A Ditadura Derrotada - As Ilusões Armadas - Vol. 3 - Elio Gaspari

O SACERDOTE E O FEITICEIRO
A Ditadura Derrotada


Copyright © 2003 by Elio Gaspari


PROJETO GRÁFICO E CAPA
Raul Loureiro


ASSISTÊNCIA DE PRODUÇÃO
RITA DA Costa Aguiar


FOTOS DA CAPA
Capa: Posse de Ernesto Geisel, Brasília, 15 de março de 1974 (Agência Estado)
Lombada: Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, fevereiro de 1975 (Agência Estado)
Quarta capa: Campanha eleitoral, Rio de Janeiro, novembro de 1974 (Agência O Globo)


EDIÇÃO DE TEXTO
Márcia Copola


PESQUISA ICONOGRÁFICA
Companhia da Memória
Coordenação: Vladimir Sacchetta
Pesquisa: Carlito de Campos (SP) e Ricardo Braule Pereira (RJ)
Apoio: Dedoc -Departamento de Documentação da Editora Abril


ASSISTÊNCIA EDITORIAL
Miguel Said Vieira
Lúcia Cruz Garcia
Marcelo Yamashita Salles
Luiz Henrique Ligabue F. Silva
Yumi Hirai
Rosangela de Souza Mainente
Michely Jabala Mamede Vogel
Valéria Gameleira da Mota


ÍNDICE REMISSIVO
Silvia Penteado


REVISÃO
Beatriz de Freitas Moreira
Maysa Monção


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Gaspari, Elio

A ditadura derrotada / Elio Gaspari. — São Paulo: Companhia das Letras,

2003.

Bibliografia.

ISBN 85-359-0428-X

1. Brasil -História -1964-1985 2. Ditadura -Brasil. I. Título.
03-5477 CDD-981.08
Índice para catálogo sistemático:

1. Brasil: História, 1964-1985 981.08
Todos os direitos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ LTDA.
Rua Bandeira Paulista 702 cj. 32
04532-002 — São Paulo — SP
Telefone (11) 3707-3500
Fax (11) 3707-3501
www.companhiadasletras.com.br


Para Anna



SUMÁRIO

Abreviaturas e siglas
Explicação


PARTE I O Sacerdote e o Feiticeiro

GEISEL, O SACERDOTE

Moita, é o Alemão
Uma dor que não acaba
O perigo vermelho
Um general da (i)legalidade
1964
O pijama togado


GOLBERY, O FEITICEIRO

Criptocomunista
O escriba
Pés de veludo
O paliteiro do IPÊS
No palácio



PARTE II O caminho de volta


PARTE III


A COSTURA

O peso do irmão
A turma da Candelária
Um voto, o voto
Primeiras encrencas
A grande encrenca

O PODER

A equipe
Jogo de fichas
"Esse troço de matar"

No Planalto

O REGIME É IMPLACÁVEL

A escolha essencial
Um mundo difícil
A costura da púrpura
O porão intocado
Interlúdio pessoal
O regime é implacável
O pé no acelerador


PARTE IV A derrota

"É isso, e pronto"
A autonomia sepultada


APÊNDICE
Breve nomenclatura militar
Cronologia
Fontes e bibliografia consultadas


ABREVIATURAS E SIGLAS


Abreviaturas utilizadas


AA Arquivo do Autor
AEG/CPDOC Arquivo de Ernesto Geisel/CPDOC
APEG Arquivo Privado de Ernesto Geisel
APGCS/HF Arquivo Privado de Golbery do Couto e Silva/Heitor
Ferreira
APHF Arquivo Privado de Heitor Ferreira
BLBJ Biblioteca Lyndon B. Johnson
DEEUA Departamento de Estado dos Estados Unidos da
América

Siglas gerais

ALN Ação Libertadora Nacional
AP Ação Popular
APML Ação Popular Marxista-Leninista
Arena Aliança Renovadora Nacional
CDED/IEVE Centro de Documentação Eremias Delizoicov/

Instituto de Estudos sobre a Violência do Estado
Cebrap Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
Cepal Comissão Econômica para a América Latina (ONU)
CGT Comando Geral dos Trabalhadores
CNBB Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
CNTI Confederação Nacional dos Trabalhadores na


Indústria
CPDOC Centro de Pesquisa e Documentação de História
Contemporânea do Brasil, da Fundação Getulio Vargas
CPI Comissão Parlamentar de Inquérito
FGV Fundação Getulio Vargas
FIESP Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
IBAD Instituto Brasileiro de Ação Democrática
IBOPE Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística
Icomi Indústria e Comércio de Minérios SA
IPÊS Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais
MDB Movimento Democrático Brasileiro
ONU Organização das Nações Unidas
OPEP Organização dos Países Exportadores de Petróleo
OTAN Organização do Tratado do Atlântico Norte
PC do B Partido Comunista do Brasil
PCB Partido Comunista Brasileiro
PCBR Partido Comunista Brasileiro Revolucionário
PCI Partido Comunista Italiano
PIB Produto Interno Bruto
PNB Produto Nacional Bruto
PSD Partido Social Democrático
SESI Serviço Social da Indústria
UDN União Democrática Nacional
UNE União Nacional dos Estudantes
URSS União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
VPR Vanguarda Popular Revolucionária

Siglas governamentais

AI Ato Institucional
BNDE Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
CIA Central Intelligence Agency (EUA)
CNP Conselho Nacional do Petróleo
DIP Departamento de Imprensa e Propaganda


DOPS Delegacia de Ordem Política e Social
DPF Departamento de Polícia Federal
Embrafilme Empresa Brasileira de Filmes
Funarte Fundação Nacional de Arte
IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
MRE Ministério das Relações Exteriores
Pasep Programa de Formação do Patrimônio do Servidor
Público
PIS Programa de Integração Social
PND Plano Nacional de Desenvolvimento
PSD Partido Social Democrático
SFICI Serviço Federal de Informações e Contrainformação
SNI Serviço Nacional de Informações
Sudene Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste
Sumoc Superintendência da Moeda e do Crédito
USP Universidade de São Paulo
Siglas militares
AMAM Academia Militar das Agulhas Negras
CIE Centro de Informações do Exército
DAC Diretoria de Aeronáutica Civil
DOI Destacamento de Operações Internas
EME Estado-Maior do Exército
ENFA Estado-Maior das Forças Armadas
ESCEME Escola de Comando e Estado-Maior do Exército
ESG Escola Superior de Guerra
FAB Força Aérea Brasileira
FEB Força Expedicionária Brasileira
HCE Hospital Central do Exército
ID Infantaria Divisionária
IPM Inquérito Policial Militar
Oban Operação Bandeirante


Para-Sar Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento da Força
Aérea Brasileira

PE Polícia do Exército

PM Polícia Militar

QG quartel-general

RI Regimento de Infantaria

STM Superior Tribunal Militar


EXPLICAÇÃO


Geisel (o Sacerdote) e Golbery (o Feiticeiro) formaram uma parceria sem
precedentes na história do Brasil. Era uma amizade a serviço.
Começava e terminava no Planalto. Geisel era o presidente da República
e Golbery, seu chefe do Gabinete Civil. Não se freqüentavam, não
almoçavam juntos. Contam-se nos dedos as ocasiões em que Golbery foi
ao palácio da Alvorada e aquelas em que Geisel o visitou na granja do
Ipê, onde morava.

Os dois generais aproximaram-se durante o primeiro governo da
ditadura, quando Geisel, com 56 anos, chefiou o Gabinete Militar do
presidente Castello Branco e Golbery, com 52, fundou e dirigiu o
Serviço Nacional de Informações. Voltaram ao poder no dia 15 de março
de 1974. Tinham o propósito de desmontar a ditadura radicalizada
desde 1968, com a edição do Ato Institucional nº 5. Queriam
restabelecer a racionalidade e a ordem.

Geisel recebeu uma ditadura triunfalista, feroz contra os
adversários e benevolente com os amigos. Decidiu administrá-la de
maneira que ela se acabasse. Não fez isso porque desejava substituí-la
por uma democracia. Assim como não acreditava na existência de uma
divindade na direção dos destinos do universo, não dava valor ao
sufrágio universal como forma de escolha de governantes. Queria
mudar porque tinha a convicção de que faltavam ao regime brasileiro
estrutura e força para se perpetuar.


Em dois outros livros (A ditadura envergonhada e A ditadura
escancarada) procurei contar a história do consulado militar desde a
deposição do presidente João Goulart, em 1964, até a caçada dos
guerrilheiros do Partido Comunista do Brasil, nas matas do Araguaia,
em 74. Neste, vão narradas as vidas de Geisel e Golbery, a articulação
que os levou ao Planalto, a formação do governo e seu caminho até a
eleição de 1974, na qual a ampla e inesperada vitória da oposição
alterou o curso da ditadura. Outro volume, que irá do início de 1975 até
a demissão do general Sylvio Frota do Ministério do Exército, em
outubro de 77, já está escrito. Contará como Geisel restabeleceu o
primado da presidência republicana sobre os comandantes militares,
que, desde 1964, viam o presidente como um delegado da desordem a
que denominavam "Revolução". O quinto irá até a posse do general João
Baptista Figueiredo, em março de 1979.

Este livro não existiria sem a colaboração dos dois generais.
Golbery tornou-me depositário de aproximadamente 5 mil documentos
guardados em 25 caixas de arquivo morto que estavam empilhadas na
garagem de seu sítio, nas cercanias de Brasília. Com Geisel tive dezenas
de encontros ao longo dos quais procuramos reconstituir episódios de
seu governo. A partir de 1984 o ex-presidente deu-me cerca de vinte
entrevistas gravadas. Elas só foram suspensas em 1996, quando Geisel
adoeceu. Pelo trato, ele decidiria o destino das fitas, que guardava na
mesinha ao lado do sofá da sala de seu apartamento. Devo à filha do
presidente, Amália Lucy, a gentileza da remessa de doze desses
cassetes, cada um com noventa minutos de depoimento, encontrados
num armário de sua casa depois da morte do pai.

Conversas soltas com um e com o outro ensinaram-me de que
forma usaram o poder, mas também as pequenas tristezas e alegrias de
suas vidas. Golbery contava como seu pai assistiu passivamente à
transformação dos prédios que herdara numa extensão da "zona" de Rio
Grande. Geisel mostrou-me que em 1995 ainda guardava numa gaveta
da biblioteca a folha amarelada da extração da loteria de julho de 1919,
que premiou seu pai com cem contos de réis. Ouvindo-o narrar a trama


do romance A Ilha Misteriosa, de Júlio Verne, oitenta anos depois de tê-
lo lido, ficou-me a impressão de que a obstinação de Ernesto Geisel na
industrialização brasileira ia além dos sentimentos de uma geração de
militares. O Brasil do presidente Geisel deveu alguma coisa à
convivência do menino Ernesto com aqueles personagens capazes de
criar progresso e fazer coisas que o senso comum julgava impossíveis.
Como ele mesmo repetia, nascera num mundo que não tinha rádio e
num país que importava manteiga.

Este livro deve sua existência também à generosidade de Heitor
Ferreira, assistente de Golbery no Serviço Nacional de Informações e de
Geisel na Petrobrás, antes de ser nomeado seu secretário particular. Foi
ele quem acumulou os documentos daquilo que se denomina Arquivo
Privado de Golbery do Couto e Silva/Heitor Ferreira. Deu-me cópias de
seu Diário no período que vai de 1964 a 1976. Em 1985 a versão
integral desse documento somava dezessete cadernos escolares. Texto
equivalente ao de um livro de 1500 páginas. Isso foi pouco, Heitor deu-
me trinta anos de amizade.

À documentação de Golbery e Heitor juntaram-se 120 cassetes
com gravações feitas entre outubro de 1973 e março de 74. Nelas, além
de telefonemas, estão conversas e reuniões de Geisel com seus
colaboradores no período imediatamente anterior ao início do governo.
Os principais assessores de Geisel, bem como sua família, sabiam da
existência dessas gravações.

Em 1985 Heitor Ferreira copiou cerca de setenta rolos em
cassetes para que eu os ouvisse. Um ano depois, devolvi-lhe parte deles.
Passados mais de dez anos, com a ajuda de Maria da Glória Prado e dos
profissionais da Companhia de Áudio e da Panacea Estação Sonora, os
cassetes foram copiados em duzentos CDS. Neles estão guardadas 220
horas de conversações. Algumas fitas estavam no limite de sua vida
útil. Felizmente, nada se perdeu. Entre 1985 e 1988 resumi e transcrevi
parcialmente essas conversas. Elas somam 564 registros num arquivo


que a esta altura acumula em torno de 30 mil fichas.

Quando trouxe as fitas, Heitor Ferreira impôs um embargo. Eu
poderia apenas ouvi-las. No final de 1997 foram editadas nos Estados
Unidos as transcrições das gravações feitas pelos presidentes John
Kennedy, durante a crise cubana de 1962, e Lyndon Johnson, em suas
salas de trabalho e em seus telefones. Anos depois o historiador
Timothy Naftali editou dois volumes e um CD com as gravações de
Kennedy no Salão Oval da Casa Branca. Com esses precedentes, Heitor
permitiu que as fitas fossem citadas livremente, desde que se
preservasse a vida particular dos outros.

No uso dessa documentação, empreguei dois critérios:

1. Foram desprezados todos os comentários de natureza pessoal.
Em alguns casos, transcreveram-se opiniões fortes de Geisel e Golbery a
respeito de personagens que tratavam de políticas públicas, exerciam
ou queriam exercer cargos públicos. Nesses casos, que limitei ao
mínimo, a transcrição destina-se a informar o estado d'alma de um ou
de outro quando se referiam a determinada pessoa.
2. Todas as gravações citadas envolvem pelo menos um
interlocutor que sabia da existência do gravador. É o caso das
conversas ou dos telefonemas de Geisel, Golbery, Gustavo Moraes Rego,
Humberto Barreto e Heitor Ferreira. Em algumas ocasiões seus
interlocutores não sabiam que estavam sendo gravados. Procurei
manter-me no universo das pessoas que ocupavam ou viriam a ocupar
cargos públicos e que, durante as conversas, tratavam de políticas
públicas.
Golbery costumava dizer que "segredo guarda quem não sabe".
Ademais, cultiva-se a lenda de que nenhum segredo político brasileiro
vive mais de uma semana. Pois o segredo das fitas de 1973/1974 foi
preservado por quase trinta anos. Dele souberam, no mínimo, umas
cinqüenta pessoas. Nenhum trecho dessas conversas jamais foi
revelado. (Com exceção de dois diálogos, publicados n'A ditadura
escancarada.)

Espero que o uso dado a essas fitas justifique o esforço de


preservação da história de quem as produziu. Foi esse o objetivo que
levou Golbery a guardar seu arquivo e Heitor Ferreira a manter seu
Diário e preservar as gravações autorizadas por Geisel. Amália Lucy
Geisel doou ao Centro de Pesquisa e Documentação de História
Contemporânea (CPDOC), da Fundação Getulio Vargas, cerca de 4 mil
documentos textuais onde se podem encontrar preciosidades como
análises da situação do país feitas pelo Serviço Nacional de
Informações. Graças a essas pessoas, um governo que nasceu com a
blindagem da censura veio a se transformar, décadas depois, num dos
melhor documentados da história.

No levantamento da vida e do cotidiano de Geisel tive a ajuda de
sua filha, Amália Lucy, de seu amigo Humberto Barreto e de seu
médico, Americo Mourão. De Humberto recebi sua infalível amizade
sertaneja, cujas virtudes aprendeu no Crato.

Para o entendimento da política do período socorri-me à
generosidade de Antonio Carlos Magalhães, Antonio Delfim Netto,
Franco Montoro, José Sarney, Paulo Brossard, Paulo Egydio Martins e
Thales Rama-lho. Francis Mason (Chase Manhattan) e Tony Gebauer
(Morgan) ensinaram-me como funcionou o processo de endividamento
internacional do país. Durante anos, Mario Henrique Simonsen foi um
professor paciente e Delfim Netto (novamente), um cáustico demolidor
de embustes. Claudio Haddad auxiliou-me com sua visão crítica de toda
a gestão econômica do período e, sobretudo, do que eu escrevia.

Os generais Gustavo Moraes Rego, Leonidas Pires Gonçalves e
Reynaldo Mello de Almeida ajudaram-me a reconstruir a situação
militar do período. O general Newton Cruz esclareceu-me os meandros
do funcionamento do SNI nos primeiros meses do governo de Geisel.
Meus amigos Givaldo Siqueira, Armênio Guedes e João Guilherme
Vargas Netto mostraram-me como operava o Partido Comunista em
1974, quando foi abatido por uma matança. Candido Mendes de
Almeida e d. Eugênio Sales foram solícitos dirimidores de dúvidas para

o entendimento das relações da Igreja com o governo. No final do
volume listei as pessoas de cujo conhecimento me aproveitei e a quem

tenho a satisfação de agradecer.

O historiador Marco Antonio Villa conferiu cada citação de livro
ou documento. Foi um leitor atento e pesquisador obsessivo. Villa tem
uma prodigiosa capacidade de lembrar de um fato e de saber onde está

o documento que comprova sua afirmação. Ajuda como a dele é motivo
de tranqüilidade para quem tem o prazer de recebê-la. Além disso, dá a
impressão de saber de memória todos os resultados de jogos de futebol.
Lili Schwarcz, Maria Emília Bender, Luis Francisco de Oliveira
Filho, Luiz Schwarcz, Fernando Lottenberg, João Guilherme Vargas
Netto, Márcio Thomaz Bastos e Wanderley Guilherme dos Santos
contribuíram com generosas observações depois de lerem as diversas
versões deste livro.

Mais uma vez, beneficiei-me também da competência da equipe
que a Companhia das Letras mobilizou para assegurar a qualidade do
texto. O leitor não imagina quanto devo a essa turma. Foram nove
pessoas, coordenadas por Márcia Copola. Durante quase um ano, só ela
era capaz de ter uma idéia do que estava acontecendo com os originais.
Explicando melhor, só ela parecia ter certeza de que o livro sairia. Além
disso, no preparo do texto, foi uma incansável defensora do idioma e da
colocação do sujeito nas frases.

A Miguel Said Vieira devo correções de erros em que acreditei por
décadas. Lúcia Cruz Garcia foi capaz de achar publicações que
pareciam perdidas. Rosangela de Souza Mainente, Marcelo Yamashita
Salles, Yumi Hirai, Valéria Gameleira da Mota, Michely Jabala Mamede
Vogel e Thiago Said Vieira checaram notas de pé de página, estatísticas
e grafias de nomes.

Os trechos de gravações citados foram ouvidos e conferidos por
Márcia Copola e Luiz Henrique Ligabue F. Silva. Às vezes ocorreram
discrepâncias, todas dirimidas com uma nova escuta, minha. Em dois
casos, foi necessário recorrer à ajuda do estúdio da Companhia de
Áudio para limpar a gravação e, assim, poder ouvir melhor passagens
confusas.

Raul Loureiro fez o projeto gráfico e paginou os dois cadernos


ilustrados. Nessa produção, teve a ajuda de Rita da Costa Aguiar.
Vladimir Sacchetta reuniu as fotografias. É fácil avaliar seu trabalho.
Basta folhear esses cadernos. Vladimir faz a diferença quando se vê a
foto de Tancredo Neves. Ele sabia que no dia 20 de março de 1962
Tancredo lera na ESG um texto escrito por Golbery. Foi à luta e voltou
com a presa: a fotografia, do dia, com Tancredo lendo a palestra do
general.

Devo agradecer também aos funcionários da Biblioteca Nacional,
do CPDOC, dos departamentos de pesquisa d'O Globo, da Folha de
S.Paulo, d'O Estado de S. Paulo e do Jornal do Brasil. No Departamento
de Documentação da Editora Abril, o famoso Dedoc, Susana Camargo e
Ana Lucia Correa, a serena Bizuka, são um porto seguro para
náufragos de todo tipo, bem como Elenice Ferrari e Marilene Bucci, do
arquivo de imagens (ou fotografias).

Só a ajuda de tanta gente é que me permitiu fazer este livro. Eles
não têm nada a ver com os erros e impropriedades que eu tiver
cometido.

Finalmente, devo à paciência e ao rigor de Dorrit Harazim o
melhor curso para diversos momentos da pesquisa. A sua perseverante
indignação continua sendo uma baliza que o tempo não abate.


PARTE I O Sacerdote e o Feiticeiro


GEISEL, O SACERDOTE



Moita, é o Alemão


No dia 22 de agosto de 1972, quando a Censura voltou a proibir a
imprensa de tratar da sucessão do presidente Emilio Garrastazú Medici,
ela já estava resolvida. Medici seria substituído pelo general Ernesto
Geisel, o Alemão, presidente da Petrobrás, chefe do Gabinete Militar no
governo Castello Branco e irmão mais moço do ministro do Exército.
Fazia mais de um ano que o general Golbery escrevera a Heitor Ferreira:
"As cousas vão indo bem por aqui. [...] Cogita-se do futuro sucessor —
não lhe digo qual o nome na pauta porque você vai ter um chilique.
(Moita! É preciso não queimar! — Alemão)".1 No início de julho Medici se
encontrara com Geisel no palácio Laranjeiras e lhe dissera: "Seu
Ernesto, faltam vinte meses e sete dias".2

A ditadura estava no seu oitavo ano, no terceiro general. Medici
cavalgava popularidade, progresso e desempenho. Uma pesquisa do
IBOPE realizada em julho de 1971 atribuíra-lhe 82% de aprovação.3 Em
1972 a economia cresceria 11,9%, a maior taxa de todos os tempos. Era

o quinto ano consecutivo de crescimento superior a 9%. A renda per
capita dos brasileiros aumentara 50%. Pela primeira vez na história as
exportações de produtos industrializados ultrapassaram 1 bilhão de
dólares. Duplicara a produção de aço e o consumo de energia, triplicara
a de veículos, quadruplicara a de navios. A Bolsa de Valores do Rio de
Janeiro tivera em agosto uma rentabilidade de 9,4%. Vivia-se um
regime de pleno emprego. No eixo Rio—São Paulo executivos ganhavam

mais que seus similares americanos ou europeus.4 Kombis das
empresas de construção civil recrutavam mão-de-obra no ABC paulista
com alto-falantes oferecendo bons salários e conforto nos alojamentos.
Um metalúrgico parcimonioso ganhava o bastante para comprar um
fusca novo. Em apenas dois anos os brasileiros com automóvel
passaram de 9% para 12% da população e as casas com televisão, de
24% para 34%.5 O secretário do Tesouro americano, John Connally,
dissera que "os Estados Unidos bem que poderiam olhar para o exemplo
brasileiro, de modo a pôr em ordem a sua economia".6

Emilio Garrastazú Medici era o único brasileiro a governar seu
país num regime de contínua supressão das liberdades individuais e de
censura à imprensa. Grandes artistas nacionais viviam no exílio:
Caetano Veloso e Gilberto Gil, em Londres, Chico Buarque de Hollanda,
em Roma, e Glauber Rocha pelo mundo afora. Estavam proibidos
alguns dos filmes de sucesso mundial. Quem tinha dinheiro ia à Europa
ver Último tango em Paris. A máquina repressiva do governo de Medici já
matara mais gente (120 pessoas) que seus dois antecessores somados
(59). Em menos de três anos, acumulara cerca de 2500 denúncias de
torturas, contra algo como 1500 nos oito anos anteriores. Depois de
passar uma semana no Brasil, representando o Secretariado
Internacional dos Juristas Católicos e entrevistando-se com religiosos,
advogados e familiares de presos, o advogado parisiense Georges Pinet
relatou: "A tortura, no Brasil, não é nem pode ser o resultado de
excessos individuais; nem é, nem pode ser considerada, uma reação
exagerada a atos terroristas para derrubar um regime em dificuldade
que, por seu lado, provoca o famoso 'ciclo da violência'. Isso não sucede,
porque já não existe luta armada no Brasil. A tortura é manifestação e
necessidade de um modelo político num contexto jurídico e
socioeconômico".7

Geisel herdaria esse Milagre. Aos 65 anos, era um homem sem
prazeres nem sonhos, regido por hábitos e obrigações. Pelo porte
marcial, parecia maior que seu 1,77 m de altura. Os cabelos brancos


faziam-no mais velho, um estrabismo dava aspecto inquietante ao seu
olhar, e o costume de elevar repentinamente a voz tornava-o um
interlocutor desagradável. Atencioso no trato, resguardava-se de
manifestações sentimentais. Precedia quaisquer ordens, até em
pequenos bilhetes, de um eterno "peço". Era temido por suas explosões
de ira, quando na realidade elas refletiam uma das poucas exibições
emocionais que se permitia. Como ele mesmo explicava: "Eu só fico
brabo com as pessoas com quem tenho intimidade".8

Em sua vida misturavam-se os valores dos colonos alemães do
Rio Grande do Sul e as ansiedades daquela geração de militares
brasileiros que a Revolução de 1930 denominou "tenentes". Às
influências do meio somara necessidades e sofrimento. Nada lhe fora
fácil. Poucos eram os seus afetos, todos enclausurados numa
circunspecção que raramente rompia o círculo familiar. Detestava
efemérides, fosse o próprio aniversário ou o Natal. Duvidava não apenas
de si, mas de todo o gênero humano: "É muita pretensão do homem
inventar que Deus o criou à sua imagem e semelhança. Será possível
que Deus seja tão ruim assim?".9

Era um desconhecido para a maioria dos brasileiros. Mantinha-se
afastado da roda social dos burocratas e do convívio com os colegas de
farda. Vivia trancado na Petrobrás. Saía para almoçar em casa,
sentava-se de pijama à mesa, dormia quinze minutos e regressava à sua
sala de trabalho pontualmente às catorze horas. Andava na praia antes
do sol forte, passava os fins de semana em Teresópolis, e contavam-se
nos dedos as famílias que freqüentava. Evitava receber o tratamento de
"você" e não beijava mulheres no rosto. Havia quase vinte anos jogava
biriba com o mesmo casal de amigos.10 Morava com a mulher e a filha
num apartamento de três quartos e sala, em edifício sem elevador, no
Leblon. Tinha economias suficientes para satisfazer a mulher, que se
encantara com um lançamento imobiliário próximo, com vista para o
mar, mas não abria a mão (por hábito) nem a guarda (por cautela):
"Lucy, eu não vou comprar esse apartamento. Estou indo para a
Petrobrás, e se eu comprar esse apartamento, vão logo dizer que estou


roubando".11

Desde o início de 1970 era um dos nomes mais fortes para a
sucessão de Medici. No final de 1971 dizia: "Não mexo uma palha, mas
também não me nego". Não mostrava entusiasmo pelo lugar: "Como é
que se chega ao meu nome? Ora, porque fulano é cretino, sicrano é
burro, beltrano é safado! Isso é jeito?".12

Detestava que o chamassem de Alemão e procurava distanciar-se
da cultura de sua família a todo custo. Jamais aprendera direito a
língua paterna. Mesmo assim, de todos os presidentes brasileiros, viria
a ser aquele que menos guardaria semelhanças com a onipresente
figura de Macunaíma, repositório da malandragem nacional, em quem
se podia achar a dissimulação de Getulio Vargas, a ligeireza de
Juscelino Kubitschek e o dístico de João Goulart, Costa e Silva e Emilio
Medici: "Ai! que preguiça!...". O Alemão fazia o possível, mas brrasileirro
não era.

Seu pai emigrara em 1883, aos dezesseis anos. Passara fome na
travessia do Atlântico e por alguns dias alimentara-se de cebolas.13
Fixara-se no lugarejo de Estrela, no interior do Rio Grande do Sul, onde

o alemão era a língua da comunidade de duas centenas de agricultores
e artesãos, quase todos protestantes.14 No inverno calçavam tamancões
de madeira com meias de lã fiadas em casa. Wilhelm August Geisel fora
criado numa casa de órfãos e viajara com o dote de um modesto tutor,
suficiente para sobreviver alguns meses. Um de seus irmãos, Ernesto,
reclamara do investimento, já que haviam faltado recursos para que ele
próprio avançasse nos estudos. Para homenageá-lo, August deu seu
nome ao quarto filho, nascido em 1907. A família vivia em Bento
Gonçalves, num ambiente de pobreza européia, sem eletricidade nem
água encanada.
Era pobreza mesmo. Faziam-se em casa as roupas das crianças, o
pão, os licores, o sabão e as lingüiças. Criavam galinhas e, em 1917,
quando cortaram a cabeça de uma raposa a golpes de machado, tinham


64.15 Em Estrela, Wilhelm August começou como operário numa
fundição, chegou a professor primário e se casou com Lídia Beckmann,
uma das nove filhas do pastor luterano da comunidade. Tornara-se
brasileiro, mudara o nome para Augusto Guilherme e passara num
concurso para escrivão do cartório de registros civis. Freqüentava a
maçonaria e fora até major da Guarda Nacional.16 Fiscalizava
diariamente o asseio e os deveres dos cinco filhos. Tinha uma mulher e
quatro homens, e a cada um cabia uma tarefa doméstica. Ernesto
limpava os sapatos, Orlando arrumava a mesa de trabalho. Amália, a
primogênita, cuidava de todos. Falavam-se em alemão.
Em Bento Gonçalves eram luteranos alemães numa cidade de
italianos católicos. Augusto queixava-se do temperamento anárquico
dos meninos do lugar, não queria suas crianças naquele meio e as
proibia de brincar na rua. Arranhava um violino e tinha uma pequena
estante de clássicos, da Divina comédia aos poemas de Schiller. Em
novembro de 1916 levou os filhos à missa pela alma do imperador
Francisco José da Áustria. A igreja e o catafalco forrados de crepe foram
a primeira impressão de pompa que a vida ofereceu a Ernesto. Num
Natal, Augusto presenteou os filhos com a obra completa de Júlio
Verne. A fantasia de Ernesto Geisel expandiu-se além dos limites do
povoado de Bento com a ajuda do jovem Harbert Brown e do engenheiro
Cyrus Smith, que fugiram de um campo de prisioneiros da Guerra Civil
Americana a bordo de um balão, caindo na "Ilha Misteriosa".17 Passados
quase oitenta anos, ele era capaz de relatar, circunspecto, como os
náufragos reinventaram a civilização, protegidos por um enigmático
personagem. (Tratava-se do capitão Nemo, das Vinte mil léguas
submarinas, lembrava-se.) Contava a história com o olhar do garoto e
dizia que os jovens da aventura eram dois. Verne, contudo, pusera só
Harbert no livro.

Ernesto, caçula, era o mais ligado à mãe, que lhe pagava um
vintém por lição de leitura. Quis ser carreteiro, pensou em sair de casa
atrás do elefante e dos saltimbancos de um circo, e chegou a lhe pedir
que arrumasse suas coisas para a partida. Conheceu a adversidade


quando freqüentava o grupo escolar. Enxergava mal, e o pai levou-o a
um médico em Caxias do Sul. O diagnóstico: corria o risco de ficar cego,
era melhor que não lesse, inútil mantê-lo no colégio pois não
conseguiria acompanhar as lições. A vida escolar trouxe uma carga
adicional para a formação da sua personalidade. Não bastava que
aprendesse, tinha que provar que não era incapaz. Carregou a cicatriz:
"Fui inscrito como ouvinte. Assistia às aulas, mas não era para valer.
No fim, eu sabia mais que os outros". Concluiu o curso elementar entre
os melhores alunos da turma.18

Em 1920, por influência de seus irmãos Orlando e Henrique,
matriculados no Colégio Militar de Porto Alegre, decidiu ir para o
Exército. Fez a escolha numa época em que poderia ter contado com a
ajuda do pai para tentar uma profissão civil. Augusto Geisel melhorara
de vida. Amália era professora primária. Bernardo, o filho mais velho,
custeava seus estudos de química em Porto Alegre trabalhando no
correio. Além de ter menos despesas, o pai conseguira um aumento da
receita. Tinha o hábito de arriscar a sorte comprando bilhetes de loteria,
e em julho de 1919 o milhar 5852 deu-lhe cem contos de réis, dinheiro
suficiente para cobrir os gastos de uma família como a sua por mais de
dez anos.19 Até investir a pequena fortuna numa mata de pinhais, onde
haveria de perdê-la, Augusto passou por um período de bonança
financeira.20

Mudanças burocráticas impostas aos limites de idade
complicaram a matrícula de Ernesto no Colégio Militar, mas o obstáculo
foi removido pelo pai, ajudado por algum colega do cartório de Bento
Gonçalves. Produziu-se um novo registro de seu nascimento, tornando-
o um ano mais moço.21 Orlando, dois anos mais velho, sabatinou o
irmão em casa e assegurou ao pai que ele seria reprovado. Augusto
Geisel trancou-o por quase dois meses. Os aprovados foram quatro,
Ernesto e mais três.22

Faltava o exame de saúde. A limitação visual não confirmara o
prognóstico apocalíptico do médico de Caxias do Sul, mas deixara sua
seqüela. Geisel padecia de uma disfunção resultante do


desenvolvimento desigual dos olhos. Nesses casos, se uma vista enxerga
menos, o sistema nervoso central, incapaz de trabalhar com duas
imagens diversas, dispensa a mais fraca. O olho débil continua ativo. Se
o outro é obliterado, o cérebro capta imediatamente a má imagem. A
anomalia associa-se a um forte estrabismo, e a falta da visão dupla
resulta na perda da percepção de profundidade.23 Pelo manual de saúde
do Exército, os portadores de visão monocular estavam incapacitados
para a carreira das armas.

Geisel foi para o exame médico certo de que o reprovariam. Na
véspera um colega fora desligado. Quando o oficial que o atendeu lhe
ouviu as batidas do coração (140 por minuto), concluiu que era
cardíaco, por carnívoro contumaz, como todos os gaúchos. Levou o
diagnóstico ao coronel que chefiava o exame, mas ele o corrigiu: "Esse
garoto está é nervoso, deve voltar outro dia". "Para mim foi um alívio",
contou Geisel, "porque percebi que eles estavam preocupados com o
meu coração, onde eu não tinha nada. Voltei e fui aprovado."24

Não bastava. Ao chegar ao Colégio Militar com aquele sobrenome,
viu-se constrangido por uma observação que haveria de acompanhá-lo
por todos os colégios e cursos de sua vida. "O professor perguntava se
eu era irmão do Orlando e do Henrique, e dizia que eu tinha um
sobrenome a zelar. Ora, eu era eu, não o irmão do Orlando e do
Henrique."25 Saiu de Porto Alegre como o primeiro da turma, com todas
as notas acima de 8. Melhor marca, só a do legendário Luiz Carlos
Prestes, que terminara o curso em 1918.26

Geisel chegou à Escola Militar de Realengo em 1925. Repetiu o
desempenho e por duas vezes ganhou o prêmio de viagem à Europa que

o Lóide Brasileiro oferecia aos cadetes.27 Não podia viajar porque não
tinha roupas. Vivia com o que a escola dava aos alunos e era membro
da Associação do Estudante Pobre.28 Trocou os bilhetes que poderiam
levá-lo a Hamburgo por passagens para Porto Alegre. Tinha um caderno
onde listava as "Coisas que não farei", e nele registrou que nunca
ofereceria um prêmio sem dar ao beneficiado as condições necessárias
para gozá-lo. A pobreza levava os três irmãos Geisel a passar os fins de

semana em Realengo. Ernesto recusava até mesmo convites para festas
e reuniões sociais.

Quatro anos depois saiu tenente de artilharia de um exército
pequeno, com 45 mil homens, trinta generais e 2300 tenentes, inapto,
frágil, militarmente insignificante.29 "A cavalaria não tinha cavalos, a
artilharia não tinha canhões, a infantaria não tinha fuzis."30 Seus
generais perderam três expedições massacrando jagunços em Canudos
e mil homens enfrentando caboclos nas matas de Santa Catarina.

Terrível geração, a dos "tenentes" dos anos 20.31 Estavam prontos
para salvar o Brasil dos "casacas", nome que davam à elite civil que
governava o país desde o Império. Movidos por um militarismo
ressentido e salvacionista, rebelaram-se em 1922 e 24 em nome da
moralidade pública. Autoritários e audaciosos, eram dissidentes em
busca de um ditador. Havia neles mais revolta do que radicalismo
político, até porque sabiam pouco. Em 1918 Luiz Carlos Prestes não
tinha ouvido falar na Revolução Russa.32 Geisel chegara a Realengo seis
anos depois sem grande interesse pelo que acontecera em São
Petersburgo, sem saber direito o que vinha a ser o fascismo. Via-se
como um revolucionário muito mais por solidariedade aos "tenentes"
foragidos e aos que, degradados, viviam como simples praças nos
quartéis. "Para mim a Revolução de 30 era a revolução do Juarez
Távora e do Luiz Carlos Prestes."33 Mais de meio século depois, com
uma casaca no armário e a farda na alma, Geisel exporia a sua visão
tenentista da história:

No fim do século passado o Exército se esforçou para ganhar a
Guerra do Paraguai. Fomos para lá sem tropa treinada, sem
equipamento e sem grande apoio, mas vencemos. Quando a
tropa voltou, descobriu que os "casacas" não lhe davam
importância. Além disso, formou-se um sistema de ensino
muito eficiente, talvez mais eficiente do que devesse ser para


tamanha falta de meios. Os oficiais iniciaram-se nas idéias
positivistas, começaram a discutir a validade do poder nas
mãos dos "casacas", e proclamou-se a República. Primeiro
veio o Deodoro, depois o Floriano, que não era um homem
culto mas era macho e se não fosse ele este país tinha ido à
breca. Depois do Floriano os "casacas" retomaram o poder, e
aos poucos formou-se aquele clima de agitação que resultou
na Revolução de 30...34

A agitação foi tamanha que o 4º Grupo de Artilharia a Cavalo,
sediado em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, unidade onde servia o
tenente Geisel, foi parar em São Paulo, na vanguarda das forças
insurretas. Vitoriosa a revolta, instalou-se Getulio Vargas no palácio do
Catete, e chamou-se Revolução à rebeldia e, ao seu produto, Nova
República. Geisel foi transferido para o 1º Grupo de Artilharia de
Montanha, no Rio de Janeiro, com a missão de levar uma bateria de
quatro canhões de tiro lento à Paraíba. Era missão para dois meses,
mas ele ficaria quatro anos em João Pessoa. Aquele tenente de 23 anos,
louro e alto, que poderia passar o resto de seus dias numa unidade
sonolenta do "exército do Rio Grande", estava a mais de mil quilômetros
de casa, no poder. Pela primeira vez entrou num automóvel. Tudo isso
sem dar um único tiro.

Tiroteio ele só viu em outubro de 1931. Sua bateria foi deslocada
de João Pessoa para o Recife, onde o 21º Batalhão de Caçadores se
rebelara contra o governo do estado. Atravessou um tiroteio, chutou o
traseiro de um tenente que se escondera atrás de uma árvore, mas não
disparou a arma.35 Menos de um ano depois, teve de descer com a tropa
para debelar um novo levante, agora em São Paulo. Combatia um
movimento que se autodenominava Revolução Constitucionalista, no
qual via pura e simples sedição separatista. Dessa vez deu quase todos
os tiros de sua vida. Em agosto de 1932 estava no alto do morro da
Tempestade, a quatro quilômetros a sudeste de Itatiaia.

O vale do Paraíba, entre o Rio de Janeiro e São Paulo, seria o


caminho dos paulistas para a avenida Rio Branco ou dos federais para

o viaduto do Chá. Duas semanas antes os rebeldes vacilaram e pararam
suas tropas, aceitando uma guerra de trincheira. No Catete, o ditador
Getulio Vargas acreditava numa paz próxima, não só porque recebeu
sinais dos rebeldes, como também porque o vidente Sana Khan
assegurara que a revolta acabaria antes do fim do mês.36
Geisel chegou nos primeiros dias da ofensiva legalista. Durante
uma semana bombardeou as trincheiras e tropas rebeldes que
ocupavam as fazendas do lugar. Saiu para as proximidades de Queluz.
De lá participou da tomada de Lorena. Por três vezes atirou (em vão)
contra o trem blindado dos paulistas, terror da infantaria legalista e
símbolo de um suposto poderio dos insurretos. Em três semanas de
combate perdeu alguns cavalos (inclusive o seu, atingido por um
estilhaço de granada) e ganhou um elogio do tenente-coronel Otto Feio,
que comandava as operações na região: "O 1º tenente Geisel é a própria
bravura em busca do perigo para vencer".37 A Revolução
Constitucionalista durou menos de três meses e custara a vida de 634
combatentes paulistas. Na primeira semana de novembro, Geisel estava
de volta ao seu quartel paraibano.

Do ambiente de pobreza européia de Bento Gonçalves à miséria
nordestina da Paraíba, Geisel percorreu o semicírculo das diferenças
culturais brasileiras. Nomeado secretário estadual da Fazenda,
Agricultura e Obras Públicas em 1934, exercitou pela primeira vez a
força do militar e o poder da autoridade civil. Instituiu o imposto
territorial, criou um programa de venda de máquinas agrícolas a preço
de custo e tentou modernizar a arrecadação de impostos premiando a
produtividade dos coletores. Mesmo assim, o tenentismo nem sequer
arranhara os problemas da região. O país corrompido que os revoltosos
denunciavam nos anos 20 mudara muito pouco em 1934. Aqui e ali, os
tenentes juntaram-se à paisagem, fugazes como trovoada numa cena
pastoral. Parte de um surto militarista continental, os tenentes


brasileiros foram corajosos enquanto tomaram riscos, radicais no
dissenso, mas faltara-lhes a audácia para levar o destemor e a
intransigência ao poder.38

Ela começou a lhes faltar no próprio momento da vitória, em
1930. Integrado numa tropa que marchava sobre o Recife, o tenente
Paulo Cordeiro estava na localidade de Paulista, onde quatro batalhões
revoltosos armavam o ataque à capital pernambucana. O comandante
da tropa era o tenente Juracy Magalhães. Decidira confiscar as armas
estocadas por Frederico Lundgren, proprietário da maior fábrica de
tecidos da região, e preparava-se para ir ao seu encontro: "Olha, Paulo,
vou conversar com esse industrial. Se não voltar dentro de meia hora,
vá me buscar, pois pode haver uma cilada". Passou o tempo, e o
comandante não voltava. Paulo Cordeiro foi à casa de Lundgren
resgatá-lo, pôs o rosto na janela e viu Juracy Magalhães tomando
champanhe com o plutocrata. Celebravam a adesão do industrial. "Não
se assuste", disse Juracy ao empresário. "Paulo está um pouco
apressado." Anos depois, feito governador da Bahia, o tenente montava
um alazão de raça no picadeiro da Hípica, presente do amigo Lundgren.

Os "casacas" tinham suas seduções. Em maio de 1934, o
interventor Gratuliano Brito se preparava para disputar uma cadeira de
deputado à Assembléia Constituinte, e a sociedade local deu-lhe um
jantar no Paraíba Hotel. Nos pratos, camarão, creme de aspargos, filémignon,
peru e frutas. Nos copos, martíni, vinho branco alemão, tinto
italiano, champanhe e licores. No final, charutos. Num terno de linho
branco, Ernesto Geisel tinha o lugar 116 à mesa.40 Era tenente,
secretário de governo e membro do Partido Progressista. Não passara
despercebido. Lundgren presenteara-o com Ambolê, alazão de linhagem
inglesa.41 Um empresário oferecera-lhe a oportunidade de abrir seu
próprio comércio e prontificou-se a adiantar-lhe cinqüenta contos de
réis.42 O "coronel" Cazuza Trombone, patriarca de uma família de
latifundiários de cana que mais tarde viria a ser personagem do
romance Usina, de seu sobrinho-neto José Lins do Rego, chegou a


perguntar-lhe: "O que é que uma pessoa como o senhor está fazendo no
Exército?".43

Pouco depois do jantar do Paraíba Hotel, o ministro da Viação,
José Américo de Almeida, eminência civil da Revolução no Nordeste,
disse a Geisel que estava deixando o cargo e que já tinha resolvido o
problema de diversos amigos mas faltava resolver o seu. (O de José
Américo seria resolvido com sua nomeação para a embaixada do Brasil
no Vaticano.) Ofereceu-lhe uma cadeira de deputado federal. "Eu não
tenho problema. Tenho minha profissão, gosto dela e sou capaz",
respondeu Geisel.44 Meses depois estava no Rio, no Grupo Escola de
Artilharia, em Deodoro, cuidando da disciplina dos soldados e da
limpeza dos cavalos, batendo continência para major. Deixou Ambolê
no quartel de João Pessoa e desinteressou-se das cavilações políticas
nordestinas. Se é possível dizer que houve dois tenentismos, um
profissional e outro político, alistara-se no primeiro.45

Exaurido pela sua própria inconseqüência, cinco anos depois de
triunfar, o tenentismo estava dissolvido em torno de três atrações: o
fascínio pelas casacas, o comunismo e o fascismo. O cearense Juracy
Magalhães assumiu o governo da Bahia, somando seu sobrenome ao
registro das oligarquias locais.46 Agildo Barata, o Carioquinha ou
Moleque, colega de turma de Geisel em Realengo e de governo na
Paraíba, começou sua guinada à esquerda. "Nós éramos como irmãos",
lembrou Geisel, "mas quando ele virou comunista, comecei a me afastar
dele. Ele era comandante da Polícia Militar, e um dia o interventor me
convidou para substituí-lo. Expliquei que não podia, que ele era quase
um irmão meu, que não me pedisse esse sacrifício."47 Geisel dobrara à
direita. Lera Colóquios com Mussolini, do escritor Emil Ludwig,
publicado em 1932. Concluíra que o comunismo era uma fantasia e se
convencera de que os "casacas" tinham recuperado o poder através dos
ziguezagues do presidente Getulio Vargas. "Eu tinha admiração pelo
Mussolini porque ele pôs ordem na Itália. Ele representava um


ressurgimento italiano, e eu era a favor do Estado forte." Recusou
diversos convites para juntar-se ao movimento integralista.48

Na noite de 27 de novembro de 1935 o capitão Agildo Barata
estava no 3º Regimento de Infantaria, na praia Vermelha, comandando
uma insurreição desencadeada pelo militarismo de Luiz Carlos Prestes.
O Cavaleiro da Esperança retornara de Moscou, onde vivera desde
1931. Esperava que a Vila Militar, a Marinha e o povo (nessa ordem) se
sublevassem. Além do 3º RI os rebeldes só dominaram no Rio de
Janeiro a Escola de Aviação, em Deodoro. O comandante do 1º
Regimento de Aviação, tenente-coronel Eduardo Gomes, resistira ao
ataque e fora ferido na mão por um tiro de fuzil. Artilhado no morro do
Magalhães, Geisel bombardeou a pista, imobilizando os aviões. À tarde,
Getulio Vargas visitou as tropas legalistas e trocou algumas palavras de
agradecimento com aquele capitão louro que conhecera anos antes, em
Petrópolis, batalhando por recursos para as obras do porto de Cabedelo.
49 Nos meses seguintes, em meio à repressão aos comunistas, o governo
de Vargas extraditou a mulher de Prestes para a Alemanha. Para Olga
Gutmann Benario, bolchevique e judia, que se tornaria mundialmente
conhecida como Olga Benario Prestes, o retorno à pátria era uma
crueldade. Estava grávida de sete meses quando a desembarcaram em
Hamburgo. Pariu a menina Anita Leocádia no presídio de mulheres da
Gestapo, em Berlim. Em 1942, aos 32 anos, foi para a câmara de gás do
campo de concentração de Bernburg.50 O capitão Ernesto Geisel
apoiava a deportação de Olga Benario.51

Na noite de 10 de novembro de 1937, ele estava de novo
artilhado, no mesmo morro, mirando a mesma pista. Do ponto de vista
constitucional, o cálculo de seus disparos tinha o sinal invertido.
Temia-se que o coronel Eduardo Gomes tentasse lançar os aviões de
seu regimento contra o golpe militar armado entre o Ministério da
Guerra e o palácio do Catete. Tratava-se de cancelar a eleição
presidencial e prolongar a permanência de Getulio Vargas no governo,
suspendendo-se as franquias constitucionais. A essa ditadura
chamariam Estado Novo.


"[...] Tinha voltado a politicagem. Novamente o Exército entregou

o poder aos 'casacas' e teve que dar outro golpe em 1937..."52
Geisel continuava vivendo no quartel, mantinha um quarto numa
pensão do Catete e nos fins de semana arriscava a sorte no cassino da
Urca ou tomava cerveja com a boemia bem-comportada do bar da
Brahma, na avenida Rio Branco. Nunca pôs o pé numa gafieira.
Sentava-se em rodas amigas de pôquer e assombrava os parceiros.
Jamais blefou. "Nunca. Tenho medo da vergonha de ser apanhado",
explicava, aos 87 anos.53

Em janeiro de 1940 casou-se com sua prima Lucy Markus, dez
anos mais jovem e descendente dos pioneiros alemães de Estrela. O
namoro, urdido por Augusto Geisel, iniciou-se no Carnaval de 1939, no
Rio de Janeiro, e sustentou-se por correspondência. Em novembro
tiveram o primeiro filho, Orlando Geisel Sobrinho. Como prometera à
noiva, viviam em regime de "miséria dourada". Tinha dez contos de réis
no banco.54 Só algum tempo depois do nascimento da criança é que o
casal teve uma moradia exclusiva fora dos subúrbios militares. Viveram
numa pensão da Tijuca e dividiram uma casa com Orlando em
Botafogo, até que alugaram um apartamento na rua Cupertino Durão,
no grande areai do Leblon. Havia lotes à venda, mas Geisel achou que a
região não tinha futuro.

O capitão estava de passagem comprada no navio Netúnia, que
deveria levá-lo à Alemanha na comitiva do chefe do Estado-Maior do
Exército, general Pedro Aurélio de Goes Monteiro. Iam ver de perto
aquilo que Goes chamava de a "obra gigantesca, de ressurreição
nacional" do Terceiro Reich, quando Hitler invadiu a Polônia.55
Começara a Segunda Guerra Mundial. A viagem foi cancelada. Por dois
anos o coração do Estado Novo balançou entre os Aliados e o Reich.

De um lado estava o chanceler Oswaldo Aranha, ex-embaixador
em Washington. De outro, Goes Monteiro e o ministro da Guerra,
Eurico Gaspar Dutra. O Estado-Maior de Goes via a guerra à sua


maneira. Em dezembro de 1941, acreditava que durante a primavera
européia seguinte a União Soviética poderia ser posta "fora de causa",
embora a Wehrmacht tenha sido travada às portas de Moscou em
novembro e perdido Kalinin semanas depois. Apesar de os ingleses
terem rompido o cerco de Tobruk, Goes sustentava que os resultados
dos combates no Norte da África estavam aquém dos prognósticos do
alto-comando britânico.

Aquilo que parecia divergência política era apenas uma irrelevância.
Para os generais Goes Monteiro e Dutra, os combates de Tobruk e a
defesa de Moscou eram pouco mais que um estímulo para as batalhas
de corredor do Catete. Não davam relevo em seus relatórios ao fato de
que um pedaço do território brasileiro, mais precisamente a
protuberância do seu extremo leste, em Natal, seria essencial às tropas
americanas, caso os Estados Unidos entrassem na guerra. O saliente
nordestino, caminho mais curto para o transporte aéreo sobre o
Atlântico, não permitia a Vargas o luxo da neutralidade. O estado-maior
do exército dos Estados Unidos considerava-o um dos quatro pontos de
maior valor estratégico no mundo, ao lado do canal de Suez e dos
estreitos de Gibraltar e do Bósforo.56 Antes mesmo do início da guerra o
comando militar americano, às vezes com o conhecimento dos militares
brasileiros, planejava operações destinadas a assegurar o controle do
extremo nordestino.57

Em maio de 1940, assustado com informes ingleses que previam
um ataque alemão ao Brasil, o presidente Franklin Roosevelt autorizara

o esboço de um cenário que viria a se chamar Operação Pote de Ouro,
na qual 100 mil soldados americanos tomariam a costa, de Belém ao
Rio de Janeiro.58 O plano refletia o medo americano de um golpe pró-
nazista na Argentina e da simpatia dos descendentes de imigrantes do
Sul. Num novo desdobramento, quando tudo o que os Estados Unidos
queriam era o saliente nordestino, o adido militar americano, general
Lehman Miller, fez saber ao general Dutra e ao gabinete do ministro da
Aeronáutica que as bases de Belém e do Recife seriam ocupadas "por
bem ou por mal".59 No dia 27 de outubro de 1941, Vargas resumiu e

anotou uma conversa do adido com Dutra: "O ministro da Guerra
contou-me palestra com o general Miller, recém-chegado dos EUA. Disse-
lhe que [...] não confiavam no nosso Exército, tido como germanófilo, e
que precisavam desembarcar tropas no Nordeste para defender-nos de
um ataque alemão. Isso dá ao caso um aspecto grave, não é uma
colaboração, é uma violência".60

Na mosca. Miller sabia do que estava falando. Quatro dias depois
da queixa de Vargas ao seu diário, o estado-maior americano concluíra
um Plano do Teatro de Operações do Nordeste do Brasil. Previa o
controle de quatro pontos estratégicos: Belém, Natal, Recife e Salvador.
61 Numa de suas versões, denominada Arco-Íris V, as operações
militares americanas mobilizariam 60 mil homens. Noutra, o Plano
Lilac, seriam 15 mil, apoiados por dois contingentes de reforço que
somavam mais 38 mil soldados.62 Goes Monteiro dizia que os
americanos apresentavam "pretensões descabidas" e provocavam
atritos, buscando "a ocupação de bases no território nacional".
Reclamava da "guerra de nervos" contra o Alto-Comando do Exército,
mas a guerra dos americanos não era de nervos.63 Era guerra mesmo.

No dia 7 de dezembro de 1941 os japoneses atacaram a base
naval de Pearl Harbor, levando os Estados Unidos à luta. Duas
semanas depois, aviões americanos desembarcaram 150 fuzileiros
navais nas bases aéreas de Belém, Natal e do Recife. Havia-se
combinado que seria "pessoal técnico", mas veio uma pequena tropa
armada.64 Com o apoio de rápidas gestões diplomáticas, assegurara-se o
controle do corredor através do qual os americanos alcançariam o Norte
da África. A pista da base aérea de Natal chegaria a ser a mais
movimentada do mundo.65 Vargas rompeu relações com o Eixo em
janeiro de 1942 e declarou-lhe guerra em agosto. Até a queda de Berlim,
em maio de 1945, o Brasil mandaria 25 mil homens para a Itália.

Geisel tirara o primeiro lugar na Escola de Armas, e em 1943
concluiria com louvor o curso de estado-maior. Excluíram-no das listas


de oficiais enviados aos Estados Unidos para os cursos intensivos de
treinamento que formariam a base da Força Expedicionária Brasileira.
Uma proclamada preferência pelos alunos que tivessem obtido boa
colocação ao terminarem as escolas de aperfeiçoamento e de estado-
maior tornara a exclusão mais dolorosa. Tanto ele como Orlando
tiveram desempenhos excepcionais, mas ficaram de fora.66 Outros
descendentes de alemães, entre eles os tenentes-coronéis Amaury Kruel
e Henrique Lott, viram-se incluídos na FEB. O adido militar americano
no Brasil, que supervisionara o embarque das tropas, chamava-se
Kröner, o comandante do corpo de exército ao qual seria anexada a
divisão brasileira era o general Crittenberger, e as tropas aliadas
estavam sob as ordens do general Eisenhower, todos descendentes de
alemães.

Quando, no início de 1945, o major Ernesto Geisel foi mandado à
Escola de Comando e Estado-Maior de Fort Leavenworth, no estado do
Kansas, a máquina militar alemã já se avizinhava do colapso. Tinha 37
anos e uma biografia marcada pelas desordens militares da primeira
metade do século. Participara de dois golpes (1930 e 37), reprimira três
levantes (31, 32 e 35), mas fora mantido ao largo da maior guerra da
história mundial. Viveu mais meio século, foi general e presidente,
sempre mostrando a mágoa que essa exclusão lhe causou.

As inquietações cotidianas do major Geisel relacionavam-se muito
mais com a qualidade do Exército em que vivia do que com os grandes
problemas nacionais. Corporação desequipada, ineficiente, dividida em
panelinhas de generais e áulicos, era forte nas paradas e nos palácios,
fraca nos quartéis e no adestramento militar. "Este exército não vai à
batalha", reclamava o general Goes Monteiro.67 Não possuía aviões
capazes de patrulhar a costa. A tropa terrestre jamais se exercitara com
a Força Aérea. Também não tinha blindados, artilharia antiaérea ou
munições em geral.68 O ministro da Guerra, general Dutra, sustentava
que a mobilização de sua tropa era tarefa quase impossível. Além de o
Exército apresentar outras fragilidades, "grande número de oficiais se
acham afastados de suas funções".69 Faltava aos seus comandantes


sobretudo a vontade de entrar na guerra. Houve caso de turma de
oficiais em que os catorze primeiros colocados preferiram ficar fora da
FEB. 70 De seus 870 oficiais de infantaria, 302 eram reservistas.71 Dois
generais recusaram o comando da Força Expedicionária, enquanto
Dutra escrevia a Vargas atribuindo a reticência dos chefes até à
"fraqueza congênita dos nossos soldados, fisicamente debilitados".72

Em 1940, ao mesmo tempo que os blindados alemães
encurralavam as tropas inglesas na França, Geisel, no comando da
bateria de artilharia da Escola Militar, dirigia um inquérito policial-
militar destinado a apurar as causas da morte de um cavalo.73 Voltou
de Fort Leavenworth no início de abril de 1945, quando o Exército
Vermelho estava nas cercanias de Berlim. Terminado o curso de
especialização em blindados, ele se apresentou ao quartel-general.
Ainda que não tivesse aprendido nada, tinha pelo menos o que contar,
mas a conversa com o oficial encarregado de classificá-lo foi rápida:

— Onde o senhor estava antes de ir para os Estados Unidos?
— Em Porto Alegre.
— Então volte para lá.74
O mesmo Exército que o ministro da Guerra relutara em mandar
para a guerra por desequipado e mal treinado, nada tinha a oferecer
além da monotonia a um major que concluíra com louvor todos os
cursos de aperfeiçoamento e acabava de regressar da escola de
comando da melhor força armada do mundo. Nem sequer lhe
perguntaram o que vira. Graças a um amigo, conseguiu ficar no Rio de
Janeiro.

1 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 22 de junho de 1971. APGCS/HF. Heitor
demitira-se do Exército em 1967 e vivia em Belém, como um dos gerentes do Projeto
Jari, do milionário americano Daniel Ludwig.

2 Narrativa de Geisel do seu encontro com Medici no dia 9 de julho de 1972, em Diário
de Heitor Ferreira, 10 de julho de 1972.


3 Hélio Silva, O poder militar, p. 467.

4 Para os salários dos executivos, Stefan Hyman Robock, Brazil: a study in
development progress, p. 138. Para os carros e aparelhos de TV, idem, p. 145.
5 O PIB brasileiro de 1964 foi de us$ 1065. O de 1972, de US$ 1598. Ipeadata, "Séries

mais usadas", "PIB per capita (preços 2002) us$ valor real".

<http://www.ipeadata.gov.br/>
6 Jornal do Brasil, 4 de fevereiro de 1972, citado por Jan Knippers Black, United
States penetration of Brazil, p. 55.


7 Report on allegations of torture in Brazil/Relatório sobre as acusações de tortura no
Brasil, p. 88.
8 Humberto Barreto, maio de 1991.


9 Ernesto Geisel, novembro de 1983 e setembro de 1984.
10 Para os hábitos, o cumprimento e as rodas de biriba, Humberto Barreto, maio de
1991. As rodas de biriba de Geisel com Lilian e Humberto Barreto começaram em
torno de 1958.


11 Ernesto Geisel, setembro de 1994.
12 Diário de Heitor Ferreira, 13 de novembro de 1971 e 26 de janeiro de 1972.
13 Para a fome na viagem, Ernesto Geisel, fevereiro de 1994.
14 Para o ano da chegada de Augusto Geisel, Lothar Francisco Hessel, O município de


Estrela, pp. 62-3.
15 Carta de Ernesto Geisel aos irmãos, de 26 de abril de 1917. AA.
16 Para a maçonaria, Amália Lucy Geisel, julho de 1991. Para a Guarda Nacional,


Ernesto Geisel, fevereiro de 1994.
17 Ernesto Geisel, novembro de 1988 e fevereiro de 1994, e Geisel, em Ernesto Geisel,


organizado por Maria Celina d'Araújo e Celso Castro, p. 26. Júlio Verne, A Ilha
Misteriosa, adaptado por Clarice Lispector.
18 Atas de Exames do Colégio Elementar de Bento Gonçalves, de1º demarço e20de


dezembro de 1919. APGCS/HF.

19 Ernesto Geisel, março e setembro de 1994. Aos 87 anos, Geisel sabia de memória o
número do bilhete do pai. Em 1919 os gastos de uma família de classe média no Rio
de Janeiro eram de doze contos de réis por ano. As despesas de aluguel e criadagem,
que os Geisel não tinham, iam a 3,4 contos. Séries estatísticas retrospectivas, vol. 1, p.

94.
20 Ernesto Geisel, novembro de 1988.

21 Ernesto Geisel nasceu na noite de 3 de agosto de 1907. A mudança foi feita para
protegê-lo caso não conseguisse uma boa classificação. No livro de registros do
cartório de Bento Gonçalves, Ernesto Geisel está arrolado como nascido em 3 de
agosto de 1908. Seu nome é o último da lista na letra G, e a caligrafia da pessoa que
fez o lançamento, doze anos mais tarde, difere grosseiramente daquela que cuidava
dos registros na época. AA. Certidão de Nascimento, Cartório do 1º Distrito da Comarca
de Bento Gonçalves, APGCS/HF. De acordo com sua biografia oficial, em 1979 Ernesto
Geisel deveria comemorar 71 anos, mas recebeu os convidados em sua casa de
Teresópolis para festejar 72.

22 Ernesto Geisel, novembro de 1983.

23 Devo as informações genéricas sobre essa disfunção ao dr. Harley Bicas, junho de
2003.

24 Ernesto Geisel, novembro de 1988.

25 Idem, novembro de 1983.


26 Marly de Almeida Gomes Vianna, Revolucionários de 35, p. 71. Segundo a
lembrança do general Antonio Carlos Muricy, Prestes, Geisel e Golbery foram os
únicos alunos da escola a concluir o curso com média 9 e fração. Depoimento de
Muricy ao CPDOC, vol. 1, fita 4, p. 76.

27 Nos exames do primeiro ano Geisel teve um 10 e três 8. Nos do segundo, três 10 e
três 9. Nos do terceiro, dois 10, um 9 e dois 8. Caderneta de Assentamentos do 1º
Tenente Ernesto Geisel. AA.

28 Maria Celina d'Araujo e Celso Castro, orgs., Ernesto Geisel, p. 35. Como cadete,
Geisel ganhava 50 mil réis (100, no terceiro ano). Era o equivalente às despesas com
criados numa família de classe média do Rio de Janeiro. Séries estatísticas
retrospectivas, vol. 1, p. 94.

29 Edmundo Campos Coelho, Em busca de identidade —O Exército e a política na
sociedade brasileira, pp. 40 e 73. O serviço militar obrigatório fora instituído em 1916.
"As nossas forças de terra e mar são inaptas para entrar em campanha e pouco
significam como valor militar", Pedro Aurélio de Goes Monteiro, O Destacamento
"Mariante" no Paraná Ocidental (Reminiscências), documento datilografado, Rio de
Janeiro, junho de 1925, citado em Anita Leocádia Prestes, A Coluna Prestes, p. 83.

30 Nelson Werneck Sodré, citado em Juracy Magalhães e J. A. Gueiros, O último
tenente, p. 45.

31 Vavy Pacheco Borges em seu Tenentismo e Revolução Brasileira, pp. 146-8, informa
que a expressão "tenente" é posterior à Revolução de 1930 e surgiu com sentido
depreciativo, gerando neologismos como tenentização, tenentocracias, tenentores e
tenentóides.

32 Marly de Almeida Gomes Vianna, Revolucionários de 35, p. 71.

33 Ernesto Geisel, novembro de 1983.

34 Ernesto Geisel, julho de 1985.

35 Idem.

36 Getulio Vargas, Diário, vol. 1: 1930-1936, pp. 117 e 119, entrada de 24 de julho de
1932 para os sinais e de 27 de julho para a previsão do vidente.

37 Caderno intitulado Caderneta de Oficial, do 1º Regimento de Artilharia Montada,
com os assentamentos do tenente Ernesto Geisel, APEG. Para a morte do cavalo, carta
de José Fontineli da Silva a Geisel, de janeiro de 1977. APGCS/HF. Debelada a revolta
paulista, Ernesto Geisel teve seu nome incluído na lista das promoções a capitão por
merecimento. Pediu que o excluíssem, pois não queria passar à frente dos dois irmãos
mais velhos, Henrique e Orlando. Depoimento do general Antonio Carlos Muricy ao
CPDOC, vol. 1, fita 9, p. 170.

38 Entre 1930 e 1932 os militares latino-americanos derrubaram governos na
Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Equador, El Salvador, Panamá e Peru. Brian
Loveman, For la patria, p. 75.

39 Juracy Magalhães, Minhas memórias provisórias, coord. Alzira Alves de Abreu, pp.
60-1, e Magalhães e J. A. Gueiros, O último tenente, pp. 26 e 109.

40 Menu do jantar ao interventor Gratuliano Brito, "homenagem dos amigos por
motivo do seu regresso do Rio de Janeiro", 2 de maio de 1934. APGCS/HF. Para a roupa,
Ernesto Geisel, abril de 1994: "Na Paraíba nós só usávamos ternos de linho branco e
sapatos bicolores".

41 Para o presente, Ernesto Geisel, maio de 1994. Segundo o general Reynaldo Mello
de Almeida, esse cavalo era montado por Geisel mas pertencia ao Exército.

42 Chamava-se Dolabella Portella. Ernesto Geisel, junho de 1994. Em 1934 o valor
médio da hipoteca de um imóvel urbano era de 45 contos. Séries estatísticas
retrospectivas, vol. 1, p. 62.


43 Ernesto Geisel, 1983. O parentesco de Cazuza Trombone com José Lins foi
informado ao autor por Elizabeth Lins do Rego, em dezembro de 1991. Para o coronel,
José Lins do Rego, Ficção completa, vol. 1: Usina, pp. 740, 790, 792 e 882.

44 Ernesto Geisel, março de 1994 e outubro de 1983.

45 Para os dois tenentismos, Edmundo Campos Coelho, Em busca de identidade —O
Exército e a política na sociedade brasileira, pp. 96-104.

46 Juracy governou a Bahia, elegeu-se senador, foi embaixador em Washington e
ministro da Justiça e das Relações Exteriores. Seu filho Jutahy elegeu-se deputado e
senador. Seu neto Jutahy Jr. elegeu-se deputado, e foi ministro da Integração Social
no governo Itamar Franco e líder do PSDB na Câmara com Fernando Henrique Cardoso.
(Não há relação de parentesco entre Juracy e Antonio Carlos Magalhães, que foi seu
protegido no início da carreira política.)

47 Ernesto Geisel, outubro de 1983. Esse episódio ocorreu antes de 1932. Agildo
aproximou-se do PCB em 1934. A amizade de Geisel com Agildo Barata durou
enquanto viveram. Em 1932, quando Agildo foi para o exílio, Geisel participava das
vaquinhas de oficiais para ajudá-lo financeiramente. Agildo deixou o PCB nos anos 50,
mas, ao contrário da norma da época, não se tornou um anticomunista. Depois de
1964, já na chefia do Gabinete Militar, Geisel visitou Agildo, bastante doente, em sua
casa. Não trataram de política. Ernesto Geisel, janeiro de 1995.

48 Ernesto Geisel, outubro e abril de 1993.

49 Ernesto Geisel, março de 1984.

50 Anita Leocádia Prestes e outros, Não olhe nos olhos do inimigo, p. 13.

51 Ernesto Geisel, agosto de 1986.

52 Idem, julho de 1985.

53 Ernesto Geisel, abril de 1994.

54 Lucy Geisel, maio de 1994, e Ernesto Geisel, março de 1995. Em 1939, dez contos
de réis equivaliam a pouco mais de quatro meses de despesas normais de uma família
de classe média no Rio, ou a quinze meses de aluguel. Séries estatísticas
retrospectivas, vol. 1, p. 94.

55 Ernesto Geisel, abril de 1994. "Considerações sobre a II Guerra Mundial", general
Pedro Aurélio de Goes Monteiro, em Relatório dos Trabalhos do EME — 1939.
Documentos históricos do Estado-Maior do Exército, pp. 226-9.

56 Larry Rohter, "Natal journal: a has-been wonders how to honor what was", The
New York Times, 20 de junho de 2001.

57 O primeiro plano de contingência do Departamento da Guerra americano,
denominado Rainbow I, é de agosto de 1939. Frank D. McCann Jr., The Brazilian-
American Alliance —1937/1945, p. 201. Houve pelo menos quatro planos Rainbow. No
dia 8 de agosto de 1939 o general Marshall, chefe do estado-maior do exército dos
Estados Unidos, escreveu a Goes Monteiro referindo-se à "preparação de bases aéreas
no nordeste do país de acordo com nossas conversações". Em João Hermes Pereira de
Araújo, "Oswaldo Aranha e a diplomacia", publicado em Oswaldo Aranha — A estrela
da Revolução, de Aspásia Camargo e outros, p. 204.

58 Frank D. McCann Jr., The Brazilian-American Alliance — 1937/1945, p. 203. A
esse respeito, ver também Getulio Vargas, Diário, vol. 2: 1937-1942, pp. 395, 415-7,
424 e 431-2. Para o nome da operação, Sonny B. Davis, A brotherhood of arms, p. 8.

59 Pio Corrêa, O mundo em que vivi, p. 211.

60 Getulio Vargas, Diário, vol. 2: 1937-1942, p. 431.

61 Plano do Teatro de Operações do Nordeste do Brasil, de 1º de novembro de 1941,
parcialmente transcrito em IstoÉ, 26 de maio de 1993, pp. 52-5.


62 Sonny B. Davis, A brotherhood of arms, pp. 14 e 23.

63 Relatório dos Trabalhos do EME — 1941. Documentos históricos do Estado-Maior do
Exército, pp. 252-5.

64 Telegrama do embaixador Carlos Martins a Getulio Vargas, de dezembro de 1941.
Telegramas dos generais Mascarenhas de Moraes, Zenóbio da Costa e Cordeiro de
Farias ao ministro Dutra, de 18 e 19 de dezembro de 1941. Em Marechal Eurico
Gaspar Dutra —O dever da verdade, organizado por Mauro Renault Leite e Luiz
Gonzaga Novelli Jr., pp. 476-7. A Ponte Aérea fora inaugurada seis meses antes do
ataque a Pearl Harbor, quando dez aviões militares americanos desceram em Natal e
decolaram para a África. A esquadrilha não tinha permissão das autoridades
brasileiras para fazer essa rota. Voava com navegadores ingleses treinados na rota
como tripulantes de uma linha comercial da Pan American. Ver Frank D. McCann Jr.,
The Brazilian-American Alliance — 1937/1945, p. 235.

65 Larry Rohter, "Natal journal: a has-been wonders how to honor what was", The
New York Times, 20 de junho de 2001.

66 Ernesto Geisel, abril de 1994.

67 Carta do general Pedro Aurélio de Goes Monteiro ao general Emílio Lucio Esteves,
de 19 de maio de 1937, em Marechal Eurico Gaspar Dutra —O dever da verdade,
organizado por Mauro Renault Leite e Luiz Gonzaga Novelli Jr., p. 191.

68 Expediente enviado pelo ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, ao
presidente Getulio Vargas em 4 de junho de 1940. Mauro Renault Leite e Luiz
Gonzaga Novelli Jr., orgs., Marechal Eurico Gaspar Dutra —O dever da verdade, pp.
385 e 580. Para a falta de aviões capazes de patrulhar a costa e para a situação dos
blindados, Ricardo Bonalume Neto, A nossa Segunda Guerra, pp. 87 e 125.

69 Mauro Renault Leite e Luiz Gonzaga Novelli Jr., orgs., Marechal Eurico Gaspar
Dutra —O dever da verdade, p. 581.

70 Depoimento de Gerson Machado Pires, em Ricardo Bonalume Neto, A nossa
Segunda Guerra, pp. 129-30.

71 Frank D. McCann Jr., The Brazilian-American Alliance — 1937/1945, p. 368.

72 Mauro Renault Leite e Luiz Gonzaga Novelli Jr., orgs., Marechal Eurico Gaspar
Dutra — O dever da verdade, p. 582, para a citação. A recusa dos dois generais foi
informada ao autor pelo general Ernesto Geisel. Em repetidas ocasiões ele se negou a
identificá-los. O Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930, coord. de Alzira
Alves de Abreu e outros, vol. 2, p. 2284, diz que "vários generais, entre os quais
Valentim Benício, Amaro Bittencourt e Francisco Gil Castelo Branco, teriam sido
consultados para exercer o cargo".

73 Livro de Alterações do general Ernesto Geisel, comissão de 1º de fevereiro de 1940.
Tratava-se do cavalo n2 500, do Departamento de Equitação. APEG.

74 Ernesto Geisel, novembro de 1983.


Uma dor que não acaba


Na tarde de 29 de outubro de 1945 o major Ernesto Geisel, chefe-degabinete
do comando do Núcleo da Divisão Blindada, recebeu ordens
para sair com a tropa do quartel de São Cristóvão. O general Álcio
Souto, comandante da unidade, estava muito gripado e ficara no
quartel-general. Assim como fizera em 1937, Getulio Vargas tentava
embaralhar a sucessão presidencial, mas se oito anos antes ela era
disputada por dois civis (José Américo de Almeida e Armando de Salles
Oliveira), dessa vez o páreo estava entre dois militares, o general Eurico
Gaspar Dutra, que deixara o Ministério da Guerra, e o brigadeiro
Eduardo Gomes.

"Eu agi em quatro lances. Primeiro tomamos a praça da
República. De lá, fomos para a Cinelândia e praça Paris. Finalmente,
para o Catete e de lá para o palácio Guanabara."1 Quinze anos depois
de ter saído de Santo Ângelo com uma anônima unidade de artilharia a
cavalo no levante que colocara Getulio Vargas na Presidência da
República, Ernesto Geisel estava com seus blindados diante da
escadaria de mármore do palácio Guanabara, velha casa da princesa
Isabel que a República reformara e Getulio transformara em residência.
Os blindados e a tropa de um batalhão de infantaria espalhados pelos
jardins sinalizavam a determinação da rebeldia militar. Geisel e Álcio
Souto entraram no palácio à noite, antes que Vargas saísse. Por acaso
encontraram-se com o presidente no salão. Trocaram cumprimentos,


mas não se deram a mão.2 Da jornada, o major Geisel reteve apenas a
lembrança de ter gritado tantas ordens a ponto de terminar o dia
resfriado e rouco: "Não passou pela minha cabeça a idéia de que seria
necessário tomar o palácio. Saí do quartel com a certeza de que o
Getulio já estava deposto. Participar de uma operação que derrubou um
presidente da República não me deu qualquer emoção especial. Tudo
parecia uma coisa muito natural. O movimento de 1945 foi feito dentro
da hierarquia".3

Em toda a vida Geisel pouco falou da sua participação no golpe
contra Vargas. Seus registros biográficos informam que "tomou parte
ativa na ação militar do dia 29 de outubro de 1945, no Rio de Janeiro,
como chefe do estado-maior do general Álcio Souto". Do mesmo modo,
os registros da deposição de Vargas revelam que o Guanabara foi
confrontado com uma tropa do Núcleo da Divisão Blindada, sob o
comando do general, mas não fazem alusão ao major. Atrás desse
silêncio estão algumas das particularidades de Geisel. A principal,
capaz de explicar também o desinteresse com que tratava do assunto
cinqüenta anos depois, era a noção de golpe "dentro da hierarquia",
determinado pelo quartel-general e apoiado pelo comandante da
unidade. Nesse tipo de golpe, que não tem nome, forma ou conteúdo
político, a missão do major se resume a uma formalidade burocrática,
impessoal. Álcio Souto concedeu ao major Ernesto um elogio de 93
palavras em que mencionou a existência de uma "ação" que terminou
com "a vitória de nossas forças", sem referência ao local onde ocorreu
ou ao objetivo que a desencadeou.4 O silêncio foi ainda produto do
temperamento retraído de Geisel, carregado de uma hostilidade ao
exibicionismo que, além de marcar a vida dele, marcaria o juízo que
fazia dos chefes e subordinados.

Nas décadas seguintes o golpe que depôs Getulio Vargas foi
associado a um sentimento democrático dos comandantes militares
influenciados pela experiência da Força Expedicionária na Itália. Essa
racionalização, posterior à quartelada, ajudaria os oficiais que apoiaram

o Estado Novo a confraternizar com os socialistas e liberais que haviam

mandado à cadeia ou ao desemprego. Varrendo-se a ditadura para
debaixo da biografia de Vargas, os generais e almirantes, liderados por
Dutra, pularam o muro do Estado Novo. Os personagens decisivos no
golpe de 1945 foram sete, todos oficiais-generais. Deles, apenas um
(Cordeiro de Farias) estivera na Itália. Três (Dutra, Goes Monteiro e
Álcio Souto) só se juntaram ao esforço dos Aliados depois da chegada
dos americanos a Natal.5 Não foi para redemocratizar o Brasil que o
major Geisel cercou o Guanabara: "Getulio foi deposto porque prometeu
eleições e queria fazer trapaça. Estava sendo safado".6 O golpe contra
Getulio, que resultou na posse de José Linhares, presidente do
Supremo Tribunal Federal, foi dado para preservar uma eleição
presidencial que haveria de colocar na Presidência um general ou um
brigadeiro.

Sete meses depois da saída de Vargas do palácio do Catete, nele
entrou Ernesto Geisel. O general Álcio Souto assumira a chefia do
Gabinete Militar do presidente Dutra e designara-o para chefe de uma
das seções da secretaria geral do Conselho de Segurança Nacional.
Desde sua criação, em 1934, até seu fechamento, em 88, esse conselho
foi um instrumento de militarização do poder presidencial. Passou por
períodos de raquitismo e de hipertrofia, metido em pequenas questões,
como o destino do guano da ilha Rata, em Fernando de Noronha, ou em
catástrofes como o projeto clandestino de construção de uma bomba
atômica. Viveu entre a obscuridade burocrática e o esplendor
cenográfico, ora entregue a coronéis anônimos, ora servindo de pano de
fundo para a edição do AI-5, em 1968. Em todos os casos funcionou
como uma assessoria militar e privada do presidente. Foi arquivo de
projetos indesejáveis e respaldou, com sua denominação
grandiloqüente, atos que não passavam de decisões individuais do
governante. De conselho tinha apenas o nome, pois era composto pelos
ministros e pelos chefes de estados-maiores, colaboradores que o chefe
do Executivo podia dispensar a qualquer momento.


Álcio Souto tirara Geisel do anonimato e da rotina de cavalos e
soldados. Fora um simpatizante ostensivo da Alemanha nazista.
Durante os primeiros anos da guerra, quando comandava a Escola
Militar de Realengo, o coronel Álcio levava os cadetes a um cinema de
subúrbio, onde o adido militar alemão co-presidia exibições dos
sucessos militares da Wehrmacht.7 Em abril de 1947 o general mandou

o major Geisel para Montevidéu como adido militar, e provavelmente
influiu na sua promoção a tenente-coronel, em junho de 48. Quatro
meses depois, aos 52 anos, morreu com uma tuberculose que insistira
em tratar com bolinhas de homeopatia.8 Num Exército onde os generais
poderosos carregam pequenas cortes de subordinados, fechara-se a
primeira e última possibilidade de integração de Geisel a um grupo
específico, no qual, conhecendo-se a tendência do chefe, intui-se o
comportamento da colméia. De todos os chefes militares da época, Álcio
Souto seria o único para quem Geisel guardaria palavras em que
misturava admiração e afeto. Em 1976, na Presidência, promoveu seu
filho Alvir a general. Com ele havia outros 26. Telegrafou a todos
chamando-os de "camarada" e mandando-lhes "um abraço de
felicitações". A sete chamou de "amigo". Só a Alvir Souto, "camarada e
amigo", mandou "um especial abraço".9
Com 1600 dólares de soldo, pouco menos de dois anos em
Montevidéu foram suficientes para que Geisel, aos 43 anos, comprasse
a sua primeira casa. Era o apartamento 201 do edifício Parente, na
esquina das avenidas Afrânio de Melo Franco e San Martin, um dos
poucos prédios do quarteirão. Custou-lhe 480 contos. Da cozinha via-se
a praia do Leblon. O filho Orlando tinha dez anos, e Amália Lucy, a
caçula, completara cinco. Tornara-se um tenente-coronel do "exército
do Rio de Janeiro", formado por instrutores das escolas de
aperfeiçoamento, oficiais de estado-maior, ativistas políticos,
conspiradores, áulicos e alpinistas sociais. Mandaram-no para o
Estado-Maior das Forças Armadas, o EMFA.

No dia 3 de outubro de 1950, Getulio Vargas cruzou novamente o
seu caminho. Haviam-se acabado a Nova República de 1930 e o Estado


Novo de 37, mas o ex-ditador, auto-exilado na sua fazenda do Itu, em
São Borja, marchava de novo sobre o Catete. Como avisara, "eu voltarei,
não como líder político, mas como líder de massas".10 Geisel foi à urna e
votou no brigadeiro Eduardo Gomes. Getulio teve 3,8 milhões de votos,
quase 49% dos votos válidos, vencendo em dezoito dos 21 estados e
também no Distrito Federal. Em São Paulo teve o triplo da votação do
Brigadeiro; no Rio, o dobro. "Foi uma das maiores decepções que tive",
contaria Geisel. Antes do resultado de 1950 não era um devoto do
sufrágio universal como forma de escolha dos governantes. Depois dele,
seria um cético irreversível.

Bota o retrato do velho outra vez,

Bota no mesmo lugar,

O sorriso do velhinho

Faz a gente trabalhar.11

Aos 67 anos, Vargas voltara nos braços do povo. Nada na sua
chegada ao Catete lembrava a euforia de 1930. A bandeira da
moralidade pública passara aos seus adversários, um pedaço da
oficialidade não o tolerava. Fazia pouco sentido, mas o ditador retornara
com uma das pernas no ombro da esquerda que torturara e matara.
Getulio subiu a escadaria interna do palácio com tamanho
desembaraço que o presidente Dutra, ainda com a faixa presidencial
sobre o uniforme, seguiu-o meio passo atrás, como se habituara a fazer
na ditadura.12 Antes mesmo de sua vitória os adversários punham as
cartas na mesa: "O sr. Getulio Vargas, senador, não deve ser candidato
à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar
posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de
governar", escrevia o jornalista Carlos Lacerda.13

Durante toda a agitação militar do governo Vargas, Geisel
manteve-se no quartel. Em duas ocasiões levaram-lhe manifestos. Um,
contra o governo, viria a ser conhecido como o Memorial dos Coronéis e
provocaria a queda do ministro do Trabalho, João Goulart. Outro, a
favor do ministro da Guerra, general Zenóbio da Costa, oferecia-lhe a


solidariedade dos oficiais. Não assinou nenhum dos dois. Refugou o
primeiro porque "aquilo era um ato de indisciplina, coronel não tem
nada que discutir nomeação de ministro". Em geral, quem não assinava
um, assinava o outro. Ademais, como é comum nas articulações
militares a favor do governo, o texto do documento de apoio a Zenóbio
fora-lhe trazido pelo general sob cujas ordens servia. Refugou também o
segundo: "Eu lhe disse que era amigo do Zenóbio mas que não assinaria

o manifesto por duas razões: primeiro porque não dou solidariedade
irrestrita a ninguém; segundo, porque chefe não pode receber
solidariedade de subordinado. O subordinado não pode ficar solidário
com o chefe pelo simples fato de que não pode negar-lhe o apoio quando
pedido. Então, se o chefe precisa da solidariedade do subordinado, ele
está patrocinando um ato de indisciplina em benefício próprio".14
Tornava-se um personagem estranho. Era um oficial respeitado,
com opiniões políticas tão claras quanto operacionalmente irrelevantes.
Até as pedras sabiam que detestava Getulio e que seu círculo de
amizades privilegiava os golpistas, mas nada disso tinha utilidade, pois
regia-se pelo manual. Comandando mesas, o próprio tenente-coronel
tinha pouca importância. Do EMFA passara à Escola Superior de Guerra,
que nem de sede dispunha, funcionando de favor na Escola de
Artilharia de Costa.

Às oito e meia da manhã de 24 de agosto de 1954, o Velho viu que
a tropa ia novamente ao palácio para depô-lo. Deitou-se na cama de seu
quarto no palácio do Catete, apontou o Colt de cabo de madrepérola
para o peito e disparou. Dessa vez Geisel ficara de fora. Sua tropa, o 8º
Grupo de Artilharia de Costa Motorizado, no Leblon, manteve-se no
quartel. O general Juarez Távora levou-o de volta ao governo, agora
como subchefe do Gabinete Militar do presidente Café Filho. Em 1931 o
tenente Geisel prendera Café, advogado de sindicatos de trabalhadores,
acusado de preparar um levante esquerdista no Rio Grande do Norte.
Verificada a falsidade da denúncia, libertara-o dias depois, com um
pedido de desculpas. O presidente lembrou o incidente ao coronel.15
Alguns meses mais tarde Geisel saiu do Catete para assumir o


Regimento Escola de Artilharia, o mais prestigioso comando da arma,
mas também não se demorou.

Em setembro de 1955 o general Henrique Lott, feito ministro da
Guerra, chamou-o ao gabinete e pediu-lhe que fosse para a
superintendência da refinaria de petróleo de Cubatão, na Baixada
Santista, inaugurada em abril. Depois de 21 anos na tropa, Geisel
alistava-se na sua segunda corporação: a Petrobrás. Ela mal completara
um ano de vida. O Brasil descobrira seu primeiro poço de petróleo em
1938, e em setembro de 50 (cem anos após o surgimento do processo de
refino, na Inglaterra) um automóvel movido a gasolina brasileira saíra
de uma grande refinaria estatal, a de Mataripe, na Bahia.

Passados quinze meses do suicídio de Vargas e 39 dias da eleição
de Juscelino Kubitschek, um novo golpe. Na manhã de 11 de novembro
de 1955 o general Lott derrubou Carlos Luz, o presidente da Câmara
dos Deputados que assumira havia três dias, depois que Café se
licenciara, abatido por um distúrbio cardíaco. O general defenestrou
Luz, dispensou Café e entregou o Catete ao presidente do Senado,
Nereu Ramos. A "Novembrada" de Lott foi o mais latino-americano dos
golpes brasileiros. Segundo ele, destinou-se a recolocar o país "nos
quadros normais do regime constitucional vigente", frase que não quer
dizer absolutamente nada. Para seus beneficiários, a deposição de
Carlos Luz destinou-se a garantir a posse de Kubitschek, ameaçada por
uma articulação golpista da direita militar de que faziam parte tanto
Café Filho como Carlos Luz. Para seus adversários, serviu para
transformar o general Lott em condestável da República. Para uns e
para outros significou a divisão irremediável da liderança militar.

A "Novembrada" separou os irmãos Geisel. Orlando, que a
apoiara, atuando como auxiliar do general executor do estado de sítio
no Rio de Janeiro, e Ernesto, que a condenara. Ficaram mais de três
anos sem se falar. Visitavam-se somente nas comemorações familiares,
e mesmo assim não tocavam em política. O rompimento só não se
agravou porque suas mulheres — Alzira e Lucy, a quem os maridos
chamavam de "mãe" — desdenharam a briga e continuaram


freqüentando-se, além de se falarem por telefone quase todos os dias.16
À sombra do general Odylio Denys, verdadeira mola da deposição de
Carlos Luz, a carreira de Orlando Geisel prosperou durante o
mandarinato de Lott.

No início de 1956 Lott mandou chamar o coronel Ernesto Geisel.
Explicou-lhe os motivos da "Novembrada" e foi surpreendido por uma
condenação: "O senhor não podia nunca se insurgir contra um
presidente da República que o tinha nomeado". Apesar disso, o ministro
ofereceu-lhe um dos principais comandos do Exército: a Academia
Militar das Agulhas Negras, centro formador da oficialidade. Era posição
de general. Geisel recusou o prêmio e foi designado comandante do 2º
Grupo de Canhões Antiaéreos, em Quitaúna, na periferia de São Paulo.
Era um bom comando, mas não se comparava com a AMAN.

Na tarde de 28 de março de 1957 o coronel Ernesto Geisel
completara um ano de comando em Quitaúna. Havia uma pequena
comemoração no quartel e até um jogo de basquete. Seu filho Orlando
ia para a quadra. Era magro, tinha dezesseis anos, 1,86 m, óculos de
fundo de garrafa e tradição de bom aluno. "Fui o primeiro aluno",
escrevia a um amigo, "mas isto é quase uma obrigação para mim,
porque todos os outros alunos trabalham e não têm tempo para
estudar."17 Decidira formar-se em engenharia eletrônica no Instituto
Tecnológico de Aeronáutica — o ITA — e deveria fazer vestibular no ano
seguinte. Comprara pão para a casa, deixara a irmã estudando desenho
e montara na bicicleta. Viram-no com um garoto na garupa, a caminho
do quartel. Ao atravessar a linha do trem, o jovem Orlando Geisel
Sobrinho foi apanhado por uma composição e, ferido na cabeça, morreu
no leito da ferrovia. Ninguém testemunhou o acidente. Um oficial
reconheceu o corpo e avisou o coronel Geisel. Ele viu o filho, foi para
casa e informou a família. Em poucos meses seus cabelos louros
ficaram completamente brancos. De volta ao Rio, quando a mulher
colocou uma fotografia de Orlandinho num porta-retratos de prata,


pediu-lhe que a tirasse.18 Se via o filho nos álbuns da família, virava
rapidamente a página. Passaram-se dez anos até que voltasse a
pronunciar o nome dele.19 O bloqueio erguido em torno da tragédia foi
tão grande que por muitos anos a família evitava mencionar o nome de
Orlando na presença do pai.20

A morte do filho alterou a noção que Ernesto Geisel tinha da
própria existência. Trouxe-lhe um sofrimento que nenhum sucesso
haveria de eliminar. A educação austera, a disciplina da caserna e seu
temperamento fizeram-no um retraído, mas a desgraça abateu-o a
ponto de ele dizer, trinta anos depois, que "ao longo de minha vida eu
fui um infeliz".21 A um amigo que passou por experiência semelhante,
confessou: "É uma dor que não acaba".22 Nunca fora um lúdico, mas em
1957 perdeu até a capacidade de esperar que a vida lhe desse alegrias.
Os dias festivos transformaram-se em jornadas de sofrimento, queria
que se esquecesse o Natal, "porque minha família não está completa".23
"Ele se ensimesmou ainda mais", conta Amália Lucy, a filha.24 "Antes da
morte do Orlandinho ele já era uma pessoa fechada, mas se permitia
alguma vida social. Depois, encaramujou-se", lembra seu amigo
Humberto Barreto.25 Geisel não buscou conforto na religião, nas
reminiscências ou nas mudanças bruscas de comportamento típicas
das compensações emocionais. Trancou-se, nunca mais falou do
assunto e, sempre que lhe foi possível, passou o dia 28 de março na
companhia da mulher.

Cinco anos após a tragédia recusou o comando da artilharia de
São Paulo, para não retornar, com a família, ao cenário em que tanto
haviam sofrido.26 Em 1976, quando o prefeito de Osasco decidiu dar o
nome de Orlando Geisel Sobrinho a uma rua da Vila dos Militares, em
Quitaúna, Geisel limitou-se a visar a carta com a notícia da assinatura
do decreto, sem mandar agradecer.27 (Pouco depois agradeceria a
remessa de dois discos do tenor italiano Beniamino Gigli, enviados por
outro político paulista.)28 Durante os cinco anos em que Geisel presidiu

o país, Heitor Ferreira, seu secretário particular, só registrou uma
referência a Orlando, quando defendeu a necessidade de uma

campanha para aperfeiçoar a sinalização das ferrovias: "Meu filho, por
exemplo, foi atropelado por um trem, sem aviso na cancela ou

passagem".29

Fora da família, seus interlocutores dividiam-se em dois tipos: os
que não tinham intimidade para mencionar o episódio e os que, tendo-
a, sabiam que não deviam fazê-lo. Ninguém o fez.30 Esse escudo,
originalmente erguido para travar a dor, provoca uma reação a
dependências afetivas. Repele até mesmo gestos de afeto e ajuda,
identificando neles uma reverberação simultânea da desgraça e da
fragilidade das relações humanas. O que à primeira vista parece ser um
bloqueio à dor termina por transformar-se em fortificação contra novas
experiências emocionais.31 Geisel e a mulher tornaram-se inseparáveis
na convivência, praticamente inacessíveis na vida particular.

1 Ernesto Geisel, outubro de 1984.

2 Estava presente também o tenente Leonidas Pires Gonçalves. Getulio perguntou os
nomes a Geisel e a Leonidas. Quando ouviu os sobrenomes, comentou: "O senhor é
um dos irmãos Geisel. Esteve na Paraíba? Fez um belo trabalho lá". A Leonidas,
ajudante-de-ordens de Álcio Souto, mostrou conhecer seu pai, médico, e disse:
"Lembro-me da última vez que o vi". Álcio Souto perguntou-lhe o que ia fazer. Vargas,
teatralmente, manteve-se em silêncio, deu uma baforada de charuto e respondeu:
"Descansar". Leonidas Pires Gonçalves, janeiro de 1999.

3 Ernesto Geisel, outubro de 1984, julho de 1992 e maio de 1994. (O golpe de 29 de
outubro foi o único a contar com lista prévia de adesões por assinatura. Depoimento
do general Mendes de Moraes, em Mario Renault Leite e Luiz Gonzaga Novelli Jr.,
orgs., Marechal Eurico Gaspar Dutra — O dever da verdade, p. 733.)

4 Elogio do general Álcio Souto ao major Ernesto Geisel, de 8 de novembro de 1945.
Livro de Alterações, Diretoria de Motomecanização, segundo semestre de 1945. AA.

5 Além dos quatro generais mencionados, tiveram participação relevante o brigadeiro
Eduardo Gomes (candidato à Presidência), Mendes de Moraes (diretor de armas, nome
dado na época à Diretoria de Pessoal) e Anor Santos, da Artilharia de Costa. Dos sete,
só Eduardo Gomes se opusera publicamente ao Estado Novo.

6 Ernesto Geisel, outubro de 1984.

7 Aspásia Camargo e Walder de Góes, Meio século de combate — Diálogo com Cordeiro
de Farias, p. 296, diz que Álcio Souto fazia parte do "grupo germanófilo". Carta do
general Octavio Costa ao autor, de 21 de agosto de 1991. A cinematografia nazista
interrompeu-se depois que uma sessão acabou em vaias e protestos. Em seu
depoimento no livro Histórias do poder, organizado por Alberto Dines, Florestan
Fernandes Jr. e Nelma Salomão, vol. 1: Militares, Igreja e sociedade civil, p. 322,
Jarbas Passarinho refere-se ao nazismo de Álcio Souto.


8 Ernesto Geisel, julho de 1992.
9 Nota de Heitor Ferreira, de cerca de abril de 1976. APGCS/HF.
10 Dicionário hístórico-biográfico brasileiro pós-1930, coord. de Alzira Alves de Abreu e


outros, vol. 5, p. 5949. Verbete de Paulo Brandi.


11 Idem, p. 5953. "Retrato do velho", marcha carnavalesca de Haroldo Lobo e Marino
Pinto.
12 Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930, coord. de Alzira Alves de Abreu e


outros, vol. 5, fotografia da página 3488.


13 Carlos Lacerda, "Advertência oportuna", p. 4. Tribuna da Imprensa de 1º de junho
de 1950.
14 Ernesto Geisel, outubro de 1983 e junho de 1994.
15 João Café Filho, Do sindicato ao Catete — Memórias políticas e confissões humanas,


vol. 1: Do sindicato ao Catete, pp. 70-1.
16 Amália Lucy Geisel, junho de 1991.
17 Carta de Orlando Geisel Sobrinho a Ruy Flaks Schneider, de 11 de maio de 1956.


Armando Falcão, Geisel, p. 110.
18 Amália Lucy Geisel, julho de 1991.
19 Humberto Barreto, maio de 1991.
20 Amália Lucy Geisel, julho de 1991, e Humberto Barreto, fevereiro de 2003.
21 Ernesto Geisel, agosto de 1986. A frase foi dita num contexto em que se discutiam


as dificuldades que as famílias criam para os governantes: "Ao longo de minha vida eu
fui um infeliz, mas tive a sorte de ter uma grande mulher e uma grande filha".
22 Antonio Carlos Magalhães, 1987.
23 Amália Lucy Geisel, julho de 1991.
24 Idem.
25 Humberto Barreto, maio de 1991.
26 Ernesto Geisel, novembro de 1994.
27 Carta do prefeito Francisco Rossi a Geisel, de 26 de fevereiro de 1976. APGCS/HF.
28 Bilhete de Miguel Colasuonno a Geisel, de 26 de maio de 1976. APGCS/HF.


29 Diário de Heitor Ferreira, 25 de junho de 1975.
30 Amigos íntimos de Geisel, como o casal Lilian e Humberto Barreto, evitavam tocar
na morte de Orlando Geisel Sobrinho. Golbery jamais a mencionou. Em vinte anos de
conversas com Geisel, somente em dezembro de 1993, durante um almoço a que
estavam presentes a mulher, a filha e Humberto Barreto, ouvi-o fazer alusão ao
"problema de Quitaúna", onde se deu "o falecimento do meu filho". Ele se referiu
pública e espontaneamente a Orlando em 1994. Em 27 de janeiro desse ano, quando
recebeu Cosette Alves para uma entrevista, que saiu na Folha de S.Paulo de15 de
setembro de 1996. Nela disse: "Sofri pessoalmente e sofri vendo minha mulher sofrer".
Depois, durante uma sessão das entrevistas que deu ao CPDOC, publicadas em Ernesto
Geisel, volume organizado por Maria Celina d'Araujo e Celso Castro, p. 123. No
depoimento concedido ao autor, o assunto não foi levantado.

31 Robert Jay Lifton, The broken connection, p. 176.


O perigo vermelho


Logo depois da morte do filho o coronel Geisel foi transferido para a
seção de informações do Estado-Maior do Exército, no Rio de Janeiro,
onde acumulou a função de representante do Ministério da Guerra no
Conselho Nacional do Petróleo. A divisão militar aprofundava-se diante
da armação da candidatura do ministro da Guerra à Presidência da
República. Além de ter feito a "Novembrada", o general Lott aceitara
uma espada de ouro na comemoração do primeiro aniversário do golpe,
homenagem de uma frente política que ia do vice-presidente João
Goulart ao Partido Comunista. O poeta Manuel Bandeira reclamava:

É ouro sinistro,
Ouro mareado:
Mancha o Ministro
Mancha o Soldado.1


Lott iniciara o processo de desidratação do Estado-Maior era
benefício do gabinete pessoal do ministro. Criara um serviço de
informações próprio e deixara aos coronéis do EME pouco mais que
arcanas discussões estratégicas e geopolíticas. Sua seção de
informações passou a cuidar apenas de questões internacionais. Lá,
Geisel batalhava contra um novo inimigo: o império russo e seu
instrumento de expansão política, o comunismo.

O confronto entre os impérios americano e soviético pode ter


começado em julho de 1943, quando americanos e ingleses, sem
consultar os russos, aceitaram a instalação do general Pietro Badoglio
na chefia do governo italiano depois da deposição de Mussolini. Ou
ainda em março de 1944, quando Josef Stalin demonstrou a Churchill e
ao presidente americano Franklin Roosevelt que estava disposto a
transformar a Polônia num satélite soviético.2 Segundo James
Burnham, um jovem ex-trotskista, renomado escritor da época, a
Terceira Guerra Mundial estourara em abril de 1944, com a revolta dos
marujos comunistas dos navios gregos ancorados no porto de
Alexandria.3 Através de uma didática que cultivaria até mesmo na
Presidência, copiando em cadernos escolares tudo aquilo que gostaria
de lembrar, Geisel transcreveu um trecho do livro de Burnham: "A
tarefa de preparação da Terceira Guerra Mundial pode ser subdividida
em dois tópicos: a tentativa para consolidar o domínio efetivo do
continente eurasiano e a tentativa simultânea para enfraquecer e minar
todos os governos e nações não submetidas ao controle comunista".4

O após-guerra foi um daqueles períodos da história humana em
que, tendo acontecido tanta coisa, tudo podia acontecer. A partir de
1940, em pouco mais de uma década, dera-se uma reorganização das
fronteiras européias sem paralelo desde as guerras napoleônicas. A
própria existência das nações tornara-se matéria frágil. A Alemanha
fora retalhada e o Japão, ocupado. Os Estados bálticos foram engolidos
pela União Soviética e o Tibet, pela China. Dividiram-se a Índia, por
motivos religiosos, e a Coréia, por razões ideológicas.

O comunismo avançava geográfica, política e intelectualmente. O
coronel Geisel acompanhava a "expansão soviética" em seu caderno:

Julho de 1940 — anexação da Estônia, Letônia e Lituânia [e

de] vastas áreas da Polônia, Prússia Oriental e Bessarábia.

Agosto de 1945 — ocupação do sul da ilha Sacalina e das

Curilas.

Janeiro de 1946 — República Popular da Mongólia,

República Popular da Albânia.


Setembro de 1946 — Romênia passa a ser comunista e a

Bulgária é absorvida pelos vermelhos.

Janeiro de 1947 — Polônia aceita o domínio comunista.

Maio de 1947 — Hungria aceita o domínio comunista.

Fevereiro de 1948 — Golpe comunista na Tchecoslováquia.

Maio de 1948 — Coréia do Norte se converte em República

Popular.

Outubro de 1948 — Mandchúria aceita um governo

comunista.

Outubro de 1950 — A Alemanha Oriental se converte em

estado comunista.

Janeiro de 1951 — O comunismo se apodera da China.

Maio de 1951 — O Tibet cai sob o domínio comunista.5

As bandeiras vermelhas tremulavam num espaço geográfico duas
vezes maior que aquele anterior à guerra, e perto da metade da
população do mundo estava sob o governo das "ditaduras do
proletariado". Na outra metade a situação era ameaçadora. Os partidos
comunistas europeus saíram da guerra como potências políticas. Entre
a queda de Mussolini, em 1943, e a grande eleição de 46, o número de
militantes do PCI passou de 400 mil a 2 milhões. Um italiano em cada
cinco votava vermelho. O Partido Comunista Francês tornou-se o maior
do país, com 1 milhão de membros (três vezes mais que em 1937) e 29%
dos votos.6 Mussolini fora pendurado de cabeça para baixo num posto
de gasolina e a casa real dos Savoia, destronada e banida. O gabinete
italiano tivera quatro ministros comunistas, entre os quais o secretário-
geral do PCI, Palmiro Togliatti, com a pasta da Justiça. Na França o
primeiro-ministro Pierre Laval foi passado pelas armas, e o marechal
Phillipe Pétain, herói de Verdun e ícone do governo colaboracionista de
Vichy, metido numa enxovia. Os comunistas ocuparam quatro
ministérios — inclusive o da Defesa — além de uma cadeira de vice-
primeiro-ministro. No inverno de 1947 os partidos comunistas se
lançaram numa ofensiva de greves, e a maioria dos países europeus


eram governados por coligações centro-esquerdistas. Parecia realizar-se
uma das advertências de James Burnham: "O objetivo supremo da
política comunista, e portanto soviética, é a conquista do mundo".7

A expansão do comunismo projetara-se também num predomínio
intelectual da esquerda. Aqueles que haviam combatido o nazifascismo,
recusando-se a tocar o hino fascista, como o maestro Arturo Toscanini,
ou ligando-se à Resistência, como o romancista Albert Camus, ou
simplesmente ficando em silêncio, como o filósofo italiano Benedetto
Cro-ce, formavam uma nova elite moral em toda a Europa. Em casos
opostos, o poeta Ezra Pound foi metido pelo exército americano numa
jaula de bichos por conta do seu filofascismo, e o escritor francês
Robert Brasillach foi fuzilado. A intelectualidade conservadora que se
comprometera com o Eixo refluiu ao silêncio. Os dois maiores artistas
da época estavam na esquerda: Pablo Picasso dizendo-se comunista, e
Charles Chaplin arriscando a carreira para defender a União Soviética.

No Brasil, o PC adquirira excepcional preeminência intelectual.
Tinha os melhores autógrafos da cultura nacional. Romance? Graciliano
Ramos e Jorge Amado. Poesia? Carlos Drummond de Andrade e
Vinícius de Moraes. Pintura? Candido Portinari e Di Cavalcanti. Eram
comunistas compositores consagrados como Mário Lago e artistas
populares como o humorista Jararaca. Seria mais fácil listar os
intelectuais que não passaram pelo PCB: Sérgio Buarque de Holanda,
Gilberto Freyre, Oliveira Viana e Manuel Bandeira.

O coronel Geisel estudara o marxismo. Copiou em 26 páginas de
caderno as principais passagens do manual de Materialismo dialético da
Academia de Ciências da URSS, bíblia dos comunistas de todo o mundo.
Com sua caligrafia impecável, anotava: "Materialismo histórico é a
ciência das leis que regem o desenvolvimento da sociedade", ou: "A
contradição fundamental do capitalismo é a contradição entre o caráter
social da produção e a forma privada, capitalista, da apropriação".8

Mais tarde, quando Juscelino Kubitschek restabeleceu as
relações comerciais do Brasil com a União Soviética, Geisel dinamitou
um projeto de troca de 30 milhões de dólares de petróleo russo por


produtos brasileiros. Viu na idéia "sérios inconvenientes": "O principal
deles decorre da necessidade de serem contínuos os suprimentos de
petróleo bruto para o refino no país. É razoável admitir-se que a URSS,
após algum tempo, use essa circunstância como fator de pressão sobre

o Brasil, ou que, na eventualidade de agravar-se a situação
internacional, ela venha a suspender os suprimentos. [...] Em resumo,
procurando libertar-nos da sujeição ao capital norte-americano,
poderemos criar, no caso, uma sujeição futura muito pior ao bloco
soviético".9
A energia política e as concepções de poder que o tenente Geisel
libertara no rastro da Revolução de 1930 e da ascensão do fascismo se
realinharam no coronel de acordo com as clivagens da época. A
complexidade dessas clivagens supera de muito as simples divisões
entre governo e oposição, esquerda e direita, nacionalismo e liberalismo,
democracia e ditadura. Muitas vezes arraigam-se em quizílias que,
separando os generais, separam também os coronéis e majores que os
cercam. Geisel não caberia em nenhum dós esquemas de separação
mecânica dos grupos. Era oposição a Vargas, mas não assinara o
Memorial dos Coronéis. Isolara-se dos conspiradores de 1954, mas não
escondia sua discordância diante da "Novembrada" de 55.

Podia parecer excêntrico, porém era apenas simples. Todos os
generais falavam em disciplina, mas naqueles dois anos agitados
esquerda e direita mostraram suas concepções utilitárias da ordem e da
desordem militar. Em 1954 a esquerda defendia os poderes
constituídos, e a direita armava o golpe contra Getulio. Ganhou a
direita. Um ano depois a direita conspirava contra a posse de Juscelino
Kubitschek, e Lott deu o golpe dos sonhos da esquerda. Os legalistas de
1954 foram os golpistas de 55, enquanto os golpistas de 54 se tornaram
legalistas em 55. Num sinal da predominância da indisciplina militar, a
maioria dos generais apoiou os dois golpes, Esse foi o caso de Lott,
Castello Branco e Costa e Silva. Raros foram os casos como o de Geisel.


Por conta de suas idéias e de seu círculo de amizades, Geisel
poderia ser fichado à direita, mas essa classificação não levaria longe.
Tornara-se um defensor do monopólio estatal do petróleo. Não se
envolvera na batalha política do "petróleo é nosso", mas vira na
Diretoria de Motomecanização a extensão das dificuldades derivadas da
falta de uma política de combustível. Como mala sem alça, o coronel era
um trambolho político, difícil de mover. Em julho de 1957, a mala foi
colocada na cadeira de representante do Ministério da Guerra no
Conselho Nacional do Petróleo. A Petrobrás mal completara três anos de
existência, e o CNP ainda era o formulador da política nacional de
combustíveis. Nele, a refinaria União travava a batalha pela definição do
futuro do refino de petróleo no Brasil. Localizada em Capuava, São
Paulo, refinava 20 mil barris/dia desde o final de 1954. Era a maior do
setor privado, mas equivalia a menos da metade da estatal de Cubatão.

A lei que dera à Petrobrás o monopólio da pesquisa, da exploração
e da produção de derivados preservara o nicho das três grandes refinarias
privadas inauguradas anos antes, desde que congelassem sua
produção abaixo da marca dos 45 mil barris/dia.10 Entendia-se que,
aos poucos, a estatal cuidaria do refino, visto como o filé do negócio.
Além de Cubatão, a Petrobrás já operava a central de Mataripe e
preparava a construção de sua planta em Duque de Caxias, cuja
produção deveria chegar a 90 mil barris/dia.11

Politicamente poderosa, Capuava12 havia conseguido do CNP uma
autorização para que sua produção se expandisse de 20 mil para 31 mil
barris/dia. Do ponto de vista da empresa era ganho de produtividade.
Para a Petrobrás, era burla à lei. A briga fora levada ao presidente
Juscelino Kubitschek, e ele determinara que a produção excedente
ficaria com a Petrobrás, que se comprometia a pagar uma "justa
remuneração" à refinaria.13

Na hora de definir qual seria essa "justa remuneração" o processo
de Capuava caiu nas mãos do coronel Ernesto Geisel. Ele já conhecia a
força de Alberto Soares Sampaio, dono da refinaria. Tinha como sócio o
banqueiro Walter Moreira Salles e na sua equipe de advogados o


professor San Tiago Dantas. No CNP, Geisel encontrara um crítico
solitário da política das refinarias particulares. Era Jesus Soares
Pereira, um cearense modesto, autodidata e positivista, arquétipo do
burocrata nacionalista do varguismo. Começara a vida como
telegrafista. De 1938 a 1954, sempre que o Estado expandiu,
centralizou ou monopolizou atividades de infra-estrutura econômica,
Jesus estava presente. Trabalhara na Assessoria Econômica de Vargas,
participara da criação de Volta Redonda, da Companhia Hidrelétrica do
São Francisco e da Petrobrás.14 Sentava-se no Conselho como
representante do Ministério da Viação e tentara, sem sucesso, conter a
produção da refinaria de Capuava.15 Para Geisel, tratava-se de calcular
uma "justa remuneração" de maneira a evitar que Soares Sampaio —
ou qualquer outro dono de refinaria — sequer pensasse em refinar um
barril a mais. O coronel decidiu que Capuava devia receber de volta
aquilo que pagara pelo óleo cru, mais nada. Arrastou consigo os votos
da Marinha e da Aeronáutica, e ganhou a briga. Capuava recorreu,
Geisel relatou novamente o processo e voltou a contrariá-la. Concertou-
se uma peritagem de técnicos do CNP, eles deram razão à refinaria.
Geisel pôs em dúvida a honorabilidade da equipe, e a posição foi
mantida.16

Um coronel anticomunista na 2ª Seção do EME podia incomodar
muita gente, mas um oficial capaz de hostilizar Capuava sentado no CNP
incomodava muito mais. Por meio de uma manobra atribuída ao chefe
do Gabinete Militar de Kubitschek, nomeou-se para a presidência do
conselho um coronel mais moderno que Geisel.17 Podia fazer de conta
que não entendera, visto que se tratava de um cargo civil, mas pagaria o
preço da humilhação. Demitiu-se em 24 horas por "incompatibilidade
hierárquica".18 Quando o ministro Lott argumentou que o coronel não
lhe daria ordens, Geisel respondeu que durante as reuniões plenárias
ele lhe daria a palavra, e isso bastava para caracterizar a
incompatibilidade. Menos de um ano depois, estava de volta, sempre
incomodando.

