Re: pedido do livro amor líquido

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Zygmunt Bauman




AMOR LÍQUIDO
Sobre a fragilidade dos laços humanos




Tradução:
Carlos Alberto Medeiros




Capa: Sérgio Campante, composição sobre foto
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Informações:

B341a

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Ed., 2004.

ISBN: 978-85-7110-795-3

Título original: Liquid love: on the frailty of human bonds

1. Isolamento social. 2. Distância social. 3. Relações interpessoais. 4. Relações intergrupais.
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Apresentação

A era da modernidade líquida em que vivemos -- um mundo repleto de sinais confusos, propenso a
mudar com rapidez e de forma imprevisível -- é fatal para nossa capacidade de amar, seja esse amor
direcionado ao próximo, nosso parceiro ou a nós mesmos.

Zygmunt Bauman, um dos mais originais e perspicazes sociólogos ainda em atividade, Investiga aqui de
que forma nossas relações tornam-se cada vez mais "flexíveis", gerando níveis de insegurança sempre
maiores. Uma vez que damos prioridade a relacionamentos em "redes", as quais podem ser tecidas ou
desmanchadas com igual facilidade -- e freqüentemente sem que isso envolva nenhum contato além do
virtual --, não sabemos mais manter laços a longo prazo.

E não apenas relações amorosas e vínculos familiares são afetados: Bauman verifica ainda que nossa
capacidade de tratar um estranho com humanidade é prejudicada. Como exemplo, ele examina a crise na
atual política imigratória de diversos países da União Européia e a forma como a sociedade tende a
creditar seus medos, sempre crescentes, a estrangeiros e refugiados.

Sensível e brilhante como de hábito, Zygmunt Bauman faz deste Amor líquido mais que uma mera e triste
constatação, um alerta revigorante.


Sobre o autor

ZYGMUNT BAUMAN é um dos sociólogos mais respeitados da atualidade. Com extensa produção
intelectual, tem se destacado como um dos pensadores mais clarividentes do nosso tempo. Professor
emérito de sociologia da universidade de Leeds e Varsóvia, Bauman tem outros 15 livros publicados por
esta editora, dentre os quais destacam-se: Comunidade; Identidade; O mal-estar da pós-modernidade;
Modernidade liquida; Vida líquida, Tempos líquidos; e Medo líquido.


Texto de quarta-capa

A modernidade líquida em que vivemos traz consigo uma misteriosa fragilidade dos laços humanos --
um amor líquido. A insegurança inspirada por essa condição estimula desejos conflitantes de estreitar
esses laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos.

Zygmunt Bauman radiografa esse amor, tanto nos relacionamentos pessoais e familiares quanto no
convívio social com estranhos. Com a percepção fina e apurada de sempre, busca esclarecer, registrar e
apreender de que forma o homem sem vínculos -- figura central dos tempos modernos -- se conecta.

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Sumário

Prefácio..........................................................................................................................................................6
1. Apaixonar-se e desapaixonar-se................................................................................................................9
2. Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade..........................................................................27
3. Sobre a dificuldade de amar o próximo...................................................................................................46
4. Convívio destruído...................................................................................................................................66
Notas............................................................................................................................................................84
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Prefácio

Ulrich, o herói do grande romance de Robert Musil, era -- como anunciava o título da obra -- Der Mann
ohne Eigenschaften: o homem sem qualidades. Não tendo qualidades próprias, herdadas ou adquiridas e
incorporadas, Ulrich teve de produzir por conta própria quaisquer qualidades que desejasse possuir,
usando a perspicácia e a sagacidade de que era dotado; mas nenhuma delas tinha a garantia de perdurar
indefinidamente num mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma
imprevisível.
O herói de seu livro é Der Mann ohne Verwandtschaften -- o homem sem vínculos, e
particularmente vínculos imutáveis como os de parentesco no tempo de Ulrich. Não tendo ligações
indissolúveis e definitivas, o herói de seu livro -- o cidadão de nossa líquida sociedade moderna -- e
seus atuais sucessores são obrigados a amarrar um ao outro, por iniciativa, habilidades e dedicação
próprias, os laços que porventura pretendam usar com o restante da humanidade. Desligados, precisam
conectar-se... Nenhuma das conexões que venham a preencher a lacuna deixada pelos vínculos ausentes
ou obsoletos tem, contudo, a garantia da permanência. De qualquer modo, eles só precisam ser
frouxamente atados, para que possam ser outra vez desfeitos, sem grandes delongas, quando os cenários
mudarem -- o que, na modernidade liquida, decerto ocorrerá repetidas vezes.
A misteriosa fragilidade dos vínculos humanos, o sentimento de insegurança que ela inspira e os
desejos conflitantes (estimulados por tal sentimento) de apertar os laços e ao mesmo tempo mantê-los
frouxos, é o que este livro busca esclarecer, registrar e apreender.
Carecendo da visão aguda de Musil, tanto quanto da riqueza de sua palheta e da sutileza de suas
pinceladas -- de fato, de quaisquer dos requintados talentos que fizeram de Der Mann ohne
Eigenschaften um retrato definitivo do homem moderno --, devo restringir-me a traçar um painel de
esboços imperfeitos e fragmentários, em lugar de tentar produzir uma imagem completa. O máximo que
posso esperar obter é um kit identitário, um retraio compósito capaz de conter tanto lacunas e espaços em
branco quanto seções completas. Mesmo essa composição final, contudo, será um trabalho inacabado, a
ser concluído pelos leitores.
O principal herói deste livro é o relacionamento humano. Seus personagens centrais são homens e
mulheres, nossos contemporâneos, desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e
sentimentos facilmente descartáveis, ansiando pela segurança do convívio e pela mão amiga com que
possam contar num momento de aflição, desesperados por "relacionar-se" e, no entanto desconfiados da
condição de "estar ligado" em particular de estar ligado "permanentemente" para não dizer eternamente,
pois temem que tal condição possa trazer encargos e tensões que eles não se consideram aptos nem
dispostos a suportar, e que podem limitar severamente a liberdade de que necessitam para -- sim, seu
palpite está certo -- relacionar-se...
Em nosso mundo de furiosa "individualização", os relacionamentos são bênçãos ambíguas.
Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro. Na
maior parte do tempo, esses dois avatares coabitam embora em diferentes níveis de consciência. No
líquido cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns,
agudos, perturbadores e profundamente sentidos da ambivalência. É por isso, podemos garantir, que se
encontram tão firmemente no cerne das atenções dos modernos e líquidos indivíduos-por-decreto, e no
topo de sua agenda existencial.
"Relacionamento" é o assunto mais quente do momento, e aparentemente o único jogo que vale a
pena, apesar de seus óbvios riscos. Alguns sociólogos, acostumados a compor teorias a partir de
questionários, estatísticas e crenças baseadas no senso comum, apressam-se em concluir que seus
contemporâneos estão totalmente abertos a amizades, laços, convívio, comunidade. De fato, contudo
(como se seguíssemos a regra de Martin Heidegger de que as coisas só se revelam à consciência por meio
da frustração que provocam -- fracassando, desaparecendo, comportando-se de forma inadequada ou
negando sua natureza de alguma outra forma), hoje em dia as atenções humanas tendem a se concentrar
nas satisfações que esperamos obter das relações precisamente porque, de alguma forma, estas não têm
sido consideradas plena e verdadeiramente satisfatórias. E, se satisfazem, o preço disso tem sido com
freqüência considerado excessivo e inaceitável. Em seu famoso experimento, Miller e Dollard viram seus
ratos de laboratório atingirem o auge da excitação e da agitação quando "a atração se igualou à repulsão"
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ou seja, quando a ameaça do choque elétrico e a promessa de comida saborosa finalmente atingiram o
equilíbrio...
Não admira que os "relacionamentos" estejam entre os principais motores do atual "boom do
aconselhamento". A complexidade é densa, persistente e difícil demais para ser desfeita ou destrinchada
sem auxílio. A agitação dos ratos de Miller e Dollard resultava freqüentemente na paralisia da ação. A
incapacidade de escolher entre atração e repulsão, entre esperanças e temores, redundava na incapacidade
de agir. De modo diferente dos ratos, os seres humanos que se vêem em tais circunstâncias podem pedir
ajuda a especialistas que oferecem seus préstimos em troca de honorários. O que esperam ouvir deles é
algo como a solução do problema da quadratura do círculo: comer o bolo e ao mesmo tempo conservá-lo;
desfrutar das doces delícias de um relacionamento evitando, simultaneamente, seus momentos mais
amargos e penosos; forçar uma relação a permitir sem desautorizar, possibilitar sem invalidar, satisfazer
sem oprimir...
Os especialistas estão prontos a condescender, confiantes em que a procura por suas
recomendações será infinita, uma vez que nada que digam poderá tornar um círculo não-circular, e
portanto passível de ser transformado num quadrado... Suas recomendações são copiosas, embora
geralmente se resumam a pouco mais do que elevar a prática comum ao nível do conhecimento comum, e
daí ao status de teoria autorizada e erudita. Gratos beneficiários dessas recomendações percorrem as
colunas de "relacionamento" em publicações sofisticadas e nos suplementos semanais de jornais sérios ou
nem tanto, para ouvir o que queriam de pessoas que "estão por dentro" (uma vez que são tímidos ou
envergonhados demais para falarem por si mesmos), para espreitar os feitos e procedimentos de "outros
como eles" e conseguir o máximo conforto possível por saberem que não estão sozinhos em seus
solitários esforços para enfrentar a incerteza.
E assim os leitores aprendem com a experiência de outros leitores, reciclada pelos especialistas,
que é possível buscar "relacionamentos de bolso" do tipo de que se "pode dispor quando necessário" e
depois tornar a guardar. Ou que os relacionamentos são como a vitamina C: em altas doses, provocam
náuseas e podem prejudicar a saúde. Tal como no caso desse remédio, é preciso diluir as relações para
que se possa consumi-las. Ou que os CSSs -- casais semi-separados merecem louvor como
"revolucionários do relacionamento que romperam a bolha sufocante dos casais". Ou ainda que as
relações, da mesma forma que os automóveis, devem passar por revisões regulares para termos certeza de
que continuarão funcionando bem. No todo, o que aprendem é que o compromisso, e em particular o
compromisso a longo prazo, é a maior armadilha a ser evitada no esforço por "relacionar-se". Um
especialista informa aos leitores: "Ao se comprometerem, ainda que sem entusiasmo, lembrem-se de que
possivelmente estarão fechando a porta a outras possibilidades românticas talvez mais satisfatórias e
completas". Outro mostra-se ainda mais insensível: "A longo prazo, as promessas de compromisso são
irrelevantes. Como outros investimentos, elas alternam períodos de alta e baixa". E assim, se você deseja
"relacionar-se", mantenha distância; se quer usufruir do convívio, não assuma nem exija compromissos.
Deixe todas as portas sempre abertas.
Se lhes perguntassem, os habitantes de Leônia, uma das cidades invisíveis de Ítalo Calvino, diriam
que sua paixão é "desfrutar coisas novas e diferentes": De fato. A cada manhã eles "vestem roupas novas
em folha, tiram latas fechadas do mais recente modelo de geladeira, ouvindo jingles recém-lançados na
estação de rádio mais quente do momento". Mas a cada manhã "as sobras da Leônia de ontem aguardam
pelo caminhão de lixo" e cabe indagar se a verdadeira paixão dos leonianos na verdade não seria "o
prazer de expelir, descartar, limpar-se de uma impureza recorrente". Caso contrário, por que os varredores
de rua seriam "recebidos como anjos" mesmo que sua missão fosse "cercada de um silêncio respeitoso"
(o que é compreensível: "ninguém quer voltar a pensar em coisas que já foram rejeitadas")?
Pensemos...
Será que os habitantes de nosso líquido mundo moderno não são exatamente como os de Leônia,
preocupados com uma coisa e falando de outra? Eles garantem que seu desejo, paixão, objetivo ou sonho
é "relacionar-se", Mas será que na verdade não estão preocupados principalmente em evitar que suas
relações acabem congeladas e coaguladas? Estão mesmo procurando relacionamentos duradouros, como
dizem, ou seu maior desejo é que eles sejam leves e frouxos, de tal modo que, como as riquezas de
Richard Baxter, que "cairiam sobre os ombros como um manto leve" possam "ser postos de lado a
qualquer momento"? Afinal, que tipo de conselho eles querem de verdade: como estabelecer um
relacionamento ou -- só por precaução -- como rompê-lo sem dor e com a consciência limpa? Não há
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uma resposta fácil a essa pergunta, embora ela precise ser respondida e vá continuar sendo feita, à
medida que os habitantes do líquido mundo moderno seguirem sofrendo sob o peso esmagador da mais
ambivalente entre as muitas tarefas com que se defrontam no dia-a-dia.
Talvez a própria idéia de "relacionamento" contribua para essa confusão. Apesar da firmeza que
caracteriza as tentativas dos infelizes caçadores de relacionamentos e seus especialistas, essa noção resiste
a ser plena e verdadeiramente purgada de suas conotações perturbadoras e preocupantes. Permanece cheia
de ameaças vagas e premonições sombrias; fala ao mesmo tempo dos prazeres do convívio e dos horrores
da clausura. Talvez seja por isso que, em vez de relatar suas experiências e expectativas utilizando termos
como "relacionar-se" e "relacionamentos" as pessoas falem cada vez mais (auxiliadas e conduzidas pelos
doutos especialistas) em conexões, ou "conectar-se" e "ser conectado". Em vez de parceiros, preferem
falar em "redes". Quais são os méritos da linguagem da "conectividade" que estariam ausentes da
linguagem dos "relacionamentos"?
Diferentemente de "relações", "parentescos", "parcerias" e noções similares -- que ressaltam o
engajamento mútuo ao mesmo tempo em que silenciosamente excluem ou omitem o seu oposto, a falta de
compromisso --, uma "rede" serve de matriz tanto para conectar quanto para desconectar; não é possível
imaginá-la sem as duas possibilidades. Na rede, elas são escolhas igualmente legítimas, gozam do mesmo
status e têm importância idêntica. Não faz sentido perguntar qual dessas atividades complementares
constitui "sua essência"! A palavra "rede" sugere momentos nos quais "se está em contato" intercalados
por períodos de movimentação a esmo. Nela as conexões são estabelecidas e cortadas por escolha. A
hipótese de um relacionamento "indesejável, mas impossível de romper" é o que torna "relacionar-se" a
coisa mais traiçoeira que se possa imaginar. Mas uma "conexão indesejável" é um paradoxo. As conexões
podem ser rompidas, e o são, muito antes que se comece a detestá-las.
Elas são "relações virtuais". Ao contrário dos relacionamentos antiquados (para não falar daqueles
com "compromisso" muito menos dos compromissos de longo prazo), elas parecem feitas sob medida
para o líquido cenário da vida moderna, em que se espera e se deseja que as "possibilidades românticas"
(e não apenas românticas) surjam e desapareçam numa velocidade crescente e em volume cada vez maior,
aniquilando-se mutuamente e tentando impor aos gritos a promessa de "ser a mais satisfatória e a mais
completa". Diferentemente dos "relacionamentos reais" é fácil entrar e sair dos "relacionamentos
virtuais". Em comparação com a "coisa autêntica", pesada, lenta e confusa, eles parecem inteligentes e
limpos, fáceis de usar, compreender e manusear. Entrevistado a respeito da crescente popularidade do
namoro pela Internet, em detrimento dos bares para solteiros e das seções especializadas dos jornais e
revistas, um jovem de 28 anos da Universidade de Bath apontou uma vantagem decisiva da relação
eletrônica: "Sempre se pode apertar a tecla de deletar".
Como que obedecendo à lei de Gresham, as relações virtuais (rebatizadas de "conexões")
estabelecem o padrão que orienta todos os outros relacionamentos. Isso não traz felicidade aos homens e
mulheres que se rendem a essa pressão; dificilmente se poderia imaginá-los mais felizes agora do que
quando se envolviam nas relações pré-virtuais. Ganha-se de um lado, perde-se de outro.
Como apontou Ralph Waldo Emerson, quando se esquia sobre gelo fino, a salvação está na
velocidade. Quando se é traído pela qualidade, tende-se a buscar a desforra na quantidade. Se "os
compromissos são irrelevantes" quando as relações deixam de ser honestas e parece improvável que se
sustentem, as pessoas se inclinam a substituir as parcerias pelas redes. Feito isso, porém, estabelecer-se
fica ainda mais difícil (e adiável) do que antes -- pois agora não se tem mais a habilidade que faz, ou
poderia fazer, a coisa funcionar. Estar em movimento, antes um privilégio e uma conquista, torna-se uma
necessidade. Manter-se em alta velocidade, antes uma aventura estimulante, vira uma tarefa cansativa.
Mais importante, a desagradável incerteza e a irritante confusão, supostamente escorraçadas pela
velocidade, recusam-se a sair de cena. A facilidade do desengajamento e do rompimento (a qualquer
hora) não reduzem os riscos, apenas os distribuem de modo diferente, junto com as ansiedades que
provocam.
Este livro é dedicado aos riscos e ansiedades de se viver junto, e separado, em nosso líquido
mundo moderno.
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1. Apaixonar-se e desapaixonar-se

"Meu caro amigo, estou lhe enviando um pequeno trabalho do qual se poderia dizer, sem injustiça,
que não é cabeça nem rabo, já que tudo nele é, ao contrário, uma cabeça e um rabo, alternada e
reciprocamente. Suplico-lhe que leve em consideração a conveniência admirável que tal
combinação oferece a todos nós -- a você, a mim e ao leitor. Podemos abreviar -- eu, meus
devaneios; você, o texto; o leitor, sua leitura. Pois eu não atrelo interminavelmente a fatigada
vontade de qualquer um deles a uma trama supérflua. Retire um anel, e as duas partes desta
tortuosa fantasia voltarão a se unir sem dificuldade. Corte em pedacinhos e vai descobrir que cada
um deles tem vida própria. Na expectativa de que alguma dessas fatias possa agradá-lo e diverti-lo,
ouso dedicar-lhe a cobra inteira."
Foi assim que Charles Baudelaire apresentou Le spleen de Paris a seus leitores. Que pena. Não
fosse por isso, eu gostaria de escrever esse mesmo preâmbulo, ou um parecido, sobre o texto que segue.
Mas ele o escreveu e só me resta citá-lo. Evidentemente, Walter Benjamin enfatizaria na última sentença
a palavra "só". E eu também, pensando bem.
"Corte-a em pedacinhos e vai descobrir que cada um deles tem vida própria." Os fragmentos que
fluíam da pena de Baudelaire tinham. Se os dispersos retalhos de pensamento reunidos a seguir também
terão, não cabe a mim decidir, mas ao leitor.
A família dos pensamentos está repleta de anões. É por isso a lógica e o método foram inventados
e, depois de descobertos, adotados pelos pensadores de idéias. Pigmeus podem esconder-se e acabar
esquecendo sua insignificância em meio ao esplendor de colunas em marcha e formações de batalha.
Cerradas as fileiras, quem vai notar o tamanho diminuto dos soldados? E possível reunir um exército de
aparência extremamente poderosa alinhando-se para o combate fileiras após fileiras de pigmeus...
Só para satisfazer os viciados em metodologia, talvez eu devesse ter feito o mesmo com estes
fragmentos. Mas como não tenho tempo para levar a cabo essa tarefa, seria tolice de minha parte pensar
primeiro na ordem das fileiras e deixar a convocação para o final...
Pensando bem: talvez o tempo de que disponho pareça curto demais não por minha idade
avançada, mas porque, quanto mais velho você é, mais sabe que os pensamentos, embora possam parecer
grandiosos, jamais serão grandes o suficiente para abarcar a generosa prodigalidade da experiência
humana, muito menos para explicá-la. O que sabemos, o que desejamos saber, o que lutamos para saber,
o que devemos tentar saber sobre amor ou rejeição, estar só ou acompanhado e morrer acompanhado ou
só - será que tudo isso poderia ser alinhado, ordenado, adequado aos padrões de coerência, coesão e
completude estabelecidos para assuntos de menor grandeza? Talvez sim - quer dizer, na infinitude do
tempo.
Não é verdade que, quando se diz tudo sobre os principais temas da vida humana, as coisas mais
importantes continuam por dizer?

O amor e a morte -- os dois personagens principais desta história sem trama nem desfecho, mas
que condensa a maior parte do som e da fúria da vida -- admitem, mais que quaisquer outros, esse
tipo de devaneio/escrita/leitura.
Para Ivan Klima, poucas coisas se parecem tanto com a morte quanto o amor realizado. Cada
chegada de um dos dois é sempre única, mas também definitiva: não suporta repetição, não permite
recurso nem promete prorrogação. Deve sustentar-se "por si mesmo" - e consegue. Cada um deles nasce,
ou renasce, no próprio momento em que surge, sempre a partir do nada, da escuridão do não-ser sem
passado nem futuro; começa sempre do começo, desnudando o caráter supérfluo das tramas passadas e a
utilidade dos enredos futuros.
Nem no amor nem na morte pode-se penetrar duas vezes - menos ainda que no rio de Heráclito.
Eles são, na verdade, suas próprias cabeças e seus próprios rabos, dispensando e descartando todos os
outros.
Bronislaw Malinowski ironizava os difusionistas por confundirem coleções de museu com
genealogias. Tendo visto toscos utensílios de pederneira expostos em estojos de vidro diante de
instrumentos mais refinados, eles falavam de uma "história das ferramentas". Era, zombava Malinowski,
corno se um machado de pedra gerasse um outro, da mesma forma que, digamos, o hipparion deu origem,
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na plenitude do tempo, ao equus caballus. Os cavalos podem derivar de outros cavalos, mas as
ferramentas não têm ancestralidade nem descendência. Diferentemente dos cavalos, não têm uma história
própria. Pode-se dizer que elas pontuam as biografias individuais e as histórias coletivas dos seres
humanos, das quais são emanações ou sedimentos.
Quase o mesmo se pode dizer do amor e da morte. Parentesco, afinidade, elos causais são traços
da individualidade e/ou do convívio humanos. O amor e a morte não têm história própria. São eventos
que ocorrem no tempo humano - eventos distintos, não conectados (muito menos de modo causal) com
eventos "similares", a não ser na visão de instituições ávidas por identificar - (por inventar) -
retrospectivamente essas conexões e compreender o incompreensível.
Assim, não se pode aprender a amar, tal como não se pode aprender a morrer. E não se pode
aprender a arte ilusória -- inexistente, embora ardentemente desejada -- de evitar suas garras e ficar fora
de seu caminho. Chegado o momento, o amor e a morte atacarão -- mas não se tem a mínima idéia de
quando isso acontecerá. Quando acontecer, vai pegar você desprevenido. Em nossas preocupações
diárias, o amor e a morte aparecerão ab nihilo -- a partir do nada. Evidentemente, todos nós tendemos a
nos esforçar muito para extrair alguma experiência desse fato; tentamos estabelecer leis antecedentes,
apresentar o princípio infalível de um post hoc corno se fosse um propter hoc, construir uma linhagem
que "faça sentido" -- e na maioria das vezes obtemos sucesso. Precisamos desse sucesso pelo conforto
espiritual que ele nos traz: faz ressurgir, ainda que de forma circular, a fé na regularidade do mundo e na
previsibilidade dos eventos, indispensável para a nossa saúde mental. Também evoca uma ilusão de
sabedoria conquistada, de aprendizado, e sobretudo de uma sabedoria que se pode aprender, tal como
aprendemos a usar os cânones da indução de J. S. Mill, a dirigir automóveis, a comer com pauzinhos em
vez de garfos ou a produzir uma impressão favorável em nossos entrevistadores.
No caso da morte, o aprendizado se restringe de fato à experiência de outras pessoas, e portanto
constitui uma ilusão in extremis. A experiência alheia não pode ser verdadeiramente aprendida como tal;
não é possível distinguir, no produto final da descoberta do objeto, entre o Erlebnis original e a
contribuição criativa trazida pela capacidade de imaginação do sujeito. A experiência dos outros só pode
ser conhecida como a história manipulada e interpretada daquilo por que eles passaram. No mundo real,
tal como nos desenhos de Tom & Jerry, talvez alguns gatos tenham sete vidas ou até mais, e talvez alguns
convertidos possam acreditar na ressurreição - mas permanece o fato de que a morte, assim como o
nascimento, só ocorre uma vez. Não há como aprender a "fazer certo na próxima oportunidade" com um
evento que jamais voltaremos a vivenciar.

O amor parece desfrutar de um status diferente do de outros acontecimentos únicos.
De fato, é possível que alguém se apaixone mais de uma vez, e algumas pessoas se gabam - ou se
queixam - de que apaixonar-se ou desapaixonar-se é algo que lhes acontece (assim como a outras pessoas
que vêm a conhecer nesse processo) de modo muito fácil. Todos nós já ouvimos histórias sobre essas
pessoas particularmente "propensas" ou "vulneráveis" ao amor.
Há bases bastante sólidas para se ver o amor, e em particular a condição de "apaixonado" como --
quase que por sua própria natureza -- uma condição recorrente, passível de repetição, que inclusive nos
convida a seguidas tentativas. Pressionados, a maioria de nós poderia enumerar momentos em que nos
sentimos apaixonados e de fato estávamos. Pode-se supor (mas será uma suposição fundamentada) que
em nossa época cresce rapidamente o número de pessoas que tendem a chamar de amor mais de uma de
suas experiências de vida, que não garantiriam que o amor que atualmente vivenciam é o último e que
têm a expectativa de viver outras experiências como essa no futuro. Não devemos nos surpreender se essa
suposição se mostrar correta. Afinal, a definição romântica do amor como "até que a morte nos separe"
está decididamente fora de moda, tendo deixado para trás seu tempo de vida útil em função da radical
alteração das estruturas de parentesco às quais costumava servir e de onde extraia seu vigor e sua
valorização. Mas o desaparecimento dessa noção significa, inevitavelmente, a facilitação dos testes pelos
quais uma experiência deve passar para ser chamada de "amor": Em vez de haver mais pessoas atingindo
mais vezes os elevados padrões do amor, esses padrões foram baixados. Como resultado, o conjunto de
experiências às quais nos referimos com a palavra amor expandiu-se muito. Noites avulsas de sexo são
referidas pelo codinome de "fazer amor".
A súbita abundância e a evidente disponibilidade das "experiências amorosas" podem alimentar (e
de fato alimentam) a convicção de que amar (apaixonar-se, instigar o amor) é uma habilidade que se pode
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adquirir, e que o domínio dessa habilidade aumenta com a prática e a assiduidade do exercício. Pode-se
até acreditar (e freqüentemente se acredita) que as habilidades do fazer amor tendem a crescer com o
acúmulo de experiências que o próximo amor será uma experiência ainda mais estimulante do que a que
estamos vivendo atualmente, embora não tão emocionante ou excitante quanto a que virá depois.
Essa é, contudo, outra ilusão... O conhecimento que se amplia juntamente com a série de eventos
amorosos é o conhecimento do "amor" como episódios intensos, curtos e impactantes, desencadeados
pela consciência a priori de sua própria fragilidade e curta duração. As habilidades assim adquiridas são
as de "terminar rapidamente e começar do início" das quais, segundo Soren Kierkegaard, o Don Giovanni
de Mozart era o virtuoso arquetípico. Guiado pela compulsão de tentar novamente, e obcecado em evitar
que cada sucessiva tentativa do presente pudesse atrapalhar uma outra no futuro, Don Giovanni era
também um arquetípico "impotente amoroso". Se o propósito dessa busca e experimentação infatigáveis
fosse o amor, a compulsão a experimentar frustraria esse propósito. É tentador afirmar que o efeito dessa
aparente "aquisição de habilidades" tende a ser, como no caso de Don Giovanni, o desaprendizado do
amor - uma "exercitada incapacidade" para amar.
Um resultado como esse - a vingança do amor, por assim dizer, sobre aqueles que ousam desafiar-
lhe a natureza - seria de se esperar. Pode-se aprender a desempenhar uma atividade em que haja um
conjunto de regras invariáveis correspondendo a um cenário estável e monotonamente repetitivo que
favoreça o aprendizado, a memorização e a manutenção dessa simulação. Num ambiente instável, fixar e
adquirir hábitos - marcas registradas do aprendizado exitoso - não são apenas contraproducentes, mas
podem mostrar-se fatais em suas conseqüências. O que é mortal para os ratos dos esgotos urbanos -
aquelas criaturas inteligentíssimas capazes de aprender rapidamente a distinguir comidas de iscas
venenosas - é o elemento de instabilidade, de desafio às regras, inserido na rede de calhas e dutos
subterrâneos pela "alteridade" irregular, inapreensível, imprevisível e verdadeiramente impenetrável de
outras criaturas inteligentes - os seres humanos, com sua notória tendência a quebrar a rotina e derrubar a
distinção entre o regular e o contingente. Se essa distinção não se sustenta, o aprendizado (entendido
como a aquisição de hábitos úteis) está fora de questão. Os que insistem em orientar suas ações de acordo
com precedentes, como aqueles generais conhecidos por lutar novamente sua última guerra vitoriosa,
assumem riscos suicidas e não favorecem a eliminação dos problemas.

