ontem, nossa mãe foi.
Gareth disse:

— Não se preocupe, Meg, não chore. Nós não deixaremos que ele a machuque.
— Afinal, o pior que ele pode fazer é matar você — disse Agravaine com brutalidade.

Com isso, a menina infeliz começou a chorar mais que nunca.

— Por que você disse isso? — perguntou Gawaine, furioso. — Você sempre tenta amedrontar as
pessoas. Agora, ela está chorando mais que antes.
— Olhe — disse Gareth. — Olhe, Meg. Coitada da Meg, não chore. Eu deixarei você dar uns tiros
com minha catapulta, quando voltarmos para casa.
— Ah, Senhor Gareth!
— Arre, vamos embora. Não podemos ficar nos ocupando com ela.
— Vamos, vamos!
— Ai! Ai!
— Meg — disse Gawaine, fazendo uma careta medonha —, se você não parar de gritar, vou olhar
para você desse jeito.
Imediatamente, ela parou.

— Agora — ele disse —, quando o unicórnio vier, vamos aparecer correndo e matá-lo. Você
entendeu?
— Ele precisa ser morto?
— Sim, ele precisa ser morto.
— Sei.
— Eu não gostaria de machucá-lo — disse Gareth.
— Esse é mesmo o tipo de tolice de que você gostaria — respondeu Agravaine.
— Mas não entendo porque ele deve ser morto.
— Para que possamos levá-lo para casa para nossa mãe, seu cérebro de rã.
— Você não acha que poderíamos pegá-lo — perguntou Gareth — e levá-lo até nossa mãe? Quer
dizer, podemos fazer Meg levá-lo, se ele for manso.
Gawaine e Gaheris concordaram com isso.

— Se ele for manso — disseram — seria melhor levá-lo vivo. Esse é o melhor tipo de Grande
Caçada.
— Poderíamos montá-lo — disse Agravaine. — Poderíamos bater nele com galhos. Poderíamos
bater em Meg, também — acrescentou, como uma reflexão posterior.
Em seguida, eles se esconderam em emboscada e decidiram ficar em silêncio. Não se escutava
nada, exceto o vento suave, as abelhas nas urzes, as cotovias lá no alto e as fungadas distantes de
Meg.

Quando o unicórnio veio, as coisas foram bem diferentes do que haviam imaginado. Para começar,
ele era um animal tão nobre que era como se fosse uma encarnação da própria beleza. Deixava


encantado tudo que estivesse ao alcance da vista.

O unicórnio era branco, com patas de prata e um gracioso chifre de madrepérola. Com graça,
pisava na relva, mal parecendo pressioná-la com seu trote leve como ar, e o vento ondeava sua
longa crina, recentemente penteada. O que tinha de mais glorioso eram os olhos. Havia um leve
sulco azulado de cada lado de seu nariz, subindo até a cavidade ocular, rodeando-a com uma
sombra melancólica. Os olhos, envolvidos por essa sombra triste e bela, eram tão tristonhos,
solitários, meigos e tragicamente nobres, que liquidavam qualquer outra emoção a não ser o amor.

O unicórnio aproximou-se de Meg, a ajudante de cozinha, e inclinou a cabeça a sua frente. Para
fazer isso, arqueou lindamente a nuca, o chifre de madrepérola apontou para o chão a seus pés, e
ele riscou a urze com sua pata de prata como se fizesse uma saudação. Meg esqueceu as lágrimas.
Fez um gesto gentil de reconhecimento e estendeu a mão para o animal.

— Venha, unicórnio — ela disse. — Deita a cabeça em meu colo, se quiser.
O unicórnio soltou um pequeno relincho e bateu outra vez com a pata. Depois, muito
cuidadosamente, dobrou primeiro um joelho e depois o outro, até estar curvado frente a ela. Olhou-
a nessa posição, com seus olhos comovedores e, por fim, deitou a cabeça sobre os joelhos dela.
Roçou sua face magra, lisa, na maciez do vestido dela, olhando-a como se em súplica. O branco de
seus olhos revirou para cima, com uma centelha. Acomodou seu traseiro de maneira recatada e
ficou quieto, olhando para cima. Os olhos brilhavam com confiança, e ele levantou sua parte
dianteira em um gesto com a pata. Era apenas um movimento no ar, que dizia: "Agora, cuida de
mim. Me dê um pouco de amor. Alisa minha crina, por favor?".

Agravaine fez um ruído sufocado no esconderijo e imediatamente saiu correndo em direção ao
unicórnio, com a lança afiada de caçar javali nas mãos. Os outros meninos acocoram-se nos
calcanhares para ver melhor.

Agravaine chegou junto do unicórnio e começou a espetar a lança em seus flancos, na barriga
elegante, nas costelas. Ele gritava enquanto golpeava, e o unicórnio olhava angustiado para Meg.
De repente, deu um salto e se moveu, ainda olhando para ela com reprovação, e Meg pegou seu
chifre com uma das mãos. Ela parecia em transe, incapaz de evitar isso. O unicórnio não parecia
capaz de se livrar do macio aperto da mão dela em seu chifre. O sangue, causado pela lança de
Agravaine, jorrava de sua pelagem branco-azulada.

Gareth começou a correr, com Gawaine bem atrás dele. Gahe-ris veio por último, estupefato e sem
saber o que fazer.

— Não! — gritou Gareth. — Deixa-o em paz. Não! Não! Gawaine chegou quando a lança de
Agravaine entrava em sua quinta costela. O unicórnio estremeceu. Tremia com todo o corpo, e
esticou as pernas traseiras para trás. Elas se esticaram completamente, como se ele estivesse
tentando dar seu maior salto — e então ele palpitou, tremendo na agonia da morte. Durante todo o
tempo seus olhos estavam fixos nos olhos de Meg, e ela ainda olhava para baixo para os dele.
— O que você está fazendo! — gritou Gawaine. — Deixa-o em paz. Não o machuque.
— Oh, unicórnio — sussurrou Meg. Agravaine gritou:

— Esta moça é minha mãe. Ele pôs a cabeça no colo dela. Tinha que morrer.
— Nós combinamos que cuidaríamos dele — gritou Gawaine. — Combinamos que o levaríamos
para casa e poderíamos servir o jantar.
— Pobre unicórnio — disse Meg.
— Olhem — disse Gaheris. — Acho que ele está morto. Gareth ficou de pé enfrentando Agravaine,
que era três anos mais velho e poderia derrubá-lo facilmente.
— Por que você fez isso? — questionou. — Você é um assassino. Ele era um unicórnio lindo. Por
que o matou?
— A cabeça dele estava no colo de nossa mãe.
— Ele não queria fazer nada de mal. Suas patas eram de prata.
— Era um unicórnio, e tinha que ser morto. Eu devia ter matado Meg também.
— Você é um traidor — disse Gawaine. — Poderíamos tê-lo levado para casa, e nos deixariam
servir o jantar.
— De qualquer maneira, agora ele está morto — disse Gaheris. Meg abaixou outra vez a cabeça
sobre as madeixas brancas do unicórnio, e outra vez começou a soluçar.
Gareth começou a coçar a cabeça do unicórnio. Teve que se virar para esconder as lágrimas. Ao
coçá-lo, descobriu como sua penugem era suave e macia. Pôde ver de perto seus olhos, agora
rapidamente se fechando, e isso fez com que sentisse ainda mais fundo a tragédia.

— Bom, de qualquer maneira, agora ele está morto — disse Gaheris pela terceira vez. — É melhor
levá-lo para casa.
— Conseguimos pegar um unicórnio — disse Gawaine, começando a perceber o prodígio daquele
feito.
— Ele era uma fera — disse Agravaine.
— Nós o pegamos! Nós mesmos.
— Sir Grummore não conseguiu pegar nenhum.
— Mas nós conseguimos.
Gawaine tinha esquecido sua pena pelo unicórnio. Começou a dançar aos pulos em volta do corpo,
agitando sua lança e dando gritos terríveis.

— Temos que retirar suas tripas — disse Gaheris — Devemos fazer as coisas adequadamente, e
limpar suas tripas e colocá-lo sobre um pônei e levá-lo para o castelo, como caçadores
profissionais.
— E então ela vai ficar contente!
— Ela vai dizer "Pelos pés do Senhor, meus filhos são de insuperável poder!".
— Vai nos deixar ser como Sir Grummore e o Rei Pellinore. Tudo vai dar certo para nós de agora

em diante.

— Como vamos retirar as tripas?
— Vamos ter que dar um jeito — disse Agravaine Gareth levantou-se e começou a se afastar nas
urzes. Disse:
— Eu não quero ajudar a cortá-lo. Você quer, Meg?
Meg, que estava se sentindo muito mal, não respondeu. Gareth desamarrou seu cabelo — e de
repente ela começou a correr, o mais rápido que podia, para longe da tragédia, em direção ao
castelo. Gareth correu atrás dela.

— Meg, Meg! — ele gritou. — Me espera. Não corre!
Mas Meg continuou a correr, tão rápida quanto um antílope, com seus pés descalços desaparecendo
num piscar de olhos, e Gareth desistiu. Ele se atirou nas urzes e começou a chorar para valer —
sem saber o motivo.

Os três caçadores restantes tiveram problemas para tirar as tripas. Começaram abrindo a pele da
barriga, mas não sabiam como fazer isso corretamente e perfuraram os intestinos. Tudo começou a
ficar horrível, e o antes belo animal ficou estragado e repulsivo. Todos os três amavam o unicórnio
a sua maneira, Agravaine, da maneira mais distorcida e, à medida que se tornavam responsáveis
por estragar sua beleza, começaram a detestá-lo pela culpa que sentiam. Gawaine, particularmente,
começou a odiar o corpo. Odiava-o por estar morto, por ter sido bonito, por fazê-lo se sentir um
animal. Amara-o e ajudara a pegá-lo, e agora já nada havia a fazer exceto dar vazão à vergonha e
ao ódio de si mesmo sobre o cadáver. Retalhava e cortava e sentia também vontade de chorar.

— Nunca conseguiremos levá-lo — ofegavam. — Como vamos carregá-lo até o castelo, mesmo se
conseguirmos retirar as tripas?
— Mas temos que conseguir — disse Gaheris. — Temos que conseguir. Se não conseguirmos, de
que adiantou tudo isso? Temos que levá-lo para casa.
— Não podemos carregá-lo.
— Não temos um pônei.
— Numa caçada, eles põem o animal atravessado sobre um pônei.
— Temos que cortar a cabeça dele — disse Agravaine. — Temos que cortar a cabeça dele, de
alguma maneira, e levá-la. Se levarmos a cabeça, será o suficiente. Poderemos carregá-la todos
juntos.
Portanto, puseram-se a trabalhar, abominando o que estavam fazendo, o horrendo trabalho de cortar
fora aquela cabeça.

Gareth parou de chorar nas urzes. Virou-se de costas e imediatamente olhou direto para o céu. As
nuvens passando majestosamente acima dele, nas alturas sem fim, provocaram-lhe vertigens. Ele
pensou: qual será a distância até aquela nuvem? Um quilômetro? E até aquela outra, acima dela?
Dois quilômetros? E além dela, mais um quilômetro e um quilômetro, e um milhão de milhão de


quilômetros após quilômetros, todos no azul vazio. Talvez se eu caísse da terra agora, se a terra
estivesse de cabeça para baixo, eu seguiria caindo e caindo. Tentaria pegar nas nuvens ao passar
por elas, mas elas não me parariam. Aonde eu chegaria?

Esse pensamento fez Gareth se sentir meio zonzo e, como também se sentia envergonhado por ter
fugido da retirada das tripas, começou a se sentir péssimo. Nessas circunstâncias, a única coisa a
fazer era abandonar o lugar onde estava se sentindo assim, na esperança de deixar o desconforto
atrás de si. Levantou-se e foi procurar os outros.

— Olá — disse Gawaine —, você conseguiu pegá-la?
— Não, ela fugiu para o castelo.
— Espero que ela não conte a ninguém — disse Gaheris. — Tem que ser uma surpresa ou não será
bom para nós.
Os três açougueiros estavam molhados de suor e sangue, e se sentiam absolutamente miseráveis.
Agravaine tinha vomitado duas vezes. No entanto, continuaram o árduo trabalho e Gareth ajudou-
os.

— Não vale a pena parar agora — disse Gawaine. — Pensem em como será bom quando o
levarmos para nossa mãe.
— Provavelmente ela vai subir as escadas para nos dar boa-noite, se pudermos lhe dar o que ela
quer.
— Ela sorrirá e dirá que somos grandes caçadores.
Depois que cortaram a espantosa espinha dorsal, a cabeça era muito pesada para carregar. Eles se
atrapalharam todos, tentando levantá-la. Então Gawaine sugeriu que seria melhor se a puxassem
com uma corda. Não havia nenhuma.

— Poderíamos puxá-la pelo chifre — disse Gareth. — De alguma maneira, podemos arrastar e
puxar assim, enquanto for ladeira abaixo.
Só um de cada vez podia segurar o chifre, assim eles se revezaram para puxar enquanto os outros
empurravam por trás, quando a cabeça ficava presa em uma raiz de urze ou um sulco. Mesmo dessa
maneira, era pesada para eles, e tinham que parar mais ou menos de vinte em vinte metros, para
revezar.

— Quando chegarmos ao castelo — arfava Gawaine — vamos colocá-la em um banco do jardim.
Nossa mãe sempre passa por lá, em seu passeio antes do jantar. Então, ficaremos na frente até ela
se aproximar e, de repente, todos juntos daremos um passo atrás e lá estará a cabeça.
— Ela ficará surpresa — disse Gaheris.
Quando finalmente conseguiram descer a ladeira, havia um novo obstáculo. Descobriram que já não
seria possível puxá-la daquele jeito em terra plana, porque o chifre não dava apoio suficiente.

Nessa emergência, pois já estava chegando a hora do jantar, Gareth voluntariamente correu na
frente para buscar uma corda. A corda foi amarrada em volta do que restava da cabeça, e assim,


por fim, com os olhos arruinados, a carne esmagada e se desprendendo dos ossos, o troféu
enlameado, sangrento, envolvido por urzes foi levado pela etapa final até o jardim. Eles levantaram
a cabeça para colocá-la no banco e arrumaram sua crina da melhor maneira que puderam. Gareth,
particularmente, tentou escorá-la para que desse uma pequena idéia da beleza da qual se lembrava.

A rainha mágica veio pontualmente para seu passeio, conversando com Sir Grummore e seguida
por seus cachorros de estimação: Tray, Blanche e Queridinho. Não reparou em seus quatro filhos
enfileirados frente ao banco. Eles estavam parados respeitosamente em fila, sujos, excitados, os
corações batendo de esperança.

— Agora! — gritou Gawaine, e todos se moveram para o lado. A Rainha Morgause não viu o
unicórnio. Sua cabeça estava ocupada com outras coisas. Seguiu em frente com Sir Grummore.
— Mamãe! — Gawaine gritou, com voz estranha, e correu atrás dela, puxando sua saia.
— Sim, meu branquelo? O que você quer?
— Oh, mamãe. Nós trouxemos um unicórnio para a senhora.
— Como são pretensiosos, Sir Grummore — ela disse. — Bem, meus gansinhos, vocês devem ir
direto para a cozinha e tomar seu leite.
— Mas, mamãe...
— Sim, sim — ela disse em voz baixa. — Depois.
E a rainha seguiu adiante com o intrigado cavaleiro da Floresta Sauvage, rápida e reservada. Não
percebera que as roupas de seus filhos estavam arruinadas: nem sequer ralhou com eles por causa
disso. Quando, mais tarde, à noite, soube a respeito do unicórnio, mandou chicoteá-los como
castigo, pois tinha passado um dia frustrante com os cavaleiros ingleses.


VIII


A planície de Bedegraine era uma floresta de pavilhões. Pareciam tendas de praia fora de moda e
tinham todas as cores do arco-íris. Algumas, inclusive, eram listradas como tendas de praia, mas a
maioria tinha apenas uma cor, amarela, verde e cores assim. Havia emblemas heráldicos pintados
ou gravados dos lados — enormes águias negras com duas cabeças ou dragões alados, ou lanças ou
carvalhos, ou jogos de palavras que se referiam aos nomes dos proprietários. Por exemplo, Sir Kay
tinha uma chave (key)
preta em sua tenda, e Sir Ulbawes, no campo oposto, um par de cotovelos
(elbows)
com mangas fofas. O nome adequado para isso seria manchets.
Havia também
bandeirolas flutuando no topo das tendas e feixes de lanças encostadas umas nas outras. Os barões
mais esportistas tinham escudos ou grandes bacias de cobre do lado de fora da porta de sua tenda, e
tudo que você tinha a fazer era encostar numa delas com a ponta de sua lança para o barão aparecer
feito uma abelha furiosa e lutar com você, quase antes do som ressoante terminar. Sir Dinadin, que
era um homem brincalhão, pendurara um penico do lado de fora da sua tenda. E, então, havia as
pessoas. Em torno e dentro das tendas havia cozinheiros brigando com cachorros que tinham
comido pedaços de carneiro, e pequenos pajens gesticulando insultos nas costas do outro que não
estivesse olhando, e menestréis elegantes com alaúdes tocando canções folclóricas parecidas com
Greensleeves,
e escudeiros com expressões compungidas, tentando vender um para o outro cavalos
esparavões, e homens com realejos tentando ganhar qualquer coisa tocando músicas antigas, e
ciganas dizendo a sorte na batalha, e enormes cavaleiros com as cabeças enroladas em turbantes
desarrumados jogando xadrez, e vivandeiras sentadas nos joelhos de um ou outro, e — como
entretenimento — havia jograis, bufões, acrobatas, harpistas, trovadores, comediantes, menestréis,
prestidigita-dores, ursos dançarinos, dançarinos com ovos, dançarinos em escadas, dançarinos de
bailado, saltimbancos, engolidores de fogo e equilibristas. De certa maneira, era como um dia de
feira. A extraordinária floresta de Sherwood se estendia ao redor da floresta de tendas mais além
do que os olhos podiam ver — e estava cheia de javalis ferozes, cervos, foras-da-lei, dragões e
borboletas raras. Havia também uma emboscada na floresta, mas ninguém devia saber sobre ela.

O Rei Arthur não se preocupava com a batalha prestes a acontecer. Mantinha-se invisível em seu
pavilhão, no centro de toda aquela excitação, e conversava com Sir Ector ou Kay ou Merlin, dia
após dia. Os capitães inferiores estavam deliciados, pensando que seu rei realizava inúmeros
conselhos de guerra, pois bem podiam ver o lampião aceso dentro da tenda de seda até altas horas,
e tinham certeza de que inventavam um esplêndido plano de batalha. Na realidade, a conversa era
sobre outras coisas,


— Haverá muita inveja — disse Kay. — Todos esses cavaleiros de sua Ordem vão dizer que são
os melhores e vão querer se sentar à cabeceira da mesa.
— Então, vamos ter uma mesa redonda, sem cabeceiras.
— Mas, Arthur, você nunca conseguirá sentar cento e cinqüenta cavaleiros ao redor de uma mesa
redonda. Vamos ver...
Merlin, que agora dificilmente interferia na discussão, mas ficava sentado com as mãos dobradas
sobre o estômago, sorrindo, veio em auxílio de Kay.

— Teria que ter cerca de quarenta e cinco metros de diâmetro — ele disse. — Você calcula isso
com 2pr.
— Certo, então. Digamos que tenha quarenta e cinco metros de diâmetro. Pense em todo o espaço
no meio. Seria um oceano de madeira com uma fina borda de humanos em torno. Tampouco se
poderia colocar a comida no meio, porque ninguém conseguiria alcançá-la.
— Então poderíamos ter uma mesa circular — disse Arthur —, e não redonda. Não sei qual a
palavra mais adequada. Quero dizer que podemos ter uma mesa com a forma de um aro de roda de
carroça, e os servos poderiam andar pelo espaço vago, onde estaria o raio da roda. Poderíamos
chamá-los de Cavaleiros da Távola Redonda.
— Nome excelente!
— E o mais importante — continuou o Rei, que quanto mais pensava mais sábio ficava — o mais
importante será atrair os jovens. Os velhos cavaleiros, aqueles contra os quais estamos lutando, em
geral estão velhos demais para aprender. Acho que podemos convencê-los a entrar e mantê-los
lutando da maneira certa, mas estarão inclinados aos velhos hábitos, como Sir Bruce. Grummore e
Pellinore — teremos que contar com eles, claro — mas onde será que eles estão agora? Grummore
e Pellinore estarão bem, porque sempre foram mesmo boa gente. Mas acho que o povo de Lot nuncase sentirá muito à vontade com essa mudança. É por isso que digo que temos que pegá-los jovens.
Devemos criar uma nova geração de cavaleiros para o futuro. Aquele menino Lancelot que veio
com vocês-sabem-quem, por exemplo: precisamos de jovens como ele. Eles serão a verdadeira
Távola.
— A propósito dessa Távola — disse Merlin — não sei porque não deveria lhe dizer que o Rei
Leodegrance tem uma que poderia servir muito bem. Como você vai se casar com a filha dele, pode
persuadi-lo a lhe dar a mesa como presente de casamento.
— Eu vou casar com a filha dele?
— Certamente. Ela se chama Guenevere.
— Olha, Merlin, eu não gosto de saber sobre o futuro e sequer tenho certeza se acredito nessas
coisas...
— Existem algumas coisas que tenho que lhe dizer, quer você acredite nelas ou não — respondeu o
mago. — O problema é que eu tenho a sensação de que estou esquecendo de lhe dizer alguma coisa.
Não me deixe esquecer de lhe avisar sobre Guenevere outra hora.

— Isso confunde qualquer pessoa — disse Arthur, reclamando. — Fico confuso sobre a metade das
questões que quero lhe perguntar. Por exemplo, quem foi minha...
— Você terá de fazer festas especiais para o Pentecostes e coisas assim, — interrompeu Kay —
quando todos os cavaleiros virão para o jantar e contarão o que fizeram. Se tiverem que falar sobre

o que fizeram, isso pode fazê-los querer lutar de acordo com essa nova maneira que você está
propondo. E Merlin poderia escrever seus nomes nos devidos lugares, com magia, e o brasão de
suas armaduras poderia ser gravado nas cadeiras. Seria magnífico!
Essa idéia excitante fez o rei esquecer sua pergunta, e os dois jovens sentaram-se imediatamente
para desenhar os próprios brasões para o mago, para que não houvesse nenhum engano em relação
às cores. Quando estavam no meio dos desenhos, Kay levantou os olhos, com a língua entre os
dentes, e comentou:

— Falando nisso, vocês se lembram daquela discussão que tivemos sobre agressão? Bem, eu
pensei em uma boa razão para começar uma guerra.
Merlin ficou gelado.

— Gostaria de saber qual é.
— Uma boa razão para começar uma guerra é simplesmente ter uma boa razão! Por exemplo, pode
haver um rei que descubra uma nova maneira de viver para os seres humanos — sabe, alguma coisa
que será melhor para eles. Pode até mesmo ser a única maneira de salvá-los da destruição. Bom, se
os seres humanos forem muito perversos ou muito estúpidos para aceitarem essa maneira, ele pode
ter que forçá-los a isso pela espada, no próprio interesse deles.
O mago apertou os punhos, torceu sua veste em vários pontos e começou a se tremer todo.

— Muito interessante — comentou, com voz trêmula. — Muito interessante. Havia um homem
exatamente assim quando eu era jovem, um austríaco que inventou uma nova maneira de vida e se
convenceu de que era quem ia fazer a coisa funcionar. Tentou impor sua reforma pela espada e
mergulhou o mundo civilizado na miséria e no caos. Mas o que esse sujeito tinha esquecido, meu
amigo, era que ele teve um predecessor nesse negócio de reforma, chamado Jesus Cristo. Talvez
possamos supor que Jesus sabia tanto quanto o austríaco sabia sobre isso de salvar as pessoas. Mas
o estranho é que Jesus não transformou seus discípulos em tropas de ataque, nem queimou o
Templo de Jerusalém e nem pôs a culpa em Pôncio Pilatos. Ao contrário, ele deixou claro que o
trabalho do filósofo era tornar as idéias acessíveis
e não
impô-las às pessoas.
Kay ficou pálido, mas manteve-se obstinado.

— Arthur está travando a guerra atual para impor suas idéias ao Rei Lot — disse.

IX


A sugestão da rainha de caçar o unicórnio teve um efeito curioso. Quanto mais perdido de amor se
tornava Pellinore, mais óbvio ficava que algo deveria ser feito. Sir Palomides teve uma inspiração.

— A melancolia real — ele disse — só pode ser desfeita pela Besta Gemente. Este foi o objetivo
da vida inteira do marajá sahib{8}.
Esse seu verdadeiro amigo ouve você dizer isso o tempo todo.
— Pessoalmente — disse Sir Grummore —, acredito que a Besta Gemente está morta. De qualquer
maneira, está em Flandres.
— Então precisamos fingir — disse Sir Palomides. — Precisamos assumir o papel da Besta
Gemente e deixar que ela nos cace.
— Dificilmente poderíamos fingir que somos a Besta Gemente. Mas o sarraceno já levara longe a
idéia.
— Por que não? — perguntou. — Por que não, por Deus? Os comediantes se vestem de animais —
como cervos, bodes ou seja o que for — e dançam ao som de sinos e tambor, com muitos giros e
circunflexões.

— Mas, realmente, Palomides, nós não somos comediantes.
— Mas podemos aprender a ser!
— Comediantes!
Um comediante era como um prestidigitador, um tipo inferior de menestrel, e Sir Grummore não se
entusiasmou nada com a idéia.

— Como poderíamos nos vestir como a Besta Gemente? — perguntou, desanimado. — Ela é um
animal incrivelmente complicado.
— Descreva-a
— Bom, vá lá. Ela tem cabeça de serpente e corpo de leopardo e quadris de leão e patas de veado.
E, espera aí, caramba!, como poderíamos fazer o barulho da barriga dela, como trinta parelhas de
cães de caça em perseguição?
— Esse seu verdadeiro amigo pode ser a barriga — retrucou Sir Palomides —, e fará assim com a
língua.

Ele começou a fazer um barulho de assustar.

— Silêncio! — gritou Sir Grummore. — Vai acordar o castelo.
— Então, estamos de acordo?
— Não, não estamos. Nunca escutei tanta estupidez em toda minha vida. Além disso, ela não faz um
barulho assim. Ela faz um barulho assim.
E Sir Grummore começou a berrar em contralto desafinado, como milhares de gansos selvagens no
brejo.

— Silêncio! Silêncio! — gritou Sir Palomides.
— Não ficarei em silêncio. O barulho que você estava fazendo parecia de porcos.
Os dois naturalistas começaram a piar, grunhir, grasnar, guinchar, cocoricar, mugir, rosnar, fungar,
roncar, latir e miar um para o outro, até ficarem com as faces vermelhas.

— A cabeça — disse Sir Grummore, parando de repente — terá de ser de papelão.
— Ou de lona — disse Sir Palomides. — O povo de pescadores terá lona, certamente.
— Podemos arranjar botas de couro para fazer as patas.
— Podemos pintar manchas no corpo.
— Teremos que ter botões no meio...
— ... onde nos ligaremos um ao outro.
— E você — acrescentou Sir Palomides, generoso — pode ser a parte traseira e fazer os sons.
Todos afirmam que o barulho vem da barriga.
Sir Grummore corou de prazer e disse, com voz rouca, ao estilo normando:

— Bom, obrigado, Palomides. Devo dizer que reconheço que isso é magnificamente decente de sua
parte.
— Que nada!
Durante uma semana, o Rei Pellinore quase não viu seus amigos.
— Vá escrever poemas, Pellinore — eles lhe disseram — ou vá suspirar nos rochedos, seja um
bom companheiro.
De vez em quando, ele vagava sem rumo, gritando: "Flandres — Glandres" ou "Filha — fervilha",
quando lhe ocorria alguma rima, enquanto a sombria rainha o seguia de longe.

Enquanto isso, no quarto de Sir Palomides, onde a porta estava sempre fechada à chave, havia tanto
recorte e costura e pintura e discussão como raras vezes se vira antes.

— Querido companheiro, eu lhe digo que um leopardo tem pintas pretas.
— Castanho-avermelhadas — Sir Palomides teimava.
— Que cor é essa, castanho-avermelhada? E de qualquer maneira, não temos essa cor por aqui.

Olharam-se um para o outro, com o furor de criadores.

— Experimenta a cabeça.
— Pronto, você a rasgou. Eu disse que isso ia acontecer.
— Era de construção frágil.
— Temos que construir outra.
Quando a reconstrução terminou, o pagão afastou-se um pouco para admirá-la.
— Cuidado com as pintas, Palomides. Pronto, você borrou tudo.
— Mil perdões!
— Você tem de olhar por onde anda!
— Bem, quem pôs o pé nas costelas?
No segundo dia houve problemas com o traseiro.
— Essas coxas são grandes demais.
— Não as dobre.
— Tenho que dobrá-las, se vou ser a parte traseira.
— Elas não vão se quebrar.
— Sim, vão.
— Não, não vão.
— Bem, já quebraram.
— Cuidado com meu rabo — disse Sir Grummore, no terceiro dia. — Você está pisando nele.
— Não segure com tanta força, Grummore. Minha nuca está torcida.
— Você não consegue ver?
— Não, não consigo. Minha nuca está torcida.
— Lá se foi meu rabo.
Houve uma pausa enquanto eles se arrumavam.
— Agora, com cuidado dessa vez. Devemos dar os passos em conjunto.
— Você dá as ordens.
— Esquerda! Direita! Esquerda! Direita!
— Acho que meus quadris estão caindo.
— Se você continuar mexendo assim a cintura, vamos nos partir ao meio.
— Bom, não posso segurar minhas coxas a menos que faça isso.
— Lá se vão os botões.

— Malditos botões.
— Esse seu verdadeiro amigo tinha lhe avisado.
Assim, eles tiveram que costurar os botões no quarto dia e começar de novo.
— Posso praticar meu som agora?
— Sim, claro.
— Como ele soa a partir de dentro?
— Esplêndido, Grummore, esplêndido! Só que, de certa maneira, parece estranho, vindo de trás, se
é que você me entende.
— Achei que estava soando abafado.
— Sim, um pouco.
— Talvez pareça bem do lado de fora.
No quinto dia, eles estavam bem adiantados.
— Precisamos praticar um galope. Afinal, não podemos andar o tempo todo, não quando ele estiver
nos caçando.
— Muito bem.
— Quando eu disser "Vá", então vá. Pronto, firme, vá!
— Cuidado, Grummore, você está me dando cabeçadas.
— Cabeçadas?
— Cuidado com a cama.
— O que você disse?
— Oh, céus!
— Não vi a cama, com os infernos! Ai, minha canela!
— Você arrebentou os botões outra vez!
— Malditos botões. Bati meu dedão.
— Bom, sua cabeça verdadeira também está aparecendo.
— Vamos ter que ficar apenas andando.
— Seria mais fácil galopar — disse Sir Grummore, no sexto dia — se tivéssemos alguma música.
Algo como a marchinha Galopar,
sabe.
— Bom, não temos música.
— Não.
— Será que você poderia cantar Galopar,
Palomides, enquanto eu estiver fazendo meu barulho?

— Esse seu verdadeiro amigo poderia, sim, tentar.
— Muito bem, então, lá vamos nós!
— Galopar, galopar, galopar!
— Maldição!
— Vamos ter que começar tudo outra vez — disse Palomides, no final da semana. — Ainda
podemos usar os cascos.
— Não acho que vai doer muito se cairmos lá fora — no musgo, entende?
— E provavelmente não vai rasgar a lona tanto assim.
— Vamos fazê-la com costura dupla.
— Sim.
— Fico contente porque pelo menos os cascos ainda servirão.
— Por Jove, Palomides, está mesmo parecendo um monstro!
— Um esforço esplêndido, desta vez.
— Pena não poder fazer algum fogo sair de sua boca, ou algo assim.
— Correria perigo de combustão.
— Vamos tentar outro galope, Palomides?
— Ah, vamos!
— Empurra a cama para o canto, então.
— Atenção com os botões.
— Se você vir alguma coisa à nossa frente, pare, entende?
— Sim.
— Preste bem atenção, Palomides.
— Certo, Grummore.
— Pronto, então?
— Pronto.
— Lá vamos nós.
— Essa foi uma esplêndida arrancada, Palomides — exclamou o cavaleiro da Floresta Sauvage.
— Um galope nobre.
— Você reparou como eu estava fazendo meu som o tempo todo?
— Não dava para não reparar, Sir Grummore.
— Ora, ora, não me lembro de quando me diverti tanto! Eles ofegaram em triunfo, dentro do seu

monstro.

— Veja como estalo meu rabo, Palomides!
— Encantador, Sir Grummore. Agora, olha como pisco um dos meus olhos.
— Não, não, Palomides. Olha você para meu rabo. Não dá para perder isso, realmente.
— Bom, se eu tenho de olhar você estalar seu rabo, você tem de olhar para minhas piscadelas. Isso
é o justo.
— Mas eu não posso ver nada daqui de dentro.
— Quanto a isso, sir Grummore, esse seu verdadeiro amigo também só pode ver seu apanágio anal.
— Bom, então, vamos dar uma última volta. Vou estalar meu rabo o tempo todo e berrar como
louco. Será um espetáculo terrível.
— E você saberá que esse seu verdadeiro amigo estará piscando um olho ou o outro.
— Você não poderia saltitar um pouco no galope, Palomides, de vez em quando? Um tipo de passo
saltitante, sabe?
— Isso poderia ser efetuado com mais naturalidade pela parte traseira, em solo.
— Você quer dizer que posso fazer isso sozinho?
— Efetivamente.
— Bem, devo dizer que isso é extraordinariamente decente de sua parte, Palomides, me deixar dar
o salto.
— Esse seu verdadeiro amigo confia que você exercerá uma certa quantidade de cuidado no salto,
para evitar, como conseqüência, golpes desconfortáveis no traseiro do quarto dianteiro, certo?
— Como você queira, Palomides.
— A postos!, Sir Grummore.
— Avante!, Sir Palomides.
— Galopar, galopar, galopar, aventura, lá vamos nós!
A rainha reconheceria o impossível. Mesmo no miasma de sua mente gaélica, acabara percebendo
que asnos não cruzam com pítons. Era inútil continuar dramatizando seus encantos e talentos para
atrair esses ridículos cavaleiros — inútil tentar caçá-los com as iscas cruéis do que ela pensava
ser amor. Com súbita reviravolta de sentimentos, descobriu que os odiava. Eram imbecis, como
eram todos os sassenachs,
e ela era uma santa. E com a mudança de postura, ela descobriu, estava
interessada, apenas em seus queridos filhos. Era a melhor mãe do mundo! Seu coração batia por
eles, seu peito maternal intumescia. Quando Gareth, todo nervoso, trouxe urze branca como uma
desculpa por ter sido chicoteado, ela o cobriu de beijos, olhando-se de soslaio no espelho.

Ele se desvencilhou do abraço e secou as lágrimas — em parte desconfortável, em parte em êxtase.
A urze que ele trouxera foi dramaticamente colocada em um copo sem água — ela sentia-se


totalmente doméstica — e ele foi autorizado a sair. Saiu precipitadamente do quarto real com a
notícia do perdão, rodopiando pela escada em espiral como um pião.

Era um castelo diferente daquele por onde o Rei Arthur costumava correr quando menino. Um
normando dificilmente o consideraria como um castelo, exceto pela torre quadrangular. Era mil
anos mais antigo do que qualquer coisa que os normandos conheciam.

Esse castelo, pelo qual o menino corria para levar a seus irmãos a boa nova do amor da mãe,
começara, nas brumas do passado, como aquele estranho símbolo dos Antigos — um forte de
promontório. Empurrados para o mar pelo vulcão da história, eles se abrigaram na última
península. Com o mar literalmente às costas, em uma língua de terra escarpada, construíram sua
única muralha através da raiz da língua. O mar, que era sua maldição, era também seu defensor de
todos os outros lados. Ali, no promontório, os canibais pintados de azul tinham empilhado sua
muralha ciclópica de pedras sem argamassa, com quatro metros de altura e o mesmo de grossura,
com terraços do lado de dentro dos quais podiam arremessar suas pederneiras. Do lado de fora da
muralha, onde tinham cravado milhares de pedras pontiagudas na turfa, cada pedra apontando para
fora em um chevaux de frise{9}, parecendo ouriços petrificados. Atrás disso, e atrás da muralha
enorme, eles se amontoavam em cabanas de madeira, junto com os animais domésticos. Havia
cabeças de inimigos enfiadas em estacas para decoração, e seu rei tinha construído, ele mesmo,
uma câmara subterrânea de tesouro que era também uma passagem subterrânea de fuga. Passava por
baixo da muralha para que, mesmo se o forte fosse sitiado, ele pudesse rastejar até a retaguarda de
seus atacantes. Era uma passagem por onde apenas um homem poderia rastejar de cada vez e fora
construída com uma curva especial, onde ele poderia esperar para bater na cabeça de seu
perseguidor, se esse tentasse passar pelo obstáculo. Os construtores do subterrâneo foram todos
executados pelo próprio rei-sacerdote, para mantê-lo em segredo.

Tudo isso aconteceu no milênio anterior.

Com a permanência dos Antigos, Dunlothian cresceu lentamente. Ali, com a conquista escandinava,
surgiu uma casa grande de madeira; aqui, as pedras originais da muralha protetora tinham sido
retiradas para construir uma torre redonda para os padres. A torre quadrangular, com um estábulo
por baixo das duas câmaras atuais, fora construída por último.

Portanto, foi entre esses destroços desordenados dos séculos que Gareth correu procurando seus
irmãos. Correu entre escoras e adaptações — passando por velhas lápides que celebravam um
Deag filho de um No há muito tempo morto, e depois embutidas, de cabeça para baixo, em alguma
coluna. Estava no topo de uma falésia varrida pelo vento e expurgada até os ossos pelos ares do
Atlântico, sob a qual se abrigava uma pequena vila de pescadores entre as dunas. Era como se
fosse o herdeiro de um panorama que abrangia umas tantas dezenas de quilômetros de vagalhões e
centenas de quilômetros de cúmulos. Ao longo de toda a costa, os santos e estudiosos de Eriu
habitavam iglus de pedras em sagrada horripilância — recitando cinqüenta salmos em suas
colméias e cinqüenta ao ar livre e cinqüenta com os corpos mergulhados na água fria, em sua
aversão pelo brilho do mundo. São Toirdealbhach estava longe de ser um exemplo da sua espécie.

Gareth encontrou seus irmãos na despensa.


A despensa cheirava a aveia, presunto, salmão defumado, bacalhau seco, cebolas, óleo de tubarão,
picles de arenque em tinas de madeira, cânhamo, cereais, penas de galinha, cera de vela, leite — a
manteiga era batida ali às quintas-feiras — madeira de pinho da estação, maçãs, ervas secas, cola
de peixe e verniz usados pelos flecheiros, especiarias de além-mar, rato morto em ratoeira, carnes
de veado, algas marinhas, lascas de madeira, ninhadas de gatinhos, peles das ovelhas da montanha
ainda não vendidas e o cheiro pungente do alcatrão.

Gawaine, Agravaine e Gaheris estavam sentados nas peles de ovelhas, comendo maçãs. Estavam
no meio de uma discussão.

— Não é da nossa conta — dizia Gawaine, teimosamente. Agravaine queixou-se:
— Claro que é da nossa conta. É da nossa conta mais do que da conta de qualquer um, e não é
certo.
— Como ousa dizer que nossa mãe não está certa?
— Não está.
— Está, sim.
— Se você não pode dizer mais nada a não ser se contrapor...
— Para sassenachs,
eles são decentes — disse Gawaine. — Sir Grummore me deixou
experimentar seu elmo a noite passada.
— Isso não tem nada a ver. Gawaine disse:
— Não quero falar sobre isso. É vil falar sobre isso.
— Gawaine, o puro!
Quando Gareth entrou, pôde ver a face de Gawaine, sob seu cavalo ruivo, se incendiar frente a
Agravaine. Era óbvio que estava preste a ter outro de seus ataques de raiva — mas Agravaine era
um daqueles desafortunados intelectuais, demasiado orgulhosos para se render à força bruta. Era do
tipo que é derrubado em uma briga porque não consegue se defender, mas continua a discutir caído
no chão, zombando, "Continua, vamos, me dê mais uns sopapos para mostrar como é esperto".

Gawaine olhou-o ferozmente.

— Cala essa boca!
— Não vou calar.
— Eu farei você se calar.
— Se você fizer ou não fizer, dará no mesmo. Gareth disse:
— Silêncio, Agravaine. Gawaine, deixa-o em paz. Agravaine, se você não se calar, ele vai matá-
lo.
— Eu não me importo se ele me matar. O que eu disse é verdadeiro.
— Cala essa boca.