Capuava combatia. Numa carta a Juarez Távora, o professor


Eugênio Gudin, ex-ministro da Fazenda e corifeu do liberalismo
econômico brasileiro, cuidou da "divergência entre a Capuava e a
Petrobrás, no caso, personificada pelo seu amigo coronel Geisel, de
quem também formo o mais alto juízo". Feita a cortesia, ia ao ponto.
"Vejo a estrutura política de nosso país formada por dois únicos
grandes grupos: os que são contra e os que são a favor do nacional-
socialismo ou do nacional-comunismo." Junto, enviava-lhe o estudo de
um amigo sobre a controvérsia.19 O cosmopolita Gudin subestimou o
rigor das lealdades de alguns dos tenentes de 1930. Juarez mandou a
Geisel tanto o estudo como a própria carta, com a seguinte observação:
"Não pude ler qualquer desses documentos; e se tivesse podido fazê-lo,
me escusaria de dizer-lhe sequer uma palavra sobre o mérito da
questão que lhe cabe debater junto ao CNP". Assinou-se "velho camarada
e amigo".20

Por detrás da cortina, um amigo de Soares Sampaio fez saber ao
coronel Geisel que ele poderia vir a ser nomeado presidente da
Petrobrás, desde que esquecesse a rixa.21 Geisel acertou metodicamente
suas contas com os plutocratas do refino, e em outubro de 1973
Capuava desapareceu como empresa privada. Quando um interlocutor
lhe disse que ao longo do tempo tirara "o couro do pessoal de Capuava",
reconheceu: "Ah, tirei".22

No início de 1960 o general Lott deixou o Ministério da Guerra
para disputar a Presidência da República em nome da coligação
governista, contra o governador de São Paulo, Jânio Quadros. Para o
lugar foi o general Odylio Denys, comandante do I Exército durante a
"Novembrada". Com ele subiu Orlando Geisel. Ganhara as estrelas de
general dois anos antes e tornou-se chefe-de-gabinete do ministro.
Convidou o irmão para a chefia do serviço secreto que Lott montara em
seu gabinete.

"É convite seu ou do Denys?", perguntou Ernesto.

"Do Denys, não tenho nada com isso", respondeu Orlando.


Na origem do convite estava a disposição de Denys em fechar as
cicatrizes deixadas pela "Novembrada" e pelos seis anos de poder de
baraço e cutelo de Lott. Na essência, representava o começo de uma
reviravolta. Como registraria em suas memórias o tenente-coronel
Nelson Werneck Sodré, membro do Partido Comunista: "Era forte. O
marechal Odylio Denys dava preferência, agora, a oficial de posição
política inconfundível, e do outro lado".23 Dias depois o coronel Geisel
reunia-se com o ministro:

— Recebi esse convite e vim falar com o senhor para acertar
certos aspectos. Claro que não se trata de impor condições ou
coisa assim, mas é para esclarecer minha opinião com respeito a
problemas que condicionam a função. Primeiro, não estou de
acordo com essa proteção que hoje têm os comunistas no
exército, comunistas comandando corpos de tropa, comunistas
em posições-chaves, tirando curso de estado-maior.
— Eu também não estou de acordo. Vou agir contra eles —
respondeu Denys.

— Acho que o exército deve ficar fora da política. Há essa
campanha presidencial, Lott candidato, e é preciso não se
envolver. E há a hipótese de o Jânio ganhar. Nesse caso a minha
posição é que quem for eleito tem que ser empossado. Não vá o
exército se prestar para dar golpe e terminar o Lott dono da
coisa.24
Aceito o convite, Geisel formou sua equipe e nela incluiu o major
Sérgio de Ary Pires, conhecido por sua militância política. O irmão
procurou-o com um desabafo:

— Esse não dá. É golpista.
— Golpista? Golpistas são vocês. Eu sabia que não podia
aceitar o convite. Vocês não querem unir coisa nenhuma. Então
vou embora daqui.25
O major ficou, e o coronel Geisel fez marcação dura contra os


"vermelhos" do Exército. Sugeria "eliminar os elementos de tendências
comunistas dos diversos setores da administração, e de modo particular
a infiltração no seio das forças armadas".26 Seus agentes vigiavam os
oficiais de esquerda e propunham até mesmo que se acompanhasse
uma viagem do brigadeiro comunista Francisco Teixeira à Europa.27

Por sua mesa passava de tudo. Do mundo dos pedidos militares
vinham desde uma ordem (não cumprida) de Kubitschek a Denys de
que se designasse o general Olympio Mourão Filho para o cargo de
adido militar em Portugal até um pedido de um major que pretendia
cuidar da surdez fazendo-se nomear para a missão em Washington.28 O
mundo das conspirações políticas produzia os rotineiros informes de
espias. Um narrava uma conversa de uma hora e meia com S, oficial
que falava como "chefe do grupo militar lottista" e se mostrava
preocupado com a possibilidade de uma manobra continuísta de JK. 29
Outro, de Porto Alegre, avisava que o comandante do III Exército,
general Osvino Ferreira Alves, levantava a hipótese de uma revolta
popular caso Jânio Quadros, representando o "entreguismo", vencesse a
eleição.30 No início de agosto, quando a campanha do marechal Lott
dava sinais de colapso, outro informe alertava sobre a existência de um
plano golpista que começaria no Rio Grande do Sul, com uma passeata
liderada pelo governador Leonel Brizola, e terminaria em Brasília, com a
posse do general Osvino como chefe revolucionário. Até armas estariam
sendo desembarcadas em Porto Alegre.31 Não era pura fantasia. Nesses
dias o governador gaúcho e o vice-presidente João Goulart sentaram-se
para almoçar com o ministro da Justiça, Armando Falcão, no
restaurante Night and Day, no centro do Rio. Brizola estava certo da
vitória de Jânio e foi direto ao ponto: "Nosso candidato está derrotado.
Vamos atalhar o desastre. O remédio é uma junta militar amiga".32

Jânio surrou Lott, e para desencanto dos oficiais que não lhe
perdoavam a "Novembrada", Denys continuou no ministério. O general
Antonio Carlos Muricy argumentara que o novo ministro "não deve ter
problemas morais que o incapacitem para o cargo" e não incluíra Denys
na sua lista de candidatos, mas tanto ele como as velhas vítimas de


1955 acabaram preferindo a mútua acomodação em torno do marechal.
33 Como escreveria o coronel Heitor Herrera, um dos mais
intransigentes e ativos conspiradores da época: "Não é gostoso o Lott
ver sua política mesquinha alterada por seu ex-cupincha número um?".
34 Geisel, promovido a general-de-brigada, foi para Brasília, acumulando
as funções de comandante da 11ª Região Militar e da 11ª Brigada de
Infantaria.

1 Manuel Bandeira, "A espada de ouro", em Estrela da vida inteira, p. 335.

2 John Colville, The fringes of power, p. 479.

3 A observação é de James Burnham, em Struggle for the world, publicado em 1947.

4 Apontamentos, caderno de espiral, manuscrito, de Ernesto Geisel, APGCS/HF.

5 Duas folhas manuscritas, datadas de fevereiro de 1954, anexas ao caderno
intitulado Apontamentos, de Ernesto Geisel, APGCS/HF. A respeito do expansionismo
moscovita, a título de comparação, registre-se que entre 1761 e 1856 a Rússia se
expandiu à razão de 48 quilômetros quadrados por dia. Entre 1790 e 1890, os
Estados Unidos expandiram-se à razão de quase cem quilômetros quadrados por dia.
Ver Richard Pipes, The formation of the Soviet Union, p. 1. Entre 1500, quando as
fronteiras coloniais portuguesas estavam demarcadas pela linha do Tratado de
Tordesilhas, e 1904, quando a República anexou o território que hoje forma o estado
do Acre, o Brasil expandiu-se sobre 5 706 438 quilômetros quadrados, à razão de 34,7
quilômetros quadrados por dia. Agradeço essa pesquisa a Luiz Henrique Ligabue F.
Silva.

6 Gabriel Kolko, The politics of war, pp. 31-2. Com 2,125 milhões de membros, o PCI
transformou-se no maior partido comunista do mundo, depois do soviético.

7 Apontamentos, caderno manuscrito de Ernesto Geisel, APGCS/HF.

8 Vinte e seis folhas manuscritas de Geisel, intituladas Materialismo histórico. APGCS/HF.
Para a primeira citação, Vários Autores, Materialismo dialético, p. 7.

9 Negociações Comerciais com a URSS, informação da 2-Seção do EME, sem data.
APGCS/HF.

10 Carlos Eduardo Paes Barreto, A saga do petróleo brasileiro, p. 40.
11 Peter Seaborn Smith, Oil and politics in modern Brazil, p. 114.
12 A refinaria União era mais conhecida pelo município onde se localizava do que pelo


nome.
13 Carlos Eduardo Paes Barreto, A saga do petróleo brasileiro, p. 52.
14 Ernesto Geisel, abril de 1995. Para um estudo biográfico e para a trajetória de


Jesus Soares Pereira, ver Petróleo, energia elétrica, siderurgia: a luta pela
emancipação, volume organizado por Cláudio Sinonio Medeiros Lima.

15 Ernesto Geisel, abril de 1995.
16 Carlos Eduardo Paes Barreto, A saga do petróleo brasileiro, pp. 52-3 e 55. Capuava
foi à Justiça contra o coronel Geisel. Em 1962 teve ganho de causa, mas a Petrobrás


só cumpriu a sentença três anos depois. Idem.

17 Na hierarquia militar, se dois oficiais têm a mesma patente, aquele que a ela
chegou antes (o "mais antigo") tem precedência sobre o outro (o "mais moderno").

18 Para a identificação do chefe do Gabinete Militar, general Nelson de Mello, como
autor da manobra, carta do marechal Floriano de Lima Brayner a Geisel, de 2 de
janeiro de 1974. Para o pedido de demissão, carta do coronel Ernesto Geisel ao chefe
do EME, de 10 de maio de 1958. APGCS/HF.

19 Carta de Eugênio Gudin a Juarez Távora, de 10 de fevereiro de 1961. APGCS/HF.
20 Carta de Juarez Távora a Ernesto Geisel, de 10 de fevereiro de 1961. APGCS/HF.
21 Ernesto Geisel, setembro de 1994.
22 Ernesto Geisel, janeiro de 1995.
23 Nelson Werneck Sodré, Do Estado Novo à ditadura militar, p. 219.
24 Ernesto Geisel, outubro de 1994, e Diário de Heitor Ferreira, 27 de janeiro de 1972.
25 Diário de Heitor Ferreira, 27 de janeiro de 1972.
26 Expansão do Comunismo no Âmbito Nacional. Expediente de Geisel ao chefe do EME,


general Zeno Estillac Leal. APGCS/HF.

27 Duas folhas, carimbadas "secreto", de 26 de julho de 1960, encaminhadas pelo
general Jayme de Almeida, chefe do Departamento de Provisão Geral, ao gabinete do
ministro Denys. APGCS/HF.

28 Bilhete manuscrito de Juscelino Kubitschek ao marechal Odylio Denys, sem data.
Carta do major Nilton Freixinho a Geisel, de 16 de abril de 1960. APGCS/HF. Segundo
Geisel, Denys cozinhou a ordem de JK e não nomeou Mourão. Ernesto Geisel, 1988.

29 Quatro folhas sem data nem assinatura, intituladas Conversa com S, Dia 3 de
Julho, Sábado, Duração 1 h30m. APGCS/HF.

30 Seis folhas datilografadas, sem data nem assinatura. APGCS/HF.

31 Informe de 9 de agosto de 1960. Sem assinatura. APGCS/HF.
32 Armando Falcão, Tudo a declarar, pp. 247-8.
33 Carta do general Antonio Carlos Muricy a Geisel, de 11 de julho de 1960. APGCS/HF.
34 Carta do coronel Heitor Herrera ao capitão Heitor Ferreira, de 29 de janeiro de


1961. APGCS/HF.


Um general da (i)legalidade


Na manhã de sexta-feira 25 de agosto de 1961, seis meses e 23 dias
depois de ter sido empossado, Jânio Quadros assistiu à parada do Dia
do Soldado na praça dos Três Poderes e caminhou para seu carro. O
chefe do Gabinete Militar, general Pedro Geraldo de Almeida, parou-o:
"Presidente, vão tocar agora o Hino nacional".1

Jânio tinha pressa, mas pôs a mão no peito e perfilou-se. Poucos
metros atrás, estava o general Ernesto Geisel. Acabara de receber a
pataca de grande oficial da Ordem do Mérito Militar. Soubera de Pedro
Geraldo que "hoje vai haver coisa grossa".2 De volta ao palácio, viu o
tamanho da "coisa": Jânio ia renunciar à Presidência. Tocou-se para o
gabinete do ministro da Guerra, marechal Odylio Denys, e avisou-o.

Minoritário no Congresso e desprovido de uma base de
sustentação política, Jânio embutira um programa conservador em sua
personalidade excêntrica. Derrubara o valor do cruzeiro. O dólar passou
de noventa para duzentos cruzeiros. Exigira dois turnos de trabalho ao
funcionalismo público ao mesmo tempo que se lançara em teatralidades
como proibir biquínis em desfiles de misses e as corridas de cavalos nos
dias de semana. No final de julho dera trinta dias aos ministros
militares para que estudassem a possibilidade de anexação das
Guianas, "submetidas a intenso trabalho autonomista [...] com a
presença de fortes correntes de esquerda, algumas, reconhecidamente,
comunistas".3 No dia 19 de agosto enfeitara a farda verde do Che


Guevara com a seda azul-celeste da grã-cruz da Ordem do Cruzeiro do
Sul. Quatro dias depois voltara a tratar do perigo da Guiana Inglesa,
temendo que lá se formasse "um país de estrutura soviética", pois ela
seria governada por gente "da mais alta periculosidade". A essa altura o
plano resumira-se à abertura de uma missão diplomática em
Georgetown, acompanhada de vôos regulares do Correio Aéreo Nacional.
Jânio tinha uma fé inabalável em si próprio.

Fizera uma carreira assombrosa, indo de vereador de 1700 votos
aos trinta anos a presidente com 5,6 milhões, aos 43. Seu desequilíbrio
emocional, bem como o farisaísmo de sua moralidade, era matéria de
consumo conspícuo. Durante a campanha o futuro ministro da Justiça,
Oscar Pedroso Horta, classificara-o de "maluco", enquanto o deputado
Carlos Lacerda, um de seus principais aliados, já o chamara de
"delirante virtuose da felonia", "palhaço" e "charlatão". Quando se
aborrecia com o candidato, Lacerda ameaçava: "Conto tudo o que sei".4
Seu chanceler chamava-o de "a UDN de porre".5 O senador-padre
Benedito Calazans, seu aliado em São Paulo, pedira-lhe publicamente
"mais seriedade, menos uísque e menos outras coisas".6 O partido da
moralidade foi à eleição com um candidato que tinha como símbolo a
vassoura, sabendo que se tratava de um bêbado chegado a romances de
fim de noite.7 Geisel dava-o por maluco desde que o conhecera, em
1955.

Na manhã de 25 de agosto o presidente estava no meio da
primeira grande crise política de seu governo. Lacerda revelara numa
dramática catilinária que o ministro Horta o convidara para um golpe
de estado. Jânio jogou sua vida política numa só mão de cartas.
Trancou-se na sala e despachou a renúncia com um bilhete manuscrito
de 27 palavras e um manifesto de ressonância getulista ("forças terríveis
levantam-se contra mim"). Anunciou a decisão aos três ministros
militares e voou para São Paulo. O general Odylio Denys, ministro da
Guerra, o almirante Sylvio Heck, da Marinha, e o brigadeiro Gabriel
Grün Moss não tinham mandato, mas não lhes passava pela cabeça
entregar o governo ao seu legítimo destinatário. A cadeira cabia ao vice



presidente João Goulart, que além de carregar na biografia a hostilidade
da maioria dos generais, estava no lado errado do mundo. Visitara
oficialmente a China Comunista, país com o qual o Brasil não mantinha
relações diplomáticas. Fora recebido pelo camarada Mao Zedong e
acabara de descer em Cingapura. Começara uma crise em que o
conservadorismo nacional construiria uma catedral de trapalhadas e a
sociedade civil brasileira, a maior vitória política de sua história.

A primeira salva partiu do ministro das Relações Exteriores,
Affonso Arinos de Mello Franco, um catedrático de Direito
Constitucional, concitando o Congresso a rejeitar a renúncia, sem o que
"será o caos, a guerra civil".8 Tanto Arinos como Pedroso Horta
sustentavam que o Congresso deveria apreciar a decisão presidencial,
podendo até mesmo recusá-la. Seria um retorno imperial. Ao contrário
do que pensavam os constitucionalistas do golpe, ao Parlamento cabia
apenas tomar conhecimento da decisão. Tratando-se de um ato de
vontade do presidente, a renúncia não podia ser apreciada por
ninguém. Na segunda salva, o ministro da Justiça levara a carta de
Jânio ao Senado certo de que não haveria parlamentares suficientes em
Brasília para a abertura de uma sessão extraordinária do Congresso.
Engano: a denúncia de Lacerda superpovoara a capital habitualmente
deserta após o almoço de sexta-feira. Em quatro minutos e meio o
senador Auro Moura Andrade, presidente do Congresso, leu a carta,
deu conhecimento ao plenário da "renúncia do mandato do Presidente
da República Sr. Jânio Quadros", informou que ele já não estava em
Brasília e convidou os parlamentares para a posse do seu sucessor
constitucional, marcada para dali a dez minutos.9 Um deputado atirou-
lhe um microfone, outro tentou arrebatar-lhe o documento, mas menos
de meia hora depois, no palácio do Planalto, assumia o deputado
Paschoal Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara. Coube a Denys
nomear o seu chefe do Gabinete Militar e nele colocou Geisel.

Auro devorara o Vinte e Cinco de Agosto de Jânio da Silva
Quadros. A bordo do avião da FAB que o levava a São Paulo, o ex-
presidente surpreendera-se com o Parlamento, que acolhera a renúncia


("congresso canalha"), com seus eleitores, que não lhe pediam que
voltasse atrás ("não vejo o povo nas ruas"), e com os militares ("me
decepcionaram").10 Levara consigo a faixa presidencial. Desembarcou
transtornado na base aérea de Cumbica.11 Quando sua mulher lhe
disse que Mazzilli já estava empossado, informou ao governador de São
Paulo: "Não tem importância, governador. No fim de semana estará tudo
resolvido".12

Egocêntrico e megalomaníaco, Jânio concebera um golpe
primitivo, desconexo, em que não havia lugar para cúmplices, só para
súditos. A desarticulação que deveria ter sido a tessitura do manto real,
foi-lhe mortalha. Dias depois o ex-presidente embarcou no cargueiro
Uruguay Star com destino à Europa. Enquanto o navio costeava o litoral
fluminense, Jânio vagava insone pelo convés assegurando à filha Dirce
Maria, a Tutu: "Eles virão me buscar". Já ao largo da costa africana,
perto do arquipélago de Las Palmas, insistia: "Eles virão me buscar de
avião".13

Faltava resolver o problema de João Goulart. Pensava-se em obter
seu impedimento, para depois conversar sobre o resto. Os ministros
militares fizeram saber a Mazzilli e a diversos parlamentares que não
admitiam sua posse. Com dez horas de fuso de diferença, o vice-
presidente tomara conhecimento da renúncia na volta de um jantar
com pratos típicos malaios. Do hotel Raffles, o melhor de Cingapura,
Jango começou uma longa viagem. Levaria seis dias para descer em
Montevidéu. Passaria antes por Paris, Nova York e Buenos Aires.

O Partido Comunista atirara seus militantes às ruas com uma
poderosa palavra de ordem: Legalidade. Controlando uma nova
coligação de lideranças sindicais, paralisara os ferroviários da
Leopoldina, no Rio de Janeiro, e quase todos os bancos. Era a infância
da maior greve já vista no país. A Cinelândia, no Rio de Janeiro, tornou-
se campo de combate entre os partidários de Jango e a polícia do
governador Carlos Lacerda. Pouco antes da meia-noite o governador
gaúcho Leonel Brizola, cunhado de Goulart, pronunciou a palavra que
demarcaria a crise e haveria de colocá-lo na história do país:


"Legalidade".

O golpe encruara. Desde a primeira hora, ainda na manhã do dia
25, faltou aos ministros militares a decisão de lançarem-se num golpe
de mão. Denys emitiu seu veto mais de uma dezena de vezes, sempre se
valendo de intermediários. Vetava Jango, mas queria que as vivandeiras
dobrassem os sinos do golpe. A hierarquia estimulava o golpismo
buscando um coro que lhe permitisse entrar em cena a pedido das
bases militares, do Congresso, do povo ou de quem quer que fosse,
desde que no futuro se pudesse dizer que os generais foram agentes
passivos de uma convocação nacional. No seu momento de maior
audácia, os três ministros militares manifestaram-se por intermédio de
Mazzilli. Três dias depois da renúncia, na segunda-feira, ele oficiou ao
Congresso que a trinca apontara "a absoluta inconveniência, por
motivos de segurança nacional, do regresso do presidente da República
João Belchior Marques Goulart".14

Com a ida de Denys para o Rio, Geisel tornara-se a maior patente
de Brasília. O presidente interino era seu virtual prisioneiro e sabia
disso. Indicando a extensão de seu gabinete, Mazzilli dizia: "Sei que sou
presidente aqui dentro deste retângulo, mas passada aquela porta, não
sei se mando".15 Não mandava. Geisel dormia no palácio, numa cama
de campanha. Como em outubro de 1945, resfriou-se, ficou rouco.
Comandava uma equipe de oficiais no Planalto e outra no Rio de
Janeiro. Trabalhavam duro, e a equipe carioca chegou a receber um
conselho tônico: "O general determinou-me recomendar-lhe tomar
diariamente injeções de glucose na veia, a fim de que se possa evitar a
exaustão. Em Brasília todos os oficiais do gabinete estão 'dopados'".16

Além das tropas de Brasília e dos oficiais do Gabinete Militar, o
general operava duas equipes de escuta telefônica. Uma funcionava no
Rio, captando as conversas que passavam pelos cabos internacionais da
Radional. Nessa rede caíam todos os telefonemas de Goulart. Outra
trabalhava no próprio palácio do Planalto, liderada pelo capitão-de-mare-
guerra Floriano Faria Lima e formada por oficiais do Gabinete Militar
que escutavam as conversas com fones de ouvido.17


Durante os dois primeiros dias da crise o ministro Denys agiu
com uma violência política raramente vista. O general Lott, seu chefe e
camarada no golpe de 1955, telefonou-lhe pedindo que acatasse a
Constituição. Nada feito. Desobrigado, na noite do dia 26, um sábado, o
ex-ministro divulgou um manifesto conclamando o povo a "tomar
posição decisiva e enérgica no respeito à Constituição". Às sete da
manhã de domingo o marechal Henrique Lott saía preso de seu
apartamento de Copacabana. Prender Lott era uma demonstração de
força, mas remetê-lo à fortaleza da Lage, casamata de concreto que
parece flutuar no meio da barra da Guanabara, comandada por um
major, fora truculência. Maior mesmo que a de Floriano Peixoto em
1892, quando trancafiou na mesma fortaleza o poeta Olavo Bilac. A
polícia carioca prendeu os esquerdistas habituais, invadiu a União
Nacional dos Estudantes e ocupou o centro da cidade. A imprensa foi
posta sob censura.

Tantas providências, que em outros golpes nem sequer foram
necessárias, mostraram-se insuficientes. João Goulart parecera uma
vítima mixuruca a generais que tinham deposto Getulio Vargas, mas os
obstáculos de 1961 eram diversos e maiores que os de 54. O
comportamento de Jânio desmoralizara a direita, e a falta de um
usurpador desarticulava os golpistas. Havia manifestações e choques
com a polícia no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em Porto Alegre,
Brizola barricara o palácio Piratini, em cujo porão acabava de se montar
uma emissora de rádio. Foi ao ar pela primeira vez no início da tarde de
domingo. Sobre essa base seria formada a Rede da Legalidade, que
chegaria a juntar mais de duzentas emissoras. Através dela, Brizola
anunciara: "Resistiremos".18

Às 9h45 do dia 28 (segunda-feira) o general José Machado Lopes,
comandante do III Exército, com jurisdição sobre o Rio Grande do Sul,
foi chamado à estação de rádio do comando, para uma comunicação
urgente. Do outro lado da linha transmitia-se uma ordem do general
Orlando Geisel, falando por Denys: "Faça convergir sobre Porto Alegre
toda a tropa do Rio Grande do Sul que julgar conveniente, inclusive a 5ª


Divisão de Infantaria, se necessário. Empregue a Aeronáutica,
realizando inclusive bombardeio, se necessário".19

Era a segunda vez que Orlando Geisel transmitia essa ordem.20
Machado Lopes afastou-se, ficou só, perto de uma janela.21 Tinha 61
anos e, num Exército de biografias de revoltosos ilustres, era um oficial
que jamais se rebelara. Quando as sedições passaram por ele, em 1922,
24 e 35, combateu-as. Anticomunista e autoritário, mantinha-se longe
de Brizola porque achava que ele queria a "cubanização do Brasil".22
Nunca fizera um pronunciamento público. Vacilava desde o início da
crise e sabia que parte de sua tropa pendera para a Legalidade. Se a
quartelada acabasse em briga, ela começaria em Porto Alegre. Machado
Lopes voltou ao equipamento de radiofonia e avisou que não cumpriria
a ordem. Destituído do comando, repetiu sua posição num telegrama a
Denys: "Terceiro Exército, perfeitamente coeso, não mais acatará ordens

V. Exa.".23
O golpe estava tecnicamente destruído. Outro projeto de
bombardeio de Porto Alegre falhara porque os sargentos do 1º
Esquadrão de Combate esvaziaram os pneus dos dezesseis aviões F-8,
já municiados, impedindo que decolassem.24 A simples referência, por
Orlando Geisel, à possibilidade de uso da tropa da 5ª Divisão de
Infantaria, com sede em Curitiba, indicava que o Ministério da Guerra
sabia ter perdido a garantia da 3ª Divisão, baseada em Santa Maria e
comandada pelo general Pery Bevilaqua. Fora-se também a 1ª Divisão
de Cavalaria, sob as ordens do general Oromar Osorio. Mesmo assim, o
marechal Denys e os generais Orlando e Ernesto Geisel demoraram
para tirar a roupa de campanha. O ministro nomeou o general Cordeiro
de Farias para o lugar de Machado Lopes, mas o veterano conspirador
nunca chegou a Porto Alegre. O chefe do Gabinete Militar queria
instalar Cordeiro em Curitiba. Para isso seria necessário tomar o
aeroporto da cidade, controlado por tropas fiéis a Machado Lopes.
Fizera isso com o de Goiânia mobilizando apenas um major e achava
possível descer em Curitiba com uma unidade de pára-quedistas.25
(Estava certo. No aeroporto havia somente alguns soldados.) Passados


24 anos, ele recapitulava a manobra: "Tomado o aeroporto, desceria o
3° Regimento de Infantaria, trazido do Rio de Janeiro, e controlaria a
situação. Acho que se isso fosse feito, o resultado teria sido outro".
Denys recusou a proposta, argumentando que considerava a tropa
aeroterrestre sua força de reserva e, portanto, não queria empregá-la.
Geisel via o problema de maneira diferente: a tropa de reserva fica na
reserva até a hora em que se precisa dela, e ela era necessária para
tomar o aeroporto de Curitiba. Ademais, uma unidade aerotransportada
é sempre tropa facilmente recuperável, pois pode retornar ao quartel
depois da chegada dos reforços.26

O Rio Grande do Sul estava insurreto, com aulas suspensas,
bancos fechados, gasolina racionada e até mesmo um Grêmio x
Internacional, o famoso Gre-Nal, adiado. A essa altura, a cautela de
Denys já lhe custara o apoio da guarnição do Rio de Janeiro. Como
observou em suas memórias o general Nelson Werneck Sodré, "agora,
para impor-se, o golpismo precisava combater".27 Nas palavras de
Geisel, "estava criado o impasse, com a divisão do Exército e com o
pouco apetite, vamos dizer, dos generais, dos chefes, de irem para a
luta".28

O primeiro sinal de fumaça da conciliação chegara a Jango na
manhã do dia 28, antes da definição de Machado Lopes. Ele estava em
sua suíte do hotel George V, em Paris, quando atendeu um telefonema
de Affonso Arinos. O ex-ministro das Relações Exteriores aventara um
compromisso, pelo qual Jango receberia a Presidência num novo
regime, parlamentarista. Goulart repassara a mensagem ao deputado
Almino Affonso com um toque de astúcia: "Tu vê lá, Almino, a gente
conversa. Mas não corta isso por inteiro".29

Três dias depois o deputado Tancredo Neves foi ao encontro de
Jango, que já se achava em Montevidéu. Seguiu no Viscount
presidencial, requisitado por Geisel. Nessa ocasião Geisel e Tancredo
tiveram pelo menos uma longa conversa. O general, mesmo admitindo a
importância desse entendimento, nunca revelou o que conversaram.
Tancredo também não. O deputado encaminhava a Jango os detalhes


da fórmula por meio da qual seria empossado na Presidência após a
aprovação de uma reforma constitucional que instalaria no Brasil o
regime parlamentarista. Na noite de 1º de setembro João Goulart
desembarcou em Porto Alegre evitando multidões e, sobretudo, a
postura de vencedor.

Primeiro faltou a Denys a coragem de divulgar logo na primeira
hora o veto explícito a Jango. Depois, faltou ao golpe o elemento
essencial para o sucesso: um propósito ativo. Impedir a posse do vice-
presidente? Para botar quem no lugar? Tentava-se usurpar um
mandato presidencial sem mostrar a identidade do usurpador. Os
ministros militares ganharam o apelido de Os Três Patetas.30

Durante os catorze dias de duração da crise ninguém se
apresentou publicamente como candidato à usurpação. Geisel até
acreditara na possibilidade de se eleger um novo presidente através do
Congresso, mas a manobra não prosperou, nem sequer produziu
postulantes ostensivos. Nas memórias que publicou em 1980, Denys
gastou cinco páginas narrando a crise e seis justificando-se. Nada falou
da usurpação. Nove anos depois, seu amigo Armando Falcão contou
que os ministros da Marinha e da Aeronáutica propuseram ao marechal
que assumisse a Presidência. Denys teria recusado, sugerindo o nome
do jurista Francisco Campos, redator da Constituição de 1937, um dos
liberticidas mais cultos e detestados do país.31 Buscando precedentes
históricos que amparassem a usurpação, chegou-se a procurar o texto
da proclamação que instalou o governo provisório do marechal Deodoro
da Fonseca, em 1889. O general Ernesto Geisel suspeitava que o
ministro da Guerra quisesse empalmar o poder, e inclusive discutiu
claramente essa hipótese com Orlando ainda na manhã do dia 25. Os
dois irmãos entraram na crise de 1961 com o propósito de ir à luta
armada para impedir a posse de João Goulart. Mesmo assim,
entendiam, desde a primeira hora da crise, que Denys na Presidência
da República representaria uma inconveniente anormalidade.32

Tendo prevalecido o acordo parlamentarista, coube ao
comandante militar do Planalto presidir o funeral do golpe. Geisel


articulara-se com Mazzilli na busca do novo desfecho, às vezes aos
gritos. Providenciara o avião de Tancredo e, na volta, dele recebera a
informação de que Goulart aceitava o compromisso. Nove em cada dez
cariocas ouvidos pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e
Estatística, o IBOPE, defendiam a posse do vice-presidente.33

Na madrugada de 4 de setembro, estava tudo pronto para que o
novo presidente desembarcasse em Brasília na tarde seguinte. Geisel
desmantelara uma articulação sediciosa de oficiais da FAB. Segundo o
brigadeiro Grün Moss, ministro da Aeronáutica, havia um complô —
denominado Operação Mosquito — para derrubar o avião que
transportasse Jango a Brasília. Se não o derrubassem, pelo menos o
capturariam. Noutra conspiração, mais modesta, a pista de pouso de
Brasília seria barricada com tonéis de combustível. Geisel neutralizou
as bases da FAB, alguns oficiais e sargentos foram presos, as pistas,
cercadas, e fecharam-se as estradas de acesso a Brasília.34

Numa das muitas contorções que a política impõe à vida de quem
nela se mete, o major que em 1945 levara os tanques para tirar Getulio
Vargas do palácio Guanabara, mobilizava a tropa para levar seu
herdeiro, João Goulart, ao palácio do Planalto. Geisel teve dois
comportamentos na crise de 1961. No primeiro, que se estendeu da
manhã de sexta-feira, 25 de agosto, até a terça, 29, batalhou pelo golpe
na condição de interventor militar junto ao gabinete do presidente
Mazzilli. A proposta de assalto ao aeroporto de Curitiba indica que ele
estava disposto a abrir fogo contra as tropas de Machado Lopes, assim
como seu irmão Orlando estava disposto a arrasar o palácio Piratini
para calar a Rede da Legalidade. Não estavam para brincadeira. A partir
do dia 29, quando Denys começou a negociar a conciliação
parlamentarista, Geisel batalha pela posse de Jango e acaba com a
Operação Mosquito. Não estava para brincadeira. Suas posições foram
perfeitamente antagônicas.

A derrota do golpismo foi tamanha que, com o tempo, ninguém se
dispôs a segurar o caixão da crise de 1961. Passados dezenove anos, o
general Denys varreu para debaixo do tapete de suas memórias a idéia


da "absoluta inconveniência" do retorno de Jango, em que estava
implícita a permanência dele no exterior, como exilado. Revelou que nos
dois primeiros dias da crise sua posição foi "desaconselhar" a posse,
pois "seria melhor que ele desistisse".35 O general Cordeiro de Farias,
peça-chave (e falha) na estratégia de Denys para neutralizar as tropas
gaúchas, confessou-se "a favor da posse de Jango".36 Carlos Lacerda, o
governador da Guanabara cuja PM carregara contra as passeatas da
Legalidade e cuja "meganha" engarrafara a carceragem da Polícia
Central, informou, dezesseis anos depois: "Minha decisão era a favor da

posse".37

Às 20h35 do dia 5 de setembro o Caravelle que trazia João
Goulart pousou no aeroporto de Brasília. A crise durara doze dias.
Geisel era a mais alta patente militar à espera do presidente. Entrou
com Jango, Mazzilli e Auro no carro que os levaria ao Torto. Sentado ao
lado do motorista, ouviu o presidente reclamar do remendo
parlamentarista. A certa altura, Goulart pediu a opinião do general:
"Senhor presidente, tenha certeza de que tivemos imensas dificuldades
aqui em Brasília, para Vossa Excelência assumir. E nós esperamos que
Vossa Excelência conduza o governo de modo a que se pacifique a
nação".38

Quando Jango chegou à granja do Torto, Geisel despediu-se e
voltou para casa. Seus dias de comando em Brasília estavam contados.
Regressaria ao edifício Parente.

1 Ernesto Geisel, outubro de 1994.

2 Idem.

3 Memorando secreto de Jânio Quadros ao chefe-de-gabinete da secretaria geral do
Conselho de Segurança Nacional, de 31 de julho de 1961. APGCS/HF. Para o projeto de
invasão da Guiana Francesa, ver o depoimento do então governador do Amapá,
Francisco de Moura Cavalcante, em Geneton Moraes Neto, Dossiê Brasil, pp. 71-4.

4 John W. F. Dulles, Carlos Lacerda — A vida de um lutador, vol. 1: 1914-1960, pp.
316 e 341.

5 Roberto de Abreu Sodré, No espelho do tempo, p. 97.


6 José Machado Lopes, O III Exército na crise da renúncia de Jânio Quadros, p. 34.

7 Idem, p. 98. Para os romances de fim de noite, Joel Silveira, Viagem com o
presidente eleito, p. 26, e Julio de Sá Bierrenbach, 1954-1964 — Uma década política,
pp. 113-4. Jânio Quadros tornou-se o único político brasileiro cuja conta secreta na
Suíça foi publicamente assumida por um familiar, na tentativa de localizá-la. Jornal
do Brasil, 5 de dezembro de 2002, p. A4.

8 Auro Moura Andrade, Um Congresso contra o arbítrio, pp. 40, 43 e 60. Ver também
Paulo Markun e Duda Hamilton, 1961 — Que as armas não falem, p. 115, e "À
memória de Jânio Quadros", de Jânio Quadros Neto, em O Estado de S. Paulo de 25
de agosto de 2001.

9 Diário do Congresso Nacional, ano XVI, nº 140, de 26 de agosto de 1961, p. 1818.
Em Hélio Silva, 1964 — Golpe ou contragolpe?, pp. 45-6. Ver também Vivaldo Barbosa,
A rebelião da legalidade, p. 28. Para uma reconstituição do início da crise de 1961,
"30 anos de agonia à espera do povo", Dora Kramer, em Jornal do Brasil de25 de
agosto de 1991, l° caderno, p. 4. Nessa reportagem o advogado Saulo Ramos conta que
Jânio, ao receber o resultado de uma consulta ao professor Vicente Ráo, dando-se
conta da irreversibilidade da renúncia, observou: "Entregamos o filé na boca do
buldogue". Ver também "Renúncia de Jânio, 40 anos", de Saulo Ramos, Folha de
S.Paulo, 24 de agosto de 2001.

10 Aspásia Camargo e outros, Artes da política — Diálogo com Amaral Peixoto, p. 444.
Para a referência aos militares, carta de Jânio Quadros a Heitor Ferreira, de 6 de
agosto de 1963. APGCS/HF. Ver também Roberto de Abreu Sodré, No espelho do tempo,
pp. 107-16.

11 Drault Ernanny, Meninos, eu vi... e agora posso contar, p. 54.

12 Arnaldo Lacombe, "Horta foi peça-chave na renúncia de Jânio", em O Estado de S.
Paulo de 25 de agosto de 1996.

13 Dora Kramer, "30 anos de agonia à espera do povo", em Jornal do Brasil de 25de
agosto de 1991, 1º caderno, p. 4. Para uma avaliação de Jânio, feita trinta anos depois
ao seu neto, ver Paulo Markun e Duda Hamilton, 1961 — Que as armas não falem, pp.
135-6.

14 Paulo Markun e Duda Hamilton, 1961 — Que as armas não falem, p. 259.

15 Aspásia Camargo e outros, Artes da política — Diálogo com Amaral Peixoto, p. 446.

16 Nota em papel da secretaria geral do Conselho de Segurança Nacional, sem data,
com assinatura indecifrada. APGCS/HF. Ernesto Geisel, julho de 1988.

17 Almirante Floriano Faria Lima, setembro de 1986. Faria Lima guardou consigo as
notas dessas interceptações. Geisel confirmou a existência da operação em julho de
1993. Conserva-se uma transcrição sucinta de uma conversa telefônica entre Jango e
Juscelino Kubitschek, APGCS/HF.

18 Amir Labaki, 1961 — A crise da renúncia e a solução parlamentarista, p. 82, e
Vivaldo Barbosa, A rebelião da legalidade, p. 79.

19 José Machado Lopes, O III Exército na crise da renúncia de Jânio Quadros, p. 129.

20 A primeira vez essa ordem foi transmitida por Orlando Geisel ao chefe do Estado-
Maior do III Exército, general Antonio Carlos Muricy. Depoimento de Muricy ao CPDOC,
vol. 2, fita 28, p. 16. O bombardeio de Porto Alegre seria, como se explicou depois, um
ataque ao palácio Piratini, para calar a Rede da Legalidade.

21 Hélio Silva, 1964 — Golpe ou contragolpe?, p. 138, e depoimento do general Antonio
Carlos Muricy ao CPDOC, vol. 2, fita 29, p. 8.

22 Amir Labaki, 1961 — A crise da renúncia e a solução parlamentarista, p. 90.

23 José Machado Lopes, O III Exército na crise da renúncia de Jânio Quadros, p. 132.

24 Depoimento do então tenente Oswaldo França Jr., em Geneton Moraes Neto,


Dossiê Brasil, pp. 87-92.

25 O aeroporto de Goiânia foi tomado pelo major Tasso Villar de Aquino. Trabalhavano Serviço de Proteção aos Índios e apresentou-se a Geisel pedindo uma missão. O
general mandou-o tomar o aeroporto e perguntou-lhe: "Do que o senhor precisa?". O
major respondeu: "De um automóvel para ir a Goiânia". Horas depois telefonou
informando que o aeroporto estava às ordens. Geisel contou essa história ao autor
mais de uma dezena de vezes. Era sua vinheta predileta para exemplificar um caso de
valor militar. O episódio está referido em Ernesto Geisel, organizado por Maria Celina
d'Araújo e Celso Castro, p. 138.

26 Ernesto Geisel, outubro de 1985 e de 1994.

27 Nelson Werneck Sodré, Do Estado Novo à ditadura militar, p. 248.

28 Ernesto Geisel, novembro de 1994.

29 Entrevista de Almino Affonso a Paulo Markun, em Markun e Duda Hamilton, 1961

— Que as armas não falem, pp. 254-5.
30 Ernesto Geisel, outubro de 1994.
31 Armando Falcão, Tudo a declarar, p. 214.
32 Ernesto Geisel, dezembro de 1993 e outubro de 1985.
33 Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930, coord. de Alzira Alves de Abreu e
outros, vol. 5, p. 5015.
34 Hélio Silva, O poder militar, p. 303, e Amir Labaki, 1961 — A crise da renúncia e a


solução parlamentarista, p. 126. Para a prisão de oficiais e sargentos, Ernesto Geisel,
novembro de 1994.
35 Odylio Denys, Ciclo revolucionário brasileiro, pp. 95 e 91.
36 Aspásia Camargo e Walder de Góes, Meio século de combate — Diálogo com


Cordeiro de Farias, p. 532.
37 Carlos Lacerda, Depoimento, p. 267.
38 Entrevista de Ranieri Mazzilli a Hélio Silva, em Silva, 1964 — Golpe ou


contragolpe?, p. 150. Em novembro de 1994, Geisel disse o seguinte em relação àlembrança de Mazzilli: "É mais ou menos isso".


1964


Dois anos e sete meses depois de ter deixado o presidente João Goulart
em casa, o general Geisel voltou à granja do Torto como inquilino.1 Era

O chefe do Gabinete Militar do presidente Castello Branco. Sobras
da bagagem de Jango foram remetidas mais tarde ao embaixador em
Montevidéu, para que as fizesse chegar ao dono. Ernesto Geisel estava
no poder, pronto a acertar suas contas com os "casacas".

Nos primeiros meses o governo João Goulart deixara Geisel nos
corredores do Ministério da Guerra, como "cão leproso": "O pessoal me
via e dobrava a esquina". O general ocupava o tempo estudando a Bíblia
e ajudando a mulher na cozinha. Socorreu a filha, aluna do exigente
colégio de Aplicação, num trabalho sobre o romance A peste, de Albert
Camus.2 Talvez tenha sido a sua única incursão na literatura do século

XX. Excluída a paixão juvenil por Júlio Verne, os romances, como o
futebol, nunca lhe deram prazer.
Em janeiro de 1962 foi designado para a Artilharia Divisionária da
5ª Divisão de Infantaria, em Curitiba. Comando de primeira classe.
Fazia quase meio século que estava no Exército, já fora secretário de
finanças e superintendente de refinaria, mas não conseguira passar
dois anos arregimentado num quartel. Parecia disposto a viver o
remanso de uma posição prestigiosa. Teria oito anos no serviço ativo.3
Sobreviveria a Jango e ao seu sucessor, cujo governo terminaria em
1970. Não esperava por grandes batalhas. Ia pouco ao Ministério da


Guerra. Sobreviveria atrapalhando.

Geisel desceu em Curitiba com os cadernos. Num traçava o seu
plano de trabalho e arrolava os oficiais sob seu comando. Noutro
copiava aquilo que precisava saber sobre o Paraná: "O espécime de
chifres longos, de uma raça que nunca se distinguiu pela produção de
carne foi aqui, como em São Paulo, o bandeirante do rebanho bovino".4
São minuciosos, porém banais. Noutro ainda, de 23 páginas, anotava
estudos políticos. Eles revelam o centro das atenções intelectuais do
general. Nas anotações de natureza militar há algumas ressonâncias da
crise de 1961:

A inércia é sempre a culpada. (Napoleão)

Sempre que a missão, o objetivo final, deixa de ser

nitidamente fixado, a manobra falha.

Ou somos vitoriosos ou derrotados. Não existe meio-termo

na guerra.

Em toda tomada do poder deve haver, em algum momento,

a espada. Mas a espada deve ser conduzida pela política.

(Maquiavel)

Vejo que existe um novo [...] e perigoso conceito de que os

membros de nossas forças armadas devem fidelidade

principalmente aos que exercem temporariamente a autoridade

do ramo executivo do governo, e não ao país e sua constituição,

que juraram defender. Nenhum conceito poderia ser mais

perigoso. (General Douglas McArthur)

Outras notas antecipam trovoadas futuras. Doze páginas
relacionavam-se com o comunismo. Há breves citações de Lenin ("O
caminho para Londres e Paris passa por Pequim"), mas a curiosidade do
general ia para a "guerra revolucionária", a "guerra subversiva dos
marxistas-leninistas e sua aplicação pelos comunistas e seus
imitadores". Lia autores franceses e americanos, e copiou em cinco
páginas de caderno, em inglês, trechos de uma "teoria vermelha da
guerra". Guardava frases de autores como o primeiro-ministro inglês


Clement Attlee ("As eleições comunistas são corridas de um cavalo só")
ou da panfletária francesa Suzanne Labin ("O fascismo é o castigo das
democracias que se mostram, não excessivamente severas, mas, ao
contrário, excessivamente complacentes com o comunismo").5

A divisão militar aberta em 1961 criara manifestações
extremadas. A retórica da esquerda chamou aos comandantes militares
que lhe eram simpáticos de "generais do povo" e aos seus adversários
de "gorilas". Jango costurara o apoio militar para a convocação de um
plebiscito que inevitavelmente restabeleceria o presidencialismo. Com
menos de um ano de governo, estava a caminho de nomear o terceiro
ministro da Guerra. No dia 12 de setembro de 1962, como se fora um
pontapé na porta do regime, o general Jair Dantas Ribeiro, comandante
do III Exército, telegrafara a Jango avisando que não se
responsabilizaria pela "garantia da lei e da ordem, sossego público, e
propriedade privada" se o Congresso se recusasse a convocar o
plebiscito e o povo se insurgisse contra essa decisão. Anunciara que
pusera sua tropa de prontidão e advertira: "O povo é soberano no
regime democrático. Negar-lhe o direito de pronunciar-se sobre o
sistema de governo que lhe foi imposto, é abominar o regime ou querer
destruí-lo".6 Jair disputava a simpatia do Planalto na corrida pelo
ministério. Os generais de Jango pressionavam o Congresso com a
desenvoltura dos golpistas de 1961.

O general Jair ainda não terminara o expediente do dia quando
chegou ao seu gabinete, em Porto Alegre, um telegrama de Ernesto
Geisel, comandante da Artilharia Divisionária, que estava respondendo
interinamente pela 5ª Região Militar: "Informo Vossa Excelência que
reina completa calma no território desta Região Militar. Providenciada
ordem de prontidão".7

Geisel atrapalhara, mas foi exonerado. O Correio da Manhã
defendeu-o com um editorial e uma nota intitulada "Perde comando
porque negou o falso alarma".8 O incidente se encerrou com o retorno
de Geisel ao Rio de Janeiro. Ofereceram-lhe a subdiretoria da reserva
("canil" de terceira categoria), mas conseguiu a 2ª Subchefia do


Departamento de Provisão Geral (de segunda). Seu irmão Orlando fora
mandado para a Escola Superior de Guerra (de primeira).

De volta ao Rio, Geisel era um conspirador, talvez até um perfeito
exemplo do conspirador de 1964. Comandava um telefone e participava
de pequenas reuniões, quase sempre com as mesmas pessoas.
Planejavam derrubar Jango, sem saber como. De setembro de 1962 a
janeiro de 64, sua atividade clandestina foi intensa e irrelevante.
Resumia-se a intermináveis conversas no apartamento dele, em geral às
quintas-feiras, com os generais Cordeiro de Farias, Ademar de Queiroz e
Antonio Carlos Muricy. Não tinham plano para o levante ou projeto para

o novo governo. Nem sequer data para a rebelião.9
O principal objetivo do núcleo conspirador de Cordeiro de Farias
era atrair o general Humberto Castello Branco, chefe do Estado-Maior
do Exército. Geisel já tivera pelo menos duas oportunidades de servir
com ele, mas preferira distância. Achava-o "arestoso, cheio de
complexos, cauteloso demais" e incomodava-se com seu temperamento
irônico.10 Castello juntou-se aos conspiradores no final de janeiro de
1964. No começo de março preparava-se a insurreição. Era um
planejamento primitivo, quase palpite. Dos planos de golpe urdidos no
Rio sobraram poucos documentos e vagas reminiscências. Supunha-se
que os combates pudessem durar 48 horas, trinta dias ou seis meses.
Geisel calculava que se o caso não fosse resolvido em três dias, duraria
dois meses. Entre o primeiro disparo telefônico de Mourão na
madrugada de 31 de março de 1964 e o telefonema do general Castello
Branco a um deputado amigo, informando que a fatura estava
liquidada, no início da tarde de 1º de abril, passaram-se 32 horas.11

Terminada uma briga, começava outra. Na partilha dos cargos
coube a Geisel o comando da Artilharia de Costa, um quartel de
primeira, com vista para a praia de Copacabana e fundos para o
Arpoador, comando de quinta. Recusou-o. No dia 3 de abril seu irmão
Orlando foi sumariamente demitido da 1º Divisão de Infantaria, a Vila


Militar, por ter-se negado a entregar o 1º Grupo de Obuses 105 a um
coronel enviado pelo gabinete de Costa e Silva. Esses dois incidentes,
praticamente despercebidos durante aqueles dias de festas e
sofrimento, geraram um antagonismo que além de separar os irmãos
Geisel de Costa e Silva, influenciaria o comportamento de dezenas de
oficiais e alimentaria vinditas ferozes que o tempo não extinguiu, nem
sequer a morte. Horas depois da demissão de Orlando, Ernesto teve um
bate-boca com o coronel Jayme Portella, o conspirador que atraíra
Costa e Silva para o levante e ajudara a catapultá-lo à cadeira de
ministro. Passaram-se menos de duas semanas, e Geisel teve Portella,
lotado no Conselho de Segurança Nacional, como subordinado. Botou-o
para fora.12

João Goulart fora o terceiro presidente que Geisel ajudara a
depor. Nomeado chefe do Gabinete Militar de Castello Branco, Geisel
voltava ao gabinete presidencial, onde estivera em 1945, 54 e 61. Na
sua cabeça, porém, havia uma novidade: "Em 64 veio a idéia de não se
devolver tudo de novo aos 'casacas', e eu era partidário dela".13

Nessa percepção Geisel separava-se de Castello. Se o marechal via
a intervenção militar como um interlúdio, o chefe de seu Gabinete
Militar defendia o aprofundamento da interferência, sobretudo quando
ela permitia o afastamento dos políticos.

Em 1965 a inquietação de alguns oficiais da Vila e a esperteza de
Costa e Silva produziram o AI-2, reabrindo o ciclo de punições e
suspendendo as eleições diretas. Geisel desdenhava o alcance da
revolta, condenava a candidatura do ministro, mas defendia a essência
ditatorial do novo surto militarista. A idéia de não devolver o poder aos
"casacas" podia parecer boa, mas provocava perguntas: entregá-lo a
quem? aos militares? quais militares?

Até o dia 15 de março de 1967, quando Costa e Silva entrou no
Planalto e Geisel o deixou, a opinião de Geisel sobre os "casacas"
mudara pouco, mas ele aprendera como nunca a respeito dos militares.
Tivera um breve contato com o fisiologismo do gênero quando servira no
gabinete de Denys, no final do governo do "casaca" Kubitschek. Agora,


numa presidência militar e num regime de retórica moralista, os casos
que passavam pelo palácio eram os mesmos de sempre. Costa e Silva
entregara a presidência do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos
Comerciários, IAPC, a Carlos Eduardo (Carlô) Marcondes Ferraz, o amigo
grã-fino que lhe emprestara o aparelho onde se escondera na noite de
31 de março. O chefe do Estado-Maior, Decio Palmeiro de Escobar,
batalhava a nomeação de seu genro, um piloto da falecida Panair do
Brasil, para o Conselho Nacional de Telecomunicações.14 O general
Amaury Kruel, comandante do II Exército, tinha empréstimos no Banco
do Brasil.15 Segundo a espionagem do Conselho de Segurança Nacional,

o general Justino Alves Bastos, do III Exército, parara de trabalhar e se
alistara no café-soçaite, onde fazia negócios.16 Logo ele, que vinha de
anunciar que era um militante da "linha dura" na luta pelo "extermínio
da corrupção".17 Havia de tudo, até um coronel pedindo que se editasse
um ato institucional para permitir a sua promoção a general.18
A hostilidade aos "casacas" irradiou a retórica salvacionista entre
os militares. Havia nela uma esperteza: cada nível da hierarquia
supunha-se o estágio adequado para a concentração de poderes
indispensável à redenção nacional. Costa e Silva achara que o ministro
da Guerra era, na verdade, o comandante da Revolução. Os generais-
de-exército julgavam-se senhores da conveniência da realização de
eleições. Os coronéis apresentavam-se como árbitros da posse de
governadores eleitos. E tudo acabava em capitães exigindo expurgos.
Um deles pedia a Geisel a cassação do governador do Piauí e ameaçava:
"Até quando poderei esperar?".19 De uma maneira geral, a cada
exercício de poder, sempre à custa dos direitos alheios, correspondia
uma solicitação de pequenos benefícios burocráticos.

O Alto-Comando do Exército reunia-se com uma agenda em que
antes do item "reforma constitucional" tratavam do "auxílio-moradia".
Entre os palpites dos quatro-estrelas estavam o veto à reeleição "para
qualquer cargo político" e a "obrigatoriedade da administração dos
territórios ser dirigida por militares".20 O general Antonio Carlos Muricy
queixava-se em outubro de 1965 de que os políticos "são todos vinho da


mesma pipa (não prestam)".21 Um ano depois, amparado nas baionetas,
candidatou-se ao governo de Pernambuco numa eleição indireta onde
julgava ter conseguido o apoio da pipa dos governistas. Foi derrotado.22
O adido militar em Paris, coronel Antonio Carlos de Andrada Serpa, o
Serpa Louro, atacava os "políticos apodrecidos pela corrupção e
subversão", o povo em sua "imaturidade e ignorância", e pedia que não
se entregasse o poder "à canalha que infelicita o país há mais de trinta
anos".23 Lamentava a sobrevivência de três ministros do Supremo
Tribunal Federal e sugeria a Geisel que se ampliasse a corte: "Nessa
hora, peço ao senhor não esquecer o nome do Prudente de Morais Neto
[...] ".24 Denunciava os políticos que iam a Paris conversar com o ex-
presidente Kubitschek e recomendava que obtivesse de seu primo José
Bonifácio de Andrada a lista dos deputados e senadores que haviam
embarcado para a Europa. Zezinho, como era conhecido o primo, estava
na Câmara desde 1946, como deputado pela UDN mineira.

Durante o ano de 1965 Geisel recebeu cinco cartas do general
João Costa, comandante da 6ª Região Militar, com jurisdição sobre a
Bahia. Elas são uma amostra da prosopopéia que acompanhava a
desmoralização dos "casacas".

A primeira, de março, argumentava:

A verdade, Geisel, é que independente do meu, do seu ou do
desejo do marechal Castello Branco, para os nossos
comandados, para o povo em geral aqui no Nordeste, enquanto o
marechal Castello Branco for presidente da República, a
Revolução é responsável por tudo de bom ou de mau, e o
Exército seu fiador. Tudo corre para o quartel. Até os problemas
do governador, quando está em dificuldades. A realidade é que a
omissão será a perda de comando, a entrega da situação aos
políticos que mais praticaram a corrupção. Essa é a visão da
planície.25

Na segunda, de agosto, informava que defendera o aumento do
número de cadeiras no Tribunal de Contas do Município de Salvador e


encontrara resistência no prefeito Antonio Carlos Magalhães, que
"entrou em um terreno de Revolução e Forças Armadas, ameaçando
céus e terras": "Chamei-o e disse-lhe do meu desagrado por ter
pretendido interpretar, criticar ou orientar as Forças Armadas".26

Na terceira parecia alarmado: "Com a Revolução ou sem ela os
políticos não se corrigem, apóiam-na, aderem, toleram-na. [...] Essa
Revolução extinguiu a subversão e a indisciplina geral, mas a corrupção
parece que aumentou. Examine bem o Congresso e os Estados. Só nós
militares, em tudo isso, permanecemos como cristãos nos festins
romanos. Acreditando no que não vemos...".27

Dias depois anunciava-se disposto a abrir uma crise, impedindo o
cumprimento de um mandado que devolvia a um deputado sua cadeira
na Assembléia Legislativa.28

Tomado ao pé da letra, o general João Costa soava como um
cruzado da ortodoxia e do rigor revolucionários. Tomado pelo passado,
Costa era um dos generais da confiança do ministro Jair Dantas
Ribeiro. Em 1964 comandava o núcleo dos pára-quedistas, na Vila
Militar, e aderira ao levante no início da tarde de 1º de abril. Tomado
pelo presente, na planície do general havia problemas bem mais simples
que os destinos nacionais. Em janeiro de 1966 ele voltou a escrever a
Geisel. Pediu que o designassem para a Junta Interamericana de
Defesa, em Washington, "a fim de melhor poder atender
financeiramente a recuperação" de um familiar.29 Ainda em Salvador,
depois de anos de más relações com o prefeito Antonio Carlos
Magalhães, o general desentendeu-se com ele dentro do pequeno
elevador do palácio da Aclamação. Na presença do governador Lomanto
Junior o prefeito deu-lhe um tapa que o deixou sem quepe.30

Apesar de todas as dificuldades, com uma só canetada, em 1966,

o governo Castello Branco produziu a maior reforma da estrutura
militar do país: a rotatividade dos generais. Castello liquidou aqueles
que denominava os "generais chineses", numa referência aos

condestáveis da anarquia militar que atazanou o país depois da
deposição do imperador manchu, em 1912. Pelo sistema herdado ao
remado de d. Pedro II, os generais iam para a reserva apenas quando
atingiam a idade-limite. O caso de Cordeiro de Farias era exemplar:
promovido a general-de-brigada aos 41 anos, em 1964 completara 22
anos de generalato, e vestiria o pijama somente em 1967. Tinha quatro
estrelas desde 1952.

A reforma de Castello criou um sistema pelo qual, além do limite
de idade, os generais eram levados para a reserva por duas novas
condições. A cada ano 25% do quadro devia se renovar, e ninguém
podia ser general por mais de doze anos. Disso resultava que os
generais tinham quatro anos para passar de brigada a divisão, outros
quatro para ir de divisão a exército, e tendo chegado ao topo, lá só
permaneciam por mais quatro anos. Para ilustrar a extensão da
reforma, observe-se que dos treze generais-de-exército listados no
Almanaque de 1962, oito haviam chegado ao generalato fazia mais de
doze anos. Um (Cordeiro de Farias) tinha vinte anos de generalato e dez
como quatro-estrelas.31 O efeito da mudança foi o desaparecimento dos
chamados "donos do Exército" e a redução da área de manobra das
vivandeiras políticas.

Salvo essa reforma (o que não é pouca coisa), os três anos de
Geisel no Gabinete Militar foram amargos em termos profissionais.
Tinha várias idéias, e a maior delas era a criação do Ministério da
Defesa, mas sepultou-a logo que percebeu a extensão da hostilidade da
Marinha.32 A menor era a extinção do posto de general de quatro
estrelas, de forma a ampliar as opções do presidente na escolha dos
comandantes de exércitos.33 Defendia a redução do efetivo do Exército e
condenava o esfarinha-mento das guarnições. Projetava a sua
concentração, em quatro ou cinco núcleos, nos moldes dos fortes
americanos. Nada a ver com as vilas militares existentes nas
proximidades do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Porto Alegre:

Isso foi uma coisa feita no governo do marechal Hermes da


Fonseca, quando se começou a relacionar o Exército com a
segurança interna. Fizeram-se guarnições em Deodoro,
Quitaúna e São Leopoldo. Elas têm em comum o fato de estarem
a vinte quilômetros do centro da cidade. Essa é a distância que
uma tropa pode marchar num dia. Cinqüenta anos depois essas
tropas não andam mais a pé. De carro deslocam-se a cem
quilômetros por dia. A situação é outra. Os quartéis não eram
nem são necessários.34

Perdeu todas. Em 1966, haveria de se queixar: "Nisto eu acho que
a Revolução fracassou, no Exército".35

Na Marinha não via um panorama melhor: "Temos que acabar [...]
com esse negócio de insistência em fuzileiros. A Marinha não quer mais
nada com o mar! Quer fuzileiros e aviação!".36

Muito menos na Força Aérea, da qual tentara extirpar a Diretoria
de Aeronáutica Civil. Numa discussão com um brigadeiro, argumentara:
"Então o exército vai querer controlar as ferrovias, legislar sobre as
companhias de ônibus. O problema é que a FAB acabou como força
militar". Geisel se queixava do "pessoal que só pensa em transportar
padres, freiras e sertanistas".37

Perdeu todas. O Corpo de Fuzileiros Navais continuou do mesmo
tamanho, e a DAC continuou na FAB.

A mais amarga das derrotas de Geisel foi política: Costa e Silva, o
general que desprezava, emparedou Castello e converteu-se em seu
sucessor. A campanha do Alemão contra o Português começara antes
mesmo da chegada de Jango a Montevidéu, e resultou numa sucessão
de fracassos. Costa e Silva tornara-se invencível pela audácia, quase
sempre associada à indisciplina mas, em todos os casos, produto da
coragem. Já nos primeiros dias de abril Geisel retratava-o: "Um
usurpador. Não fez nada, e mais que depressa auto-investiu-se no cargo
de Ministro".38


Disparou o primeiro tiro contra Costa e Silva ainda antes da
posse de Castello. No dia 14 de abril de 1964 Geisel procurou o
presidente Ranieri Mazzilli, a mesma figura decorativa que enfeitara o
Planalto durante a crise de 61, e pediu-lhe, em nome de Castello, que
solicitasse, e aceitasse, a demissão de todos os ministros.

— Inclusive os ministros militares? — perguntou Mazzilli.
— Sim — respondeu Geisel.39
Manobra banal: Mazzilli exoneraria Costa e Silva, e Castello
nomearia outro ministro, oferecendo ao Português a embaixada do
Brasil em Buenos Aires.40 Só funcionaria se Mazzilli tivesse coragem
para amarrar o guizo no pescoço de Costa e Silva. O simples fato de a
proposta vir de Geisel mostrava ao astuto deputado paulista que
Castello não explicitava semelhante audácia. Mazzilli não demitiu
ninguém, e Castello, empossado, manteve o ministro da Guerra no
cargo.

Um ano depois, na tarde de 18 de março de 1965, numa conversa
com Golbery, Geisel queixava-se do estilo político de Castello: "Eu
ontem estava brabo, e hoje estou também. Que é que adianta ele passar
dois anos consertando tudo se não tem solução política?".

Em seguida, arriscou:

— Vamos terminar com um Costa e Silva. [...] Tem
possibilidades.
— Ah, tem sim — respondeu Golbery. — É uma solução de
borra, mas é uma solução.41
Geisel tentou tirar Costa e Silva do Ministério da Guerra em pelo
menos três outras ocasiões. Numa, em outubro de 1965, estarrecido
com o discurso insolente do ministro e com a conduta indisciplinada da
oficialidade durante as manobras de Itapeva, em São Paulo. Foi ao
compartimento de Castello no Viscount que os levava de volta a Brasília
e lhe disse que devia demitir o general. Castello ouviu-o calado.42

No dia 6 de janeiro de 1966, no aeroporto do Galeão, a caminho


do avião que o levaria à Europa, Costa e Silva disse a frase em torno da
qual giraria o noticiário político das semanas seguintes: "Saio ministro e
volto ministro". Parecia uma resposta insolente aos boatos de que
Castello o demitiria enquanto ele estivesse viajando. Na verdade, foi
uma resposta educada a uma pergunta provocadora: "O senhor vai
ministro e volta presidente?".43 Prevaleceu o mito da insolência. Geisel,
pelo menos, pensava em aproveitar a viagem para degolá-lo: "Eu não o
exonerava na Europa, mas no dia em que chegasse eu o chamava e
olha, se você quer ser candidato [...] então tem que sair hoje".44 Até
tratou do assunto numa de suas reuniões com os três ministros
militares, argumentando que a saída de Costa e Silva era "a única
solução moral", mas bateu na resistência do ministro interino do
Exército e na ambigüidade do brigadeiro Eduardo Gomes.45

A terceira tentativa pretendia criar uma situação em que todos os
ministros que fossem candidatos a governos estaduais se demitissem.
Como Costa e Silva também era candidato, deveria pedir dispensa, e
Castello se livraria dele. A manobra falhou porque os outros ministros
não aceitaram correr o risco.

Cinco anos antes, como chefe da seção de informações do
gabinete do ministro Denys, o coronel Geisel fora um fiscal severo do
envolvimento de oficiais na campanha do general Lott. Um simples
telegrama de um coronel a um sargento, comunicando através do
sistema de rádio da 2ª Região Militar a chegada da filha de Lott à
Paraíba, acabou num inquérito que envolveu três generais.46 No tempo
dos "casacas" Lott fora muito mais escrupuloso e disciplinado que
Costa e Silva. A presença de oficiais do Exército nos corredores do
Congresso cabalando apoios para o ministro resultou numa reclamação
de Castello a Costa e Silva, e apesar de o presidente ter listado os
nomes de cinco tenentes-coronéis, um major e um capitão, a quem
chamava de "grupinho de militares bestinhas" o episódio foi digerido
sem nenhum procedimento disciplinar.47

Os argumentos do chefe do Gabinete Militar contra o candidato
eram todos profissionais: "O mal é o ministro da Guerra querer ser


presidente. Ele passa a agir dentro do ministério em função da sua
candidatura", ou "O exército não pode ser partido político, comigo ele
ficava ao sol e ao sereno".48 Chamado de "alma danada" no gabinete de
Costa e Silva, Geisel transformou-se num provocador. Encontrava-se
com os colegas que haviam aderido ao candidato e mandava recados:
"Olha, Muricy, quando falarem a você que o gabinete militar, isso e
aquilo, diga que além de servir ao presidente ele é contra a politização
do exército, contra o carreirismo, contra a formação de falsos líderes".49
Derrotado, teve pena de Castello: "O outro vai mijar em cima dele".50

Costa e Silva ainda estava na Europa quando Geisel e Golbery
concluíram que deveriam deixar o governo se Castello decidisse apoiá-
lo. Na manhã de 17 de fevereiro de 1966 o ministro da Guerra
desembarcou no aeroporto do Rio de Janeiro. Surpreendeu-se ao ver
Geisel na pista. "Ué, tu também por aqui, Ernesto?" perguntou-lhe.51 O
chefe do Gabinete Militar respondeu que estava representando Castello.
De volta a Brasília, recebeu dois relatórios da cena que presenciara. Um
mencionava que eram Seiscentos os oficiais reunidos no aeroporto.
"Cerca de 40 a 60 generais, 200 oficiais superiores, 100 subalternos,
mil pessoas", anotou Geisel.

O segundo relatório terminava com o item "Faixas Apresentadas".
Uma delas dizia: "Linha dura é a linha certa".

O general lembrava-se de outra: "Manda brasa, Seu Artur".52

Um ano depois, quando faltava menos de um mês para a posse de
Costa e Silva, Geisel deixaria o seu lamento: "Este governo, que é o
governo mais forte que já houve, entregou tudo. Eu já vi cinco se
perderem, 1930, 1945, 1954, 1961 e este".53

1 A deposição de João Goulart está contada em A ditadura envergonhada (São Paulo:
Companhia das Letras, 2002).

2 Ernesto Geisel, novembro de 1994, e Amália Lucy Geisel, julho de 1991.

3 Os generais-de-brigada iam para a reserva somente quando atingiam a idade-limite
de 62 anos. No caso de Geisel, isso ocorreria em agosto de 1970.


4 Caderno intitulado Apontamentos sobre o Paraná. APGCS/HF.

5 Maço de 23 folhas manuscritas de Geisel, APGCS/HF.

6 Radiotelegrama 2394, Urgentíssimo, do general Jair Dantas Ribeiro, comandante do
III Exército ao comando da Artilharia Divisionária da 5ª Divisão de Infantaria.
7 Rádio 378-E2 do general Ernesto Geisel ao general Jair Dantas Ribeiro, de 12 de


setembro de 1962. APGCS/HF.
8 Correio da Manhã, datado a mão por Geisel como 23 de setembro de 1962. APGCS/HF.
9 Ernesto Geisel, novembro de 1994.
10 Diário de Heitor Ferreira, 1° de novembro de 1965 e 14 de março de 1967.
11 Para o início dos telefonemas, cinco horas de 31 de março, Olympio Mourão Filho,


Memórias, p. 372, Para o telefonema da vitória, dado às treze horas de 1º de abril, Luiz
Viana Filho, O governo Castello Branco, p. 27.
12 Jayme Portella de Mello, A Revolução e o governo Costa e Silva, pp. 156-7 e 209.


13 Ernesto Geisel, julho de 1985.
14 Carta do general Decio Palmeiro de Escobar a Ernesto Geisel, de 30 de maio de
1966. APGCS/HF.


15 Ernesto Geisel, agosto de 1988, e Rubens Resstel, setembro de 1988.
16 Informe nº 24 da secretaria geral do Conselho de Segurança Nacional, de 4 de
junho de 1965, APGCS/HF.


17 Correio da Manhã, 19 de maio de 1964, capa do 1º caderno.


18 Carta do coronel Lauro Alves Pinto ao ministro Costa e Silva, de 8 de outubro de
1964. APGCS/HF. Pedia que o ato reduzisse à metade o tempo de arregimentação exigido
aos oficiais. O coronel chegou a general, sem que fosse necessário um ato
institucional.

19 Carta do capitão Clidenor de Moura Lima ao general Ernesto Geisel, de 21 de julho
de 1966. APGCS/HF.

20 Resumo da ata da 22ª reunião do Alto-Comando do Exército, realizada em 5 de
outubro de 1966. APGCS/HF.

21 Carta do general Antonio Carlos Muricy, comandante da 7-Região Militar, sediada
no Recife, ao general Ernesto Geisel, de 4 de outubro de 1965. APGCS/HF.

22 Em agosto de 1988 o general Muricy disse: "Caí na besteira de acreditar que teria o
apoio dos políticos do governo" e classificou a sua candidatura de "episódio infeliz".
Segundo o deputado pernambucano Joaquim Coutinho, essa eleição teve o seu sigilo
fraudado. Os votos ao candidato vencedor, deputado e bacharel Nilo de Souza Coelho,
eram dados em cédulas onde, através da manipulação dos títulos e dos sobrenomes
do candidato, cada eleitor estava individualizado. Por exemplo: um deputado devia
votar em "Nilo Coelho", outro em "Nilo de Souza Coelho", e um terceiro no "Bacharel
Nilo Coelho".

23 Carta do coronel Antonio Carlos de Andrada Serpa ao general Ernesto Geisel, de 5
de outubro de 1965. APGCS/HF.

24 Carta do coronel Antonio Carlos de Andrada Serpa ao general Ernesto Geisel, de
1965. APGCS/HF.

25 Carta do general João Costa ao general Ernesto Geisel, de 20 de março de 1965.

APGCS/HF.

26 Carta do general João Costa ao general Ernesto Geisel, de 16 de agosto de 1965.

APGCS/HF.

27 Carta do general João Costa ao general Ernesto Geisel, de 2 de outubro de 1965.


APGCS/HF.

28 Telegrama do general João Costa ao gabinete do ministro da Guerra e ofício do
general Clovis Bandeira Brasil, chefe-de-gabinete do ministro, ao general Ernesto
Geisel, remetendo-lhe a comunicação, de 5 de outubro de 1965. APGCS/HF.

29 Carta do general João Costa ao general Ernesto Geisel, de 1-de janeiro de 1966.

APGCS/HF.

30 Antonio Carlos Magalhães, 1972. O episódio ocorreu em setembro de 1965 e está
narrado em Magalhães, Política é paixão, p. 61.


31 Almanaque do pessoal militar do Exército, de 1962, pp. 20-2.
32 Manuscrito do general Ernesto Geisel intitulado Reorganização Administrativa das
Forças Armadas, sem data, talvez de janeiro de 1966. APGCS/HF. Para a desistência,
diante da hostilidade da Marinha, Ernesto Geisel, dezembro de 1994.


33 Diário de Heitor Ferreira, 4 de janeiro de 1966.
34 Ernesto Geisel, dezembro de 1994.
35 Diário de Heitor Ferreira, 3 de maio de 1966. Ernesto Geisel, dezembro de 1994.
36 Diário de Heitor Ferreira, 1 de maio de 1965.
37 Idem, 8 de fevereiro de 1967.
38 Carlos Luiz Guedes, Tinha que ser Minas, p. 259.
39 Armando Falcão, Tudo a declarar, p. 262.
40 Para o oferecimento da embaixada, Ernesto Geisel, dezembro de 1994.
41 Diário de Heitor Ferreira, 18 de março de 1965.
42 Para o silêncio de Castello, Ernesto Geisel, julho de 1985.
43 Waldomiro Guarnieri, janeiro de 1966. Guarnieri, um veterano repórter do


aeroporto, informou que foi o autor da pergunta. Ele tinha uma agência de notícias
que cobria embarques e desembarques de gente famosa. Era um hábil manipulador da
ansiedade dos viajantes. Em suas memórias, Juracy Magalhães conta o mesmo
episódio, atribuindo a pergunta ao repórter Paulo Cesar Ferreira, da TV Rio. Em
Magalhães e J. A. Gueiros, O último tenente, p. 338. Paulo Cesar Ferreira conta o
episódio em Pilares via satélite — Da rádio Nacional à Rede Globo, p. 132.


44 Diário de Heitor Ferreira, 10 de janeiro de 1966.
45 Idem, 30 de janeiro de 1966.
46 Ofício do general Orlando Geisel, chefe-de-gabinete do ministro Odylio Denys, de


18 de abril de 1960, mandando apurar a transmissão do telegrama. APGCS/HF.
47 Duas folhas com memorando de Castello a Costa e Silva, de 9 de fevereiro de 1966.
APGCS/HF. O episódio está narrado também em Jayme Portella de Mello, A Revolução e o


governo Costa e Silva, p. 328. Castello referiu-se ao "grupinho de militares bestinhas"
numa conversa com o deputado Armando Falcão. Falcão, Tudo a declarar, p. 302.
48 Diário de Heitor Ferreira, 3 e 31 de dezembro de 1965.
49 Idem, 13 de março de 1966.
50 Idem, 12 de abril de 1966.
51 Nota do chefe do SNI a Geisel, de 17 de fevereiro de 1966, com um recorte de jornal


onde está transcrita a observação de Costa e Silva. APGCS/HF.

52 Três folhas de bloco do Gabinete Militar anotadas por Geisel, APGCS/HF.
53 Diário de Heitor Ferreira, 23 de fevereiro de 1967.


O pijama togado


Decidido a pedir transferência para a reserva depois da vitória de Costa
e Silva, Geisel mudou de idéia diante da possibilidade de ser promovido
a general-de-exército.1 Foi mandado para o Superior Tribunal Militar.
Na rotina dos assentamentos, era o fim da linha. No dia 3 de agosto de
1978 completaria setenta anos e deixaria o tribunal.2 Quando morresse,
bastava anotar a data e fechar a pasta.

Sua promoção à quarta estrela foi constrangedora. Geisel passou
de general-de-brigada a general-de-exército em cinco anos e oito meses.
Ninguém conseguira coisa parecida. As duas promoções demoravam
cerca de dez anos. Depois das reformas de Castello demorariam mais de
seis e, em alguns casos, perto de oito. Essa foi a anomalia que o
beneficiou. Havia outra, também inédita, porém malvada: em nenhum
momento o general-de-exército Ernesto Geisel ocupou cargo no quadro
de quatro-estrelas. Supondo que seria mandado ao "canil" pelo governo
Costa e Silva e amenizando as ciumeiras da supersônica promoção, foi
direto para o Superior Tribunal Militar.3 Nunca um quatro-estrelas
recém-promovido fora mandado para o STM, e jamais isso voltaria a
suceder. Desde a edição do AI-2 o tribunal ganhara importância como
última instância para o julgamento de crimes políticos. Situado na
praça da República, ficava entre a Faculdade Nacional de Direito e o
Ministério do Exército. Lá, obedecendo ao protocolo da corte, o
ministro-general ia às sessões vestindo o uniforme de gala, equivalente


às casacas dos paisanos. No topo da carreira, o tenente de 1930
tornara-se magistrado de uma ordem ditatorial. Tinha sessenta anos,
aparentava mais. Como fósforo riscado, viveria para a família.

Na planície do general estava uma vida modesta, de pequenas
economias, onde os poucos luxos do apartamento indicavam fugazes
momentos de prosperidade. Os pirex da cozinha eram resultado de uma
passagem por Nova York, em 1945; a sala de jantar de mogno, o
faqueiro e as porcelanas, lembrança dos dólares economizados em
Montevidéu; a televisão, eco da passagem do irmão Orlando por
Washington, como adjunto ao adido militar. Amália Lucy, a filha do
casal, estudava história na Pontifícia Universidade Católica, disposta a
seguir o caminho da tia professora. A família podia dividir seu tempo
entre o Leblon e as férias na casa dos parentes, em Estrela. Lá Geisel
ainda era o "marido da Lucy Markus".

Enquanto a maioria dos generais que chegavam ao STM
transformava a cadeira numa espécie de tribuna para pronunciamentos
políticos, ele foi um ministro calado, arredio. Ia de casa para o tribunal
e do tribunal para casa. Seu exercício de sociabilidade continuava a ser
a longa caminhada pela praia do Leblon. No tribunal, mantinha um de
seus cadernos escolares para anotar conceitos de juristas famosos.
Copiou trechos de decisões do Supremo Tribunal Federal: "Desconhece
a nossa lei penal os delitos de opinião", ou "Ser comunista não constitui
crime". Depois, em algumas folhas soltas, acrescentou novas notas, a
maioria das quais com argumentos contra a concessão de habeas
corpus.4

Resumindo a permanência de Geisel no tribunal, seu colega João
Mendes definiu-o como "juiz corajoso, [que] não se preocupava em
agradar, com seus votos, ao que se costuma chamar opinião pública".5

Geisel foi um juiz duro e confessadamente parcial: "Houve casos
em que eu condenei, tal era a minha convicção, apesar da deficiência de
provas do processo".6 Relatou cinco pedidos de habeas corpus


relacionados com processos políticos. Negou quatro.7 Nos raros casos
em que se formaram maiorias legalistas, como em julho de 1968,
quando o tribunal classificou como ineptas as denúncias imprecisas e
inconclusivas, Geisel votava com a minoria. Dois meses depois, os
ministros mudaram de idéia, e ele se tornou maioria.8 Sua trajetória
está melhor demarcada pelos votos em que foi vencido. Em 1968 Geisel
negou ao ex-governador de Sergipe, Seixas Dória, o direito de ser
julgado pelo STM — e não numa auditoria — por supostos crimes
cometidos em 63, quando a Justiça Militar nem sequer tinha jurisdição
em matéria política.9

Implacável com os réus políticos, era generoso no julgamento dos
crimes militares. Relatou sete processos de desertores e insubmissos.
Reduziu a pena de dois, absolveu um, anulou o julgamento de outro e
mandou libertar um médico preso arbitrariamente pela Marinha.10
Duas derrotas magoaram-no. Numa o tribunal absolveu um capitão-
aviador pedófilo. Noutra deixou passar uma roubalheira de
mantimentos da Marinha que amparava a fartura das mesas de alguns
almirantes.11

Sua nêmesis no STM era o general Pery Constant Bevilaqua, um legalista
imprevisível e destemido. Peça vital do dispositivo que assegurara
a posse de João Goulart era 1961, dois anos depois chamara os dirigentes
do CGT de "malfeitores sindicais". Deposto o governo, combateu a
instauração de processos contra Jango e seus ministros. Crítico da
expansão da influência militar e da abertura da economia aos capitais
estrangeiros, foi remetido da chefia do Estado-Maior das Forças
Armadas ao STM. Lá, condenou os inquéritos policial-militares por meio
dos quais a nova ordem julgava os adversários políticos do antigo
regime. Negou competência aos militares para julgar civis e defendeu a
anistia.12

Os dois generais estranharam-se durante o julgamento do habeas
cor-pus de um livreiro. Pery aparteou o voto de Geisel, e ele o advertiu
de que não admitia ser interrompido.


— Vossa excelência é um mal-educado e não precisa levantar a
voz — rebateu Pery.
— Educação, tenho demais.
— Então você tem que demonstrar — arrematou Pery,
pondo-se de pé.13
Pery Bevilaqua foi malvadamente posto para fora do STM com base
no AI-5, poucos meses antes de completar setenta anos, quando seria
aposentado pelo calendário. A ditadura acreditou que se livrara dele,
mas na verdade foi Pery quem se livrou dela. Anos depois, tornou-se um
dos líderes da campanha pela anistia. Graças a ele, o Exército brasileiro
pode dizer que um de seus generais teve a coragem de falar em anistia
na época em que a palavra parecia ser um estigma.

Geisel rompeu o seu silêncio político em outubro de 1967, quando
uma comissão de parlamentares visitou presos em Juiz de Fora e achou
onze vítimas de torturas. Em todos os casos os criminosos eram
militares agindo dentro de quartéis do Exército. Um dos integrantes da
comissão era o deputado Marcio Moreira Alves, cuja luta contra a
tortura já entrava em seu terceiro ano. Ele remexera na história de
setembro de 1964 e criticara a conduta de Geisel durante sua missão
ao Nordeste: "Este general honrado mancomunou-se com um bando de
sádicos".14

O general respondeu na sessão do STM de 30 de outubro.
Recapitulou os acontecimentos de 1964 e fechou sua "Explicação
Pessoal" citando longamente uma nota do general Lyra Tavares que
culpava a "técnica de ação comunista no campo psicológico" pela
divulgação de "falsidades e lendas". Tudo coisa "dos teóricos da guerra
revolucionária [que] pretendem explorar a credulidade pública
atribuindo a elementos das forças armadas arbitrariedades e abusos de
autoridade incompatíveis com a dignidade da função militar e do
sentimento humano".15

Esse raciocínio repetia a idéia de que a questão da tortura era
uma campanha esquerdista. Como o governo sustentava que não havia


tortura, quem dissesse o contrário era um esquerdista interessado em
desonrar as Forças Armadas. A formulação de Lyra Tavares, feita em
1964, quando comandava o IV Exército, não prosperara junto à retórica
do governo Castello. O próprio Geisel, ao longo do episódio da missão ao
Nordeste, jamais atacara as denúncias. Passados três anos, não foi Lyra
quem mudou de conduta, mas Geisel. Em 1967, como em 64, ele foi
parte da solução do problema dos torturadores, não do das vítimas.

Geisel fazia restrições à ditadura de Costa e Silva por Costa e
Silva, não pela ditadura. Mesmo em 1965, quando antevira a ida da
democracia para a "geladeira", condenara "os levantes", "a necessidade
de corromper" e outras conseqüências anárquicas do regime ditatorial,
mas não a sua base.16 Criticava a folhagem, não a árvore. Continuava
duvidando da conveniência do sufrágio universal para a escolha dos
governantes e da necessidade de um parlamento com poderes
legislativos. "A liberdade que se precisa para viver, essa existe. Não há
liberdade é para a bagunça, a baderna, a ação contra o governo",
repetiria com freqüência.17

No decorrer de 1968 o general sofreu cólicas abdominais.
Perseguido por uma hipersensibilidade genérica à dor, fazia exames,
tirava radiografias, e nada se descobria. Na noite de 10 de maio de
1969, durante uma dolorosa cólica, foi metido às pressas numa
ambulância e levado para o Hospital Central do Exército, com uma
pancreatite aguda. Seu médico, o coronel Americo Mourão, temia que
morresse. O professor Figueiredo Mendes, especialista chamado a vê-lo
no dia seguinte, também temeu pela sua vida. Esperou 24 horas para
tranqüilizar a família.18 Geisel ficou no hospital até julho, quando lhe
tiraram a vesícula. Foi uma operação de manual, conduzida por um
major-médico. Como o paciente era um general de quatro estrelas, o
diretor do HCE incluiu-se na equipe e resolveu dar um palpite.
Determinou que se fizesse uma transfusão. Nada adiantou o argumento
do major de que a cirurgia estava no fim e não houvera perda


significativa de sangue. Geisel relembrou o resultado da sugestão: "Tive
alta e fui para casa, dois ou três dias depois comecei a ter febre. Depois
fui ficando amarelo. Finalmente, fiquei esverdeado. Era hepatite".19
Golbery chegou a admitir que "o Alemão quase dobra o cabo da boa (ou
má) esperança".20 Aplicaram-lhe algumas injeções de cortisona que
redundaram em simples paliativo mas, acelerando o raciocínio e
alterando a percepção do general, ofereceram-lhe uma amostra do
"barato" em que entrara boa parte do mundo.21 Enquanto ele estava na
cama, realizou-se o festival de Woodstock, nos Estados Unidos, e
estreou a peça Hair em São Paulo. Num, diante de 400 mil jovens que
dormiram ao relento, Jimi Hendrix tirou da guitarra elétrica sua
monumental variação do hino nacional americano. No teatro Aquarius,
pelada e despercebida, Sônia Braga era apresentada aos brasileiros. A
recuperação de Ernesto Geisel demoraria seis meses. Logo aqueles seis
meses da segunda metade de 1969.

Durante a crise da busca de um sucessor para Costa e Silva,
abatido por uma isquemia cerebral, o marechal Ademar de Queiroz
chegou a sugerir o nome de Geisel numa reunião de velhos castelistas.
Foi cortado pelo general Antonio Luiz de Barros Nunes, o Cacau: "Ô
Ademar, eles não vão topar. Nosso pessoal não vai topar. Ele está no
tribunal, ficam espalhando que está com câncer. Negativo: não vão
aceitar o Ernesto".22 Pelo menos um coronel do círculo de relações de
Geisel dizia que ele tinha um câncer, e seu aspecto macerado fortaleceu
essa impressão mesmo entre alguns amigos.

Como acontecia com freqüência quando se tratava de sentir o
pulso do "nosso pessoal", Cacau estava certo. Ninguém o conhecia por
Antonio Luiz, nem parecia general. Solteirão, boêmio, loquaz e
irreverente, era o típico carioca de Vila Isabel. Dava-se com generais
cassados e cassadores, tinha amigos no DOPS, no Partido Comunista e
na embaixada americana.23 Resolvia qualquer problema, fosse para
procurar um preso na Vila Militar ou para conseguir um lugar na
tribuna de honra do Maracanã. Abria qualquer porta, tanto no SNI como
na noite do Rio, onde era bom amigo do colunista Ibrahim Sued.


Gostava de dizer que tinha muita vontade de ir ao próprio velório, pois
haveria de ser uma grande festa. Num grupo de militares relativamente
reclusos, Cacau era o melhor informado e o mais estimado.

Ainda acamado, Geisel recebeu a visita de seu irmão Orlando com

o convite do novo presidente para que dirigisse a Petrobrás. Havia nele
uma lisonja oculta: em 1967 Costa e Silva chamara Emilio Medici para
a função, o general refugara o convite, argumentando que não tinha
preparo suficiente, e sugerira que chamasse Geisel. A idéia prosperou
por alguns dias, até ser atropelada por um arranjo de interesses
estaduais. No dia 6 de novembro de 1969, chegou a Geisel um telex do
chefe do Gabinete Civil informando-o de que Medici acabara de nomeá-
lo para a presidência da Petrobrás. Seu médico só admitiu que fosse
para a Petrobrás sob o compromisso de seguir uma dieta, além de
obrigar-se a meia hora de sono depois do almoço.24
A posse de Geisel na Petrobrás foi cerimônia corriqueira, com um
discurso insosso e uma poderosa presença na fila de cumprimentos:
Orlando, ministro do Exército, fardado. Um comandava a tropa, outro
assumia a presidência da maior empresa do país. Cacau, que dois
meses antes prognosticara a baixa, disse ao seu amigo Ernesto: "Você
se prepare para ser presidente da república". "Ele esbravejou",
rememoraria Cacau, "e eu repeti: 'Prepare-se para ser presidente'."25

1 Para as discussões em torno da ida de Geisel para a reserva, Diário de Heitor
Ferreira, 26 de janeiro, 14 de maio e 6 de julho de 1966.

2 Entendendo-se que Geisel manteria a idade adulterada. Caso contrário, completaria
setenta anos em 3 de agosto de 1977.

3 Ao ser promovido, Geisel passou à frente de três generais mais antigos: Carlos Luiz
Guedes, Alfredo Souto Malan e Syseno Sarmento. Mandado direto ao STM, não
ocupou vaga no quadro de generais-de-exército. Não atrapalhou a vida de ninguém,
exceto a de algum quatro-estrelas que cobiçasse a cadeira do tribunal...

4 Caderno de anotações de Geisel no STM. APGCS/HF.

5 Discurso do ministro João Mendes, na despedida de Geisel do STM, em 10 de
dezembro de 1969. APGCS/HF.

6 Reunião do Alto-Comando das Forças Armadas, de 20 de janeiro de 1975. APGCS/HF.


7 Geisel relatou e negou os pedidos de habeas corpus de réus de processos políticos
de números 29 388, 29 396 (ambos no Diário Oficial de 21 de janeiro de 1970, pp.
29-30) e 29 421 (Diário Oficial de 4 de fevereiro de 1970). Relatou e negou também a
Representação nº 826, relacionada com o pedido de habeas corpus de um preso (Diário
Oficial de 12 de agosto de 1970). Concedeu parcialmente o de nº 29 317, do estado do
Paraná (Diário Oficial de 31 de dezembro de 1969). Tratava-se de um lavrador
condenado a quatro anos de prisão por atividades subversivas. Tendo cumprido três
anos e um mês, solicitava ao STM que mandasse destravar seu pedido de liberdade
condicional retido no Cartório da Auditoria e que o soltasse. O tribunal seguiu o voto
de Geisel, determinando o destravamento da papelada e deixando a libertação do
preso a critério do auditor.

8 Habeas Corpus nº 29 439, relatado pelo ministro Eraldo Gueiros: "A errada ou
defeituosa capitulação não torna [a denúncia] inepta, sobretudo quando, recebida,
prosperou, permitindo ao acusado defender-se da instrução". Diário Oficial de 4 de
fevereiro de 1970, p. 54. Um dos habeas corpus negado por Geisel, acompanhando a
maioria, foi o de número 29 801, pedido pelos líderes estudantis José Dirceu de
Oliveira e Silva e Luiz Travassos. Separata do Diário Oficial do estado da Guanabara,
parte III, Poder Judiciário, quarta-feira, 11 de março de 1970, p. 118,

9 Conflito de Jurisdição nº 156, Pernambuco, sessão de 9 de junho de 1968, no Diário
Oficial de 19 de novembro de 1969, apenso ao nº 221, parte III, p. 362.

10 O insubmisso da Apelação nº 36 545 (Diário Oficial de 6 de agosto de 1969) foi
absolvido. O do Habeas Corpus nº 29 406 (Diário Oficial de 28 de janeiro de 1970) foi
libertado. O da Apelação nº 36 558 (Diário Oficial de 13 de agosto de 1969) teve a
sentença anulada e foi mandado a novo julgamento. Dois desertores tiveram suas
penas reduzidas: Apelação nº 36 837 (Diário Oficial de 5 de novembro de 1969, p. 284)
de nove para seis meses, e Apelação nº 36 874 (Diário Oficial de 12 de novembro de
1969, p. 321). Mantiveram-se as penas na Apelação nº 36 942 (Diário Oficial de 19 de
novembro de 1969, p. 360) e no Habeas Corpus nº 29 817 (Diário Oficial de 18 de
março de 1970, p. 119).

11 Ernesto Geisel, outubro de 1994.

12 Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930, coord. de Alzira Alves de Abreu e
outros, vol. l,p. 657.

13 Correio da Manhã, 31 de outubro de 1967, 1º caderno, p. 9.

14 Correio da Manhã, 15 de outubro de 1967, capa do 1º caderno.

15 Jornal do Brasil, 31 de outubro de 1967, p. 16.

16 Para a crítica, Diário de Heitor Ferreira, 15 de agosto de 1965.

17 Diário de Heitor Ferreira, 26 de março de 1972.

18 Amália Lucy Geisel, julho de 1991.

19 Ernesto Geisel, julho de 1988 e outubro de 1994.

20 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 29 de julho de 1969. APGCS/HF.

21 Para os efeitos da cortisona, Ernesto Geisel, 1976.

22 Diário de Heitor Ferreira, 31 de dezembro de 1971.

23 Entre os amigos de Cacau estava, por exemplo, o general Nelson Werneck Sodré.
Ernesto Geisel, outubro de 1994.

24 Amália Lucy Geisel, julho de 1991.

25 Diário de Heitor Ferreira, 31 de dezembro de 1971.


GOLBERY, O FEITICEIRO



Criptocomunista


Quando garoto, Golbery do Couto e Silva presenciara diversas
experiências na sala da casa de seu pai, na cidade de Rio Grande, o
maior porto de mar entre Santos e Buenos Aires. Jacintho do Couto e
Silva Junior herdara razoável fortuna, tinha bigodes pontudos, bons
cavalos, mulheres e vinhos. Galã de grupo de teatro amador, reunia
amigos em casa para reproduzir as experiências do físico inglês William
Crookes, da Sociedade para a Pesquisa Psíquica. Era comum que
fizessem transportes, mas, apesar das tentativas, nunca conseguiram
uma levitação.1

O general completara sessenta anos em 1971. Era o principal
conselheiro político de Geisel. Quem o visse em 1967 seria capaz de
julgar mais fácil o exercício de levitação de Jacintho do que a
ressurreição política de seu filho. Do SNI Golbery passara ao Tribunal de
Contas e dele escapara em 1968. Tornara-se presidente da Dow
Química, braço brasileiro da multinacional americana. Ganhava cerca
de 10 mil dólares mensais. Nunca vira tanto dinheiro na vida.2 Seu
escritório, na avenida Rio Branco, ficava a dez minutos da sede da
Petrobrás. Tivera três anos de notoriedade no governo Castello, mas
poucas eram as pessoas que o reconheciam na rua. Pouco falava de si,
muito menos do pai ou da família. Raramente saía de casa e quase
nunca ia à casa dos outros. Tinha algo de misterioso, mas também
gostava de se mostrar enigmático. Brincava com suas crises de


labirintite: "Labirinto é a minha especialidade".3 Depois de quase meio
século de convivência, cumplicidade e admiração, Geisel confessaria a
um amigo: "Eu sempre fico com a impressão de que o Golbery não me
contou tudo".4

Golbery dificilmente saía de casa porque sua mulher, Esmeralda,
sofria alucinantes crises psicóticas. Mesmo nos períodos de
normalidade — cercada por amas, pais-de-santo e bichos — dava-se a
constrangedores acessos de irascibilidade, nos quais tratava o marido
com dureza. Nos 52 anos que viveu nesse casamento Golbery jamais
menosprezou a mulher. Não se queixava dela, assim como não a
contrariava diante de estranhos. Evitava deixá-la sozinha, tratava-a
com carinho, referia-se a ela como "a madame". Gostava de contar
casos em que a intuição e a lealdade de Esmeralda a levaram a prever (e
acertar) combinações políticas que ele supunha impossíveis. Quando
necessário, mencionava que sua mulher tinha "um problema
psiquiátrico".

Leitor obsessivo, formara uma biblioteca de 10 mil volumes,
entulhando sua casa em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de
Janeiro. Reproduções de quadros dos mestres europeus ocupavam as
paredes que escaparam às estantes. Seus prazeres d'alma eram a
leitura e a conversa. Não ia ao cinema e amealhara cultura teatral lendo
peças. Era um erudito marcado pelo autodidatismo. Conhecia de
memória a estrutura pictórica da Transfiguração, de Rafael, mas
encantava-se com a figura de um menino em êxtase que, além de
espalhafatosa, nem de Rafael é.5 Faltava-lhe o apuro do gosto. Vestia-se
descuidadamente e não se interessava por comida. Não era comum que
bebesse, mas bebia mal, tanto por ser capaz de servir-se de uísque às
dez da manhã, como por enrolar a voz na quinta dose.

Adorava excessos: cristais venezianos com formas de passarinhos,
porcelana francesa com cenas campestres ou o poema "Se", de Rudyard
Kipling. Não se pode chamá-lo de barroco, era exagerado mesmo.
Escrevendo, era capaz de cometer uma frase de 24 linhas, com 268
palavras escoradas em dezessete vírgulas.6 Num exemplo pouco


complicado: "É a alma faustiana do homem moderno que reponta, com
todas as suas in-quietudes, no claro-escuro de um Rembrandt, o poeta
supremo da luz, como se afirma ademais na trágica ironia irreverente e
acusadora de um Daumier ou de um Goya, para culminar na
desordenada exuberância do colorido estonteante e semilouco de um
van Gogh".7

Tudo isso atrás daquela figura discreta, quase sempre metida em
ternos cinza, com óculos de aro fino, cabelo cortado rente. Seus hábitos
vocabulares eram comuns. Traía no sotaque a idade e a origem gaúcha.
Dizia "cousas" em vez de "coisas". Qualquer semelhança com seu mito
misantrópico era mera coincidência. Havia algo estudado em sua
lendária frieza. Escondia uma propensão romântica. Tinha ódios
incontornáveis, como o que devotou a Carlos Lacerda depois de 1966
("Não falo com esse sujeito, nunca"), e amizades irredutíveis. Em nome
da que o uniu a Heitor Ferreira, ameaçou morrer afastado de Geisel.8
Esse personagem que foi ao mesmo tempo ícone e patuá para a
ditadura militar, tinha um traço curioso, atrevido, quase moleque. "Eu
não estou ligado a nada, nunca. É uma característica minha, não sei
dizer se é virtude ou defeito."9

Caso clássico de arruinado. Desde a metade do século XIX, o
nome dos Couto e Silva associara-se à boa qualidade das peças de prata
para arreios vendidas em Rio Grande. Ao trabalho do português
Manuel, seguiu-se o de Jacintho, o mais velho de seus oito (ou nove)
filhos.10 De acordo com o hábito dos comerciantes lusitanos, a família
concentrou seu patrimônio em imóveis, todos na cidade, muitos na rua
em que vivia. Jacintho Junior não gostava de trabalhar, nem como
prateiro nem como senhorio. Com a ampliação do porto, expandiram-se
todos os comércios da cidade, e a rua República do Líbano, onde estava
sua casa, foi engolida pela "zona".11 Mudaram os locatários, caíram os
aluguéis, e de nada serviu algumas famílias — inclusive a dele —
transferirem a porta de entrada para outro lado do terreno, onde antes


era o quintal.12 "O que adianta? Ele não vai pagar mesmo", Golbery
ouvia o pai responder à mulher, quando ela insistia que fosse cobrar o
que lhe era devido. A essa altura Henriqueta do Couto e Silva costurava
para fora.13

Era ruína européia. Quanto menor o patrimônio, maior a pose.
Com uma afetada francofilia, Jacintho deu nomes estranhos aos dois
filhos. Ao mais velho chamou Morency, sobrenome de um dos
colonizadores de Quebec. Ao segundo, nascido em 21 de agosto de
1911, chamou Golbery, sobrenome de um magistrado metido em
eruditos estudos arqueológicos, morto em 1854 e quase desconhecido
fora de Colmar, sua cidade natal. Lá uma pequena rua homenageia sua
memória.14

Apesar de seu pai achar impróprio mandar os filhos à escola
elementar, acreditando que receberiam melhor educação em casa, o
menino foi matriculado no colégio estadual Lemos Junior, porque o
reitor estava interessado numa experiência pedagógica e pediu que lhe
entregassem a criança, então com onze anos. Golbery nunca soube
direito a que tipo de experiência foi submetido, mas lembrou-se com
orgulho do resultado: "Entre os treze e os catorze anos eu li quase todos
os clássicos da literatura portuguesa. Camilo Castelo Branco, por
exemplo, eu li inteiro. Além disso, inventariei toda a biblioteca e os
laboratórios de física e química, equipados com material alemão de
muito boa qualidade".15

Pensava em ser engenheiro ou advogado. "Mas cadê o dinheiro?
Talvez eu conseguisse, mas meu irmão já estava no Exército, e eu fui no
arrasto." Chegou à Escola Militar de Realengo com uma cultura acima
da média dos colegas. Sabia muita matemática e se encantara com o
estudo da história. Ia à secretaria conferir as notas de Luiz Carlos
Prestes, transformadas em pedra da meca do irredentismo tenentista.
Era o melhor aluno da escola, com notas superiores a 8 em todos os
exames, na marca do Cavaleiro da Esperança e do tenente Ernesto
Geisel. Saiu de Realengo em dezembro de 1930, na primeira turma de
aspirantes do novo regime. Com o tenentismo no palácio, os novos


oficiais deveriam cuidar dos quartéis. Pelo calendário gregoriano,
Golbery tinha quatro anos menos que Geisel e dez menos que Cordeiro
de Farias. Pelo calendário político, estava uma geração atrás.

Sua participação na Revolução de 1930 limitou-se ao trabalho de
estafeta: levou uma carta à casa onde estava Juarez Távora. Mandado
para uma guarda do Catete, catou nos jardins do palácio alguns
panfletos do Partido Comunista. Esse foi o primeiro contato que teve
com a espécie. Já lera alguns trabalhos de Lenin e via na revolução
bolchevique "uma nova aurora, um estágio superior da Revolução
Francesa". Mais tarde haveria de se classificar como um
"Criptocomunista literário". Gostava da frase de Mussolini ("é preciso
viver perigosamente"), mas detestava o fascismo, "apesar de ele ter feito
os trens italianos andarem na hora".16 Estava mais para Trostsky do
que para Stalin, mais para Bukharin do que para Trotsky, mas tudo
isso era elucubração. Quando Luiz Carlos Prestes anunciou seu
rompimento com o governo de Getulio Vargas, Golbery nem sequer
refletiu sobre o ideário socialista que ele propunha. "O caso é que ele se
colocava contra o Rio Grande, e para nós a Revolução era do Rio
Grande."17

Mandado em 1931 para o 9-Regimento de Infantaria, em Pelotas,
esteve na tropa que combateu a Revolução Constitucionalista de 32.
Levara na mochila a Crítica da razão pura, do filósofo alemão Emmanuel
Kant, e retornara com um elogio por bravura.18 Foi a primeira e única
vez que atirou em combate. De volta a Porto Alegre, tornou-se instrutor
do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, o CPOR. Tinha 21 anos e
era oficial da infantaria, mas ingressara no mundo dos instrutores,
responsável pela fabricação de todas as mitologias intelectuais das
forças armadas em tempos de paz.

Havia um namoro entre Golbery e o PC. Dele não há registro na
memorialística comunista, como de resto ela quase nada revela a
respeito da base militar do partido. Entre 1933 e 1934, Golbery


encontrou-se com um oficial que servia no Paraná. "Foi uma conversa
sobre doutrina. Era um coronel da artilharia, homem brilhante, que eu
respeitava muito." Os comunistas remeteram-lhe material de
propaganda e em 1934 contataram-no formalmente. "Era um civil, disse
que vinha a mando do Miranda."19 Miranda era o ex-sargento Antonio
Maciel Bonfim, secretário-geral do PCB. Depois disso o capitão Carlos da
Costa Leite, o "Prestes da cidade", fez mais uma tentativa de recrutá-lo.
20 Deram-se novos contatos clandestinos durante o ano de 1935, até
que, conforme contou mais tarde: "Vi que a coisa estava esquentando e
não tinha substância, saí fora".21 Saiu mas deixou rastro. Seu nome foi
achado no caderno de endereços de um major, e sem que Golbery
soubesse, tramitou na burocracia da repressão uma denúncia contra
ele. Salvou-o o coronel gaúcho (de Bagé) Salvador César Obino, que lera
um artigo do tenente Golbery defendendo o anarquista Bakunin. "Ele
achou que se eu escrevia aquilo claramente, não devia estar metido em
levantes."22

De todas as leituras e influências do período, Golbery levaria para

o resto da vida o que ele chamava de "hábito de raciocinar
dialeticamente": "Uma coisa nunca é como é. Não há o certo nem o
errado absolutos". "Esse tipo de raciocínio, uma vez adquirido, não se
perde nunca", explicaria meio século depois, queixando-se de que "se
confunde dialética com marxismo, o que é burrice".23 Mal chegara aos
24 anos, magro, desinteressado das competições esportivas, tinha fama
de intelectual. Aprendia inglês lendo a revista Time e ouvindo a BBC de
Londres.
Estava sob a proteção de uma confraria de oficiais gaúchos. Fora
ajudante-de-ordens do general (de Alegrete) João Carlos Toledo Bordini,
um oficial de tintas liberais que passara para a reserva depois do golpe
de 1937. Bordini recomendara o capitão ao coronel Mário Ary Pires (de
Pontal da Barra), chefe-de-gabinete da secretaria geral do Conselho de
Segurança Nacional, segundo homem no Gabinete Militar da
Presidência. Em 1939 Golbery entrou no palácio do Catete detestando o
Estado Novo e Getulio Vargas, seu fâmulo. No Conselho de Segurança


planejava-se a entrada do Brasil na guerra, contra a Alemanha.24 Do
que ouvira de Ary Pires e do que aprendera com leituras, Golbery
preparou em segredo um trabalho a que deu um título típico da audácia
dos capitães: Diretrizes para a Mobilização Nacional. Nos meses
seguintes reconheceu pedaços de seu estudo num documento que
circulava pelos altos escalões. Começara sua carreira de escriba.

Falara-se do cadete Golbery em 1930, e falou-se dele novamente
em 41. Como capitão, inscrevera-se nas provas livres do curso de
admissão à Escola de Estado-Maior e fora o único aprovado. Seu exame
mais difícil parece ter sido o de motorista, pois, com trinta anos e sem
dinheiro, não sabia dirigir. Três anos depois embarcou para Fort
Leavenworth. Em Kansas City viu o seu primeiro Van Gogh, uma
Contorcida paisagem de oliveiras, pintada um ano antes da morte do
artista. A guerra escapou-lhe entre os dedos. Desembarcou em Nápoles
no final de fevereiro de 1945, um ano após a entrada das tropas
americanas na cidade. Aquartelado 450 quilômetros ao sul da linha
Gengis Khan, onde se esfarelavam as divisões alemãs dos Apeninos,
Golbery não ouviu um só tiro.

Foi sua única viagem à Europa. Vagou pelos museus e igrejas de
Nápoles e Roma, chocou-se com a miséria e com a prostituição de
adolescentes em troca das caixinhas de ração. Cuidou do planejamento
do retorno dos pracinhas ao Rio de Janeiro. Em outubro de 1945 estava
de volta, com economias suficientes para comprar seu primeiro imóvel,
um apartamento em Laranjeiras. Da convivência com a tropa americana
não resultou sensível influência ideológica. "O exército americano não
nos impressionou porque era democrático, mas porque funcionava."25

O Exército brasileiro funcionava mal, e a guerra expusera suas
misérias. No exame de saúde de Fort Leavenworth descobriu-se que um
coronel tinha lepra.26 Na Itália acharam-se pracinhas tuberculosos, e,
das 11 617 baixas sofridas pela FEB, 8480 deveram-se a doenças. Numa
tropa de 25 mil homens, 10 399 passaram por tratamento dentário na
Europa. Foram realizadas 9071 extrações.27 A fraqueza estrutural era
semelhante. Num regimento do Rio Grande do Sul o comandante


selecionou para a Força Expedicionária os soldados com mau
comportamento.28 Um pelotão do 6º RI teve oito comandantes em poucos
meses de instrução. A rotatividade de oficiais que saltavam do
regimento — e da guerra — foi semelhante em pelo menos cinco de suas
nove companhias.29

Por questão de sigilo, disseram à tropa do primeiro escalão que
ela desembarcaria na Tunísia, mas quando o navio estava no
Mediterrâneo, os soldados souberam, através da locutora Rosa da
Esperança, da rádio de Berlim, que seu destino era Nápoles.30 Tiraram
ao comandante da Força Expedicionária a prerrogativa de escolher os
auxiliares e até mesmo de promover os soldados em combate.31 O chefe
do Estado-Maior, imposto pelo Rio, brigava com o general da artilharia e
com o encarregado da seção de operações, que, por sua vez, rompera
com o colega das informações.32 A tropa estava malvestida e mal
calçada. O verde-escuro dos seus uniformes parecia-se com a cor da
farda dos alemães. Desembarcou desarmada em Nápoles e, confundida
com um lote de prisioneiros, viu-se vaiada. Os cigarros de boa
qualidade sumiam no caminho, e à Itália chegavam mata-ratos
intragáveis.33 As fardas encolhiam e desbotavam. "Não se pode entender
tanta negligência do Rio de Janeiro", queixava-se 35 anos depois o
comandante da Artilharia Divisionária, Cordeiro de Farias.34

O capitão Golbery que regressou ao Rio de Janeiro saltara do
trem da esquerda. Em março de 1952, como tenente-coronel, foi
designado para a Escola Superior de Guerra. A ESG tinha três anos e ele,

41. Juntos construiriam uma das grandes lendas da política brasileira.
1 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984.

2 Golbery foi indicado à Dow por Roberto Campos, que recusou a presidência da
empresa no Brasil. Inicialmente o general trabalhou como consultor. Depois, tornou-
se presidente da companhia. Renato Hauptmann, maio de 1993. Para o salário, Heitor
Ferreira, março de 1974. Numa conversa com Ueki, de março de 1974, Heitor se refere
a um salário mensal de 50 mil cruzeiros (7100 dólares). Essa cifra excluiria as
bonificações.


3 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1973.

4 Antonio Carlos Magalhães, 1981.

5 Para o menino da Transfiguração, John Pope-Henessy, Raphael, p. 75.

6 Golbery do Couto e Silva, O Sentido Humano da Arte, p. 3. AA.

7 Idem, p. 7. AA.

8 Para a referência a Lacerda, Diário de Heitor Ferreira, 11 de junho de 1965. Em
1984, Golbery só combinou um reencontro com Geisel (a quem não via fazia quase
quatro anos) depois que obteve do general Gustavo Moraes Rego a certeza de que o ex-
presidente se reaproximaria de Heitor Ferreira. Tanto Geisel como Golbery sabiam que
lhes restava pouco tempo para um reencontro, que acabou não ocorrendo. Golbery do
Couto e Silva, agosto de 1985.

9 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984.

10 Genealogia preparada por Golbery do Couto e Silva em resposta a uma carta de
Marco Antônio Rabelo do Couto e Silva, de 8 de outubro de 1981. APGCS/HF. Manuel do
Couto e Silva veio do Porto para o Brasil com um filho e quatro filhas. Viveu no Rio de
Janeiro por alguns anos, onde teria feito dois ou três filhos homens. Em Rio Grande
fez mais um.

11 Para as obras do porto, concluídas em 1917, Euripedes Falcão Vieira, Rio Grande,
geografia física, humana e econômica, p. 132. Para o movimento da zona, Golbery do
Couto e Silva, novembro de 1984.

12 A casa dos Couto e Silva, cuja entrada era na República do Líbano, virou-se para a
rua Benjamin Constant, 123. Em 1992, esse terreno era ocupado por pequenos
sobrados. Onde fora a entrada estavam a loja de artigos de pesca O Arrastão e a
academia de caratê Shotokan.

13 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984.

14 Para Phillipe Marie Aimé de Golbery, Jornal do Brasil de 25 de junho de 1975, p. 2,
citando um verbete de enciclopédia francesa. Para a rua, fotografia tirada em Colmar,
em 1982, pelo jornalista Guilherme Veloso. AA.

15 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984.

16 Idem.

17 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984.

18 "O fabricante de nuvens", Veja de 19 de março de 1980, p. 25.

19 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984.

20 Idem, 1980, informação publicada em "O fabricante de nuvens", Veja de 19 de
março de 1980, p. 25.

21 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984.

22 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984. Nas diversas ocasiões em que tratei
com Golbery de suas relações com o Partido Comunista, ele se mostrou pouco
receptivo. Dava respostas curtas e não as elaborava. Tendo contado em 1980 que
Carlos da Costa Leite tentara recrutá-lo, deixou de mencioná-lo na entrevista de 84,
quando colocou no quebra-cabeça a figura do civil mandado por Miranda. Em outubro
de 1994 Geisel lembrou que, nessa época, "constava que ele tinha algumas idéias de
esquerda". Parece que os artigos de Golbery se perderam.

23 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984. Para a queixa a respeito da confusão
entre dialética e marxismo, "O fabricante de nuvens", Veja de 19 de março de 1980, p.

31. Em seu Geopolítica e poder, p. 16, Golbery chama o materialismo marxista de
"filho espúrio do idealismo hegeliano".
24 "Apesar de o Getulio, depois, ter mostrado algumas simpatias pelo Eixo, no


Exército eu nunca vi outro tipo de trabalho que não fosse prevendo a entrada do
Brasil na guerra ao lado dos Aliados." Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984.

25 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984.

26 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.

27 Frank D. McCann Jr., The Brazilian-American Alliance — 1937/1945, pp. 369 e 71.
Ver também Aspásia Camargo e Walder de Góes, Meio século de combate — Diálogo
com Cordeiro de Farias, p. 311.