É da natureza do amor -- como Lucano observou há dois milênios e Francis Bacon repetiu muitos
séculos depois -- ser refém do destino.
No Banquete de Platão, a profetisa Diotima de Mantinéia ressaltou para Sócrates, com a sincera
aprovação deste, que "o amor não se dirige ao belo, como você pensa; dirige-se à geração e ao
nascimento no belo". Amar é querer "gerar e procriar", e assim o amante "busca e se ocupa em encontrar
a coisa bela na qual possa gerar". Em outras palavras, não é ansiando por coisas prontas, completas e
concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas. O
amor é afim à transcendência; não é senão outro nome para o impulso criativo e como tal carregado de
riscos, pois o fim de uma criação nunca é certo.
Em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual a grande incógnita na equação do outro. É isso
que faz o amor parecer um capricho do destino ­ aquele futuro estranho e misterioso, impossível de ser
descrito antecipadamente, que deve ser realizado ou protelado, acelerado ou interrompido. Amar significa
abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições humanas, em que o medo se funde ao regozijo
num amálgama irreversível. Abrir-se ao destino significa, em última instância, admitir a liberdade no ser:
aquela liberdade que se incorpora no Outro, o companheiro no amor. "A satisfação no amor individual
não pode ser atingida sem a humildade, a coragem, a fé e a disciplina verdadeiras", afirma Erich Fromm ­
apenas para acrescentar adiante, com tristeza, que em "uma cultura na qual são raras essas qualidades,
atingir a capacidade de amar será sempre, necessariamente, uma rara conquista" 1.
E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso
imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados,
receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de
amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a

1
Erich Fromm, The Art of Loving. Londres, Thorsons, (1957), 1995, p.vii.
12
"experiência amorosa" à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas
essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço.
Sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e
contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não-mapeada. E é a esse território que o amor
conduz ao se instalar entre dois ou mais seres humanos.

Eros, como insiste Levinas2, difere da posse e do poder; não é nem uma batalha nem uma fusão -- e
nem tampouco conhecimento.
Eros é "uma relação com a alteridade, com o mistério, ou seja, com o futuro, com o que está
ausente do mundo que contém tudo o que é..". "O pathos do amor consiste na intransponível dualidade
dos seres". Tentativas de superar essa dualidade, de abrandar o obstinado e domar o turbulento, de tornar
prognosticável o incognoscível e de acorrentar o nômade tudo isso soa como um dobre de finados para o
amor. Eros não quer sobreviver à dualidade. Quando se trata de amor, posse, poder, fusão e desencanto
são os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
Nisso reside a assombrosa fragilidade do amor, lado a lado com sua maldita recusa em suportar
com leveza a vulnerabilidade. Todo amor empenha-se em subjugar, mas quando triunfa encontra a
derradeira derrota. Todo amor luta para enterrar as fontes de sua precariedade e incerteza, mas, se obtém
êxito, logo começa a se enfraquecer -- e definhar. Eros é possuído pelo fantasma de Tanatos, que
nenhum encantamento mágico é capaz de exorcizar. A questão não é a precocidade de Eros, e não há
instrução ou expedientes autodidáticos que possam libertá-lo de sua mórbida -- suicida -- inclinação.
O desafio, a atração e a sedução do Outro tornam toda distância, ainda que reduzida e minúscula,
insuportavelmente grande. A abertura tem a aparência de um precipício. Fusão e subjugação parecem ser
as únicas curas para o tormento. E não há senão uma tênue fronteira, à qual facilmente se fecham os
olhos, entre a carícia suave e gentil e a garra que aperta, implacável. Eros não pode ser fiel a si mesmo
sem praticar a primeira, mas não pode praticá-la sem correr o risco da segunda. Eros move a mão que se
estende na direção do outro -- mas mãos que acariciam também podem prender e esmagar.

Não importa o que você aprendeu sobre amor e amar, sua sabedoria só pode vir, tal como o Messias
de Kafka, um dia depois de sua chegada.
Enquanto vive, o amor paira à beira do malogro. Dissolve seu passado à medida que prossegue.
Não deixa trincheiras onde possa buscar abrigo em caso de emergência. E não sabe o que está pela frente
e o que o futuro pode trazer. Nunca terá confiança suficiente para dispersar as nuvens e abafar a
ansiedade. O amor é uma hipoteca baseada num futuro incerto e inescrutável.
O amor pode ser, e freqüentemente é, tão atemorizante quanto a morte. Só que ele encobre essa
verdade com a comoção do desejo e do excitamento. Faz sentido pensar na diferença entre amor e morte
como na que existe entre atração e repulsa. Pensando bem, contudo, não se pode ter tanta certeza disso.
As promessas do amor são, via de regra, menos ambíguas do que suas dádivas. Assim, a tentação de
apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar. E o fascínio da procura de uma
rosa sem espinhos nunca está muito longe, e é sempre difícil de resistir.

Desejo e amor. Irmãos. Por vezes gêmeos; nunca, porém, gêmeos idênticos (univitelinos).
Desejo é vontade de consumir. Absorver, devorar, ingerir e digerir -- aniquilar. O desejo não
precisa ser instigado por nada mais do que a presença da alteridade. Essa presença é desde sempre uma
afronta e uma humilhação. O desejo é o ímpeto de vingar a afronta e evitar a humilhação. É uma
compulsão a preencher a lacuna que separa da alteridade, na medida em que esta acena e repele, em que
seduz com a promessa do inexplorado e irrita por sua obstinada e evasiva diferença. O desejo é um
impulso que incita a despir a alteridade dessa diferença; portanto, a desempoderá-la [disempower].
Provar, explorar, tornar familiar e domesticar. Disso a alteridade emergiria com o ferrão da tentação
arrancado e partido -- quer dizer, se sobrevivesse ao tratamento. Mas são grandes as chances de que,
nesse processo, suas sobras indigestas caiam do reino dos produtos de consumo para o dos refugos.
Os produtos de consumo atraem, os refugos repelem. Depois do desejo vem a remoção dos
refugos. É, ao que parece, como forçar o que é estranho a abandonar a alteridade e desfazer-se da
2
Emmanuel Levinas, Le temps et i'autre. Paris, Presses Universitaires de France, 1991, p 81, 78.
13
carapaça dissecada que se congela na alegria da satisfação, pronta a dissolver-se tão logo se conclua a
tarefa. Em sua essência, o desejo é um impulso de destruição. E, embora de forma oblíqua, de
autodestruição: o desejo é contaminado, desde o seu nascimento, pela vontade de morrer. Esse é, porém,
seu segredo mais bem guardado -- sobretudo de si mesmo.
O amor, por outro lado, é a vontade de cuidar, e de preservar o objeto cuidado. Um impulso
centrífugo, ao contrário do centrípeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir além, alcançar o que "está lá
fora". Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e não vice-versa, como no caso do desejo. Amar é
contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama. No amor, o eu é, pedaço
por pedaço, transplantado para o mundo. O eu que ama se expande doando-se ao objeto amado. Amar diz
respeito a auto-sobrevivência através da alteridade. E assim o amor significa um estímulo a proteger,
alimentar, abrigar; e também à carícia, ao afago e ao mimo, ou a -- ciumentamente -- guardar, cercar,
encarcerar. Amar significa estar a serviço, colocar-se à disposição, aguardar a ordem. Mas também pode
significar expropriar e assumir a responsabilidade. Domínio mediante renúncia, sacrifício resultando em
exaltação. O amor é irmão xifópago da sede de poder --nenhum dos dois sobreviveria à separação.
Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a
aniquilação de seu objeto, o amor cresce com a aquisição deste e se realiza na sua durabilidade. Se o
desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua.
Tal como o desejo, o amor é uma ameaça ao seu objeto. O desejo destrói seu objeto, destruindo a
si mesmo nesse processo; a rede protetora carinhosamente tecida pelo amor em torno de seu objeto
escraviza esse objeto. O amor aprisiona e coloca o detido sob custódia. Ele prende para proteger o
prisioneiro.
Desejo e amor encontram-se em campos opostos. O amor é uma rede lançada sobre a eternidade, o
desejo é um estratagema para livrar-se da faina de tecer redes. Fiéis a sua natureza, o amor se empenharia
em perpetuar o desejo, enquanto este se esquivaria aos grilhões do amor.

"Seus olhos se cruzam na sala lotada; o brilho da atração está lá. Você conversa, dança, ri,
compartilha um drinque ou uma piada, e quando se dá conta um dos dois pergunta: 'Na sua casa
ou na minha?' Nenhum dos dois está a fim de nada sério, mas de algum modo uma noite pode virar
uma semana, depois um mês, um ano ou mais" -- observa Catherine Jarvie (no Guardian
Weekend)3.
Esse resultado inesperado do lampejo do desejo e da noite de sexo destinada a aplacá-lo é, na
expressão de Jarvie, "um meio-termo emocional entre a liberdade do encontro e a seriedade de um
relacionamento significativo" (embora a "seriedade" como lembra ela a seus leitores, não impeça que um
"relacionamento significativo" termine em "dificuldades e amarguras" quando um dos parceiros "mantém
o compromisso de levar a relação adiante enquanto o outro está ávido por caçar em outras pastagens"). As
soluções de meio-termo -- como todos os outros arranjos "até segunda ordem" num ambiente fluido no
qual amarrar o futuro é algo tão irrealizável quanto apreciado -- não são necessariamente ruins (na
opinião tanto de Jarvie quanto da dra. Valerie Lamont, psicóloga e especialista por ela citada). Mas
quando "você se comprometer, mesmo que sem entusiasmo", "lembre-se de que pode estar fechando as
portas a outras possibilidades românticas" (ou seja, renunciando ao direito de "caçar em novas pastagens",
ao menos até que o parceiro reivindique esse direito antes de você).
Uma observação brilhante, uma avaliação sóbria: você está numa situação de escolha obrigatória.
Desejo e amor são e/ou.
Mais observações brilhantes: seus olhos se cruzam na sala, e quando você se dá conta... O desejo
de brincar juntos na cama se insinua do nada, e não precisa bater muito à porta para que o deixem entrar.
Talvez de modo inusual num mundo obcecado pela segurança, esse tipo de porta tem poucas fechaduras,
se é que chega a tê-las. Nada de circuito fechado de televisão para examinar detidamente os intrusos e
distinguir os gatunos dos visitantes de boa-fé. Verificar a compatibilidade dos signos (como nos
comerciais televisivos de uma marca de telefones celulares) pode resolver o problema.
Dizer "desejo" talvez seja demais. É como num shopping: os consumidores hoje não compram
para satisfazer um desejo, como observou Harvie Ferguson -- compram por impulso. Semear, cultivar e
alimentar o desejo leva tempo (um tempo insuportavelmente prolongado para os padrões de uma cultura

3
Guardian Weekend, 12 jan 2002.
14
que tem pavor em postergar, preferindo a "satisfação instantânea"). O desejo precisa de tempo para
germinar, crescer e amadurecer. Numa época em que o "longo prazo" é cada vez mais curto, ainda assim
a velocidade de maturação do desejo resiste de modo obstinado à aceleração. O tempo necessário para o
investimento no cultivo do desejo dar lucros parece cada vez mais longo -- irritante e insustentavelmente
longo.
Os administradores de shopping centers não têm sido agraciados com esse tempo por seus
acionistas, mas tampouco desejam que as decisões de compra sejam tomadas por motivos nascidos e
amadurecidos ao acaso, nem deixar seu cultivo nas mãos leigas dos consumidores. Todos os motivos
necessários para fazê-los comprar devem nascer instantaneamente, enquanto passeiam pelo shopping.
Também podem ter morte instantânea (por suicídio assistido, na maioria dos casos), uma vez concluída a
tarefa. Sua expectativa de vida não precisa ser maior do que o tempo gasto pelos consumidores vagando
entre a entrada e a saída do shopping.
Nos dias de hoje, os shopping centers tendem a ser planejados tendo-se em mente o súbito
despertar e a rápida extinção dos impulsos, e não a incômoda e prolongada criação e maturação dos
desejos. O único desejo que pode (e deve) ser implantado por meio da visita a um shopping é o de repetir,
vezes e vezes seguidas, o momento estimulante de "abandonar-se aos impulsos" e permitir que estes
comandem o espetáculo sem que haja um cenário predefinido. A curta expectativa de vida é o trunfo dos
impulsos, dando-lhes uma vantagem sobre os desejos. Render-se aos impulsos, ao contrário de seguir um
desejo, é algo que se sabe ser transitório, mantendo-se a esperança de que não deixará conseqüências
duradouras capazes de impedir novos momentos de êxtase prazeroso. No caso das parcerias, e
particularmente das parcerias sexuais, seguir os impulsos em vez dos desejos significa deixar as portas es-
cancaradas "a novas possibilidades românticas" que, como sugere a ora. Lamont e pondera Catherine
Jarvie, podem ser "mais satisfatórias e completas".

Com a ação por impulso profundamente incutida na conduta cotidiana pelos poderes supremos do
mercado de consumo, seguir um desejo é como caminhar constrangido, de modo desastrado e
desconfortável, na direção do compromisso amoroso.
Em sua versão ortodoxa, o desejo precisa ser cultivado e preparado, o que envolve cuidados
demorados, a árdua barganha com conseqüências inevitáveis, algumas escolhas difíceis e concessões
dolorosas. Mas, pior que tudo, impõe que se retarde a satisfação, sem dúvida o sacrifício mais detestado
em nosso mundo de velocidade e aceleração. Em sua reencarnação radical, aguçada e sobretudo compacta
como impulso, o desejo perdeu a maior parte de tais atributos protelatórios, enquanto focalizava mais de
perto o seu alvo. Tal como nos comerciais que anunciavam o surgimento dos cartões de crédito, agora não
precisamos esperar para satisfazer nossos desejos.
Guiada pelo impulso ("seus olhos se cruzam na sala lotada"), a parceria segue o padrão do
shopping e não exige mais que as habilidades de um consumidor médio, moderadamente experiente. Tal
como outros bens de consumo, ela deve ser consumida instantaneamente (não requer maiores
treinamentos nem uma preparação prolongada) e usada uma só vez, "sem preconceito" É, antes de mais
nada, eminentemente descartável.
Consideradas defeituosas ou não "plenamente satisfatórias", as mercadorias podem ser trocadas
por outras, as quais se espera que agradem mais, mesmo que não haja um serviço de atendimento ao
cliente e que a transação não inclua a garantia de devolução do dinheiro. Mas, ainda que cumpram o que
delas se espera, não se imagina que permaneçam em uso por muito tempo. Afinal, automóveis,
computadores ou telefones celulares perfeitamente usáveis, em bom estado e em condições de
funcionamento satisfatórias são considerados, sem remorso, como um monte de lixo no instante em que
"novas e aperfeiçoadas versões" aparecem nas lojas e se tornam o assunto do momento. Alguma razão
para que as parcerias sejam consideradas uma exceção à regra?

As promessas de compromisso, escreve Adrienne Burgess, "são irrelevantes a longo prazo"4.
E ela prossegue explicando: "O compromisso é uma conseqüência aleatória de outras coisas:
nosso grau de satisfação com o relacionamento; se nós vemos uma alternativa viável para ele; e se levá-lo
adiante nos causaria uma perda importante em matéria de investimentos (tempo, dinheiro, propriedades
4
Adrienne Burgess, Will You StilI Love me Tomorrow (Londres, Vermilion,
2001), citado no Guardian Weckend, 26 jan 2002.
15
em comum, filhos)." Mas, segundo Caryl Rusbult, "especialista em relacionamentos" da Universidade
da Carolina do Norte, "esses fatores têm altas e baixas, da mesma forma que os sentimentos de
compromisso'.
Um dilema, de fato: você reluta em cortar seus gastos, mas abomina a perspectiva de perder ainda
mais dinheiro na tentativa de recuperá-los. Um relacionamento, como lhe dirá o especialista, é um
investimento como todos os outros: você entrou com tempo, dinheiro, esforços que poderia empregar para
outros fins, mas não empregou, esperando estar fazendo a coisa certa e esperando também que aquilo que
perdeu ou deixou de desfrutar acabaria, de alguma forma, sendo-lhe devolvido -- com lucro. Você
compra ações e as mantém enquanto seu valor promete crescer, e as vende prontamente quando os lucros
começam a cair ou outras ações acenam com um rendimento maior (o truque é não deixar passar o
momento em que isso ocorre). Se você investe numa relação, o lucro esperado é, em primeiro lugar e
acima de tudo, a segurança -- em muitos sentidos: a proximidade da mão amiga quando você mais
precisa dela, o socorro na aflição, a companhia na solidão, o apoio para sair de uma dificuldade, o consolo
na derrota e o aplauso na vitória; e também a gratificação que nos toma imediatamente quando nos
livramos de uma necessidade. Mas esteja alerta: quando se entra num relacionamento, as promessas de
compromisso são "irrelevantes a longo prazo".
É claro. Relacionamentos são investimentos como quaisquer outros, mas será que alguma vez lhe
ocorreria fazer juras de lealdade às ações que acabou de adquirir? Jurar ser fiel para sempre, nos bons e
maus momentos, na riqueza e na pobreza, "até que a morte nos separe"? Nunca olhar para os lados, onde
(quem sabe?) prêmios maiores podem estar acenando?
A primeira coisa que os bons acionistas (prestem atenção: os acionistas só detêm as ações, e é
possível desfazer-se daquilo que se detém) fazem de manhã é abrir os jornais nas páginas sobre mercado
de capitais para saber se é hora de manter suas ações ou desfazer-se delas. É assim também com outro
tipo de ações, os relacionamentos. Só que nesse caso não existe um mercado em operação e ninguém fará
por você o trabalho de ponderar as probabilidades e avaliar as chances (a menos que você contrate um
especialista, da mesma forma que contrata um consultor financeiro ou um contador habilitado, embora no
caso dos relacionamentos haja uma infinidade de programas de entrevistas e "dramas da vida real"
tentando ocupar esse espaço). E assim você tem que seguir, dia após dia, por conta própria. Se cometer
um erro, não terá direito ao conforto de pôr a culpa numa informação equivocada. Precisa estar em alerta
constante. Se cochilar ou reduzir a vigilância, problema seu. "Estar num relacionamento" significa muita
dor de cabeça, mas sobretudo uma incerteza permanente. Você nunca poderá estar plena e
verdadeiramente seguro daquilo que faz -- ou de ter feito a coisa certa ou no momento preciso.
Parece que esse dilema não tem uma boa solução. Pior ainda, que ele está impregnado de um
paradoxo do tipo mais desagradável: não apenas a relação falha em termos da necessidade que deve-ria (e
esperávamos que pudesse) cumprir, mas torna essa necessidade ainda mais afrontosa e exasperante. Você
busca o relacionamento na expectativa de mitigar a insegurança que infestou sua solidão; mas o
tratamento só fez expandir os sintomas, e agora você talvez se sinta mais inseguro do que antes, ainda que
essa "nova e agravada" insegurança provenha de outras paragens. Se você pensava que os juros de seu
investimento em companhia seriam pagos na moeda forte da segurança, parece que sua iniciativa se
baseou em falsos pressupostos.
Isso significa problemas e nada mais que problemas -- mas não todo o problema. Comprometer-
se com um relacionamento, "irrelevante a longo prazo" (fato de que ambos os lados estão cientes!) é uma
faca de dois gumes. Faz com que manter ou confiscar o investimento seja uma questão de cálculo e
decisão. Mas não há motivo para supor que seu parceiro ou parceira não deseje, se for o caso, exercitar
uma escolha semelhante, e que não esteja livre para fazê-lo se e quando desejar. Essa consciência
aumenta ainda mais sua incerteza -- e a parte acrescentada é a mais difícil de suportar. Ao contrário de
uma escolha pessoal do tipo "pegar ou largar", não está em seu poder evitar que o parceiro ou parceira
prefira sair do negócio. Há muito pouco que você possa fazer para mudar essa decisão a seu favor. Para o
parceiro, você é a ação a ser vendida ou o prejuízo a ser eliminado -- e ninguém consulta as ações antes
de devolvê-las ao mercado, nem os prejuízos antes de cortá-los.
Por todos os motivos, a visão do relacionamento como uma transação comercial não é a cura para
a insônia. Investir no relacionamento é inseguro e tende a continuar sendo, mesmo que você deseje o
contrário: é uma dor de cabeça, não um remédio. Na medida em que os relacionamentos são vistos como
investimentos, como garantias de segurança e solução de seus problemas, eles parecem um jogo de cara-
16
ou-coroa. A solidão produz insegurança -- mas o relacionamento não parece fazer outra coisa. Numa
relação, você pode sentir-se tão inseguro quanto sem ela, ou até pior. Só mudam os nomes que você dá à
ansiedade.

Se não há uma boa solução para um dilema, se nenhuma medida aparentemente sensata e efetiva
consegue fazer com que a saída pareça ao menos um pouco mais próxima, as pessoas tendem a se
comportar de modo irracional, aumentando o problema e tornando ainda menos plausível resolvê-
lo.
Christopher Clulow, do Instituto Tavistock de Estudos Matrimoniais, outro especialista citado por
Adrienne Burges, conclui: "Quando se sentem inseguros, os amantes tendem a se portar de modo não-
construtivo, seja tentando agradar ou controlar, talvez até agredindo fisicamente -- o que provavelmente
afastará o outro ainda mais." Quando a insegurança sobe a bordo, perde-se a confiança, a ponderação e a
estabilidade da navegação. À deriva, a frágil balsa do relacionamento oscila entre as duas rochas nas
quais muitas parcerias esbarram: a submissão e o poder absolutos, a aceitação humilde e a conquista
arrogante, destruindo a própria autonomia e sufocando a do parceiro. Chocar-se contra uma dessas rochas
afundaria até mesmo uma boa embarcação com tripulação qualificada -- o que dizer de uma balsa com
um marinheiro inexperiente que, criado na era dos acessórios, nunca teve a oportunidade de aprender a
arte dos reparos? Nenhum marinheiro atualizado perderia tempo consertando uma peça sem condições
para a navegação, preferindo trocá-la por outra sobressalente. Mas na balsa do relacionamento não há
peças sobressalentes.

O fracasso no relacionamento é muito freqüentemente um fracasso na comunicação.
Como observou Knud Løgstrup -- inicialmente o insinuante evangelista da paróquia de Funen,
mais tarde o estridente filósofo da ética da Universidade de Aarhus --, há duas "perversões divergentes" à
espreita do comunicador imprevidente ou descuidado 5. Uma delas é "o tipo de associação que, devido à
preguiça, ao medo ou a uma propensão à acomodação no relacionamento, consiste simplesmente em
tentar agradar um ao outro enquanto se continua fugindo do problema. Com a possível exceção de uma
causa comum contra uma terceira pessoa, não há nada que promova mais uma relação confortável do que
a louvação mútua". Outra perversão consiste em "nosso desejo de mudar os outros. Temos opiniões
definidas sobre como fazer as coisas e sobre como os outros deveriam ser. Essas opiniões carecem de
critério, pois, quanto mais definitivas, mais necessário se torna que evitemos ser confundidos por uma
compreensão excessiva daqueles que devem ser mudados".
O problema é que essas perversões são, muito freqüentemente, filhas do amor. A primeira delas
pode resultar do desejo de paz e conforto, como está implícito na afirmação de Løgstrup. Mas também
pode ser, e com freqüência é, o produto do respeito amoroso pelo outro: eu amo você, e assim permito
que você seja como é e insiste em ser, apesar das dúvidas que eu possa ter quanto à sensatez de sua
escolha. Não importa o mal que sua obstinação possa me causar: não ousarei contradizer você, muito
menos pressionar para que você escolha entre a sua liberdade e o meu amor. Você pode contar com a
minha aprovação, aconteça o que acontecer... E já que o amor não pode deixar de ser possessivo, minha
generosidade amorosa é baseada na esperança: aquele cheque em branco é um presente do meu amor, um
presente precioso que não se encontra em outros lugares. Meu amor é o refúgio tranqüilo que você
procurava e de que precisava mesmo que não procurasse. Agora você pode sossegar e suspender a
busca...
Eis aí a possessividade amorosa -- mas uma possessividade que procura realizar-se por meio do
autocontrole.
A segunda perversão vem de se deixar a possessividade amorosa correr livre e raivosa. O amor é
uma das respostas paliativas a essa bênção/maldição da individualidade humana, que tem como um de
seus muitos atributos a solidão que tende a advir da (como insinua Erich Fromm 6, seres humanos de
todas as idades e culturas são confrontados com a solução de uma única e mesma questão: como superar a
separação, como alcançar a união, como transcender a vida individual e encontrar a "harmonia com o
todo"). Todo amor é matizado pelo impulso antropofágico. Todos os amantes desejam suavizar, extirpar e
5
Knud Løngstrup, Den Etiske Fordring. [Ed. ing.: The Ethical Demand. Notre Dame, University of Notre Dame Press, 1997,
p.24-5.]
6
Erich Fromm, The Art of Loving, op.cit.
17
expurgar a exasperadora e irritante alteridade que os separa daqueles a que amam. Separar-se do ser
amado é o maior medo do amante, e muitos fariam qualquer coisa para se livrarem de uma vez por todas
do espectro da despedida. Que melhor maneira de atingir esse objetivo do que transformar o amado numa
parte inseparável do amante? Aonde eu for você também vai; o que eu faço você também faz; o que eu
aceito você também aceita; o que me ofende também ofende a você. Se você não é nem pode ser meu
gêmeo siamês, seja o meu clone!
A segunda perversão tem também outra raiz, fincada na adoração que o amante tem pelo ente
amado. Em sua introdução a uma coletânea de textos intitulada Philosophies of love 7, David L. Norton e
Mary E. Kille contam a história de um homem que convidou alguns amigos para um jantar em que estes
conheceriam "a perfeita encarnação da Beleza, Virtude, Sabedoria e Graça -- em suma, a mais adorável
mulher do mundo": Mais tarde no mesmo dia, à mesa do restaurante, os convidados "se esforçaram para
esconder seu assombro": seria aquela "a criatura que superava Vênus, Helena e Lady Hamilton em
beleza"? Por vezes é difícil separar a adoração do ser amado da auto-adoração. Pode-se observar um traço
de um ego expansivo e no entanto inseguro, desesperado por confirmar seus méritos incertos por meio de
seu reflexo no espelho, ou, melhor ainda, num retrato lisonjeiro, cuidadosamente retocado. Não é verdade
que uma parte de meu singular valor foi repassada para a pessoa que eu (lembrem-se: eu, a minha pessoa,
exercendo a minha vontade e o meu arbítrio soberanos) escolhi -- que recolhi na multidão de anônimos e
comuns para ser minha, somente minha, companheira? No brilho ofuscante da pessoa escolhida, minha
própria incandescência encontra seu reflexo resplandecente. Ele aumenta, confirma e endossa a minha
glória, levando consigo, aonde quer que vá, notícias e provas dela.
Mas será que posso estar seguro? Eu estaria, caso não houvesse dúvidas agitando-se naquela
escura masmorra do inesperado onde as tranquei na vã esperança de nunca mais ouvir falar nelas.
Aflições, apreensões, receios de que a virtude possa ser imperfeita, a glória fantasiosa... de que a distância
entre eu tal como sou e o verdadeiro eu que anseia por vir à tona, mas ainda não conseguiu, precisa ser
negociada -- e isso é uma exigência exorbitante.
Meu ser amado poderia ser um quadro no qual minha perfeição fosse retratada em toda a sua
magnificência e esplendor -- mas será que as nódoas e manchas também não apareceriam? Para limpá-las
-- ou escondê-las, caso sejam pegajosas demais para serem apagadas --, é necessário lavar e preparar a
tela antes de se iniciar o trabalho de pintura. E depois observar cuidadosamente para garantir que traços
das antigas imperfeições não venham a surgir de seu esconderijo debaixo de sucessivas camadas de tinta.
Cada momento de sossego é prematuro -- restaurar e pintar de novo, sem folgas...
Esse esforço incessante é também um trabalho de amor. O amor explode de energia criativa, que
inúmeras vezes é liberada numa explosão ou fluxo contínuo de destruição.
Nesse processo, o ser amado transformou-se numa tela -- em branco, de preferência. Suas cores
naturais empalideceram, de modo a não se chocar com a figura do pintor, nem desfigurá-la. O pintor não
precisa indagar da tela como esta se sente, lá embaixo, sob toda aquela tinta. As telas de lona ou de linho
não apresentam relatórios voluntariamente -- embora as telas humanas por vezes o façam.