— Não calarei. Eu disse que devemos redigir uma carta para nosso pai sobre esses cavaleiros.
Devemos contar para ele o que nossa mãe tem feito. Devemos...
Gawaine caiu sobre ele antes que terminasse a frase.

— Sua alma é do diabo! — gritava. — Traidor! Ah, então você faria uma coisa dessas!
Agravaine fizera algo sem precedentes nas questões familiares. Ele era o mais fraco dos dois e
temia a dor. Ao cair, erguera seu punhal contra o irmão.

— Cuidado com a arma dele — gritou Gareth.
Os dois se engalfinharam sobre as peles enroladas de ovelhas.
— Gaheris, agarra a mão dele! Gawaine, deixa-o em paz! Agravaine, solta isso! Agravaine, se não
soltar isso, ele vai matar você. Ah, seu estúpido!
O rosto do menino estava azul e de vez em quando se via o punhal. Gawaine, com as mãos em volta
da garganta de Agravaine, batia ferozmente a cabeça dele no chão. Gareth pegou a camisa de
Gawaine pela nuca e a torceu para fazer com que sufocasse. Gaheris, hesitando em volta deles,
procurava o punhal.

— Solta! — arfou Gawaine. — Solta!
Ele fez um barulho abafado como uma tosse rouca, vindo do fundo do peito, como um jovem leão
rosnando.

Agravaine, cujo pomo de Adão tinha sido machucado, relaxou os músculos e ficou deitado,
tossindo, de olhos fechados. Parecia que ia morrer. Puxaram Gawaine de cima dele e o seguraram,
enquanto ele ainda tentava se desvencilhar para chegar até sua vítima e terminar o trabalho.

Era curioso como, ao entrar em uma dessas fúrias negras, Gawaine parecia não dar valor à vida
humana. Mais tarde, chegaria até a matar mulheres, quando entrava nessa fase — embora se
arrependesse amargamente depois.

Quando a imitação da Besta Gemente ficou pronta, os cavaleiros a levaram e esconderam em uma
caverna aos pés das escarpas, acima da marca da água. Depois, tomaram um pouco de uísque para
celebrar e, quando começou a escurecer, saíram à procura do rei.

Encontraram-no em seu quarto, com uma pena de escrever e uma folha de pergaminho. Não havia
nenhum poema no pergaminho — só um desenho que supostamente seria um coração trespassado
por uma flecha, com dois pês desenhados dentro dele, entrelaçados. O rei estava fungando.

— Perdão, Pellinore — disse Sir Grummore — mas vimos uma coisa nos penhascos.
— Uma coisa ruim?
— Bem, não exatamente...
— Esperava que fosse.
Sir Grummore refletiu sobre a situação e puxou o sarraceno para um lado. Decidiram que era
necessário ter tato.


— Ah, Pellinore — disse Sir Grummore, de uma maneira inocente — o que você está desenhando?
— O que você acha que é?
— Parece um tipo de desenho.
— É isso mesmo — disse o Rei. — Eu gostaria que vocês dois se retirassem. Quer dizer, se
pudessem aceitar a sugestão.
— Seria melhor se você fizesse uma linha aqui — prosseguiu Sir Grummore.
— Onde?
— Aqui, onde está a porquinha.
— Meu caro amigo, não sei sobre o que você está falando.
— Lamento, Pellinore, pensei que você estivesse desenhando sua Piggy de olhos fechados.
Sir Palomides achou que era hora de interferir.
— Sir Grummore observou um fenômeno, por Jove! — ele disse com reserva.
— Um fenômeno?
— Uma coisa — explicou Sir Grummore.
— Que tipo de coisa? — perguntou o Rei, desconfiado.
— Uma coisa de que você vai gostar.
— Tinha quatro pernas — acrescentou o sarraceno.
— Era um animal — perguntou o Rei —, vegetal ou mineral?
— Animal.
— Um porco? — perguntou o Rei, que começava a achar que eles queriam dizer alguma coisa.
— Não, não, Pellinore. Não é um porco. Tire imediatamente os porcos de sua cabeça. Essa coisa
faz um barulho como cães de caça.
— Como sessenta cães de caça — explicou Sir Palomides.
— É uma baleia! — gritou o Rei.
— Não, não, Pellinore. Uma baleia não tem pernas.
— Mas faz um barulho parecido.
— Faz?
— Meu caro amigo, como vou saber? Você deve tentar esclarecer melhor a questão.
— Eu sei, mas qual é a questão, o quê? Parece ser um jogo de bichos.
— Não, não, Pellinore. É uma coisa que vimos e que faz um barulhão de latido de cães de caça.
— Ah, sei — ele suspirou. — Eu gostaria que vocês dois ou fossem embora ou ficassem calados.

Essa coisa de baleia e porcos, e agora essa coisa que faz barulho de latidos, na maior parte do
tempo a pessoa acaba sem saber sobre o que estão falando. Vocês não podem deixar um homem em
paz, para desenhar suas coisinhas e se enforcar tranqüilamente, nem que seja por uma vez? Quero
dizer, não é pedir muito, é? O quê, vocês não acham?

— Pellinore — disse Sir Grummore — você tem que se animar. Nós vimos a Besta Gemente.
— Por quê?
— Por quê?
— Sim, por quê?
— Por que você pergunta por quê? Quero dizer — explicou Sir Grummore —, você poderia
perguntar "Onde?" ou "Quando?" Mas por que "Por quê?"
— Por que não?
— Pellinore, você perdeu todo o sentido de decência? Nós vimos a Besta Gemente, é o que estou
lhe dizendo. Vimos a coisa nos rochedos daqui, bem perto.
— Não é uma coisa. É um animal.
— Meu caro, não importa o que ela é. Nós a vimos.
— Então porque não foram pegá-la?
— Não somos nós que devemos pegá-la, Pellinore. É você. Afinal, ela é o trabalho de sua vida,
não é?
— Ela é estúpida — disse o Rei.
— Talvez seja estúpida, talvez não seja — disse Sir Grummore, em tom ofendido. — A questão é
que ela é a sua magnum opus. Só um Pellinore pode pegá-la. Você nos falou isso várias vezes.
— E qual é o sentido de pegá-la? — perguntou o monarca. — O quê? Afinal, provavelmente ela
está feliz nos rochedos. Não vejo porque vocês estão fazendo todo esse alarde. — E continuou,
saindo pela tangente — Parece espantosamente triste que as pessoas não possam se casar, quando
querem se casar. Quero dizer, o que significa esse animal para mim? Não me casei com ele, casei?
Então, por que devo ficar atrás dele o tempo todo? Não parece lógico.
— Você precisa é de uma boa caçada, Pellinore. Sacudir esse fígado.
Eles tiraram a pena de sua mão e lhe deram vários copos cheios até a borda de uísque, sem se
esquecerem de tomar um ou dois tragos eles também.

— Parece a única coisa a fazer — o Rei disse, de repente. — Afinal, só um Pellinore pode pegar a
Besta.
— Assim é que se fala!
— Mas é que eu fico triste às vezes — ele acrescentou, antes que pudessem pará-lo —, pensando
na filha de Rainha de Flandres. Ela não é bonita, Grummore, mas me compreendia. Dávamos-nos
bem juntos, se é que você me entende. Eu talvez não seja muito esperto e posso me meter em

problemas quando estou sozinho, mas quando eu estava com Piggy ela sempre sabia o que fazer.
Era uma boa companhia também. Não é ruim ter um pouco de companhia quando você está levandosua vida, sobretudo quando tem que caçar a Besta Gemente o tempo todo, o quê? É muito solitário,
na Floresta. Não que a Besta Gemente não seja uma companhia, a sua maneira — pelo menos,
enquanto foi. Só que não dá para conversar com ela sobre as coisas, não como com Piggy. E ela
não sabe cozinhar. Não sei por que estou lhes aborrecendo, rapazes, com toda essa conversa, mas
realmente às vezes a pessoa sente-se quase incapaz de continuar. Não é como se Piggy fosse um
capricho, sabem? Eu realmente a amo, Grummore, de verdade, e se pelo menos ela tivesse
respondido as minhas cartas, teria sido tão bom...

— Pobre velho Pellinore — eles disseram.
— Eu vi sete pegas hoje, Palomides. Estavam voando uma atrás da outra. Uma, para a tristeza —
explicou o Rei. — Duas, para alegria, três, para casamento, e quatro, para um filho. Portanto, sete
deve ser para quatro filhos, não deve, o quê?

— Sim, deve ser — disse Sir Grummore
— Eles se chamariam Aglovale, Percivale e Lamorak, e então haveria um com um nome engraçado
que não me recordo. Agora, tudo isso acabou. No entanto, devo confessar, eu teria gostado de ter
um filho chamado Dornar.
— Olhe, Pellinore, você deve aprender a deixar o passado passar. Assim, só vai conseguir se
desgastar. Em vez disso, por que não ser um bravo cavaleiro e ir atrás de sua Besta?
— Suponho que devo.
— Exatamente. Tira de sua mente essas outras coisas.
— Há dezoito anos tenho caçado a Besta — disse o Rei, pensativo. — Seria uma mudança
conseguir pegá-la. Onde estará minha cadela?
— Ah, Pellinore! Agora, sim, você está falando como deve!
— Quem sabe nosso honorável monarca não quer começar de uma vez?
— O quê? Esta noite, Palomides? No escuro?
Sir Palomides cochichou para Sir Grummore, secretamente;
— Golpeie o ferro enquanto ele está em alta temperatura.
— Entendo o que você quer dizer.
— Não acho que importa — disse o Rei. — Nada importa, realmente.
— Muito bem, então — exclamou Sir Grummore, tomando o controle da situação. — Isso é o que
faremos. Deixaremos nosso velho Pellinore em uma das pontas das falésias, hoje à noite mesmo, e
então nós dois esquadrinharemos o lugar metodicamente em direção a ele. A Besta certamente vai
estar por lá, pois foi vista esta tarde.
— Você não achou inteligente — Grummore perguntou, enquanto se vestiam no escuro — a maneira
como expliquei porque estaríamos aqui, quer dizer, para dirigir o animal?

— Uma inspiração — disse Sir Palomides — Minha cabeça está no lugar certo?
— Meu caro amigo, não posso ver nada.
A voz do sarraceno pareceu desconfortável.
— Essa escuridão — ele disse — parece quase palpável.
— Não importa — disse Sir Grummore. — Ela vai esconder qualquer pequena falha de nosso
disfarce. Talvez a lua apareça mais tarde.
— Graças a Deus a espada dele geralmente está cega.
— Ora, vamos, Palomides, você não deve ficar com o pé atrás. Não sei exatamente o por quê, mas
me sinto perfeitamente esplêndido. Talvez tenham sido todos aqueles tragos. Esta noite vou saltitar
e ladrar como nunca, pode deixar comigo.
— Você está se abotoando com os meus botões, Sir Grummore. São os botões errados.
— Perdão, Palomides.
— Não seria suficiente você agitar seu rabo no ar, em vez de saltitar? Há um certo desconforto
para o quarto dianteiro durante os saltos.
— Vou agitar meu rabo e também vou saltitar — disse Sir Grummore, com firmeza.
— Seja como você quiser.
— Tire sua pata do meu rabo por um momento, Palomides.
— Você poderia carregar seu rabo debaixo do braço na primeira parte da jornada.
— Isso não seria natural.
— Não.
— E agora — acrescentou Sir Palomides, amargo — vai chover. Pensando nisso, quase sempre
chove por aqui.
Esticou o braço moreno para fora da boca da serpente e sentiu as gotas caindo. Elas batiam na lona
como uma saraivada de granizos.

— Meu velho quarto dianteiro — disse Sir Grummore alegremente, pois estava cheio de uísque. —
Para começar, foi você quem teve a idéia de fazer esta expedição. Anime-se, velho mouro. Será
muito pior para Pellinore, esperando a nossa chegada. Afinal, ele não tem um esconderijo de lona
com manchas, onde se abrigar.

— Talvez a chuva pare.
— Claro que vai parar. Este é o começo, velho pagão. Agora, então, prontos?
— Sim.
— Dê o passo, então.
— Esquerda! Direita!

— Não esqueça o Galopar.
— Esquerda! Direita! Galopar! Galopar! Perdão, não estou escutando.
— Eu só estava ladrando.
— Galopar! Galopar!
— Agora, o salto!
— Ah, por favor, Sir Grummore!
— Lamento, Palomides.
— Esse seu verdadeiro amigo vai ter mesmo dificuldade para se sentar.
Sob as escarpas debaixo da chuva, o Rei Pellinore estava completamente parado, olhando
vagamente à sua frente. Sua cadela, presa a uma corda comprida, enrolara-se ao seu redor várias
vezes. Ele estava com sua armadura completa, que enferrujava, e a chuva entrava por cinco lugares.
Entrava por ambos os lados do queixo, pelos dois antebraços, mas o pior lugar era pela viseira.
Ela fora construída a partir do princípio da tromba, pois se acreditava que quanto mais feio fosse o
elmo mais amedrontaria o inimigo. O Rei Pellinore parecia um porco inquisitivo. No entanto,
deixava a chuva entrar por suas narinas e a água descia em um fio corrente que fazia cócegas em
seu peito. O rei estava pensando.

Bem, ele pensava, isso os deixará tranqüilos. Não era nada agradável ficar debaixo dessa chuva e
tudo o mais, mas os queridos companheiros pareciam estar muito interessados nisso. Seria difícil
achar alguém mais gentil que o velho Grum, e Palomides parecia um tipo amigável, embora fosse
um pagão. Se eles queriam ter uma farra como essa, a coisa decente era agradá-los. Além disso, era
bom para a cadela sair um pouco. Era uma pena ela nunca conseguir ficar sem se enrolar, mas,
enfim, não se pode interferir com a natureza. Ele teria que passar toda a manhã seguinte esfregando
sua armadura.

Isso seria algo para fazer, refletiu o Rei, tristemente, o que era melhor que ficar vagando por aí o
tempo todo, com sua eterna tristeza roendo-lhe o coração. E começou outra vez a pensar em Piggy.

A melhor coisa sobre a filha da Rainha de Flandres é que ela não ria dele. Muitas pessoas riem de
você quando você sai atrás de uma Besta Gemente — e nunca consegue pegá-la — mas Piggy não
ria. Pareceu entender imediatamente como aquilo era interessante e fez várias sugestões sensatas
sobre a maneira de emboscá-la. Naturalmente, ele não tinha a presunção de se passar por esperto
ou coisa que o valha, mas era legal ter alguém que não risse dele. Ele estava fazendo o melhor
possível.

E então chegou o terrível dia quando aquela maldita barcaça ancorou na praia. Eles tiveram que
entrar nela, porque cavaleiros nunca devem recusar uma aventura, e a barca imediatamente se pôs a
navegar. Ficaram um tempão acenando adeus para Piggy, e a Besta pôs sua cabeça para fora da
floresta e chapinhou na água atrás deles, parecendo muito perturbada. Mas a barcaça continuou
navegando, e as pequenas figuras na praia foram diminuindo até que mal podia ver o lenço que
Piggy continuava agitando, e então a cadela começou a enjoar.


De todos os portos, ele escreveu para ela. Deu as cartas para os estalajadeiros de todos os lugares,
e eles prometeram que as enviariam. Mas ela jamais enviou uma única sílaba em resposta.

Era porque ele não a merecia, pensou o Rei. Era indeciso e nada esperto e sempre se metia em
confusões. Por que a filha da Rainha de Flandres escreveria para uma pessoa assim, especialmente
depois que ele foi embora e entrou em uma barcaça mágica e desapareceu? Era como se a tivesse
abandonado, e claro que ela teria toda a razão de estar chateada. Enquanto isso, a chuva continuava
caindo, e a água ia escorrendo por dentro da armadura, e agora a cadela começara a espirrar. A
armadura ficaria enferrujada, e tinha uma espécie de corrente de ar entrando por sua nuca onde o
elmo se aparafusava. Estava escuro e horrível. Uma coisa pegajosa começou a gotejar das
escarpas.

— Perdão, Sir Grummore, mas é você que está soprando no meu ouvido?
— Não, não, querido companheiro. Continue, continue. Eu estou apenas fazendo o meu barulho da
melhor maneira que posso.
— Não é ao seu barulho que estou me referindo, Sir Grummore, mas a um tipo de respiração de
natureza rouca.
— Meu querido companheiro, não adianta me perguntar. Tudo que posso escutar daqui é um tipo de
estalo, como um bramido.
— Responda a esse seu verdadeiro amigo se você acha mesmo que a chuva vai parar. E se
importaria se também parássemos?
— Bem, Palomides, se você precisa parar, então precisa. Mas se não fizermos isso logo, vou ter
que costurar tudo de novo. Por que você quer parar?
— Preferia que não estivesse tão escuro.
— Mas você não pode parar só porque está escuro.
— Não. Tem gente que aprecia assim.
— Então, meu rapaz, continue. Esquerda! Direita! Essa é a marcha!
— Escute, Grummore — disse Sir Palomides mais tarde. — Aí está de novo.
— O quê?
— O sopro, Sir Grummore.
— Tem certeza de que não sou eu? — perguntou Sir Grummore.
— Positivo. É uma espécie de sopro de ameaça ou amoroso, parecido com a orca. Sinceramente,
esse pagão gostaria que não estivesse tão escuro.
— Bom. Não se pode ter tudo. Em frente, Palomides, seja um bom companheiro, vá.
Depois de um tempo, Sir Grummore disse com voz sepulcral:
— Caro amigo, você pode parar de ficar me dando cabeçadas o tempo todo.

— Mas eu não estou fazendo isso.
— Bom, o que é então?
— Esse seu verdadeiro amigo não tem possibilidade de lhe dar cabeçadas.
— Mas alguma coisa fica batendo em mim por trás.
— Não é seu rabo?
— Não. Ele está enrolado ao meu lado.
— De qualquer maneira, seria impossível bater em você por trás, porque as patas dianteiras estão
na frente.
— Olhe, outra vez!
— O quê?
— A batida! Definitivamente, é uma agressão, Palomides, estamos sendo atacados.
— Não, não, Sir Grummore. Você está imaginando coisas!
— Palomides, precisamos virar!
— Para quê, Sir Grummore?
— Para ver o que está batendo em mim por trás.
— Esse seu verdadeiro amigo não pode ver nada, Sir Grummore. Está escuro demais.
— Ponha sua mão para fora da boca e veja o que pode sentir.
— Posso sentir uma espécie de coisa redonda.
— Sou eu, Sir Palomides. Sou eu, por trás.
— Sinceras desculpas, Sir Grummore.
— Não foi nada, companheiro, não foi nada. O que mais você pode sentir?
A voz gentil do sarraceno começou a fraquejar.
— Uma coisa fria — ele disse — e... escorregadia.
— Ela move, Palomides?
— Sim, move e... funga.
— Funga?
— Funga.
Nesse momento, a lua apareceu.
— Poderes misericordiosos! — gritou Sir Palomides, com voz alta e trêmula, ao olhar para fora de
sua boca. — Corra, Grummore, corra! Esquerda, direita! Rápido, galope! Galope duplo! Mais
rápido, mais rápido! Mantenha o passo. Ai! meus pobres cascos. Ai! meu Deus! Ai! minha cabeça!

Não adiantava, decidiu o Rei. Provavelmente eles se perderam ou ficaram vagando por aí para se
distraírem. O tempo estava tremendamente úmido, como quase sempre em Lothian, e realmente ele
tinha feito o que podia para acatar o plano dos amigos. Agora, eles estavam sabe-se lá por onde —
até podia-se dizer que não tiveram consideração com ele — e o abandonaram para se enferrujar
com essa miserável cadela. Era lamentável.

Com um movimento decidido, dirigiu-se para a cama, puxando a cadela atrás dele.

No meio de uma fenda, em uma das falésias mais escarpadas, com a maioria dos botões
arrebentados, a falsa Besta discutia com seu estômago.

— Mas, meu prezado cavaleiro, como poderia esse seu verdadeiro amigo prever uma calamidade
dessa natureza?
— Deveria ter pensado — respondeu o estômago, furioso. — Você nos fez vestir a fantasia. A
culpa é sua.
Ao pé da falésia, a Besta Gemente, a própria, em uma atitude sentimental, esperava à luz romântica
do luar por sua cara metade. Atrás dela estava a paisagem do oceano de prata. Em diferentes
pontos da paisagem, várias dúzias de Antigos, inclinados e curvados, examinavam atentamente a
situação, escondidos entre as pedras, montes de areia, montes de conchas, iglus e coisas parecidas

— tentando em vão penetrar nos sutis segredos dos ingleses.

X


Em Bedegraine era a noite da véspera da batalha. Vários bispos abençoavam os exércitos de ambos
os lados, escutavam confissões e rezavam a missa. Os homens de Arthur mantinham-se reverentes
com essas coisas — mas os homens do Rei Lot faziam o maior tumulto — pois este era o costume
em todos os exércitos que iam ser derrotados. Os bispos asseguravam aos dois lados que tinham
certeza da vitória, porque Deus estava com eles, mas os homens do Rei Arthur sabiam que eram
excedidos em número, de três para um, então achavam melhor ficarem mais contritos. Os homens
do Rei Lot, que também sabiam dos números, passaram a noite dançando, bebendo, jogando e
contando histórias picantes. De qualquer maneira, é isso o que dizem as crônicas.

Na tenda do rei da Inglaterra, a última conversa do grupo tinha acabado, e Merlin ficara para trás
para ter uma conversinha. Parecia preocupado.

— Por que você está preocupado, Merlin? Depois de tudo, vamos perder essa batalha?
— Não. Você vencerá essa batalha, isso é certo. Não há problema em lhe contar isso. Você dará o
melhor de si, e lutará com todas as suas forças, e chamará você-sabe-quem no momento certo. Está
na sua natureza vencer a batalha, portanto não tem problema lhe contar isso. Não. E outra coisa que
eu deveria ter lhe contado que agora me preocupa.
— O que é?
— Céus benditos! Por que ficaria preocupado se pudesse me lembrar do que é?
— É sobre a donzela chamada Nimue?
— Não. Não. Não. Não. É um assunto completamente diferente. Era sobre algo... era sobre algo
que não consigo me lembrar.
Depois de um momento, Merlin tirou a barba da boca e começou a contar nos dedos.

— Eu já lhe contei sobre Guenevere, não contei?
— Não acredito nisso.
— Não importa. E já lhe avisei sobre ela e Lancelot.
— Esse aviso — disse o Rei — de qualquer maneira seria vil, quer seja verdadeiro ou falso.
— Então já lhe contei o pedaço sobre Excalibur e sobre como você deve ter cuidado com a bainha.

— Já.
— Já lhe contei sobre seu pai, portanto não pode ser sobre ele, e já lhe dei uma indicação sobre o
tipo de pessoa que ele foi. O que está me confundindo — exclamou o mago, puxando seu cabelo em
tufos — é que não me recordo se é coisa do passado ou do futuro.
— Não se preocupe com isso — disse Arthur — Não gosto mesmo de saber o futuro. Eu preferiria
que você não se preocupasse com isso, porque assim acaba também me deixando preocupado.
— Mas é algo que devo dizer. Algo vital.
— Pare de pensar nisso — sugeriu o Rei — e aí, de repente, vai se lembrar. Você deveria tirar
umas férias. Tem ocupado demais sua mente esses últimos tempos, com todos esses avisos e
preparativos para a batalha.
— Eu tirarei
umas férias — exclamou Merlin. — Assim que essa batalha acabar, irei em uma
caminhada para Humberland do Norte. Tenho um Mestre chamado Bleise que mora lá e talvez
possa me dizer o que estou tentando lembrar. Depois, poderemos observar as aves selvagens. Ele é
um grande observador de aves selvagens.
— Ótimo — disse Arthur. — Tire umas longas férias. Depois, quando voltar, poderemos pensar em
alguma coisa para evitar Nimue.
O velho parou de mexer com os dedos e olhou firme para o rei.

— Você é um cara inocente, Arthur — ele disse. — E também bom, realmente.
— Por quê?
— Você lembra alguma coisa das mágicas que fiz com você quando menino?
— Não. Você fez mágicas comigo? Lembro-me de que me interessava por pássaros e animais. Na
verdade, é por isso que ainda mantenho minha casa dos bichos na Torre. Mas eu passei por
mágicas?
— As pessoas se esquecem — disse Merlin. — E suponho que você também não se lembra das
parábolas que costumava lhe contar quando tentava lhe explicar certas coisas.
— Claro que me lembro. Havia uma sobre um rabino que você me contou quando eu quis levar Kay
para algum lugar. Jamais consegui entender porque a vaca morreu.
— Bom, quero lhe contar outra parábola agora.
— Eu adoraria.
— No Oriente, talvez no mesmo lugar de onde aquele Rabino Jachanan veio, havia um certo homem
que andava no mercado de Damasco quando encontrou a Morte. Notou uma expressão de surpresa
no horrendo semblante do espectro, mas eles passaram um pelo outro sem dizer nada. O homem
ficou amedrontado e foi a um sábio para perguntar o que deveria fazer. O sábio falou que
provavelmente a Morte viera a Damasco para levá-lo na manhã seguinte. O pobre homem ficou
aterrorizado com isso e perguntou como poderia escapar. A única solução que ocorreu aos dois foi
que a vítima deveria viajar a noite toda até Alepo, evitando assim a caveira e seus ossos

sangrentos.

"Então, esse homem seguiu até Alepo — era uma viagem horrível que nunca fora feita antes em uma
única noite — e quando lá chegou foi passear pelo mercado, congratulando-se por ter escapado da
Morte.

"Justo então, a Morte apareceu e bateu em seu ombro. 'Desculpe-me', ela disse, 'mas vim aqui
buscar você'. 'Oh, não!', disse o homem aterrorizado, 'vi você ontem em Damasco'. 'Exatamente',
disse a Morte. 'Foi por isso que fiquei surpresa, pois me tinham dito para encontrar com você hoje,
aqui em Alepo'".

Arthur ponderou sobre essa horrível charada durante alguns momentos, depois disse:

— Então, não adianta tentar escapar de Nimue?
— Mesmo que eu quisesse — disse Merlin — não adiantaria. Há uma coisa sobre o Tempo e o
Espaço que o filósofo Einstein vai descobrir. Algumas pessoas chamam a isso de Destino.
— Mas o que não consigo aceitar é esse negócio do sapo-me-tido-no-buraco.
— Ah, bom — disse Merlin. — As pessoas fazem muita coisa por amor. E depois o sapo não é
necessariamente infeliz em seu buraco, não mais do que você quando está dormindo, por exemplo.
Terei muito tempo para refletir, até que me tirem de lá de novo.
— Então, vão tirar você?
— Vou lhe dizer uma outra coisa, rei, que talvez lhe seja uma surpresa. Isso só acontecerá daqui a
centenas de anos, mas nós dois vamos voltar. Você sabe o que será escrito no seu túmulo? Hic
jacet Arthurus Rex quondam Rexque futurus. Você se recorda do seu latim? Isso significa "rei do
passado e do futuro".
— Eu vou voltar assim como você?
— Alguns dizem que será do vale de Avalon.
O rei pensou sobre isso em silêncio. Havia uma lua cheia no céu e quietude no pavilhão iluminado.
Não se escutavam as sentinelas andando na relva.

— Pergunto-me — ele disse por fim — se eles se lembrarão da nossa Távola.
Merlin não respondeu. Sua cabeça estava apoiada na barba branca e suas mãos entrelaçadas nos
joelhos.

— Que tipo de pessoas serão eles, Merlin? — exclamou o jovem, infeliz.

XI


A Rainha de Lothian recolhera-se a seus aposentos, cortando a comunicação com os hóspedes, e
Pellinore teve seu desjejum sozinho. Depois saiu para caminhar na praia, admirando as gaivotas
que voavam acima dele como penas brancas de escrever cujas cabeças tivessem sido
elegantemente mergulhadas na tinta. Os velhos corvos marinhos estavam parados em pose de
crucifixos nas pedras, secando as asas. Estava triste como de costume, e também, desconfortável,
porque sentia falta de alguma coisa. Mas não sabia o que era. Se pudesse se lembrar, saberia que
era de Palomides e Grummore.

Poucos momentos depois, foi atraído por gritos, e foi investigar.

— Aqui, Pellinore! Oi! Estamos aqui!
— Por quê, Grummore? — ele perguntou com interesse. — O que vocês estão fazendo aí em cima?
— Veja a Besta, cara, veja a Besta!
— Oh, bravo, vocês encontraram a velha Glatisant.
— Meu caro amigo, pelos céus faça alguma coisa. Nós passamos a noite toda aqui.
— Mas por que estão vestidos assim, Grummore? Você está todo cheio de pintas ou algo parecido.
E o que Palomides tem na cabeça?
— Não fique aí perguntando, homem de Deus!
— Mas você está com um tipo de rabo, Grummore. Eu posso ver um rabo pendurado no seu
traseiro.
— Claro que estou com um rabo. Será que você não pode parar de falar e fazer alguma coisa?
Passamos toda a noite nessa maldita fenda e estamos mortos de fadiga. Vamos, Pellinore, mate a
sua Besta de uma vez.
— Ora, vamos! Por que eu deveria querer matá-la?
— Céus benditos, você não está tentando matá-la há dezoito anos? Agora, vamos logo com isso,
Pellinore, seja um bom companheiro e faça alguma coisa. Se você não fizer algo rápido, nós dois
vamos acabar caindo.
— O que não consigo entender — disse o Rei, queixoso — é por que estão nessa fenda. E por que
estão com essa roupa? Parecem estar disfarçados como um tipo de Besta, vocês dois. E, de

qualquer maneira, de onde a Besta surgiu, o quê? Quero dizer, é tudo tão repentino.

— Pellinore, de uma vez por todas, mate a Besta.
— Por quê?
— Porque foi ela que nos perseguiu até esse penhasco.
— Não é comum ela fazer isso — observou o Rei. — Geralmente ela não se interessa por pessoas.
— Palomides acha que ela se apaixonou por nós — disse Sir Grummore com voz rouca.
— Se apaixonou?
— Bom, veja, estamos fantasiados como uma Besta.
— O igual ama seu igual — explicou Sir Palomides, debilmente. Lentamente, o Rei Pellinore
começou a rir, pela primeira vez desde que chegou a Lothian.
— Essa agora! — ele disse — Benza-me Deus! Vocês já ouviram coisa igual? Por que Palomides
acha que ela se apaixonou por ele?
— A Besta — disse Sir Grummore, com dignidade — ficou toda a noite rodeando o penhasco. Ás
vezes, fica se esfregando e ronronando. E às vezes curva seu pescoço ao redor das pedras e nos
olha com certo tipo de olhar.
— Que tipo de olhar, Grummore?
— Meu caro amigo, olha para ela agora.
A Besta Gemente, que não tinha prestado a mínima atenção à chegada de seu mestre, estava olhando
Sir Palomides com a alma em seus olhos. Seu queixo estava pressionado nos pés do penhasco em
arrebatada paixão, e ocasionalmente abanava o rabo. Movia-o lateralmente pela superfície dos
seixos, onde numerosos tufos e folhagens heráldicas faziam um ruído farfalhante, e às vezes
arranhava o penhasco com um pequeno suspiro. Então, sentindo que tinha ido longe demais,
dobrava o gracioso pescoço de serpente e escondia a cabeça por baixo da barriga, espreitando
para cima com o canto de um olho.

— Bom, Grummore, o que você quer que eu faça?
— Queremos sair daqui — disse Sir Grummore.
— Isso eu posso ver — disse o Rei. — Parece uma idéia sensata. Veja bem, eu não entendo
exatamente como a coisa toda começou, o quê, mas isso eu posso entender, com certeza.
— Então, mate-a, Pellinore. Mate a miserável criatura.
— Ah, realmente — disse o Rei. — Quanto a isso, não tenho certeza. Afinal, que mal ela fez? Todo
o mundo entende os amantes. Não vejo porque a pobre Besta deva ser morta só porque está
apaixonada. Quero dizer, eu também estou apaixonado, não estou, o quê? Isso me dá um certo
sentimento de solidariedade.
— Rei Pellinore — disse Sir Palomides, determinado —, a menos que algumas medidas sejam
tomadas bem rapidamente, seus amigos serão instantaneamente martirizados, R. I. P, Requiescat in

Pace.


— Mas, meu caro Palomides, não posso de nenhuma maneira matar a velha Besta, você não
entende? Minha espada é cega.
— Então, bata com a espada na cabeça dela, Pellinore. Dê-lhe um bom golpe na cabeça e talvez ela
tenha uma concussão.
— Isso está muito bem para você, Grummore, velho amigo. Mas suponha que não a atordoe. Ela
pode perder o humor, Grummore, e então o que faço eu? Pessoalmente, não posso entender, de jeito
nenhum, porque vocês querem atacar a criatura. Afinal, ela está apaixonada por vocês, não está, o
quê?
— Seja qual for a razão para o comportamento do animal, a questão é que estamos aqui nesta
situação.
— Então, tudo o que precisam fazer é sair daí.
— Meu caro, vamos descer para sermos atacados?
— Será apenas uma espécie amorosa de ataque — o Rei observou, confiante. — Tipo fazer certos
avanços. Não acredito que ela faça nenhum mal a vocês. Tudo que vocês teriam que fazer seria
caminhar na frente dela até chegar ao castelo, o quê? Na verdade, vocês poderiam talvez encorajá-
la um pouco. Afinal, todo mundo gosta de ter seu afeto retribuído.
— Você está sugerindo — perguntou Sir Grummore, friamente — que devemos flertar com esse seu
réptil?
— Com certeza ficaria mais fácil. Quero dizer, a caminhada até o castelo.
— E como vamos fazer isso, por favor?
— Bom, Palomides poderia enroscar seu pescoço no dela um pouquinho, sabe?, e você poderia
agitar seu rabo. Lamber o nariz dela seria impossível, imagino?
— Esse seu verdadeiro amigo — disse finalmente Sir Palomides, frágil e com aversão — não pode
nem enroscar seu pescoço nem lamber. E neste momento ele está prestes a cair. Adieu.
Com isso, o infeliz pagão soltou as duas mãos da fenda e pareceu que ia mergulhar nas garras do
monstro — mas Sir Grummore o pegou a tempo, e os botões restantes o seguraram em posição.

— Pronto! — disse Sir Grummore. — Veja o que você fez.
— Mas, meu caro amigo...
— Eu não sou seu caro amigo. Você está simplesmente nos abandonando para sermos destruídos.
— Oh, não!
— Sim, está. Impiedosamente! O rei coçou a cabeça.
— Será — ele disse em dúvida — que eu poderia agarrá-la pelo rabo enquanto vocês fogem?
— Então, faça isso. Se você não fizer algo imediatamente, Palomides vai cair, e viraremos

picadinho.

— Pra começar, eu ainda não consigo entender porque vocês se vestiram assim. É um grande
mistério para mim — disse o Rei tristemente. — Entretanto — acrescentou, pegando a Besta pelo
rabo —, vamos, minha velha, venha! Eia, eia! Temos que fazer o melhor que pudermos nessas
circunstâncias. Agora, então, vocês dois, corram por suas vidas. Depressa, Grummore. Não acho
que a Besta esteja contente, pelo que estou sentindo. Ah, sua coisa abominável, obedeça! Corra,
Grummore! Besta desagradável! Pá! Sua chata! Chata! Deixa-os! Rápido, gente, rápido! Fujam!
Não toque! Corram! Ela vai se safar em um minuto! Senta, ouviu? Senta! Ui! Besta horrível!
Malcriada! Mais rápido, Grummore. Senta, senta! Quieta, Besta! Como ousa? Cuidado, homens, ela
está indo! Oh, será possível, será possível? Pronto! Agora ela me mordeu!
Por um triz alcançaram a ponte levadiça, que foi içada atrás deles na hora agá.

— Ufa! — disse Sir Grummore, desabotoando seu disfarce e enxugando a testa.
— Buuuu! — gritaram várias mulheres da aldeia que estavam no castelo entregando ovos. Algumas
pessoas do círculo do castelo sabiam falar uma certa forma de inglês, inclusive São Toirdealbhach
e Mãe Morlan.
— Eia! Que se findou, descartou, acabou a lúgubre fera — disse o homem da ponte levadiça. —
Ai, que pânico no coração deles!

— Perigando nós também — disseram os passantes.
— Sir Palomides, coitado — disseram vários dos Antigos que souberam do apuro que eles
passaram à noite na fenda do penhasco, sem nada falar sobre isso, como era o costume, por medo
de serem culpados de alguma coisa —, vai se despencar de frente e ter um troço.
Viraram-se para examinar o pagão e viram que era como haviam dito. Sir Palomides desmaiara
numa pilha de pedras, sem sequer tirar fora sua cabeça e estava respirando com dificuldades. Eles
a tiraram e jogaram um balde de água em seu rosto. Depois o abanaram com seus aventais.

— Ah, coitado do pobre — disseram com simpatia — O sarraceno! O selvagem de cor escura! Não
volta mais? Dá outro tapinha aqui. Ah, mais salpico d'agüinha.
Sir Palomides reviveu aos poucos, soltando bolhas pelas narinas.

— Onde está esse seu verdadeiro amigo? — perguntou a Grummore.
— Estamos no castelo, meu velho. Conseguimos nos salvar. A Besta ficou lá fora.
Confirmando a declaração de Sir Grummore, veio um rosnado triste através da grade do portão,
como se trinta parelhas de cães de caça estivessem latindo para a lua. Sir Palomides tremeu.

— Devemos olhar lá fora para ver se o Rei Pellinore está vindo.
— Sim, Sir Grummore. Só um segundo para respirar.
— A Besta pode ter feito algum mal a ele.
— Pobre companheiro.

— Como você se sente?
— A indisposição está passando — disse Sir Palomides, com firmeza.
— Não há tempo a perder. Ela pode estar comendo-o nesse momento.
— Em frente, então — disse o pagão, ficando de pé. — Direto para as ameias.
Assim, o grupo todo subiu as escadas estreitas da torre quadrangular.

Abaixo deles, parecendo pequena e de cabeça para baixo desde aquela altura, a Besta Gemente
podia ser vista sentada na ravina que bordeava o castelo daquele lado. Sentava-se em uma pedra
arredondada, com o rabo inflamado, e olhava para cima da ponte levadiça com a cabeça inclinada
para um lado. Sua língua estava pendurada. Não se via Pellinore.

— Comendo-o, ela não está, com certeza — disse Sir Grummore.
— A menos que já o tenha comido.
— Não acho que ela teve tempo de fazer isso, meu velho, de jeito nenhum.
— E teria deixado alguns ossos ou coisa assim. Pelo menos, a armadura.
— Exato.
— O que acha que devemos fazer?
— É desconcertante.
— Acha que devemos fazer uma busca?
— Podemos esperar para ver o que acontece, Palomides, você não acha?
— Não saltar sem olhar antes para onde se está saltando — assentiu Palomides.
Depois de meia hora só olhando, a facção dos Antigos ficou entediada com a falta de diversão.
Desceram correndo as escadas para jogar pedras na Besta Gemente, a partir da muralha. Os dois
cavaleiros ficaram na vigia.

— É uma situação intrigante, esta.
— Realmente é.
— Quero dizer, é preciso conseguir uma solução.
— Exato.
— De um lado a Rainha das Órcades chateada com alguma coisa... não pude deixar de observar
que ela ficou um tanto estranha depois daquele unicórnio... e Pellinore todo desanimado, do outro
lado. E você supostamente apaixonado por La Beale Isoud, não está? E agora esta Besta atrás de
nós dois.
— Uma situação confusa.
— O amor — disse Sir Grummore, desconfortável — é uma paixão realmente muito forte, quando
se pensa sobre isso.

Nesse momento, como se para confirmar a opinião de Sir Grummore, um par de figuras enlaçadas
apareceu caminhando lentamente ao longo do rochedo.

— Grandíssima glória! — exclamou Sir Grummore — Quem são aqueles?
Quando se aproximaram, a identidade deles ficou clara. Um era o Rei Pellinore, e vinha com o
braço envolvendo a cintura de uma senhora forte, de meia-idade, vestida com uma saia de montar.
Tinha um rosto vermelho, meio grosseiro, e carregava um chicotinho de caça na mão livre. Seu
cabelo estava amarrado em um coque.