28 Ernani Ayrosa da Silva, Memórias de um soldado, p. 32.

29 Frank D. McCann Jr., The Brazilian-American Alliance — 1937/1945, p. 375.

30 Ernani Ayrosa da Silva, Memórias de um soldado, p. 35. Essa locutora era
Margarida Hirshman. Depois da guerra ela foi presa e condenada, no Brasil, a vinte
anos de prisão, cumpriu dois e viu-se indultada. Evandro Lins e Silva, O salão dos
passos perdidos, pp. 176-8. Sua equivalente americana, Midge Gillars, ou Axis Sally,
presa em 1945, só foi libertada em 61.

31 Aspásia Camargo e Walder de Góes, Meio século de combate — Diálogo com
Cordeiro de Farias, pp. 326 e 332.

32 Idem, p. 328. Chefiava o Estado-Maior o coronel Floriano de Lima Brayner; a
artilharia, o general Cordeiro de Farias; a seção de operações, o tenente-coronel
Castello Branco, e a de informações, o tenente-coronel Amaury Kruel.

33 Aspásia Camargo e Walder de Góes, Meio século de combate — Diálogo com
Cordeiro de Farias, p. 343. Para uma documentada descrição das debilidades da FEB
segundo os oficiais americanos que com ela lidaram, William Waack, As duas faces da
glória — A FEB vista pelos seus aliados e inimigos, pp. 113-57. Ver também Carlos
Lacerda, Depoimento, p. 104. Para a falta de agasalhos, má qualidade dos tecidos, a
dificuldade provocada pela cor e a vaia em Nápoles, Joaquim Xavier da Silveira, A FEB
por um soldado, pp. 58 e 64.

34 Aspásia Camargo e Walder de Góes, Meio século de combate — Diálogo com
Cordeiro de Farias, p.362.


O escriba


Conhecida também pelo pernóstico apelido de Sorbonne, a Escola
Superior de Guerra era produto de um sincero interesse da cúpula
militar pelo aprimoramento intelectual dos oficiais superiores, mas
também de um desejo dos ministros de manter longe dos comandos de
tropa e de posições importantes no Estado-Maior os oficiais de muita
capacidade e pouca confiança.1 Enquanto se puniam com
transferências para circunscrições de recrutamento os coronéis chucros
ou extremados, a oposição militar bem-educada ganhava escrivaninhas
na ESG, cuja primeira virtude era a localização: no Rio de Janeiro,
debruçada sobre a praia da Urca. Em 1953, somando-se os estagiários
ao seu quadro de pessoal, a ESG dava o que fazer a doze generais, três
almirantes, dois brigadeiros, 33 coronéis e onze capitães-de-mar-eguerra,
efetivo equivalente a mais que o dobro dos coronéis e generais
que foram para a guerra.2

Desde 1950 a escola juntava por volta de setenta civis e militares
num curso de um ano, verdadeira maratona de palestras e estudos em
torno dos problemas nacionais. Essa convivência de oficiais, burocratas
e parlamentares era experiência inédita, mas seria exagero dizer que
nos seus primeiros dez anos de vida a ESG aglutinou uma amostra da
elite nacional. O número de estagiários sem ligação funcional com o
Estado dificilmente alcançava um terço das turmas. A seleção dos 483
militares que fizeram qualquer tipo de curso na ESG entre 1950 e 1959


deu-se sem dúvida no estrato superior da oficialidade. Dois chegaram à
Presidência da República (Geisel e Castello Branco), 23 ao ministério, e,
deles, seis chefiaram o Exército. Com os 335 civis que passaram pela
escola no mesmo período, o resultado foi outro. Só quatro chegaram ao
ministério. Um deles, Tancredo Neves, pode ser computado como se
tivesse chegado à Presidência.

A escola funcionava num clima grandiloqüente e
autocongratulatório. Suas primeiras turmas incluíam oficiais
sinceramente convencidos de que participavam de um mutirão
intelectual que repensava o Brasil. Havia neles um verdadeiro sentido
de missão. "Nenhum de nós sabia nada e queríamos que alguém nos
desse idéias", contaria mais tarde o general Antonio Carlos Muricy.3
Ainda assim, a ESG não produziria uma só idéia ao mesmo tempo certa e
nova. Seus fundadores empilharam conceitos redundantes, como
Planejamento da Segurança Nacional, e impenetráveis, como o Conceito
Estratégico Nacional, atrás dos quais se escondia uma metafísica do
poder estranha à ordem e às instituições democráticas, aos sistemas
partidários e aos mecanismos eleitorais. Carlos Lacerda chamava-a de
"escola do blá-blá-blá".4 Com o tempo edificou-se a mitologia de que a
Sorbonne foi laboratório de aperfeiçoamento da elite nacional e sacrário
ideológico do regime de 1964. Parte da cúpula militar que a criou, no
entanto, haveria de tomá-la como mau exemplo tanto pela fauna como
pela flora. "Cuidado com os picaretas. Veja a ESG", advertiu Geisel a um
amigo. As famosas apostilas de capa cinza eram documentos
irrelevantes para o general: "Podem ir para o lixo, pois as turmas e os
grupos são muito díspares".5

Fundada na premissa de que o subdesenvolvimento brasileiro era
produto da falta de articulação e competência de sua elite, a ESG se
propunha a sistematizar o debate dos problemas do país.6 Oferecia-se
também como centro de estudos para uma crise universal muito mais
ameaçadora e urgente. Em maio de 1949 a escola ainda não estava
legalmente organizada, mas seu comandante, o general Oswaldo
Cordeiro de Farias, advertia: "Precisamos preparar-nos para a


eventualidade da terceira guerra mundial, o que é uma conseqüência do
panorama internacional, uma política de autodefesa, um imperativo de
nossa soberania e do nosso espírito de sobrevivência. Viver
despreocupado deste problema, num mundo que não se entende, é ter
mentalidade suicida".7

Esse mundo vivia sob a influência de duas expressões: Cortina de
Ferro e Guerra Fria.

A primeira fora mais uma expressão genial do ex-primeiroministro
inglês Winston Churchill. Em março de 1946, discursando na
pequena cidade de Fulton, nos Estados Unidos, ele denunciou: "De
Stettin, no Báltico, a Trieste no Adriático, uma cortina de ferro caiu
sobre o Continente. Atrás dessa linha, todas as capitais dos velhos
Estados da Europa Central, Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapest,
Belgrado, Bucarest e Sofia, todas essas famosas cidades, bem como as
populações que as circundam, estão submetidas não só à influência
soviética, mas a um grande e crescente controle por Moscou".8

A segunda fora produto da memória do jornalista americano
Walter Lippmann. Ao dar título a uma coletânea de artigos dos últimos
meses de 1947, ele recorreu à expressão francesa usada era 39 para
designar a política de intimidação de Hitler na Europa, "la guerre
froide".9

Apesar de esses dois conceitos terem encantado as forças
conservadoras brasileiras, o Estado Novo lutava contra a Cortina de
Ferro antes que Churchill a tivesse percebido e se alistara na Guerra
Fria antes que ela tivesse começado. Se o combate ao nazismo
aproximara conservadores europeus e americanos dos comunistas, no
Brasil essa aproximação não se deu, porque a direita filofascista e
mesmo filonazista jamais foi combatida, muito menos derrotada. Quem
olhasse a hierarquia da ditadura no início de 1946 veria poucas
mudanças nos palanques. Em ocasiões especiais, podia-se notar o
sumiço, nas casacas e uniformes, das condecorações distribuídas pelos


embaixadores da Alemanha e da Itália. Na Europa a associação com o
Eixo custara à extrema direita a vida (quando foi para as trincheiras), a
fortuna (quando a depositou no projeto guerreiro) ou a credibilidade
(quando tornou pública a sua posição). No Brasil, nada disso.

A ditadura de Vargas se assombrara com o degelo ocorrido em
1941, aproximando o Ocidente e a União Soviética. Coubera ao Exército
Vermelho quebrar a invencibilidade alemã, enfrentando uma ofensiva
militar que chegou a somar 250 divisões ao longo de uma frente de
quase 2 mil quilômetros. Churchill, respondendo a um amigo perplexo
pela defesa que fazia dos soviéticos, esclareceu: "Se Hitler invadisse o
inferno, eu diria até mesmo uma boa palavra sobre Belzebu na Câmara
dos Comuns".10 Cercado em Corregidor, nas Filipinas, o general
americano Douglas McArthur dizia que "a esperança da civilização
repousa nas bandeiras do corajoso Exército Vermelho".11 Em pouco
mais de dois anos os Estados Unidos socorreriam a União Soviética com
9 mil aviões, 4 mil tanques, 210 mil caminhões e 5 milhões de pares de
botas.12

No Brasil a guerra era outra. A Censura do Estado Novo proibia,
em 1941, a exibição d'O grande ditador, de Charles Chaplin.13 O
anticomunismo haveria de levá-la a combater a própria aliança
antinazista. Em outubro de 1942, quando Churchill desembarcou em
Moscou, o Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo
censurara os noticiários cinematográficos que mostravam o primeiro-
ministro inglês ao lado dos governantes soviéticos. Um mês depois, com
os ventos da guerra começando a mudar debaixo das ruínas de
Stalingrado, os brasileiros foram impedidos de ver os prisioneiros
alemães marchando diante do ministro da Defesa russo.14 Nem mesmo
uma sessão privada para o general Dutra foi remédio capaz de levantar

o veto do DIP ao filme A estrela do Norte, história romântica de
guerrilheiros ucranianos.15 Em novembro de 1944, quando se
acreditava que a Alemanha poderia capitular de uma hora para outra, o
chefe do Departamento Federal de Segurança Pública informou a um
funcionário da embaixada americana que estava pronto para trancafiar

pelo menos trezentos comunistas.16

Os comunistas não foram presos em maio de 1945, quando a
Alemanha se rendeu, mas em outubro, quando Getulio Vargas caiu.
Inúmeras sedes do PCB foram varejadas pela polícia, encarceraram-se
alguns de seus dirigentes, e Luiz Carlos Prestes asilou-se na embaixada
do México. Na noite de 31 de outubro, dois dias depois da deposição do
ditador, um visitante entrou no apartamento do chanceler Pedro Leão
Velloso. Era o embaixador americano Adolf Berle Jr., pedindo o fim da
perseguição aos comunistas: "Manifestei-lhe a esperança de que o
governo soltaria os líderes. [...] Disse-lhe que fazia um mau negócio,
dava a impressão de fraqueza".17 Semelhante bizarria, com um
embaixador americano batalhando a libertação de comunistas, era
reflexo da personalidade de Berle, mas também de uma nova ordem
mundial, nova, frágil, porém liberal.

O marechal Dutra assumiu a Presidência da República, em
janeiro de 1946, indicando que o fôlego liberal da nova ordem brasileira
seria curto. Na chefia do Gabinete Militar pôs o general Álcio Souto. Dez
anos antes, quando Adolf Hitler recomendava ao embaixador brasileiro
que o governo "não tivesse piedade" dos bolcheviques, Dutra pedia aos
comandantes militares a "repressão imediata e impiedosa" contra os
comunistas. Atacava os presos que "despem a camisola dos galés para
vestirem a túnica dos mártires".18 Na casa dele se comemorara a queda
de Paris.19 Dutra elegera-se presidente com o apoio da base política da
ditadura. Sob sua Presidência as relações diplomáticas com a URSS, cujo
restabelecimento teve o incentivo da Casa Branca, duraram
precisamente trinta meses e esfumaçaram-se em outubro de 1947.20 O
Brasil foi o primeiro país do chamado mundo ocidental a romper
relações com Moscou.21 A legalidade do Partido Comunista durara
menos: dezoito meses. Depois de ter conseguido 500 mil votos (10% do
eleitorado) para seu candidato a presidente e de ter feito uma bancada
de catorze deputados, o PCB, com 180 mil membros, controlando duas
editoras e oito jornais, foi posto fora da lei em maio de 1947.22

Na época, bem como nas décadas seguintes, a retórica e a


propaganda stalinistas atribuíram o refluxo político de 1947 à
inspiração americana. O governo do presidente Harry Truman foi sem
dúvida anticomunista, mas não lhe coube a concepção da virada
brasileira, muito menos o ardor. Era o general Álcio Souto quem
informava ao embaixador dos Estados Unidos, antes mesmo da
abertura dos trabalhos da Assembléia Constituinte, que o PCB seria
cassado. Era também ele quem se queixava do que seria a excessiva
tolerância americana em relação ao comunismo.23 Foi o marechal Dutra
quem pediu ao presidente Truman que colocasse o combate ao
comunismo no topo de sua agenda numa rápida visita ao Brasil.24 O
general George Marshall, chefe do estado-maior do exército americano
durante a guerra e secretário de Estado em 1947, chegou a sugerir que
fosse evitado o rompimento de relações com Moscou.25 Já o ministro da
Guerra, general Goes Monteiro, em torno do qual gravitaram os oficiais
germanófilos nos primeiros anos de combates, dizia que "a primeira
bomba atômica foi jogada em Hiroshima e a segunda em Nagasaki, a
terceira e a quarta no atol de Bikini, mas a quinta, a sexta, sétima e
oitava podem muito bem cair na Rússia".26

Affonso Henrique de Miranda Corrêa, o tenente-coronel que
comandara os calabouços da Delegacia Especial de Segurança Política e
Social da ditadura e estagiara por um ano na Gestapo, tornara-se
encarregado da administração da Escola Superior de Guerra.27 O
coronel Antonio José Coelho dos Reis, o Tomé, que dirigira a máquina
de censura e propaganda do DIP e nela proibira a exibição d'O grande
ditador, chefiava a Divisão de Assuntos Militares da ESG. 28 Tendo
passado incólume pela Segunda Guerra Mundial, a direita brasileira
entrara invicta na Guerra Fria.

O tenente-coronel Golbery saiu da casca na Escola Superior de
Guerra, em 1952, com uma série de conferências que intitulou Aspectos
Geopolíticas do Brasil. A essa altura estava revertida a onda esquerdista
na Europa. Os comunistas haviam sido postos para fora de todos os


governos, os conservadores tinham o poder do Tejo ao Reno, e as
economias prosperavam. As matanças ocorridas do outro lado da
Cortina de Ferro mutilaram o orgulho dos comunistas. Na América
Latina a esquerda vira-se condenada a abandonar quaisquer tentativas
de alinhamento com o Leste, reorganizando-se atrás de propostas
neutralistas. Getulio Vargas acabara de tirar do Ministério da Guerra o
general Newton Estillac Leal, boêmio da malandragem dos bares do
centro do Rio e oficial audacioso na tropa, revoltoso de 1924 e 30. Em
1942, como coronel e orador da turma da Escola de Estado-Maior,
chamara Hitler de "porco" diante de uma platéia onde se encontravam
Vargas e Dutra.29 Na qualificação de um de seus inimigos, Estillac
acreditava que "o Exército não estava aí para garantir privilégios".30

Aspectos Geopolíticas do Brasil é um trabalho meticuloso e
pedante. Nele o tenente-coronel procurou mostrar tudo o que sabia, a
ponto de misturar, era dois únicos parágrafos, profecias de Zaratustra,
teoria dos números e o espaço curvo quadridimensional. Na primeira
conferência, em apenas sete páginas, Golbery trabalha na formulação
do conceito de segurança nacional. Não era o primeiro a fazê-lo, mas,
entre todos, viria a tornar-se o mais conhecido, chegando a se confundir
com a própria idéia. Com o tempo, repetiria o esquema de 1952 em
diversos escritos, quase sempre complicando-o.

Seu prelúdio é a visão pessimista de uma democracia "exangue de
forças e de vontade", de uma civilização ocidental próxima do
aniquilamento e de um mundo atacado pela "subversão cósmica de
valores e de conceitos".31 Cético em relação à ordem internacional,
Golbery dizia que "não se sabe já distinguir onde finda a paz e onde
começa a guerra", "de guerra total a guerra global; [...] e — por que não
reconhecê-lo? — permanente".32

Nessa época os Estados Unidos lideravam uma guerra na Coréia
(47 mil mortos aliados) e a França, outra, na Indochina (106 mil mortos
franceses até o final dos combates, um terço dos aspirantes da
Academia Militar de Saint-Cyr a cada ano). Mal tinham terminado
guerras civis na China e na Grécia, já começava a revolta da Argélia.


Desde a paz européia haviam-se consumado 25 golpes militares, vinte
dos quais na América Latina.33

O universo fracassado exibido pelo tenente-coronel era produto de
uma reciclagem do pessimismo do escritor alemão Oswald Spengler em
sua Decadência do Ocidente. Spengler concebera a obra antes do início
da Primeira Guerra com a triste conclusão de que a civilização ocidental
chegara a um esgotamento cultural, aprisionada pelo poder do dinheiro,
do qual só haveria de se libertar com o advento de um cesarismo em
que o imperador prevaleceria sobre instituições cuidadosamente
preservadas, porém defuntas. "Tudo girará em torno do poder
inteiramente pessoal exercido pelo César ou por quem quer que seja
capaz de exercê-lo para ele."34

Golbery acompanhara Spengler na formulação (e até mesmo na
estridência do estilo), mas separara-se dele diante do César. Admitira a
esterilidade institucional, chegara à denúncia da elite "corrompida em
sua moral e alheia a seus deveres e responsabilidades", transformada
em "minoria de opressão", mas não dera o último passo, aquele que
levaria Spengler a esboçar no perfil do César os traços de Benito
Mussolini.35 O tenente-coronel vira no poder das armas um "militarismo
suicida" e apelara a um revigoramento da democracia, capaz de salvá-la
dos "braços ásperos do cesarismo".36

Seu remédio contra a decadência era o fortalecimento do Estado.
Primeiro pela necessidade do Estado de "ampliar cada vez mais a esfera
e o rigor do seu controle sobre uma sociedade já cansada e desiludida
do liberalismo fisiocrático de eras passadas".37 Depois, pela articulação
de uma estratégia para a "guerra onipresente".38 A Grande Estratégia
transforma-se, por fim, numa "verdadeira política de segurança
nacional".39 Através dela o governo "coordena, dentro de um conceito
estratégico fundamental, todas as atividades políticas, econômicas,
psicossociais e militares".40 O que em Spengler era uma pessoa — o
César — tornara-se em Golbery um conceito — a Segurança Nacional.

Essa visão embutia o projeto de um país industrializado, com o
Estado regendo o desenvolvimento de setores estratégicos. Entre 1947 e


1955 a indústria brasileira crescera 122%.41 O sonho
desenvolvimentista da ESG era sincero, no entanto estava amarrado ao
conservadorismo político e fiscal de seu grande aliado na Guerra Fria.
Os governos dos presidentes Truman e Eisenhower queriam orçamentos
equilibrados, mas condenavam sobretudo a interferência do Estado
brasileiro na economia (ela passara de 17,1% em 1947 para 23,9% em
56) e associavam iniciativas nacionalistas com ameaças à segurança e
aos negócios americanos. O secretário do Tesouro, George Humphrey,
sustentava que os Estados Unidos não tinham motivo para subsidiar
um desenvolvimento potencialmente competitivo.42 A política americana
desse período foi documentadamente narrada em 1989, por Gerald
Haines, da equipe de historiadores da Central Intelligence Agency. Em
seu severo Americanization of Brazil, ele escreveu: "Advogando uma
política neocolonial e neomercantilista, os funcionários americanos
queriam criar e manter um fluxo de matérias-primas brutas brasileiras.
Eles não queriam que o Brasil desenvolvesse uma capacidade industrial
competitiva, especialmente em relação a materiais estratégicos".43

Tal circunstância esterilizava o pensamento da direita militar.
Estavam ao lado dos Estados Unidos na Guerra Fria e concordavam
com as bases filosóficas de seu capitalismo. Supunham ter um parceiro
no aliado, mas não conheciam a extensão do seu desinteresse pela
expansão industrial brasileira. Capturado pelo conflito ideológico, esse
pensamento associou-se a um projeto americano que lhes oferecia
qualquer tipo de solidariedade, menos a industrialização acelerada.
Como observaria Haines: "A política americana em relação ao Brasil
baseou-se em imagens, valores, mitos, estereótipos e distorções da
realidade. Foi uma combinação de cálculo político, interesse,
paternalismo e evangelismo. Ainda assim, deu certo".44

Do ponto de vista institucional a proposta de Golbery na ESG
resumia-se a um palavrório. A própria idéia do Conceito Estratégico já
fora apresentada em 1949 por Cordeiro de Farias. Em tese seria algo
como a Arca ' da Aliança do projeto nacional. Na prática, era nada. Em
1969 o general João Baptista Figueiredo, chefe do estado-maior do III


Exército, descobriu que o planejamento das ações militares de suas
tropas não conferia com o Conceito Estratégico. Durante a maior parte
do consulado militar os principais textos de estratégia, planejamento e
ordem de operações foram documentos conflitantes.45 Em junho de
1974, pouco depois de ter assumido a Presidência da República, Geisel
informou ao Alto-Comando das Forças Armadas que, tendo lido o
misterioso enunciado do Conceito Estratégico, percebera-o velho e
inepto, mandando redefini-lo.46 Esse trabalho durou perto de um ano e,
uma vez concluído, adquiriu tamanha confidencialidade, que Heitor
Ferreira, secretário do presidente da República, querendo descobrir a
essência da estratégia da nação em que vivia, recorreu ao chefe do SNI,
para conseguir-lhe uma cópia, sem sucesso.47

Nada de novo estava sucedendo em 1952 debaixo do céu da praia
da Urca. O Conselho de Segurança Nacional existia desde 1934, a Lei
de Segurança Nacional, desde 35. A expressão era corriqueira,
carregando sempre (antes e depois dos ciclos de conferências da ESG) um
conteúdo relacionado com a repressão política. Ao renascer, no entanto,
tinha uma aparência mais utilitária do que repressiva. Em maio de
1949, Cordeiro de Farias já dissera que, "só com uma organização
apropriada de governo, será possível uma política de segurança
nacional", indicando que a preocupação central do general e dos oficiais
que viriam a formar a ESG não era apenas a definição da política de
segurança, mas acima de tudo a "organização apropriada do governo".48
Se possível, com o projeto deles, de preferência sem Getulio Vargas.

Foi no início dos anos 50 que, no Catete, alguém teve a idéia de
dizer que os oficiais envolvidos nas conspirações contra o governo eram
mais de "fritar bolinhos". Expressão da malandragem, variante da velha
conversa fiada, referia-se às mulheres que tricotavam a vida alheia
enquanto vigiavam suas frituras. O apelido foi perfilhado pelos
conspiradores, e eles passaram a se denominar "fritadores de bolinhos".
49 Vagavam por apartamentos da Zona Sul do Rio, com freqüência pelo


edifício Montese, no Leme, onde vivia um naco da hierarquia militar.
Desde o retorno de Vargas ao poder, insuflavam e seguiam o jornalista
Carlos Lacerda, cujos artigos na Tribuna da Imprensa devastavam o
governo. Em 1954 Lacerda estava entre os estagiários de meio
expediente da ESG.

Dois manifestos militares fritaram Getulio Vargas. O primeiro
saiu em fevereiro. Chamou-se Memorial dos Coronéis. Assinado por 81
oficiais superiores, moralista e antiinflacionário, foi talvez o único
protesto de assalariados contra um aumento de salário mínimo:
"Perigosas só poderão ser hoje, portanto, nos meios militares, as
repercussões que já se pressentem e anunciam de leis ou decisões
governamentais que, beneficiando certas classes ou grupos, acarretarão
pronunciado aumento do custo já insuportável de todas as utilidades".50

Na tarde de 23 de agosto de 1954, assinado por trinta generais da
guarnição do Rio de Janeiro, circulou um Manifesto dos Generais
pedindo a renúncia do presidente: "Conscientes dos seus deveres e
responsabilidades perante a Nação [...] e solidarizando-se com o
pensamento dos camaradas da Aeronáutica e da Marinha, declaram
julgar [...] como melhor caminho para tranqüilizar o povo e manter
unidas as forças armadas a renúncia do atual presidente da República".

O estilo dos dois manifestos era inconfundível. Corca, codinome
de conspirador que derivava de uma corruptela de Corcunda (o de
Notre-Dame era marido de Esmeralda, no romance de Victor Hugo),
escrevera os dois.52

Aquele tenente-coronel polido, culto e calado começava a ser
conhecido. Golbery era um dos mais fortes candidatos à condição de
"intelectual do Exército". Divertia-se submetendo-se a torneios
culturais, identificando pintores em livros, compositores nas
transmissões de música clássica da rádio Ministério da Educação,
redigindo conferências literárias para os chefes e resolvendo problemas
de matemática moderna.53 Em outubro de 1954, enquanto boa parte
dos "fritadores de bolinhos" se mudara para o palácio do Catete,


Golbery continuou na ESG e lá deu início ao mais influente de todos os
seus ciclos de conferências. Chamava-se O Planejamento e a Segurança
Nacional.

Aqui e ali ainda há ecos de Spengler ("uma civilização talvez já
ferida de morte"), mas a influência do pessimismo alemão se dissolvera.
No lugar dela está o choque entre dois modelos: a "anomia" dos Estados
liberais ou o "totalitarismo" dos regimes socialistas. A saída? "Uma nova
era para a história da humanidade, a era do planejamento, de liberdade
e de justiça." Chegara a sugerir que o Brasil fosse posto ao compasso de
um plano qüinqüenal. (Adotado no final do primeiro ano do mandato de
um presidente, ele sempre se estenderia por todo o primeiro ano do seu
sucessor.)54 Uma utopia, que se deveria alcançar através de um método:

o "planejamento da Segurança Nacional". Na sua expressão mais
simples a política de segurança nacional era a promessa de um
planejamento competente (nas mãos dos "fritadores de bolinhos"). Esse
pensamento edificava-se numa concepção da atividade pública
desligada das instituições republicanas. Uma utopia em que faltava
relevância às eleições, aos partidos e ao Parlamento. Na definição de
Oliveiros S. Ferreira, um "liberalismo [...] sem cidadãos".55 Planos e
diretrizes ocupavam e abafavam o espaço da vida política e da
negociação do dissenso. O planejamento dependeria da definição dos
termos em que se amparava. De todos eles o mais complicado era
precisamente o que parecia mais simples: guerra. O que vinha a ser
uma guerra?
Em 1952, Cordeiro de Farias vira duas no horizonte: uma guerra
mundial, com pequena participação brasileira, outra sul-americana,
talvez platina, na qual seria preciso brigar feio.56 No entendimento de
Golbery, "guerra" significava guerra: "Fiquemos, pois, com a distinção
corrente e até mesmo popular entre guerra e paz. Pergunte-se a quem
quer que seja se a III Guerra Mundial já rebentou e a resposta imediata
não deixará quaisquer dúvidas".57

Mesmo assim, Golbery reconhecia que era preciso definir "o
problema complexo da guerra civil", que ele também chama de "guerra


subversiva".58 Tratava-se de questão essencial para todo planejamento.
Isso porque era na classificação das pressões internas que se haveria de
marcar a régua de qualquer política de segurança nacional. Ela seria a
base do cálculo para determinar o momento em que o governo
declararia guerra a uma parte do seu povo.

Golbery achava necessário planejar a guerra contra movimentos
internos que culminassem "na subversão armada, na revolução, na
guerra civil". No caso da subversão comunista, argumentava que a
hipótese de guerra contra a "poderosa quinta-coluna" deveria ser a
mesma concebida para "a agressão externa partida da Rússia ou de
seus satélites".59 Apesar de total, a guerra só começaria de verdade
quando houvesse uma ameaça tangível: "De qualquer forma, entre uma
subversão armada e as perturbações da ordem pública que requeiram
apenas mera repressão de caráter policial, a diferenciação não
apresenta, em geral, maiores dificuldades".60

A Doutrina de Segurança Nacional cuja codificação se iniciou em
1953 fora pouco mais que um espichamento de velhas idéias saídas do
Estado Novo e de novas apostilas americanas, quase todas resumidas
por Cordeiro de Farias um ano antes.61 A noção de guerra
revolucionária, que daria um novo sentido ao anticomunismo militar em
todo o mundo, mal começara a ser formulada pelos generais franceses
batidos na Indochina, expulsos do Marrocos e da Tunísia, dispostos a
uma desforra na Argélia. A expressão "guerra revolucionária" não
consta de nenhuma conferência de Golbery nos anos 50.

Ele denunciava "as tiranias despudoradas e retrógradas que, sob
a bandeira de um salvacionismo as mais das vezes insincero e sempre
suspeito, nunca trepidam em denunciar os perigos e invocar a
Segurança Nacional, para [...] alargarem, insaciáveis, o seu poder de
coação e de mando".62

Entre 1952 e 1954 o tenente-coronel Golbery viveu os anos
dourados da ESG, mas nem ele nem ela formularam um pensamento
original. Pode-se atribuir a ambos um grande esforço metodológico,
buscando a sistematização de esquemas capazes de facilitar estudos


posteriores, mas nada além disso. Fora uma árdua maratona de
estudos, marcada pelo zelo e pela humildade daquele núcleo de
"fritadores de bolinhos". Geração como essa a escola jamais voltaria a
ver. Em 1958 a Biblioteca do Exército publicaria as palestras do
tenente-coronel num livro intitulado Planejamento estratégico, com uma
provável tiragem de 10 mil exemplares, da qual sobraria encalhe sete
anos depois.63 Com o tempo decairia até mesmo o interesse de Golbery
pelo assunto. Só isso explica o fato de que um artigo intitulado
"Planejamento da Segurança Nacional — Conceitos Fundamentais", que
saiu no final de 1960, seja uma cópia quase integral de uma palestra de
título semelhante, feita dois anos antes.64

Do conjunto das conferências de Golbery na ESG ressalta um
ausente: as Forças Armadas. Em menos de meio século haviam
derrubado dois presidentes e três regimes. Não há sobre elas análise ou
juízo, muito menos crítica, como se não fizessem parte da problemática
nacional, ávida por planejamento e segurança. Refere-se a elas três
vezes, em passagens irrelevantes.

O negócio do tenente-coronel era "fritar bolinhos", até que, na
noite de 11 de novembro de 1955, fritaram-no. A conspiração vitoriosa
de agosto de 1954 naufragara catorze meses depois, quando o general
Juarez Távora, um dos seus corifeus, vira-se derrotado pelo governador
mineiro Juscelino Kubitschek na disputa pela Presidência da República.
O general rompera um pacto segundo o qual nenhum dos grandes
chefes militares disputaria a eleição.65 Golbery sempre achara aquela
candidatura um desastre: "O lançamento do nome do Juarez nos
obrigava a apoiá-lo e, tendo-o apoiado, a respeitar o resultado".66 Como
em 1950, o resultado fora adverso, e novamente o jornalista Carlos
Lacerda pedia o golpe. Antes mesmo da eleição, propusera um regime
de exceção.67 Depois dela, chamou o resultado "mentira democrática" e
sustentou que Kubitschek "não pode ser presidente, não será
presidente".68 Veio a "Novembrada", e Golbery foi levado preso para o


quartel-general, onde se guardavam os "fritadores de bolinhos" na
Inspetoria Geral. O ambiente era cortês, o coronel Nelson Werneck
Sodré, quadro do Partido Comunista, fez e serviu café aos presos. A
divisão militar nascida naquela noite não permitiria a repetição de
semelhantes cavalheirismos.69

A direita militar vira-se batida por dois lances inesperados. O
primeiro fora o suicídio de Vargas, que transformou um presidente
deposto num mito histórico invencível. O segundo foi o golpe de Lott,
que transformou um general disciplinado e inflexível no condestável de
uma ordem distante e adversária dos "fritadores de bolinhos".

Um ano depois da "Novembrada", promovido a coronel, Golbery
estava no Estado-Maior. Lá, haveria de começar a convivência dele com

o coronel Ernesto Geisel e com um novo subordinado a quem se
afeiçoa-ria, o tenente-coronel João Baptista Figueiredo, então com
quarenta anos. Retornara à "guerra contra o bloco comunista".
Completara trinta anos de Exército, ajudara a derrubar um presidente,
desenhara uma nova república em suas conferências, mas, tal qual
Geisel, não cumprira os dois anos regulamentares de arregimentação
como coronel numa caserna.
Golbery vagara por escrivaninhas com seus exércitos imaginários
e guerras apocalípticas, mas no Estado-Maior viu-se diante de
verdadeiros problemas de segurança nacional. Um documento
informava: "As atuais divisões, organizadas com efetivos de paz e tendo
suas sedes escolhidas em função das necessidades de manutenção da
ordem interna, não estariam aptas à participação, em curto prazo, em
operações de guerra".70 Num exemplo dessa situação, o comandante da
Artilharia de Costa de Niterói registraria: "A artilharia, como artilharia,
não poderia atuar de jeito nenhum, a não ser para fazer barulho".71
Como dizia o adido militar brasileiro em Washington, "são passados
quarenta anos do meu ingresso no Exército e nunca tive o gostinho de
trabalhar em unidades de fato constituídas, sempre fazendo de conta,
agindo como se fora!".72 Era um Exército voltado para a ordem interna,
hipertrofiado no Rio de Janeiro, refratário a mudanças. As panelinhas


predominavam a ponto de um comandante da Vila Militar ter
organizado o embrião de uma sociedade secreta destinada a alavancar a
carreira dos oficiais de infantaria.73

Em 1960 a eleição de Jânio Quadros levou os "fritadores de
bolinhos" ao poder, e poderia parecer que as Forças Armadas passariam
por um saudável programa de reformas. Golbery recebeu uma carta de
um tenente que pedia um plano "drástico" de mudanças na estrutura
do Exército, "um programa de cortes, um restabelecimento da verdade
operacional". Para o planejamento da segurança nacional, nada mais
elementar e indispensável. Para o planejamento da segurança política
do governo, nada mais perigoso. Golbery fulminou:

Não o julgo possível, pelo menos no que se refere ao qualificativo
do "drástico". Convenhamos que vitória enorme houve, mas foi,
em medida enorme, pessoal de Jânio Quadros. Encaremos o
problema do ponto de vista do vitorioso (JQ). Será o caso de
permitir que haja problemas na área militar, perguntar-se-á ele?
A Aeronáutica exige mudança (os comunistas terão de ser
afastados, sem dúvida). Na Marinha há luta de grupos a
apaziguar (e o problema do porta-aviões...). Então, para que
mexer no Exército, onde as ambições estão contidas?74

Rendido por um operador político, o coronel dos parágrafos empolados
sobreviveria apenas nas apostilas da ESG OU nos exemplares amarelados
do Planejamento estratégico. A partir de 1960 as circunstâncias
da política levaram Golbery a escrever para platéias cada vez menores,
ao mesmo tempo que tomava gosto pela mitologia de mistério que se
formou em torno da figura dele. Esses dois fatores produziram uma
super-valorização de suas conferências dos anos 50. Como elas eram a
única fonte de acesso ao pensamento daquele oficial introvertido,
traçaram-lhe as principais linhas da personalidade pública,
embaralhando-a. Assim como não havia nenhuma relação entre as
maneiras de ele escrever e falar, também não havia relação entre a
complexidade de seus esquemas e a simplicidade de seus objetivos. Na


mesma resposta ao tenente entusiasmado, acrescentaria: "Esquecia-me
de responder a uma indagação sua sobre os postos-chaves
(estratégicos). O gabinete militar da presidência, a secretaria geral, o
Serviço Federal de Informação, são-no, sem dúvida".75

Pois em fevereiro de 1961 o coronel Golbery do Couto e Silva
assumiu a secretaria geral do Conselho de Segurança Nacional e o
controle do Serviço Federal de Informações e Contra-informação. O SFICI
surgira no final do governo Kubitschek, com o propósito de anexar uma
central de informações à Presidência.

1 Segundo John W. F. Dulles, Castello Branco — O caminho para a Presidência, p.
197, o apelido foi inventado por Oswaldo Aranha.

2 Para a lista de nomes do corpo permanente e de estagiários, Diplomas Conferidos em
1953, BI nº 187, de 15 de dezembro de 1953. Ou o sítio da ESG, <http://www.esg.br/>,
para a turma de 1953. Também Militares Integrantes da Escola Superior de Guerra no
Ano de 1953, Divisão de Expediente da ESG, 2003. Na FEB havia quatro generais e treze
coronéis, em J. B. Mascarenhas de Moraes, A FEB pelo seu comandante, pp. 345 e
segs., com a lista de oficiais.

3 Depoimento do general Antonio Carlos Muricy ao CPDOC, vol. 2, fita 17, p. 326.

4 Para o conceito de Lacerda, depoimento do general Octavio Costa, em A volta aos
quartéis, organizado por Maria Celina d'Araújo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso
Castro, p. 136. Vale transcrever a opinião do general Octavio Costa sobre a ESG, cujo
quadro não integrou: "A ESG criou um corpo doutrinário fictício com um palavrório
vazio".

5 Bilhete de Heitor Ferreira, sem data, com anotação manuscrita de Geisel. Geisel
respondia a uma proposta de Heitor de se criar uma escola civil de alto nível para o
serviço público. Tratando do mesmo assunto, mais uma vez com Heitor Ferreira,
Geisel disse que "o exemplo da ESG é altamente decepcionante", num bilhete de 26 de
julho de 1974. APGCS/HF. Para as apostilas, Diário de Heitor Ferreira, 16 de fevereiro de
1972.

6 "Proposta de criação da Escola Superior de Guerra", em José Alfredo Amaral Gurgel,
Segurança e democracia, pp. 30-4.

7 Oswaldo Cordeiro de Farias, Palestra sobre a Organização da Escola Superior de
Guerra, realizada na Escola de Estado-Maior, p. 6. Criada em outubro de 1948, a ESG
SÓ foi organizada pela lei 785, de 20 de agosto de 1949.

8 John Lewis Gaddis, The United States and the origin of the Cold War — 1941-1947,

p. 308.
9 Ronald Steel, Walter Lippmann and the American century, p. 445.

10 John Colville, The fringes of power, p. 404.

11 John Lewis Gaddis, The United States and the origin of the Cold War — 1941-1947,

p. 37.

12 Adam B. Ulam, The rivals — America & Russia since World War II, p. 3. As cifras
exatas são 8872 aviões, 3734 tanques, 206 771 caminhões.
13 Inimá Simões, Roteiro da intolerância — A censura cinematográfica no Brasil, p. 28.
14 Stanley E. Hilton, Brazil and the Soviet challenge — 1917-1947, p. 185.
15 Idem, pp. 185-6. Esse episódio ocorreu em dezembro de 1943.
16 Idem.p. 189.


17 Adolf A. Berle, Navigating the rapids — 1918-1971, p. 557.
18 Stanley E. Hilton, Brazil and the Soviet challenge — 1917-1947, p. 113, referindo-se
a um telegrama do embaixador Moniz de Aragão ao Itamaraty, de 29 de janeiro de
1936, no qual narrou a conversa que teve com Hitler ao entregar-lhe suas credenciais.
Para a frase de Dutra, ver Ferdinando de Carvalho, Lembrai-vos de 35!, p. 163.


19 Informação fornecida a Frank McCann por Euclydes Aranha, mensageiro que foi à
casa do ministro da Guerra para dar a notícia. Em McCann Jr., The Brazilian-
American Alliance — 1937/1945, p. 256.


20 Pio Corrêa, O mundo em que vivi, p. 289. Para a influência americana no
restabelecimento de relações com a URSS, ver Gerald K. Haines, The americanization of
Brazil, p. 26.


21 Gerald K. Haines, The americanization of Brazil, p. 28.
22 Para o tamanho do PCB, carta do embaixador William Pawley ao presidente Harry
Truman, de 1946, em Stanley E. Hilton, Brazil and the Soviet challenge — 1917-1947,


p. 208.
23 Stanley E. Hilton, Brazil and the Soviet challenge — 1917-1947, p. 211.

24 Idem, pp. 216-7.

25 Telegrama do embaixador Oswaldo Aranha ao Itamaraty, de 18 de outubro de
1947, em João Hermes Pereira de Araújo, "Oswaldo Aranha e a diplomacia", publicado
no volume Oswaldo Aranha — A estrela da Revolução, de Aspásia Camargo e outros,
pp. 345-6.

26 Stanley E. Hilton, Brazil and the Soviet challenge — 1917-1947, p. 202, com
telegrama transmitido pelo adido naval americano a Washington, de 6 de junho de
1946.

27 Para a posição de Miranda Corrêa, Dicionário histórico-biográfico brasileiro
pós-1930, coord. de Alzira Alves de Abreu e outros, vol. 2, p. 1603, e o depoimento do
general Antonio Carlos Muricy ao CPDOC, vol. 2, fita 17, p. 325. Associados —
1950-1987, da ADESG (1987), p. 2, registra Miranda como estagiário da primeira turma,
em 1950. Miranda Corrêa visitou a Alemanha em 1936. Geneton Moraes Neto, Dossiê
Brasil, p. 171. Para seu estágio na Gestapo, onde foi condecorado por Himmler,
Martha K. Huggins, Polícia e política — Relações Estados Unidos/América Latina, p.


56.
28 Para a posição de Coelho dos Reis, depoimento do general Antonio Carlos Muricy
ao CPDOC, vol. 2, fita 17, p. 325. Coelho dos Reis deixou a ESG para comandar a Escola
de Estado-Maior e em 1954 foi nomeado chefe-de-gabinete do ministro Henrique Lott.
Para a censura d'O grande ditador, Inimá Simões, Roteiro da intolerância — A censura
cinematográfica no Brasil, p. 28.
29 Nelson Werneck Sodré, Do Estado Novo à ditadura militar, pp. 9 e 62.
30 Carlos Lacerda, Depoimento, p. 120.
31 Golbery do Couto e Silva, Geopolítica e poder, pp. 15-6.
32 Idem, p. 19.
33 Para o número de golpes de 1945 a abril de 53, Morris Janowitz, Military



institutions and coercion in the developing nations, pp. 53-6. Na tabulação de Janowitz
não foi listada a deposição de Vargas, em 1945. Acrescentei-a.

34 Oswald Spengler, The decline of the West, pp. 376, 378 e 414.
35 Golbery do Couto e Silva, Os Estudos Estratégicos de Áreas, Morte e Transfiguração
das Civilizações e Culturas, em Geopolítica e poder, p. 57.


36 Golbery do Couto e Silva, Geopolítica e poder, pp. 57 e 15.
37 Idem.p. 15.
38 Essa noção de universalidade da guerra vinha do rescaldo das batalhas de


1914-18. A guerra total é o título do livro do general alemão Erich Ludendorff em
1935, cuja edição brasileira saiu em 41, pela Editorial Inquérito. Numa de suas
conferências, Golbery registrou que a idéia de "guerra total" vem do pensamento
alemão dos anos 20. Golbery Couto e Silva, Fortalecimento do Potencial Nacional —
Planejamento, em Geopolítica e poder, p. 464.

39 Golbery do Couto e Silva, Geopolítica e poder, p. 20.
40 Idem.
41 Gerald K. Haines, The americanization of Brazil, p. 63.
42 Memorando de conversa, de Edward C. Cole, diretor do Office of Regional American


Affairs, de 2 de outubro de 1953, citado em Gerald K. Haines, The americanization of
Brazil, p. 70. Para a participação do Estado na economia, idem, p. 63.
43 Gerald K. Haines, The americanization of Brazil, p. 87.
44 Idem, p. 185.


45 Conversa de Figueiredo com Geisel, 9 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.
46 Maço de quarenta folhas anotadas por Heitor Ferreira, intitulado Primeira
Transcrição do Pronunciamento do Presidente Geisel na Reunião do Alto-Comando das
Forças Armadas, em 10 de junho de 1974. APGCS/HF.


47 Bilhete de Heitor Ferreira a Figueiredo, de 8 de dezembro de 1976. APGCS/HF.

48 Oswaldo Cordeiro de Farias, Palestra sobre a Organização da Escola Superior de
Guerra, realizada na Escola de Estado-Maior, p. 7.
49 Em 9 de julho de 1958 Golbery usou essa expressão numa carta a Heitor Ferreira:


"Recebi ultimamente alguns encargos que me roubaram, tremendamente, o pouco


tempo disponível que o 'fritar bolinhos' comumente nos permite". APGCS/HF.
50 Edgar Carone, A Quarta República (1945-1964), pp. 556 e segs. O Memorial foi
assinado por 42 coronéis e 39 tenentes-coronéis.


51 Quatro folhas com o texto do manifesto. APGCS/HF.

52 Golbery reconheceu a autoria desses manifestos em diversas conversas com o
autor.
53 Depoimento do general Antonio Carlos Muricy ao CPDOC, vol. 2, fita 19, p. 353. Para

a conferência literária, Semana de Euclydes da Cunha (Cinqüentenário de Os Sertões),
conferência do general Canrobert Pereira da Costa, novembro de 1952 (plaquete).

APGCS/HF.

54 Golbery do Couto e Silva, O Planejamento e a Segurança Nacional, em Geopolítica e
poder, pp. 310 e 359.

55 Oliveiros S. Ferreira, Forças Armadas, para quê?, pp. 5-28.

56 Oswaldo Cordeiro de Farias, Conceito Estratégico Nacional — Diretrizes
Governamentais. Conferência feita na ESG em 10 de junho de 1952, pp. 1-2.

57 Golbery do Couto e Silva, O Planejamento e a Segurança Nacional, em Geopolítica e
poder, p. 324.


58 Golbery do Couto e Silva, O Planejamento e a Segurança Nacional, em Geopolítica e
poder, pp. 322-5.

59 Idem, p. 328.

60 Idem, pp. 325-6.

61 Edmundo Campos Coelho, Em busca de identidade — O Exército e a política na
sociedade brasileira, p. 124.

62 Golbery do Couto e Silva, Planejamento da Segurança Nacional — Conceitos
Fundamentais, conferência de 1958, em Geopolítica e poder, p. 431.

63 Para a tiragem, Heitor Ferreira, novembro de 2002. Em 1965 a edição do
Planejamento estratégico ainda podia ser encontrada na banca da Biblioteca do
Exército, na feira do livro realizada na Cinelândia, no Rio de Janeiro. Geopolítica do
Brasil, o livro seguinte de Golbery, foi publicado em 1967, com tiragem de 2 mil
exemplares. Contrato de Direitos Autorais entre a José Olympio Editora e Golbery do
Couto e Silva. APGCS/HF.

64 Ver Golbery do Couto e Silva, Geopolítica e poder, pp. 430-77.
65 O pacto fora concertado pelo próprio Juarez com o general Canrobert Pereira da


Costa e o brigadeiro Eduardo Gomes. Depoimento do general Antonio Carlos Muricy
ao CPDOC, vol. 2, fita 22, p. 12.
66 Golbery do Couto e Silva, 1973.
67 Carlos Lacerda, Depoimento, p. 151.
68 John W. F. Dulles, Carlos Lacerda — A vida de um lutador, vol. 1: 1914-1960, p.


224.
69 Nelson Werneck Sodré, Do Estado Novo à ditadura militar, p. 191. Golbery foi
libertado no dia 13. Ele e outros 34 oficiais foram levados depois para o Centro de
Preparação de Oficiais da Reserva. Carta do general Newton Cruz ao autor, julho de
2003.

70 Estudo da 3ª Seção do EME sobre a situação do Acordo de Fernando de Noronha.
Sem data nem assinatura, anotado por Golbery. APGCS/HF.

71 Depoimento do general Antonio Carlos Muricy ao CPDOC, vol. 2, fita 23, p. 1.
72 Carta de 20 de junho de 1957, do general Coelho ao coronel Ernesto Geisel.

APGCS/HF.

73 Três cartas de maio de 1959, do general Jair Dantas Ribeiro, comandante da Vila
Militar, 1ª DI, endereçadas a oficiais de infantaria em "caráter confidencial". APGCS/HF.

74 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 15 de outubro de 1960. APGCS/HF.
75 Idem.


Pés de veludo


"Ele era um homem misterioso. Não era afirmativo, andava com pés de
veludo. Acho que da equipe de então só o presidente o conheceu",
recordaria José Aparecido de Oliveira, secretário particular de Jânio
Quadros.1 Golbery sentia-se num posto-chave, mas nem sequer tinha
sala no palácio. Aninhara-se a mil quilômetros de Brasília, no terceiro
andar de uma das mais barulhentas esquinas do Rio de Janeiro:
avenida Presidente Vargas com rua Uruguaiana. O Conselho de
Segurança ocupava quatro andares num modesto edifício em cuja loja,
sob um letreiro vermelho, funcionava a Casa da Borracha. Uma parte
dos "fritadores de bolinhos" começaria a formar a Turma da Casa da
Borracha.

No Serviço Federal de Informações e Contra-informação havia
quinze oficiais. Comandava a equipe o coronel Ednardo D'Avila Mello,
um oficial benquisto, bom jogador de basquete, signatário do Memorial
dos Coronéis de 1954. Abaixo estavam os tenentes-coronéis João
Baptista Figueiredo, Walter Pires de Carvalho e Mário Andreazza.2
Vinham todos da militância antigetulista e das desordens que
resultaram na queda do ministro Estillac Leal, em 1952, e do presidente
Carlos Luz, em 55. Enquanto na última equipe de oficiais do SFICI de
Kubitschek podiam encontrar-se oficiais que discordavam da política do
governo, como o tenente-coronel Ernani Ayrosa, futuro sócio fundador
da Oban, no Serviço de Golbery não havia brechas: "Tudo gente nova —


e boa", escreveria.3
O coronel não estava para brincadeira:

Eles — gregórios,4 corruptos, oportunistas, aproveitadores e
comunas — já estão estrilando, e vão estrilar ainda mais. Por
enquanto, não têm ambiente. O povo goza da vassourada. Mas
quando a vida apertar — e vai apertar ainda (os desmandos de
JK produzirão frutos amargos por mais uns seis meses); as
medidas de austeridade e contenção são sempre amargas, como
toda mezinha contra indigestões — a onda de intranqüilidade e
desassossego vai crescer. E "eles" estarão à espreita para
aproveitá-la em seu próprio benefício. É preciso estar alerta. Não
nos descuidemos. A administração pública, civil, e também
militar, está muito infiltrada. Os canais oficiais de informação
são lerdos e não merecem confiança integral. É preciso não
parar.5

O misterioso secretário do Conselho de Segurança abria sua alma
correspondendo-se com um tenente de 21 anos que servia no 6º
Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado, em Porto Alegre. Chamava-
se Heitor Aquino Ferreira. Filho de um ferroviário, primeiro de turma,
atraíra a atenção de Golbery por ser, como ele, um leitor compulsivo.
Conspirava como típico oficial latino-americano, mas dava palpites
como marechal de Napoleão. Gravitava em torno dos "fritadores de
bolinhos" desde meados dos anos 50, ainda cadete. Era voluntário para
pequenos serviços de datilografia, recados e traduções. Durante a
campanha presidencial assessorara Jânio na sua passagem por Porto
Alegre e, manifestando um senso histórico que o acompanharia
República afora, guardara no bolso as notas que o candidato a
presidente levara para uma entrevista à rádio Guaíba.6 Nas cartas a
Heitor, a quem conhecera em 1955, Golbery praticava um diálogo
pedagógico em que, ao mesmo tempo que ensinava, desabafava e
aprendia.

Ora contava as malandragens dos outros: "Ninguém admite


sacrifícios, a não ser à custa alheia; todos são como ostras, agarrados
aos cargos melhores, de onde, para não sair, se submetem a qualquer
vexame. No fundo das mais amplas e sugestivas propostas, lá vem,
escondida, a pretensão mesquinha — 'os amigos lembram meu nome
para tal função (civil, na sua maioria) e, afinal, estou pronto a
sacrificar-me...'. Conseguida a função, o pedido é então considerá-la de
interesse militar... E por aí vamos".7

Ora contava as suas: "Afinal, podemos em alguns casos abrir mão
de punição de certas irregularidades passadas, contanto que isso
contribua decisivamente para impor um regime de moralidade, daqui
por diante. Julga isso algo cínico? Quero sua opinião sincera".8

Falava até mesmo daquilo que chamava de "cousas pessoais".
Contava suas emoções no casamento de Vera, sua filha mais velha:
"Engalanar-se todo para, afinal, perdê-la (até certo ponto, é claro)".9
Gostava de receber as cartas do tenente: "Sua terceira carta foi
econômica. Aumentou muito o preço do papel? Escreva logo".10

Golbery entrava na Casa da Borracha às sete e meia da manhã e
saía às oito e meia da noite. Sabia bem o que queria: "O urgente, para
mim, são as informações, depois, o problema do planejamento de
emergência (segurança interna)".11 Tentava reformar o Conselho de
Segurança dividindo-o em câmaras e separando a figura do seu
secretário-geral da do chefe do Gabinete Militar. Conseguira montar
uma rede de telex que ia ao palácio do Planalto, onde pusera um
aparelho capaz de operar mensagens em código e se ligara ao Gabinete
Militar por meio de um canal de rádio. Abastecia a Presidência com
uma sinopse e flashes, além de um boletim diário, mandado por malote
aéreo. No fim de cada mês elaborava um relatório de cinqüenta páginas
e uma Estimativa ultra-secreta de três ou quatro que, em tese, devia
chegar às mãos de Jânio.12 Começara, também, a organizar um arquivo
com fichas de funcionários e políticos, sobretudo de esquerda.

Numa dessas Estimativas previra um "sério período de agitações
sociais e mesmo perturbação da ordem pública" para o fim de 1961 ou
início de 62: "Impõe-se dispor de um sistema repressivo capaz de atuar


com eficiência e presteza, fazendo mesmo abortar as manifestações
mais perigosas". Queixava-se da "inadequada preparação, material e
psicológica, das próprias forças armadas para intervenções, seja contra
distúrbios de rua e manifestações grevistas, seja em face da agitação
das massas rurais".13

A obra-mestra de Golbery no Conselho foi a tentativa de
construção do dispositivo policial.14 Ele fizera um plano, produzira um
documento intitulado Diretrizes Governamentais para a Segurança
Interna e obtivera a criação de uma comissão coordenadora para tratar
do assunto.15 Conhecem-se apenas alguns detalhes do projeto. Caberia
ao EMFA O planejamento das ações repressivas no campo militar,
enquanto se reforçariam pessoal e verbas dos órgãos de busca das
Forças Armadas. Além disso, seriam aparelhadas secretarias de
Segurança Nacional nos ministérios civis. A comissão coordenadora,
com delegacias em diversos pontos do país, teria regras para o
funcionamento em períodos normais e em caso de crise, equipada com
planos de informações e pedidos de busca, contra-informação,
propaganda e contrapropaganda.16 Tratava-se de enquistar nas Forças
Armadas um aparelho policial perfeito e acabado.

Desde janeiro de 1959, quando Fidel Castro entrara em Havana, a
política latino-americana estava convulsionada pelo mito dos
guerrilheiros e pela gradativa radicalização daquela revolta de barbudos
românticos. Castro anunciara que "estamos fazendo uma revolução
socialista debaixo do nariz dos americanos" e assombrara o mundo
repelindo em 72 horas uma invasão de exilados patrocinada pelos
Estados Unidos. Capturara 1100 combatentes e obrigara o presidente
John Kennedy a trocá-los meses depois por comida e remédios.
Francisco Julião, o líder das Ligas Camponesas do Nordeste, principal
candidato a Fidel Castro brasileiro, levara cem lavradores para Havana.
No Conselho de Segurança, um estudo sobre as Ligas resultara num
documento de trinta páginas.17


Havia uma novidade no pensamento militar ocidental. Chamava-
se guerra revolucionária. A expressão fora enunciada pela primeira vez
por Mao Zedong em 1929 e resumia-se a três grandes princípios, um
político e dois militares, todos típicos da Guerra Civil Chinesa:

O guerrilheiro está para o povo como o peixe está para a água.

Dividir as nossas forças para levantar as massas, concentrá-

las para lidar com o inimigo.

O inimigo avança, nós nos retiramos. O inimigo acampa, nós

espicaçamos. O inimigo está esgotado, nós atacamos. O inimigo

bate em retirada, nós o perseguimos.18

No centro das preocupações de Mao e de seus adversários havia
uma só questão: o apoio do povo.

Derrotados em 1954 na Indochina (depois de terem sido batidos
na Segunda Guerra Mundial), os generais franceses buscaram nos
alfarrábios maoístas uma explicação tautológica para seus desastres:
como as guerras revolucionárias são decididas pelo apoio popular,
perdeu-se a Indochina porque os vietnamitas ficaram do lado dos
vietnamitas.

Transformando o conflito militar numa competição psicológica, os
generais franceses diminuíram a importância das guerras que perderam
e aumentaram a relevância dos combates que não travaram. Em
outubro de 1954, a Revue Militaire d'Information — o mais respeitado
periódico do gênero na França — publicou o artigo intitulado "O papel
ideológico no exército", do ex-comandante da aviação na Indochina,
general Lionel Max Chassin. Em fevereiro de 1957, a Revue saiu com
um número especial intitulado La Guerre Révolutionnaire e teve de
dobrar sua tiragem, chegando a quase 100 mil exemplares. Nos três
anos que separaram essas duas publicações, o exército francês
conseguiu uma explicação para o que lhe sucedera na Indochina e uma
justificativa para o que faria na Argélia.19 Produziu até mesmo uma
denominação de conveniência: Guerra Suja.20 Influenciando uma
parcela do pensamento militar americano, o conceito de guerra


revolucionária serviria, a partir de 1960, para explicar o que acontecera
em Cuba e para justificar o que aconteceria no Vietnã.21

A novidade mal chegara ao Brasil. A temível figura do guerrilheiro
estivera ao largo das formulações da ESG. Em 1950 o general Castello
Branco falara nele durante uma palestra intitulada Tendências de
Emprego das Forças Terrestres na Guerra Futura, anexando-o ao arsenal
das forças nacionais: "Tem relevo o emprego de guerrilheiros que, não
sendo numerosos, exigem que a escolha das regiões para guerrilhas se
faça em combinação bem delineada com as operações regulares".22 Sete
anos depois, tratando da Doutrina Militar Brasileira, Castello continuou
refratário à idéia de existência de uma modalidade de guerra
subversiva.23 Na lista de tópicos da Doutrina de Segurança Nacional
preparada para o ano letivo de 1955, a ESG também não trata de guerras
revolucionárias ou congêneres.24

Um conceito semelhante, de "guerra subversiva", fora introduzido
no vocabulário dos chefes militares em 1953, pelo general Canrobert
Pereira da Costa. Ele usou a expressão numa palestra, mas ressalvou:
"Se bem que alguns estudiosos a cataloguem como uma forma distinta
de guerra, preferimos admiti-la como um método efetivo empregado pela
'guerra fria'".25 Cinco anos depois o general Zeno Estillac Leal, chefe do
Estado-Maior do Exército, voltou a falar em "guerra subversiva".26 Um
trabalho intitulado Estratégia Militar Brasileira, preparado no EME em
junho de 1958, mencionava essa nova modalidade de conflito, mas
ainda definia guerra como um "ato característico pelo uso de armas
bélicas".27

Em 1959, o general Augusto Fragoso fez na ESG uma palestra
intitulada Introdução ao Estudo da Guerra Revolucionária. Embebido na
bibliografia francesa, o general achava que "a América Latina,
provavelmente em futuro próximo, será teatro de guerras
revolucionárias".28 Acreditava que o Brasil vivia um "estado pré-
revolucionário". Naquele ano já haviam partido de Cuba expedições de
guerrilheiros para o Panamá (onde foram capturados) e a República
Dominicana (onde foram massacrados). No Brasil a única sedição fora


uma revolta de 29 militares e cinco civis comandados pelo coronel João
Paulo Burnier. Resultara na tomada da pista de pouso de Aragarças, na
Amazônia. Deveria ser o epicentro de uma rebelião que deporia o
presidente Kubitschek, mas terminara com a fuga dos insurretos ao
som de um manifesto anticomunista.

Golbery mostrava-se implacável no controle dos comandos,
afastando oficiais e funcionários com simpatias esquerdistas ou até de
lealdade duvidosa. Refugava expurgos generalizados e autos-de-fé para
os quais a direita militar, mesmo não tendo força, revelava disposição:

O macarthismo é um perigo tremendo e, ao cabo,
contraproducente. Assim viu-se nos EUA e, até certo ponto, houve

o mesmo no Brasil com o penabotismo.29 O que importa é manter
os indigitados em funções de onde não possam causar grandes
males, reprimi-los sempre que necessário, vigiá-los
constantemente (não transformá-los em mártires). Todo comuna
ou suposto comuna é um "risco" — risco variável, cada um de
per si. Mas haverá sempre suspeitas infundadas, erros de
apreciação, calúnias mesmo. Em nome desses possíveis
inocentes advogo tratamento de quarentena para todos — não a
eliminação.30
O coronel operava a precária rede do SFICI, onde os boatos eram
indicativos do grau de tensão política e de delírios anticomunistas. Num
só informe especial, o SFICI registrara o desembarque de 22 pessoas
saídas de um submarino diante da praia de Amaralina, na Bahia, e a
desova de caixotes de armas com inscrições em tcheco no subúrbio
carioca. A mesma fonte calculava que na primeira metade de 1961 já
haviam entrado no Brasil 2 mil comunistas chineses, técnicos em
guerrilhas.31 Avisava-o também de que o governador Carlos Lacerda
mandara instalar fechaduras especiais no seu gabinete do palácio
Guanabara e que os revoltosos de Aragarças poderiam estar preparando
uma nova aventura.


Em agosto de 1961 o coronel parecia satisfeito. No dia 3 concluíra
sua Estimativa de Situação n-6. Nela via o presidente fortalecido diante
de uma oposição desorientada e um congresso desmoralizado.
Orgulhava-se dos progressos feitos na montagem do Sistema de
Segurança Interna e achava que o país estava em calma, mas ainda
desconfiava que haveria uma crise entre o último trimestre do ano e o
primeiro de 1962.32

A crise chegou antes, na manhã de 25 de agosto, Dia do Soldado.
Golbery mal completara cinqüenta anos. Pelo resto da vida sustentou a
tese de que tudo teria sido resolvido se alguém tivesse trancado Jânio
Quadros num banheiro até que clareasse as idéias. Durante a crise da
renúncia a Casa da Borracha transformou-se num acampamento
militar, ao qual não faltaram camas de campanha. Golbery movia-se na
cúpula da conspiração e, sob o seu comando, funcionaram uma
unidade de guerra psicológica, um serviço de censura e uma rede de
escuta telefônica.

Por intermédio da Agência Nacional, divulgavam-se notícias
destinadas a intoxicar a opinião pública propalando a idéia de que os
ministros militares controlavam a situação e a eles só se opunham os
comunistas. O general Machado Lopes teria entregado o comando do III
Exército a Cordeiro de Farias, nomeado por Denys. Brizola estaria
preso, e Luiz Carlos Prestes comandava a resistência no interior do Rio
Grande do Sul organizando destacamentos guerrilheiros.33 O próprio
secretário de Segurança da Guanabara pedia à TV Rio que transmitisse
a notícia das formações paramilitares de Prestes.34 O tenente Heitor
Ferreira desertara o III Exército e sentara praça na Casa da Borracha.
Projetava panfletos para a central de guerra psicológica, falando em
nome do demônio vermelho:

Aos trabalhadores:

A China é a maior potência comunista da Ásia.

A Rússia é a maior potência comunista da Europa.


O Brasil deve ser a maior potência comunista da América.
A greve geral é o melhor caminho.
Partido Comunista Brasileiro.35


Isso no mundo das notícias falsas. No das verdadeiras,
organizara-se um serviço de censura através do qual o Conselho de
Segurança cuidava das rádios e televisões, enquanto a polícia do Rio de
Janeiro ficava com os jornais. Pela primeira vez desde os anos 40, os
jornais do Rio chegaram às ruas censurados. As primeiras páginas do
Correio da Manhã e do Diário de Notícias estavam manchadas por
grandes espaços brancos, indicativos de textos suprimidos.36 O Jornal
do Brasil eO Dia foram apreendidos e só puderam voltar às bancas
quando concordaram em esquecer o texto do manifesto do marechal
Lott condenando o golpismo dos ministros militares.

Golbery parece ter percebido cedo que a usurpação encruara.
Articulou-se com a manobra que entregava a Goulart uma Presidência
mutilada. Os ministros militares divulgaram um texto que proclamava
"a absoluta inconveniência do regresso ao país do vice-presidente João
Goulart", mas nele havia um alçapão. Deslocava uma parte do problema
para o tipo de regime que Jango receberia, abandonando a
exclusividade da discussão do veto ao tipo de Jango que assumiria a
Presidência. Remetido a Brasília, o papel dormiu um ou dois dias na
gaveta do marechal Denys, que esqueceu até mesmo onde o tinha
guardado.37 Quando os ministros militares divulgaram o texto, o estilo
traíra o escriba: "Na presidência da República, em regime que atribui
ampla autoridade de poder pessoal ao Chefe da Nação, o Sr. João
Goulart constituir-se-á, sem dúvida, no mais evidente incentivo a todos
aqueles que desejam ver o país mergulhado no caos, na anarquia, na
luta civil. As próprias forças armadas, infiltradas e domesticadas,
transformar-se-iam, como tem acontecido noutros países, em simples
milícias comunistas".

No rascunho, Corca arrematara: "Seria o fim". Na versão final
cortou o toque apocalíptico.38


Os telefonemas internacionais em que Jango negociava sua volta
eram ouvidos pela central do Conselho de Segurança. Verdadeiras jóias.
Numa conversa com o ex-presidente Juscelino Kubitschek, Goulart
esclarecera o destino que pretendia dar ao regime parlamentarista: "Isso
mudaremos depois".39

A guerra de Golbery estava terminada. Cometera um manifesto
com duas mesóclises, tentara articular uma emenda constitucional que
suspendesse as liberdades públicas e marcasse novas eleições
presidenciais, mas nada ficou de pé.40 Sua Censura fora derrotada pela
sobrevivência da Rede da Legalidade e por uma novidade tecnológica, os
rádios portáteis. Cabiam na palma da mão e ouviam Porto Alegre. A
reação popular ao golpe pusera em movimento um mecanismo que
Golbery descrevia com freqüência: "O Exército é como um navio. Ele fica
imóvel, até que se mexe um milímetro numa direção. Então o resto vai
junto".41 Em 1961 o milímetro chamara-se general Machado Lopes.

O dispositivo de segurança interna que Golbery costurava talvez
tivesse ficado pronto nos últimos meses de 1961, mas a verdade é que
em agosto não serviu para nada. Os atos de força das primeiras 48
horas esgotaram-se na censura, nas prisões e nas pancadarias. Quando
à força foi preciso adicionar a vontade de brigar, os dispositivos
golpistas dissolveram-se em desculpas e dissimulações, perfilando-se
por fim para a posse do novo presidente.

Derrotado, o coronel não tinha muito que temer. A última coisa
que interessava ao novo governo era abrir uma temporada de
perseguições militares. Além disso, Golbery jamais fora prejudicado na
carreira por conta das conspirações em que se metia. Mesmo que Jango
não o promovesse a general, sobreviveria ao seu governo. Praticamente
desconhecido fora do meio militar e do grupo de conspiradores
renitentes, estava longe do alcance das vinganças políticas. Quiseram
transferi-lo para a Paraíba, mas Golbery pediu passagem para a
reserva. Em fevereiro de 1962 o presidente João Goulart assinou o
decreto que dava ao coronel duas promoções a que tinha direito,
transformando-o em general-de-divisão-e-pijama. Nascera o General


Golbery.42 Ele desabafaria: "Eu saí do Exército em 1961 porque me
enojei do que aconteceu. É claro que a batalha contra a posse de Jango
estava perdida, mas o meu nojo veio da maneira como as pessoas se
comportaram diante da adversidade. Não pensaram em resistir. Nosso
pessoal foi cagão. Tínhamos de um lado os malucos que pretendiam
desencadear a Operação Mosquito e do outro os que não queriam se
comprometer".43

O coronel sumiu. Dos 34 anos que passara no Exército, vivera
quatro quintos fora da rotina dos quartéis. Salvo uma rápida passagem
pelo estado-maior da ID-4, em Belo Horizonte, não via uma tropa desde
que voltara da FEB, em 1945. Não comandava desde 1942, quando
deixara o 13º Batalhão de Caçadores, em Joinville. Saíra ressentido,
porém grato: "Nunca me arrependi. Obtive da carreira o que ela podia
me dar".44 Mudara-se do apartamento de Laranjeiras para uma casa
fantasmagórica em Jacarepaguá, com dois andares mal iluminados,
livros em quase todas as paredes e sapos no jardim. Deveria ser
lentamente tragado pela rotina dos generais da reserva que consomem o
que lhes sobra da vida entre visitas, reminiscências e netos. Nem
automóvel tinha, mas se os novos oficiais que tomaram conta do
Conselho de Segurança tivessem prestado atenção, talvez percebessem
que Golbery não se rendera. Sumira boa parte do fichário do SFICI. 45

No dia 20 de março de 1962 o primeiro-ministro Tancredo Neves
chegou à Escola Superior de Guerra para a aula inaugural. Discorreu
sobre o tema O Panorama Mundial e a Segurança Nacional: "A opção,
pois, em busca de um nível de desenvolvimento econômico auto-
induzido, para os povos ainda retardados em seus progressos, não se
acha mais entre o sistema comunista, com sua rígida planificação
global a cargo do Estado, de um lado e, de outro, um liberalismo
econômico do modelo clássico, aberto a todas as aberrações, perversões
e misérias".46

Não podia haver engano. Era o Corca. O escriba fugira do pijama.


1 Entrevista de José Aparecido de Oliveira a Suzana Veríssimo, de Veja, original
consultado em 1986 no Departamento de Documentação da Editora Abril.
2 Lista de Oficiais Lotados no SFICI em 1961, 1961. APGCS/HF.


3 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 11 de março de 1961. APGCS/HF.
4 Denominavam-se "gregórios" os oficiais acusados de serem ligados ao palácio
presidencial. Tratava-se de uma referência crítica à condecoração dada a Gregório
Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getulio Vargas, pelo ministro da Guerra.


5 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 18 de janeiro de 1961. APGCS/HF.
6 Uma folha, com notas manuscritas de Jânio Quadros, de 9 de setembro de 1960.


APGCS/HF.
7 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 11 de março de 1961. APGCS/HF.
8 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 25 de julho de 1961. APGCS/HF.


9 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 7 de setembro de 1960. APGCS/HF. Golbery
tinha um filho, Golbery do Couto e Silva Jr., e anos mais tarde ele e a mulher
adotariam Angélica do Couto e Silva.


10 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 21 de abril de 1961. APGCS/HF.
11 Idem.
12 Cartas de Golbery a Heitor Ferreira, de 21 de abril, 27 de maio e 25 de julho de


1961. APGCS/HF.
13 Estimativa de 4 de abril de 1961. APGCS/HF.


14 Estimativa de 5 de maio de 1961. APGCS/HF.

15 As Diretrizes Governamentais para a Segurança Interna foram expedidas em 9 de
maio de 1961, em Estimativa de 5 de junho de 1961. APGCS/HF.

16 Agenda da reunião de 1º de junho de 1961 da comissão coordenadora para a
Segurança Interna. Três folhas assinadas pelo general Pedro Geraldo de Almeida,
chefe do Gabinete Militar e secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional.
Marcado "ultra-secreto". APGCS/HF.

17 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 25 de julho de 1961. APGCS/HF.

18 A primeira frase é uma tradução livre de um trecho do capítulo "O problema
político da guerra de guerrilhas", de Sobre a guerra de guerrilhas
<http://www.marxists.org/reference/archive/ mao/works/1937/guerrillawarfare/
chO6.htm>, e Jonathan D. Spence, The search for modern China, p.375.

19 Para a crítica do conceito de guerra revolucionária, ver a argumentação de Edgar S.
Furniss Jr., em De Gaulle and the French Army, pp. 41-63. Para as publicações
francesas, e também para o surgimento do conceito de guerra revolucionária, ver
Raoul Girardet, "La crise militaire française — 1945-1962", Cahiers de la Fondation
Nationale des Sciences Politiques, nº 123, 1964, Paris (Armand Colin).

20 "La guerre sale" em francês. David Halberstam, The Fifties, p. 399.

21 Para uma visão da matriz francesa do conceito de guerra revolucionária, ver o
depoimento do general Octavio Costa, em Visões do golpe, organizado por Maria Celina
d'Araujo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro, p. 78.

22 Humberto de Alencar Castello Branco, Tendência de Emprego das Forças Terrestres
na Guerra Futura, p. 17.

23 Idem, A Doutrina Militar Brasileira, C1-82-57 e C2-15-57.

24 Doutrina de Segurança Nacional — Tópicos para o Ciclo 2 do 1º Período. E-01-55,


Anexo 1, ESG, 1955.

25 O Poder Nacional, conferência do general Canrobert Pereira da Costa na ESG, em 1º
de abril de 1953, p. 18.

26 Entrevista do general Golbery a Maurício Caminha de Lacerda, O Jornal, 6 de
agosto de 1967, "Testemunhos do nosso tempo (v). O grande mundo de Golbery", p. 6.

27 Estratégia Militar Brasileira, seis folhas datilografadas, de junho de 1958. APGCS/HF.
Segundo uma anotação do general Ernesto Geisel a Heitor Ferreira, tanto ele como
Golbery podem ter sido o autor desse documento. Geisel certamente o reviu.

28 Augusto Fragoso, Introdução ao Estudo da Guerra Revolucionária, C-85-59, citado
em José Alfredo Amaral Gurgel, Segurança e democracia, p. 52. A expressão "guerra
revolucionária" popularizou-se em 1963, quando o deputado Bilac Pinto, presidente da
UDN, pronunciou na Câmara uma série de discursos acusando o governo Goulart de
patrocinar esse tipo de ação política. A bibliografia citada pelo deputado é basicamente
francesa. Bilac Pinto, Guerra revolucionária.

29 O termo macarthismo, criado pelo chargista Herblock, do The Washington Post,
designava a política de perseguição que o senador Joseph McCarthy promoveu nos
Estados Unidos entre 1950 e 1954 contra militantes e simpatizantes do Partido
Comunista Americano. Penabotismo, termo muito pouco usado, referia-se ao almirante
Carlos Penna Boto, presidente da Cruzada Brasileira Anticomunista. Ele fora colega de
Golbery na ESG.

30 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 21 de abril de 1961. APGCS/HF.

31 Maço de nove folhas, uma delas anotada por Golbery, intitulado Informe Especial
nº 25. APGCS/HF.

32 Estimativa de Situação nº 6, de 3 de agosto de 1961. APGCS/HF.

33 Amir Labaki, 1961 — A crise da renúncia e a solução parlamentarista, p. 59.

34 Walter Clark e Gabriel Priolli, O campeão de audiência, p. 104.

35 Manuscrito de Heitor Ferreira, em papel da secretaria geral do CSN. APGCS/HF.

36 Diário de Notícias, 30 de agosto de 1961. AA. Para o Correio da Manhã, lembrança
do autor.

37 Para o fato de o manifesto de Golbery ter ficado um ou dois dias na gaveta de
Denys, Ernesto Geisel, outubro e novembro de 1994. Ver também Ernesto Geisel,
volume organizado por Maria Celina d'Araujo e Celso Castro, p. 139.

38 Quatro folhas manuscritas a lápis, de Golbery do Couto e Silva. APGCS/HF. Junto
com essas folhas estão mais dois exemplares do manifesto, um impresso como se fora
volante e outro como o número 1104 da publicação Noticiário do Exército.

39 Uma folha manuscrita, sem data nem assinatura, da pasta Guerra de 1961.

APGCS/HF.

40 Original de uma entrevista de Suzana Veríssimo com Prudente de Morais Neto, a
quem Golbery mandou pedir o texto da emenda. Texto consultado no Departamento
de Documentação da Editora Abril, em 1985.

41 Golbery repetiu esse conceito ao autor em diversas ocasiões.

42 Golbery era o 118º coronel com curso de estado-maior listado no Almanaque do
pessoal militar do Exército, de 1962, p. 47. O 117º, coronel João Dutra de Castilho, foi
promovido a general-de-brigada em julho de 1964.

43 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984. Golbery tratou desse episódio, em
outro contexto, também em 1975.

44 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984.

45 Heitor Ferreira, dezembro de 1991.


46 Tancredo Neves, O Panorama Mundial e a Segurança Nacional, C-01-62, ESG,
1962. Maço de dezessete folhas manuscritas de Golbery. APGCS/HF. A conferência de
Tancredo é ipsis verbis o texto manuscrito, salvo cinco parágrafos do final da palestra.


O paliteiro do IPÊS


Um, agnóstico, recluso, autoritário e asceta, só falava a sério. O outro,
educado pelos jesuítas, cortesão, tolerante e gastador, parecia estar
sempre brincando. Numa época em que a burguesia brasileira cabia no
cinema Palácio, Augusto Trajano de Azevedo Antunes e Antonio Gallotti
eram as únicas pessoas capazes de reuni-la em menos de uma semana.
Antunes — Dr. Antunes, para os íntimos, A. T.A., para os empregados —
era o dono da Indústria e Comércio de Minérios, a Icomi, sócio da
Bethlehem Steel e da Hanna Mining, amigo do banqueiro David
Rockefeller. Terceiro filho entre seis, começara a vida como modesto
engenheiro. Associara-se ao dono de uma casa lotérica de Belo
Horizonte para explorar o manganês do Tijuco e em 1946 descobrira as
montanhas de minério da serra do Navio, no território do Amapá.
Obcecado por métodos de gerência e técnicas industriais, trabalhava
duro. Com 56 anos, era um caso raro de milionário socialmente
imperceptível.

Gallotti — Tony, para os íntimos — era o presidente da maior
empresa privada do país, a Light, companhia canadense que controlava
os serviços de energia elétrica, bondes, gás e telefones do Rio de Janeiro
e de São Paulo. Fascista nos anos 30, era um dos quinze filhos de um
casal de imigrantes italianos que se assentara em Santa Catarina.
Tinha o sotaque do lugar e a voz marcada pela língua presa. Sua
mansão avarandada era um símbolo de força e volúpia: ficava na rua


São Clemente, em Botafogo, ao lado do palácio do embaixador inglês, da
casa do americano e do palacete do português. Anfitrião impecável, com
54 anos dava a impressão de estar sempre voltando da praia.

Tinham em comum apenas um início de vida como postalistas.
Não podiam ser mais diferentes, no entanto a habilidade com que
manipulavam a conexão do Estado com seus negócios, o
anticomunismo, um certo prazer político em articular seus pares e o
medo da influência esquerdista no governo Goulart os faziam idênticos.
Oitenta e três dias após a chegada de Jango ao Planalto, as "classes
produtoras", autodenominação gloriosa que o empresariado se atribuía,
aquartelaram-se, fundando o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais,

o IPÊS. Antunes e Gallotti achavam-se no coração da manobra, um no
comitê executivo, ambos no comitê diretor. Haviam sido convertidos
pela figura impetuosa de Gilbert Huber Jr., dono das Listas Telefônicas
Brasileiras. Ao lado dele estava o general Heitor Herrera, bem-
humorado "fritador de bolinhos", que desistira do Exército ainda antes
da posse de Jânio, porque se julgava incapaz de lidar com "muito
calhorda fantasiado de general".1 Meses depois, quando seu amigo
Golbery tomou a mesma decisão, Herrera resgatou-o, instalando-o em
quatro das treze salas que o instituto ocupava no 27º andar do edifício
Avenida Central, o mais moderno da cidade, erguido sobre o terreno
onde ficara um dos tradicionais hotéis da República Velha. No arranha-
céu de elevadores falantes funcionavam também a agência de notícias
cubana Prensa Latina e um pedaço da cúpula do Partido Comunista.
Na década de 70, para o bem da memória política nacional e
discreta contrariedade de Golbery, o historiador René Armand Dreifuss
encontrou o arquivo do IPÊS e reconstituiu boa parte de sua existência
no livro 1964: a conquista do Estado. Ao nascer, o instituto tinha oitenta
sócios, e em menos de dois anos chegaria a quinhentos. Uma estrutura
semelhante formara-se em São Paulo, e a sigla ramificara-se pelo Rio
Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco e Amazonas.
Estatutariamente apolítico, o IPÊS destinava-se a estimular pesquisas e
debates a fim de "contribuir para o progresso econômico" e "fortificar o


regime democrático do Brasil". Poucos clubes conseguiram agrupar
tantos sobrenomes: Guinle de Paula Machado, Jacobina Lacombe,
Ermírio de Moraes, Toledo Piza, Quartim Barbosa, Dumont Villares.
Poucos negócios juntaram tantos logotipos: Esso, Mesbla, Rhodia, Arno,
Sul América, Antarctica Paulista. Poucos ministérios reuniram tanto
talento: Delfim Netto, Mario Henrique Simonsen, Augusto Frederico
Schmidt, Miguel Reale, José Rubem Fonseca.2 O dinheiro abundou. Os
documentos esparsos da contabilidade do instituto indicam que em
1962 as seções carioca e paulista projetavam orçamentos para o ano
seguinte estimando as despesas em cerca de 900 mil dólares mensais.3
O IPÊS teve uma caixa clandestina, e dela ficou registro na gravação de
uma conversa do embaixador Lincoln Gordon com o presidente John
Kennedy, no final de julho de 1963, na Casa Branca. Gordon pediu-lhe
a abertura de um fundo clandestino de financiamento de operações
políticas, semelhante ao montado em 1948, na Itália, fazendo-se vista
grossa a "possíveis desperdícios". O IPÊS seria o principal destinatário
desse dinheiro. Sete segundos suprimidos da fita deixada por Kennedy
impedem que se saiba quanto Gordon queria gastar. Conhece-se a
reação do presidente americano: "É muito dinheiro. Sabe como é, aqui,
numa campanha presidencial, gastam-se mais ou menos 12. E [com]
nossos custos... já são 8 milhões. É muito dinheiro para uma eleição".4

Uma parte do dinheiro arrecadado pelo IPÊS emergiu da
contabilidade oficial das empresas que o ampararam. Os números da
Light revelam que a empresa contribuiu com 200 mil cruzeiros mensais
de dezembro de 1961 a agosto de 1963, num total equivalente a 2
milhões de dólares.5 Para que não se rastreassem todos os seus
financiadores, a maior parcela dos recursos chegava por meio do
complexo sistema de fraudes contábeis habitualmente utilizado para o
saque às empresas em benefício dos donos ou diretores. Questão
"delicada para o instituto e para as firmas", nas palavras do banqueiro
Cândido Guinle de Paula Machado, dono do Banco Boavista e das
Docas de Santos. Ela foi resolvida através da metodologia do "por fora".
Fraudaram-se transações com a Pontifícia Universidade Católica e com


a Light, simularam-se doações de sindicatos patronais, forjaram-se
contratos de assessoria e serviços-fantasmas.6 Algumas das grandes
agências de publicidade do país ofereceram-se para descarregar no IPÊS
recursos que as empresas lançariam como despesas de propaganda.
Em outros casos, como sucedia com a Varig e a Cruzeiro do Sul, as
contribuições vinham sob a forma de serviços gratuitos. A seção
mineira do Instituto, estudada por Heloísa Starling, recebeu 9 milhões
de cruzeiros em doações. Os sócios passavam-lhe entre 60 mil e 120 mil
cruzeiros, numa época em que o maior prêmio da Loteria Federal
pagava 20 mil.7

A maior fonte de despesas — e de energia — do IPÊS era o seu
serviço de divulgação. O instituto encomendava artigos a 5 mil cruzeiros
a peça (equivalentes a 1300 dólares, pagos pela cervejaria Antárctica).8
No apogeu, em 1963, lançou 2,5 milhões de impressos, entre livros,
apostilas e folhetos. O IPÊS editou desde alguma produção anticomunista
nacional, como UNE: instrumento de subversão, até clássicos como A
Revolução dos Bichos, do socialista inglês George Orwell, e trabalhos de
alto nível como Ideologia e poder na política soviética, do professor
Zbigniew Brzezinski, cuja sopa de letras só viria a se tornar conhecida
uma década depois. Distribuiu também pelo menos catorze filmes com
duração de cerca de dez minutos, apresentados no início das sessões de
cinema.9 Seus pequenos documentários eram produzidos pelo jornalista
Jean Manzon, diretor dos épicos da propaganda juscelinista. Um dos
colaboradores anônimos dessa produção político-literária era o próprio
Golbery. Escrevendo para um programa de rádio, nem sequer parecia o
Corca:

O que é comunismo?

Para responder-lhe em poucas palavras, meu amigo, só

posso dizer a você que o comunismo é uma grande farsa, a

maior que o mundo todo já viu até os dias de hoje.

Você vai dizer que isso é exagero, que é má vontade minha.

Se houver algum comunista por perto, vai me xingar logo,


"entreguista, vendido aos americanos" etc. Não importa.

Você que é um homem honesto e que sabe mesmo o que é o

comunismo — não se precipite. Eu aqui estou para demonstrar

tudo aquilo, tintim por tintim. E com provas. Com documentos.

Com depoimentos até dos próprios comunistas.

Acompanhe esta série de programas e você verá.10

O instituto também patrocinava editoriais e reportagens na
imprensa. Com graus variáveis de colaboração, os principais jornais e
emissoras do país tinham conexões com o IPÊS. Como explicava o próprio
Antunes: "O IPÊS fará apenas o papel de espoleta para desencadear o
debate dos assuntos".11 O instituto teve seu momento de brilho quando

o jovem engenheiro Arlindo Lopes Corrêa, num trabalho intitulado
Conquista das classes médias para a ação política em grupo, usou a
expressão "república sindicalista" para designar o que seria o projeto de
poder da esquerda.12 Nunca se soube o que fosse, assim como não se
encontrou nenhuma pessoa ligada ao governo Goulart que pudesse
defini-la.
Em pelo menos um caso o instituto fez papel de censor,
pressionando a direção da TV Rio para moderar as piadas do humorista
Chico Anísio, um simpatizante do Partido Comunista.13 Subvencionou
diretamente jornais, revistas e emissoras. O geólogo Glycon de Paiva,
colaborador de Antunes, amigo de Golbery e membro do comitê
executivo do IPÊS, ensinou: "Opinião pública significava dinheiro".14

O IPÊS foi o mais articulado e bem-sucedido episódio de
mobilização da história da plutocracia nacional. Existiu numa época de
proliferação de organizações conservadoras e sobreviveu a todas. Delas,
a mais influente foi o Instituto Brasileiro de Ação Democrática, IBAD,
grande cofre dos candidatos conservadores nas eleições de 1962. Seu
criador, Ivan Hasslocher, abandonou a vida pública e mudou-se um ano
depois para a Suíça. Nunca mais se ouviu falar dele, mas do tesouro do
IBAD falou-se por décadas. "A campanha eleitoral de 1962 foi uma orgia
de dinheiro", lembraria Walter Clark, o diretor-geral do canal 13. "A


grana grossa vinha mesmo do IBAD. Só desse grupo a TV Rio recebeu
verba equivalente a três vezes o seu faturamento."15 Pode-se estimar
que o instituto tenha derramado perto de 20 milhões de dólares na
campanha eleitoral. Segundo o embaixador Lincoln Gordon, o dinheiro
do governo americano passou de muito a casa do milhão e pode ter
chegado a 5 milhões de dólares.16

Na clandestinidade, praticando atentados terroristas, operava o
MAC, Movimento Anti-Comunista, formado por policiais, militares e
direitistas extremados. Assustado com as acusações de que as siglas
eram farinha do mesmo saco, Gallotti aconselhava: "Cada membro do
IPÊS acusado de pertencer ao MAC deve se defender. Porém, em sua
defesa, não deverá positiva ou negativamente fazer a mínima referência
ao IPÊS". Em 1963, inquieta com o funcionamento de uma comissão
parlamentar de inquérito que investigava o IBAD, a cúpula do IPÊS decidiu
limpar seus arquivos.17

Golbery ciscava aqui e ali, mas seu negócio era o GLC, inicialmente
conhecido como Grupo de Levantamento da Conjuntura, rebatizado
depois como Grupo de Pesquisa. Suas atividades ficaram fora das atas,
seus trabalhos, fora do arquivo. Como relembraria um dos dirigentes do
instituto, a unidade de Golbery agia numa "variedade de operações de
natureza menos acadêmica do que aquelas normalmente creditadas ao
IPÊS".18 Eram as operações que a Casa da Borracha não tivera tempo de
fazer. O general trabalhava com dois relógios. Num propunha que se
discutisse um "plano mestre para um prazo máximo de oito a dez anos".
19 Noutro, para as necessidades da ocasião, montara uma rede de
informações que custava em torno de 300 mil dólares por ano.20 Boa
parte do dinheiro ia para a ampliação do fichário que tirara do SFICI. Nele
tinham preferência os esquerdistas, mas havia lugar para todos. Cada
ficha tinha espaço para informações triviais como endereço, telefone e
filiação, além de seis linhas para "outros dados". No rascunho do
cadastro de Cecil Borer, diretor do DOPS carioca e companheiro de


detenção de Golbery em 1955, anotara-se: "Acusado de envolvimento no
metralhamento da UNE".21 Não passou de 3 mil o número de fichas
reunidas pelo IPÊS. 22

Nas quatro salas de Golbery funcionava um serviço de
informações. Nele produziram-se desde uma Amostra da Infiltração
Comunista no Brasil, listando nomes e cargos ocupados pelo PCB, até um
Levantamento da Infiltração Comunista na Imprensa, de circulação
reservada.23

"Todo mundo sabe que eu estou aqui. O pessoal almoça na
vizinhança e vem para cá palitar os dentes", explicava o general.24 Na
época o restaurante Terrasse, situado no mesmo edifício do IPÊS, era um
dos melhores da cidade. Além disso, o Clube Militar, a Associação
Comercial e o Clube dos Seguradores ficavam num raio de dez
quarteirões do paliteiro. Golbery chamava seu serviço de "monitoração".
Num exemplo de sua vigilância, em janeiro de 1962 ele avisava que os
comunistas planejavam reunir-se em Niterói e propunha: "Convém
exercer pressão, desde já, sobre as autoridades do Estado do Rio, para
que se aparelhem e disponham a atuar quando necessário".25

Um ano depois, quando um plebiscito devolveu a Jango seus
poderes presidenciais, Golbery voltara a fabricar as Estimativas, como
fazia no SFICI. Dessa vez não tinham timbre. Eram duas por mês.

Mal começara o regime presidencialista, o general propunha: "A
abertura, desde já, da questão sucessória tem a vantagem de poder
propiciar reações mais fortes a qualquer manobra continuísta do
presidente da República, despertando, por outro lado, esperanças novas
nos meios ativistas da política nacional".26

No dia 1º de abril de 1963, voltava à carga:

Impõe-se através sobretudo de uma ação coordenada e intensa
no Setor de Opinião Pública Nacional:

— Fortalecer o espírito de legalidade, denunciando a tempo
quaisquer manobras contra a Constituição e as leis do país.
— Apoiar o Congresso como indispensável esteio

democrático. [...]

— Apoiar o ministro da Guerra em sua posição de defesa da
legalidade e anticomunista.27
Golbery temia o continuísmo de Jango, mas trabalhava, já em
julho de 1963, com a idéia do "contragolpe inevitável".28 A essa altura o
grande barulho golpista vinha do outro lado. O governador Leonel
Brizola dizia que "se não for eleito um parlamento popular a revolução
será inevitável", e o primeiro-ministro Fidel Castro reunia-se com
esquerdistas brasileiros para discutir la revolución ao mesmo tempo que
subvencionava estruturas guerrilheiras em quatro estados do país.29
Em setembro, os sargentos que dois anos antes haviam ajudado a
desmontar o golpe contra Jango se amotinaram em Brasília produzindo
dois cadáveres, três IPMS e Seiscentos presos.

Pouco depois da revolta dos sargentos, Golbery distribuiu uma
Estimativa em que o próprio estilo traía a atividade clandestina do
autor. Tanto no SFICI como nos primeiros trabalhos no IPÊS, sempre
narrara os acontecimentos na terceira pessoa, secamente. Na
Estimativa de 16 de setembro vocalizava suas idéias atribuindo-as a
supostas "forças do centro democrático":

Estimam aquelas forças que, afinal, a melhor solução para o
país será a que leve o Sr. João Goulart a completar o seu
mandato presidencial, por mais oneroso que venha a ser o preço
a pagar-se por isso, em termos principalmente de funda
depredação da economia nacional.

Não deixam de admitir, porém, que se forçadas a uma reação
contra qualquer golpe antidemocrático, terão de agir com muita
cautela para que seu êxito não propicie, por seu lado, a
indesejada implantação de um regime não democrático, embora
de caráter provisório.30

Estranha construção. Num texto em que o golpe de Goulart era
chamado de "antidemocrático", a ditadura do contragolpe era chamada


de "regime não democrático". Esse regime nem existia, e já o
acompanhava uma lógica particular pela qual o indesejado se tornava
aceitável em troca de uma promessa de provisoriedade. Numa entrevista
em Miami, o jornalista Julio de Mesquita Filho, dono e oráculo d'O
Estado de S. Paulo previa: "Muito provavelmente um governo forte
substituirá o atual, mas essa situação não será eterna, porque a
ditadura não é compatível com a vontade do povo brasileiro".31 (Desde
os primeiros meses de 1962 ele confidenciava o que seria esse governo
forte: junta militar, reforma constitucional, expurgo administrativo,
dissolução do Congresso e nomeação de um Conselho Nacional.)32

No final de março de 1964, Golbery redigiu a última Estimativa do
IPÊS. Nela dissimulava a extensão da rede de conspiradores a que tinha
acabado de se juntar o general Castello Branco, prestigioso chefe do
Estado-Maior do Exército. Sabia muito mais do que escrevia, mas dizia
que se entrara "num período crítico, que poderá durar de dois a três
meses". Entendia que o lançamento das candidaturas de Carlos
Lacerda e Juscelino Kubitschek à Presidência haveria de esvaziar as
manobras do Planalto. "O tempo conspira contra os desígnios do bloco
continuísta-comunista."33

Datada de 25 de março, quarta-feira da Semana Santa,
dificilmente essa Estimativa circulou na cúpula do IPÊS. O certo é que à
noite, quando Golbery chegou a Jacarepaguá, o mundo começara a
acabar: Seiscentos marinheiros liderados pelo Cabo Anselmo
amotinaram-se no Sindicato dos Metalúrgicos e anunciaram que não
voltariam aos seus navios.

Em suas conversas mais secretas, a grande dúvida dos
conspiradores era a duração da rebelião para depor Goulart. Não era
pouca coisa, pois a história das quarteladas nacionais informava que,
dos seis levantes vitoriosos, cinco decidiram-se em 48 horas. Dos
quatro que ultrapassaram os dois dias, três fracassaram.34 Chegou-se a
pensar em seis meses de luta. Golbery sempre insistira na rapidez do
desfecho: "Vai cair como um castelo de cartas".35

No dia 1º de abril de 1964, enquanto as cartas ruíam, circulava


nos quartéis um manifesto dos generais Castello Branco, Costa e Silva e
Decio Escobar. A certa altura ele dizia: "É, pois, na sua estrutura e na
sua essência mesmo que as Forças Armadas estão sendo destruídas,
quando se subverte a hierarquia, e é o próprio presidente da República
quem incita à indisciplina e oferece plena cobertura a motins".36

Era o Corca de novo. Fazia dez anos que escrevia manifestos
contra Jango, mas aquele seria o último. Dessa vez tinha mais o que
fazer. Como sempre, botou suas idéias centrais num papel e intitulou-o
Missão a Cumprir pelo Governo. Eram seis pontos: três óbvios
(restabelecer a ordem, acabar com a corrupção e derrubar a inflação),
um era desejo (elevar o nível de educação política do povo) e o quinto,
um sonho (garantir eleições limpas e a posse dos eleitos). O segundo
item era aquele que Golbery raramente tratava: "Reintegrar, desde logo,
as Forças Armadas no seu papel constitucional, restituindo-lhes a
coesão, a unidade e o ardor profissional e restabelecendo o princípio da
autoridade e da hierarquia, para cuidar, logo a seguir, do problema de
sua adequada reestruturação e de seu aparelhamento".

1 Carta de Heitor Herrera a Heitor Ferreira, de 11 de fevereiro de 1961. APGCS/HF.
2 René Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, pp. 173, 172, 164 e (apêndice

B) pp. 501 e segs. Para um depoimento de José Rubem Fonseca sobre o IPÊS,
"Anotações de uma pequena história", Folha de S.Paulo de 27 de março de 1994.
3 René Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, p. 226. Documento da

Comissão de Planejamento — Substitutivo Orçamentário para 1963.
4 Timothy Naftali (ed.), The presidential recordings — John F. Kennedy, vol. 1: July 30


August 1962, pp. 5-25. Transcrito na reportagem de Carlos Haag, "Todos os tapes do
presidente", Valor Econômico, 19 de outubro de 2001.
5 "Relatórios Demonstrativos de Contas da Brazilian Traction Light and Power", em


Luiz Alberto Moniz Bandeira, O governo João Goulart, p. 82.
6 René Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, pp. 203-4.
7 Heloísa Maria Murgel Starling, Os senhores das Gerais, p. 68.
8 René Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, p. 262.
9 Idem, pp. 654 e 237. Para os filmes, Catálogo de filmes do IPÊS.
10 Manuscritos de Golbery, um de cinco páginas e outro de quatro. Ambos sem data.


APGCS/HF.


11 René Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, p. 769.

12 Idem, p. 291. O texto de Lopes Corrêa é de 1962.

13 Para o caso de Chico Anísio, René Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado,

p. 248.
14 René Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, p. 219.

15 Walter Clark e Gabriel Priolli, O campeão de audiência, pp. 127-8.

16 Para o total de até 20 milhões, Luiz Alberto Moniz Bandeira, O governo João
Goulart, p. 83. Moniz Bandeira trabalhou com dois valores, um de 5 bilhões de
cruzeiros (12 milhões de dólares), mencionado por Artur Oscar Junqueira, secretário
da Ação Democrática Popular (Adep), à CPI do IBAD, e um valor entre 12 milhões e 20
milhões de dólares, mencionado por Philip Agee, ex-agente da Central Intelligence
Agency, que vive em Cuba. A declaração de Gordon está em Veja, 9 de março de 1977,
entrevista a Roberto Garcia.

17 René Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, pp. 400 e 208.

18 René Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, p. 186, e Glycon de Paiva, em
Dreifuss, idem p. 401.

19 Memorando confidencial de três folhas intitulado Planejamento e Conduta das
Ações a Empreender, sem data. APGCS/HF.

20 Informação dada por Glycon de Paiva, vice-presidente do IPÊS, a Alfred Stepan. Em
Stepan, The military in politics, p. 154.

21 Golbery referia-se ao atentado praticado em 1962 no hotel Quitandinha, onde
estava reunido o Congresso da UNE. Foram disparados tiros contra um grupo de
estudantes. Para a prisão de 1955, Nelson Werneck Sodré, Do Estado Novo à ditadura
militar, pp. 191-2.

22 O general Newton Cruz, que em 1964 recebeu o fichário do SFICI, para o qual
Golbery transferira as fichas do IPÊS, informou ao autor que ele continha cerca de 3 mil
fichas. Newton Cruz, outubro de 1985.

23 Para a Amostra, René Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, p. 651; para

o Levantamento, idem, p. 234.
24 Heitor Ferreira, dezembro de 1991.

25 Três folhas de bloco manuscritas, de Golbery. APGCS/HF.

26 Estimativa de 11 de março de 1963. APGCS/HF.

27 Estimativa de 1º de abril de 1963. APGCS/HF.

28 Estimativa de 15 de julho de 1963. APGCS/HF.

29 Para Brizola, Dênis de Moraes, A esquerda e o golpe de 64, p. 79. Para Fidel,
professora Liana Cardoso de Mello, março de 1988. Ela esteve presente à reunião de
Castro com Francisco Julião e Caio Prado Júnior, entre outros, realizada na época da
Segunda Declaração de Havana. Para os dispositivos, organizados em Goiás, no
Maranhão, na Bahia e no Rio de Janeiro, cartas de Gerardo a Petrônio, publicadas em
O Jornal de 23 de janeiro de 1963 ("História de agentes fidelistas comprova a
infiltração em nosso país. Dinheiro cubano para estimular as Ligas e a 'revolução
popular' no Brasil: prova concreta", p. 9), 24 de janeiro de 1963 ("Relatório de agentes
fidelistas comprova a infiltração em nosso país — II. Tática de fidelistas no Brasil é
esconder que são socialistas para poder armar a revolução", p. 9) e 25 de janeiro de
1963 ("O relatório de agentes fidelistas comprova infiltração em nosso país — III.
Agitadores fidelistas possuem até três fazendas em Goiás destinadas a adestramento
de guerrilha", p. 6). Ver também Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 51.

30 Estimativa de 16 de setembro de 1963. APGCS/HF.

31 José Stacchini, Março 64, p. 90.


32 Carta-circular de Julio de Mesquita Filho a "meu ilustre amigo", de 20 de janeiro
de 1962. Em José Stacchini, Março 64, pp. 15 e segs. Cinco anos depois, Mesquita não
escondia sua contrariedade por não ter sido feita a "ablação" do Congresso. Ver
Roberto Campos, A lanterna na popa — Memórias, p. 791.

33 Estimativa de 25 de março de 1964. APGCS/HF.

34 Decidiram-se em 48 horas as seguintes quarteladas vitoriosas: 1889, 1937, 1945,
1954 e 1955. Decidiu-se em mais de 48 horas a revolta de 1930. Fracassaram 1924,
1932 e 1961.

35 Para a previsão de seis meses e a opinião de Golbery, general Antonio Carlos
Muricy, agosto de 1988.

36 Glauco Carneiro, História das revoluções brasileiras, p. 524.


No palácio


Aos 52 anos, Golbery entrara pela terceira vez no palácio. Na primeira,
em 1937, fora um capitão irrelevante metido num projeto de fabricação
de propelentes de artilharia. Na segunda, em 1961, coronel subsidiário,
empenhado na criação de um sistema de segurança interna. Dessa vez
estava no coração do regime e do governo. Triunfara como conspirador:
os "fritadores de bolinhos" estavam no poder. Era a um só tempo chefe
do serviço de informações e conselheiro direto do presidente. Utilizou
essa influência para articular um plano moderadamente reformista e foi
um defensor tenaz da extensão da permanência de Castello no poder.
Fracassou.

Em junho de 1964, dois meses depois da deposição de João
Goulart, o poeta Augusto Frederico Schmidt, gordo, teatral e
escandaloso, parecia um louco quando entrou gritando no apartamento
do deputado Armando Falcão: "Ouça bem o que venho dizer-lhe: O
Juscelino pode suicidar-se se for cassado. Encontraram o esboço de
uma carta dele debaixo do seu travesseiro".

Schmidt pediu a Falcão, ministro e amigo do ex-presidente
Juscelino Kubitschek, que fosse ao palácio Laranjeiras advertir o
marechal Castello Branco do risco que se corria.

"'O Kubitschek suicidar-se?! Não, não creio que ele tenha coragem


de imitar o Dr. Getulio Vargas. O nosso Schmidt é muito
impressionável. Não vai acontecer nada', respondeu o presidente."1

Tratava-se de expurgar da vida pública o principal candidato à
sucessão presidencial nas eleições marcadas para outubro de 1965. Era

o JK, Nonô, Pé-de-Valsa, Peixe-Vivo, o criador de Brasília, símbolo da
tolerância política do regime de 1946. Tinha 61 anos, fora abatido pela
vassourada janista, mas se recuperara com o fiasco da renúncia de seu
adversário. Em 1964 poucos lembravam que no governo dele a inflação
chegara a 40%, numa economia sem indexador algum. Recordavam-se
todos de uma época de progresso, com o Brasil crescendo mais de 8%
ao ano, ganhando a Copa do Mundo de futebol e o torneio de
Wimbledon de tênis. Numa pesquisa de opinião pública concluída
menos de uma semana antes da queda de Jango, Kubitschek batera
Lacerda por 37% a 25%, suplantando-o em todas as oito maiores
cidades do país.2
Pelo calendário constitucional, deveria haver uma eleição direta
no dia 3 de outubro de 1965, e dela sairia um presidente para ser
empossado em 15 de março de 1966. A cassação de JK interessava a
Carlos Lacerda, governador da Guanabara, candidato a presidente pela
UDN, temeroso da sua popularidade e do seu trânsito junto à esquerda.
Interessava a Costa e Silva, porque fortaleceria os radicais,
enfraqueceria Castello Branco e tiraria o favorito do páreo. Interessava
também ao palácio, onde se cozinhava a prorrogação do mandato de
Castello.

No dia 8 de junho de 1964 JK perdeu a cadeira de senador por
Goiás e teve seus direitos políticos suspensos por dez anos. Na tarde
seguinte Castello encontrou-se com o embaixador americano Lincoln
Gordon e disse-lhe que seria "embaraçoso para a Nação" tornar
públicas as provas da desonestidade do ex-presidente.3 Terrível
acusação, mas nem JK foi cassado por corrupto, nem provas de
corrupção havia. Golbery chamou as coisas pelo nome num documento
em que analisava a cassação: "Motivação real: Impedir que JK,
fortalecido pela campanha contrária, enfrente a Revolução: retorno de


Jango, da corrupção e dos comunistas".4

Doze anos depois o general Ernesto Geisel, por cuja mesa
passaram os dossiês contra JK, reconheceria: "O lamentável é que as
provas não eram provas de qualquer valor jurídico. Na realidade eram
indícios, embora todos soubéssemos da ladroeira consumada".5

Golbery acreditava na possibilidade de rearticulação do regime
com as forças de centro da política brasileira. Em setembro de 1964
enviou a Castello uma estimativa em que via o governo diante da
oposição de duas coligações políticas. Uma ficava à direita, e ele a
chamava de "frente revolucionária, avançada ou insatisfeita". A outra, à
esquerda, denominava "anti-ou contra-revolucionária".

Dividia a oposição à direita em três blocos:

— O grupo da chamada linha dura — que só vê, na vitória da
Revolução, a oportunidade para esmagar os adversários,
comunistas ou não, e punir os corruptos e negocistas, julgando
o governo pouco ativo em suas medidas repressivas, quando já
não comprometido por inconfessáveis manobras políticas;
— o grupo do oportunismo insatisfeito (militar e político) que
reclama contra a sua não-participação influente nos atos do
governo atual e aspira ser melhor aquinhoado, pelo menos
quando da próxima sucessão;

— o grupo de interesses reacionários, sobretudo econômicos,
que defendem privilégios cuja manutenção esperavam da vitória
da Revolução, e hoje se sentem ameaçados pela política
reformista do governo.6

Na frente adversária de esquerda Golbery reunia janguistas,
brizolistas e comunistas, todos interessados em derrubar o governo,
mas assinalava a existência de "vários grupos da esquerda não marxista
e sinceramente reformista" interessados no "pleno restabelecimento das
liberdades públicas" para influírem na "obra de reconstrução e reforma


do país". Propunha que se desse a esse grupo "expressão cada vez mais
livre no quadro da atuação oposicionista legal". Achava conveniente
"impulsionar o programa reformista, em particular no setor das
conquistas sociais — reforma agrária, participação dos trabalhadores
nos lucros das empresas, democratização do capital, etc. —
convencendo a essas esquerdas, por atos concretos, dos sinceros
propósitos do Governo".7

Quando as forças conservadoras do empresariado e dos proprietários
rurais pressionaram o governo, sobretudo na reação à reforma
agrária e à revisão dos sistemas de créditos oficiais, Golbery reclamava,
em documento secreto:

Quem ainda mais reage são, curiosamente, os senhores da
indústria. [...] Reagem também muitos proprietários rurais,
justamente temerosos pela manutenção de seus privilégios
tradicionais. Não pagar impostos, explorar o suor do rurícola,
recorrer livremente às burras do Banco do Brasil a cada safra
que vem, empregar os pingues lucros em investimentos
imobiliários nos grandes centros ou dissipá-los em consumo
conspícuo — isso tudo parece que vai acabar. E será a derrocada
de todo um estilo de vida que embalou gerações.8

O projeto da reforma castelista mal arranhou o estilo de vida do
patronato brasileiro. Faltava-lhe base política para buscar nas urnas
um mandato que lhe permitisse a aproximação com o centro, da mesma
forma que lhe faltava disposição para tentar criar uma base militar que
lhe permitisse ao menos dispensar o amparo que recebia do patronato.
Era a anarquia que dava o tom ao regime, obrigando-o a simular uma
corrosiva aparência de unidade militar. O próprio Golbery associava-se
aos surtos ditatoriais e, quando o Supremo Tribunal Federal soltava
presos políticos, queixava-se de um "evidente espírito contra-
revolucionário" dos juizes. Quando um senador atazanado por um
coronel de IPM bradava que "japona não é toga", o general via na reação
uma origem "provocadora".9 Em setembro de 1964, por ocasião do


regresso do general Ernesto Geisel de uma viagem de inspeção às
prisões de Pernambuco e São Paulo, Golbery cuidou da redação da nota
oficial divulgada pelo governo. Num rascunho em que se mencionavam
"as denúncias de violências ocorridas", o chefe do SNI corrigiu:
"violências que teriam ocorrido".10

Golbery sonhara com uma manobra que permitisse a Castello
disputar a reeleição habilitando-se a um mandato de cinco anos, o que
estenderia seu governo até março de 1969.11 Em meados de 1964,
noutra articulação, mais modesta, o marechal teve seu mandato
prorrogado por um ano, até 15 de março de 1967, quando deveria
empossar um sucessor escolhido em pleito direto. Lacerda, único
candidato civil sobrevivente, acusou o golpe numa carta: "Numa
palavra, votada a prorrogação, não haverá eleições nem em 1966 nem
tão cedo".12 No salame do qual ajudara a cortar a fatia de JK, ele era
agora a porção da vez.

Carlos Lacerda tinha cinqüenta anos, o vigor de um touro e a
versatilidade de um ilusionista. Ninguém como ele dividiu e marcou a
geração em que viveu. Lutador obsessivo, fora o último panfletário
brasileiro, quer como jornalista, metralhando a máquina com rara
velocidade, quer como parlamentar, com uma oratória devastadora.
Numa ou noutra condição manipulava o insulto na grandiloqüência.
Algoz de Getulio Vargas ("patriarca do roubo"), Juscelino ("O Cafajeste
Máximo") e Jango ("marginal da lei").13 Sua natureza implacável valera-
lhe o apelido de Corvo.14 Brigara com o pai, o irmão e alguns dos
melhores amigos. "Ele não gosta de ninguém, nem dele", escrevera um
dos seus ex-companheiros.15 O general De Gaulle chamara-o "o
demolidor".16 "Devastadoramente capaz", definira-o a Central
Intelligence Agency.17 Em menos de vinte anos passara do PCB à
militância anticomunista. Eleito governador da Guanabara em 1960,
surpreendera o país com uma administração exuberante. Tocara obras
como a adutora do Guandu e o túnel Rebouças, ao mesmo tempo que
se beneficiara do trabalho dos governantes anteriores, que lhe deixaram
a doce tarefa de plantar o jardim no Aterro do Flamengo, mudando a


silhueta do Rio de Janeiro. Xodó dos "fritadores de bolinhos", fora um
adversário destemido de João Goulart. Vitorioso em 1º de abril, vira-se
espremido pela impopularidade da ordem que ajudara a erguer.
Precisava da ditadura para compensar seu desgaste popular, mas
quanto mais o regime se fechasse, menos a ditadura precisaria de
Carlos Lacerda.

Para Golbery a vitória da prorrogação cumprira dois objetivos:
num congelara Lacerda, noutro postergara uma eleição que poderia
levar ao julgamento do regime. Nos meses imediatamente anteriores e
seguintes a esse êxito no Congresso, a ditadura manteve sua rotina. É
justo nessa época que irrompe o surto de rebeldia da guarnição goiana,
com o coronel Danilo Darcy da Cunha e Mello encarregado de um
inquérito em que se arrancavam sob tortura as confissões que deveriam
instruir a deposição do governador Mauro Borges. Oficiais da Marinha
de Santos recusaram-se a libertar treze pessoas beneficiadas por um
habeas corpus.18 Tropas indisciplinadas do Nordeste seqüestraram o
ex-governador de Sergipe, Seixas Dória, e mantiveram preso num jogo
de esconde-esconde o próprio filho do inquisidor-mor, marechal Estevão
Taurino de Rezende.19 Entre agosto e setembro desapareceram do 15º
Regimento de Infantaria, em João Pessoa, dois militantes das Ligas
Camponesas.20 Comandava o 15º RI o coronel Ednardo D'Avila Mello,
chefe do Serviço Federal de Informações e Contra-informação durante o
mandarinato de Golbery no Conselho de Segurança de Jânio Quadros.
Foram os primeiros "desaparecidos" da ditadura.