Pode ser amor num lampejo, amor à primeira vista; mas o tempo, longo ou curto, deve transcorrer
entre a pergunta e a resposta, a proposta e sua aceitação.
O tempo transcorrido nunca é tão curto a ponto de permitir que aquele que perguntou e aquele que
respondeu permaneçam, no momento em que chega a resposta, os mesmos seres que eram quando o
relógio foi posto para funcionar. Como diz Franz Rosenzweig, "a resposta é dada por uma pessoa
inevitavelmente diferente daquela a quem foi feita a pergunta, e ela é dada a alguém que mudou desde
que perguntou. É impossível saber a profundidade dessa mudança" 8. Fazer a pergunta, esperar a resposta,
ser indagado, esforçar-se para responder -- isso é que fez a diferença.
Ambos os parceiros sabiam que a mudança estava ocorrendo e lhe deram boas-vindas.
Mergulharam de cabeça em águas inexploradas. A oportunidade de se abrirem à aventura do
desconhecido e do imprevisível era a maior das seduções do amor. "O primeiro alívio da tensão no jogo
encantado do amor geralmente vem quando os amantes se chamam um ao outro pelo primeiro nome. Esse
ato se coloca como a solitária garantia de que os passados dos dois indivíduos serão incorporados aos
7
David L. Norton e Mary E. KiIle (orgs.), Philosophies of Love. Nova York, Helix Books, 1971.
8
Franz Rosenzweig, Das Büchlein vom gesunden und kranken Menschenverstand. {Ed. ing.: Understanding the sick and the
healthy. Org. N.N. Glatzer, Harvard, Harvard University Press, 1999.]
18
seus presentes." E -- permitam-me acrescentar -- a presteza em incorporar futuros compartilhados aos
presentes individuais parcialmente compartilhados, parcialmente separados. O futuro que se segue a essa
incorporação diferirá, forçosamente, do presente, tal como este difere do passado. João será João e Maria,
Maria será Maria e João.
Odo Marquard falou, não necessariamente com ironia, do parentesco etimológico entre zwei e
Zweifel ("dois" e "dúvida") e insinuou que o elo entre essas palavras vai além da simples aliteração. Onde
há dois não há certeza. E quando o outro é reconhecido como um "segundo" plenamente independente,
soberano -- e não uma simples extensão, eco, ferramenta ou empregado trabalhando para mim, o
primeiro -- a incerteza é reconhecida e aceita. Ser duplo significa consentir em indeterminar o futuro.
Franz Kafka observou que somos duplamente distintos de Deus. Tendo comido da árvore do bem
e do mal, nós nos distinguimos Dele, enquanto o fato de não termos comido da árvore da vida O distingue
de nós. Ele (a eternidade, na qual se abraçam todos os seres e seus feitos, em que tudo que pode ser é, e
tudo que pode acontecer acontece) está próximo de nós. Fadado a permanecer secreto -- eternamente
além de nossa compreensão. Mas sabemos disso, o que não nos permite ter sossego. Desde a fracassada
tentativa de erigir a Torre de Babel, não podemos deixar de tentar e errar e fracassar e tentar novamente.
Tentar o quê? Rejeitar essa distinção, rejeitara negação do direito aos frutos da árvore da vida.
Prosseguir tentando e fracassar nas tentativas é humano, demasiadamente humano. Se a alteridade é,
segundo Levinas, o derradeiro mistério, o absolutamente desconhecido e o totalmente impenetrável, isso
não pode ser uma ofensa e um desafio -- precisamente por ser divino: barrando o acesso, negando o
ingresso, inatingível e eternamente além do nosso alcance. Mas (como Rozenberg insiste em nos lembrar)
"o ilimitado não pode ser alcançado por meio da organização... As coisas mais elevadas não podem ser
planejadas. Imediatez é tudo para elas".
Imediatez para quê? "O discurso é amarrado ao tempo e por ele nutrido... Não sabe de antemão
onde vai terminar. Segue o exemplo de outros. De fato, vive em virtude da vida de outro... Na conversa
real, alguma coisa acontece." Rosenzwelg explica quem é esse "outro", por cuja vida vive o discurso de
modo a que alguma coisa possa acontecer na conversa: esse outro "é sempre um alguém bem definido"
que não tem "apenas ouvidos, como 'todo o mundo, mas também uma boca".
É exatamente isso que faz o amor: destaca um outro de "todo mundo" e por meio desse ato
remodela "um" outro transformando-o num "alguém bem definido, dotado de uma boca que se pode ouvir
e com quem é possível conversar de modo a que alguma coisa seja capaz de acontecer.
E o que seria essa "alguma coisa"? Amar significa manter a resposta pendente ou evitar fazer a
pergunta. Transformar um outro num alguém definido significa tornar indefinido o futuro. Significa
concordar com a indefinibilidade do futuro. Concordar com uma vida vivida, da concepção ao
desaparecimento, no único local reservado aos seres humanos: aquela vaga extensão entre a finitude de
seus feitos e a infinidade de seus objetivos e conseqüências.

"As relações de bolso" explica Catherine Jarvie, comentando as opiniões de Gillian Walton, do
Guia Matrimonial de Londres 9, são assim chamadas porque você as guarda no bolso de modo a
poder lançar mão delas quando for preciso.
Uma relação de bolso bem sucedida, diz Jarvie, é doce e de curta duração. Podemos supor que seja
doce porque tem curta duração, e que sua doçura se abrigue precisamente naquela reconfortante
consciência de que você não precisa sair do seu caminho nem se desdobrar para mantê-la intacta por um
tempo maior. De fato, você não precisa fazer nada para aproveitá-la. Uma "relação de bolso" é a
encarnação da instantaneidade e da disponibilidade.
Não que o seu relacionamento vá adquirir essas assombrosas qualidades sem que algumas
condições tenham sido previamente atendidas. Observe que é você quem deve atendê-las -- outro ponto
favorável a um relacionamento "de bolso", sem dúvida, já que é você e só você que está no controle, e
nele permanece por toda a curta vida dessa relação.
Primeira condição: deve-se entrar no relacionamento plenamente consciente e totalmente sóbrio.
Lembre-se: nada de "amor à primeira vista" aqui. Nada de apaixonar-se... Nada daquela súbita torrente de
emoções que nos deixa sem fôlego e com o coração aos pulos. Nem as emoções que chamamos de "amor"
nem aquelas que sobriamente descrevemos como "desejo". Não se deixe dominar nem arrebatar, e acima
de tudo não deixe que lhe arranquem das mãos a calculadora. E não se permita tomar o motivo da relação
9
Guardian Weekend, 9 mar 2002.
19
em que você está para entrar por aquilo que ele não é nem deve ser. A conveniência é a única coisa que
conta, e isso é algo para uma cabeça fria, não para um coração quente (muito menos superaquecido).
Quanto menor a hipoteca, menos inseguro você vai se sentir quando for exposto às flutuações do mercado
imobiliário futuro; quanto menos investir n o relacionamento, menos inseguro vai se sentir quando for
exposto às flutuações de suas emoções futuras.
Segunda condição: mantenha-o do jeito que é. Lembre-se de que não é preciso muito tempo para
que a conveniência se converta no seu oposto. Assim, não deixe o relacionamento escapar à supervisão do
chefe, não lhe permita desenvolver sua lógica própria e, especialmente, adquirir direitos de propriedade
-- não deixe que caia do bolso, que é seu lugar. Fique alerta. Não durma no ponto. Observe atentamente
até mesmo as menores mudanças naquilo que Jarvie chama de "subcorrentes emocionais" (obviamente, as
emoções tendem a se transformar em "subcorrentes" quando deixadas livres das amarras do cálculo). Se
notar alguma coisa que você não negociou e para a qual não liga, saiba que "é hora de seguir adiante". É o
tráfego que sustenta todo o prazer.
Mantenha o bolso livre e preparado. Logo vai precisar pôr alguma coisa nele e -- cruze os dedos
-- você vai conseguir...

A seção "Espírito dos relacionamentos" do Guardian Weekend vale ser lida toda semana, mas é
melhor ainda ler várias edições de uma vez.
A cada semana ela oferece conselhos sobre como proceder diante de um "problema" que, cedo ou
tarde, a maioria dos homens e mulheres (principalmente leitores do Guardian) deve --mais propriamente
espera -- enfrentar. A cada semana um problema; mas depois de uma seqüência de semanas o leitor
dedicado e atento pode obter bem mais do que algumas habilidades específicas em matéria de política de
vida, que podem ser úteis em situações específicas que surgem quando se lida com problemas específicos;
habilidades que, uma vez adquiridas e combinadas, podem ajudar a criar os tipos de situações para cujo
manejo foram concebidas, assim como a identificar e localizar os problemas para cujo enfrentamento
foram planejadas. Um leitor regular e dedicado que seja abençoado com uma capacidade de memorização
por um tempo maior do que uma semana pode desenhar e preencher um mapa de vida completo no qual
os "problemas" tendam a aflorar, registrar um inventário total desses problemas e formar uma opinião
sobre sua relativa freqüência ou raridade. Num mundo em que a seriedade de algo é representada apenas
por números, e portanto só pode ser apreendida dessa maneira (a qualidade de um sucesso musical pelo
número de discos vendidos, de um evento ou performance públicos pelo número de espectadores de
televisão, de uma figura pública pelo número de pessoas presentes ao seu enterro, de intelectuais na
opinião do público pelo número de citações e referências), a elevada freqüência com que alguns
"problemas" retornam à coluna, semana após semana após semana, é a prova de sua relevância para uma
vida de sucesso, e assim da importância das habilidades concebidas para enfrentá-los.
Desse modo, vendo-se os relacionamentos pelo prisma da coluna "Espírito dos relacionamentos",
o que um leitor fiel pode aprender sobre a importância relativa das coisas e das técnicas para lidar com
elas?
O leitor pode ter uma série de dicas úteis sobre os lugares onde podem ser encontrados, em
quantidades maiores que o usual, parceiros para possíveis relacionamentos, assim como sobre as situações
em que é mais provável que estes possam ser convencidos ou persuadidos a assumir esse papel. E ele ou
ela deve saber que iniciar um relacionamento é um "problema" -- ou seja, apresenta uma dificuldade que
produz confusão e ocasiona tensões desagradáveis que, para serem enfrentadas e afastadas, tornam
necessária certa dose de conhecimento e know-how. Isso pode ser aprendido --sem muito esforço, apenas
seguindo-se regularmente, semana após semana, a versão de espírito do relacionamento do Guardian
Weekend.
Essa não será, contudo, a principal versão passível de se capilarizar e enraizar na visão de vida e
de política de vida do leitor regular. A arte de romper o relacionamento e dele emergir incólume -- com
poucas (se é que alguma) feridas infeccionadas que exijam muito tempo para cicatrizar e muito cuidado
para se evitar os "danos colaterais" (tais como o afastamento de amigos, ou o surgimento de círculos nos
quais não se é bem-vindo ou em que se preferiria não entrar) -- bate de longe a arte de constituir
relacionamentos, pela pura freqüência com que se expressa.
Se Richard Baxter, o inflamado profeta puritano, fosse em vez disso o profeta da estratégia
existencial adequada para a líquida vida moderna, ele provavelmente diria de tais relacionamentos o que
20
disse sobre a aquisição de bens externos e o cuidado com eles -- que "devem apenas cair sobre os
ombros como um manto leve que pode ser posto de lado a qualquer momento", e que se deve ter o maior
cuidado para que não se transformem, inadvertida e sub-repticiamente, em "caixas de aço".. Não se levam
riquezas para o túmulo, advertia o santo-profeta Baxter seu rebanho, reforçando o senso comum daqueles
que viviam suas vidas como servos do além-túmulo. Não se levam relações para o próximo capítulo,
advertiria o especialista seus clientes, fazendo coro às premonições transformadas em certezas de pessoas,
ensinadas pela experiência, que tiveram as vidas fatiadas em episódios e que vivem como servas dos
episódios futuros. É provável que seu relacionamento se rompa bem antes do fim do capítulo. Mas se isso
não acontecer dificilmente haverá outro. Com certeza, não um capítulo a ser saboreado e desfrutado.

O surpreendente sucesso de EastEnders* transmite uma mensagem aparentemente diferente...
O encantado/viciado público cresce, da mesma forma que a autoconfiança dos roteiristas,
produtores e atores. Essa telenovela parece ter atingido um público-alvo que outras desprezaram ou
perderam, e continuam perdendo. Qual o segredo?
A maioria dos relacionamentos em que os personagens de EastEnders se envolvem parece tão
frágil quanto qualquer outro que os espectadores conhecem a partir de suas próprias frustrações ou dos
relatos de advertência de outras pessoas (incluindo as mensagens que aparecem semanalmente na coluna
"Espírito dos relacionamentos"). Dificilmente algum dos vínculos estabelecidos pelos personagens de
EastEnders consegue sobreviver ao fluxo regular dos episódios por mais que alguns meses -- por vezes
duram apenas umas poucas semanas -- e, entre os relacionamentos fracassados, são poucos e bem
espaçados os que terminam por "causas naturais" Para os espectadores dotados de melhor memória,
Albert Square, ou simplesmente a Praça, deve ser vista como o túmulo dos relacionamentos humanos...
Envolver-se em relacionamentos como os de EastEnders não é absolutamente fácil. Exige esforço
e habilidades consideráveis, que muitos personagens infelizes não possuem e que são características
inatas de apenas uns poucos (embora algumas vezes também se faça necessária certa dose de sorte,
distribuída esparsamente e ao acaso). Os problemas não terminam quando os casais passam a viver juntos.
Os quartos compartilhados podem ser um local de alegria e diversão, mas raramente de segurança e
sossego. Alguns deles são palcos de dramas cruéis, cheios de escaramuças verbais que resultam em brigas
aos socos e (se o casal não se separa antes) amplas hostilidades com desfecho semelhante ao de um Cães
de aluguel. Belas cerimônias de casamento não ajudam; festas só para homens ou só para mulheres não
põem fim ao Desconhecido, repleto de riscos e propenso a acidentes, e os aniversários de núpcias não são
novos inícios que estimulem os casais a fazer "algo totalmente diferente", apenas pequenos intervalos
num drama sem cenários nem textos definidos.
A parceria é somente uma coalizão de "interesses confluentes" e, no mundo fluido de EastEnders,
as pessoas vêm e vão, as oportunidades batem à porta e desaparecem novamente logo após serem
convidados a entrar, as fortunas aumentam e diminuem, e as coligações tendem a ser flutuantes, frágeis e
flexíveis. As pessoas procuram parceiros e buscam "envolver-se em relacionamentos" a fim de escapar à
aflição da fragilidade, só para descobrir que ela se torna ainda mais aflitiva e dolorosa do que antes. O que
se propunha/ansiava/esperava ser um abrigo (talvez o abrigo) contra a fragilidade revela-se sempre como
a sua estufa...
Milhões de fãs e espectadores habituais de EastEnders assistem e balançam a cabeça em
concordância. Sim, sabemos disso tudo, já vimos isso tudo, já vivemos isso tudo. O que aprendemos com
a amarga experiência é que essa situação de ter sido abandonado à própria sorte, sem ter com quem contar
quando necessário, quem nos console e nos dê a mão, é terrível e assustadora, mas nunca se está mais só e
abandonado do que quando se luta para ter a certeza de que agora existe de fato alguém com quem se
pode contar, amanhã e depois, para fazer tudo isso se -- quando -- a roda da fortuna começar a girar em
outra direção. É impossível predizer os resultados de nossa luta -- e a luta em si cobra o seu preço.
Diariamente se exigem sacrifícios. É difícil que se passe um dia sem uma desavença ou troca de sopapos.
Esperar até que a deusa escondida (como você deseja ardentemente acreditar e tão apaixonadamente

*
Seriado da BBC exibido com enorme sucesso desde 1985. Ambientado em Walford, região fictícia do "east end" de Londres,
aborda o cotidiano de famílias operárias, vizinhas e por vezes aparentadas, que vivem em Albert Square. Os relacionamentos
familiares e amorosos ocupam papel central em EastEnders; a personagem Little Mo, mencionada mais adiante, caracteriza-se
por colocar os outros antes de si própria, e entre outros infortúnios enfrentou anos de violência doméstica por parte do marido e
meses de prisão por supostamente ter tentado assassiná-lo. (N.T.)
21
acredita) bem lá dentro do parceiro consiga romper a couraça maligna e enfim se revele pode levar
mais tempo do que você é capaz de agüentar. E enquanto você espera há muita dor para sentir, lágrimas
para verter e sangue para derramar...
Os episódios de EastEnders são repetições, três vezes por semana, daquilo que é o nosso
conhecimento do dia-a-dia. Reafirmações regulares e confiáveis para a pessoa insegura: sim, esta é sua
vida, e a verdade sobre a vida de outros como você. Não entre em pânico, vá levando, e não se esqueça
nem por um momento de que isso vai acontecer -- pode estar certo. Ninguém está dizendo que seja fácil
transformar as pessoas em parceiras do destino, mas não existe alternativa senão tentar, repetidamente.
Essa não é, porém, a única mensagem que EastEnders leva à sua casa três vezes por semana, e
graças à qual o programa se tornou e permanece tão obrigatório para tantas pessoas. Há também uma
outra. Caso você tenha esquecido, existe uma segunda linha de trincheiras naquele infinito campo de
batalha existencial, um último fosso defensivo pronto para ser usado contra os extravagantes caprichos da
sorte e as surpresas que aquele mundo de rosto impenetrável mantém guardadas na manga da camisa. As
trincheiras já foram cavadas para você antes que você mesmo começasse a cavar a sua; estão esperando
que você pule para dentro delas. Ninguém vai lhe fazer perguntas, questionar o que você fez para obter o
direito de pedir socorro e ajuda. Não importa o que tenha feito, ninguém lhe recusará a entrada.
Há os Butcher, os Mitchell, os Slater, os Clan, a cujo grupo você pertence sem jamais ter se
juntado a ele nem pedido para entrar. Você não precisa fazer absolutamente nada para se tornar "um
deles" -- embora não haja muito o que possa fazer para deixar de ser. Eles estarão prontos a fazê-lo
lembrar, caso você esqueça essas simples verdades.
E assim você se encontra diante de um dilema. A menos que seja um daqueles canalhas e párias
"naturais", excepcionalmente inescrupulosos, indisciplinados, aventureiros ou psicóticos, fadado a ter de
se esconder, ser atropelado, expulso pelos vizinhos ou trancafiado na prisão -- ou a usar outras saídas já
testadas para sumir de Albert Square --, você vai preferir lançar mão das duas âncoras que a vida lhe deu
para se atracar à companhia de outras pessoas. Vai querer juntar-se ao parceiro de sua escolha e ao clã
que o destino escolheu para você.
Isso, porém, pode não ser fácil -- tal como aproveitar ao mesmo tempo o calor da lareira e os
prazeres de nadar no mar. Os labirintos que os personagens de Albert Square são obrigados a atravessar
ampliam e retratam com nitidez os obstáculos que se acumulam em nosso caminho, o que é outra razão
para observar suas proezas três vezes por semana. Você vê aquilo que vinha sentindo o tempo todo: que
você é o único elo a unir o parceiro que você ama, e pelo qual deseja ser amado, ao clã familiar a que
você pertence e deseja pertencer, o qual, por sua vez, deseja que você pertença a ele e lhe obedeça. E
então você é, afinal, "o elo mais fraco" -- onde a corda arrebenta no cabo-de-guerra entre as duas causas.
A guerra de atrito, sempre quente e por vezes em ebulição, cujas primeiras vítimas são os que
sonham em reconciliar-se, chegou ao seu clímax dramático -- de fato, atingiu os píncaros da tragédia de
Antígona -- no julgamento de Little Mo, versão atualizada da imortal peça de Sófocles e da história
imortal por ela registrada...
Diz Antígona: "Oh, mas eu não teria feito a coisa proibida/ Por nenhum marido nem por nenhum
filho/ Para quê? Eu poderia ter tido outro marido/ e por meio dele outros filhos, se perdesse algum;/ mas,
perdidos o pai e a mãe, onde eu conseguiria/ outro irmão?" Perder um marido não é o fim do mundo.
Maridos, mesmo na antiga Grécia (embora nem tanto quanto para os contemporâneos de Little Mo), são
apenas temporários. Perdê-los é, sem dúvida, doloroso, mas tem cura. A perda dos pais, ao contrário, é
irrevogável. Será essa deferência suficiente para que a família suprima o débito para com o marido?
Talvez esse cálculo ponderado não bastasse, não fosse por uma outra razão: as exigências de um parceiro
escolhido, um companheiro temporário de viagem pela vida e em princípio substituível, têm menos peso
que as exigências provenientes das profundezas do passado insondável e inescrutável: "Aquela ordem não
veio de Deus. A justiça que reside com os deuses lá embaixo não conhece tal lei./ Eu não pensei que seus
mandados fossem suficientemente poderosos/ para sobrepujar as inalteráveis leis não-escritas/ de Deus e
do céu, sendo você apenas um homem. Elas não são de ontem nem de hoje, mas eternas,/ embora, de
onde vieram, nenhum de nós possa dizer."
Aqui, diria você, Little Mo e Antígona se separam. De fato, é difícil ouvir um morador de Albert
Square mencionar Deus (os poucos que o fazem logo desaparecem da novela, como que obviamente
deslocados). Naquela área, tal como em tantas outras praças e ruas de nossas cidades, Deus está há muito
tempo absconditus. Não usa celular, e assim ninguém pode afirmar com segurança que sabe exatamente
22
como soariam as Suas instruções, caso se pudesse ouvi-Ias. Os direitos da família podem ser mais
duradouros que o dever para com o parceiro escolhido, mas em Albert Square nem este nem aqueles
parecem portadores da sanção divina. A triste situação de Little Mo não vem do temor a Deus. Assim
sendo, de que maneira, se é que há alguma, o drama de Little Mo seria uma repetição da tragédia de
Antígona?
Na versão de Sófocles, o Mensageiro entra no palco para resumir o significado do relato, mas
também para antever, e responder, nossa pergunta. É uma questão que, diferentemente das palavras
usadas a fim de torná-la compreensível para os espectadores, não envelheceu -- e não envelhece: "O que
é a vida do homem? Algo que não e orientado/ para o bem ou para o mal, nem moldado para louvar ou
censurar. A oportunidade leva o homem às alturas, a oportunidade o arremessa para baixo/ e ninguém
pode prever o que será a partir daquilo que é."
Assim é o futuro, assustadoramente desconhecido e impenetrável (ou seja, como insistia Levinas,
o epítome, o modelo, a mais completa encarnação da "alteridade absoluta"), e não a dignidade de um
passado que, embora venerável, se oculta por trás do dilema com que se confrontou Little Mo, assim
como Antígona. "Ninguém pode prever o que será a partir daquilo que é" -- mas ninguém pode suportar
com leveza essa impossibilidade. No mar da incerteza, procura-se a salvação nas ilhotas da segurança.
Será que, aquilo que ostenta um passado mais longo tem maiores probabilidades de ingressar no futuro
intacto e incólume do que algo,admitidamente feito e desfeito pelo homem, ostensivamente "de ontem ou
de hoje"? Não se sabe, mas é tentador pensar que sim. De qualquer modo, há pouco a escolher nessa
interminável, eternamente infinda e frustrante busca pela certeza...
Tendo ouvido o veredicto adverso do júri, será que é ao Pai que Little Mo dirige o seu
arrependimento?