— Deve ser a filha da Rainha de Flandres!
— Olhem aqui, vocês dois! — gritou o Rei Pellinore, assim que os viu de longe. — Olhem! Vejam!
O que vocês acham, podem adivinhar? Quem haveria de imaginar, o quê? Quem vocês acham que
eu encontrei?
— Ahá! — gritou a gordinha, com voz sorridente, maliciosamente dando-lhe pancadinhas no rosto
com o chicotinho de caça. — Mas quem encontrou quem, hein?
— Sim, sim, eu sei! Não fui eu quem a encontrei, na verdade; foi ela quem me encontrou. O que
vocês acham disso? E vocês sabem o quê? — continuou o Rei, deliciado. — Nenhuma de minhas
cartas poderia ser respondida! Nunca pus nosso endereço no envelope! Não tínhamos nenhum!
Sempre desconfiei que havia alguma coisa errada. Então Piggy montou em seu cavalo, sabem?, e
veio em minha busca por pântanos e florestas! A Besta Gemente a ajudou muito — tem um
excelente olfato — e aquela nossa barcaça mágica deve ter uma ou duas idéias na cabeça, pois
voltou para buscá-los quando viu que eu estava transtornado. Como ela foi gentil! Eles a
encontraram em uma enseada, e aqui estão!
— Mas por que estamos de pé aqui? — gritou o Rei. Ele estava tão excitado que ninguém maistinha tempo de falar nada. — Isto é, quero dizer, por que estamos gritando tanto? É educado, vocês
acham? Vocês dois poderiam descer e nos deixar entrar? O que está errado com essa ponte
levadiça, afinal?
— É a Besta, Pellinore, a Besta! Ela está na ravina.
— O que há de errado com a Besta?
— Ela está sitiando o castelo.
— Ah, sim, agora me lembro — disse o Rei. — Ela me mordeu. E o que vocês acham? — ele
continuou, levantando a mão no ar para mostrar que estava enfaixada. — Piggy a enfaixou para mim
na hora. Ela a amarrou com um pedaço das... bem, vocês sabem.
— Das anáguas — sorriu a filha da Rainha de Flandres.
— Sim, sim, das anáguas dela! O rei se sacudiu com risadinhas.
— Tudo isso está muito bem, Pellinore, tudo isso está muito bem. Mas o que você vai fazer em
relação à Besta?
Sua Majestade estava inebriada de alegria.


— Oh, a Besta! — ele gritou. — É este o problema? Logo dou um jeito nela!
— Agora, então! — ele exclamou, marchando para a beira da ravina e agitando sua espada. —
Vamos, vamos! Vá embora! Xô! Xô!

A Besta Gemente olhou para ele de maneira distraída. Abanou o rabo em um gesto vago de
reconhecimento, depois voltou sua atenção para o portão. As pedras ocasionais que os Antigos
estavam jogado nela, a Besta as pegava e engolia com destreza, daquele jeito exasperante que as
galinhas têm quando se tenta enxotá-las.

— Baixem a ponte! — ordenou o Rei — Eu cuidarei dela! Xô, vamos, xô!
A ponte foi baixada com hesitação. A Besta imediatamente se aproximou, esperançosa.
— Agora, vamos — gritou o Rei. — Você corre para dentro, enquanto eu defendo a retaguarda.
A ponte chegou ao chão e, antes que o tocasse, Piggy já estava correndo por ela. O Rei Pellinore,
menos ágil ou mais distraído por sua doce paixão, colidiu com Piggy no portão. A Besta Gemente
correu atrás deles e derrubou o rei.

— Cuidado! Cuidado! — gritaram todos os guardas, esposas de pescadores, falcoeiros, ferreiros,
flecheiros e todos os demais observadores que desejavam um final feliz e haviam se juntado lá
dentro.
A filha da Rainha de Flandres virou-se como uma tigresa para defender seu filhote.

— Para fora, sua barulhenta sem-vergonha — ela gritou, batendo com seu chicotinho de caça no
nariz da criatura. A Besta Gemente recuou com lágrimas escorrendo dos olhos, e a grade do portão
bateu com estrondo entre eles.
À noite, uma nova crise começou a se desenvolver. Ficou claro que a Glatisant pretendia sitiar o
castelo até que sua companheira aparecesse e, nessas circunstâncias, os Antigos que trouxeram os
ovos para o mercado recusavam-se a sair pelo portão sem uma escolta. No final, os três cavaleiros
do sul tiveram que acompanhá-los até os pés do rochedo, com as espadas em riste.

Na rua da aldeia, São Toirdealbhach esperava para receber o comboio, um Silenus desordeiro,
amparado por quatro meninos. Seu hálito cheirava forte a uísque e ele estava com o ânimo
dilacerado, sacudindo sua clava.

— Nem uma história a mais — gritava. — Não sou eu, afinal, quem vai se casar com a velha Mãe
Morlan, depois de lutar contra Duncan agora mesmo, e nunca nunca mais ser um santo?
— Parabéns! — diziam os meninos pela centésima vez.
— Nós também estamos felizes — acrescentou Gareth. — Podemos servir o jantar todas as noites!
— Glória a Deus! É assim todo dia, pelos céus?
— Sim, e nossa mãe nos leva para passear.
— Bom, então. Louve os jovens e eles virão!
O santo avistou o comboio e começou a berrar como um iroquês.

— Venham, rebeldes!
— Calma, agora — os meninos lhe disseram. — Calma, Sua Santidade. As espadas não são para
serem enfrentadas, de jeito nenhum!
— Por que não seriam? — ele inquiriu, com indignação, e seguiu para beijar o Rei Pellinore e
exalar seu forte hálito sobre ele.
O Rei disse:

— Quero perguntar, você vai realmente se casar? Eu também. Você está nervoso?
Como resposta, o santo homem entrelaçou os braços na nuca do rei e o levou até a taberna de Mãe
Morlan — não inteiramente para satisfação de Pellinore, pois ele queria correr de volta para Piggy

— mas era óbvio que uma despedida de solteiro teria que ser celebrada. Todo o miasma gaélico
dissipara-se como bruma que era — fosse sob a influência do amor ou do uísque ou por sua própria
natureza de bruma — e os três sulistas por fim, independentemente do trauma racial, se viram
aceitos como indivíduos e convidados no caloroso coração do Norte.

XII


A batalha de Bedegraine aconteceu perto de Sorhaute, na floresta de Sherwood, durante o feriado
de Pentecostes. Foi uma batalha decisiva, porque de várias maneiras foi, no século XII, algo
equivalente ao que mais tarde seria chamado de uma Guerra Total.

Os onze reis estavam prontos para enfrentar seu soberano, à maneira normanda — ao estilo de caça
à raposa de Henrique II e seus filhos — por esporte e ganhos e sem intenção verdadeira de ferir
pessoalmente um ao outro. Eles — os reis com os cavaleiros da sua nobreza semelhantes a tanques

— estavam preparados para um esporte arriscado. Era o tipo de risco do qual Jorrocks gostava de
falar. O Rei Lot poderia realmente ter dito, com razão, que a rebelião que comandava contra Arthur
era a cópia de uma caça à raposa sem a culpa, e com apenas vinte e cinco por cento do perigo.
Mas os onze reis precisavam de um ambiente para suas façanhas. Mesmo se os cavaleiros não
quisessem realmente matar-se uns aos outros em grande escala, não havia razão para não matar os
servos. Segundo a avaliação deles, seria mesmo um péssimo dia de esporte se, no final, não
pudessem contar com uma sacola cheia de caça.

Portanto, a guerra, como os senhores rebelados pensavam lutá-la, seria um tipo de batalha dupla, ou
uma guerra dentro de outra guerra. No círculo exterior, havia sessenta mil infantes e soldados
marchando com os Onze, e essas tropas recrutadas, mal armadas, estavam açuladas, por causa da
tragédia do povo gaélico, contra os vinte mil soldados de infantaria do exército sassenach
de
Arthur. Entre os exércitos havia uma séria animosidade racial. Mas era uma animosidade insuflada
de cima — pelos nobres que não estavam sinceramente ansiosos pelo sangue do outro. Tal como
eram, esses exércitos podiam ser comparados a matilhas de cães de caça, cujo enfrentamento um
com o outro era comandado por um Mestre de Cães, que considerava a questão como um jogo
excitante. Se os cães se tornassem incontroláveis, por exemplo, Lot e seus aliados estariam prontos
para passar para o lado dos cavaleiros de Arthur, para sufocar o que, então, considerariam uma
verdadeira rebelião.

Os nobres do círculo interno, de ambos os lados, de certa maneira eram, por tradição, muito mais
amistosos uns com os outros do que com seus próprios homens. Para eles, as multidões de soldados
eram necessárias para a sacola da caça e para propósitos cênicos. Para eles, uma boa guerra tinha
que ter muitos "braços, ombros e cabeças voando pelo campo de batalha e pancadas ressoando à
beira das águas e floresta". Mas os braços, ombros e cabeças seriam dos peões, e os golpes que
ressoariam, sem quebrar muitas costelas, seriam trocados pela nobreza de ferro. Essa era, de


qualquer maneira, a idéia da batalha no comando de Lot. Quando suficientes peões tivessem sido
decapitados e suficientes golpes duros tivessem sido aplicados aos capitães ingleses, Arthur
reconheceria a impossibilidade de continuar resistindo. Ele capitularia. Os termos financeiros da
paz seriam negociados — o que renderia um excelente lucro em resgates — e tudo ficaria mais ou
menos como antes — exceto que a ficção do soberano feudal seria abolida, o que, em todo caso, já
era mesmo uma ficção.

Naturalmente, uma guerra desse tipo seria provavelmente cercada de cerimonial, assim como a
caça à raposa também o é. Começaria com o encontro previamente anunciado, se o tempo
permitisse, e seria conduzida de acordo com os precedentes.

O Rei Arthur tinha uma idéia diferente na cabeça. Para ele, afinal, já não parecia um esporte que
oitenta mil homens humildes fossem jogados uns contra os outros enquanto uma fração desse
número, em carapaças como a couraça dos tanques, manobrava por conta dos resgates. Ele
começara a dar um valor às cabeças, ombros e braços — o valor que lhes dava seu proprietário,
mesmo se o proprietário fosse um servo. Merlin havia lhe ensinado a rejeitar a lógica pela qual os
campos poderiam ser saqueados, os agricultores arruinados, os soldados massacrados, para que ele
próprio não tivesse prejuízos para pagar o resgate, como o Coração de Leão das lendas.

O rei da Inglaterra ordenara que não haveria nenhuma pilhagem em seu tipo de guerra. Seus
cavaleiros deveriam lutar, não contra os peões, mas contra os cavaleiros da Confederação Gaélica.
Que os soldados lutassem entre si, se fosse o caso — já que, fora da questão dos saques, havia de
fato uma verdadeira agressão para eles acertarem, que combatessem entre si o melhor que
pudessem. Mas, quanto aos nobres, deveriam atacar os nobres dos rebeldes como se eles fossem
peões e nada mais. Não deveriam aceitar nenhuma composição, não observar nenhum regra de
dançarinos. Deviam levar a guerra contra seus verdadeiros mandantes — até que eles próprios
estivessem prontos para recuar da guerra, ao serem confrontados com sua face verdadeira.

Depois disso, ele sabia com certeza agora, o destino de sua vida seria lidar com todas as formas
distorcidas de dignidade através da ameaça da sua Força.

Portanto, podemos bem acreditar que os homens do rei estavam realmente recolhidos na noite da
véspera da batalha. Alguma coisa da visão do jovem penetrara em seus capitães e seus soldados.
Alguma coisa do novo ideal da Távola Redonda que nasceria na dor, alguma coisa sobre fazer uma
ação perigosa e odiosa a favor da decência — pois sabiam que a batalha seria travada com sangue
e morte sem recompensas. Não ganhariam nada a não ser a consciência inegociável de terem feito o
que deveriam fazer, apesar do medo — algo que as pessoas perversas degradaram muitas vezes ao
chamar de glória, com excesso de sentimento, mas que era, ainda assim, glória. Essa idéia estava
nos corações dos jovens que se ajoelhavam frente aos bispos representantes de Deus — sabendo
que os números eram três contra um e que seus próprios corpos quentes poderiam estar frios ao
pôr-do-sol.

Arthur começou com uma atrocidade e continuou com outra atrocidade. A primeira foi que não
esperou pela hora que seria de bom-tom. Ele deveria ter enfileirado suas tropas em oposição às de
Lot, assim que tivesse acabado o desjejum, e então, aí pelo meio-dia, quando as filas estivessem
adequadamente em ordem, deveria dar o sinal para começar. Depois de dar o sinal, deveria atacar


com seus cavaleiros os homens da cavalaria de Lot, enquanto os cavaleiros de Lot atacavam os
seus homens da infantaria, e então haveria uma magnífica matança.

Em vez disso, ele atacou de noite. Na escuridão, com um grito de guerra — uma tática deplorável e
nada cavalheiresca — caiu sobre o campo insurgente, com o sangue golpeando-lhe as veias da nuca
e Excalibur dançando em suas mãos. Ele aceitara o três para um. Em cavaleiros, estava em absoluta
inferioridade. Um único Rei dos rebeldes — o rei dos cem cavaleiros — tinha em suas tropas dois
terços do total do número que a Távola Redonda jamais teria. E Arthur não começara a guerra.
Combatia em seu próprio território, a centenas de quilômetros dentro de suas próprias fronteiras,
contra uma agressão que ele não provocara.

As tendas caíram, as tochas se acenderam,


...as espadas se desembainharam e o grito da batalha misturou-se com o lamento da surpresa.
O barulho, a matança e os demônios da morte surgindo das chamas — que cenas já aconteceram


em Sherwood, onde hoje os carvalhos se juntam para formar sua longa sombra!

Foi um começo de mestre, e foi recompensado com o sucesso, os onze reis e seu baronato já
estavam em armaduras — levava tanto tempo para vestir um nobre que, com freqüência, isso era
feito durante a noite. Se não fosse assim, teria sido uma vitória quase sem sangue. Em vez disso, foi
uma iniciativa e a iniciativa se manteve. A cavalaria dos Antigos lutou, corpo a corpo, para abrir
caminho entre o acampamento em ruínas. Conseguiram se unir em um regimento de armaduras —
que ainda era várias vezes maior do que tudo que o rei poderia reunir em armadura contra eles —
mas estavam desprovidos de sua costumeira proteção de peões a pé. Não houve tempo para
organizar os soldados, e os que continuaram junto aos nobres estavam desmoralizados ou sem
lideranças. Arthur destacou seus próprios peões, sob o comando de Merlin, para lutar a batalha de
infantaria que se centrou ao redor do campo, e ele mesmo se arremeteu com sua cavalaria contra os
próprios reis. Ele os pôs para correr e percebeu que deveria mantê-los em fuga. Estavam
furiosamente surpresos pelo que consideravam um ultraje pessoal indigno de cavaleiros — era
ultrajante ser atacado com a firme intenção de homicídio, como se um barão pudesse ser
assassinado como um peão saxão.

A segunda atrocidade do rei foi negligenciar os próprios peões. Essa parte da batalha, a luta racial
que tinha uma certa realidade embora fosse cruel, ele deixou para as próprias raças — para a
infantaria e o comando de Merlin, no campo de luta do qual os cavaleiros já estavam tentando
escapar. Entre as tendas, havia três gaélicos para cada saxão, mas foram surpreendidos e ficaram
em desvantagem. Arthur não lhes desejava nenhum mal em particular — concentrando sua
indignação contra os líderes que haviam seduzido suas cabeças confusas — mas sabia que eles
deveriam ter sua luta. Esperava que fosse vitoriosa no que se refere às suas tropas. Enquanto isso,
sua questão era com os chefes — e, quando o dia amanheceu, a atrocidade de sua conduta tornou-se
evidente.

Pois os onze reis tinham reunido um simulacro de defesa de infantaria, atrás das quais esperavam
os ataques. Ele deveria ter atacado essa defesa de homens aterrorizados, desferindo-lhes uma
destruição completa. Em vez disso, deixou-os de lado. Galopou através da infantaria como se não
fossem seu inimigo de jeito nenhum — sem mesmo se preocupar em golpeá-los — concentrando
seu ataque no próprio centro armado. A infantaria, por sua vez, aceitou a clemência muito
agradecida. Comportaram-se como se não fosse uma honra ter a permissão de morrer por Lothian.
A disciplina, como os generais rebeldes disseram depois, não foi a própria da raça.

Os ataques começaram com o nascer do dia.

Em um festival militar, talvez, ou em alguma reconstituição histórica ao ar-livre, você pode tervisto um ataque de cavalaria. Se for esse o caso, sabe que "visto" não é a palavra correta. É ouvido
— o estrondo, a tremor da terra, o fogo cerrado, o fragor das peças dos cavalos em combate! Sim,
e mesmo então seria apenas em um ataque de cavalaria que você está pensando, e não de cavaleiros
com suas armaduras. Imagine isso agora, com os cavalos duas vezes mais pesados que os elegantes
cavalos de caça de nossos festivais noturnos, com os homens eles também duas vezes mais pesados
devido as armas e escudos. Acrescente a música de címbalo das armaduras ressoando com os


tinidos dos arreios. Transforme os uniformes em espelhos, resplandecendo ao sol, as lanças em
lanças de aço. Agora as lanças se abaixam e se aproximam. A terra treme sob as patas. Atrás entre
os torrões de terra voando, as marcas dos cascos ficam impressas na terra. Não são os homens quedevem ser temidos, nem suas espadas nem mesmo suas lanças, mas os cascos dos cavalos. É o
ímpeto da esmagadora falange de ferro — espalhada pelo campo de batalha, sem saída,
pulverizada, estrondando mais do que tambores ao martelar o chão.

Os cavaleiros da Confederação reagiram ao ultraje como puderam. Enfrentaram e deram o troco.
Mas a novidade da sua situação como alvos da ferocidade apesar de seu status,
e também como
uma grande massa sendo atacada com arrogância por um número menor do que um quarto do seu —
e sendo, além do mais, atacada muitas e muitas vezes — isso teve um efeito no seu moral. Foram
cedendo terreno frente aos ataques, em ordem mas cedendo, e se viram conduzidos até uma clareira
da floresta de Sherwood — uma grande clareira como um estuário de grama com árvores de ambos
os lados.

Durante esta fase da batalha houve uma demonstração de bravura por parte de vários indivíduos. O
Rei Lot obteve êxito pessoal contra Sir Meliot de La Roche e contra Sir Clariance. Foi derrubado
de seu cavalo por Kay e montou outra vez, mas foi ferido no ombro pelo próprio Arthur — que
estava em todo lugar, com a força de sua juventude, superexcitado, triunfante.

Como general, Lot parece ter sido um militar demasiado apegado à disciplina, com um pouco de
covardia. Mas era um tático, apesar de seu formalismo. Por volta do meio-dia, parece ter
reconhecido que estava enfrentando um novo tipo de guerra, que requeria uma nova defesa. Os
demônios da cavalaria de Arthur não estavam preocupados com resgates, isto agora estava bem
claro, e estavam preparados para continuar esmagando suas cabeças contra a muralha da cavalaria
até que ela se rompesse. Decidiu cansá-los. Em um rápido conselho de guerra atrás das linhas de
combate, foi combinado que ele mesmo, com quatro outros reis e metade dos defensores, deveriam
retirar-se ao longo da clareira para preparar sua posição. Os seis reis restantes eram suficientes
para agüentar os ingleses, enquanto os homens de Lot descansavam e se reposicionavam. Então,
quando a posição estivesse preparada, os seis reis da guarda avançada deveriam retirar-se para
trás, deixando Lot na linha da frente enquanto eles, por sua vez, se reposicionavam.

O exército dividiu-se conforme o combinado.

Arthur encarou esse momento de divisão como a oportunidade pela qual esperava. Enviou um
mensageiro a galope até as árvores. Ele tinha feito um pacto de ajuda mútua com dois reis
franceses, chamados Ban e Bors — e esses dois aliados vieram da França com cerca de dez mil
homens, para prestar-lhe auxílio. Os franceses estavam escondidos na floresta, de ambos os lados
da clareira, como reservas. Fora em direção a eles que o Rei Arthur tentara levar o inimigo. O
mensageiro galopou, houve um cintilar de armaduras entre os carvalhos cheio de folhas e a mente
de Lot se deu conta da armadilha. Mas olhou apenas para um lado da clareira, de onde Bors já saía
para cair sobre seus flancos, desconhecendo no momento que Ban estava do outro lado.

Os nervos de Lot começaram a entrar em colapso nessa fase. Estava ferido em um ombro,
enfrentando um inimigo que parecia aceitar a morte de fidalgos como parte da guerra, e agora caíra
numa emboscada.


— Oh, defendei-nos da morte e de horríveis mutilações — contam que ele disse — pois vejo bem
que estamos em grande perigo de morte.
Ele destacou o Rei Carados com um grande esquadrão para enfrentar o Rei Bors, só para descobrir
que um segundo mensageiro fizera surgir o Rei Ban do lado oposto. Ainda tinha a superioridade
numérica, mas seu nervosismo estava agora patente.

— Ah! — ele disse para o Duque de Cambenet — agora estamos derrotados.
Contam até que ele chorou pedindo "compaixão e piedade".

O próprio Carados foi derrubado do cavalo e seu esquadrão destroçado pelo Rei Bors. Os guardas
da linha de frente do seis reis recuavam, devido aos ataques do Rei Arthur. Lot, com a divisão do
Rei Morganore, virou-se para enfrentar o Rei Ban do seu lado.

Com mais uma hora de luz, a rebelião teria terminado naquele dia. Mas o sol se pôs, vindo em
socorro dos Antigos, e não havia lua para continuar a batalha. Arthur suspendeu a perseguição,
julgando com precisão que o inimigo estava desmoralizado e permitindo que seus homens
dormissem no conforto com suas divisões, com poucas mas cuidadosas sentinelas.

Os exércitos exaustos dos inimigos, que tinham jogado dados na noite anterior, agora passaram as
horas de escuridão de novo sem poder dormir, armados em conselhos. Como todos os exércitos das
terras altas que alguma vez marcharam contra Gramarye, eles desconfiavam um dos outros.
Esperavam outro ataque noturno. Estavam desconsolados pelo que tinham sofrido. Dividiram-se
sobre o tema da capitulação ou resistência. Já estava amanhecendo quando o Rei Lot conseguiu
convencê-los de sua tática.

Por ordem sua, o que restava da infantaria deveria se espalhar como um enorme rebanho, para
dispersar e salvar suas pobres pernas como pudessem. Os cavaleiros deveriam se agrupar em uma
única falange e resistir aos ataques, e qualquer homem que tentasse fugir deveria ser morto no
mesmo instante, por covardia.

De manhã, quase antes que se formassem, Arthur caiu sobre eles. Conforme sua própria tática,
enviou somente uma pequena tropa de quarenta lanceiros para começar o trabalho. Esses homens,
uma força selecionada de bravos, recomeçaram as investidas da tarde anterior. Foram em galope
curto, arremeteram-se contra as fileiras, rompendo-as, para depois se reposicionarem e voltarem a
atacar. O regimento atacado recuou frente aos ataques, deprimido, desencorajado, com o espírito
de luta arrasado.

Ao meio-dia, os três reis dos aliados atacaram com força plena, num golpe final. Houve o momento
do entrechoque, com um estrondo como o de um trovão, o espetáculo de lanças quebradas voando
no ar enquanto os cavalos davam patadas ao léu antes de caírem para trás. Houve um grito que
estremeceu a floresta. Depois disso, na turfa esmagada pelos cascos, torrões de terra esmigalhados
e restos de armas ofensivas, houve um silêncio antinatural. Havia pessoas cavalgando sem rumo
pelo caminho. Mas já não havia vestígio organizado dos guerreiros da cavalaria gaélica.

Merlin encontrou-se com o rei, em seu caminho de volta a Sorhaute — um mago um tanto cansado,
e ainda a pé. Estava vestido com a cota de malha sem mangas da infantaria, com a qual insistira em


lutar. Trouxe a notícia de que os clãs dos peões tinham oferecido sua rendição.



XIII


Várias semanas depois, ao luar de setembro, o Rei Pellinore estava sentado no alto da falésia com
sua noiva, olhando o mar. Logo estariam navegando para a Inglaterra, para se casarem. O braço
dele envolvia a cintura dela e a orelha dele estava pressionada sobre o topo da cabeça dela. Não
tinham consciência do mundo ao redor.

— Mas Dornar é um nome tão engraçado — o Rei dizia. — Não consigo imaginar como você
pensou nisso.
— Mas foi você quem pensou, Pellinore.
— Foi?
— Sim. Aglovale, Percivale, Lamorak e Dornar.
— Serão crianças inocentes e belas — disse o Rei, com fervor. — como querubins! O que são
querubins?
Atrás deles, o antigo castelo brilhava contra as estrelas. Houve um fraco ruído de gritos no topo da
Torre Redonda, onde Grummore e Palomides estavam discutindo com a Besta Gemente. Ela ainda
estava apaixonada por sua imitação, e ainda mantinha o castelo em estado de sítio — que só se
rompeu por algumas horas no dia do retorno de Lot com seu exército derrotado. Fora uma surpresapara os nobres ingleses a notícia de que tinham estado em guerra com as Órcades durante todo
aquele tempo, mas era tarde demais para fazer algo a respeito, já que a guerra tinha se acabado.
Agora, todo mundo estava dentro, a ponte levadiça ficava permanentemente levantada e a Glatisant
sentava-se ao luar ao pé da torre, sua cabeça brilhando como prata. Pellinore recusara-se a matá-
la.

Merlin chegou uma tarde, no decurso de sua viagem a pé pelo norte, levando um bornal e com um
par de botas monstruosas. Tinha um aspecto lustroso, alvo e reluzente, como uma enguia se
preparando para a jornada nupcial até o Mar dos Sargaços, pois o tempo de Nimue estava
chegando. Mas estava distraído, incapaz de se lembrar da única coisa que deveria ter dito a seu
discípulo, e ouviu o relato das dificuldades dos dois amigos com um ouvido impaciente.

— Perdoe-nos — eles gritavam do topo da muralha, pois o mago ficara do lado de fora —, mas ésobre a Besta Gemente. A Rainha de Lothian e das Órcades está de muito mau humor por causa
dela.

— Têm certeza que é por causa da Besta?
— Certamente, meu caro amigo. Entenda, ela nos sitiou.
— Nós nos vestimos, respeitável senhor, como um tipo de Besta, nós mesmos, e ela nos viu entrar
no castelo — confessou Sir Palomides, sentindo-se péssimo. — Ah, senhor! Há sinais de uma
afeição ardente. Agora, essa criatura não se afasta porque acredita que sua companheira está aqui
dentro, e é muito inseguro baixar a ponte levadiça.
— É melhor vocês explicarem isso para ela. Fiquem nas ameias e expliquem a confusão.
— O senhor acha que ela compreenderá?
— Afinal, trata-se de um animal mágico. Parece possível — o mago disse.
Mas a explicação foi um fracasso — a Besta olhou para eles como se achasse que eles estivessem
mentindo.

— Por favor, Merlin. Não vá embora ainda.
— Tenho que ir — ele respondeu, distraído. — Tenho que fazer alguma coisa em algum lugar, mas
não consigo me lembrar o que é. Enquanto isso, devo prosseguir em minha caminhada. Devo
encontrar meu mestre Bleise em Humberland do Norte, para que ele possa escrever as crônicas da
batalha, e depois vamos observar um pouco as aves selvagens, e depois — bem, eu não consigo me
lembrar.
— Mas Merlin, a Besta não acreditou!
— Sinto muito. — Sua voz soou vaga e perturbada. — Não posso parar. Lamento. Peça perdão à
Rainha Morgause por mim, por favor, e digam que perguntei sobre sua saúde.
Começou a se preparar para girar nos calcanhares, nas preliminares para desaparecer. Nem toda a
sua caminhada era feita a pé.

— Merlin! Merlin! Espere um pouco!
Ele reapareceu por um momento, dizendo com voz irritada:
— Bom, o que foi?
— A Besta não acredita em nós. O que devemos fazer? Ele franziu a testa.
— Psicanalisem-na — respondeu, por fim, começando a girar.
— Mas, Merlin, espera! Como vamos fazer essa coisa?
— Com o método usual.
— Mas como é? — eles gritaram, em desespero.
Ele desapareceu completamente, mas sua voz permaneceu no ar.
— Descubram quais são os sonhos dela e coisas assim. Expliquem os fatos da vida. Mas nada de
muito Freud.
Depois disso, como um pano de fundo para a felicidade de Pellinore — que se recusava a


preocupar-se com problemas triviais — Grummore e Palomides tentaram fazer o melhor que
podiam.

— Bom, você entende — Sir Grummore estava gritando — quando uma galinha bota um ovo...
Sir Palomides interrompeu para explicar sobre pólens e estames.

Dentro do castelo, no quarto real da torre quadrangular, o Rei Lot e sua consorte estavam deitados
na cama de casal. O rei dormia, exausto pelo esforço de escrever suas memórias da guerra. Não
tinha nenhuma razão particular para estar acordado. Morgause estava com insônia.

No dia seguinte, ela iria a Carlion para o casamento de Pellinore. Iria, como explicara a seu
esposo, como uma mensageira para implorar perdão para ele. Levaria os meninos com ela.

Lot estava furioso com essa viagem e gostaria de proibi-la, mas ela sabia como lidar com isso.

A rainha saiu silenciosamente da cama e foi até sua arca. Desde que o exército voltara, tinham lhe
falado sobre Arthur — sobre sua força, charme, inocência e generosidade. Seu esplendor ficara
óbvio, mesmo através da inveja e suspeitas daqueles que ele havia derrotado. Também falaram de
uma moça chamada Lionore, a filha do Duque de Sanam, com quem o jovem supostamente tinha um
romance. A rainha abriu sua arca na escuridão e se aproximou do raio de luar que entrava pela
janela, segurando alguma coisa em suas mãos. Parecia uma tira.

A tira era uma peça de magia menos cruel do que o gato preto, porém mais macabra. Chamava-se
Peia — devido a corda com que se peavam os animais domésticos — e havia várias delas nas
arcas secretas dos Antigos. Era mais um feitiço e não uma grande magia. Morgause a cortara do
corpo de um soldado que foi trazido para casa por seu esposo, para ser enterrado nas Ilhas
Exteriores.

Era uma tira feita de corpo humano, cortada da silhueta de um homem morto. Quer dizer, o corte
começava no ombro direito, e a faca — deslocando-se cuidadosamente por uma incisão dupla para
fazer uma tira — descia direto pelo braço direito, depois ao redor das pontas de cada dedo como
se seguisse as costuras de uma luva, e subia pelo lado interno do braço até o sovaco. Em seguida,
descia por um lado do corpo, passando pela perna e subindo até sua junção com a outra perna, e
continuando assim até completar o circuito do contorno do cadáver, no ombro onde havia
começado. Era uma tira comprida.

A maneira de usar uma Peia era assim. Você tinha que ir até o homem amado quando ele estivesse
dormindo. Então, tinha que passá-la por sua cabeça, sem despertá-lo, e amarrá-la com um laço. Se
ele acordasse enquanto você estivesse fazendo isso, morreria dentro de um ano. Se não acordasse
até a operação terminada, estaria destinado a se apaixonar por você.

A Rainha Morgause parou por um momento sob o luar, passando a tira entre os dedos.

Os quatro meninos também estavam despertos, mas não estavam em seu quarto. Tinham escutado
nas escadas durante o jantar real, portanto sabiam que iriam para a Inglaterra com a mãe.

Eles estavam na pequena Igreja dos Homens — uma capela tão antiga como a cristandade nas ilhas,
embora tivesse pouco mais do que seis metros quadrados. Fora construída com pedras sem


argamassa, como a grande muralha da fortaleza, e a luz da lua penetrava por sua única janela sem
vidro, iluminando o altar de pedra. A pia de água-benta, na qual o raio do luar incidia, fora
escavada na própria pedra e tinha uma tampa cortada de uma lasca, para combinar.

Os meninos das Órcades estavam ajoelhados no lar de seus ancestrais. Estavam orando para serem
leais a sua amada mãe, serem dignos do feudo da Cornualha como ela lhes ensinara — e para que
nunca se esquecessem da brumosa terra de Lothian onde reinavam seus pais.

Do lado de fora da janela, a lua fina estava parada no céu profundo, como a faca que afia a unha do
dedo para a magia e, contra o céu, o cata-vento do corvo com a flecha no bico apontava a seta para

o sul.

XIV


Felizmente, para Sir Palomides e Sir Grummore, a Besta Gemente compreendeu seu problema, noúltimo momento, antes da cavalgada sair — caso contrário eles teriam que permanecer nas Órcades
e perder o casamento. Mesmo assim, tiveram que ficar despertos a noite toda. Ela só tomou
consciência de maneira repentina.

O inconveniente foi que ela transferiu sua afeição ao bem-sucedido analista — Palomides — como
acontece com freqüência na psicanálise — e agora recusava-se a ter qualquer interesse por seu
antigo senhor. O Rei Pellinore, não sem alguns suspiros pelos bons velhos tempos, foi obrigado a
renunciar a seus direitos sobre ela para o sarraceno. É por isso que, embora Malory diga
claramente que só um Pellinore pode capturá-la, nós sempre a encontraremos sendo perseguida por
Sir Palomides nas partes finais da Morte de Arthur. De qualquer maneira, pouca diferença faz
saber quem poderia pegá-la, porque nunca ninguém o fez.

A longa marcha rumo ao sul, em direção a Carlion, com liteiras balançando e a escolta montada
correndo com as bandeirolas ao vento, foi emocionante para todos. As próprias liteiras eram
interessantes. Consistiam em carretas comuns com um tipo de mastro com bandeiras de cada lado.
Entre os mastros, estava pendurada uma rede, na qual quase não se sentiam os solavancos. Os dois
cavaleiros cavalgavam atrás do transporte real, deliciados por poderem sair do castelo e
comparecer ao matrimônio, depois de tudo. São Toirdealbhach seguia atrás com Mãe Morlan,
porque seria um casamento duplo. A Besta Gemente vinha no final, de olho em Palomides, temendo
ser deixada para trás mais uma vez.

Todos os santos saíram de suas covas para vê-los passar. Dos penhascos, botes, montanhas,
pântanos e montes de conchas, todos os Fomorianos, Fir Bolg, Tuatha de Danaan, Povos Antigos
lhes acenavam sem nenhuma desconfiança. Todos os cervos vermelhos e unicórnios enfileiraram-se
no alto das montanhas para se despedir. As andorinhas-do-mar, com suas caudas bifurcadas,
vieram do estuário, soltando guinchos como se tentassem imitar uma cena de embarque pelo
telégrafo; os trigueirões de peito branco e calandrinas esvoaçavam ao lado deles, de uma moita de
urzes a outra; no ar, as águias, os falcões peregrinos, corvos e gaviões descreviam círculos sobre
eles; a fumaça da turfa os seguia como se ansiosa por se enroscar uma última vez na ponta de suas
narinas; as pedras funerárias e os subterrâneos e fortes alcantilados exibiam sua construção pré-
histórica sob o resplendor da luz do sol; a truta do mar e o salmão levantaram as cabeças reluzentes
para fora da água; os vales estreitos, montanhas e encostas cobertas de urzes da região mais bela do


mundo uniram-se ao coro geral, e a alma do mundo gaélico disse aos meninos na mais sonora de
suas vozes encantadas: "Não se Esqueçam de Nós!".

Se a marcha foi emocionante para os meninos, as glórias metropolitanas de Carlion foram capazes
de lhes tirar a respiração.

Ali, ao redor do castelo do rei, havia ruas — não apenas uma única rua — e castelos de barões
dependentes, e monastérios, capelas, igrejas, catedrais, mercados, casas de mercadores. Havia
centenas de pessoas nas ruas, todas vestidas de azul ou vermelho ou verde ou de outra cor viva,
com cestas de compras nas mãos, ou conduzindo gansos sibilantes à frente, ou se apressando de um
lado para o outro com a libre de um grande senhor. Sinos tocavam, relógios batiam nos
campanários, estandartes flutuavam — até que todo o ar ao redor deles parecia estar vivo.
Cachorros e asnos e palafréns ajaezados e padres e carroças de fazenda — cujas rodas chiavam
como no dia do julgamento — e tendas que vendiam dourados pães de mel, e lojas onde exibiam as
melhores peças de armaduras da última moda. Havia mercadores de seda, especiarias e jóias. As
lojas tinham tabuletas de madeiras com anúncios pintados, como as tabuletas das tavernas que
vemos hoje. Criados se embebedavam na porta das lojas de vinhos, e velhas senhoras
pechinchavam ovos, e ambulantes rústicos carregavam gaiolas de falcões para vender, e havia
regedores imponentes com cordões de ouro, e lavradores de pele bronzeada com quase nenhuma
roupa exceto alguns pedaços de couro, e galgos na correia, e estranhos homens orientais vendendo
papagaios, e damas bonitas andando com passos miúdos e chapéus cônicos com véus esvoaçando
desde o topo, e talvez um pajem em frente a ela carregando um livro de orações, se ela estivesse
indo para a igreja.

Carlion era uma cidade cercada por muralhas, portanto toda essa agitação era cercada por ameias
que pareciam existir desde sempre. A muralha tinha torres a cada duzentos metros e também quatro
grandes portões. Quando a pessoa se aproximava da cidade pela planície, podia ver as torres do
castelo e as agulhas das igrejas brotando da muralha em blocos — como flores crescendo em um
vaso.

O Rei Arthur estava encantado por ver outra vez seus velhos amigos e saber do noivado de
Pellinore. Ele foi o primeiro cavaleiro por quem teve um carinho especial, quando era menino na
Floresta Sauvage, e decidiu dar a seu querido amigo uma festa de casamento de esplendor sem
igual. A Catedral de Carlion foi reservada, e não se poupou trabalho para que todos se divertissem.
A grande missa pontifícia nupcial foi celebrada por tal constelação de cardeais e bispos e núncios
que parecia não haver parte da imensa igreja que não estivesse colorida com roxo e púrpura eincenso e meninos tocando campainhas de prata. Às vezes, um menino se aproximava às pressas de
um bispo e tocava a campainha a sua frente. Outras vezes, um núncio se precipitava sobre um
cardeal e o incensava de cima abaixo. Era como uma batalha de flores. Milhares de candelabros
brilhavam frente aos maravilhosos altares. Em todas as direções, os dedos grossos, habituados,
santos, espalhavam-se como toalhas de mesa, ou seguravam os livros, ou abençoavam um ao outro
cuidadosamente, ou molhavam um ao outro com água-benta, ou reverentemente mostravam Deus ao
povo. A música era celestial, tanto gregoriana quanto ambrosiana, e a igreja estava apinhada.
Havia monges, frades e abades de todas as ordens, em pé com suas sandálias entre cavaleiros cujas


armaduras brilhavam à luz das velas. Havia até um bispo franciscano, vestido de cor cinza, com um
chapéu encarnado. As capas e mitras sacerdotais eram quase todas de tecido de ouro sólido
incrustado de diamantes, e era um tal de colocá-las e tirá-las que toda a catedral farfalhava. Quanto
ao Latim, era falado com tal rapidez que os caibros dos telhados zumbiam com os plurais dos
genitivos — e houve um tal fluxo de admoestações, exortações e bênçãos de prelados que era um
espanto toda a congregação não ter ido imediatamente dali direto para o céu. Até o Papa, que
estava tão convencido quanto qualquer outro que a coisa deveria ter suas regalias, gentilmente
enviara um número de indulgências para todos de quem conseguiu se lembrar.

Depois da cerimônia do matrimônio, aconteceu a festa. O Rei Pellinore e sua rainha — que
estiveram de mãos dadas durante toda a cerimônia prévia, com São Toirdealbhach e Mãe Morlan
atrás deles, completamente aturdidos com as luzes de velas, o incenso e as aspersões — foram
levados para o lugar de honra e servidos pelo próprio Arthur, de joelhos curvados. Pode-se
imaginar como Mãe Morlan estava encantada. Havia torta de pavão, gelatina de enguias, creme
Devonshire, toninha ao caril, salada de frutas gelada e duas mil travessas de acompanhamentos.
Houve discursos, canções, brindes e copos cheios até a borda. Um mensageiro especial veio a toda
velocidade de Humberland do Norte e entregou sua mensagem aos noivos. Dizia: "Os melhores
cumprimentos de Merlin ponto. O presente está debaixo do trono ponto. Carinho para Aglovale,
Percivale, Lamorak, Dornar".