Conseguida a prorrogação do mandato de Castello, Golbery começou
a tratar de Isabel, nome em código da operação política que deveria
postergar a eleição de onze governadores marcada para 3 de outubro de
1965.21 Costurou a manobra por quase um ano, e esse foi um dos
poucos movimentos em que ele e Lacerda andaram na mesma direção.
Essa aparente virtude pôs a jogada a pique. Dois dias depois de receber
uma carta de Lacerda informando que preferia a prorrogação dos
mandatos dos governadores à realização de um pleito indireto, no qual
a escolha caberia aos deputados estaduais, Castello decidiu-se pelo


oposto. "Todo mundo de pneu baixo. Eleições diretas nos onze
estados!", registrou estupefato Heitor Ferreira.22

A malquerença de Golbery com Lacerda tinha um aspecto
emocional, mas era também a projeção de uma luta pelo poder. A
marca da atividade política do general estava na sua essência
antieleitoral. Ele manobrou contra o pleito de 1965, da mesma forma
como manobraria contra a eleição presidencial de 66. Não se tratava de
questão doutrinária, em que Golbery tivesse preferência pelo sistema
indireto de preenchimento dos cargos executivos, mas de uma trapaça
política destinada a manter no poder pessoas que o voto popular quase
certamente defenestraria. A um interlocutor que chamava de "suicídio"
uma eleição indireta para presidente, argumentando com o tamanho da
bancada oposicionista, o general respondeu: "E a direta é suicídio
certo".23 Lacerda era apenas um complicador das manobras
antieleitorais, pois embora não tivesse a força de JK, era sem dúvida
alguma o mais popular entre os políticos que apoiavam o regime. Com
rara economia de palavras, Golbery resumiria o xeque a Lacerda: "É
indireta sim, mas não para ele".24

Para quem? Para Castello Branco. Uma semana depois de o
marechal ter anunciado durante um almoço no Clube Militar que não
aceitaria uma segunda prorrogação, Golbery queixava-se: "[As
declarações do presidente] levaram o desânimo a amplas correntes de
opinião revolucionária que ainda não enxergam outra solução —
garantia para salvaguarda do futuro da Revolução e complemento de
sua obra renovadora".25 O chefe do SNI pode ter desanimado, mas não
desistiu. Chegou a obter de Castello uma promessa de que não daria
mais declarações daquele tipo.26 Em junho de 1965 achava-se de novo
numa articulação prorrogacionista.

Apesar das diversas denúncias de que a manobra estava em
curso, ela sempre foi desmentida por Castello e seu círculo mais
próximo de assessores. O diário de Heitor Ferreira documenta essa
articulação palaciana. São cinco entradas, de junho a setembro de
1965.


18 de junho. O capitão anotou que Golbery e Castello tiveram
uma "grande conversa no almoço". Nesse mesmo dia o deputado
Teódulo de Albuquerque, conhecido pelo trânsito que tinha no gabinete
presidencial, disse que o Congresso estaria disposto a reeleger Castello.

14 de julho. Heitor registra: "Golbery teve 'a conversa' com Geisel
e o presidente. 'Então há que tocar logo o assunto, em agosto,
setembro...'".28

15 de julho. "O presidente deu luz verde ao Cordeiro. 'Isso agora é
com vocês'."29

21 de setembro. Golbery diz a Heitor: "Estou me lixando para o
que possam pensar da continuação do Castello".30

24 de setembro. O capitão Heitor pôs no diário a mais clara das
referências.

Chegou o Malan [general Alfredo Souto Malan] para conversar
com Golbery e no meio do assunto anotei este trecho:

MALAN: Mas isso tem o ranço de continuísmo.

GOLBERY: Ranço de continuísmo?

MALAN: É. Tem.

GOLBERY: Não, não tem não. É o próprio continuísmo.31

O projeto descarrilhou pela força que Costa e Silva extraiu da
anarquia dos quartéis e pela fraqueza inerente à vacilação castelista. De
um lado, recebeu o impacto da derrota dos candidatos pró-regime nas
eleições de outubro de 1965. A nova ordem fora derrotada na disputa
pelos governos da Guanabara e de Minas Gerais, mesmo levando-se em
conta que os principais vitoriosos eram políticos moderados. De outro,
recebeu o golpe da inquietação militar que se seguiu ao resultado
eleitoral.

Na tarde de 27 de outubro, a desordem militar, manipulada pelo
ministro da Guerra, obteve de Castello um novo Ato Institucional,


chamado AI-2 e o primeiro a ser numerado. O Ato reabria a temporada
de cassações, diluía o Supremo Tribunal Federal, lesava o Congresso,
extinguia os partidos políticos e acabava com a eleição direta como
forma de escolha do presidente da República. Costa e Silva entrou no
gabinete, alcançou uma cópia do documento e começou a folheá-la:
"Deixa ver, cadê, onde está?".

Castello tomou uma página e mostrou um trecho. "Está aí."

Estava numa das últimas folhas. Era o parágrafo único do artigo
26, que regulava a eleição do próximo presidente: "O atual Presidente
da República é inelegível".32 Caíra a lápide sobre qualquer manobra
prorrogacionista. O ministro da Guerra, general Arthur da Costa e Silva,
tornara-se presidente eleito.

Nesses dias, acreditando ser possível reverter a derrota, Golbery
assumiu uma atitude típica de sua ação política. "O importante é
ganhar. A vitória redime tudo", disse a Heitor Ferreira. "O importante
agora é ganhar. Depois vêm todos rastejar."33 Perdeu. As manobras
seguintes foram afogadas pelas adesões públicas e secretas dos
hierarcas do regime à candidatura do ministro da Guerra. Golbery
ainda tentou tramar uma renúncia coletiva dos ministros que fossem
candidatos nas eleições de 1966, quando seriam escolhidos, além do
presidente, dez governadores. Como Luiz Viana Filho, chefe do Gabinete
Civil, postulava o governo da Bahia, era necessário que liderasse o
cordão dos demissionários. Viana temia deixar o palácio e perder a
Bahia. Acompanhado pelo amigo Antonio Carlos Magalhães, foi a
Golbery e expôs a fraqueza do plano. Na verdade, estavam com um pé
no Laranjeiras e outro no gabinete de Costa e Silva.34 "Salve-se a Bahia,
foda-se o Brasil", respondeu o general.35 Dias depois, ao sair de uma
conversa noturna com Castello, entregaria os pontos: "Tout est perdu"36
Ria-se no naufrágio, e o ministro da Justiça, Mem de Sá, contribuía
para o anedotário: "Como dizia Dante em seus melhores momentos
poéticos, siamo tutti fottuti".37

São conhecidos 22 documentos de análise política preparados
pelo SNI para leitura de Castello ou ciência dos ministros. Foram quase


todos escritos por Golbery. Neles Costa e Silva é o grande ausente.38
Apesar de o primeiro pronunciamento público em favor da candidatura
do ministro à Presidência ter sido feito num jantar de quinhentos
talheres no Jóquei Clube de Goiás em julho de 1964, a primeira
referência do SNI à presença dele na sucessão é de 21 de setembro.39 O
Serviço volta a mencioná-la superficialmente um mês depois, e só era
novembro associa o marechal a uma manobra dos adversários de
Lacerda, que, deixados sem candidato, iriam buscar o seu no Ministério
da Guerra.40 Já o governador da Guanabara é citado em dezesseis dos
21 documentos, ora como "vedete", ora como administrador fracassado.

É provável que Golbery tenha subestimado a audácia de Costa e
Silva e superestimado a coragem de Castello Branco. Não disputou a
partida nos quartéis e perdeu era silêncio. O Corca que conspirara
contra Getulio, JK e Jango, não conspirou contra Costa e Silva. Sua
relação com o general era quase de desprezo. Mesmo assim, diante das
duas candidaturas, disse a Castello: "Entre Costa e Lacerda, fico
muitíssimo mais com o Costa".42

Durante a crise das eleições de 1965 Golbery desejou se tornar
interventor na Guanabara. Chegou a listar 23 nomes de pessoas que
chamaria para o seu governo. Quase todos civis, iam de velhos amigos,
como o empreiteiro Haroldo Cecil Poland e o banqueiro Jorge Oscar de
Mello Flôres, a estrelas do meio cultural, como o romancista Adonias
Filho e o arquiteto Sérgio Bernardes.43 Mesmo nos dias mais tensos,
quando o receio de uma revolta militar provocou uma distribuição de
submetralhadoras no palácio Laranjeiras, Golbery dormia no quarto dos
ajudantes-de-ordens pensando em governar o Rio.44 No dia em que a
Justiça Militar deveria decidir se prendia ou não o governador Negrão
de Lima, o general foi ao palácio vestindo o seu melhor terno, de
tropical azul.45 Negrão ganhou, e Golbery foi dormir como chefe do SNI.

Talvez a interventoria tenha sido uma miragem que lhe permitiria
continuar na política depois da "debacle" que significava o triunfo do
Seu Arthur. Era a quarta vez que Golbery perdia a parada. Na sua


conta: "1950, 1955, 1961 e agora".46 Nos últimos meses de 1966,
quando Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek se juntaram numa
frente oposicionista que mais tarde atrairia até mesmo o ex-presidente
João Goulart, Golbery deu o último tiro na direção de Lacerda. Tentou
cassá-lo, acusando-o de "solapar a autoridade do presidente da
república, desmoralizar a obra da Revolução, desprestigiar as Forças
Armadas perante a Nação e mesmo dividi-las".47 A idéia não prosperou,
sobretudo porque Costa e Silva se esquivou de apoiar a medida.48

Batido, Golbery enfurnou-se. Como gostava de repetir, "quebrara
a mola". Cumpria a rotina, retraía-se e apagava rastros. Primeiro parou
de falar de política com o presidente, em seguida determinou a
suspensão das interceptações telefônicas e pediu a Heitor Ferreira que
começasse a limpar os arquivos do SNI. 49 NO crepúsculo do governo,
Geisel sugeriu a Castello que nomeasse o general para o Tribunal de
Contas da União. Depois de remanchar por alguns dias, o marechal
assinou o decreto.50 Pelo resto de sua vida Golbery haveria de ser
parcimonioso nos adjetivos que dedicava a Castello. Jamais o criticava,
nunca o elogiava, era raro que o mencionasse. Desencantado, aos 55
anos o conspirador julgava ter chegado ao fim da linha: "Eu não quero
mais conversar sobre política brasileira. Não tenho o que dizer".51

Depois de terem passado boa parte de suas vidas associados ao
projeto de um governo certamente forte, provavelmente militar, Geisel e
Golbery viviam um regime forte e militar, mas pareciam não ter mais
nada a dizer.

1 Armando Falcão, Tudo a declarar, pp. 291-2.

2 Pesquisa do IBOPE realizada entre 9 e 26 de março de 1964, em Antônio Lavareda, A
democracia nas urnas,p. 174.
3 John W. F. Dulles, Castello Branco, o presidente reformador, p. 33.
4 Uma folha manuscrita de Golbery de final de maio ou início de junho de 1964.


APGCS/HF.

5 Anotação de Geisel, à margem da cópia xerox de uma carta de 24 de agosto de 1976
do coronel Argos Gomes de Oliveira ao general João Baptista Figueiredo. APGCS/HF.


6 Estimativa nº 1, do SNI, de 15 de setembro de 1964. APGCS/HF.

7 Estimativa nº 1, do SNI, de 15 de setembro de 1964. APGCS/HF.

8 Apreciação Sumária da Situação Nacional, reunião ministerial de 30 de dezembro de
1964. Marcado "secreto". APGCS/HF.

9 Impressão Geral nº 10, de 2 de novembro de 1964. APGCS/HF.

10 Folha datilografada, com anotações manuscritas de Golbery. APGCS/HF.
11 Folha manuscrita de Golbery, sem data, resumindo e analisando uma conversa de
automóvel com Carlos Lacerda. APGCS/HF. Nela escreveu: "O mais sério adversário de

CL em 66 será o próprio presidente, ao qual parece abrir-se a possibilidade legal de
uma reeleição". Diário de Heitor Ferreira, 18 de junho de 1965.
12 Carta de Carlos Lacerda a Bilac Pinto, presidente da UDN. Em Luiz Viana Filho, O

governo Castello Branco, p. 112.
13 Para Vargas, Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930, coord. de Alzira
Alves de Abreu e outros, vol. 3, p. 2981. Para JK, John W. F. Dulles, Carlos Lacerda —
A vida de um lutador, vol. 1: 1914-1960, pp. 286-7, citando a Tribuna da Imprensa de


15 de junho de 1957. Para Goulart, Carlos Castello Branco, Introdução à Revolução de
1964, tomo I: A agonia do poder civil, p. 231.
14 O apelido foi inventado por Samuel Wainer, que deu ao caricaturista Lan a idéia de


retratar Lacerda nas penas da ave. O primeiro Corvo foi publicado no jornal Última
Hora de 25 de maio de 1954, p. 3. Em John W. F. Dulles, Carlos Lacerda — A vida de
um lutador, vol. 1: 1914-1960, pp. 148-9.


15 David Nasser, citado em John W. F. Dulles, Carlos Lacerda — A vida de um


lutador, vol. 1:1914-1960, p. 336.
16 Referência feita por De Gaulle durante um almoço com Castello Branco. Em
Armando Falcão, Tudo a declarar, p. 287.


17 Onze folhas da Central Intelligence Agency, do Office of National Estimates, de 31


de dezembro de 1964. Marcado "secreto". BLBJ.
18 Para o caso de Goiás, carta de Simão Kossobudsky ao presidente Castello Branco,
de 11 de outubro de 1964, era O golpe em Goiás, pp. 242-8. Correio da Manhã, 27 de
agosto de 1964, capa do 1º caderno.


19 Correio da Manhã, 26 e 30 de julho de 1964.
20 Dossiê dos mortos e desaparecidos, pp. 104 e 117.
21 Seriam eleitos os governadores dos seguintes estados: Guanabara, Minas Gerais,


Paraná, Maranhão, Goiás, Alagoas, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Rio Grande do Norte e
Santa Catarina.
22 Diário de Heitor Ferreira, 22 de março de 1965.
23 Diário de Heitor Ferreira, 12 de outubro de 1965.
24 Idem, 6 de outubro de 1965.
25 Impressão Geral nº 16, de 9 de fevereiro de 1965. APGCS/HF.
26 Diário de Heitor Ferreira, 4 de setembro de 1965.
27 Idem, 18 de junho de 1965.
28 Idem, 14 de julho de 1965.
29 Diário de Heitor Ferreira, 15 de julho de 1965.
30 Idem, 21 de setembro de 1965.
31 Idem, 24 de setembro de 1965.
32 Narrativa de Ernesto Geisel a Heitor Ferreira, em Diário de Heitor Ferreira, 21 de



junho de 1972.

33 Nota anexa ao Diário de Heitor Ferreira, 14 de outubro de 1965.

34 Jayme Portella de Mello, A Revolução e o governo Costa e Silva, p. 327.

35 Diário de Heitor Ferreira, 3 de março de 1966. Antonio Carlos Magalhães narrou
essa cena ao autor em várias ocasiões.

36 ("Está tudo perdido.") Diário de Heitor Ferreira, 15 de abril de 1966.

37 ("Estamos todos fodidos.") Idem, 16 de abril de 1966.

38 São eles: Apreciação Sumária, de 30 de abril e de 30 de dezembro de 1964;
Estimativa, de 10 de julho, 15 de setembro e 15 de dezembro de 1964, e Impressão
Geral, documentos numerados de 1 a 17, datados de 16, 23 e 31 de agosto, 6, 14, 21 e
28 de setembro, 5 e 19 de outubro, 2, 9 e 23 de novembro, 14 e 29 de dezembro de
1964, 13 de janeiro, 9 de fevereiro e 16 de março de 1965. APGCS/HF.

39 Para o lançamento da candidatura, feito inesperadamente pelo deputado Alfredo
Nasser, ver Jayme Portella de Mello, A Revolução e o governo Costa e Silva, pp. 234-5.
Impressão Geral n-6, de 21 de setembro de 1964. APGCS/HF.

40 Impressão Geral nº 11, de 9 de novembro de 1964. APGCS/HF.
41 Para "vedete", Estimativa de 10 de julho de 1964. Para o fracasso administrativo,


Impressão Geral nº1, de 16 de agosto de 1964, e para a classificação de "oportunista
insatisfeito", Estimativa nº 2, de 15 de dezembro de 1964. APGCS/HF.
42 Diário de Heitor Ferreira, 22 de março de 1965.
43 Nota anexa ao Diário de Heitor Ferreira, 8 de agosto de 1965.
44 Diário de Heitor Ferreira, 3 e 5 de dezembro de 1965.
45 Idem, 5 de dezembro de 1965.
46 Idem, 16 de abril de 1966.
47 Informação Especial, do SNI, acompanhada de um manuscrito de Heitor Ferreira,


revisto por Golbery, sem data, de novembro de 1966. APGCS/HF.
48 Diário de Heitor Ferreira, 29 de novembro de 1966.
49 Idem, 5 e 12 de maio de 1966.
50 Idem, 23 de janeiro de 1967.
51 Diário de Heitor Ferreira, 10 de fevereiro de 1967.



PARTE II O caminho de volta


A COSTURA



O peso do irmão


O primeiro passo documentado para a escolha do sucessor de Medici foi
dado pelo próprio presidente em janeiro de 1971. O general tinha pouco
mais de um ano de governo, e faltavam três para que acabasse seu
mandato. Reuniu-se com os colaboradores mais próximos na granja do
Riacho Fundo, onde passava a maior parte dos dias livres, fugido da
fornalha do Alvorada. Eram o general João Baptista Figueiredo, chefe
do Gabinete Militar, o professor João Leitão de Abreu, do Gabinete Civil,
e o general Carlos Alberto da Fontoura, chefe do SNI.

Figueiredo levara um roteiro onde mencionava o "grande
problema" e listava dois caminhos: "a) permanência; b) candidaturas".

Pelo caminho das candidaturas sugeria a necessidade de buscar
um "nome nacional" que preservasse a unidade militar. No roteiro havia
a pergunta: "Quem?".

A conversa durou três horas, e segundo assegurou Figueiredo, a
resposta foi Ernesto Geisel.1 Essa foi uma das respostas, mas
dificilmente foi a única e por certo não foi definitiva. O ministro do
Exército, Orlando Geisel, sabia da conversa. Ao contrário da sucessão
de Castello, na qual a imprensa e os políticos desempenharam um
papel relevante, a de Medici foi desde o primeiro momento uma disputa
subterrânea. Nela houve muitas manhas, mas entre todas só uma
realmente proibida: levar a questão para fora do palácio, do centro do
poder. Segredo típico das ditaduras, era permitido sabê-lo, proibido


propagá-lo.

Na época do encontro do Riacho Fundo a sucessão dependia do
destino do general Affonso de Albuquerque Lima. Líder da linha dura no
mandato de Castello Branco, tornara-se ministro do Interior de Costa e
Silva e vira-se defenestrado depois de um confronto com o comando
econômico do governo. Na crise de 1969 aparecera como forte candidato
à Presidência, na substituição de Costa e Silva. A força dele vinha da
tropa, mas fora derrotado no consistório de quatro-estrelas que
simulara uma consulta aos quartéis. Continuara na ativa e estava a um
passo da promoção a general-de-exército. Poderia ganhar a quarta
estrela no final de 1970 e, com ela no ombro, na certa seria candidato a
presidente. Sem ela, entraria num glorioso pijama. O futuro do general
ameaçava o controle de Medici sobre sua própria sucessão. "Ele vai
criar problemas dentro do exército e dentro do Brasil. Já criou uma vez
e vai criar de novo", reclamava Orlando Geisel.2 Com a ajuda do chefe
do Estado-Maior, Antonio Carlos Muricy, numa operação em que se
misturaram porretes e cenouras, o ministro liquidou Albuquerque Lima.
3 Foi o Capitão Muricy quem fez o trabalho de campo.

Tratando do assunto com o general Rodrigo Octavio Jordão
Ramos, o R.O., amigo e companheiro de Albuquerque Lima na arma da
engenharia, Muricy foi ao nervo:

I "Ganhando a quarta estrela ele vai trabalhar para ser
presidente."

"É um direito dele", argumentou R.O.

"E precisamente por ser um direito dele e por eu achar que ele
não pode ser presidente, trabalho contra", respondeu Muricy.4

No fim da cabala e através de sucessivas preterições, Albuquerque
Lima caiu nos mecanismos compulsórios de passagem para a reserva
em março de 1971. Nessa manobra o ministro Orlando Geisel venceu a
sua primeira e única dificuldade no Alto-Comando. Dissolveu o
condomínio de generais que controlara o Exército nas desordens do
governo Costa e Silva liquidando a frio, num episódio sem precedentes,
um chefe militar experimentado na administração, articulado na


política e popular na tropa. Albuquerque Lima afundou atirando, já na
reserva, durante um jantar de quatrocentos talheres. Denunciou uma
"tenaz e injusta perseguição, a ponto de não permitirem [...] que a
Imprensa [...] faça uma referência sequer ao meu nome".5 De fato,
poucos dias antes a Censura transferira o ex-ministro para o limbo dos
mortos vivos: "Urgentíssimo: De ordem superior fica terminantemente
proibida a divulgação, por qualquer meio de comunicação, imprensa,
rádio e televisão, de entrevista, memorial, carta ou qualquer outro meio
de manifestação, de autoria ou referente ao general Albuquerque Lima".

O general saiu do caminho e foi trabalhar com um cunhado
milionário.

Fechado em seu gabinete da Candelária (uma pequena sala sem
sofá nem banheiro privativo), Geisel era uma espécie de candidato
prodígio para a mitologia do regime. Numa ditadura militar que
cultuava os tecnocratas, era a um só tempo general e presidente da
maior empresa do país. Administrava perto de 1,5% do PNB. 7 Tinha um
pé no castelismo e outro na nova ordem. Estava na reserva, é certo,
mas seu irmão era ministro. Seguindo a norma das burocracias e das
ditaduras, movia-se parado: "Eu quero fazer um favor a eles. Não me
engajo. Não movo uma palha por essa candidatura. Vão ter que vir me
buscar. Aí eu vou e atendo".8 Dada a existência de uma verdadeira
simpatia de Medici pelo nome dele, era difícil batê-lo.

Seu único adversário era o fantasma da prorrogação ou mesmo
da reeleição do presidente. A extensão do mandato de Medici por um
ano, levando-o até março de 1975, tinha alguma racionalidade política.
Em abril de 1974 começariam a caducar as cassações feitas dez anos
antes. Isso significaria o retorno à política de Juscelino Kubitschek,
Jango e dezenas de proscritos. Além do mais, em novembro seria
realizada uma mastodôntica eleição, em que se escolheriam toda a
Câmara, um terço do Senado e todas as assembléias legislativas.


Golbery, escrevendo em código a Heitor Ferreira, chegara a
acreditar nas virtudes da prorrogação: "Caso Timóteo — marchando
bem. Claro que há outros interessados em soluções evidentemente
inferiores mas nunca a desprezar — não vou citar nomes. Creio que a
sã razão acabará imperando. [...] Em termos realistas, melhor seria se o
nosso Jorge agüentasse de quatro para cinco e resolvesse isso, deixando
a pista limpa para depois".9

Timóteo era Geisel, que não gostava da idéia. Jorge era Medici,
que não mencionava o assunto.

O fantasma transmutava-se. Ora aparecia como prorrogação, ora
como reeleição. O respeitado professor Leitão de Abreu sinalizava que
tanto uma hipótese como a outra eram plausíveis, até mesmo para que

o leque de alternativas do Planalto permanecesse aberto.10 Esse leque
tinha diversas funcionalidades. A mais elementar preservava o poder do
presidente, adiando o desgaste trazido pelo fim do mandato e pelo
surgimento de um novo foco de poder. Outra, comum a todas as
manobras continuístas, destinava-se a manter no palácio as pessoas e
os interesses ali instalados.
Havia outra ainda, produzida pelo período de fausto da ditadura.
O continuísmo contrapunha o prestígio e a força do presidente ao nome
de eventuais candidatos. Bastaria que Geisel movesse um dedo contra a
manobra para que a desavença com o hipotético projeto de glorificação
de Medici o liquidasse. Se o candidato não concordava com a
prorrogação do mandato do patrono, por que este haveria de entregar-
lhe a Presidência?

0 estratagema derreteu-se porque Geisel nunca lhe fez oposição.
Se Medici quisesse continuar, que continuasse. "Ninguém conte comigo
para ir contra o Medici", advertia.11 Essa reação inverteu a trajetória da
manobra, transformando a ameaça em proteção. Golbery explicava as
virtudes do prorrogacionismo: "Ele fecha a lista de inscrições. Depois
que se começou a falar na continuação de Medici, quem se lançar
candidato estará em oposição a ele, não a Geisel". "Tudo vai depender
do Grande Eleitor."12


Medici e o regime viviam seus dias de esplendor. Uma pesquisa
feita junto a operários indicava que o governo e os militares eram as
instituições em que mais confiavam para defender seus interesses. Os
mais desacreditados eram os políticos e, entre eles, os da oposição.13

O general orgulhava-se do desempenho da ditadura: "Amadurecemos
o bastante para descobrir as vantagens do equilíbrio e da ordem,
do planejamento, método, da continuidade e da convergência. O Brasil
emergiu, em oito anos apenas, de longa infância e de tumultuária
adolescência, para o estágio de nação adulta e séria, que sabe para
onde vai e sabe o que pretende".14 Beneficiado pela alegria natural
trazida pela Copa de 70, o governo decidiu patrocinar uma temporada
de patriotismo no ano do Sesquicentenário da Independência. Anunciou
que d. Pedro I regressaria ao Brasil, deixando ã cripta do mosteiro dos
Jerônimos, em Portugal, onde descansava desde 1834. Para
movimentar a festa, organizaria uma Minicopa Mundial de Futebol.

Medici canalizava a euforia moldando uma imagem comum e
austera. O apagado Milito sentara-se firmemente naquela cadeira em
que Tamanco e Português mal se haviam agüentado. Era senhor da sua
própria sucessão como nenhum presidente o fora. Em pelo menos uma
conversa admitiu que tinha um candidato para cada situação. Num
país conflagrado, indicaria o general Adalberto Pereira dos Santos, seu
amigo, primeiro colocado de sua turma, ministro do STM. Num país "com
problemas", "o Ernesto". Numa situação de perfeita calma, o professor
Leitão de Abreu, chefe do Gabinete Civil.15 Muitos presidentes
desejaram continuar e não conseguiram. Dele se pode dizer que se
tivesse desejado, teria ficado.16

Do Exército partiam tênues reverberações políticas, quase sempre
patrocinadas por generais saídos da arma da engenharia, contrafeitos
com a destruição de Albuquerque Lima. O general Alfredo Souto Malan,
novo chefe do Estado-Maior do Exército, sugeria que, excluídas as
"correntes radicais vermelhas", talvez fosse possível algum tipo de


reconciliação com a juventude esquerdista: "Por que não facilitamos a
esses irmãos a tomada de um atalho que os possa trazer à estrada larga
da participação?".17 Malan retomaria o tema meses depois falando numa
"sociedade democrática, em que o desenvolvimento, a segurança e a
liberdade marchem de mãos dadas", e no final de 1971 pediu mesmo o
"desengajamento controlado das Forças Armadas".18

Pouco depois do discurso, num almoço no restaurante do Museu
de Arte Moderna, Malan sugerira a Geisel e Golbery que entregassem o
Ministério do Exército ao general Euler Bentes Monteiro, estrela
ascendente da Engenharia. Golbery abateu a idéia em vôo.19 Malan
daria ainda indicações de que gostaria tanto de ser ministro como de ter
seu nome considerado na disputa pela Presidência, "nem que fosse para
boi de piranha".20 Eram meros sinais, quando muito desejos, sem
nenhuma articulação militar ou civil a ampará-los.

Quando as iniciativas dos generais ameaçavam prosperar, mesmo
respeitando as regras da ditadura, Orlando Geisel baixava o chanfalho.
Em março de 1971 o general Rodrigo Octavio tratara da volta ao estado
de direito durante a aula inaugural do Instituto Militar de Engenharia e
meses mais tarde, como comandante da Escola Superior de Guerra,
convidara os estagiários a participar de um trabalho sobre a
"institucionalização política do processo revolucionário". No momento
em que os quadros de aviso da escola anunciavam o projeto, Orlando
demitiu-o. Mal completara quatro meses no comando. R.O. saiu da Urca
lembrando "nossas mais caras tradições: vocação democrática,
formação liberal e vocação cristã", e recolheu-se a obediente silêncio
depois que a Censura proibiu que se noticiasse a sua exoneração.21

Em outros casos o ministro recorria à simples humilhação dos
adversários. Ao receber os cumprimentos pelas festas de fim de ano,
reencontrou na fila dos generais seu velho inimigo Jayme Portella:

— Espero que em 1972 você pare de conspirar — disse-lhe
Orlando Geisel.
— Eu, general?

— O meu serviço de informações diz que você está
conspirando.
— E o senhor acredita?
— Não, não acredito. Por isso é que eu quero que você pare
de conspirar, que é para eu acreditar menos ainda.22
Portella não parou, nem pararam de vigiá-lo.23 De acordo com o
SNI, reunia-se no escritório de um amigo na avenida Rio Branco e fazia
uma mesa semanal no restaurante Nino's, em Copacabana. O Serviço
atribuía-lhe dois projetos. Um, legalista, destinava-se a permitir a posse
do vice-presidente, almirante Augusto Rademaker, caso Medici tivesse
algum problema de saúde. Baseava-se na formação de um "clima de
restabelecimento da legalidade, abertura democrática". Outro,
liberticida, destinava-se a minar Geisel e propunha: "Suscitar nos meios
militares duas teses: a de que o governo Medici reduziu o ímpeto
revolucionário, que ainda precisa de dez anos; a de que os cassados de
1964, que teriam seus direitos políticos devolvidos em 1974, não podem
voltar à vida política — e com essa posição ressuscitar a mística da
punição revolucionária".24

Segundo o SNI, Portella — personagem decisivo na trama que
levara Costa e Silva à Presidência — queria propagar nos quartéis a
inconveniência da escolha de generais com mais de 65 anos, "quase
sempre doentes". Queria "um presidente novo para um país novo", com
um general jovem na cabeça da chapa e um coronel na vice. Caso Geisel
resistisse a esse tipo de sapa, o melhor seria lançar um candidato civil.
Para isso Portella julgava útil jogar na frente o nome do ministro Delfim
Netto, da Fazenda, queimando-o logo depois "pelos processos mais
clandestinos, sobretudo, fazendo chegar informes às Forças Armadas —
usando elementos do Itamaraty — sobre irregularidades nas
negociações internacionais". Carbonizado Delfim, o general teria a
oferecer o nome do governador mineiro Rondon Pacheco, de quem se
declarava fiador.25 Davam-se bem desde o governo Costa e Silva,
quando Portella, como chefe do Gabinete Militar, tivera Rondon por


inquilino no Gabinete Civil.

Generais como Portella, Rodrigo Octavio e Malan comandavam
bibliotecas e garagens. Entre os comandantes de tropa o caminho para
a notoriedade era bem outro, apocalíptico, delirante. O do II Exército,
Humberto de Souza Mello, achava que a censura existente era pouca:
"Isto nos leva a dar combate ao inimigo subversivo que utiliza, como
instrumentos bélicos em sua insidiosa guerra revolucionária, armas
convencionais brancas e de fogo, e também a palavra escrita e falada, o
teatro, a televisão e o cinema para a pregação de um materialismo
selvagem e demoníaco".26 Senhor de baraço e cutelo da máquina
repressiva em São Paulo, o general era candidato. Gostava de festas e
falava demais. Numa delas, expôs seus desejos políticos: iria para o
comando do I Exército, de lá para o ministério, e depois chegaria ao
Planalto. O obstáculo, segundo ele, chamava-se Orlando Geisel: "Está
muito doente. Vai morrer, tem enfisema".27

Asmático na infância, fumante na maturidade, enfisema o
ministro tinha. Mas no início de 1972 não estava tão mal. Tomando um
composto de vitaminas suíças, nutrientes de abelhas, e águas coletadas
pela filha espírita, atravessara uma sucessão de gripes que o haviam
debilitado. Convencido de que tinha as coronárias entupidas, fugia dos
médicos.28 Três meses após a praga contra Orlando, um distúrbio
intestinal derrubou o obeso Humberto Mello no palanque das
autoridades que recebiam o presidente boliviano em Mato Grosso. "O
que ele teve?", perguntou dias depois Heitor Ferreira ao general
Figueiredo. "Uma idéia", respondeu o chefe do Gabinete Militar.29

O general Breno Borges Fortes, comandante do III Exército, com
jurisdição sobre toda a fronteira sul do país, estava metido num
esquema mais audacioso: a invasão do Uruguai caso o candidato
esquerdista Líber Seregni vencesse a eleição presidencial de novembro
de 1971. Pelo menos uma unidade de combate, a 2ª Brigada de
Cavalaria Motorizada, já concebera suas operações e tinha comandante
escolhido. Entre os planos de campanha chegara-se a redigir um item
intitulado: "Ordem às outras Forças".30 Helicópteros da FAB foram para a


fronteira com ordens para realizar vôos de reconhecimento.31 Seregni foi
derrotado por Juan Maria Bordaberry, o Uruguai deslizou em direção à
ditadura militar, e os projetos do general Breno nunca puderam ser
testados. Faltavam-lhe dois elementos essenciais para mover a tropa:
autorização do presidente e gasolina. Medici ameaçou exonerá-lo, e
Geisel, ao saber que o general requisitara combustível à refinaria
Alberto Pasqualini, mandou que não lhe dessem uma só gota enquanto
ele não fosse lhe pedir pessoalmente. "Nunca me disseram mais nada",
lembraria.32

Geisel teve no irmão seu maior cabo eleitoral. Não se pode
precisar a ocasião em que os dois trataram pela primeira vez da
sucessão de Medici. Segundo o general, o assunto veio numa conversa
em que Orlando lhe disse:

— Prepare-se porque é possível que você venha a ser presidente
da República.
— Por que eu? [...] Por que não você?
— Porque eu não tenho saúde.33
Essa conversa, pela sua lembrança, ocorreu no final de 1972. É
difícil que isso tenha acontecido tão tarde. Retrospectivamente, Geisel
sempre cuidou para que não se atribuísse a escolha dele ao irmão.34

Pode-se supor que, no segundo semestre de 1971, quando Geisel
convidou Heitor Ferreira para vir ao Rio e instalar-se na Petrobrás "para
cuidar dos meus assuntos", já estava ocupado como candidato a
presidente.35 O novo colaborador logo percebeu: "O homem-chave de
toda a manobra é o Orlando".36 Em março de 1972 o general garantia
que o irmão nunca tocara em seu nome com Medici, da mesma forma
que o presidente jamais lhe fizera aceno algum.

Era raro que a imprensa mencionasse Ernesto Geisel como
eventual sucessor de Medici.37 O nome de Geisel circulava no Congresso
desde os últimos meses de 1970, mas ele não dava oportunidade aos


interlocutores para tratar do assunto, até que em fevereiro de 72 um
sargento que o servira como motorista no STM, transferido para Brasília,
foi ao Leblon despedir-se do antigo chefe:

— E quando é que o senhor vai? — perguntou o sargento.
— Ah, eu não vou — respondeu Geisel.
— Vai sim. O senhor vai ser presidente.38
1 Roteiro da exposição feita pelo general Figueiredo ao presidente Medici em janeiro de
1971, acompanhado por um bilhete de Figueiredo a Heitor Ferreira encaminhando-lhe

o documento em 79. APGCS/HF. NO bilhete Figueiredo contou: "A conclusão final, com a
qual o presidente Medici concordou inteiramente, era que o candidato ideal seria o
general Geisel". Num recorte da revista Visão de 22 de março de 1976, pp. 18-22,
intitulado "Retrospecto e perspectivas da sucessão presidencial", à margem do trecho
onde se diz que Medici só resolveu tratar da sucessão no segundo semestre de 73,
Figueiredo escreveu: "Escolhido em junho de 1971!" No Diário de Heitor Ferreira,
entrada de 21 de julho de 1972, há uma narrativa resumida do que teriam sido esse
encontro e sua gestação. Em entrevista a Glaucio Ary Dillon Soares e Maria Celina
d'Araujo, do CPDOC, O general Octavio Medeiros, assistente de Figueiredo, que foi com
ele ao Riacho Fundo, diz que a reunião aconteceu em junho de 1972. Prevaleceu o
documento encaminhado por Figueiredo a Heitor Ferreira.
2 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.

3 O ministro Orlando Geisel promoveu o general Humberto Mello à quarta estrela na
expectativa de com isso receber o voto de seu amigo Augusto Cesar Moniz de Aragão
contra Albuquerque Lima. Diário de Heitor Ferreira, 27 de janeiro de 1972. O general
Syseno Sarmento, que votou contra Albuquerque Lima, obteve uma cadeira de
ministro no Superior Tribunal Militar.

4 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.

5 O Estado de S. Paulo, 18 de março, e The New York Times, 19 de março de 1971.

6 Paolo Marconi, A censura política na imprensa brasileira — 1968/1978, p. 232.

7 Para a participação da Petrobrás no PNB, Laura Randall, The political economy of
Brazilian oil, p. 13.

8 Diário de Heitor Ferreira, 31 de dezembro de 1971 e 27 de janeiro de 1972.

9 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 15 de outubro de 1971. APGCS/HF.

10 Carlos Castello Branco, "Leitão de Abreu, vocação de poder e belo companheiro",
em jornal do Brasil de 15 de novembro de 1992, p. 2.

11 Diário de Heitor Ferreira, 26 de setembro de 1972.

12 Golbery do Couto e Silva, 1972, e Diário de Heitor Ferreira, 24 de fevereiro de 1972.

13 Youssef Cohen e outros, "Representation and development in Brazil, 1972-1973"
citado por Cohen em The manipulation of consent, p. 45.

14 Emilio Garrastazú Medici, Nosso caminho, p. 76. Mensagem ao povo brasileiro, no
limiar do ano-novo, transmitida por rede nacional de rádio e televisão, na noite de 31
de dezembro de 1971.


15 Informação dada a Heitor Ferreira pelo general Figueiredo, em Diário de Heitor
Ferreira, 6 de dezembro de 1973. Para uma versão sem nomes, feita logo depois da
posse, ver Roberto Nogueira Médici, Medici —O depoimento, p. 31.

16 Medici jamais discutiu publicamente essa questão. Uma explicação para tal
conduta foi dada em 1995, pelo seu filho Roberto: "Achava a prorrogação do mandato
do Castello Branco um grande erro político. Estabeleceu a desconfiança no seio da
liderança civil que até então respaldava o movimento de 1964". Folha de S.Paulo, 16
de julho de 1995.

17 História do Estado-Maior do Exército, p. 193.

18 Veja, "Temas para a necessária reforma", 25 de agosto, p. 16, e "O desengajamento
controlado", 22 de dezembro de 1971, p. 25. Documentos históricos do Estado-Maior do
Exército, p. 473.

19 Diário de Heitor Ferreira, 31 de dezembro de 1971 e 20 de março de 1972.

20 Idem, 31 de dezembro de 1971.

21 Para o discurso, Veja, "Mudança na ESG", 6 de outubro de 1971, p. 26, e
"Despedida na ESG", 13 de outubro de 1971, p. 26. Para a Censura, Paolo Marconi, A
censura política na imprensa brasileira —1968/1978, p. 235. A demissão de Rodrigo
Octavio foi tratada discretamente em diversas publicações.

22 Diário de Heitor Ferreira, 31 de dezembro de 1971.

23 O general João Baptista Figueiredo, chefe do Gabinete Militar, pediu ao coronel
Edmundo Adolpho Murgel, chefe da Agência Rio do SNI, uma "atenção especial" para
Portella. O pedido foi feito por intermédio do coronel Newton Leitão. Os três serviram
no SNI durante o governo Castello. Diário de Heitor Ferreira, 4 e 16 de fevereiro de
1972.

24 Três folhas com cópia de um relatório, carimbado "secreto", sem data, assinatura
ou origem. APGCS/HF. Datado, com a entrega atribuída ao coronel Ivan de Souza
Mendes, pela nota do Diário de Heitor Ferreira de 30 de abril de 1972. Em 1986 Heitor
Ferreira informou ao autor que o documento provinha do SNI.

25 Três folhas com cópia de um relatório, carimbado "secreto", sem data, assinatura
ou origem. APGCS/HF. Datado, com a entrega atribuída ao coronel Ivan de Souza
Mendes, pela nota do Diário de Heitor Ferreira de 30 de abril de 1972. Em 1986 Heitor
Ferreira informou ao autor que o documento provinha do SNI.

26 Folha de S.Paulo, 31 de março de 1971, p. 6.

27 Observação contada a Heitor Ferreira pelo general Antonio Luiz de Barros Nunes, o
Cacau, em Diário de Heitor Ferreira, 27 de janeiro de 1972.

28 Diário de Heitor Ferreira, 25 de janeiro de 1972.

29 Diário de Heitor Ferreira, 26 de abril de 1972.

30 Informação dada pelo coronel Danilo Venturini a Heitor Ferreira, em Diário de
Heitor Ferreira, 5 de maio de 1972.

31 Francisco Dellamora, fevereiro de 2001.

32 Para os detalhes do plano e para a ameaça de Medici, Ernesto Geisel, maio de
1985. Conversa de Figueiredo com Geisel, 9 de fevereiro de 1974, APGCS/HF. Ver
também Dickson M. Grael, Aventura, corrupção, terrorismo, pp. 11-21.

33 Maria Celina d'Araújo e Celso Castro, orgs., Ernesto Geisel, p. 258. Numa conversa
com o autor, Geisel narrou a mesma resposta de Orlando, em outros termos: "Eu não
posso. Sou um homem condenado".

34 Para a data, Ernesto Geisel, 1994.

35 Diário de Heitor Ferreira, 13 de novembro de 1971.


36 Idem, 31 de dezembro de 1971.

37 A principal exceção a essa regra foi um artigo do jornalista Carlos Chagas em O
Estado de S. Paulo, de 21 de janeiro de 1972, p. 4, no qual, entre outras soluções
possíveis, citou nominalmente o general Ernesto Geisel.

38 Narrativa de Geisel a Heitor Ferreira, em Diário de Heitor Ferreira, 25 de fevereiro
de 1972.


A turma da Candelária


Geisel sabia que ia ser presidente, mas a última coisa que lhe passaria
pela cabeça seria discutir esse assunto com um motorista, sargento,
ainda por cima. No seu gabinete da Candelária, o general manteve-se
cercado por uma pequena rede de colaboradores que nunca chegou a
ultrapassar a dezena, Todos amigos, todos militares, todos veteranos
conspiradores. Salvo um, instalado no Planalto, operavam no Rio de
Janeiro e concentravam-se nos nove quarteirões da avenida Rio Branco
que vão do sopé do morro de São Bento à rua da Assembléia.

A principal peça era Golbery. Em abril de 1970 estivera inquieto:
"Preocupa-me continuarmos na estaca zero. Que será em 1974? A
mesma papagaiada?".1 Menos de um ano depois passara à euforia: "O
Geisel presidente é uma solução tão boa para o país [...] que faço
absolutamente qualquer coisa que ele quiser".2 Com as ligações do IPÊS,
costurava por dentro no empresariado. "O Golbery esteve aqui e me fez
meia dúzia de vezes a mesma recomendação. Bico calado", contava o
general Muricy.3 Numa de suas raras aparições públicas, no quartel-
general da Dow, em Coral Gables, na Flórida, repetiu conceitos que
arriscava discutir com jornalistas e alguns poucos amigos militares:

A centralização do poder político nas mãos do Executivo, as
restrições ainda existentes para a atividade política e o excessivo
controle do Estado sobre a economia são todos riscos
calculados, aceitos conscientemente de forma a assegurar uma


rápida decolagem do país. Todos nós sabemos, como disse Lord
Acton: "O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente".
Além disso, a coerção excessiva gera muito mais
perigos e tensões. [...] Freqüentemente, como nesse caso, há um
certo grau de incompatibilidade entre os diversos objetivos de
um conjunto. Essa incompatibilidade só pode ser contornada
por uma manobra estratégica a ser planejada e executada numa
sucessão de etapas. Esse contorno é em si mesmo um
estratagema.4

Com setenta anos de vida e meio século de conspirações, ex-
governador de Pernambuco e do Rio Grande do Sul, comandante da
artilharia da FEB e ministro do Interior de Castello, o marechal Cordeiro
de Farias jogava mais uma sucessão presidencial. Tornara-se
conselheiro de um conglomerado industrial nordestino, mas seu negócio
era política. Estava convencido de que os projetos de colonização às
margens da Transamazônica acabariam em fracasso e criticava a forma
como se processava a obra da ponte Rio—Niterói.5 Aos políticos que o
procuravam repetia o mesmo conselho: "Fiquem bem quietos. Não
sabem nada. Não abram a boca".6 Cordeiro não falava coisa séria no
telefone e, embora estando a três quarteirões do gabinete de Geisel, lá
raramente punha os pés. Suspeitava que a entrada do prédio estivesse
vigiada.7 Perto do Carnaval de 1972, chamou Heitor Ferreira ao seu
escritório para pedir-lhe que pusesse os olhos num recrudescimento
das prisões de estudantes no Rio de Janeiro. Era elíptico até nas
confidências, e disse a Heitor que temia a possibilidade de se criar "um
certo clima a fim de provocar um outro certo clima".8 A embaixada
americana também captara esse clima, em Brasília. Não endossava a
especulação, mas registrava que as prisões estavam sendo relacionadas
com uma eventual tentativa de "conter a candidatura do general
Ernesto Geisel".9 Haviam prendido quarenta jovens da classe média e
matado o comandante da ALN no Rio. Segundo a CIA, das dezoito
mulheres presas, nenhuma participara de ações terroristas.10


Ao contrário de Golbery e Cordeiro, que tinham a capacidade de
atrair a atenção sobre seus movimentos, o marechal Ademar de
Queiroz, o Tico-Tico, era um conspirador inconspícuo. "Eterno", segundo

o amigo Ernesto Geisel.11 Presidira a Petrobrás e substituíra Costa e
Silva no Ministério da Guerra durante o governo Castello, e mesmo
assim era praticamente desconhecido. Dirigia uma empresa paulista de
produtos petroquímicos. Modesto e afável, protegera os "fritadores de
bolinhos" nos períodos de desgraça política. Chamava Golbery de "meu
filho", e ele, 21 anos mais moço, chamava-o "chefe". Surpreendera os
amigos em 1964 quando se recusara a demitir funcionários da
Petrobrás com base nos atos institucionais, preferindo usar a legislação
trabalhista: "Daqui a alguns anos vem uma anistia, e os punidos pelos
atos vão voltar. Pela lei será mais difícil que isso aconteça".12 Pensava
em colocar Geisel na Presidência desde a crise de 1969.13 Era o
articulador da única manifestação pública do castelismo, a missa pelo
aniversário da morte do marechal, a cada 18 de julho, na igreja de
Santa Cruz dos Militares, no centro do Rio.
Por conta do passado comum de conspirações, Tico-Tico e
Cordeiro foram procurados em janeiro de 1972 por coronéis da linha
dura. Desmoralizados pelo fracasso do governo Costa e Silva e lançados
à orfandade com a degola de Albuquerque Lima, os encrenqueiros dos
primeiros anos do regime estavam sem rumo. Como não deslizaram
para os porões dos DOIS, nem se associaram à retórica da repressão,
abdicaram do rótulo de radicais de direita. Com as costas lanhadas pela
ditadura que ajudaram a construir, buscavam uma porta que os
reconduzisse ao poder. "Estão muito arrependidos", assegurara Ademar
de Queiroz, satisfeito com a primeira conversa. "Acham que Ernesto é o
melhor nome."14

A reação de Geisel veio aos poucos. "Claro que eu não disse ao
Ademar, nem direi pois será indelicadeza. Mas era o caso: Tá bem. Nós
aceitamos a adesão da linha dura e eles amanhã lhe entregam uma
lista com o nome dos ministros." Geisel pediu a Golbery que encerrasse
as conversas do marechal. Ademar de Queiroz acabou aparecendo na


Candelária, e Geisel trancou-se com ele por hora e meia. Reabriu
cicatrizes do governo Castello e disse-lhe que não queria a aproximação.
Quando Heitor Ferreira lhe perguntou se ainda era necessária a
conversa com Golbery, respondeu: "Quero, claro. Pá de cal".15 Uma
semana depois os incansáveis coronéis foram ao apartamento de
Cordeiro de Farias, no corte do Cantagalo. Propunham-se a trazer o
apoio de Albuquerque Lima, valendo-se para isso da influência que
sobre ele exerciam alguns colegas, sobretudo o general Euler Bentes. E
mostraram a flecha envenenada: "São homens que nós consideramos
aproveitáveis para o Esquema Geisel".16 Quando o encontro lhe foi
narrado, o dono do Esquema divertiu-se: "Quer dizer que o Boaventura
já vai me trazer o ministério, o Affonso [...] o Euler...".17

No seu gabinete na Petrobrás, Geisel tinha três escudeiros. O
general Antonio Luiz de Barros Nunes, o Cacau, irmão do ministro da
Marinha, chefe do serviço de relações públicas da empresa, era um feliz
leva-e-traz. Já o coronel Gustavo Moraes Rego, o mais íntimo dos
assistentes de Castello Branco, vivia trancado na chefia de gabinete da
Presidência. Passara os anos anteriores no "canil" de Tabatinga,
comandando a área do alto Solimões. Cavalariano, repetente na AMAN,
era um chefe-de-gabinete fiel e barulhento. À boemia alegre e relapsa de
Cacau, Moraes Rego contrapunha o senso de humor de uma porta e o
rigor de um mestre-escola. O terceiro era Heitor Ferreira.

Depois de servir num regimento de cavalaria em Mato Grosso,
Heitor demitira-se do Exército e trabalhara em Belém como gerente do
Projeto Jari, investimento bilionário de um magnata americano nas
matas do Pará e do Amapá, onde pretendia cultivar arroz e plantar
gmelinas para a produção de papel. Ganhava alguns cobres adicionais
com traduções. Terminara o sucesso americano Peter principie, uma
divertida coletânea de truques de gerência, e procurava editor para "O
mundo restaurado", tese de doutorado do professor Henry Kissinger
sobre a Europa pós-napoleônica.18 Essa temporada florestal acabou-se
no final de 1971, quando Geisel o trouxe para o Rio. Tico-Tico chamava-
o de Sombrinha.19 Ia tão pouco à tona que em 1973 o Jornal do Brasil o


identificou numa fotografia como guarda-costas de Geisel.20 Viria a ser
um elo cotidiano com Golbery naquilo que denominava "segunda
guerra". No dia 15 de março de 1967, quando Costa e Silva, vencedor
da "primeira guerra", assumira a Presidência, Heitor despedira-se de
seu diário: "Fui a Jacarepaguá deixar o chefe em casa".21 Retomou-o no
dia 12 de novembro de 1971, no momento em que seu avião pousou no
Rio: "Às 14 hs. encontro com Golbery na Dow. Depois, Jacarepaguá até
21.30".22

Fora do Rio de Janeiro, instalado na chefia do Gabinete Militar,
no quarto andar do palácio do Planalto, ficava o general João Baptista
de Oliveira Figueiredo, o Figa. Seu pai, Euclides, paradigma de
cavalheirismo nas desordens militares da primeira metade do século,
fora um irredutível inimigo de Getulio Vargas. Depois do golpe do
Estado Novo, passara quatro anos entre a Casa de Correção e a
fortaleza de Santa Cruz. Transformado em morto vivo pela burocracia,
seus filhos cursaram o Colégio Militar como órfãos, descobrindo ainda
na juventude as vicissitudes que as ditaduras impõem aos adversários.
Primeiro colocado em todos os cursos do Exército, Figa tornara-se
conhecido também pelo apelido de Cu-de-Ferro.23

Ao contrário dos CDFS convencionais, como Prestes, Geisel e
Golbery, era extrovertido, desbocado, vulgar mesmo. Ficou de fora da
Força Expedicionária porque não tirara o curso de motomecanização e
fez a guerra como instrutor de cavalaria em Realengo.24 O antigetulismo
aproximara-o da direita militar nos anos 50, e dela Figueiredo nunca se
afastou. Servira com Golbery no Estado-Maior, no Conselho de
Segurança e, semiclandestinamente, no IPÊS. Na madrugada de 1º de
abril de 1964 o tenente-coronel Figueiredo foi um destacado insurreto
da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Com a criação do
SNI, ganhou o segundo posto do Serviço, a Agência Central, baseada no
Rio de Janeiro. Dois anos depois Golbery nomeou-o comandante da
Força Pública de São Paulo na mesma operação em que colocou o
desconhecido professor Antonio Delfim Netto na Secretaria da Fazenda
do estado. "Você tem cara de polícia", disse-lhe o general, ao telefonar



lhe para informá-lo das suas novas funções.25 Atazanado por uma
conjuntivite incurável, o coronel usava óculos escuros até de noite.

A salvo da perseguição que os generais de Costa e Silva moveram
aos castelistas, Figueiredo escrevera a Heitor Ferreira um mês depois da
edição do AI-5: "Se agora as coisas estão no pé em que percebemos,
imagina quando começarem os candidatos à sucessão presidencial a se
digladiarem! Vamos assistir a 'peladas' piores que as anteriores!".26

Na grande "pelada" pela Presidência da República que se jogou
depois do impedimento de Costa e Silva, esteve no time campeão.
Chegara a general-de-brigada aos 51 anos, proeza única entre os 121
generais do Almanaque, e a crise pegou-o como chefe de estado-maior
de Medici, no III Exército, levando-o à chefia do Gabinete Militar, no
Planalto.27

Alternava o tipo do general de comédia com o de capitão atlético,
apaixonado por cavalos e saltos. Poucos o conheciam tão bem como
Geisel. Por detrás do esportista estava um cardiopata atormentado por
dolorosas crises de hérnia de disco.28 Depois de Orlando Geisel, era a
principal peça na burocracia militar do governo. Na posição em que ele
se encontrava, nenhuma manobra podia escapar à sua atenção. Jogava
bruto. Dispunha da máquina do SNI através de um coronel amigo que
chefiava a Agência Rio.29 Fazia saber à Candelária parte do que ouvia no
Planalto, desde preciosas minúcias (a bronquite de Medici recrudesceu)
a conselhos úteis ("cuidado com os telefones").30 Numa lista de
codinomes preparada por Heitor Ferreira, era o Nabuco, e em fevereiro
de 1972 sua estrela brilhava, ora como futuro chefe do SNI, ora como
possível vice-presidente do próximo governo.31

Dois anos depois, relembrando essa época, Golbery classificou de
"decisiva" a participação de Figueiredo na sucessão. Ao que Geisel
completou: "Bem verdade que ele se aliou ao Orlando, e aí venceram
todas as resistências".32

Geisel presidia esse círculo. Só Cordeiro, Tico-Tico e Cacau tinham
intimidade suficiente para chamá-lo de "você". Golbery também a tinha,
mas como era seu hábito com pessoas a quem não queria tomar — ou


dar — intimidade, recorria a construções torturadas, expulsando os
pronomes. Por exemplo: "Leu o jornal hoje?", ou "Acha que essa é a
melhor solução?". Raramente deixava escapar um "Ernesto". Nenhum
deles ia à Petrobrás sem marcar hora, muito menos ao Leblon. Só
Cacau conhecia o apartamento que Geisel acabara de comprar em
Teresópolis.

Nos primeiros meses de 1972 o quadro político pelo qual passaria
a sucessão alinhava três competidores. Na dianteira estavam Geisel e a
prorrogação do mandato de Medici. Atrás, embolados, vinham os
generais-engenheiros, os coronéis encrenqueiros e a figura esquiva e
perseverante do general Jayme Portella, o detestado articulador de
Costa e Silva. Em pouco mais de um mês ele foi plotado trabalhando
por cinco candidaturas, inclusive a de Geisel.33 Tornara-se um general
em busca de uma conspiração.

A prorrogação, manobra complexa, continuava dependendo do
Grande Eleitor. No final de março de 1972 Medici jogou água em todas
as fervuras anunciando que não estava disposto a tratar da sucessão
presidencial antes do segundo semestre do ano seguinte e que
constituía um "grave desserviço" mexer no assunto antes que ele
abrisse as conversações.34

Uma semana depois o general Ariel Pacca da Fonseca,
comandante da 4ª Região Militar, surpreendeu tanto o Planalto como a
Candelária. Numa cerimônia banal na Assembléia Legislativa de Minas
Gerais ele disparara: "O país não aceita a reeleição do presidente, dos
governadores e dos prefeitos, pois isso, sem uma estrutura democrática
consolidada, significa ditadura".35 Fora colaborador direto de Geisel
durante o governo Castello e, apesar de artilheiro, tangenciava o
nacionalismo e a insatisfação onde se confundiam os engenheiros e os
salvados da linha dura. Seu discurso foi discretamente noticiado, mas
assustou a hierarquia. Diante da surpresa, um coronel do Gabinete
Militar ilustrava seus receios com um diagrama. Nele traçou quatro


linhas, cada uma representando um grupo militar, todas atravessando
uma faixa denominada "incidente do Ariel Pacca"e convergindo para um
ponto, a candidatura do general Euler Bentes.36

No dia seguinte, Geisel fora ao palácio para discutir negócios de
gás com a Bolívia, mas o assunto era o discurso de Pacca. Debateu-o
com Figueiredo e Leitão de Abreu, e ambos concluíram que o período de
segredo da candidatura estava se esticando demais e seria muito difícil
adiar o tema até o segundo semestre de 1973. Talvez fosse necessário
anunciar o nome pouco depois das festas do Sete de Setembro. Geisel
achava que o governo devia evitar que a fala de Pacca conseguisse
destaque ou importância na imprensa.37

A caminho do escritório o general admitiu para Heitor Ferreira:
"É, o negócio parece que vai acontecer mesmo".38

No dia seguinte a Censura informou: "De ordem superior fica
terminantemente proibida continuação publicação declarações general
Ariel Pacca Fonseca, inclusive comentário e editoriais".39

Geisel pouco tinha a temer, mas daqui e dali vinham
advertências. Não devia confiar no professor Leitão de Abreu.
Captaram-se sinais de que o ministro Delfim Netto trabalhava a
candidatura do chefe do Gabinete Civil.40 Não devia confiar sequer no
chefe do SNI, general Carlos Alberto da Fontoura. Oficial retraído,
Fontoura era o melhor amigo de Medici. Os coronéis encrenqueiros
diziam que ele era candidato. Seu chefe-de-gabinete, coronel Jayme
Mariath, andara pelos quartéis do Sul e chegara a marcar um encontro
com o comandante do III Exército, Oscar Luiz da Silva.41 Antes de
recebê-lo, o general telefonou para Orlando Geisel. O ministro do
Exército ordenou-lhe que prendesse Mariath.42

Do Grande Eleitor nada se ouvia, até que na manhã de 21 de
junho de 1972, durante uma visita a São Paulo, Medici foi avisado de
que o governador Laudo Natel estava pronto para fazer um discurso
pedindo-lhe que continuasse no governo por mais um ano. O bote seria
dado à noite, num banquete no palácio dos Bandeirantes, diante de
outros governadores. À tarde, depois de inaugurar um centro de


convenções, Medici surpreendeu Natel: "Vou agora mesmo para
Brasília, governador. Passe bem". Tomou o carro e foi para Congonhas,
onde teve de esperar meia hora e quatro cafezinhos até aprontarem seu
avião. Natel ficou sem convidado de honra e sem o que dizer no
banquete.43

Quatro dias depois, nova salva. O Correio da Manhã, porta-voz
decadente dos empreiteiros que o arrendaram em 1969, publicou na
primeira página um empolado editorial pedindo a coincidência dos
mandatos dos governadores com o do presidente. Em suma, a
prorrogação do mandato de Medici por um ano.44 A Candelária agitou-
se. Geisel soubera que na operação havia o dedo do ministro dos
Transportes, Mário Andreazza.45 Cordeiro de Farias ouvira a mesma
história e também a de uma nascente articulação de parlamentares.
Golbery recebera uma versão diferente: o inspirador do editorial fora o
general Fontoura, chefe do SNI. Prova: ele sustara uma cobrança de
dívidas do Correio da Manhã com a previdência social.46

Onze governadores reunidos em São Paulo e um editorial na
primeira página do Correio indicavam que se existia alguém no governo
manobrando esses acontecimentos, faltava-lhe força para jogar parada
tão alta. Dez governadores não haviam atendido ao chamado de Laudo
Natel, entre eles os do Rio Grande do Sul, da Bahia e do Paraná.
Ademais, se o editorial fora para a primeira página de um jornal
agonizante, havia nisso a sugestão de que os seus inspiradores não
tiveram semelhante acesso nas principais publicações do país.

Coisas estranhas estavam acontecendo à volta de Geisel. O
ministro da Fazenda, Delfim Netto, queria cobrar imposto de renda à
Petrobrás. O SNI vetara a matrícula de Leon Zeitel, chefe adjunto do
serviço de planejamento da empresa, no curso da Escola Superior de
Guerra. "Em 1964 foi denunciado por atividades comunistas", dizia a
ficha do funcionário.47 A Docenave, companhia de navegação da Vale do
Rio Doce, brigava com a Frota Nacional de Petroleiros.48 A burocracia do


Ministério de Minas e Energia ordenara ao diretor financeiro da
empresa que voasse para o exterior na classe turística.49 O ministro
Antônio Dias Leite rejeitara os cálculos de preços de derivados que a
Petrobrás lhe encaminhara.

Com a ajuda de Leitão de Abreu, Geisel acertou Delfim. "O
professor me transmitiu um recado de Medici: que não amolasse o
general Geisel, porque ele ia ser o presidente da República", contaria
Delfim mais tarde.50 Com um tranco no general Fontoura, moeu o veto a
Zeitel e matriculou-o na ESG. Batido, o SNI passou a ver o economista
com outros olhos: "É altamente conceituado e considerado uma das
maiores inteligências da Petrobrás".51 Com a cooperação do segundo
escalão, pacificou a Docenave, e, provavelmente, com a clarividência
política da Varig, o diretor financeiro voou na primeira classe. Com o
ministro Dias Leite, a briga era mais funda. Geisel detestava-o, e não
lhe passava pela cabeça prestar a ele nenhuma subordinação além
daquela exigida pelo protocolo. Nem sequer lhe mostrara os nomes dos
diretores que pusera nas subsidiárias e, quando soube de sua
contrariedade, respondeu que não via razão para tê-lo consultado.52 Ao
sentir-se desafiado, Geisel decidiu que daí em diante deveria dissimular:
"Mais tarde acertaremos as contas. Sei que é uma solução safada. Mas
para safado, safado e meio".53

Engano. Em abril, Dias Leite voltou a contraditar os cálculos de
preços da Petrobrás, e Geisel mudou de conduta. Levou o caso a
Figueiredo e pela primeira vez falou em deixar a presidência da
Petrobrás.54 Repetiu a advertência a Leitão de Abreu.

— Mas o senhor não pode fazer isso, general. O senhor é o nome
em que estamos pensando para suceder o presidente.
— Talvez isso também seja um bom motivo para eu sair —
respondeu Geisel.55

O chefe do Gabinete Civil ficou de conversar com o ministro.
Conversou, mas não se fez a paz. Na primeira reunião com Dias Leite,
Geisel esmurrou a mesa. Horas depois teve uma idéia: ia falar com


Medici.56 Figueiredo acertaria o encontro através do professor Leitão de
Abreu. Nada. Dias Leite não cedeu. Exercendo sua autoridade e
aceitando a possibilidade de um choque, determinou a Geisel que
procedesse a um aumento de capital da Petrobrás e tornou a discutir a
tabela de preços dos derivados.57

No dia 5 de julho, passadas três semanas do fracassado banquete
da prorrogação, Geisel decidiu atirar de volta. Foi ter com o irmão,
botou as cartas na mesa e disse que precisava levar o caso a Medici,
pois estava disposto a ir embora.58 Orlando deu-lhe razão, estranhou
até que tivesse agüentado tanto. Falaria com Medici no dia seguinte.
Mais: iria junto.59

Menos de 72 horas depois os irmãos Geisel chegaram ao
Laranjeiras. A cena impressionou Medici: "Eles nunca se meteram nas
coisas um do outro".60 Ernesto levou um roteiro historiando suas
divergências com Dias Leite, mas não falou em ir embora, nem tentou
sair da conversa com a cabeça do ministro debaixo do braço. O
presidente apoiou-o com reminiscências e platitudes, e do encontro
sobrou uma só frase, estudada e repetida: "Seu Ernesto, faltam vinte
meses e sete dias".61

E assim apareceram novas preocupações. Onde instalar a equipe
de transição? Quem convidar para o primeiro escalão de maneira a
demonstrar continuidade administrativa? Quais ministérios visitar? O
que colocar na lista das providências a serem tomadas na primeira
semana de governo? Figueiredo acreditava que o convite formal seria
feito dali a cinco meses, em janeiro.62

Por mais fáceis que parecessem as coisas, surgiam novas e
pequenas pedras no caminho. Em quase todos os casos, o pronto
remédio usado pelo governo sempre foi a censura.

Em menos de um mês, cinco ordens abafaram a sucessão. Desde
dezembro de 1969 a Censura jamais mostrara tamanha ferocidade.
Emitira 117 ordens, calando Ariel Pacca com uma e Rodrigo Octavio


com duas. Todo o esforço para silenciar a Igreja custara dezesseis
proibições (seis delas só para impedir que se mencionasse a existência
de d. Helder Câmara). Seu negócio era proteger a tortura e combater o
terrorismo (sessenta proibições). Negativo fiel das preocupações do
governo, a imposição do silêncio ecoava as vozes dos fantasmas que
assombravam o regime. Era significativo que no "Brasil Grande" se
proibissem notícias que pudessem abalar as bolsas de valores ou
revelar a existência de surto hemorrágico na população infantil da
cidade de Altamira, jóia da coroa da colonização transamazônica.63

O objetivo da operação era impor às empresas jornalísticas e aos
dignitários que as cultivavam a percepção de que assim como não
podiam falar dos assassinatos políticos, não poderiam também tratar da
sucessão presidencial, o mais precioso entre os temas de interesse da
elite nacional. Todos os grandes jornais, revistas e redes de
comunicação louvavam o Milagre Econômico e haviam tolerado a
Censura que protegia a repressão, cujas vítimas eram pessoas
deliberadamente rompidas com a ordem política da ditadura e com a
ordem social. O caso da sucessão era diverso. Tratava-se de
marginalizar toda a elite civil e quase toda a elite militar, bem como as
publicações dispostas a vocalizar seus interesses.

Numa demonstração da preferência de Medici pela força, o
general Figueiredo desembarcou no Rio de Janeiro no meio da tarde de
24 de agosto e tocou direto para o palácio Laranjeiras. Pouco depois
chegou o general Ernesto Geisel. Nessa mesma hora o presidente
conversava com Orlando Geisel. O ministro da Justiça, acompanhado
pelo chefe da Polícia Federal, já deveria ter desembarcado em São
Paulo, no olho do furacão.64

O caso era o seguinte: em sua próxima edição O Estado de S.
Paulo deveria revelar, com grande destaque, que o general Ernesto
Geisel seria o futuro presidente da República, e o governo decidira
apreender o jornal. Se necessário, sua sede seria ocupada militarmente.
Figueiredo fora enviado por Medici para prevenir o general e evitar que
ele viesse a interpretar a providência como um ato de hostilidade. Esse


também era o tema da conversa de Medici com Orlando Geisel, em
Brasília.65 Geisel concordou com o plano, agradeceu a comunicação,
lembrou que não estava interessado em ser presidente, pediu que não
se constrangessem em procurar outro nome e tratou com Figueiredo do
cronograma para o lançamento da candidatura. ("Bem que eu queria
colocar a mão num exemplar desse jornal amanhã", comentou com
Heitor Ferreira logo que deixou o palácio.)66

À meia-noite, um censor e quatro agentes da Polícia Federal
entraram no prédio do Estadão enquanto policiais armados cercavam o
edifício e bloqueavam as saídas. Leram tudo o que quiseram e não
acharam nada.67 O governo se mobilizara em torno de uma balela. A
Candelária não tinha pacto com o jornal, nem queria ter. Quando um
amigo levou a Geisel uma carta do diretor do Estado endereçada ao seu
irmão Orlando, reconstituindo a bufa investida da polícia, ele sugeriu
que a levasse de volta: "Endereço errado, é assunto do ministério da
Justiça".68 Falhara o pretexto, mas persistia a determinação de mostrar
às empresas jornalísticas que deviam ficar ao largo do jogo de pressões
para a escolha do próximo presidente.

Passaram-se três semanas, e o marechal Cordeiro de Farias deu
uma entrevista ao Estado. Louvou o governo Castello Branco, falou mal
de Costa e Silva, defendeu a possibilidade de revisão para algumas
punições políticas e concordou quando o repórter mencionou o risco de
se repetir no regime vigente o vácuo de quadros políticos provocado pela
ditadura do Estado Novo.69 Era carne magra, mas enfureceu o presidente.
70 Acionada, a Censura voltou a mostrar os demônios que
assombravam o Planalto. Proibiu entrevistas "cujo teor coloque em
análise governos revolucionários de forma crítica, ou exaltação aos
governos referidos". Tradução: era proibido falar bem do presidente
Castello Branco. Envolto numa mortalha liberal produzida pela
reavaliação de seu consulado e pela divulgação dos documentos de seu
arquivo, o marechal acabara de ser pomposamente trasladado para um
mausoléu de concreto em Fortaleza.71

Ruy Mesquita, um dos diretores d'O Estado de S. Paulo,


conspirador de 1964, telegrafou ao ministro da Justiça. Acusou-o de
rebaixar o Brasil "à condição de uma republiqueta de banana" e
denunciou o governo por "enveredar pelos rumos de um caudilhismo
militar que já está fora de moda".72 Recusando-se a aceitar as ordens da
Polícia Federal, o Estado foi submetido à censura prévia. Passou a
publicar receitas culinárias e, depois, trechos de poemas e fragmentos
d'Os lusíadas nos espaços abertos pelos textos proibidos. Foi, assim, o
único periódico a mostrar sistematicamente aos leitores, todos os dias,
que estava sob censura. O telegrama de Mesquita circulou pelo
Congresso e pelas redações, mas só o gaúcho Breno Caldas, estancieiro
patriarcal e dono do Correio do Povo, resolveu divulgá-lo. Arquétipo da
elite do Rio Grande, era amigo dos Mesquita e tivera o general Costa e
Silva a pedir-lhe barbadas nas corridas de cavalos. Poucas semanas
antes Medici fizera-se convidar para um churrasco em sua casa. O
Correio foi impedido de circular e não voltou a mexer com sucessão nem
censura. O presidente conservou o apetite, e Breno Caldas serviu-lhe a

73

carne.

No "Brasil Grande" daquele final de setembro de 1972, a investida
contra o Estadão eo Correio do Povo foi mantida ao largo do debate público.
Medici era o dono da festa do Sesquicentenário. Reunira mais de
100 mil pessoas para um espetáculo de som e luz em São Paulo e levara
30 mil a uma exposição industrial. Na parada do dia 7 as baterias de
foguetes Sonda davam uma coreografia de potência ao tradicional
desfile de velhos tanques americanos. As autoridades, vestidas de
fraque, davam um toque de passado à hierarquia do país do futuro.74
Depois de vagar por todo o Brasil, d. Pedro foi deixado numa cripta do
Museu do Ipiranga. Na maior festa do regime, proibiu-se a lembrança
de que o dono da ossada assinara em 1822 o decreto abolindo a
censura à imprensa.75

1 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 28 de abril de 1970. APGCS/HF.


2 Anotação de Heitor Ferreira, 10 de janeiro de 1972.
3 Idem, 26 de janeiro de 1972.
4 Brazil — Realities and Prospects. Maço de dezenove folhas com o texto da palestra de


Golbery ao Conselho da Dow, em 1972, pp. 5-6. AA.
5 Diário de Heitor Ferreira, 25 de janeiro de 1972.
6 Idem.
7 Idem, 28 de janeiro de 1972.
8 Idem.
9 Telegrama da embaixada americana em Brasília ao Departamento de Estado, de 26


de abril de 1973, referindo-se a fatos do ano anterior. DEEUA.

10 Central Intelligence Agency, Weekly Report, 4 de fevereiro de 1972. O líder da ALN

morto é Héldo Pereira Fortes. DEEUA.

11 Ernesto Geisel, outubro de 1994.


12 Idem, 1988.


13 Diário de Heitor Ferreira, 31 de dezembro de 1971.


14 Narrativa de Geisel a Heitor Ferreira do telefonema que recebeu de Ademar de


Queiroz na noite de 3 de janeiro de 1972, em Diário de Heitor Ferreira, 4, 5 e 17 de


janeiro de 1972.


15 Diário de Heitor Ferreira, 4 e 6 de janeiro de 1972.
16 Registro da conversa de Cordeiro de Farias com os coronéis Francisco Boaventura,
Paladino e um terceiro não identificado, em Diário de Heitor Ferreira, 18 de fevereiro de
1972.


17 Geisel a Heitor Ferreira, depois de ler um resumo da conversa de Cordeiro com os
coronéis, em Diário de Heitor Ferreira, 21 de fevereiro de 1972. Boaventura era o
coronel Francisco Boaventura.


18 Peter principie, de autoria de Laurence J. Peter e Raymond Hull, foi lançado no
Brasil pela editora José Olympio, em 1970, com o título Todo mundo é incompetente,
inclusive você — As leis da incompetência.


19 Bilhete de Ademar de Queiroz, 6 de junho de 1973. APGCS/HF.

20 Jornal do Brasil, 20 de junho de 1973, p. 3.

21 Diário de Heitor Ferreira, 15 de março de 1967.

22 Idem, 12 de novembro de 1971.

23 Informação dada pelo general Figueiredo ao jornalista Orlando Brito em 5 de


fevereiro de 1991.
24 João Baptista Figueiredo, dezembro de 1977.
25 Diário de Heitor Ferreira, 5 de junho de 1966.
26 Carta de Figueiredo a Heitor Ferreira, de 13 de janeiro de 1969. APGCS/HF.
27 Almanaque do pessoal militar do Exército, de 1968, pp. 9-18.
28 Diário de Heitor Ferreira, 2 de fevereiro de 1972.
29 Idem, 4 e 16 de fevereiro de 1972.
30 Para a bronquite, informação dada por Figueiredo ao general Reynaldo Mello de


Almeida e transmitida por ele a Geisel, em Diário de Heitor Ferreira, 6 de março de
1972. Para os telefones, idem, 21 de julho de 1972.
31 Uma folha manuscrita, de Heitor Ferreira. APGCS/HF. Para a cogitação de seu nome



para chefe do SNI, conversa de Geisel com Heitor Ferreira, em Diário de Heitor Ferreira,
16 de fevereiro e 26 de março de 1972. Para a cogitação para a Vice-Presidência,
conversa de Geisel com Heitor Ferreira, em Diário de Heitor Ferreira, 30 de setembro
de 1972. Duas folhas manuscritas, de Heitor Ferreira a Geisel, marcadas "só para o
presidente", de janeiro de 1973, com um exercício de nomes para o novo governo. Nele
Figueiredo está entre os prováveis escolhidos para vice-presidente e chefe do SNI. Mais
tarde Figueiredo sugeriria que seu codinome fosse Bagual, mas prevaleceu o Nabuco.
Bilhete de Figueiredo a Heitor Ferreira, de 22 de junho de 1973. APGCS/HF.

32 Conversa de Geisel, Golbery e Heitor Ferreira, no palácio do Planalto, em Diário de
Heitor Ferreira, 19 de fevereiro de 1975.

33 Heitor Ferreira relacionou-o com Lyra Tavares, ex-ministro do Exército e
embaixador do Brasil na França, cunhado do professor João Leitão de Abreu. Diário
de Heitor Ferreira, 18 de fevereiro de 1972. O general Figueiredo ligou-o ao general
Arthur Candal Fonseca. Idem, 3 de março de 1972. O senador maranhense Vitorino
Freire associou-o ao ministro da Educação Jarbas Passarinho, ao governador mineiro
Rondon Pacheco e ao próprio Geisel. Idem, 25 de fevereiro, 16 de março e 5 de maio de
1972.

34 Folha de S.Paulo, lº de abril de 1972, p. 1.

35 Carlos Chagas, A guerra das estrelas (1964/1984), p. 203.

36 Uma folha de bloco com rabiscos, intitulada por Heitor Papelzinho da Conversa
com Medeiros. APGCS/HF. Refere-se ao coronel Octavio Medeiros.

37 Diário de Heitor Ferreira, 10 de março de 1972.

38 Idem.

39 Paolo Marconi, A censura política na imprensa brasileira — 1968/1978, p. 239.

40 O ex-governador baiano Luiz Viana contou a Heitor Ferreira que o ministro da
Fazenda Delfim Netto tentara atrair seu colega Costa Cavalcanti, do Interior, para a
candidatura de Leitão de Abreu. Diário de Heitor Ferreira, 8 de março de 1972.

41 Para os coronéis, narrativa de Cordeiro de Farias a Heitor Ferreira de seu encontro
com três coronéis, liderados por Francisco Boaventura, no dia 9 de fevereiro de 1972,
em Diário de Heitor Ferreira, 18 de fevereiro do mesmo ano. Para o coronel do SNI,
informação dada a Heitor Ferreira por Cacau de Barros Nunes depois de um encontro
com seu irmão, almirante Adalberto de Barros Nunes, ministro da Marinha. Idem, 6
de março de 1972.

42 Carlos Chagas, A guerra das estrelas (1964/1984), p. 210. Ernesto Geisel, abril de
1995.

43 Carlos Chagas, A guerra das estrelas (1964/1984), p. 206.

44 Correio da Manhã, 26 de junho de 1972, "Dever de fidelidade", capa do 1º caderno.

45 Informação dada a Geisel pelo senador maranhense Vitorino Freire, em Diário de
Heitor Ferreira, 26 de junho de 1972.

46 Diário de Heitor Ferreira, 28 de junho de 1972.

47 Para o incidente, narrativa de Geisel, em Diário de Heitor Ferreira, 24 de fevereiro
de 1972. Para o caso, Juízo Sintético nº 114/10/AC/75, da Agência Central do SNI, de
21 de julho de 1975, referente ao economista Leon Zeitel.

48 Diário de Heitor Ferreira, 25 de fevereiro de 1972.

49 Idem, 23 de maio de 1972.

50 Delfim Netto, novembro de 1988.

51 Juízo Sintético nº114/10/AC/75, da Agência Central do SNI, de 21 de julho de 1975,
referente ao economista Leon Zeitel. APGCS/HF.


52 Explicação de Geisel, em Diário de Heitor Ferreira, 7 de março de 1972. Ernesto
Geisel, janeiro de 1995.
53 Geisel a Heitor Ferreira, em Diário de Heitor Ferreira, 25 de fevereiro de 1972.
54 Diário de Heitor Ferreira, 27 de abril de 1972.
55 Idem, 28 de abril de 1972.
56 Idem, 3 de maio de 1972.
57 Idem, 13 de junho e 5 de julho de 1972.
58 Diário de Heitor Ferreira, 5 de julho de 1972.


59 Idem, 6 de julho de 1972.
60 Informação dada pelo general Figueiredo ao almirante Floriano Faria Lima, em
Diário de Heitor Ferreira, 21 de julho de 1972.


61 Narrativa do encontro feita por Geisel a Heitor Ferreira, em Diário de Heitor
Ferreira, 10 de julho de 1972.


62 Diário de Heitor Ferreira, 14 de agosto de 1972.
63 Para a bolsa e o surto, ordens da Censura de 6 de janeiro e 22 de maio de 1972,
em Paolo Marconi, A censura política na imprensa brasileira — 1968/1978, p. 243.


64 Diário de Heitor Ferreira, 25 de agosto de 1972.

65 Narrativa de Geisel a Heitor Ferreira, em Diário de Heitor Ferreira, 25 de agosto de
1972.
66 Idem.
67 Narrativa de Julio de Mesquita Neto, em O Estado de S. Paulo, de 12 de dezembro


de 1993, "Relatos de luta pelo poder incomodavam militares", Caderno 2 Especial, p.


D3, e Julio de Mesquita Neto, dezembro de 1993.
68 Diário de Heitor Ferreira, 4 de setembro de 1972. A carta era assinada por Julio de
Mesquita Neto, e o portador fora o senador Vitorino Freire.


69 O Estado de S. Paulo, 13 de setembro de 1972, p. 4.


70 Informação dada a Heitor Ferreira por Antonio Carlos Magalhães, que estivera com
Medici dias antes, em Diário de Heitor Ferreira, 16 de setembro de 1972.
71 Veja, 26 de julho de 1972, p. 13.
72 Telegrama de Ruy Mesquita ao ministro Alfredo Buzaid, de 19 de setembro de


1972, em Paolo Marconi, A censura política na imprensa brasileira — 1968/1978, pp.

64-5.
73 Breno Caldas, Meio século de Correio do Povo, depoimento a José Antonio Pinheiro
Machado, pp. 79-85.


74 Veja, 13 de setembro de 1972, pp. 12-9.
75 Paolo Marconi, A censura política na imprensa brasileira — 1968/1978, p. 243.



Um voto, o voto


Emilio Medici e os dois irmãos Geisel formaram um intrigante triângulo
político. Examinado pelos códigos convencionais de conduta, soava
banal. Dado um presidente retraído, um ministro do Exército poderoso
e um irmão candidato, o desdobramento é óbvio: os irmãos se
entendem, Orlando vai a Medici, empurra a candidatura de Ernesto, e
acabou-se. Não se conhece documento ou mesmo indiscrição capaz de
amparar esse raciocínio. Por óbvio, pode-se entender que o ministro do
Exército trabalhou pelo irmão. Orlando contou que dissuadiu o
presidente da idéia de entregar a escolha de seu sucessor a um sacro
colégio de generais.1 Humberto Barreto, amigo pessoal de Geisel, ouviu-

o dizer, na casa do irmão, que embora sentisse algumas manobras
contra sua indicação, o caso estava decidido: "Não tem mais volta. É
você".2 Não foi pouca coisa. Se a indicação passasse pelo Alto-Comando,
quase certamente resultaria na escolha de um quatro-estrelas da ativa.
Se houvesse volta, ela seria a prorrogação do mandato do presidente.
Foi a vontade de Medici que levou Ernesto Geisel à Presidência.
O presidente contou a Geisel: "Eu não fui buscar um general da
ativa. O fato de não ter ido buscar um general da ativa demonstra que o
país está bem e está evoluindo, porque se houvesse um problema
militar e não sei o quê, teria que buscar o general da ativa. [...] Você que
de um lado foi general, já está fora há algum tempo. Na administração,
na empresa. Não é isso? É um sujeito também empresário. Isso mostra


uma evolução, uma transição".3

Geisel sempre admitiu que Orlando trabalhou a sua candidatura,
mas ressalvava: "Não vou dizer que ele não influiu, mas que ele tenha
imposto a minha candidatura, não acredito. [...] As relações dele com o
Medici não eram próprias para isso".4 O presidente e seu ministro do
Exército partilhavam uma amizade típica do meio militar, em que o
afeto se subordina à hierarquia. Socialmente retraídos, não se tornaram
íntimos quando Orlando comandou Emilio, nem quando essa situação
se inverteu. Já as relações de Ernesto com o presidente eram nulas.
Durante todo o ano de 1972 viram-se três vezes. Dois encontros foram
protocolares, e neles Medici manteve a conversa no circuito das
trivialidades. Num só — o da ofensiva contra Dias Leite — tiveram
agenda séria. Nesse mesmo período Geisel foi ao palácio quatro vezes
para discutir seus assuntos. Nem foi ao presidente, nem ele o chamou.5

No dia 15 de janeiro de 1973, alterou-se a escrita. Medici recebeu

o ministro com um "ah, seu Orlando, faltam só 14 meses".6 Acabado o
despacho, perguntou:
— E então, como é que vão as coisas? O que é que dizem por aí?
— Dizem o de sempre, que você vai continuar.
— Isso é uma safadeza desse pessoal. [...]
— Bom, olhe. Se esse negócio cair na mão do Ernesto, você
compreende, eu não posso ficar.
— Que é isso? Por que não? Fica sim, deixe de histórias.7
Foi tudo. A Candelária esperava um sinal do Planalto nos
primeiros meses de 1973. Ninguém acreditava que Medici conseguisse
manter a promessa de só tratar do assunto no segundo semestre. Desde
janeiro Heitor Ferreira começara a trabalhar na simulação da conversa
que Geisel teria com o presidente e a listar nomes de possíveis
ministros.8 Golbery trabalhava nos anteprojetos de lei que deveriam
criar o Ministério da Previdência e o Conselho de Desenvolvimento
Econômico.9 Geisel estudava papéis do Itamaraty remetidos pelo
gabinete do chanceler, leis eleitorais enviadas pelo deputado Flávio


Marcílio e a posição dos generais no Almanaque do Exército na época de
sua posse.

No dia 13 de fevereiro de 1973 Heitor Ferreira encontrou-se em
Brasília com Figueiredo. O general estava assustado. Queixava-se de
que estava tudo no ar, "o que me alarma". Detectara um novo surto
continuísta, envolvendo até mesmo o comandante do III Exército. A
permanência de Orlando Geisel no ministério parecia-lhe essencial:
"Não pode sair. Saindo pode alterar tudo". Heitor anotou as informações
de Figueiredo e levou-as a Geisel. Nesse registro há uma linha onde se
lê: "Golbery & Geisel".10 É muito provável que essa nota críptica
contenha um dos mistérios da sucessão de 1973.

Roberto Médici, filho e assessor do presidente, sustentou que a
possibilidade de um retorno de Golbery ao poder perturbava seu pai,
levando-o a duvidar da própria conveniência da escolha de Geisel. Pela
narrativa do filho, Medici explicitou sua angústia num encontro com
Figueiredo, Leitão de Abreu e Fontoura, mas o chefe do Gabinete Militar
disse-lhe: "Não se preocupe, presidente. Estão completamente
separados".11 Em 1995 o general Fontoura — única testemunha
sobrevivente — considerou verdadeiro o relato de Roberto Médici.12
Também em 1995, Figueiredo afirmou que, quando Medici lhe
perguntou se Geisel chamaria Golbery para o governo, sua resposta foi
outra: "Isso não sei, presidente".13

Figueiredo mentiu duas vezes, a Medici em 1973 e ao público em

95. Ele narrou o fato a Geisel de maneira semelhante a Roberto Médici.
Anos depois, Geisel relembrou: "O Figueiredo garantiu a ele que eu não
levaria o Golbery para o governo. Ele me disse isso". Passados mais de
vinte anos, já afastado de Figueiredo, Geisel tratava desse episódio com
perplexidade. Insistia: "Ele diz que disse". Entendia o que acontecera:
"Ele não queria invalidar a minha candidatura".14
Que Golbery e Geisel estivessem separados era uma mentira
absurda. Os dois mantinham um permanente fluxo de papéis. Heitor,
ex-assistente de um no SNI, durante o governo Castello, era secretário do
outro, na Petrobrás. No ano anterior, Geisel e Golbery haviam-se


encontrado pelo menos sete vezes. Duas em público, no casamento do
filho de Golbery, em maio de 1972, e num almoço com dois outros
generais, em julho. Ao contrário de Cordeiro de Farias, que evitava
entrar no prédio onde funcionava a presidência da Petrobrás, Golbery lá
foi em fevereiro, maio e junho. Em julho visitou Geisel em casa e em
outubro, quando se restabelecia de uma operação de catarata, recebeu-

o em Jacarepaguá.15 Que Figueiredo não soubesse do retorno de
Golbery ao poder também era mentira absurda. Seis meses antes,
numa conversa em Brasília, perguntara a Heitor Ferreira:
— E se você fosse presidente, que Chefe do Gabinete Civil
escolheria?
— Não sei. Não conheço o pessoal. Que acha o senhor?
— Ah, o Golbery. Não tem outro.16
Medici desprezava Golbery por dirigir uma empresa americana
depois de ter passado pelo SNI, onde conheceu "o direito e o avesso de
todos os homens importantes do país". Atribuía-lhe a capacidade de
"explicar com brilhantismo todos os seus fracassos".17 Habituado a se
informar por meio do SNI, O presidente não recorreu a ele para saber as
relações e expectativas que uniam os dois generais. Se o tivesse feito,
bastariam uns poucos dias para que o general Fontoura comprovasse a
profundidade da relação. Golbery retornara à atividade política e falava
em nome do futuro governo até para jornalistas malvistos pelo regime.
É certo que Figueiredo mentiu ao presidente, mas é duvidoso que a
angústia de Medici diante de uma eventual volta do GeneDow ao poder
fosse tão incontornável.

Orlando Geisel achava que seu irmão punha demasiada
importância na conversa com Medici: "Mas, afinal, que é que o Ernesto
tanto quer que a conversa seja demorada? Ela vai ser simples: um vai
dizer: olha, você é o próximo presidente. O outro responde que não quer
e o primeiro replica: pois é, eu também não queria e tive que aceitar, vai


ter que ser você".18

Em meados de março Medici disse a Orlando que resolveria o
assunto na sua próxima ida ao Rio de Janeiro. Depois mudou de idéia.
O ministro do Exército não acreditava em continuísmo, até porque
sabia que o presidente tivera uma leve perturbação cardíaca.19

Na tarde de 15 de março o senador Vitorino Freire, velha raposa e
veterana vivandeira, entrou na sala de Delfim: "Estou preocupado com
uma informação que me deram a seu respeito. Informaram ao ministro
Orlando Geisel que você estava chefiando uma campanha ou operação
continuísta, quando é público e notório que o Presidente Medici não
deseja permanecer no Governo".

Delfim negou e perguntou-lhe como seria possível desfazer essa
impressão.

"Pule fora do barco ou faça como eu, que estou como macaco do
rio Grajaú, no Maranhão, só bebo água com canudo de talo de mamão
para preservar o beiço da mordida da piranha", respondeu Vitorino.20

Durante dois meses a hierarquia do regime sugou talos de
mamão. Medici foi ao Rio de Janeiro, e Geisel determinou aos seus
colaboradores que não buscassem contatos com a equipe da
Presidência. Mantiveram-se quietos, e do outro lado veio apenas
silêncio.21 Através de um amigo, o embaixador francês mostrou desejo
em conhecê-lo. O recado de volta: "Se o embaixador quer falar sobre
petróleo, eu o recebo o tempo que ele precisar, lá na Petrobrás. Se não é
petróleo, não me interessa ser conhecido pelo embaixador da França".22
O presidente da Arena, senador Filinto Müller, disse ao colega Luiz
Viana que pretendia sugerir a Medici a preparação de uma lista de
nomes para que ele escolhesse o sucessor. Viana, colega de palácio de
Geisel durante o governo de Castello, fez que não entendeu a proposta,
destinada a embaralhar as cartas, puxou o talo e argumentou que a
lista haveria de estimular rivalidades nas Forças Armadas.23 De canudo
na boca, o embaixador americano, William M. Rountree, informava a
Washington que Geisel era o "favorito", mas cobria a retaguarda dizendo
que a escolha de outro general era "uma possibilidade que eu nunca


descartei".24 Por via das dúvidas, a Censura avisava: "De ordem
superior reiteramos manter proibição referente sucessão presidencial,
principalmente evitar divulgação nomes prováveis candidato".25

As confabulações de 1973 superaram em sigilo os debates do
consistório de generais que escolhera Medici quatro anos antes. Dos
100 milhões de brasileiros, talvez 500 mil soubessem da existência de
Geisel. É possível que 100 mil tenham ouvido falar na possibilidade de
ele vir a governar o país. Destes, pode ser que não chegassem a 5 mil os
que, tendo ouvido falar no seu nome, fossem capazes de encher uma
página com tudo o que sabiam a respeito dele. Ao corrente dos
principais movimentos, ou do ritmo das conversas, havia menos de
quinhentas pessoas. Sabendo de tudo, talvez não fossem cinqüenta.
Geisel calculou, anos depois, que até maio de 1973 não chegaram a
vinte as pessoas a quem deu liberdade de mencionar o assunto em sua
presença.26

A oposição mantinha-se ao largo, e o deputado Ulysses
Guimarães, presidente do MDB, recusava-se a discutir a coreografia legal
da sucessão argumentando que "não adianta debater o nada".27 No dia
19 de maio o ministério esperava no aeroporto de Brasília o
desembarque de Medici, que regressava de uma viagem a Portugal.
Mário Andreazza, dos Transportes, da Transamazônica e da ponte Rio—
Niterói, dirigiu-se a Orlando Geisel. Tinha Delfim Netto ao seu lado.

— Ministro, há tempos estávamos para falar com o senhor para
desfazer uma intriga: sabemos que dizem por aí, e foram dizer ao
senhor, que nós somos contra a candidatura do general Ernesto.
Isso é uma inverdade. [...]
— Bem, o que sei não é isso. Sei, sim, e inclusive mandei a
respeito um recado aqui ao doutor, é que ele estava envolvido
numa articulação do continuísmo do presidente Medici, coisa
sabidamente contra as intenções do presidente e que perturba
um processo ordenado de sucessão. Isso, sim. Quanto a essa
candidatura do Ernesto, não me consta, não sei nada a respeito

e não creio que seja esse o problema.28

Na tensão desses meses, produzida pelo silêncio de Medici,
circularam diversas manobras. Em nenhuma delas se percebe o
beneplácito do presidente, da mesma maneira que em todo esse período
não partiu dele restrição alguma a Geisel. Pelo contrário. No início de
maio o general Figueiredo informava que Medici introduzira um bordão
nas reuniões matinais do palácio: "Isso agora é com o Alemão", "é
problema que já vai ser do Ernesto".29 Na Candelária, Geisel discutia
nomes para sucedê-lo na Petrobrás e para acompanhá-lo na chapa.30
Em Brasília, o chefe da segurança do Planalto dedicava-se ao que
começava a ser a nova brincadeira nacional: compor o novo ministério.

No dia 30 de maio de 1973, o coronel Moraes Rego acabara de
chegar ao gabinete da Candelária, de volta de Brasília. Sentou-se,
acendeu um cigarro e anunciou: "O troço, acho que desembocou". Dois
dias antes, no despacho com Orlando Geisel, o presidente dissera-lhe:
"Vou conversar em seguida com o Ernesto". Pelas contas de Figueiredo,
"em seguida" significava quarta-feira, 13 de junho, quando o presidente
estaria no Rio de Janeiro para comemorar o aniversário do Correio
Aéreo Nacional.

No dia seguinte, Heitor Ferreira entregou a Geisel a última versão
do ensaio da conversa com Medici.32 Era uma simulação trivial. Servia
para determinar o ritmo de uma entrevista que corria o risco de se
transformar em conversa fiada. Estava entendido que Medici seria o
primeiro a falar:

— Mandei chamá-lo aqui para conversarmos porque... você é
que vai ser...
Deixá-lo falar o mais possível e esclarecer bem o convite —
depois a convocação. A esta altura do ano e das coisas, a
proposta de continuação já deve ser em tom menor e no


pretérito.

— Medici, eu não sou candidato, presidência da República
não é posto que se busque, e tem mais, a minha opinião pessoal
é que você deveria ter concordado em continuar.
Argumentar, se for o caso, mas como caso liquidado. Aqui
então deve ocorrer a caracterização de uma convocação de
missão irrecusável, de "eu também não queria e tive que vir para
cá". Esta parte da conversa bem concluída, e chegado ao ponto
ideal de pressão, aceite.

— Sim, está bem, em vista do que você me diz, e entendendo
que sou convocado, a minha resposta é que aceito.33
Depois, as providências. A coreografia, um novo presidente da
Petrobrás, o vice e a necessidade de uma "vacina contra intrigas".

Do outro lado da cena, Figueiredo informava que no Planalto se
concebera um pequeno bailado. Chamariam Geisel ao Laranjeiras às
dezessete horas de quarta-feira, para tratar um assunto de petróleo. Lá,
por acaso, encontraria Medici, Leitão de Abreu e o general Fontoura, do
SNI. Iriam para uma sala e pouco depois seriam deixados a sós.34 Isso
quanto à forma. Quanto ao conteúdo, na noite de segunda-feira
Figueiredo reuniu-se com Heitor Ferreira em seu apartamento do
Leblon e passou-lhe seu projeto de conversa.

Estava preocupado em desfazer a impressão de que se estivesse
diante de um retorno do castelismo, do qual Geisel — ex-chefe do
Gabinete Militar de Castello — seria produto, em oposição ao costismo,
do qual Medici — ex-chefe do SNI de Costa e Silva — teria sido
conseqüência:

1. Falar em continuidade da Revolução.
2. Castelismo.
3. Continuidade do governo Medici.
Razões: sucesso em alguns setores, popularidade do
presidente, restrições em setores das Forças Armadas.
Como? Não hostilizar, não alterar as linhas gerais.


Habilidade para alteração, não hostilizar amigos, não nomear
inimigos, manter alguns elementos do primeiro escalão,
submeter a Medici os nomes do primeiro escalão.

4. Vice-presidente: submeter (deixar nome mais tarde).
5. Como missão o convite. Não deseja, não pode fugir, pedir
apoio.
6. Abertura política: Não abrir mão do AI-5. Fazer ver a Medici
a necessidade de tomar iniciativa. Diálogos políticos. Censura.
7. Contra sucessor e sucedido: vacina contra intrigas,
necessidade de entendimento contínuo.35
Figueiredo e Heitor conversaram durante quatro horas, até meia-
noite e meia. Figueiredo insistiu na questão "essencial" da política:
"Falar na 'abertura política'. Há de chegar, mas de uma coisa não vou
abrir mão, ô Medici: o AI-5. Mesmo porque não vou iniciar o meu
governo estabelecendo uma comparação com você. [...] Estou convicto
de que o AI-5 serve à Revolução. Se você acha que chegou a hora de
conversar um pouco mais com os políticos, por que você não inicia?
Assim eu não estabeleceria comparação".36

Na manhã seguinte Heitor relatou o encontro. Geisel achou que
havia "um exagero de cuidados numa coisa que precisa de um pouco
mais de franqueza", e refugou dois pontos dos propostos por Figueiredo.
Não diria que estava convicto da serventia do AI-5, nem sugeriria a
Medici que iniciasse os contatos com os políticos: "Parece que estou
dando lição". (Dias antes, em sua casa, Orlando contara-lhe que
receberia o governo com Ato e tudo.) Geisel seguiu para uma reunião de
diretoria da Petrobrás, e Heitor foi para o escritório de Golbery. Estavam
trancados, a secretária tinha ordens para barrar todos os telefonemas
até que tocou Moraes Rego. Emilio Medici mandara buscar Ernesto
Geisel:

O Nabuco [Figueiredo] tocou agora para cá e a conversa é hoje, à
mesma hora, em vez de amanhã... Ele estava preocupado e
perguntou se você já tinha podido conversar com o chefe, se o


chefe estava preparado... e perguntou muito se o Lessa [Golbery]
estava informado... Mas o melhor de tudo, você vai rir, é o
motivo da antecipação: tem futebol amanhã [Brasil x Áustria], o
próprio Nabuco disse... estava telefonando do Galeão... Esta eu
acho até melhor não contar ao Dr. Sá [Geisel]...37

O Dr. Sá almoçou em casa e às 16h35, com Heitor, tomou o carro
a caminho do Laranjeiras, o palacete dos Guinle onde oito anos antes
vivera as angústias do emparedamento de Castello Branco. Figueiredo
levou-o para sua sala e retomou o tema do "costismo e castelismo". As
feridas que se pretendia esconder eram tão profundas que os dois
antigos colaboradores do governo Castello se precipitaram numa troca
de maledicências contra Costa e Silva. Figueiredo contou que pouco
tempo antes, durante uma recepção, Yolanda Costa e Silva, viúva do
marechal, apresentara a Medici uma ex-funcionária do Itamaraty posta
para fora do serviço por ter um pé em grandes negócios e outro num
plantei de acompanhantes inesquecíveis.38 Geisel acrescentou que a
madama, comboiando um paraguaio, tentara vê-lo na Petrobrás. Um
ajudante-de-ordens entreabriu a porta e avisou: "O presidente já está
aqui embaixo".

Eram 17h20. Medici estava com Leitão de Abreu e o general
Fontoura. Sentaram-se todos nos sofás franceses do salão nobre.
Passados alguns minutos, Medici e Geisel ficaram a sós. Meia hora
depois a platéia voltou. "Cedo demais", pensou Heitor, que vigiava a
cena. Um garçom serviu uísque e queijinhos. Às 19hl0 estavam todos
na porta, e Geisel tomou o carro. Heitor sentou-se ao seu lado:

— Como foi que ele iniciou a conversa?
— Ah, disse que já vinha pensando nisso há muito tempo, há
mais de um ano e meio, e tinha se fixado no meu nome, que
tinha que ser eu, que não havia outro. Eu fiz ver a ele todas as
desvantagens da solução. Disse que por muito tempo desejei que
ele permanecesse.
Respondeu que por uma questão moral não podia.


Disse-lhe que quando ele fechou as portas a continuar, por
muito tempo alimentei o desejo de que ele encontrasse outro.
Que se eu fosse um sujeito vaidoso por certo me encheria com
essa escolha que ele estava fazendo. Mas não. Claro que
experimentava uma satisfação íntima pelo fato de merecer um
juízo bom de um companheiro que há mais de 40 anos me
conhecia. (Medici disse que sempre me acompanhou ao longo da
vida militar.) Mas eu me via na contingência de aceitar a missão,
embora sabendo que ela talvez até me liquidasse nesses poucos
anos que ainda posso ter pela frente.

Os três voltaram muito cedo e sentaram-se conosco. Aí eu
aproveitei para tornar a dizer que tínhamos que nos vacinar
todos contra o que de uns diriam aos outros.

Aproveitei para tocar na história que corria de que eu tinha
um escritório eleitoral. "Imagina, para que é que eu havia de
querer um escritório eleitoral quando o Grande Eleitor está aqui"

— e apontei ao Medici.
Falou-se nesse negócio de costismo e castelismo. Disse que
ele, ao me nomear para a Petrobrás, havia liquidado com essa
história. Ele disse que isso não era coisa do Costa e Silva, que o
Costa e Silva até queria me dar o comando do IV Exército, que
foi a turma dele que criou a coisa toda.

— E você não sabe como até eu sofri nas mãos deles.
— Ah, eu imagino, e o pior é que estão todos aí, vivos, o
Portella, a dona Yolanda...
— O senhor os nomeou, assim? — interrompeu Heitor.
— Nomeei.
— E o Fontoura?
— Muito bem, muito cordial e muito positivo.
— E o Leitão de Abreu?
—-Sabe que confirma tudo que o Figueiredo disse? Negaceou
o tempo todo, sempre botando obstáculos e coisas. No negócio
da convenção, por exemplo, ele acha que não precisa apressar.

Que afinal, a executiva nacional decidindo, o efeito era o
mesmo... O Medici disse que agora vai dormir bem e eu
acrescentei que "pois eu agora é que não vou dormir mais".39

Dois anos depois, numa conversa com Figueiredo, Medici
relembrou, satisfeito, a decisão de passar o serviço ao Alemão: "Eu
tenho pena dele. Aliás, nós sabíamos e comentávamos o rabo-de-foguete
que ele ia pegar. O mundo é outro. Eu tive sorte".40

Combinara-se que a notícia só seria "filtrada" à imprensa no fim
do mês, depois de um almoço do presidente com os governadores, mas

o sigilo começou a desabar em pouco mais de 24 horas. Na quinta-feira
o Correio do Povo, de Porto Alegre, circulou com a manchete "Medici e
Ernesto Geisel mantiveram encontro". Ruiu quando o jornalista Roberto
Marinho avisou ao governo que O Globo tinha pronta uma reportagem
sobre a reunião. A essa altura o Guaru News, pequeno semanário de
Guarulhos, na periferia de São Paulo, e o Nova Geração, de Estrela, no
Rio Grande do Sul, já anunciavam a escolha de Geisel, notícia
divulgada pela rádio gaúcha de Taquari havia mais de uma semana.41
Leitão de Abreu telefonou a Geisel: "Pois é, não tem jeito. O Presidente
me pediu que lhe avisasse ainda hoje que resolveu antecipar tudo para
segunda-feira".42
Estava eleito o 21º presidente da República Federativa do Brasil.
Tivera um voto, o de Medici.

Contra, só conversa de barbeiro. Douglas Guy McNair, cidadão
americano e vice-presidente da Atlantic, estava numa das cadeiras do
salão Vogue, na rua Santa Luzia, e criticava a escolha para o mestre
que lhe cortava o pêlo. O major Tancredo Bruno Porto ouviu-o,
atravessou a rua, foi ao Clube Militar, recrutou um funcionário e
capturou-o. Fez-lhe algumas perguntas, anotou o número de sua
carteira de identidade, deu parte à ESCEME e numa carta narrou o
episódio a Geisel, dizendo-se convencido de que "a opinião emitida
exprime, provavelmente, muito mais que um ponto de vista pessoal, a
posição de um grupo empresarial".43 O incidente custou a McNair uma


visita de explicações ao SNI, aonde chegou protegido pelo seu próprio
dispositivo: um capitão-de-mar-e-guerra e o ex-comandante do Corpo
de Fuzileiros Navais.44 Ao que se sabe, essa foi toda a mobilização civil e
militar resultante da indicação de Geisel.

1 Informação dada por Ernesto Geisel a Heitor Ferreira, em Diário de Heitor Ferreira,
26 de março de 1972.
2 Humberto Barreto, fevereiro de 2001.
3 Narrativa de Geisel a Heitor Ferreira, 10 de dezembro de 1973. APGCS/HF.


4 Ernesto Geisel, janeiro de 1995.
5 Geisel e Medici encontraram-se protocolarmente na inauguração da refinaria de
Paulínia e no traslado dos restos de Castello Branco. Geisel esteve no palácio em 10 de
março, 28 de abril, 5 de maio e 21 de novembro. Diário de Heitor Ferreira.


6 Narrativa de Orlando Geisel, em Diário de Heitor Ferreira, 22 de janeiro de 1973.


7 Telefonema de Orlando a Ernesto Geisel, 16 de janeiro de 1973, em Diário de Heitor
Ferreira, 17 de janeiro de 1973.
8 Cinco folhas manuscritas, de Heitor Ferreira, intituladas Notas para a Conversa a


Ocorrer entre Hoje e 31 de Março de 1973, de 10 de janeiro de 1973. Duas folhas de

Heitor para Geisel, intituladas Só para o Presidente, de janeiro de 1973. APGCS/HF.
9 Cinco folhas intituladas Anteprojeto de Lei que Dispõe sobre a Criação, na
Presidência da República, do CDE e da Seplan, sobre o Desdobramento do Ministério do
Trabalho e Previdência Social. APGCS/HF. Nelas Heitor Ferreira anotou: "Discutido por
Geisel e Golbery a 18 de janeiro de 1973".

10 Diário de Heitor Ferreira, 13 de fevereiro de 1973.
11 Roberto Nogueira Médici, Medici — O depoimento, p. 39.
12 Folha de S.Paulo, 16 de julho de 1995.
13 Idem.
14 Ernesto Geisel, abril de 1995. Em 1975 Figueiredo contou a Heitor Ferreira que,


quando Medici o autorizou a conversar sobre a candidatura de Geisel, "a reação era
contra o Golbery". Diário de Heitor Ferreira, 14 de maio de 1975. Para a queixa contra
Figueiredo, ver também Antonio Carlos Scartezini, Segredos de Medici, pp. 49-50, ou
Carlos Chagas, A guerra das estrelas (1964/1984), pp. 214-5.

15 Para todos esses casos, Diário de Heitor Ferreira.
16 Diário de Heitor Ferreira, 14 de agosto de 1972.
17 Roberto Nogueira Medici, Medici — O depoimento, p. 22.
18 Diário de Heitor Ferreira, 14 de março de 1973.
19 Idem, 14 e 15 de março de 1973.
20 Carta do senador Vitorino Freire ao ministro Orlando Geisel, de 15 de março de


1973, em Diário de Heitor Ferreira, 15 de março de 1973. Delfim nega que esse
encontro tenha ocorrido: "Tudo invenção do Vitorino". Delfim Netto, outubro de 2002.
21 Diário de Heitor Ferreira, 14 de março de 1973.



22 Idem, 19 de abril de 1973.
23 Idem, 16 de abril de 1973.
24 Telegrama do embaixador William M. Rountree ao Departamento de Estado, de 30


de maio de 1973.
25 Paolo Marconi, A censura política na imprensa brasileira — 1968/1978, p. 255.
26 Ernesto Geisel, fevereiro de 1995.
27 Veja, 13 de junho de 1973, p. 25.
28 Diário de Heitor Ferreira, 30 de maio de 1973. Em 1984 o general Gustavo Moraes


Rego narrou ao autor diálogo semelhante. Durante uma conversa em 1984, pouco
antes da convenção do PDS em que disputou a indicação de candidato a presidente da
República, Mário Andreazza confirmou ao autor que teve um diálogo com o general
Orlando Geisel "no aeroporto". Em novembro de 1988, Delfim Netto confirmou ao
autor que falou sobre o assunto com Orlando Geisel "no aeroporto". Nenhum dos dois
reconstruiu a conversa.

29 Diário de Heitor Ferreira, 5 de maio de 1973.
30 Idem, 11 de abril de 1973.
31 Idem, 13 de abril de 1973.
32 Idem, 31 de maio de 1973.
33 Nota apensa à transcrição do Diário de Heitor Ferreira, 31 de março de 1973.


APGCS/HF.

34 Informação dada por Figueiredo a Humberto Barreto, em Diário de Heitor Ferreira,
4 de junho de 1973.

35 Transcrição apensa à nota de 11 de junho de 1973 do Viário de Heitor Ferreira, sob

o título "Papel que Figueiredo havia preparado para a conversa". APGCS/HF.
36 Diário de Heitor Ferreira, 11 de junho de 1973.
37 Diário de Heitor Ferreira, 12 de junho de 1973. A partida empatou em 1 x 1.
38 Geisel conhecia a história, pois Figueiredo a contara a Heitor Ferreira. Diário de
Heitor Ferreira, 5 de maio de 1973.
39 Diário de Heitor Ferreira, 12 de junho de 1973.
40 Idem, 2 de junho de 1975.


41 Jornal do Brasil, 22 de junho de 1973, 1° caderno, p. 4. Para o Guaru News, Veja,
edição extra de junho de 1973, p. 25. O jornal oficial do governo da Paraíba, A União,
informou: "Orlando Geisel é o futuro presidente". Sua tiragem foi apreendida. O
Estado de S. Paulo, 20 de junho de 1973, p. 4. Sobre esse episódio, ver também
Claudio Humberto Rosa e Silva, Mil dias de solidão — Collor bateu e levou, p. 168.

42 Diário de Heitor Ferreira, 15 de junho de 1973.

43 Carta manuscrita de Tancredo Bruno Porto a Geisel, de julho de 1973. APGCS/HF.

44 Informação dada a Heitor Ferreira pelo coronel Edmundo Adolpho Murgel, em
Diário de Heitor Ferreira, 16 de julho de 1973.


Primeiras encrencas


Ungido, Geisel mudou-se para a residência oficial do ministro da
Agricultura, nos fundos do Jardim Botânico. Ganhou ainda um
gabinete no terceiro andar do bolo de noiva do pavilhão americano na
Exposição do Centenário, no largo da Misericórdia, a poucos passos do
embarca-douro da praça XV. Tinha sete meses para decidir o que fazer
com o país e três pessoas para conversar diariamente: Golbery, Heitor
Ferreira e o coronel Moraes Rego. Reuniam-se a cada fim de tarde e
passavam em revista o que tinham ouvido. Faziam isso sem método,
mas também sem conversa fiada. Aqui e ali perdiam-se em recordações,
aprofundavam maledicências, mas se preocupavam sobretudo em
partilhar informações.

Nas jornadas ansiosas da Candelária, Geisel dizia: "Eu só vou
para lá sem compromisso. É um abacaxi e ainda vou amarrado? Nem
com meus amigos, nem com Medici. Aliás, não creio que ele queira
compromisso meu".1 Medici viu-o cinco vezes antes de vestir-lhe a faixa,
e em nenhuma delas adiantou sugestão ou folha de papel.2 Nem sequer
perguntou

O que lhe passava pela idéia. O general que presidia o país como
se comandasse um esquadrão de cavalaria concluía sua escala de
guarda com a naturalidade que o regulamento determina aos capitães.

Amigos que lhe cobrassem compromisso, Geisel também não
tinha. Quando sua mudança chegou ao Jardim Botânico, ele se viu


diante de um problema banal, comum a toda família que troca de casa:
a quem dar o novo número de telefone, 246-0655?