Na língua alemã, afinidade é o termo adjetivado, em oposição a parentesco.
"Afinidade" é parentesco qualificado -- parentesco, mas... (Wahlverwandschaft, expressão que se
costuma traduzir, errada e enganosamente, por "afinidade eletiva", um pleonasmo gritante, já que
nenhuma afinidade pode ser não-eletiva; somente o parentesco é, pura e simplesmente, quer se queira ou
não, uma coisa dada...) A escolha é o fator qualificante: ela transforma o parentesco em afinidade. Mas
também trai a ambição desta última: sua intenção é ser como o parentesco, tão incondicional, irrevogável
e indissolúvel quanto ele (no final, a afinidade vai acabar se entretecendo com a linhagem e se tornar
indistinguível do restante da rede de parentesco; a afinidade de uma geração se transforma no parentesco
da geração seguinte). Mas nem mesmo os casamentos, ao contrário da insistência sacerdotal, são feitos no
céu, e o que foi unido por seres humanos estes podem -- e têm permissão para --desunir, e o farão se
tiverem uma oportunidade.
Seria altamente desejável que o parentesco fosse precedido da escolha, mas que a conseqüência
desta fosse exatamente aquilo que o parentesco já é: indiscutivelmente sólido, confiável, duradouro,
indissolúvel. Essa é a ambivalência endêmica a toda Wahlverwandschaft -- sua marca de nascença (praga
e encantamento, bênção e maldição) indelével. O ato fundador da escolha é ao mesmo tempo o poder de
sedução da afinidade e a sua perdição. A memória da escolha, seu pecado original, tende a lançar uma
longa sombra e a obscurecer até mesmo o convívio mais glorioso, chamado "afinidade": a escolha,
diferentemente da sina do parentesco, é uma via de mão dupla. Sempre se pode dar meia-volta, e a
consciência de tal possibilidade torna ainda mais desanimadora a tarefa de manter a direção.
A afinidade nasce da escolha, e nunca se corta esse cordão umbilical. A menos que a escolha seja
reafirmada diariamente e novas ações continuem a ser empreendidas para confirmá-la, a afinidade vai
definhando, murchando e se deteriorando até se desintegrar. A intenção de manter a afinidade viva e
saudável prevê uma luta diária e não promete sossego à vigilância. Para nós, os habitantes deste líquido
mundo moderno que detesta tudo o que é sólido e durável, tudo que não se ajusta ao uso instantâneo nem
permite que se ponha fim ao esforço, tal perspectiva pode ser mais do que aquilo que estamos dispostos a
exigir numa barganha. Estabelecer um vínculo de afinidade proclama a intenção de tornar esse vínculo
semelhante ao parentesco -- mas também a presteza em pagar o preço pelo avatar na moeda corrente da
labuta diária e enfadonha. Quando não há disposição (ou, dado o treinamento oferecido e recebido,
solvência de ativos), fica-se inclinado a pensar duas vezes antes de agir para concretizar a intenção.
Assim, viver juntos ("e vamos esperar para ver como isso funciona e aonde vai nos levar") ganha
o atrativo de que carecem os laços de afinidade. Suas intenções são modestas, não se prestam juramentos,
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e as declarações, quando feitas, são destituídas de solenidade, sem fios que prendam nem mãos atadas.
Com muita freqüência, não há congregação diante da qual se deva apresentar um testemunho nem um
todo-poderoso para, lá do alto, consagrar a união. Você pede menos, aceita menos, e assim a hipoteca a
resgatar fica menor e o prazo de resgate, menos desestimulante. O futuro parentesco, quer desejado ou
temido, não lança a sua longa sombra sobre o "viver juntos". "Viver juntos" é por causa de, não a fim de.
Todas as opções mantêm-se abertas, não se permite que sejam limitadas por atos passados.
As pontes são inúteis, a menos que cubram totalmente a distância entre as margens -- mas no
"viver juntos" a outra margem está envolta numa neblina que nunca se dissipa, que ninguém deseja
dissolver nem tenta afastar. Não há como saber o que se vai ver quando (se) a névoa se dispersar -- nem
se de fato existe alguma
Apaixonar-se e desapaixonar-se 47
coisa encoberta. A outra margem está mesmo lá, ou será ela apenas uma fata morgana, uma ilusão
criada pela neblina, uma fantasia da imaginação que nos faz ver formas bizarras nas nuvens que passam?
Viver juntos pode significar dividir o barco, a ração e o leito da cabine. Pode significar navegar
juntos e compartilhar as alegrias e agruras da viagem. Mas nada tem a ver com a passagem de uma
margem à outra, e portanto seu propósito não é fazer o papel das sólidas pontes (ausentes). Pode-se
manter um diário de aventuras passadas, mas nele há apenas uma ligeira referência ao itinerário e ao porto
de destino. É possível que a neblina que cobre a outra margem -- desconhecida, inexplorada -- se
suavize e desapareça, que venham a emergir os contornos de um porto, que se tome a decisão de atracar,
mas nada disso é, nem deve ser, anotado nos registros de navegação.
A afinidade é uma ponte que conduz ao abrigo seguro do parentesco. Viver juntos não representa
essa ponte nem o trabalho de construí-la. O convívio do "viver juntos" e a proximidade consangüínea são
dois universos diferentes, com espaço-tempos distintos, cada qual um universo completo, com suas leis e
lógicas próprias. Nenhuma passagem de um para outro foi previamente explorada -- embora se possa,
fortuitamente, defrontar-se ou chocar-se com um deles. Não há como saber, pelo menos com
antecedência, se viver juntos acabará se revelando uma via de tráfego intenso ou um beco sem saída. A
questão é atravessar os dias como se essa diferença não contasse, e portanto de uma forma que torne
irrelevante o problema de "colocar os pingos nos Is".
O fato de a afinidade ortodoxa estar fora de moda e fora de forma não pode ser rebatido à custa do
parentesco. Carecendo de pontes estáveis para suportar o tráfego crescente, as redes de parentesco se
sentem frágeis e ameaçadas. Suas fronteiras se tornam embaçadas e contestadas, e as redes se dissolvem
num terreno sem títulos de posse nem propriedade hereditária -- uma terra de fronteira. Algumas vezes
um campo de batalha, outras vezes o objeto de pendengas judiciais não menos amargas. As redes de
parentesco não podem estar seguras de suas chances de sobrevivência, muito menos calcular suas
expectativas de vida. Sua fragilidade as torna ainda mais preciosas. Elas agora são tênues, sutis, delicadas;
provocam sentimentos de proteção; fazem com que se deseje abraçá-las, acariciá-las e mimá-las; anseiam
por serem tratadas com um carinho amoroso. E não são mais arrogantes e pretensiosas como costumavam
ser quando nossos ancestrais explodiram e se rebelaram contra a rigidez e a viscosidade do anelo familiar.
Não se sentem mais seguras de si mesmas -- ao contrário, estão dolorosamente conscientes de como um
simples passo em falso pode ser fatal. Antolhos e protetores de ouvidos caíram em desuso: -- as famílias
olham e ouvem atentamente, cheias de disposição para corrigir suas rotas e prontas a pagar na mesma
moeda o carinho e o amor.
Paradoxalmente -- ou no fim nem tanto --, os poderes de atração e enlace da parentela ganham
impulso à medida que o magnetismo e o poder de controle da afinidade diminuem...
De modo que aqui estamos, manobrando, vacilantes e desconfortáveis, entre dois mundos
notoriamente distantes um do outro e com pendências entre si, mas ambos desejáveis e desejados -- sem
passagens claramente traçadas, para não falar de caminhos trilhados entre ambos.

Trinta anos atrás (em O declínio do homem público), Richard Sennett observou o advento de uma
"ideologia da intimidade" que "transmuta categorias políticas em psicológicas" 10
Um resultado particularmente portentoso dessa nova ideologia foi a substituição dos "interesses
compartilhados" pela "identidade compartilhada". A fraternidade de base identitária estava para se tornar
10
Richard Sennett, The Fall of Public Man. Londres/Nova York, Random House, 1978, p.259ss. [Ed. bras.: (O declínio do
homem público, São Paulo, Companhia das Letras, 1988.]
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-- prevenia Sennett -- a "empada por um grupo seleto de pessoas aliada à rejeição das que não
estiverem dentro do círculo local". "Forasteiros, desconhecidos, diferentes tornam-se criaturas a serem
afastadas."
Alguns anos mais tarde, Benedict Anderson cunhou o termo "comunidade imaginada" para dar
conta do mistério da auto-identificação com uma ampla categoria de desconhecidos com quem se acredita
compartilhar alguma coisa suficientemente importante para que se fale deles como um "nós" do qual eu,
que falo,sou parte. O fato de Anderson ter percebido essa identificação com uma população dispersa de
pessoas desconhecidas como um mistério a exigir explicação confirmava, ainda que de forma oblíqua, os
palpites de Sennett -- era, na verdade, um tributo a estes. À época em que Anderson desenvolveu seu
modelo de "comunidade imaginada", a desintegração dos vínculos e liames impessoais (e com eles, como
apontaria Sennett, da arte da "civilidade" -- de "usar a máscara" que simultaneamente protege e permite
que se aprecie a companhia) havia atingido um estágio avançado, e assim a fricção e os afagos de ombros,
a contigüidade, a intimidade, a "sinceridade", o "entrar dentro do outro", sem guardar segredos,
confessando de modo compulsivo e compulsório, estavam se tornando rapidamente as únicas defesas
humanas contra a solidão e o único fio disponível para se tecer o ansiado convívio. Só era possível
conceber totalidades mais amplas do que o círculo de confissões mútuas como um "nós" intumescido e
esticado; como a mesmidade, mal referida como "identidade", em letras grandes. A única forma de incluir
os "desconhecidos" em um "nós" era reuni-los como potenciais parceiros em rituais confessionais,
tendentes a revelar um "interior" semelhante (e portanto familiar), quando pressionados a compartilhar
suas íntimas sinceridades.
A comunhão de eus secretos baseada em revelações mutuamente estimuladas pode ser o núcleo do
relacionamento amoroso. Pode fincar raízes, germinar, desenvolver-se dentro da ilha auto-sustentada, ou
quase, das biografias compartilhadas. Mas, exatamente como a união moral de dois -- que, quando
ampliada para incluir um Terceiro, e então colocada cara a cara com a "esfera pública", descobre serem
suas instituições e impulsos morais insuficientes para confrontar e administrar as questões da justiça im-
pessoal geradas por essa esfera --, assim também a comunhão do amor é apanhada pelo mundo exterior
despreparada para competir e ignorante das habilidades que isso exige.
Dentro de uma comunhão amorosa, é apenas natural ver a fricção e o desacordo como irritações
temporárias que logo irão embora; mas também como o apelo a uma ação remediadora que estimulará sua
partida. Uma perfeita mistura de eus parece nesse caso uma perspectiva realista, dada uma dose suficiente
de paciência e dedicação -- qualidades que o amor acredita poder suprir em profusão. Ainda que a
mesmidade espiritual dos amantes continue um pouco distante, certamente não é um sonho infundado
nem uma ilusão fantasiosa. Decerto pode ser alcançada -- e com recursos que já se encontram à
disposição dos amantes, em sua condição de amantes.
Mas tentar ampliar as legítimas expectativas amorosas de forma a domar, domesticar e
desenvenenar a atordoante miscelânea de sons e visões que povoa o mundo além da ilha do amor... Nesse
caso, os testados e confiáveis estratagemas do amor não serão de muita ajuda. Na ilha do amor, a
concordância, a compreensão e a ansiada unicidade a dois jamais estarão além do alcance, mas isso não é
válido para o infinito mundo exterior (a menos que transmutado, por um passe de mágica, no colóquio em
busca do consenso de Jürgen Habermas). As ferramentas do convívio eu-Vós, ainda que perfeitamente
dominadas e impecavelmente manejadas, se mostrarão vulneráveis à variação, à disparidade e à discórdia
que separam e mantêm em pé de guerra as multidões daqueles que constituem um "Vós" potencial:
dispostos a atirar em vez de conversar. Exige-se o domínio de técnicas muito diferentes quando a
discordância é um desconforto transitório que logo será dissipado e quando a discórdia (assinalando a
determinação de defender seus direitos) está aí para ficar por tempo indeterminado. A esperança de
consenso atrai as pessoas e as estimula a se esforçarem mais. A descrença na unidade, alimentando a
gritante inadequação dos instrumentos à mão e sendo por esta alimentada, impele as pessoas a se
afastarem umas das outras e estimula que elas se esquivem.
A primeira conseqüência da crescente descrença na possibilidade de unidade é a divisão do mapa
do Lebenswelt, o mundo da vida, em dois continentes amplamente destituídos de comunicação. Um deles
é onde se busca a todo custo o consenso (embora na maioria das vezes, talvez o tempo todo, com as
habilidades adquiridas e aprendidas no abrigo da intimidade) -- mas onde sobretudo se presume que ele
já esteja "ali", predeterminado pela identidade compartilhada, esperando para ser acordado e reafirmar-se.
E o outro é onde a esperança de unidade espiritual, e assim também qualquer esforço para revelá-la ou
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construí-la a partir do zero, foi abandonada a priori, de modo que o único intercâmbio vislumbrado é o
de mísseis, não palavras.
Atualmente, porém, essa dualidade de posturas (teorizada para uso privado como a divisão da
humanidade) parece estar gradualmente recuando para o segundo plano da vida cotidiana -- juntamente
com as dimensões espaciais da proximidade e da distância humanas. Tal como nas vastas extensões da
terra de fronteira global, também no nível popular, no domínio da política de vida, o palco para a ação é
um recipiente cheio de amigos e inimigos potenciais, no qual se espera que coalizões flutuantes e inimi-
zades à deriva se aglutinem por algum tempo, apenas para se dissolverem outra vez e abrirem espaço para
outras e diferentes condensações. As "comunidades da mesmidade", predeterminadas, mas aguardando
serem reveladas e preenchidas com matéria sólida, estão cedendo vez a "comunidades de ocasião", que se
espera serem autoconstruídas em torno de eventos, ídolos, pânicos ou modas. Mais diversificadas como
pontos focais, porém compartilhando a característica de uma curta, e decrescente, expectativa de vida.
Elas não duram mais que as emoções que as mantêm no foco das atenções e estimulam a conjunção de
interesses -- fugaz, mas não por isso menos intensa -- a se coligar e aderir "à causa".

Todo esse aproximar-se e afastar-se para longe torna possível seguir simultaneamente o impulso de
liberdade e a ânsia por pertencimento -- e proteger-se, se não recuperar-se totalmente, dos
embustes de ambos os anseios.
Os dois estímulos se fundem e se misturam no trabalho extremamente absorvente e exaustivo de
"tecer redes" e "surfar nelas". O ideal de "conectividade" luta para apreender a difícil e irritante dialética
desses dois elementos inconciliáveis. Ele promete uma navegação segura (ou pelo menos não-fatal) por
entre os recifes da solidão e do compromisso, do flagelo da exclusão e dos férreos grilhões dos vínculos
demasiadamente estreitos, de um desprendimento irreparável e de uma irrevogável vinculação.
Nós entramos nos chats e temos "camaradas" que conversam conosco. Os camaradas, como bem
sabe todo viciado em chat, vêm e vão, entram e saem do circuito -- mas sempre há na linha alguns deles
se coçando para inundar o silêncio com "mensagens" No relacionamento "camarada/camarada", não são
as mensagens em si, mas seu ir e vir, sua circulação, que constitui a mensagem -- não importa o
conteúdo. Nós pertencemos ao fluxo constante de palavras e sentenças inconclusas (abreviadas, truncadas
para acelerar a circulação). Pertencemos à conversa, não àquilo sobre o que se conversa.
Não confundam a atual obsessão por confissões compulsivas com as confidências espalhafatosas
sobre as quais Sennett nos advertia 30 anos atrás. O propósito de produzir sons e digitar mensagens não é
mais submeter os recônditos da alma à inspeção e aprovação do parceiro. As palavras vocalizadas ou
digitadas não mais se esforçam por relatar a viagem de descoberta espiritual. Como Chris Moss
admiravelmente expôs (no Guardian Weekend)", por meio de "nossas conversas em chats, telefones
celulares, serviços de textos 24 horas", "a introspecção é substituída por uma interação frenética e frívola
que revela nossos segredos mais profundos juntamente com nossas listas de compras". Permitam-me
comentar, no entanto, que essa "interação", embora frenética, pode não parecer tão frívola, uma vez que
você perceba e tenha em mente que a questão -- a única questão -- é manter o chat funcionando. Os
provedores de acesso à internet não são sacerdotes santificando a inviolabilidade das uniões. Estas não
têm nada em que se apoiar senão nossos papos e textos; a união só se mantém na medida em que
sintonizamos, conversamos, enviamos mensagens. Se você interromper a conversa, está fora. O silêncio
equivale à exclusão. De fato, 11 n'y a pas dehors du texte -- não há nada fora do texto --, embora não
apenas no sentido pretendido por Derrida...

OM, a sofisticada revista encartada em um dos mais veneráveis, respeitados e amados jornais de
domingo, dirigida e avidamente lida e discutida pelo jet-set, as elites de Bloomsbury ou Chelsea e
todo o resto, ou quase, das classes tagarelas...
Peguemos ao acaso a edição de 16 de junho de 2002 -- embora a data aqui não tenha muita
importância, pois o conteúdo, com pequenas variações, é imune às convulsões, reviravoltas ou turbu-
lências da grande história em construção, assim como a toda espécie de política, exceto a política de vida.
As acelerações ou reduções de ritmo do tempo das grandes políticas também passam ao largo...
Cerca de metade da revista OM, semana após semana, é ocupada por uma seção intitulada "Vida"
Explicam os editores: "Vida" é "o manual da vida moderna". A seção tem suas subseções: primeiro vem
"Moda" que informa sobre os problemas e tribulações da "aplicação de cosméticos", com uma subseção,
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"Ela moda", que exorta as leitoras a "não medir esforços para encontrar o par de sapatos certo". É
seguida pela subseção "Interiores", com um breve interlúdio sobre "Casas de bonecas" Depois vem a
parte de "Jardins", que explica como "manter as aparências" e "impressionar os hóspedes", apesar da
aborrecida verdade de que "o trabalho de um jardineiro nunca termina". A subseção seguinte é "Comida"
e depois "Restaurantes", que mostra onde procurar comida gostosa quando se sai para jantar, e então
"Vinhos", indicando onde encontrar vinhos saborosos para consumir em casa. Tendo chegado a esse
ponto, o leitor está bem preparado para examinar atentamente as três páginas da subseção "Viver" --
dividida em "amor, sexo, família, amigos"
Na semana de 16 de junho de 2002, "Viver" é dedicada aos CSSs -- "casais semi-separados",
"revolucionários do relacionamento", que "romperam a sufocante bolha do casal" e "seguem seus
próprios caminhos" Sua dança a dois é em tempo parcial. Odeiam a idéia de compartilhar o lar e as
atividades domésticas, preferindo manter domicílios, contas bancárias e círculos de amizade separados, e
estarem juntos quando estão a fim. Tal como o trabalho ao estilo antigo, hoje dividido numa sucessão de
horários flexíveis, tarefas únicas ou projetos de curto prazo, e da mesma forma que a compra ou o aluguel
de uma propriedade, que agora tende a ser substituída pela ocupação time-share e pelos pacotes de fim de
semana, o casamento ao estilo antigo, "até que a morte nos separe", já desestabilizado pela coabitação
"vamos ver como funciona", reconhecidamente temporária, é substituído pelo "ficar juntos", de horário
parcial ou flexível.
Os especialistas, como os leitores poderiam esperar, se dividem. Suas opiniões variam das boas-
vindas ao modelo CSS -- visto como o tão almejado nirvana (tornar quadrado o círculo da doação
genuína sem ter de pagar com a perda da independência) finalmente transformado em realidade -- à
condenação dos praticantes por sua covardia: a indisposição de enfrentar os testes e dificuldades
decorrentes da criação e perpetuação de um relacionamento plenamente amadurecido. Prós e contras são
dolorosamente expostos, solenemente ponderados e escrupulosamente avaliados, embora o efeito do
estilo de vida dos CSSs sobre o seu ambiente humano não apareça em nenhuma dessas folhas de balanço
(curiosamente, dada a sensibilidade ecológica de nossa época).
Depois que "Viver" apresentou seu argumento, o que é necessário para preencher as páginas de
"Vida"? Há subseções intituladas "Saúde", "Bem-estar", "Nutrição' (atenção: separada de "Comida",
"Restaurantes" e "Vinhos") e "Estilo" (totalmente feita de anúncios de mobiliário). A seção se completa
com a parte do "Horóscopo" -- na qual, dependendo da data de seu nascimento, alguns leitores são
aconselhados a esquecer "o trabalho monótono -- a mobilidade é essencial neste momento. Você deve
circular, sacar o celular e fazer negócios", enquanto a outros se diz: "Este é exatamente o seu momento --
novos inícios o tempo todo e nada de negócios muito antigos para oprimir sua alma sempre otimista."
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2. Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade

Homo sexualis: abandonado e destituído

Como afirmou Lévi-Strauss, o encontro dos sexos é o terreno em que natureza e cultura se
deparam um com o outro pela primeira vez. É, além disso, o ponto de partida, a origem de toda cultura. O
sexo foi o primeiro ingrediente de que o homo sapiens foi naturalmente dotado sobre o qual foram
talhadas distinções artificiais, convencionais e arbitrárias -- a atividade básica de toda cultura (em
particular, o ato fundador da cultura, a proibição do incesto: a divisão das fêmeas em categorias
disponíveis e indisponíveis para a coabitação sexual).
É fácil perceber que esse papel do sexo não foi acidental. Das muitas tendências, inclinações e
propensões "naturais" dos seres humanos, o desejo sexual foi e continua sendo a mais óbvia, indubitável e
incontestavelmente social. Ele se estende na direção de outro ser humano, exige sua presença e se esforça
para transformá-la em união. Ele anseia por convívio. Torna qualquer ser humano -- ainda que realizado
e, sob todos os outros aspectos, auto-suficiente -- incompleto e insatisfeito, a menos que esteja unido a
um outro.
Do encontro dos sexos nasceu a cultura. Nesse encontro ela praticou pela primeira vez sua arte
criativa da diferenciação. Desde então, nunca mais foi suspensa, muito menos abandonada, a íntima
cooperação da cultura e da natureza em tudo que se refere ao sexo. A ars erotica, criação eminentemente
cultural, guiou a partir de então o impulso sexual na direção de sua satisfação no convívio humano.

Salvo raras exceções, nossa cultura "não produziu uma ars erotica, mas sim uma scientia sexualis",
afirma o eminente sexólogo alemão Volkmar Sigusch. (1)
É como se Antero, irmão de Eros e "gênio vingativo do amor rejeitado", tivesse tomado de seu
irmão o domínio sobre o reino do sexo. "Hoje, a sexualidade não condensa mais o potencial de prazer e
felicidade. Ela não é mais mistificada positivamente como êxtase e transgressão, mas negativamente,
como fonte de opressão, desigualdade, violência, abuso e infecção mortal."
Antero era conhecido por ser altamente passional, excitável, lascivo e exaltado, mas, uma vez
transformado em senhor indiscutível do reino, teve de proibir a paixão entre seus súditos e proclamar que
o sexo devia ser um ato racional, calculado com sobriedade, realizado considerando todos os riscos e
regras e, acima de tudo, totalmente desmistificado e desprovido de ilusão. "O olhar do cientista", afirma
Sigusch, "sempre foi frio e distante: não devia haver segredos." Resultado? "Hoje todo mundo está por
dentro, e ninguém tem a mínima a idéia."
Não que esse frustrante efeito da postura fria e da visão distante tenha depreciado a autoridade de
Antero e de sua agência, a scientia sexualis, nem tampouco reduzido as fileiras de seus devotados,
agradecidos e esperançosos seguidores. A demanda por seus serviços (por serviços novos e aperfeiçoados,
e no entanto apenas "mais do mesmo") tende a crescer, não a diminuir, já que eles sempre adiam o
cumprimento de suas promessas. "A ciência sexual, não obstante, continua a existir, porque a miséria
sexual se recusa a desaparecer."
A scientia sexualis prometia livrar os homini sexuali de sua miséria; ela continua prometendo
exatamente a mesma coisa, e essa promessa continua motivando confiança e crença pela simples razão de
que, uma vez cortados de todas as outras modalidades humanas e entregues a seus próprios meios, os
homini sexuali se tornaram "objetos naturais" da investigação científica -- sentem-se em casa apenas no
laboratório e no consultório terapêutico, e visíveis para si mesmos e para os outros somente à luz dos
projetores dos cientistas. Além disso, o homo sexualis, abandonado [orphaned] e destituído, não tem mais
a quem recorrer em busca de conselho, socorro e ajuda.

Orfão de Eros. Eros com certeza não está morto. Mas, exilado de seu domínio hereditário -- tal como
Ahaspher, o Judeu Errante --, ele foi condenado a perambular pelas ruas numa infindável e eternamente
vã procura de abrigo. Eros agora pode ser encontrado em toda parte, mas não permanecerá por muito
tempo em lugar nenhum. Ele não tem endereço fixo: se você quiser encontrá-lo, escreva para a posta-
restante e mantenha a esperança.
28
Destituído pelo futuro. E portanto pela expectativa e pelo compromisso que são as propriedades
legítimas e monopolizadoras do futuro. Abandonado pelos espectros da paternidade e da maternidade,
esses mensageiros da eternidade e do Grande Além que costumavam pairar sobre os encontros sexuais e
incutir na união física algo daquela mística surreal e da mistura sublime de fé e apreensão, alegria e terror,
que eram sua marca registrada.

Atualmente a medicina compete com o sexo pela responsabilidade da "reprodução".
Os médicos competem com os homini sexuali pelo papel de autores principais do drama. O
resultado da disputa é uma conclusão inevitável: agradece-se pelo que a medicina pode fazer, mas
também pelo que se espera que ela faça e pelo que dela desejam os estudantes e ex-alunos da escola de
marketing da vida dos consumidores. A possibilidade fascinante que se encontra bem ali na esquina é a
oportunidade (para citar Sigusch novamente) de "escolher um filho num catálogo de doadores atraentes
quase da mesma forma como eles [os consumidores contemporâneos] estão acostumados a comprar pelo
correio ou por meio de revistas de moda" -- e adquirir a criança escolhida no momento preferido. Seria
contrário à natureza de um consumidor experiente não ter o desejo de dobrar aquela esquina.

Houve uma época (de lares/oficinas, de agricultura familiar) em que os filhos eram produtores.
Nessa época, a divisão do trabalho e a distribuição dos papéis familiares se superpunham. O filho
deveria juntar-se ao oikos familiar, somar-se à força de trabalho da oficina ou da fazenda -- e assim,
naquela época, quando a riqueza derivava ou era extraída do trabalho, a chegada de um filho trazia
consigo a expectativa de melhoria do bem-estar da família. Os filhos podiam ser tratados com dureza,
mantidos sob rédea curta, mas esse era um tratamento comum a todos os outros trabalhadores. Não se
esperava que o trabalho trouxesse alegria ou causasse prazer ao empregado -- a idéia de "satisfação no
trabalho' ainda estava para ser inventada. Os filhos eram, na visão de todos, bons investimentos, e como
tal eram saudados. Quanto mais, melhor. Além disso, dizia a voz da razão, era uma aposta: a expectativa
de vida era curta e todos se perguntavam se o recém-nascido viveria o suficiente para que suas
contribuições à renda familiar pudessem se fazer sentir. Para os autores da Bíblia, a promessa de Deus a
Abraão -- "Vossa semente haverá de multiplicar-se como as estrelas no céu e como a areia sobre as
praias do oceano" -- era, inequivocamente, uma bênção, embora muitos de nossos contemporâneos
percebam nela antes uma ameaça, uma maldição ou ambas.
Houve uma época (das fortunas de família passadas de geração para geração, segundo a árvore
genealógica, e da posição social hereditária) em que os filhos eram pontes entre a mortalidade e a
imortalidade, entre uma vida individual abominavelmente curta e a infinita (esperava-se) duração da
família. Morrer sem filhos significava nunca ter construído uma ponte como essa. A morte de um homem
sem filhos (embora o mesmo não ocorresse, necessariamente com a de uma mulher sem filhos, a menos
que se tratasse de uma rainha ou algo semelhante) significava a morte da família -- negligenciar o mais
importante dos deveres, descumprir a mais imperativa das tarefas.
Com a nova fragilidade das estruturas familiares, com a expectativa de vida de muitas famílias
sendo mais curta do que a de seus membros, com a participação em determinada linhagem familiar
tornando-se rapidamente um dos elementos "indetermináveis" da líquida era moderna e com a adesão a
uma das diversas redes de parentesco disponíveis transformando -se, para um crescente número de
indivíduos, numa questão de escolha -- e uma escolha, até segunda ordem, revogável --, um filho pode
ser ainda "uma ponte" para algo mais duradouro. Mas a margem a que essa ponte conduz está coberta por
uma neblina que ninguém espera que venha a se dissipar, e portanto é improvável que provoque muita
emoção, menos ainda que alimente o desejo inspirados da ação. Se uma súbita rajada de vento viesse a
afastar a neblina, ninguém sabe ao certo que tipo de margem iria se revelar, nem se da névoa emergeria
uma terra suficientemente firme para sustentar um lar permanente. Pontes que levam a lugar nenhum, ou
a nenhum lugar em particular: quem precisa delas? Para quê? Quem perderia seu tempo e seu bom
dinheiro para planejá-las e construí-Ias?

Esta é uma época em que um filho é, acima de tudo, um objeto de consumo emocional.
Objetos de consumo servem a necessidades, desejos ou impulsos do consumidor. Assim também
os filhos. Eles não são desejados pelas alegrias do prazer paternal ou maternal que se espera que
proporcionem -- alegrias de uma espécie que nenhum objeto de consumo, por mais engenhoso e
29
sofisticado que seja, pode proporcionar. Para a tristeza dos comerciantes, o mercado de bens de
consumo não é capaz de fornecer substitutos à altura, embora essa tristeza de alguma forma seja
compensada pelo espaço cada vez maior que o mundo do comércio vem ganhando na produção e
manutenção desses bens.