Quando a excitação por causa da mensagem se acalmou e o presente de casamento foi encontrado,
alguns jogos de salão foram imediatamente preparados para os membros jovens da festa. Nesses,
um jovem pajem da criadagem do rei se sobressaía. Era o filho de um aliado de Arthur em
Bedegraine — o Rei Ban de Benwick — e seu nome era Lancelot. Houve abocanhe-a-maçã, jogo
de malha, balancê e uma peça de fantoches chamada Mac e os pastores, que fez todo mundo rir.
São Toirdealbhach desgraçou-se a si mesmo ao atordoar um dos bispos mais gordos com sua clava,
durante uma discussão sobre uma bula papal chamada Laudabiliter. Finalmente, já bem tarde, a
festa terminou depois de uma execução emocionante de Auld Lang Syne. O Rei Pellinore estava se
sentindo indisposto, e a nova Rainha Pellinore o colocou na cama, explicando que ele estava
sobreexcitado.

Bem distante dali, em Humberland do Norte, Merlin pulou da cama. Ele havia saído ao alvorecer
para observar as aves selvagens e voltara ao pôr-do-sol, muito fatigado. Mas de repente, em seu
sono, ele se lembrou — uma coisa tão simples! Era o nome da mãe de Arthur que esquecera de
mencionar em sua confusão! Ali tinha ficado ele, jogando conversa fora sobre Uther Pendragon e a
Távola Redonda e batalhas e Guenevere e espadas embainhadas e coisas passadas e coisas futuras

— mas se esquecera da coisa mais importante de todas.
A mãe de Arthur era Igraine — a mesma Igraine que foi capturada em Tintagil, aquela sobre a qualos meninos das Órcades conversavam na Torre Redonda no começo deste livro. Arthur fora
concebido na noite em que Uther Pendragon irrompeu em seu castelo. Como, naturalmente, Uther
não podia desposá-la até que ela saísse do luto pelo duque, o menino nascera cedo demais. Foi por
isso que Arthur foi levado para longe, para ser criado por Sir Ector. Ninguém sabia para onde ele
fora enviado, exceto Merlin e Uther — e agora Uther estava morto. Nem mesmo Igraine nunca


soube.

Merlin ficou indo e vindo, descalço, pelo chão gelado. Se ao menos girasse imediatamente até
Carlion, antes que fosse tarde demais! Mas o velho estava cansado e confuso com sua visão de trás
para frente, e os sonhos estavam em todos os seus miolos. Pensou que poderia fazer isso de manhã
logo cedo — não sabia ao certo se estava no futuro ou no passado. Estendeu cegamente as mãos
cobertas de veias para a cama, a imagem de Nimue já tecendo a si mesma em seu cérebro
sonolento. Caiu na cama. A barba foi para baixo da coberta, o nariz enfiou-se no travesseiro.
Merlin dormiu.

O Rei Arthur sentou-se no Grande Saguão, que agora estava vazio. Alguns de seus cavaleiros
favoritos estiveram tomando o último drinque com ele, mas agora estava só. Tinha sido um dia
cansativo embora estivesse na plena força de sua juventude, e ele encostou a cabeça contra o
espaldar do trono, pensando nos acontecimentos do matrimônio. Desde que se tornara o rei ao tirar
a espada da pedra, praticamente esteve o tempo todo em combates, e a ansiedade dessas campanhas
tinham amadurecido sua extraordinária figura. Finalmente, tudo indicava que poderia ter paz.
Pensou nas alegrias da paz, em se casar um dia como Merlin profetizara e em ter um lar. Com isso,
pensou em Nimue e depois em alguma mulher bonita. Adormeceu.

Acordou com um sobressalto e viu uma beldade de cabelos negros, olhos azuis à frente dele, com
uma coroa. Os quatro meninos selvagens do norte estavam atrás da mãe, tímidos e desconfiados, e
ela segurava uma tira.

A Rainha Morgause das Ilhas Exteriores estivera distante das festividades de propósito —
escolhera seu momento com o mais extremo cuidado. Era a primeira vez que o jovem rei a via, e
ela sabia que estava com sua melhor aparência.

É impossível explicar como essas coisas acontecem. Talvez à Peia tivesse uma força em si. Talvez
porque a rainha tinha o dobro de sua idade, portanto, o dobro do poder de suas armas. Talvez
porque Arthur sempre foi um homem simples, que facilmente considerava as pessoas pelo valor
que elas mesmas se davam. Talvez porque nunca conhecera sua própria mãe, e assim o papel do
amor de mãe, já que ela estava ali com os filhos atrás, colocou-o entre a espada e a parede.

Seja qual for a explicação, a Rainha do Ar e das Sombras teve um filho com seu meio-irmão nove
meses mais tarde. Chamou-se Mordred. E isto, como Merlin desenhou mais tarde, foi o que o mago
chamou de seu pied-de-grué{10}.


Mesmo se tiver que lê-la duas vezes, como alguma coisa em uma lição de história, saiba que esta
árvore genealógica é uma parte vital da tragédia do Rei Arthur. Foi por isso que Sir Thomas
Malory chamou seu longo livro de Morte de Arthur. Embora nove décimos da história pareça ser
sobre justas de cavaleiros e buscas pelo Santo Graal e coisas desse tipo, a narrativa é um todo etrata das razões pelas quais o jovem fracassou no final. É a tragédia, a completa e aris-totélicatragédia do pecado regressando a casa para repousar. É por isso que devemos prestar atenção na
linhagem de Mordred, filho de Arthur, e lembrar, quando chegar a hora, que o rei dormiu com sua
própria irmã. Ele não sabia que estava fazendo isso, e talvez tenha sido por culpa dela, mas parece
que, nas tragédias, a inocência nunca é suficiente.


Personagens deste volume


A busca de justiça e ordem no reino dos conflitos


Morgause -Meia-irmã de Arthur, irmã de Morgana, filha do Conde da Cornuália e de Igraine, mãede Arthur. Ela é também uma feiticeira, esposa de Lot, e mãe dos irmãos Órcades. Seduz Arthur
com mágica e o produto dessa união é Mordred.

Gawaine -O filho mais velho de Morgause, líder dos irmãos Órcades, cruel, chovinista, algumas
vezes é amigo e em outras, inimigo de Arthur. Tornou-se um dos cavaleiros da Távola Redonda,
voltando-se contra Arthur devido ao seu ódio contra Lancelot. Morreu, devido a um golpe na
cabeça, no fim da história.

Agravaine -Filho de Morgause; vive confuso em relação à sexualidade materna e é violento e
beberrão.

Meg -Cozinheira que os filhos de Morgause empregam na captura de um unicórnio que darão de
presente a sua mãe.

Rei Lot -O rei das Órcades; marido de Morgause e pai de seus filhos, à exceção de Mordred. Ele
não é nada mais que um peão de manobra na luta da mulher pela destruição de Arthur. É
acidentalmente morto em uma justa contra Pellinore, o que desencadeia um ciclo de vingança entre
os filhos de Lot e os filhos de Pellinore.

São Toirdealbhach -Um santo caído que vive próximo aos filhos de Morgause; é um velho dado à
bebida que conta histórias muito divertidas e atua como mentor dos meninos, que são esquecidos
por seus pais.

Mãe Morlan -Mulher de São Toirdealbhach.


Piggy (Rainha de Flandres) -Mulher de Pellinore e mãe de vários cavaleiros da Távola Redonda.

Palomides -Cavaleiro sarraceno que acompanha Pellinore e Grummore às ilhas Órcades. Os três
vivem juntos grandes aventuras, a maior parte delas cômicas e relacionadas à captura da Besta
Gemente. Depois da morte de Pellinore, Palomides toma seu lugar na busca da Besta.

Mordred -Produto da união (para ele, involuntária) de Morgause e Arthur. Morgause o cria
sozinho e em amarga distância de Arthur. Mordred aparece no final deste volume, e será
personagem importante dos próximos.

A Távola Redonda -Arthur concebe a Távola Redonda em A rainha do ar e das sombras como a
manifestação divina de bravura e de justiça. Ao longo da saga, a Távola Redonda é a manifestação
física do senso arturiano de decência e ordem. A mesa dos cavaleiros é projetada para que os
nobres não disputem posições, livres de uma cabeceira que defina quem é o melhor.


O Eterno e Futuro Rei 03


O CAVALEIRO IMPERFEITO



Título original: The III-Made Knight
1940 by T. H. White


INCIPIT LlBER TERTIUS


"Não", disse Sir Lancelot,
"... pois uma vez desonrado, já não há reparação."



I


No Castelo de Benwick, o jovem francês olhava seu rosto refletido na superfície polida de um
bacinete que cintilava à luz do sol com o brilho inflexível do metal. Era praticamente como o
capacete de aço que os soldados ainda usam, e não dava um bom espelho, mas foi o melhor que ele
pôde conseguir. Virava-o para a frente e para trás, esperando ter uma idéia geral de seu rosto a
partir das diferentes distorções que as saliências provocavam. Estava tentando ver como era, e
temia o que poderia descobrir.

O rapaz achava que havia algo errado com ele. Durante toda a sua vida — mesmo quando chegasse
a ser um grande homem, tendo o mundo a seus pés — sentiria essa brecha: algo no fundo de seu
coração do qual tinha consciência, e se envergonhava, mas não conseguia compreender. Nós não
precisamos tentar entender isso. Não temos que nos intrometer em uma região que ele preferia
conservar secreta.

O Arsenal, onde o jovem se encontrava, estava repleto de armas de guerra. Nas últimas duas horas,
ele esteve girando um par de halteres — que chamava de "pesos" — enquanto cantava para si
mesmo uma canção sem palavras e sem melodia. Tinha quinze anos. Acabara de chegar da
Inglaterra, onde seu pai, o Rei Ban de Benwick, ajudou o Rei inglês a sufocar uma rebelião. Você
deve se lembrar que Arthur queria atrair os cavaleiros jovens a fim de treiná-los para a Távola
Redonda, e tinha reparado em Lancelot na festa porque ele ganhara a maioria dos jogos.

Lancelot, balançando com entusiasmo seus halteres e fazendo seu som sem palavra, pensava no Rei
Arthur e todo o seu poder. Estava apaixonado pelo Rei. Era por isso que estava girando seus
halteres. Estava recordando todas as palavras da única conversa que teve com seu herói.

O Rei o chamara quando eles estavam embarcando para a França — depois de ter beijado o Rei
Ban na despedida — e o levou para um canto do navio, a sós. As veias heráldicas da frota de Ban,
os marinheiros no cordame, as torres armadas, os arqueiros e as gaivotas tinham sido o pano de
fundo para a conversa dos dois.

— Lance — o Rei dissera —, venha aqui um instante, por favor.
— Senhor.
— Estive observando você nos jogos da festa.
— Senhor.

— Parece que você venceu a maioria deles. Lancelot apertou os olhos.
— Eu gostaria de ter um monte de pessoas boas nos jogos, para me ajudar em uma idéia que estou
tendo. É para o tempo quando eu for um verdadeiro Rei, e tiver arrumado este reino. Estava
pensando se você se importaria de me ajudar, quando tiver idade suficiente...
O rapaz fez uma espécie de meneio e, de repente, seus olhos se iluminaram ao fitar o interlocutor.

— Tem relação com os cavaleiros — Arthur continuou. — Quero ter uma Ordem de Cavalaria,
como a Ordem da Jarreteira, com o objetivo de lutar contra a Força. Você gostaria de ser um
deles?
— Sim.
O Rei o olhou atentamente, incapaz de decidir se ele estava feliz, amedrontado ou apenas sendo
educado.

— Você entende o que estou dizendo? Lancelot jogou água em sua fervura.
— Na França, nós falamos de Force Majeur, ou Braço Forte — ele explicou. — O homem mais
forte do clã torna-se sua cabeça e faz o que lhe apetece. É por isso que dizemos Força Maior. O
senhor quer pôr um fim no Braço Forte, formando um grupo de cavaleiros que acreditam na justiça
cm vez da Força. Sim, eu gostaria muito de ser um deles. Antes, tenho que crescer. Obrigado.
Agora devo me despedir.
Assim, eles deixaram a Inglaterra — o jovem de pé na frente do navio, recusando-se a olhar para
trás porque não queria mostrar seus sentimentos. Desde a noite da festa de matrimônio, ele havia se
apaixonado por Arthur, e levava para a França consigo, dentro de seu coração, a figura do
magnífico Rei do Norte, na ceia, animado e glorioso por suas guerras.

Por trás dos olhos pretos que perscrutavam intensamente o bacinete estava o sonho que tivera na
noite anterior. Setecentos anos atrás — ou poderia ter sido mil e quinhentos, segundo a maneira de
Merlin contar — as pessoas levavam os sonhos tão a sério como os psicanalistas de hoje, e
Lancelot tivera um muito perturbador. Não perturbador pelo que pudesse significar — pois ele não
tinha a menor idéia de seu significado —, mas porque o havia deixado com uma sensação de perda.
O sonho foi assim.

Lancelot e seu irmão mais jovem, Ector Demaris, estavam sentados em duas cadeiras. Levantaram-
se dessas cadeiras e montaram dois cavalos. Lancelot disse: "Adiante, em busca do que não iremos
encontrar". E assim fizeram. Mas um Homem ou um Poder caiu sobre Lancelot, bateu nele,
despojou-o de suas coisas, vestiu-o com uma vestimenta cheia de nós e o fez montar um jumento em
vez de um cavalo. Então apareceu uma linda fonte, com as águas mais límpidas que jamais vira, e
ele desceu do jumento para beber um pouco daquela água. Sentia que não poderia haver nada mais
maravilhoso no mundo do que beber daquela fonte. Mas assim que inclinou os lábios em direção a
ela, a água baixou. Baixou rapidamente para o fundo da fonte, afundando cada vez mais, de tal
maneira que ele não conseguia alcançá-la. Isso o fez sentir-se desolado, ser abandonado pela água
da fonte.

Arthur e a fonte, os halteres que deviam fazê-lo digno de Arthur e a dor nos braços cansados de


levantá-los — tudo isso estava no fundo da mente do jovem ao inclinar o bacinete de latão para a
frente e para trás entre os dedos, mas havia outro pensamento ainda mais insistente em sua mente.
Era um pensamento sobre o rosto no metal, e sobre o que deveria ter falhado nas profundezas de
seu espírito para fazer um rosto assim. Não era de enganar a si mesmo. Sabia que fosse qual fosse a
maneira como virasse o bacinete, ele lhe mostraria a mesma imagem. Já tinha decidido que, quando
fosse um cavaleiro adulto, daria a si mesmo um nome melancólico. Era o filho mais velho, portanto
estava destinado a ser cavaleiro, mas não se chamaria Sir Lancelot. Chamaria a si mesmo de
Chevalier Mal Fet — Cavaleiro Malfeito, Cavaleiro Imperfeito.

Tanto quanto podia ver — e sentia que deveria haver algum motivo para isso em algum lugar —,
seu rosto era tão feio como o de um monstro do zoológico do Rei. Parecia um macaco africano.


II


Lancelot transformou-se no melhor cavaleiro do Rei Arthur. Foi uma espécie de Bradman{11}, o
campeão das batalhas. Tristão e Lamorack eram, respectivamente, o segundo e o terceiro.

Mas você deve saber que as pessoas só podem ser boas no críquete se treinarem para isso, e que os
torneios eram uma arte, exatamente como o críquete; aliás, lembravam o críquete em muitos
aspectos. Num torneio, havia o pavilhão do marcador de pontos, com um verdadeiro marcador lá
dentro, que apontava os pontos num pergaminho, exatamente como é feito hoje pelo marcador de
críquete. As pessoas, que passeavam pelo campo com suas melhores roupas, da Tribuna Principal à
Tenda dos Comes e Bebes, certamente consideravam as lutas muito parecidas com um jogo. Era
incrivelmente demorado — os turnos de Lancelot com freqüência levavam o dia todo para
terminar, caso ele estivesse enfrentando um bom cavaleiro — e os movimentos davam a sensação
de câmara lenta, por causa do peso das armaduras. Quando o jogo de espadas começava, os
combatentes postavam-se um em frente ao outro no campo verde, como o jogador que bate a bola e

o lançador — com a diferença de que ficavam bem mais próximos —, e talvez Sir Gawaine
começasse seu arremesso com um balanceio de corpo, que Sir Lancelot neutralizaria com um belo
movimento de pernas parecido com outra jogada de críquete, e depois rebateria com um ataque
contra a guarda de Gawaine — que tinha o nome de "finta" — e todo o público ao redor do campo
aplaudiria. No Pavilhão, o Rei Arthur talvez se virasse para Guenevere, comentando que o jogo de
pés do grande cavaleiro fora tão admirável como de costume. Na parte de trás dos elmos, os
cavaleiros colocavam pequenos pedaços de pano para protegei" o metal do calor do sol, como os
lenços que hoje os jogadores de críquete às vezes colocam atrás dos bonés.
O exercício da Cavalaria era uma arte tanto quanto o críquete, e talvez o único aspecto em que
Lancelot não se assemelhava a Bradman era por ser mais gracioso. Não tinha aquele agachar com o
bastão para depois pular e arremessar a bola. Nisso, ele era mais como Wooley{12}. Mas para ser
como Wooley, não bastava simplesmente permanecer sentado quieto e desejar ser igual.

O Arsenal, onde o jovem que mais tarde seria Sir Lancelot estava sentado com seu bacinete, era a
maior dependência do castelo de Benwick. Seria o lugar onde esse rapaz passaria a maior parte de
suas horas despertas nos três anos seguintes.

As dependências do castelo principal — que ele via das janelas — eram pequenas, em sua maioria,
porque não se pode construir com luxo quando se está fazendo uma fortificação. Ao redor da
fortaleza interna, com seus cômodos pequenos, havia uma área espaçosa com um estábulo ou curral,


para onde os rebanhos do castelo eram conduzidos durante um cerco. Estava rodeado por uma
muralha alta cora torres e, do lado interno dessa muralha, foram construídos os grandes espaços
necessários para depósitos, celeiros, casernas e estrebarias. O Arsenal era uma dessas áreas.
Ficava entre as estrebarias para cinqüenta cavalos, e o estábulo das vacas. As melhores armaduras
da família — as que atualmente estavam sendo usadas — eram guardadas em um pequeno cômodo
dentro do próprio castelo, e no Arsenal ficavam apenas as armas das tropas, as partes de reposição
das armaduras da família e os apetrechos necessários para os exercícios de ginástica, prática ou
treinamento físico.

Debaixo do teto de caibros, e o mais próximo possível dele, estava pendurada ou alinhada uma
coleção de pendões e bandeirolas, com o brasão das armas de Ban — France Ancient, Insígnias da
França, como agora são chamadas — que seriam necessários em várias ocasiões. Ao longo da
parede havia lanças de torneio, colocadas horizontalmente em pregos para não empenarem.
Pareciam barras para exercícios de um ginásio. Fm um canto, algumas lanças velhas, já empenadas
ou danificadas de alguma forma, mas que ainda poderiam ser úteis, estavam dispostas em pé. Na
estante de armas, que ia de um canto a outro da segunda parede principal, ficavam os coletes de
malhas para a infantaria, com mitenes, lanças, elmos e espadas de Bordéus. O Rei Ban tinha sorte
de viver em Benwick, pois as espadas de Bordéus eram do local e particularmente boas. Depois,
havia barricas para arneses, nas quais as armaduras eram acondicionadas com feno para
expedições de além-mar — algumas delas ainda estavam cheias da última expedição, e era uma
curiosa mistura. Tio Dap, que cuidava do Arsenal, tinha desempacotado uma dessas barricas para
fazer um inventário de seu conteúdo — e fora embora em desespero ao descobrir cinco quilos de
tâmaras e cinco fôrmas de açúcar. Certamente tratava-se de alguma espécie de açúcar de abelha, a
não ser que fossem fôrmas de açúcar que tinham voltado das Cruzadas. Ele deixara sua lista ao
lado da barrica, e ali estava anotado, entre outros artigos: I sela ornada douro, III paires de luvas, I
vestimenta, I livro de messe, I veste de fora, I paire de brigandinas, I bacia de prata de mijar, X
camisões do meu Senhor, I jaquetina de couro, e I tabuleiro de xadrez. Depois, em um canto
formado pelas barricas, podia-se ver um conjunto de prateleiras que compunha o dispensário das
peças danificadas. Nas prateleiras havia enormes garrafões de azeite de oliva — atualmente, dá-se
preferência a óleos minerais para armaduras, mas no tempo de Lancelot não havia esse refinamento

— ao lado de caixas de areia fina para polimento, sacos de tachas para brigandinas de onze xelins
e oito pences cada vinte milheiros, rebites, anéis avulsos para as cotas de malhas, pedaços de
couro para cortar correias novas e suportes para joelheiras, juntamente com milhares de outras
coisas fascinantes na época, mas agora perdidas para nós. Havia perneiras parecidas com as
tornozeleiras que se vêem hoje nos goleiros, ou como as proteções acolchoadas usadas pelos
jogadores de futebol americano. Em vários cantos, de modo a deixar um espaço livre no meio,
ficava amontoado um conjunto de aparelhos para ginástica como os estafermos e coisas assim,
enquanto a escrivaninha de Tio Dap fora colocada perto da porta. Na escrivaninha havia penas de
escrever, areia mata-borrão, varas para bater em Lancelot quando ele errava e, em indescritível
confusão, apontamentos referentes a quais gibões tinham sido penhorados recentemente — a
penhora era uma grande instituição para as armaduras valiosas — e quais os elmos que haviam
sido restaurados e brilhavam, que braçais necessitavam de reparos, e o que fora pago a quem para
fazer o quê e quando. A maioria das contas estava somada incorretamente.

Três anos pode parecer um longo tempo para um jovem passar em uma única dependência, se ele
só sair de lá para comer, dormir e praticar torneios no campo. E até difícil imaginar um jovem
fazendo isso, a menos que se compreenda, desde o início, que

Lancelot não era nem romântico nem jovial, Tennyson e os pré-rafaelistas teriam dificuldade para
aceitar esse rapaz bastante taciturno e inadequado, feio de rosto, que não revelava a ninguém estar
vivendo de sonhos e orações. Talvez se perguntassem que tipo de ferocidade ele teria contra si
mesmo, capaz de fazê-lo forçar tanto seu próprio corpo tão jovem. Talvez se perguntassem por que
ele era tão estranho.

Para começar, ele teve que passar meses cansativos atacando Tio Dap com uma lança cega sob o
braço. Tio Dap, armado da cabeça aos pés, postava-se sentado em um banco — e Lancelot, com a
lança de ponta rombuda, ficava atacando-o e voltando a atacar, para aprender os melhores locais
onde enfiar a ponta em uma armadura. Em seguida, foram as horas solitárias com os pesos, com
muitas outras horas em campo aberto — antes que lhe fosse sequer permitido tocar em armas
verdadeiras —, quando ele aprendeu várias maneiras de derrubar o adversário, lançando-o ao chão
com a vara ou lança de arremesso, e atirando a barra. Depois disso, após um ano de exercícios,
aconteceu sua promoção para o estafermo de esgrima. Era uma estaca cravada no chão, contra a
quai ele tinha que combater com espada e escudo — como se estivesse lutando boxe com a sombra
ou usando um saco de pancada. Para esse exercício, tinha de usar armas que pesavam duas vezes
mais que a espada e o escudo comuns. Por volta de vinte e sete quilos era considerado um bom
peso para os braços no estafermo de esgrima — de tal maneira que, quando chegasse a hora de usar
as armas normais, ele as controlaria com precisão. Pareceriam leves, em comparação. O estágio
final do treino para o jogo-padrão eram os combates simulados. Nestes, por fim, e depois de todos
os amargos reveses de disciplina, foi-lhe permitido lutar batalhas que eram quase reais, contra seu
irmão e primos. Os combates tinham regras estritas. Poderiam começar com um ataque de lança
rombuda, seguido por sete golpes com a espada de ponta e gume virados, "sem corpo-a-corpo, nem

o agarrar-se um ao outro com as manoplas, sob pena de punição conforme os juizes do momento
avaliarem como requerido". Nesses jogos, não era lícito picar — isto é, dar golpes com a ponta. E
por fim, havia o combate livre. O agora vigoroso jovem podia atacar temerariamente seus
companheiros, com espada e escudo.
Se você já se enfiou em um daqueles escafandros antigos que costumavam ser o padrão da Marinha
Real antes de aparecerem os homens-rãs e o mergulho livre, saberá por que esses mergulhadores se
moviam tão lentamente. Um escafandrista carrega dezoito quilos de chumbo em cada pé e duas
placas de chumbo — pesando mais de vinte quilos cada —, uma nas costas e outra no peito. Isso
além do peso da roupa e do capacete. Exceto quando está no mar, pesa o dobro de um homem. O
ato de passar por cima de uma corda ou um tubo de ar no tombadilho torna-se uma tarefa árdua —
como trepar era uma parede. Se você o empurra pela frente, seu peso atrás tende a prevalecer, e ele
pode cair de costas. A mesma coisa acontece no vice-versa. Mergulhadores treinados tornam-se
peritos em lidar com essas desvantagens, e são capazes de levantar e abaixar os pés de dezoito
quilos na escada do navio com bastante agilidade — mas um amador pode quase se matar com o
mero esforço de um movimento. Lancelot, como o mergulhador, teve que aprender a ser ágil contra
a força da gravidade.


Os cavaleiros de armaduras eram como escafandristas em mais de um aspecto.

Além dos elmos e estorvos e a dificuldade de respirar, deviam se deixar vestir por assistentes
gentis e cuidadosos. Tinham de confiar nesses assistentes para que fizessem sua tarefa
corretamente. Um escafandrista coloca sua vida nas mãos dos marinheiros que o vestem. Esses
jovens, como os pajens e os escudeiros, tratam-no como uma mãe, com grande suavidade e
concentração, e uma espécie de respeito protetor. Sempre se dirigem a ele pelo seu título e não
pelo nome. Dizem: "Sente-se, mergulhador", ou "Agora o pé esquerdo, mergulhador", ou
"Mergulhador Dois, pode me escutar nesse interfone?".

É bom colocar sua vida nas mãos de outra pessoa.

Três anos de dedicação e esforços. Os outros rapazes não se preocupavam tanto, pois tinham outras
coisas para pensar — mas para o jovem feio era tudo que importava em sua vida obscura e mística.
Ele tinha que se aperfeiçoar para Arthur tomo alguém bom nos jogos, e pensar nas teorias da
cavalaria mesmo quando na cama, à noite. Tinha que ensinar a si mesmo a ter uma opinião
fundamentada sobre centenas de pontos polêmicos -— sobre o tamanho adequado das armas, ou
sobre o feitio de um paquife, ou a articulação de uma braceleira, ou se a madeira de cedro era
melhor que a de freixo para as lanças, como Chaucer{13} parece ter acreditado.

Eis um pequeno exemplo dos problemas da cavalaria, sobre os quais ele pensava na juventude.
Houve um cavaleiro chamado Reynaud Le Roi, que tinha uma competição de justa com outro
cavaleiro de nome John de Holland. Reynaud propositadamente prendeu seu elmo de torneio —-o
enorme cilindro acolchoado de palha que às vezes era colocado sobre o capacete propriamente
dito — de maneira que ficasse frouxo. Quando a ponta da lança de John de Holland o atingiu, ele
simplesmente soltou-se. Isso significou que o elmo caiu da cabeça de Reynaud, e não que Reynaud
despencou do cavalo. Um truque eficaz, mas perigoso — toda a cavalaria discutiu longamente
sobre isso, alguns dizendo que não era esportivo, outros que era lícito mas demasiado arriscado, e
outros que era uma boa idéia.

Três anos de disciplina não fizeram Lancelot ter um coração feliz e ser capaz de cantar como uma
cotovia. De uma vida que, na sua idade, devia parecer se estender por pouco mais de uma semana à
frente, ele deu trinta e seis meses à idéia de outro homem porque se apaixonara por ela. Nesse
entretempo, seus sonhos foram seu suporte. Queria ser o melhor cavaleiro do mundo, para que
Arthur também o amasse em troca, e queria uma outra coisa que ainda era possível naqueles
tempos. Ele queria, com sua pureza e excelência, ser capaz de realizar algum milagre simples —
como, por exemplo, curar um cego ou coisa parecida.


III


Havia uma característica nas grandes famílias que se colocaram no centro do destino de Arthur.
Todas as três possuíam um gênio que com elas residia, meio tutor e confidente, e que influenciou o
caráter dos jovens de cada uma delas. No castelo de Sir Ector havia Merlin, que foi a maior
influência na vida de Arthur. Na solitária e distante Lothian, Sir Toirdealbhach, cuja filosofia sobre
as guerras deve ter tido algo a ver com o aguçado espírito de clã de Gawaine e seus irmãos. No
castelo do Rei Ban, um tio de Lancelot, cujo nome era Gwenbors. Na verdade, tratava-se do velho
que já encontramos, conhecido por todos como Tio Dap, mas seu nome de batismo era Gwenbors.
Naqueles tempos, escolhiam-se os nomes dos filhos da mesma maneira como hoje damos os nomes
aos cães de caça e potros. Se você fosse a Rainha Morgause e tivesse quatro filhos, colocaria um G
em todos os seus nomes (Gawaine, Agravaine, Gaheris e Gareth) — e, naturalmente, se acontecesse
de seus irmãos serem chamados de Ban e Bors, você estaria destinado a se chamar Gwenbors.
Ficava mais fácil lembrar quem você era.

Tio Dap era o único da família a levar Lancelot a sério, e este, por sua vez, o único a tratar Tio
Dap com igual deferência. Era fácil não levar o velhote a sério, pois ele era aquele tipo peculiar de
criatura que se torna motivo de troça para os ignorantes — um genuíno mestre. Sua especialidade
de conhecimento era a cavalaria. Não havia uma peça de armadura provada na Europa sobre a qual
Tio Dap não tivesse uma teoria. Enfurecia-se com o novo estilo gótico, com suas arestas e feitio de
ostras e estrias. Considerava ridículo usar a armadura como os entrançados de um aparador
Nelson, pois parecia óbvio que cada sulco estaria propenso a segurar uma ponta. O único objetivo
de uma boa armadura, ele dizia, é rechaçar pontas — e, quando pensava nas pessoas na Alemanha
fazendo seus horríveis sulcos, quase ficava frenético. Não havia nada na Heráldica que ele não
soubesse. Se alguém cometesse qualquer um dos erros mais grosseiros — como sobrepor metal
com metal ou cor com cor —, ele se eletrizava de raiva. Seus compridos bigodes brancos tremiam
nas extremidades como antenas, as pontas de seus dedos se juntavam em gestos da mais veemente
cólera, e balançava os braços e dava pulinhos, mexia as sobrancelhas e parecia chiar. Ninguém
pode ser um mestre sem estar sujeito a esses destemperos, portanto Lancelot raras vezes se
preocupava quando recebia um tapa em um entrevero sobre escudos cortados a bouche ou se erauma boa idéia ou não ter uma correia suplementar no escudo. Às vezes Tio Dap cedia à tentação de
simplesmente bater nele, mas o jovem tampouco se importava com isso. Naqueles tempos, era
assim.

Uma razão para Lancelot não se importar com os arrebata-mentos de Tio Dap era o fato de saber


que o velho poderia lhe ensinar tudo o que ele queria aprender. Tio Dap não era apenas um
eminente escriturário e autoridade em seus próprios assuntos — era também um dos melhores
espadachins da França. Fora por isso, na verdade, que o jovem se colou a ele. A fim de talhar,
aparar e estocar sob a brutal orientação de um gênio — a fim de, em uma investida, agüentar uma
espada pesada com o braço esticado até sentir que se partiria ao meio, só para Tio Dap agarrar a
ponta e esticá-la ainda mais cruelmente.

Desde quando podia se lembrar, o exaltado velhinho sempre estivera ali, a seu lado, com os olhos
de um azul que lembrava o aço, dando seus pulos, estalando os dedos e gritando como se a própria
vida dependesse disso: Doubkz! Dédoubkz! Dêgagez! Un! Vieux!.

Um belo dia do último verão, Lancelot estava sentado no Arsenal com o tio. Na grande sala, uma
grande quantidade de pó dançava através dos raios de sol, pó que eles mesmos haviam levantado
momentos antes, e ao redor das paredes estavam as fileiras de armaduras polidas, e lanças, e elmos
e bacinetes pendurados em cabides de madeira. Havia adagas e armaduras, e várias bandeirolas e
pendões, com os brasões das armas de Ban. Os dois esgrimistas tinham se sentado para descansar
depois de um confronto excitante, e Tio Dap arfava. Lancelot estava agora com dezoito anos. Era
um esgrimista melhor que seu mestre — embora Tio Dap não o admitisse e seu discípulo,
taticamente, fingisse não ser.

Um pajem se aproximou enquanto eles ainda estavam ofegantes, e avisou a Lancelot que sua mãe o
estava chamando.

— Por quê?
O pajem respondeu que um cavaleiro desejava vê-lo, e a Rainha tinha dito que ele deveria vir
imediatamente.

A Rainha Elaine encontrava-se sentada em sua câmara, onde estivera fazendo tapeçaria, e seus dois
hóspedes também haviam se acomodado, um à sua direita, outro à esquerda. Ela não era uma das
Irmãs da Cornualha, que também se chamava Elaine. Esse era um nome popular naquela época e
muitas mulheres na "Morte d'Arthur", chamavam-se assim, especialmente porque algumas das
fontes dos manuscritos haviam se misturado. Os três adultos, sentados à mesa comprida, pareciam
formar uma banca de examinadores na sala escurecida. Um dos visitantes era um cavaleiro mais
velho, de barba branca e chapéu pontudo, e o outro, uma formosa mulher algo atrevida, com tez de
azeitona e sobrancelhas depiladas. Todos os três olharam para Lancelot, e o velho cavalheiro falou
primeiro.

— Hum!
Eles esperaram.
— Você o chamava de Galahad — disse o velho cavalheiro. E acrescentou: — Seu primeiro nome
era Galahad, e agora é Lancelot, depois que foi crismado.
— Como você sabia?
— Não posso evitar — disse Merlin. — É uma das coisas que a pessoa sabe e ponto final. Agora,
deixa-me ver, quais são as outras coisas que eu deveria lhe dizer?

A jovem dama de sobrancelhas depiladas levou a mão à boca e bocejou graciosamente, como um
gato.

— A esperança de seu coração se realizará daqui a trinta anos, e ele será o melhor cavaleiro do
mundo.
— Eu viverei para ver isso? — perguntou a Rainha Elaine. Merlin coçou a cabeça, deu um piparote
com os nós dos dedos no topo do seu chapéu e respondeu:
— Viverá.
— Ótimo — disse a Rainha. — Tudo isso é muito maravilhoso, devo dizer. Você escutou isso,
Lance? Você será o melhor cavaleiro do mundo!
O jovem perguntou:

— Vocês vieram da Corte do Rei Arthur?
— Sim.
— Está tudo bem?
— Sim. Ele lhe enviou seu apreço.
— O Rei está feliz?
— Muito feliz. Guenevere também enviou seu apreço.
— Quem é Guenevere?
— Valha-me senhor! — exclamou o mago. — Você não ficou sabendo? Não, claro que não. Parece
que tenho sinos badalando na cabeça em vez de miolos.
Nesse momento, olhou para a bela dama, como se ela fosse responsável pelos sinos — o que era de
fato. Era Nimue e, finalmente, Merlin havia se apaixonado por ela.

— Guenevere — disse Nimue — é a nova rainha de Arthur. Já estão casados há algum tempo.
— O pai dela é o Rei Leodegrance — explicou Merlin. — Quando se casaram, ele deu de presente
a Arthur uma mesa redonda, com cem cavaleiros. Na mesa há lugar para cento e cinqüenta.
Lancelot disse:

— Oh!
— O Rei pretendia lhe contar — disse Merlin. — Talvez o mensageiro tenha se afogado no
caminho até aqui. Pode ter sido atingido por alguma tempestade. Ele realmente queria lhe contar.
— Oh! — disse o jovem, pela segunda vez.
Merlin começou a falar rapidamente, pois percebeu que a situação era difícil. Pelo rosto do rapaz,
não poderia dizer se Lancelot estava magoado ou se era sempre assim.

— Até agora, ele só conseguiu preencher vinte e nove dos assentos — disse. — Há espaço para
mais vinte e um. Bastante espaço. Os nomes de todos os cavaleiros estão inscritos em ouro nos
assentos.

Houve uma pausa, durante a qual ninguém soube o que dizer. Então Lancelot limpou a garganta.

— Havia um rapaz — ele disse —, quando eu estava na Inglaterra. Seu nome era Gawaine. Ele foi
feito cavaleiro da Távola?
Merlin pareceu culpado e assentiu com a cabeça.

— Foi feito no dia em que Arthur se casou.
— Entendo.
Houve outra longa pausa.
Sentindo que era melhor preencher o silêncio, Merlin disse:
— Esta dama chama-se Nimue. Estou apaixonado por ela. Estamos numa espécie de lua-de-mel, só
que é uma lua-de-mel mágica, e agora devemos partir para a Cornualha. Lamento não poder ter
mais tempo para esta visita.
— Meu querido Merlin — exclamou a Rainha —, mas com certeza vocês pernoitarão aqui?
— Não, não. Obrigado. Agradecemos muito, mas estamos com pressa.
— Pelo menos tomarão alguma coisa antes de partir?
— Não, muito obrigado. É muito gentil de sua parte, mas realmente, devemos partir. Temos de
comparecer a uma magia na Cornualha,
— Uma visita tão breve... — começou a Rainha.
Merlin a interrompeu, levantando-se e tomando a mão de Nimue na sua.
— Agora, adeus — disse com determinação, e, depois de um par de giros, ambos desapareceram.
Seus corpos tinham sumido, mas a voz do mago continuou no ar.
— Pronto, está feito — eles puderam escutá-lo dizer em tom aliviado. — Agora, meu anjo, que tal
aquele lugar da Cornualha sobre o qual lhe falei, aquele com a caverna mágica?
Com passos lentos, Lancelot voltou para o Arsenal, ao encontro de Tio Dap. Parou em frente ao tio
e mordeu os lábios.


— Vou para a Inglaterra — disse.
Tio Dap olhou-o com espanto, mas não disse palavra. — Partirei esta noite.
— Parece muito repentino — falou rio Dap. — Em geral, sua mãe não decide as coisas tão
rapidamente.
— Minha mãe não sabe.
— Você quer dizer que vai fugir?
— Se eu contasse a minha mãe e meu pai, só provocaria um rebuliço — ele respondeu. — E não é
que eu esteja fugindo. Voltarei em algum momento. Mas tenho de ir para a Inglaterra o mais rápido
que puder.

— Você espera que eu não conte a sua mãe?
— Sim.
Tio Dap mordeu as pontas do bigode e torceu as mãos.
— Se eles souberem que eu poderia ter evitado isso, Ban cortará minha cabeça — disse.
— Eles não saberão — disse o rapaz, com indiferença, e saiu para arrumar sua bagagem.
Uma semana mais tarde, Lancelot e Tio Dap estavam sentados em um barco peculiar, no meio do
Canal Inglês. O barco tinha uma espécie de torre em cada ponta. Havia uma outra torre a meio do
único mastro, o que lhe dava a aparência de um pombal. Tinha bandeiras à popa e à proa. Uma
única e alegre vela ostentava uma cruz de Jerusalém, e uma enorme bandeirola flutuava no topo do
mastro. Havia oito remadores, e os dois passageiros estavam enjoados.


IV


O adorador de herói cavalgava em direção a Camelot com o coração amargurado. Era difícil para
ele, com dezoito anos, dar sua vida ao Rei só para ser esquecido; difícil ter passado todas aquelas
horas dolorosas com armas pesadas na poeira do Arsenal tão-somente para ver Sir Gawaine ser
feito cavaleiro primeiro; e, mais duro do que tudo, ter exigido o máximo de seu corpo pelo ideal do
homem mais velho só para descobrir, no final, que uma esposa afetada se intrometera entre eles e
arrebatara seu amor sem nenhum esforço. Lancelot tinha ciúmes de Guenevere e sentia-se
envergonhado por isso.

Tio Dap cavalgava em silêncio atrás do infeliz rapaz. Sabia de uma coisa que o outro ainda estava
muito verde para saber — que havia treinado o melhor cavaleiro da Europa. Como um chapim
excitado que criara um cuco, Tio Dap seguia alvoroçado atrás de seu prodígio. Levava a armadura
de combate, ordenadamente amarrada segundo seu método e artimanhas, pois, de agora em diante,
seria o escudeiro de Lancelot.

Chegaram a uma clareira na floresta, e um pequeno riacho corria pelo meio. Ali havia um vau, com
apenas alguns centímetros de profundidade, onde a corrente do riacho passava retinindo sobre
pedras claras. O sol brilhava na clareira. Alguns pombos selvagens arruinavam sonolentos, e, do
outro lado da água musical, via-se um gigantesco cavaleiro com armadura preta e elmo de torneio
em posição. Sentava-se imóvel sobre um cavalo preto, e seu escudo ainda estava na sacola de lona.
Era impossível ver seu brasão. Assim tão quieto, tão majestoso em seu revestimento de ferro, e
com seu grande elmo fechado sobre a cabeça de tal forma que não possuía um rosto próprio,
irradiava perigo em torno de si. Não se sabia o que ele estava pensando, nem que iniciativa
poderia tomar. Era uma ameaça.