Afora a diretoria da Petrobrás e o irmão Orlando, listou catorze
pessoas. Políticos, três. Militar em função de comando, nenhum.3 Dias
depois Heitor Ferreira decidiu cadastrar os "amigos mais chegados", a
quem Geisel poderia oferecer posições no governo. Contando dois
irmãos e a filha, Golbery e Moraes Rego, juntou 26 nomes.4 A uns
poucos parentes que considerava "entrões", Geisel mandou um recado:
"Que se comportassem, porque se eu soubesse de qualquer porcaria em
que eles se metessem, iam para a cadeia".5

Chegaria à Presidência com 66 anos de idade e quase meio século
de serviço público, mas não tinha equipe nem projeto. Ambos deveriam
sair daquela cabeça racional, nacionalista, autoritária e moralista onde
as grandes questões nacionais conviviam com os pequenos problemas
de uma existência passada no meio militar, nos apertos da classe
média. Dava à mulher "mil contos" — pouco mais de setecentos dólares

— por semana, e ela às vezes conseguia guardar a metade. No topo da
montanha assombrava-se com a paisagem: "Só num país como o Brasil
na situação atual eu poderia chegar a presidente da República".6
O tenente que conspirara contra a posse de Julio Prestes, o major
que cercara Getulio Vargas no Guanabara e o general que estivera na
derrubada de João Goulart do Planalto transmutaram-se em fantasmas.
Das desordens de que participara, Geisel tiraria o fulcro de seu projeto
político. Repetia com freqüência uma frase de Rodrigues Alves: "Quem
senta nesta cadeira não perde".7 Perseguia-o o receio do fracasso:

Ao assumir uma função dessas de presidente, a primeira

principal preocupação é assegurar os cinco anos. [...] Quer dizer,

não ser posto para fora.8

Um presidente perde o poder na esteira de três tipos de crise:

uma incompatibilização total com a opinião pública (caso de


Jango), um conflito decisivo com as forças políticas (em parte o

caso de Jânio); mas essas duas coisas hoje em dia seriam

difíceis; resta uma confrontação com as forças armadas, aí sim,

pode acontecer.9

O pior é que chega um dia em que o sujeito transige para

não ser deposto.10

Estava em paz com o regime e com a idéia de que seu governo
seria uma continuação aprimorada do qüinqüênio de Medici. Congelara
amigavelmente a publicação do livro que Luiz Viana Filho escrevera
sobre o governo de Castello, para evitar que as revelações do ex-chefe
do Gabinete Civil reabrissem feridas do meio militar.11 Preocupava-se
em assegurar a permanência de alguns hierarcas do primeiro escalão.
Pensara dar o governo do Rio Grande do Sul ao ministro dos
Transportes, Mário Andreazza, e admitira a possibilidade de colocar
Delfim Netto no palácio dos Bandeirantes.12

Desde os tempos da Candelária, Heitor Ferreira colecionava idéias
e desejos que Geisel enunciava em suas conversas. Chamava-os de
Atinhos, e listou 452 tópicos. Neles se misturavam projetos relevantes
("promover a fusão do Estado do Rio de Janeiro com o da Guanabara"),
remanejamentos ("escritório de planejamento no Planalto"), idéias
perdidas ("ombudsman"), sonhos (acabar com as polícias militares) e
banalidades ("cortar o noticiário esportivo da sinopse matinal"). De cada
quatro temas, três refletiam preocupação com a racionalidade
burocrática. Mais da metade perseguia a moralidade administrativa.
Nenhuma grande obra. Nada que se chocasse com a ditadura, ou
mesmo que diferisse dela. Quando Heitor ia longe, lembrava:
"Dessensibilizar um pouco o povo. Impactos, etc.".13

O triunfalismo nunca fizera o gênero de Geisel, e os
irracionalismos do "Brasil Grande" pareciam-lhe injustos, sobretudo
porque lhe comprometiam a caixa que deveria administrar. Contrariara-
se com iniciativas megalômanas que o governo denominava de "Projetos
de Impacto", como o plano da Perimetral Norte, com uma estrada


paralela e outra transversal à Transamazônica (4 mil quilômetros, no
total), ou a meta dos 12% de inflação durante o ano de 1973.14

Enquanto Geisel foi um coadjuvante, as malquerenças com os
"casacas" e os plutocratas bastaram para definir-lhe a silhueta política.
A caminho do papel principal, tornaram-se insuficientes. Um general
convencido de que todo político é falso e todo milionário é ladrão podia
levar uma vida tranqüila e, com um pouco de paciência, podia até
mesmo presidir a Petrobrás. A República já seria outra conversa,
sobretudo porque, ao contrário de Medici, estava disposto a governar.
Sentia-se prisioneiro dessa irredutibilidade: "Há o risco de um grande
fracasso. Eu não sou flexível o suficiente".15

Sua relação com a ditadura era intelectualmente tumultuada.
Apreciava-a como fonte de força enquanto ela fosse só dele. Daí em
diante, vinham-lhe as dúvidas:

Um presidente, agora, não vai poder se apoiar exclusivamente

nas forças armadas. Nem nos políticos.16

Os políticos ficam a dizer-se esperançosos — "ah, porque o

Geisel significa abertura" — não sei, significará?17

Bom era no tempo dos reis. O problema da legitimação era

simples. Era o direito divino. Depois inventaram esse negócio de

povo. O povo. Quem é o povo? Resultado, de Deus passou para o

povo, e agora para o sabre, um sabre enferrujado.18

Sua peregrinação pelo país parecia-lhe inútil: "Não houve um
lugar a que eu fosse que não me chateasse". Para os peregrinos que iam
à Petrobrás, a questão era não chateá-lo. Entre o dia em que saiu da
Candelária e aquele em que entrou no Planalto, Geisel encontrou-se
com mais gente que em todos os seus anos de vida. Reuniu-se com
governadores, ministros, parlamentares, generais e empresários. Deles,
só o senador Luiz Viana Filho, seu colega no governo Castello e ex-
governador da Bahia, mencionou a palavra maldita, lembrando que a


oposição poderia explorar a "tortura de presos" ao longo da liturgia da
eleição indireta.19 Já o presidente da Arena, senador Petrônio Portella,
classificou como "injúrias" as denúncias de tortura, e Geisel
interrompeu-o:

"Não, só há alguns casos isolados. Não há vítimas, há alguns
casos."

"Exato", respondeu Petrônio.20

Proposta de desarticulação do AI-5, Geisel só recebeu uma. Veio
do senador Antônio Carlos Konder Reis, de Santa Catarina. Sugeria que
nos primeiros seis meses de governo fosse baixado um novo ato
institucional, concedendo ao Congresso que seria eleito em novembro o
poder de reformar a Constituição, com base num projeto do Executivo.
Apoiava-se na certeza de que a Arena conseguiria a maioria de dois
terços, essencial para fazer as mudanças constitucionais que bem
entendesse. A nova Constituição dispensaria o regime dos instrumentos
liberticidas do AI-5, dando ao presidente a prerrogativa de governar por
decretos no caso de uma emergência nacional. Konder acreditava ser
possível levantar a censura criando-se um registro de licença para a
publicação de periódicos. Golbery achou "esquisita" a idéia do registro,
mas reconheceu que a reforma da Constituição merecia ser examinada.
21 O nome do senador estava na lista de candidatos ao Ministério da
Justiça, mas Geisel não gostou do artifício, que o levaria a baixar um
ato institucional, e desconsiderou a proposta, chamando-a de "meio
girafa".22

O general Figueiredo produziu uma lista com 65 tópicos de
interesse para o futuro governo. Banal, propunha a expansão do
turismo, lembrava a necessidade de formação de líderes políticos e além
disso não ia.23 José Américo de Almeida, venerado paraibano, famoso
por ter contribuído para o restabelecimento da liberdade de imprensa
no ocaso da ditadura de Getulio Vargas, aconselhava: "A Censura deve
ser exercida sem mentalidade policial. [...] O AI-5 será mantido para
segurança das instituições".24 Roberto Marinho, dono da Rede Globo de
Televisão, queixara-se de humilhações, mas reconhecera que "a censura


está bem nessa questão de terrorismo". Resumindo o que dele ouvira,
Geisel contaria: "Aberturas, etc., acha besteira. Liberdade, é essa aí
mesmo. O importante é o Brasil tocar pra frente".25 No Planalto, Medici
costumava brincar: "Vocês não conhecem o Alemão. Vão ver que eu sou
bonzinho".26

Ainda assim, o porão batia à porta de Geisel. Em alguns casos,
literalmente, como em maio de 1973, quando Zuzu Angel foi ao
apartamento dele no Leblon para pedir-lhe que ajudasse a localizar o
filho desaparecido.27 Noutra ocasião, sua própria filha lhe pediu ajuda
para localizar um amigo que estaria no DOI. 28 A documentação
conhecida revela que um só alto funcionário utilizou o canal de
comunicações de que dispunha junto a sua equipe para levar-lhe uma
detalhada denúncia de tortura. Foi o embaixador Dário Castro Alves,
chefe-de-gabinete do ministro das Relações Exteriores. Por sugestão de
Heitor Ferreira, remeteu o depoimento de um contraparente de 62 anos
que estivera numa das celas especiais do DOI. 29 "Ele ficava nu, obrigado
a defecar e urinar na cela. Perdia o respeito por si próprio", lembrou o
diplomata anos mais tarde.30 Depois de ler a narrativa, Geisel sentiu-se
mal, e no dia seguinte queixou-se a Heitor: "Vocês me estragaram a
noite. Deviam ter me dado aquilo de manhã. A carta tem vários pontos
fracos e muita mentira, mesmo assim é uma barbaridade".31

Geisel sabia o que acontecia no porão. Golbery encontrava-se
quase todas as segundas-feiras com o coronel Francisco Homem de
Carvalho, o Carvalhinho, sócio fundador do SNI e comandante do
batalhão da PE da Barão de Mesquita, condômino do segredo da
existência de um aparelho clandestino do CIE em Petrópolis. Ele lhe
relatava o que acontecia no DOI. Um ex-deputado da Arena entregou a
Golbery uma lista com os nomes de seis oficiais acusados de torturar
presos.32 Um emissário paulista contou-lhe que o arcebispo de São
Paulo, d. Paulo Evaristo Arns, rompera relações com o comandante do II
Exército pelos agravos recebidos e vivia indignado com os casos de
tortura que comprovara.33 Quando um grupo de deputados do MDB
arrolou quinhentas perguntas ao governo, indagando desde o tamanho


da dívida externa até o número exato de sindicatos sob intervenção, ele
pediu a Heitor Ferreira que extraísse do Diário do Congresso a lista
completa: "Creio conveniente catalogar essas perguntas, pois ajudarão
no futuro a indagar cousas. Não creio que haja resposta conveniente
agora, mas sim no 'intramuros', se houver".34

Os contatos de Geisel circunscreviam-se àquele mundo oficial em
que as pessoas se dividem entre quem está bem e não quer ficar mal e
quem se julga diante de uma oportunidade de ficar melhor. Tinha seu
gabinete de trabalho no largo da Misericórdia. Quando não queria que a
imprensa registrasse seus encontros, marcava as reuniões para o
Jardim Botânico. Ninguém o contrariava. Os políticos reconheciam-lhe

o direito de indicar não só os governadores, mas também os candidatos
ao Senado nas eleições que aconteceriam no ano seguinte. Ganhou da
tropa de choque de Costa e Silva o adesismo que lhe negara. Ora
chegava ao largo da Misericórdia uma carta do general Albuquerque
Lima, ora ali aparecia, declarando-se "um soldado", o ex-ministro da
Justiça Gama e Silva.35 Quando um secretário disse a Golbery que o
general Jayme Portella telefonara três vezes, ele pensou que fosse trote.
36 A elite brasileira parecia dividida em duas castas: a que já estivera
com Geisel e a que ainda não estivera.
O poeta Carlos Drummond de Andrade retratou esse clima
narrando a história de sua passagem pelo Jardim Botânico:

— Tem estado com o Golbery?
— Nunca nos vimos. [...]
— Você não foi chamado?
— Chamado para quê?
— Pelo homem.
— Que homem, homem de Deus?
— O do Jardim Botânico, ué.
— Padre Raulino, o diretor? Também não tenho o prazer de

conhecê-lo. Fui lá ver as plantas.

— Deixa de cortina de fumaça. Você sabe que eu me refiro ao
general Geisel.
— E por que o general havia de me chamar?
— Sei lá, você foi visto saindo da casa dele.
— Eu?
— Você sim. E depois de sair, ainda ficou olhando um longo
tempo para a casa, embevecido.
— Eu olhava um gato dormindo. Adoro gatos. [...]
Eu não seria um dos pedestais do futuro governo. [...]
Minhas relações com os amigos do general limitavam-se a um
gato. E gato visto à distância, sem maior comunicação. O
inquiridor despediu-se com um muxoxo. Minha estrela apagou


37

se.

No sábado, 1º de setembro de 1973, Orlando Geisel foi ao Jardim
Botânico com a mulher Alzira. A conversa caiu num tema banal: o
discurso que Ernesto deveria fazer no dia 15, quando a convenção da
Arena formalizaria sua candidatura. Havia semanas que estudava um
texto e o descreveu ao irmão. Orlando detestava discursos e
argumentou que Ernesto devia falar pouco. Fez algumas observações
quanto ao conteúdo, e o irmão perguntou por que pensava daquela
maneira. A certa altura Orlando sugeriu que fizesse o que lhe dizia, pois
sabia de coisas que ele desconhecia. Geisel fechou o tempo: "Vocês não
têm confiança em mim... Estão com medo das besteiras que eu vou
dizer. Querem me tutelar, mas comigo não. Se querem manobrar,
arranjem outro".

Orlando levantou-se, disse que não estava ali para ouvir
desaforos e chamou a mulher para irem embora. Postos panos quentes,
ficaram, mas não se falou mais de política.38 Era o medo da tutela. Seu
tamanho podia ser medido pela aparente desproporção entre as
observações de Orlando e a reação de Geisel. O ministro do Exército


tratava de um discurso destinado a uma cerimônia teatral onde apenas
se referendaria o nome imposto pelo regime. O candidato cuidava do
primeiro pronunciamento político da vida dele: "Tenho que dizer a que
venho".39 Quatro anos antes, Medici classificara sua filiação à Arena
como "ato de comando" e avisara que não estava disposto "a trocar a
firmeza do timoneiro pela habilidade do chefe político".40 Quando
discutiu com o irmão, Geisel trabalhava um conceito bastante diverso.
Na folha manuscrita de seu discurso lia-se: "o político — o homem
votado pelo povo por seu mérito e capacidade de persuasão".41

Golbery aprontara o projeto de discurso em meados de agosto. O
escriba traía-se numa frase com 146 palavras e na grandiloqüência —
"este Brasil que ainda chegará a assombrar o mundo — stupor mundi

— de alguma era do futuro".42 Metade do texto foi desprezada por
Geisel, mas a metade que sobreviveu ocupou quase dois terços da
versão final. Entre o projeto e a fala que o país ouviu na noite de 15 de
setembro de 1973 deu-se um diálogo entre os dois velhos amigos e duas
cabeças diferentes. O Corca não escreveu a palavra subversão, e deixou
cair no meio do texto uma "ditadura asfixiante" e uma "abertura
política". Geisel cortou as duas audácias e agradeceu às Forças
Armadas o restabelecimento da ordem, a salvação das instituições e a
resistência às "investidas da subversão".
Em alguns casos, Geisel expressou-se através de mudanças:

GOLBERY: [A] plêiade de ilustres homens públicos que a
Revolução, de Castello Branco a Garrastazú Medici, soube
mobilizar.

GEISEL: [...] Castello Branco, Costa e Silva e Emilio Garrastazú
Medici [...].

GOLBERY: Ao calor desse progresso efetivo que estimula e a
todos contagia, despertarão, vivazes, expectativas antes
dormidas na estagnação e desesperança da longa noite do
passado [...]. Preveni-las, aquietá-las, encaminhar-lhes a energia
vital num sentido construtivo e mais nobre, contê-las, se


necessário for, com energia mas esclarecida compreensão.

GEISEL: Preveni-las, aquietá-las, encaminhar-lhes a energia
vital num sentido construtivo e mais nobre, impedir que sejam
exploradas ardilosamente pelos que pretendem subverter as
instituições.

GOLBERY: As grandes empresas multinacionais, cujo potencial,
para o bem, ou talvez para o mal é, e sê-lo-á, em escala maior
talvez, condição essencial ao próprio desenvolvimento da Nação.

GEISEL: [...] cujo potencial para o bem, ou talvez para o mal,
ainda não nos é dado avaliar.

Em outros trechos, passou a faca. Três exemplos:

Sem austeridade não há autoridade que se afirme, a não ser
apelando à coação e à violência.

Sem honestidade de propósitos não há poder que possa
aspirar legitimar-se, a menos que não trepide em recorrer,
maquiavelicamente, à mistificação e à clássica manipulação da
vontade popular, mas essa legitimidade espúria é de uma
fragilidade irremediável.

Governo aberto, como os que mais o foram, almejo que venha
a ser o meu, no sentido de aceitar e ponderar críticas e acatar
sugestões, de abrir e manter arejados canais múltiplos de
comunicação com as elites políticas, a intelligentzia brasileira,
todas as demais minorias autenticamente representativas e
responsáveis do país.

Lendo esse trecho para Geisel, Golbery soltou uma gargalhada:
"'Governo aberto, espero tanto como os demais o foram'. [...]

Governo fechado..."
"Tudo o que você botou aí está tudo muito certo. [...] Não está na

hora ainda", cortou Geisel.43
Nada houve na convenção que prenunciasse grandes mudanças

ou mesmo receios, mas uma frase, próxima do final, enunciava um


truísmo tranqüilizador: "Os partidos políticos — tanto do governo como
da oposição, cada qual no papel que lhe cabe desempenhar — são
essenciais ao estilo de vida democrático".44

Ao contrário do que sucedia desde 1964, a oposição resolvera
participar da eleição de 74. Ulysses Guimarães, presidente do MDB,
encabeçaria a chapa. Suas chances eram nulas, pois a Arena tinha
mais de dois terços do Colégio Eleitoral. Daí, denominava-se
"anticandidato".45

A idéia — e o termo — apareceu numa conversa do deputado Thales
Ramalho, secretário-geral do partido, com Luís Maranhão, o Miguel
do comitê central do PCB, responsável por parte dos contatos políticos da
organização. Amigos desde a juventude, tinham conversado por duas
horas num automóvel, vagando pelas ruas do Rio de Janeiro.46 A
sugestão atolara. Em junho de 1973, Ulysses Guimarães assegurara
que o MDB não participaria da eleição. Mudou de opinião quando a ala
mais combativa do partido saiu em busca de um candidato destinado a
denunciar o processo eleitoral. Procuraram militares, mas acabaram se
conformando com o nome do velho libertário Barbosa Lima Sobrinho.
Em setembro, Ulysses anunciou-se "anticandidato". Aproveitaria a
oportunidade da campanha para atacar o governo e denunciar o
processo político, abandonando-o dias antes da cerimônia eleitoral, com
uma renúncia cinematográfica.47

Aquele paulista de poucos votos que presidia um partido sem
passado nem presente acabara de achar o futuro. Apelidado Ramsés
por conta da sua seca figura, cabia nas sete palavras com que se auto-
retratara em 1938, na disputa pelo lugar de orador da turma na
Faculdade de Direito da USP: "Eloqüente. Verboso. Arrebata e comove.
Cultura sólida".48 Produto do irrelevante PSD de São Paulo,
engrandecera-se na política interna da Câmara dos Deputados, aonde
chegara em 1951. Tinha o instinto de sobrevivência que a gíria política
chamava de "pessedismo". Em abril de 1964, quando os comandantes


militares exigiram a degola da liderança parlamentar do governo
deposto, fora um dos congressistas que ofereceram um instrumento
extraconstitucional capaz de expurgar a Câmara e o Senado. Nessa
proposta, as suspensões de direitos políticos durariam quinze anos.49
Relatara o projeto da Lei de Greve sancionada por Castello Branco.50
Viera à tona no naufrágio das eleições de 1970, nas quais a coação
policial do regime e a campanha da esquerda pelo voto nulo deixaram o
MDB com sete senadores e 87 deputados, bancada insuficiente para
requerer a formação de uma CPI. 51 A derrota comera metade do partido e
arrastara a cadeira de senador do seu presidente, general Oscar Passos,
obrigando-o a renunciar. Ulysses era o vice, e a ala moderada de
pessedistas trabalhou-lhe a promoção.

Uma semana depois da convenção da Arena, chegou sua vez de
discursar: "Não é o candidato que vai percorrer o país. É o
anticandidato, para denunciar a antieleição, imposta pela
anticonstituição que homizia o AI-5, submete o Legislativo e o Judiciário
ao Executivo, possibilita prisões desamparadas pelo habeas corpus e
condenações sem defesa, profana a indevassabilidade dos lares e das
empresas pela escuta clandestina, torna inaudíveis as vozes
discordantes porque ensurdece a Nação pela censura à imprensa, ao
rádio, à televisão, ao teatro e ao cinema".

Em outra faixa de onda, louvou a integridade do "futuro chefe da
nação", lembrou as virtudes da Oposição de Sua Majestade (tema caro
ao general) e ofereceu-lhe "a mais eficiente das colaborações: a crítica e
a fiscalização". (Num de seus rascunhos Geisel escrevera que esperava
do MDB a "necessária vigilante fiscalização".)52

Despediu-se citando um guerreiro romano que o poeta português
Fernando Pessoa resgatara e Caetano Veloso ressuscitara:

Navegar é preciso;
Viver não é preciso.53


Algumas emissoras de televisão e rádio haviam prometido
transmitir o discurso, mas fizeram saber ao MDB que ele iria ao ar no dia


seguinte, após um jogo de futebol.54 "Esse idiota não vai ao ar. Não foi
ao vivo nem vai em gravação", disse o general Milton Tavares de Souza,
chefe do CIE, depois de ouvir Ulysses.55 Os grandes jornais, contudo,
publicaram-lhe a íntegra, o que não era pouca coisa. Criticando o AI-5, O
processo de escolha do próximo presidente e as prisões arbitrárias,
Ulysses transgredira três tópicos do controle que o governo exercia
sobre a imprensa. Afinal, poucos meses antes a Polícia Federal
lembrara que era proibido criticar "o sistema de censura, seu
fundamento e sua legitimidade".56 Era pouco, mas era algo.

A condição de candidato oficial deu a Geisel liberdade de
movimento. Visitou a Amazônia, o cacau baiano, o vale do São
Francisco e uma escola de agronomia paulista. Até o final de dezembro
encontrou-se com dezesseis ministros, catorze governadores, 21
senadores e dezoito deputados.57 Ecos trazidos de Brasília pelo general
Figueiredo sugeriram algum desconforto do Planalto diante dos
paralelos com a reclusão de Medici. "Estou recebendo políticos,
evidentemente. O ano que vem temos eleições diretas. Não podemos
perder. Como é?" rebateu Geisel.58 Oito meses depois de sua posse,
presidiria uma eleição que renovaria um terço do Senado, toda a
Câmara e as assembléias legislativas, e Ulysses já avisara que a
anticandidatura seria o pontapé inicial da mobilização do MDB. Nenhuma
grande encrenca.

Duas, uma maior que a outra, apareceram no fim do ano. Em
meados de novembro Augusto Trajano de Azevedo Antunes, o dono das
jazidas de ferro do Amapá e financiador do IPÊS, oráculo invisível de boa
parte da plutocracia nacional, tivera dois convidados para jantar num
apartamento da avenida Vieira Souto. Um era Julio de Mesquita Neto,
da família proprietária d'O Estado de S. Paulo, quatrocentão
conservador e irredutível.59 Chamado a depor num IPM, se recusara a
aceitar a qualificação de diretor responsável do jornal. Quando o oficial
que o interrogava lhe perguntou quem, nesse caso, era o responsável


pelo Estadão, respondeu que essa função estava com o ministro da
Justiça, Alfredo Buzaid, "que todas as noites tem um censor na
tipografia do jornal".60 O depoimento foi encerrado.

O outro convidado era Golbery. Naquele dia o jornal de Julio Neto
chegara às bancas com 65 versos d' Os lusíadas ocupando o espaço de
uma reportagem do jornalista Alberto Tamer, enviado especial à Brasil-
Expo 73, em Bruxelas. Tamer contava que a despeito do enorme
sucesso de público (20 mil visitantes) e de crítica (11 milhões de dólares
de negócios fechados), a feira se tornara uma oportunidade para
manifestações contra a ditadura. Sofrera uma explosão, uma tentativa
de invasão e pequenos comícios. O título do texto suprimido dizia tudo:
"Feira: Êxito econômico, porém malogro político".61

A realização desse jantar à mesa de Antunes indicava o interesse
de um setor tradicional da plutocracia por algum tipo de armistício
entre o regime e o jornal. Não se tratava de uma gestão para acabar
com a censura, mas de um entendimento para amenizar as hostilidades
contra o Estadão. Toda a indústria de comunicações permanecia
controlada. A Tribuna da Imprensa continuava com censores dentro da
redação. Os semanários O Pasquim e Opinião estavam obrigados a
enviar seus textos a Brasília, onde, numa só edição do segundo,
carimbaram "censurado" em 170 das 348 laudas escritas pela redação.

Golbery e Julio Neto conversaram até as primeiras horas da
madrugada. Trataram do ministro Delfim Netto, da moralidade do Poder
Judiciário, do delegado Fleury e do Esquadrão da Morte. O general
passou suas mensagens: insinuava o fim da censura e pedia que se
evitassem turbulências até a posse de Geisel.63 Levou o jornalista ao
aeroporto e deu a missão por bem-sucedida: "A conversa em si não tem
um outro fato, uma coisa mais importante, a não ser o trabalho de
amaciamento".64 Duas semanas depois Geisel receberia um aviso: o DOPS
gravara a conversa de um encontro de Golbery com os irmãos Julio e
Ruy Mesquita, em São Paulo.

"Então está ótimo. Mandem a gravação. Vamos ver essa


gravação", respondeu Golbery.65

Não era bem assim. Depois do jantar no Rio, Julio de Mesquita
telefonara ao irmão Ruy, diretor do Jornal da Tarde, narrara o encontro,
e essa conversa fora gravada. Golbery voltou a interessar-se pela fita:
"Eu vou querer do Figueiredo a cópia, porque agora eu quero ver se os
caras estão falando certo ou mentindo. [...] Agora interessa a mim".66
Havia dois urubus na linha, a Polícia Federal e o CIE. O diretor do DPF,
general Antonio Bandeira, mandou o grampo ao SNI, e de lá ele foi para a
mesa de Medici.

Heitor Ferreira presenciou a reação de Geisel:

Quer dizer, por causa desse sistema que está montado aí, de SNI,
Bandeiras, e CIE, e não sei o quê, eu vou ficar inibido, eu vou me
meter num quarto e só vou falar no dia 15 de março, quando eu
tomar posse. Porque aí eu arrebento com todos eles. Eu quebro o
CIE, quebro o SNI, quebro o Bandeira e quebro toda essa turma. [...]
O primarismo dessa gente é o seguinte, Heitor: eles são contra O
Estado de S. Paulo. Querem massacrar O Estado de S. Paulo, mas
não têm a coragem de chegar e liquidar o jornal. Porque eu aceito
isso, mas então rasga a Constituição, rasga tudo, vai lá, desapropria
o jornal, quebra o jornal, fuzila o Mesquita. Por que não vão a
isso? Não, O Estado de S. Paulo é livre, funciona, mas é leproso,
ninguém pode tocar nele, ninguém pode conversar.67

Dias depois o caso foi liquidado numa conversa de Geisel com
Figueiredo.68 Medici nunca levantou o assunto, e Golbery ficou frio. Por
falar em encontro cora leprosos, Golbery acabara de marcar outro, com

d. Avelar Brandão Vilela, cardeal-arcebispo de Salvador. Meses antes o
governador de Pernambuco humilhara o arcebispo, tirando-lhe um
crachá. Convinha conversar num lugar discreto, e o cardeal-primaz
parecia um senhor cumprindo sua rotina de fim de tarde, quando
entrou numa agência de banco da esquina da rua do Carmo com a
Ouvidor. Caminhou até o fundo e subiu ao segundo andar. Golbery o
esperava.69

A dificuldade que influenciaria profundamente a formação do
governo de Geisel e que haveria de amargurar-lhe o resto dos tempos,
esgueirou-se aos poucos. Na segunda metade de novembro, chegaram-
lhe murmúrios de que seu irmão, insuflado por um grupo de generais,
pretendia continuar no Ministério do Exército.70 Não fazia sentido. Aos
68 anos, Orlando estava um caco. Havia mais de um ano, dissera a
Ernesto que era "um homem condenado". Tivera uma pneumonia e
padecia de pericardite. Despachava freqüentemente em casa. Enxergava
mal: "Eu estou com a impressão de que eu passei o pente nas
sobrancelhas e estou vendo através dos cabelos". Em outubro tivera
febres, definhara catorze quilos. Geisel mandara-lhe seu médico, e o
diagnóstico fora tifo. Temera pela vida dele, mas resignara-se.71

Mesmo assim, no jogo dos palpites, Orlando continuava ministro,
tanto na lista do senador Ney Braga como na do ajudante-de-ordens de
Medici.72 O coronel Danilo Venturini, íntimo colaborador do general
Orlando, foi chamado a Jacarepaguá, discutiu o assunto com Golbery,
minimizou-o e achou boa a idéia de que tudo poderia ser resolvido
através de um cuidadoso oferecimento do lugar de embaixador em
Portugal.73

No dia 20 de dezembro, Geisel voltou do almoço e encontrou o
general Cacau de Barros Nunes na ante-sala. Cacau vinha pedindo para
ser recebido desde a tarde anterior. Contrariando seu temperamento
expansivo, recusava-se a revelar o assunto. Só contou sua história ao
candidato. Estivera com Orlando para entregar-lhe um presente de
Natal, e a certa altura ouvira dele: "Os três ministros militares têm que
permanecer". Encerrada a agenda, Geisel sentou-se com Golbery e
Heitor. Não admitia a hipótese. Renunciaria à candidatura, e logo,
evitando o constrangimento da eleição de 15 de janeiro.74

O velho demônio reaparecera. A permanência do ministro do
Exército — fosse quem fosse — significaria uma tutela militar
disfarçada em continuidade administrativa. Produto do conchavo dos


generais, resultaria num condomínio de tutores. Se tudo isso fosse
pouco, aquilo era coisa "do Minguita, do Coalhada, do Gordo Sinistro",
oficiais que Geisel sempre desprezara.75 Era também coisa de sua
família. Atribuía-se à irmã Amália, uma frase tão simples quanto
significativa: "O Orlando cuida do Exército, e o Ernesto cuida do resto".
76 A idéia de abater o próprio irmão transtornara-lhe o sótão de emoções
que tanto protegia.

Eram bons amigos, mas tinham uma relação mais próxima dos
hábitos alemães que da cultura familiar brasileira. Ainda tenente,
Ernesto fizera um empréstimo na Caixa Econômica para pagar uma
encalacrada de Orlando nas mesas de pôquer. Já capitães, casados,
viveram na mesma casa. A força dos vínculos afetivos com a família
podia ser medida pelo nome das crianças: Ernesto dera ao filho o nome
do irmão.77 Mesmo assim, visitavam-se de terno e gravata.78 Mais velho
em casa e mais antigo no Exército, Orlando acumulara precedências.
Em 1932, depois de combater a Revolução Constitucionalista de São
Paulo, Ernesto recusara a estrela de capitão porque com ela
ultrapassaria o tenente Orlando.79 Evitavam discutir política militar. O
ministro apreciava as histórias do irmão, tanto que contou a Medici o
chega-pra-lá que levara quando quis influenciar o texto do discurso da
convenção.80 Gostavam-se, mas Ernesto era o caçula. E o caçula lia nos
jornais que tinha oito estrelas, quatro dele e outras quatro do irmão
mais velho.81

Desde que a encrenca aparecera, Geisel vinha repetindo:

"Por mais que nós sejamos amigos, eu e o Orlando, nós temos
pontos de vista diferentes, ele é cabeçudo, eu sou também. [...] Orlando
é mais velho, eu sou mais moço, mas eu vou ser o chefe."82

"No primeiro despacho nós vamos ter briga, ou então eu vou passar
cinco anos fazendo coisas que eu não quero. [...] Por outro lado, vão
dar uma imagem muito ruim do país e do governo. Que eu fui escolhido
pelo Orlando, que o Orlando, por meu intermédio, manda neste país, e
que isso é uma comandita de dois irmãos, e que não sei o quê. Acho
que isso é de um senso elementaríssimo."83


Era preciso que alguém falasse com Orlando. Quem? Medici.

Naquela mesma tarde Geisel chamou Figueiredo ao Jardim
Botânico e pediu-lhe que levasse o problema ao Planalto.84 Poucos dias
depois, no meio de um despacho de rotina, Medici tratou o assunto com
Orlando. Segundo a versão de Figueiredo, que conversara com o
presidente, o velho general surpreendera: "Nem me passa pela cabeça
criar problema para ele. Eu apenas imaginei ajudar, por alguns meses.
Ele vai ter tanto problema no início do governo...".

Parecera encantado com a embaixada em Portugal: "Ah, não deixa
a minha mulher saber disso que ela vai ficar numa felicidade...".85

Segundo a versão do coronel Venturini, as coisas foram diversas.
Ele continuava pensando em ficar "por alguns meses" e via a embaixada
como simples hipótese: "Se fosse hoje, a resposta seria não".86 Estava
certo. Quando Medici insistiu com o lugar em Lisboa, o general desviou-
se: "Por que não nomeia o Fontoura?".87

Orlando Geisel sabia transformar-se num mestre da esquiva,
hábil manipulador de subentendidos. Queria permanecer no ministério
e não se renderia a intermediários. Seus generais pouco podiam fazer
num conflito de irmãos. Depois de uma conversa com Medici,
Figueiredo concluíra que esse era o pior caminho: "O único que não
pode entrar de sola nessa questão é o Alemão".88

Ademais, o chefe do CIE, general Milton Tavares de Souza, passara
ao coronel Venturini informações que ele se apressou em comunicar a
Golbery. Foi ao largo da Misericórdia e revelou:

"Há uns espíritas", disse Venturini.

"Qual é a mensagem dos espíritos?" indagou Golbery. [...]

"A mensagem deles é de que o homem deve permanecer."

"Por quê? Porque é espírita?", perguntou Heitor.

"Não, o general não é espírita. Os espíritas é que dizem. Fazem lá
as suas sessões. Me disse o general Milton... [...]"

Golbery achou que havia macumba na mensagem:

"Olha aqui, ô Venturini, esse negócio de espírita é o seguinte: há
mensagens espíritas, ou soi-disant espíritas, ou por outra, mensagens


que os participantes acham que é espírita, convictamente. Se essa
mensagem, ela é autêntica ou se ela tem um pouco de desejo,
consciente ou inconsciente, não interessa. Quer dizer, o indivíduo tem
aquilo que ele considera que é. Mas essa mensagem nunca é essa: deve
ser. Nunca. Essa mensagem vai ser. A mensagem espírita nunca vem
com isso: deve ser fulano. Nunca vi mensagem espírita, a não ser assim:
cuidado com isso, com aquilo, cuidado com aquilo outro, mas nunca
assim no 'deve'. É mudar a orientação da coisa. Mas também isto é um
dos meios que se usa para plantar muito troço."

"Foi o dado que o Milton me deu", argumentou Venturini.89

Dias depois, referindo-se a esse episódio, Geisel teve um momento
de humor cruel: "Mas diz que o astral é que diz que ele tem que
continuar, não é?".90

No início de janeiro, a poucos dias da eleição, Geisel convenceu-se
de que a isca da embaixada em Lisboa se perdera. Abandonou a idéia
da renúncia e caminhou lentamente em direção ao pior. Fechou-se em
copas, como se ignorasse o problema. Embarcou para Brasília e, em vez
de hospedar-se na casa do irmão, foi para o hotel Nacional. No
caminho, descobriu que a reserva de uma suíte de 3400 cruzeiros ficara
por conta do Centro de Informações do Exército.91 Mandou desmanchar

o trato, alugou um apartamento comum e pagou pouco mais de mil
cruzeiros do seu bolso.92
Recebeu Orlando duas vezes no Jardim Botânico, mas as
conversas não saíram da temática familiar. Emitiu um só sinal:
escolheu o almirante Geraldo de Azevedo Henning para o Ministério da
Marinha sem nenhuma consulta fora do seu círculo de colaboradores.

Orlando acusou o golpe. No fim da tarde de 9 de fevereiro, sábado
de Carnaval, atravessou o portão do Jardim Botânico. O irmão o
esperava: "Olha, Orlando, não vou manter você no ministério, por
diversas razões. Primeiro, porque militarmente você é mais antigo que
eu. Segundo, porque você é meu irmão, e o Brasil vai parecer uma
república de bananas, com um irmão na Presidência e outro no
Exército. Além disso, eu penso diferente de você em relação a muitas


coisas, inclusive no Exército. Na primeira lista de promoções a generais
nós vamos brigar. Não vai dar certo, eu conheço o nosso
temperamento".93

Foi uma conversa melancólica. Ele ouviu em silêncio. Não
respondeu nada. Percebi que não gostou. Foi uma dor terrível
para mim. E olhe que ninguém me ajudou nessa luta. Nem o
Medici, nem o Figueiredo, ninguém. Com aqueles bestalhões
botando coisa na cabeça dele. Mas botei todos na reserva, e
ninguém conseguiu colocação nenhuma. Todos eles me pagaram.

O Orlando nunca mais me visitou. Até morrer, nem foi ao
palácio, nem ao Riacho Fundo. Eu é que o visitei muitas vezes.
Foi uma coisa muito dolorosa. Eu e o Orlando éramos os mais
ligados da irmandade.94

Três dias depois, contando a conversa a Antonio Carlos
Magalhães, Geisel chorou.95 Vinte anos depois, relembrando-a ao autor,
seus olhos marejaram-se.

Orlando morreu em 1979. Até aí, falaram-se pouco, nunca sobre
assuntos de Estado. Da fraternidade restara apenas um elo. Era uma
senhora que todos os dias deixava o palácio da Alvorada e, apoiando-se
numa bengala, entrava no apartamento onde vivia o general, que
respirava com a ajuda de periódicas aspirações de oxigênio.96 Ficava
pontualmente das duas às seis. Amália Geisel, a primogênita, uma bela
mulher que não se casara, cinco anos mais velha que Orlando, sete
mais que Ernesto, fora a primeira mestra dos dois. Aposentara-se como
professora do colégio de Cachoeira do Sul, e a família sempre lembrava
que faltara ao trabalho pela primeira vez em 1930 para ir a Bento
Gonçalves informar a Lídia e Augusto Geisel que seus dois filhos
estavam na Revolução.97

Três semanas antes da conversa com o irmão no Jardim
Botânico, na manhã de 15 de janeiro, Geisel fora eleito por 406 votos


contra 76 dados a Ulysses Guimarães e 23 abstenções. Dias antes da
cerimônia o presidente do MDB informara aos deputados mais
combativos da bancada — autodenominados "autênticos" — que
romperia o compromisso assumido no início da campanha: não
renunciaria à candidatura e iria à votação. Aos "autênticos", que não
queriam coonestar a decisão do Colégio Eleitoral, só restou o caminho
da abstenção.

Num curto discurso, Geisel avisara que não se deixaria desviar
por "impulsos quaisquer, por mais generosos, de amizade ou do
coração".98 Como a grande encrenca se circunscrevia ao restrito plenário
de hierarcas, o sinal passara despercebido.

A curiosidade fora noutra direção, atraída pela afirmação de
Geisel de que se julgava no dever de "estar aberto a quaisquer pleitos,
sugestões ou críticas construtivas, todas merecedoras de acolhida".99 O
uso da palavra aberto tinha algo de intrigante. Os verbos abrir e fechar
haviam-se transformado em veículos de síntese da conduta e das
intenções das personalidades do regime. Denominava-se abertura o
restabelecimento de quaisquer franquias democráticas, e chamava-se
de fechamento às ameaças de surtos punitivos.

Comparada ao que se dera em Brasília, a frase de Geisel continha
uma tênue promessa de contraponto. A Agência Nacional transmitira
trechos da cerimônia do Colégio Eleitoral em rede de televisão e rádio.
Do presidente do MDB, Ulysses Guimarães, nem uma palavra.100 Às oito
da noite, depois da saudação de Geisel, e antes da novela O Semideus, o
Jornal Nacional divulgou os fatos do dia. Além do resultado da eleição,
noticiou que havia pouco o ministro Mário Andreazza, a bordo de um
jipe, atravessara a ponte Rio—Niterói, ainda inacabada. Quanto ao
discurso de Ulysses, uma só informação: tinha onze páginas. Do que
havia nelas, nada. O anticandidato anunciara que o MDB "sairá deste
recinto nem vencido muito menos convencido, pois haverá esperança
para a liberdade enquanto restar um homem sobre a face da terra".101 A
poucos quilômetros do Congresso, uma tropa do Exército estivera de
prontidão. Eram duas companhias de infantaria preparadas para


dissolver a reunião do Colégio Eleitoral caso houvesse algum
imprevisto.102

Assim como sucedera na convenção da Arena, Golbery redigira o
projeto do discurso de Geisel. E assim como sucedera três meses antes,
deu-se um eloqüente diálogo entre seu rascunho e a versão final.
Golbery escreveu o texto no verso de quatro formulários de consulta ao
serviço de pesquisas da Enciclopédia Britânica, ao qual pedira
informações sobre arte pop, Botticelli e Chagall.

Com a formalidade dos discursos de posse, queria que Geisel
prometesse o seguinte: "A coibição enérgica de toda violência ilegal,
partida de onde ou de quem partir".103

Geisel argumentou: "Olha aqui, você tem um negócio, uma coisa
aqui, que não pode se referir agora. Quer ver? Isso é uma das grandes
verdades [...]. Isso é verdade, e vamos ver se fazemos, mas você não
pode dizer".104

Heitor Ferreira, diante da mesma argumentação, ponderara: "Tem
um alerta bom, que é: não venham querer criticar o senhor por
qualquer coisa que façam por aí".

"Não é nessa hora que eu vou começar a brigar. Não posso pegar
essa guerra. Não devo. O negócio do Golbery está todo certo, agora, é
discutível a oportunidade", foi a resposta de Geisel.105

Noutro trecho, Golbery escrevera:"[...] confiar num futuro próximo
de grandeza, paz e justiça social que assegure, afinal, em nossa terra,
clima salutar à plena expansão da potencialidade humana de cada
cidadão brasileiro, sem privilégios indevidos, sem constrangimentos
arbitrários".

Geisel não quis: "Pois é. Eu não vou falar nisso. Vão me cobrar. E
depois eu vou reconhecer, agora, que há constrangimentos arbitrários?
Há, mas não sou eu que devo dizer isso".106

Golbery voltou com o parágrafo que preparara meses antes, para
a fala da convenção: "Governo aberto, almejo assim, venha a ser o meu,
no sentido de abrir e manter, arejados sempre, múltiplos canais de
comunicação com as elites políticas e técnicas, a intelligentzia sempre


trepidante das mais nobres insatisfações, a mocidade incontida embora,
em seus arroubos de idealismo, por vezes transbordantes, todas as
minorias autenticamente representativas e responsáveis do país e
mesmo, partindo do rincão mais remoto, a voz individual de qualquer
cidadão ferido em seus direitos ou clamando por justiça".

Geisel pescou o "cidadão ferido": "Há uma referência velada às
torturas. Eu não posso dizer isso, não é? Aí é que está, então o sujeito
não pode dizer o que ele realmente quer dizer. O que que ele vai dizer?
Vai embromar? Não é? É difícil".107

O trecho se transformou no seguinte: "Entendo mesmo que das
maiores qualidades de um governante é saber dizer 'não' a proposições
que lhe pareçam intempestivas ou que, em justa análise, se lhe
afigurem ilegítimas. Dever não menor será, por outro lado, o de estar
aberto a quaisquer pleitos, sugestões ou críticas construtivas, todas
merecedoras de acolhida, para exame imparcial e sereno da verdade que
contenham".108

Golbery encaixou a mudança: "Graças a Deus está conservado
aquele negócio de dizer não".109

Se Ulysses Guimarães tivesse lido trechos do rascunho que Geisel
dispensou, certamente seria chamado de provocador. Mal se pode dizer
que Golbery insinuasse. Nos porões do governo abundavam cidadãos
feridos em seus direitos. O projeto chegara a condenar a "caçada às
bruxas, sempre negativa e na verdade contraproducente em si mesma".

Entre os rascunhos de setembro e de janeiro Golbery se tornara
mais audacioso em suas sugestões. Partiam da certeza de que o regime
tinha de mudar. Em conversas reservadas, argumentava: "Vamos tentar
uma abertura gradual. Ninguém ainda o conseguiu. Se der certo, bem.
Senão, virá um período de violência do Estado e, depois, uma reação.
Aí, vamos todos para o poste, menos o papai aqui, que estará velho".110

Geisel podia concordar com a estratégia, mas não estava disposto
a acompanhar a tática. Refletindo a relação peculiar que mantinham,
em nenhum dos dois casos a diferença estimulou discussões
proporcionais à importância dos temas propostos nos textos.111 Aliás,


eles não discutiam. Ao sinal de divergência, Golbery retraía-se, mudava
de assunto. Fazia isso até mesmo nas conversas inconseqüentes de fim
de tarde no largo da Misericórdia, quando Geisel provocava Heitor
Ferreira e Moraes Rego em polêmicas que de certa forma se tornavam
seu principal divertimento. Defendera a permanência do trecho que
falava em canais de comunicação abertos, mas, no caso da "violência
ilegal", ele próprio sugerira o corte. Se Heitor Ferreira não tivesse
preservado os manuscritos, talvez fosse difícil acreditar que guardassem
tamanhas diferenças, pois nem Geisel se queixava dessas audácias,
nem Golbery reclamava da cautela. Tais documentos, bem como
episódios em que os dois amigos se colocam em campos distintos,
estimulam paralelos entre as personalidades e as condutas desses dois
importantes personagens da ditadura. Muitas vezes essa comparação
foi apontada ao próprio Golbery. Ele admitia divergências com Geisel,
mas sempre ressaltava "minha condição de oficial de Estado-Maior, cuja
função é apresentar caminhos ao chefe, sabendo que a escolha, uma
vez feita, deve ser obedecida".112 Como se soubesse que a ditadura podia
produzir um Geisel sem o aconselhamento de Golbery, mas que não
poderia haver um Golbery sem um Geisel na Presidência da República.

Geisel não queria comparações com o passado nem
compromissos para o futuro. Irritou-se quando um articulista viu no
seu discurso um aceno liberal: "Como é que o bestalhão conclui que
pelo fato de eu receber a crítica construtiva vou dar liberdade? Pois se
eu disse lá que não ia abrir mão dos instrumentos que eu tinha. É
vontade de enganar a si mesmo".

Logo depois, indicou sua preferência: "Vocês viram o editorial do
Globo de ontem? Está muito bem-feito. Diz que os quatrocentos caras
que votaram em mim votaram no Brasil".113

No fundo, não queria encrencas. Horas depois de sua conversa
com o irmão Orlando, sentara-se com o general João Baptista
Figueiredo na sala da casa do Jardim Botânico: "Tenho cinco anos e o
cajado na mão. Se eu não for muito burro, me agüento no poder".114


1 Diário de Heitor Ferreira, 4 de janeiro de 1972.

2 Medici deixou um só pedido: gostaria de ver o professor João Leitão de Abreu, chefe
de seu Gabinete Civil, no Supremo Tribunal Federal. Geisel deu a Leitão a primeira
vaga aberta em seu governo.

3 Diário de Heitor Ferreira, 16de julho de 1973. Constavam da lista, além da diretoria
da Petrobrás: Ademar de Queiroz, Antonio Luiz (Cacau) de Barros Nunes, Humberto
Barreto, Vitorino Freire, Luiz Viana Filho, Ney Braga, João Baptista Figueiredo, Carlos
Alberto da Fontoura, João Leitão de Abreu, Adolpho Murgel, Orlando Geisel,
Raimundo de Brito e Norberto, gerente do banco onde Geisel tinha conta.

4 Amália, sua irmã, morava com ele. O terceiro irmão de Geisel, Henrique, morreu em
junho de 1973. Diário de Heitor Ferreira, 28 de julho de 1973. Três folhas
datilografadas com nota de Heitor Ferreira a Geisel, sem data. APGCS/HF. Da lista de 26
pessoas, doze não receberam função alguma, e duas seguiram suas carreiras nas
corporações burocráticas a que pertenciam, sem dele receber funções especiais.

5 Ernesto Geisel, março de 1995.

6 Conversa de Geisel com Moraes Rego e Heitor Ferreira, 20 de dezembro de 1973.

APGCS/HF.

7 Rodrigues Alves disse a frase quando era governador de São Paulo. Geisel
mencionava essa circunstância.
8 Diário de Heitor Ferreira, 20 de março de 1972.
9 Idem, 20 de março de 1972.
10 Idem, 23 de fevereiro de 1972.


11 Idem, 4 de dezembro de 1973.
12 Para Andreazza, Diário de Heitor Ferreira, 28 de janeiro de 1972. Para Delfim, idem,
25 de fevereiro de 1972.


13 Temas para Ação ou Atinhos Possíveis, 24 folhas manuscritas de Heitor Ferreira,


datadas de dezembro de 1973 e abril de 1974. APGCS/HF.
14 Para a Perimetral Norte, Diário de Heitor Ferreira, 1º de novembro de 1972. Para a
inflação, idem, 11 de abril de 1973.


15 Diário de Heitor Ferreira, 13 de junho de 1972.
16 Diário de Heitor Ferreira, 16 de fevereiro de 1972.
17 Idem, 13 de junho de 1972.
18 Idem, 11 de setembro de 1972.
19 Conversa de Ernesto Geisel com Moraes Rego e Heitor Ferreira, 20 de dezembro de


1973. Carta de Luiz Viana Filho a Geisel, sem data, certamente de 1973. APGCS/HF.
20 Conversa de Geisel com Petrônio Portella, 15 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.
21 Conversa de Golbery com Geisel, narrando-lhe um encontro com Antônio Carlos


Konder Reis, 16 de novembro de 1973. APGCS/HF.

22 Conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 6 de dezembro de
1973. APGCS/HF.
23 Seis folhas timbradas do Gabinete Militar, acompanhadas de uma nota manuscrita

de Figueiredo a Heitor Ferreira, de 1979, referindo-se aos "meus apontamentos de
agosto de 1973". APGCS/HF.


24 Três folhas datilografadas, sem data nem assinatura, acompanhadas por um
bilhete de Heitor intitulado Notas Deixadas com Geisel pelo José Americo. APGCS/HF.
Golbery anotou: "Três pancadinhas na madeira...". José Américo, conhecido por trazer
má sorte, esteve com Geisel no dia 16 de julho de 1973.

25 Diário de Heitor Ferreira, 17 de outubro de 1973.

26 Idem, 7 de julho de 1973.

27 Carta de Zuzu Angel a Geisel, de 29 de abril de 1975, em Angel, Eu, Zuzu Angel,
procuro meu filho, pp. 236-7. Geisel não recebeu Zuzu Angel. Ernesto Geisel, 20 de
fevereiro de 1995.

28 Diário de Heitor Ferreira, 30 de agosto de 1972.

29 Idem, 25 de julho de 1973, e nota de Heitor Ferreira a Geisel, do mesmo dia,
passada a Golbery no dia seguinte.

30 Dário Castro Alves, setembro de 1985.

31 Diário de Heitor Ferreira, 26 de julho de 1973.

32 Folha de papel rasgada, com os nomes do major Innocencio Fabricio de Mattos
Beltrão e dos capitães Homero Cesar Machado, Dalmo Lúcio Cirillo, Benoni de Arruda
Albernaz e Carlos Alberto Brilhante Ustra. Numa folha de bloco Heitor Ferreira
anotou: "Fonte afirma que são torturadores". Noutra Golbery identificou a fonte: o ex-
deputado Gilberto Azevedo. APGCS/HF. Todos os oficiais listados serviam no DOI de São
Paulo. Esse papel deve ter sido entregue a Golbery no segundo semestre de 1972.

33 Diário de Heitor Ferreira, 30 de outubro de 1973.

34 Recorte de O Estado de S. Paulo, sem data, e uma folha de bloco com anotação
manuscrita de Golbery. APGCS/HF.


35 Carta do general Affonso de Albuquerque Lima a Geisel, de 7 de junho de 1973.
APGCS/HF. Para Gama e Silva, Diário de Heitor Ferreira, 28 de outubro de 1972.


36 Diário de Heitor Ferreira, 3 de dezembro de 1973.
37 Carlos Drummond de Andrade, "Desenvolvimento e fim de um equívoco de breve
duração", p. 5 do Caderno B, Jornal do Brasil, 25 de agosto de 1973.


38 Diário de Heitor Ferreira, 3 de setembro de 1973.
39 Idem, 4 de julho de 1973.
40 "Tempo de reconstrução", discurso pronunciado na convenção da Arena em 20 de


novembro de 1969. Emilio Garrastazú Medici, O jogo da verdade, p. 46.
41 Ernesto Geisel, Discursos, vol. 1: 1974, pp. 12-3.
42 Maços de treze e dezoito folhas manuscritas de Golbery, anotadas por Heitor


Ferreira, sem data.
43 Conversa de Geisel com Golbery, 10 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
44 Ernesto Geisel, Discursos, vol. 1: 1974, p. 18.
45 Veja, "'Eu sou o anticandidato'. Como um semeador, o MDB vai para a campanha


eleitoral pensando no futuro", por Marcos Sá Corrêa, 12 de setembro de 1973, pp. 3-5.
46 Thales Ramalho, agosto de 1986. Segundo Ulysses Guimarães, em entrevista a O
Pasquim, o termo é de sua invenção. Teria surgido durante uma conversa com o


advogado Luiz Lopes Coelho, na avenida São Luís, em São Paulo. Luiz Gutemberg,
Moisés, codinome Ulysses Guimarães, p. 126.
47 Para a articulação da candidatura dentro do MDB, depoimentos de Alencar Furtado


e Fernando Lyra, em Ana Beatriz Nader, Autênticos do MDB, semeadores da
democracia, pp. 51 e 120.
48 Antonio Carlos Scartezini, Dr. Ulysses, p. 21.



49 Daniel Krieger, Desde as Missões, p. 172. Krieger não identifica Ulysses como autor
da proposta de quinze anos. Ele está identificado em Antonio Carlos Scartezini, Dr.
Ulysses, p. 44.


50 Luiz Viana Filho, O governo Castello Branco, p. 119.


51 Em 1970 o Senado tinha 66 cadeiras e a Câmara, 310. No registro de fundação, em
1965, o MDB tinha 21 senadores e 140 deputados.
52 Para a Oposição de Sua Majestade, Diário de Heitor Ferreira, 4 de julho de 1973.


Para a "fiscalização", folha manuscrita de Geisel com sete tópicos para o discurso da
convenção. APGCS/HF.
53 Luiz Gutemberg, Moisés, codinome Ulysses Guimarães, p. 116.
54 Jornal do Brasil, 24 de setembro de 1973, p. 3 do 1º caderno.
55 Luiz Gutemberg, Moisés, codinome Ulysses Guimarães, p. 121.
56 Paolo Marconi, A censura política na imprensa brasileira — 1968/1978, p. 256.


57 Agenda de Geisel, 1973. APGCS/HF.

58 Nota apensa à transcrição do Diário de Heitor Ferreira, 19 de outubro de 1973.

APGCS/HF.

59 Diário de Heitor Ferreira, 10 de novembro de 1973.
60 O Estado de S. Paulo, 30 de dezembro de 1996.
61 Idem, 10 de novembro de 1973, edição submetida aos censores e edição


censurada. O Departamento de Pesquisas do jornal conserva as páginas preparadas
pela redação antes de serem mutiladas pelos censores.
62 Bernardo Kucinsky, Jornalistas e revolucionários, p. 271.
63 Julio de Mesquita Neto, junho de 1994.
64 Conversa de Golbery com Geisel, cerca de 15 de novembro de 1973. APGCS/HF.


65 Conversa de Golbery com Geisel, 3 de dezembro de 1973. APGCS/HF.
66 Julio de Mesquita Neto, junho de 1994. Conversa de Geisel com Golbery, 6 de
dezembro de 1973. APGCS/HF.


67 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 10 de dezembro de 1973. APGCS/HF.

68 Bilhete de Heitor Ferreira a Golbery, 10 de dezembro de 1973, com os temas que
Geisel trataria com Figueiredo durante um encontro marcado para o dia 15. APGCS/HF.
69 Telefonema de d. Avelar Brandão a Golbery, 11 de dezembro de 1973. APGCS/HF.
70 Diário de Heitor Ferreira, 3 de dezembro de 1973. Conversa de Geisel com Golbery e


Heitor Ferreira, 20 de novembro de 1973, APGCS/HF.
71 Ernesto Geisel, julho de 1988. Para a perda de peso, Octavio Costa, maio de 1985.
Para os olhos, conversa de Geisel com Golbery, 7 de janeiro de 1974. Para a


possibilidade da morte de Orlando, conversa de Geisel com Golbery, Heitor Ferreira e
Moraes Rego, 22 de novembro de 1973. APGCS/HF.
72 Três folhas manuscritas de Heitor Ferreira com o resumo de sua conversa com o


major Clóvis Magalhães Teixeira, 15 de dezembro de 1973. APGCS/HF.
73 Diário de Heitor Ferreira, 20 de dezembro de 1973.
74 Idem.
75 Pela ordem, os generais Antonio Jorge Corrêa, Ramiro Tavares Gonçalves e


Humberto de Souza Mello. Ernesto Geisel, julho de 1988.
76 Heitor Ferreira, 1998.
77 Orlando teve dois filhos. A um deu o nome do pai (Augusto) e a outra o da mãe



(Lídia). Ernesto deu a um o nome do irmão (Orlando) e a outra o da irmã (Amália).
78 Amália Lucy Geisel, julho de 1991.
79 Golbery do Couto e Silva, 1983.
80 Nota apensa ao Diário de Heitor Ferreira, 28 de setembro de 1973.
81 Conversas de Geisel com Golbery, 7 de janeiro e 8 de fevereiro de 1974, com


Dyrceu Nogueira, 4 de fevereiro de 1974, e com Dale Coutinho, 16 de fevereiro de
1974. APGCS/HF.


82 Conversa de Geisel com Golbery, 3 de dezembro de 1973. APGCS/HF.
83 Conversa de Geisel com Golbery, Heitor Ferreira e Moraes Rego, 10 de dezembro de
1973. APGCS/HF.


84 Diário de Heitor Ferreira, 20 de dezembro de 1973.
85 Diário de Heitor Ferreira, 27 de dezembro de 1973.
86 Idem, 29 de dezembro de 1973.
87 Duas folhas manuscritas de Heitor Ferreira, de 4 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
88 Telefonema de Figueiredo a Heitor Ferreira, 17 de dezembro de 1973. APGCS/HF.
89 Conversa de Golbery e Heitor Ferreira com o coronel Danilo Venturini, 19 de


dezembro de 1973. APGCS/HF.

90 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 20 de dezembro de 1973.

APGCS/HF.

91 Conversa de Geisel com Moraes Rego e Heitor Ferreira, 9 de janeiro de 1974,
APGCS/HF, e Diário de Heitor Ferreira, 10 de janeiro de 1974.

92 Diário de Heitor Ferreira, 10 de janeiro de 1974. O CIE acabou pagando uma das
diárias. Conversa de Geisel com Lilian e Humberto Barreto, Moraes Rego e Heitor
Ferreira, 16 de janeiro de 1974. APGCS/HF.

93 Ernesto Geisel, julho de 1988.
94 Idem.
95 Antonio Carlos Magalhães, janeiro de 1998.
96 Ernesto Geisel, março de 1995.
97 Amália Lucy Geisel, julho de 1991.
98 Ernesto Geisel, Discursos, vol. 1: 1974, p. 22.
99 Idem.
100 Gravação da cerimônia transmitida pela Agência Nacional, 15 de janeiro de 1974.


APGCS/HF.

101 Diário do Congresso Nacional, 16 de janeiro de 1974.
102 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 17 de janeiro de 1974.


APGCS/HF.
103 Pasta com três textos, cada um de quatro folhas. APGCS/HF. NO primeiro conjunto


está o manuscrito de Golbery, no segundo o texto datilografado desse rascunho, com
anotações manuscritas de Geisel. No terceiro, a versão final, manuscrita, de Geisel.
104 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 10 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
105 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 7 de janeiro de 1974.


APGCS/HF.

106 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 5 de janeiro de 1974.

APGCS/HF.


107 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 7 de janeiro de 1974.

APGCS/HF.

108 Ernesto Geisel, Discursos, vol. 1: 1974, p. 22.
109 Conversa de Golbery com Geisel, 10 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
110 Golbery do Couto e Silva, fevereiro de 1974. Em Veja, 19 de março de 1980, "O
fabricante de nuvens", p. 27.
111 Golbery do Couto e Silva, agosto de 1986.
112 Golbery do Couto e Silva, junho de 1987.
113 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 17 de janeiro de 1974.


APGCS/HF.

114 Uma folha manuscrita de Heitor Ferreira intitulada Da Conversa Geisel &
Figueiredo na Noite de 09-02-74. APGCS/HF.


A grande encrenca


A mãe de todas as encrencas começou em outubro de 1973. Em menos
de três meses os países produtores de petróleo subiram de 2,90 para
11,65 dólares o preço do barril. Num mundo que nos 25 anos anteriores
crescera quintuplicando o consumo de petróleo e àquela altura bebia
mais 20 milhões de barris a cada dia, teve início um terremoto que
redesenharia a sua economia. Os Estados Unidos entraram numa crise
que nos dois anos seguintes lhes reduziria em 6% o Produto Interno
Bruto e dobraria a taxa de desemprego. Pela primeira vez desde o fim da
guerra a economia japonesa haveria de se contrair.1 Encerrava-se uma
das fases de maior prosperidade da história humana, que o historiador
inglês Eric Hobsbawm chamaria de a Era de Ouro. O mundo começava
a "deslizar num período de instabilidade e crises".2

Em 1970, no esplendor do Milagre Brasileiro, o barril de petróleo
custava us$ 1,80. O país dependia de óleo para 44% do seu consumo
de energia elétrica, importava 80% dos combustíveis fósseis que
queimava. Desde 1968 o consumo crescia uma média de 16% ao ano.3
Os novos preços significavam um dreno de 2 bilhões de dólares anuais.4
Um ano antes, Geisel destruíra uma articulação dos ministros Dias
Leite e Delfim Netto para franquear a exploração de petróleo aos
contratos de risco com empresas estrangeiras. Argumentava que o
preço internacional estava baixo, as pesquisas da Petrobrás eram
promissoras, e não tinha sentido o "Brasil Grande" chamar estrangeiros


para fazer esse serviço.5 (A administração de Geisel na Petrobrás deu
prioridade aos investimentos na distribuição, no refino e na
petroquímica, colocando em segundo plano a pesquisa e a exploração.)6
De uma hora para outra o petróleo abriu um buraco na economia
brasileira equivalente a 32% das suas exportações.7

Anos mais tarde o professor Henry Kissinger perguntaria: "Como
uma transformação tão ampla e profunda pôde acontecer
repentinamente? Olhada em retrospecto, vêem-se com nitidez as
sementes e os sinais daquela mudança dramática. A revolução do
petróleo, como tantas revoluções históricas, manteve um padrão. Era
inevitável, mas a sua inevitabilidade só foi vista depois".8

Ela poderia ter sido percebida em 1960, quando a Esso derrubou

o preço do barril, levando-o para 1,76 dólar.9 A truculência dos
compradores abrira o caminho para os visionários que sonhavam com
um cartel de vendedores, e dela resultou a Organização dos Países
Exportadores de Petróleo, OPEP. Poderia ainda ter sido percebida em
1970, quando a Líbia, a Argélia e o Irã introduziram os cortes na
produção como arma para negociar melhores preços, mas sucedeu o
contrário.10 O governo americano rejeitara uma proposta do xá do Irã
que oferecia o barril a um dólar por dez anos. Afinal, a idéia de um
cartel coordenado pela OPEP continuava como coisa de visionários,
desdenhada pelas petromonarquias do Golfo.
O mundo dos países produtores parecia confundir-se com a
megalomania do xá Reza Pahlavi. Filho de um cossaco, em 1971 ele
comemorou os 2500 anos da Coroa persa com uma festa em que o
presidente da União Soviética e o vice-presidente dos Estados Unidos
puxaram o comboio da maior boca livre de todos os tempos. Nove reis,
cinco rainhas, 21 príncipes, treze chefes de Estado e convidados de todo

o mundo beberam 25 mil garrafas de vinho, servidas por 565
cozinheiros e garçons franceses, com menu do restaurante Maxim's. No
sorvete da sobremesa derramava-se champanhe Moët, safra 1911.11
Pahlavi simbolizava o sucesso das ditaduras desenvolvimentistas do
Terceiro Mundo. Na década anterior o Irã crescera 11% ao ano. A renda

per capita pulara de 225 dólares anuais para perto de 2 mil. O governo
investira 12 bilhões de dólares naquilo que denominava Revolução
Branca. Hidrelétricas e estradas asfaltadas eram as jóias da Coroa de
seu regime.12

Sete em cada dez barris das reservas existentes fora do mundo
comunista e dois terços do óleo destinado a suprir aumento do
consumo estavam no islã.13 E os grandes países compradores apoiavam
Israel.

Numa noite de junho de 1973 o secretário-geral do Partido
Comunista Soviético, Leonid Brejnev, estava na casa de praia do
presidente americano Richard Nixon, na Califórnia. Passara nove dias
nos Estados Unidos, e supunha-se que já esgotara a agenda.
Repentinamente pediu uma nova conversa, e os dois trancaram-se na
biblioteca, pouco antes de meia-noite. Nixon, sonolento, prestava pouca
atenção no que Brejnev lhe dizia e ajeitava almofadas para apoiar a
cabeça. Nervoso, o secretário-geral do PC soviético repassava-lhe um
discurso encomendado pelo Politburo: era preciso fazer alguma coisa no
Oriente Médio, pois a tensão entre árabes e israelenses tornara-se
explosiva. Nixon achou que seu velho inimigo estava blefando.14

Ao alvorecer de 6 de outubro, Dia do Perdão no calendário
religioso judaico, 2 mil canhões egípcios abriram fogo. Dois corpos de
exército invadiram o deserto do Sinai. Do outro lado avançaram duas
divisões sírias. Somadas, as tropas que atacavam Israel tinham um
efetivo maior que as forças da OTAN. Dois dias de combates levaram o
Estado judeu às portas do desespero. "O Terceiro Templo está ruindo",
advertia o general Moshe Dayan, chefe do estado-maior do exército,
legendário herói de duas guerras, mundialmente conhecido pela venda
negra que lhe cobria o olho esquerdo.15 Amparado num maciço
fornecimento de armas americanas e no heroísmo de seus soldados, o
exército israelense conteve a ofensiva e contra-atacou. Entrou em
território sírio no dia 11 de outubro, e no dia 16 atravessou o canal de
Suez e invadiu o Egito. A quarta guerra do Oriente Médio terminou
como todas as outras, com a vitória de David.


Na mesma manhã de 6 de outubro, em Viena, os países árabes
produtores de petróleo atiraram à sua maneira. Pediram um aumento
de 100% no preço do barril. Dez dias depois o mundo, perplexo, assistia
ao colapso dos exércitos egípcios, acompanhando uma daquelas
histórias de guerra em que se reconhece com facilidade vencedor e
derrotado. A profunda transformação ocorrida naqueles dias não foi
devidamente percebida sequer quando aconteceu. Afinal, tanques
israelenses rolando na estrada que leva ao Cairo formavam uma
realidade muito mais imediata e tangível do que sheiks pitorescos
aumentando o preço do óleo em 70%, de 2,90 dólares por barril para
5,12.

De calção, tomando banho de sol no Jardim Botânico, Geisel
perguntava a Heitor Ferreira:

— Como vão as coisas?
— Tudo tranqüilo.
— Tranqüilo como? Os árabes vão cortar o óleo e está tudo
tranqüilo? Preparem-se para deixar os carros na garagem.16
O "Brasil Grande" combateu a guerra do petróleo com a retórica
do Milagre. Divulgou-se a descoberta, no litoral de Campos, de uma
província petrolífera comparável às do Oriente Médio, e anunciaram-se
reservas de 9 mil toneladas de urânio.17 (Nos dois casos faltava ao
ufanismo qualquer base técnica.) Enquanto os preços subiam em Viena,

o ministro Delfim Netto lutava no auditório da FIESP: "SÓ um idiota não
vê que a escassez de matérias-primas de que muitos empresários vêm
se queixando, numa atitude histérica, decorre do ritmo de
desenvolvimento de nossa economia. Quem é suficientemente
irresponsável para propor que freemos o desenvolvimento econômico
por causa de matérias-primas?".18
Dias depois, em Porto Alegre, proclamou que o Brasil seria uma
nação desenvolvida, "a menos que os próprios brasileiros optem pelo


subdesenvolvimento".19 Voou de volta para o Rio de Janeiro e reuniu-se
com Geisel. Duas coisas o preocupavam: o racionamento —
"desestímulo ao consumo supérfluo", no jargão da Petrobrás — e um
aumento dos preços internos dos derivados antes de janeiro.20 Preferiria
um aumento imediato de apenas 10%.21 Geisel, por seu lado,
preocupava-se com o balanço da Petrobrás. Se vendesse combustível
barato, fecharia o ano com um mau desempenho, apesar de ter
conseguido lucros profusos.22

No final de dezembro veio um novo choque. Reunida em Teerã, a
OPEP subiu o preço do barril para 11,65 dólares. O diretor comercial da
Petrobrás, Shigeaki Ueki, conversou por hora e meia com Delfim e saiu
com uma promessa de um novo aumento, dessa vez de 15%. Somados,
os dois reajustes não cobriam o efeito da pancada de outubro, mas
Delfim oferecia recursos da reserva monetária para tapar o buraco que
abria nas contas da Petrobrás. "Como diretor da Petrobrás, resolvi o
meu problema. Como brasileiro, fiquei com uma bruta dor de barriga",
observaria Ueki.23 Anos depois Delfim narrava a mesma conversa: "O
que ele queria é que toda a inflação fosse carregada ao governo Medici.
O objetivo era 12. Ela terminou em 15. Se jogasse o petróleo, ia a 28.
Mandei-o tomar no rabo".24

Capturado pela retórica do Milagre, o regime estava enfeitiçado
pela própria fantasia. Geisel se queixava de que a Petrobrás chegara a
comprar petróleo iraquiano a dezoito dólares e o vendera, refinado, a
três.25 Os aviões que saíam de Buenos Aires com destino a Nova York ou
à Europa vinham com os tanques quase vazios para enchê-los com um
dos querosenes mais baratos do mundo.26 O subsídio ao sucesso
custava 150 milhões de dólares por mês.27

Como o sapo de Guimarães Rosa, a ditadura não pulava por
boniteza, mas por precisão. Dois anos antes, durante um seminário
realizado na universidade americana de Yale, Juan Linz, um professor
espanhol que jamais pisara no Brasil e pouco conhecia das futricas de
sua política, surpreendeu um plenário de especialistas reunidos para
debater a ditadura e seu milagre. Falava-se em "mexicanização",


"portugalização", "dependência", "ideologia gerencial dos militares". Linz
começou refugando a noção corrente de que o Brasil vivia um regime
autoritário. "Situação autoritária", propunha. Não via futuro na
capacidade desmobilizadora de uma ditadura obrigada a viver de
slogans passados (as desordens dos dias de João Goulart) ou a
magnificar ameaças (o terrorismo). Faltava-lhe uma legitimidade que só
poderia advir da emergência de um caudilho, o que a rotatividade da
Presidência desestimulava, ou de uma articulação corporativa que
carecia do necessário apoio de uma elite católica conservadora e
influente: "Em termos práticos, um processo onde se misturam
administração, manipulação, decisões arbitrárias, mistificações e
mudanças freqüentes de equipe só poderá ser bem-sucedido enquanto a
economia for bem".28

O fim do "Brasil Grande" seria o fim do regime. Os Estados
Unidos, o Japão e as potências européias recalculavam suas taxas de
crescimento, mas no Brasil o ministro Delfim Netto dizia que "a visão
apocalíptica é um produto da ignorância histórica".29 Faltando-lhe
poucos meses para deixar o governo, Medici não pretendia reconhecer
dificuldades. Preferiu usar o tempo de sua última mensagem de fim de
ano orgulhando-se de chegar ao final do mandato com um crescimento
de 63% do PIB (11,4% só em 1973).30 Entregava ao seu sucessor uma
economia robusta, em dez anos o regime devolvera ao Brasil o crédito
internacional e investimentos estrangeiros. O Estado podia investir.
Dispunha de fontes de financiamento e criara uma eficiente máquina de
arrecadação tributária. Para cada cruzeiro arrecadado em 1963,
arrecadavam-se nove em 73.31

Mesmo sem o choque do petróleo o Milagre tinha
vulnerabilidades. Apresentava os desequilíbrios típicos de sua
personalidade política e das economias que crescem a taxas elevadas.
Enquanto a produção de bens de consumo duráveis (geladeiras,
aparelhos de televisão e outras delícias da classe média) praticamente
dobrou entre 1970 e 1973, a de bens intermediários (lingotes de aço,
parafusos, bens capazes de empregar novas levas de mão-de-obra)


aumentou 45%.32 Havia mais gente comendo o bolo do que amassando
a farinha. A felicidade do consumo permitira aos comerciantes de São
Paulo acarpetar o asfalto da rua Augusta na decoração do Natal de
1972. O número de passaportes expedidos, que até 1968 girara em
torno de 4 mil por ano, batera os 200 mil, levando ao colapso as
máquinas da casa Harrison, de Londres, e obrigando o governo a
fabricá-los na Casa da Moeda.33 No período que foi de 1966-67 a
1972-73, a disponibilidade de alimentos caíra 3% enquanto a renda por
habitante crescera 56%.34 Prenunciavam-se pressões inflacionárias.

Fosse qual fosse a gravidade dos problemas, viessem eles da
fronteira rural ou dos campos de petróleo do golfo Pérsico, tudo poderia
ser resolvido se a desmobilização política do país preservasse a
sensação de sucesso que legitimava o regime através do desempenho da
economia. Desmobilizar, no caso, significava desmobilizar mesmo,
abafar o debate.

No segundo semestre de 1973 o economista Paul Samuelson, do
Massachusetts Institute of Technology, publicara a nona edição do
clássico Economics, o livro-texto mais vendido do mundo sobre o
assunto. Obra brilhante na sua elegante simplicidade, fora fator
decisivo para que o autor se tornasse o primeiro americano a ganhar o
Prêmio Nobel de Economia.

Na pagina 870, oferecia uma reflexão política:

Fascismo:

É mais fácil caracterizá-lo política do que economicamente.
Seja na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini, na Espanha
de Franco, em Portugal de Salazar, na Argentina de Perón ou
nas juntas da Grécia e do Brasil, o fascismo foi habitualmente
identificado por ditaduras pessoais, partido único e pela
supressão das liberdades públicas. [...] O indivíduo é secundário
diante do Estado. [...]


Quando uma economia populista vai mal, com inflação e
desemprego, surge o desejo de que os fascistas assumam o
poder, "restaurando a ordem e promovendo o desenvolvimento
econômico"? Arre, quase sempre a resposta é: sim.

Mais entristecedor é testemunhar o sucesso econômico
ocasional de tais regimes ditatoriais — coisa de curto prazo.
Assim, nos anos 70 o regime militar brasileiro pode ter batido
duro nos professores, nos intelectuais e na imprensa livre. Mas
como as pessoas diziam no tempo de Mussolini: "Pelo menos os
trens andam na hora". Quando se olha para o Anuário estatístico
da ONU, verifica-se que nos últimos anos o Brasil foi um
verdadeiro Japão na América Latina, com taxas médias anuais
de 10% de crescimento do PNB.

A história mostra que é raro os despotismos benevolentes
persistirem na benevolência, e quase nunca conseguem manter-
se eficientes. [...] Na vida real, o fascismo é incapaz de realizar
até mesmo seu próprio projeto.35

Desde 1952 Economics era publicado no Brasil pela editora Agir,
de propriedade de Cândido Guinle de Paula Machado, amigo de Golbery
do tempo do IPÊS e do SNI. Vendera 100 mil exemplares, e havia pouco o
Ministério da Educação co-patrocinara a sétima edição. A Agir informou
à editora americana de Samuelson que considerava as observações do
professor "preconceituosas" e "ofensivas". Não havia jogo. Cortar não
seria suficiente. Ou ele reescrevia o texto, ou a edição seria recusada. A
Agir não a publicaria.36

Noutra trincheira, Cândido Guinle mobilizou sua academia. O ex-
ministro da Fazenda Eugênio Gudin escreveu a Samuelson: "Nós temos
um Congresso; os juizes são independentes e as restrições às liberdades
que se deram de 1967 a 1969 são agora coisa do passado".37

Guinle levou a questão a Golbery, informando-o de que já haviam
pedido ao professor Mario Henrique Simonsen, da Fundação Getulio
Vargas, que reforçasse a gestão de Gudin.


Golbery contou a Geisel: "Tem um trecho horroroso contra o
Brasil. [...] O perigo é o livro, a significação [...]. Toda universidade tem,
todo mundo estuda por aquele livro. Eles estão querendo é não fazer a
edição, mas tirar o trecho também não resolve. Eles querem que o
homem reconsidere".38

Decidiu ampliar a ofensiva, pedindo ao economista Roberto
Campos, ministro do Planejamento no governo Castello Branco, mais
pressão sobre Samuelson.39 Não precisava. O Prêmio Nobel capitulara
diante da ameaça da Agir, antes de receber a carta de Gudin. Não
mexeria na versão original, mas deixava seus censores brasileiros à
vontade: "Há 25 anos mantenho a prática de não me considerar
responsável pelas traduções. Assim, quando o livro foi traduzido em
certos países esquerdistas, perguntaram-me se objetaria a omissão de
trechos que seriam ofensivos aos governos. Minha resposta foi que não
me cabia recusar ou policiar a supressão de páginas ou mesmo
capítulos que tratavam de comparações entre sistemas econômicos".40

Samuelson propôs a supressão da referência à "Junta",
reescreveu o parágrafo seguinte, e sugeriu que a nova versão fosse
transferida para longe da discussão do fascismo. A edição brasileira
diria:

É preciso encarar a realidade de que os sistemas de governo a
que muitos intelectuais se opõem podem conseguir um
crescimento razoável, muitas vezes por curto prazo. Assim, a
militância sindical e as agitações revolucionárias podem se
tornar adversárias do investimento privado e da eficiência do
mercado. A preocupação com uma distribuição igualitária da
renda pode custar um crescimento do bolo como um todo,
resultando numa perda do pedaço desse bolo para os operários e
lavradores. Assim, quando se vê o Anuário Estatístico da ONU,
verifica-se que o Brasil foi um verdadeiro Japão da América
Latina, com taxas médias anuais de 10% de crescimento do PNB.
OS defensores desse sistema podem argumentar que não se teria


conseguido isso no ambiente de desordem das décadas
anteriores.41

Sumira a frase premonitória: "Mais entristecedor é testemunhar o
sucesso econômico ocasional de tais regimes ditatoriais — coisa de
curto prazo".42

Cândido Guinle festejou a vitória num bilhete a Golbery pedindo-
lhe que desse um telefonema a Gudin, "pois ele ficaria satisfeito".43
Ficou tão satisfeito que, dias depois, almoçou com o general e
recomendou-lhe nomes para o Ministério da Fazenda e para a
presidência do Banco Central.44 Entre eles, o de Roberto Campos,
conscrito tardio à brigada que pressionou Samuelson. Sua carta seguiu
um mês após a capitulação do professor.

Campos escreveu a Samuelson: "Podem ter ocorrido casos
isolados de brutalidade policial ou de tortura. Coisa deplorável e
vergonhosa. Mas seria injusto confundir acidentes de brutalidade
policial com uma política deliberada de repressão policial e punições
físicas".45

(Entre o início de novembro de 1973, quando começou a
controvérsia com Samuelson, e o fim de dezembro, quando Campos
mandou sua carta, os serviços de repressão mataram nove pessoas nas
cidades. Dois exilados foram seqüestrados em Buenos Aires, e um casal
de militantes da ALN assassinado com quatro tiros na cabeça no
aparelho do DOI paulista. No Araguaia, dois dias antes da carta de
Campos a Samuelson, três patrulhas do Exército surpreenderam a
comissão militar da guerrilha do PC do B e mataram quatro de seus
combatentes. Inaugurara-se uma perseguição aos sobreviventes na qual
a tropa estava formalmente instruída para não manter prisioneiros. E
prisioneiros não foram mantidos.)46

Campos falava também em "censura voluntária da imprensa".
Foram dezoito as proibições expedidas pela Censura durante a ofensiva
sobre Samuelson.47 Voluntária era a censura a que Roberto Campos se
submetia. Colaborador d'O Globo e d'O Estado de S. Paulo, escreveu em


janeiro um artigo sobre o choque do petróleo, sugerindo que se abrisse

o território brasileiro à prospecção por companhias estrangeiras.
Acautelara-se apresentando uma cópia a Golbery, que a engavetou.
Campos insistiu, e o general encerrou a questão. O artigo não deveria
ser publicado, e ele não deveria publicar coisa alguma antes da posse
de Geisel.
Conservador audaz, adversário da megalomania do Milagre, do
monopólio estatal do petróleo e de toda a mitologia amazônica, Roberto
Campos deixara o Ministério do Planejamento em 1967 e passara por
fugaz e fracassada experiência como banqueiro. Seu cosmopolitismo
valorizava-o para consumo externo, porém depreciava-o nas
competições internas. Golbery justificava o silêncio obsequioso que lhe
impunha: "Qualquer coisa, partindo dele, será inoportuna. Se ele
propõe uma idéia boa, vai queimá-la. Se partir dele, vai ser ruim. É uma
tristeza, mas é a verdade".48 Por conta do mau-olhado que Campos
carregava, Geisel evitara cumprimentá-lo em público durante a
cerimônia de traslado dos restos do marechal Castello Branco do Rio de
Janeiro para um mausoléu em Fortaleza.49

Verdadeira sinuca. A economia internacional prenunciava
dificuldades para o novo governo, e faltava espaço político tanto para a
crítica liberal de Paul Samuelson como para a militância conservadora
de Roberto Campos. Os exercícios de triunfalismo haviam-se esgotado
como recurso político capaz de dar ao regime a legitimidade pelo
desempenho.

Como dizia o poeta Cacaso:

Ficou moderno o Brasil

ficou moderno o milagre:

a água já não vira vinho,

vira direto vinagre.50

O Milagre Brasileiro chamara-se Delfim Netto. Em quatro anos
saíra dezoito vezes na capa da revista Veja, uma na edição latino-
americana da Newsweek e outra, como Super-Homem, na Institutional


Investor.51 Era o principal personagem do governo nas primeiras páginas
dos jornais. Caso raro de ministro recebido pelo presidente Richard
Nixon na Casa Branca. Nos seus sete anos de mandarinato (1967-73) o
Produto Interno Bruto crescera 85% e a renda per capita, 62%.52 Ao
santo do Milagre, o futuro governo reservava um lugar no inferno.

O Gordo era antes de tudo troncudo. O tórax de cantor de ópera
espetado em pernas curtas dava-lhe uma aparência obesa mesmo
quando conseguia derrubar vinte dos 105 quilos que carregava em 1,60
m de chassis. Era um carcamano do Cambuci. Seu avô, Antonio Delfini,
pedreiro calabrês, desembarcara com a mulher em São Paulo aos
dezenove anos, em 1888. Trazido por uma companhia de colonização
que fornecia mão-de-obra às fazendas abandonadas pela escravaria,
escondeu-se nas vielas da cidade e nela viveu uma modesta existência.
O luxo da casa era um rádio Cacique amarrado a trinta metros de
antena, capaz de receber as notícias das tropas de Mussolini na guerra
africana. Órfão de pai aos seis anos, Delfim foi educado pela mãe,
Maria. Dela jamais esqueceu as jornadas de costura para a vizinhança e
a crença de que os filhos só teriam futuro se estudassem. As más notas
eram cobradas com a mão forte da senhora. Começara a vida como
contínuo da Gessy aos catorze anos, e subira a escriturário de uma
oficina mecânica do Departamento de Estradas de Rodagem. Na
infância, a maior autoridade em seu círculo de relações foi um tio
policial, lotado no DOPS. 53 Na adolescência namorara o socialismo
campestre de Monteiro Lobato.54 Catedrático de Economia Brasileira da
Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de São Paulo aos
trinta anos, ministro da Fazenda aos 38, aos 44 exercia no cargo um
poder sem paralelo na história nacional. Nenhum ministro concentrou,
como ele, poder e sucesso.

Na manhã de 31 de março de 1964, quando as emissoras de rádio
noticiavam o levante do general Mourão Filho, ele fazia num Simca o
trajeto habitual de sua casa para a USP. Fazia bicos na Confederação
Nacional da Indústria e na Associação Comercial de São Paulo.
Ganhara algum dinheiro com pequenos estudos para o IPÊS. 55 Chegara


ao ministério depois de uma curta passagem pela Secretaria da Fazenda
de São Paulo. Nunca tivera dúvidas a respeito da base sobre a qual
edificara seu êxito: "Quando eu entrei no ministério o serviço já estava
feito. O professor Bulhões56 e o Roberto Campos tinham terminado a
obra de salsicharia".57 Haviam recebido o Tesouro com 300 milhões de
dólares em contas atrasadas e entregaram-no com 400 milhões de
dólares de reservas cambiais. Baixaram a inflação de 90% para 25% ao
ano e reduziram o déficit federal de 4,2% do PIB para 1,1%.58 O conjunto
da economia, que em 1963 crescera apenas 1,6%, expandira-se 5,1%
em 66.59

Desconhecido, solteiro e estrábico, Delfim falava rápido demais,
com o marcante sotaque dos italianos de São Paulo. A mulher do
marechal Costa e Silva chamava-o Gordinho.60 Parecera um ministro
fugaz, daqueles que surgem sem que se saiba como e somem sem que
valha a pena perguntar por quê. "Eu não conhecia ninguém, e aquela
burguesia carioca não aceitava um ministro paulista. Como eu era
solteiro, não tinha conversa. Tinha que ser fresco. Então eu me vestia
de terno preto, camisa branca e gravata preta. Era fantasia de viúvo,
para parecer o mais sério possível", comentaria trinta anos mais tarde,
de terno preto, camisa branca e gravata azul.61

Dormia quatro horas por noite. Abria o escritório do Ministério da
Fazenda às sete da manhã e dali raramente saía antes das sete da
noite. Dividia-se entre Brasília, onde estava o poder, São Paulo, onde se
firmava a base política de uma nova plutocracia nacional, e o Rio de
Janeiro, onde se esfarelava a burguesia do Estado Novo. Era mais
acessível na pequena mesa do fundo do restaurante Le Bistrô, em
Copacabana, do que no gabinete mussoliniano do seu ministério.
Acumulou poder pelo desempenho e pela pertinácia com que articulou
uma rede de lealdades na administração. Controlava diretamente o
Banco Central, a Caixa Econômica e o Banco do Brasil, geria as grandes
caixas dos fundos e dos incentivos. Numa disputa pelo comando da
política cafeeira, defenestrara o ministro da Indústria e Comércio e,
numa controvérsia em torno do preço da carne, derrubara o ministro da


Agricultura. Operava estendendo linhas de amizade e gratidão na
burocracia, no empresariado e na imprensa. Seu curso era óbvio: o
governo de São Paulo em 1974, a Presidência da República em 79.

Suas relações com Geisel eram nulas. Nunca tinham se visto.62
Limitavam-se a cortesias e atritos burocráticos. Delfim sabia que
contrariara o presidente da Petrobrás em questões tributárias. Além
disso, em outubro de 1972, ofendera-o defendendo a abertura do
mercado brasileiro para empresas estrangeiras de prospecção de
petróleo. Delfim e Geisel desentenderam-se novamente numa disputa
pelos preços da borracha sintética. O ministro não permitia que eles
subissem, até que o general ameaçou mandar-lhe a chave da fábrica e
decidiu aumentar os preços sem ouvi-lo.63 Nada os separava, nada os
aproximava. Delfim não tinha — nem lançara — pontes em direção à
Candelária. O general não sabia o que fazer com ele, e via no
distanciamento uma perigosa soberba.64 Era forte demais para ser
mantido no ministério como símbolo de continuidade, e fraco para
impor a própria permanência. Até 1971, Geisel admitia sem entusiasmo
a hipótese de escolhê-lo para governador de São Paulo, mas reclamava
de seu desembaraço e notoriedade.65 A partir do início de março de
1972 a Candelária começou a receber sinais de que o ministro da
Fazenda trabalhava a substituição de Medici pelo chefe do Gabinete
Civil, o professor João Leitão de Abreu, mesmo que para isso fosse
necessário prorrogar o mandato presidencial. Numa daquelas situações
que só as ditaduras produzem, durante dois anos coexistiram dois
Delfins. Um parecia carro de préstito, festejado e glorioso. O outro,
carreta de condenado.

Do alto da alegoria proclamava a inexorabilidade do Milagre.
Diante do primeiro pulo do preço do petróleo, assegurava: "Se o
progresso brasileiro se estagnasse por três anos, ainda assim
pagaríamos nossa dívida externa calmamente".66 Tornara-se uma usina
de sucessos. Previa um crescimento de 10% para 1973, e no início do
ano, pela primeira e única vez no após-guerra, o cruzeiro valorizara-se
em relação ao dólar. De Milão, a Fiat informava que instalaria uma


fábrica de automóveis em Minas Gerais. Hermann Abs, ex-presidente do
Deutsche Bank, sugerira que a Alemanha precisava de um Delfim.67
Milton Friedman escrevia que as taxas de crescimento "justificavam a
expressão 'Milagre Brasileiro'".68 Medici chegara a duvidar que Geisel o
substituísse.69

O desmanche de Delfim teve no general João Figueiredo um
precursor. Haviam sido colegas no governo de São Paulo, quando um
cuidava da Fazenda e o outro da Força Pública. O chefe do Gabinete
Militar ouvia-lhe o telefone. Acusava-o de manipular concorrências para
beneficiar a empreiteira Camargo Corrêa. Combatia-o sobretudo pela
obstinação com que se fixara na meta dos 12% de inflação para 1973.70
Afastar-se do Gordo tornou-se meio eficaz de manter-se ancorado no
regime. Mário Andreazza, ministro dos Transportes, parceiro de Delfim
nos projetos do "Brasil Grande", confessou a Geisel que conseguira
tantos recursos porque "conheço os podres do Gordo". 71 O plutocrata
Augusto Trajano de Azevedo Antunes assegurava a Golbery que o
ministro da Fazenda trapaceava nos negócios com carne, protegendo
um frigorífico.72 Nenhum deles atacou Delfim em público, nem
enquanto esteve no governo, nem depois. Também não ofereceram
prova de suas acusações ou se dispuseram a documentá-las.73

Era Golbery quem ia fundo na sua crítica ao condestável do
Milagre: "O Gordo é um ditador. Não tem escrúpulo em usar o poder. O
Gordo faz misérias. Pega o sujeito, põe na rua da amargura. Ele não tem
ilusão, para o bem ou para o mal, para proteger ou para massacrar. Se
ele amanhã fosse presidente da República, vamos ver o que seria [...].
Para ele não ser, ele não pode ser governador de São Paulo [...] paulista
e civil e ditador".74

No andor, Delfim e o regime orgulhavam-se de ter baixado a
inflação para 15,5%. No desmanche, o professor Eugênio Gudin, nave-
mãe do conservadorismo econômico, dizia a Golbery que o ministro
manipulava os preços das cestas de alimentos para o cálculo do custo
de vida. Quem fazia as contas era a Fundação Getulio Vargas, e quem
tinha assento no seu Conselho era Gudin, não Delfim, mas isso lhe


parecia secundário: "Nós não podemos resistir a certas coisas. O
homem é diabólico. O homem é diabólico. Nós sabemos que ele sabe
exatamente quais são os gêneros que entram na cesta. Ele chama os
donos dos supermercados e diz: 'Esses gêneros os senhores vão vender
pela tabela ou abaixo da tabela. Os outros, vocês vendam por fora'".75 O
ministro explicaria de outra maneira. Se o arroz estava caro no Rio
(cidade cujos preços determinavam o índice) e barato em Minas, ele
providenciava a transferência de estoques mineiros para o comércio
carioca.76 Nas estatísticas da Fundação, em dezembro a carne de
primeira estava a Cr$ 6,60, mas custava Cr$ 14,00 nos açougues do
Rio ou Cr$ 15,00 nos de São Bernardo do Campo.77 Numa indicação da
extensão do êxito da política de desmobilização da sociedade, uma
comandita de hierarcas e barões da academia oficialista fraudou o
índice econômico de maior relevância social do país com a naturalidade
de quem atrasa um relógio. (A FGV corrigiu o embuste em 1977,
transformando os 15,5% de 73 em 20,5%.) A Agência Rio do SNI
calculara o aumento do custo de vida na cidade em 32%, e seu chefe
fizera saber a Golbery que confrontara Delfim com essa estatística.78

Orlando Geisel fora afastado numa conversa cruel porém amiga.
O Gordo foi para a máquina de moer carne. Reclamando dos subsídios
que a manutenção do Milagre cobrava à economia, Geisel fechara o
caso: "Ele está frito comigo".79 Mantê-lo na Fazenda, nem pensar.
Agricultura? "Só se for para jejuar", respondia Golbery.80 Depois de uma
de suas longas conversas com Geisel, ele recomendou a Heitor Ferreira:
"Dossiê do Delfim Netto no SNI. Selecionar antes".81 Heitor anotou no
cartapácio de Temas para Ação: "Ver declaração de rendimentos de
Delfim Netto".82

O petróleo azedara o Milagre. Seu mago virava vinagre.

1 Daniel Yergin, The prize — The epic quest for oil, money & power, pp. 606, 625, 500,
567 e 635.


2 Eric Hobsbawm, Era dos extremos, pp. 221-390.

3 Laura Randall, The political economy of Brazilian oil, p. 13. José Serra, "Ciclos e
mudanças estruturais na economia brasileira do após-guerra", Revista de Economia
Política, abril-junho de 1982, vol. 2/1, n9 6, p. 15. Para o crescimento do consumo,
João Paulo Reis Velloso, O último trem para Paris, p. 139.

4 Lincoln Gordon, A segunda chance do Brasil, p. 128.

5 Ernesto Geisel, janeiro de 1995. Delfim Netto, novembro de 1988. Delfim fora
advertido pelo ministro das Finanças francês, Valery Giscard d'Estaing, de que os
países árabes armavam uma alta do preço do barril de petróleo.

6 Cinco folhas intituladas Petrobrás, Ernesto Geisel — As Grandes Modificações que
Introduziu na Vida da Companhia. A alta do preço do barril viabilizou a exploração das
reservas de águas profundas descobertas no litoral fluminense um ano depois.

7 Veja, 9 de janeiro de 1974, pp. 70-1.

8 Henry Kissinger, Years of upheaval, p. 854.

9 Ian Skeet, OPEC — Twenty-five years of prices and politics, pp. 16-9.

10 Idem, p. 60. Henry Kissinger, Years of upheaval, p. 862. Daniel Yergin, The prize —
The epic quest for oil, money & power, p. 580.

11 William Shawcross, The shah's last ride, pp. 38-41. Mansur Rafizadeh, Witness —
From the shah to the Secret Arms Deal, an insider's account of U. S. involvement in Iran,

pp. 173 e segs.
12 William H. Forbis, Fall of the Peacock Throne, pp. 236-7.
13 Daniel Yergin, The prize — The epic quest for oil, money & power, pp. 500 e 568.
14 Anatoly Dobrynin, In confidence — Moscow's ambassador to America's six Cold War


presidents, p. 283.
15 Daniel Yergin, The prize — The epic quest for oil, money & power, p. 604.
16 Diário de Heitor Ferreira, 15 de outubro de 1973.
17 Para o petróleo, O Globo, 7 de outubro de 1973, capa do 1º caderno e p. 28. Para o


urânio, idem, 11 de novembro de 1973, p. 25.


18 Gazeta Mercantil, 13-15 de outubro de 1973, em Sebastião C. Velasco e Cruz,
Empresariado e Estado na transição brasileira, p. 45.
19 Para Delfim Netto, O Globo, 17 de outubro de 1973, capa do 1º caderno e p. 18.
20 Resumo da Conversa Geisel & Delfim, 18 de outubro de 1973, nota manuscrita de


Heitor Ferreira. Para a menção da Petrobrás ao "desestímulo ao consumo supérfluo",
seis folhas de Nota ao Senhor Presidente, do almirante Floriano Faria Lima, marcadas
"secreto", de 26 de dezembro de 1973. APGCS/HF.

21 Narrativa do almirante Floriano Faria Lima, presidente da Petrobrás, a Heitor
Ferreira, de uma conversa que teve com o general João Figueiredo, em Diário de Heitor
Ferreira, 29 de outubro de 1973.

22 Num telefonema de Paulo Belotti, no qual soube que uma subsidiária tivera lucros
enormes, Geisel disse-lhe: "Você tem que escamotear isso, senão é um escândalo".
Quando Geisel sugeriu que usasse o dinheiro para quitar uma dívida junto ao BNDE,
Belotti respondeu: "O problema é que ao BNDE eu pago juros de 4%. Por que é que vou
pagar?".

23 Bilhete de Shigeaki Ueki a Heitor Ferreira, 7 de janeiro de 1974. APGCS/HF.

24 Delfim Netto, novembro de 1988. A inflação de 1973 foi calculada pela Fundação
Getulio Vargas em 15,5%. Em 1977 o Banco Mundial recalculou-a em 22,5%. Logo
depois a FGV corrigiu suas contas e colocou-a em 20,5%. Margaret E. Keck, The
workers' party and democratization in Brazil, p. 63.


25 Conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 23 de janeiro de
1974. APGCS/HF.
26 Veja, 19 de dezembro de 1973, pp. 131-2.


27 Idem, 23 de janeiro de 1974, pp. 72-4.
28 Juan J. Linz, "The future of an authoritarian situation or the institutionalization of
an authoritarian regime: the case of Brazil", em Authoritarian Brazil, editado por Alfred
Stepan, pp. 233 e segs.


29 Veja, 9 de janeiro de 1974, pp. 70-1.
30 O Estado de S. Paulo, 1º de janeiro de 1974, p. 9.
31 Em 1963 arrecadava-se 1,05 bilhão de cruzeiros. Em 1973, 52,8 bilhões.


Aplicando-se o IGP como deflator, resulta um aumento real de nove vezes. Conjuntura


Econômica, vol. 30, nº 3, março de 1976.
32 José Serra, "Ciclos e mudanças estruturais na economia brasileira do após-
guerra", em Revista de Economia Política, vol. 2/1, n.º 6, abril-junho de 1982, pp. 5 e
segs.


33 Ovídio de Melo, janeiro de 1999.


34 José Serra, "Ciclos e mudanças estruturais na economia brasileira do após-
guerra", em Revista de Economia Política, vol. 2/1, n5 6, abril-junho de 1982, p. 41.
35 Paul A. Samuelson, Economics, pp. 870-1.
36 Carta de Ernst Fromm, diretor da editora Agir, a William Orr, da McGraw Hill, 8 de


novembro de 1973. APGCS/HF.

37 Carta de Eugênio Gudin a Paul Samuelson, de 14 de novembro de 1973. APGCS/HF.
38 Conversa de Golbery com Geisel, 16 de novembro de 1973. APGCS/HF.
39 Diário de Heitor Ferreira, 25 de novembro de 1973.
40 Carta de Paul Samuelson a Eugênio Gudin, de 26 de novembro de 1973. APGCS/HF.
41 Carta de Paul Samuelson a Eugênio Gudin, de 26 de novembro de 1973. APGCS/HF.
42 Nove anos depois dessa controvérsia o Brasil foi à bancarrota. Os estudantes


americanos haviam sido advertidos pela 9-edição do Economics. A editora Agir,
Eugênio Gudin e Roberto Campos, príncipes do conservadorismo econômico brasileiro,
conseguiram, com a ajuda de um Prêmio Nobel de Economia, que os brasileiros não
recebessem essa previsão de Samuelson.

43 Cartão de Cândido Guinle de Paula Machado a Golbery, de 3 de dezembro de 1973.

APGCS/HF.

44 Conversa de Golbery com Heitor Ferreira, narrando-lhe o almoço, 19 de dezembro
de 1973. APGCS/HF. Gudin ofereceu o nome de Casemiro Ribeiro para a presidência do
Banco Central, além de elogiar Roberto Campos, Octávio Gouvêa de Bulhões e Mario
Henrique Simonsen.

45 Carta de Roberto Campos a Paul Samuelson, 27 de dezembro de 1973. APGCS/HF.

46 Para o casal de militantes da ALN, documento entregue em novembro de 1991 pelo
ex-sargento Marival Chaves Dias do Canto, do DOI paulista, a Veja — 18 de novembro
de 1992, pp. 20-32. A guerrilha do Araguaia está contada em A ditadura escancarada
(São Paulo: Companhia das Letras, 2002).

47 Paolo Marconi, A censura política na imprensa brasileira — 1968/1978, pp. 268-70.

48 Telefonema do coronel Newton Leitão a Golbery, 8 de janeiro de 1974. APGCS/HF.

49 Nota manuscrita intitulada Figueiredo e Medeiros com Golbery, datada de 21 de
julho de 1972. APGCS/HF.


50 Antonio Carlos de Brito, "Jogos florais", em Lero-lero (1967-1985), p. 157.
51 "The Brazilian Miracle", Newsweek, 19 de março de 1973.
52 Jeffry A. Frieden, Debt, development, & democracy, p. 117.
53 Luiz Apolônio, escriturário do DOPS, era casado com uma irmã da mãe de Delfim.


Delfim Netto, dezembro de 2000, e Percival de Souza, Autópsia do medo, p. 373.
Apolônio era um destacado funcionário da delegacia, autor de dois livros: Mitos e
táticas comunistas, de 1949, e Manual de polícia política e social, de 1954.


54 Entrevista de Delfim Netto, em Histórias do poder, organizado por Alberto Dines,
Florestan Fernandes Jr. e Nelma Salomão, vol. 3: Visões do Executivo, p. 179.
55 Delfim Netto, março de 1988.
56 Octávio Gouvêa de Bulhões, ministro da Fazenda de Castello Branco.


57 Delfim Netto, novembro de 1988.
58 Rubens Penha Cysne, "A economia brasileira no período militar", em 21 anos de
regime militar, organizado por Gláucio Ary Dillon Soares e Maria Celina d'Araujo, p.


245.
59 Donald V. Coes, Macroeconomic crises, policies, and growth in Brazil — 1964-90, p.
14.
60 Informação dada por Geisel a Heitor Ferreira, em Diário de Heitor Ferreira, 27 de
julho de 1972.
61 Delfim Netto, novembro de 1998.
62 Geisel viu Delfim Netto pela primeira vez quando, já indicado para a Presidência,


visitou-o em 1973. Ernesto Geisel, janeiro de 1975.
63 Para o preço da borracha, Ernesto Geisel, dezembro de 1995.
64 Ernesto Geisel, março de 1994. Para as divergências tributárias, Diário de Heitor


Ferreira, 21 de fevereiro de 1972.
65 Geisel a Heitor Ferreira, em Diário de Heitor Ferreira, 16 de março de 1972.
66 Jornal do Brasil, 17 de outubro de 1973, 1º caderno, p. 18.
67 Conversa de Golbery com Geisel e Heitor Ferreira, 22 de novembro de 1973.


APGCS/HF.

68 Newsweek,2l de janeiro de 1974, citado em Milton e Rose D. Friedman, Two lucky
people,p. 426.

69 Observação feita por Medici ao general Figueiredo e contada por ele a Heitor
Ferreira, em Diário de Heitor Ferreira, 11 de junho de 1973.

70 Para o favorecimento da Camargo Corrêa, conversa de Figueiredo com Geisel, 7 de
julho de 1973, em Diário de Heitor Ferreira dessa data, e telefonema de Figueiredo a
Golbery, 18 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. Nele, Figueiredo conta: "Eu tive um
documento que eu levei para o presidente há uns meses atrás, do Delfim, de que antesda concorrência, aquela de Água Vermelha, ele afirmava a um grupo francês que
queria entrar no financiamento de que a firma construtora seria a Camargo Corrêa.
Antes da concorrência. Então está aí, na cara. É Camargo Corrêa, é Bradesco. É tudo
a mesma panela". Golbery pediu-lhe que juntasse todas aquelas informações "numa
pastinha separada, nós precisamos ter uma pastinha".

71 Conversa de Geisel com Golbery, Heitor Ferreira e Moraes Rego, narrando o
encontro que tivera com Andreazza, em Diário de Heitor Ferreira, 22 de outubro de
1973.

72 Conversa de Golbery com Geisel, narrando-lhe um encontro com Augusto Trajano
de Azevedo Antunes, cerca de 15 de novembro de 1973. APGCS/HF.


73 Todos tiveram com ele boas relações. Em 1979 Golbery foi o orador da cerimônia
da ida de Delfim para o Ministério do Planejamento. Em 1982, Antunes negociou com
Delfim a passagem do Projeto Jari para um grupo de empresários nacionais. Dois anos
depois de sua reunião com Geisel, Andreazza encontrou-se com Delfim para articular
a candidatura do general Figueiredo à Presidência da República. No governo de
Figueiredo, Golbery, Andreazza e Delfim viriam a ser colegas de ministério.

74 Conversa de Golbery com Geisel, cerca de 15 de novembro de 1973. APGCS/HF.

75 Conversa de Golbery com Geisel, Heitor Ferreira e Moraes Rego, narrando seu
almoço com Eugênio Gudin, 21 de dezembro de 1973. APGCS/HF.

76 Antonio Delfim Netto, maio de 2003.

77 Nota Apresentada pela FGV, entregue por Mario Henrique Simonsen a Golbery em
abril de 1974. APGCS/HF. Tribuna Metalúrgica de outubro-novembro de 1973, p. 8.

78 Telefonema de Adolpho Murgel, chefe da Agência Rio do SNI, a Golbery, 24 de
janeiro de 1974. APGCS/HF.

79 Conversa de Geisel com Golbery, 10 de janeiro de 1974. APGCS/HF.

80 Bilhete manuscrito de Heitor Ferreira, com resposta de Golbery, sem data. APGCS/HF.

81 Bilhete de Golbery a Heitor Ferreira, sem data. APGCS/HF.
82 Maço de 24 folhas manuscritas de Heitor Ferreira, datado de dezembro de 1973.


APGCS/HF.


O PODER



A equipe


No final de 1973 a importância de uma pessoa podia ser medida pelo
desembaraço com que dava palpites sobre o ministério de Geisel. Quem
arriscava a continuação de Delfim Netto traía incompreensão do
presente. Se arriscasse um retorno de Roberto Campos, traía
desconhecimento do passado. Bem informado, só quem sabia
pronunciar Shigeaki Ueki.1 O diretor-financeiro da Petrobrás, 38 anos,
filho de japoneses e até pouco tempo um anônimo executivo da fábrica
de plásticos Cevekol, seria ministro. Do quê, nem Geisel imaginava.
Quem tentava descobrir um nome para as Comunicações era um
neófito. O general não esquecera a competência e integridade do
comandante Euclides Quandt de Oliveira, genro de Goes Monteiro, o
condestável do Estado Novo, diretor da Siemens, seu assistente no
Gabinete Militar de Castello.2 Quem conhecesse os nomes dos ministros
do Exército ou da Justiça ainda em 1973 seria um simples chutador,
pois nem ele os sabia.

Os vinte ministros foram escolhidos em 67 dias. Heitor Ferreira
manteve um minucioso registro desse processo.3 Começou a colecionar
hipóteses em maio de 1972. Bastava que um nome caísse nas rodas de
conversas do Jardim Botânico e do largo da Misericórdia para que o
capturasse. As listas renovavam-se, e de quando em quando o próprio
Geisel as consultava. Alguns nomes batiam e ficavam, outros passavam
de raspão.


Circularam 124 nomes. Podiam ser divididos em dois blocos.
Num, os 41 militares que disputavam os cinco ministérios privativos da
caserna.4 Noutro, os 83 que rondaram as dezessete cadeiras civis. Nesse
grupo estampou-se um retrato da gestação da elite do poder da época.
Eram apenas dezesseis aqueles que deviam renome público a atividades
privadas.5 Os políticos eram quinze.6 Os demais eram pessoas cujo
prestígio fora adquirido em funções burocráticas, de carreira ou
fortuitas. A burocracia impulsionara seis em cada dez nomes da lista.

Como todos os presidentes antes e depois dele, Geisel começou a
formar seu ministério na suposição de que tinha grande liberdade de
escolha e teria calma para analisar detalhadamente cada nome,
sobretudo nas pastas civis, onde a indicação estava livre dos
constrangimentos dos almanaques militares. Nenhum governante
brasileiro dispôs de tanto tempo e liberdade quanto ele. Ainda assim,
escolheu dois ministros que não conhecia. Outros dois, conhecia, mas
não lhe ocorrera escolhê-los. A um, conhecia, mas queria-o em outra
pasta. Houve mesmo um caso em que, pretendendo nomear um general
para três ministérios, não conseguiu convidá-lo. Geisel pensou
seriamente em colocar o general Euler Bentes Monteiro, a quem
admirava, nos Transportes, no Interior e, mais tarde, na Previdência.
Acabou não o chamando para nada.7

A TROPA

As cadeiras militares tiveram graus variáveis de dificuldades. A
permanência do brigadeiro Joelmir de Araripe Macedo na Aeronáutica
foi uma barbada. Amigo de Geisel e seu colega de turma, tratava-o por
"você". Estivera praticamente escolhido para a Vice-Presidência em
junho, mas se percebeu que a saída dele do ministério seria o estopim
de um conflito na área. Continuaria ministro.8 Estava no cargo desde
1971, quando Medici o tirara do pijama. Liquidara em algumas
semanas o núcleo de insubordinação que controlava a Força desde a


crise do Para-Sar, em 1968. A escolha do almirante Geraldo de Azevedo
Henning, um oficial imponente, recomendado pelos poucos amigos de
Geisel na Marinha, foi fácil.9

O Milagre triplicara as despesas militares do governo, levando-as
para 1,66 bilhão de dólares em 1973.10 Entre 1968 e 1971 as despesas
com pessoal militar aumentaram 63,7%, enquanto o pessoal civil
sofrera uma contração de 13%.11 Essa expansão fizera estragos no
Exército, na FAB e na Marinha. Uma adquirira dezesseis jatos Mirage
sem o material de terra necessário para apoiá-los.12 A outra entrara
num programa de reequipamento que custaria 1 bilhão de dólares,
comprometendo-lhe o orçamento por quinze anos.13 De sete submarinos
comprados aos Estados Unidos, seis estavam enguiçados. Alguns deles
iam para o ferro-velho quando foram vendidos por 150 mil dólares cada.
Para reformá-los, pagaram-se 7,5 milhões de dólares. Um navio de
desembarque de carros-de-combate chegara do Vietnã com a rampa
quebrada. Havia quatro contratorpedeiros mancos. Na Armada o
cruzador Tamandaré não funcionava, e o porta-aviões Minas Gerais,
tendo navegado dois dias, passaria todo o ano seguinte no cais.14 O
chefe do Estado-Maior fazia saber que a situação era "catastrófica".15

O nó do Exército fora desatado na penosa degola de Orlando
Geisel, mas faltava escolher o substituto. Os generais de quatro estrelas
eram treze. Não restavam sobreviventes da anarquia de 1969, quando
um sacro colégio de generais elegeu Medici para o lugar do marechal
Costa e Silva; eram todos coronéis de 64, ano da grande alavancagem
de generais, quando os expurgos e a rotina produziram o dobro das
vagas habituais. Cadetes da primeira metade dos anos 30, época em
que o capitão Ernesto Geisel já participara de uma revolução e
combatera outras duas. Garotos, enfim. "Eu não tenho ministro do
Exército", queixava-se o general.16 Sem muito entusiasmo, a escolha
ficou entre dois: Vicente de Paulo Dale Coutinho, chefe do Estado-
Maior, e Sylvio Couto Coelho da Frota, comandante do I Exército.

Geisel ponderou as duas hipóteses. Aos 64 anos, Dale Coutinho
tinha a vantagem de ser mais antigo, "mais meu amigo", e conhecer


melhor o Exército. Temia que fosse pedinchão e que a mulher se
deslumbrasse com o poder. Suas desvantagens eram três: "toma três
uísques e fica dizendo besteira", era "revolucionário novo", e havia o
"físico".17 Com menos de 1,60 m, safenado, tinha um histórico de
doenças pulmonares. O tronco mirrado dava-lhe aparência infantil. O
pai dele comandara a guarnição do Rio em 1930 e fora o último
baluarte da República Velha. Moderado de 31 de março, o filho tornara-
se um radical de 1º de abril.