Quando se trata de objetos de consumo, a satisfação esperada tende a ser medida pelo custo --
busca-se o "valor em dinheiro".

Os filhos estão entre as aquisições mais caras que o consumidor médio pode fazer ao longo de
toda a sua vida. Em termos puramente monetários, eles custam mais do que um carro luxuoso do ano,
uma volta ao mundo em um cruzeiro ou até mesmo uma mansão. Pior ainda, o custo total tende a crescer
com o tempo, e seu volume não pode ser fixado de antemão nem estimado com algum grau de certeza.
Num mundo que não oferece mais planos de carreira e empregos estáveis, assinar um contrato de hipoteca
com prestações de valor desconhecido, a serem pagas por um tempo indefinido, significa, para pessoas
que saem de um projeto para o outro e ganham a vida nessas mudanças, expor-se a um nível de risco
atipicamente elevado e a uma fonte prolífica de ansiedade e medo. É provável que se pense duas vezes
antes de assinar, e que, quanto mais se pense, mais se tornem óbvios os riscos envolvidos. E nenhuma
dose de determinação e ponderação poderá remover a sombra de dúvida que tende a adulterar a alegria.
Além disso, ter filhos é, em nossa época, uma questão de decisão, não um acidente -- o que aumenta a
ansiedade. Tê-los ou não é comprovadamente a decisão com maiores conseqüências e de maior alcance
que existe, e portanto também a mais angustiante e estressante.
Ademais, nem todos os custos são monetários, e os que não o são jamais poderão ser medidos e
calculados. Eles desafiam as capacidades e as propensões dos agentes racionais que somos preparados
para ser, e que lutamos para ser. "Formar uma família" é como pular de cabeça em águas inexploradas e
de profundidade insondável. Cancelar ou adiar outras sedutoras alegrias consumistas de uma atração
ainda não experimentada, desconhecida e imprevisível -- em si mesmo um sacrifício assustador que se
choca fortemente com os hábitos do consumidor prudente -- não é a única conseqüência provável.
Ter filhos significa avaliar o bem-estar de outro ser, mais fraco e dependente, em relação ao nosso
próprio conforto. A autonomia de nossas preferências tende a ser comprometida, e continuamente: ano
após ano, dia após dia. A pessoa pode tornar-se -- horror dos horrores -- "dependente" Ter filhos pode
significar a necessidade de diminuir as ambições pessoais, "sacrificar uma carreira",como pessoas
submetidas à avaliação de seu desempenho profissional olham de soslaio em busca de algum sinal de
lealdade dividida. Mais dolorosamente, ter filhos significa aceitar essa dependência divisora da lealdade
por um tempo indefinido, aceitando o compromisso amplo e irrevogável, sem uma cláusula adicional "até
segunda ordem" -- o tipo de obrigação que se choca com a essência da política de vida do líquido mundo
moderno e que a maioria das pessoas evita, quase sempre com fervor, em outras manifestações de sua
existência. Tomar consciência de tal compromisso pode ser uma experiência traumática. A depressão e as
crises conjugais pós-parto parecem enfermidades específicas de nossa "modernidade líquida", da mesma
forma que a anorexia, a bulimia e incontáveis variedades de alergia.

As alegrias da paternidade e da maternidade vêm, por assim dizer, num pacote que inclui as dores
do auto-sacrifício e os temores de perigos inexplorados.
Um cálculo sóbrio e fidedigno de perdas e ganhos está obstinada e irritantemente além do alcance
e da compreensão dos pais em potencial.
Qualquer aquisição feita por um consumidor envolve riscos -- mas os vendedores de outros bens
de consumo, em particular daqueles inapropriadamente chamados de bens "duráveis", fazem de tudo para
assegurar aos possíveis clientes que os riscos assumidos foram reduzidos ao mínimo. Oferecem amplas
garantias (ainda que só alguns deles possam afirmar de boa-fé que a empresa sobreviverá ao prazo de
duração da garantia, e praticamente nenhum possa assegurar que os atrativos da mercadoria adquirida,
capazes de mantê-la distante da lata de lixo, não se desvanecerão bem antes disso), promessas de
devolução do dinheiro e de assistência longa ou perpétua. Dignas ou não de crédito, nenhuma dessas
garantias é oferecida no caso do parto.
Não surpreende que os institutos de pesquisas médicas e as clínicas de atendimento pré-natal
estejam nadando em dinheiro proveniente de empresas comerciais. Há uma demanda potencialmente
30
infinita pela redução dos riscos endêmicos do parto, pelo menos ao nível declarado nos rótulos das
mercadorias à venda nas prateleiras das lojas. Companhias que ofereçam a chance de "escolher um filho
num catálogo de doadores atraentes" e clínicas de boa reputação que componham por encomenda o
espectro genético de uma criança em gestação não precisam se preocupar com a falta de clientes ou a
redução do volume de negócios lucrativos.
Resumindo: a separação entre sexo e reprodução, amplamente observada, tem a anuência do
poder. É o produto conjunto do líquido ambiente da vida moderna e do consumismo como estratégia
escolhida, e a única disponível, de "procurar soluções biográficas para problemas socialmente
produzidos" (Ulrich Beck). É a mistura de ambos os fatores que leva ao deslocamento das questões da
reprodução e do parto para longe do sexo e na direção de uma esfera totalmente diferente, operada por
uma lógica e um conjunto de regras inteiramente diversos dos que regem a atividade sexual. A destituição
do homo sexualis é sobredeterminada.

Como que antecipando o padrão que iria prevalecer em nossa época, Erich Fromm tentou explicar
a atração do "sexo em si" (do sexo "pelo sexo", praticado separadamente de suas funções
ortodoxas), referindo-se à sua qualidade como uma (enganosa) resposta ao desejo, demasiadamente
humano, de "fusão total" por meio de uma "ilusão de união" (2).
União -- porque é exatamente o que homens e mulheres procuram ardentemente em seu
desespero para escapar da solidão que já sofrem ou temem estar por vir. Ilusão -- porque a união
alcançada no breve instante do clímax orgástico "deixa os estranhos tão distantes um do outro como
estavam antes", de modo que "eles sentem seu estranhamento de maneira ainda mais acentuada". Nesse
papel, o orgasmo sexual "assume uma função que o torna não muito diferente do alcoolismo e do vício
em drogas". Tal como estes, ele é intenso -- mas "transitório e periódico" (3).
A união é ilusória e, no final, a experiência tende a ser frustrante, diz Fromm, por ser separada do
amor (ou seja, permitam-me explicar, do tipo de relacionamento Fürsein; de um compromisso
intencionalmente duradouro e indefinido com o bem-estar do parceiro). Na visão de Fromm, o sexo só
pode ser um instrumento de fusão genuína -- em vez de uma efêmera, dúbia e, em última instância,
autodestrutiva impressão de fusão -- graças a sua conjunção com o amor. Qualquer que seja a capacidade
geradora de fusão que o sexo possa ter, ela vem de sua "camaradagem" com o amor.

Desde que Fromm escreveu sobre a questão, o isolamento do sexo em relação a outros domínios da
vida tem avançado mais do que nunca.
Hoje o sexo é a própria síntese, talvez o silencioso/secreto arquétipo, daquele "relacionamento
puro" (um paradoxo, com certeza: os relacionamentos humanos tendem a preencher, infestar e modificar
todos os recessos e frestas, por mais remotos, do Lebenswelt, de modo que podem ser tudo menos
"puros") que, como indica Anthony Giddens, se tornou o modelo alvo/ideal predominante da parceria
humana. Agora espera-se que o sexo seja auto-sustentável e auto-suficiente, que "se mantenha sobre os
próprios pés", para ser julgado unicamente pela satisfação que possa trazer por si mesmo (ainda que, em
regra, ela seja interrompida bem antes da expectativa gerada pela mídia). Não admira que também tenha
crescido enormemente sua capacidade de gerar frustração e de exacerbar a própria sensação de
estrangulamento que se esperava que curasse. A vitória do sexo na grande guerra de independência tem
sido, na melhor das circunstâncias, uma vitória de Pirro. Os remédios maravilhosos parecem produzir
moléstias e sofrimentos não menos numerosos e comprovadamente mais agudos do que aqueles que
prometiam curar.

Abandonar e destituir foram celebrados, por um breve período, como a derradeira libertação do
sexo da prisão em que era mantido por uma sociedade patriarcal, puritana, desmancha-prazeres,
hipócrita e ainda por cima desafortunadamente vitoriana.
Aqui estava, afinal, um relacionamento mais puro que a pureza, um encontro que não servia a outro
propósito senão o prazer e a alegria. Uma felicidade de sonho, sem restrições, sem medo de efeitos
colaterais e portanto alegremente cega às suas conseqüências. Uma felicidade do tipo "satisfação
garantida ou seu dinheiro de volta" A mais completa encarnação da liberdade, tal como definida pela
sabedoria e pela prática populares da sociedade de consumo.
31
É correto, talvez até estimulante e ao mesmo tempo maravilhoso, que o sexo seja assim
liberado. O problema é como mantê-lo no lugar quando o lastro foi lançado ao mar; como mantê-lo na
fôrma se não se dispõe mais das estruturas. Voar suavemente traz contentamento, voar sem direção
provoca estresse. A mudança é jubilosa; a volatilidade, incômoda. A insustentável leveza do sexo?
Volkmar Sigusch é terapeuta. Diariamente, trava conhecimento com vítimas do "sexo puro:
registra as queixas de seus pacientes -- e a lista de lamúrias a exigir a intervenção de um especialista
cresce indefinidamente. O sumário de suas descobertas é tão sombrio quanto ponderado.

Todas as formas de relacionamento íntimo atualmente em voga portam a mesma máscara de falsa
felicidade que foi usada pelo amor conjugal e mais tarde pelo amor livre ... Ao olharmos mais de perto e
afastarmos a máscara, descobrimos anseios não-realizados, nervos em frangalhos, amores frustrados,
sofrimentos, medos, solidão, hipocrisia, egoísmo e compulsão à repetição ... As performances substituíram
o êxtase, o físico está por dentro, a metafísica, por fora ... A abstinência, a monogamia e a promiscuidade
estão todas igualmente distantes da livre vida da sensualidade que nenhum de nós conhece. (4)

Considerações técnicas igualam infortúnio a emoções. A concentração na performance não deixa
tempo nem espaço para o êxtase. O físico não é o caminho que leva à metafísica. O poder de sedução do
sexo costumava fluir da emoção, do êxtase e da metafísica -- como ocorreria agora, mas o mistério se foi
e desse modo os anseios não podem continuar irrealizados...
Quando o sexo se apresenta como um evento fisiológico do corpo e a palavra "sensualidade"
pouco evoca senão uma prazerosa sensação física, ele não está liberado de fardos supérfluos, avulsos,
inúteis, incômodos e restritivos. Está, ao contrário, sobrecarregado, inundado de expectativas que
superam sua capacidade de realização.
As íntimas conexões do sexo com o amor, a segurança, a permanência e a imortalidade via
continuação da família não eram, afinal de contas, tão inúteis e constrangedoras como se imaginava, se
sentia e se acusava que fossem. Os antigos companheiros do sexo, supostamente antiquados, talvez
fossem seus sustentáculos necessários (não pela perfeição técnica da performance, mas por sua
recompensa potencial). Talvez as contradições de que a sensualidade está endemicamente tomada não
tenham maiores possibilidades de serem resolvidas (mitigadas, esvaziadas, neutralizadas) na ausência de
"restrições" do que na presença destas. Talvez essas restrições sejam proezas da engenhosidade cultural
em vez de símbolos de equívocos ou fracassos nesse terreno.

A líquida racionalidade moderna recomenda mantos leves e condena as caixas de aço.
Nos compromissos duradouros, a líquida razão moderna enxerga a opressão; no engajamento
permanente percebe a dependência incapacitante. Essa razão nega direitos aos vínculos e liames, espaciais
ou temporais. Eles não têm necessidade ou uso que possam ser justificados pela líquida racionalidade
moderna dos consumidores. Vínculos e liames tornam "impuras" as relações humanas -- como o fariam
com qualquer ato de consumo que presuma a satisfação instantânea e, de modo semelhante, a instantânea
obsolescência do objeto consumido. Os advogados de defesa das "relações impuras" teriam de se esforçar
para tentar convencer os jurados e obter sua aprovação.
Sigusch acredita que cedo ou tarde "os impulsos e desejos que escapam aos grilhões da racionalidade"
retornarão -- e trarão vingança. E quando o fizerem não seremos capazes de responder "sem recorrer ao
uso de conceitos sobre instintos naturais e valores eternos corrompidos até a raiz, histórica e
politicamente".
Se isso vier a ocorrer, como Sigusch prenuncia ou prevê, vai exigir mais do que apenas uma nova
visão do sexo e das expectativas que podem ser legitimamente investidas nos atos sexuais. Exigirá nada
menos que libertar o sexo da soberania da racionalidade do consumidor. Talvez exija ainda mais: que essa
racionalidade seja destituída de sua atual soberania sobre os motivos e estratégias da política de vida
humana -- que essa soberania lhe seja cassada. Isso significaria, contudo, exigir mais do que seria
razoável esperar num futuro previsível.

"Os impulsos e desejos que escapam aos grilhões da racionalidade" (da líquida racionalidade
moderna do consumidor, para ser exato) eram ligados ao sexo de modo inseparável e inextricável
32
porque este, tal como outras atividades humanas, estava entrelaçado ao modelo de vida do
produtor.
Dentro desse modelo, nem o amor "até que a morte nos separe", nem construir pontes para a
eternidade, nem consentir em "entregar reféns ao destino" e em estabelecer compromissos sem volta eram
coisas redundantes -- muito menos percebidas como limitadoras ou opressivas. Pelo contrário,
costumavam ser os "instintos naturais" do homo faber, tal como agora vão de encontro aos instintos
igualmente "naturais" do homo consumens. Tampouco eram, de qualquer ponto de vista, "irracionais":
eram os equipamentos e manifestações necessários e obrigatórios da racionalidade do homo faber. O
amor e a disposição de procriar eram companheiros indispensáveis do sexo do homo faber, da mesma
forma que as uniões duradouras que ajudavam a criar eram "produtos principais" -- não "efeitos
colaterais", muito menos rejeitos ou refugos, dos atos sexuais.
Para cada ganho há uma perda. Para cada realização, um preço.
Não importam o horror e a repulsa com que recordamos ou evocamos os preços pagos e as perdas
sofridas no passado -- as perdas suportadas hoje e os preços a serem pagos amanhã são os que mais
incomodam e magoam. Não há sentido em comparar os sofrimentos do passado e do presente, tentando
descobrir qual deles é menos suportável. Cada angústia fere e atormenta no seu próprio tempo.
As agonias atuais do homo sexualis são as mesmas do homo consumens. Elas nasceram juntas. Se
um dia se forem, marcharão ombro a ombro.

A capacidade sexual era a ferramenta usada pelo homo faber para erigir e manter as relações
humanas.
Quando disposta no canteiro de obras dos laços humanos, a necessidade/desejo sexual encorajava
o homo sexualis a permanecer no trabalho e a enxergar através dele, uma vez iniciado. Os construtores
desejavam que o resultado de seus esforços, como se espera de todas as edificações, fossem solidamente
estruturados, duráveis e seguros (de preferência para sempre).
Com demasiada freqüência os construtores tinham muita confiança em seu poder de planejamento
para se preocupar com os sentimentos do(s) futuro(s) morador(es). O respeito é, afinal, apenas um dos
lados da faca de dois gumes da atenção, cuja outra ponta é a opressão. A indiferença e o desprezo são dois
recifes com os quais muitas intenções éticas honestas têm se chocado, e os eus morais precisam de muita
vigilância e habilidade de navegação para passar incólumes por eles. Isso dito, parece, não obstante, que a
moral -- aquele Fürsein ditado pela responsabilidade por um Outro e posto em operação assim que
assumido --, com todas as suas paisagens deslumbrantes e seus desvios e emboscadas traiçoeiros, foi
feita sob medida para o homo faber.
Libertado das tarefas de construção e ressentido dos esforços exigidos por elas, o homo
consumens pode empregar seus poderes sexuais de formas novas e imaginativas. O Fürsein, porém, não é
uma delas.

O que caracteriza o consumismo não é acumular bens (quem o faz deve também estar preparado
para suportar malas pesadas e casas atulhadas), mas usá-los e descartá-los em seguida a fim de
abrir espaço para outros bens e usos.
A vida consumista favorece a leveza e a velocidade. E também a novidade e a variedade que elas
promovem e facilitam. É a rotatividade, não o volume de compras, que mede o sucesso na vida do homo
consumens.
Em geral, a capacidade de utilização de um bem sobrevive à sua utilidade para o consumidor.
Mas, usada repetidamente, a mercadoria adquirida impede a busca por variedade, e a cada uso a aparência
de novidade vai se desvanecendo e se apagando. Pobres daqueles que, em razão da escassez de recursos,
são condenados a continuar usando bens que não mais contêm a promessa de sensações novas e inéditas.
Pobres daqueles que, pela mesma razão, permanecem presos a um único bem em vez de flanar entre um
sortimento amplo e aparentemente inesgotável. Tais pessoas são os excluídos na sociedade de consumo,
os consumidores falhos, os inadequados e os incompetentes, os fracassados -- famintos definhando em
meio à opulência do banquete consumista.
Aqueles que não precisam se agarrar aos bens por muito tempo, e decerto não por tempo
suficiente para permitir que o tédio se instale, são os bem-sucedidos. Na sociedade dos consumidores, o
prestidigitador é a figura de sucesso. Não fosse isto um anátema para os fornecedores de bens de
33
consumo, os consumidores fiéis ao seu caráter e destino desenvolveriam o hábito de alugar coisas em
vez de comprá-las. Diferentemente dos vendedores de mercadorias, as empresas de locação prometem, de
modo tentador, substituir com regularidade os bens alugados por modelos de último tipo. Os vendedores,
para não ficarem para trás, prometem devolver o dinheiro se o cliente não estiver plenamente satisfeito e
se (na esperança de que a satisfação não se evapore tão rápido) os bens adquiridos forem devolvidos
dentro de, digamos, dez dias.
A "purificação" do sexo permite que a prática sexual seja adaptada a esses avançados padrões de
compra/locação. O "sexo puro" é construído tendo-se em vista uma espécie de garantia de reembolso -- e
os parceiros do "encontro puramente sexual" podem se sentir seguros, conscientes de que a inexistência
de "restrições" compensa a perturbadora fragilidade de seu engajamento.
Graças a um inteligente estratagema publicitário, o significado vernáculo de "sexo seguro" foi
recentemente reduzido ao uso de preservativos. O slogan não seria o sucesso comercial que é se não
atingisse um ponto sensível de milhões de pessoas que desejam que suas explorações sexuais sejam
garantidas contra conseqüências indesejáveis (já que incontroláveis). Afinal, é estratégia geral nas
promoções apresentar o produto em oferta como a solução procurada para problemas que ou já vinham
assombrando seus prováveis clientes ou acabaram de ser inventados para se adequarem ao potencial do
produto.
Com muita freqüência, a peça publicitária substitui o todo pela parte. As vendas crescem graças a
suprimentos de angústia que excedem em muito a capacidade de cura do produto. Com efeito, usar
preservativo protege os parceiros sexuais de serem infectados pelo HIV. Mas essa infecção não é senão
uma das muitas conseqüências imprevistas e certamente não-negociadas dos encontros sexuais que
tornam o homo sexualis desejoso de que o sexo seja "seguro". Tendo escapado de um porto exíguo,
embora controlado para navegar por águas inexploradas, sem mapa nem bússola, o sexo começou a ser
visto como decididamente "inseguro" bem antes que a descoberta da aids fornecesse o rótulo e o ponto
focal para temores difusos e inominados.
O maior deles provinha da ambigüidade do encontro sexual: seria esse o passo inicial na direção
de um relacionamento ou sua coroação e seu término? Um estágio numa seqüência significativa ou um
episódio singular, um meio para um fim ou um ato independente? Nenhuma união de corpos pode, por
mais que se tente, escapar à moldura social e cortar todas as conexões com outras facetas da existência
social. Privado de seu antigo prestígio social e de significados que antes eram socialmente aprovados, o
sexo encapsulava a incerteza aflitiva e alarmante que se tornou a principal ruína da líquida vida moderna.
Qualificar os parceiros sexuais tornou-se o primeiro foco de ansiedade. Que tipo de
compromissos, se é que algum, a união de corpos impõe? De que forma eles afetam o futuro dos
parceiros, se é que afetam? O encontro sexual pode ser isolado dos demais propósitos da vida, ou será que
ele vai (tender a, ganhar espaço para) esparramar-se pelo resto da existência, saturando-a e
transformando-a?
Em si mesma, a união sexual é de curta duração -- na vida dos parceiros, é um episódio. Como
aponta Milan Kundera, um episódio "não é a conseqüência inevitável de uma ação precedente, nem a
causa do que virá em seguida"'. A imaculada conceição cum esterilidade, a ausência essencial da
possibilidade de contágio, é uma das belezas do episódio -- e assim, podemos dizer, também é a beleza
de um encontro sexual, contanto que este continue sendo um episódio. O problema, porém, é que
"ninguém pode garantir que um evento totalmente episódico não contenha em si uma força capaz de
algum dia transformar-se, inesperadamente, na causa de eventos futuros". Para resumir uma longa
história: "nenhum episódio está condenado a priori a permanecer eternamente como um episódio"
Nenhum episódio está a salvo de suas conseqüências. A insegurança decorrente é eterna. A incerteza
nunca se dissipará de modo total e irrevogável. Pode apenas ser suspensa por um tempo indeterminado --
mas o próprio recipiente da suspensão é assaltado por dúvidas e assim se torna outra fonte de cansativa
insegurança.

O casamento é, pode-se dizer, a aceitação da causalidade que os encontros casuais se recusam a
aceitar (ou pelo menos uma declaração da intenção de aceitá-la -- enquanto a união durar).
Nesse caso, a ambigüidade se resolve e a incerteza é substituída pela garantia de que os atos
realmente têm uma importância que ultrapassa o seu próprio espaço temporal e acarretam conseqüências
34
que podem durar mais do que as suas causas. A incerteza é exilada da vida dos parceiros e seu retorno
é impedido enquanto o término do casamento não esteja em vista.
Mas será possível banir a incerteza sem concordar com essa condição -- um preço que muitos
parceiros considerariam alto demais? Impossível, se nunca se pode estar certo de que, como indica
Kundera, o episódio não foi nada mais que um episódio. Mas ainda se pode tentar, e de fato se tenta, e por
mais adversas que sejam as probabilidades dificilmente desistimos de tentar mudá-las em nosso favor.
Reconhecidamente, os parisienses tentam mais que a maioria, e de modo mais engenhoso. Em
Paris, o échangisme11 (um nome novo e, dada a recente igualdade entre os sexos, mais politicamente
correto para um conceito um pouco mais antigo, recendendo a patriarcalismo, a troca de esposas)
supostamente se tornou a moda, o jogo mais popular e o principal assunto do momento.
Les échangistes estão matando dois coelhos com uma só cajadada. Em primeiro lugar, eles
afrouxam um pouco os grilhões do compromisso matrimonial, concordando em tornar menos obrigatórias
as suas conseqüências e, portanto, um pouco menos angustiante a incerteza gerada pela obscuridade
endêmica das expectativas. Em segundo lugar, conseguem cúmplices leais em seu esforço para rechaçar
as conseqüências incertas, e portanto irritantes, do encontro sexual -- já que todas as partes interessadas,
tendo participado do evento e portanto desejosas de evitar que escape à moldura do episódio, seguramente
estarão juntas nesse rechaço.
Como estratégia para enfrentar o espectro da incerteza, do qual, como se sabe, os episódios
sexuais estão repletos, o échangisme tem uma vantagem sobre o sexo casual e outros encontros
igualmente arriscados e de curta duração. A proteção contra conseqüências indesejáveis é, nesse caso,
dever e preocupação de outra pessoa e, na pior das circunstâncias, não constitui um esforço solitário, mas
uma tarefa compartilhada com aliados poderosos e dedicados. A vantagem do échangisme sobre o
simples adultério é particularmente gritante. Nenhum dos échangistes é traído, nenhum deles tem os
interesses ameaçados e, tal como no modelo ideal de Habermas da "comunicação não-distorcida", todos
são participantes. O ménage à quatre (ou six, huit... quanto mais melhor) está livre de todas as pragas e
deficiências que se sabe serem a maldição do ménage à trois.
Como se poderia esperar quando o propósito e alvo da iniciativa é afastar o fantasma da
insegurança, o échangisme procura entrincheirar-se em instituições contratuais e obter o apoio da lei. A
pessoa torna-se échangiste ingressando num clube, assinando um formulário, prometendo obediência às
regras (e esperando que todos os outros à sua volta tenham feito o mesmo) e recebendo um cartão de
sócio para garantir o ingresso e assegurar que quem está lá dentro seja simultaneamente um parceiro e um
jogo. Já que todos os que lá se encontram conhecem os objetivos e regras do clube e prometeram observá-
los, toda discussão ou uso da força, todos os perigos da sedução e de outras preliminares incômodas e
precárias, infestadas de resultados incertos, se tornaram redundantes.
Ou assim parece, por algum tempo. As convenções do échangisme podem, como já prometeram
os cartões de crédito, evitar a espera para se satisfazer os desejos. Da mesma forma que a maioria das
inovações tecnológicas recentes, elas encurtam a distância entre o impulso e sua satisfação e fazem com
que a passagem de um a outro seja mais rápida e menos trabalhosa. E podem também evitar que um
parceiro exija mais benefícios do que o encontro episódico permite.
Mas será que elas defendem o homo sexualis de si mesmo? Será que os anseios irrealizados, as
frustrações amorosas, os temores de ficar só e de se ferir, a hipocrisia e a culpa são deixados para trás
depois de uma visita ao clube? Será possível encontrar lá a intimidade, a alegria, a ternura, a afeição e o
amor? Bem, o visitante pode dizer de boa-fé: isto é sexo, seu estúpido -- não tem nada a ver com nada
disso. Mas se ele ou ela estiver certo(a), será que o sexo em si é importante? Ou que, seguindo Sigusch, se
a substância da atividade sexual é a obtenção do prazer instantâneo, "então o mais importante não é o que
se faz, mas simplesmente que aconteça".