Lancelot parou, e também Tio Dap. O cavaleiro negro atravessou a água rasa montado em seu
cavalo, e puxou as rédeas em frente a eles. Levantou a lança em um gesto de saudação, depois
apontou com ela para um lugar atrás de Lancelot. Poderia estar dizendo para ele voltar para casa,
ou então sinalizando uma boa posição a partir da qual poderiam começar suas investidas. Fosse
qual fosse o caso, Lancelot saudou-o com sua manopla e se virou para ir até o lugar indicado.
Recebeu de Tio Dap uma de suas lanças, puxou seu elmo de torneio para a frente — ele o
pendurara às costas com uma corrente — e colocou o torreão de aço em posição sobre a cabeça.
Amarrou-o. Agora também ele tornara-se um homem sem rosto.

Dos cantos opostos da pequena clareira, os dois cavaleiros encararam-se. Então, embora nenhum


deles até então tivesse dito sequer uma palavra, ajustaram as lanças, esporearam os cavalos, e
começaram a investida. Tio Dap, em segurança atrás de uma árvore próxima, mal conseguia conter
seu contentamento. Sabia o que estava prestes a acontecer ao cavaleiro negro, embora Lancelot não
soubesse, e começou a estalar os dedos.

A primeira vez que você faz alguma coisa, quase sempre é excitante. Voar sozinho em uma
aeronave pela primeira vez costuma ser tão excitante que chega quase a sufocar. Lancelot nunca
antes lutara uma justa para valer — e embora tivesse se arremetido contra centenas de estafermos e
milhares de argolas, nunca, realmente, tomara sua vida nas mãos. No primeiro momento da
investida, pensou consigo mesmo: "Bem, aqui estou eu. Nada pode me ajudar agora". No segundo
momento, começou a agir automaticamente, da mesma maneira como sempre agira com os
estafermos e as argolas.

A ponta de sua lança alcançou o cavaleiro negro por baixo da ombreira, exatamente no lugar certo.
Sua montaria estava em pleno galope, e a do cavaleiro negro, ainda a meio galope. O cavaleiro
negro e seu cavalo viraram rapidamente para o lado atacado, foram juntos para o ar em uma
interessante parábola, e caíram no chão com um estrondo. Enquanto Lancelot continuava
cavalgando para a frente, pôde vê-los se estatelando juntos no chão, a lança quebrada do cavaleiro
entre as pernas do cavalo e uma ferradura cintilante rasgando a lona do escudo caído. Homem e
cavalo se embolaram no solo. Cada um temia o outro e ambos se escoiceavam, no esforço de se
separarem. Então, o cavalo ergueu-se com as patas dianteiras, endireitou o traseiro, e o cavaleiro
sentou-se, levantando uma manopla de aço, como se fosse esfregar a cabeça. Lancelot puxou as
rédeas e se dirigiu a ele.

Em geral, quando um cavaleiro derruba o outro com a lança, o caído costuma enfurecer-se, culpar o
cavalo, e insistir em continuar a luta de pé, com espadas. A desculpa comum era: "O filho de uma
égua pode ter me deixado mal, mas a espada de meu pai jamais o fará".

O cavaleiro negro, entretanto, não procedeu de acordo com o esperado. Evidentemente, era um tipo
de pessoa bem mais jovial que a cor de sua armadura poderia sugerir, pois se sentou ereto,
soprando pelas frestas do elmo e soltando uma exclamação de surpresa e admiração. Então, tirou o
elmo e enxugou a testa. O escudo, cuja cobertura o casco do cavalo rasgara, era dourado,
ostentando um dragão rampante vermelho.

Lancelot jogou sua lança em uma moita, desceu do cavalo rapidamente e se ajoelhou ao lado do
cavaleiro. Todo o amor voltara a seu coração. Era típico de Arthur não perder seu humor, típico
dele sentar-se no chão a emitir sons de admiração quando acabava de ser derrubado em grande
estilo.

— Senhor — disse Lancelot, tirando seu próprio elmo com gesto humilde e inclinando a cabeça à
maneira francesa.
O Rei começou a se pôr de pé com esforço e grande excitação.

— Lancelot! — exclamou. — Ora, é o jovem Lancelot! O filho do Rei de Benwick. Lembro-me de
tê-lo visto quando seu pai veio para a Batalha de Bedegraine. Que queda! Nunca vi nada parecido.
Onde aprendeu esse golpe? Foi esplêndido! Você estava se dirigindo à minha Corte? Como vai o

Rei Ban? Como está sua encantadora mãe? Realmente, meu querido rapaz, isso é magnífico!

Lancelot olhou para o Rei ofegante, que estendia ambas as mãos para que ele o ajudasse a se
levantar, e seu ciúme e amargura desapareceram.

Montaram em seus cavalos e andaram a meio trote lado a lado em direção ao palácio, esquecendo-
se de Tio Dap. Tinham tanto a dizer um ao outro que ambos falaram o tempo todo. Lancelot deu
mensagens inventadas do Rei Ban e da Rainha Elaine, e Arthur contou como Gawaine matara uma
dama. Contou como o Rei Pellinore tinha ficado tão corajoso depois do matrimônio que matara, porengano, em um torneio, o Rei Lot das Órcades, e como a Távola Redonda estava indo tão bem
quanto seria possível, mas muito lentamente, e como, agora que Lancelot chegara, tudo daria certo
antes mesmo que se dessem conta.

Ele foi sagrado cavaleiro no primeiro dia — na verdade isto já poderia ter se dado a qualquer
momento nos últimos dois anos, mas Lancelot havia se recusado a ser sagrado por alguém que não
fosse Arthur — e foi apresentado a Guenevere na mesma noite. Há uma história que diz que o
cabelo dela era amarelo, mas isto não corresponde à verdade. Era tão preto que chegava a
surpreender, e seus olhos azuis, profundos e claros, tinham uma espécie de destemor que também
causava admiração. Ela ficou surpresa com a face torcida do rapaz, mas não se assustou.



Do outro lado da água musical via-se um gigantesco cavaleiro com armadura preta e elmo de
torneio em posição. Sentava-se imóvel sobre um cavalo preto. Assim tão quieto, tão majestoso
em seu revestimento de ferro, e com seu grande elmo fechado sobre a cabeça de tal forma que

não possuía um rosto próprio, irradiava perigo em torno de si.

— Vamos — disse o Rei, juntando as mãos dos dois. — Este é Lancelot, aquele sobre o qual lhe
falei. Será o melhor dos meus cavaleiros. Nunca vi uma queda como a que ele me deu. Quero que
você seja gentil com ele, Gwen. Seu pai é um dos meus velhos amigos.
Lancelot beijou a mão da Rainha friamente.

Não observou nada de especial nela, porque sua mente estava cheia com as imagens anteriores que
criara para si mesmo. Não havia espaço para as imagens do que ela realmente era. Pensava na
Rainha apenas como uma pessoa que o havia roubado, e como os ladrões são pessoas enganadoras,
ardilosas e sem coração, Lancelot achava que ela era assim.

— Como vai? — perguntou-lhe a Rainha. Arthur interrompeu:
— Temos que lhe contar o que aconteceu desde que foi embora. Quantas coisas para contar! Por
onde devemos começar?
— Comece com a Távola — disse Lancelot.
— Oh, meu Deus!
A Rainha riu e logo sorriu para o novo cavaleiro:
— Arthur pensa nela o tempo todo — disse. — Até sonha com ela à noite. Não será capaz de lhe
contar a menos que fale por toda a semana.
— Não está indo mal — disse o Rei. — Não se pode esperar que uma coisa como essa ande bem o
tempo todo. A idéia está aí, e as pessoas estão começando a entendê-la, e essa é a grande coisa.
Tenho certeza de que funcionará.
— E a facção das Órcades?
— No tempo certo, eles entrarão nos eixos.
— É por causa de Gawaine? — perguntou Lancelot. — Qual é o problema com a facção das
Órcades?
O Rei pareceu embaraçado. Disse:

— O verdadeiro problema é Morgause, a mãe deles. Ela os criou com tão pouco amor e segurança,
que eles acham difícil entender a existência de pessoas bondosas. São desconfiados e tímidos. Não
compreendem a idéia como eu gostaria que compreendessem. Três deles estão aqui: Gawaine,
Gaheris e Agravaine. Não é culpa deles.
— Arthur fez sua primeira festa de Pentecostes no ano em que nos casamos — explicou Guenevere
— e mandou que todos fossem em busca de boas aventuras para ver como a idéia funcionava.

Quando voltaram, Gawaine tinha cortado a cabeça de uma mulher, e mesmo o querido e velho
Pellinore não conseguiu salvar uma donzela em perigo. Arthur ficou furioso com isso.

— A culpa não foi de Gawaine — disse o Rei. — Ele é um bom rapaz. Gosto dele. A culpa é
daquela mulher.
— Espero que desde então as coisas tenham corrido melhor...?
— Sim. é um trabalho lento, claro, mas tenho certeza de que posso dizer que as coisas têm corrido
melhor.
— Pellinore arrependeu-se?
Arthur respondeu:
— Sim. Não havia muito do que se arrepender. Foi uma de suas confusões. Mas o problema é que
ele ficou tão valente depois que se casou com a filha da Rainha de Flandres, que se habituou a
justas a sério, e quase sempre vence. Eu lhe contei como ele matou o Rei Lot um dia, quandoestavam treinando. Isso criou uma grande animosidade. Os rapazes das Órcades juraram vingar a
morte do pai, e estão em pé de guerra pelo sangue do velho Pellinore. Estou tendo muita
dificuldade para fazê-los se comportar.
— Lancelot vai ajudá-lo — disse a Rainha. — Será muito bom ter um velho amigo com quem
contar.
— Sim, será ótimo. Agora, Lance, imagino que gostará de ver seu quarto.
Estavam na segunda metade do verão e, em Camelot, os falcoeiros amadores traziam seus falcões
peregrinos para a última etapa de treino. Se você for um falcoeiro inteligente, seu falcão
rapidamente fica pronto para voar. Se não for, está sujeito a cometer erros, e o resultado é que
atrasará o treinamento de seu falcão. Assim, todos os falcoeiros em Camelot estavam tentando
mostrar que eram inteligentes, iniciando seus falcões o mais rápido possível, e se você fosse dar
um passeio, por todas as direções encontraria donos de falcão irascíveis, estendendo suas
avessadas e discutindo com seus assistentes. A falcoaria, como James observara, é uma atiçadora
de paixões extremas. Isso porque os próprios falcões são criaturas temperamentais e contagiam as
pessoas que lidam com eles.

Arthur presenteou Sir Lancelot com um gerifalte semi-engaiolado, para que se divertisse. Era uma
grande honra, pois os gerifaltes supostamente deveriam ser usados apenas pelos reis. De qualquer
maneira, isso é o que nos diz a Abadessa Juliana Berner{14} — talvez incorretamente. A um
imperador, concedia-se uma águia, um rei poderia ter um gerifalte e, depois, havia o peregrino para
um duque, o esmerilhão para uma dama, o açor para um senhor-rural, o gavião para um padre, e o
gavião-pomba para um sacristão. Lancelot ficou feliz com o presente e, imediatamente, entrou na
competição com os outros irritados falcoeiros, que trabalhavam duro e criticavam um o método do
outro, trocando mensagens de veneno açucarado entre si e ficando com os olhos cada vez mais
febris.

O gerifalte que Lancelot ganhou não passara adequadamente por sua troca de penas. Como Hamlet,
era gordo e de pouco fôlego. Sua longa reclusão nas gaiolas, enquanto mudava as penas, deixara-o


em um estado soturno e temperamental. Assim, Lancelot teve que fazê-lo voar com avessada por
vários dias, antes de ter certeza que estava pronto para a isca.

Se você alguma vez já fez um falcão voar com avessada, que é uma corda fina e comprida presa às
argolas do pássaro para que ele não possa fugir, sabe como isso pode ser um aborrecimento.
Atualmente, as pessoas usam um molinete de pesca, que torna mais fácil soltar ou enrolar a linha —
mas na época de Lancelot não havia bons molinetes, e você tinha simplesmente que enrolar a
avessada em um novelo, como um barbante. Isso estava sujeito a dois terríveis pesadelos, o
primeiro era o horror peculiar a todos os novelos — quando eles invariavelmente tornam-se um
emaranhado em vez de novelo. O segundo era que, ao soltar o falcão em um campo que não tivesse
sido cuidadosamente roçado, a corda podia se enrolar em cardos ou tufos de grama, refreando o
falcão e prejudicando o treino. Assim, Lancelot e todos os outros homens coléricos andavam por
Camelot numa atmosfera azedada por nós, competição e falcões emaranhados.

O Rei Arthur pedira a sua esposa que fosse gentil com o rapaz. Ela gostava muito do esposo e tinha
compreendido que se interpusera entre ele e o amigo. Não era tola para tentar se desculpar com
Lancelot por isso, mas tinha simpatizado com o jovem, por si mesmo. Gastou de seu rosto
imperfeito, por mais feio que fosse, e Arthur havia lhe pedido para ser gentil. Faltavam assistentes
em Camelot para os falcoeiros, porque havia gente demais praticando a falcoaria. Assim
Guenevere começou a acompanhar Lancelot para auxiliá-lo com os novelos de corda.

Ele não reparava muito nela. "Aí vem aquela mulher", dizia a si mesmo, ou "Lá vai aquela mulher",
já estava profundamente mergulhado na atmosfera da falcoaria, que só parcialmente era assunto
para mulheres, e raras vezes pensava na Rainha mais do que o necessário. Apesar de sua feiúra,
Lancelot havia crescido encantadoramente cortês, e tinha demasiada consciência de si mesmo para
se permitir ter pensamentos mesquinhos por muito tempo. Seu ciúme fizera-o indiferente à presença
dela. Continuou amestrando seu falcão, agradecendo a ela com cortesia pela ajuda e aceitando-a
polidamente.

Um dia, aconteceu uma complicação particular com um cardo, e ele havia calculado mal a
quantidade de comida que deveria ter lhe dado no dia anterior. O gerifalte estava de péssimo
humor, e Lancelot deixou-se contagiar por esse estado de espírito. Guenevere, que não era
particularmente boa com falcões e não tinha interesse especial por eles, assustou-se com seu cenho
carregado e, porque estava assustada, tornou-se desajeitada. Tentava delicadamente ajudar da
melhor maneira possível, mas sabia que não era muito boa na falcoaria e estava confusa. Com
muito cuidado e gentileza, e com a melhor das intenções, enrolou a corda de maneira
completamente errada. Com um gesto quase rude, Lancelot puxou o deplorável novelo de suas
mãos.

— Está horrível — disse ele, e, com os dedos irritados, começou a desfazer o bem-intencionado
trabalho dela. As sobrancelhas do cavaleiro franziram-se numa carranca horrível.
Por um momento, tudo ficou quieto. Guenevere parou, com o coração ferido, Lancelot, sentindo sua
imobilidade, parou também. O falcão deixou de se debater e as folhas não farfalharam.

O jovem compreendeu, nesse momento, que havia ferido uma pessoa de verdade, de sua mesma


idade. Viu em seus olhos que ela o considerava odioso, e que ele a surpreendera muito
negativamente. Ela tinha sido amável, e ele retribuíra com indelicadeza. E o mais importante é que
ela era realmente uma pessoa. Não era atrevida, nem mentirosa, nem desdenhosa e sem coração.
Era a linda Jenny, capaz de pensar e sentir.



V


As duas primeiras pessoas a notarem que Lancelot e Guenevere estavam se apaixonando um pelo
outro foi Tio Dap e o próprio Rei Arthur. Arthur fora avisado sobre isso por Merlin — que agora
estava bem trancado em sua caverna pela volúvel Nimue — e, inconscientemente, temia-o. Mas,
como ele sempre odiou saber o futuro, tinha conseguido afastar aquilo da cabeça. A reação de Tio
Dap foi pregar um sermão a seu discípulo, enquanto estavam nas gaiolas com o gerifalte castigado.

— Pelos Pés de Deus! — disse Tio Dap, com outras exclamações do gênero. — O que é isso? O
que você está fazendo? Será que o melhor cavaleiro da Europa vai jogar fora tudo que lhe ensinei,
pelos lindos olhos de uma dama? Além do mais, uma dama casada!
— Não sei sobre o que você está falando.
— Não sabe! Não quer saber! Mãe Santíssima! — gritou Tio Dap. — É de Guenevere que estou
falando, ou não é? Glória a Deus para todo o sempre!
Lancelot pegou o velho cavaleiro pelos ombros e o sentou em um banco.

— Olhe, tio — disse com determinação. — Ando querendo falar com você. Já não é hora de voltar
para Benwick?
— Benwick! — exclamou seu tio, como se tivesse sido apunhalado no coração.
— Sim, Benwick. Você não pode continuar fingindo ser meu escudeiro para sempre. Primeiro,
porque você é irmão de dois reis, e segundo, é três vezes mais velho do que eu. Seria contra as leis
das armas.
— Leis das armas! — gritou o velho. — Puuufff!
— Bem, não adianta nada dizer puuufff.
— E eu que ensinei tudo o que você sabe! Eu, voltar para Benwick sem tê-lo visto realmente postoà prova! Pois até agora você ainda sequer usou sua espada na minha presença, não usou Foyeux! Éingratidão, perfídia, traição! É dor de levar ao túmulo! Por minha fé! Pelos céus!
E o transtornado velho explodiu em uma longa torrente de exclamações gaulesas, incluindo Per
Spkndorem Dei, a assim chamada praga de Guilherme, o Conquistador, e a Pasque Dieu, que era a
idéia que o imaginário Rei Luís XI tinha de piada. Inspirado pelo encadeamento real de
pensamento, acrescentou as exclamações de Rufus, Henrique I, John, e Henrique III, que eram,


nessa ordem, Pela Santa Face de Lucas, Pela Morte do Senhor, Pelos Dentes de Deus, e Pela
Cabeça de Deus. O gerifalte, parecendo apreciar a exibição, agitou as penas com entusiasmo, como
uma faxineira sacudindo um pano de pó na janela.

— Bem, se você não quer ir, não vá — disse Lancelot. — Mas por favor não me fale da Rainha.
Não posso evitar se gostamos um do outro, e não há nada de errado em gostar das pessoas, há? Não
é como se a Rainha e eu fôssemos vilões. Quando começa a me fazer sermões sobre ela, você faz
com que pareça que há alguma coisa de errado entre nós. É como se pensasse mal de mim, ou não
acreditas em minha honra. Por favor, não mencione esse assunto outra vez.
Tio Dap revirou os olhos, desalinhou os cabelos, estalou os nós dos dedos, beijou as pontas dos
dedos, e fez outros gestos calculados para expressar seu ponto de vista. Mas não voltou a tocar
naquele caso de amor.

A reação de Arthur ao problema foi complicada. O aviso de Merlin sobre sua esposa e seu melhor
amigo continha em si as sementes de sua própria contradição, pois um amigo dificilmente pode ser
um amigo se também vai se tornar um traidor. Arthur adorava sua Guenevere de pétalas de rosas
por sua irnpetuosidade, e tinha um respeito instintivo por Lancelot, que logo se transformara em
afeição. Isso tornava difícil tanto suspeitar deles como não suspeitar.

A conclusão a que chegou foi que seria melhor resolver o problema levando Lancelot com ele para
a guerra Romana. Isso, de qualquer modo, afastaria o rapaz de Guenevere, e seria agradável ter ao
lado seu discípulo — um excelente soldado —, fosse o aviso de Merlin verdadeiro ou não.

A guerra Romana era uma questão complicada, que estivera fermentando durante anos. Não
precisamos nos preocupar muito com ela. Foi, à sua maneira, a conseqüência lógica de Bedegraine

— a continuação daquela batalha em escala européia. A idéia feudal da guerra para resgates fora
esmagada na Inglaterra, mas não no exterior, e agora os caçadores estrangeiros de resgate estavam
atrás do Rei recém-estabelecido. Um nobre chamado Lucius, que era o Ditador de Roma — e é
estranho pensar que Ditador é exatamente a palavra usada por Malory —, tinha enviado uma
embaixada para pedir tributo a Arthur — era chamado de tributo antes da batalha e de resgate
depois —, à qual o Rei, depois de consultar seu parlamento, respondeu que nenhum tributo era
devido. Assim, o Ditador Lucius declarou a guerra. Ele também enviou mensageiros, como Lars
Porsena a Macaulay, a todas as direções em volta, para reunir aliados. Tinha não menos do que
dezesseis reis marchando com ele de Roma à Alta Germânia, em seu caminho para a batalha com aInglaterra. Tinha aliados de Ambage, Arras, Alexandria, índia, Hermonie, Eufrates, África, Europa
a Grande, Eritréia, Elamic, Arábia, Egito, Damasco, Damiete, Cairo, Capadócia, Tarso, Turquia,
Ponto, Pampoille, Síria e Galácia, além de outros da Grécia, Chipre, Macedônia, Calábria,
Catalunha, Portugal, e muitos milhares de espanhóis.
Durante as primeiras semanas da paixão de Lancelot por Guenevere, chegou o momento de Arthur
atravessar o Canal para encontrar seus inimigos na França — e foi para essa guerra que decidiu
levar com ele o rapaz. Lancelot, nessa época, ainda não era, claro, reconhecido como o principal
cavaleiro da Távola Redonda, ou teria sido levado de qualquer forma. Até esse momento de sua
vida, só havia lutado uma justa com o próprio Arthur, e o comandante reconhecido dos cavaleiros
era Gawaine.


Lancelot ficou zangado por ter sido afastado de Guenevere, porque sentiu que isso implicava falta
de confiança. Alem do mais, sabia que Sir Tristão fora deixado com a esposa do Rei Mark da
Cornualha em ocasião semelhante. Não entendia por que não fora, da mesma maneira, deixado com
Guenevere.

Não é preciso entrar em todos os pormenores da história da campanha Romana, embora tenha
durado vários anos. Foi o tipo comum de guerra, com muitos encontrões e gritos de ambos os lados,
grandes golpes infligidos, muitos homens derrubados, e grandes valentias, proezas e feitos de
armas exibidos todos os dias. Foi uma Bedegraine maior — com a mesma recusa de Arthur a
considerá-la um esporte ou negócio comercial —, embora tivesse seus traços característicos. O
Ruivo Gawaine perdeu a cabeça quando enviado em uma embaixada e matou um homem no meio
das negociações. Sir Lancelot liderou uma batalha terrível na qual seus homens eram menos
numerosos, na proporção de três para um. Ele matou o Rei Lily e três grandes nobres chamados
Alakuke, Herawd e Heringdale. Durante a campanha três famosos gigantes foram abatidos — dois
deles pelo próprio Arthur. Finalmente, na última batalha, Arthur desferiu no Imperador Lucius um
tal golpe na cabeça que Excalibur não se deteve até chegar-lhe ao peito, e se verificou que o Sultão
da Síria, o Rei do Egito e o Rei da Etiópia — um ancestral de Haylé Selassíe —, além de
dezessete outros reis de várias regiões e sessenta senadores de Roma, estavam entre os mortos.
Arthur colocou seus corpos em caixões suntuosos — não por sarcasmo — e os enviou ao Prefeito
de Roma, em lugar do tributo que lhe tora exigido. Isso persuadiu o Prefeito e quase toda a Europa
a aceita-lo como o grande suserano. Os territórios de Placência, Pávia, São Pedro, e o porto de
Tremble, lhe prestaram homenagem. A convenção feudal para a guerra fora efetivamente rompida,
tanto no Continente quanto na Inglaterra.

Durante a campanha de guerra, Arthur tornou-se verdadeiramente amigo de Lancelot e, quando
voltaram para casa, já não acreditava, de jeito nenhum, na profecia de Merlin. Abandonara-a no
fundo de sua mente. Lancelot foi reconhecido como o melhor dos combatentes de todo o exército.
Ambos estavam determinados a não deixar Guenevere se interpor entre eles, e os primeiros anos
transcorreram sem problemas.


VI


A essa altura, que tipo de idéia as pessoas faziam de Sir Lancelot? Talvez só pensassem nele como
um jovem feio e bom nos jogos. No entanto, ele era mais do que isso. Era um cavaleiro com um
respeito medieval pela honra.

Há uma frase que você às vezes encontra, ainda hoje, nos distritos rurais, e resume em boa parte o
que poderia ser dito dele. Como elogio ou cumprimento, os camponeses tia Irlanda dizem: "Fulano
de Tal tem Palavra. Fará o que prometeu".

Lancelot procurava ter Palavra. Considerava-a, como as pessoas do campo ainda consideram, o
mais valioso dos bens.

Mas o curioso era que, por baixo dessa viga-mestra de cumprir o prometido a si mesmo e aos
outros, a sua era uma natureza contraditória que estava longe de ser santa. Sua Palavra era valiosapara si mesmo não apenas porque ele era bom, mas também porque era mau. É uma pessoa má que
precisa ter princípios para refreá-la. Para começar, ele gostava de ferir as pessoas. Era pela
estranha razão de ser cruel que o infeliz nunca matava um homem que pedia misericórdia, nem
cometia uma ação cruel que podia evitar. Uma das razoes pelas quais se apaixonou por Guenevere
foi porque primeiro a magoara. Talvez nunca a tivesse notado como pessoa, se não tivesse visto a
dor nos olhos dela.

As pessoas têm motivos bizarros para tornar-se santos. Um homem, que não fosse atormentado peia
ambição de ser digno, poderia simplesmente ter fugido com a esposa de seu herói e, então, talvez, a
tragédia de Arthur nunca tivesse acontecido. Um sujeito comum, que não passasse metade de sua
vida se torturando para tentar descobrir o que era certo, a fim de conter sua inclinação para o mal,
poderia ter cortado o nó que trouxe a desgraça a todos eles.

Quando os dois amigos chegaram à Inglaterra, vindos da guerra Romana, a frota ancorou em
Sandwich. Era um dia cinzento de setembro, as borboletas azuis e cor de cobre esvoaçavam na
relva de outono, as perdizes gritavam como grilos, as amoras pretas ganhavam cor, e as avelãs
ainda criavam suas castanhas insípidas em berços de rama de algodão. A Rainha Guenevere estava
na praia, esperando-os, e a primeira coisa que Lancelot percebeu, depois que ela beijou o Rei, foi
que aquela mulher seria capaz de se interpor entre eles, afinal. Fez um movimento como se suas
entranhas estivessem se amarrando em nós, cumprimentou a Rainha, e imediatamente foi para a
cama na estalagem mais próxima, onde passou acordado a noite toda. De manhã, pediu licença para


se afastar da Corte.

— Mas você praticamente nem esteve na Corte — disse Arthur. — Por que quer partir tão cedo?
— Tenho de partir.
— Tem de partir? — perguntou o Rei. — O que quer dizer com isso?
Lancelot apertou os punhos até os nós dos dedos aparecerem e disse:
— Quero partir em uma busca. Quero encontrar uma aventura.
— Mas, Lance...
— É para isso que a Távola Redonda existe, não é? — o jovem exclamou. — Os cavaleiros devem
sair em buscas, para lutar contra a Força, não devem? Por que você está tentando me deter? Este é
o ponto principal da idéia.
— Ora, vamos — disse o Rei. — Não precisa se irritar por isso. Se é isso o que deseja, é claro
que pode fazer o que quiser. Só pensei que seria ótimo ter você conosco por algum tempo. Não se
aborreça, Lance. Não sei o que deu em você.
— Volte logo — disse a Rainha.

VII


Este foi o começo das famosas buscas. Elas não foram feitas para conquistar fama, nem por
diversão. Foram uma tentativa de fugir de Guenevere. Foram sua luta para salvar a honra, não para
afirmá-la.

Teremos que descrever uma dessas buscas em detalhes — para mostrar como ele tentava pensar em
outra coisa, e o modo como essa sua famosa honra funcionava. Isso também dará uma imagem da
situação da Inglaterra que forçava o Rei Arthur a trabalhar por sua teoria de justiça. Não que Arthur
fosse um pedante, mas seu país de Gramarye estava em tal estado de anarquia nos primeiros
tempos, que era necessário uma idéia como a da Távola Redonda para que a região sobrevivesse.
As guerras de pessoas como Lot tinham acabado, mas não o baronato insubmisso que vivia como
gângsteres em seus territórios. Barões estavam arrancando dentes de judeus para tomar-lhes o
dinheiro, ou assando os bispos que os contradiziam. Os servos feudais, que pertenciam a senhores
ruins, estavam sendo regados com gordura em fogo lento, ou borrifados com chumbo derretido, ou
empatados, ou abandonados para morrer com os olhos arrancados, ou estavam se arrastando pelos
caminhos nas mãos e nos joelhos porque tinham sido jarretados. Pequenas hostilidades
transformavam-se em destruição dos pobres e fracos, e, se um cavaleiro chegasse a ser derrubado
do cavalo em uma batalha, estaria tão bem aparafusado que só um especialista poderia lhe fazer
algum mal. Philip Augustus da França, por exemplo, foi derrubado e cercado na lendária Batalha de
Bouvines; no entanto, como a infeliz infantaria era completamente incapaz de perfurá-lo, foi salvo
logo depois e continuou a lutar ainda melhor porque se irritara. Mas a história da primeira busca de
Lancelot pode falar, como exemplo, sobre aqueles conturbados tempos da Força.

Havia dois cavaleiros nas fronteiras de Gales chamados Sir Carados e Sir Turquine. Eram de
ascendência celta. Esses dois barões conservadores nunca tinham se rendido a Arthur, e não
acreditavam em nenhuma forma de governo exceto na lei da Força. Possuíam castelos poderosos e
servidores cruéis que, sob a liderança deles, tinham mais oportunidades para maldades do que
teriam em uma sociedade organizada. Eram como águias, prontos para caírem sobre seus
semelhantes mais fracos. Mas é injusto compará-los a águias, pois muitas dessas aves são criaturas
nobres, enquanto Sir Turquine em nenhuma circunstância era nobre. Se vivesse agora é bem
possível que fosse internado em um hospício, e seus amigos certamente insistiriam para que fosse
psicanalisado.

Um dia, quando Sir Lancelot estivera cavalgando havia quase um mês em sua aventura — e todo o


tempo se distanciando mais de onde queria estar, de maneira que cada passo dado por seu cavalo
era um tormento —, surgiu um cavaleira com armadura, cavalgando uma grande égua, com outro
cavaleiro amarrado e jogado de través na sela. O cavaleiro amarrado estava desmaiado. Sangrava
e estava todo sujo de lama, e sua cabeça, que pendia de um lado da égua, tinha os cabelos ruivos. O
cavaleiro montado que o havia capturado homem de estatura enorme, e Lancelot reconheceu-o pelo
brasão como Sir Carados.

— Quem é o seu prisioneiro?
O enorme cavaleiro levantem o escudo do prisioneiro, que estava pendurado atrás, e mostrou que
era dourado, as divisas em vermelha, entre três cardos verdes.

— O que você está fazendo com Sir Gawaine?
— Não é da sua conta — respondeu Sir Carados.
Gawaine deve ter recobrado a consciência quando a égua parou, pois sua voz agora dizia, vindo de
baixo para cima:

— Homem, é mesmo você, Sir Lancelot?
— Ora, vivas, Gawaine. Como vai a coisa?
-— Nunca tão dura — respondeu Sir Gawaine —, a menos que possats me ajudar, pois, caso
contrário, não conheço outro cavaleiro que possa.
Ele estava falando formalmente na Alta Língua da Cavalaria, pois naquele tempo havia dois tipos

de discurso como o alto e o baixo alemão ou o francês normando e o inglês saxão.
Lancelot olhou para Sir Carados e disse em vernáculo:

— Que tal colocar esse sujeito no chão e lutar comigo no lugar dele?
— Você é um tolo —-disse Sir Carados. — Receberá o mesmo tratamento.
Então, os dois puseram Gawaine no chão, ainda amarrado para não fugir, e se prepararam para a
batalha. Sir Carados tinha um escudeiro para lhe passar a lança, mas Sir Lancelot havia insistido
para to Dap ficar em casa. Teria que se bastar sozinho.

O combate foi diferente daquele com Arthur. Para começar, os cavaleiros estavam mais em
igualdade e, no enfrentamento, nenhum deles foi desmontado. Estilhaçaram suas lanças de freixo,
mas ambos se mantiveram montados e os cavalos agüentaram o golpe. Na esgrima que se seguiu,
Lancelot provou que era melhor. Depois de pouco mais de uma hora de combate, conseguiu aplicar
um golpe tal no elmo de Sir Carados que quebrou sua caixa craniana — e, então, enquanto o morto
ainda se balançava na sela, agarrou-o pelo pescoço, puxou-o para baixo das patas do cavalo,
desmontou-se no mesmo instante, e cortou sua cabeça. Libertou Sir Gawaine, que lhe agradeceu
calorosamente, e saiu outra vez cavalgando pelos ermos caminhos da Inglaterra, sem pensar em
Carados outra vez. Deu de encontro com um jovem primo seu, Sir Lionel, e cavalgaram os dois em
busca de erros para corrigir. Mas foi imprudência deles esquecer Sir Carados.

Um dia, quando já haviam cavalgado muito tempo, chegaram a uma floresta em um meio-dia


abafado, e Lancelot estava tão extenuado por sua luta interior por causa da Rainha, e também pelo
calor, que sentiu que precisava parar. Lionel também se sentia sono-lento, portanto decidiram
deitar debaixo de uma macieira perto de uma sebe, depois de amarrar os cavalos nos ramos.
Lancelot imediatamente caiu no sono — mas o zumbido das moscas manteve Sir Lionel acordado e,
enquanto ele assim permanecia, uma cena curiosa começou a se desenrolar perto dali.

Tratava-se de três cavaleiros completamente armados, galopando em fuga, perseguidos por um
único cavaleiro. Os cascos dos cavalos trovejavam batendo no solo e o fazia tremer — motivo
pelo qual era estranho Lancelot não ter acordado -—, até que, uma por uma, o gigantesco
perseguidor alcançou suas vítimas, derrubou-as, e as amarrou como prisioneiras.

Lionel era um rapaz ambicioso. Pensou que poderia roubar um ponto de seu famoso primo.
Levantou-se silenciosamente, endireitou a armadura e partiu para desafiar o vitorioso. Em menos
de um minuto, ele também estava derrubado no chão, tão amarrado que não podia se mover, e, antes
que Lancelot despertasse, todo o préstito tinha desaparecido. O misterioso vencedor das quatro
batalhas era Sir Turquine, irmão do Carados que Lancelot matara recentemente. Tinha o hábito de
levar os prisioneiros para seu sombrio castelo onde lhes tirava todas as roupas e os espancava até
se sentir satisfeito, como se fosse um hobby.

Lancelot ainda estava dormindo quando um novo cortejo se aproximou, saltitante. No meio, havia
um dossel de seda verde apoiado em quatro lanças levadas por quatro cavaleiros magnificamente
trajados. Sob o dossel cavalgavam quatro rainhas de meia-idade em mulas brancas, de aparência
pitoresca. Elas estavam passando pela macieira quando o cavalo de Lancelot soltou um relincho
estridente.

A Rainha Morgana Le Fay, que era a mais velha das quatro — todas bruxas —, parou o cortejo e,
em seu cavalo, aproximou-se de Lancelot. Ele parecia perigoso, deitado ali com armadura
completa de guerra, entre a erva alta.

— É Sir Lancelot!
Nada viaja mais rápido que um escândalo, especialmente entre pessoas sobrenaturais. Assim, as
quatro rainhas sabiam que ele estava apaixonado por Guenevere. Sabiam também que ele já era
reconhecido como o cavaleiro mais forte do mundo. Tinham inveja de Guenevere por causa disso.
Ficaram encantadas com a oportunidade que viam à sua frente. Começaram a discutir entre si sobre
qual delas deveria tê-lo, com sua magia.

— Não precisamos brigar — disse Morgana Le Fay. — Farei um encantamento para que ele durma
por mais seis horas. Quando o tivermos seguro em meu castelo, ele poderá escolher por si mesmo
com quai de nós quer ficar.
Assim foi feito. O campeão adormecido foi levado em seu escudo, carregado por dois cavaleiros,
até o Castelo Chariot. O castelo já não tinha a aparência ilusória de um castelo de contos-de-fadas,
mas um aspecto normal de fortaleza comum. Ele foi colocado profundamente adormecido em um
quarto frio, sem nada, e ali deixado até o encantamento passar.


Quando Lancelot acordou, não soube onde estava. O quarto era escuro e parecia ser feito de pedra,
como uma masmorra, Ficou deitado, imaginando o que aconteceria a seguir. Depois, começou a
pensar na Rainha Guenevere.

O que aconteceu a seguir foi que apareceu uma jovem com seu jantar e lhe perguntou como estava.

— Como está, Sir Lancelot?
— Não sei, bela donzela. Não sei como vim parar aqui, portanto não sei realmente como estou.
— Não precisa ter medo — ela disse. — Se você é um homem tão magnífico, como dizem que é,
talvez eu possa ajudá-lo amanhã de manhã.
— Obrigado. E possa ou não me ajudar, gostaria que você pensasse bem de mim.
E assim a donzela foi embora.

De manhã, houve barulho de ferrolhos e ranger de fechaduras enferrujadas e vários guardas com
cotas de malha entraram na masmorra. Alinharam-se em ambos os lados da porta e as rainhas
mágicas entraram atrás deles, todas vestidas com suas melhores roupas. Cada uma delas fez uma
cortesia majestosa para Sir Lancelot. Ele permaneceu de pé, educadamente, e se inclinou de modo
circunspecto diante de cada rainha. Morgana Le Fay apresentou-as como a Rainha de Gore,
Northgalis, Eastland e das Ilhas Exteriores.

— Quanto a nós — disse Morgana Le Fay —, sabemos quem você é. Você é Sir Lancelot Dulac, e
está tendo um caso de amor com a Rainha Guenevere. E considerado o melhor cavaleiro do mundo,
e é por isso que a mulher gosta de você. Bom, tudo isso acabou agora. Nós quatro rainhas temos
você em nosso poder, e agora você terá de escolher uma de nós para sua amante. Obviamente, não
seria bom se não pudesse escolher por si mesmo, mas terá de ser uma de nós. Qual será? Lancelot
respondeu:
— Como posso responder a isso?
— Terá de responder.
— Em primeiro lugar — de disse —, o que você falou sobre mim e a esposa do Rei da Bretanha
não é verdadeiro. Guenevere é a dama mais fiel no reino de seu senhor. Se eu estivesse livre, ou
tivesse minha armadura, lutaria contra qualquer campeão que vocês quisessem para provar o que
disse. E, em segundo lugar, eu com certeza não terei nenhuma de vocês como amante. Lamento se
parecer uma descortesia, mas é tudo que posso dizer.
— Oh! — disse Morgana Le Fay.
— Sim — disse Lancelot.
— Isto é tudo?
— Sim.
Com gélida dignidade, as quatro rainhas fizeram uma mesura e saíram do quarto. As sentinelas
deram uma elegante meia-volta, suas cotas de malha retinindo no chão de pedra. A luz desapareceu.
A porta bateu, a chave rangeu, e os ferrolhos ressoaram nos encaixes.


Quando a bela donzela voltou com a refeição seguinte, mostrou sinais de querer falar com ele.
Lancelot notou que ela era uma criatura audaciosa, que provavelmente gostava de fazer as coisas a
sua maneira.

— Você disse que talvez pudesse me ajudar?
A jovem olhou-o com desconfiança e respondeu:
— Posso ajudá-lo se você for quem dizem que é. Você é realmente Sir Lancelot?
— Receio que sim.
— Eu o ajudarei, se você me ajudar — ela disse. E então irrompeu em lágrimas.
Enquanto a donzela está chorando, o que fazia de maneira encantadora e determinada, é melhor
explicarmos como eram os torneios que costumavam acontecer em Gramarye nos primeiros tempos.
Um verdadeiro torneio era diferente de uma justa. Em uma justa, os cavaleiros se enfrentavam e
esgrimiam um contra o outro, sozinhos, por um prêmio. Um torneio, porém, era mais como uma luta.
Um grupo de cavaleiros escolhia o lado, e seriam vinte ou trinta de cada lado e então se
precipitavam todos ao mesmo tempo, desordenadamente. Esses combates coletivos eram
considerados importantes — por exemplo, se você tivesse pago sua taxa de campo para o torneio,
com o mesmo bilhete seria admitido para as justas, mas se tivesse pago só a taxa da justa, não lhe
seria permitido lutar no torneio. Estava-se sujeito a ser ferido gravemente nessas confusões. Não
eram de todo más, desde que fossem adequadamente controladas. Infelizmente, nos primeiros
tempos, raramente elas eram controladas.