Chefiara com mão de ferro a repressão política no Nordeste. Lá,
no dia 11 de março de 1972, foi assassinado no DOI do Recife o geólogo
Ezequias Bezerra da Rocha, de 27 anos. Emprestara o carro a dois
militantes do PCBR. Numa farsa semelhante à que o DOI do Rio de Janeiro
montara, um ano antes, para encobrir a morte de Rubens Paiva, o IV
Exército informou que ele ludibriara a escolta que o levava a um "ponto"
e desaparecera num Volkswagen branco de placa desconhecida. Nada
adiantou a mulher tê-lo visto, após uma sessão de torturas. Ele lhe
disse: "Estou bem, meu amor. Tenha calma". Muito menos provar-se
que não poderia ter fugido às nove e meia da noite se a documentação
do IV Exército dizia que fora preso três horas e meia depois. O corpo de
Ezequias, com marcas de torturas, foi achado no dia 13 de março,
numa barragem, mas o IV Exército não permitiu o reconhecimento e
enterrou-o como se fosse outra pessoa.18 Coutinho obstruiu as
investigações, mesmo sabendo que Ezequias morrera dentro do seu DOI.
19 O general tinha a simpatia de Orlando Geisel, seu padrinho de
espada.20

Frota era filho de um suboficial, casado em família modesta, pai
abnegado de um excepcional, suburbano do Grajaú. Orlando divertia-se
dizendo que o general era da "turma do Pedro II", referindo-se aos fatos
de não ter cursado ó Colégio Militar e de gostar de escrever cartas.
Ernesto via nele três qualidades. "Mais soldado", "conviveria melhor"
com ele e "se submeteria a uma certa ascendência minha". Os defeitos:
"curriola", "físico" e "mais curto de idéias que o outro".21 Tinham-se
desentendido havia pouco tempo, quando Frota, no comando do I


Exército, mandou a Geisel um ofício pedindo que lhe encaminhasse
cerca de vinte funcionários da Petrobrás suspeitos de subversão.
Ernesto tratou o assunto com o irmão, e um telefonema de Orlando
colocou a Petrobrás fora da jurisdição de Frota.22 Golbery já o chamara
de "irritadiço" e em 1969 dissera ao embaixador americano que ele via
fantasmas na ameaça comunista.23

Um pouco mais alto que Dale Coutinho, Frota carregava debaixo
do nariz adunco uma figura redonda que lembrava o Reizinho das
revistas infantis. Sua fala fina incomodava. Não era propriamente um
oficial de curriolas, mas o quarto Cavalariano de um alto-comando
cujos outros três Geisel estranhava.24 Tinha grande influência na tropa
do Rio de Janeiro, onde comandava desde 1969. No governo Castello,
freqüentara as desordens da linha dura e, com Costa e Silva, ocupara a
chefia do gabinete do ministro Lyra Tavares.25 Fora um dos
articuladores da criação do CIE. Esses dois pecados valiam-lhe a
antipatia de Orlando Geisel, que o achava "detalhista" mas reconhecia:
"Será leal".26 Golbery achava-o chato.27 Figueiredo, que o classificara
como "burro de todo" porém "milico", dissera a Geisel que, num governo
sem problemas militares, o melhor seria Dale Coutinho: "Agora, se o
senhor vai ter que partir para uma guerra, uma luta dentro do troço, vai
para o Frota".28

As maneiras compostas e o temperamento retraído de Sylvio Frota
no comando do I Exército tornavam-no a antítese do general Humberto
Mello, o senhor da tropa de São Paulo, ferrabrás da repressão política.
O comandante do II Exército estava rompido com o cardeal Arns. Frota
tinha boas relações com d. Eugênio Sales:29 Mello podia ser visto no
saguão de Congonhas de roupa esporte, com um revólver na cintura.30
Frota, quando era visto, vestia farda ou terno. Essas diferenças de
forma não se refletiram nas atividades do DOI do I Exército sob seu
comando. Entre fevereiro de 1972 e março de 74, enquanto mandou no
pedaço, morreram 29 pessoas no Rio de Janeiro (em São Paulo foram
33). Duas jovens assassinadas em "tiroteios" tinham balas na cabeça,
outra foi entregue à família com afundamento do crânio.31 Destruindo o


PCBR, o DOI do Rio foi o único a encenar confrontos carbonizando os
cadáveres dos prisioneiros dentro de automóveis: três no Grajaú e
quatro em Jacarepaguá.32 Das 29 mortes, duas foram reconhecidas
como execuções por um oficial que acompanhava o aniquilamento das
organizações de esquerda. Dois dos mortos foram a ex-estudante de
sociologia Isis Dias de Oliveira e o ex-estudante de economia Paulo
César Botelho Massa, da ALN. No dia 31 de março de 1964 ele estivera
no palácio Guanabara, com o pai general.33

Geisel pensava em reforçar a equipe nomeando um competente
chefe do Estado-Maior do Exército. Sustentava que havia dez anos ele
não tinha chefe competente.34 Sua preferência ia para o general Euler
Bentes Monteiro. Era quase uma empolgação. Queixava-se da má
qualidade dos quatro-estrelas, mas nesse caso parecia convencido da
qualidade de sua decisão: "O Euler como chefe do Estado-Maior, meu
caro, ele vai arrumar aquela casa".35

Depois da conversa de fevereiro com Orlando Geisel, Ernesto
decidiu-se por Dale Coutinho. Optara pelo radical da preferência do
irmão. No fim de uma conversa de mais de três horas com Dale
Coutinho, desistiu de Euler, dando o Estado-Maior a Frota. Optara pela
cautela, evitando impor o general moderno e escolhendo um dos mais
antigos. Fez o contrário do que pretendera. Como ele mesmo dizia,
"Exército que não faz guerra é um organismo tremendamente
conservador".36 O inesperado choque com o irmão levara-o a uma linha
de prudência: "Eu não estou na hora de agora criar maiores ondas".37

O Ministério do Exército era o segundo cargo da República, mas
também um osso duro de roer. O tenente de 1928 assombrara-se com o
fausto do Milagre. Mantinha-se uma residência de veraneio para o
ministro na serra carioca, apesar de a capital estar no planalto goiano
fazia mais de dez anos. Seu mordomo chamava-se Jacy. Cada general-
de-exército tinha dois carros, três empregados e casa decorada. Pelo
menos um tentou conservá-la depois de passar para a reserva.38 No
final de 1970, os generais-de-brigada que se transferiam para Brasília
recebiam 130 mil cruzeiros (equivalentes a cerca de 27 mil dólares) para


a compra de mobília.39 Em 1971 incorporara-se à rotina dos "milicos" a
mordomia aeronaval da taifa, através da qual cabos e sargentos
prestavam serviços domésticos aos comandantes.40 As verbas do
Planalto pagavam transporte e hospedagem da turma de aspirantes de
Medici para um churrasco em Brasília. As da Companhia Siderúrgica
Nacional, o almoço da turma de seu presidente, no Rio. Quando
sugeriram a Geisel que acompanhasse a cadeia de gentilezas, pagando o
almoço da sua turma pela caixa da Petrobrás, respondeu: "Olha, a
Petrobrás existe para furar poço de petróleo. Não faço".41 Sentira na pele

o desconforto do público externo quando, logo que se mudou para a
casa do Jardim Botânico, recebera uma carta anônima que ponderava:
"Meu caro general, não é moral este proceder, nem revolucionário".42 "O
Exército, do ponto de vista moral, caiu muito", observava Geisel.43
O coronel de 1953 assombrara-se com os absurdos profissionais.
Aborrecera-se com a promoção do general sob cujas barbas a guerrilha
de Carlos Lamarca escapara ao cerco do vale do Ribeira: "Quando
alguém é testado e sai mal, deve ser posto para fora. Em qualquer
Exército decente o homem é convidado a pedir retiro".44 Atribuía à
"carranca do Orlando" a facilidade com que a tropa conseguia verbas e
expandia seu efetivo.45 Entre 1971 e 1973, enquanto as despesas
militares cresceram cerca de 35%, as do Exército aumentaram 45%.46
Em 1964 havia 124 generais; em 74, 155.47 (Na reserva, Geisel
calculava que fossem 3500.)48 No final de um dispendioso programa de
modernização, pretendia-se organizar dezessete brigadas mecanizadas,
mas faltavam engenheiros e sobravam cavalos. Em três anos entraram
nos quartéis 7 mil viaturas, mas nenhum mecânico. Compraram-se ao
exército americano tanques para os quais não se fabricava mais
munição, e de cada dois que chegavam, um não andava. Equipou-se a
brigada de Campinas com tamanha ferragem que sua mobilização
exigiria a requisição de todas as pranchas de transporte de São Paulo.49
No fim de um relato dessas irracionalidades, o general Figueiredo
concluíra: "É um deus-nos-acuda. É aquilo que o senhor diz, estão
botando dinheiro fora".50


O futuro presidente acreditava que poderia dispor de uma peça de
sua confiança para tratar da repressão política. Queria a permanência
do general Milton Tavares de Souza na chefia do Centro de Informações
do Exército.

Não conseguiu. Num apelo emocional, Dale Coutinho pediu o
lugar para o amigo Confucio Danton de Paula Avelino, um general-debrigada
detestado por Geisel e Moraes Rego. No comando da Força
Pública de São Paulo em 1971, acobertara a tortura prolongada e
sistemática da neta do marechal Hasckett Hall, de quem fora ajudantede-
ordens, dizendo à mãe que a filha estava sendo bem tratada.51
Interrogava prisioneiros convalescentes.52 Geisel preparara o roteiro da
conversa que teria com Coutinho disposto a impedir a sua escolha, mas
cedeu. "O Dale era meu amigo. Ele insistiu muito, alegando que tinha
uma grande ligação pessoal com ele, que fora ele quem o cuidara
quando adoeceu e que tinha sido muito leal em outras comissões."53

Muitas foram as mudanças que Geisel pensou fazer no Exército.
Não fez nenhuma. Nomeou um ministro inexpressivo, não conseguiu
colocar um general moderno no Estado-Maior e aceitou Confucio no
CIE. Havia mais: o que fazer com Orlando Geisel? Puxava de uma
perna, emagrecera. Embaixada, nem pensar. Como os outros ministros,
deveria voltar para casa, mas seu apartamento da rua Ribeiro da Costa,
no Leme, pedia pintura. Era preciso pensar na segurança dele. O
general Orlando resolveu passar algum tempo na casa do comandante
do I Exército, mas Ernesto sugeriu que continuasse no palácio Laguna,
residência oficial do ministro no Rio de Janeiro. Treze dias depois da
posse do irmão caçula, Orlando teve um pequeno acidente vascular
cerebral enquanto fazia a barba, caiu no banheiro e quebrou a perna.54
Suas dificuldades respiratórias agravaram-se. Mantinha ao seu lado um
cilindro de oxigênio. Usava-o para respirar melhor mesmo durante
conversas sociais. A mudança para o Leme foi esquecida. Aos 69 anos,
depois de ter vivido uma existência frugal, a permanência de Orlando
Geisel no Laguna tornou-o símbolo das mordomias dos hierarcas da
ditadura. Só duas pessoas podiam obrigá-lo a mudar-se: o ministro


Dale Coutinho e seu irmão Ernesto. Nenhum dos dois tinha a coragem
necessária para provocar-lhe tamanha contrariedade.

O COFRE

Depois do Exército, a economia. Mario Henrique Simonsen,
verdadeiro Siegfried do imaginário do regime, tinha 38 anos. Aos 26 fora
professor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada e da Escola
Nacional de Engenharia. Aos 28, simultaneamente aluno e professor da
Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Brasil. Antes
dos trinta dirigira o Departamento Econômico da Confederação
Nacional da Indústria e criara a fórmula de cálculo de reajustes
salariais imposta aos trabalhadores e conhecida por "arrocho". Era tudo
isso e mais ex-aluno do colégio Santo Inácio das safras elitistas do
jesuitismo pré-conciliar. Colaborador eventual do IPÊS, dirigia a escola de
pós-graduação em economia da Fundação Getulio Vargas, e sentava-se
nos conselhos da Mercedes-Benz e da Souza Cruz. Dirigia também um
dos sonhos do Milagre, o Movimento Brasileiro de Alfabetização, Mobral.
Barítono fracassado por conta de uma pneumonia, leitor voraz,
polemista cáustico, unia numa personalidade tumultuada razão
matemática e romantismo musical. Era sócio e nome de banco (Bozano
Simonsen), mas vestia-se como um investigador. Bebia e fumava
demais (Minister, "mas não trago"),55 matava o tempo ouvindo música e
jogando xadrez com sua mulher arqueóloga. Nada mais anti-social.
Mesmo assim, era o quindim do empresariado e da elite econômica. Em
1969, quando um futurólogo americano previu que o Brasil não iria
longe, Simonsen respondeu com um Brasil 2001, desmentindo-o e
defendendo uma política de dirigismo estatal na educação e nos setores
elétrico e siderúrgico.56 Seria ministro da Fazenda. Restava saber
quando e de quem.

Humberto Barreto, amigo de juventude de Simonsen, já
patrocinara um encontro superficial do professor com o general. Heitor


Ferreira lançou-o em sua lista em fevereiro de 1972 e nunca mais o
tirou.57 Em outubro do ano seguinte Golbery reuniu-se com ele, a
pedido de Geisel. Seguindo seu velho riscado, encomendou-lhe alguns
papéis com idéias para o futuro governo. Fazia isso com todo mundo,
mas era disso que Simonsen gostava. Mandou oito páginas de
"esclarecimentos" e os números de seus telefones. Olhando para a
frente, propunha que se jogasse no mercado financeiro uma parte dos
recursos do Programa de Integração Social, o PIS, tributo criado em 1970
por Delfim Netto com o objetivo de assegurar um pecúlio aos
trabalhadores e o propósito de fazer caixa para o governo.58 No mundo
do Milagre, oferecia 32 salários no fim de trinta anos de serviço.59 No
mundo real, recolhia 720 milhões de dólares anuais dos cofres da Caixa
Econômica, cuja chave Delfim mantinha na gaveta.60 Olhando para
trás, como candidato a ministro, Simonsen sugeria mais: "A partir de
1969 estabeleceu-se uma política de não deixar quebrar nenhuma
instituição financeira, e o Banco Central passou a cobrir com os
conseqüentes déficits. [...] Muitos dos recentes problemas de insolvência
eram previstos no mercado e só chegaram às dimensões finais a que
chegaram, pela lentidão da ação das autoridades. Por outro lado, a
filosofia de que 'instituição financeira não quebra', além de custar caro
ao governo, nivela o mercado por baixo".61

Golbery anotou: "Caso do Banco Português e outros". "Outros", de
saída, era o Banco Mineiro do Oeste. Juntos formavam um buraco de 2
bilhões de cruzeiros, dinheiro equivalente a cinco vezes a emissão de
moeda em 1973.O Banco Português do Brasil fora salvo por Delfim, trocando
de dono.62 Também conhecido como Bandoleiro do Oeste, o BMO
fora praticamente dado de presente ao Bradesco. Havia pelo menos três
outras instituições financeiras quebradas.63

Simonsen reuniu-se por duas horas com Geisel no final de
novembro, deixou boa impressão e continuou escrevendo papéis para
Golbery. Dele recebia consultas e leituras. O general enviou-lhe um
artigo de 22 páginas tirado do exemplar de Authoritarian Brazil que lhe
chegara às mãos. O texto concluía advertindo que "o problema não está


num excesso de poupança para escassez de gastos, mas exatamente o
contrário".64 "Um clarão de bom senso", respondeu Simonsen.65
Treinava para o novo papel tentando parar de fumar e de beber.

Geisel entrara na questão econômica com humildade. Lera artigos
de Simonsen, uma Introdução às contas nacionais e o clássico Inflação,
trabalho do economista americano Milton Friedman que prenunciava a
alvorada do liberalismo econômico.66 Nem ele nem Golbery tiveram
espaço em suas agendas para receber Friedman em dezembro de 1973,
quando passou pelo Brasil. O professor pedira para encontrar Geisel
com uma semana de antecedência, prontificando-se a ir ao Rio no dia
que ele marcasse.67

O general começou estudando mais os mecanismos de comando
da administração do que a doutrina econômica. Suas diferenças com
Delfim eram mais de forma que de conteúdo, e estava decidido a
organizar seu governo de maneira que dele não brotasse outro Gordo.

Simonsen cumpriu seu destino. Foi escolhido para ministro da
Fazenda. Sua ascensão refletia no novo governo uma aparência de
restauração da dinastia fundada pelo professor Eugênio Gudin e
projetada no consulado de Castello Branco pela dupla Octávio Gouvêa
de Bulhões-Roberto Campos. Era engano. Geisel não queria Campos no
ministério, nem por perto. O professor Bulhões fez saber a Simonsen
que aceitaria a presidência do Banco Central, mas o futuro ministro
derrubou-o, argumentando que não cairia bem no lugar com um
"garoto" no Ministério da Fazenda.68

O empresariado aplaudiu a escolha, e Gudin saudou a indicação
de Simonsen com uma barretada ao "diabólico" Delfim. Lembrou que,
durante uma visita de Rachmaninoff a Paris, o crítico musical do Figaro
escrevera: "Não é possível tocar piano melhor". Seis meses depois chegou
à cidade Wladimir Horowitz, e o mesmo crítico informou: "Este é o
maior pianista do mundo". "O comentário pode-se aplicar ao caso da
nossa substituição do ministro da Fazenda, em que com o ótimo ou com

o excelente o nosso barco está em boas mãos." Assegurava que "em
tudo quanto se refere à economia do país", o "grande conselheiro" seria

Simonsen.69 Dois erros: Geisel não queria um "grande conselheiro", e
ainda que o quisesse, uma louvação de Gudin mais atrapalhava do que
ajudava. A convivência do general com o liberalismo cosmopolita era
tributo à unidade da elite que apoiava a ditadura. Em outras palavras,
dele: "Você pega a elite. [...] o Golbery teve a paciência de aturar
durante três horas este patife do Gudin, que é um salafra, é um judeu
sem-vergonha. O Globo abre as colunas para o Gudin escrever as
sandices todo dia. E o sujeito se dá o direito de escrever as maiores
besteiras, as maiores barbaridades. Todo mundo tolera porque o Gudin
é a favor da Revolução... Esse sujeito já devia estar há muito tempo
num asilo de velhos".70

Como Geisel não podia trocar de corifeus e a plutocracia não
podia trocar de general, fez-se de conta que o novo ministro da Fazenda,
mesmo não sendo um novo Gordo, seria o comandante da política
econômica. Entretanto, o Simonsen que impressionara Geisel não era o
cosmopolita que Gudin aplaudia. Era o interlocutor moralista que
sugeria ao general transformar em presídio o prédio da praça XV de
Novembro onde funcionava a bolsa do Rio de Janeiro.71

Campos e Gudin viam na internacionalização da economia
brasileira um imperativo da eficácia. Acreditavam que havendo
concorrência estrangeira, a indústria e o comércio nacionais seriam
obrigados a produzir melhor e "mais barato" para poderem sobreviver.
Geisel detestava-os exatamente por isso. Via a participação do capital
estrangeiro como um complemento do processo de desenvolvimento do
país. As empresas estrangeiras podiam fazer o que quisessem, desde
que fosse coisa que brasileiro não soubesse fazer.72 Era um
nacionalismo sincero, utilitário e dirigista. Nele se infiltrava o conceito
de projeto nacional comum às formulações dos autoritarismos de direita
e de esquerda da metade do século XX. Costumava repetir que nascera
num país que importava manteiga, e orgulhava-se de ter participado da
sua transformação numa nação industrializada. Achava que o
cosmopolitismo econômico condenava o Brasil e os brasileiros a uma
posição subalterna. Mais: desde o tempo em que comia manteiga


importada, nunca encontrara um defensor do liberalismo econômico
que tivesse se associado a um projeto de progresso acelerado para a
nação brasileira.73

O general não tinha economistas no seu círculo de relações, nem
se guiava por nenhum pensamento econômico articulado.

Seu contato mais próximo com a espécie deu-se com Jesus
Soares Pereira, o colega de Conselho Nacional do Petróleo, tanto no
trabalho como nos almoços que tiveram nos anos 50.74 Em abril de
1964 a figura discreta de Soares Pereira entrou na lista dos cem
primeiros cidadãos a terem os direitos políticos cassados pela nova
ordem.75 Do outro lado do chicote, o general Geisel procurou salvá-lo.
Chegou mesmo a falar com Castello Branco, mas perdeu a parada: "Foi
safadeza do pessoal de Capuava junto ao Costa e Silva, foi a vingança
deles".76 Cassado, Jesus Soares Pereira viveu no Chile até 1969.
Trabalhava na Cepal e era uma espécie de tesoureiro da caixa de
socorro aos asilados. Convencido de que sua cassação recebera o
beneplácito do colega, e desinteressado de qualquer aproximação com o
regime, comentara: "Pelo que restar de consideração entre nós dois, vou
pedir a Geisel que me casse por mais dez anos".77 (Jesus voltou ao
Brasil em 1969, mas ele e o general não se reencontraram.)

O coronel do CNP saíra da casca como presidente da Petrobrás.
Lançara agressivamente a empresa na distribuição de derivados,
tomara à Shell os cobiçados e simbólicos postos do Aterro do Flamengo,
no Rio de Janeiro. Em 1972 tinha 23% do mercado distribuidor, contra
11% em 65.78 Quando o presidente da Shell se mostrou surpreso por ter
sido chamado a uma concorrência para a montagem de uma unidade de
refino, já que competiam na distribuição, Geisel explicou-lhe: "É por
isso mesmo que eu sou a favor da participação da Shell. Porque a Shell
vem aí nos ensinar alguma coisa, que é a tecnologia de produção na
área petroquímica, coisa que nós não sabemos, não sabemos nada.
Agora, encher tanque de gasolina nós já sabemos. Não precisamos da
Shell para isso".79

Geisel levara as antigas relações da empresa com a indústria


nacional de equipamentos pesados a uma inédita parceria. Estimulou a
formação de uma equipe técnica, diretamente ligada a ele, por meio da
qual a Petrobrás perfilhava seus fornecedores brasileiros. Pagava-lhes
em dia equipamentos entregues com atraso, com defeitos, ou mesmo
inúteis. Prestava-lhes assessoria técnica gratuita. Como diria mais
tarde, "a Petrobrás, nessa ocasião, foi uma verdadeira mãe para a
indústria paulista". Era uma maternidade assumida, praticada por um
general convencido de que a empresa devia servir de estímulo à
indústria nacional.80

A segunda escolha para a área econômica parecia fácil: Golbery, o
curinga da equipe, era a opção para o Planejamento. No lugar, estava o
economista João Paulo dos Reis Velloso. Geisel queria mantê-lo no
ministério, transferindo-o para a pasta do Interior. Parecia um detalhe
irrelevante. Aos 43 anos, desgracioso e desengonçado, Reis Velloso
encarnava a figura do nordestino transplantado para o eixo Rio—
Brasília. Filho de um funcionário do correio em Parnaíba, no Piauí,
estivera entre os Águias Brancas, braço juvenil do integralismo, e fora
para o Rio aos vinte anos.81 Começara a vida na burocracia do Instituto
de Aposentadoria e Pensões dos Industriários. Tornara-se funcionário
de carreira do Banco do Brasil, mas não conseguira chegar a conferente
de seção. Em setembro de 1964, com um diploma da Universidade de
Yale, incorporara-se à equipe de Roberto Campos. Ajudara a fundar o
Escritório de Pesquisa Econômica Aplicada, o futuro IPEA. Seu negócio
eram os números. Tinha horror a telefone e a documentos assinados.
Subira à secretaria geral do Planejamento e ganhara o ministério na
formação do governo Medici. Era difícil defini-lo. O general Figueiredo
chamara-o de "besta" numa conversa com Heitor Ferreira. Avaliando-o
diante de Geisel, vira-o "eficiente", ainda que "chato".82

Velloso produzira um documento com uma proposta audaciosa: o
Ministério do Planejamento deveria ser apenso à Presidência da República
"ao nível dos Chefes do Gabinete Civil, Gabinete Militar e SNI".


Insinuara que, sem isso, o surgimento de um novo Gordo seria
inevitável: "A dificuldade de um sistema como o atual é que, mesmo na
melhor das intenções [...] os ministérios da Fazenda e da Indústria e
Comércio, na prática, podem levar a política econômica para direções
que representem distorções quanto à orientação geral de governo".83
Geisel comprou a idéia, mas decidiu que o nicho fosse chamado de
secretaria, não de ministério. Fosse qual fosse o título republicano de
Velloso, a melhor definição partiu de Heitor Ferreira: "um barão do
presidente".

O barão tinha atrás de si a maior rede de economistas do país.
Eram cem no IPEA e outros cinqüenta no BNDE. Como ministro de Medici,
tentara, sem sucesso, formular aquilo que chamava de uma "orientação
geral". Esse conceito hierárquico e disciplinador resultara num
cronograma pelo qual todo governo prepararia um plano estratégico. Na
teoria, cada governo planejaria seus três últimos anos e os dois
primeiros da administração seguinte. Na prática, o texto do Programa
de Metas e Bases para a Ação do Governo estava na gráfica quando
Velloso foi surpreendido pela decisão de Medici (tomada durante uma
conversa de avião) de mandar rasgar a rodovia Transamazônica.84
Tivera de recolher os originais do seu plano estratégico, reescrevendo-os
e fazendo crer que o voluntarismo presidencial fora um ato pensado,
inserido no Programa de Integração Nacional, o PIN. 85

Geisel ofereceu a Velloso o Ministério do Interior. Para amaciá-lo,
Heitor Ferreira elaborara até mesmo uma lista de argumentos que
poderiam ser apresentados, inclusive chamando-o de "um dos meus
desafortunados curingas".86 Aconteceu o impensável: Velloso recusou.
Argumentou que preferia ficar na área econômica. Polidamente: isso ou
nada. Geisel deu-lhe razão e a Secretaria do Planejamento.87

Ofuscado por Delfim, Reis Velloso parecia destinado a ser uma
sombra do brilho intelectual de Simonsen, de quem fora aluno em duas
ocasiões. Nas semanas de organização do governo, levou a Geisel uma
idéia e um projeto. Sugeriu a transferência dos recursos do Pis/Pasep
da Caixa Econômica e do Banco do Brasil para o BNDE. Coisa de 12


bilhões de cruzeiros, uma montanha de dinheiro, considerando-se que
em 1972 a União financiara 30 bilhões de cruzeiros dos 44 bilhões
investidos em capital fixo. Desses 30, cerca da metade vinha dos dois
grandes fundos criados por Medici.88 Como o BNDE era subordinado ao
Planejamento, no fim da manobra a arca de investimentos sairia do
Ministério da Fazenda para o palácio do Planalto. Isso significava uma
deliberada migração de recursos e poder.89 Transferia-se também o
embrião de uma estratégia de ação do Estado. O projeto foi para as
mãos de um general convencido de que "a nação não se desenvolve
espontaneamente", precisa de "alguém que a oriente e a impulsione", e
"esse papel cabe ao governo".90

Simonsen queria jogar uma parte do dinheiro do PIS no mercado
financeiro, mas Velloso tinha outras idéias.91 Os economistas do IPEA
estudavam os gargalos da economia brasileira e, se houvesse alguém
interessado num projeto de desenvolvimento sob a coordenação do
Estado, tinham mercadoria para oferecer. No final de 1972, quatro deles
começaram uma pesquisa intitulada Crescimento industrial no Brasil,
em que se esboçava a idéia de uma intervenção organizada do Estado
na economia de forma a dinamizar a indústria pesada e os setores
siderúrgico, petroquímico e de construção naval.92 Um ano depois, um
jovem economista do BNDE preparou uma projeção do futuro da
produção nacional. Havia sido encomendada pelo presidente do banco,
Marcos Vianna, ex-secretário-geral de Velloso no Planejamento.

José Clemente de Oliveira tinha 37 anos, morava com a mulher e
um casal de filhos num apartamento alugado de Santa Teresa. Ganhava
duzentos dólares por mês. Era um sobrevivente da esquerda de 1964
protegido por Vianna, que mantinha no BNDE inúmeros técnicos
antipáticos ao SNI. Clemente conhecera Geisel em reuniões com técnicos
da Petrobrás, discutindo questões da indústria pesada e a montagem do
pólo petroquímico de Camaçari, na Bahia. Trabalhou sem saber para
que serviria seu estudo.93 O trabalho, escrito em setembro (antes da


crise do petróleo, portanto), chegou a Geisel em novembro. Chamava-se

Estimativa de Crescimento Macroeconômico para o Período de 1974 a 80.

Propunha uma maciça política de investimentos, notadamente
nos setores de mineração, energia e habitação, capaz de permitir um
crescimento econômico de 10% ao ano. Isso seria conseguido por meio
de uma caça ao empresariado, financiando-se projetos que ainda não
haviam sido levados às agências oficiais de fomento. Não se tratava
mais de os empresários procurarem o BNDE, mas de o BNDE procurar os
empresários. Em suas palavras: "uma programação firme de
investimentos, no sentido de que já ultrapassa a fase do mero desejo de
investir". Para custear o salto, seria necessário elevar brutalmente a
taxa de poupança (37,5% do PIB para 1975, contra 31,9% em 73 e
16,6% em 69). O que faltasse viria do aumento dos financiamentos
externos, triplicando-os entre 1973 (3,01% do PIB) e 1979 (9,34%).94 Era

o preço do crescimento.
Geisel viu exagero na taxa de poupança: "Não tem país no mundo
que faça isso".95 À margem desse documento, Golbery anotou:
"Faraônicos. E não querem que a Dow toque o projeto com recursos
próprios...".

O comentário refletia um conceito e um ódio pessoal. O general
não tinha simpatia pelo fortalecimento do BNDE e detestava Marcos
Vianna. Haviam-se desentendido num episódio em que Golbery
defendia os interesses da Dow, cuja presidência só abandonaria nos
primeiros dias de fevereiro. Numa simplificação grosseira, a Dow queria
montar — com financiamento do BNDE — um pólo petroquímico próprio
na Bahia. Vianna respondeu com uma carta dura. Golbery não o
esqueceu. Quando a idéia da transferência dos recursos do Pis/Pasep
para o BNDE começou a tomar corpo, ele disse a Geisel:

"Não fico confortável em ter lá o seu Marcos Vianna. [...] Eu acho
que o presidente desse banco tem que ser um homem seu."

"Mas o problema é que ele é", respondeu Geisel.96

Golbery manteve a restrição. Influenciado pela animosidade,

Geisel chegou a pôr na mesa a carta do governo do Espírito Santo,


estado natal de Vianna, mas uma rápida defesa, feita por Reis Velloso,
encerrou o assunto. A contrariedade de Golbery foi sentida pelo
presidente do BNDE meses depois, quando o encontrou numa das
primeiras recepções diplomáticas do novo governo. Vianna estendeu a
mão a Golbery e ele a congelou com um olhar.97 Desde então, nunca
trocaram uma palavra.

A ESPLANADA

Os "curingas" do presidente eleito eram três. O primeiro, Golbery,
perdeu o Planejamento para Velloso, mas foi para a chefia do Gabinete
Civil.

O segundo era o senador Ney Braga, 56 anos, coronel da reserva,
poderoso político paranaense.98 Convivera com Geisel em Curitiba,
como governador do estado, quando inaugurava uma escola por dia.
Reencontrara o general no gabinete de Castello Branco, onde ocupou o
Ministério da Agricultura. Fora um dos três parlamentares premiados
com o acesso ao número do telefone do Jardim Botânico, mas somava
ao temperamento discreto tamanha capacidade de dissimulação que até
seria capaz de negar que o conhecia. Haveria de ser o único
parlamentar a quem Geisel consultaria em suas escolhas políticas.
Mestre da costura silenciosa e inimigo implacável, chamava seu rival no
Paraná de "canalha". Listava os defeitos dos colegas de Congresso com
crueza: "louco", "debilóide", "chato", "narcisista".99 Iria para o governo
por político. Podia ser ministro da Previdência, de Minas e Energia, ou
mesmo chefe do Gabinete Civil. No segundo semestre de 1973 bateu na
Educação e lá ficou.100

O terceiro curinga era Shigeaki Ueki. Chegara à Petrobrás de
Geisel pelas mãos do marechal Ademar de Queiroz. Humilde, didático e
grandioso, dava aulas de economia a Heitor Ferreira, de quem recebia
conselhos de conduta política. Gostava de repetir que aprendera a lição
com o armador chinês Yue-Kong Pao: "A fonte do sucesso é a


capacidade de simplificar coisas complicadas". Tinha o dom de expor
números e idéias com clareza, sem alterar a voz. Foi o grande
negociador da Petrobrás, tanto para cravar a última estaca nos barões
de Capuava, como para arrancar contratos de petróleo aos países
árabes durante a crise de 1973. Arquitetara uma aproximação
comercial com o Iraque e até concebera um plano para dominar o
mercado internacional de açúcar.101 Medici chamava-o de "japonesinho
pão-duro".102 Geisel chegava a brincar: "Sabe o que eu queria? Ter
algum dinheiro, me associar com o Ueki e deixá-lo trabalhar".103 Foi um
curinga para os ministérios da Indústria e Comércio, da Agricultura e
de Minas e Energia. Um mês antes da posse sabia que seria ministro e
portanto devia ir a um alfaiate que lhe cortasse a casaca.104 Só não
sabia de quê. Geisel informou-o de que iria para Minas e Energia num
breve telefonema, sem a formalidade das audiências que envolvera
todos os outros convites, salvo o de Golbery.105

Com Ueki fechava-se a conta dos colaboradores diretos que Geisel
tinha na cabeça quando começou a montar a equipe. Eram sete. Em
apenas dois casos tivera o nome certo para o lugar certo: Quandt para
as Comunicações e Figueiredo para o SNI.

A escolha de Figueiredo tivera razões claras e práticas. Geisel
queria-o no palácio e colocou-o no SNI porque, tendo chefiado o Gabinete
Militar de Medici, seria barreira eficaz para impedir que se vasculhasse

o governo de seu antecessor. Reforçaria essa barreira pondo no Ministério
dos Transportes o general Dyrceu Araujo Nogueira, cujas quatro estrelas
serviriam de respaldo para neutralizar amigos e inimigos do coronel
Mário Andreazza.106 Restavam oito cadeiras.
Três foram ocupadas por ministros que Geisel não conhecia. O
médico Paulo de Almeida Machado era o candidato do coronel Moraes
Rego ao Ministério da Saúde. Navegou sem contratempos, mesmo que
não lembrassem direito seu nome. Heitor Ferreira, sempre tão
minucioso em suas anotações, listava todos os nomes cogitados, mas
na Saúde escrevia "Instituto de Medicina Tropical". Seria o nome da
instituição dirigida por Almeida Machado no Pará, mas ainda assim


estava errado. Esse médico de 57 anos, 29 dos quais passados dentro
da máquina de saúde do governo, dirigia o Instituto Nacional de
Pesquisas da Amazônia.107 De outros dois ministros, Geisel nem sequer
ouvira falar.

O agrônomo Alysson Paulinelli, secretário de Agricultura de Minas
Gerais, tinha 37 anos e transformara o seu estado no maior plantador
de café do país. Seu nome chegara ao largo da Misericórdia numa
sugestão inocente de um general por quem Geisel não nutria maiores
simpatias, mas foi o suficiente para atrair-lhe a curiosidade pelo jovem
técnico que de início julgou chamar-se Parelli.108 Leu algumas
conferências dele, encontrou-o numa visita a um projeto de irrigação e
colocou-o entre os favoritos para a Agricultura.109 Em menos de um mês

o anônimo Parelli converteu-se no ministro Paulinelli.
Maurício Rangel Reis era um tímido burocrata do IPEA. Tinha 52
anos, um currículo de economia agrícola e a proteção de Ney Braga.
Quando Geisel voltou da conversa surpreendente em que Velloso
rejeitou o Ministério do Interior, descobriu que estava sem estepe.
Estudara perto de dez nomes, cogitara seis, mas faltavam poucos dias
para o anúncio da equipe e não restava sobrevivente.110 Engasgara, mas
a essa altura Ney Braga, já escolhido para ministro, movia-se nos
bastidores, sobretudo junto a Golbery. Geisel viu Rangel Reis pela
primeira vez na audiência em que o convidou. O SNI, que habitualmente
dispunha de alguns dias para verificar o passado dos candidatos, teve
uma hora para liberar o nome do novo ministro do Interior.

Geisel acreditava que o Ministério do Trabalho não lhe custaria
esforço. Pretendia nomear o advogado Arnaldo Sussekind, que ocupara

o cargo no governo Castello Branco. Sussekind detestava Brasília, tivera
problemas de saúde e fizera saber a Golbery que não aceitaria o convite.
Nada feito. Geisel regia-se pela regra de Machado de Assis segundo a
qual "ministério não se rejeita". Convidou-o e recebeu a única recusa da
rodada. Para o lugar foi o deputado gaúcho Arnaldo Prieto, amigo de
Bernardo, irmão mais velho do futuro presidente.
Ao contrário do que se supõe olhando de fora e do que se pensa


estando dentro, os ministérios se formam numa dinâmica que se auto-
influencia. Ueki ia para a Indústria e Comércio, mas caiu no Ministério
de Minas e Energia porque pouco menos de um mês antes da posse
Geisel se deu conta de que devia reforçar a base paulista do gabinete. A
saída de Delfim, sua substituição por um carioca e a certeza de que
disputaria o governo de São Paulo prenunciavam dificuldades que
Convinha prevenir. Tinha dois ministros paulistas, Dale Coutinho e
Ueki, mas um era general e o outro, mesmo nascido em Bastos,
japonês. Como o problema estaria na ausência de paulistas no comando
econômico, o remédio era entregar a cadeira da Indústria e Comércio. E
assim, em menos de uma semana, escolheu-se o empresário Severo
Gomes, ministro da Agricultura nos últimos sete meses de Castello,
homem elegante e divertido, industrial têxtil e criador de búfalos.
Estivera nas listas de Heitor Ferreira, ora na Agricultura, ora no
Interior. Geisel vira nele "um sujeito bom".111 Severo qualificara-se
também por suas ligações com a banca paulista e com o jornal O
Estado de S. Paulo.112 Chamava os Mesquita pelo primeiro nome e, se
isso fosse pouco, sentava-se no conselho de administração do Banco
Mercantil de São Paulo, de Gastão Vidigal.

No final da tarde de quinta-feira, 21 de fevereiro, a dois dias do
Carnaval, o coronel Moraes Rego convocou a imprensa e leu a
composição do ministério. O primeiro nome anunciado foi o de Golbery.
Seguiram-se os chamados "ministros da Casa", os da área econômica e,
depois deles, em nono lugar, o da Justiça: Armando Ribeiro Falcão. O
embaixador Antônio Francisco Azeredo da Silveira, novo chanceler, foi o
16º numa relação de dezenove. Isso nunca acontecera antes, nem
aconteceria depois. Os nomes foram listados sem respeito algum pela
ordem de precedência do cerimonial. Se a tivessem respeitado, Falcão
seria o primeiro e Silveira o quarto, logo após os ministros da Marinha e
do Exército.


1 Num relatório confidencial a Golbery, datado de 21 de abril de 1974, o embaixador
Roberto Campos, que conhecia Ueki havia tempo, grafaria "Shigeato". APGCS/HF.

2 Em março de 1972 Geisel se referia a Quandt como provável ministro das
Comunicações. Diário de Heitor Ferreira, 26 de março de 1972.

3 Os ministros eram dezesseis. Os chefes dos gabinetes Civil e Militar, do SNI e do
Estado-Maior das Forças Armadas eram membros do gabinete, do ponto de vista do
cerimonial.

4 Eram privativos, de fato, os ministérios da Marinha, do Exército e da Aeronáutica,
bem como as chefias do Gabinete Militar e do Serviço Nacional de Informações. O
número elevado de nomes deveu-se ao excesso dos que foram mencionados para a
chefia do Gabinete Militar.

5 Eram os seguintes: Mario Henrique Simonsen (sócio do Banco Bozano Simonsen),
Luiz Fernando Cirne Lima (fazendeiro gaúcho), Flexa Ribeiro (dono do colégio
Andrews, no Rio de Janeiro), Luiz Gonzaga do Nascimento e Silva e José Luís Bulhões
Pedreira (advogados), Lafayette Prado (empreiteiro), Severo Gomes (industrial), Marcílio
Marques Moreira (diretor do Unibanco), José Carlos Figueiredo Ferraz (empreiteiro),
José Mindlin (industrial), Hélio Beltrão (diretor das lojas Mesbla), Og Leme (consultor),
Ângelo Calmon (dono do Banco Econômico), Marinho Nunes (diretor da Icomi), Jorge
Oscar de Mello Flôres (diretor do Banco Lar Brasileiro) e Paulo Maluf (dono da
Eucatex).

6 A saber: Ney Braga, Aureliano Chaves, Marco Maciel, Petrônio Portella, Antônio
Carlos Konder Reis, Armando Falcão, Célio Borja, Alacid Nunes, Nina Ribeiro, Antonio
Carlos Magalhães, Luiz Viana Filho, Arnaldo Prieto, Paulino Cícero, Accioly Filho e
Bilac Pinto.

7 Diário de Heitor Ferreira, 26 de março de 1972, 26 de junho e 28 de julho de 1973, 9
e 23 de janeiro de 1974.

8 A primeira referência de Geisel à permanência de Araripe está no Diário de Heitor
Ferreira, 1º de junho de 1973. Para a malograda ascensão à Vice-Presidência, idem,
11, 12, 13, 20 e 24 de junho de 1973.

9 A primeira referência ao almirante Henning está na lista preparada por Heitor
Ferreira em janeiro de 1973.

10 Maria Helena Moreira Alves, Estado e oposição no Brasil (1964-1984), p. 176,
citando The Military Balance, do International Institute for Strategic Studies
(1963-1980/81), Armed Forces of the World: A Reference Handbook (1966, 1973), e o
Almanac of World Military Power (1969, 1971, 1972, 1973).

11 Luciano Martins, Estado capitalista e burocracia no Brasil pós 64, p. 246.

12 Para a compra dos aviões, The New York Times, 7 de junho de 1970. Para a falta de
equipamento, conversa do marechal Cordeiro de Farias com o ministro Joelmir de
Araripe, narrada por Cordeiro a Heitor Ferreira, em Diário de Heitor Ferreira, 28 de
janeiro de 1972.

13 Duas folhas manuscritas do general Antonio Carlos Muricy a Geisel, sem data.
Para o custo, Estado Atual dos Meios Flutuantes, 23 páginas, de 12 de janeiro de 1974.
APGCS/HF. Para uma visão oficial do programa de reequipamento naval, A Marinha no
Governo Medici, conferência do ministro Adalberto de Barros Nunes na Escola de
Guerra Naval, 26 de outubro de 1973. APGCS/HF.

14 Estado Atual dos Meios Flutuantes. APGCS/HF.

15 Conversa de Geisel com Golbery, 1º de fevereiro de 1974, para os quatro
almirantes. Nota de Euclides Quandt de Oliveira a Golbery, narrando um encontro
com o almirante José de Carvalho Jordão, chefe do Estado-Maior da Armada, de 5 de
fevereiro de 1974. APGCS/HF.

16 Conversa de Geisel com Golbery, Heitor Ferreira e Moraes Rego, 22 de novembro de


1974. APGCS/HF.

17 Para os uísques, conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira,
22 de novembro de 1973. Para "revolucionário novo" e o "físico", treze folhas de bloco,
manuscritas por Heitor Ferreira, intituladas Resumo da Conversa com Figueiredo,
datadas de 18 de janeiro de 1974, e conversa de Geisel com Moraes Rego e Heitor
Ferreira, 9 de janeiro de 1974. APGCS/HF.

18 Para a história de Ezequias, Desaparecidos políticos, organizado por Reinaldo
Cabral e Ronaldo Lapa, pp. 101-4. Ver também Pedido de Busca 96B-E/2, do IV
Exército, em Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 4: Os mortos, p. 117. Ezequias
Bezerra da Rocha foi julgado pelo 7° CJM e absolvido. Dossiê dos mortos e
desaparecidos políticos a partir de 1964, pp. 290-2. Ver ainda Nilmário Miranda e
Carlos Tibúrcio, Dos filhos deste solo, pp. 586-7.

19 Conversa de Dale Coutinho com Geisel, 16 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

20 Padrinho é o oficial que entrega ao coronel, em cerimônia pública, a espada de
general.

21 Treze folhas de bloco, manuscritas por Heitor Ferreira, intituladas Resumo da
Conversa com Figueiredo, datadas de 18 de janeiro de 1974. Para as "idéias" de Frota,
conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 9 de janeiro de 1974. APGCS/HF.

22 Para o caso dos funcionários da Petrobrás, Ernesto Geisel, fevereiro de 1995. Ver
também Ernesto Geisel, organizado por Maria Celina d'Araujo e Celso Castro, p. 241.

23 Telegrama do embaixador John Tuthill ao Departamento de Estado, de 3 de janeiro
de 1969, p. Al 1, narrando um encontro com Golbery, em O Estado de S. Paulo de 13
de dezembro de 1998.

24 Eram os generais Ramiro Tavares Gonçalves, Oscar Luiz da Silva e Antonio Jorge
Corrêa.

25 Bilhete de Heitor Ferreira a Geisel, de 20 de dezembro de 1974. APGCS/HF. Heitor
listou aquilo que seria "O Grupo dos Onze" da linha dura: Syseno Sarmento, Jayme
Portella, Ramiro Tavares Gonçalves, Henrique Assumpção Cardoso, Clovis Bandeira
Brasil, Sylvio Frota, Affonso de Albuquerque Lima, Lauro Alves Pinto, Cesar Montagnade Souza, Arthur Candal Fonseca e João Dutra de Castilho. Geisel anotou: "É".

26 Conversa de Geisel com Figueiredo, 9 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

27 Conversa de Golbery com Geisel e Heitor Ferreira, 18 de dezembro de 1973.

APGCS/HF.

28 Nota manuscrita de Heitor Ferreira, intitulada Notas de Conversa com Figueiredo,
datada de 12 de setembro de 1972. (Geisel encontrou-se com Figueiredo no dia 5.)
Relato de Geisel a Golbery, em 14 de fevereiro de 1974, de uma conversa que tivera
com Figueiredo no dia 9 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

29 O cardeal Sales disse ao autor em junho de 1987 que "o Frota foi um dos que mais
me ajudou".

30 Ernesto Geisel, 10 de dezembro de 1973, em conversa com Heitor Ferreira.

APGCS/HF.

31 Morreram com tiros na cabeça Lígia Maria Salgado Nóbrega e Maria Regina Lobo
Leite de Figueiredo, ambas da VAR-Palmares. Autópsias em Projeto Brasil: nunca mais,
tomo v, vol. 4: Os mortos, pp. 223 e 276. Aurora Maria Nascimento Furtado, presa
depois de balear um detetive em Parada de Lucas, foi entregue à família num caixão
lacrado. A autópsia (na obra citada, p. 55) registra "dilaceração cerebral".

32 Os carbonizados do Grajaú, em 29 de dezembro de 1972, foram Fernando Fonseca,
Lourdes Maria Pontes e Getúlio de Oliveira Cabral, este com um tiro na cabeça.
Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 4: Os mortos, p. 147. Os de Jacarepaguá foram
Ranúsia Alves Rodrigues, Almir Custódio de Lima, Vitorino Alves Moitinho e Ramires
Maranhão do Vale. Jacob Gorender, Combate nas trevas, pp. 226-7. Segundo a


Informação nº 2805/73 do I Exército, de 1º de novembro de 1973, Ranúsia foi presa
pelo DOI no dia 27 de outubro. Em Folha de S.Paulo, 27 de março de 1994. As fotografias
do cadáver, feitas pela perícia, mostram que Ranúsia foi morta a tiros.

Relatório da Comissão Externa Destinada a Atuar junto aos Familiares dos Mortos e
Desaparecidos Políticos após 1964, na Localização de seus Restos Mortais, publicado
no Diário do Congresso Nacional de 23 de março de 1995, seção I, p. 4171.

33 Para o reconhecimento das execuções, "A repressão à guerrilha urbana no Brasil",
reportagem de Henrique Lago e Ana Lagoa publicada pela Folha de S.Paulo de 28 de
janeiro de 1979. Para Paulo Massa e seu pai, Desaparecidos políticos, organizado por
Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa, p. 200.

34 Conversa de Geisel com Golbery, Heitor Ferreira e Moraes Rego, 22 de novembro de
1973. APGCS/HF.

35 Conversa de Geisel com Golbery, Heitor Ferreira e Moraes Rego, 10 de dezembro de
1973. APGCS/HF.

36 Nota de Heitor Ferreira, de 1º de outubro de 1973. APGCS/HF.

37 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 12 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

38 Para os carros, nota manuscrita de Heitor Ferreira intitulada Conversa Geisel-
Reynaldo Mello de Almeida, de 17 de dezembro de 1973. APGCS/HF. Para o caso do
general que tentou manter a casa, Diário de Heitor Ferreira, 2 de agosto de 1973,
narrando uma visita do general Reynaldo a Geisel. Para o decorador, conversa de
Geisel com Heitor Ferreira, em Diário de Heitor Ferreira, 27 de dezembro de 1971.

39 Carta do major Athos Marques de Amorim a Heitor Ferreira, de 9 de agosto de
1975. APGCS/HF.

40 História do Alto-Comando do Exército, reunião do Alto-Comando de 21 de julho de
1971. APGCS/HF.

41 Diário de Heitor Ferreira, 22 de janeiro de 1972.

42 Carta anônima endereçada a Geisel em 28 de junho de 1973. APGCS/HF.

43 Duas folhas manuscritas de Heitor Ferreira, intituladas Conversa Geisel-Reynaldo
Mello de Almeida, de 17 de dezembro de 1973. APGCS/HF.

44 Diário de Heitor Ferreira, 12 de setembro de 1972. Geisel referia-se ao general Paulo
Carneiro Thomaz Alves.

45 Diário de Heitor Ferreira, 27 de dezembro de 1972.

46 Alfred Stepan, Os militares — Da abertura à Nova República, p. 87. Stepan usa
números do Anuário estatístico do Brasil — 1971 e da Seplan, convertendo-os em
dólares correntes de 1978. Em 1971 gastou-se 1 milhão e 862 mil dólares e em 73, 2
milhões e 51 mil. Para as despesas do Exército, Estatísticas históricas do Brasil, p.

623. São os seguintes os gastos do Exército de 1970 a 1973, em milhões de cruzeiros:
1970: 2 598 515; 1971: 3 195 319; 1972: 3 901 144, e 1973: 5 183 870. De uma
conversão pelo câmbio da época resultou: 1970: 577 milhões de dólares; 1971: 560
milhões; 1972: 630 milhões, e 1973: 836 milhões.
47 Almanaque do pessoal militar do Exército, de 1964 e de 1975.

48 Observação de Geisel, em Diário de Heitor Ferreira, 28 de maio de 1975.

49 Para o reequipamento, narrativa de Dale Coutinho a Geisel, 16 de fevereiro de
1974. Para o caso dos tanques, narrativa de Figueiredo a Geisel, contando-lhe o que
ouvira de Dale Coutinho, 9 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

50 Conversa de Figueiredo com Geisel, 9 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

51 Trata-se do caso da jornalista Norma Freire, presa na Operação Bandeirante.

52 Em novembro de 1969 interrogou Diógenes de Arruda Câmara dois dias depois de
ele ter sofrido uma crise cardíaca na Oban. Projeto Brasil: nunca mais, tomo V, vol. 1:


A tortura, p. 724.

53 Uma folha com anotação de Heitor Ferreira, de fevereiro de 1974, anterior à
conversa de Geisel com Dale Coutinho: CIE — Confucio não. APGCS/HF. Ernesto Geisel,
12 de julho de 1988.

54 O Estado de S. Paulo, 30 de março de 1974, p. 15. Para o distúrbio vascular
enquanto fazia a barba, Ernesto Geisel, 24 de abril de 1995.

55 Conversa de Mario Henrique Simonsen com Golbery e Heitor Ferreira, 5 de
fevereiro de 1974. APGCS/HF.

56 Mario Henrique Simonsen, Brasil 2001, p. 184. Simonsen respondia a O ano 2000,
de Hermann Khan.

57 Diário de Heitor Ferreira, 25 de fevereiro de 1972.

58 Carta de Mario Henrique Simonsen a Golbery, de 31 de outubro de 1973, com o
anexo Problemas do Mercado de Crédito a Longo Prazo. APGCS/HF.

59 Veja, 26 de agosto de 1970, pp. 28-33.

60 Estrutura de Governo, Notadamente quanto à Área Econômica, oito folhas do
Ministério do Planejamento, sem data nem assinatura, de 1973, refere-se a 4,7 bilhões
de cruzeiros do PIS na Caixa e 7,4 bilhões de cruzeiros do Pasep no Banco do Brasil.
APGCS/HF.

61 Liquidações Bancárias, anexo à carta de Mario Henrique Simonsen a Golbery, de
31 de outubro de 1973. APGCS/HF.

62 Diário de Heitor Ferreira, 24 de janeiro de 1973, e Informe enviado a Heitor pelo
general Barros Nunes, APGCS/HF.

63 Os grupos Aurea e Audi, de São Paulo, e o Halles, do Rio de Janeiro.

64 Samuel A. Morley e Gordon W. Smith, "The effect of changes in distribution of
income on labor, foreign investment, and growth in Brazil", em Authoritarian Brazil,
editado por Alfred Stepan, pp. 119-41.

65 Carta de Mario Henrique Simonsen a Golbery, de 10 de dezembro de 1973.

APGCS/HF.

66 Diário de Heitor Ferreira, 23 de agosto de 1972.

67 Bilhete de João Carlos Palhares a Golbery, de 10 de dezembro de 1973. Friedman
podia se encontrar com Geisel qualquer dia, entre 17 e 21 de dezembro. Geisel teve
agenda praticamente livre ou tomada por compromissos secundários nos dias 17, 18 e

21.
68 Para o desinteresse de Geisel por Campos, conversa de Geisel com Golbery e Heitor
Ferreira, 18 de dezembro de 1973. Para Golbery e para o caso de Bulhões, conversa de
Mario Henrique Simonsen com Golbery, 5 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. Um ano
depois, Paulo Egydio Martins quis nomear o banqueiro Olavo Setubal para a
Secretaria da Fazenda de São Paulo. Simonsen ponderou que ele seria visto como seu
eventual substituto, e Setubal foi nomeado prefeito da capital. Diário de Heitor
Ferreira, 11 de janeiro de 1975.

69 O Globo, 8 de fevereiro de 1974, p. 3 do 1º caderno, citado em Eugênio Gudin,
Reflexões e comentários — 1970/1978, p. 162. Gudin era parente afim de Simonsen.
Sua mulher era irmã gêmea da avó paterna de Mario Henrique. Depoimento de Carlos
Ivan Simonsen Leal, em Mario Henrique Simonsen — Um homem e seu tempo,
organizado por Dora Rocha, Verena Alberti e Carlos Eduardo Sarmento, p. 22.

70 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 20 de dezembro de 1973.

APGCS/HF.

71 Conversa de Geisel com Mario Henrique Simonsen, 29 de janeiro de 1974. APGCS/HF.

72 Ernesto Geisel, janeiro de 1995.


73 Um exemplo desse raciocínio: "Se o Victor Civita [criador da editora Abril] dissesse
ao Roberto Campos que pretendia publicar uma revista como a Veja, ele tentaria
dissuadi-lo, dizendo-lhe que era muito mais fácil traduzir a revista Time". Ernesto
Geisel, 1988.

74 Ernesto Geisel, abril de 1995.

75 Três folhas mimeografadas com a transcrição do Ato do Comando Supremo da
Revolução, de 10 de abril de 1964. Nesse documento os nomes estão listados de forma
desordenada, mas percebem-se nele alguns segmentos em que os cassados foram
agrupados por atividade. Assim, do número 11 ao 15 encontram-se dirigentes
sindicais. Jesus Soares Pereira foi o 24°, ficando entre Francisco Mangabeira, ex-
presidente da Petrobrás, Hugo Régis dos Reis e Jairo José Farias, ambos diretores da
empresa. Soares Pereira não tinha ligação direta com a Petrobrás. Era diretor de
vendas da Companhia Siderúrgica Nacional. Foi colocado na lista por ter contrariado
algum interesse no Conselho Nacional de Petróleo.

76 Ernesto Geisel, janeiro e abril de 1995. No dia 10 de abril, quando saiu a primeira
lista de cassações, Castello ainda não fora empossado. Geisel era um general
influente, mas sem função. Só iria para a chefia do Gabinete Militar cinco dias depois.
Doente e perseguido, Jesus Soares Pereira morreu em Petrópolis, em dezembro de
1974. Deixou pouco mais que uma biblioteca, comprada à viúva por amigos e doada à
Fundação Getulio Vargas. Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930, coord. de
Alzira Alves de Abreu e outros, vol. 4, p. 4554.

77 Adão Pereira Nunes, Do Planalto à Cordilheira — Memórias de um médico cassado,
pp. 155-6.

78 Edelmira del Carmen Alveal Contreras, Os desbravadores —A Petrobrás e a
construção do Brasil industrial, p. 90, nota.

79 Ernesto Geisel, janeiro e fevereiro de 1995. Ver também Diário de Heitor Ferreira,
17 de janeiro de 1972.

80 Ernesto Geisel, janeiro e março de 1995.

81 Para a relação de Reis Velloso com o integralismo, citação de Plínio Salgado em
entrevista a Veja de 13 de maio de 1970, pp. 20-3.

82 Anotações da Conversa com Figueiredo, em Diário de Heitor Ferreira, 11 de junho de
1973. Para "chato", anotação manuscrita de Geisel num bilhete remetido por Heitor
Ferreira em 28 de setembro de 1973. APGCS/HF.

83 Estrutura de Governo, Notadamente quanto à Área Econômica, oito folhas do
Ministério do Planejamento, sem data nem assinatura, de 1973. APGCS/HF. Heitor
Ferreira refere-se a um documento, entregue a Geisel por Velloso, na entrada do dia
10 de novembro de 1973 de seu Diário.

84 Depoimento de Delfim Netto, em Histórias do poder, organizado por Alberto Dines,
Florestan Fernandes Jr. e Nelma Salomão, vol. 3: Visões do Executivo, p. 192.

85 Marcos Vianna, novembro de 1997.

86 Duas folhas manuscritas, de Heitor Ferreira, datadas de 12 de fevereiro de 1974.

APGCS/HF.

87 Conversa de Geisel com Moraes Rego e Heitor Ferreira, 12 de fevereiro de 1974.

APGCS/HF.

88 Estrutura de Governo, Notadamente quanto à Área Econômica, oito folhas do
Ministério do Planejamento, sem data nem assinatura, de 1973. APGCS/HF. OS números
referem-se a 1972. O BNDE-Finame havia financiado 7,7 bilhões de cruzeiros. Ficaram
na caixa do Planalto cerca de 20 bilhões, equivalentes a 3 bilhões de dólares.
Significavam o controle direto sobre dois terços de todos os financiamentos federais.

89 Conversa de Geisel com Golbery, 3 de janeiro de 1974. APGCS/HF. Golbery diz que a
ida desses recursos para a gestão do ministro da Fazenda foi um "repassão de poder".


Geisel sustenta que o dinheiro não deve ir para o Banco do Brasil nem para a Caixa,
mas para o BNDE. E que o futuro ministro da Fazenda deve ser avisado, "para não vir
depois criar caso".

90 Maria Celina d'Araujo e Celso Castro, orgs., Ernesto Geisel, p. 287.

91 Problemas do Mercado de Crédito a Longo Prazo, documento de três páginas
enviado no dia 31 de outubro de 1973 por Mario Henrique Simonsen a Golbery, que o
anotou. APGCS/HF.

92 Crescimento industrial no Brasil — Incentivos e desempenho recente, de Wilson
Suzigan, Regis Bonelli, Maria Helena T. T. Horta e Celsius Antônio Lodder.

93 José Clemente de Oliveira, novembro de 1997.

94 Estimativa do Comportamento Macroeconômico: 1974-1980 (Confidencial),
documento encaminhado por Paulo Belotti a Heitor Ferreira em 13 de novembro de
1973, anotado por Golbery e visado por Geisel. APGCS/HF.

95 Conversa de Geisel, Golbery e Heitor Ferreira, 20 de novembro de 1973. APGCS/HF.

96 Conversa de Geisel com Golbery, 23 de janeiro de 1974. APGCS/HF. Para a opinião
sobre Marcos Vianna, a quem Geisel chegou a pensar em nomear ministro da Fazenda
ou do Planejamento, ver Diário de Heitor Ferreira, 25 de fevereiro e 26 de março de
1972.

97 Marcos Vianna, novembro de 1997.

98 Ney Braga chegou a coronel pelos mecanismos de promoções cumulativas das
Forças Armadas. Terminou a carreira militar em 1952, como major, aos 35 anos,
quando se tornou chefe de polícia do governo do cunhado, Bento Munhoz da Rocha.

99 Tratava-se de Paulo Pimentel, que começara a carreira sob sua asa. Uma folha
manuscrita de Heitor Ferreira, intitulada Detalhes da Conversa com Ney, de 27 de
setembro de 1973. APGCS/HF. Para os adjetivos, pela ordem: Dirceu Cardoso, Nina
Ribeiro, Murilo Badaró e Clovis Stenzel. Idem.

100 Um Exercício Direto sobre a Composição do Governo Geisel, três folhas manuscritas
de Heitor Ferreira, de 28 de julho de 1973. APGCS/HF.

101 Para a relação com o Iraque, Ernesto Geisel, abril de 1995. Para o controle do
mercado de açúcar, conversa de Shigeaki Ueki com Golbery e Heitor Ferreira, 7 de
fevereiro de 1974. APGCS/HF.

102 Diário de Heitor Ferreira, 20 de junho de 1972.

103 Idem, 14 de setembro de 1972.

104 Bilhete de Heitor Ferreira a Geisel, informando-o: "Tomei a liberdade de dizer ao
Honorável que sim, fizesse a casaca. Foi a São Paulo e já tirou as medidas". APGCS/HF.
Honorável era o apelido de Ueki no grupo.

105 Telefonema de Geisel a Shigeaki Ueki, 20 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

106 Ernesto Geisel, abril de 1995.

107 Novo Exercício sobre a Composição do Governo Geisel, nota manuscrita de Heitor
Ferreira, datada de 10 de outubro de 1973. APGCS/HF.

108 Diário de Heitor Ferreira, 2 de janeiro de 1974. A sugestão foi do general Carlos de
Meira Mattos. Para "Parelli", conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 3 de
janeiro de 1974. APGCS/HF.

109 Ernesto Geisel, 12 de março de 1995, e Diário de Heitor Ferreira, 21 de janeiro de
1974.

110 Os seis cogitados foram: Reis Velloso, Alacid Nunes, Severo Gomes, Dyrceu
Araujo Nogueira, Euler Bentes Monteiro e Moura Cavalcante.

111 Conversa de Geisel com Golbery, 18 de dezembro de 1973. APGCS/HF.


112 Nota manuscrita de Geisel a Heitor Ferreira, 19 de fevereiro de 1974. Nela Geisel
escreveu "falando com Paulo Egydio sobre Severo Gomes", e Heitor acrescentou: "Qual
a posição em relação aos vários grupos de São Paulo. Com Estadão?". Conversa de
Geisel com Paulo Egydio Martins, 19 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.


Jogo de fichas


A desordem da lista passou despercebida. Poderia ter parecido uma
banalidade, mas havia método na barafunda de nomes e cargos.
Trancado com Golbery, Heitor e Moraes Rego, Geisel consumira boa
meia hora embaralhando a relação de nomes, com o propósito de evitar
que seu ministério saísse com Falcão na cabeça e dois ministros
militares sanduichados entre ele e Silveira.1 Logo os dois indigestos.
Algumas escolhas causaram desconforto à equipe de Medici, mas a
Censura se encarregara de impedir que o ressentimento aflorasse.
Proibira "opiniões de ministros de Estado e outras autoridades do atual
governo sobre pessoas indicadas para integrar o ministério do
presidente Geisel".2

A indigestão provinha da biografia de cada um. Armando Falcão,
um produto típico da associação da política nordestina (no seu caso, a
cearense) com a máquina previdenciária do Rio de Janeiro, fora
ministro da Justiça de Juscelino Kubitschek. Azeredo da Silveira, o
Silveirinha, tinha a hostilidade da direita do Itamaraty e cinco anos
antes vetara-se sua indicação para a Secretaria Geral do Ministério.
Encurralado pelas pressões dos inimigos, acabara embaixador em
Buenos Aires. Os dois davam ao ministério um toque de surpresa.
Quando o nome de Falcão começou a circular, chegou-se a pensar que
fosse brincadeira. Eram controvertidos, porém tenazes. Isso os
diferenciava de todos os colegas. Não haviam sido ministros de governos


da ditadura, como Ney Braga e Severo Gomes, nem eram politicamente
irrelevantes como Rangel Reis e Almeida Machado. Sem eles, Geisel
produzira um ministério óbvio, quase trivial. Com eles, prenunciava
novidades e até audácia.

Castello Branco escolhera um ministério de notáveis, selecionado
na elite combativa da divisão ideológica de 1964. Dez anos depois, o
melhor do velho conservadorismo parlamentar distanciara-se do regime.
Adaucto Lúcio Cardoso deixara o Supremo Tribunal e advogava contra a
censura do semanário Opinião. Aliomar Baleeiro criticava o AI-5. Mesmo
os heróis do passado comportavam-se de forma diversa. O marechal
Juarez Távora, ídolo do tenente de 1930, chefe do coronel de 54 e colega
de palácio de 64, defendia publicamente a normalidade democrática.3 O
brigadeiro Eduardo Gomes, sempre bonito e solteiro, dizia aos cadetes
da FAB que "só a liberdade cria valores estáveis".4 Cordeiro de Farias
sugeria a Geisel que lançasse no discurso à Arena um apelo de união
nacional.5 Muricy denunciava a existência de uma "mentalidade
policialesca que vem se firmando dentro dos órgãos de segurança das
Forças Armadas".6 Até o general Albuquerque Lima falava em
"restauração da Liberdade e do Direito", e atacava:7 "O Brasil atual vive
sob o signo do SNI, malconduzido e pessimamente compreendido como
órgão de informações, à semelhança do que ocorreu com a Gestapo de
Hitler, que prende e persegue os que não estão na sua graça".8

O estreitamento da ditadura estimulara a ascensão de burocratas
conhecidos e parlamentares de segunda linha. Magalhães Pinto, o único
grande político do gabinete de Costa e Silva, foi encostado no Itamaraty.
No ministério de Medici só o coronel Costa Cavalcanti tivera experiência
parlamentar, e ainda assim se mantivera no cargo por militar, não por
ex-deputado. Criara-se uma rede de restrições que estigmatizava a
atividade política. Dela resultava um processo de recrutamento da
hierarquia pelo qual quem já tivesse sido, poderia voltar a sê-lo (Ney
Braga e Severo Gomes). Fora daí, era sempre mais seguro recorrer ao


plantei de técnicos ignotos (Ueki e Paulinelli). Espremidos entre esses
dois blocos, como numa modalidade de danados do inferno, ficavam
pessoas que por uma razão ou por outra haviam sido marcadas pela
controvérsia. Falcão e Silveira levaram Geisel ao primeiro choque com a
Comunidade de Informações.

Armando Falcão era ao mesmo tempo o político profissional que o
regime pretendera aposentar e o político profissional reciclado, exemplo
de uma nova ordem. Aí estava seu indigesto paradoxo. Cearense de
Quixeramobim, começara a vida no Rio de Janeiro com um terno de
caroá, um primo ministro e um emprego na previdência. Estivera em
todas. Esquerdista em 1935, germanófilo em 39, petebista em 50,
lacerdista em 54, antilacerdista em 56 e ministro de Kubitschek em 59.9
Sua sinuosidade tinha duas características: a opção pela direita e a
preferência pela ferocidade. Dotado de uma grande capacidade de
expressão verbal, e até mesmo de algum estilo na escrita, era um
charmeur na corte e um carrasco no calabouço. Saíra do governo
Kubitschek com um rendoso, vitalício e hereditário cartório de registro
de imóveis da Zona Sul do Rio de Janeiro. Conhecia meio mundo e
conseguia se tornar amigo de infância de quem quer que fosse. Bem
relacionado na imprensa, era informado por empenho e mexeriqueiro
por temperamento.10

Havia nele o alvoroço da vivandeira.11 Falcão exibia na biblioteca
de seu apartamento as placas de madeira e metal com que os comandantes
de quartéis presenteiam visitantes ilustres. Sua reaparição política
foi resultado da tenacidade. Soubera fazer-se lembrar. Mandava
cartão de Natal a Geisel em 1967, quando o futuro político do general
não valia o selo, e estivera com ele em outubro de 73. Visitava Golbery
com freqüência, e vinham discutindo formas de melhorar o
relacionamento com a Igreja e com a imprensa. Em campanha,
intermediava contatos e cortejava jornalistas.

Até a primeira metade de novembro, o favorito para o Ministério
da Justiça fora o senador Antônio Carlos Konder Reis, um político
reservado, cauteloso e aplicado, produto da oligarquia catarinense.


Impressionara Golbery com seu projeto de reforma constitucional capaz
de revogar o AI-5. (Geisel viria a receber uma informação do SNI segundo
a qual Konder Reis era um dos seis senadores que, em 1968, assinaram
um telegrama a Costa e Silva condenando o AI-5 e, doze dias depois,
outro a favor. A informação era falsa.)12 Na segunda metade de
novembro, Falcão almoçou com Golbery. A essa altura, o general
tratava como uma brincadeira a idéia de colocá-lo no ministério.13 Após
alguns dias, o general João Baptista Figueiredo e Heitor Ferreira
tiveram um de seus demorados encontros no apartamento do general,
no Rio. Como de hábito, Heitor anotava os principais tópicos numa
folha de bloco. A certa altura, Figueiredo disse: "O ministro da Justiça
tem que ser o Falcão". Heitor inibiu-se e escreveu: "um Falcão".14 (Nessa
época a palavra falcão designava também os políticos e militares
americanos que pretendiam ampliar a Guerra do Vietnã. Era sinônimo
de dureza.)

Ao se despedirem, Heitor repassou para Figueiredo os tópicos que
anotara. Figueiredo emendou: "Bem, quer dizer, um camarada do tipo".

"Eu quase caí da cadeira", disse Heitor a Golbery quando lhe
narrou a conversa. O general aceitou imediatamente a idéia. Elogiou
Konder Reis, mas ressalvou: "Não é um homem experimentado em
certas coisas. Não é provado. O outro é. O outro nós não temos dúvida.
Era um sujeito que ia funcionar mesmo".16 Geisel o conhecia desde que,
juntos, operaram o combate a um surto de greves ocorrido no final do
governo Kubitschek.17 A lembrança soprou o fogo: "O Armando Falcão é
suficientemente inteligente. E é combativo e esperto para fazer o que a
gente quer. Todo mundo vai se arrepiar".18

Em janeiro, diante do convite, Falcão confirmou a expectativa:
"Presidente, sei muito bem que ministro não tem programa. O programa
é do presidente. Como dizia Rodrigues Alves, o ministro faz tudo o que
quer, menos o que o presidente não quer".19 (Tiro certo: naqueles dias,
Geisel lera uma biografia de Rodrigues Alves e se encantara com essa
frase.)


A escolha de Falcão ofendera a memória dos "fritadores de
bolinhos" dos anos 50. Aquilo que outrora parecera oportunismo ao
coronel Golbery, continuava a ser oportunismo para pessoas próximas a
Geisel, como o coronel Moraes Rego.20 Era um bom nome pelo que fizera
como ministro de JK, e, exatamente pelo que fizera como ministro de JK,
era indigesto para os antigos adversários. A ficha de Falcão no SNI
registrava o papel dele na conspiração de 1964 e listava algumas
restrições. Uma delas relacionava-se com um caso de falência. Não se
conhece o seu texto, apenas uma curta observação de Heitor Ferreira a
Geisel depois de terem-na lido: "Não é tão ruim".21

O general decidiu bancar a escolha.

O embaixador Antônio Francisco Azeredo da Silveira, Silveirinha,
tivera um cabo eleitoral discreto e eficiente. Desde março de 1972,
quando Geisel não tinha idéia de quem seria seu chanceler, o chefe-degabinete
do ministro do Exterior, Dário Castro Alves, mandava a Heitor
Ferreira uma seleta de telegramas enviados pelos embaixadores ao Itamaraty.
22 Desses envelopes, chamados "papéis do Rei", e dos contatos
quase semanais entre os dois amigos, resultou que, enquanto esteve na
Petrobrás, Geisel teve naquela janela o único posto de observação
privilegiada do que acontecia na área civil do governo Medici. Foi das
poucas pessoas a saber com antecedência que o presidente Nixon
receberia o ministro Delfim Netto na Casa Branca, ou mesmo que o
apoio brasileiro ao colonialismo português na África aumentava o risco
de uma suspensão do fornecimento de petróleo pelos países árabes.23
Quando o processo de escolha entrou na reta final, Dário abriu-se com
Heitor: "Minha torcida é por Silveira, pois sou a pessoa de maior
confiança dele na minha categoria. Claro, se ele vier, o controle do
Itamaraty por vocês e ele, e com a minha colaboração direta, seria
total".24 No início de dezembro, Geisel conversara por quase duas horas
com o embaixador. Silveira teve um desempenho brilhante, mostrando
conhecimentos técnicos e segurança doutrinária na complexa questão
da encrenca criada pelo governo argentino, que se opunha à construção
da hidrelétrica de Itaipu.25


Tinha 56 anos, trinta de carreira, com mais de dez postos no
exterior. Não fazia o gênero do diplomata de salão. Era pequeno,
estridente e falava sem parar. Conhecia como ninguém a máquina do
Itamaraty e passara seis anos entre a chefia da Divisão do Pessoal e do
Departamento de Administração. Com o poder desses dois cargos fizera
todos os amigos e inimigos a que a vida lhe daria direito. Silveirinha era
irredutível em suas lealdades e insuperável nas vinganças. Tinha uma
cultura utilitária, acompanhada por um egocentrismo que lhe permitia
formular teorias com a naturalidade de quem manuseia um catálogo de
ferramentas. Havia nele um nacionalismo assustador, quase xenófobo.
Ninguém o julgava pelo que pensava, mas pelo que fazia.

Logo depois da conversa, Geisel resumira-o: "Ele não é bobo não.
Eu acho que ele é um dos melhores de cabeça, do ponto de vista
diplomático. Agora, nós tínhamos que ver a vida dele, aquela série de
acusações que faziam com ele".26

Da série mobilizada contra Silveira, são conhecidos três papéis.
Como Geisel obtinha as fichas de seus prováveis colaboradores por
meio de uma gambiarra montada com a ajuda do chefe da agência do
SNI no Rio de Janeiro, nenhum dos três tem timbre. Dois foram
produzidos no Ministério do Exército, e um saiu do SNI. Formam o único
conjunto completo de fichas de um nome cogitado para o ministério. O
primeiro, e mais detalhado, chegou em janeiro, mandado por Orlando
Geisel, que detestava Silveira.

Dizia:

1) Brilhante, excelente profissional, competentíssimo, hábil

negociador.

2) a) de 59 a 61 — Chefe do Departamento Administrativo do

Itamaraty.

b) de 61 a 63 — Cônsul-Geral em Paris. [...]

c) de 63 a 66 — Voltou a ser chefe do Departamento de

Administração. Em 64 foi promovido a ministro de primeira

classe, por influência de Almino Afonso. Tinha ligações com o


governo Jango, envolvido por um irmão que era comunista
(obteve para o irmão passaporte especial para viajar a Cuba,
onde esse irmão foi eleito presidente da associação internacional
de arquitetos). Trocou correspondência com Jango, essa
correspondência foi interceptada e está arquivada no SNI.

d) Quando da Revolução de 64 sua situação no Itamaraty
teria sido contornada, segundo duas versões:

1ª — Foi defendido pelo ministro das Relações Exteriores
Vasco Leitão da Cunha, que intercedeu também por Sette
Câmara, Nogueira Porto e Celso Diniz, conhecidos na Casa como
esquerdistas.

2ª — Teria sido amigo do presidente Castello Branco.
e) De 66 a 69 foi chefe da delegação em Genebra.
f) Em princípios de 69 foi convidado pelo então ministro

Magalhães Pinto para o cargo de secretário-geral do Itamaraty.
Regressou de Genebra mas não tomou posse por interferência do
SNI, sendo então designado embaixador em Buenos Aires, cargo
que ocupa atualmente.27

Uma informação era falsa: Silveira não estivera na lista dos
diplomatas que poderiam ter sido cassados em 1964.28 A ficha tinha
uma só acusação letal. Bastaria que aparecesse uma única peça de
correspondência do embaixador com Jango para que ele fosse
desqualificado, mas Geisel queria vê-la. Pediu-a em quatro ocasiões
diferentes. Heitor Ferreira saiu no rastro da denúncia, e aquilo que era
um documento com base no qual seria julgado um provável ministro,
transformou-se num instrumento de avaliação da máquina de
informações do governo. Heitor perguntou pelas cartas ao chefe da
Agência Rio do SNI e ouviu que elas deviam estar no arquivo. Passou-se
uma semana sem que as achassem. Acharam o autor da acusação. Era
um oficial da Marinha lotado no SNI. Admitiu que as cartas não estavam
no Serviço, mas assegurou que existiam. Tratavam de uma nomeação
para o setor comercial da embaixada em Roma, mas não se sabia se


eram cartas de Silveira a Jango ou de Jango a Silveira.29 Se a
correspondência fora interceptada e arquivada no SNI, estava implícito
que Silveira se entendera com Goulart depois de sua deposição. Falso.
Descobriu-se que o funcionário fora nomeado em 1962. O autor do
pedido fora Leonel Brizola, e não Jango. Não se sabia ao certo se o
destinatário era Silveira, muito menos se o que se chamara de
"correspondência" era uma carta ou um simples telegrama.

Seria razoável supor que diante da trapalhada Silveira fosse
deixado em paz, mas deu-se o inverso. A Comunidade contra-atacou. O
chefe da Agência Rio do SNI sugeriu a Heitor Ferreira que localizasse um
dossiê guardado no CIE. Nele haveria segredos da vida do embaixador.
Pressionado, o coronel Murgel passou da condição de oficial de
informações para a de mexeriqueiro: informou que a morte de uma das
filhas do embaixador, ocorrida poucos anos antes, em Roma, parecia
"meio fantasiada", porque a jovem senhora teria sido eletrocutada pela
descarga de uma escova elétrica.30 (Na realidade, ao escorregar numa
banheira cheia d'água, ela se agarrara à fiação da parede e, ao cair, fora
morta pelo curto-circuito). Cartas, nada.

A essa altura, Geisel decidira ultrapassar as restrições da
Comunidade. Quando o SNI se meteu na dor que Silveira carregava,
tocou na corda sensível da morte do filho do coronel de Quitaúna. O
embaixador e sua mulher perderam não só a filha morta em Roma,
grávida, mas também outra, assassinada pelo marido, diante do filho.

Faltavam poucos dias para o anúncio do ministério, e o general
Figueiredo entregou a Geisel outra ficha do embaixador, baseada em investigações
feitas na infância do SNI, durante o governo Castello Branco.
É um exemplo da estrutura e da linguagem das fichas do Serviço. Dizia:

Antonio Francisco Azeredo da Silveira

DLN — 22 set 1917 — Rio de Janeiro (GB)

Filiação: Flavio da Silveira e Lea Maria Azeredo da Silveira.

Posto: Ministro de Primeira Classe do Quadro Permanente do

Ministério das Relações Exteriores.


Função: Embaixador do Brasil na Argentina.

Aspecto funcional: Um dos melhores conhecedores da parte
administrativa do Itamaraty.

Foi chefe do Departamento de Administração do Itamaraty
antes e depois da Revolução de Mar 64.

Tal departamento é uma função-chave no MRE, porque lhe
cabe a responsabilidade de remoção dos funcionários,
designação pelos departamentos e divisões, poder seletivo para
promoções, manuseio de verbas, inclusive a Verba Secreta,
isenta de fiscalização do Tribunal de Contas.

Fonte: Comissão de Sindicância no Ministério das Relações
Exteriores. (24 Out 64)

Homem de João Goulart, que nomeou o marginado chefe do
Departamento Administrativo do Itamaraty. Movimenta todo o
pessoal do MRE e manobra com as verbas tanto em cruzeiros
como em dólares. Elemento corruptor de jovens inexperientes do
MRE, face ao poder que enfeixa em suas mãos. Abusou de sua
posição para favorecer o irmão, Flavio Leo Azeredo da Silveira,
elemento suspeito por suas atividades internacionais ligadas aos
comunistas. Como presidente da Comissão de Promoções
permitiu que na organização do quadro de acesso fosse
obedecida uma orientação tipicamente comunista para as
promoções que se viriam a processar em 1964.

Aspecto político — Dotado de grande mimetismo político. Não
tinha escrúpulo de indicar para postos importantes, do
Itamaraty, elementos reconhecidamente de esquerda.

Aspecto moral — Caráter fraquíssimo, sem escrúpulos,
egocêntrico. Inteligência privilegiada, muito viva, bem acima do
normal. Conceito social: muito bem relacionado, possui enorme
encanto pessoal.

Aspecto religioso — católico.


Aspecto econômico-financeiro — x x x
Aspecto cultural — x x x
Aspecto sanitário — x x x
Outros aspectos —
[...] Em 1966, aos 49 anos de idade e 23 de serviços na

carreira diplomática, era sem dúvida alguma um dos
embaixadores que atingiram o posto máximo da hierarquia
itamaratiana, numa idade onde muitos ainda estão a se iniciar.
Com o manejo da máquina do DA, sobressaía na distribuição de
favores a políticos poderosos e também somas monetárias
principalmente a jornalistas. [...]

É criatura insinuante, extremamente inteligente e astuto e,
no campo profissional, um funcionário competente,
imensamente relacionado, inclusive através da indústria de
favores políticos em que transformou o DA da Casa. [...]

Típico da atuação do embaixador Silveira é o caso da compra
de uma casa relativamente velha numa parte afastada da cidade
de Washington, para instalação, ali, da chancelaria da
embaixada do Brasil, mas pessimamente colocada e sem
condições para perfazer esta finalidade. Adquirida por 250 mil
dólares foi, de certa forma, abandonada, durante uns dois anos.
O senhor Leo da Silveira, arquiteto de medíocre reputação, irmão
do embaixador Antonio Azeredo da Silveira e "cliente" contumaz
das generosidades do Itamaraty, passou por Washington e, sem
autorização do embaixador, avocou a si a iniciativa de elaborar
e, eventualmente, executar os projetos de reforma do prédio
velho [...].31

Silveira não comprara uma casa, mas o terreno vizinho ao
palacete onde vivia o embaixador, adquirido em 1934 por Oswaldo
Aranha. Desenhado nos anos 20 por John Russell Pope, o maior
arquiteto americano de seu tempo, era um patrimônio cultural da
cidade. No novo lote construíra-se o prédio da chancelaria, dando ao


conjunto uma conveniente funcionalidade. Não ficava longe (a meia
hora da Casa Branca), muito menos era mal localizado (a duzentos
metros da embaixada britânica).

As pressões militares contra Silveira artilharam-se no gabinete do
ministro do Exército. Num caso inédito na composição de sua equipe,
Geisel permitiu que Figueiredo discutisse o assunto com Medici. "No
Itamaraty uns se destruíam aos outros", respondeu o presidente.32

Naqueles dias Geisel recebera um documento sem assinatura
descrevendo seis dos prováveis ministros das Relações Exteriores de
seu governo. Acusava Silveira, "cuja instrução sistemática é, apenas,
primária", de ter cuidado, em Paris, de negócios pessoais de Jango.33
Dias depois, chegou ao general outro papel, assinado pelo diplomata
José Maria Vilar de Queiroz, ex-assessor de Roberto Campos e chefe da
área internacional do Ministério da Fazenda. Nele, Silveira era homem
"de grande inteligência, perspicácia, capacidade de trabalho e
experiência na política multilateral e bilateral".34

As dificuldades surgidas com Silveira e Falcão foram produto de
suas biografias, mas essas mesmas trajetórias os fizeram ministros. Nos
dois casos, por terem construído fama de operadores. Silveira deveria
sacudir uma diplomacia anacrônica cujos fundamentos remontavam a
1964. Falcão deveria sacudir o marasmo político. De seu primeiro
encontro com Geisel, saíra com a encomenda de botar por escrito
algumas idéias. Preparou cinco documentos. Um tratava do "problema
da liberdade de manifestação do pensamento e de informação". Outro,
do "problema da Igreja".35 Em suma, do futuro da ditadura.

1 Maço de seis folhas, intituladas por Heitor Ferreira Rascunho da Nota Lida no Largo
da Misericórdia, de 21 de fevereiro de 1974. A primeira folha tem só os cargos, listados
pela ordem de precedência do cerimonial. Heitor preencheu-a, numerando-a de forma
que Falcão ficava em 15º lugar e Silveira em penúltimo. Uma segunda folha,
datilografada nessa ordem, foi alterada por Golbery, que transferiu Silveira para o 12



lugar. Essa versão foi datilografada e novamente alterada, dessa vez por Geisel, que
passou Falcão para o nono lugar, deixando Silveira em 16º. APGCS/HF.

2 Uma folha, vinda do fichário de ordens da Censura, compilada pela redação do
Jornal do Brasil, datada de 2 de fevereiro de 1974, posteriormente anotada por Geisel
e Golbery. APGCS/HF.

3 Entrevista a O Estado de S. Paulo de 4 de maio de 1973, p. 5.

4 Veja, 5 de julho de 1972, p. 20.

5 Uma folha datilografada, intitulada por Heitor Ferreira Contribuição do Marechal
Cordeiro Entregue ao General Golbery. APGCS/HF.

6 Conversa de Geisel com Golbery, Heitor Ferreira e Moraes Rego, lendo um papel
recebido de Antonio Carlos Muricy, 8 de março de 1974. APGCS/HF.

7 Carta do general Affonso de Albuquerque Lima a Geisel, de 7 de junho de 1973.

APGCS/HF.

8 Carta do general Affonso de Albuquerque Lima a Golbery, de 24 de dezembro de
1973. APGCS/HF.

9 Armando Falcão, Tudo a declarar, pp. 19, 41, 83, 88-9, 129, 161 e segs.

10 Um mexerico exemplar de Falcão pode ser encontrado na sua descrição das
circunstâncias da morte do amigo Augusto Frederico Schmidt. O poeta morreu em
1965. Segundo a versão publicada na época, sentiu-se mal quando passava de carro
pelo Aterro do Flamengo, pediu ao motorista que o levasse ao apartamento de seu
amigo Julio Barbero, no Leme, e lá um colapso cardíaco matou-o. Em seu livro de
memórias, Falcão informa que "apurei os fatos, com absoluta segurança", e
estabelece: "Lia o último poema de sua autoria, no Ciclo da Moura, para uma
admiradora platônica". Armando Falcão, Tudo a declarar, p. 194.

11 Qualificativo usado pelo general Gustavo Moraes Rego no seu depoimento em A
volta aos quartéis, organizado por Maria Celina d'Araujo, Gláucio Ary Dillon Soares e
Celso Castro, p. 52.

12 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 29 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
Para os signatários dos telegramas, Jayme Portella de Mello, A Revolução e o governo
Costa e Silva, pp. 664 e 682.

13 Conversa de Golbery com Geisel, 23 de novembro de 1973. APGCS/HF. Nesse almoço
estava o presidente da Câmara dos Deputados, Flávio Marcílio. Ele sugeriu a Golbery

o nome de Falcão para o Ministério da Justiça, e o general lhe disse: "Esse é o nossomestre. É o meu mestre". Depois, contou a conversa a Geisel, como piada.
14 Nota de Heitor Ferreira, intitulada Conversa Heitor Ferreira com Figueiredo, 26 de
Novembro de 1973, 20,35. APGCS/HF.

15 Conversas de Heitor Ferreira com Golbery, 30 de novembro de 1973, e com Geisel,
3 de dezembro de 1973. APGCS/HF.

16 Conversa de Heitor Ferreira com Golbery, 30 de novembro de 1973. APGCS/HF.

17 Ernesto Geisel, março de 1995.

18 Reunião de Geisel com Figueiredo, 9 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

19 Armando Falcão, Tudo a declarar, p. 324.

20 Depoimento do general Moraes Rego, em A volta aos quartéis, organizado por Maria
Celina d'Araujo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro, p. 52.

21 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 29 de janeiro de 1974, e de Geisel com
Golbery, 30 de janeiro de 1974. APGCS/HF.

22 Para o início da remessa dos telegramas e para o fato de Geisel não ter nome para
a chancelaria, Diário de Heitor Ferreira, 26 de março de 1972.


23 Para Nixon, Diário de Heitor Ferreira, 26 de julho de 1972. Para o boicote,
telefonema de Dário Castro Alves a Heitor Ferreira, 21 de novembro de 1973. APGCS/HF.

24 Carta de Dário Castro Alves a Heitor Ferreira, de 7 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

25 Reunião de Geisel com Azeredo da Silveira, 5 de dezembro de 1973. APGCS/HF.

26 Conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 6 de dezembro de
1973. APGCS/HF.

27 Uma folha manuscrita, anotada por Heitor Ferreira: Papel que Veio do Orlando
[Geisel], Letra do Ivan?, datada de 27 de dezembro de 1973. APGCS/HF.

28 Observação de Geisel, numa conversa com Golbery, Heitor Ferreira e Moraes Rego,
de 17 de janeiro de 1974. APGCS/HF.

29 Telefonema de Heitor Ferreira a Adolpho Murgel, 5 de fevereiro; conversa com
Figueiredo, 6 de fevereiro de 1974, e telefonema de Murgel a Heitor, 7 de fevereiro de
1974. APGCS/HF. Duas notas manuscritas de Heitor Ferreira, uma delas datada de 7 de
fevereiro de 1974. APGCS/HF. O pedido relacionava-se com Giacomo Mandarino, ex-
secretário particular de Batista Lusardo.

30 Telefonema de Adolpho Murgel a Heitor Ferreira, 9 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

31 Cinco folhas sem marca de origem. A primeira tem o visto de Geisel. APGCS/HF. Esse
documento veio do SNI.

32 Telefonema de Figueiredo a Heitor Ferreira, 7 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

33 Sete folhas datilografadas, visadas por Geisel e anotadas por Golbery: "Anônimo,
trazido por...". Heitor Ferreira completou: "Vilar de Queirós". APGCS/HF. Numa conversa
com Geisel, Moraes Rego e Heitor Ferreira, de 19 de fevereiro de 1974, Golbery conta
que "a carta anônima não é dele". Menciona que a recebeu de Vilar e a passou para
Geisel, que mostrou a carta ao senador Vitorino Freire. APGCS/HF.

34 Carta de José Maria Vilar de Queiroz a um "prezado senador", visada por Geisel.

APGCS/HF.

35 Armando Falcão, Tudo a declarar, p. 324.


"Esse troço de matar"


De todas as conversas com seus futuros ministros, a mais demorada e
reveladora foi a que Geisel teve com o general Dale Coutinho no dia 16
de fevereiro de 1974, um mês antes da posse. Eram velhos conhecidos,
sem intimidades. Começaram-na tratando de assuntos aparentemente
triviais, como o casamento recente de Coutinho, tirado da solidão da
viuvez por uma senhora vinte anos mais moça. O general contou que
pensara em afastar-se mas decidira pedi-la em casamento.

"Muito melhor você casar do que você ter uma vida irregular",
disse-lhe Geisel.

"Pela minha formação que meus pais me deram, me repelia uma
outra situação que não o casamento. Eu achava injusto, eu gostando
dela, eu não poder apresentá-la, isto é uma humilhação para ela",
respondeu o general.

Passaram à safena de Coutinho. Ele reportou que seguia uma
dieta e fazia exercícios em dias alternados, pedalando uma bicicleta
ergométrica. Levava sua pulsação a 120 em dez minutos. Esgotadas as
duas questões extracurriculares, Geisel convidou-o para o Ministério do
Exército e engatou uma dissertação política. Louvou os êxitos da
Revolução e foi ao tema:

Na área política continuamos com a mesma droga. [...] Todos
nós, de um modo geral, temos uma repulsa ao político, mas o
político é necessário. Nós não podemos ter os políticos só para


dar uma fantasia, quer dizer, não vamos ter o político para
chegar no dia lá e votar no general Geisel ou votar no Medici.
Não é? Ou chegar no dia tal e votar a lei que o governo quer.
Quer dizer, isso tem que evoluir. Eu não vou fazer, eu vou ver se
consigo fazer um esforço para melhorar esse país, tem que
trabalhar nesse sentido. Não vou dar aos políticos o que eles
querem, não vou, não vou me mancomunar com eles, mas vou
viver com eles, eu tenho que viver com eles. Porque senão como
é? Nós vamos, nós temos a outra alternativa, que é ir para uma
ditadura. Então vamos fechar esse troço, vamos fechar
Congresso, vamos fechar tudo isso e vamos para uma ditadura,
que é uma solução muito pior. Não é? Quer dizer, esse é um dos
quadros em que a Revolução, no meu modo de ver a coisa,
fracassou. [...] Ora o sujeito vai conversar com os políticos, ora
dar coice nos políticos, fecha o Congresso, abre o Congresso, e
vivemos nessa porcaria. Temos que ver se melhoramos esse
quadro, vamos ver se a gente consegue melhorar esse partido da
Arena, vamos ver se a gente dá... porque em todo lugar onde
você chega é um saco de gatos. [...]

O general ouvia em silêncio.

Eu, hoje em dia, tenho que pensar, ô Coutinho. Admitindo que
eu consiga governar cinco anos. O que que vai ser nesses cinco
anos? A quem eu vou passar e como é que eu vou passar isso?
Não é verdade? Eu muitas vezes dizia ao Castello, digo: "Não
adianta o senhor estar fazendo lei, isso e aquilo, sem pensar
como vai ser depois". [...] Nós vamos pensar em eternizar esse
quadro que está aí? Não pode. Passaram-se dez anos [...] você
pega, analisa essa nossa Revolução, e você vê que ela foi uma
coisa que eu chamei muitas vezes de arca de Noé, entraram
todos os bichos lá dentro: como ela também não durou na sua
parte operacional, não houve depuração. Você teve como líderes
políticos, teve o seu Lacerda, teve o seu Magalhães Pinto, teve o


seu Adhemar de Barros. [...] Na área militar você teve Justino
Alves Bastos, você teve Amaury Kruel e teve uma série de outros.
Não é? Então aí começou a primeira salada. Acabou o Lacerda se
juntando com Juscelino e com Jango. Não é? O Magalhães
Pinto, que é um grande revolucionário e não sei o quê, era um
sujeito que comia também no cocho do Jango. Foi muito tempo o
homem do Jango. Você pega os outros revolucionários da área
civil, e você repara que eles estão quase todos contra nós. Você
pega o Aliomar Baleeiro, era líder revolucionário, não era? Pega
Adaucto Lúcio Cardoso. Pega o meu amigo Daniel Krieger.
Liberal, porque não sei o quê, porque isso, porque o Ato 5. [...]
Você não conta com essa gente, não é? Esses são piores do que
os outros. Porque eles, por personalismos, por vaidade,
abandonaram o barco, querem fazer bonita figura. Então, você
não pode hoje em dia estar dizendo só: "É revolucionário, não é
revolucionário". Se você for fazer essa triagem, acaba quase
sozinho. [...]

Dale Coutinho foi seco: "Na área política só houve decepções para
mim".

GEISEL: Mas, olha aqui, não houve de nossa parte a preocupação
de melhorar. Não houve. Tanto o governo do Costa e Silva como

o do Medici de certa maneira escorraçaram os políticos, como
sendo uma lepra. Eu posso escorraçar os políticos se eu resolver
não ter mais política. Mas isso não é mais possível. Se nós
queremos ter um regime aberto, democrático no país algum dia,
nós temos é que construir uma política, não é? Agora, isso
evidentemente é um trabalho perseverante de muitos e muitos
longos anos. Não sou eu que vou dizer que em cinco anos eu vou
retomar, mas a gente tem que trabalhar para isso. É um
trabalho difícil, persistente, tenaz. Temos que ser realistas.
COUTINHO: É, se continuar sem uma abertura aí, isso vai ter
que acabar numa ditadura mesmo.


GEISEL: Eu sei, mas e aonde é que vai parar?
COUTINHO: Aí não pára mais.
GEISEL: Inclusive, Coutinho, vamos pôr a mão na consciência.


O nosso Exército tem condição de durar numa ditadura? Com os
nossos homens? Porque os nossos homens, dentro do Exército
tem muita gente boa, mas também tem muita gente que não
presta. Você sabe muito bem disso. Tem de tudo. O Exército é de
certa forma uma representação do que é a nação. Assim como
tem gente boa lá fora, aqui dentro também tem. É claro que nós
temos outra formação. Mas quantas vezes você chega com o
sujeito lá em cima e você começa a ter uma surpresa, o sujeito é
individualista, é personalista. [...] O Exército pode manter uma
ditadura? Eu acho que o Exército pode manter uma ditadura,
mas não a longo prazo. Não dura. Outro setor onde a Revolução
não conseguiu fazer nada e que está aí, continua a mesma
porcaria, é a Justiça. Nós nunca tivemos ministro da Justiça.
Olha aqui, o Castello botou o Milton Campos, um homem de
primeira ordem, liberal. Olha aqui, quem foi ministro da Justiça
durante grande parte do governo Castello fui eu. O Costa e Silva
arranjou um ministro da Justiça que era revolucionário mas era
louco, o seu Gaminha.1 Agora o Medici botou aí um ministro da
Justiça que é o quê? É muito bom sujeito, mas é inoperante. [...]
Você tem problema de padre, que é um problema sério, complicado.
Você hoje em dia tem problema de entorpecente. Você
continua a ter o problema da subversão. Tem uma infinidade de
problemas lá.

A palavra subversão acendeu a loquacidade de Coutinho: "Os
comandantes de exército estão sem um respaldo legal para esse
problema. A verdade é essa. [...] Para a guerra externa a gente tem
legislação, mas para a nossa guerra específica, não temos. Muitas vezes
eu era obrigado a deter um homem por mais de trinta dias. Era ilegal.
[...]".


Geisel contornou o assunto: "Nós temos problemas na área econômica.
[...] O Delfim, querendo fingir que não tem inflação, não deixa os
preços seguir naturalmente. Então, ele agora não quer deixar subir o
preço da gasolina como deve subir. Ele entrou na mentira. Ele está
entrando no sistema do Jango, subsídio [...]".

"Está se voltando ao tempo do Juscelino", observou o general.

Geisel continuou: "Tudo isso é a preocupação de criar a imagem
do Medici. Eu acho que o Medici não precisa disso. Foi o único sujeito
que conseguiu levar a Revolução para o povo. Então ele não precisa
dessa coisa. Mas é a entourage, o Delfim [...]. Hoje em dia existe um
dique represando a inflação, e esse dique vai romper quando eu for
presidente. Então eu sou ruim porque a inflação foi para vinte e tanto.
Mas eu estou aqui para isso, eu sou pago para isso, não é verdade? Eu
não tenho razões personalistas. Não me queixo do Medici".

Seguindo sua pauta, foi ao item seguinte:

Eu não abro mão do Ato 5. O Ato 5 é um cajado. Eu sou besta
de abrir mão desse negócio? Eu sei lá o que que vem. Como essa
história de abertura e descompressão. Ah, eu sou um sujeito
profundamente democrático. Toda a minha vida fui. Eu sempre
fui um homem muito simples, despido de coisas, e cansei de ir
com minha mulher fazer compra na feira. Agora, não sou
nenhum burro de amanhã fazer uma vasta abertura, fingir aí
uma democracia e depois ter que recuar dois, três, quatro
passos. Eu não vou recuar. Eu só vou caminhar para a frente,
devagar, para não ter que recuar, não é? Seria uma beleza eu
chegar: não há mais censura, e agora o troço é vontade, e a
Câmara vota como quer, e não sei o quê. E no dia seguinte está

o estudante fazendo bagunça na rua, está o padre fazendo
meeting, está não sei o quê. Não aconteceu isso com o Costa e
Silva? Quer dizer, o Castello fez uma Constituição, convencido
de que aquilo era para valer, o Costa e Silva na sua boa intenção
quis cumprir, e dali a pouco estava a esculhambação aí. Os

estudantes foram inclusive apedrejar e pintar lá o Tribunal
Militar. Então eu não vou voltar para trás. [...]

COUTINHO: Naquele AI-5, eu estava vendo que o presidente ia cair.
Ia cindir a Revolução.

GEISEL: [...] É evidente. Brincaram tanto com o fogo, mexeram
tanto, tanto, tanto. Ou o governo faz um ato institucional, ou
então isso aqui vai virar bagunça. [...]

COUTINHO: Mas estavam dispostos a fazer com ele ou sem ele.
[...]

GEISEL: Ele fez o AI-5 constrangido como o Castello fez o AI-2
constrangido, também. Porque por tendência eles não fariam,
eles foram quase que obrigados. Agora, eu não quero ser
obrigado. Quando for o caso, eu aplico. Porque se amanhã tiver
um ministro, um desembargador, não sei o quê, salafrário,
fazendo um mundo de bandalheiras por aí, e eu tiver as provas
do troço, eu faço, porque eu tenho o AI-5. [...] Eu vou aplicar é
racionalmente, com moderação e com decência e pronto.

Finalmente, Geisel chegou ao ponto que Coutinho esperava:
"Agora vamos ver [...] o problema da subversão nossa. Bom, eu acho
que a subversão continua. Esse negócio não se acabou. Isto é um vírus
danado que não há antibiótico que liquide com facilidade. Está
amainado. Está resolvido. Você vê, de vez em quando há uma
desarticulação, morre gente, ou é gente presa, ele continua a se
movimentar. [...] E fazem uma propaganda externa tremenda contra o
Brasil".

O general fechou a guarda:"[...] Repare o seguinte. Que antes de
64 não havia propaganda praticamente nenhuma contra nós. E
ninguém mais investia no nosso país. Hoje, com toda essa propaganda
que há, quem tem, quer vir investir no Brasil, que é obrigado a fazer um
estudo mais detalhado sobre o nosso país, ele não titubeia e vem. [...]"

Geisel manteve-se na posição: "Temos que dar valor relativo a
isso".


Dale Coutinho também: "A resposta é o nosso progresso. Porque
isso para mim é coisa de dom Helder, dessa turma progressista por aí.
Eu acho que ninguém que tivesse vontade de empregar dinheiro no
Brasil, tenha deixado de empregar".

Geisel recuou:"[...] o Brasil hoje em dia é considerado um oásis. É
a área mais procurada. [...]".

Coutinho tinha o recado do porão: "E eu que fui para São Paulo
logo em 69, o que eu vi naquela época para hoje... Ah, o negócio
melhorou muito. Agora, melhorou, aqui entre nós, foi quando nós
começamos a matar. Começamos a matar".

Geisel: "Porque antigamente você prendia o sujeito e o sujeito ia lá
para fora. [...] Ó Coutinho, esse troço de matar é uma barbaridade, mas
eu acho que tem que ser".

Dale Coutinho contou sua experiência no IV Exército: "Eu fui
obrigado a tratar esse problema lá e tive que matar. Tive que matar.
Outro dia ainda tive uma satisfação que, no último relatório do CIE, a
origem, o fio, o início da meada dessa guerrilha lá em Xambioá começou
num estouro que nós fizemos em 72 lá em Fortaleza. Foi dali que um
falou que tinha guerrilheiros no norte de Goiás, não sei o quê".

GEISEL: Sabe que agora pegaram o tal líder e liquidaram com ele.

Não sei qual é o nome dele.

COUTINHO: É. O Chicão. Luizão. [Referia-se a Osvaldão, o

guerrilheiro Osvaldo Orlando da Costa, morto semanas antes.]

GEISEL: Bom, o que eu queria assinalar é isso. Nós vamos ter

que continuar ano que vem. Nós não podemos largar essa

guerra. Infelizmente nós vamos ter que continuar. É claro que

vamos ter que estudar [...]* processo, vamos ter que repensar...

* Pedaço de difícil audição. Pode ser "algum processo" ou "um novo processo".
(Continuavam. Exterminavam-se o PC do B no Araguaia e a APML
nas cidades. Havia pelo menos vinte guerrilheiros no mato. Fugiam


como bichos e, quando não morriam na cena da captura, eram
assassinados na prisão. O guerrilheiro Piauí2 foi capturado nesses dias.
Viram-no duas vezes. Numa, amarrado, quando o colocaram numa
camionete. Noutra, com os olhos vendados, quando desceu de um
helicóptero e foi metralhado à beira de um igarapé.3 A matança
continuava também com os que se rendiam. Esse pode ter sido o caso
de Josias.4 Ele sumiu no dia 18 de dezembro, mas, segundo um
relatório da Marinha, só morreu no dia 15 de fevereiro de 1974, véspera
do encontro de Geisel com Dale Coutinho.5 Uma semana depois,
desapareceram no Rio Eduardo Collier Filho e Fernando Santa Cruz
Oliveira. Ambos estudavam direito e milhavam na APML, que nada tinha
a ver com a guerrilha do Araguaia. Teriam sido levados para o DOI de
São Paulo. Estava-se aí no prosseguimento da política de extermínio
das organizações armadas que agiam no meio urbano, iniciada em
1971.)6

Dale Coutinho retomou o fio que perdera minutos antes:

Aí é que entra a Justiça. Eu comandei exército e sofri habeas
corpus em cima de mim. É que os comandantes de exército
estão completamente sem cobertura legal das ações deles. A
gente assume a responsabilidade porque tem que assumir. Eu
me lembro que eu perdi... morreu lá dentro do meu DOI um
homem, foi justamente em cima daquele que veio o habeas
corpus. O homem tinha morrido dentro do meu DOI. E eu tive que
responder. Eu crente que já tinha acabado o negócio com o
Perdigão,7 o relator, um brigadeiro, passaram uns dois ou três
meses veio outro. Agora pior, porque veio em cima de mim e do
meu major-chefe do meu DOI. AÍ eu não deixei ele responder.8

Geisel estava diante de um ministro do Exército que não lhe pedia
diretrizes. Ao contrário, mostrava-se disposto a unificar a doutrina de
acordo com os métodos que empregara no IV Exército. O presidente
eleito retomou o tema da unidade militar:


Nós temos que estudar bem isso. Vamos ver se nós conseguimos
uma certa uniformidade nisso. Eu não tenho... Eu confesso a
você que eu não estudei isso em minúcias. Se nós amolecermos
na ação, não tenha dúvida que isso cresce. Isso é um fogo, está
meio apagado. Se você parar, daqui a pouco ele levanta outra
vez. Agora, neste quadro todo, nós só conseguimos viver esses
dez anos porque nós conseguimos nos unir. As Forças Armadas,
apesar de certos personalismos, certas coisas, nestes dez anos,
elas conseguiram se unir. A técnica da intriga do Juscelino e do
Jango, dessa gente, era nos dividir: era o general do povo, era o
Lott, era isso, era aquilo [...].

Geisel pontilhou o restante da conversa com momentos
fraternais, mas sempre hierárquicos:

Me botaram neste abacaxi, agora vão ter que confiar em mim. Eu
estarei sempre com os ouvidos e os olhos abertos para receber
toda e qualquer crítica. [...]

Nós dois podemos nos entender. A partir desta hora você é um
homem meu. Você bota o seu coração à mostra. Você não crie
compromissos, não avance às vezes certas situações para não
criar dificuldades, porque muitas vezes você pode inocentemente
assumir um compromisso, chega para mim e não pode, aí você
fica mal. Eu nunca vou lhe deixar mal. Agora, para poder haver
isso, você tem que se abrir comigo.

Vocês têm é que ter confiança em mim. [...] Muita coisa que eu
vou fazer, vocês vão achar errado. Mas vocês têm que partir do
princípio que eu estou fazendo porque acho que está certo. E
vocês têm que muitas vezes chegar a mim e dizer: "Olha, chefe,
está acontecendo isso, eu estou pensando isso". E eu vou dizer:
"Não, você não tem razão, ou tem". Quer dizer, a convivência que
vocês têm que ter comigo tem que ser... têm que ter confiança,
têm que acreditar em mim. Agora, têm que ter a franqueza de me
dizer as coisas. Eu não sou dos tais que só quer receber notícia


agradável. Claro que você não vai me dar notícia ruim na hora
que eu vou dormir. Deixa para o outro dia de manhã, para pelo
menos eu dormir à noite tranqüilo. [...] Eu, por exemplo, não sou
do tipo que gosta de ser cortejado [...]. Vou dizer não muitas vezes
a vocês, e vou discutir, e vou ficar veemente.9

Estavam no fim do que Geisel chamaria depois de "três horas de
parola", quando ele disse ao futuro ministro:10 "Coutinho, nós estamos
100% em tudo".

Terminara o treino. Ia começar a quarta Presidência da
Revolução, 21º período de governo republicano. Duraria 1826 dias, de
15 de março de 1974 a 15 de março de 1979.

1 Professor Luiz Antonio da Gama e Silva, ex-reitor da Universidade de São Paulo.

2 Antônio de Pádua Costa, 28 anos, ex-aluno do Instituto de Física da UFRJ.

3 Para a prisão, declarações de José Francisco Dionísio, Salviana Xavier Lima,
Sinvaldo de Souza Gomes, e Adalgisa, José e Pedro Moraes da Silva aos procuradores
Felício Pontes Jr. e Guilherme Zanina Schelb, e "Guerrilha ainda tortura lembranças",
reportagem de Sonia Zaghetto, O Liberal, 5 de junho de 2001. Para a morte, entrevista
de Manuel Leal Lima, o Vanu, em O Globo de 2 de maio de 1996, capa e pp. 8-10 do 1º
caderno.

4 Tobias Pereira Júnior, 24 anos, ex-estudante de medicina.

5 O Globo, 28 de abril de 1996, p. 15, reportagem de Adriana Barsotti, Aziz Filho e
Consuelo Dieguez.

6 Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio, Dos filhos deste solo, pp. 501-2.

7 Brigadeiro Armando Perdigão, ministro do Superior Tribunal Militar.

8 Coutinho refere-se ao caso de Ezequias Bezerra da Rocha. Conversa de Geisel com
Dale Coutinho, 16 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

9 Reunião de Geisel com Dale Coutinho, 16 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.
10 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 16 de fevereiro de 1974.

APGCS/HF.


PARTE III No Planalto


O REGIME É IMPLACÁVEL



A escolha essencial


Geisel entrou no palácio do Planalto com o nome de seu provável
sucessor na mochila. Era o general João Baptista Figueiredo. Seria
exagero dizer que fosse um propósito irremovível, mas em março de
1974 essa era a primeira e principal opção de Geisel. Contavam-se nos
dedos de uma só mão as pessoas que sabiam disso.1

Dois anos antes da posse, Heitor Ferreira já estava convencido de
que o general governaria com um olho no mandato e outro no nome de
seu substituto: "Conhecendo como eu conheço o Dr. Sá, no dia 16 de
março ele já estará preparando a solução, atrás da cabeça".2

Até o final de 1972, o único nome mencionado por Geisel como
seu possível sucessor foi o do general Euler Bentes Monteiro. Pensava
em aproveitá-lo no Ministério do Interior: "Uma excelente posição para
ele para ser o seguinte, no fim dos cinco anos. Eu admito isso".3

Em dezembro de 1973, Geisel via as coisas de outra maneira.
Figueiredo tornou-se "uma das hipóteses de ser o futuro presidente".4
Carregava uma dificuldade: era um simples general-de-brigada, subiria
a general-de-divisão em julho de 1974, mas em 78, quando a sucessão
deveria ser decidida, haveria de lhe faltar a quarta estrela, essencial
para preencher o requisito eleitoral que a ditadura impunha aos seus
candidatos a presidente. Não seria fácil promovê-lo a tempo, e Geisel
achava pouco provável que se conseguisse. Três dias antes da posse,
conversou sobre o assunto com Heitor Ferreira:


Eu estive estudando esses dias muito o Almanaque. [...] Eu vejo
a carreira do Figueiredo retardada. Quer dizer, o Figueiredo não
vai chegar em meados de 78 como general-de-exército. A não ser
que ele desse muita carona. O azar dele é que na frente dele está

o Ayrosa, e está o Walter Pires de Albuquerque, que é outro
amigo dele, e está esse Chupeta, o Hugo Abreu. E são caras que
não devem levar carona. O ideal, se a gente olhar o problema
sucessório, e se esse troço não evoluir para uma outra posição, o
único homem que eu vejo aí em condições de ser o futuro
presidente seria o próprio Figueiredo.5
Na noite de 15 de março de 1974, quando o novo chefe do SNI
entrou na recepção do Itamaraty com seu uniforme de gala, óculos
escuros, quatro medalhas espetadas na túnica, uma faixa sobre o peito,
um par de cruzes penduradas no pescoço e um cigarro (Parliament) na
mão, já era o candidato do presidente que acabara de ser empossado.6

Em julho Geisel o promoveu a general-de-divisão, pensando em
mantê-lo no SNI O tempo suficiente para corrigir o curso do Serviço. Queria
entregar-lhe o comando da Vila Militar do Rio de Janeiro nos primeiros
meses de 1975.7

Desde 1972 Geisel sabia que Figueiredo tinha problemas de
saúde. Conversando com Heitor Ferreira, observara que ele estava
"muito gordo — comida é um derivativo quando se anda agoniado —
tem aquele problema de espinha e também de coração".8 Ele confessava
que seu apetite por costelas gordas, rabadas e coisas do gênero o levava
a engordar um quilo por dia.9 A coluna não o incomodava desde 1969.10
O coração recomendava exames periódicos.