Comentando Bodies that matter: On the discursive limits of sex, obra altamente influente de Judith
Butler (6), Sigusch assinala que, "de acordo com as teóricas que agora dão o tom no discurso de
gênero, tanto sexo quanto gênero são inteiramente determinados pela cultura, desprovidos de
qualquer caráter natural e, portanto, alteráveis, transitórios e passíveis de subversão".
É como se a oposição natureza-cultura não fosse o melhor arcabouço no qual se pudessem
inscrever os dilemas do atual embaraço a respeito de sexo/gênero. O que está em disputa é o grau em que
11
No Brasil conhecido como suingue ou troca de casais. (N.T.)
35
vários tipos de inclinações/preferências/identidades são flexíveis, alteráveis e dependentes da escolha
do sujeito. Mas as oposições entre cultura e natureza, e entre "é uma questão de escolha" e "os seres
humanos são incapazes de evitar e nada podem fazer a respeito", mais se superpõem como durante grande
parte da história moderna e até recentemente. No discurso popular, a cultura se apresenta cada vez mais
como a parte herdada da identidade que não se pode nem deve remendar (senão por obra e risco de quem
remenda), enquanto os traços e atributos tradicionalmente classificados como "naturais" (hereditários,
geneticamente transmitidos) são cada vez mais considerados sujeitos à manipulação humana e portanto
abertos à escolha -- uma escolha em relação à qual, como sempre, quem escolhe deve sentir-se
responsável e assim ser visto pelos outros.
Desse modo, não importa muito se as predileções sexuais (articuladas como "identidade sexual")
são "dons da natureza" ou "construtos culturais". O que realmente importa é se cabe ao homo sexualis
determinar (descobrir ou inventar) qual (ou quais) das múltiplas identidades sexuais melhor se ajusta a ele
ou ela, ou se, tal como o homo sapiens no caso da "comunidade de nascimento", ele ou ela está
destinado(a) a abraçar esse destino e viver sua vida de uma forma que transforme uma sina inalterável
numa vocação pessoal.
Qualquer que seja o vocabulário usado para articular a atual situação do homo sexualis, e quer se
vejam o autotreinamento e a autodescoberta ou as intervenções médicas e genéticas como o caminho
certo para se atingir a identidade sexual adequada/desejada, o essencial continua sendo a "alterabilidade",
a transitoriedade, a não-finalidade das identidades sexuais assumidas, quaisquer que sejam. A vida do
homo sexualis é, por esse motivo, carregada de ansiedade. Há sempre a suspeita -- mesmo que
apaziguada e inativa por algum tempo -- de que se esteja vivendo uma mentira ou um equívoco; de que
algo de importância crucial foi esquecido, perdido, negligenciado, permanecendo não-ensaiado e
inexplorado; de que não se cumpriu uma obrigação vital para o eu autêntico da própria pessoa, ou de que
algumas oportunidades de felicidade de um tipo desconhecido, completamente diferentes do que se
vivenciou antes, ainda não foram aproveitadas e tendem a se perder para sempre se continuarem
desconsideradas.
O homo sexualis está condenado a permanecer para sempre incompleto e irrealizado -- mesmo numa era
em que o fogo sexual, que no passado se teria arrefecido, agora deve ser, espera-se, novamente insuflado
pelos esforços conjuntos de nossas ginásticas miraculosas e de nossos remédios maravilhosos. A viagem
nunca termina, o itinerário é recomposto a cada estação e o destino final é sempre desconhecido.

A subdefinição, a incompletude e a ausência de finalidade da identidade sexual (tal como todas as
outras facetas da identidade nos líquidos ambientes modernos) são um veneno e seu antídoto
misturados numa poderosa superdroga antitranqüilizante.
A consciência dessa ambivalência é desalentadora e não produz o fim da ansiedade. Gera uma
incerteza que só pode ser temporariamente apaziguada, jamais totalmente extinta. Contamina qualquer
condição escolhida/atingida com dúvidas persistentes a respeito de sua propriedade e sabedoria. Mas
também protege da humilhação que vem com o fracasso parcial ou total. Há sempre a possibilidade de
pôr a culpa numa escolha, considerando-a equivocada, e não na incapacidade de aproveitar as
oportunidades por ela oferecidas, pelo fato de a bem-aventurança prevista não ter conseguido se
materializar. Há sempre uma chance de abandonar a estrada pela qual se chegaria à realização e
recomeçar -- mesmo que a partir do zero, se as perspectivas parecerem atraentes.
O efeito combinado do veneno e do antídoto é manter o homo sexualis em perpétuo movimento,
empurrado à frente ("esse tipo de sexualidade não conseguiu produzir a experiência culminante que me
disseram que traria") e puxado para trás ("outros tipos que vi e ouvi estão ao meu alcance -- é apenas
uma questão de decisão e esforço").
O homo sexualis não é uma condição, muito menos uma condição permanente e imutável, mas um
processo, cheio de tentativas e erros, viagens exploratórias arriscadas e descobertas ocasionais,
intercaladas por numerosos tropeços, arrependimentos por oportunidades perdidas e alegrias por prazeres
ilusórios.

Em seu ensaio sobre a moral sexual "civilizada" (7), Sigmund Freud insinua que a civilização se
baseia em grande parte na exploração e mobilização da capacidade natural humana de "sublimar"
36
os instintos sexuais: "trocar [o] propósito originalmente sexual por algum outro" --
particularmente por causas socialmente úteis.
Para atingir esse efeito, os escoadouros "naturais" dos instintos sexuais (tanto auto-eróticos quanto
objeto-eróticos) são represados -- cortados de vez ou pelo menos parcialmente bloqueados. Imprestável e
em desuso, o impulso sexual é então redirecionado por meio de dutos socialmente construídos para alvos
resultantes do mesmo processo. "As forças que podem ser empregadas para atividades culturais são,
portanto, em grande medida, obtidas por meio da supressão daquilo que se conhece como elementos
perversos da excitação sexual."
Segundo Derrida, é justificado suspeitarmos de uma circularidade fatal nessa última proposição.
Certos "elementos de excitação sexual" são considerados "perversos" porque resistem à supressão e,
portanto, não podem ser empregados para as atividades definidas como culturais (isto é, meritórias). No
entanto, para o homo sexualis inserido no líquido ambiente moderno, as fronteiras que separam as
manifestações "saudáveis" e "perversas" em matéria de instintos sexuais estão totalmente embaçadas.
Todas as formas de atividade sexual são não apenas toleradas, mas freqüentemente indicadas como
terapias úteis para uma ou outra forma de enfermidade psicológica, e cada vez mais aceitas como vias
legítimas na busca individual da felicidade, sendo estimulada a sua exibição em público. (A pedofilia e a
pornografia infantil constituem possivelmente os únicos escoadouros do impulso sexual que continuam
sendo quase unanimemente execrados como perversos. Sobre esse aspecto, porém, Sigusch comenta, de
modo cáustico embora correto, que o segredo dessa unanimidade atípica pode estar no fato de que a
oposição à pornografia infantil "nada exige de nós senão o óleo do humanismo que tão efetivamente
lubrificou, no passado, as rodas da violência. Só alguns, contudo, se colocam seriamente a favor de
programas capazes de salvar vidas de crianças, já que custariam dinheiro e conforto ao mesmo tempo em
que exigiriam a adoção de um modo de existência diferente".)
Em nossa líquida era moderna, os poderes constituídos não mais parecem interessados em traçar a
fronteira entre o sexo correto" e o "perverso" A razão talvez seja a rápida queda da demanda pelo
emprego da energia sexual economizada em favor de "causas civilizantes" (leia-se: a produção de
disciplina sobre os padrões de comportamento rotineiro, funcionais numa sociedade de produtores) --
desvio que Freud, escrevendo no início do século XX, dificilmente poderia ter adivinhado, para não dizer
visualizado.
Os objetos "socialmente úteis" oferecidos para descarga sexual não precisam mais ser disfarçados
como "causas culturais". Eles desfilam, com orgulho e, sobretudo, grandes benefícios, sua sexualidade
endêmica ou inventada. Depois da época em que a energia sexual tinha de ser sublimada para que a linha
de montagem de automóveis se mantivesse em movimento, veio uma época em que a energia sexual
precisava ser ampliada e liberada para selecionar qualquer canal que pudesse estar à mão e estimulada a
se expandir, de modo que os veículos que saíam da linha de montagem pudessem ser ardentemente
desejados como objetos sexuais.
Parece que o elo entre a sublimação do instinto sexual e sua repressão, que Freud considerava
condição indispensável de qualquer arranjo social disciplinado, foi rompido. A líquida sociedade moderna
descobriu uma forma de explorar a propensão/ receptividade humana a sublimar os instintos sexuais sem
recorrer à repressão, ou pelo menos limitando-a radicalmente. Isso aconteceu graças à progressiva
desregulação do processo sublimatório, agora difuso e disperso, o tempo todo mudando de direção e
guiado pelasedução dos objetos de desejo sexual em oferta, e não por quaisquer pressões coercitivas.

Communitas em oferta

Quando a qualidade o decepciona, você procura a salvação na quantidade. Quando a duração não
está disponível, é a rapidez da mudança que pode redimi-lo.
Se você se sente pouco à vontade nesse mundo fluido, perdido em meio à profusão de sinais de
trânsito contraditórios que parecem mover-se como uma estante sobre rodinhas, visite um ou mais
daqueles especialistas para cujos serviços nunca houve demanda nem oferta maiores.
Adivinhos e astrólogos de eras passadas costumavam dizer a seus clientes como seria o seu futuro,
pré-decidido, imutável e implacável, independente do que fizessem ou deixassem de fazer. Os
especialistas de nossa fluida era moderna, mais provavelmente, repassariam a responsabilidade a seus
confusos e perplexos clientes.
37
Estes descobririam que sua ansiedade pode ser atribuída a seus feitos e desfeitos, e procurariam
(e certamente encontrariam os erros cometidos ao longo de suas vidas): pouca autoconfiança,
autoproteção ou auto-adestramento, porém mais provavelmente, falta de flexibilidade, apego demasiado a
velhas rotinas, pessoas ou lugares, carência de entusiasmo por mudanças e uma indisposição para mudar
uma segunda vez. Os especialistas podem recomendar mais apreço, vigília e cuidado por si mesmo, maior
atenção à capacidade interior para o prazer e a satisfação -- assim como "depender" menos dos outros e
dar menos consideração às demandas destes por atenção e cuidado; maior distanciamento e sobriedade ao
fazer o balanço das expectativas razoáveis de ganhos e das perspectivas realistas de perdas. Os clientes
que aprenderam diligentemente as lições e seguiram fielmente os conselhos de agora em diante devem se
perguntar com maior freqüência "o que eu ganho com isso?" e exigir mais resolutamente dos parceiros, e
de todos os demais, que lhes dêem "mais espaço" -- ou seja, manter-se distanciados e não esperar,
tolamente, que os compromissos assumidos durem para sempre.
Não se deixe apanhar. Evite abraços muito apertados. Lembre-se de que, quanto mais profundas e
densas suas ligações, compromissos e engajamentos, maiores os seus riscos. Não confunda a rede -- um
turbilhão de caminhos sobre os quais se pode deslizar -- com uma malha, essa coisa traiçoeira que, vista
de dentro, parece uma gaiola.
E lembre-se, claro, de que apostar todas as suas fichas em um só numero é a máxima insensatez!

Seu celular está sempre tocando (ou assim você espera).
Uma mensagem brilha na tela em busca de outra. Seus dedos estão sempre ocupados: você
pressiona as teclas, digitando novos números para responder às chamadas ou compondo suas próprias
mensagens. Você permanece conectado -- mesmo estando em constante movimento, e ainda que os
remetentes ou destinatários invisíveis das mensagens recebidas e enviadas também estejam em
movimento, cada qual seguindo suas próprias trajetórias. Os celulares são para pessoas em movimento.
Você nunca perde de vista o seu celular. Sua roupa de jogging tem um bolso especial para ele, e
você nunca sai com aquele bolso vazio, da mesma forma que não vai correr sem o seu tênis. Na verdade,
você não iria a nenhum lugar sem o celular ("nenhum lugar" é, afinal, o espaço sem um celular, com um
celular fora de área ou sem bateria). Estando com o seu celular, você nunca está fora ou longe. Encontra-
se sempre dentro -- mas jamais trancado em um lugar. Encasulado numa teia de chamadas e mensagens,
você está invulnerável. As pessoas a seu redor não podem rejeitá-lo e, mesmo que tentassem, nada do que
realmente importa iria mudar.
Não importa onde você está, quem são as pessoas à sua volta e o que você está fazendo nesse lugar onde
estão essas pessoas. A diferença entre um lugar e outro, entre um e outro grupo de pessoas ao alcance de
sua visão e de seu toque, foi suprimida, tornou-se nula e vazia. Você é o único ponto estável num
universo de objetos em movimento -- e assim o são igualmente (graças a você, graças a você!) suas
extensões: suas conexões. Estas permanecerão incólumes apesar de os que estão conectados por elas se
moverem. Conexões são rochas em meio a areias movediças. Com elas você pode contar -- e, já que
confia na sua solidariedade, pode parar de se preocupar com o aspecto lamacento e traiçoeiramente
escorregadio do terreno onde está pisando quando uma chamada ou mensagem é enviada ou recebida.
Uma chamada não foi respondida? Uma mensagem não foi retornada? Também não há motivo
para preocupação. Existem muitos outros números de telefones na lista, e aparentemente não há limite
para o volume de mensagens que você pode, com a ajuda de algumas teclas diminutas, comprimir naquele
pequeno objeto que se encaixa tão bem em sua mão. Pense nisto (quer dizer, se houver tempo para
pensar): é absolutamente improvável chegar ao fim de seu catálogo portátil ou digitar todas as mensagens
possíveis. Há sempre mais conexões para serem usadas -- e assim não tem grande importância quantas
delas se tenham mostrado frágeis e passíveis de ruptura. O ritmo e a velocidade do uso e do desgaste
tampouco importam. Cada conexão pode ter vida curta, mas seu excesso é indestrutível. Em meio à
eternidade dessa rede imperecível, você pode se sentir seguro diante da fragilidade irreparável de cada
conexão singular e transitória.
Dentro da rede, você pode sempre correr em busca de abrigo quando a multidão à sua volta ficar
delirante demais para o seu gosto. Graças ao que se torna possível desde que seu celular esteja escondido
com segurança no seu bolso, você se destaca da multidão -- e destacar-se é a ficha de inscrição para
sócio, o termo de admissão nessa multidão.
38
Uma multidão de pessoas destacadas: um enxame, para ser mais preciso. Um agregado de indivíduos
autopropulsores que não precisam de comandantes, testas-de-ferro, porta-vozes, agentes provocadores ou
informantes para se manterem juntos. Um agregado em movimento no qual cada unidade móvel faz a
mesma coisa, mas nada é feito em conjunto. As unidades marcham no mesmo passo sem sair do
alinhamento. Coerente consigo mesma, a multidão expulsa ou atropela as unidades que se destacam --
mas são apenas essas as unidades toleradas pelo enxame.
Os telefones celulares não criam o enxame, embora sem dúvida ajudem a mantê-lo como é -- um
enxame. Este, por sua vez, estava esperando por Nokias e Ericssons e Motorolas ávidos por servi-lo. Se
não houvesse enxame, qual seria a utilidade dos celulares?

Aos que se mantêm à parte, os celulares permitem permanecer em contato. Aos que permanecem
em contato, os celulares permitem manter-se à parte...
Jonathan Rowe nos lembra:

No final da década de 1990, em meio ao boom da alta tecnologia, passei algumas horas num café na área dos teatros
de São Francisco... Observei uma cena recorrente lá fora. A mãe está amamentando o bebê. Os garotos estão
beliscando seus bolinhos, em suas cadeiras, com os pés balançando. E lá está o pai, ligeiramente reclinado sobre a
mesa, falando ao celular ... Deveria ser uma "revolução nas comunicações", e no entanto aqui, no epicentro
tecnológico, os membros dessa família estavam evitando os olhares uns dos outros (8)

Dois anos depois, Rowe provavelmente veria quatro celulares em operação em torno da mesa. Os
aparelhos não impediriam que a mãe amamentasse o bebê nem que os garotos beliscassem seus bolinhos.
Mas tornariam desnecessário que eles evitassem olhar-se nos olhos: àquela altura, de qualquer forma, os
olhos já se teriam tornado paredes em branco -- e uma parede em branco não pode sofrer danos por
encarar uma outra. Com tempo suficiente, os celulares treinariam os olhos a olhar sem ver.
Como aponta John Urry, "as relações de co-presença sempre envolvem contigüidade e
afastamento, proximidade e distância, sensatez e imaginação" (9). É verdade; mas a presença ubíqua e
contínua da terceira -- da "proximidade virtual", universal e permanentemente disponível graças à rede
eletrônica -- faz a balança pender decididamente em favor do afastamento, da distância e da imaginação.
Ela anuncia (ou será que pressagia?) uma separação final entre o "fisicamente distante" e o
"espiritualmente remoto". O primeiro não é mais condição para o segundo. Este agora tem sua própria
"base material" high-tech, infinitamente mais ampla, flexível, variada, atraente e prenhe de aventura do
que qualquer rearranjo de corpos materiais. E a proximidade física tem menos chance do que nunca de
interferir no afastamento espiritual...
Urry está correto ao descartar as profecias que falam de um iminente desaparecimento das
viagens, tornadas redundantes pela facilidade de conexão eletrônica. Se não por outro motivo, porque o
advento do deslocamento eletronicamente garantido faz com que viajar se torne mais seguro, menos
arriscado e excludente-- e assim anula muitos dos antigos limites ao poder magnético de "conhecer
lugares". Os celulares assinalam, material e simbolicamente, a derradeira libertação em relação ao lugar.
Estar perto de uma tomada não é mais a única condição para "permanecer conectado". Os viajantes
podem eliminar de seus cálculos de perdas e ganhos as diferenças entre partir e ficar, distância e
proximidade, civilização e isolamento.
Muito software e hardware foi enterrado no cemitério dos computadores desde que o inesquecível
Peter Sellers tentou em vão no filme Muito além do jardim (1979), de Hal Ashby, desligar um bando de
freiras com a ajuda de um controle remoto de televisão. Nos dias de hoje ele não teria dificuldade em
deletá-las do quadro -- do quadro que ele viu, do seu quadro, a soma de todas as relevâncias do mundo
ao seu alcance. O outro lado da moeda da proximidade virtual é a distância virtual: a suspensão, talvez até
a anulação, de qualquer coisa que transforme a contigüidade topográfica em proximidade. A proximidade
não exige mais a contigüidade física; e a contigüidade física não determina mais a proximidade.
É uma questão em aberto saber qual lado da moeda mais contribuiu para fazer da rede eletrônica e
de seus implementos de entrada e saída um meio de troca tão popular e avidamente usado nas interações
humanas. Será a nova facilidade de conectar-se? Ou a de cortara conexão? Não faltam ocasiões em que
esta última parece mais urgente e importante que a primeira.
O advento da proximidade virtual torna as conexões humanas simultaneamente mais freqüentes e
mais banais, mais intensas e mais breves. As conexões tendem a ser demasiadamente breves e banais para
39
poderem condensar-se em laços. Centradas no negócio à mão, estão protegidas da possibilidade de
extrapolar e engajar os parceiros além do tempo e do tópico da mensagem digitada e lida -- ao contrário
daquilo que os relacionamentos humanos, notoriamente difusos e vorazes, são conhecidos por perpetrar.
Os contatos exigem menos tempo e esforço para serem estabelecidos, e também para serem rompidos. A
distância não é obstáculo para se entrar em contato -- mas entrar em contato não é obstáculo para se
permanecer à parte. Os espasmos da proximidade virtual terminam, idealmente, sem sobras nem
sedimentos permanentes. Ela pode ser encerrada, real e metaforicamente, sem nada mais que o apertar de
um botão.
A realização mais importante da proximidade virtual parece ser a separação entre comunicação e
relacionamento. Diferentemente da antiquada proximidade topográfica, ela não exige laços estabelecidos
de antemão nem resulta necessariamente em seu estabelecimento. "Estar conectado" é menos custoso do
que "estar engajado" -- mas também consideravelmente menos produtivo em termos da construção e
manutenção de vínculos.

A proximidade virtual reduz a pressão que a contigüidade não-virtual tem por hábito exercer. Ela
também estabelece o padrão para todas as outras proximidades. Toda proximidade está agora no
limite de medir seus méritos e falhas pelo modelo da proximidade virtual.
A proximidade virtual e a não-virtual trocaram de lugar: agora a variedade virtual é que se tornou
a "realidade", segundo a descrição clássica de Émile Durkheim: algo que fixa, que "institui fora de nós
certas formas de agir e certos julgamentos que não dependem de cada vontade particular tomada
isoladamente"; algo que "deve ser reconhecido pelo poder de coerção externa" e pela "resistência
oferecida a todo ato individual que tenda a transgredi-la" (10). A proximidade não-virtual termina
desprovida dos rígidos padrões de comedimento e dos rigorosos paradigmas de flexibilidade que a
proximidade virtual estabeleceu. Se não puder imitar aquilo que esta transformou em norma, a
proximidade topográfica vai se tornar um "ato de transgressão" que certamente enfrentará resistência. E
assim se permite que a proximidade virtual desempenhe o papel da genuína e inalterada realidade real
pela qual todos os outros pretendentes ao status de realidade devem se avaliar e ser julgados.
Todo o mundo já viu, escutou e não conseguiu deixar de entreouvir a conversa de outros
passageiros no ônibus falando sem parar em seus telefones. Há homens de negócios ávidos por se
manterem ocupados e parecerem eficientes -- ou seja, por se conectarem a tantos usuários de celulares
quanto possível e mostrarem que de fato existem muitos deles prontos a receber sua chamada. Há
adolescentes e jovens de ambos os sexos dizendo a alguém, em casa, por que estação haviam acabado de
passar e qual seria a próxima. Você pode ter tido a impressão de que eles estavam contando os minutos
que os separavam de seus lares e mal podiam esperar para estar com seus interlocutores em pessoa.
Talvez não lhe tenha ocorrido que muitas dessas conversas entreouvidas não eram ouvertures de
conversas mais longas e substantivas que prosseguiriam em seu lugar de destino -- mas seus substitutos.
Que essas conversas não estavam preparando o terreno para a coisa real, mas eram, elas próprias,
exatamente isso: a coisa real... Que muitos desses jovens ávidos por dar seus paradeiros a ouvintes
invisíveis iriam dentro em breve, logo que chegassem, correr para seus próprios quartos e trancar as
portas.
Quando estávamos a uns poucos anos do súbito desenvolvimento da proximidade virtual
eletronicamente acionada, Michael Schluter e David Lee observaram que "nós usamos a privacidade
como um traje pressurizado ... Tudo menos convidar ao encontro; tudo menos envolver-se". Os lares não
são mais ilhas de intimidade em meio aos mares, em rápido resfriamento, da privacidade. Transformaram-
se de compartilhados playgrounds do amor e da amizade em locais de escaramuças territoriais, e de
canteiros de obras onde se constrói o convívio em conjuntos de bunkers fortificados. "Nós entramos em
nossas casas separadas e fechamos a porta, e então entramos em nossos quartos separados e fechamos a
porta. A casa torna-se um centro de lazer multiuso em que os membros da família podem viver, por assim
dizer, separadamente lado a lado." (11)
Seria tolo e irresponsável culpar as engenhocas eletrônicas pelo lento mas constante recuo da
proximidade contínua, pessoal, direta, face a face, multifacetada e multiuso. E no entanto a proximidade
virtual ostenta características que, no líquido mundo moderno, podem ser vistas, com boa razão, como
vantajosas -- mas que não podem ser facilmente obtidas sob as condições daquele outro tête-à-tête, não-
virtual. Não admira que a proximidade virtual tenha ganhado a preferência e seja praticada com maior
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zelo e espontaneidade do que qualquer outra forma de contigüidade. A solidão por trás da porta
fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais
segura do que compartilhar o terreno doméstico comum.
Quanto mais atenção humana e esforço de aprendizado forem absorvidos pela variedade virtual de
proximidade, menos tempo se dedicará à aquisição e ao exercício das habilidades que o outro tipo de
proximidade, não-virtual, exige. Essas habilidades caem em desuso -- são esquecidas, nem chegam a ser
aprendidas, são evitadas ou a elas se recorre, se isso chega a acontecer, com relutância. Seu
desenvolvimento, se requerido, pode apresentar um desafio incômodo, talvez até insuperável. Isso
aumenta os encantos da proximidade virtual. Uma vez aberta, a passagem da proximidade não-virtual
para a virtual adquire seu próprio ímpeto. Ela parece autoperpetuadora, e também é capaz de se auto-
acelerar.

"Na medida em que a geração amamentada pela rede ingressa em seus primeiros anos de namoro,
o namoro pela internet está decolando. E não se trata de um último recurso. É uma atividade
recreativa. É diversão."
Assim pensa Louise France (12). Para os atuais corações solitários, as discotecas e bares para
solteiros são uma recordação distante, conclui ela. Eles não adquiriram (e não temem não ter adquirido) o
suficiente em termos de ferramentas de sociabilidade que fazer amigos em tais lugares exigiria. Além
disso, o namoro pela internet tem vantagens que os encontros pessoais não têm: nestes últimos, o gelo,
uma vez quebrado, pode permanecer quebrado ou derreter-se de uma vez por todas, mas no namoro pela
internet é muito diferente. Como confidenciou um entrevistado de 28 anos da Universidade de Bath:
"Você sempre pode apertar a tecla para deletar. Deixar de responder um e-mail é a coisa mais fácil do
mundo." France comenta: os usuários dos recursos de namoro on-line podem namorar com segurança,
protegidos por saberem que sempre podem retornar ao mercado para outra rodada de compras. Ou, como
o insinua o dr. Jeff Gavin, da Universidade de Bath, citado por France: na internet pode-se namorar "sem
medo de `repercussões' no mundo real". Ou, de qualquer maneira, é assim que a pessoa se sente ao
conseguir parceiros na internet. É como folhear um catálogo de reembolso postal que traz na primeira
página o aviso "compra não-obrigatória" e a garantia ao consumidor da "devolução do produto caso não
fique satisfeito".
Terminar quando se deseje -- instantaneamente, sem confusão, sem avaliação de perdas e sem
remorsos -- é a principal vantagem do namoro pela internet. Reduzir riscos e, simultaneamente, evitar a
perda de opções é o que restou de escolha racional num mundo de oportunidades fluidas, valores
cambiantes e regras instáveis. E o namoro pela internet, ao contrário da incômoda negociação de
compromissos mútuos, se ajusta perfeitamente (ou quase) aos novos padrões de escolha racional.
Os shopping centers muito têm feito para reclassificar o labor da sobrevivência como diversão e
recreação. O que costumava ser sofrido e suportado com uma mistura de ressentimento e repulsa, sob a
pressão refratária da necessidade, tem adquirido os poderes sedutores de uma promessa de prazeres
incalculáveis sem a adição de riscos igualmente incalculáveis. O que os shopping centers fizeram pelas
tarefas da sobrevivência diária, o namoro pela internet tem feito pela negociação de parceria. Mas, tal
como o alívio da necessidade e as pressões da "pura sobrevivência" eram condições necessárias para o
sucesso dos shopping centers, assim também o namoro pela internet dificilmente teria êxito se não tivesse
sido ajudado e favorecido por terem sido eliminados da lista de suas condições necessárias o engajamento
full-time, o compromisso e a obrigação "de estar à disposição quando o outro precisa".
A responsabilidade por eliminar essas condições não pode ser atribuída à porta virtual do namoro
eletrônico. Muito mais tem acontecido no caminho em direção à líquida e individualizada sociedade
moderna para tornar os compromissos de longo prazo pouco numerosos, o engajamento a longo prazo
uma rara expectativa e a obrigação de assistência mútua incondicional uma perspectiva que nem é realista
nem percebida como digna de grandes esforços.