A Alegre Inglaterra do tempo de Pendragon era um pouco como a Pobre Velha Irlanda de
O'Connell{15}. Havia facções. Os cavaleiros de um condado, ou os habitantes de um distrito, ou os
guardas de um nobre, poderiam chegar a odiar a facção vizinha. Esse ódio poderia se transformar
em hostilidades, e então o rei ou líder de um lugar desafiaria o líder do outro para um torneio — e
as duas facções iriam para o encontro com a firme intenção de fazer mal uma à outra. Era a mesma
coisa nos tempos dos papistas e protestantes, dos Stuart e orangístas, que se enfrentavam com
clavas em punho e morte no coração.

— Por que você está chorando? — perguntou Sir Lancelot.
— Oh, meu Deus — soluçou a donzela. — Aquele horrível Rei de Northgalis desafiou meu pai
para um torneio na próxima terça, e ele está com três cavaleiros do Rei Arthur do seu lado, e meu
pobre pai com certeza vai perder. Temo que fique ferido.
— Entendo. E como se chama seu pai?
— Ele é o Rei Bagdemagus.
Sir Lancelot levantou-se e a beijou polidamente na testa. Compreendeu imediatamente o que ela
esperava dele.

— Muito bem — disse. — Se você me tirar desta prisão, combaterei na facção do Rei Bagdemagus
na próxima terça.

— Ah, muito obrigada — disse a donzela, torcendo o lenço. — Agora tenho que ir ou darão por
minha falta lá em baixo.
Naturalmente, ela não ia ajudar a Rainha mágica de Northgalis a manter Lancelot prisioneiro,
quando o próprio Rei de Northgalis era quem lutaria contra o seu pai.

De manhã, antes que o povo do castelo se levantasse, Lancelot escutou a pesada porta se abrindo
com cuidado. Sentiu uma mão macia na sua, e foi conduzido pela escuridão. Passaram por doze
portas mágicas, até chegarem ao arsenal, e lá estava sua armadura brilhando e pronta. Depois de
colocá-la, foram para os estábulos, e lá estava seu cavalo riscando as pedras do chão com a
ferradura cintilante.

— Lembre-se.
— Claro — ele disse. E cavalgou pela ponte levadiça, rumo à luz da manhã.
Enquanto passavam sorrateiramente pelos corredores do Castelo Chariot, fizeram um plano para
encontrar o Rei Bagdemagus. Lancelot deveria cavalgar até uma abadia de frades carmelitas
próximo dali, e lã se encontraria com a donzela que, é claro, seria obrigada a fugir da Rainha
Morgana por sua traição ao ajudá-lo a escapar. Nessa abadia, esperariam até que o Rei
Bagdemagus pudesse aparecer, e então combinariam como seria õ torneio. Infelizmente, o Castelo
Chariot estava na Floresta Sauvage, e Lancelot perdeu-se no caminho para a abadia. Ele e seu
cavalo vagaram durante todo o dia, chocando-se contra galhos, emaranhando-se nas moitas de
amora silvestre, e perdendo rapidamente o humor. De tardezinha, toparam com um pavilhão de tela
vermelha, sem ninguém por perto.

Ele desceu do cavalo e olhou o pavilhão. Havia algo estranho ali, luxuoso como era no bosque de
gralhas, e sem ninguém à vista.

"É um pavilhão estranho", pensou com tristeza, pois sua mente estava com Guenevere, "mas acho
que de qualquer maneira posso passar a noite aqui. Ou ele está aqui para uma aventura qualquer e,
nesse caso, devo tentar a aventura, ou então os donos foram-se de férias e, nesse caso, não se
incomodarão se eu ficar por uma noite. De qualquer maneira, estou perdido, e não há nada mais que
eu possa fazer."

Desarreou o cavalo e o amarrou. Depois, tirou sua própria armadura e a pendurou com cuidado em
uma árvore perto, com o escudo por cima. Então, comeu um pouco do pão que a donzela lhe dera, e
bebeu água de um regato que corria ao lado do pavilhão, esticou os braços até os cotovelos
estalarem, bocejou, bateu três vezes com o punho nos dentes da frente e foi para a cama. Era uma
cama suntuosa, com uma coberta de tela vermelha para combinar com a tenda. Lancelot se cobriu,
pressionou o nariz contra o travesseiro de seda, beijou-o por Guenevere, e logo dormiu.

Havia luar quando ele acordou, e um homem nu estava sentado perto do seu pé esquerdo, aparando
as unhas.

Lancelot, que acordara de seu sonho de amor com um sobressalto, mexeu-se rapidamente na cama
quando viu o homem. O homem, igualmente surpreso ao sentir o movimento, pulou e agarrou sua
espada. Lancelot pulou para o outro lado da cama e correu para pegar suas armas, que estavam


penduradas na árvore. O homem veio atrás dele, brandindo a espada e tentando acertá-lo por trás.
Lancelot alcançou a árvore com segurança e girou de espada em punho. Eles pareciam estranhos e
terríveis a luz do luar, ambos completamente nus, com as lâminas pontiagudas de aço brilhando sob
a lua cheia.

— Agora — o homem gritou, e dirigiu uma pancada furiosa para as pernas de Lancelot.
No minuto seguinte, sua espada estava no chão e ele apertava a barriga com ambas as mãos,
dobrado em dois c resfolegando. O corte dado por Lancelot era um poço de sangue que parecia
preto ao luar, e era possível ver algumas partes do interior do estômago com sua vida secreta
aberta.

— Não me golpeie —-gritou o homem. — Misericórdia. Não me golpeie de novo. Você me matou.
— Lamento — disse Lancelot. — Você nem esperou eu pegar minha espada.
O homem continuou gemendo:
— Misericórdia! Misericórdia!
Lancelot enfiou a lâmina no chão e foi examinar a ferida.
— Não vou lhe fazer mal — ele disse. — Está tudo certo. Deixe-me ver.
— Você abriu meu fígado — o homem disse, acusador.
— Bem, mesmo que o tenha feito, só posso dizer que sinto muito. Nem sei por que estávamos
lutando. Apóie-se no meu ombro e vou levá-lo até a cama.
Deitou o homem na cama enquanto, estancando o sangramento, descobriu que a ferida não era
mortal, uma linda dama apareceu na abertura da tenda. Haviam acendido uma vela de junco
embebido em sebo, e ela viu em um relance o que acontecera e começou a gritar em alto e bom
som. Precipitou-se para confortar o homem ferido, acusando Lancelot de ser um assassino, e
continuou assim um longo tempo.

— Pare de gritar — disse o homem. — Ele não é um assassino. Apenas cometemos um erro.
— Eu estava deitado — disse Lancelot —, quando ele entrou e se sentou sobre mim, e ficamos os
dois tão espantados que começamos a lutar. Lamento tê-lo ferido.
— Mas era a nossa cama — gemeu a dama, como um dos Três Ursinhos. — O que você estava
fazendo em nossa cama?
— Lamento muito, realmente — ele disse. — Não havia ninguém no pavilhão quando cheguei aqui,
e eu estava perdido e cansado, então pensei que não teria importância se ficasse por uma noite.
— Não tem importância mesmo — o homem disse. — Você é bem-vindo para uma noite de sono, e
acho que a ferida não é grave, afinal. Posso perguntar seu nome?
— Lancelot.
— Céus! — exclamou o homem. — E essa agora, querida, veja com quem estive lutando. Não
admira que tenha levado um belo corte! Estava me perguntando por que minha vida foi poupada tão

facilmente.

Assim, eles insistiram para Lancelot passar a noite e, na manhã seguinte, indicaram-lhe o caminho
certo para a abadia dos frades carmelitas.

Não aconteceu muita coisa como conseqüência desse encontro, exceto que o cavaleiro, cujo nome
era Bellcus, foi introduzido na Távola Redonda por Lancelot tão logo se recuperou. Era o tipo de
cavaleiro generoso que Arthur precisava, e Lancelot tentou compensar o trabalho que lhe causara
conseguindo-lhe um assento à Távola.

Na abadia dos carmelitas a bela donzela esperava, em grande excitação. Temia que ele não
cumprisse a palavra. No entanto, os de seu cavalo mal soaram nas pedras e ela veio voando de seu
quarto na torre para, com grande prazer, lhe dar as boas-vindas.

— Meu pai estará aqui esta noite — disse. — Ah! Estou tão feliz por você ter vindo! Tinha medo
de que esquecesse.
A. boca torcida de Lancelot deu um sorriso forçado frente à palavra que ela escolhera. Depois,
tirou sua armadura, tomou um banho e esperou pelo Rei Bagdemagus.
— E uma vida confusa essa de Gramarye — ele disse consigo mesmo, tentando manter os
pensamentos longe da jovem Rainha.
— As coisas acontecem tão rapidamente. Boa parte do tempo, uma pessoa mal consegue saber onde
está, e há também aquele meu primo que desapareceu debaixo da macieira, o que ainda tem de ser
explicado. E com rainhas mágicas e torneios de facções, pessoas se enfiando em sua cama à noite e
metade da família desaparecendo sem deixar rastro, é difícil manter um rumo.
Então, ele penteou os cabelos, alisou sua roupa e desceu para encontrar o Rei Bagdemagus.

Não é preciso fazer uma longa descrição do torneio. Malory já desincumbiu-se da tarefa. Lancelot
escolheu três cavaleiros recomendados pela jovem donzela para acompanhá-lo, e combinou que
todos os quatro levariam o vergescu. Esse é o escudo branco que os cavaleiros inexperientes
carregam, e Lancelot insistiu nisso porque sabia que três de seus próprios companheiros da Távola
Redonda iam lutar do outro lado. Não queria que o reconhecessem, pois isso poderia causar
animosidades na Corte. Por outro lado, sentiu que era seu dever lutar contra eles por causa da
promessa que fizera à donzela. O Rei de Northgalis, que era o líder do lado oposto, tinha cento e
sessenta cavaleiros em sua facção, e o Rei Bagdemagus, apenas oitenta. Lancelot investiu contra o
primeiro cavaleiro da Távola Redonda e deslocou seu ombro. Investiu contra o segundo com tanta
força que o infeliz foi lançado por cima do rabo do seu cavalo e enterrou seu elmo vários
centímetros no chão. Atingiu o terceiro cavaleiro na cabeça com tanta força que escorreu sangue do
seu nariz, e seu cavalo fugiu com ele. No momento em que ele quebrou a coxa do Rei de Northgalis,
todo mundo pôde ver que, para todos os propósitos, o torneio tinha acabado.

O próximo passo de nosso herói foi partir para saber o que acontecera com Lionel. Pela primeira
vez, estava livre para fazer isso, pois, desde o desaparecimento do primo, ele ou estivera
prisioneiro das malignas rainhas ou tivera que cumprir suas obrigações com a donzela que o
salvara. Antes de sua partida, o Rei Bagdemagus ganhou o prêmio no torneio, e a donzela estava


quase em prantos de tão grata. Todos disseram que seriam amigos para sempre, e que se houvesse
algo que um pudesse fazer pelo outro bastaria que uma mensagem fosse enviada. Então Lancelot
montou em seu cavalo, conseguiu se orientar perguntando a vários camponeses em que lugar estava,
e cavalgou em direção à floresta da macieira onde havia perdido seu primo. Pensou que, fazendo
uma busca completa no lugar onde vira Lionel pela última vez, seria capaz de pegar seu rastro de
novo, embora tivesse passado muito tempo.

Na floresta da macieira, na verdade aos pés da mesma árvore, encontrou uma dama em um palafrém
branco. Supostamente, essa macieira era uma árvore mágica, motivo pelo qual havia todo esse
tráfego por ali.

— Senhora — ele perguntou —, poderia me dizer se há alguma aventura ocorrendo nesta floresta?
— Várias — ela respondeu —, se você for homem suficiente para aceitá-las.
— Eu poderia tentar.
— Você parece um homem forte — disse a dama. — Tem um jeito ousado também, apesar das
orelhas esticadas para fora tão medonhamente. Se quiser, eu o guiarei até onde vive o barão mais
cruel do mundo, mas com certeza ele matará você.
— Não faz mal.
— Só farei isso se você me disser seu nome. Seria assassinato levá-lo, a menos que você seja um
cavaleiro famoso.
— Meu nome é Lancelot.
— Foi o que pensei — disse a dama. — Bem, é uma sorte que seja. Segundo o que as pessoas estão
dizendo de você, provavelmente é o único cavaleiro no mundo que pode derrotar o homem a quem
vou levá-lo. Seu nome é Sir Turquine.
— Ótimo.
— Alguns dizem que ele é louco. Tem sessenta e quatro cavaleiros na prisão, que capturou em
combate homem a homem, e passa o tempo espancando-os com galhos de espinheiros. Se o
capturar, também espancará você completamente nu.
— Parece um homem interessante para enfrentar.
— É uma espécie de campo de concentração.
— E para isso que tenho me preparado — disse Sir Lancelot. — Foi para impedir isso que Arthur
inventou a Távola Redonda.
— Se eu o levar até ele, deve me prometer fazer uma coisa por mim depois, isto é, se vencer.
— Que tipo de coisa? — ele perguntou, cauteloso.
— Não precisa ter medo — disse a dama. — É apenas vencer outro cavaleiro que conheço, que
está afligindo algumas donzelas.
— Isso eu prometo, com prazer.

— Bem — disse a dama. — Deus, só Ele sabe como você se sairá. De qualquer modo, rezarei por
você durante o combate.
Depois que cavalgaram por algum tempo, chegaram a uma passagem parecida com aquela onde ele
havia lutado pela primeira vez com Rei Arthur. Elmos enferrujados e escudos melancólicos
estavam pendurados nas árvores em volta da passagem — eram sessenta e quatro, com suas
curvaturas e divisas, peixes, melros e águias e leões em guarda, com ar de desolação e abandono.
O couro das correias estava verde e bolorento. Parecia unia masmorra de guarda-de-caças.

No meio da clareira, na árvore principal, estava pendurada uma enorme bacia de cobre, triunfando
sobre os elmos batidos. O último escudo debaixo dela era o de Lionel — prata, uma faixa vermelha
descendente marcada com um tipo de selo de filho mais novo.

Lancelot sabia o que deveria fazer com essa bacia, e o fez. Colocou seu elmo em posição, cavalgou
pelas folhas caídas e, com a ponta de sua lança, bateu na bacia até o fundo cair. Então ele e a dama
ficaram emudecidos na floresta que parecia era escandalizado silêncio pelo barulho medonho.

Ninguém apareceu.

— O castelo dele é mais adiante — disse a dama.
Em silêncio, aproximaram-se dos portões do castelo, e por meia hora cavalgaram de um lado para
o outro frente a eles. Lancelot tirou seu elmo e manoplas, franziu o cenho, e roeu as unhas de
ansiedade.

Meia hora depois, um gigantesco cavaleiro veio cavalgando pela floresta. Parecia-se tanto com Sir
Carados — o cavaleiro que ele matara ao salvar Gawaine — que Lancelot ficou espantado. Não
apenas tinha a mesma constituição, como também trazia um cavaleiro atravessado no arção da sela
de sua égua. Ainda mais curioso, as divisas do escudo do cavaleiro carregavam os três cardos e a
divisa, com um cantão vermelho. De fato, o segundo dos grandes cavaleiros tinha capturado
Gaheris — o irmão de Gawaine. Lancelot observou-o com olho crítico.

Talvez não seja inoportuno mencionar que um bom juiz de estilo poderia muitas vezes reconhecer
um cavaleiro com armadura, mesmo se estivesse disfarçado e portando o vergescu. Mais tarde na
vida, lot às vezes teve que lutar disfarçado, caso contrário ninguém lutaria com ele. No entanto,
Arthur e os outros geralmente adivinhavam que era ele por seu jeito de cavalgar. Hoje, as pessoas
podem reconhecer os jogadores de críquete, mesmo quando estão muito distantes para lhes ver o
rosto, e era a mesma coisa naquela época.

Lancelot era um bom juiz de estilo, devido a sua grande prática. Assim que viu Sir Turquine por um
ou dois momentos, observou um leve defeito na sua maneira de sentar. Comentou com a dama que,
a menos que Turquine se assentasse melhor em sua montaria, ele achava que seria capaz de salvar
os prisioneiros. Conforme se verificou logo, Turquine adequou-se melhor à sua sela quando chegou

o momento do enfrentamento, de modo que essa crítica particular resultou em nada — mas ela
esclarece alguma coisa em relação às justas e pode ter valido a pena mencioná-la.
A maneira de cavalgar era tudo. Se um homem tivesse a coragem de se arremessar a pleno galope
no momento do impacto, não raro venceria. A maioria vacilava um pouco c, portanto, não estava


em seu melhor momento. Era por isso que Lancelot constantemente ganhava as justas. Tinha o que
Tio Dap chamava de élan. As vezes, quando estava disfarçado, cavalgava de maneira desajeitada
de propósito, mostrando-se desleixado na sela. Mas no último momento acontecia sempre a
verdadeira arremetida — e assim os espectadores, e muitas vezes seu infeliz; oponente,
exclamariam "Ah, Lancelot!", mesmo antes de a lança chegar a seu destino.

— Ilustre cavaleiro — ele disse —, ponha esse homem ferido no chão e deixe-o descansar um
pouco. Então nós dois poderemos medir nossas forças.
Sir Turquine aproximou-se e disse entre os dentes:

— Se você é um cavaleiro da Távola Redonda, terei grande prazer em derrubá-lo primeiro e
vergastá-lo depois. Posso fazer isso com você e toda a sua Távola juntos.
— Parece uma extravagância.
A seguir, eles se retiraram da maneira usual, colocaram a lança em posição, e se arremeteram ao
mesmo tempo como um trovão. Lancelot, no último momento, observou que estava errado quanto à
maneira de Turquine sentar. No derradeiro relance, percebeu que Turquine era o melhor oponente
que já encontrara, que estava vindo com um ímpeto tão grande quanto o seu próprio, e que sua
pontaria era precisa.

Os cavaleiros avançaram e se atacaram ao mesmo tempo; as lanças encontraram-se no mesmo
momento; os cavalos, travados em plena corrida, empinaram e caíram para trás; as lanças
quebraram-se e foram pelos ares, girando graciosamente sobre si mesmas como o torvelinho de
uma forte explosão; e a dama no palafrém desviou os olhos. Quando voltou a olhar, os dois cavalos
estavam no chão, com as colunas quebradas, e os cavaleiros deitados, imóveis.

Duas horas mais tarde, Lancelot e Turquine ainda estavam lutando com suas espadas.

— Pare — disse Turquine. — Quero conversar com você. Lancelot estacou.
— Quem é você? — perguntou Sir Turquine. — É o melhor cavaleiro com quem já lutei. Nunca vi
um homem com tanto fôlego. Escute, eu tenho sessenta e quatro prisioneiros em meu castelo, e já
matei ou aleijei centenas de outros, mas nenhum era tão bom quanto você. Se quiser a paz e ser meu
amigo, libertarei meus prisioneiros.
— E amável de sua parte.
— Farei isso, se você for qualquer pessoa exceto uma. Se for essa, terei de lutar até matá-lo.
— Quem é essa pessoa?
— Lancelot — disse Sir Turquine. — Se você for Lancelot, jamais me renderei nem serei amigo.
Ele matou meu irmão Carados.
__ Eu sou Lancelot.

Sir Turquine soltou um silvo através do elmo e golpeou com astúcia, antes de o inimigo estar
pronto.

— Ali, sim? — disse Lancelot. — Eu só teria que fingir não ser eu mesmo, e poderia salvar os

prisioneiros. Mas você tentou me matar sem aviso.
Sir Turquine continuou a sibilar.

— Sinto muito por Carados — disse Lancelot. — Ele foi morto numa luta justa e nunca ofereceu
rendição. Nunca o tive à minha mercê. Morreu em pleno combate.
Lutaram por mais duas horas. A espada não foi a única arma usada pelos cavaleiros de armadura.
Às vezes, golpeavam um ao outro com a borda dos escudos; outras, agrediam um ao outro com o
punho das espadas. Toda a relva em volta estava salpicada com o sangue dos dois — manchas
pequenas como as da truta, mas com uma espécie de cauda em cada uma delas, como o girino. Às
vezes, por causa do peso, eles caíam um sobre o outro. Os elmos pesados da cavalaria, com
enchimentos de palha, tinham buracos tão pequenos para respirar que eles sentiam-se sufocar. Seus
escudos pendiam frouxamente, sem protegê-los de modo adequado.

A coisa terminou em um segundo. Nenhum deles falou. Em um momento oportuno, Lancelot largou
sua espada e agarrou Turquine pela tromba do elmo. Eles caíram, e o elmo saiu. Puxaram as adagas
para o corpo-a-corpo, Turquine girou, tremeu, e estava morto.

Mais tarde, quando Gaheris e a dama estavam Lhe dando um pouco de água, Lancelot disse:

— Fossem quais fossem seus erros, ele era valente. Lamento que não tenha se rendido.
— Mas pense nos cavaleiros mutilados e nos espancamentos.
— Ele era da velha escola — disse. — E isso que devemos exterminar, Mas, como combatente, era
um crédito para a velha escola apesar de tudo.
— Era um bruto — disse a dama.
— Fosse o que fosse, gostava do irmão. Olhe, Gaheris, você me empresta seu cavalo? Quero
continuar, e meu cavalo está morto, a pobre criatura. Se me emprestar o seu, você poderia ir em
frente e tirar Lionel e os outros do castelo. Diga a Lionel para voltar à Corte e não fazer bobagens.
Tenho que seguir com essa dama. Você fará isso?
— Certamente, pode ficar com meu cavalo — disse Gaheris. — Você salvou a mim e também a
ele. Você continua salvando os irmãos das Órcades! Da última vez foi Gawaine. E Agravaine estáno castelo neste minuto. É claro que pode ficar com meu cavalo, Lancelot, é claro que sim.

VIII


Lancelot teve várias outras aventuras durante essa primeira busca — que durou um ano —, mas
talvez apenas duas mereçam ser contadas em detalhes. Ambas estão relacionadas com a ética
conservadora da Force Majeur contra a qual o Rei começara sua cruzada. Foi a velha escola, a
atitude do baronato normando, que provocaram as aventuras desse período -— pois poucas pessoas
podem odiar tão amarga e tão hipocritamente quanto uma casta dominante que está sendo
despejada. Os cavaleiros da Távola Redonda foram enviados como uma medida contra a Força
Maior, e os coléricos barões que viviam pela Força se defendiam com a ferocidade do desespero.
Teriam escrito ao The Times para se queixar, se esse jornal existisse. Os melhores deles estavam
convencidas de que Arthur era um novidadeiro e seus cavaleiros, pelos padrões de seus pais, uns
degenerados. Os piores inventavam nomes até mais feios que bolchevique, e permitiam que o lado
brutal de suas naturezas alimentasse enormidades imaginárias que atribuíam aos cavaleiros. A
situação tornou-se divorciada do bom senso, e assim histórias de atrocidades eram aceitas por
pessoas que gostavam de coisas do gênero. Muitos dos barões que Lancelot teve que vencer se
puseram em tai estado contra ele, pelo medo de perder seus poderes antigos, que acreditavam ser
ele um tipo de gás venenoso era forma humana. Combatiam-no com tanta falta de escrúpulos quanto
ódio, como se ele fosse um anticristo, e realmente acreditavam estar defendendo o justo. O assunto
virou uma guerra civil de ideologias.

Um dia em pleno verão, ele estava cavalgando pelo parque de um castelo que lhe parecia estranho.
As árvores cresciam dispersas pela relva — grandes olmos e carvalhos e faias —, e Lancelot
pensava em Guenevere com o coração pesado. Antes de se despedir da dama que o levara até Sir
Turquine — ele cumprira o que lhe havia prometido —, eles tiveram uma conversa sobre
casamento que o perturbara. A dama dissera que ele deveria ter ou uma esposa ou uma amante, e
Lancelot se irritou.

— Não posso impedir que as pessoas digam o que querem dizer — ele falou —, mas as
circunstâncias tornam o casamento impossível para mim, e acho que ter uma amante não é bom.
Discutiram sobre isso durante algum tempo, e depois ele se despediu. Embora tivesse passado por
varias aventuras desde então, agora ainda estava pensando no conselho da dama e se sentindo um
desgraçado.

Houve um som de sinos no ar e, imediatamente, ele olhou para cima.


Um belo falcão peregrino, com sua música tilintando alta e clara ao vento que assobiava, e sua
linha seguindo atrás, batia as asas sobre sua cabeça em direção ao topo de um dos olmos. Estava
irritado. Assim que chegou ao topo do olmo, pousou, olhando ao redor com seus olhos raivosos e
bico ofegante. A linha se enrolou três vezes no ramo mais próximo. Quando percebeu Sir Lancelot
vindo em sua direção, tentou voar outra vez em fúria. A linha travou seu vôo. Ficou pendurado de
cabeça para baixo, batendo as asas. Lancelot assustou-se, temendo que o falcão partisse algumas
penas. Em poucos momentos, no entanto, ele deixou de bater as asas e ficou suspenso de patas para

o ar, girando lentamente, com ar desprezível, indignado e ridículo, mantendo a cabeça levantada
como uma cobra.
— Oh, Sir Lancelot! Sir Lancelot! — gritou uma dama desconhecida, cavalgando em direção a ele
a toda velocidade e tentando torcer as mãos, de maneira evidente, embora segurasse as rédeas. —
Oh, Sir Lancelot! Perdi o meu falcão.
— Veja, lá está ele, no alto daquela árvore — respondeu o cavaleiro.
— Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! — gritou a dama. — Eu estava apenas tentando levá-o na linha e
ela se rompeu! Meu marido me matará se não conseguir pegá-lo. Ele é tão impetuoso e um falcoeiro
tão competente.
— Mas certamente não vai matá-la.
— Oh, sim! Não terá a intenção, mas vai me matar! É um homem tão impetuoso!
— Talvez eu possa impedi-lo?
— Ah, não! — disse a dama. — Isso não adiantaria nada. Você pode machucá-lo e eu não ia querer
que machucasse meu esposo. Em vez disso, será que você não poderia subir na árvore e pegar o
falcão?
Lancelot olhou para a dama e para a árvore. Depois, deu um suspiro fundo e observou, como nos
informa Malory:

— Bem, minha nobre dama, já que sabe meu nome e recorre a minha condição de cavaleiro para
ajudá-la, farei o que for possível para pegar seu falcão; no entanto, na verdade sou um mau
trepador, e a árvore é muito alta e tem poucos ramos para me ajudar na subida.
Ele passara sua infância aprendendo a ser uni guerreiro. Isso não lhe deu tempo para ir atrás de
ninhos de pássaros, como os outros meninos. O pedido da dama, que não teria sido um problema
para pessoas criadas como Arthur ou Gawaine, realmente era um transtorno para ele.

Desanimado, Lancelot tirou sua armadura, lançando ocasionais olhares enviesados para a horrível
árvore, até estar apenas de camisa e calções. Então, atacou com coragem os primeiros galhos,
enquanto a dama andava de um lado para o outro lá embaixo, falando de falcões e de esposos e de
que tempo lindo estava fazendo.

— Está bem — disse ele, com os olhos cheios de casquinhas de árvore e uma medonha carranca.
— Está bem, está bem.
No topo da árvore, o falcão continuava bastante emaranhado na linha — que estava enrolada em

seu pescoço e asas, como usual —, e o medo que o pássaro deixava transparecer diante de um
possível ataque fez com que Lancelot tivesse de deixá-lo apoiar-se em suas mãos nuas. O falcão as
agarrou com a fúria da histeria, mas, com paciência, o cavaleiro o desembaraçou sem se importar
com os machucados. Os falcoeiros raramente se queixam quando seus falcões causam-lhes
ferimentos. São por demais concentrados.

Quando o falcão estava a salvo dos ramos, Lancelot percebeu que não seria capaz de descer apenas
com unia das mãos. Gritou para a dama, que parecia pequena ao pé da árvore:

— Atenção, vou amarrar a peia dele em um ramo pesado, se conseguir quebrar um, e depois jogá-
lo. Vou escolher um que não seja muito pesado, para que caia devagar. Vou ter de jogá-lo um
pouco para fora, para que não se machuque nos ramos.
— Por favor, tenha cuidado! — gritou a dama.
Depois que Lancelot fez o que disse que ia fazer, começou a descer outra vez com cuidado. Havia
alguns maus pedaços no caminho, onde tinha que confiar apenas no próprio equilíbrio. Estava a
cerca de uns seis metros do chão, quando um cavaleiro gordo, com armadura completa, veio a
pleno galope.

— Aha! Sir Lancelot! — gritou o cavaleiro gordo. — Agora o tenho onde queria.
A dama pegou o falcão e começou a se afastar.
— Senhora! — disse Lancelot, surpreso por todo mundo saber seu nome.
O gordo berrou:
— Deixe-a em paz, seu assassino. Aquela é a minha mulher, exatamente. Ela só fez o que lhe falei
para fazer. Foi um truque. Rá! Rá! Agora peguei você sem sua famosa armadura, e vou matá-lo
como se afoga um gatinho!
— Não é digno de um cavaleiro — disse Lancelot, fazendo uma careta. — Poderia pelo menos me
deixar pegar minha arma e lutar com justiça.
— Deixar que pegue sua arma, seu engraçadinho! O que você acha que eu sou? Não quero nada
dessa bobagem novidadeira. Quando eu pego um homem que come crianças assadas, eu o mato
como verme que ele él
— Mas realmente...
— Desça, vamos, desça! Não posso esperar o dia todo. Desça e tome seu remédio como homem, se
for homem.
— Garanto a você que não asso crianças.
O gordo cavaleiro ficou com as faces completamente vermelhas e gritou:
— Mentiroso! Mentiroso! Demônio! Desça de uma vez. Lancelot sentou-se em um ramo e ficou com
os pés dependurados, roendo as unhas.
— Você quer dizer que perdeu aquele falcão de propósito — ele perguntou —, com sua avessada,
só para poder me matar quando eu estivesse nu?

— Desça!
— Se eu descer, farei todo o possível para matá-lo. — Bufão! — gritou o cavaleiro gordo.
— Bem — disse Lancelot —, a culpa é sua. Não deveria fazer truques sujos. Pela última vez, você
me deixará pegar minhas armas como um cavalheiro?
— É claro que não.
Lancelot quebrou um galho de madeira podre e pulou para o outro lado do cavalo, de maneira que o
animal ficou entre eles. O cavaleiro gordo avançou e tentou cortar a cabeça de seu inimigo,
inclinando-se sobre o cavalo entre os dois. Lancelot aparou o golpe com o galho, e a espada do
cavaleiro se enfiou na madeira. Então, ele tomou a espada de seu dono e cortou sua garganta.

— Vá embora — disse Lancelot para a dama. — Pare de gritar. Seu marido era um tolo e a senhora
é uma chata.. Não lamento tê-lo matado.
Mas lamentava.

A última aventura também estava relacionada com traição e uma dama. O jovem cavalgava
pesaroso pela região dos pântanos — que ainda não haviam sido drenados naquela época, e
constituíam, provavelmente, a parte mais selvagem da Inglaterra. Tratava-se de uma região cheia de
caminhos secretos através do brejo, conhecidos apenas dos saxões dos pântanos conquistados por
Uther Pendragon, e toda a campina cheirando a mar era como um imenso grasnido sob o céu baixo.
Os abetouros ressoavam e as altaformas deslizavam sobre os juncos, e milhões de patos-marrecos
e pato de popas voavam de um lado para outro em várias formações em cunha, parecendo rolhas de
garrafas de champanhe equilibradas em um nimbo de asas. Nos charcos salgados os gansos de
Spitebergen andavam e mordiscavam, com os pescoços curvados à sua maneira peculiar, e os
homens do pântano os perseguiam, furtivos, com redes e outros engenhos. Os homens do pântano
tinham barrigas pintadas e pés palmípedes — pelo menos, essa era a crença corrente no resto da
Inglaterra. Em geral, eles matavam forasteiros.

Enquanto Lancelot estava cavalgando por um caminho estreito que parecia não levar a lugar
nenhum, viu duas pessoas galopando em sua direção, a partir da outra ponta. Eram um cavaleiro e
sua dama. A dama estava na frente, correndo como louca, e o cavaleiro seguia atrás. Sua espada
cintilava contra o céu sem brilho.

— Aqui! Aqui! — gritou Lancelot, indo em direção a eles.
-— Socorro! — gritou a dama. — Oh, salve-me! Ele está tentando cortar minha cabeça.
— Deixe-a em paz! Afaste-se! — gritou o cavaleiro. — Ela é minha esposa e cometeu adultério!
— Jamais! — gritou a dama. — Oh, senhor, salve-me! Ele é cruel, uma besta bruta. Só porque
tenho afeto por meu primo primeiro, ele tem ciúmes, Por que eu não deveria ter afeto por meu
primo primeiro?
— Mulher pecaminosa! — exclamou o cavaleiro, e tentou agarrá-la.
Lancelot meteu-se entre eles e disse:

— Realmente, você não pode perseguir assim uma mulher. Não me interessa de quem é a culpa,
mas não é permitido matar mulheres.
— Desde quando?
— Desde que o Rei Arthur é o rei.
— Ela é minha esposa — disse o cavaleiro. — Ela não tem nada a ver com você. Afaste-se! E é
uma adúltera, seja o que for que diga!
— Oh, não, não sou — disse a dama. — Mas você é um grosseirão. E bebe também.
— Quem me faz beber, hein? E, além disso, beber não é pior do que ser adúltera.
— Calados — disse Lancelot —, todos os dois. Isto é uma chateação. Vou ter de cavalgar entre os
dois até que se acalmem. Suponho que o senhor não quer, cavaleiro, lutar comigo em vez de matar
esta dama?
— Obviamente, não — disse o cavaleiro. — Sei pela sua prata e suas divisas tortas que você é
Lancelot; e não seria tão tolo assim de lutar contra você, especialmente por uma meretriz como
essa. Que diabos isto tem a ver com você?
— Irei embora — disse Lancelot —, assim que você prometer, como cavaleiro, que não matará
mulheres.
— Bem, eu não prometerei.
— Não prometerá — disse a dama. — De qualquer maneira, não manteria a promessa, se
prometesse.
— Tem soldados do pântano a nossa volta — disse o cavaleiro. — Olhe para trás. Estão armados
da cabeça aos pés.
Lancelot refreou seu cavalo e olhou sobre os ombros. No mesmo instante, o cavaleiro se inclinou
sobre o outro lado e cortou a cabeça da dama. Quando Lancelot voltou a olhar, sem ter visto
nenhum soldado, viu a dama sentada a seu lado, sem cabeça. Lentamente, ela começou a escorregar
para o lado, latejando horrivelmente, e caiu na poeira. Havia sangue por todo o cavalo.

Lancelot ficou branco em torno das narinas.

Disse:

— Vou matá-lo por causa disso.
O cavaleiro imediatamente pulou do seu cavalo e se esparramou no chão.
— Não me mate! — pediu. — Misericórdia! Ela era uma adúltera.
Lancelot também desmontou e desembainhou sua espada.
— Levante-se — ele disse. — Levante-se e lute, seu, seu....
O cavaleiro se arrastou no chão em direção a Lancelot, e jogou os braços em volta de suas pernas.
Estando tão perto do vingador, tornava difícil para ele brandir a espada.


— Misericórdia!
Sua abjeção fazia Lancelot sentir-se horrível.
— Levante-se — ele disse. — Levante-se e lute. Olhe, vou tirar minha armadura e lutar só com
minha espada.
Mas "Misericórdia! Misericórdia" era só o que o cavaleiro dizia.

Lancelot começou a tremer, não pelo cavaleiro mas pela crueldade nele mesmo. Levantou sua
espada com aversão e empurrou o homem.

— Olhe para todo esse sangue — ele disse.
— Não me mate — disse o cavaleiro. — Eu me rendo, eu me rendo. Você não pode matar um
homem que está a sua mercê.
Lancelot embainhou a espada e se afastou do cavaleiro, como se estivesse se afastando de sua
própria alma. Sentia em seu coração crueldade e covardia, as coisas que o faziam corajoso e gentil.

— Levante-se — ele disse. — Não vou machucá-lo. Levante-se, vá embora.
O cavaleiro olhou para ele, de quatro como um cachorro, e se levantou, curvando-se com
insegurança. Lancelot foi embora, com náuseas.

Na festa de Pentecostes era costume que os cavaleiros que estavam em busca para a Távola se
reunissem outra vez em Carlion para relatar suas aventuras. Arthur descobrira que eles ficavam
mais animados para lutar à nova maneira do Direito, se tivessem que contar sobre isso depois. A
maioria deles preferia trazer consigo os prisioneiros, como testemunhas de suas histórias. Era
como se algum Inspetor-Geral da Polícia, em um país muito distante da África, enviasse seus
superintendentes para a selva, pedindo que voltassem no Natal seguinte com todos os chefes
selvagens que tivessem conduzido ao bom caminho. Além disso, impressionava aos chefes
selvagens ver a grande Corte, e eles com freqüência voltavam reformados.

O Pentecostes depois da primeira busca de Lancelot foi quase um fiasco. Alguns gigantesandrajosos do Braço Forte, que tinham sido capturados pela facção das Órcades, apareceram e
prestaram sua homenagem, mas a quota de Lancelot foi uma avalanche.

— Vocês são homens de quem?
— De Lancelot.
— E vocês, meus bons camaradas?
— De Lancelot.
Depois de um tempo, toda a mesa começou a gritar as respostas. Arthur perguntava:
— Você é bem-vindo a Carlion, Sir Belleus, e poderia perguntar a qual dos meus cavaleiros você
se rendeu?
— Lancelot — a mesa gritaria em coro.
E Sir Belleus, enrubescendo, sem saber se estavam rindo dele, diria em voz baixa:

— Sim, eu me rendi a Sir Lancelot.
Sir Bedivere veio e confessou como havia cortado a cabeça de sua esposa adúltera. Troasse a
cabeça com ele, e lhe ordenaram que a levasse ao Papa como penitência — ele tomou-se muito
piedoso depois disso. Gawaine aproximou-se com rudeza e contou, em inglês da Escócia, como
fora salvo de Sir Carados. Gaheris, à cabeça de uma delegação de sessenta e quatro cavaleiros
com escudos enferrujados, relatou como foi salvo de Sir Turquine. A filha do Rei Bagdemagus
chegou toda entusiasmada e contou sobre o torneio com o Rei de Northgalis. Além desses, havia
muitas pessoas de aventuras que deixamos de contar — sobretudo cavaleiros que tinham se rendido
a Sir Lancelot quando este estava disfarçado de Sir Kay.

Você deve se lembrar, do primeiro livro, como Kay tinha a tendência de ter a língua um pouco solta
demais e, por causa disso, tornara-se um tanto impopular. Durante a busca, Lancelot fora obrigado
a salvá-lo de três cavaleiros que o estavam perseguindo. Então, certa noite, enquanto Sir Kay
dormia, Lancelot trocou de armadura com ele, de mudo que o homem pudesse voltar para a Corte
sem ser molestado — e, depois disso, os cavaleiros que se lançaram sobre Lancelot achando que
este era Kay tiveram a grande surpresa de suas vidas, enquanto os cavaleiros que encontravam Kay
na armadura de Lancelot deixavam-no passar. Os cavaleiros que se renderam nessa categoria
incluíam Gawaine, Uwaine, Sagramour, Ector de Maris, e outros três. Também veio um cavaleiro
chamado Sir Mellot de Logres, que fora salvo em circunstâncias sobrenaturais.

Todas essas pessoas se entregaram não ao Rei Arthur, mas a Guenevere. Lancelot tinha se mantido
longe por todo um ano, mas havia um limite para sua resistência. Pensando nela o tempo todo e
desejando estar de volta ao seu lado, permitira-se essa única indulgência. Mandou seus cativos
ajoelharem aos pés dela, Esse foi um rumo fatal de ação.