O coronel Americo Mourão, chefe do serviço médico da
Presidência, disse a Geisel que a cardiopatia de Figueiredo era assunto
sério. Indicava que ele já sofrera um enfarte do miocárdio, daqueles que
passam deixando sintomas brandos, como uma dor de barriga.11 Geisel
tinha confiança absoluta em Mourão. Era o médico de toda a sua
família. Oito anos antes, diagnosticara o entupimento do marechal


Costa e Silva.

No final da tarde de 12 de novembro de 1974 o presidente entrou
na sala de Heitor Ferreira e demorou-se na análise do futuro de
Figueiredo: "Tem o complicador que é o problema da saúde. Ah, é o
maior complicador, é o maior complicador de toda a lista. De um lado,
porque eu tenho que poupá-lo, apesar de que isso é extremamente
difícil, de outro lado eu não vou incorrer na besteira do Costa e Silva, de

o camarada estar com problemas, eu sabendo, eu empurrá-lo para a
presidência para ele se matar. Não é verdade? Não vou fazer isso.
Então, estou aí numa [...] angústia danada".12
No dia seguinte Golbery teve uma longa conversa com Figueiredo.
13 Do que conversaram não ficou registro, mas o chefe do SNI passou a
carregar um coração de candidato. Comentou o resultado de seu
eletrocardiograma com o coronel Moraes Rego, garantindo: "Eu nunca
vou ter um enfarte".14

1 Geisel, Heitor Ferreira, Golbery e, meses depois, o próprio Figueiredo, informado por
Golbery.
2 Diário de Heitor Ferreira, 11 de setembro de 1962.
3 Idem, 26 de março de 1972.
4 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 10 de dezembro de 1973. APGCS/HF.
5 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 12 de março de 1974. APGCS/HF.
6 Fatos e Fotos, 1º de abril de 1974, pp. 26-33.


7 Diário de Heitor Ferreira, 15 de junho de 1974.
8 Idem, 2 de fevereiro de 1972. Para uma referência posterior, idem, 12 de novembro
de 1974.


9 Conversa de Figueiredo com Geisel, 9 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.
10 Diário de Heitor Ferreira, 13 de janeiro de 1975.
11 Sete folhas manuscritas de Heitor Ferreira, intituladas Presidente Geisel e HF em


12 de Novembro de 1974 na Secretaria Particular. APGCS/HF. Americo Mourão, fevereiro

de 1998.
12 Sete folhas manuscritas de Heitor Ferreira, intituladas Presidente Geisel e HF em
12 de Novembro de 1974 na Secretaria Particular. APGCS/HF. Diário de Heitor Ferreira, 12
de novembro de 1974.


13 Diário de Heitor Ferreira, 13 de novembro de 1974.
14 Idem, 14 de novembro de 1974.


Um mundo difícil


A casaca é a última instância do fardo do homem público. Geisel vetou

o fraque na cerimônia de posse, mas se conformou com o seu uso na
recepção da noite, no Itamaraty. Reclamava das sessões de prova, e
aprendeu com a irmã a usar no colete os botões de madrepérola do pai.
Um empregado, apelidado de Casaqueiro, vigiou o transporte da ilustre
carga até Brasília. O tenente de 1930 vestiu-a reclamando de um defeito
na gola.1 A de Golbery custou-lhe 5600 cruzeiros (pouco mais de
oitocentos dólares) e ficou pronta em cima da hora. O ministro Quandt
de Oliveira arrependeu-se de ter jogado fora a sua. Heitor Ferreira
trocou-se no guarda-roupa dos agentes da segurança de Medici.
Era a primeira posse com cerimonial desde o desastre de 1967,
quando o marechal Costa e Silva e a República ficaram engarrafados no
caminho para o palácio da Alvorada. Seu Arthur safara-se com os
batedores, mas seus convidados viram-se debaixo de um temporal, até
que alguém teve a idéia de iluminar a pista com um holofote de
artilharia antiaérea, somando pânico ao desconforto. Um embaixador
caíra no espelho-d'água do Alvorada, e muitas senhoras de salto alto
tiveram de escolher entre chegar ao palácio com os sapatos na mão ou
correr o risco de ficar espetadas no gramado do jardim, com as toaletes
arruinadas.

Geisel recebeu a faixa no salão nobre do Planalto e saudou o povo
do alto da tribuna de mármore branco que tem aos pés a praça dos Três


Poderes. Três fotografias da cena indicam que havia pelo menos seis
pessoas na tribuna e, no máximo, sessenta na praça.2

No palácio, umas quinhentas. O mundo em que Geisel governaria
o Brasil era o do choque do petróleo. Se isso fosse pouco, nele o
presidente dos Estados Unidos lutava pela sobrevivência política, um
general tomara o lugar do presidente civil chileno e um civil, o do
presidente militar argentino. A América do Sul estava praticamente
loteada entre generais. No Uruguai mandavam pela mão de um
presidente civil. Na Argentina o caudilhismo peronista renascera nas
urnas. Havia ditaduras velhas, como a do Paraguai, recentes como a
chilena, esquerdistas como a peruana e direitistas como a boliviana.
Alguns personagens dessa história se encontravam na cerimônia.

A AMERICA DE NIXON

Pat Nixon, mulher do presidente dos Estados Unidos e sua
representante na festa, passou pelo Brasil em silêncio. As lembranças
que deixou foram poucas: um vestido rosa, um Cadillac à prova de
balas e um coral do Sesi cantando na sua despedida. Richard Nixon
estava no centro da maior crise constitucional da história americana
desde a Guerra Civil. Raras vezes a biografia de um governante conteve
tensão semelhante à que ele suportara nos dois anos anteriores. Sua
personalidade mesquinha e paranóica produziu o escândalo que moeu a
vida política do homem mais poderoso do mundo.

É um drama que pode ser ilustrado pelos acontecimentos de três
dias:

9 de julho de 1971

Enquanto Carlos Lamarca lia as obras de Mao Zedong em Buriti
Cristalino, no sertão baiano, um Boeing da Pakistan Airlines decolou do
aeroporto de Chaklala.3 Levava secretamente um passageiro de óculos


escuros e chapéu, com cinco acompanhantes. Era o professor Henry
Kissinger, assessor especial da Casa Branca. A bordo encontrou uma
equipe de navegadores, intérpretes e diplomatas chineses. Com eles foi
para Pequim, onde se reuniu com Mao, o Grande Timoneiro. Terminara
uma hostilidade de 22 anos desfazendo-se a macumba que travava a
diplomacia americana na Ásia.

No dia em que Kissinger entrou na Cidade Proibida, o chefe da
Assessoria de Assuntos Internos de Nixon concebeu, em Washington,
uma manobra que, a seu juízo, abalaria a credibilidade da elite
intelectual democrata. Pretendia satanizar como traidor e louco o
cientista político Daniel Ellsberg, que depois de servir na Guerra do
Vietnã e no Departamento de Defesa, entregara ao The New York Times
uma coleção de documentos secretos relacionados com o envolvimento
militar americano no Sudeste da Ásia. Conhecidos como os Pentagon
Papers, tinham exposto a futilidade do conflito.4 Supunham que
Ellsberg guardasse mais informações e queriam inibi-lo. Tentavam
capturar sua pasta no consultório do psicanalista que o atendera. O
serviço ficou sob a coordenação de um ex-agente da CIA que acabara de
ser contratado a cem dólares por dia pela Casa Branca. O consultório
foi invadido, mas não havia pasta no arquivo.5

27 de maio de 1972

Depois de uma viagem triunfal a Pequim, em fevereiro, Nixon
estava em Leningrado, visitando o cemitério Piscarev. Era a primeira
visita de um presidente americano à URSS. Percorreu o monumental
gramado plantado aos pés de uma escultura enorme da Mãe-Pátria,
lembrança dos três anos de cerco nazista que matou de fome 650 mil
pessoas. Mostraram-lhe o diário de Tanya, uma menina de doze anos
que registrou, uma após a outra, as mortes de seus familiares. A última
entrada do caderno dizia: "Morreram todos. Ficou só Tanya". Chorando,
a intérprete informou-o de que ela estava enterrada por perto. Nixon
chegara a um acordo com o Kremlin limitando a produção de mísseis


intercontinentais, e no dia seguinte falou aos russos pela televisão.
Contou a história da menina e pediu um mundo sem Tanyas, no qual
"suas crianças e as nossas, todas as crianças do mundo, possam viver
sua vida em paz e amizade", O chefe soviético Leonid Brejnev disse-lhe
que chorou ao ouvi-lo. Despediram-se com o russo oferecendo a ele o
envio de um qualificado general ao Vietnã para ajudá-lo a negociar a
paz. Nixon deixou um aviso a Brejnev: "O senhor precisa acreditar só no
que eu lhe digo pelo nosso canal privado. Não acredite em mais
ninguém".6 (Ninguém mesmo. O presidente americano conversava com
Brejnev sem testemunhas americanas, valendo-se do intérprete russo.)7

À noite, em Washington, sete pessoas entraram sorrateiramente
no edifício onde funcionava a direção nacional do Partido Democrata.
Chamava-se Watergate. (O ex-agente da CIA que tentara roubar a pasta
de Ellsberg estava no lance.) Carregavam maletas com equipamento
para a instalação de escutas clandestinas. O arrombador não conseguiu
abrir a porta do escritório, foi a Miami buscar ferramentas, e no dia
seguinte as coisas deram certo. Gastaram-se dois filmes fotografando
documentos, e plantaram-se transmissores nos telefones do presidente
e do coordenador dos comitês estaduais do partido. Só um funcionou,
rendendo perto de duzentas gravações. Quando o material foi
examinado, decidiu-se reanimar o grampo morto. A equipe recebeu
ordens para voltar ao prédio.

17 de junho de 1972

Dos sete visitantes do Watergate, voltaram cinco. Às duas e meia
da manhã estavam no meio do serviço quando foram presos. Richard
Nixon descansava na casa de um amigo, na Flórida. Leu uma pequena
notícia no jornal, mas não lhe deu importância. Desse dia a única
providência que ficou na sua memória foi um telefonema à Casa Branca
para descobrir onde poderia achar John Connally, ex-secretário do
Tesouro. Ele deixara o cargo e partira numa viagem semi-oficial ao
redor do mundo. Passara pelo Brasil uma semana antes.


O Império Americano estava financeiramente frágil. Tinha as
contas públicas desorganizadas. Pior: enquanto suas reservas de ouro
estavam em 14 bilhões de dólares, havia 300 bilhões de dólares-papel
entesourados nas reservas de outros países. Em 1971 os Estados
Unidos fecharam o ano com déficit comercial, coisa que não acontecia
desde 1893. Nixon enfrentou as dificuldades formulando uma Nova
Política Econômica. Desvinculou o dólar do padrão-ouro. Quem tivesse
nas mãos 35 daquelas notas verdes, passaria a ter apenas 35 notas
verdes, e não mais o compromisso da águia americana de trocá-las por
28 gramas de ouro. Desvalorizou a moeda duas vezes em pouco mais de
um ano, derrubando-a em 15%.8 Caducara a ordem monetária criada
no após-guerra. O Império, que parecia encurralado, recuou para
reorganizar sua fortaleza.

Em janeiro de 1973, quando Richard Nixon foi novamente
empossado na presidência dos Estados Unidos, Watergate deixara de
ser nome de edifício para designar um escândalo político, mas ainda
assim se contavam nos dedos das mãos as pessoas que viam no
acontecimento uma ameaça ao previsível esplendor de seu segundo
mandato. Aos 59 anos, Nixon tivera uma das maiores vitórias do século,
com 61% dos votos populares e 97% dos votos eleitorais. Sabia que o
Caso Watergate começara na Casa Branca e que tentara acobertá-lo,
mas acreditava que tudo se resumia a "um problema de relações
públicas, que precisava apenas de uma solução de relações públicas".9
Dois dias depois anunciou a saída das tropas americanas do Vietnã,
que resultaria na posterior reunificação do país, sob domínio
comunista.

Aos poucos, aquilo que parecia um êxito se dissolvia em
irrelevância, e um episódio considerado irrelevante foi se tornando a
maior desgraça já sofrida por um presidente americano. De um lado,
Nixon tinha do que se orgulhar: pela primeira vez em dezoito anos os
Estados Unidos estavam em paz com o mundo. De outro, o Senado
instalou uma comissão para investigar o Watergate. De um lado, sua
popularidade chegara a 60%, contra 20% para o Congresso.10 De outro,


os sete grampeadores do Watergate se declararam culpados à Justiça, e
seis deles foram condenados a penas que variavam de vinte a quarenta
anos de prisão, ressalvada a possibilidade de elas serem reduzidas na
hipótese de que contassem o que sabiam. Alinha de defesa do governo
mais poderoso do mundo recuou gradativamente. Primeiro se admitiu
uma relação entre os arrombadores e funcionários da Casa Branca.
Depois se reconheceu que três dos principais assessores de Nixon, entre
os quais seu chefe-de-gabinete e o consultor jurídico da presidência,
não podiam continuar nos cargos. A cada recuo, a imprensa, o Senado
e a Justiça pegavam novos fios da meada. Não estava mais em questão
a cumplicidade com os arrombadores, mas o fato de o presidente dos
Estados Unidos ter mentido para acobertar um crime.

Era esse Richard Nixon que Pat carregava nos ombros quando
enfeitava a posse de Geisel. Filha de um plantador de repolhos e
legumes no deserto da Califórnia, passara a infância na miséria, criada
numa casa sem água corrente nem eletricidade. Dormia num vão de
corredor.11 Era uma mulher frágil na aparência, dotada de uma
inesgotável capacidade de dissimulação: "Se eu tenho uma dor de
cabeça, ninguém fica sabendo. Se eu estiver morrendo, não deixo
ninguém saber". Era sonâmbula, afora isso nada tinha de excepcional.12
Dias antes de ela chegar a Brasília, a Câmara de Representantes
começara a discutir o impedimento de Nixon. Era a derrocada. O
presidente, que não tomava remédios, nem mesmo vitaminas, já fora
derrubado por uma pneumonia. Sua popularidade caíra para 29%, o
índice mais baixo desde a década de 30, quando o Instituto Gallup
começou a medir o tamanho da alma pública dos presidentes
americanos. Três ex-ministros e dois conselheiros pessoais do
presidente estavam no banco dos réus. Enquanto Pat circulava em
Brasília, Nixon repetiu em Chicago, pela enésima vez, que não
renunciaria.

Geisel recebeu-a duplamente contrariado, num suspiro da
agenda, no meio da recepção noturna. Achava impertinente o fato de o
presidente dos Estados Unidos mandar sua mulher representá-lo era


atos oficiais e indelicado ela ter vindo para a festa do presidente
brasileiro numa perna da viagem que fizera à Venezuela, para a posse
de Carlos Andrés Pérez. Quando o Itamaraty estava montando o
programa da cerimônia, ele avisara: "Vai ver quem vai pajear a dona
Pat, porque ela vai querer ir num asilo ver crianças e minha mulher não
vai fazê-lo. Ela não vem como mulher, vem como chefe da delegação
americana".13 Recusou-se a incluí-la no almoço que daria aos chefes de
Estado.14 Heitor Ferreira brincou: "É a Isabelita deles".15

Pat Nixon fez sucesso. Na solenidade do Planalto só perdeu em
popularidade para Pelé. Visitou as crianças da Casa do Pequeno Polegar
e meteu-se numa gafe quando a embaixada distribuiu uma nota em que
dizia: "Quando estive no Brasil na última vez, assistindo, juntamente
com meu marido, à posse do ex-presidente Juscelino Kubitschek,
Brasília era somente um sonho". JK e seus sonhos não eram bem-vindos
na cidade dos generais. Reescrita, a nota limitou-se a lembrar "as
cerimônias de inauguração de Brasília".16

A lua-de-mel da Casa Branca com a ditadura brasileira mudara
de qualidade. A destruição da experiência socialista chilena e o golpe de
Banzer na Bolívia haviam mitigado as dificuldades americanas. A
entrada de Perón em Buenos Aires adicionara riscos a uma excessiva
fraternidade de Washington com Brasília. Geisel vira um tom de
capitulação na viagem de Nixon à China.17 O general não tinha maiores
simpatias pelo presidente americano — como de resto por nenhum de
seus antecessores ou sucessores. Resignava-se: "Os fatos lá de fora nos
comandam. Não há nada que se possa fazer para controlá-los. Se o seu
Nixon administra mal, e há inflação lá, nós pagamos aqui".18 Em termos
econômicos Nixon estava nas cordas. Fechara 1973 com um modesto
saldo comercial e reduzira o déficit do balanço de pagamentos à metade,
mas produzira uma inflação de 8,9%, a maior dos 25 anos anteriores.19

O novo governo brasileiro e a administração americana já tinham
conversado, longe das audiências públicas. Uma semana antes da
posse, Golbery e Heitor Ferreira almoçaram numa sala do Banco
Cidade, com Steve Creane e Wilfred (Bill) Koplowitz. Um, veterano


funcionário da Central Intelligence Agency, a CIA, conhecido dos dois
desde o governo Castello, chefiava a estação da companhia no Rio de
Janeiro. O outro mandava na de Brasília.20

Noutro nível, passara pelo Rio o professor americano Samuel
Huntington, autor de um estudo clássico sobre o poder militar,
emissário informal do secretário de Estado Henry Kissinger, de quem
fora colega na Universidade Harvard. Tinha hora marcada com Golbery.
O professor ganhara alguma notoriedade no Brasil um ano antes, ao
entregar ao governo um documento em que propunha uma política de
"descompressão" para a ditadura. Sua proposta tinha um leve sabor
mexicano e recomendava que o Brasil, "sendo uma ditadura sem
ditador, tenha uma descompressão sem descompressor". Ao contrário
da propaganda do Milagre, Huntington alertava para os riscos políticos
despertados pelo processo econômico: "A triste lição da História é que,
durante esses períodos, tanto os que se beneficiaram melhorando de
vida, como os que pioraram, ficam mais insatisfeitos psicológica e
politicamente".21 Golbery guardara má lembrança do trabalho sobre a
descompressão, chamando-o de "pedestre".22

O general preparou-se para o encontro. Conversou com Geisel,
recebeu um roteiro de recomendações compiladas por Heitor Ferreira,
fez suas próprias observações e sentou-se com o professor. Tramitando
fora dos canais diplomáticos, tão ao gosto de Kissinger e do estilo de
Golbery, o recado era claro. O governo queria preservar a aliança com
os Estados Unidos, desde que a Casa Branca entendesse que a relação
entre os dois países não cabia numa generalização latino-americana,
pois "não nos interessa ser nivelados ao Uruguai". Informava também
duas alterações de curso: o Brasil realinharia sua posição no Oriente
Médio e na África. No primeiro, "vamos na linha árabe". No segundo,
relacionado com o apoio que se dava à política ultramarina de Portugal,
"tiramos o chapéu para a mãe-pátria, [mas] vamos mudar a política nas
colônias".23 Em ambos os casos, a mudança decorria da garantia de
fornecimento de petróleo. Geisel se assustara com a possibilidade de
um boicote árabe e se tornara um crítico do que considerava um apoio


gratuito do Brasil a Israel. Além disso, guardava uma irredutível
antipatia pela criação do Estado judeu: "Francamente, eu era muito a
favor dos árabes. Eu achava que o judeu era um intruso. Quer dizer,
não é o fato de há dois mil anos atrás aquela terra ter sido deles, que
hoje em dia devesse ser. Os romanos, os italianos também podiam
reivindicar. Houve época em que aquilo foi dos romanos, dos italianos.
Aquilo foi uma política do inglês, secundado por Wall Street".24

Referindo-se à política de Nixon, dizia: "Ele está cheio de petróleo,
resolve dar armas e bilhões de dólares para Israel. E o resto do mundo
que se fomente? O japonês que se arrase, o Brasil que se esbandalhe?".

Geisel queria que o governo americano influísse na banca para
que ela emprestasse mais, em melhores condições e com prazos longos
ao Brasil. O mundo começava a ser inundado pela maior transferência
de capitais já ocorrida em época de paz. A dívida externa brasileira
estava em 10 bilhões de dólares, e os empréstimos eram feitos quase
sempre por quinze anos, contra uma praxe internacional de apenas
oito.26 O dinheiro tomado em São Paulo ao Citibank de Nova York saía
de 5% a 20% mais barato que o do mercado nacional.27 A Secretaria do
Tesouro acabara de eliminar as restrições para que os bancos
americanos emprestassem no exterior. Sugeriu também às grandes
casas bancárias que colocassem no Terceiro Mundo boas quantidades
dos depósitos feitos pelos sheiks empanturrados de dinheiro. Eram os
"petrodólares", recursos que os países exportadores de óleo passaram a
receber, sem saber onde pôr.

Golbery passou a Huntington a preocupação de Geisel com o risco
de o governo americano criar barreiras tarifárias às exportações
nacionais. Dois anos antes, quando Nixon massageou o ego da ditadura
afirmando que o Brasil determinava os rumos da América Latina, Geisel
condenou a "mania de se dizer que o Brasil é potência": "A nós
importaria se os Estados Unidos comprassem 400 mil pares de sapatos
ou decidissem comprar só o nosso café".28 O professor registrou a
preocupação, mas explicou que nessa área a Casa Branca pouco tinha


a fazer.29 Semanas depois os americanos impuseram sobretaxas às
exportações brasileiras de calçados. Ao receber a notícia, Geisel decidiu
que não visitaria os Estados Unidos enquanto vigorassem sobretaxas
aduaneiras contra produtos nacionais.30

Huntington passou os recados a Kissinger e presenteou Golbery
com um livro de Gerald Ford, o vice-presidente de Nixon. O professor
achava-o "fraco, porém confiável".31

A BOLÍVIA DE BANZER

Banzer, ou El Petiso, era o xodó da diplomacia militar brasileira.
Numa carta a Richard Nixon, Medici chegara ao ponto de interceder
pelo colega, para que o presidente americano o ajudasse.32 O boliviano
tomara o poder aos 45 anos, em 1971, no oitavo golpe militar desde 64.
Com um pedaço da carreira feita nos Estados Unidos e na Argentina, e
a vida política armada na região de Santa Cruz de La Sierra, cuja
próspera economia estava associada a interesses brasileiros. Fazia
tempo que Banzer se tornara o golpista de plantão.

Derrubara o general Juan José Torres na segunda tentativa. Na
primeira, em janeiro de 1970, os conspiradores pretendiam tomar o
palácio e duas rádios. Tomaram o estado-maior do exército, mas foram
dominados. Um major e seis capitães negociaram a paz e se asilaram na
embaixada do Brasil, bateram pique em São Paulo e retornaram
clandestinamente ao país.33 O SNI intermediou o pouso de um avião
militar brasileiro com armas para os conspiradores de Santa Cruz.34
Expulso da Bolívia por Torres, o ex-embaixador brasileiro Hugo
Bethlem, general da reserva, acusara-o de planejar "o imediato
estabelecimento de uma ditadura socialista na Bolívia, com ajuda direta
do comunismo soviético".35 Em agosto de 1971 Torres desembarcou
como asilado em Buenos Aires, e Hugo Banzer entrou no palácio de La
Paz. Assim a burguesia cruceña produziu seu primeiro presidente.

Colaborando com a nova ordem, o coronel José Maria de Toledo


Camargo, segundo homem da máquina de propaganda palaciana de
Medici, foi mandado à Bolívia em missão secreta, com um passaporte
falso em nome de José Manoel Torres Correa para lustrar a imagem do
governo de Banzer. "Uma verdadeira comédia", nas palavras do próprio
Camargo. Assinou nota de restaurante com o nome verdadeiro,
encabulou-se rejeitando marafonas e se constrangeu fingindo ser Torres
Correa durante um jantar na casa do embaixador brasileiro em que
diversos convidados sabiam perfeitamente quem era.36

Durante o governo de Banzer a Bolívia servira de trilha para o
contrabando de armas de militares chilenos que conspiravam contra
Allende em bases montadas no meio empresarial americano-brasileiro.
Afora as afinidades políticas, o general queria vender petróleo ao Brasil
e, desde 1938, o Brasil queria controlar as reservas de gás natural da
Bolívia. Enquanto esteve na Petrobrás, Geisel complicou a compra de
óleo boliviano pois custava mais que o árabe.37

Depois de se reunir com Geisel, El Petiso deixou uma lista miúda.
Queria negociar um gasoduto e se contentava com coisa modesta na
área química. Parecia mais interessado em conseguir 50 milhões de
dólares e, no mínimo, dois aviões para transporte de tropas.38 Levou os
aviões.39 Pelos canais da Comunidade de Informações, o SNI estava
cuidando de remeter 750 capacetes de combate a La Paz.40 Meses mais
tarde Banzer pediria um lote de granadas, para serem pagas em vinte
anos com dez de carência e juros de 5% ao ano.41

O URUGUAI DE BORDABERRY

Dos três ditadores latino-americanos que vieram à sua posse, o
que melhor impressão deixou em Geisel foi o estancieiro uruguaio Juan
Maria Bordaberry.42 Tinha 45 anos, era civil, chegara à presidência pelo
voto e tinha um temperamento reservado. Desde junho de 1973,
quando o exército fechara o Congresso e suspendera as liberdades
públicas, Bordaberry se tornara uma figura decorativa, mas


desempenhava o papel com gosto, pois contribuíra para o desfecho
ditatorial da crise.

Os conflitos latino-americanos sempre tiveram algo de
espetacular, mas nos cinco anos de duração da agonia do regime
democrático uruguaio o componente de teatralidade mórbida adquiriu
níveis inéditos. Pela esquerda, os Tupamaros, com 3 mil militantes,
fizeram coisas nunca vistas e até mesmo difíceis de imaginar. Suas
ações, iniciadas em 1968, eram românticas, vingativas, pirotécnicas.
Eles assaltaram um cassino e devolveram as gorjetas dos crupiês pelo
correio.43 Depenaram a mansão de um plutocrata e divulgaram que nela
havia 400 mil dólares em dinheiro e barras de ouro.44 Incendiaram o
prédio da General Motors e explodiram a sede do Montevideo Country
Club.45 Praticaram o maior roubo de jóias dos tempos modernos,
levando o equivalente a 6 milhões de dólares da caixa-forte de um
banco.46 Seqüestraram o cônsul brasileiro e o embaixador inglês.
Assassinaram um policial americano e um coronel acusados de torturar
presos.47 Expuseram a conexão brasileira do terrorismo de direita
uruguaio divulgando a confissão de um policial seqüestrado. Agentes
metidos com explosões e assassinatos tinham feito cursos no Brasil e
retornado ao Uruguai com armas que repassaram a um grupo
paramilitar.48

O maior espetáculo tupamaro foi a fuga, por um túnel, de 106
presos do presídio de Punta Carretas em setembro de 1971. O Estado
uruguaio, que parecera inerte diante da audácia tupamara, entregou o
caso aos militares. Em três meses o terrorismo de esquerda estava
desarticulado.49 No final de 1972 havia na cadeia 2600 pessoas.

Se houve uma teatralidade no terrorismo, correspondeu-lhe outra
na repressão. Até certo ponto a ditadura uruguaia assemelhava-se às
demais. Proibiram-se as reuniões políticas, censurou-se a imprensa, e
se loteou a administração pública para a oficialidade. O exército que em
1967 se recusara a treinar oficiais em técnicas antiguerrilheiras, em 73
assenhoreou-se, pela primeira vez na história, de verbas superiores às
destinadas para a educação.50


A ditadura uruguaia começou a se tornar típica quando se
autodenominou um regime "cívico-militar". Dias antes da chegada de
Bordaberry a Brasília uma nova Lei Orgânica das Forças Armadas
informava que "o Estado Militar impõe: obediência, sacrifício,
estoicismo, rigorismo, renúncia em prol da eficácia e continuidade do
serviço".51 Os cidadãos haveriam de ser divididos em três categorias: A,
B e C. Um A podia trabalhar no serviço público, mas um C, indigno da
confiança do regime, nem numa empresa privada podia entrar sem
causar embaraço ao patrão. Os militares supervisionavam até mesmo
as escolhas de capitães de times de futebol.52 O principal presídio da
ditadura chamou-se La Libertad. Os prisioneiros políticos foram
transformados em cobaias de vingança e de experiências psiquiátricas.
Ao banimento dos textos freudianos nas universidades correspondeu
um experimentalismo behaviorista nos cárceres. Nas palavras do
principal psiquiatra do regime, "a guerra continuava na cadeia [...] a
cada dia, a cada regra, tudo fazia parte de um plano para fazê-los sofrer
psicologicamente".53 Criavam-se ambientes instáveis, onde aquilo que
era privilégio num dia virava delito no outro. Punia-se com um mês de
solitária um gesto paternal de afeto durante a visita das crianças (nove
horas por ano).54

Maurício Rosencof, teatrólogo de 38 anos, fundador dos
Tupamaros e negociador da ajuda de Fidel Castro ao movimento, foi
preso em 1973 e torturado por nove meses. Ficou onze anos na prisão,
durante os quais calcula que não enxergou a luz do sol por mais de oito
horas. Soube do golpe chileno com três anos de atraso. Nunca viu o
rosto de outro prisioneiro, viveu em celas de três metros quadrados,
perdeu a noção das cores e freqüentemente teve de matar a sede com a
própria urina.55 Resistiu sonhando passeios. Quando era chamado para
as sessões de tortura, se lembrava da filha, dos judeus do gueto de
Varsóvia, e recitava: "Eu sou os que foram".56

Antes da ofensiva militar, quando os Tupamaros ainda metiam
medo, o ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, expôs a um grupo de
convidados que reuniu à mesa no Jockey Club a possibilidade de um


conflito militar "com um país do Sul". Seria algo como o surgimento de
uma legião estrangeira atravessando o Chuí. Um dos comensais
associou essa eventualidade a uma inevitável prorrogação do mandato
de Medici. Três semanas depois a conversa estava nos ouvidos de
Golbery.57

As duas ditaduras se entendiam. O presidente americano Richard
Nixon contara ao primeiro-ministro britânico Edward Heath que os
brasileiros ajudaram a fraudar a eleição que levara Bordaberry à
presidência.58 No meio das tropas que ocuparam as ruas de Montevidéu
durante o golpe de junho, havia veículos militares brasileiros, parte de
um lote de trezentos, remetidos numa transação de governo para
governo.59 Geisel, que em 1971 não levara a sério os planos de invasão
do Uruguai pelos soldados do III Exército, se equipou para proteger a
nova ordem, caso ela precisasse de combustíveis da Petrobrás para
dobrar uma greve das refinarias.60 As duas polícias colaboravam, e as
cidades fronteiriças se tornaram uma espécie de zona de livre captura.
Em outubro de 1972, Adamastor Bonilha, veterano do PC do B e da
guerrilha de Caparaó, manco de tantas surras, conseguiu escapar a
uma patrulha brasileira que foi caçá-lo na cidade uruguaia de Rivera.61

Bordaberry veio e voltou com uma agenda leve. Trouxera duas
preocupações: um projeto de hidrelétrica para o rio Jaguarão —
destinado a irrigar terras de cultura de arroz — e, sobretudo, a falta de
freguesia para suas exportações de carne, que tinha levado os
estancieiros a suspender os abates.62 Três meses depois, o Brasil
comprou um pedaço do estoque uruguaio, e o próprio Bordaberry fez
chegar a Geisel um agradecimento formal.63

O CHILE DE PINOCHET

Augusto Pinochet, chefe da junta militar que governava o Chile,
chegara na véspera. Em sua primeira viagem ao exterior, era um
hóspede constrangedor. Ótimo que existisse, preferível que não tivesse


vindo. Tinha 58 anos, e foi percebido no dia 11 de setembro de 1973,
quando comandou a rebelião militar que derrubou o governo do
presidente Salvador Allende. A experiência neo-socialista chilena durara
mil dias, arruinara a economia e dividira a sociedade. O palácio
presidencial foi bombardeado sete vezes pela aviação, atacado por
tanques e invadido pela tropa no início da tarde. Allende foi encontrado
num salão, sobre um sofá de veludo vermelho, com a cabeça
destroçada. Matara-se com uma submetralhadora soviética. Nela fora
gravada uma dedicatória: "Para Salvador, do teu companheiro de
armas, Fidel Castro".64 Em 1967 o Che Guevara jogado numa cova à
beira do campo de pouso de Vallegrande significara o fim da experiência
do guerrilheiro heróico. Em 1973, com Allende, acabara-se o caminho
eleitoral para o socialismo. Retirado do La Moneda num poncho, o
presidente foi sepultado em caixão lacrado num túmulo sem inscrição.
A palavra Pinochet designava muito mais uma modalidade de repressão
política do que aquele general de rosto fechado, bigodes grisalhos e
olhos azuis, duas vezes recusado pela Academia Militar (uma por baixo,
outra por magro). Fizera uma carreira comum e se comprometera com o
golpe 48 horas antes da revolta. Entre o momento em que foi disparado

o primeiro tiro contra o La Moneda e o instante em que o cadáver de
Allende deixou o palácio, Pinochet comportou-se como um chefe militar
audacioso e violento.65 Descontando-se sua saúde de ferro, era um
Costa e Silva que vinha dando certo. Ainda assim, havia alguma
insegurança acerca da extensão de seu predomínio e da durabilidade de
seu poder pessoal. Heitor Ferreira resumira essa sensação no diário:
"Assumiu uma junta de 4. Vamos ver. Por enquanto manda o general
Pinochet".66
Prenderam-se 45 mil pessoas. Ministros do governo deposto
foram mandados como "prisioneiros de guerra" para a base militar de
Dawson, no estreito de Magalhães, tendo sido submetidos a trabalhos
forçados e ginástica na neve. Sete mil presos foram trancados no
Estádio Nacional de Santiago, onde Garrincha ganhou a Copa de 1962.

Panfletos e comunicados radiofônicos pediam que caçassem os


forasteiros que haviam confluído para o país em busca de proteção,
prestígio ou proezas. "Não se terá compaixão dos estrangeiros que
vieram matar chilenos."67 José Serra, ex-presidente da UNE, que vivia no
Chile desde 1965 como economista da CEPAL e, mais tarde, professor da
Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, a Flacso, e
colaborador bissexto de Allende, foi levado para o estádio. Preso em
outubro, foi libertado dois dias depois graças a uma gestão do
embaixador sueco junto ao major encarregado da triagem. Esse oficial
se chamava Ivan Lavanderos, era um esquerdista assumido, e já soltara
outros prisioneiros a pedido do diplomata. Quando sua tolerância
(aliada à sua conhecida militância) chegou ao conhecimento do coronel
que comandava os interrogatórios, fuzilaram-no.68 Túlio Quintiliano, um
ex-militante do PCBR, foi entregue à tropa por vizinhos e desapareceu no
dia 13 de setembro. O físico Luiz Carlos Almeida foi fuzilado às margens
do rio Mapocho.69

O ex-sargento José de Araújo Nóbrega, veterano do ataque ao QG
do II Exército e do confisco do cofre de Adhemar de Barros, era
conhecido como Sete Vidas. Escapara do cerco da base de Itapecerica
da Serra e já fora dado por morto e sepultado depois de um tiroteio no
Rio. Foi retirado do Estádio Nacional com as mãos amarradas com
arame. Três anos antes, capturado na guerrilha do vale do Ribeira, vira-
se diante da mira de um coronel que ia executá-lo e, certo de que
morreria, gritara "Viva a Revolução". No vale do Ribeira a execução era
teatro.70 Em Santiago puseram-no num ônibus com outros presos,
levaram-nos para a periferia da cidade, mandaram que corressem e os
metralharam. Sete Vidas tomou dois tiros de raspão na cintura,
machucou o pé, pulou de um barranco, caiu num charco, fingiu-se de
morto e esperou algumas horas para procurar abrigo.71

As embaixadas que recebiam perseguidos estavam lotadas. Na do
Panamá, um pequeno apartamento, entraram 364 asilados. O
embaixador panamenho estendeu a extraterritorialidade de sua
representação à casa do economista Theotonio dos Santos, protegendo
dezenas de brasileiros.72 No palacete da Argentina, havia setecentos


asilados, 120 eram brasileiros.73 Na do Brasil, ninguém. Chefiava-a o
embaixador Antonio da Câmara Canto, um gaúcho famoso no Itamaraty
pela severa sinceridade e, nos postos por onde passou, pelas
habilidades como cavaleiro. Pinochet o associava ao comportamento da
diplomacia brasileira no dia do golpe: "Ainda estávamos disparando,
quando chegou o embaixador e comunicou-nos o reconhecimento".74 (A
Casa Branca só normalizou suas relações com a junta treze dias
depois.) No meio da tarde do dia 11, Câmara Canto festejava atendendo

o telefone com a notícia: "Ganhamos".75 Era um golpista militante. Em
março, durante um almoço com o embaixador americano Nathaniel
Davis, convidara-o para trabalharem juntos pela deposição de Allende.76
A essa altura a organização ultramontana e terrorista Patria y Libertad
contrabandeava armas valendo-se de contatos no Brasil e na Argentina.
77 A própria CIA detectou uma conexão financeira entre os conspiradores
chilenos e o empresariado estabelecido no Brasil.78 Meses mais tarde,
quando a Patria y Libertad se meteu num putsch, Câmara Canto asilou
um de seus dirigentes.
É verdade que nem mesmo o medo levava a diáspora esquerdista
de Santiago a confiar na embaixada, mas dela não partiu sinal de
piedade para com os brasileiros perseguidos. Nos dias seguintes, foi
negado um salvo-conduto para que a companheira do ex-capitão da PM
paulista Vânio José de Matos, morto no Estádio Nacional, deixasse o
país, com a concordância da junta e sob a proteção das Nações Unidas.
79 A ditadura só tinha interesse nos mortos. O Centro de Informações da
Aeronáutica informava à Comunidade que quatro banidos tinham sido
mortos. Um deles era José de Araújo Nóbrega, o Sete Vidas, que vivo
continuava.80

Havia regozijo pela virada chilena. Em seu escritório da Dow, o
general Golbery dizia: "Não se faz omelete sem quebrar ovos".81 Para
ajudar a quebrá-los, quatro aviões militares brasileiros desceram em
Santiago ainda quando as fronteiras do Chile estavam fechadas.
Oficialmente, levavam remédios e comida.82 José Serra, naquela altura
preso no Estádio Nacional, ouviu carcereiros falando português.83 Um


acidente burocrático fez com que 26 anos depois saísse de sua pasta do
DOPS paulista um bilhete dos dias em que viveu asilado na embaixada da
Itália em Santiago. Continha trechos da ficha dele e concluía: "Como
vês, trata-se de 'boa gente', que bem merece ser 'tratado' pelos
chilenos".84

Para Pinochet a visita ao Brasil servia como uma tênue
demonstração de que furava o isolamento internacional. Associava-se à
milagrosa ditadura brasileira, que, bem ou mal, tinha prestígio. O
regime chileno encerrara o ano com 1500 mortos e 7 mil exilados.85
Fechara o Congresso, banira os partidos e cancelara qualquer tipo de
eleição, até mesmo para a indicação das diretorias de associações
esportivas. Dois mortos o acompanharam na viagem. Na véspera de seu
embarque os chilenos souberam que o general Alberto Bachelet, diretor
do sistema nacional de abastecimento durante o governo Allende,
desaparecido desde o golpe, sucumbira a um ataque cardíaco na cadeia
pública de Santiago.86 No dia da posse de Geisel, veio a notícia de que o
ex-ministro da Defesa José Tohá se enforcara na prisão da ilha de
Dawson.87

Aquilo que podia parecer uma exposição desnecessária foi um
gesto de astúcia de Pinochet. Ele visitou Brasília e o Rio de Janeiro com
todas as honras de chefe de Estado e sem as aporrinhações de ditador.
Ainda obrigado a partilhar poderes com os outros três comandantes da
junta, tirava partido da sua condição de representante da nação,
chegando inclusive a forçar uma reunião com o presidente boliviano
Hugo Banzer. Afora o espetáculo, Pinochet não tinha agenda, e da
audiência com ele Geisel registraria poucas linhas: "Pede constituição
de uma comissão de alto nível para estudar todas as questões, não só
econômicas, que devem servir para incrementar as relações com o
Brasil".88

A grande colaboração chilena já estava consumada. Os
documentos da Associação Chileno-Brasileira de Solidariedade, que


funcionava em Santiago, foram capturados e levados para a Agência
Central do SNI. 89 A diáspora brasileira sofreu em 1973 uma nova derrota
de seus sonhos. Até 1969, dividida entre a Europa e o Uruguai, ela fora

o exílio da radicalização do regime de 46, desterro de João Goulart,
Leonel Brizola e Darcy Ribeiro. A partir de 1969, mudara de qualidade.
Era formada por revolucionários dispostos a combater pelo socialismo
retornando ao país ou mesmo fazendo a Revolução Chilena. Era o
desterro de Onofre Pinto, dos sargentos da VPR e dos dólares do cofre de
Adhemar de Barros, dos banidos e dos combatentes da ALN. Perdida a
base operacional de Santiago, essa diáspora se espalhara pelo mundo,
buscando apenas abrigo. Como registrou Herbert José de Souza, o
Betinho da AP, deu-se um "salve-se-quem-puder e embarque para onde
possa". (Ele embarcou para o Panamá e, de lá, refugiou-se no
Canadá.)90 No inverno europeu de 1973, os brasileiros deixaram de ser
os exilados-combatentes que vinham da VPR e da ultra-esquerda chilena,
como Ângelo Pezzuti, ou da central cubana, como Chizuo Osava, o
Mário Japa. Na Europa, tornaram-se simples refugiados, protegidos pelo
Alto Comissariado da ONU. No campo de refugiados de Alvesta, na
Suécia, para onde foram mandados alguns brasileiros, havia cerca de
mil. Uns vinham de Uganda e de Bangladesh. Outros, do Leste europeu
ou da Turquia. Quase todos migrantes econômicos. Terminara a viagem
dos codinomes. Elisa e Diogo de Santiago, que haviam sido Márcia e
Honório do seqüestro de Elbrick, voltaram a ser Vera Sílvia Magalhães e
Fernando Gabeira. Ele, motorneiro de metrô em Estocolmo. Ela, vendo
o tamanho da mudança: "Até então o exílio era uma coisa transitória.
[...] Foi na embaixada da Argentina, no Chile, que me identifiquei como
Vera Sílvia. Aí, tive a visão de que ia ficar muito tempo no exterior".91
"Nosso estatuto legal era o de apátridas", registrou Maria do Carmo
Brito, a Lia da VPR, assentada na Bélgica.92 A professora Denise
Rollemberg, autora de um criterioso estudo sobre a diáspora brasileira,
procurou quantificar os expatriados e concluiu que "qualquer tentativa
de fazê-lo seria mera suposição, sem nenhum fundamento". Sabe-se
que em agosto de 1973, um mês antes do golpe chileno, a ONG Cimade

contara 1500 brasileiros na França.93 Com todas as ressalvas, é
possível que os brasileiros que partiram naquilo que anos mais tarde
João Bosco e Aldir Blanc chamariam de "rabo de foguete" tenham ficado
entre 2500 e 5 mil.94

A esquerda moderada, na qual anos antes o sociólogo Fernando
Henrique Cardoso comera em Santiago o "amargo caviar do exílio",
migrou para a Europa e para os Estados Unidos. José Serra chegaria
em julho à Universidade de Cornell.

A ARGENTINA DE PERÓN

Os dois grandes caudilhos sul-americanos se mantiveram longe
da festa de Geisel. Alfredo Stroessner, que completava vinte anos de
poder pessoal no Paraguai, não viera, porque era inimigo de Banzer.
Juan Perón, novo presidente da Argentina, mandara o ministro do
Interior. Havia encrenca no pedaço. Refletia o reencontro com o
fantasma das demagogias dos anos 50, mas também a complexidade
das relações entre dois vizinhos que não podiam aparar suas
divergências com sentimentalismos anticomunistas, partidas de
capacetes ou importações de carne.

Perón tinha uma biografia de trapezista. Em 1916, quando era
sub-tenente, os argentinos viviam com uma renda per capita maior que
a dos japoneses, 70% da canadense.95 Chegara ao poder em 1946,
coroando um período de anarquia militar. Depuseram-no dez anos
depois, numa crise em que bombardearam o palácio, metralharam a
multidão, mataram duzentas pessoas e inauguraram nos bivaques um
novo período de bagunça, perceptível desde a primeira hora, quando o
poder ficou com uma junta de transição onde se sentavam dezessete
generais.96

Ele encarnava o general latino-americano de caricatura. Juntou
uma fortuna calculada em algo como 12 milhões de dólares da época.
Só no espólio de Evita, sua mulher, os generais acharam 1650


diamantes, 65 quilos de ouro, outros tantos de prata e três lingotes de
platina.97

Exilado em Madri, Perón cultivou rosas e a destruição do que
chamava de "canalha ditatorial". Em 1955 a ditadura militar se
denominava Revolución Libertadora. Onze anos depois, o novo surto
denominou-se Revolución Argentina. Os militares empossaram e
depuseram dois civis (Arturo Frondizi e Arturo Illia) e dois generais
(Juan Carlos Onganía e Roberto Levingston). Por mais que
perseguissem o ex-ditador, generais e plutocratas nunca conseguiram
calar uma antiga rima peronista:

Se siente, se siente,
Perón está presente.


O caudilho tinha nas costas a cicatriz da antipatia da ditadura
brasileira. Para os hierarcas da Revolução de 31 de Março, o peronismo
era a versão virulenta da demagogia nacional. Em novembro de 1964,
num documento do SNI, Golbery sugeria que "se vá alertando a mente
para a existência real de um plano perono-comuno-brizolista, visando à
agitação na América Latina".98 Temia que Perón saísse de Madri,
desembarcasse em Buenos Aires e virasse a política argentina de
cabeça para baixo. Na manhã de 2 de dezembro de 1964 um jato da
Iberia que fazia o vôo Madri—Buenos Aires, com escala no Rio, pousou
no aeroporto do Galeão com Juan Perón a bordo. O governo sabia de
sua presença e não deixou sequer que ele descesse para tomar um café
no bar. O chefe do cerimonial do Itamaraty entrou no avião e informou
ao passageiro que ali começava sua viagem de volta para a Espanha.

Perón retornou a Buenos Aires oito anos depois, em novembro de
1972. Tinha 76 anos e a saúde alquebrada por padecimentos da bexiga
e do pulmão e por uma infecção no pericárdio.99 Meio milhão de pessoas
foram esperá-lo no caminho do aeroporto de Ezeiza. Aproximava-se da
senilidade como senhor de um país cuja renda per capita caíra a menos
da metade da japonesa, um quinto da canadense. Somando-se a uma
sucessão de desastres, a salada de teorias corporativas, cosmopolitas e


contracionistas dos oito ministros da Economia de sete anos de
ditadura militar havia produzido uma inflação de 75,9% e um déficit
público de 6,3% do Produto Interno Bruto.100

A natureza militarista e repressiva do regime, bem como a
militarização das bases peronistas, levou a violência política argentina a
um nível inédito. Antes do retorno de seu líder a Buenos Aires, o braço
terrorista do peronismo explodira 1817 bombas e seqüestrara vinte
pessoas.101 Matara o presidente da Fiat, o comandante da guarnição
militar de Rosario e o general Pedro Aramburu, ex-presidente da
República, que autorizara o fuzilamento de dezoito militares (um deles,
general) e nove civis na repressão a um levante peronista. Era a
guerrilha urbana mais próspera, ativa e letal do mundo. Até o final de
1973 arrecadara mais de 20 milhões de dólares extorquindo e
seqüestrando empresários.102 Em 1972 os terroristas italianos haviam
matado cinco pessoas em 595 ações (um morto para cada 119 ações).103
Os argentinos, 68 em 737 (um morto para cada onze ações). Do outro
lado institucionalizara-se a tortura e, no primeiro massacre de um triste
ciclo, dezesseis prisioneiros foram assassinados na base naval de
Trelew. O chefe da operação, contra-almirante Horácio Mayorga, diria
mais tarde: "Para mim, era preciso que tivesse havido fuzilamento no
estádio do River, com Coca-Cola grátis e tudo sendo televisionado".104

Os comandantes militares tinham concebido uma manobra de
entrega do poder aos civis na qual tosariam o lobo velho e desdentado.
Chamavam-na Gran Acuerdo Nacional. Asseguravam-se o direito de
veto às decisões do novo poder civil e se mantinham como supervisores
do que haveria de ser um governo de "transição e consolidação".105 Três
anos antes de assumir a presidência, quando comandava o exército, o
general Alejandro Lanusse já dizia que a melhor saída para as forças
armadas era "embolsar" Perón, permitindo seu regresso.106 Perón tosou-
os.

O lobo velho impôs aos generais não só a eleição dele (com 62%
dos votos), mas a presença de sua mulher, Isabelita, na vicepresidência.
107 Era a humilhação definitiva para uma tropa que rosnara


em 1951, quando 1 milhão de argentinos marcharam por Buenos Aires
pedindo a Perón que colocasse Evita na chapa de sua reeleição. A nova
vice-presidente se chamava Maria Esteia Martínez. Perón conhecera-a
quando era uma dançarina gostosona no Panamá. Afora o diminutivo,
em nada lembrava a gloriosa antecessora. Atarracada, com uma boca
pequena e um temperamento tímido, faltavam-lhe a elegância esguia, o
sorriso aberto e a energia cruel da primeira. Descendo as escadas do
palácio com seus Dior longos, Evita fora um personagem de um conto
de fadas fraudulento. Isabelita, aos 42 anos, com suas saias apertadas,
não conseguira sair da crônica banal dos oportunistas. O casal entrou
na Casa Rosada no dia 12 de outubro de 1973.

Três semanas depois, o comandante da armada argentina, de
viagem marcada para o Brasil, pediu que Geisel o recebesse e informou
que lhe sugeriria um encontro com Perón, em Buenos Aires.108 O pedido
foi recusado, e a proposta nem sequer foi ouvida. Perón simbolizava
tudo o que Geisel detestava: general corrupto, politiqueiro e demagogo.
Nas conversas pessoais chamava-o de "uma múmia", mas policiava-se
para não agravar a verdadeira dificuldade surgida nas relações com
Buenos Aires ainda na época dos consulados militares: era Itaipu.109

Em abril de 1973 os governos brasileiro e paraguaio haviam
assinado o tratado que permitiria a construção, em condomínio, de uma
barragem no rio Paraná, na altura das cataratas do Iguaçu. Com 18
milhões de quilowatts, seria a terceira hidrelétrica do mundo,
garantindo o abastecimento do parque industrial brasileiro e dos cofres
da plutocracia militar paraguaia.

Os militares argentinos temiam que uma barragem daquele
tamanho resultasse numa "irradiação brasileira" ou mesmo na
incorporação econômica da região nordeste do seu país, sobretudo as
províncias de Formosa e Misiones.110 Baseavam-se nos próprios receios
e num trecho do Conjuntura política nacional — O Poder Executivo e
geopolítica do Brasil, do general Golbery, em que ele chamou de
"fronteira viva" a linha que separa os dois países na altura da
Mesopotâmia argentina.111 Como fronteira viva pode se mexer e a do


Vice-Reinado do Prata sempre se moveu reduzindo o território da
Argentina, enquanto o tamanho do Brasil e do Chile dobrava, a
obsessão geopolítica tinha pelo menos antecedentes históricos.112
Julgavam ainda que a obra colocaria o Paraguai definitivamente sob
influência brasileira.

Armaram-se de diversas teorias jurídicas (a soberania
compartilhada dos rios internacionais), hidrológicas (uma catástrofe que
rompesse Itaipu inundaria cidades argentinas) e sanitárias (o lago da
barragem propagaria a esquistossomose rio abaixo). Sustentavam a tese
segundo a qual o país que fica a montante de um rio internacional de
curso sucessivo está obrigado a submeter seus projetos de utilização
das águas às nações que ficam a jusante. Em miúdos: para represar o
rio Paraná e erguer Itaipu, Brasil e Paraguai precisavam consultar a
Argentina, sócia da foz da bacia do Prata. Com o apoio do Chile, da
Bolívia e do Uruguai, o presidente Lanusse forçou um convite para
visitar o Brasil. Durante o banquete oferecido por Medici, provocou um
incidente ao enfiar um "caco" no discurso de agradecimento que
entregara ao Itamaraty: condenou o uso do rio sem consultas prévias.113
Sua comitiva cortou do comunicado conjunto dos dois presidentes o
rotineiro indestructible que adjetiva a amizade dos países latinoamericanos.
114

Todas as restrições argentinas a Itaipu podem ser resumidas
numa só frase, do chanceler argentino Luis Maria de Pablo Pardo a seu
colega brasileiro Mario Gibson Barboza, num almoço a sós: "O que não
queremos, realmente, é que vocês construam essa hidrelétrica com o
Paraguai".115

Geisel via na rivalidade argentina um exercício fútil. Achava que
Lanusse errara o tiro procurando despertar um sentimento de
hispanidade sul-americana. "Devia juntar-se ao Brasil e ao Paraguai no
esforço anticomunista."116 Para surpresa dos generais que em 1964
temiam o perono-comuno-brizolismo, o velho lobo congelou a
manipulação da rivalidade com o Brasil. Para o governo brasileiro,
Perón foi um vizinho menos encrenqueiro que os generais.


PORTUGAL E SUAS COLÔNIAS

O chanceler Rui Patrício chegou ao Rio de Janeiro quase uma
semana antes das cerimônias da posse de Geisel. Quadro coadjuvante
da ditadura instalada em Portugal desde os anos 30, foi de festa em
festa, seguindo o receituário da diplomacia portuguesa: costurar por
cima a amizade luso-brasileira. A cada novo governo brasileiro, ela
tratava de desarticular os impulsos de boa parte do Itamaraty, que
estava interessada em afastar o Brasil da política ultramarina de
Lisboa. Portugal mantinha colônias em Angola, Moçambique, Guiné-
Bissau e Cabo Verde — tudo o que restava do seu império, quase tudo o
que restava da experiência colonial européia. Nem colônias eram mais.
Eram guerras perdidas de uma metrópole falida.

Com a economia estagnada, drenado pela imigração para a
França e para a Alemanha, Portugal padecia um declínio populacional.
Tinha 8,2 milhões de pessoas em casa e 1 milhão fora, a maioria na
faixa dos dezoito aos 35 anos. Um português ganhando salário mínimo
na França conseguia uma renda superior à de 92% de seus
compatriotas.117 A segunda maior população de portugueses vivia na
cidade de Paris.118 Um em cada três dos 120 mil portugueses que
emigraram em 1973 eram operários qualificados. A poupança remetida
pelos emigrados equivalia a 70% do total das exportações do país.119

Esse império anacrônico enfrentava os movimentos de libertação
africanos mantendo 150 mil homens armados no além-mar. Estava
batido na Guiné-Bissau, onde o poder dos guerrilheiros já fora
reconhecido por 54 governos, quase todos africanos ou comunistas.
Passava dificuldades em Moçambique e se segurava em Angola, com 60
mil homens aquartelados. As despesas militares chegavam a 425
milhões de dólares, cerca de 7% do Produto Interno Bruto, percentual
maior que o dos Estados Unidos e três vezes superior ao da África do
Sul.120 De cada quatro homens com idade suficiente para o serviço


militar, um estava na tropa. A percentagem da população portuguesa
em armas só era superada era Israel e nos dois Vietnãs.

Todos os governos brasileiros apoiaram Portugal na sua guerra
contra os africanos. Desde 1964, faziam isso por solidariedade ao
anticomunismo de Lisboa. Em 1965 o governo Castello Branco não
disse uma única palavra quando a brasileira Arajaryr Moreira de
Campos foi assassinada perto da fronteira espanhola junto com seu
companheiro, o general Humberto Delgado, último candidato
oposicionista à presidência de Portugal. A polícia política portuguesa
operava no Rio, e o ministério do exército português ofereceu estágios
de guerra antiinsurrecional a oficiais brasileiros.121 Fez isso também por
conta do poder de pressão da pequena e decadente plutocracia
portuguesa do Rio de Janeiro. Esse foi o caso de políticos como
Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, que tinham amigos em Lisboa.
Tanto os Diários Associados como O Globo eo Jornal do Brasil, embora
em graus variáveis, eram militantes da guerra portuguesa. A indústria
bélica brasileira contrabandeava armas para as tropas coloniais em
Angola.122 A conexão se sustentava ainda num romantismo utilitário.
Rendera ao presidente Medici os ossos de d. Pedro I para enfeitar a festa
do Sesquicentenário da Independência.

Enquanto o apoio brasileiro a Portugal foi uma questão de
anticomunismo e romance, Geisel se incomodou pouco com ele. Tentou
se associar ao império, juntando a Petrobrás aos portugueses na
exploração do petróleo angolano. Foi contraditado e vencido pelo
chanceler Gibson Barboza, que via na iniciativa um perigoso
envolvimento brasileiro na guerra africana.123 O general só se
transformou num adversário do colonialismo lusitano depois da crise do
petróleo de 1973. Pressionado pelos americanos, o governo de Lisboa
permitiu que a ponte aérea destinada a garantir o suprimento de armas
para Israel se reabastecesse nos Açores. Os países árabes responderam
embargando as exportações de petróleo para Portugal.

Discutindo um editorial do Jornal do Brasil que defendia uma
negociação afro-luso-brasileira para a questão angolana, Geisel disse a


Golbery: "Eu acho que nós deveríamos mandar Portugal passear. [...]
Acho que está na hora de pegar Portugal e dizer: 'Olha, não conte mais
com o Brasil'".124 No dia seguinte a essa conversa, o Itamaraty
informou-o de que era grande a possibilidade de o Brasil sofrer alguma
retaliação dos árabes por conta do apoio que dava à política colonial
portuguesa.125 Quando um diplomata lhe ofereceu um esboço de
política externa, sugerindo que o Brasil trocasse com Portugal o apoio à
política colonial pelo petróleo angolano, Geisel anotou um seco N.126

Em fevereiro, durante a conversa em que convidou o general Dale
Coutinho para o Ministério do Exército, foi mais didático. Argumentou
que a crise do petróleo obrigava o Brasil a se aproximar dos árabes:

Eu tenho a impressão de que está na hora da gente dizer para
Portugal: 'Nós somos amigos, nós somos parentes, somos
irmãos, mas esse troço vocês têm que evoluir, vocês têm que
estudar a maneira de dar liberdade a esses países. O inglês não
deu, o francês não deu? [...] Eles vêm com o negócio que aquilo
não é colonialismo, que eles são províncias, mas isso é tapeação.
[...] Mas eu acho que a nossa política em relação a Portugal tem
que mudar. Eu tenho informações de que a mocidade de
Portugal toda está contra. Já não quer prestar o serviço militar,

o número de mutilados moços que voltam a Portugal, que se vê
nas ruas, já é muito grande. E os comunas esperando. Já estão
infiltrados, esperando as coisas lá dentro. Aquela posição
monolítica que havia antigamente em Portugal, no tempo do
Salazar,127 hoje em dia já não tem mais.128
Conheciam-se os números que alimentavam a inquietação militar.
Um milhão de soldados portugueses já haviam passado pela guerra da
África. A maioria dos combatentes era analfabeta, e os filhos das boas
famílias se protegiam servindo nos estados-maiores, que além de
ficarem longe do fogo, só começavam a trabalhar depois do almoço. Em
Angola, um subtenente ganhava menos que porteiro de cinema, metade
do que recebia um barbeiro. Como a classe média fugiu do serviço


militar, o governo preencheu com conscritos as vagas dos níveis
inferiores da oficialidade. Os conscritos não podiam subir na hierarquia
e, portanto, evitavam as linhas de combate.129 Em julho de 1973,
procurando quebrar o círculo vicioso, ampliou-se o acesso dessa parte
da tropa às promoções. Como seria levada em conta a antiguidade de
serviço, a providência obstruiria as promoções dos oficiais regulares e,
com isso, estaria criado outro círculo vicioso. Em dezembro o governo
recuou, revogando as facilidades oferecidas aos conscritos e
aumentando os salários dos oficiais.130 Podia não ser um retorno ao
monolitismo de Salazar, mas tentava ser paliativo aceitável. Parecia que
nem havia por que temer os comunas. Vinte e dois membros do Partido
Comunista Português tinham gramado um total de 308 anos de cadeia,
e seu secretário-geral, depois de pagar treze de cárcere, estava no 14º
de exílio. O chefe da Central Intelligence Agency, William Colby, pensara
em fechar a estação da companhia em Lisboa. O adido militar
americano se orgulhava de nunca ter conversado com nenhum oficial
português cuja patente fosse inferior à de coronel.131

Geisel duvidava que a guerra africana pudesse resultar numa
vitória portuguesa, mas confiava na estabilidade do regime. Só isso
explica a sua vontade de mandar o irmão Orlando para a embaixada do
Brasil em Lisboa. A idéia lhe ocorreu antes de saber que ele queria
continuar no ministério. Garantia-lhe a segurança, proporcionava-lhe
uma vilegiatura e mantinha-o próximo da filha, casada com o coronel-
adido em Lisboa.132 Orlando recusou, e a embaixada rolou para o
general Carlos Alberto da Fontoura, chefe do Serviço Nacional de
Informações. Era general-de-divisão, a permanência dele no Brasil seria
encrenca certa, e Geisel queria que sumisse no exílio.133

O rompimento com a parceria colonialista relacionava-se às
conseqüências embaraçosas que ela produzia junto aos árabes. Por
isso, Geisel queria resolver logo a questão. Disse isso ao embaixador
Azeredo da Silveira quando o convidou para o ministério, e insistiu dias
depois, ao receber dele um projeto de política gradualista. Preparando-o
para as conversações que haveria de ter com o chanceler português Rui


Patrício, foi claro: "Ele não pode ter ilusão. Nós temos que mostrar para
Portugal que a política mudou".

Silveira justificou-se: "O problema de Portugal é muito emocional
no Brasil. Então, a gente tem que botar uma azeitona na empada. [...]".

Geisel foi duro. Disse-lhe que trouxera um documento "muito
fraco" e repetiu o recado que tinha para a diplomacia portuguesa:
"Olha, não conte mais conosco".134

O general entendeu que o embaixador estava preocupado com a
pressão interna dos portugueses. Seu próprio irmão, ao saber do projeto
de reviravolta, lhe dissera: "Vai devagar".135 Da conversa resultou que
Silveira trataria do assunto, mas seria o general Fontoura, ao chegar a
Lisboa, quem cravaria a estaca. O chefe do SNI pretendia tirar férias e
passear um pouco pela Europa.

Uma semana antes da posse, Geisel tinha consigo um livro que
fazia imenso sucesso em Lisboa e no além-mar: Portugal e o futuro, do
general Antônio de Spínola. Lançada em fevereiro, a edição de 50 mil
exemplares esgotara-se em doze horas. O autor era vice-chefe do
estado-maior e comandara as tropas na Guiné-Bissau, onde, desde
1968, dava a guerra por perdida.136 Dizia que "o caminho para o futuro
próspero de sobrevivência da Nação passa necessariamente pelo rápido
restabelecimento da paz". "Pretender vencer uma guerra subversiva por
meio de uma solução militar é aceitar, de antemão, a derrota."137 Era o
último general de monóculo. Combatera ao lado das tropas franquistas
durante a Guerra Civil Espanhola e acompanhara o cerco de
Leningrado como observador junto às forças alemãs.138 Rui Patrício
desceu em Brasília e fingiu desdenhá-lo: "Vocês falam tanto sobre este
livro que estou pensando em lê-lo".139

Era tarde para a diplomacia colonial. Era tarde também para
Geisel, cuja diplomacia anticolonialista ficara restrita ao seu círculo de
interlocutores. A essa altura as caravelas coloniais perdiam tripulação.
Mesmo Carlos Lacerda, um ardoroso defensor da aliança luso-
brasileira, escrevia: "O Brasil não pode mais apoiar uma causa
perdida".140 Já o primeiro-ministro português, Marcello Caetano, lera o


livro de Spínola de uma só vez, numa madrugada de fevereiro, e
concluíra que havia um golpe militar em marcha.141 O império ruía em
Portugal.

Desde setembro de 1973 um grupo de oficiais se organizara
secretamente numa rede que se estendia às colônias. Autodenominara-
se Movimento dos Capitães, mas logo depois ficara conhecido como
Movimento das Forças Armadas, MFA. Em dezembro já recrutara
duzentos dos 1600 capitães e majores portugueses, e era dirigido por
uma comissão de quinze oficiais. Planejavam um golpe de estado que
derrubasse a ditadura.142

No dia 5 de março, discutindo o projeto gradualista apresentado
por Silveira, Golbery implicara com um trecho em que o embaixador
dizia ser necessário "manter a posição brasileira anticolonialista".
Argumentava: "Ninguém acredita nisso. A nossa posição anticolonialista
é quase que subconsciente, porque os outros não se dão conta disso".143
Em Lisboa, nesse mesmo dia, o MFA colocou-se secretamente sob as
ordens do general Spínola. Enquanto Geisel era empossado em Brasília,
a Guarda Republicana cercou a Academia Militar, onde se realizava
uma reunião de oficiais.144 No dia seguinte um regimento de infantaria
tentou marchar sobre Lisboa, foi contido, e prendeu-se uma centena de
oficiais. Diante da agitação militar, Geisel pôs o pé no freio: "Nosso
propósito é chegar no fim com uma posição clara contra [a política
colonial], mas a crise interna deles nos obriga a ir mais devagar".145

Rui Patrício recebeu o recado de Silveira com uma postura
fatalista: "Se o Brasil não pensa como nós pensamos, o que é que
podemos fazer?".146 Num projeto de circular à delegação brasileira nas
Nações Unidas, Silveira pedia moderação, mas informava: "O Brasil
votará a favor de projetos que condenem a ação colonialista, ainda que
dirigidos especificamente contra Portugal".147 Ao instruir a embaixada
em Lisboa, foi mais longe: "Vossa Excelência [...] não permitirá que a
Chancelaria portuguesa possa alimentar a esperança de que o Brasil
dará a Portugal o apoio [...] que dele espera o Governo português".148 A
virada pretendida por Geisel estava feita, mas, por falta de oportunidade


e de pronunciamento público, manteve-se no circuito burocrático do
Itamaraty.

Aos 25 minutos do dia 25 de abril uma rádio de Lisboa transmitiu
a voz de um locutor lendo a letra da música "Grândola, vila morena",
que falava de uma "terra da fraternidade". Era a senha de um novo
levante. Às oito horas a praça do Comércio foi tomada por tanques
insurretos. Às onze o governo se mudou para um quartel. Às 17h45,
vestindo uma capa bordada e empunhando um chicote de cavaleiro, o
general Spínola recebeu a rendição de Marcello Caetano. Mandou
colocá-lo num blindado e remeteu-o para a mesma guarnição onde
funcionara o comando operacional do golpe. Na manhã seguinte,
escoltado por um sargento, Caetano foi embarcado num avião e exilado
na ilha da Madeira.149

Portugal chegou ao futuro misturando anarquia e liberdade. As
mulheres punham cravos nas armas dos soldados, dando à revolução o
nome da flor. A classe média estacionava seus carros em locais
proibidos, os cafetões tomaram o Rossio, e as prostitutas ocuparam a
calçada da pastelaria Suíça. Os homossexuais juntaram-se aos
anarquistas, e todos puderam ver a estréia de Hair, que sete anos antes
anunciara na Broadway "a Alvorada da Era de Aquarius".150 No dia 14
de maio foi oficialmente abolida a censura. O Partido Comunista
Português saiu da clandestinidade, assumiu o controle da central
sindical e ganhou o Ministério do Trabalho.

O governo brasileiro acabou comprando o pior pedaço do passado
português. No dia 19, no Rio de Janeiro, o ministro da Justiça,
Armando Falcão, expediu uma nota aos seus censores informando que
nada se podia escrever a respeito da iminente chegada ao Brasil do ex-
primeiro-ministro Marcello Caetano e do ex-presidente Américo Thomaz,
um almirante senil que batia continência para porta de elevador. Depois
viriam o ex-chanceler Rui Patrício e boa parte da plutocracia
portuguesa, inundando de pratas e obras de arte o mercado carioca de
antiguidades. Na cadeira de chanceler sentava-se agora o advogado
socialista Mário Soares. Pagara com uma deportação para a ilha de São


Tomé o empenho em tentar desvendar o assassinato de Humberto
Delgado e Arajaryr Moreira de Campos. Era figura fácil para a
intelectualidade da esquerda carioca, um desconhecido para a ditadura.

Aconteceu tudo isso, e o general Carlos Alberto da Fontoura ainda
não havia chegado a Lisboa. O novo governo português fez saber ao
embaixador brasileiro em Londres que talvez fosse o caso de substituílo.
151 Geisel tomou a sugestão por insulto e respondeu que ou Portugal
recebia o general ou ficaria sem embaixador nos cinco anos seguintes.
Em sua primeira carta escrita em Lisboa, Fontoura se queixou das
greves, da falta de pão e do excesso de liberdade. Arriscou um palpite:
"Penso que as coisas mudarão". (Mudariam, no sentido inverso das
esperanças dele.) Indicou que começara a operar: "Já andam à minha
cata para saber como se organiza um SNI. [...] O Diabo não é tão feio
assim".152 (Organizou-se um serviço de informações, mas ficou sob o
controle de oficiais esquerdistas.)153

Geisel nunca modificou sua posição favorável à independência
das colônias, mas ela veio a lhe custar bem mais caro do que parecera.
Assim como o embaixador Silveira procurara dissolver a crueza do
rompimento desejado pelo general, a burocracia militar do próprio
governo procurava contê-lo. Se no início do ano Portugal era um aliado
fiel porque lá não existia esquerda, tornara-se um pesadelo quando
pareceu ter ficado sem direita. O rompimento com a política colonial,
que parecera um gesto racional de distanciamento de um velho amigo,
tornara-se uma aproximação perigosa com o eterno inimigo, a esquerda.

1 Ernesto Geisel, março de 1995.

2 O Estado de S. Paulo, 16 de março de 1974. Uma terceira foto, mais ampla, que não
foi publicada, mostra metade da platéia, e nela podem-se contar cerca de sessenta
pessoas. Ela está na capa deste livro.

3 Para Lamarca, carta a Iara Iavelberg, em Folhetim, Folha de S.Paulo de 10 de julho
de 1987. Para a viagem, Henry Kissinger, White House years, p. 740.

4 Nota de John Ehrlichman, The New York Times, equipe, The end of a Presidency, p.

109.

Testemunho dos envolvidos, The New York Times, equipe, The end of a Presidency,
pp. 114-5. Daniel Ellsberg, Secrets — A memory of Vietnam and the Pentagon Papers,
pp. 440-1.

6 Richard Nixon, The memoirs of Richard Nixon, pp. 6r6-7.
7 Henry Kissinger, White House years, p. 1208.
8 Paul Volcker e Gyohten Toyoo, Changing fortunes — The world's money and the


threat to American leadership, pp. 59-90 e 347.
9 Stephen E. Ambrose, Nixon, vol. 3: Ruin and recovery — 1973-1990, p. 27.


Stephen E. Ambrose, Nixon, vol. 3: Ruin and recovery — 1973-1990, p. 59.
11 Roger Morris, Richard Milhous Nixon, p. 211.
12 Anatoly Dobrynin, In confidence — Moscow's ambassador to Americas six Cold War

presidents, p. 282. Durante uma conferência com Brejnev na Casa Pacífica, em 1973,
um dos guarda-costas do governante soviético viu Pat Nixon andando de camisola pela
varanda. Carregou-a nos braços e levou-a para a cama.

13 Conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 22 de fevereiro de
1974. APGCS/HF.
14 Reunião de Geisel com Azeredo da Silveira, 28 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.
Conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 22 de fevereiro de
1974. APGCS/HF. Referia-se à mulher de Juan Perón, presidente da Argentina.
16 O Estado de S. Paulo, 15 de março de 1974, p. 5.
17 Diário de Heitor Ferreira, 21 de fevereiro de 1972.

18 Diário de Heitor Ferreira, 22 de junho de 1972.
19 Paul Volcker e Gyohten Toyoo, Changing fortunes — The world's money and the
threat to American leadership, pp. 372 e segs.


Carta de Joseph Kiyonaga, chefe da estação da CIA em Brasília, a Heitor Ferreira, de
26 de janeiro de 1976. APGCS/HF.

21 Dezesseis folhas, sem data, intituladas Approaches to Political Decompression,
cedidas ao autor pelo professor Wanderley Guilherme dos Santos.

22 Golbery do Couto e Silva, 1973.

23 Duas folhas, uma manuscrita e anotada por Golbery, outra datilografada,
intituladas Notas para a Conversa Golbery-Huntington, de 8 de fevereiro de 1974.

APGCS/HF.

24 Ernesto Geisel, março de 1995.

Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 10 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
26 Phillip L. Zweig, Wriston, p. 422.
27 Idem.
28 Diário de Heitor Ferreira, 28 de janeiro de 1972.
29 Duas folhas, uma manuscrita e anotada por Golbery, outra datilografada,

intituladas Notas para a Conversa Golbery-Huntington, de 8 de fevereiro de 1974.

APGCS/HF.

Ernesto Geisel, abril de 1995.
31 Bilhete de Golbery a Heitor Ferreira, de março de 1974. APGCS/HF.
32 Narrativa de Medici a Geisel, registrada por Heitor Ferreira em seu Diário, na

entrada de 12 de maio de 1972.
33 Jornal do Brasil, 19 de fevereiro de 1971, p. 22. Para o retorno clandestino,



acusação feita pelo ministro boliviano Jorge Gallardo Lozada, telegrama da agência


Latin de 4 de abril de 1971.
34 General Newton Cruz, adido militar em La Paz entre 1971 e 1972, dezembro de
1996.


35 Telegrama da ANSA, de 15 de janeiro de 1971.
36 José Maria de Toledo Camargo, A espada virgem — Os passos de um soldado, p.


155.
37 Diário de Heitor Ferreira, 26 de março de 1972.
38 Notas de Geisel, relativas às conversas com Banzer, Bordaberry e Pinochet, de 15
de março de 1974, recebidas por Heitor Ferreira no dia 18. APGCS/HF.
39 Informação para o Senhor Presidente da República, do ministro Azeredo da Silveira,
de 11 de abril de 1974, narrando uma rodada de negociações com os bolivianos.


APGCS/HF.

40 Heitor Ferreira, junho de 1974.
41 Diário de Heitor Ferreira, 26 de dezembro de 1974.
42 A uma nota de Heitor Ferreira pedindo-lhe que comparasse os três presidentes que


estiveram na posse, Geisel respondeu: "1º Bordaberry, 2° Banzer, 3° Pinochet".


APGCS/HF.

43 Lawrence Weschler, Um milagre, um universo —O acerto de contas com os
torturadores, p. 110. Para as gorjetas, idem, p. 109.
44 Arturo C. Porzecanski, Uruguay's Tupamaros, p. 40.
45 The New York Times, 22 de junho de 1969.
46 Arturo C. Porzecanski, Uruguay's Tupamaros, p. 40.
47 Alain Labrousse, The Tupamaros, p. 131.


48 Carlos Wilson, The Tupamaros, the unmentionables, pp. 92-111.
49 Martin Weinstein, "The decline and fall of democracy in Uruguay: lessons for the
future", em Repression, exile, and democracy, editado por Saul Sosnowsky e Louise B.
Popkin, p. 86. Ver também Lawrence Weschler, Um milagre, um universo —O acerto
de contas com os torturadores, p. 113.


50 Lawrence Weschler, Um milagre, um universo —O acerto de contas com os


torturadores, pp. 117-8.
51 Relatório da Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados
Americanos, de janeiro de 1978. Em A. Veiga Fialho, Uruguai — Um campo de
concentração?, pp. 49 e segs. Para o Estado militar, José Luiz Baumgartner e outros,
Os desaparecidos — A história da repressão no Uruguai,p. 158.


52 Lawrence Weschler, Um milagre, um universo —O acerto de contas com os
torturadores, pp. 96-8.
53 Idem, pp. 136-7.


54 Idem, pp. 137 e segs.
55 Depoimento de Maurício Rosencof, "On suffering, song, and white horses", em
Repression, exile, and democracy, editado por Saúl Sosnowsky e Louise B. Popkin, pp.
120-32.


56 Idem, p. 130.


57 Narrativa feita a Heitor Ferreira por Paulo Egydio Martins, que participara do
jantar, em Diário de Heitor Ferreira, 5 de maio de 1972.
58 Memorando secreto de Henry Kissinger sobre um encontro do presidente Richard



Nixon com o primeiro-ministro Edward Heath, de 20 de dezembro de 1971. National


Security Archive. <http://www.gwu.edu/~nsarchiv/NSAEBB/NSAEBB71/docl5.pdf>.
59 Telegrama da agência Latin, de 13 de julho de 1973, transcrevendo uma denúncia
do senador Wilson Ferreira Aldunate, publicada no jornal La Opinión, de Buenos Aires.


60 Diário de Heitor Ferreira, 29 de junho de 1973.
61 José Wilson da Silva, O tenente vermelho, p. 198.
62 Notas de Geisel, relativas às conversas com Bordaberry, Banzer e Pinochet, de 15


de março de 1974, recebidas por Heitor Ferreira no dia 18. APGCS/HF.
63 Nota do embaixador uruguaio Carlos Manini Ríos ao ministro Azeredo da Silveira,
transcrevendo uma mensagem de Bordaberry a Geisel, de 14 de junho de 1974.


APGCS/HF.

64 Pamela Constable e Arturo Valenzuela, A nation of enemies — Chile under Pinochet,

p. 17. Para outra narrativa do golpe, Joan Garcés, Allende e as armas da política, pp.
299 e segs.
65 Para o comportamento de Pinochet durante as horas decisivas do golpe, ver
Patrícia Verdugo, Interferencia secreta — 11 de Septiembre de 1973. Trata-se do livro e
do disco compacto com a gravação das conversas telefônicas mantidas pelos
comandantes das três armas entre a manhã e o meio da tarde do dia 13 de setembro.
Para a adesão, Nathaniel Davis, Os dois últimos anos de Salvador Allende, pp. 252-3.

66 Diário de Heitor Ferreira, 28 de setembro de 1973.

67 Alfredo Sirkis, Roleta chilena, p. 35.

68 Pamela Constable e Arturo Valenzuela, A nation of enemies — Chile under Pinochet,

p. 54.
69 Alfredo Sirkis, Roleta chilena, p. 80. Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a
partir de 1964, pp. 414-5. Mais tarde o governo chileno reconheceu sua
responsabilidade pela morte de Túlio Quintiliano, Luiz Carlos Almeida, Vânio José de
Matos, Nelson de Souza Kohl e Jane Vanini. Veja, 20 de janeiro de 1994, p. 31.
70 Marcelo Rubens Paiva, Não és tu, Brasil, pp. 172-3.
71 Depoimento de José de Araújo Nóbrega, em IstoÉ de 7 de novembro de 1990.
72 Martha Vianna, Uma tempestade como a sua memória — A história de Lia, Maria do


Carmo Brito, p. 134.

73 Alfredo Sirkis, Roleta chilena, pp. 130-3. Para o número de brasileiros, Fernando
Gabeira, O crepúsculo do macho, p. 161.
74 O Estado de S. Paulo, 15 de março de 1974, p. 5, citando a revista chilena Ercilia.
75 Dorrit Harazim, setembro de 1973. Dorrit esteve em Santiago até o dia 18 de


setembro, e no dia 11 telefonou ao embaixador.
76 Nathaniel Davis, Os dois últimos anos de Salvador Allende, p. 374.
77 Idem, p. 179.
78 Depoimento de Frederick Davis, da CIA, ao Congresso Americano. Citado em


Nathaniel Davis, Os dois últimos anos de Salvador Allende, pp. 373-4.

79 Dorrit Harazim, setembro de 1973. Em Santiago, Dorrit acompanhou as
negociações para a obtenção do salvo-conduto. Denise Rollemberg, Exílio, p. 175.
80 Informação nº 583, do CISA, de 11 de novembro de 1973, em O Globo de 3 de janeiro

de 1999, pp. 37-40. Em 1992 o Estado chileno reconheceu-se responsável pela morte
de cinco brasileiros.
81 Comentário feito por Golbery ao autor dias depois do golpe chileno.
82 O Globo, 24 de setembro de 1973, 1º caderno, p. 19.



83 José Serra, 2000.


84 Dácio Malta, "Documento mostra ameaça a Serra no Chile", O Globo de 21 de maio
de 2000, p. 45.
85 Pamela Constable e Arturo Valenzuela, A nation of enemies — Chile under Pinochet,


p. 20.
86 O Estado de S. Paulo, 14 de março de 1974, p. 16.
87 O Estado de S. Paulo, 16 de março de 1974, p. 14.
88 Notas manuscritas de Geisel, entregues a Heitor Ferreira no dia 18 de março de
1974. APGCS/HF.

89 Centro de Informações do Exército, Relatório Especial de Informações nº 04/74,
intitulado Subversão Comunista no Brasil, de 20 de junho de 1974. AA.
90 De muitos caminhos, coord. de Pedro Celso Uchôa Cavalcanti e Jovelino Ramos, p.


106.
91 Denise Rollemberg, Exílio, p. 55. Fernando Gabeira, O crepúsculo do macho, pp.
163-9.

92 Martha Vianna, Uma tempestade como a sua memória — A história de Lia, Maria do
Carmo Brito, pp. 140-1.

93 Denise Rollemberg, Exílio, pp. 53 e 115-21.

94 João Bosco e Aldir Blanc, "O bêbado e a equilibrista". Esses números incluem os
exilados (que não podiam regressar porque estavam condenados ou tinham certeza de
que seriam presos) e todos aqueles que deixaram o país por suspeitarem que tinham a
liberdade ameaçada.

95 William C. Smith, Authoritarianism and the crisis of the Argentine political economy,

p. 16.
96 Para a cena da crise do golpe, Robert A. Potash, El ejército y la política en la
Argentina, 1945-1962, pp. 259 e segs. Para a junta, idem, p. 279.
97 Alicia Dujovne Ortiz, Eva Perón, p. 293.
98 Impressão Geral n-11, de 9 de novembro de 1964.
99 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, narrando-lhe uma entrevista


com Azeredo da Silveira, 5 de dezembro de 1973. APGCS/HF.

100 William C. Smith, Authoritarianism and the crisis of the Argentine political
economy, pp. 201 e 204.
101 "Archive on socio-political violence in Argentina, 1956-1974", citado em William

C. Smith, Authoritarianism and the crisis of the Argentine political economy, p. 141.
102 Susanna W. Purnell, "Business and terrorism in Argentina, 1969-1978", em
Terrorism and personal protection, editado por Brian M. Jenkins, pp. 91 e 93.
103 Alison Jamieson, The heart attacked — Terrorism and conflict in the Italian State,

p. 20. Um levantamento feito pela Central Intelligence Agency, Patterns of International
Terrorism. A Research Report, Washington, junho de 1981, usando critérios que não
permitem uma comparação direta entre os dois números, diz que em 1972 as vítimas
de atos terroristas foram 157.
104 Horacio Verbitsky, O vôo — A historia da operação militar de extermínio que abalou
a Argentina, p. 21.

105 William C. Smith, Authoritarianism and the crisis of the Argentine political
economy, p. 212.

106 Pio Corrêa, O mundo em que vivi, p. 1056.

107 William C. Smith, Authoritarianism and the crisis of the Argentine political


economy, p. 227.

108 Telegrama do embaixador Azeredo da Silveira ao Itamaraty, de 30 de outubro de
1973. APGCS/HF.

109 Para "uma múmia", conversa de Geisel com Moraes Rego e Heitor Ferreira, 5 de
dezembro de 1973. APGCS/HF.

110 Para a preocupação argentina, ver Osiris Guillermo Villegas, Políticas y
estrategias para el desarrollo y la seguridad nacional, pp. 214-5. O general Osiris
Villegas foi embaixador da Argentina no Brasil de 1969 a 1972. Antes, durante três
anos, fora secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional. Ver também Juan
Enrique Guglialmelli, "Argentina frente al Operativo Misiones del Brasil", em
Estrategia, Buenos Aires, nºs 19/20 de novembro e dezembro de 1972 e janeiro e
fevereiro de 1973.

111 Golbery do Couto e Silva, Conjuntura política nacional —O Poder Executivo e
geopolítica do Brasil, p. 58.

112 Em Osiris Guillermo Villegas, Políticas y estrategias para el desarrollo y la
seguridad nacional, a página 225 desdobra-se em três mapas comparativos do
tamanho dos três países sob o título "La geografia en marcha".

113 Mario Gibson Barboza, Na diplomacia, o traço todo da vida, pp. 114-6.

114 Informação dada pelo general João Baptista Figueiredo a Heitor Ferreira, em
Diário de Heitor Ferreira, 13 de março de 1972.

115 Mario Gibson Barboza, Na diplomacia, o traço todo da vida, p. 109. Esse almoço
ocorreu em junho de 1971.

116 Diário de Heitor Ferreira, 17 de janeiro de 1972.

117 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, pp. 23-4.

118 Donald Sassoon, One hundred years of socialism, p. 603.

119 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, pp. 23-4.

120 Idem, pp. 29 e 32.

121 Para a ação da PIDE, artigo de Hermano Alves no Correio da Manhã de 22 de julho
de 1964 denunciando a invasão da casa de um jornalista angolano. Para os estágios,
carta do embaixador brasileiro em Lisboa, Boulitreau Fragoso, ao general Ernesto
Geisel, de 16 de setembro de 1964. APGCS/HF.

122 Antonio Delfim Netto, julho de 1988. Delfim afirmou que o Itamaraty fazia de
conta que não via. "Eles estavam fartos de saber que havia [venda de armas], mas a
gente respondia dizendo que não constava nada a esse respeito, e o assunto se
encerrava."

123 Mario Gibson Barboza, Na diplomacia, o traço todo da vida, p. 244, e Diário de
Heitor Ferreira, 19 de setembro de 1972.

124 Para o editorial, intitulado "Família atlântica", Jornal do Brasil de 7 de novembro
de 1973, 1º caderno, p. 6. Conversa de Geisel com Golbery, 20 de novembro de 1973.

APGCS/HF.

125 Telefonema de Dário Castro Alves a Heitor Ferreira, 21 de novembro de 1973.

APGCS/HF.

126 Carta do embaixador Vasco Mariz a Geisel, de 6 de dezembro de 1973. APGCS/HF.

127 Refere-se a António de Oliveira Salazar, o pai e encarnação da ditadura, que
governou Portugal por quase cinqüenta anos, até 1968, quando a cadeira em que
estava sentado se desmanchou, ele bateu a cabeça, teve um derrame e viveu os dois
anos seguintes em coma. Tinha 81 anos quando morreu.

128 Reunião de Geisel com Dale Coutinho, 16 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.


129 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, pp. 19-20 e 36-7.
130 Hugo Gil Ferreira e Michael W. Marshall, Portugal's Revolution, p. 29.
131 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, pp. 69-70.
132 Para vilegiatura, reunião de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 3


de dezembro de 1973. APGCS/HF.

133 Conversa de Geisel com Moraes Rego, Americo Mourão e Heitor Ferreira, 8 de
janeiro de 1974. APGCS/HF.

134 Reunião de Geisel com Azeredo da Silveira, 28 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

135 Reunião de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 14 de março de 1974. APGCS/HF.

136 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, p. 31.

137 Antônio de Spínola, Portugal e o futuro, pp. 43 e 47.

138 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, p. 34.

139 O Estado de S. Paulo, 14 de março de 1974, capa do 1º caderno.

140 No prefácio de Portugal e o futuro, de Antônio de Spínola, p. 9.

141 Marcello Caetano, Depoimento, p. 196.

142 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, pp. 38 e 43.

143 Reunião de Golbery com Geisel, 5 de março de 1974. APGCS/HF.

144 O Estado de S. Paulo, 16 de março de 1974, capa do 1º caderno.

145 Nota de Heitor Ferreira, de 16 de março de 1974. APGCS/HF.

146 O Estado de S. Paulo, 17 de março de 1974, p. 33.

147 Portugal — Projeto de Circular às Missões junto às Nações Unidas em Nova York e

em Genebra, à Missão junto à Unesco e à Representação junto à FAO, sem data nem

assinatura, preparado por Silveira em fevereiro de 1974. APGCS/HF.

148 Portugal — Projeto de Instruções para o Embaixador do Brasil em Portugal no que

Respeita às Questões entre Portugal e os Estados e Territórios Africanos, sem data nem

assinatura, preparado por Silveira em fevereiro de 1974. APGCS/HF.


149 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, pp. 58-60. Para o
sargento, Marcello Caetano, Depoimento, p. 205.


150 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, pp. 61-2.
151 Telegrama do embaixador Sergio Corrêa da Costa ao Itamaraty, de 24 de maio de
1975. APGCS/HF.


152 Carta do general Carlos Alberto da Fontoura ao general João Baptista Figueiredo,
de 28 de maio de 1974. APGCS/HF.
153 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, p. 88.



A costura da púrpura


Às nove e meia da manhã do dia 15 de março, os cinco cardeais
brasileiros, todos de batina, com largos cintos cor de púrpura, entraram
no prédio do Congresso e duas horas depois, em fila, estavam no
palácio do Planalto, cumprimentando o novo presidente.1 A hierarquia
católica dava ao regime um sinal de que recebia o governo com a pedra
limpa. A cena era o triunfo de uma costura, mas persistia o conflito de
propósitos.

Geisel enquadrava a questão da Igreja no seu universo de
hierarquias e preferências. Havia os cardeais bons e os ruins, os canais
de entendimento possíveis e os espúrios, os temas discutíveis e os
intocáveis. No campo das preferências, d. Eugênio Sales, do Rio de
Janeiro, era um bom cardeal. O arcebispo felicitara-o pela eleição e
oferecera-lhe "a contribuição de minhas orações".2 Geisel agradeceu,
chamando-o de "bom pastor". Cogitara visitá-lo.3 Também eram bons os
cardeais Vicente Scherer, de Porto Alegre, e Avelar Brandão, de
Salvador. Ruim: Paulo Evaristo Arns, de São Paulo. O presidente da
CNBB, d. Aloísio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza, estava classificado
entre os maus bispos.

Luterano por hábito familiar, o general era um agnóstico discreto
e anticlerical assumido. Acreditava quando muito na existência de uma
força criadora do universo, a qual, no entanto, seria um ente da física,
não uma divindade. Nunca se dirigira ao sobrenatural. Entendia as


religiões como sacrários de princípios.4 Lembrava-se dos padres de
Bento Gonçalves ameaçando com o inferno quem entrasse em templo
protestante, da professora primária ensinando que a Santa Madre era a
Igreja "única e verdadeira".5 Em condições normais, Geisel era
anticlerical por agnóstico. Com uma Igreja na oposição, à sua esquerda,
por convicção. Suas queixas eram fundas:

O ato sexual, a reprodução, é pecado. Pois não é. Eu acho que
Deus não seria tão cretino de dar órgãos de reprodução ao
homem e à mulher para não serem usados. [...] A Igreja, desde a
história de Eva, inventa que aquilo é um pecado. Isso é uma
coisa que eu não aceito. Então o cachorro, o gato, o boi, a vaca,
todo mundo está pecando? E Deus fez esse troço por quê?6

Eles não tinham nada que ir atrás dos direitos do homem,
porque esses direitos são direitos aqui na terra, e eles deviam ver
os direitos do homem no céu. Isso não é deles. Para mim, isso
inclusive foi feito pela Revolução Francesa, que era contra eles.
[...] É uma atividade espúria. [...] O sujeito que quer resolver um
problema social quer se impor ao governo. [...] A Igreja quer
impor uma solução cretina, porque é irreal.7

Isso no campo das idéias. No mundo das estruturas políticas,
Geisel não conseguia absorver a complexidade da hierarquia católica.
Se a Igreja era uma organização comandada por um monarca, então o
interlocutor do governo deveria ser seu embaixador, o núncio
apostólico. Se era uma organização verticalizada, os generais deveriam
conversar com os cardeais. Geisel não entendia que o cardeal-arcebispo
de São Paulo não tivesse, como o comandante da 2ª Região Militar,
jurisdição sobre todos os padres paulistas.8

Buscava um gancho hierárquico e, acima de tudo, uma forma de
evitar contatos com a Conferência Nacional dos Bispos, presidida pelo
franciscano Lorscheider. Como Geisel, Aloísio descendia de pobres
imigrantes alemães. Nascera em Estrela, a pequena comunidade onde o
general guardava seus poucos vínculos familiares. D. Ivo Lorscheiter,


primo do arcebispo, era o secretário-geral da CNBB. Num momento da
história do Brasil em que as instituições republicanas se viram
debilitadas, suas mais poderosas corporações — o Exército e a Igreja —
estavam sob o controle de quatro descendentes de colonos alemães, os
irmãos Geisel e os primos Lorscheider. Uns tinham a marca da tropa e
os outros, a marca da Igreja. Assemelhavam-se na noção de hierarquia
e disciplina, bem como na frugalidade da origem comum. O general não
os queria por perto. Reclamava:

O Lorscheider acha que ele é igual a mim. Eu sou o presidente
da República, e ele, o Aloísio, ou o outro, ele é o presidente da
Igreja. [...] os direitos dele vêm de Deus. E os meus são espúrios,
vêm do voto indireto. [...] Ele tem o direito divino de
esculhambar a política e todo esse troço, foi Jesus Cristo que
deu para ele. [...] Eu não vou aceitar que o Lorscheider sente
aqui e venha conversar comigo: 'Bom, porque a Igreja brasileira
tem essa reivindicação, porque tem isso, tem aquilo [...] do
governo, porque isso, porque aquilo. Eu não posso aceitar isso.
Não reconheço nele essa condição. É espúrio, o direito dele é
espúrio. Isso aí é um arranjo que eles fizeram para, pela união,
eles se transformarem numa força.9

O antagonismo abrandava-se, contudo, diante da possibilidade de
um choque com o conjunto da Igreja: "Eu também tenho que ter certas
condutas, mais ou menos decentes, nessa coisa para eu não estar
brigando com o papa. O papa daqui a pouco me excomunga. Não por
mim, mas pelo reflexo que isto vai ter depois para o país".10

A romaria de cardeais a Brasília tinha sido coisa de Golbery.
Conversara primeiro com d. Avelar Brandão. Sugeriu-lhe o impossível:
que a Igreja falasse por uma só voz.11 Almoçara com o cardeal do Rio, d.
Eugênio Sales, em tamanho segredo que levou cinco dias para contar a
conversa a Geisel.12 Dois meses antes da posse do novo governo,


negociava dois encontros. Um, com os primos da CNBB. O outro, com o
cardeal Paulo Evaristo Arns, de São Paulo.

Não se sabe até que ponto o SNI acompanhava os movimentos da
hierarquia católica, mas é certo que lhes censurava a correspondência
e, quando queria, seguia-lhes os passos.

O chefe da agência carioca do SNI, coronel Edmundo Adolpho Murgel,
presenteara Golbery com o livro Destin du Brésil, do padre belga Michel
de Schooyans, endereçado — com dedicatória do autor — a d. José
Maria Pires, bispo de João Pessoa. Fora interceptado pela censura
postal e remetido ao Serviço. Como o trabalho tinha tinturas
geopolíticas e uma referência elogiosa ao interesse do general pelos
problemas do seu país, Murgel mandou-lhe o volume.13

No dia 24 de janeiro o telefone de Golbery tocou. Era Murgel.
Passara-se pouco mais de um mês do encontro do general com d.
Avelar, e faltava pouco para se marcar o almoço com os primos da CNBB.
Murgel contou-lhe que o SNI seguira d. Ivo Lorscheiter e o fotografara,
abraçado a uma senhora, no escurinho do cinema Azteca, no Catete.
Combinaram engavetar o assunto, ficando entendido que uma cópia da
fotografia já fora enviada a Brasília.14 Pouco depois desse telefonema, o
general sentou-se à mesa com os dois primos.

Por volta de meio-dia da terça-feira 19 de fevereiro, Golbery
chegou sozinho ao apartamento do professor Candido Mendes de
Almeida, no Parque Guinle. Era esperado para um almoço com o
cardeal-arcebispo de São Paulo, Paulo Evaristo Arns. Conversaram por
três horas. Discutiram a tortura, e o general pediu que lhe levassem as
denúncias.15 Propôs até mesmo um mecanismo. Reconhecia que a
Igreja se transformara na última instância de oitiva das vítimas, mas
temia a publicidade. Mais tarde explicou o estratagema a Geisel:

Eu disse: concordo, se vier ao conhecimento depois de uma
triagem, vencendo uma fase. [...] Mas, primeiro: ao encaminhar,
é preciso não fazer escândalo. [...] Fazer escândalo público
desmerece o encaminhamento. O encaminhamento é, a meu ver,


um auxílio ao governo. [...] Agora, publicá-lo, mesmo depois da
solução, é criar um escândalo em torno do fato, e isso está
errado. [...] Segundo: quem encaminha à autoridade deve admitir
que essa autoridade é senhora de dar a solução que lhe
pareça certa. Quer dizer, ele não pode brigar com a solução,
porque a responsabilidade é da autoridade.16

O primeiro e antigo objetivo de Golbery era zerar a partida,
congelar todas as divergências até o dia da posse para, então, "começar
do zero absoluto".17 O segundo, manter sob o controle do governo as
denúncias encaminhadas pela Igreja. Era mais do que havia, mas não
haveria de ser suficiente. Difícil admitir que "a autoridade" fosse
"senhora" da solução, impossível aceitar que "ele não pode brigar com a
solução", sobretudo porque, na maioria dos casos, a solução da
autoridade não resolvia coisa alguma. (Duas semanas antes, o cadáver
do guerrilheiro Osvaldão fora degolado depois de ser mostrado à
população de Xambioá, pendurado num helicóptero.) Havia na proposta
de Golbery um ingrediente que enfraquecia o seu estratagema.
Institucionalmente, a "autoridade" não era parte da solução. Ela era o
problema. As forças repressivas do governo é que torturavam e
matavam prisioneiros dominados.

Pouco depois dessa exposição a conversa de Geisel com Golbery
girou em torno da tortura. Não foi longa, nem conclusiva:

GOLBERY: Eu sou contra tortura de qualquer jeito. Tenha
paciência. Esse negócio de tortura para mim... Quer dizer, o
sujeito prende um camarada, tortura o sujeito, e depois solta
porque não há nada contra ele. Francamente, isso é uma
enormidade. Eu posso admitir...

GEISEL: Mas você não sabe se... Eu não acredito em 50% do
que o Arns diz. Espera aí. É uma forte distorção.

GOLBERY: Eu não acredito em 100% do que ele diz, mas que
eu acho que pode ter acontecido, ah, nós vimos no começo.
Começam por torturar o indivíduo antes de saber o que é. [...]


Espera aí, é a mentalidade que nós conhecemos. Nós não vemos
esse Fleury. Eu vou dar crédito a um sujeito desses, que é um
bandidaço sem-vergonha. Não, tenha paciência. Entregam o
troço na mão do Fleury. Que é que pode acontecer. Eu vou até o
ponto de admitir que num assunto de importância do Estado o
sujeito possa ir um pouco além para obter do indivíduo uma
informação vital. Eu vou até esse ponto. Suponha um negócio de
atentado ao presidente, que há indícios, você aperta o indivíduo,
vai até um pouco além. Mas para começo de conversa?
Começam a torturar, para depois então conversar, quebrar o
moral do sujeito.

GEISEL: É o tal troço do inglês... Foram lá na Inglaterra e
estudaram o troço do inglês.18

Numa amostra da estrutura das conversas de fim de tarde no
largo da Misericórdia, o assunto morreu aí. Passaram a discutir a
legitimidade da CNBB, as pressões contra a escolha de Azeredo da Silveira
e as observações do marechal Cordeiro de Farias sobre a política
cearense.

O mecanismo oferecido a d. Paulo era bem mais tênue que "a
coibição enérgica de toda violência ilegal, partida de onde ou de quem
partir", mas revelava o temperamento do general. Ele queria se
assenhorear das informações que chegavam à Igreja, fazendo-as
tramitar de acordo com sua percepção política. A eficácia da proposta
de Golbery dependia do tipo e da quantidade de soluções que
retornasse. Àquela altura, sua proposta era apenas uma promessa.

Até o encontro com d. Paulo Evaristo, toda a romaria ficara em
sigilo. O general sabia se mover em silêncio. É por isso que um mistério
envolve o seu caminho naquela tarde. Ele saiu do Parque Guinle e ia
para o largo da Misericórdia. Estava sem automóvel. D. Paulo ia para o
aeroporto Santos Dumont, e Candido Mendes deu carona aos dois. Em
1973, como hoje, quem sai de Laranjeiras com um carona para o
Santos Dumont e outro para a Misericórdia, passa primeiro pelo


aeroporto. Candido Mendes queria conversar a sós com o cardeal, pois
um almoço daqueles não era coisa comum. Poderia desembarcá-lo,
deixar Golbery quinhentos metros adiante, e voltar ao Santos Dumont.
Essa manobra impediria que a imprensa — sempre de plantão na
entrada do edifício do Ministério da Agricultura — visse o cardeal e o
general juntos. Golbery também poderia ter saltado no meio do
percurso, buscando condução própria. Era comum vê-lo tomando táxis.

Passava pouco das três da tarde. Candido Mendes parou diante
da pequena porta dos fundos do prédio, por onde entravam os notáveis
da República. Aos repórteres surpreendidos pela tripulação daquele
Opala azul, Golbery disse que se encontrara com d. Paulo mas não
falaria da conversa porque era seu direito ter relações pessoais.19
Segundo o cardeal, ele lhe disse no automóvel que se não houvesse
jornalistas na rua, iriam ao gabinete de Geisel. D. Paulo estranhou, mas

o general insistiu.20 Havia jornalistas, e Golbery subiu sozinho.
Passados 21 anos, Candido Mendes não se recordava dessa proposta. É
indiscutível que o general não tomou cuidado algum para manter em
segredo o encontro com d. Paulo Evaristo. É quase certo que
deliberadamente o tornou público. Quando os repórteres contaram ao
coronel Moraes Rego que viram o general e o cardeal no mesmo carro,
ele achou que estavam confundindo uma viagem de Golbery a São
Paulo com um encontro de Golbery com d. Paulo.21 Depois o coronel
confidenciou a Heitor Ferreira que o general fizera um foul, mas o
discípulo do Satânico Dr. Go tinha dúvidas: "É mesmo, a menos que ele
esteja com alguma sacanagem".22
Durante o resto da tarde o general conversou com Geisel, narrou-
lhe a conversa, mas não se referiu à cena do desembarque. O futuro
presidente soube dela pelos jornais do dia seguinte e não gostou.
Desabafou com Heitor Ferreira e Moraes Rego em dois tempos.

No primeiro:

É muito cedo para rasgar esse troço. Os nossos inimigos estão
aí, dentro do SNI, dentro do CIE, essa merda. E nós estamos


provocando os caras. [...] Ele tinha que sair do almoço e ir
embora e dizer: "Olha, essa conversa é confidencial". Como os
outros. O Arns é marcado demais do outro lado. O pessoal já
não gosta do Golbery, já marca o Golbery. [...]

No segundo:

Daqui a pouco vem pressão do Exército, que o Exército não se
conforma, porque o Exército não aceita. Daqui a pouco, quando
menos se espera, vem essa pressão em cima da gente. E aí?
Como é? Ah, porque estão fazendo a abertura com a Igreja, o
Exército não aceita... O Exército não aceita, porque o Arns... E
aí, que que eu vou fazer, não é? Eu não posso mandar o Exército
à merda. Então vou eu embora. Então vocês tomem conta, e até
logo. Vou acabar fazendo isso. O pessoal não se dá conta do que
é o Exército. A maior excrescência.23

Quando Heitor lhe narrou a tempestade, Golbery recuou: "Foi
muito ruim, e eu pensei que passasse despercebido".24 Na rodada de
conversas daquela tarde, Geisel e Golbery trataram o assunto
superficialmente. Dois dias depois O Estado de S. Paulo divulgou um
boletim da Arquidiocese de São Paulo informando que o general e d.
Paulo discutiram "diversos problemas de importância e interesse para a
Igreja em São Paulo e no Brasil". "O general Golbery mostrou-se
sensível a todos os problemas levantados, externando grande apreço
pela ação da Igreja", acrescentava a nota.25 Cada peça se movera na
direção que desejava. Ele dera publicidade ao encontro, e o cardeal
mantivera o segredo de seu conteúdo. Como havia mais gente no jogo,
um pedaço da notícia foi censurado. No seu lugar entrou Gonçalves
Dias:

Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci,



Guerreiros, descendo
Da tribo Tupi.26


Golbery aceitou a carona do professor Candido Mendes três
semanas depois de tomar conhecimento da operação do cinema Azteca.

Passada uma semana, o largo da Misericórdia cuidava de que
todos os cardeais recebessem convites para a posse. Narrando sua
conversa com a CNBB a Geisel, Golbery registrou: "É uma sociedade civil
que está aos poucos procurando coordenar e ter a autoridade da
Justiça, mas que isto é um processo lento [...]".27

Geisel sabia das discussões secretas que o governo Medici e a
Igreja mantinham desde o final de 1970. Organizada pelo general
Antonio Carlos Muricy, essa linha de comunicação juntava bispos,
leigos e oficiais, entre os quais se fazia representar até mesmo o SNI.
Denominava-se Comissão Bipartite e já se reunira 21 vezes. Geisel não
queria que o general Muricy, seu principal arquiteto, se transformasse
no canal de comunicação com a Igreja, nem que o foro de debates e
mútuas acusações prosperasse.28 Há indicações de que lhe chegavam à
mesa algumas das denúncias levadas aos militares pelos bispos.
Golbery via nas reuniões dos religiosos com generais, no mínimo, uma
oportunidade para "os caras perderem um pouco o rebolado".29

O contencioso do Estado com a Igreja poderia parecer extenso.
Havia a peregrinação cosmopolita de d. Helder Câmara, que acabara de
receber na Noruega o Prêmio Popular da Paz. Aqui e ali pipocavam
crises com bispos. Em Sorocaba, pela morte de um estudante. Em São
Félix do Araguaia por conflitos de terra. Isso constituía uma espécie de
rotina, mas em novembro de 1973 o governo Medici criou uma crise de
última hora com d. Paulo Evaristo. Cassou-lhe a rádio arquidiocesana
Nove de Julho. Era a mais poderosa das 118 emissoras católicas do
país e foi tirada do ar. O bispo auxiliar d. Lucas Moreira Neves não
conseguira sequer uma audiência com o ministro das Comunicações.30

Cada um desses casos, com graus variáveis de complexidade,
sempre poderia ser negociado. Os dois lados giravam em torno da busca


do interlocutor autorizado, quando a questão não estava na
interlocução. As diferenças do governo com a Igreja resumiam-se a uma
palavra: tortura. Era ela quem envenenava as reuniões da Bipartite,
toda vez que aparecia um bispo com um caso perfeitamente
documentado. Ela limitava e desautorizava qualquer interlocutor. Do
lado do regime, pouco poderia fazer um negociador qualificado diante de
um dossiê de torturas. A impotência dos delegados do governo
enfraquecia os representantes da Igreja, pois embaraçava os dignitários
quando se viam obrigados a reconhecer que, levada a denúncia, nada
acontecera.

A cena dos cinco cardeais no Planalto simbolizava uma busca. Do
quê, eles sabiam. Tratava-se de desmantelar o porão. Como? Não
tinham idéia. A teoria de Golbery de que se devia começar tudo do "zero
absoluto" era uma promessa. Pressupunha que o novo governo estava
disposto a discutir os casos que surgissem a partir daquela manhã.
Geisel e Golbery sabiam o que já sucedera no porão do regime. Não
sabiam, contudo, o que sucederia a partir do dia seguinte.

1 Eram os cardeais Eugênio Sales (Rio de Janeiro), Paulo Evaristo Arns (São Paulo),
Avelar Brandão (Salvador), Vicente Scherer (Porto Alegre) e Vasconcelos Motta
(Aparecida).

2 Carta de d. Eugênio Sales a Geisel, de 17 de janeiro de 1974. APGCS/HF.

3 Carta de d. Eugênio Sales a Geisel, de 23 de janeiro de 1974, e uma tira de papel de
Heitor Ferreira, intitulada Um Programa Tentativo para a Retomada até a Convenção,
de 2 de agosto de 1973. Previa o encontro para o dia 5 de setembro. A visita não
ocorreu. APGCS/HF.

4 Ernesto Geisel, abril de 1995.

5 Conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 4 de fevereiro de
1974. APGCS/HF.
6 Conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 23 de novembro de


1973. APGCS/HF.
7 Idem.
8 Conversas de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 23 de novembro de


1973 e 4 de janeiro de 1974. APGCS/HF.

9 Conversa de Geisel, Golbery e Heitor Ferreira, 15 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.
10 Conversa de Geisel com Moraes Rego, 23 de novembro de 1974. APGCS/HF.


11 Conversa de Golbery com Geisel, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 4 de janeiro de
1974. APGCS/HF.

12 Conversa de Golbery com Geisel, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 14 de fevereiro de
1974. APGCS/HF.

13 Golbery leu-o, anotou e, numa margem da página onde havia uma referência à sua
obra, escreveu: "Obrigado". AA. Telefonema de Adolpho Murgel a Golbery, 29 de
novembro de 1973. APGCS/HF. Monsenhor Michel de Schooyans tornou-se um destacado
intelectual no pontificado de João Paulo II, que o nomeou para a Academia Pontifícia
de Ciências Sociais.

14 Telefonema de Adolpho Murgel a Golbery, 24 de janeiro de 1974. APGCS/HF. A
fotografia e sua história foram publicadas em 21 de setembro de 1975 pelo periódico
neofascista italiano Il Borghese. A reportagem intitulava-se "O monsenhor e a amiga".
Identificava a senhora, que morreu em março de 1975. Essa fotografia foi vista
também por Walter Clark, diretor da TV Globo. Ver O campeão de audiência, de Clark
e Gabriel Priolli, p. 259.

15 O encontro se deu no dia 19 de fevereiro de 1974. Candido Mendes de Almeida,
maio de 1988. Depoimento de d. Paulo Evaristo a José Casado, em 22 de novembro de
1994.

16 Conversa de Golbery com Geisel, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 19 de fevereiro de
1974. APGCS/HF.

17 Conversa de Golbery com Geisel, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 23 de novembro de
1973. APGCS/HF.

18 Conversa de Geisel com Golbery, 19 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

19 O Estado de S. Paulo, 20 de fevereiro de 1974, p. 4. Para a cor do carro, Candido
Mendes de Almeida, setembro de 1995.

20 Depoimento de d. Paulo a José Casado, em 22 de novembro de 1994, e d. Paulo
Evaristo Arns, Da esperança à utopia, pp. 369-70.

21 Conversa de Geisel com Moraes Rego, 20 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

22 Idem.

23 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 20 de fevereiro de 1974.

APGCS/HF.

24 Telefonema de Heitor Ferreira a Golbery, 20 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. Vinte
anos depois do episódio, Geisel estava convencido de que Golbery se deixou ver com d.
Paulo involuntariamente. Heitor Ferreira tendeu a acompanhar a opinião do ex-
presidente, mas no fim das contas preferiu ficar com a opinião que deu no fragor da
hora, ainda que inconclusiva.

25 O Estado de S. Paulo, 23 de fevereiro de 1974, p. 4.

26 Idem.

27 Conversa de Geisel, Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 29 de janeiro de 1974.

APGCS/HF.

28 Conversa de Geisel, Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 16 de novembro de
1973. APGCS/HF.

29 Conversa de Geisel, Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 29 de janeiro de 1974.
APGCS/HF. Para uma história da Bipartite, ver Diálogos na sombra, de Kenneth P.
Serbin.

30 Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, O. P., orgs., As relações
Igreja-Estado no Brasil, vol. 3, pp. 220-2.


O porão intocado


Em 1974 chegou ao apogeu a política de extermínio de presos políticos.
As versões oficiais já não produziam mortos em tiroteios, fugas ou
suicídios farsescos nas cidades. Geisel sabia dessa política. Em janeiro
tivera duas conversas com veteranos da luta contra o terrorismo. Uma,
com o general Dale Coutinho, quando o convidou para o Ministério do
Exército. Dias depois, numa prosa fiada com o chefe de sua segurança,
tenente-coronel Germano Arnoldi Pedrozo, Geisel soube que um grupo
de pessoas que viera do Chile e passara pela Argentina, havia sido
capturado no Paraná. Pedrozo fora ajudante-de-ordens do marechal
Castello Branco, passara pelo CIE e merecia do general não só a
confiança, mas também estima.

"Pegaram alguns?", perguntou Geisel.

"Pegamos. Pegamos. Foram pegos quatro argentinos e três
chilenos", respondeu Pedrozo.1

"E não liquidaram, não?"