A suposta chave para a felicidade de todos, e assim o propósito declarado da política, é o
crescimento do produto nacional bruto (PNB). E o PNB é medido pela quantidade de dinheiro gasta
por todo mundo em conjunto.
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"Deixe de lado a exacerbação e a histeria", escrevem Jonathan Rowe e Judith Silverstein, "e
crescer significará apenas 'gastar mais dinheiro'. Não faz diferença para onde o dinheiro vai, nem por
quê." (13)
Com efeito, a maior parte do dinheiro gasto, e mais ainda do crescimento dos gastos, é usada para
financiar a luta contra o equivalente, para a sociedade de consumo, das "moléstias iatrogênicas" --
problemas causados pela exacerbação e posterior apaziguamento dos impulsos e novidades de ontem. A
indústria norte-americana de alimentos gasta por ano cerca de 21 bilhões de dólares semeando e
cultivando o desejo por comidas mais sofisticadas, exóticas e supostamente mais saborosas e excitantes,
enquanto a indústria de produtos dietéticos e de emagrecimento fatura 32 bilhões, e os dispêndios com
tratamento médico, em grande parte explicados pela necessidade de enfrentar a maldição da obesidade,
devem dobrar no curso da próxima década. Os habitantes de Los Angeles pagam uma média de 800
bilhões de dólares por ano para queimar petróleo, enquanto os hospitais recebem números recordes de
pacientes sofrendo de asma, bronquite e outros problemas respiratórios causados pela poluição
atmosférica, elevando suas contas já recordistas. À medida que consumir (e gastar) mais do que ontem,
porém (espera-se) nem tanto quanto amanhã, se torna a estrada imperial para a solução de todos os
problemas sociais, e que o céu se torna o limite para o poder de sedução das sucessivas formas de atrair o
consumidor, as empresas de cobrança de débitos, as firmas de segurança e as unidades penitenciárias
tornam-se importantes contribuintes para o crescimento do PNB. É impossível medir exatamente o papel
enorme e crescente que o estresse provocado pelas preocupações desgastantes dos consumidores líquido-
modernos desempenha no sentido de elevar as estatísticas do PNB.
A maneira aceita de calcular o "produto nacional bruto" e seu crescimento, e mais particularmente
o fetiche construído pela política atual em torno dos resultados desse cálculo, baseia-se num pressuposto
que não foi testado e cuja exposição é coisa rara --embora seja amplamente contestado quando quer que
isso aconteça: que a soma total da felicidade humana cresce conforme uma quantidade maior de dinheiro
troca de mãos. Numa sociedade de mercado, o dinheiro troca de mãos em toda sorte de ocasiões. Só para
dar alguns dos exemplos pungentes recolhidos por Jonathan Rowe", o dinheiro troca de mãos quando
alguém se torna inválido e o carro é totalmente destruído em um acidente automobilístico; quando
advogados elevam seus honorários para cuidar de uma ação de divórcio; ou quando pessoas instalam
filtros ou passam a beber água mineral porque a água potável não pode mais ser consumida. E assim, em
todos esses e em casos similares, o "produto interno" cresce, para regozijo dos políticos governantes e dos
economistas que fazem parte de suas equipes.
O modelo de PNB que domina (monopoliza) a maneira como os habitantes da líquida, consumiste
e individualizada sociedade moderna pensam sobre bem-estar ou sobre uma "boa sociedade" (nas raras
ocasiões em que admitem que tais pensamentos penetrem em suas preocupações com uma vida feliz e
exitosa) é mais notável não pelo que ele classifica, de modo equivocado ou claramente errôneo, mas por
aquilo que nem chega a classificar; por aquilo que ele deixa totalmente fora do cálculo, negando assim, na
prática, qualquer relevância tópica à questão da saúde nacional e do conforto individual e coletivo.

Tal como os Estados modernos, ocupados em ordenar e classificar, não podiam suportar a
existência de "homens desgovernados", e como os modernos impérios em expansão, ávidos por
territórios, não podiam suportar a existência de terras "de ninguém", os mercados modernos não
toleram bem a "economia de não-mercado": o tipo de vida que reproduz a si mesma sem que o
dinheiro troque de mãos.
Para os teóricos da economia de mercado, essa vida não conta -- e portanto não existe. Para os
praticantes da economia de mercado, ela constitui uma ofensa e um desafio -- um espaço ainda não
conquistado, um permanente convite à conquista, uma tarefa ainda não cumprida clamando por ação
urgente.
Considerando a natureza temporária de todo e qualquer modos coexistendi entre os mercados e
uma economia não-monetária, os teóricos atribuem à vida auto-reprodutiva ou aos fragmentos de vida
auto-reprodutivos nomes que sugerem sua anormalidade e extinção iminente. As pessoas que conseguem
produzir os bens de que necessitam para sustentar o seu modo de vida, e que portanto dispensam as
constantes visitas ao shopping, vivem "ao deus-dará"; levam um tipo de existência que extrai seu
significado unicamente daquilo que lhe faz falta ou que ela omite -- uma existência primitiva, miserável,
que precede o "salto econômico" com que tem início a vida normal, sem adjetivos. Cada exemplo de um
42
bem trocando de mãos sem um fluxo de dinheiro na direção oposta é relegado ao domínio obscuro da
"economia informal" -- novamente o termo adjetivado da oposição cujo outro membro, normal (ou seja,
a troca mediada por dinheiro), não necessita de especificação.
Os praticantes da economia de mercado fazem o possível para alcançar os lugares que os
especialistas em marketing ainda não conseguiram atingir. A expansão é ao mesmo tempo horizontal e
vertical, extensiva e intensiva: o que resta a ser conquistado são as terras ainda presas ao seu meio de vida
"ao deus-dará", mas também a parcela de tempo dedicada à economia "informal" entre as populações já
convertidas ao modo de existência comprador/consumidor. Os meios de subsistência não-monetários
precisam ser destruídos de modo que aqueles que deles vivem vejam-se diante da escolha entre comprar e
morrer de inanição (não que, uma vez convertidos à compra, tenham a garantia de escapar da fome). É
preciso mostrar que as áreas da vida ainda não mercantilizadas escondem perigos que não podem ser
afastados sem a ajuda de ferramentas e serviços comprados, ou que devem ser depreciadas como
inferiores, repulsivas e, em última instância, degradantes. E realmente o são.
O que está mais visivelmente ausente no cálculo econômico dos teóricos, e figura no topo da lista
dos alvos da guerra comercial segundo os praticantes do mercado, é a enorme área do que A.H. Halsey
denominou a "economia moral" -- o compartilhamento familiar de bens e serviços, a ajuda entre
vizinhos, a cooperação entre amigos: todos os motivos, impulsos e atos com que se costuram os vínculos
e compromissos duradouros entre os seres humanos.
O único personagem que os teóricos consideram merecedor de atenção, porque é a ele que se
atribui o mérito de "manter a economia em movimento" e de lubrificar as rodas do crescimento
econômico, é o homo oeconomicus -- o ator econômico solitário, auto-referente e autocentrado que
persegue o melhor ideal e se guia pela "escolha racional'; preocupado em não cair nas garras de quaisquer
emoções que resistam a ser traduzidas em ganhos monetários e vivendo num mundo cheio de outros
personagens que compartilham todas essas virtudes, e nada além. O único personagem que os praticantes
do mercado podem e querem reconhecer e acolher é o homo consumens o solitário, auto-referente e
autocentrado comprador que adotou a busca pela melhor barganha como uma cura para a solidão e não
conhece outra terapia; um personagem para quem o enxame de clientes do shopping center é a única
comunidade conhecida e necessária e que vive num mundo povoado por outros personagens que
compartilham todas essas virtudes com ele, e nada além.
Der Mann ohne Eigenschaften, o homem sem qualidades, da modernidade precoce amadureceu e
se tornou (ou teria sido obrigado a isso pela força numérica das massas?) der Mann ohne
Verwandtschaften, o homem sem vínculos.
O homo oeconomicus e o homo consumens são homens e mulheres sem vínculos sociais. São os
representantes ideais da economia de mercado e os tipos que agradam aos analistas do PNB.
Eles também são ficções.

À medida que as barreiras artificiais ao livre comércio são quebradas, uma após a outra, e as
naturais, erradicadas e destruídas, a expansão horizontal/extensiva da economia de mercado parece
caminhar para seu fim. Mas a expansão vertical/intensiva está longe de terminar, e chega-se a
duvidar se esse fim é mesmo provável -- ou se, de fato, sequer é concebível.
É graças à válvula de segurança da "economia moral" que as tensões geradas pela economia de
mercado não chegam a assumir proporções explosivas. É graças ao amortecedor da "economia moral" que
os dejetos humanos gerados pela economia de mercado não chegam a se tornar incontroláveis. Não fosse
pela intervenção corretiva, lenitiva, suavizante e compensadora da economia moral, a economia de
mercado exporia seu impulso autodestrutivo. O milagre diário da salvação/ressurreição da economia de
mercado deriva de seu fracasso em seguir esse impulso até o fim.
Admitir unicamente o homo oeconomicus e o homo consumens no mundo governado pela
economia de mercado incapacita um número considerável de seres humanos para a obtenção de
permissões de residência, enquanto consente a poucos deles -- se é que chega a isso -- desfrutar
legalmente esse direito em qualquer época e ocasião. Poucos podem escapar da área cinzenta sem
utilidade para o mercado e que este ficaria feliz em eliminar e banir de uma vez por todas do mundo que
governa.
O que do ponto de vista da conquista de mercado -- já realizada ou ainda pretendida -- é
representado como uma "área cinzenta" constitui, para seus habitantes conquistados, parcialmente
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conquistados ou destinados a isso, uma comunidade, um bairro, um círculo de amigos, parceiros na
vida e para a vida. Um mundo em que a solidariedade, a compaixão, a troca, a ajuda e a simpatia mútuas
(noções estranhas ao pensamento econômico e abominadas pela prática econômica) suspendem ou
afastam a escolha racional e a busca do auto-interesse. Um mundo cujos habitantes não são nem
concorrentes nem objetos de uso e de consumo, mas colegas (ajudantes e ajudados) no esforço contínuo e
interminável de construir vidas compartilhadas e torná-las possíveis.
A necessidade de solidariedade parece suportar as agressões do mercado e sobreviver a elas --
mas não porque o mercado deixe de tentar. Onde há necessidade há chance de lucro -- e os especialistas
em marketing levam sua engenhosidade ao limite para indicar maneiras de adquirir em lojas a
solidariedade, o sorriso amigo, o convívio ou a ajuda no momento de necessidade. Constantemente têm
êxito -- e constantemente fracassam. Sucedâneos comercializados não podem substituir vínculos
humanos. Em sua versão à venda, os vínculos se transformam em mercadorias, ou seja, são transportados
para um outro domínio, governado pelo mercado, e deixam de ser os tipos de vínculo capazes de
satisfazer a necessidade de convívio e que só nesta podem ser concebidos e mantidos vivos. Não pode ter
êxito a caçada movida pelo mercado ao capital descontrolado que se esconde na sociabilidade humana
(15).

Quando observada através das lentes de um mundo ordenado, adequadamente construído e
funcionando em harmonia, a "área cinzenta" da solidariedade, da amizade e das parcerias
humanas é vista como o reino da anarquia.
O conceito de "anarquia" carrega o peso de sua história essencialmente antiestatal. De Godwin a
Kropotkin, passando por Proudhon e Bakunin, os teóricos e fundadores dos movimentos anarquistas
apresentaram esse termo como a designação de uma sociedade alternativa, o avesso de uma ordem
coercitiva e imposta pelo poder. Essa sociedade que postulavam diferiria da existente devido à ausência
do Estado -- a síntese do poder desumano, intrinsecamente corruptor. Uma vez desmantelado e
eliminado o poder do Estado, os seres humanos recorreriam (retornariam?) aos valores da ajuda mútua,
usando, como Mikhail Bakunin vivia repetindo, sua capacidade natural de pensar e de se rebelar (16).
A fúria dos anarquistas do século XIX concentrava-se no Estado -- no Estado moderno, para ser
preciso, uma novidade na época, que ainda não estava entrincheirado de modo suficientemente sólido
para reclamar legitimidade tradicional ou basear-se na obediência rotinizada. O Estado empenhava-se em
obter um controle meticuloso e ubíquo sobre todos os aspectos da vida humana que os antigos poderes
haviam deixado para os recursos coletivos locais. Reclamava o direito e os meios legais para interferir em
áreas das quais os antigos poderes, embora opressivos e exploradores, mantinham distância. Em
particular, incumbiu-se de desmantelar les pouvoirs intermédiaires, ou seja, as formas de autonomia local,
de auto-afirmação comunal e de autogoverno. Sob ataque, as formas habituais de solução dos conflitos e
problemas gerados pela vida em conjunto pareceram ser, para os pioneiros dos movimentos anárquicos,
dadas de forma não-problemática e, portanto, "naturais" Também eram imaginadas como auto-
sustentáveis e totalmente capazes de manter a ordem sob todas as condições e circunstâncias, desde que
protegidas das imposições originárias do Estado. A anarquia, isto é, uma sociedade sem o Estado e suas
armas de coerção, era visualizada como uma ordem não-coercitiva na qual a necessidade não se chocaria
com a liberdade nem esta se colocaria no caminho dos pré-requisitos da vida em grupo.
O Weltanschauung do anarquismo inicial compartilhava com o socialismo utópico da época um
forte sabor nostálgico (os ensinamentos de Proudhon e Weitling simbolizando sua íntima afinidade); o
sonho de sair da estrada em que se havia entrado com o nascimento de uma nova e moderna forma de
poder social e de capitalismo (ou seja, a separação entre o negócio e o lar) -- de volta ao conforto, mais
romantizado do que genuinamente livre de conflito, da unidade comunal de sentimentos e ações. Foi
nessa forma inicial, nostálgica e utópica, que a idéia de "anarquia" se estabeleceu na aurora da sociedade
moderna e na maioria de suas interpretações político-científicas.
Mas havia no pensamento anarquista outro significado, menos demarcado pelo tempo, oculto por
trás de sua ostensiva rebelião antiestatal e, por essa razão, facilmente negligenciável. Esse outro
significado é próximo daquele da imagem da communitas de Victor Turner:

É como se houvesse aqui dois "modelos" importantes, justapostos e alternados, para o inter-relacionamento humano.
O primeiro é o da sociedade como um sistema estruturado, diferenciado e freqüentemente hierárquico de posições
44
político-jurídico-econômicas ... O segundo ... é o da sociedade como uma communitas, comunidade ou mesmo
comunhão, desestruturada ou estruturada de forma rudimentar, de indivíduos iguais que se submetem em conjunto à
autoridade geral dos dignitários rituais (17).

Turner usava a linguagem da antropologia e localizou a questão da communitas dentro da
problemática antropológica costumeira, preocupada com as diferenças entre as formas pelas quais os
agregados humanos ("sociedades", "culturas") asseguravam sua durabilidade e sua auto-reprodução
contínua. Mas os dois modelos descritos por ele também podem ser interpretados como representações de
modos complementares de coexistência humana que se misturam em diversas proporções em todo e
qualquer grupo humano, e não como diferentes tipos de sociedades.
Nenhuma variação do convívio humano é plenamente estruturada, nenhuma diferenciação interna
é totalmente abrangente, inclusiva e livre de ambivalência, nenhuma hierarquia é total e congelada. A
lógica das categorias imperfeitas preenche a diversificação endêmica e a desordem das interações
humanas. Cada tentativa de completar a estruturação deixa grande número de "fios soltos" e significados
contenciosos. Cada uma delas produz espaços em branco, áreas indefinidas, ambigüidades e territórios
"de ninguém" que carecem de levantamentos e mapas oficiais. Todas essas sobras do esforço de trazer a
ordem constituem o domínio da espontaneidade, da experimentação e da autoconstituição humanas. A
communitas é, para o bem ou para o mal, o revestimento de todo conjunto de societas -- e na sua
ausência (se isso fosse concebível) esse conjunto se dispersaria: as societas se desintegrariam em suas
suturas. São as societas com sua rotina e a communitas tas com sua anarquia que, em conjunto, numa
cooperação relutante e dominada pelo conflito, fazem a diferença entre a ordem e o caos.
A tarefa que a institucionalização, com seus braços coercitivos, realizou de modo deficiente ou
deixou de cumprir ficou para ser consertada ou completada pela inventividade espontânea dos seres
humanos. Tendo-lhe sido negado o conforto da rotina, a criatividade (como apontou Bakunin) tem apenas
duas faculdades humanas em que se basear: a habilidade de pensar e a tendência (e coragem) de se
rebelar. O exercício de cada uma das duas é repleto de riscos e, ao contrário da rotina arraigada e
protegida de modo institucional, não se pode fazer muito para minimizar esses riscos, muito menos para
eliminá-los. A communitas (que não deve ser confundida com as contra-sociedades que reclamam o nome
de "comunidade", mas que se ocupam em emular os meios e recursos da societas) habita a terra da
incerteza -- e não sobreviveria em nenhum outro país.
A sobrevivência e o bem-estar da communitas (e também, indiretamente, da societas) dependem
da imaginação, inventividade e coragem humanas de quebrar a rotina e tentar caminhos não-
experimentados. Dependem, em outras palavras, da capacidade humana de viver com riscos e de aceitar a
responsabilidade pelas conseqüências. São essas capacidades que constituem os esteios da "economia
moral" -- cuidado e auxílio mútuos, viver para os outros, urdir o tecido dos compromissos humanos,
estreitar e manter os vínculos inter-humanos, traduzir direitos em obrigações, compartir a
responsabilidade pela sorte e o bem-estar de todos -- indispensável para tapar os buracos escavados e
conter os fluxos liberados pelo empreendimento, eternamente inconcluso, da estruturação.

A invasão e a colonização da communitas, locus da economia moral, pelas forças do mercado
consumidor constituem o mais aterrador dos perigos que ameaçam a forma atual de convívio
humano.
Os principais alvos do ataque do mercado são os seres humanos como produtores. Numa terra
totalmente conquistada e colonizada, somente consumidores humanos poderiam obter permissão de
residência. A difusa indústria familiar das condições de vida compartilhadas seria posta fora de operação
e desmantelada. As formas de vida, e as parcerias que as sustentam, só estariam disponíveis como
mercadorias. O Estado obcecado com a ordem combateu (correndo riscos) a anarquia, aquela marca
registrada da communitas, em função da ameaça à rotina imposta pelo poder. O mercado consumidor
obcecado pelos lucros combate essa anarquia devido à turbulenta capacidade produtiva que ela apresenta,
assim como ao potencial para a auto-suficiência que, ao que se suspeita, crescerá a partir dela. É porque a
economia moral tem pouca necessidade do mercado que as forças deste se levantam contra ela.
Nessa guerra apresenta-se uma estratégia de mão dupla.
Em primeiro lugar, o maior número possível de aspectos da economia moral independente do
mercado é mercantilizado e remodelado sob a forma de aspectos do consumo.
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Em segundo lugar, qualquer coisa na economia moral da communitas que resista a essa
mercantilização tem negada a sua relevância para a prosperidade da sociedade de consumidores. É
despida de valor numa sociedade treinada para medir os valores em dinheiro e para identificá-los com as
etiquetas de preço colocadas em objetos e serviços vendáveis e compráveis. É empurrada para longe das
atenções do público (e, espera-se, dos indivíduos) ao ser eliminada dos cômputos oficiais do bem-estar
humano.
O resultado da presente guerra é tudo menos previsível, embora até aqui pareça haver apenas um
lado na ofensiva, com o outro em retirada quase total. A communitas perdeu muito terreno. Postos de
troca ansiando por se transformarem em shopping centers afloram nos campos que ela um dia cultivou.
A perda territorial é um acontecimento sinistro e potencialmente desastroso em qualquer guerra,
mas o fator que, em última instância, decide o resultado das hostilidades é a capacidade de luta das tropas.
Um território perdido é mais fácil de se recuperar do que o espírito de luta e a confiança no propósito e
nas chances da resistência. Mais que qualquer outra coisa, é esse segundo acontecimento que causa
malefícios ao destino da economia moral.
O maior e provavelmente mais fundamental sucesso da ofensiva do mercado até agora tem sido o
gradual mas persistente (embora de modo algum se possa considerá-lo completo e irreparável)
esfacelamento das habilidades de sociabilidade. Em matéria de relações interpessoais, os atores não-
especializados encontram-se com freqüência cada vez maior no "modo agêntico" -- agindo de maneira
heterônima, sob instruções abertas ou subliminares, e guiados basicamente pelo desejo de seguir as
instruções ao pé da letra e pelo medo de se afastar dos modelos atualmente em voga. O fascínio sedutor
da ação heterônima consiste principalmente numa renúncia à responsabilidade -- compra-se uma receita
autorizada num pacote que inclui desobrigar-se da necessidade de responder pelos resultados adversos de
sua aplicação.
O desvanecimento das habilidades de sociabilidade é reforçado e acelerado pela tendência,
inspirada no estilo de vida consumista dominante, a tratar os outros seres humanos como objetos de
consumo e a julgá-los, segundo o padrão desses objetos, pelo volume de prazer que provavelmente
oferecem e em termos de seu "valor monetário". melhor das hipóteses, os outros são avalia- dos como
companheiros na atividade essencialmente solitária do consumo, parceiros nas alegrias do consumo, cujas
presença e participação ativa podem intensificar esses prazeres. Nesse processo, os valores intrínsecos dos
outros como seres humanos singulares (e assim também a preocupação com eles por si mesmos, e por
essa singularidade) estão quase desaparecendo de vista. A solidariedade humana é a primeira baixa
causada pelo triunfo do mercado consumidor.
46

3. Sobre a dificuldade de amar o próximo

A invocação de "amar o próximo como a si mesmo", Freud (em O mal-estar na civilização)', é um dos
preceitos fundamentais da vida civilizada. É também o que mais contraria o tipo de razão que a
civilização promove: a razão do interesse próprio e da busca da felicidade. O preceito fundador da
civilização só pode ser aceito como algo que "faz sentido" e adotado e praticado se nos rendermos à
exortação teológica credere quia absurdum -- acredite porque é absurdo.
Com efeito, é suficiente perguntar "por que devo fazer isso? Que benefício me trará?" para sentir o
absurdo da exigência de amar o próximo -- qualquer próximo -- simplesmente por ser um próximo. Se
eu amo alguém, ela ou ele deve ter merecido de alguma forma... "Eles o merecem se são tão parecidos
comigo de tantas maneiras importantes que neles posso amar a mim mesmo; e se são tão mais perfeitos
do que eu que posso amar neles o ideal de mim mesmo... Mas, se ele é um estranho para mim e se não
pode me atrair por qualquer valor próprio ou significação que possa ter adquirido para a minha vida
emocional, será difícil amá-lo." Essa exigência parece ainda mais incômoda e vazia pelo fato de que, com
muita freqüência, não me é possível encontrar evidências suficientes de que o estranho a quem devo amar
me ama ou demonstra por mim "a mínima consideração. Se lhe convier, não hesitará em me injuriar,
zombar de mim, caluniar-me e demonstrar seu poder superior..."
Assim, indaga Freud, "qual é o objetivo de um preceito enunciado de modo tão solene se seu
cumprimento não pode ser recomendado como algo razoável?" Somos tentados a concluir, contra o bom
senso, que o "amor ao próximo" é "um mandamento que na verdade se justifica pelo fato de que nada
mais contraria tão fortemente a natureza original do homem". Quanto menor a probabilidade de uma
norma ser obedecida, maior a obstinação com que tenderá a ser reafirmada. E a obrigação de amar o
próximo talvez tenha menos probabilidade de ser obedecida do que qualquer outra. Quando o filósofo
talmúdico Rabi Hillel foi desafiado por um possível convertido a explicar o ensinamento de Deus
enquanto pudesse se sustentar numa perna só, ele ofereceu o "amar o próximo como a si mesmo" como a
única resposta, embora completa, que encerra a totalidade dos mandamentos divinos. Aceitar esse
preceito é um ato de fé; um ato decisivo, pelo qual o ser humano rompe a couraça dos impulsos, ímpetos
e predileções "naturais", assume uma posição que se afasta da natureza, que é contrária a esta, e se torna o
ser "não-natural" que, diferentemente das feras (e, na realidade, dos anjos, como apontou Aristóteles), os
seres humanos são.
Aceitar o preceito do amor ao próximo é o ato de origem da humanidade. Todas as outras rotinas
da coabitação humana, assim como suas ordens pré-estabelecidas ou retrospectivamente descobertas, são
apenas uma lista (sempre incompleta) de notas de rodapé a esse preceito. Se ele fosse ignorado ou
abandonado, não haveria ninguém para fazer essa lista ou refletir sobre sua incompletude.

Amar o próximo pode exigir um salto de fé. O resultado, porém, é o ato fundador da humanidade.
Também é a passagem decisiva do instinto de sobrevivência para a moralidade.
Essa passagem torna a moralidade uma parte, talvez condição sine qua non, da sobrevivência.
Com esse ingrediente, a sobrevivência de um ser humano se torna a sobrevivência da humanidade no
humano.
"Amar o próximo como a si mesmo" coloca o amor-próprio como um dado indiscutível, como
algo que sempre esteve ali. O amor-próprio é uma questão de sobrevivência, e a sobrevivência não
precisa de mandamentos, já que outras criaturas (não-humanas) passam muito bem sem eles, obrigado.
Amar o próximo como se ama a si mesmo torna a sobrevivência humana diferente daquela de qualquer
outra criatura viva. Sem a extensão/transcendência do amor-próprio, o prolongamento da vida física,
corpórea, ainda não é, por si mesmo, uma sobrevivência humana -- não é o tipo de sobrevivência que
separa os seres humanos das feras (e, não se esqueçam, dos anjos). O preceito do amor ao próximo
desafia e interpela os instintos estabelecidos pela natureza, mas também o significado da sobrevivência
por ela instituído, assim como o do amor-próprio que o protege.

Amar o próximo pode não ser um produto básico do instinto de sobrevivência -- mas também não
o é o amor-próprio, tomado como modelo do amor ao próximo.
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Amor-próprio -- o que significa isso? O que eu amo "em mim mesmo"? O que eu amo quando
amo a mim mesmo? Nós, humanos, compartilhamos os instintos de sobrevivência com nossos primos
animais sejam os próximos, os nem tão próximos ou os bem distantes -- mas, quando se trata de amor-
próprio, nossos caminhos se separam e seguimos por conta própria.
É verdade que o amor-próprio estimula a gente a se "agarrar à vida", a tentar a todo custo
permanecer vivo, a resistir e enfrentar o que quer que ameace pôr fim à nossa vida de modo prematuro ou
abrupto, ou, melhor ainda, a melhorar nosso vigor e aptidão física para tornar efetiva essa resistência.
Nisso, contudo, nossos primos animais são mestres e experientes, não menos que os mais dedicados e
habilidosos viciados em ginástica e maníacos por saúde. Nossos primos animais (com exceção daqueles
"domesticados", que nós, seus donos humanos, despimos de seus dons naturais para melhor servirem à
nossa sobrevivência, e não à deles) não precisam de especialistas para lhes dizer como se manterem vivos
e em forma. Tampouco precisam do amor-próprio para lhes ensinar que manter-se vivo e em forma é a
coisa certa a fazer.
A sobrevivência (animal, física, corpórea) pode viver sem o amor-próprio. Para dizer a verdade,
poderia acontecer melhor sem ele do que em sua companhia! Os caminhos dos instintos de sobrevivência
e do amor-próprio podem correr paralelamente, mas também em direções opostas... O amor-próprio pode
rebelar-se contra a continuação da vida. Ele nos estimula a convidar o perigo e dar boas-vindas à ameaça.
Pode nos levar a rejeitar uma vida que não se ajusta a nossos padrões e que, portanto, não vale a pena ser
vivida.
Pois o que amamos em nosso amor-próprio são os eus apropriados para serem amados. O que
amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos
reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento.
Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor -- a negação do
status de objeto digno do amor -- alimenta a auto-aversão. O amor-próprio é construído a partir do amor
que nos é oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias,
embora fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós
mesmos.
E como podemos saber que não fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem
esperança, que o amor está, pode estar, estará prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim temos o
direito de nos entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e
somos tranqüilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos,
quando nos ouvem com atenção, com um interesse que trai/sinaliza uma presteza em responder. Então
concluímos que somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos
fazer é levado em consideração.
Se os outros me respeitam, então obviamente deve haver "em mim" -- ou não deve? -- algo que
só eu lhes posso oferecer. E obviamente existem esses outros -- não existem? -- que ficariam satisfeitos
e gratos por isso lhes ser oferecido. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou uma cifra,
facilmente substituída e descartada. Eu "faço diferença" para outros além de mim. O que digo e sou e faço
tem importância -- e isso não é apenas um vôo da minha fantasia. O mundo à minha volta seria mais
pobre, menos interessante e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar.
Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a "amar
o próximo como a si mesmo" (ou seja, ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas
mesmas razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo de ter reconhecida,
admitida e confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não-descartável. A
exortação nos leva a pressupor que o próximo de fato representa esses valores -- ao menos até prova em
contrário. Amar o próximo como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de
cada um -- o valor de nossas diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o
tornam um lugar mais fascinante e agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas.