IX


É difícil explicar Guenevere, a menos que seja possível amar duas pessoas ao mesmo tempo.
Provavelmente não é possível amar duas pessoas da mesma maneira, mas existem diferentes tipos
de amor. A mulher ama os filhos e o esposo ao mesmo tempo — e o homem muitas vezes pode
desejar uma mulher enquanto sente amor por outra. De modo parecido, Guenevere começou a amar

o jovem francês sem perder seu afeto por Arthur. Ela e Lancelot eram quase adolescentes quando
isso começou, e o Rei era oito anos mais velho que eles. Aos vinte e dois, a idade de trinta anos
parece à beira da senilidade. O casamento entre ela e Arthur tinha sido o que se chamava de
casamento "arranjado". Isso quer dizer que foi combinado por um tratado com o Rei Leodegrance,
sem consultá-la. Foi uma união que deu certo, como os casamentos "arranjados" geralmente dão e,
antes de Lancelot aparecer em cena, a jovem adorava seu famoso marido, apesar de ele ser tão
velho. Tinha respeito por ele, além de gratidão, ternura, amor, e um sentimento de proteção. Era
mais do que isso — pode-se dizer que ela sentia tudo exceto a paixão de um romance.
E então os prisioneiros chegaram. Uma ruborizada rainha de pouco mais de vinte verões em seu
trono, e todo o saguão, à luz de vela, cheio com nobres cavaleiros ajoelhados frente a ela.
"Prisioneiro, de quem é você?" "Sou prisioneiro da Rainha, para viver ou morrer, enviado por Sir
Lancelot." "De quem você é?" "Da rainha, pela arma de Lancelot," Sir Lancelot — o nome nos
lábios de todos: o melhor cavaleiro do mundo, acima da média, mesmo acima de Tristão; o cortês,

o misericordioso, o feio, o invencível; e ele os enviou, a todos, para ela. Era como uma festa de
aniversário, com tantos presentes. Era como nos livros de histórias.
Guenevere sentava-se ereta e se inclinava majestosamente para seus prisioneiros. Perdoava a todos
eles. Seus olhos brilhavam mais que sua coroa.

Lancelot veio por último. Houve uma excitação entre os carregadores das tochas e um murmúrio
percorreu o saguão. O tinido de facas, pratos e canecas, o barulho de vozes amigas que um
momento antes soara como um encontro de aves marinhas em St. Kilda, os gritos por mais carneiro
ou uma caneca de hidromel se aquietaram — e borrões de caras brancas se voltaram para a porta.
Ali estava Lancelot, já não com armadura, mas vestido com uma magnífica túnica de veludo,
festonada e cheia de voltas. Hesitou na soleira escura da porta, terrível e amigável, surpreendendo-
se com o silêncio — e as luzes o mostraram. Então os rostos se endireitaram, o encontro de aves


marinhas recomeçou de novo, e Lancelot aproximou-se para beijar a mão do Rei.
Era o momento. Talvez seja melhor nem tentar explicar.

— Ora, Lance — disse Arthur, alegremente —, isto é alguma brincadeira, sem dúvida nenhuma.
Jenny mal pode permanecer sentada tranqüila com todos os seus prisioneiros.
— Eles eram para ela — disse Lancelot. A Rainha e ele não se fitaram. Tinham feito isso com o
clique de dois magnetos se juntando, no momento em que ele passou pela soleira da porta.
— Não posso evitar achar que eram também para mim — disse o Rei. — O resultado é que você
deve ter me presenteado com cerca de três condados.
Lancelot sentiu a urgência de evitar o silêncio. Começou a falar muito rapidamente.

— Três condados não são muito para o Imperador de toda a Europa — disse. — Você fala como se
não tivesse conquistado u Ditador de Roma. Como vão seus domínios?
— Da maneira como vocês os fazem, Lance. De que serve conquistar o Ditador, a menos que você
e os outros façam a parte civiIizatória? De que adianta ser o Imperador da Europa se, em todos os
lugares, estão lutando como doidos?
Guenevere apoiou seu herói no esforço contra o silêncio. Foi a primeira parceria dos dois.

— Arthur querido, você é um homem estranho — ela disse. — Luta o tempo todo, conquista países
e vence batalhas, e depois diz que lutar é uma coisa ruim.
— E é mesmo uma coisa ruim. E a pior coisa do mundo. Oh, Deus, não precisamos explicar isso de
novo!
— Não.
— Como anda a facção das Órcades? — perguntou o jovem, rapidamente. — Como anda sua
famosa civilização? A Força a serviço do Direito? Não se esqueça que fiquei fora o ano todo.
O Rei apoiou a cabeça nas mãos e, entre os cotovelos, olhou para a Távola com ar infeliz. Era um
homem gentil, consciencioso, amante da paz, que fora atormentado na juventude por um tutor de
gênio. Juntos, elaboraram a teoria de que matar pessoas e tiranizá-las era errado. Para acabar com
esse ripo de coisa, inventaram a idéia da Távola — uma idéia vaga como a democracia, ou o
espírito esportivo, ou a ética —, e agora, no esforço para impor um mundo pacífico, Arthur via-se
mergulhado em sangue até os cotovelos. Quando estava bem de saúde, não se queixava muito
porque sabia que o dilema era inevitável, mas, em momentos de fraqueza, era perseguido pela
vergonha e indecisão. Era um dos primeiros nórdicos a inventar uma civilização, ou a desejar fazer
algo diferente do que fizera Atila, o Muno, e a batalha contra o caos às vezes parecia não valer a
pena. Com freqüência, ele pensava que permanecerem vivos teria sido melhor para todos os seus
soldados mortos — mesmo para viverem sob a tirania e a loucura.

— A facção das Órcades vai mal — ele disse. — E também a civilização, exceto pela parte que
você acabou de trazer. Antes de você chegar, eu estava pensando que era o Imperador de nada,
agora sinto como se fosse o Imperador de três condados.

— O que há de errado com a facção das Órcades?
— Oh, Deus, precisamos falar sobre isso quando estamos nos sentindo tão felizes com sua volta?
Suponho que sim.
— É Morgause — disse a Rainha.
— Em parte. Morgause está tendo casos de amor com qualquer um que possa fisgar, agora que Lot
está morto. Como desejaria que o Rei Pellinore não tivesse tido aquele infeliz acidente quando o
matou! Isso está tendo um péssimo efeito em seus filhos!
— O que você quer dizer?
O Rei apoiou-se à mesa e afirmou:
— Gostaria que não tivesse vencido Gawaine, daquela vez que você estava disfarçado de Kay.
Quase desejaria que não tivesse tido tanto sucesso ao salvá-lo e a seus irmãos de Carados e
Turquine.
— Por quê?
— Esta Távola Redonda era uma coisa boa, quando a imaginamos — o velho homem disse
devagar. — Era necessário inventar uma maneira para os homens de luta se expressarem sem fazer
o mal. Não vejo como poderíamos ter feito isso a não ser assim, criando uma moda, como crianças.
Para atraí-los, tínhamos que formar uma gangue, como crianças na escola. Então, a gangue tinha que
fazer um juramento secreto, de que só lutariam por nossa idéia.Você pode chamá-la de civilização.
O que eu queria dizer com civilização, quando a inventei, era simplesmente que as pessoas não
deviam tirar proveito da fraqueza -— não violar donzelas, nem roubar viúvas, nem matar um
homem que estivesse em desvantagem. As pessoas deveriam ter civilidade. Mas tudo virou um
esporte. Merlin sempre disse que o esporte era a maldição do mundo, e é mesmo. Meu esquema não
está dando certo. Todos esses cavaleiros, agora, estão transformando a coisa em fetiche. Estão
transformando-a em competição. Merlin costumava chamar isso de Mania de Jogos. Todo inundo
fofoca, resmunga, insinua e especula sobre quem acabou por derrubar quem, e quem salvou mais
virgens, e quem é o melhor cavaleiro da Távola. Cheguei a fazer uma mesa redonda para evitarexatamente esse ripo de coisa, mas não deu certo. A facção das Órcades é a pior. Suponho que a
sensação de insegurança deles, por causa da mãe, impele-os a se assegurar dos melhores lugares no
topo da lista. Têm que se sobressair, que se exibir para ela. E por isso que eu preferiria que você
não tivesse vencido Gawaine, Ele é um sujeito decente, mas em seu íntimo vai guardar
ressentimento contra você. Você o rebaixou na média das justas; essa é uma parte da constituição
deles que agora se tornou, para meus cavaleiros, mais importante que a própria alma. Se não tivercuidado, você terá a facção das Órcades atrás de seu sangue, tanto quanto atrás do de Pellinore. E
uma posição condenável. As pessoas farão as piores coisas por causa da sua assim chamada honra.
Desejaria jamais ter inventado a honra, nem esporte, nem civilização.
— Que discurso! — disse Lancelot. — Anime-se. A facção não vai me machucar, mesmo se estiver
atrás do meu sangue. Quanto ao seu esquema estar dando errado, isso é bobagem. A Távola
Redonda é a melhor coisa que já aconteceu.

Arthur, cuja cabeça ainda estava entre as mãos, levantou os olhos. Viu que seu amigo e sua esposa
olhavam um para o outro com as enorme pupilas da loucura, então rapidamente voltou a baixar os
olhos para o prato.


X


Tio Dap disse, girando o elmo nas mãos:

— Seu mantêlete está rasgado e torto. Temos que arranjar outro. E uma honra ter o mantelete
rasgado, mas desonroso deixa-lo assim quando há oportunidade de arrumar outro. Esse tipo de
coisa seria uma bazófia.
Estavam conversando em um pequeno quarto com uma janela voltada para o norte, frio e sombrio, e
a claridade azul espalhava-se como óleo congelado sobre o aço.

— Sim.
— Como está Foyeux? Ainda afiada? Você gosta do equilíbrio dela?
Foyeux tinha sido feita por Galand, o maior forjador de espadas da Idade Média.
— Sim.
— Sim! Sim! — exclamou Tio Dap, — Não sabe dizer outra coisa a não ser sim? Pela morte de
minha alma, Lancelot, eu me pergunto se você ficou bobo! Por Deus, o que foi que aconteceu com
você, afinal?
Lancelot estava alisando o penacho que era usado como marca de distinção no elmo que Tio Dap
tinha nas mãos. Era destacável. Pelo cinema e os quadros cômicos, as pessoas meteram na cabeça
que os cavaleiros com armaduras geralmente usavam plumas de avestruz, que balançavam como
moitas de relva ao vento. Não era assim. O penacho de Kay, por exemplo, tinha a forma parecida
com um leque rígido e chato, com as pontas viradas para a frente e para trás. Era cuidadosamente
feito com os olhos das penas de pavão, exatamente como se um leque duro de pavão tivesse se
levantado no comprimento da cabeça. Não era um tufo de penas, e não balançava. Parecia-se mais
com a barbatana adiposa de um peixe, porém vistosa. Lancelot, que não se importava com coisas
vistosas, usava algumas penas de garça-real amarradas com fio de prata, que combinava com a
prata do seu escudo. Estava alisando-as. Agora, jogou-as violentamente a um canto e se levantou.
Começou a andar pelo quarto estreito de maneira brusca.

— Tio Dap — ele disse —, lembra-se que lhe pedi para não falar de uma determinada coisa?

— Lembro.
— Guenevere está apaixonada por mim?
-— Você deveria perguntar a ela — respondeu o tio, com lógica francesa.
— O que devo fazer? — ele perguntou. — O que devo fazer? Se é difícil explicar o amor de
Guenevere por dois homens ao mesmo tempo, é quase impossível explicar o que acontecia com
Lancelot. Pelo menos, seria impossível atualmente, quando todo mundo está livre de superstições e
preconceitos e, para todos nós, basta fazermos o que nos apetece. Por que Lancelot não fazia amor
com Guenevere, ou fugia de uma vez com a esposa de seu herói, como qualquer homem esclarecido
faria hoje?
Uma razão para esse dilema era o fato de ele ser cristão. O mundo moderno está propenso a
esquecer que, no passado remoto, algumas pessoas eram cristas, e no tempo de Lancelot não havia
protestantes — exceto John Scotus Erigena. A Igreja na qual ele foi criado — e é difícil escapar da
criação — proibia-o explicitamente de seduzir a esposa de seu melhor amigo. Outro obstáculo para
que ele fizesse o que gostaria era a própria idéia da cavalaria ou da civilização que Arthur
primeiro inventara e depois introduzira em seu próprio espírito jovem. Talvez um barão cruel, que
acreditasse no Braço Armado, tivesse fugido com Guenevere, mesmo enfrentando os conselhos de
sua Igreja, porque tomar a mulher do próximo era realmente uma forma de Force Majeur. Era uma
questão que vencesse o touro mais forte. Mas Lancelot passara sua infância entre os exercícios para
futuro cavaleiro e os pensamentos sobre a teoria do Rei Arthur. Acreditava tão firmemente como
Arthur, tão firmemente quanto o cristão inocente, que havia uma coisa chamada Direito. Por fim,
havia o impedimento de sua própria natureza. Nas zonas secretas de seu cérebro peculiar, naqueles
emaranhados infelizes e inextricáveis que sentia no mais fundo de si, via-se incapacitado por
alguma coisa que não sabemos explicar. Ele tampouco saberia explicar, e para nós tudo está
demasiado distante. Ele amava Arthur e amava Guenevere e odiava a si mesmo. O melhor
cavaleiro do mundo: todo mundo inveja a auto-estima que ele com certeza devia ter. Mas Lancelot
nunca acreditou que fosse bom ou atraente. Sob a casca grotesca e magnífica, com um rosto como o
de Quasímodo, havia vergonha e auto-aversão, plantadas ali quando ele era pequeno, por algo queagora é tarde demais para rastrear. É tão fatalmente fácil fazer uma criança acreditar que é horrível.

— Parece-me que, em boa medida, isso depende do que a Rainha quer fazer — disse Tio Dap.

XI


Desta vez, Lancelot permaneceu na Corte durante várias semanas, e cada semana tornava sua
partida mais difícil. Além do emaranhado mais ou menos social em que se encontrava, havia uma
confusão pessoal — pois ele dava à castidade um valor mais alto do que é moda em nosso século.
Acreditava, como o homem de Lord Tennyson, que as pessoas só poderiam ter a força de dez se
fossem puras de coração. E como acontecia de sua força ser a força de dez, essa era a explicação
medieval encontrada para isso. Como um corolário para essa crença, ele supunha que caso se
entregasse à Rainha, perderia sua força de dez homens. Assim, por essa razão, como pelas outras,
ele lutava contra ela com a coragem do desespero. Também para Guenevere não era nada
agradável.

Um dia, Tio Dap disse:

— É melhor você partir. Já perdeu quase dez quilos. Se você partir, alguma coisa vai se endireitarou não. É melhor resolver isso logo.
Lancelot disse:

— Não posso partir. Arthur disse:
— Por favor, fique. Guenevere disse:
— Vá.
A segunda busca que ele então empreendeu foi o ponto de virada de sua vida. Havia muita conversa
em Camelot sobre um certo Rei Pelles, que era coxo e vivia no castelo assombrado de Corbin.
Supostamente, ele era ligeiramente louco porque acreditava ser um parente de José de Arimatéia.
Era o ripo de homem que hoje se tornaria um britânico israelita e passaria o resto de sua vida
profetizando o fim do mundo pelas medidas das galerias da Grande Pirâmide. No entanto, o Rei
Pelles era apenas ligeiramente louco, e seu castelo era realmente assombrado. Tinha um quarto
assombrado, com inúmeras portas através das quais, à noite, as coisas passavam e vinham lutar
com você. Arthur achou que valia a pena enviar Lancelot para investigar o lugar.

No caminho para Corbin, Lancelot teve uma aventura estranha, da qual se lembrou durante muitos
anos com terrível aflição. Passaria a considerá-la a última aventura de sua virgindade e acreditaria,


todos os dias dos vinte anos seguintes, que antes que acontecesse ele era um homem de Deus e que,
depois dela, transformou-se em uma fraude.

Nas cercanias do castelo de Corbin, havia uma aldeia que parecia próspera. Tinha ruas
pavimentadas, casas de pedras e pontes antigas. O castelo ficava em uma colina num dos lados do
vale, e havia uma bonita torre quadrada na colina oposta. Todas as pessoas da aldeia estavam na
rua, como se estivessem esperando por ele, e havia uma beleza de sonho no ar, como se uma chuva
de poeira de ouro tivesse vindo do sol. Lancelot sentiu-se estranho. Deveria ter demasiado
oxigênio em seu sangue, pela maneira como tinha consciência de cada pedra em cada muro, e de
todas as cores do vale, e do passo alegre de seu cavalo. O povo da aldeia encantada sabia o seu
nome.

— Bem-vindo, Sir Lancelot Dulac — exclamaram —, a flor entre todos os nossos cavaleiros. Por
vós seremos socorridos do perigo.
Ele refreou seu cavalo e lhes falou.

— Por que vocês me chamaram? — perguntou, pensando em outras coisas. — Como sabem o meu
nome? Qual é o problema?
Eles responderam em coro, falando juntos solenemente e sem dificuldade.

— Oh, nobre cavaleiro — disseram. — Vedes aquela torre na colina? Dentro, encontra-se uma
dama que sofre, que por magia está sendo mantida fervendo em água escaldante há muitos invernos,
e ninguém pode tirá-la de lá exceto o melhor cavaleiro do mundo. Sir Gawaine esteve aqui na
semana passada, mas não conseguiu salvá-la.
— Se Sir Gawaine não conseguiu — ele disse —, tenho certeza que também não conseguirei.
Ele não gostava desse tipo de competição. O perigo de ser o melhor cavaleiro do mundo era que,
se fosse permanentemente testado quanto a isso, acabaria chegando o dia em que falharia em manter

o título.
— Acho que é melhor continuar meu caminho — disse, e deu uma sacudida nas rédeas.
— Não, não — as pessoas disseram, com seriedade. — Sois Sir Lancelot e sabemos disso.
Conseguireis tirar nossa dama da água fervente.
—Tenho que ir.

— Ela está sofrendo.
Lancelot apoiou-se na cernelha do cavalo, levantou a perna direita, passou-a para o outro lado e
estava no chão.

— Digam-me o que devo fazer — disse.
As pessoas formaram um cortejo a sua volta, e o regedor da aldeia tomou-o pela mão. Subiram a
colina até a torre quadrada, em silencio, exceto pelo regedor que explicou a situação enquanto
caminhavam.

— A senhora das nossas terras — disse o regedor — era a donzela mais bonita da região. Então a

Rainha Morgana Le Fay e a Rainha de Northgalis ficaram com inveja e fizeram essa mágica porvingança. É terrível o tanto que ela sofre, e há cinco anos está fervendo. Só o melhor cavaleiro do
mundo poderá salvá-la.

Quando chegaram a entrada da torre, outra coisa estranha aconteceu. Ela estava fortemente
aferrolhada e trancada à moda antiga. A alvenaria da entrada foi construída com cavidades fundas
pelas quais passavam vigas pesadas — pesadas o suficiente para agüentar um aríete. Agora, essas
vigas, por sua própria conta, recuaram c as fechaduras de ferro rodaram seus próprios mecanismos
com um rangido. As portas abriram-se em silêncio.

— Entrai — disse o regedor, e as pessoas ficaram paradas do lado de fora, esperando o que
aconteceria.
No primeiro andar da torre havia uma fornalha que mantinha quente a água encantada. Lancelot não
pôde entrar ali. No segundo andar havia um quarto cheio de vapor, e ele não podia ver nada. Entrou
no quarto, estendendo as mãos à frente, como os cegos fazem, até que escutou um gemido. Uma
clareira no vapor, provocada pela corrente de ar vinda da porta por tanto tempo fechada, mostrou a
dama que gemera. Sentada timidamente na banheira, olhando para ele, havia uma pequena jovem
encantadora, que estava — como escreveu Malory — tão nua quanto uma agulha.

— Oh! — ele exclamou.
A jovem corou, se é que podia corar já que estava fervendo, e disse em voz baixa:
— Por favor, dê-me sua mão.
Ela sabia como desfazer o encantamento.

Lancelot deu-lhe a mão, ela se levantou e saiu da banheira. Todas as pessoas do lado de fora
começaram a dar vivas como se soubessem exatamente o que estava acontecendo. Eles haviam
trazido um vestido e roupa de baixo adequada. As mulheres da aldeia formaram um círculo na
entrada enquanto a donzela rosada se vestia.

— Ah! como é agradável estar vestida! — ela disse.
— Meu coraçãozinho! — exclamou, enquanto chorava de alegria uma velha gorda que, obviamente,
fora sua ama quando ela era pequena.
— Sir Lancelot conseguiu — gritaram os aldeões. — Três vivas para Sir Lancelot!
Quando os vivas acabaram, a jovem fervida aproximou-se e colocou sua mão na dele.
— Obrigada — disse. — Devemos ir à igreja agora, agradecer tanto a Deus como a vós?
— Com certeza, devemos.
Assim eles foram à pequena e desprovida capela da aldeia e agradeceram a Deus por Sua
misericórdia. Ajoelharam-se entre as paredes com afrescos onde alguns santos de aparência
importante com halos azuis postavam-se nas pontas dos pés para evitar distorções, e as pinturas de
cores vivas dos vitrais derramavam-se sobre suas cabeças. Eram da cor azul cobalto, púrpura do
manganês, amarelo do cobre, vermelho, e um verde que também vinha do cobre, lodo o interior do


lugar era um tanque inundado de cor. As orações estavam já pela metade quando Lancelot
compreendeu que lhe fora permitido fazer um milagre, exatamente como sempre desejara.

O Rei Pelles desceu mancando do seu castelo, do outro lado da aldeia, para ver o que era aquela
agitação. Olhou para o escudo de Lancelot, beijou distraidamente a filha fervida, inclinando-se
como uma cegonha obediente para ser beijado na bochecha, e exclamou: — Oh, céus, você é sir
Lancelot! E vejo que conseguiu tirar minha filha daquele tipo de chaleira. Quanta amabilidade! Há
tempos, isso foi profetizado. Eu sou o Rei Pelles, primo próximo de José de Arimatéia, e você,
claro, só pode ser o oitavo grau de Nosso Senhor Jesus Cristo!

— Valha-me Deus!
— Realmente, realmente! — disse o Rei Pelles. — Está tudo escrito aritmeticamente nas pedras de
Stonehenge, e tenho uma espécie de prato sagrado em meu castelo em Carbonek, junto com uma
pomba que voa em várias direções segurando um turíbulo de ouro no bico. De qualquer maneira,
foi extremamente gentil de sua parte tirar minha filha daquela chaleira.
— Papai — disse a moça. — Temos que ser apresentados.
O Rei Pelles balançou a mão como se estivesse tentando afugentar mosquitos-pólvora.
— Elaine — ele disse.
Era outra com o mesmo nome.
— Esta é minha filha Elaine. Muito prazer. E este é Sir Lancelot Dulac. Muito prazer, Tudo escrito
nas pedras.
Lancelot, talvez levemente influenciado por tê-la primeiro conhecido sem roupa, achou que Elaine
era a moça mais bonita que já vira, sem contar Guenevere. Sentiu-se tímido.

— Você deve vir comigo — disse o Rei. — Isto também está nas pedras. Um dia mostrar-lhe o
prato sagrado e tudo isso. Ensinar-lhe aritmética. Belo tempo. Nem todo dia tenho uma filha tirada
da água fervendo. Acho que o jantar deve estar pronto.

É difícil explicar Guenevere, a menos que seja possível amar duas pessoas ao mesmo tempo.
Provavelmente não é possível amar duas pessoas da mesma maneira, mas existem diferentes
tipos de amor.


XII


Lancelot ficou no castelo de Corbin durante vários dias. Seus quartos assombrados estavam à altura
das expectativas, e não havia mais nada a fazer. Ele experimentava tantos sentimentos em seu peito
por causa de Guenevere — as terríveis angústias do amor sem esperança — que estava exausto
pelo esforço. Não conseguia reunir energia suficiente para ir para outro lado. No começo de seu
amor por eia sentiu tai inquietação que achou que só se permanecesse em movimento e fizesse
novas coisas a cada momento poderia haver alguma esperança de fuga. Agora, seu poder de se
manter ocupado acabara. Sentia que tanto fazia estar em um lugar como em outro, já que estava
apenas esperando para ver se seu coração explodiria ou não. Era muito inocente para ver que se o
melhor cavaleiro do mundo salvasse você de uma chaleira de água fervendo, toda desnuda, você
provavelmente se apaixonaria por ele — se tivesse apenas dezoito anos. Um final de tarde, quando
Pelles tinha sido particularmente cansativo falando de arvores genealógica;; religiosas, e quando o
tormento do coração do jovem Lhe tornara impossível comer adequadamente ou mesmo se sentar
quieto durante o jantar, o mordomo tomou a iniciativa. Ele servia a família havia quarenta anos, era
casado com a ama que acolhera Elaine com lágrimas de alegria e aprovava o amor. Também
entendia de jovens como Lancelot — jovens que poderiam ser estudantes ou pilotos de jato se
vivessem na Inglaterra de hoje. Teria sido um excelente mordomo de colégio.

— Mais vinho, Sir? — perguntou.
— Não, obrigado.
O mordomo inclinou-se polidamente e encheu outro chifre que Lancelot esvaziou sem sequer
lançar-lhe os olhos.

— Uma safra excelente, Sir — disse o mordomo. — Sua Majestade cuida muito bem de sua adega.
O Rei Pelles tinha ido para a biblioteca, calcular algumas prenunciações, e seu hóspede fora
deixado melancolicamente no salão,

— Sim.
Houve um ruído do lado de fora da porta da despensa e o mordomo foi ver o que era enquanto
Lancelot tomava outra dose.

— Este é um belo vinho, Sir — disse o mordomo. — Sua Majestade tem uma grande reserva deste

vinho e minha esposa acaba de trazer uma garrafa nova da adega. Observai a cor, Sir. Tenho
certeza de que é um vinho digno de apreciação.

— Todos os vinhos parecem o mesmo para mim.
— Sois um jovem cavaleiro modesto — disse o mordomo, dando-lhe outro grande chifre. — Se me
é permitido dizer, Sir, acabais de fazer uma piada. Mas é fácil reconhecer um apreciador de vinho
quando se encontra um.
Ele estava aborrecendo Lancelot, que queria ficar a sós com seu sofrimento, e Lancelot percebeu
que estava ficando aborrecido. Por esta razão, automaticamente se perguntou se não fora talvez
descortês com o mordomo, em um momento de distração. Talvez o mordomo realmente gostasse de
vinho, e tivesse seus próprios problemas. Educadamente, bebeu tudo.

— Muito bom — ele disse, para encorajar. — Uma safra esplêndida.
— Fico feliz em escutar que apreciastes, Sir.
— Alguma vez — começou Lancelot, fazendo a pergunta que todo jovem sempre costuma fazer, e
sem perceber que ela nada tinha a ver com a bebida —, alguma vez você já se apaixonou?
O mordomo sorriu discretamente e encheu outra vez o copo até a borda.

Por volta da meia-noite, Lancelot e o mordomo estavam sentados em lados opostos da mesa, ambos
com a face vermelha. Uma infusão temperada estava entre eles — uma mistura de vinho tinto, mel,
especiarias e seja lá o que for que a esposa do mordomo tinha acrescentado.

— Então eu lhe conto — disse Lancelot, olhando de modo feroz como um gorila. — Não contaria a
todo mundo, mas você é um sujeito legal. Um sujeito compreensivo. Um prazer contar tudo. Beba
outro copo,
— Saúde — brindou o mordomo.
— O que devo fazer? — ele exclamou. — O que devo fazer? Ele colocou sua horrível cabeça entre
os braços na mesa e começou a chorar.
—-Coragem! — disse o mordomo. —-Fazei ou morrei! Olhando para a porta da despensa, o
velho bateu na mesa com uma mão e, com a outra, encheu outro copo até a borda.

— Bebei — ele disse.— Bebei muito. Sede um homem, Sir, se me permitis a ousadia. Em um
minuto, tereis boas notícias, isso tereis, e desejareis agarrar o instante inesquecível, como diz o
bardo.
— Bom sujeito — disse Lancelot. — Maldito seria eu se não agarrasse, se pudesse.
— Jack é tão bom quanto seu senhor.
— Com certeza — disse o jovem, piscando o olho de uma maneira que receou parecer abominável.
— Melhor, na verdade, hein, mordomo?
Ele começou a rir como um asno.
— Ah! — disse o mordomo —, e aqui está minha esposa na porta da despensa, trazendo uma

mensagem. Ouso dizer que é para vós, Sir.

— Sobre o que é? — perguntou o mordomo, olhando o jovem que permanecia sentado olhando fixo
para o bilhete.
— Nada — ele disse, jogando o papel sobre a mesa e caminhando sem firmeza para a porta.
O mordomo leu o bilhete.
— Aqui diz que a Rainha Guenevere está no castelo de Case, a oito quilômetros daqui, e quer vos
ver. Diz que o Rei não está com ela. Há alguns beijos.
— E daí?
— Não ousareis ir — disse o mordomo.
— Não ousarei? — gritou Sir Lancelot, e penetrou cambaleando na escuridão, rindo como urna
caricatura, e ordenando que lhe trouxessem seu cavalo.
Na manhã seguinte ele acordou de repente em um quarto estranho. Estava completamente escuro,
com cortinas nas janelas, e a cabeça não lhe doía porque sua constituição era boa. Pulou da cama e
foi até a janela para abrir a cortina. De repente, em um segundo, ficou completamente consciente de
tudo que acontecera na noite anterior — consciente do mordomo e da bebida e da poção de amor
que talvez tenha sido colocada ali, da mensagem de Guenevere, e do corpo escuro, firme, quente e
fresco na cama da qual acabara de sair. Abriu a cortina e encostou sua testa contra a pedra fria da
divisória do caixilho. Sentia-se miserável.


— Jenny —-ele disse, passados minutos que pareceram horas.
Não veio resposta da cama.
Ele se virou e se viu olhando para a moça fervida, Elaine. Ela estava deitava na cama, seus
pequenos braços nus segurando as cobertas de cada lado, com os olhos violetas fixados nos dele.
Lancelot sempre foi um mártir de seus sentimentos, jamais conseguiu disfarçá-los. Quando viu
Elaine, sua cabeça recuou. Então seu rosto feio ganhou uma expressão de sofrimento profundo e

ultrajado, tão elementar e verdadeiro que sua nudez à luz da janela era dignidade. Começou a
tremer.
Elaine não se moveu, apenas o olhou com seus olhos perspicazes, como um rato.
Lancelot dirigiu-se para a arca sobre a quai estava sua espada.


— Vou matá-la.
Ela apenas olhava. Tinha dezoito anos, lastimavelmente pequena na grande cama, e estava com
medo.


— Por que fez isso? — ele exclamou. — O que você fez? Por que me traiu?
— Tinha de fazê-lo.
— Mas foi traição!

Ele não podia acreditar que ela tivesse feito aquilo.

— Foi traição! Você me traiu. — Por quê?
— Você me fez... me tirou... me roubou...
Ele atirou sua espada em um canto e sentou-se na arca. Quando começou a chorar, as linhas
grosseiras do seu rosto contraíram-se de maneira fantástica. A coisa que Elaine roubara dele era o
seu poder. Roubara sua força de dez. Mesmo atualmente, as crianças acreditam em coisas assim, e
acham que só serão capazes de jogar bem na partida de críquete amanhã se forem boas hoje.

Lancelot parou de chorar, e falou com os olhos fixos no chão.

— Quando eu era pequeno — disse — pedia a Deus que me deixasse fazer um milagre. Só virgens
podem fazer milagres. Queria ser o melhor cavaleiro do mundo. Eu era feio e solitário. As pessoas
de sua aldeia disseram que eu era o melhor cavaleiro do mundo, e fiz realmente meu Milagre
quando tirei você da água. Não sabia que seria o primeiro, mas também o último que eu faria.
Elaine disse:
— Oh, Lancelot, você fará muitos outros.
— Nunca. Você roubou meus milagres, Você roubou minha capacidade de ser o melhor cavaleiro,
Elaine, por que você fez isso?
Ela começou a chorar.
Ele levantou-se, enrolou-se em uma toalha, e voltou para a cama.


— Não importa — ele disse. — Foi culpa minha ter ficado bêbado, eu estava me sentindo infeliz e
bebi além da conta. Pergunto a mim mesmo se não foi aquele mordomo que me fez beber. Não foi
muito leal, se foi ele. Não chore, Elaine. Não foi culpa sua.
— Foi, sim. Foi.
— Provavelmente seu pai a forçou a fazer isso para ter o oitavo grau de Nosso Senhor na família.
Ou então foi aquela feiticeira Brise, a esposa do mordomo. Não se sinta mal por causa disso,
Elaine. Já acabou. Olhe, eu lhe darei um beijo.
— Lancelot! — exclamou Elaine. — Foi porque eu amo você. Não lhe dei algo também? Eu era
uma donzela, Lancelot. Não roubei você. Oh, Lancelot, a culpa foi minha. Eu deveria ser morta. Por
que você não me mata com sua espada? Mas foi porque eu o amo, e não pude evitar.
— Pronto, pronto.
— Lancelot, e se eu tiver um filho?
Ele parou de consolá-la e voltou para a janela outra vez, como se estivesse ficando louco.
— Quero ter um filho seu — disse Elaine. — Eu o chamarei Galahad, como seu primeiro nome.
Ela ainda segurava a coberta de cada lado, com seus braços pequenos e nus. Lancelot voltou-se
para ela, em fúria.

— Elaine — ele disse —, se você tiver um filho, o filho é seu. Não é justo me prender pela

piedade. Vou partir imediatamente, e espero nunca mais tornar a vê-la.



XIII


Guenevere estava bordando no quarto sombrio, o que detestava fazer. Era para a capa do escudo de
Arthur, e tinha a divisa do leão rampante. Elaine tinha apenas dezoito anos e é bem fácil explicar os
sentimentos de uma criança — mas Guenevere tinha vinte e dois. Crescera a ponto de ter algo da
natureza de uma pessoa adulta, impressa sobre os sentimentos simples da rainha-menina que uma
vez recebera seu presente de cativos.

Há uma coisa chamada conhecimento do mundo, que as pessoas não possuem até chegarem à meia-
idade. E algo que não pode ser ensinado aos jovens, porque não é lógico e não obedece às leis que
são constantes. Não tem regras. Simplesmente, nos longos anos que levam as mulheres ao meio da
vida, um sentido de equilíbrio se desenvolve. Você não pode ensinar um bebê a andar explicando-
lhe o assunto logicamente — ele tem que aprender a estranha postura para andar pela experiência.
De maneira parecida a essa, não se pode ensinar uma jovem mulher a ter um conhecimento do
mundo. Ela tem de ser deixada com a experiência dos anos. E então, quando ela está começando a
detestar seu corpo usado, de repente descobre que pode tê-lo. Pode continuar a viver — não por
princípio, não por dedução, não por conhecimento do bom e do mau, mas simplesmente por um
sentido peculiar e mutante de equilíbrio que, com freqüência, desafia cada uma dessas coisas. Já
não espera viver procurando a verdade — se é que as mulheres alguma vez esperam isso —, mas
continua daí para a frente sob a orientação de um sétimo sentido. O equilíbrio era o sexto sentido,
que ela adquire quando primeiro aprende a andar, e agora ela tem o sétimo — o conhecimento do
mundo.

A lenta descoberta do sétimo sentido, com o qual tanto homens quanto mulheres dão um jeito de
enfrentar as ondas de um mundo onde existem guerras, adultério, compromisso, medo,
estupidificação e hipocrisia — esta descoberta não é motivo de orgulho. O bebê talvez grite em
triunfo: consigo me equilibrar! Mas o sétimo sentido é percebido sem uma exclamação. Nós apenas
continuamos em frente, com nosso famoso conhecimento do mundo, enfrentando as estranhas ondas
à nossa maneira habitual, petrificada, porque atingimos uma fase de impasse em que não
conseguimos pensar em outra maneira de agir.

E, nessa fase, começamos a esquecer até que houve um tempo quando não tínhamos o sétimo
sentido. Começamos a esquecer, enquanto seguimos firmemente equilibrados, que pode ter existido
um tempo em que fomos corpos jovens ardendo no ímpeto da vida. Dificilmente a lembrança de tai


sentimento pode ser um consolo, e assim ele fica amortecido em nossa mente.

Mas houve um tempo em que cada um de nós estava nu frente ao mundo, confrontando a vida como
um problema sério que íntima e apaixonadamente nos dizia respeito. Houve um tempo em que era
de nosso vital interesse descobrir se existia ou não um Deus. Obviamente, a existência ou não de
uma vida futura é de primeira importância para alguém que vai viver sua vida presente, porque sua
maneira de vivê-la vai depender disso. Houve um tempo em que o Amor Livre versus a Moralidade
Católica era uma questão tão importante para nossos corpos ardentes como uma pistola que fosse
ser disparada em nossas cabeças.

Ainda mais para trás, houve tempos em que nos perguntávamos com toda nossa alma o que era o
mundo, o que era o amor, o que éramos nós.

Todos esses problemas e sentimentos desaparecem quando adquirimos o sétimo sentido. As
pessoas de meia-idade podem, sem dificuldade, se equilibrar entre a crença em Deus e a
desobediência a todos o.s mandamentos. O sétimo sentido, na verdade, aos poucos vai matando
todos os outros e, assim, no final, não há nenhum problema com os mandamentos. Já não podemos
vê-los, nem senti-los, nem ouvi-los. Os corpos que amávamos, as verdades que buscávamos, os
Deuses que questionávamos: ficamos surdos t; cegos para eles agora, segura c automaticamente nos
equilibrando em direção ao túmulo inevitável, sob a proteção de nosso último sentido. "Obrigado,
meu Deus, pelos mais velhos", canta o poeta.

Obrigado, meu Dais, pelos mais velhos
E pela própria velhice, e a doença e o túmulo,
Quando estamos velhos t enfermos, e particularmente no caixão,
Não dá trabalho nenhum nos comportarmos bem.


Guenevere tinha vinte e dois anos ao se sentar com seu bordado e pensar em Lancelot. Não estava
nem nu metade do caminho até seu caixão, nem mesmo doente, e tinha apenas seis sentidos. E
difícil imaginá-la.

Um caos de espírito e corpo — um tempo para chorar ao pôr-do-sol e ao fascínio do luar — uma
confusão e profusão de crenças e esperanças, em Deus, na Verdade, no Amor, e na Eternidade —
uma capacidade de se extasiar com a beleza dos objetos materiais — um coração a doer e a se
dilatar — uma alegria tão alegre e uma tristeza tão triste que oceanos poderiam se estender entre
elas: então como um contrapeso a essas características atraentes, acessos de egoísmo
indecentemente exposto — inquietação ou incapacidade de se tranqüilizar e parar de incomodar os
de meia-idade -— discussões animadas sobre temas abstratos como Beleza, como se tivesse algum
interesse para os de meia-idade — feita de experiência em radiação a quando a verdade deve ser
evitada em deferência aos de meia-idade; efervescência, inconveniências e inadequações em geral
aos padrões estabelecidos pelo sétimo sentido — essas devem ter sido algumas das características
de Guenevere aos vinte e dois, porque são de todo mundo. Mas, por cima de tudo isso, havia os
traços gerais e ainda imprecisos de seu caráter pessoal — traços que a faziam diferente da inocente


Elaine, traços de menos pathos,
talvez, e mais realidade, traços do poder que a tornavam a Jenny
específica que Lancelot amava.

— Oh, Lancelot — ela cantava enquanto bordava o brasão do escudo. —-Oh, Lance, venha logo.
Venha com seu sorriso torto, ou com seu jeito próprio de andar que mostra se está zangado ou
confuso. Volte para me dizer que não importa se amar é ou não pecado. Venha para dizer que é
suficiente que eu seja Jenny e você Lancelot, aconteça o que acontecer seja a quem for.
A coisa impressionante foi que ele veio. Direto depois de Elaine, direto depois de ter sido
roubado, Lancelot veio como uma flecha ao coração do amor. Ele já dormira com Guenevere
enganado, já fora roubado de sua força decuplicada. Aos olhos de Deus, como ele os via, era uma
fraude agora, portanto achou que deveria ser uma fraude completa. Não podendo mais ser o melhor
cavaleiro do mundo, não podendo mais fazer milagres contra a magia, não podendo mais ter
compensações pela feiúra e pelo vazio de sua alma, o jovem correu para sua amada em busca de
consolo. Houve o ruído das ferraduras do seu cavalo batendo nas pedras do calçamento, fez a
Rainha deixar seu bordado para ver se era Arthur voltando de sua caçada — o ressoar das correias
de ferro de seus sapatos do ed^s escadas, fazendo um clinque-clinque como esporas contra a pedra

— e então, antes que tivesse completa certeza do que tinha acontecido, Guenevere estava rindo ou
chorando, infiel a seu marido, como sempre soube que seria.