"Ah, já, há muito tempo. É o problema, não é? Tem elemento que
não adianta deixar vivo, aprontando. Infelizmente, é o tipo da guerra
suja em que, se não se lutar com as mesmas armas deles, se perde.
Eles não têm o mínimo escrúpulo."

"É, o que tem que fazer é que tem que nessa hora agir com muita
inteligência, para não ficar vestígio nessa coisa", falou Geisel.2

É improvável que Geisel só tenha tratado da matança nas duas


conversas registradas, com Pedrozo e Dale Coutinho. Não se conhecem
as conversas entre ele e seu irmão Orlando. Sabe-se que no início do
governo convocou uma reunião em que o general Milton Tavares de
Souza, chefe do CIE, contou, no mínimo, o que a tropa vinha fazendo no
Araguaia.3 Ao defender a permanência de Miltinho na chefia do CIE, é
certo que Geisel conhecia, apoiava e desejava a continuação da política
de extermínio.

No final de 1973, d. Paulo Evaristo começou a colecionar nomes e
vestígios que documentassem uma lista de "Desaparecidos".4 Essa
palavra haveria de ser um dos principais itens da agenda da primeira
metade do governo. Englobava todos os cidadãos capturados cujos
cadáveres sumiam sem ficar vestígio. Resultava da conjugação da
política de extermínio com a clandestinidade usufruída pelo porão.
Clandestinidade, no caso, não significava paralelismo, autonomia ou
descontrole. Os assassinatos eram praticados pela máquina do Estado,
com o beneplácito da hierarquia. Eram clandestinos porque, dentro
dela, ocultavam-se.

O sumiço dos cadáveres era uma resposta à estratégia do estorvo.
Cortava caminho às denúncias baseadas em autópsias ou em
testemunhos de moradores das localidades onde os DOIS inventavam
tiroteios. As pessoas simplesmente desapareciam. Em 1964, morreram
dezenove pessoas, mas apenas duas desapareceram. Em 1969, os
oficiais da Operação Bandeirante sumiram com o cadáver de Virgílio
Gomes da Silva, o comandante militar do seqüestro do embaixador
americano Charles Burke Elbrick. Nos anos seguintes o número de
desaparecidos cresce, até que, em 1973, os dois números aproximam-
se. (Veja o quadro.)

ANO 1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974
TOTAL DE MORTOS 19 3 2 3 12 19 30 50 58 59 52
DESAPARECIDOS 2 1 0 0 0 1 5 16 18 28* 52


* O número de desaparecidos de 1973 é impreciso. Os comandantes militares nunca
reconheceram as datas das execuções praticadas no Araguaia. Assim, em vez de 28,
podem ser trinta ou 32. Nesse caso, baixa o número de desaparecidos de 1974.
Fonte: Levantamento do autor, com base em Dos filhos deste solo — Mortos e
desaparecidos políticos durante a ditadura militar: a responsabilidade do Estado, de
Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio, e Dossiê dos mortos e desaparecidos, documento
do Comitê Brasileiro pela Anistia, Seção do Rio Grande do Sul.

Na lista dos militantes urbanos misturavam-se pessoas mortas
em sessões de tortura que possivelmente não se destinavam a liquidá-
las, presos executados nas cadeias, e até mesmo quadros cujo
codinome era desconhecido pelos familiares, enquanto seu nome
verdadeiro não era conhecido pelos outros militantes, muito menos pela
polícia. No Araguaia não se mantinham prisioneiros. Em março de
1974, quando Geisel assumiu, não havia um só morto na contabilidade
oficial do ano que começava. A brandura era um disfarce do extermínio.
Nos 63 dias anteriores à posse desapareceram pelo menos nove
pessoas, sete no Araguaia e duas nas cidades.5 Foram assassinadas.

Salvo no caso do guerrilheiro Osvaldão, do Araguaia, cujo corpo
foi pendurado a um helicóptero para que a população de Xambioá o
visse, agia-se com cautela, e muitas vezes não ficava vestígio da coisa. O
próprio PC do B não sabia onde estavam os militantes que deixara na
floresta. Eles eram caçados pelas equipes Zebra, armadas e
comandadas pelo Exército e formadas por mateiros em busca de
recompensas. Em março o SNI estimava que os guerrilheiros fossem
vinte e, numa análise encaminhada a Geisel, antevia que, com o fim do
período das chuvas, recomeçassem as operações "visando à destruição
dos elementos que ainda se encontram na região".6 Os dois
desaparecidos urbanos eram quadros da APML e sumiram sem deixar
vestígio. (Seus corpos, bem como os dos combatentes do Araguaia,
nunca foram encontrados.)

Geisel tomou posse numa sexta-feira. No sábado, na cidade de
Uruguaiana, perto da fronteira com o Uruguai, sumiram David


Capistrano da Costa e José Roman. Capistrano, o Enéas, ou Ribeiro, era
um veterano dirigente do Partido Comunista Brasileiro. Ex-sargento,
lutara na insurreição de 1935, na Guerra Civil Espanhola e na
Resistência francesa. Tornara-se um dos mais destacados articuladores
do Partidão no Nordeste. Retornava da Tchecoslováquia. Roman, um
corretor de imóveis ligado ao sistema operacional do PCB, fora buscá-lo.
Pegaram a estrada para São Paulo e nunca chegaram.

Começara o desbaratamento do Partidão. O regime que fazia do
anticomunismo quase que uma razão de ser e da repressão um
instrumento primordial de ação política, dera ao PCB um tratamento
diferenciado. Tão diferenciado quanto a linha do Partidão diante da luta
armada. Em 1970, Luiz Carlos Prestes a classificara como
"aventureirismo", "oportunismo de esquerda" e "sarna do
revolucionarismo pequeno-burguês".7 Os militantes comunistas
moviam-se sem assombro, numa espécie de liberdade condicional.
Alguns de seus dirigentes, mesmo vivendo na clandestinidade, podiam
ser encontrados nas noites da esquerda festiva carioca ou nos cinemas
da moda em São Paulo.8

O PC sofria ataques espasmódicos e periféricos. A grande perseguição
de 1964 resultara em centenas de demissões e num processo de
157 volumes com 962 implicados, mas as condenações não passaram
de algumas dezenas. Carlos Marighella e Mário Alves, presos nessa
época, foram libertados poucos meses depois. Mais tarde, como
dirigentes da luta armada, foram assassinados. Banidos do serviço
público, os comunistas se adaptaram, acautelando-se nas fábricas e
protegendo-se nos meios intelectuais e jornalísticos. No final dos anos
60 um surto repressivo prendeu pouco mais de cem quadros do
Partidão, desmontando-lhe a estrutura carioca.9 Em 1974 foram detidos
cerca de sessenta militantes de sua célula na fábrica da Volkswagen,
em São Bernardo.10 Em seguida, ruiu uma parcela das bases
nordestinas. Até a chegada de Geisel ao Planalto a ditadura custara a
vida a cerca de 260 pessoas. Dezessete militavam no PCB. 11 Quase todos
eram quadros de base, muitos deles com liderança sindical. A única


vítima preeminente dentro da estrutura do partido foi Célio Guedes, um
dentista de 53 anos, morto em 1972. Clandestino, estava no núcleo de
operações da direção, quer servindo de motorista a Luiz Carlos Prestes,
quer indo buscar dirigentes na fronteira.12

Desde 1971 o Partido mantinha boa parte dos dirigentes no
exterior (dez dos trinta membros do comitê central), mas preservava a
legalidade dos militantes. Eles se abrigavam no MDB, e, na dura eleição
de 1970, o engenheiro comunista Alberto Goldman elegeu-se deputado
estadual em São Paulo. O PCB decidira privilegiar a atuação nas fábricas,
mas, mesmo assim, alguns de seus quadros influíam nos sindicatos.13
No dos metalúrgicos de São Bernardo, por exemplo, militava o Frei
Chico, apelido de José Ferreira da Silva, um pernambucano que tinha
uma calva semelhante a uma tonsura. Em 1969 ele incluiu o nome de
um de seus irmãos na lista de suplentes da diretoria. Aos 24 anos, Luiz
Inácio só pensava em futebol. Chamavam-no Taturana e Lula.14

O PCB se reorganizara. Exceto no Nordeste, onde baqueara,
levantara a cabeça no Rio de Janeiro e ia bem em São Paulo. Em cada
um desses estados tinha algo como 2 mil militantes.15 Em São Paulo,
conseguira reagrupar os setores universitário e cultural. Sua base
sindical tentava reerguer-se. Um veterano dirigente, Emílio Bonfante
Demaria, ex-oficial da Marinha Mercante, tornou-se Ivo, delegado da
direção do PCB junto aos metalúrgicos de São Bernardo. Chegou a
encontrar-se com Lula num banco de praça da matriz da cidade, mas a
aproximação do jovem sindicalista com o Partidão terminou aí.16 O
Setor Mil, que reunia os militares comunistas, fizera uns poucos
recrutamentos.17

Nesses dias, tornara-se uma temeridade falar em partido
comunista neutralizado. Durante quase quarenta anos se acreditara
que aos comunistas portugueses nada restara afora o cárcere, o exílio e
a irrelevância. Derrubada a ditadura salazarista em abril, bastaram
poucas semanas para que os comunistas recebessem o Ministério do
Trabalho, formassem a mais poderosa central sindical do país,
tomassem os sindicatos controlados por pelegos e estabelecessem uma


base sólida na oficialidade. Da noite para o dia, o Partido Comunista
Português se convertera numa das principais forças políticas do país.
Da noite para o dia, o PCB poderia fazer a mesma coisa.

O Partidão era um sobrevivente praticamente intacto, porém
surpreendentemente vulnerável. Pelo menos três dirigentes que viviam
em regime de severa clandestinidade, com documentos falsos e
domicílios ignorados, foram parados na rua por cidadãos que sabiam
suas identidades verdadeiras e lhes ofereceram a possibilidade de uma
colaboração com o inimigo.18 Um deles era Severino Teodoro de Mello, o
Mellinho, elemento de ligação entre Prestes e a comissão executiva.19
Num caso, o de Armênio Guedes, o desconhecido falava em nome da
Central Intelligence Agency. Abordou o sereno dirigente diante do
aparelho onde ele vivia, em Laranjeiras, no Rio, no início de 1971.
Queria informações sobre o terrorismo e deixou-lhe dois pontos de
contato: o telefone da embaixada americana e um endereço em Bonn,
na Alemanha.20

Situações desse tipo só eram possíveis porque no PCB havia
infiltrados. Tantos, que os estranhos personagens não se preocupavam
em esconder os conhecimentos que tinham. Um telegrama da CIA, de
setembro de 1964, indica que sua estação no Brasil foi capaz de levar à
Casa Branca o relato de uma conversa de um funcionário da embaixada
soviética com três dirigentes comunistas brasileiros.21 O chefe do
serviço político do consulado em São Paulo, John Blacken, asseguraria
que, mesmo não dispondo de infiltrações nos movimentos armados, a
CIA penetrara o PCB. 22 O Centro de Informações do Exército, também.23

À penetração, somavam-se normas de segurança frouxas. Em
1970, quando a direção do partido decidiu tirar Luiz Carlos Prestes do
país, remetendo-o para Moscou, mandou-o por terra ao Uruguai (levado
por um motorista com carteira vencida) e colocou-o num avião que
sobrevoaria o Brasil. Um problema técnico forçou um pouso de
quarenta minutos no Rio, e os passageiros foram desembarcados. O
acompanhante de Prestes era médico e conseguiu convencer os
tripulantes a deixar a bordo aquele ancião de bigodes.24


Pelo menos um dos infiltrados, Adauto dos Santos, o Carlos, com
mais de vinte anos de militância e sete na seção de relações exteriores,
era pessoa da confiança de Prestes. Estivera seis vezes na União
Soviética, quatro a serviço, em Moscou, e duas, de férias, no mar Negro.
Sua mulher já o denunciara ao partido, mas o caso foi tomado como
rusga familiar.25 De Moscou, o grão-cacique comunista avisara que
desconfiava dele. Supõe-se que Adauto também desconfiou deles
quando lhe cortaram os contatos e pediram que viajasse para o México.
Como talvez soubesse que era lá que os comunistas latino-americanos
acertavam suas contas clandestinas, ele pulou o muro e explodiu as
conexões internacionais do PCB numa entrevista ao Jornal do Brasil.26

Além de Capistrano ter desaparecido, os dirigentes do PCB
perceberam que estavam sendo observados. Giocondo Dias, o sergipano
pacato que, na ausência de Prestes, dirigia o partido no Brasil, entrou
em casa e descobriu que havia sido visitado por estranhos. O mesmo
sucedera a Hércules Corrêa, a quem roubaram uma televisão. Ambos
resolveram ir embora de São Paulo.27 Num mesmo dia, ao menos seis
dirigentes do partido passaram, por motivos diferentes, pela praça das
Bandeiras, no centro da cidade. Givaldo Siqueira, encarregado das
operações clandestinas, desconfiou que o seguiam. Subiu num
automóvel com quatro colegas e verificou que tinha dois fuscas no
rastro. Conseguiu despistá-los. Nessa ocasião suspeitou que Walter de
Souza Ribeiro, ex-oficial do Exército e chefe do partido em São Paulo,
também estivesse campanado.28

No dia 3 de abril, Ribeiro saiu de uma reunião numa casa em
cuja vizinhança havia pessoas consertando a fiação de postes. Foi a um
"ponto" conversar com Luís Inácio Maranhão. Ex-deputado estadual no
Rio Grande do Norte, defensor da anticandidatura de Ulysses
Guimarães à Presidência da República e amigo do cardeal Eugênio
Sales, Maranhão era uma espécie de chanceler do Partidão.
Encarregava-se dos contatos com parlamentares e com a Igreja.29
Também iria a esse encontro João Massena Mello, ex-deputado
estadual carioca e veterano agitador sindical do PCB. Pagara três anos de


cadeia e estava em liberdade fazia pouco mais de um ano.30 Sumiram
todos.

Jamais se conseguiu uma prova material do que sucedeu aos
cinco comunistas capturados nos primeiros vinte dias do governo
Geisel. O ministro da Justiça, Armando Falcão, sustentou que eles
continuavam foragidos. A um senador governista conterrâneo de Luís
Maranhão, teria dito que "era uma vela apagada".31 Afora isso, todas as
pistas foram tênues. Um cidadão que trabalhava num posto de gasolina
de São Paulo procurou uma irmã de José Roman e contou-lhe que o
corretor, pressentindo a prisão, identificou-se.32 O médico do DOI,
Amilcar Lobo, disse à viúva de David Capistrano que o viu no Rio de
Janeiro.33 Um relatório da Marinha informou que ele esteve preso no
manicômio paulista de Franco da Rocha.34

Em 1992 um ex-sargento do Exército, Marival Chaves Dias do
Canto, narrou ao repórter Expedito Filho, da revista Veja, uma parte de
seus sete anos de serviço na máquina de repressão militar em São
Paulo. Segundo ele, Luís Maranhão e João Massena acabaram num
cárcere montado numa fazenda da estrada da Granja 20, em Itapevi.
Liquidaram-nos com injeções de uma droga destinada a matar cavalos e
jogaram seus corpos num rio. Walter de Souza Ribeiro, David
Capistrano e José Roman foram levados para a casa que o CIE mantinha
em Petrópolis. Esquartejaram-nos.35

Na primeira reunião com o ministério, Geisel anunciou que
buscaria um "gradual, mas seguro, aperfeiçoamento democrático". Uma
no cravo. Outra na ferradura: numa referência direta às entidades da
sociedade civil e indireta à Igreja, repeliu "a intromissão, sempre
indevida, em áreas de responsabilidade privativa do Governo, a crítica
quando desabusada ou mentirosa, as pressões insistentes e
descabidas".36 Prenunciava um novo rumo para a política de seu
governo, mas mantinha-se suficientemente vago para evitar cobranças.
Anteviam-se mudanças, quer pelo que Golbery contava, quer por


escolhas como a do deputado liberal Célio Borja para o lugar de líder do
governo na Câmara.

Suave, irônico e católico, tivera uma militância lacerdista tão
profunda que fazia parte do pequeno grupo de colaboradores do
"Carlos" que jamais perderiam o leve sotaque da pronúncia cadenciada
do chefe. Estivera no páreo para os ministérios da Justiça e do
Trabalho, mas fora congelado porque Geisel temia que ele viesse "logo
com aberturas".37 O SNI o acusara de ter assinado um manifesto em que

o governo Castello Branco fora classificado como "regime de opereta", e
Geisel pensou em não chamá-lo para cargo algum.38 Ao decidir
entregar-lhe a liderança, viu-o espingardeado na Contorcida linguagem
de Petrônio Portella, presidente da Arena: "A constante dele é a palavra
mágica estado de direito".39 Mesmo assim, foi em frente.
O general chamou-o. Disse-lhe que desejava colocá-lo na
liderança mas "não quero lhe criar dramas de consciência".
"Eu não sei se o presidente conhece as minhas idéias", respondeu

o deputado.
Quando se despediram, Célio deu o tom: "Eu confio na sua
consciência moral. [...] Estamos nos engajando numa aventura".40
Havia naquilo a imprevisibilidade das aventuras. Em abril, depois
de uma costura conduzida por Golbery com a ajuda de Armando Falcão,
a revista Veja fora dispensada da censura prévia a que vinha sendo
submetida. Retornara ao sistema da autovigilância, que consistia em
esquecer o que sucedia no porão, respeitando as proibições
transmitidas pela Polícia Federal. O jornalista Millôr Fernandes, que
sustentava uma seção de duas páginas com seus desenhos brilhantes e
seu ácido senso de humor, estampou um cidadão acorrentado à parede
de uma masmorra, sobre a seguinte legenda: "Nada Consta".41 Do Rio,
onde visitara a Vila Militar, o ministro do Exército, Dale Coutinho,
telefonou ao ministro da Justiça: "Comunico-lhe que encontrei aqui a
oficialidade em polvorosa. A Veja fez uma provocação que os militares
não aceitam. Peço ao senhor uma providência reparadora e imediata".
"Não vacilei", lembraria Falcão. "Restabeleci a censura na revista."42


Nesse rápido episódio encapsulavam-se todos os ingredientes da
anarquia. O general pedia providências a Falcão, quando deveria pedi-
las ao chefe comum, o presidente da República, a quem caberia decidir
se, de fato, houvera "provocação". Pior: Coutinho não pedia
providências em nome da sua condição de comandante, mas por conta
de uma "oficialidade em polvorosa". Sacou o bordão segundo o qual "os
militares não aceitam" e arrastou as fichas. Por vontade, cautela ou
ignorância, Falcão impôs a Veja uma modalidade letal de censura.
Exigia que a revista, sediada em São Paulo, remetesse seus textos a
Brasília até a noite de terça-feira. Cassava-lhe a capacidade de noticiar

o que acontecesse de quarta a sexta. Golbery entrou no circuito, a
censura foi mantida, mas o exagero do ministro foi revogado, sem ter
chegado a vigorar.
Uma onda de prisões ocorrida no meio universitário de São Paulo
durante as cerimônias do décimo aniversário da "Revolução Redentora
de 31 de Março" levou Golbery a reclamar, numa conversa com Heitor
Ferreira:

Eu acho que estamos sofrendo uma ditadura dos órgãos de
informação. Esses órgãos, hoje, estão misturados, porque o DOI
prendeu quatro, mas o DOPS prendeu quarenta. Quando
cobrarem, vai se dizer: o que é que eu tenho a ver com o DOPS?
Tem, o presidente tem. Tanto com o DOPS quanto com o DOI. O governo
federal está tomando a responsabilidade de tudo que o
DOPS faz por causa desse troço. Toda vez que a cousa começa a
acalmar, o pessoal decide e cria troço, prende gente. Porque,
você compreende, é para permanecer, para mostrar serviço. Isso
é exatamente criar aversões, mas eles criam aversões porque
querem perdurar. Quer dizer, todo mundo está acuado com
esses caras. Compreende? É o que está acontecendo. Todo
mundo acuado com eles.43

O general queria também tirar o delegado Sérgio Fleury de cena.
O matador de Marighella, ícone do combate à subversão, obtivera da


hierarquia do regime solidariedade e amparo. Geisel concordava com o
afastamento do delegado. Fleury era réu nos processos de extorsões e
assassinatos do Esquadrão da Morte no submundo do tráfico de drogas
de São Paulo, mas continuava forte. Numa eleição de que participaram
os 44 repórteres, radialistas e fotógrafos que faziam a cobertura
rotineira das atividades da Secretaria da Segurança do estado,
conquistaria a quarta colocação entre os "melhores do ano".44

Golbery reclamava: "Mas tira esse homem para fora. Bota esse
homem em férias, manda ele passear na China. Aliás, o chefe está de
acordo nisso. [...] É uma burrice ter esse homem aí, à vista de todo
mundo".

"Manda ele fazer um curso na França. Com esse nome: Fleury...",
aconselhou Heitor.

"É, mas talvez ele não possa se afastar, porque está sub judice.
Manda ele para Foz do Iguaçu. Tem um negócio onde criam jacaré,
manda ele tomar banho lá. Esse é bandido. Esse é um bandido. Agora,
prestou serviços e conhece muita coisa."

"Sobretudo isso", arrematou Heitor.45

Os desaparecidos do PCB realimentavam a estratégia do embaraço.
Eram pessoas com passado de militância política, não estavam metidos
na luta armada e dispunham da rede de solidariedade do partido. Uma
coisa era sumir com os integrantes do Grupo Primavera, da ALN, vindos
clandestinamente de Cuba na esperança de reorganizar as bases
brasileiras. Outra, fazer desaparecer um ex-parlamentar como Luís
Maranhão. Esse caso levou o deputado Thales Ramalho, secretário-
geral do MDB e chefe da corrente moderada do partido, à tribuna da
Câmara. Maranhão era seu velho amigo. Ramalho entrincheirou-se no
embaraço, cobrando explicações ao governo. Leu uma carta da viúva e
concluiu: "É com sentimento de vergonha que transmito a esta Casa
esse impressionante documento para o conhecimento de todos.
Vergonha de que, em meu país, uma carta dessas possa ser escrita.


Daqui, quero fazer um apelo ao presidente Ernesto Geisel: mande
apurar este caso".46

Pouco depois o cardeal Eugênio Sales foi a Geisel. Como de
hábito, deixou com seu interlocutor os tópicos tratados na audiência.
Foram seis, e o último dizia: "Importância da localização de um grupo
de presos que se encontra desaparecido. Comprovará as intenções do
governo em respeitar os direitos humanos".47

Golbery tinha uma posição parecida, em linguagem mais crua:
"Eu quero que os cadáveres desses desaparecidos saiam de meu
armário. Quero tirá-los daqui. Que fiquem no gramado aí em frente ao
Planalto. Haverá um período de assombro, de horror, mas o problema
desaparece. Se os cadáveres continuarem aqui, o problema não acaba
tão cedo".48

O general já percebera que nessa matéria o chefe do SNI não era
seu aliado, mas registrava que Geisel estava "numa posição média, nem
tanto com a minha, nem com a do Figueiredo".49

A de Figueiredo, de acordo com uma Apreciação Sumária que ele
remeteu a Geisel, era a do porão. Referindo-se à "campanha sobre
prisões e desaparecimento de subversivos", alertava: "Tais iniciativas se
ajustam aos desígnios do Movimento Comunista Internacional, MCI, no
qual se inserem as atividades do PCB [...]"50

A vida de Figa no Serviço não estava fácil. Afunilava-se nele boa
parte do ressentimento militar contra as novidades. O general tinha sob
suas ordens uma máquina de que fora sócio benemérito, como chefe do
Gabinete Militar de Medici. Figueiredo colocara o amigo Newton Cruz, o
Nini, na chefia da Agência Central, segundo cargo em importância na
hierarquia do SNI. Ele dispensara o coronel Sebastião Ramos de Castro,
que servia no setor de assuntos externos da Agência. Anos depois, Nini
recordaria suas razões: "Tinha-se que conter o CIE, que através de
Castro controlava o SNI. O SNI ficava a reboque do CIE".51 Figueiredo sabia
disso, mas trocou seis por meia dúzia, amparando o coronel em seu
gabinete. Sabia também que Castro detestava Golbery.52

Castro tivera algumas simpatias esquerdistas nos anos 50 e fora


considerado cristão-novo nos primeiros dias do regime.53 Depois de
viver os primórdios do SNI, tornara-se um diligente oficial de
informações. Passara pelo lugar de adido em Buenos Aires e era
conhecido tanto pelo rigor pessoal como por uma descomunal
capacidade de trabalho. Era um homem seco, formal. Quando queria
distância, tratava a pessoa por "Vossa Excelência" até em bilhete
manuscrito.54 Geisel tinha-lhe amizade.55

O SNI comportava-se como um comissariado ideológico. Um
exemplo disso pode ser encontrado no primeiro relatório guardado por
Geisel. Nele aprecia-se uma entrevista concedida por d. Paulo Evaristo
Arns à Associated Press. O cardeal de São Paulo denunciara a censura
e as torturas, mas mostrara-se otimista com o novo governo: "Haverá,
muito provavelmente, uma melhora nas relações entre Igreja e Estado".

O analista do SNI zangou-se: "Parece-nos que D. Evaristo Arns, na
condição de Cardeal-Arcebispo de São Paulo, não estava — e não está

— investido da nobre e séria responsabilidade de falar à imprensa
internacional em nome da Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil,
principalmente considerando-se o importante e grave assunto das
relações entre Igreja e Estado".56
No caso de d. Paulo, a implicância do SNI revelava-se
contraproducente, pois as posições do cardeal eram conhecidas por
Geisel e Golbery. Em outros casos, o Serviço manipulava omissões e
inflava irrelevâncias. Esse foi o caso de Glauber Rocha. Geisel
raramente ia ao cinema. Golbery, nunca. Para ambos, o cineasta baiano
era um intelectual caótico dos anos 60, inimigo do regime, auto-exilado
na Europa. Em março de 1974, a revista Visão publicara sob a forma de
depoimento uma carta dele ao jornalista Zuenir Ventura. Seu conteúdo
estarreceu a esquerda:

Acho que o Geisel tem tudo na mão para fazer do Brasil um país
forte, justo, livre [...]. Antonio das Mortes é o profeta de Alvarado
e Khadafi. Vejam as coisas: agora a história recomeça. Os fatos
de Geisel ser luterano, e de meu aniversário ser a 14 de março,


quando completo 35, me deixam absolutamente seguro de que
cabe a Ele responder às perguntas do Brasil falando para o
mundo [...]. Para surpresa geral, li, entendi e acho o general
Golbery um gênio — o mais alto da raça, ao lado do professor
Darcy Ribeiro.57

Golbery não deu maior importância ao episódio. O SNI, contudo,
pareceu molestado. Não registrou a surpreendente declaração do
cineasta, publicada no Brasil, mas passados dois meses acusou:
"Glauber Rocha atacou violentamente, pela TV portuguesa, o governo
Medici, qualificando-o de 'fascista'".58 (Meses depois, quando o ministro
Reis Velloso perguntou a Geisel se Glauber podia voltar ao Brasil, ele foi
frio: "Que venha, mas calado e comporte-se".)59

Na manhã de 24 de maio, deu-se um imprevisto. Na tarde da
véspera o ministro do Exército tivera uma discussão áspera com o
general Rodrigo Octavio Jordão Ramos, um veterano "fritador de
bolinhos", colega de turma de Geisel na ESG, que fora engavetado no
Superior Tribunal Militar. Lá, vinha denunciando casos de tortura.60 À
noite, Dale Coutinho foi a um jantar na casa do presidente da Câmara,
voltou para casa sentindo-se mal e morreu. Dos seus setenta dias no
ministério pouca lembrança restou. Geisel preencheu a vaga de acordo
com o manual. Nomeou o general Sylvio Frota, chefe do Estado-Maior
do Exército. Não fazia tanta diferença.

A chegada de Frota coincidiu com o primeiro ato formal de
contenção da "tigrada". Uma Diretriz de Atuação do CIE pretendeu
tolher-lhe a autonomia. Mantinha a estrutura do aparelho de
informações, mas determinava que o Centro se entendesse com os
comandantes dos quatro exércitos para quaisquer operações que viesse
a conduzir dentro de suas áreas.61 Em tese, terminara a fase em que o
CIE mandava onde queria, atropelando os comandantes militares e até
mesmo os DOIS. Mudança radical, pretendia recompor parte da


hierarquia nas áreas das grandes unidades.

É provável que essa mudança tenha sido responsável pelo
adormecimento dos aparelhos clandestinos mantidos pelo Centro no Rio
e em São Paulo. Entre junho de 1974, quando foi baixada a Diretriz, e
janeiro de 75, quando os dois aparelhos acordaram, não há notícia de
presos assassinados em Petrópolis ou em Itapevi. A própria tortura
refluiu. Segundo o levantamento feito anos depois pela Arquidiocese de
São Paulo, em 1974 foram apenas 67 as denúncias de suplícios. Um
número que aproximava o governo das estatísticas anteriores à edição
do AI-5. Entre 1965 e 1968 essa média ficara em 71 casos por ano. Em
1973, último ano de Medici, as denúncias haviam sido 736.62

O presidente não se dava a chacrinhas com generais. Não os
recebia no Alvorada por falta de intimidade, nem no Planalto, por
questão de hierarquia. Seu primeiro encontro com a cúpula militar
ocorreu na manhã de 10 de junho. Reuniu o Alto-Comando das Forças
Armadas, composto pelos ministros, seus chefes de estados-maiores e
pelo chefe do EMFA. Geisel falou por mais de uma hora valendo-se de um
roteiro de quinze folhas de bloco com notas manuscritas. Nessa
reunião, apresentou o seu projeto político. O AI-5 era um "tacape"
intimidador. Repetiu boa parte da exposição que fizera a Dale Coutinho
quando o convidou para o ministério, mas formulou de maneira diversa

o problema da subversão. Queria ver luz no fim do beco:
Eu não creio que presentemente [se] pudesse imaginar uma
subversão interna de natureza generalizada. Absolutamente. O
grau que nós atingimos, o grau de repressão a que nós
chegamos impede isso. A subversão poderá ocorrer, em grande
parte alimentada de fora, e poderá haver dentro do país
determinados focos, mas qualquer foco destes é fator de
intranqüilidade e nós temos que continuar no nosso sistema de
combate à subversão interna, por maiores que tenham sido os


êxitos alcançados. [...] Nós temos que trabalhar em medidas
preventivas, e temos que trabalhar com medidas repressivas, se
necessário. As medidas preventivas são muito importantes, inclusive
no sentido psicológico, porque por mais que se liquide, se
elimine esses focos, ou se prendam, ou matem, ou não sei o quê,
a determinados grupos, a subversão é constantemente
realimentada.63

Poucos dias depois, a assessoria do SNI enviou ao general Figueiredo
um documento que dizia o contrário. Admitia que a guerrilha urbana
tinha acabado, registrava que o último ato terrorista ocorrera em outubro
de 1973, mas prevenia o governo contra um novo perigo.
Denunciava a hipótese da "existência de uma estratégia global das
esquerdas, destinada a criar um falso clima de tranqüilidade interna,
desarmando o espírito dos Órgãos de Segurança e criando um clima
para a reivindicação do restabelecimento de liberdades".64

Projetando a reivindicação do restabelecimento das liberdades
como item da agenda subversiva, fechava o beco. Se não houvesse
tranqüilidade, deveria haver repressão, porque só assim se
restabeleceria a paz. Havendo tranqüilidade, ela seria falsa, manha
subversiva. Portanto, a repressão era indispensável. A tranqüilidade
tornava-se ameaça para a anarquia. Essa anomalia iria se transformar
no principal fator de desordem do período. Influenciando o
comportamento da "tigrada", e até mesmo o de Geisel, produzirá crises
cada vez mais artificiais. Em 1964 a desordem do janguismo era um
fato real, falava-se em rebelião de marinheiros, e havia marinheiros
rebelados no Rio de Janeiro. As passeatas de 1968 foram
instrumentalizadas, mas podiam ser vistas das janelas dos prédios da
avenida Rio Branco. O vigor do surto terrorista foi exorbitado, mas
atentou-se contra o virtual presidente da República, seqüestraram-se
quatro diplomatas estrangeiros e assaltaram-se centenas de bancos e
casas de comércio. Em 1975 não havia subversivos no Planalto,
estudantes na rua, muito menos terroristas em ação. Temendo a


normalidade, o aparelho de segurança do governo precisava de uma
ameaça. Fabricou-a no PCB. Viu no Partidão "o maior perigo para as
instituições democráticas", pelas seguintes razões:

— É o partido que conta com quadros mais capazes e de maior
experiência.
— É a organização que menos recebeu os reflexos da ação
direta dos órgãos de segurança.
— É a organização que conta com maior experiência de
clandestinidade.
— É a organização que conta com maior apoio externo.
— É a organização em que a condenação de seus quadros se
faz mais difícil na Justiça, possibilitando a rápida volta dos seus
militantes à atividade partidária.
— É a organização que apresenta mais elevado estágio de
organização em todo o território nacional.
— É a organização que encontra maior receptividade e
facilidade de penetração junto às classes política, operária,
religiosa e intelectual. [...]
— É a organização que não age precipitadamente e tem
maior tradição.
— É a única organização que superou uma série de crises
sem haver desarticulação, tendo assegurado maior firmeza de
posição e homogeneidade.
— É a melhor organização na aplicação da política de
acumulação de forças.65
Sugeria que a Comunidade de Informações cuidasse do PCB, para
a tomada das "medidas preventivas indispensáveis".66

Numa manobra surpreendente, em junho Golbery foi à sede da
Conferência Nacional dos Bispos, em Brasília, e se reuniu com um
grupo de familiares de treze desaparecidos. O encontro foi marcado e


realizado em sigilo. Durou o dia inteiro, e Golbery interrompeu-o para
almoçar com d. Paulo Evaristo Arns. Recebeu um dossiê em que cada
caso era documentado e prometeu dar notícias. Mais tarde o cardeal
contou que Golbery chorou ao ouvir duas das narrativas. Anos depois
do encontro, o general não se lembrava de ter chorado e, medindo as
palavras, disse: "É uma versão emotiva, que não é fantasiada".67
Despedindo-se de d. Paulo, já no carro que o levaria ao Planalto,
admitiu: "Infelizmente, ainda não conseguimos limpar os quartéis".68

Pouco depois, os quartéis de São Paulo emitiram um sinal. Um
contínuo foi a uma agência do correio para despachar um volume mal
embrulhado para um endereço na Escócia. O pacote se abriu, e
materializou-se uma carga de jornais e publicações clandestinas. Preso,

o moço revelou que trabalhava para o Centro Brasileiro de Análise e
Planejamento. O DOI resolveu prender o Cebrap.
O Cebrap funcionava num casarão da rua Bahia. Nele, desde o
final de 1969, o núcleo de professores expulsos da Universidade de São
Paulo vivia protegido atrás de uma couraça legalista. Formavam um
grupo exigente, criativo e aplicado, que discutia e estudava problemas
políticos e econômicos do país. Seus quadros mais destacados
começavam a abandonar a referência marxista que os atraía desde o
final dos anos 50. A instituição juntava autores de pelo menos 37 livros
e 168 artigos acadêmicos, produção intelectual certamente superior à
das Forças Armadas desde a edição do AI-5.69 Segundo o SNI, O Centro
era parte de "uma nova frente de propaganda adversa, com implicações
na área estudantil".70 A principal fonte financiadora do Cebrap foi a
Fundação Ford. Financiou-lhe 70% do orçamento no primeiro ano de
vida. Até 1972, dera-lhe 893 mil dólares.71 O Cebrap recebia também a
ajuda de empresários paulistas.72 Reunia em torno de vinte acadêmicos.
Sua mola mestra era o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, autor do
famoso Dependência e desenvolvimento na América Latina (1969).

Um deles, o economista Frederico Mazzucchelli, que em 1968
freqüentara um grupo de estudantes radicais do qual saíram pelo
menos três quadros da luta armada, foi preso na rua. Apanhou durante


seis horas e ficou 25 dias na cadeia. Estava no pau-de-arara, e os
policiais se divertiam aconselhando-o: "Vai reclamar com o Geisel".73

Em setembro, prenderam mais três professores do Cebrap. Um
deles, Vinicius Caldeira Brant, ex-presidente da UNE, foi demoradamente
torturado. A partir desse momento o porão começou a perder a parada.
Fernando Henrique Cardoso bateu na casa do cardeal Arns às onze
horas da noite e pediu-lhe socorro. Às sete da manhã seguinte, d. Paulo
encontrou-se com o comandante do II Exército. A tortura cessou.
Noutra linha, os professores pressionaram o coração do governo.

Nesse episódio desponta a figura de Severo Gomes. O ministro da
Indústria e Comércio entrara no governo por suas relações com a
plutocracia paulista, inclusive aquele pedaço da banca que financiara a
repressão. Nele, seria mais um adversário do porão. Sabendo que
haveria novas prisões, levou o assunto a Geisel, e firmou-se um
compromisso: os três professores seriam soltos, o DOI chamaria quem
quisesse mas não tocaria nos presos, que seriam interrogados e
liberados no mesmo dia.74 Assim, entre o final de setembro e as
primeiras semanas de outubro, da secretária a Cardoso, o Cebrap foi ao
DOI. 75 Ninguém dormiu na cadeia, mas todos ficaram encapuzados nos
corredores enquanto esperavam a hora do interrogatório.76 Durante
quinze dias passaram pelo porão quase todos os professores do Cebrap.

Pela primeira (e última) vez desde o seu surgimento, o DOI fora
obrigado a respeitar a integridade física dos presos de um arrastão. Os
interrogatórios mostraram-se improdutivos e, na lembrança de muitos
professores, ridículos. A Fernando Henrique surpreenderam as
perguntas que buscavam estabelecer suas conexões com o pensador
trotskista Ernest Mandei, que encontrara no México, e com o ex-
ministro Roberto Campos, com quem jantara em São Paulo. Já o
professor José Arthur Giannotti, cujo interrogatório durou cerca de doze
horas, intrigou-se com o antiamericanismo de um oficial, brasileiro, que
calçava botas do uniforme americano.77 O DOI havia sido ferido na
amplitude de suas funções. Nesses dias Golbery narrou a Heitor
Ferreira uma conversa em que Geisel reclamara de oficiais do CIE,


dizendo que "é preciso implantar uma política de prisões sem violência".

Golbery não tinha o hábito de guardar papéis. Passava-os, aos
lotes, a Heitor Ferreira. Essa característica torna intrigante o fato de ter
guardado consigo, por toda a vida, um maço de cinco folhas onde estão
listados misteriosos episódios que rondaram sua casa de Jacarepaguá a
partir de setembro de 1974. Primeiro ligou uma pessoa, puxando
conversa e perguntando ao PM de serviço quantos homens faziam a
segurança da propriedade. Outro telefonema informou que a mulher de
Golbery fora seqüestrada. A informação era falsa, mas no dia seguinte
decidiu-se que Esmeralda do Couto e Silva embarcaria para Brasília.79
É dessa época o aparecimento nos quartéis do Rio do primeiro panfleto
contra o governo.80

1 Não há registro que permita supor quem sejam.
2 Conversa de Geisel com o tenente-coronel Germano Pedrozo, 18 de janeiro de 1974.


APGCS/HF.

3 Entrevista do general Newton Cruz em O Globo de 15 de abril de 1999, p. 8.

4 Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa, orgs., Desaparecidos políticos, p. 33.

5 Entre 1º de janeiro e 15 de março de 1974 desapareceram no Araguaia, pelo menos,
José Lima Piauhy Dourado (Nelito), Luiz Renê Silveira e Silva (Duda), Jana Moroni
Barroso (Cristina), Maria Célia Corrêa (Rosa), Pedro Carretel e José Humberto Bronca
(Zeca Fogoió). Nas cidades desapareceram Eduardo Collier Filho e Fernando Santa
Cruz Oliveira.

6 Apreciação Sumária, do SNI, de março de 1974. APGCS/HF.

7 Artigo de Luiz Carlos Prestes na Revista Internacional, citado em telegrama da
agência France Presse, de 29 de dezembro de 1970. Para a "sarna", Prestes com a
palavra, organizado por Dênis de Moraes, p. 200.

8 José Salles, membro do secretariado da comissão executiva do PCB, esteve num dos
réveillons mais animados do início dos anos 70, realizado na casa do casal Mauro e
Gilse Campos, na Urca.

9 Transmissão da rádio Globo e telegrama da agência Efe, de 28 de março de 1969,
mencionando 53 e setenta presos, respectivamente. Essas prisões estenderam-se até
julho. Givaldo Siqueira, maio de 1977.

10 João Guilherme Vargas Neto, maio de 1997.

11 Para os mortos do PCB, ver Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio, Dos filhos deste
solo, pp. 302-57.

12 Para a condição de motorista de Prestes, entrevista de Hércules Corrêa ao Jornal


do Brasil de 8 de março de 1990, p. 13.

13 João Guilherme Vargas Neto, maio de 1997.

14 Frei Betto, Lula — Biografia política de um operário, pp. 23-4. Depoimento de Frei
Chico, em Denise Paraná, Lula — O filho do Brasil, pp. 154-7.

15 João Guilherme Vargas Neto, junho de 1997.

16 Depoimentos de Luiz Inácio da Silva e José Ferreira da Silva (Frei Chico), em Denise
Paraná, Lula — O filho do Brasil, pp. 130 e 157.

17 Sérgio Cavallari, junho de 1997.

18 Foram Severino Teodoro de Mello, Armênio Guedes e Orestes Timbaúva. Casos
semelhantes ocorreram com Jarbas Holanda e Almir Neves. Para todos eles, exceto
Armênio Guedes, a fonte é Dinarco Reis, citado em João Falcão, Giocondo Dias — A
vida de um revolucionário, p. 298. Para Jarbas Holanda, ver também Maria Conceição
Pinto de Góes, A aposta de Luiz Ignácio Maranhão Filho, p. 249, com depoimento de
Hércules Corrêa.

19 Para esse caso, relacionado com Severino Teodoro de Mello, o Mellinho, Hércules
Corrêa, Memórias de um stalinista, p. 105. Givaldo Siqueira, fevereiro de 1988. Maria
Prestes refere-se ao caso, atribuindo o contato ao SNI, em Veja de 20 de maio de 1992,
pp. 40-5.

20 Armênio Guedes, 1988.

21 Memorando de W. G. Bowdler a McGeorge Bundy, assessor de Segurança Nacional
da Casa Branca, de 20 de setembro de 1965, encaminhando um telegrama da CIA, de
14 de setembro, onde se relata o encontro, ocorrido em 1-de agosto.

22 John Blacken, janeiro de 1990.

23 Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, setembro de 1988.

24 Salomão Malina, julho de 1989, e Givaldo Siqueira, fevereiro de 1988. Para o
incidente, Maria Prestes, Meu companheiro — 40 anos ao lado de Luiz Carlos Prestes,

p. 150. Ver também entrevista de Hércules Corrêa a IstoÉ de 19 de maio de 1987, p.
26. Para a carteira vencida e os bigodes, João Falcão, Giocondo Dias, p. 290.
25 Givaldo Siqueira, fevereiro de 1988, e João Falcão, Giocondo Dias, pp. 290-1 e 296.
26 Givaldo Siqueira, maio de 1987, fevereiro de 1988 e maio de 1997. Jornal do Brasil,
3 e 7 de dezembro de 1972.
27 Entrevista de Hércules Corrêa à Folha de S.Paulo de 26 de maio de 1991.
28 Givaldo Siqueira e José Salles, fevereiro e novembro de 1988.
29 Para a amizade, d. Eugênio Sales, junho de 1987.
30 Carta de d. Aloísio Lorscheider a Geisel, de 24 de setembro de 1975. APGCS/HF.
31 Luiz Cortez, "Luís Maranhão 'Mártir das Lutas Populares'", publicada no jornal


Dois Pontos, de Natal, e republicada nos Cadernos de Jornalismo da Federação
Nacional de Jornalistas, em dezembro de 1990. O interlocutor de Falcão foi o senador
Dinarte Mariz.

32 Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio, Dos filhos deste solo, p. 326.
33 Manchete, 22 de outubro de 1988, pp. 124-8.
34 Folha de S.Paulo, 12 de dezembro de 1993, p. D3.
35 Veja, 18 de novembro de 1992, pp. 20-32.
36 Ernesto Geisel, Discursos, vol. 1: 1974, pp. 31-60.
37 Uma folha manuscrita de Heitor Ferreira, intitulada Resumo da Conversa Geisel,


Moraes Rego e Heitor, no Jardim Botânico, de 26 de julho de 1973. APGCS/HF. Ver


também Conversando sobre política — Célio Borja — Depoimento ao CPDOC, coord. de
Marly Silva da Motta, p. 182.
38 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 29 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
39 Reunião de Geisel com Petrônio Portella, 15 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.


40 Reunião de Geisel com Célio Borja, 19 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

41 Veja, 8 de maio de 1974, pp. 10-1, referido em Maria Aparecida de Aquino,
Censura, imprensa, Estado autoritário (1968-1978), p. 226.
42 Armando Falcão, Tudo a declarar, p. 373. Nesse livro de memórias Falcão diz que


fizera com Veja uma "experiência de liberação da censura". Não se tratava de liberar
Veja da censura, mas de retirar da redação da revista a equipe de censores que lá ia
para conferir previamente o material a ser publicado. Persistia a obrigação de respeito
às ordens emitidas pela Polícia Federal.


43 Telefonema de Heitor Ferreira a Golbery, 11 de abril de 1974. APGCS/HF.
44 Jornal do Brasil, 29 de novembro de 1974, p. 20.
45 Telefonema de Heitor Ferreira a Golbery, 11 de abril de 1974. APHF.
46 Diário do Congresso Nacional, 15 de maio de 1974, p. 2850.
47 Uma folha datilografada, assinada por d. Eugênio Sales, sem data. APGCS/HF.
48 Golbery do Couto e Silva, maio de 1974. Veja, 19 de março de 1980, "O fabricante


de nuvens", p.27.
49 Golbery do Couto e Silva, maio de 1974.
50 Apreciação Sumária, do SNI, de 15 a 24 de julho de 1974. AEG/CPDOC.


51 General Newton Cruz, novembro de 1987 e julho de 1997.


52 Nota manuscrita de Heitor, apensa ao Diário de Heitor Ferreira, intitulada Conversa
Heitor & Figueiredo, Sábado 28 de Setembro de 1973, na qual lista nove militares
considerados "anti-Golbery". APGCS/HF.


53 Para as simpatias esquerdistas de Castro, entrevistas com Golbery (1985) e Geisel
(1989). Em 1945, quando servia como tenente numa unidade da divisão blindada,
Castro era considerado esquerdista. Leonidas Pires Gonçalves (que servia como
ajudante-de-ordens de Álcio Souto), dezembro de 1999. General Gustavo de Moraes
Rego, 1984.


54 Bilhete do general Sebastião Ramos de Castro a Golbery, de 11 de dezembro de
1974. APGCS/HF.


55 Cinco folhas, de 25 de novembro de 1974, com a lista dos coronéis promovidos a
general. Numa lista de 27 nomes, Geisel marcou três para receberem o adjetivo amigo.
Um deles era o general Castro. APGCS/HF.


56 Apreciação Sumária, do SNI, de março de 1974. AEG/CPDOC. .

57 Glauber Rocha, Cartas ao mundo, pp. 482-3. O general Juan Velasco Alvarado
presidia o Peru.

58 Apreciação Sumária 02/74, do SNI, para o período de 6 a 15 de maio de 1974.
AEG/CPDOC.

59 Diário de Heitor Ferreira, 5 de fevereiro de 1975. Glauber Rocha só regressaria ao
Brasil em junho de 1976, depois de uma paciente negociação, graças ao interesse do
senador Luiz Viana Filho, ex-colega de Golbery no governo Castello Branco.

60 Para a discussão de Dale Coutinho com Rodrigo Octavio, Ernesto Geisel, março de
1995.

61 Para uma referência à Diretriz junho de 1974 e à sua essência, Informação nº
017/70/AC/76, da Agência Central do SNI, de 20 de fevereiro de 1976. APGCS/HF.


62 Projeto Brasil: nunca mais, tomo V, vol. 1: A tortura, p. 64.

63 Maço de quarenta folhas, anotadas por Heitor Ferreira e Moraes Rego, intitulado

Primeira Transcrição do Pronunciamento do Presidente Geisel na Reunião do Alto-
Comando das Forças Armadas, em 10 de junho de 1974. APGCS/HF.

64 Subversão Comunista no Brasil, de 20 de junho de 1974, referindo-se ao Relatório
Especial de Informações n-04/74, do CIE, citado na Informação nº 017/70/AC/76, da
Agência Central do SNI, de 20 de fevereiro de 1976. A esse respeito, ver também
Apreciação Sumária, do SNI, de 25 de junho a 14 de agosto de 1974. APGCS/HF.

65 Subversão Comunista no Brasil, de 20 de junho de 1974, referindo-se ao Relatório
Especial de Informações nº 04/74, do CIE, citado na Informação nº 017/70/AC/76, da
Agência Central do SNI, de 20 de fevereiro de 1976. APGCS/HF.

66 Idem.

67 Golbery do Couto e Silva, abril de 1985. José Carlos Dias, novembro de 2001. Para
outro testemunho desse encontro, ver Maria Conceição Pinto de Góes, A aposta de
Luiz Ignácio Maranhão Filho, p. 257.

68 O Estado de S. Paulo, 8 de setembro de 1996, p. A30.

69 Para uma história do Centro, ver "O Cebrap e as ciências sociais no Brasil", de
Bernardo Sorj e Antonio Mitre. Estavam no Cebrap, entre outros: Elza Berquó, Juarez
Brandão Lopes, Fernando Henrique Cardoso, Cândido Procópio Ferreira de Camargo,
José Arthur Giannotti, Octavio Ianni, Bolivar Lamounier, Carlos Estevam Martins,
Francisco de Oliveira, Paul Singer e Francisco Weffort.

70 Apreciação Sumária nº 11, do SNI, de 5 de setembro de 1974. AEG/CPDOC.

71 Bernardo Sorj e Antonio Mitre, "O Cebrap e as ciências sociais no Brasil", p. 77, e
Elisabeth Station e Christopher J. Welna, "Da administração pública à participação
democrática", em Os 40 anos da Fundação Ford no Brasil, organizado por Nigel Brooke
e Mary Witoshynski, p. 172. Até 1992 a Fundação Ford deu ao Cebrap 2,21 milhões
de dólares, tornando-o o quarto maior receptor de fundos no Brasil, vindo logo depois
da PUC-RIO (2,7 milhões), da Fundação Carlos Chagas (2,3 milhões) e da Universidade
Federal de Viçosa (2,26 milhões). A Fundação Ford no Brasil, volume organizado por
Sergio Miceli, p. 95.

72 Segundo o professor Antonio Delfim Netto, na época da fundação do Cebrap,
quando ele ocupava o Ministério da Fazenda, foi procurado pelos empresários Joseph
Safra (Banco Safra) e Antonio Ermírio de Moraes (Votorantim). Indagavam como o
governo veria uma eventual colaboração financeira para a instituição. Delfim disse-
lhes que via com naturalidade. Antonio Delfim Netto, janeiro de 2000. Há uma
referência superficial, sem documentação, à ajuda de empresários ao Cebrap na
Informação nº 007/16/AC/75 de 7 de fevereiro de 1975, da Agência Central do SNI. AA.

73 Luiz Maklouf Carvalho, Mulheres que foram à luta armada, p. 109.

74 Paul Singer foi preso no dia 19 de setembro e libertado no dia 24. Seis folhas
assinadas por Falcão e visadas por Geisel, detalhando a situação de pessoas dadas
por desaparecidas, de 6 de fevereiro de 1975. APGCS/HF

75 Para as prisões e todo o episódio, ver também a Informação nº 007/16/AC/75 de 7
de fevereiro de 1975, da Agência Central do SNI. AA.

76 José Arthur Giannotti e Francisco de Oliveira, fevereiro de 1998. Para um
depoimento de Fernando Henrique Cardoso, ver Brigitte Hermann Leon, Fernando
Henrique Cardoso, p. 171.

77 Fernando Henrique Cardoso e José Arthur Giannotti, junho de 2003.

78 Diário de Heitor Ferreira, 17 de outubro de 1974.

79 Maço de cinco folhas, entregue por Golbery a Heitor Ferreira no apart-hotel Park
Avenue, em São Paulo, quando estava morrendo. Intitula-se Transcrição das


Ocorrências no Ano de 1974. Ocorrências de 11 e 30 de setembro. APGCS/HF. A ida para
Brasília está em Diário de Heitor Ferreira, 1º de outubro de 1974.

80 Carta do tenente-coronel Athos Amorim a Heitor Ferreira, de 21 de outubro de
1974. APGCS/HF. Não se conhece o texto desse panfleto.


Interlúdio pessoal


A Presidência deu a Geisel alguns confortos. Com o Alvorada para
morar e o Riacho Fundo para os fins de semana, hospedou a irmã no
palácio e os sogros octogenários na granja. Tinha piscina e cinema nas
duas residências. Raramente caía n'água, e quando pedia um filme,
variava do bangue-bangue ao kung fu. Logo o kung fu, que a Censura
banira, chamando-o de "derivativo maoísta".1

Seus hábitos continuaram os mesmos. Acordava às 6h. Quando
saía do banho, a roupa do dia já estava separada. Sapatos, meias e
terno pretos, camisa branca e gravata escura, com algum detalhe em
vermelho. Lia jornais, boletins do SNI e a sinopse do noticiário da
imprensa, tomava café e entrava no Planalto — sempre pela rampa —
às 9h. Almoçava no Alvorada, dormia quinze minutos (de pijama) e às
15h estava de volta ao gabinete.2 Fechava a quitanda pontualmente às
18h. Levava serviço para casa, mas abandonava o palácio para liberar
seus assessores diretos. Em torno das 23h estava na cama. Começou a
acordar no meio da madrugada e, pela primeira vez na vida, tomou
remédios para dormir.3

Dentro dessa rotina, Geisel alterou profundamente a
administração de seu tempo. Acabaram-se as conversas diárias, soltas,
com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira. Acabaram-se, na verdade,
todas as conversas soltas. Ele seccionou os espaços privado e público.
Além disso, deu à agenda oficial uma estrutura de resguardo e


hierarquia. Não deixava que lhe banalizassem as audiências. Recusava
crachás e não quis receber as candidatas a Miss Brasil.4

Numa decisão surpreendente, no segundo dia de trabalho
chamou Heitor Ferreira e disse-lhe que, como seu secretário particular,
deveria se retrair da atividade política e administrativa que desenvolvera
nos dois anos anteriores.5 Aos 38 anos, com a intimidade e os ouvidos
de Geisel e Golbery, Heitor se tornara um dos homens mais poderosos
do país. Influenciara a formação do governo de tal maneira que eram os
ministros, e não ele, que forçavam o tratamento por "você". Falava em
nome do presidente eleito com tamanha determinação e clareza que se
pode dizer que dera ordens a quase toda a República. Geisel informara-

o de que não daria mais ordem nenhuma. Teria de costurar para
dentro, cuidando de todos os papéis que chegavam ou saíam de sua
mesa, inclusive os relatórios e os "dragões" enviados pelo SNI. 6 ("Dragão"
era o apelido das transcrições de escutas telefônicas. Como se
grampeavam as linhas no cabo do distribuidor geral das centrais,
surgiu primeiro a abreviatura DG, e depois passou-se ao "dragão")
Foram raras as ocasiões em que Geisel mandou Heitor sentar-se.
Falavam-se com a mesma confiança de sempre, mas o presidente ficava
na cadeira e o secretário, em pé.7 Mantiveram o hábito de dialogar por
bilhetes. Eram três ou quatro por dia. Heitor avisava que encontrara
erva-mate Saphyra numa loja da Superquadra 106, propunha que se
erguesse uma vedação acústica numa das paredes do gabinete, pois as
conversas de Geisel podiam ser ouvidas na sala ao lado, ou persistia
numa campanha para afastar militares uniformizados da proximidade
do presidente em seus compromissos públicos. Contava as fardas nas
comitivas que viajavam para os estados, e mostrou-lhe que numa
passagem por Campinas, entre vinte pessoas, levara dezessete militares
da ativa.8 A poda de março foi tão dolorosa para Heitor que ele
descuidou de seu diário e, em abril, registrou: "Estas minhas anotações
estão muito fracas. Sei disso e me perdoe quem um dia as vier a ler".9
Os dois só voltaram a ter uma conversa demorada três meses depois.10

As seis horas de vida pública de Geisel no Planalto dividiram-se


em dois blocos. Armava o time em duas reuniões de até 45 minutos —
uma às 9h, outra às 15h — com os chamados "ministros da Casa".
Sentavam-se nelas os chefes do Gabinete Civil, do Gabinete Militar e do
SNI, além do secretário do Planejamento, que meses depois foi
dispensado da sessão vespertina. Os demais ministros tinham 45
minutos de despacho por quinzena, e as tardes das quartas-feiras
ficaram para os parlamentares. Esse sistema viria a concentrar a
convivência com os ministros do palácio. Num só ano, Golbery, Hugo
Abreu e Figueiredo teriam 324 horas de despachos conjuntos, contra
323 para todos os outros, cujos encontros com o presidente variaram de
um máximo de 45 horas (Armando Falcão) a um mínimo de 8h40 (Paulo
de Almeida Machado, da Saúde).11

Geisel amparava seus despachos numa lista de assuntos
pendentes, mapeados por Heitor Ferreira. Nela se misturavam novos
problemas e velhas idéias, ecos do largo da Misericórdia. Em julho, a
lista de cobranças ao chanceler Azeredo da Silveira tinha 35 itens. Iam
da compra de uma casa para a embaixada em Lisboa até a antiga
pendenga da verba federal que sustentava o colégio Pio Brasileiro, em
Roma.12

Quando um assunto entrava na lista de cobranças, era impossível
esquecê-lo. Geisel descobriu que o Ministério do Exército mantinha no
Rio de Janeiro um asilo dos Inválidos da Pátria. Como essa expressão
surgira com o socorro aos veteranos da Guerra do Paraguai, coisa
acabada havia mais de um século, pediu ao general Sylvio Frota que lhe
explicasse o fenômeno. Ficou sabendo que o asilo dava emprego a 126
servidores, 57 dos quais militares, seis oficiais, e que tinha 63 casas.
Afora os salários, a instituição gastava 346 mil cruzeiros por ano (em
torno de 50 mil dólares). Beneficiava quatro pensionistas e um ex-
combatente. Somando-se a eles duas viúvas e uma filha de veterano
que entraram na conta, eram oito os assistidos. Dividindo-se a verba
anual entre os oito favorecidos, cada um poderia buscar outra pousada
com uma pensão de quinhentos dólares mensais. O presidente cobrou o
fechamento do asilo em inúmeros despachos. Pela sua lembrança, só o


conseguiu quando informou ao ministro que não assinaria papéis do
Exército enquanto aquele caso não estivesse encerrado.13

O tempo de Geisel no Alvorada e na granja do Riacho Fundo
tornou-se privado. Não levava convidados para casa. Almoçava e
jantava com a família. Era comum que o ajudante-de-ordens, um jovem
capitão, sentasse à mesa, mas era impossível que a ela chegassem os
hierarcas da República. Demorou um ano para perceber que nunca
convidara Golbery e Heitor para jantar no palácio: "Eu sou chucro
mesmo. Mas tem que ser, né?".14 Raramente chamava ministros para
conversas à noite ou durante os fins de semana. Só saía de casa
quando não havia outro jeito. Recusou-se a comparecer ao jantar em
homenagem à duquesa de Kent: "Só porque é princesa?".15 Procurou
separar sua vida pública da vida particular da mulher e da filha, a
ponto de pedir ao ministro da Justiça que sugerisse aos donos de
jornais mantê-las fora do noticiário das colunas sociais. Radicalizado, o
pedido resultou numa ordem da Censura proibindo referências a
Amália Lucy Geisel.16

O isolamento, somado ao silêncio sepulcral que envolve o
Alvorada, derivou em tamanha solidão que sua filha lembraria, 23 anos
depois: "À noite, eu ficava olhando para o gramado, acompanhando os
faróis dos carros que se aproximavam. Quando o carro vinha, eu
pensava: 'Esse vai entrar'. Mas eram turistas, dobravam. Eu ficava
esperando que alguém nos visitasse, mas não vinha ninguém".17

No circuito doméstico mandava sua mulher, Lucy. Tinha 56 anos
e padecia de uma agorafobia que a afastava de aglomerações e a fazia
sofrer nas viagens aéreas. Só era vista em cerimônias em que sua
presença fosse protocolarmente indispensável. Passou pelo poder sem
mudar o penteado, a cor dos cabelos ou mesmo a costureira. Ensinava
os cozinheiros do palácio da Alvorada a preparar tortas. Era uma
senhora da classe média européia, daquelas que falam baixo e levam a
mão à boca para encobrir uma risada. Se algum dia tratou de política
com o marido, ninguém ouviu, nem a filha.

Lucy Geisel nunca falou de si. Cuidava do marido, dos pais e da


rede de parentes que viviam em Estrela. Raros foram os seus
comentários sobre o período da Presidência. Gostava de lembrar a
mulher de um ministro que abusava dos decotes e a surpreendeu numa
recepção com o vestido fechado à altura do pescoço, revelando, ao virar-
se, que tinha as costas nuas no limite do possível.18 Afeiçoou-se a
Duquesa, uma dálmata que recebeu logo que chegou ao Alvorada. Deu-
lhe por nicho um canto de seu quarto de vestir e, anos depois, em
Teresópolis, levou-a para o dormitório do casal.

O capitão que prometera à noiva uma vida de "miséria dourada"
com dez contos de réis no banco, agora vivia num palácio servido por 73
empregados civis e tinha uma renda próxima de 500 mil cruzeiros
anuais (equivalentes a 71 500 dólares), mas não havia alegria em sua
casa.19

A Presidência foi mais um golpe na vida da filha, Amália Lucy. A
morte do irmão desestruturara o equilíbrio familiar, e a nova posição do
pai haveria de desestruturar o que ela conseguira construir. Geisel
protegia-a obsessivamente, como se vivesse sob o pavor daquela manhã
de Quitaúna, quando lhe contaram que Orlandinho morrera. Até a
chegada a Brasília, onde Amália ganhou a escolta de um guarda-costas,

o pai telefonava-lhe duas vezes por dia e freqüentemente lhe pedia que
tomasse cuidado ao atravessar a rua.20 Tinha 29 anos e era professora
concursada do colégio Pedro II, além de trabalhar no Conselho Federal
de Cultura. O pai se recusou a nomeá-la para qualquer cargo público, e
a segurança desaconselhava que arrumasse um emprego qualquer.
Amália Lucy acabou se instalando na Funarte e matando o tempo em
recepções diplomáticas.
Suportou até mesmo que se propagasse o apelido de Mosa,
derivado de "Mimosa", que lhe deram ao nascer. Ela não gostava da
intimidade invasiva e muito menos do apelido, improvisado pela
surpresa da chegada de uma menina no lugar de um garoto que se
chamaria Frederico, nome que não podia ser adotado na variante
feminina.21

Levava uma vida modesta, restrita às relações com parentes e


com um pequeno núcleo de amigos. Seu gosto pela música popular
deu-lhe desconfortável notoriedade quando o compositor Chico Buarque
de Hollanda, escondido sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide,
cantou: "Você não gosta de mim, mas sua filha gosta".22 Numa época
em que era comum os filhos dos hierarcas protegerem a individualidade
distanciando-se da ditadura, Amália, mesmo sem ter o menor interesse
em projetar uma imagem liberal, disputou cada palmo de sua escassa
autonomia. Não discutia política com o pai, mas nas raras ocasiões em
que o fazia, cortava como faca. Numa manhã em que Geisel tratava de
um discurso de agradecimento ao Colégio Eleitoral, ela o ouviu falar que
pretendia "mostrar que o meu mandato vem do povo".

"É difícil, porque não é", disse.23

Criou um caso com a mãe porque o chefe da segurança tentou
impedi-la de ir ao aeroporto do Galeão buscar uma amiga dos tempos
de escola, irmã de um banido.24 Geisel considerava-a ingênua e temia
que amizades esquerdistas pudessem envolvê-la, mas não se meteu na
encrenca: "É muito difícil [...] porque ela briga logo".25 Num dos Natais
de Brasília, quando seu pai ceava com a tropa da guarda do Riacho
Fundo para encurtar a comemoração familiar que lhe causava
sofrimento, ela foi para a casa de um casal amigo à procura da festa
que desde a adolescência lhe era negada.26

O círculo de ferro afrouxava-se nos fins de semana. No Riacho
Fundo, o pai desfrutava a companhia de seu melhor amigo. É
impossível dizer se Humberto Barreto, aos 42 anos, era um amigo do
presidente, de 66, ou a projeção recôndita do filho, que completaria 33.
Cearense do Crato, fora garoto para o Rio, disposto a tentar uma vaga
na Escola de Cadetes do Ar. Morava com um tio coronel quando Geisel
regressou sozinho do Uruguai e se instalou no apartamento.
Conviveram cerca de um ano. Humberto foi reprovado no exame médico
e empregou-se como contínuo na Sears, até que o amigo lhe conseguiu
um lugar no Sesi. Afeiçoaram-se de tal modo que, ao ser designado para

o comando de Quitaúna, Geisel pensou em deixar o filho no Rio, aos
cuidados dele.27 Humberto e a mulher, Lilian, foram constante

companhia nos fins de semana do casal Geisel. Em 1964, formado em
direito, era tesoureiro da Caixa Econômica Federal. O general ajudou-o
a conseguir a chefia do serviço de penhores e mais tarde levou-o para
uma diretoria da distribuidora da Petrobrás. Em pelo menos uma
ocasião, precisando de um lugar discreto para conversar com um
general, Geisel usou o apartamento de Humberto.28

Se Reis Velloso tivesse aceitado o Ministério do Interior, Golbery
iria para o Planejamento. Nesse caso, Humberto Barreto poderia vir a
ser o chefe do Gabinete Civil. Fracassada a manobra, virou aposta fácil
para a presidência da Caixa. No dia seguinte à eleição, Moraes Rego
teve uma idéia: "Por que não o Humberto para secretário de Imprensa?".

Heitor Ferreira, em cujas listas nunca entrara um assessor de
Imprensa, resumiu as conveniências: "Resolve o gabarito, resolve a
amizade com ele, resolve levar esculhambação. [...] Resolve o fato de não
termos ninguém e resolve o que fazer com Humberto, que nós não
sabíamos o que fazer". Resolvia também o conforto emocional de Geisel,
que gostava da companhia e da proximidade de Barreto.29

Geisel achou que era pouco. Convidou-o, e de fato era pouco.
Humberto aceitou, mas abriu-se uma curta crise entre as duas famílias.
Moraes Rego repetia que "se arrependimento matasse, eu já estava
morto. Estou arrependidíssimo de ter inventado isso".30 Haveria de ser
uma das melhores soluções surgidas na formação do governo. A seca
elegância sertaneja de Humberto Barreto, aliada à audácia que a
intimidade com o presidente permitia, fizeram dele um assessor de
Imprensa festejado desde a primeira hora.

A principal qualificação de Humberto Barreto junto aos
jornalistas decorreu do desembaraço com que criticava a Censura e da
sinceridade com que reconhecia a impossibilidade de sua suspensão
imediata. Estabeleceu canais de comunicação com repórteres e editores
e, em maio, entregou a Geisel um maço com 35 folhas de proibições
enviadas ao Jornal do Brasil desde o dia da posse.31 Meses depois,
repassou a Golbery os textos massacrados na edição de um só dia d'O
Estado de S. Paulo.32 Transformaria um cargo inexpressivo num dos


mais importantes postos da República.

Era o único civil nos fins de semana no Riacho Fundo. Os demais
tinham passado pela AMAN. AOS sábados compareciam Heitor Ferreira e o
tenente-coronel Germano Pedrozo. Aos domingos, Moraes Rego e o
tenente-coronel Gleuber Vieira, que Geisel comandara nos anos 50, no
Regimento Escola de Artilharia. Desde então, sempre que pôde, teve-o
por perto. Às vezes, o administrador do Planalto, Mário Almeida
Purificação da Costa, amigo de Geisel desde os dias de Quitaúna.
Hospedava-se na granja o coronel Americo Mourão, médico da
Presidência.

Golbery não ia ao Riacho Fundo. Como Geisel, Golbery não ia a
lugar algum. A semelhança, contudo, parava aí. O que num era ordem,
hierarquia e cultivada introversão, no outro era informalidade e
cultivada extroversão. Bastava que se comparassem as duas mesas de
trabalho. A de Geisel, incólume. A de Golbery, empilhada. Ou a agenda.
Uma, pontual e severa. A outra, errática e imprevisível, juntando na
sala de espera políticos, jornalistas e até pai-de-santo.

Golbery se instalara na granja do Ipê, onde sua mulher fizera
construir um enorme viveiro de pássaros e espalhara animais pelo
mato. O bode se chamava Deputado. Apreciava as crises de insônia e as
viagens do presidente porque umas lhe permitiam avançar na leitura e
as outras, adiantar a papelada. Às vezes cavalgava nos fins de semana.
Chegava ao Planalto um pouco antes de Geisel, e saía muito depois.
Almoçava quase sempre em sua própria sala, sem nenhum ritual,
simplesmente continuando uma conversa que já começara e que
terminaria depois do café. Passava o dia trancado, e nisso havia, além
do costume, uma certa premeditação. Denominava-a Lei da Bunda.
Enunciava-a mais ou menos assim: "Você entra aqui e senta a bunda.
Os outros estão ocupados. Uns com agenda repleta, outros viajando.
Aos poucos as pessoas sabem que você está aqui e te procuram. Você
acaba sendo procurado pelo simples fato de estar com a bunda na
cadeira".33

A Lei, somada à fama do general, tornava a sala de Golbery ponto


de confluência de assuntos proporcionais à sua importância política,
mas também de toda sorte de banalidades. Um editor do Rio de Janeiro
propunha que se elegesse uma mulher com o propósito de sentá-la à
mesa do ministério, como representante do gênero. Um embaixador
informava que os centros irradiadores de notícias sobre a tortura
estavam em Paris, Londres e Nova York, e, falando muito bem de si,
sugeria que o nomeassem para Paris, Londres ou Nova York.34 No
mundo dos assuntos relevantes, o general Affonso de Albuquerque
Lima, líder putativo da linha dura e alavanca da ascensão de Costa e
Silva nos anos 60, reaparecia em cartas. Politicamente anêmico,
propunha a paz: "Vamos então viver do presente para a construção de
um novo Brasil". Afastado da tropa, trabalhava como diretor do
conglomerado financeiro de um cunhado. Pedia os bons ofícios de
Golbery junto ao Banco Central e anexava um memorando do próprio
parente pleiteando "um tratamento melhor" ao seu banco e rapidez na
liberação de um empréstimo de 12,6 milhões de dólares da Caixa
Econômica à loja de roupas Ducal, que pertencia ao grupo. Por prático,
fornecia o número do processo: 2374/74 PIS-RJ. 35

Quando Geisel ritualizou o expediente do palácio, Golbery
manteve-se em seu lugar. Desde o primeiro dia de governo, formalizou o
tratamento com o amigo. Só descia ao terceiro andar se solicitado. Era
pouco freqüente que se reunisse a sós com o presidente. Pode-se
estimar que, ao longo de uma semana, a média desses encontros
dificilmente ultrapassasse uma hora. Conversas soltas como as do largo
da Misericórdia tornaram-se raras. Três por ano, talvez.36

Ao contrário de Geisel, buscava divertimento na função.
Expandia-se nas breves respostas aos bilhetes de Heitor Ferreira.
Recebeu uma fotografia do ministro Simonsen com as mãos afastadas,
num gesto que poderia dar a impressão de que estivesse mostrando o
tamanho de alguma coisa, e anotou: "Que grande, não!".37

Havia um recém-chegado no ninho de oficiais que Geisel levara ao
Planalto: o general Hugo Abreu, chefe do Gabinete Militar. Páraquedista
miúdo porém atlético, tinha a cabeça inteiramente raspada, e


de sua forma nasceu-lhe o apelido: Chupeta, ou Pinduca, numa
referência ao personagem das histórias em quadrinhos. Aceitando uma
idéia de seu irmão Orlando, em fevereiro Geisel convidara o general
Dilermando Gomes Monteiro para o cargo. Duas semanas antes da
posse, Dilermando saiu para passear de bicicleta, levou um tombo e
quebrou a cabeça do fêmur. Caso para três meses em cadeira de rodas
e outros três com bengala. Geisel recusou todas as sugestões para
mantê-lo. A idéia de entrar no Planalto com um chefe militar entrevado
não era coisa de seu mundo: "Eu vou prestigiar o Dilermando pela vida
afora, mas sinceramente eu acho que não dá".38

Quem no lugar? Resolveu-se o assunto em quatro dias. Geisel
mal conhecia Hugo Abreu. Fora outra sugestão de Orlando Geisel.39 Era
um combatente, homem de muito serviço na tropa e de pouca conversa.
Passara com louvor pela FEB. Fizera fama na Brigada Aeroterrestre,
chamada de "fábrica de dores de cabeça", disciplinando um corpo de
oficiais que se rebelara durante o seqüestro do embaixador americano,
em 1969.40 Aos 51 anos, aprendeu a saltar. Comandara os páraquedistas
na campanha contra a guerrilha do PC do B no Araguaia e no
combate ao terrorismo no Rio.

Tentaram abatê-lo, mas o presidente fixou-se na escolha. De um
lado, fazia o possível para não contrariar o irmão ofendido. De outro,
respeitava a cruz de combate de primeira classe que o capitão Hugo
trouxera da Itália.

"Essa ressalva em relação ao rapaz não é nada. O rapaz é
soldado, tem vida correta, tem certo poder de liderança, teve bom
destaque na guerra. O que é que tem? Ele é teimoso, ele é ranheta, não
sei o quê? É radical? Isso comigo não tem muito..."41

Dias depois, impressionou-se com as poucas palavras que
trocaram no telefonema em que o convidou: "Ele estava nervoso. Será
que é sempre assim?".

"Ele está com uns tiques de nazista, não é? Ele é muito
enquadrado, é muito dedicado", respondeu Golbery, que o conhecia e
apreciava.


"Eu falei a ele que foi escolhido porque é soldado. [...] Embora ele
não seja um homem da minha intimidade."42

Era um oficial de tropa sentado à mesa com Geisel, Golbery e
Figueiredo. Somando-se o tempo de comando de quartel dos três desde
a época em que eram coronéis, não chegava aos cinco anos de Hugo na
Brigada. Habituara-se de tal maneira aos uniformes e aos coturnos
marrons dos pára-quedistas que nem terno tinha. Sua entrada no
Planalto foi dolorosa. Vestia uma roupa feita às pressas por um alfaiate
de subúrbio e calçava sapatos pretos novos que lhe doíam nos pés a
ponto de ele não conseguir distinguir quem estava cumprimentando nas
recepções. "Passei de pára-quedista a palaciano", diria mais tarde.43

Hugo Abreu não deu palpite na formação da equipe do Gabinete
Militar, pois Geisel pusera coronéis de sua própria confiança em todos
os postos-chaves do palácio.44 Sofreu também um rebaixamento
imobiliário. A granja do Torto, grande propriedade onde viviam desde
1964 os chefes do Gabinete Militar, continuaria com Figueiredo. Lá ele
tinha suas baias, pista de montaria e 23 serviçais.45 Geisel decidira
preservar-lhe a mordomia e, na conversa em que convidou Hugo Abreu,
se esqueceu de mencionar esse detalhe. Quando recebeu a notícia, o
general não reclamou.46

Sua presença na reunião das 15h trouxe um ingrediente adicional
à formalização das relações de trabalho imposta pelo presidente. O
general tinha poucas semanas no cargo quando Heitor Ferreira o
informou de que pretendia mudar o sistema por meio do qual seriam
gravadas — com o consentimento de Geisel — algumas das conversas
do gabinete presidencial. Hugo tratou do assunto com o presidente e
disse-lhe que um suboficial do serviço de comunicações do Gabinete
Militar cuidaria dos detalhes técnicos. Ao perceber que já havia gente
demais sabendo daquilo que no largo da Misericórdia e no Jardim
Botânico fora um segredo, disse a Heitor que desmontasse a escuta.47

Partira-se o principal elo físico da intimidade de Geisel com a


pequena equipe que se formara no gabinete da Petrobrás. Desde
novembro de 1973, Heitor gravava praticamente todas as conversas do
general, bem como as longas tertúlias das manhãs no Jardim Botânico,
das tardes no largo da Misericórdia, e até mesmo alguns telefonemas.
Começara com um aparelho Philips 85, ao qual Geisel narrou um
encontro com Medici.48 Duas semanas depois, Heitor remetera-lhe duas
páginas de transcrições com um bilhete anunciando que a fita seria
apagada e dizia: "Aí está. Eu não vou fazer coisa nenhuma à sua revelia

— e um troço desses tem seus perigos. [...] É um problema danado de
confiança. É uma arma de fofoca. E só o senhor pode pensar a respeito
e ver se vale a pena. Prefiro cancelar tudo a que a conseqüência possa
ser o senhor guardar-se ao conversar comigo".49
Geisel concordou com o prosseguimento das gravações, desde que
posteriormente fossem condensadas e não se fizesse daquilo uma
sistemática.50 O interesse de ambos era a preservação de um registro
histórico. Heitor não apagou as fitas. Conservou uma documentação
que, se tivesse sobrevivido apenas nas transcrições incompletas e
precárias, perderia a autenticidade e, em certos episódios, também o
sentido. Essas fitas haveriam de se tornar um dos segredos mais bem
guardados do período. Somaram cerca de 222 horas em sessenta rolos
de quatro faixas. A escuta só foi conhecida por Geisel, sua mulher, sua
filha, Heitor, Golbery, Moraes Rego, Humberto Barreto e Nancy Souza
Leão, a secretária que as transcreveu em parte, sem que o texto viesse a
ser conferido. Jamais alguém as ouviu, e nunca houve vazamento de
seu conteúdo.

Os gravadores foram ligados regularmente durante quatro meses.
Nesse período, Geisel deu pelo menos catorze demonstrações —
gravadas — de pleno conhecimento da escuta e de sua sistemática.51
Ouviu uma conversa de Golbery com um senador. Enquanto falava com
um almirante, viu Heitor colocando no seu telefone a "chupeta" que lhe
permitia gravar a voz do interlocutor.52 Numa ocasião temeu que o
visitante (o general Figueiredo, na conversa em que foi convidado para
chefiar o SNI) tivesse percebido a situação. Em janeiro de 1974, no


Jardim Botânico, Amália Lucy perguntou como funcionava o
equipamento e assistiu a uma demonstração. Heitor recitou um
monólogo na saleta onde estava o transmissor que remetia as vozes a
um aparelho de rádio sintonizado em 88 MHZ e acoplado a um gravador.
Geisel regulou o receptor, e se escutou a voz de Heitor.

"É horrível. É pior que o Watergate", comentou Amália, afastando-
se. (O sistema de escuta montado pelo presidente Richard Nixon na
Casa Branca fora desligado em julho de 1973.)53

Moraes Rego lembrou que Golbery ria muito quando ouvia as
fitas, e Geisel acrescentou: "Ri com as minhas besteiras".54

Na nova ordem, Geisel só pediria a Heitor que gravasse umas
poucas conversas com estrangeiros. Nunca consultou as transcrições,
não quis saber o destino das fitas. Apagou o episódio.

1 Veja, 6 de junho de 1990, pp. 39-40. Para uma análise da Subversão e Filmes de
Kung Fu, do professor Waldemar de Souza (a serviço da Censura), ver O Globo de 19
de dezembro de 1992, 2º caderno, p. 2. Para a preferência de Geisel, Amália Lucy
Geisel, junho de 1997.

2 Ernesto Geisel, abril de 1995.

3 Para a interrupção do sono, Diário de Heitor Ferreira, 5 de junho de 1974. Para os
remédios, Amália Lucy Geisel, junho de 1997.

4 Para o caso das misses, bilhete de Ney Braga a Heitor Ferreira, de 23 de maio de
1974. Para os crachás, bilhete de Heitor Ferreira a Armando Falcão. APGCS/HF.

5 Diário de Heitor Ferreira, 19 de março de 1974. Ernesto Geisel, abril de 1995.

6 Três folhas manuscritas de Heitor Ferreira, sem data, intituladas O Que Faço.

APGCS/HF.

7 Diário de Heitor Ferreira, 17 de março de 1975. Heitor Ferreira, agosto de 1998.
8 Cinco folhas de notas de Heitor Ferreira a Geisel, de 14 de julho de 1974. APGCS/HF.
9 Diário de Heitor Ferreira, 27 de abril de 1974.
10 Bilhete de Heitor Ferreira a Geisel, agradecendo a conversa, anotado por Geisel, de


14 de junho de 1974. APGCS/HF.

11 Controle dos Despachos com os Ministros de Estado, de 1976. APGCS/HF.
12 Nota de Heitor Ferreira a Geisel, que a visou, de 9 de julho de 1974. APGCS/HF.
13 Para os dados do asilo, Dados sobre o Asilo Inválidos da Pátria, do gabinete do


ministro do Exército, sem data. APGCS/HF. Ernesto Geisel, 1982. Para a ameaça,
Ernesto Geisel, abril de 1995.
14 Diário de Heitor Ferreira, 17 de março de 1975.



15 Para o jantar da duquesa, nota manuscrita de Geisel a Heitor Ferreira e nota de


Heitor Ferreira ao chefe do cerimonial, de 13 de julho de 1974. APGCS/HF.
16 Armando Falcão, Tudo a declarar, pp. 324-5. Ordem da Censura de 29 de março de
1974. Paolo Marconi, A censura política na imprensa brasileira — 1968/1978, pp.
277-8.


17 Amália Lucy Geisel, junho de 1997.
18 Lucy Geisel, 1995.
19 Bilhete de Geisel a Heitor Ferreira, de 17 de novembro de 1974. Para os


empregados, uma folha manuscrita de Heitor Ferreira, de 5 de dezembro de 1974.
APGCS/HF. Heitor monitorava periodicamente o número de funcionários civis e militares
da Presidência.


20 Amália Lucy Geisel, julho de 1991.
21 Idem.
22 A música é "Jorge Maravilha", de 1974.
23 Conversa de Geisel com Amália Lucy Geisel e Heitor Ferreira, 7 de janeiro de 1974.


APGCS/HF.

24 Amália Lucy Geisel, junho de 1997. A amiga era Elisabeth van der Weid, irmã de
Jean Marc van der Weid.
25 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 29 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
26 Amália Lucy Geisel, junho de 1997.


27 Humberto Barreto, maio de 1991.
28 Diário de Heitor Ferreira, 24 de junho de 1973. Geisel encontrou-se com o general
Figueiredo para discutir a escolha do general Adalberto Pereira dos Santos para a
Vice-Presidência.


29 Conversa de Heitor Ferreira com Moraes Rego, 16 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
30 Conversa de Moraes Rego com Heitor Ferreira, 4 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.
31 Maço de 35 folhas com cópias das ordens recebidas pelo JB. APGCS/HF.
32 Cartão com bilhete de Carlos Chagas a Humberto Barreto, de 28 de outubro de


1974. APGCS/HF.
33 Heitor Ferreira, julho de 1997.
34 Uma folha, sem data, provavelmente de 1974, com a parte final de uma carta do


embaixador em Tóquio, Hélio Cabal. APGCS/HF.
35 Carta de Affonso de Albuquerque Lima a Golbery, com um memorando de José


Luis Moreira de Souza, de 13 de junho de 1974. APGCS/HF. O empréstimo pretendido
era de 86 milhões de cruzeiros, equivalentes a 12 milhões de dólares.
36 Heitor Ferreira, 2003.
37 Recorte de jornal com nota manuscrita de Golbery, sem data, de 1974. APGCS/HF.


38 Reunião de Geisel com Dale Coutinho, 6 de março de 1974. APGCS/HF.

39 Conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 6 de março de
1974. APGCS/HF.
40 Hugo Abreu, O outro lado do poder, p. 20.
41 Conversas de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 6 e 7 de março de


1974. APGCS/HF. Hugo Abreu foi chamado de "radical" por Orlando Geisel e pelo general
Reynaldo Mello de Almeida.
42 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 6 de março de 1974. APGCS/HF.



43 Hugo Abreu, O outro lado do poder, pp. 31-2.

44 Idem, p. 23.

45 Levantamento do número de funcionários da Presidência, de 31 de dezembro de
1973. APGCS/HF.


46 Conversa de Geisel com Moraes Rego e Heitor Ferreira, 7 de março de 1974, e
telefonema de Moraes Rego a Heitor Ferreira, 10 de março de 1974, para o
esquecimento. APGCS/HF. Ver também Ernesto Geisel, organizado por Maria Celina
d'Araujo e Celso Castro, p. 272.


47 Heitor Ferreira, 1986.


48 Diário de Heitor Ferreira, 1º de novembro de 1973.


49 Idem, 15 de novembro de 1973. Durante a gravação Heitor disse a Geisel: "Bom,
chefe, eu gravei esta conversa nossa agora... o senhor viu?".
GEISEL: É, eu vi que você estava gravando.
HEITOR: Pois é, agora eu não sei se a distância está boa, porque se nós conseguirmos
gravar uma conversa desse tipo, a gente pode, depois, reconstituir sem escrita e
apagar.


50 Nota apensa ao Diário de Heitor Ferreira, 15 de novembro de 1973, com um bilhete
de Heitor a Geisel. APGCS/HF. A ele Heitor acrescentou a anotação de uma conversa com
Geisel no dia 22.


51 Diário de Heitor Ferreira, 1º de novembro de 1973. Duas folhas de Heitor Ferreira a
Geisel, de 15 de novembro de 1973. Ver também conversas de Geisel com Golbery,
Moraes Rego ou Heitor Ferreira de 15 e 22 de novembro; 10, 16, 17, 18 e 20 de
dezembro de 1973; 2, 3 e 21 de janeiro; 12 e 16 de fevereiro; 10 e 14 de março de
1974.


52 Para a "chupeta", antes de uma conversa de Geisel com o almirante Faria Lima, em
17 de dezembro de 1973. APGCS/HF.


53 Conversa de Geisel, Amália Lucy Geisel, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 7 de janeiro
de 1974. APGCS/HF.


54 Idem.



O regime é implacável


O calendário político de 1974 estava sobrecarregado. Em abril
começariam a caducar as cem primeiras cassações de direitos políticos
feitas dez anos antes. Em outubro seriam eleitos indiretamente os 22
governadores e em novembro, em eleição direta, um terço do Senado,
toda a Câmara dos Deputados e todas as assembléias legislativas.

As cassações podiam ser prorrogadas, mas nisso haveria um grau
desnecessário de violência, visto que os cassados, e até mesmo seus
familiares diretos, eram inelegíveis. O comandante do III Exército
achava que era o caso de "dez mais dez" anos. Geisel dissuadiu-o com
relativa facilidade.1 Dos grandes nomes de 1964, Juscelino Kubitschek
e Jânio Quadros viviam no Brasil. João Goulart, que se mantivera longe
das insurreições planejadas pelo cunhado Leonel Brizola, continuava
sua vida de estancieiro no Uruguai.

A atividade política de JK era nula. Aos 71 anos, tinha a vida
familiar infernizada pela persistência de um romance iniciado em 1958
com Lúcia Pedroso, linda senhora da grã-finagem carioca. Sua vida
financeira estava Sobressaltada por negócios imobiliários feitos com
uma ricaça portuguesa.2 O cotidiano, atormentado pelas dificuldades do
casamento da filha Márcia com o banqueiro Baldomero Barbará, de
quem era sócio.3 Só um homem com sua energia conseguiria manter
um eterno sorriso vivendo semelhantes contrariedades somadas às
seqüelas de um câncer de próstata, diabetes e crises de angina.4


A ditadura segurava-o pelo bolso, conservando em banho-maria
um processo em que era acusado de enriquecimento ilícito e que o
impedia, por exemplo, de assinar escrituras.5 Numa caminhada pela
praia de Ipanema, JK encontrou o general Arthur Moura, adido militar
americano, e dele soube que sua cassação caducaria suavemente, desde
que se mantivesse em resguardo.6 Conhecia o tamanho de sua
popularidade. Aonde ia, quer às bodas de ouro dos condes Matarazzo,
em São Paulo, quer à Pousada do Rio Quente, em Goiás, via-se saudado
com a melodia de "Peixe-Vivo", modinha celebrizada pelas serenatas de
que participava em Diamantina.7 Havia na letra um tom de saudade e
lamento político:

Como pode

O peixe vivo

Viver fora

Da água fria?

Como poderei viver,
Como poderei viver
Sem a tua, sem a tua,
Sem a tua companhia?


No dia 21 de abril de 1974, 14º aniversário da inauguração de
Brasília, JK passeou pela cidade, caminhou pela praça dos Três Poderes
e entrou no prédio do Congresso. Era um domingo, não havia vivalma,
mas uns poucos funcionários o reconheceram e iluminaram-lhe os
plenários da Câmara e do Senado. Voltou para a fazenda, nos arredores
da capital, com a lembrança do gesto e a melancolia que a visão de sua
cidade lhe despertava.8 Cavalgava ao amanhecer, fiscalizava obras,
tomava banho de cuecas na represa, era capaz de viajar 25 mil
quilômetros numa semana, mas, no fundo, sonhava "com coisas que
não virão mais".9

Aos 56 anos, João Goulart estava gordo e doente. Sofria desmaios
e crises circulatórias, tivera dois enfartes e não largava o cigarro. Tinha


o coração de um homem de oitenta anos. Seu cardiologista francês
dera-lhe um triste prognóstico: "Presidente, se a gente não quer viver,
não vive".10
Seus poucos passos eram vigiados. Os generais o humilhavam,
negando-lhe até mesmo um passaporte. Viajava por cortesia do ditador
Alfredo Stroessner, do Paraguai, que lhe dera um passaporte no qual
vinha qualificado como "ex-presidente da República Federativa do
Brasil". A ditadura que mantinha a tradição de conceder passaportes
diplomáticos aos descendentes do imperador d. Pedro II, obrigava um
ex-governante brasileiro a andar pelo mundo como beneficiário de um
favor paraguaio.11

Jango tentou negociar sua volta e chegou a anunciar o propósito
a um jornal venezuelano.12 Sondara o ambiente valendo-se das
amizades de um sobrinho de Getulio e recebera do governo Medici uma
resposta ambígua. Poderia vir, arcando com as conseqüências.13 Quais
conseqüências, não diziam, mas Orlando Geisel narrou o caso ao irmão
e resumiu sua resposta: "Se entrar aí, prende".14 Quando a gestão foi a
Geisel, acabou numa curta conversa:

"Prende e manda soltá-lo do outro lado da fronteira. Pode usar o
AI-5 em cima dele."

"Ele seria uma belíssima cabeça para levar uma paulada",
acrescentou Golbery.15

No dia 10 de abril, quando se completaram os dez anos do regime
e de sua primeira onda punitiva, o ministro da Justiça informou que os
cassados podiam viver em paz, "sem tentar perturbar o processo
revolucionário, ostensiva ou disfarçadamente".16 Jango aquietou-se.
Recebera o recado.

O problema do regime não estava no passado, nos exilados ou
nas caminhadas de JK pela praia de Ipanema. Estava no coração do
Milagre, em São Paulo. Antonio Delfim Netto queria governar o estado.
Em tese, a Arena escolheria os candidatos pelo voto de suas convenções


estaduais. Delfim contava com o silencioso apoio do governador Laudo
Natel e era o sujeito oculto do noticiário que mencionava a necessidade
de "um nome nacional" para sucedê-lo.17 Estava certo de que tinha a
maioria dos 1300 votos da convenção da Arena.18

Faltava-lhe um só, o de Geisel. A má vontade do presidente contra
Delfim aumentara com o peso da herança deixada pelo ministro. Entre

o final de 1973 e o início de abril a carestia represada soltara-se. A
gasolina e a carne de segunda dobraram de preço, e o leite subira 33%.
19 Delfim era também um problema do futuro. Eleito governador de São
Paulo, seria candidato natural à Presidência. Seu prestígio de ex-
ministro lançaria sobre o governo a sombra do desempenho do Milagre.
Ademais, o precedente de um candidato saído da convenção daria uma
inédita liberdade à Arena, desorganizando todo o quebra-cabeça das
sucessões estaduais de 1974. Se tudo isso fosse pouco, a metodologia
da escolha se refletiria sobre a rodada seguinte de sucessões, em 1978,
no último ano de mandato de Geisel, influindo em sua própria
sucessão.
Era preciso mostrar quem mandava. Para isso, era preciso
degolar Delfim, e depressa. Geisel preparou-se para lutar contra o
fantasma paulista que combatera, ainda moço, na serra da Tempestade.
Tinha consigo Golbery, outro veterano das tropas legalistas de 1932. Os
dois e Heitor Ferreira conversaram:

GEISEL: Eu estou muito preocupado com esse problema do Delfim
ser governador de São Paulo. O que nós faríamos se na
convenção aparecesse o mais votado, ou, por aclamação, o nome
do Gordo? [...] Você pode ir para a cassação, você pode ir para
intervenção no estado, mas você vai a frio. [...]

HEITOR: Sim, praticamente ele derrota o regime.
GOLBERY: Ele afronta, fica com uma força muito grande.
GEISEL: [...] A gente pode ficar quieto e pegar ele na volta. [...]


A conclusão que nós temos, eu acho válida: ele não deve ser
governador, porque ele sendo governador...


GOLBERY: ... ninguém impede ele de ser presidente...

HEITOR: ... e vai ser um governador independente, que vai sair

por aí...

GEISEL: Não, independente não vai, porque eu não dou crédito

no banco, no Ministério da Fazenda. Aperto ele. Isso não é

assim. [...]

GOLBERY: Ele junta São Paulo em torno dele. Campanha

civilista, e tal...

GEISEL: Pois é. Então [...] acabou a Revolução.

GOLBERY: É impedir. [...]

GEISEL: Sim, mas você vai fazer a frio uma intervenção em São

Paulo. Vou intervir porque o Gordo foi escolhido?

GOLBERY: Não impedir nesta fase.

GEISEL: Estou raciocinando na pior hipótese. É claro que vou

fazer tudo para impedir. É sempre essa porcaria desse SNI. Esse

troço é uma coisa que tem me irritado. Porque o SNI, a esta hora,

deveria ter uma ficha deste tamanho...

HEITOR: Mas dizem que tem...

GEISEL: Tem coisa nenhuma.20

Aceitá-lo seria impossível. Vetá-lo em público, difícil. Derrotá-lo
na convenção, improvável. A solução chegou a Geisel pouco mais de um
mês antes da sua posse. Levou-a o senador Petrônio Portella. Bastava
mudar a lei, transferindo para os diretórios estaduais a escolha dos
candidatos. O senador assegurava que já tinha os votos de catorze dos
31 membros do diretório paulista. Geisel gostou da idéia, mas ainda
assim perguntou a Petrônio qual seria o risco de uma falseta. "Sou o
fiador", respondeu o presidente da Arena.21

Petrônio Portella era uma estrela em ascensão. Um prodígio literal
de sobrevivência, dissimulação e audácia. Em alguns políticos,
atributos desse tipo podem ser ilustrados por manobras de bastidores.


No caso de Petrônio, ilustravam-se por sua vida. Com 48 anos, já
derrotara um câncer de pulmão. Não tocava no assunto e, para
espantar suspeitas, evitava cumprimentar publicamente o cirurgião que

o salvara.22 Mais: fumava. Na política, sobrevivera a um mau passo de
retórica. Depois de uma militância convencional na esquerda estudantil
do Rio de Janeiro, voltara ao Piauí e se elegera governador do estado.
Na manhã de 1º de abril de 1964, recebera no seu gabinete uma
comitiva de dirigentes sindicais que lhe cobravam uma definição
perante a revolta militar. Foi claro: "Não sou homem de oportunismo.
[...] Fiquem sabendo os golpistas que no Piauí há homens livres
dispostos a lutar com o sacrifício da própria vida pela liberdade".23 Daí
em diante lutou em silêncio, para evitar que o cassassem.
Nada escrevia e nada dizia. No telefone era quase indecifrável,
evitava nomes, substituindo-os por expressões tais como "o nosso
amigo" ou "o outro". Elegera-se senador e reinava nas costuras da
política interna do Congresso. Tinha forte sotaque nordestino e paixão
por construções tão vazias quanto eloqüentes. "O Petrônio se defendia
pela prolixidade", diria dele um dos seus mais argutos interlocutores.24
Como o ministro Reis Velloso, o outro piauiense federal, usava camisas
com colarinhos e punhos exageradamente compridos. Ascendera à
liderança da maioria no Senado e à vice-presidência da Arena, mas
ainda era um coadjuvante. Assim teria continuado, até que, na manhã
de 11 de julho de 1973, um Boeing da Varig caiu nos arredores de
Paris, matando Filinto Müller, presidente do partido do governo. Não
havia como negar-lhe a promoção, e Geisel soltou um comentário
amargo: "O Petrônio, presidente do partido da Revolução...".25

O senador soube se mostrar útil. Nas primeiras semanas, pisando
em ovos, fez saber a Geisel que julgara rala a Carta de Princípios do
partido. Queria modificá-la, dando-lhe mais substância, e, para isso,
pedia idéias ao general.26 Conversa de periquito. Quando foi recebido no
largo da Misericórdia, sugeriu-lhe que não tivesse "respeito humano"
pela doutrina partidária, até porque a Carta e o programa da Arena, por
inócuos, eram iguais aos do MDB. Para evitar ecos de 1964, pisou fundo:


"O governo não vai abrir coisíssima nenhuma. [...] Deixar isso sem
ilusões aos 'candidatos' a líder. Meu temor é que se abram esperanças
liberais".27 Firmou-se por prático. Ofereceu-se para simular consultas
na escolha dos governadores e percorreu diversos estados anunciando
que estava ouvindo as correntes governistas. Na verdade, avisava aos
descontentes que as dissidências seriam punidas com oito anos de
ostracismo.28 Convenceu Geisel a aceitar listas com sugestões,
assegurando-lhe que o nome de sua preferência jamais seria esquecido.
29 Uns poucos encontros foram suficientes para que o general o
apreciasse e buscasse lastro histórico para sua comodidade: comparava
a transmutação de Petrônio Portella à de Rodrigues Alves, que chegara
a presidente da República tendo sido conselheiro do Império.30 Ia fundo,
reconhecendo que era preferível trabalhar com ele a lidar com velhos
conspiradores liberais que tinham se voltado contra a ditadura.

Delfim julgava-se forte. Supunha ter até mesmo o apoio explícito
de Medici. O presidente dissera-lhe que sugerira a Geisel a sua
indicação.31 Segundo a narrativa de Geisel, feita dois dias depois de se
encontrar com Medici, a conversa foi outra. Haviam falado da escolha
dos governadores, mas fizeram-no como dois generais.

"Esses caras são uns bestas. Eles não sabem que existe o Ato 5.
[...] Quem vai escolher é você."

"Pois é, mas o Delfim está todo açodado aí, criando problema",
respondeu Geisel.

"O Delfim não quer ser. Só quer ser se você concordar."32

Dois encontros, um com Petrônio e outro com Armando Falcão,
mostraram a Delfim a extensão do veto. Nos dois casos o ministro da
Fazenda tentou argumentar, exigindo que lhe reconhecessem o direito
de disputar, inclusive no diretório. "O regime é implacável", disse-lhe
Petrônio.33 "O presidente não é obrigado, por força da sua condição de
chefe da nação, a dar explicações", acrescentou Falcão.34 Batido, Delfim
viajou para o exterior.


Num sábado de junho de 1974, Delfim regressou a Brasília. Veio
num jatinho, foi apanhado na pista e levado para a granja do Ipê, onde
Golbery o esperava. Conversaram durante quase três horas, como se
nada tivesse acontecido. Nem Delfim perguntou, nem Golbery explicou.
Nos minutos finais o general pediu que lhe mandasse um papel
analisando a política cafeeira e lembrou-lhe: "Apreciaremos muito a sua
colaboração". Delfim respondeu com a contra-senha: "E eu tenho o
maior interesse em cooperar". Era o início da caminhada do Gordo para

o exílio. Três meses depois aceitou a embaixada em Paris.
Geisel foi além do veto a Delfim. Fechou sua manobra num só
nome, recusou qualquer conciliação e impôs um candidato sem base
política relevante. Liquidou a fatura paulista na segunda semana de
governo, mostrando que assim como bastava seu voto para vetar
Delfim, bastava esse mesmo voto para eleger o engenheiro Paulo Egydio
Martins governador de São Paulo. Ministro da Indústria e Comércio
durante o governo Castello Branco, Paulo Egydio mantinha com Geisel
uma rara relação pessoal. Hospedara-o duas vezes em sua casa de
Campos do Jordão.35 Era uma das poucas figuras civis do regime que
jamais militara na esquerda estudantil. Educado pelos jesuítas,
presidira a União Metropolitana dos Estudantes (na gestão dele criara-
se o restaurante do Calabouço) e lá ganhara o apelido de Paulinho
Coréia, por defender a ida de um pelotão brasileiro aos combates do
primeiro conflito da Guerra Fria. Casara-se com a filha do industrial
paulista Alberto Byington, sócio da mineradora americana Alcoa, e
dirigira uma de suas empresas. Tinha um pé na velha plutocracia,
sentava-se no conselho do Banco Comércio e Indústria de São Paulo.
Tentara medir seu cacife nas urnas, mas acabara em oitavo e último
lugar numa disputa pela prefeitura de São Paulo, com menos de 100
mil votos.

Aos 46 anos, conservador e cristão, tinha fascínio quase juvenil
por John Kennedy. Havia nele algo de novo, um certo destemor.
Quando ministro, tivera a coragem de responder aos críticos da política
recessiva de Castello que "a falência é essencial como elemento de


purificação do sistema capitalista".36 Terminado o governo, continuara a
cultivar Geisel e Golbery. Sugerira que os ex-ministros de Castello se
mantivessem articulados, por meio de um "secretário-coordenador", e se
tornara o principal interlocutor paulista de Geisel, a quem via com
regularidade.37 Sabia que poderia ser escolhido, mas conhecendo o
padrinho, não avançava. Na primeira conversa mais concreta, firmou
duas estacas: "Eu cumpro missão. Se é que me será dada uma missão,
posso ir amanhã para Fernando de Noronha". Logo depois: "Se o senhor
chegar amanhã e resolver fazer o Joaquim, Pedro, Antônio ou Manuel
governador de São Paulo, o senhor não tenha muita preocupação,
general, porque isto será feito, de acordo com seu desejo".

Paulo Egydio dizia a Geisel coisas que outros não ousavam dizer.
Advertia que o atrito com o clero poderia criar um fenômeno semelhante
ao da "Igreja do Silêncio" do mundo comunista e recomendava que não
se brincasse com o efeito psicológico decorrente da censura imposta a O
Estado de S. Paulo.38 No fim de um de seus encontros Geisel disse-lhe,
com estudada naturalidade, que haveria de ter o problema da escolha
do vice-governador. Paulo Egydio estava escolhido. Feita a indicação
formal, o governador Laudo Natel aplaudiu-a, e o presidente fechou a
conta: "Eu não queria a coisa assim como foi, mas fiquei bem: tenho
força para empurrar um governador de São Paulo boca abaixo dele. Se
posso em São Paulo, ninguém vai se meter a besta em outros Estados".

Foram poucos os que se meteram, e quando o fizeram, usaram
armas antigas, supostamente eficazes. No Rio Grande do Sul, Geisel
desatou um nó de caciquias interessando-se no jovem deputado Sinval
Guazzelli. Pediram sua ficha ao SNI. Geisel leu o seguinte:

Em 1956, vice-prefeito de Vacaria. Comunista. Quando
estudante era um dos líderes do movimento comunista na
Faculdade de Direito de Porto Alegre. (Informe sem classificação)



[...] Segundo informação 87SSP de 14 de março de 1966, em
outubro de 1958, em suas palestras, passou a fazer proselitismo
da doutrina comunista. [...] É comunista atuante. [...] Em 1960,
convidado pelo primeiro-ministro Fidel Castro, seguiu para Cuba
a fim de assistir aos festejos do segundo aniversário da
Revolução Cubana.40

A primeira reação de Geisel foi esquecê-lo. Em seguida, como
Heitor Ferreira argumentasse que em 1960 os barbudos cubanos ainda
estavam envoltos no romantismo da época, o presidente voltou-se
contra o fichário do SNI:

"É falência. [...] Não tem ninguém que se aproveite. Não pode, não
tem jeito. Você tinha que pegar vinte mil sujeitos e fuzilar. Vamos
começar de novo."

"Inclusive o pessoal que faz as fichas", rebateu Heitor.

"Então vamos acabar com o SNI. Qual é a solução? [...] Eu acho
que a primeira providência que a gente devia tomar no SNI era uma
providência de maluco. É dizer: incinera todas as fichas e começa tudo
de novo."41

Aquilo que parecia ser uma verificação dos antecedentes das
pessoas cogitadas para cargos públicos revelava-se como uma tentativa
de manipulação política. O SNI encrencara com Armando Falcão e
Azeredo da Silveira, com o novo líder na Câmara, Célio Borja, por
liberal, e com um de seus diretores da Petrobrás por comunista.42 As
acusações entravam nas fichas muito mais pela vontade dos inimigos
dos fichados do que pela investigação do Serviço. Orlando Geisel
remetera um bilhete classificando o deputado Aureliano Chaves, futuro
governador de Minas Gerais, como comunista metido em negociatas.43
No caso de Guazzelli, verificou-se que ele era esquerdista no arquivo do
Rio. No de Porto Alegre era "democrata convicto".44 A ficha foi reescrita,
Guazzelli tornou-se um azarão na corrida pelo governo do Rio Grande
do Sul, e Geisel resolveu indicá-lo. Seus adversários procuraram
reavivar a controvérsia dos antecedentes, e chegou-se a garantir que ele


perdera a parada por ter sido vetado pelo SNI. Fracassaram.

Se a sucessão paulista servira a Geisel para impor sua vontade ao
poderio econômico e político acumulado por Delfim, na gaúcha, sem
alarde, o general desprezara a Comunidade de Informações. Uma
novidade, pois quatro anos antes o Serviço filtrara as listas levadas a
Medici.

No final de junho, escolhidos todos os governadores, o czar da
economia estava exilado em Paris e o general Carlos Alberto da
Fontoura, ex-chefe do SNI, em Lisboa. Estava entendido que o regime era
implacável e o epicentro dessa implacabilidade era Ernesto Geisel.

1 Conversas de Geisel com Heitor Ferreira e Figueiredo, narrando um encontro com o


general Oscar Luiz da Silva, de 7 e 9 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.
2 Diário de JK, 15 e 29 de outubro, 2 e 11 de novembro de 1973, e 10 e 14 de janeiro
de 1974.


3 Para as dificuldades do casamento de Márcia Kubitschek, Diário de JK, 29 de
novembro e 5 de dezembro de 1973. Para a relação empresarial com Barbará, Diário
de JK, 4, 7 e 19 de junho de 1974.


4 Diário de JK, 15 de julho de 1974, e Veja, 14 de maio de 1997, pp. 108-18.


5 Diário de JK, 14 e 19 de março, 7 de agosto e 8 de setembro de 1974. Para as
escrituras, quando a proibição foi suspensa, idem, 5 de agosto de 1974.
6 Diário de JK, 7 de fevereiro de 1974.
7 Idem, 28 de fevereiro, 2 de março e 7 de novembro de 1974.
8 Diário de JK, 21 de abril de 1974.
9 Idem, 17 de agosto de 1974. Para a cavalgada e o banho, idem, 18 de agosto de


1974.
10 João Pinheiro Neto, Jango, p. 15.
11 Essa tradição surgiu quando o presidente Epitácio Pessoa revogou o decreto de


banimento da família real. Lembrete n-122, do ministro Azeredo da Silveira a Geisel,
de 7 de abril de 1977. APGCS/HF. Geisel quis suspender a prerrogativa.


12 El Nacional, de Caracas, 7 de setembro de 1973.
13 Narrativa das gestões, feita por Figueiredo a Heitor Ferreira, 5 de dezembro de
1973. APGCS/HF.


14 Narrativa de Geisel a Golbery, 1º de fevereiro de 1974. APGCS/HF.
15 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 30 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
16 Jornal do Brasil, 14 de março de 1976, Caderno Especial, p. 2.
17 O Estado de S. Paulo, 13 de novembro de 1973, p. 5.



18 Nota de Heitor Ferreira, de 13 de fevereiro de 1974, registrando uma conversa de
Simonsen com Delfim. APGCS/HF.

19 Opinião, 8 de abril de 1974, p. 5.

20 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 18 de janeiro de 1974. APGCS/HF.

21 Reunião de Geisel com Petrônio Portella, 4 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

22 Petrônio foi operado pelo médico Jesse Teixeira. Ele contava que o senador se
escondia, ao contrário de outro cliente famoso, Abelardo Chacrinha, que sempre o
saudava. Antonio Carlos Magalhães, novembro de 1997.

23 Recorte do Jornal do Piauí, de Teresina, do dia 7 de julho de 1964, no qual se
informa que o texto transcreve a fita em que o discurso foi gravado. Petrônio emitiu
também uma nota oficial, protestando contra "a ação revolucionária dos que ontem
faziam intocável a Constituição e hoje não vacilam em desrespeitá-la". Cópia xerox,
com firma reconhecida no 39 Cartório de Notas Themístodes Sampaio. APGCS/HF.

24 Entrevista de Raymundo Faoro a Marcelo Coelho, em Folha de S.Paulo de 14 de
maio de 2000.

25 Diário de Heitor Ferreira, 16 de julho de 1976.

26 Nota do comandante Palhares ao coronel Moraes Rego, de 4 de agosto de 1973.

APGCS/HF.

27 Quatro folhas manuscritas de Heitor Ferreira, intituladas Súmula da Conversa de
Geisel e Golbery com Petrônio, de 9 de novembro de 1973. APGCS/HF.

28 Um dissidente ficaria fora do poder de 1974 a 1978 e, novamente, de 1978 a 1982,
pois esses governadores também seriam escolhidos durante o mandato federal de
Geisel.

29 Reunião de Geisel com Petrônio Portella, 28 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

30 Conversa de Geisel com Moraes Rego e Heitor Ferreira, 23 de novembro de 1973.

APGCS/HF.

31 Delfim Netto, dezembro de 1997.


32 Conversa de Geisel com Moraes Rego e Heitor Ferreira, 20 de fevereiro de 1974,
narrando sua audiência com Medici, naquele dia. APGCS/HF.
33 Delfim Netto, dezembro de 1997.
34 Narrativa de Armando Falcão a Geisel e Heitor Ferreira, em telefonema de 14 de


março de 1974. APGCS/HF.
35 Paulo Egydio Martins, novembro de 1997.
36 Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930, coord. de Alzira Alves de Abreu e


outros, vol. 2,p. 1972.
37 Diário de Heitor Ferreira, 23 de fevereiro de 1967.
38 Reunião de Geisel com Paulo Egydio Martins, 4 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
39 Diário de Heitor Ferreira, 4 de abril de 1974.
40 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 29 de janeiro de 1974. Geisel leu a ficha


em voz alta. Cinco dias antes, quando pediu a ficha de Guazzelli ao SNI, Golbery não
sabia o seu primeiro nome. Telefonema de Golbery a Adolpho Murgel, 24 de janeiro de
1974. APGCS/HF.


41 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 29 de janeiro de 1974. APGCS/HF.

42 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 29 de janeiro de 1974. APGCS/HF.

43 Conversa de Geisel com Moraes Rego, Americo Mourão e Heitor Ferreira, 18 de
janeiro de 1974. APGCS/HF. Aureliano nunca se viu acusado de uma coisa ou outra,


nem durante esse processo de escolha, nem antes nem depois dele.
44 Heitor Ferreira, abril de 1974.


O pé no acelerador


Na primeira reunião ministerial, Geisel anunciou que as altas taxas de
crescimento da economia seriam a "prioridade número um" do governo.1
A idéia de refrear o Milagre não passava pela cabeça dos hierarcas de
Brasília. O número mágico dos 10% de crescimento do PIB era moeda
corrente. Ao ser convidado para o Ministério da Fazenda, Mario
Henrique Simonsen mantivera essa meta e dissera a Geisel que uma
das condições para obtê-la era não cortar investimentos públicos: "Não
é a hora de fazer isso. [...] Se nessa crise mundial o Brasil consegue, em
74, até 10% ou 9%, um crescimento bastante grande [...] o senhor
consegue uma projeção internacional muito boa".2

A ditadura tinha medo do fantasma identificado por Juan Linz em
1971. Como sua legitimidade derivava do desempenho, qualquer coisa
que ferisse o desempenho feriria também a legitimidade do regime.

"Como é que eu iria justificar uma recessão depois da euforia, do
desenvolvimento do governo do Medici? E como iria resolver o problema