XIV


Arthur disse:

— Eis aqui uma carta de seu pai, Lance. Ele diz que está sendo atacado pelo Rei Claudas. Prometi
ajudá-lo contra Claudas, se fosse necessário, em troca de sua ajuda em Bedegraine. Terei de ir.
— Compreendo.
— O que você quer fazer?
— Como assim, o que eu quero fazer?
— Bem, você quer vir comigo ou quer ficar aqui?
Lancelot limpou a garganta e disse:
— Eu quero fazer o que você achar melhor.
— Será difícil para você — disse Arthur. — Detesto lhe pedir. — Mas você se importaria se eu
lhe pedisse para ficar?
Lancelot não conseguiu pensar em uma resposta, e o Rei interpretou erroneamente seu silêncio
como desapontamento.

— É claro que você tem o direito de ver seu pai e sua mãe — disse. — Se vai causar-lhe muito
sofrimento, não quero que fique. Provavelmente, poderemos arranjar de outro jeito.
— Por que você quer me deixar na Inglaterra?
— Alguém deve ficar aqui para tomar conta das facções. Vou me sentir mais seguro na França se
souber que deixei um homem forte aqui. Logo, vai haver problemas na Cornualha, entre Tristão eMark, e tem o feudo das Órcades. Você conhece as dificuldades. E também seria bom saber que há
alguém tomando conta de Gwen.
— Talvez — disse Lancelot, escolhendo dolorosamente as palavras — fosse melhor confiar em
outra pessoa.
— Não diga absurdos. Como poderia confiar mais em outra pessoa? Você só tem de pôr essa sua
cara fora do canil para imediatamente fazer todos os ladrões fugirem.

— Não ê uma cara bonita.
— De matador! — exclamou o Rei, carinhosamente, dando palmadas nas costas do amigo. E saiu
para fazer os preparativos para a expedição.
Eles tiveram um ano de alegria, doze meses do estranho paraíso que o salmão conhece nos leitos de
seixos do rio, sob a água límpida como o gim. Por vinte e quatro anos eles foram culpados, mas só
este primeiro ano foi parecido com a felicidade. Ao relembrá-lo, quando velhos, não recordaram
se nesse ano choveu ou ficou gelado o tempo todo. Para eles, as quatros estações foram coloridas
como a extremidade de uma pétala de rosa.

— Eu não entendo — dizia Lancelot — por que você me ama. Você tem certeza que me ama? Não
há algum engano nisso?
— Meu Lance.
— Mas meu rosto — ele dizia. — Sou tão horrível. Agora, acredito que Deus possa amar o mundo,
seja como for, por causa dele mesmo.
Em outros momentos, eles experimentavam um terror que vinha dele. Guenevere não sentia remorso
por si mesma, mas era contagiada pelo do seu amante.

— Não me atrevo a pensar. Não pense. Beije-me, Jenny.
— Por que pensar?
— Não consigo evitar.
— Lance querido!
Depois havia momentos diferentes quando eles discutiam por nada — mas mesmo as discussões
eram aquelas de amantes, e lhes pareciam doces quando se lembravam delas mais tarde.

— Seus dedos dos pés são como porquinhos que vão para o mercado.
— Gostaria que você não dissesse esse tipo de coisa. Não é respeitoso.
— Respeitoso!
— Sim, respeitoso. Por que você não seria respeitoso? Afinal, sou a Rainha.
— Você está me dizendo, seriamente, que devo tratá-la com respeito? Devo me dobrar em um
joelho o tempo todo e beijar sua mão?
— Por que não?
— Eu gostaria que você não fosse tão egoísta. Se tem uma coisa que não suporto é ser tratado como
uma posse.
— Egoísta, realmente!
E a Rainha batia o pé ou então ficava emburrada o dia todo. Mas o perdoava quando ele fazia um
ato de contrição adequado.
Um dia, quando eles estavam na fase de contar um ao outro seus sentimentos mais íntimos, com um


tipo de espanto inocente quando eles coincidiam, Lancelot contou à Rainha seu segredo.

— Jenny, quando era pequeno eu me detestava. Não sei por que. Sentia-me envergonhado. Eu era
um menino muito piedoso.
— Você não é nada piedoso agora — ela disse, rindo. Ainda não se dera conta do que ele estava
lhe contando.
— Um dia meu irmão me pediu para lhe emprestar uma flecha. Eu tinha uma ou duas especialmente
retas, com as quais tinha muito cuidado, e a dele estava um pouco torta. Fingi que tinha perdido
minhas flechas retas e disse a ele que não poderia emprestá-las.
— Mentirosinho!
— Sei que era. Depois disso, senti um terrível remorso por ter lhe dito uma mentira, e pensei que
fora desleal com Deus. Então, rui até um monte de urtigas que havia no fosso c pus nelas meu braço
direito, tomo um castigo. Enrolei a manga e enfiei meu braço ali.
— Coitadinho do meu Lance! Como você deve ter sido inocente!
— Mas, Jenny, elas não me picaram! Tenho certeza que minha lembrança de que elas não me
picaram é real.
— Você quer dizer que houve um milagre?
— Não sei. E difícil ter certeza. Eu era um menino tão sonhador, sempre vivendo em um mundo
inventado onde me considerava o melhor cavaleiro de Arthur. Posso ter imaginado aquilo das
urtigas. Mas acho que recordo o choque que tive quando elas não me picaram.
— Tenho certeza de que foi um milagre — concluiu, decidida, a Rainha.
— Jenny, toda a minha vida eu quis fazer milagres. Queria ser santo. Acho que era ambição ou
orgulho ou alguma outra coisa indigna. Para mim, não era suficiente conquistar o mundo — eu
queria também conquistar o céu. Era tão ganancioso que não bastava ser o cavaleiro mais forte —
tinha que também ser o melhor. Esta é a pior coisa de ficar sonhando acordado. Foi por isso que
tentei ficar longe de você. Eu sabia que, se não fosse puro, jamais poderia fazer milagres. E fiz um
milagre, sim: um milagre maravilhoso. Tirei uma donzela de dentro de um tipo de água fervente,
que estava encantado, e que dali não podia sair. Chamava-se Elaine. Depois, perdi meu poder. E
agora que estamos juntos, nunca mais serei capaz de fazer outros milagres.
Não queria contar toda a verdade sobre Elaine, pois achava que saber que a procurara em segunda
mão a faria sofrer.

—-Por que não?

— Porque estamos em pecado.
— Pessoalmente, nunca fiz um milagre — disse a Rainha, uni tanto friamente. — Portanto, tenho
menos do que me arrepender.
— Mas, Jenny, eu não me arrependo de nada. Você é meu milagre, e eu jogaria fora todos outra vez
por sua causa. Estava apenas tentando lhe contar as coisas que sentia quando era pequeno.

— Bem, não posso dizer que entendo.
— Você não entende o que é querer ser bom nas coisas? Não, eu sei por que você não teria que
querer. Só as pessoas carentes, ou más, ou inferiores têm que ser boas nas coisas. Você sempre foi
tão completa e perfeita, que não precisava imaginar querer ser nada. Mas eu sempre vivi
imaginando, e sofro terrivelmente às vezes, mesmo agora, com você, quando me lembro de que não
poderei mais ser o melhor cavaleiro.
— Então é melhor pararmos, e aí você pode fazer uma boa confissão e voltar a fazer mais milagres.
— Você sabe que não podemos parar.
— A história toda me parece fantasiosa — disse a Rainha. — Não entendo. Parece impraticável e
egoísta.
— Sei que sou egoísta, e não posso evitar. Tento não ser. Mas como posso evitar ser como fui
feito? Ah! será que você não entende o que estou falando? Eu era solitário quando pequeno e me
esforçava muito nos meus exercícios. Costumava me dizer que seria um grande explorador e
atravessaria o deserto dos Corasmos, ou seria um grande rei, como Alexandre ou São Luís, ou um
grande curador; encontraria um bálsamo que curada feridas e o distribuiria de graça; talvez me
tornasse um santo e curaria feridas apenas tocando-as, ou descobriria alguma coisa importante: uma
relíquia da Verdadeira Cruz, ou o Santo Graal, ou algo assim. Esses eram °s meus sonhos, Jenny.
Só estou lhe contando o que eu passava o dia imaginando. É isso o que chamo de milagres, que
agora estão perdidos. Eu lhe dei minhas esperanças, Jenny, como um presente do meu amor.

XV


Aquele ano de felicidade terminou com o retorno de Arthur — e quase imediatamente se
desmoronou em ruínas, mas não por conta do Rei. Na noite seguinte a sua volta ao lar, quando ele
ainda estava contando os detalhes da derrota de Claudas, conforme lhe vinham à memória, houve
um distúrbio na Guarita do Porteiro e Sir Bors foi conduzido ao Grande Saguão na hora do jantar.
Ele era primo de Lancelot, e tinha passado as férias no castelo de Corbin investigando as
assombrações. Tinha novidades para Lancelot, que contou em segredo depois do jantar —
infelizmente, no entanto, ele era misógino e, como a maioria das pessoas desse tipo, possuía a
inclinação feminina para a indiscrição. Também contou a novidade para alguns de seus amigos do
peito. Logo toda a Corte ficou sabendo. A novidade era que Elaine de Corbin tinha dado à luz um
lindo filho, a quem batizara com o nome de Galahad — que era o primeiro nome de Lancelot, como
você deve se lembrar.

— Então foi por isso — disse Guenevere, quando encontrou seu amante a sós —, então foi por isso
que você perdeu seus milagres. Em tudo mentira a história de tê-los dado a mim.
— O que quer dizer?
Guenevere começou a respirar pelo nariz. Sentia como se tivesse dois polegares vermelhos atrás
dos olhos tentando empurrá-los para fora, e não queria encarar o amante. Estava tentando não fazer
uma cena e temia seu coração. Tinha vergonha e ódio do que poderia dizer, mas não podia evitar o
assunto. Era como uma pessoa nadando em mar bravio.

— Você sabe o que quero dizer — disse amargamente, olhando em outra direção.
— Jenny, eu queria lhe contar, mas era difícil demais explicar como tudo aconteceu.
— Posso entender sua dificuldade.
— Não é o que você pensa.
— O que eu penso! — ela exclamou. — Como você sabe o que eu penso? Penso o que todo mundo
pensaria: que você é um sedutor perverso, um grande mentiroso, você e seus milagres. E fui tola o
suficiente para acreditar em você.
Lancelot virava a cabeça a cada uma das estocadas dela, como se estivesse tentando se desviar.


Olhou para o chão, para esconder os olhos. Seus olhos eram arregalados, o que em geral lhe dava
uma expressão de medo ou surpresa.

—-Elaine não significa nada para mim — ele disse.

— Pois deveria significar. Como pode dizer que nada significa para você quando é a mãe de seu
filho? Quando tentou mantê-la cm segredo? Não, não me toque, vá embora.
— Não posso ir embora assim.
— Se você me tocar eu talarei com o Rei.
— Guenevere, eu estava bêbado em Corbin. Então eles me disseram que você estava esperando por
mim em Case e me levaram para um quarto escuro onde estava Elaine. Só voltei a mim na manhã
seguinte.
— Uma mentira grosseira.
— É verdade.
— Uma criança não acreditaria.
— Não posso fazer você acreditar, se não quiser. Eu levantei minha espada para matar Elaine
quando descobri.
— Eu a teria matado.
— Não foi culpa dela.
A Rainha começou a puxar a gola do vestido, como se estivesse muito apertada.
— Você a está defendendo — disse. — Você está apaixonado por ela, e me enganando. Achei isso
o tempo todo.
— Juro que estou dizendo a verdade.
De repente, ela não agüentou mais e começou a chorar.
— Por que não me contou antes? — perguntou. — Por que não me contou que tinha um filho: Por
que mentiu o tempo todo? Ela deve ter sido seu famoso milagre, do qual você estava tão orgulhoso.
Lancelot, que também sofria com emoções violentas, começou a chorar. Passou os braços em volta
dela.


— Eu não sabia que tinha um filho — ele disse. — Eu não queria. Não procurava isso.
— Se você tivesse me contado a verdade, eu teria acreditado.
— Eu queria lhe contar, mas não consegui. Tinha medo de fazê-la sofrer.
— Sofro mais agora.
— Eu sei.
A Rainha secou as lágrimas e olhou para ele, sorrindo como um chuvisco de primavera. Um
instante depois, beijavam-se, sentindo->e como a terra verde refrescada pela chuva. Falaram, mais



uma vez, que entendiam um ao outro — mas a dúvida fora plantada. Agora, no amor deles, que era
mais forte, havia também as sementes do ódio, do temor e confusão crescendo ao mesmo tempo:
pois o amor pode existir com o ódio, cada um devorando o outro, e é isto o que lhe dá um maior
furor.


XVI


No Castelo de Corbin, a jovem Elaine estava se preparando para sua viagem. Queria roubar
Lancelot de Guenevere, uma expedição que todo mundo, exceto ela, sabia ser patética. Não tinha
armas com as quais lutar, e não sabia como enfrentar essa batalha. Era completamente carente de
personalidade. Lancelot não a amava. E ela encontrava-se na posição ainda mais desesperada de
amá-lo. Não possuía nada para contrapor à maturidade da Rainha, exceto sua própria imaturidade e
amor despretensioso, nada exceto o bebê gordinho que estava levando para o pai — um bebê que
para ele era apenas o símbolo de uma artimanha cruel. Era uma expedição como a de um exército
sem armas contra uma fortaleza impenetrável, um exército que, ao mesmo tempo, tinha suas mãos
atadas às costas. Elaine, com uma ingenuidade que só poderia ser explicada pelo faço de que
passara a maior parte de sua vida no isolamento de seu caldeirão mágico, decidira encontrar
Guenevere em seu próprio terreno. Mandara fazer vestidos da máxima suntuosidade e sofisticação

— e com eles, o que só a faria parecer mais estúpida e provinciana, ia a Camelot para travar sua
batalha com a Rainha inglesa.
Se Elaine não fosse Elaine, poderia usar Galahad como arma. Sofrimento e sentido de propriedade,
aplicado corretamente a um caráter como o de Lancelot, poderiam ter conseguido prendê-lo. Mas
Elaine não era sagaz o bastante, não compreendia a tentativa de prender seu herói. Levava Galahad
porque o adorava. Levava-o apenas porque não queria se afastar de seu bebê, e porque queria
mostrá-lo ao pai e, em parte, desejava comparar as feições. Fazia já um ano desde que ela colocara
os olhos no homem para quem seu espírito infantil vivia.

Lancelot, enquanto Elaine estava planejando sua captura, permanecia com a Rainha na Corte. Mas
ele agora já não tinha a paz de espírito temporária que fora capaz de inventar para si mesmo
enquanto o Rei estava fora. Na ausência do Rei, ele fora capaz de mergulhar no minuto presente —
mas Arthur agora estava constantemente a seu lado, como um lembrete de sua traição. Para uma
personalidade medieval como a de Lancelot, com sua fraqueza fatal para amar o mais elevado
quando o defrontava, esta era uma posição de sofrimento. Não suportava ser levado a pensar que
seus sentimentos por Guenevere eram ignóbeis, pois era o sentimento profundo de sua vida — no
entanto, toda circunstância agora conspirava para fazê-lo parecer desprezível. Os apressados
momentos juntos, as portas trancadas e artimanhas vis, as manobras culpadas a que a presença do
esposo forçava os amantes — tudo isto tinha o efeito de manchar o que não tinha desculpa a não ser
se fosse belo. Sobre essa mancha havia a tortura de saber que Arthur era gentil, simples e honesto

— de saber que estava sempre prestes a ferir terrivelmente Arthur, muito embora o amasse.

Depois, havia a dor pela própria Guenevere, a sementinha amarga que eles semearam, ou viram
semear, nos olhos um do outro, por ocasião de sua primeira briga por suspeita. Para ele, era um
sofrimento estar apaixonado por uma mulher ciumenta e desconfiada. Ela dera-lhe um golpe mortal
ao não acreditar imediatamente em sua explicação sobre Elaine. No entanto, era incapaz de deixar
de amá-la. Por fim, havia os elementos tortuosos de seu próprio caráter — seu estranho desejo de
pureza e honra e excelência espiritual. Todas essas coisas, em conjunto com o pavor inconsciente
da chegada de Elaine com seu filho, despedaçaram sua felicidade sem deixar rota de fuga. Raras
vezes se sentava, mas vagava sem destino com movimentos nervosos, apanhando coisas e
colocando-as em qualquer lugar, sem olhá-las, caminhando até a janela e olhando para tora sem
nada ver.

Em Guenevere, o pavor da chegada de Elaine não era inconsciente. Ela soube, desde o primeiro
momento, que a rival viria. Para ela, no entanto, como para todas as mulheres, os medos
adiantavam-se em relação ao horizonte masculino. Os homens muitas vezes acusam as mulheres de
levá-los a ser desleais pelo ciúme sem sentido, antes de ter existido qualquer pensamento de
infidelidade da parte deles. No entanto, a idéia provavelmente estava lá, inconsciente e
indetectável, exceto pelas mulheres. A grande Anna Karenina, por exemplo, forçou Vronsky a
tornar determinada posição pelo ciúme sem causa de uma maníaca — no entanto, aquela posição
era a única solução real para o problema deles, e era a solução inevitável. Sendo capaz de ver
muito mais à frente no futuro do que ele, ela caminhou nessa direção com passo apaixonado,
arruinando o presente porque o futuro estava destinado a ser uma ruína.

Assim acontecia com Guenevere. Provavelmente, não se sentia pressionada pelo problema
imediato de Elaine. Provavelmente, não tinha verdadeiras suspeitas quanto àquele aspecto de
Lancelot. No entanto, com sua presciência, tinha consciência de perdições e sofrimentos que
estavam fora da previsão do seu amado. Não seria acurado dizer que ela estava consciente deles deuma maneira lógica, mas eles estavam presentes no mais profundo de seu ser. É uma pena que a
linguagem seja uma arma tão grosseira a ponto de não podermos dizer que uma mãe estava
"inconsciente" de seu bebê chorando no quarto ao lado — com o significado de que a mãe, de
algum modo, inconscientemente, sabia que ele estava chorando. Os fatos sobre os quais Guenevere
tinha essa subconsciência, nesse sentido, incluíam o conjunto da situação de Arthur-Lancelot,
grande parte da futura tragédia da Corte e a realidade dolorosa de sua própria incapacidade de ter
filhos — que nunca seria remediada.

Ela disse a si mesma que Lancelot a traíra, que era ela a vítima da esperteza de Elaine, que seu
amado com certeza a trairia de novo. Torturava-se com milhares de palavras do mesmo tipo. Mas o
que sentia no fundo de si mesma, nas regiões não mapeadas de seu coração, era uma outra coisa.
Talvez realmente tivesse ciúme, não de Elaine, mas da criança. Talvez fosse o amor de Lancelot
por Arthur que ela temia. Ou talvez fosse o medo da situação como um todo, de sua instabilidade e
do castigo justo inerente a ela. As mulheres sabem, muito melhor do que os homens, que não se
deve zombar das leis de Deus. Têm mais motivo para saber disso.

Seja qual for a explicação para a atitude de Guenevere, seu resultado era sofrer por seu amado.
Tornou-se tão inquieta quanto ele, com menos razão, e muito mais cruelmente.


Os sentimentos de Arthur completavam a infelicidade da Corte. Infelizmente para si próprio, ele
teve uma educação primorosa. Seu mestre tinha lhe ensinado da maneira como um bebê é educado
no útero onde vive a história do homem, de peixe a mamífero — e, como a criança no útero, fora,
ao mesmo tempo, protegido pelo amor. O efeito de uma educação assim foi que ele cresceu sem
nenhuma das habilidades úteis para a vida — sem malícia, vaidade, desconfiança, crueldade, e as
formas comuns de egoísmo. Para ele, o ciúme parecia o mais ignóbil dos vícios. Era tristemente
incapaz de odiar seu melhor amigo ou torturar sua esposa. Recebera demasiado amor e confiança
para ser bom nessas coisas.

Arthur não era uma dessas personalidades interessantes cujas motivações sutis podem ser
dissecadas. Era apenas um homem simples e afetuoso, porque Merlin acreditara que amor e
simplicidade eram coisas valiosas para se possuir.

Agora, tendo diante dos olhos o desenvolvimento de uma situação que sempre foi notoriamente
difícil de resolver — tão difícil que recebeu um rótulo e o nome de Triângulo Eterno, como se
fosse um problema geométrico como o Pons Asinorum{16} de Euclides —, Arthur só podia recuar.
Em geral, são as pessoas confiantes e otimistas que podem se dar ao luxo de recuar. Os mal-
amados e desesperados, por seu pessimismo, são impelidos ao ataque. Arthur era forte e bondoso o
bastante para esperar que, se confiasse em Lancelot e Guenevere, as coisas acabariam se
endireitando. Achava isso melhor do que tentar endireitá-las de uma vez recorrendo a meios como,
por exemplo, cortar as cabeças dos amantes por traição.

Arthur não sabia que Lancelot e Guenevere eram amantes. Ele, na verdade, nunca os vira juntos
nem desenterrara provas de culpa. Nessas circunstâncias, estava na natureza de seu espírito
confiante não os encontrar juntos — em vez de armar uma armadilha para arruinar de vez a
situação. Isto não significa que fosse um marido conivente. Apenas quer dizer que ele esperava
suportar o problema recusando-se a tomar consciência dele. Inconscientemente, é claro, ele sabia
muito bem que eles estavam dormindo juntos — também sabia, inconscientemente, que se
perguntasse a sua esposa, ela o admitiria. As três maiores virtudes dela eram coragem,
generosidade e honestidade. Portanto, ele não podia lhe perguntar.

Tal atitude frente ao problema não tornava mais fácil para o fiei ser feliz. A seu modo, nem
excitado como Guenevere, nem inquieto como Lancelot, ele se manteve reservado. Deslocava-se
como um rato por seu próprio palácio. Nesse ínterim, fez um esforço para desatar o nó.

— Lancelot — disse o Rei ao encontrá-lo uma tarde no jardim das rosas —, ultimamente você anda
com um ar lamentável. Está com algum problema?
Lancelot havia arrancado uma das rosas e apertava suas sépalas. Essas rosas antigas — há pouco
foi confirmado — floriam de tal maneira que as cinco sépalas realmente se alongavam para além
das pétalas, exatamente como são representadas nas rosas heráldicas.

— E alguma coisa — perguntou o Rei, contra toda a esperança — em relação àquela moça que
dizem ter um filho seu?
Se Arthur o tivesse deixado apenas com a primeira pergunta, e um silêncio para respondê-la, talvez
eles tivessem chegado à questão. Mas Arthur tinha medo do que poderia vir do silêncio e, depois


que deu a dica da segunda pergunta, a chance foi perdida.

— Sim — Lancelot respondeu.
— Você não está disposto a se casar com ela, é isso?
— Eu não a amo.
— Bem, você conhece melhor seus problemas.
Lancelot, com um desejo incontrolável de tirar um pouco do sofrimento do seu peito talando sobre
ele — e mesmo assim incapaz de contar a história verdadeira para esse ouvinte em especial —,
começou uma longa história sem nexo sobre Elaine. Começou contando para Arthur meia-verdade:
de que forma fora envergonhado, e como tinha perdido seus milagres. Mas sendo obrigado a fazer
de Elaine a figura central desta confissão, depois de meia hora, sem querer apresentara ao Rei uma
história -— passível de se crer — com a qual Arthur podia se contentar se não quisesse realmente
conhecer a história verdadeira. Essa meia-verdade foi de grande utilidade para o pobre sujeito, que
aprendeu a substituir o verdadeiro problema por ela nos anos posteriores. Nós, pessoas
civilizadas, que em tais circunstâncias imediatamente correríamos para os tribunais de divórcio e
pensões alimentícias e outras formas de atritos, podemos nos dar ao luxo de olhar com educado
desprezo o pusilânime marido enganado Mas Arthur era apenas um selvagem medieval. Não
entenderia nossa civilização e não poderia fazer outra coisa senão tentar ser absolutamente decente
para não se degradar por ciúme.

Guenevere foi a pessoa seguinte a encontrar Lancelot no jardim das rosas. Mostrou-se toda doce e
cheia de bom senso.

— Lance, você ouviu a notícia? Um mensageiro acabou de chegar para dizer que esta moça que o
persegue está vindo para a Corte trazendo o bebê. Ela chegará no começo da noite.
— Eu sabia que ela viria.
— Devemos tratá-la da melhor maneira possível, claro. Pobre criança, suponho que deva estar
infeliz.
— Não é minha culpa se ela está infeliz.
— Não, claro que não é. Mas o mundo faz pessoas infelizes, e devemos ajudá-las quando podemos.
— Jenny, é bonito de sua parte ser tão gentil sobre isso.
Ele virou-se para ela e fez um movimento para segurar sua mão. As palavras dela fizeram-no
esperar que tudo ficaria bem. Mas Jenny retirou sua mão.

— Não, querido — disse. — Não quero que você faça amor comigo até ela ir embora. Quero que
você se sinta completamente livre.
— Livre?
— Ela é a mãe de seu filho, e não é casada. Nós dois nunca poderemos nos casar. Quero que você
se sinta livre para se casar com ela, se quiser, porque esta é a única coisa que pode ser feita.
— Mas, Jenny...

Não, Lance. Temos de ser sensatos. Quero que você fique longe de mim enquanto ela estiver aqui,
para descobrir se pode amá-la, depois de tudo. Isto é o mínimo que posso fazer por você.


XVII


Elaine chegou à barbacã escancarada, e Guenevere a beijou friamente.

— Seja bem-vinda a Camelot — disse. — Cinco mil vezes bem-vinda.
— Obrigada — disse Elaine.
As duas mulheres se olharam com rostos hostis e sorridentes.
— Lancelot ficará feliz em ver você.
— Oh!
— Todo mundo sabe sobre seu filho, querida. Não há nada para esconder. O Rei e eu estamos
muito ansiosos para ver se ele será como seu pai.
— É gentil de sua parte — disse Elaine, desconfortável.
— Quero ser a primeira a vê-lo. Você lhe deu o nome de Galahad, não é? Ele é forte? Já pode ver
as coisas?
— Ele pesa seis quilos e oitocentos — a jovem anunciou com orgulho. — Você pode vê-lo agora,
se quiser.
Guenevere controlou-se com esforço quase imperceptível, e começou a ficar nervosa com as
roupas de Elaine,

— Não, querida, — ela disse. — Não devo ser tão egoísta. Você deve descansar depois da longa
viagem, e certamente o bebê tem que ir para a cama. Posso voltar para vê-lo no final da tarde,
depois que ele tiver dormido. Teremos muito tempo.
Mas ela acabou tendo de ver o bebê.

Quando, depois, Lancelot encontrou a Rainha, sua doçura e bom senso tinham desaparecido. Estava
fria e orgulhosa, e falou como se estivesse em uma reunião.

— Lancelot — disse —, acho que você deve ir ver seu filho. Elaine está sofrendo porque você
ainda não foi vê-lo.
— Você o viu?

— Sim.
— Ele é feio?
— Parece com Elaine.
— Graças a Deus. Irei imediatamente.
A Rainha o chamou de volta.
— Lancelot — ela disse, respirando pelo nariz —, confio que você não fará amor com Elaine sob
meu teto. Se você e eu devemos manter-nos afastados até que isso esteja terminado, é também justo
que você se mantenha longe dela.
— Eu não quero fazer amor com Elaine.
— Você deve dizer isso, é claro. E eu acreditarei em você. Mas se você quebrar sua palavra desta
vez, tudo estará terminado entre nós. Absolutamente terminado.
— Já disse tudo que posso dizer.
— Lancelot, você me enganou uma vez, então como pode ter certeza? Mandei colocar Elaine no
quarto próximo ao meu, e verei se você for lá. Quero que você fique no seu quarto.
— Como quiser.
— Mandarei chamá-lo durante a noite, se puder me afastar de Arthur. Não lhe direi a que horas. Se
você não estiver em seu quarto quando eu mandar chamá-lo, concluirei que está com Elaine.
A jovem chorava em seu quarto, enquanto a Dama Brisen arrumava o berço para o menino.

— Eu o vi nos campos dos arqueiros, e ele também me viu. Mas olhou para o outro lado. Deu uma
desculpa e se afastou. Nem olhou para nosso filho.
— Pronto, pronto — disse a Dama Brisen. — Isso está uma sujeira.
— Eu não deveria ter vindo. Só serviu para me fazer ainda mais infeliz, e a ele também.
— É aquela Rainha.
— Ela é linda, não é?
A Dama respondeu, severa:
— Belo é quem o belo faz.
Elaine começou a soluçar com desamparo. Tinha um aspecto nada atraente, com o nariz vermelho,
como em geral ficam as pessoas que abdicaram de sua dignidade.

— Queria que ele ficasse contente.
Ouviu-se uma batida na porta, e Lancelot entrou — o que a fez secar rapidamente os olhos.
Cumprimentaram-se com constrangimento.

— Estou feliz por você ter vindo a Camelot — ele disse. — Espero que esteja bem.

— Sim, obrigada.
— Como está... o bebê?
— Filho de sua senhoria — disse a Dama Brisen, com ênfase. Ela virou o berço para Lancelot e se
afastou para que ele pudesse olhar.
— Meu filho.
Ficaram imóveis olhando para o recém-nascido, indefeso e semi-adormecido. Eles eram fortes,
como cantou o poeta, e o bebê, fraco — um dia eles seriam fracos, e ele, forte.

— Galahad — disse Elaine, e se inclinou sobre os panos, fazendo os gestos tolos e os sons sem
sentido que as mães adoram fazer quando seus bebês estão começando a prestar atenção. Galahad
fechou o punho e com ele bateu no próprio olho, uma façanha que parece dar prazer às mulheres.
Lancelot observou-os com espanto. "Meu filho", pensou. "É uma parte de mim, no entanto é bonito.
Não parece feio. Os bebês nos surpreendem." Estendeu o indicador direito para Galahad,
colocando-o dentro da palma gorducha de sua mão, e o bebê o agarrou. A mão parecia ter sido
adaptada ao braço por um hábil fabricante de bonecas. Havia uma ruga funda ao redor do pulso.
— Oh, Lancelot! — exclamou Elaine.
Ela tentou se jogar nos braços dele, mas ele afastou-a. Olhou para Brisen por cima do ombro, com
receio e irritação. Emitiu um som extravagante, sem sentido, e saiu apressadamente do quarto.
Elaine, desesperada, afundou-se na cama e desatou a chorar ainda mais do que antes. Brisen, de pé
e rígida, como ficara ao enfrentar o olhar de Lancelot, fitou a porta fechada com expressão
inescrutável.


XVIII


De manhã, ele e Elaine foram chamados ao quarto da Rainha. Ele, por sua parte, foi com um
sentimento de felicidade. Estava pensando em como Guenevere deve ter dito que não estava
passando bem na noite passada, para poder se afastar do quarto do Rei. O amante fora chamado na
escuridão. A mão conivente usual o conduzira pelo dedo, na ponta dos pés, até a cama eleita. No
silêncio que lhes era imposto pela proximidade do quarto de Arthur, mas com ternura apaixonada,
eles fizeram o melhor que puderam para fazer as pazes. Lancelot estava mais feliz hoje do que fora
desde que a história de Elaine começara. Sentia que se pudesse persuadir sua Guenevere a terminar
honestamente com o Rei, para que tudo ficasse às claras, ainda poderia divisar uma possibilidade
honrosa.

Guenevere estava rígida, como se estivesse com febre, e sua face parecia exangue — exceto por um
mancha vermelha de cada lado das narinas. Aparentava ter tido enjôos. Estava sozinha.

— Então — disse a Rainha.
Elaine olhou direto em seus olhos azuis, mas Lancelot parou como se tivesse sido alvejado.
— Então.
Eles ficaram de pé, esperando Guenevere falar ou morrer.
— Aonde você foi a noite passada?
— Eu...
— Não diga nada — gritou a Rainha, levantando a mão para que eles pudessem ver que segurava,
como uma bola, um lencinho que fizera em pedaços. — Traidor! Traidor! Saia do meu castelo com
sua meretriz.
— A noite passada... — disse Lancelot. Sua cabeça estava girando com um desespero que nenhuma
das mulheres notara.
— Não fale comigo. Não minta para mim. Vá!
Elaine disse calmamente:
— Sir Lancelot estava em meu quarto na noite passada. Minha ama Brisen trouxe-o até mim no
escuro.

A Rainha começou a apontar para a porta. Fazia gestos dramáticos com o dedo em direção à porta
e, em seu tremor, seu penteado começou a se desfazer. Parecia medonha.

— Saia! Saia! E você também, sua infame! Como ousa me falar assim em meu castelo? Como ousa
admitir isso para mim! Pegue o homem de seus caprichos e vá embora!
Lancelot estava respirando com dificuldade e olhando para a Rainha com olhar fixo. Talvez
estivesse inconsciente.

— Ele pensou que estivesse com você — disse Elaine, que juntara as mãos e olhava para a Rainha,
passivamente,
— A velha mentira!
— Não é mentira — disse Elaine. — Eu não posso viver sem ele. Brisen me ajudou na farsa.
Guenevere correu até ela com passos cambaleantes. Pretendia dar um tapa na boca de Elaine, mas a
jovem não se moveu. Era como se quisesse que Guenevere a estapeasse.

— Mentirosa! — gritou a Rainha.
Correu de volta para onde estava Lancelot, que havia se sentado em uma arca, fixando o olhar
vazio no chão, com a cabeça entre as mãos. Agarrou-o pelo manto e começou a puxá-lo ou
empurrá-lo para a porta, mas ele não se mexia.

— Então, você contou para ela a história! Por que não podia inventar outra nova? Você poderia ter
inventado algo mais interessante. Suponho que pensou que a velha e batida cantilena serviria?
— Jenny... — ele disse, sem olhar para cima.
A Rainha tentou cuspir-lhe na cara, mas não tinha prática nisso.
— Como ousa me chamar de Jenny? Você ainda está com o fedor dela. Eu sou a Rainha, a Rainha
da Inglaterra! Não sou sua vagabunda!
— Jenny...
— Saia do meu castelo — gritou a Rainha a plenos pulmões. — Nunca mais coloque sua cara aqui
outra vez. Sua cara perversa, feia, animalesca.
Lancelot de repente disse para o chão, em voz alta:

— Galahad!
Depois, tirou as mãos da cabeça e olhou para cima, para que elas pudessem ver a cara à qual a
Rainha se referira. Tinha um ar surpreso, e um dos olhos começara a envesgar. Disse, com mais
calma:

— Jenny.
Mas parecia cego.
A Rainha abriu a boca para dizer alguma coisa, mas nada saiu.
— Arthur — ele disse. Depois, deu um grito agudo e pulou direto da janela, que estava no primeiro

andar. Ouviram-no cair num arbusto, com uma pancada e o quebrar de galhos, e então o viram
afastar-se correndo entre as árvores e arbustos com uma espécie de grito alto e trinado, como os
cães atrás da presa. O alarido se perdeu na distância, e fez-se silêncio no quarto entre as mulheres.

Elaine, agora tão pálida quanto a Rainha estivera, mas ainda se mantendo altiva e de pé, disse:

— Você o enlouqueceu. Com certeza, perdeu o juízo.
Guenevere nada disse.
— Por que você o enlouqueceu? — perguntou Elaine. — Você tem um excelente marido, o maior
na terra. Você é Rainha, com honra, felicidade e um lar. Eu não tenho lar nem esposo, e também
minha honra foi perdida. Por que não quis deixá-lo para mim?
A Rainha permaneceu silenciosa.

— Eu o amava — disse Elaine. — Pari um belo filho para ele, que será o melhor cavaleiro do
mundo.
— Elaine — disse Guenevere —, saia da minha Corte.
— Vou sair.
Guenevere de repente agarrou-a pela saia.
— Não diga a ninguém — disse rapidamente, — Não diga a ninguém o que aconteceu. Ele morrerá,
se você contar.
Elaine puxou sua saia.

— Acha que eu faria isso?
— Mas o que vamos fazer? — exclamou a Rainha. — Ele está louco? Será que vai melhorar? O
que vai acontecer? Será que devemos fazer alguma coisa? O que vamos dizer?
Elaine não queria ficar para conversar com ela. Chegando à porta, no entanto, virou-se com os
lábios tremendo.

— Sim, ele está louco — ela disse. -— Você o conquistou e o derrotou. O que fará com ele agora?
Quando a porta se fechou, Guenevere sentou-se. Deixou cair seu lencinho despedaçado. Depois —
lentamente, profundamente, primitivamente — começou a chorar. Pôs o rosto entre as mãos e
estremeceu de tristeza. (Sir Bors, que não gostava da Rainha, uma vez lhe disse: "Desconfiai de seu
choro, pois só chorais quando já não há remédio".)


XIX


Dois anos mais tarde, o Rei Pelles estava sentado no solário com Sir Bliant. Era uma bela manhã
de inverno com os campos congelados, sem vento, e uma leve neblina que não era suficiente para
confundir os pombos. Sir Bliant, que ali passara a noite, estava vestido de escarlate e pele de
arminho. Seu cavalo e escudeiro estavam no pátio, prontos para levá-lo de volta ao Castelo Bliant,
mas os dois homens estavam tendo uma ligeira refeição antes de sua partida. Sentados com as mãos
abertas ao esplêndido lume de madeira, bebericavam vinho aquecido e temperado com especiarias,
beliscavam tortas e falavam sobre o Selvagem.

— Tenho certeza de que ele já foi um cavaleiro — disse Sir Bliant. — Faz coisas que ninguém,
exceto um cavaleiro faria. Tem uma inclinação natural para as armas.
— Onde ele está agora? — perguntou o Rei Pelles.
— Só Deus sabe. Ele desapareceu uma manhã quando os cães de caça estavam no Castelo Bliant.
Mas tenho certeza de que já foi um cavaleiro.
Tomararn um gole e fitaram as chamas.

— Se você quer saber minha opinião — acrescentou Sir Bliant —, acredito que ele era Sir
Lancelot.
— Bobagem — disse o Rei.
— Era alto e forte.
— Sir Lancelot está morto — disse o Rei. — Que Deus o tenha. Todo mundo sabe disso.
— Não foi provado.
— Se ele fosse Sir Lancelot, você não teria como não perceber. Era o homem mais feio que jamais
vi.
— Eu nunca o vi — disse Sir Bliant.
— Foi provado que Lancelot corria enlouquecido de camisa e calções, até ser ferido por um javali
e morrer num eremitério.
— Quando foi isso?
— No último Natal.

— Foi mais ou menos na época que meu Selvagem fugiu com a caça. A nossa também era uma
caçada de javali.
— Bem — disse o Rei Pelles —, talvez tenham sido uma mesma pessoa. Se foram, é interessante.
Como o seu Selvagem apareceu?
— Foi durante uma aventura de verão, há dois anos. Minha tenda estava montada num campo
agradável, à maneira usual, e eu estava lá dentro, esperando que alguma coisa acontecesse. Eu me
lembro que estava jogando xadrez. Então, houve um barulho horrível do lado de fora, e eu saí da
tenda, e lá estava o lunático nu, chicoteando meu escudo. Meu anão estava sentado no chão,
esfregando o pescoço — o maníaco quase o quebrou — e gritando por socorro. Cheguei até o
sujeito e lhe disse: "Olhe aqui, meu bom homem, você não quer lutar comigo. Vamos, agora ponha
essa espada no chão e seja um bom companheiro". Ele pegara uma das minhas próprias espadas,
sabe, e imediatamente percebi que era louco. Eu disse: "Você não deve andar por aí lutando, meu
rapaz. Estou vendo que precisa é de uma boa noite de sono e de alguma coisa para comer". E,
realmente, ele tinha um aspecto horrível. Parecia alguém que estivera de sentinela por três noites.
Seus olhos escavam completamente vermelhos.
— O que ele disse?
— Apenas disse: "Quanto a isso, não vos aproximai: pois se o fizerdes sabeis bem que vos
matarei".
— Estranho.
— Sun, é estranho, não é? Quero dizer, que ele soubesse a linguagem erudita.
— O que ele fez?
— Bom, eu estava só com meu camisão, e o homem parecia perigoso. Entrei outra vez na tenda e
vesti minha armadura.
O Rei Pelles passou-lhe outro pedaço de torta, que ele aceitou com uma inclinação de cabeça.

— Quando acabei de me armar — prosseguiu, de boca cheia —, saí com outra espada para
desarmar o sujeito. Não pretendia acertá-lo, nem nada assim, mas era um maníaco homicida e não
havia outra maneira de lhe tirar a espada. Avancei para ele como se faz com um cachorro,
estendendo a mão e dizendo: "Vamos, pobrezinho: calma, vamos, bom rapaz". Pensei que seria
fácil.
— E foi?
— No momento em que ele me viu de armadura, e com uma espada, veio direto para cima de mim
como um tigre. Nunca vi um ataque como aquele, tentei