Numa cena de Korczak, o filme mais humano de Andrzej Wajda, Janus Korczak (pseudônimo do
grande pedagogo Henryk Goldszmit), um herói cinematográfico muito humano, é relembrado dos
horrores das guerras travadas no curso da vida de sua sofrida geração. Ele recorda essas
atrocidades, é claro, e elas o ofendem e repugnam. E de modo ainda mais vívido, e com o maior dos
horrores, ele se lembra de um bêbado chutando uma criança.
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Em nosso mundo obcecado por estatísticas, médias e maiorias, tendemos a medir o grau de
desumanidade das guerras pelo número de baixas que elas causam. Tendemos a medir o mal, a crueldade,
a repugnância e a infâmia da vitimização pelo número de vítimas. Mas, em 1944, em meio à guerra mais
mortífera já travada pelos seres humanos, Ludwig Wittgenstein observou:

Nenhum clamor de tormento pode ser maior que o clamor de um homem.
Ou, mais uma vez, nenhum tormento pode ser maior do que aquilo que um único ser humano pode sofrer.
O planeta inteiro não pode sofrer tormento maior do que uma única alma.

Meio século depois, quando questionada por Leslie Stahl, da rede de televisão CBS, sobre o cerca
de meio milhão de crianças mortas em função do continuado bloqueio militar imposto pelos Estados
Unidos ao Iraque, Madeleine Albright, então embaixadora norte-americana na ONU, não negou a
acusação, admitindo ter sido "uma escolha difícil de fazer" Mas justificou-a: "Achamos que era um preço
que valia ser pago."
Albright, sejamos justos, não estava nem está só ao seguir esse tipo de raciocínio. "Não se pode
fazer uma omelete sem quebrar os ovos" é a desculpa favorita dos visionários, dos porta-vozes das visões
oficialmente endossadas e dos generais que agem da mesma forma sob o comando dos porta-vozes. Essa
fórmula transformou-se, com o passar dos anos, num verdadeiro slogan de nossos admiráveis tempos
modernos.
Quaisquer que sejam aqueles "nós" que "achamos" e em cujo nome falava Albright, foi
exatamente a fria crueldade de seu tipo de avaliação que provocou a oposição de Wittgenstein e deixou
Korczak chocado, ultrajado e revoltado, resolvido a dedicar toda uma vida a essa revolta.
A maioria de nós concordaria que esse sofrimento sem sentido e essa dor insensivelmente infligida
não podem ser desculpados e não teriam defesa perante tribunal algum. Mas menos estariam prontos a
admitir que provocar a fome ou causar a morte de uma única pessoa não é, não pode ser, "um preço que
vale ser pago", importa quão "sensata" ou até nobre possa ser a causa pela qual se pague. Tampouco a
humilhação ou a negação da dignidade humana pode ser esse preço. Não é apenas que a vida digna e o
respeito devido à humanidade de cada ser humano se combinem num valor supremo que não pode ser
superado ou compensado por nenhum volume ou quantidade de outros valores, mas que todos os outros
valores só são valores na medida em que sirvam à dignidade humana e promovam a sua causa. Todas as
coisas valorosas na vida humana nada mais são que diferentes fichas para a aquisição do único valor que
torna a vida digna de ser vivida. Aquele que busca a sobrevivência assassinando a humanidade de outros
seres humanos sobrevive à morte de sua própria humanidade.
A negação da dignidade humana deprecia o valor de qualquer causa que necessite dessa negação
para afirmar a si mesma. E o sofrimento de uma única criança deprecia esse valor de forma tão radical e
completa quanto o sofrimento de milhões. O que pode ser válido para omeletes torna-se uma mentira
cruel quando aplicado à felicidade e ao bem-estar humanos.
É comumente aceito pelos biógrafos e discípulos de Korczak que a chave para seus pensamentos e
atos era o amor que tinha pelos filhos. Essa interpretação é bem fundamentada. O amor de Korczak pelos
filhos era apaixonado e incondicional, total e abrangente -- o bastante para sustentar toda uma vida
caracterizada por uma sensibilidade e uma integridade singularmente coesas. Ainda assim, como a maior
parte das interpretações, essa também não corresponde à totalidade de seu objeto.
Korczak amava os filhos como poucos de nós estão prontos ou capacitados a amar, mas o que
amava neles era sua humanidade. A humanidade no que ela tem de melhor -- sem distorções, sem
truncamentos, sem enfeites nem mutilações, plena em sua insipiência e nascença, cheia de promessas que
ainda não foram traídas e de potenciais ainda não comprometidos. O mundo em que os potenciais
portadores de humanidade nascem e crescem é, ao que se sabe, mais propenso a prender as asas do que a
estimular os supostos voadores a abri-Ias, e assim, na opinião de Korczak, era apenas nas crianças que
essa humanidade podia ser encontrada, capturada e preservada (por algum tempo, só por algum tempo!)
intacta e ilesa.
Talvez fosse melhor mudar os costumes do mundo e tornar nosso hábitat mais hospitaleiro à
dignidade humana, de modo que amadurecer não exigisse o comprometimento da humanidade de uma
criança. O jovem Henryk Goldszmit compartilhava as esperanças do século em que nasceu e acreditava
que mudar os abomináveis hábitos do mundo estava ao alcance dos seres humanos, sendo uma tarefa
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viável e que ao mesmo tempo tendia a ser realizada. Mas com o passar do tempo, à medida que as
pilhas de vítimas e os "danos colaterais" provocados tanto pelas más quanto pelas mais nobres intenções
atingiam dimensões estratosféricas, e em que a necrose e a putrificação da carne em que os sonhos
tendiam a se transformar deixava cada vez menos espaço à imaginação, essas esperanças exaltadas foram
sendo despidas de sua credibilidade. Janus Korczak conhecia muito bem a desconfortável mentira que
Henryk Goldszmit praticamente ignorava: não pode haver atalhos que conduzam a um mundo feito sob
medida para a dignidade humana, e ao mesmo tempo é improvável que o "mundo realmente existente"
construído dia a dia por pessoas já espoliadas de sua dignidade e desacostumadas a respeitar a das outras,
possa algum dia ser refeito segundo essa medida.
A este nosso mundo não se pode impor legalmente a perfeição. Não se pode forçá-lo a adotar a
virtude, mas tampouco persuadi-lo a se comportar de modo virtuoso. Não se pode fazer com que seja
terno e atencioso para com os seres humanos que o habitam, e ao mesmo tempo tão adaptado aos seus
sonhos de dignidade quanto idealmente se desejaria que fosse. Mas você deve tentar. Você vai tentar.
Você o faria, de qualquer maneira, se fosse aquele Janus Korczak inspirado em Henryk Goldszmit.
Mas como você tentaria? Um pouco como os antiquados visionários utópicos que, não tendo
conseguido tornar quadrado o círculo da segurança e da liberdade na Grande Sociedade, transformaram-
se em projetistas de comunidades controladas, shopping centers e parques temáticos... No seu caso,
protegendo a dignidade com que cada ser humano nasce dos gatunos e falsários que tramam roubá-la ou
desvirtuá-la e mutilá-la. E você começaria pelo trabalho perpétuo de protegê-la enquanto é tempo, durante
a infância dessa dignidade. Tentaria trancar o estábulo antes que o cavalo fugisse ou fosse roubado.
Uma das formas de fazê-lo, aparentemente a mais razoável, é abrigar as crianças dos eflúvios
venenosos de um mundo infectado e corrompido pela humilhação e a indignidade humanas, barrar o
acesso à lei da selva que começa justamente do outro lado da porta do abrigo. Quando seu orfanato se
mudou do endereço anterior à guerra, em Krochmalma, para o Gueto de Varsóvia, Korczak ordenou que a
porta de entrada permanecesse trancada e as janelas do andar térreo fossem tapadas. Quando as
deportações para as câmaras de gás estavam se tornando uma certeza, Korczak supostamente se opôs à
idéia de fechar o orfanato e despachar as crianças para que buscassem individualmente a chance de
escapar que algumas poderiam (apenas poderiam) ter . Ele pode ter concluído que não valeria correr o
risco: uma vez fora do abrigo, as crianças aprenderiam a temer, a humilhar-se e a odiar. Elas perderiam o
mais precioso dos valores -- sua dignidade. Uma vez privadas desse valor, qual a vantagem de
permanecerem vivas? O valor, o mais precioso dos valores humanos, o atributo sine qua non de
humanidade, é uma vida de dignidade, não a sobrevivência a qualquer custo.

Spielberg poderia aprender alguma coisa com Korczak, o homem, e Korczak, o filme.
Uma coisa que ele não sabia, ou não queria saber, ou não queria admitir que sabia; algo sobre a
vida humana e os valores que a tornam digna de ser vivida. Uma coisa sobre a qual ele demonstrou
ignorância ou descaso em sua própria narrativa da desumanidade, no filme recordista de bilheteria A lista
de Schindler, para o aplauso de nosso mundo em que a dignidade tem pouca utilidade e a humilhação,
grande demanda, e que chegou a ver o propósito da vida em sobreviver aos outros.
Sobreviver aos outros é o tema de A lista de Schindler; sobreviver a qualquer custo e em qualquer
condição, venha o que vier, fazendo o que for preciso fazer. A sala de cinema lotada irrompe em aplausos
quando Schindler consegue tirar seu mestre-de-obras de um trem pronto a partir para Treblinka. Não
importa que o trem não tenha sido impedido de seguir e o resto dos passageiros dos vagões de gado vá
terminar sua jornada nas câmaras de gás. E os aplausos surgem novamente quando Schindler recusa a
oferta de "outra judia" para substituir a "dele", "erradamente" destinada aos fornos crematórios, e
consegue "corrigir" "o erro".

O direito do mais forte, mais astuto, engenhoso ou ardiloso de fazer o possível para sobreviver ao
mais fraco e desafortunado é uma das lições mais horripilantes do Holocausto.
Uma lição terrível e atemorizante, mas nem por isso aprendida, apropriada, memorizada e aplicada
com menos avidez. Para ser adequada à adoção, essa lição deve, em primeiro lugar, ser rigorosamente
despida de todas as conotações éticas, até a mais crua essência do jogo de soma zero da sobrevivência.
Viver significa sobreviver. O mais forte vive. Quem ataca primeiro sobrevive. Desde que você seja o mais
forte, pode escapar impune, não importa o que tenha feito ao fraco. O fato de que a desumanização das
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vítimas desumaniza -- devasta moralmente -- seus vitimizadores é desconsiderado como um detalhe
irritante. Quer dizer, se não tiver sido silenciosamente omitido. O que conta é chegar ao topo e lá
permanecer. Sobreviver -- manter-se vivo -- é um valor aparentemente não prejudicado nem maculado
pela desumanidade de uma vida dedicada à sobrevivência. Vale a pena persegui-lo por si mesmo, por
mais caro que isso saia para os derrotados e por mais profundas e incorrigíveis que sejam as formas como
isso pode depravar e degradar os vitoriosos.
Essa horripilante lição do Holocausto, a mais desumana, completa-se com um inventário das dores
que se pode infligir aos fracos a fim de afirmar a própria força. Capturar, deportar, trancafiar em campos
de concentração, ou aproximar a situação angustiosa de toda a população do modelo do campo de
concentração, demonstrar a futilidade da lei pela execução sumária de suspeitos, aprisionar sem
julgamento nem prazo de soltura, espalhar o terror que aleatória e casualmente infligia tormentos aos
montes -- foi amplamente comprovado que tudo isso serve efetivamente à causa da sobrevivência e é,
portanto, "racional".
Essa lista pode ser, e é, ampliada com o passar do tempo. "Novos e aperfeiçoados" expedientes
são testados e, caso funcionem, acrescentados ao repertório -- como demolir casas isoladas ou distritos
residenciais inteiros, extirpar pomares de oliveiras, queimar ou destruir lavouras, incendiar locais de
trabalho e destruir de outras formas os já miseráveis recursos de subsistência. Todas essas medidas
mostram uma tendência a se propelirem e exacerbarem por si mesmas. À medida que cresce a lista de
atrocidades, o mesmo ocorre com a necessidade de aplicá-las de modo cada vez mais resoluto para evitar
não apenas que as vítimas se façam ouvir, mas que se dê atenção a elas. E conforme os velhos
estratagemas se tornam rotina e o horror que semearam entre seus alvos se dissipa, novos, mais dolorosos
e terríveis artifícios precisam ser procurados febrilmente.

A vitimização dificilmente humaniza suas vítimas. Ser vítima não garante um lugar nos píncaros da
moral.
Numa carta pessoal em que fazia objeções ao meu exame da possibilidade de romper a "cadeia
cismogenética" que tende a transformar vítimas em vitimizadores, Antonina Zhelazkova, a etnóloga
intrépida e singularmente perspicaz, dedicada exploradora do aparentemente impenetrável barril de
pólvora étnico e de outras animosidades que são os Bálcãs, escreveu:

Eu não aceito que as pessoas estejam em posição de combater o impulso de se tornarem assassinas depois de terem
sido vítimas. É exigir demais das pessoas comuns. É freqüente que a vítima se transforme em carniceiro. O pobre
homem, assim como os pobres de espírito a quem se ajudou, passa a odiá-lo ... porque eles desejam esquecer o
passado, a humilhação, a dor e o fato de terem conseguido algo com a ajuda de alguém, por causa da piedade de
alguém, e não por si mesmos ... Como escapar à dor e à humilhação? A forma natural é matar ou humilhar seu algoz
ou benfeitor. Ou encontrar outra pessoa, mais fraca, para triunfar sobre ela.

Tenhamos o cuidado de rejeitar delicadamente a advertência de Zhelazkova. As condições
contrárias à humanidade comum parecem realmente insuperáveis. As armas não falam, embora os sons
dos seres humanos falando pareçam uma resposta abominavelmente débil ao zunido dos mísseis e ao
ruído ensurdecedor dos explosivos.
A memória é uma bênção ambígua. Mais precisamente, é ao mesmo tempo uma bênção e uma
maldição lançada sobre alguém. Pode "manter vivas" muitas coisas de valor profundamente desigual para
o grupo e seus vizinhos. O passado é uma grande quantidade de eventos, e a memória nunca retém todos
eles. E o que quer que ela retenha ou recupere do esquecimento nunca é reproduzido em sua forma
"prístina" (o que quer que isso signifique). O "passado como um todo" e o passado "wie es ist eigentlich
gewesen" (como Ranke insinuou que deveria ser retomado pelos historiadores), nunca é recapturado pela
memória. E se o fosse, a memória seria francamente um risco e não uma vantagem para os vivos. Ela
seleciona e interpreta -- e o que deve ser selecionado e como precisa ser interpretado é um tema
discutível, objeto de contínua disputa. Fazer ressurgir o passado, mantê-lo vivo, só pode ser alcançado
mediante o trabalho ativo -- escolher, processar, reciclar -- da memória.

Em A exigência ética, Logstrup manifestou uma visão mais otimista das inclinações naturais
humanas.
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"É uma característica da vida humana que normalmente encaremos uns aos outros com natural
confiança", escreveu ele. "Só em função de alguma circunstância especial desconfiamos antecipadamente
de um estranho... Em circunstâncias normais, contudo, nós aceitamos a palavra do estranho e não
duvidamos dele até que tenhamos uma razão particular para isso. Nunca suspeitamos da falsidade de uma
pessoa até que a tenhamos apanhado numa mentira." (2)
Logstrup elaborou A exigência ética durante os oito anos subseqüentes ao seu casamento com
Rosalie Maria Pauly, passados numa pequena e tranqüila paróquia da Ilha de Funen. Com o devido
respeito aos amigáveis e sociáveis moradores de Aarhus, onde Logstrup viveria o restante de seus dias
ensinando teologia na universidade local, duvido que ele pudesse ter concebido tais idéias caso tivesse se
estabelecido naquela cidade e confrontado diretamente as realidades do mundo em guerra e sob ocupação,
como um membro ativo da resistência dinamarquesa.
As pessoas tendem a tecer suas memórias do mundo utilizando o fio de suas experiências. Os
membros da atual geração podem achar artificial a imagem luminosa e alegre de um mundo confiante e
fiel -- em profundo desacordo com o que eles próprios aprendem diariamente e com o que é insinuado
pelas narrativas comuns da experiência humana e recomendado pelas estratégias de vida que lhes são
apresentadas no dia-a-dia. Prefeririam reconhecer-se nos atos e confissões dos personagens que aparecem
na onda mais recente de programas televisivos, altamente populares e avidamente assistidos, tipo Big
Brother, Survivor e The Weakest Link. Eles passam uma mensagem bem diferente: um estranho não é
alguém em quem se deva confiar. A série Survivor tem um subtítulo que diz tudo: "Não confie em
ninguém." Os lãs e adeptos dos "reality shows" televisivos poderiam inverter o veredicto de Logstrup: "É
uma característica da vida humana que normalmente encaremos uns aos outros com natural suspeita."
Esses espetáculos televisivos que tomaram milhões de espectadores de assalto e imediatamente
capturaram sua imaginação eram ensaios públicos sobre a descartabilidade dos seres humanos. Traziam
prazer e advertência juntos, com a mensagem de que ninguém é indispensável, ninguém tem o direito a
sua parte dos frutos de um esforço conjunto apenas por ter dado alguma contribuição ao seu crescimento
-- muito menos por ser simplesmente um membro da equipe. A vida é um jogo duro para pessoas duras,
dizia a mensagem. Cada jogo começa do zero, méritos passados não contam, você tem tanto valor quanto
os resultados de seu último duelo. Cada jogador, a cada momento, está por conta própria, e para progredir
(sem falar em chegar ao topo!) deve primeiro colaborar na exclusão de muitas outras pessoas ávidas por
sobrevivência e sucesso que estão bloqueando o caminho -- mas apenas para superar, uma por uma,
todas aquelas com quem tivemos de cooperar, e abandoná-las, derrotadas e inúteis.
Os outros são, em primeiro lugar e acima de tudo, competidores, tramando como qualquer
competidor, cavando buracos, preparando emboscadas, torcendo para que venhamos a tropeçar e cair. Os
trunfos que ajudam os vencedores a superar a concorrência e emergir triunfantes da batalha impiedosa são
de muitos tipos, variando da autoconfiança ruidosa à humilde auto-aniquilação. E no entanto,
independente do estratagema empregado, dos trunfos dos sobreviventes e das deficiências dos perdedores,
a história da sobrevivência tende a se desenvolver da mesma e monótona maneira: num jogo de
sobrevivência, confiança, compaixão e clemência (os atributos supremos de Logstrup) são fatores
suicidas. Se você não for mais duro e menos escrupuloso do que todos os outros, será liquidado por eles,
com ou sem remorso. Estamos de volta à triste verdade do mundo darwiniano: é o mais apto que
invariavelmente sobrevive. Ou melhor, a sobrevivência é a derradeira prova de aptidão.
Se os jovens de nosso tempo fossem leitores de livros, e particularmente de livros antigos que não
se encontram nas atuais listas de mais vendidos, tenderiam a concordar com a amarga e sombria imagem
do mundo pintada por Leon Shestov, exilado russo e filósofo da Sorbonne: "Homo homini lupus é uma
das máximas mais inabaláveis da moral eterna. Em cada um de nossos vizinhos tememos um lobo ...
Somos tão pobres, tão fracos, tão facilmente arruináveis e destrutíveis! Como podemos deixar de ter
medo? ... Enxergamos o perigo, apenas o perigo..." (3) Eles insistiriam -- como o fez Shestov e como se
tornou senso comum, graças a programas do tipo Big Brother -- em afirmar que este é um mundo duro,
feito para pessoas duras: um mundo de indivíduos relegados a se basearem unicamente em seus próprios
ardis, tentando ultrapassar e superar uns aos outros. Ao conhecer um estranho você precisa em primeiro
lugar de vigilância, e em segundo e terceiro lugares de vigilância. Aproximar-se, colocar-se ombro a
ombro e trabalhar em equipe fazem muito sentido enquanto o ajudam a avançar em seu próprio caminho.
Mas perdem a razão de ser quando não trazem mais benefícios, ou quando estes -- esperada ou apenas
possivelmente -- são menores que os obtidos evitando-se compromissos e cancelando-se obrigações.
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Os jovens que estão nascendo, crescendo e amadurecendo nesta virada do século XX para o XXI
também achariam familiar, talvez até auto-evidente, a descrição de Anthony Giddens do
"relacionamento puro" (4).
O "relacionamento puro" tende a ser, nos dias de hoje, a forma predominante de convívio humano,
na qual se entra "pelo que cada um pode ganhar" e se "continua apenas enquanto ambas as partes
imaginem que estão proporcionando a cada uma satisfações suficientes para permanecerem na relação".
O atual "relacionamento puro", na descrição de Giddens, não

é, como o casamento um dia foi, uma "condição natural" cuja durabilidade possa ser tomada como algo garantido, a
não ser em circunstâncias extremas. É uma característica do relacionamento puro que ele possa ser rompido, mais ou
menos ao bel-prazer, por qualquer um dos parceiros e a qualquer momento. Para que uma relação seja mantida, é
necessária a possibilidade de compromisso duradouro. Mas qualquer um que se comprometa sem reservas arrisca-se a
um grande sofrimento no futuro, caso ela venha a ser dissolvida.

O compromisso com outra pessoa ou com outras pessoas, em particular o compromisso
incondicional e certamente aquele do tipo "até que a morte nos separe", na alegria e na tristeza, na riqueza
ou na pobreza, parece cada vez mais uma armadilha que se deve evitar a todo custo.
Sobre as coisas que aprovam, os jovens de língua inglesa dizem "cool". Uma palavra adequada:
independentemente das outras características que os atos e interações humanos possam ter, não se deve
admitir que a interação esquente e particularmente que permaneça quente: é boa enquanto continua cool,
e ser cool significa que é boa. Se você sabe que seu parceiro pode preferir abandonar o barco a qualquer
momento, com ou sem a sua concordância (tão logo ache que você perdeu seu potencial como fonte de
deleite, conservando poucas promessas de novas alegrias, ou apenas porque a grama do vizinho parece
mais verde), investir seus sentimentos no relacionamento atual é sempre um passo arriscado. Investir
fortes sentimentos na parceria e fazer um voto de fidelidade significa aceitar um risco enorme: isso o
torna dependente de seu parceiro (embora devamos observar que essa dependência, que agora está se
tornando rapidamente um termo pejorativo, é aquilo em que consiste a responsabilidade moral pelo Outro
-- tanto para Logstrup quanto para Levinas).
Para esfregar sal na ferida, a dependência -- devido à "pureza" de seu relacionamento -- não pode
nem precisa ser recíproca. Assim, você está amarrado, mas seu parceiro continua livre para ir e vir, e
nenhum tipo de vínculo que possa manter você no lugar é suficiente para assegurar que ele não o faça. O
conhecimento amplamente compartilhado -- na verdade, um lugar-comum -- de que todos os
relacionamentos são "puros" (ou seja, frágeis, fissíparos, tendentes a não durar mais do que a
conveniência que trazem, e portanto sempre "até segunda ordem") dificilmente seria um solo em que a
confiança pudesse fincar raízes e florescer.
Parcerias frouxas e eminentemente revogáveis substituíram o modelo da união pessoal "até que a
morte nos separe" que ainda se mantinha (mesmo que mostrando um número crescente de fissuras
desconcertantes) na época em que Logstrup registrou sua crença na "naturalidade" e "normalidade" da
confiança e anunciou seu veredicto de que era a suspensão ou supressão da confiança, e não o seu dom
incondicional e espontâneo, que constituía uma exceção causada por circunstâncias extraordinárias que,
portanto, exigiam uma explicação.
A fraqueza, a debilidade e a vulnerabilidade das parcerias pessoais não são, contudo, as únicas
características do atual ambiente de vida a solaparem a credibilidade das hipóteses de Logstrup. Uma
inédita fluidez, fragilidade e transitoriedade em construção (a famosa "flexibilidade") marcam todas as
espécies de vínculos sociais que, uma década atrás, combinaram-se para constituir um arcabouço
duradouro e fidedigno dentro do qual se pôde tecer com segurança uma rede de interações humanas. Elas
afetam particularmente, e talvez de modo mais seminal, o emprego e as relações profissionais. Com o
desaparecimento da demanda por certas habilidades num tempo menor do que o necessário para adquiri-
las e dominá-las; com credenciais educacionais perdendo valor em relação ao custo anual de sua
aquisição ou mesmo transformando-se em "eqüidade negativa" muito antes de sua "data de vencimento"
supostamente vitalícia; com empregos desaparecendo sem aviso, ou quase; e com o curso da existência
fatiado numa série de projetos singulares cada vez menores, as perspectivas de vida crescentemente se
parecem com as convoluções aleatórias de projéteis inteligentes em busca de alvos esquivos, efêmeros e
móveis, e não com a trajetória pré-planejada, predeterminada e previsível de um míssil balístico.
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O mundo de hoje parece estar conspirando contra a confiança.
A confiança deve continuar sendo, como sugere Knud Logstrup, um derramamento natural da
"expressão soberana da vida", mas, uma vez posta em curso, agora procura em vão por um lugar para
lançar âncora. A confiança foi condenada a uma vida cheia de frustração. Pessoas (sozinhas,
individualmente ou em conjunto) empresas, partidos, comunidades, grandes causas ou padrões de vida
investidos com a autoridade de guiar nossa existência freqüentemente deixam de compensar a devoção.
De qualquer forma, é raro serem modelos de coerência e continuidade a longo prazo. Dificilmente há um
único ponto de referência sobre o qual se possa concentrar a atenção de modo fidedigno e seguro, para
que os desorientados possam ser eximidos do fatigante dever da vigilância constante e das incessantes
retrações de passos dados ou pretendidos. Não se dispõe de pontos de orientação que pareçam ter uma
expectativa de vida mais longa do que os próprios necessitados de orientação, por mais curtas que possam
ser suas existências físicas. A experiência individual aponta obstinadamente para o eu como o eixo mais
provável da duração e da continuidade procuradas com tanta avidez.
Em nossa sociedade supostamente adepta da reflexão, não é provável que se reforce muito a
confiança. Um exame ponderado dos dados fornecidos pelas evidências da vida aponta na direção aposta,
revelando repetidamente a perpétua inconstância das regras e a fragilidade dos laços. Mas será que isso
significa que a decisão de Logstrup de investir as esperanças de moralidade na espontânea tendência
endêmica à confiança nos outros teria sido invalidada pela incerteza endêmica que satura o mundo de
hoje?
Poderíamos dizer isso -- não fosse pelo fato de que a visão segundo a qual os impulsos morais
nascem da reflexão nunca foi a de Logstrup. Pelo contrário: de seu ponto de vista, a esperança de
moralidade caracterizava-se precisamente por sua espontaneidade pré-reflexiva: "A compaixão é
espontânea porque a menor interrupção, a menor maquinação, a menor diluição para que sirva a algum
outro propósito provocam sua destruição total -- na verdade, transformam-na em seu oposto, a
desumanidade." (5)
Emmanuel Levinas é conhecido por insistir em que a pergunta "por que eu deveria ser ético" (ou
seja, pedindo argumentos do tipo "o que ganho com isso?", "o que essa pessoa me fez para justificar
minha atenção?" ou "será que outra pessoa não poderia fazer isso em meu lugar?") não é o ponto de
partida da conduta moral, mas sim um sinal de sua morte, da mesma forma que toda amoralidade
começou com a pergunta de Caim: "Serei eu o protetor de meu irmão?" Logstrup parece concordar.
"A necessidade da moral' (essa expressão já é um paradoxo, pois aquilo que responde a uma
"necessidade", não importa o que seja, é algo diferente da moral) ou simplesmente sua "conveniência"
não podem ser estabelecidas discursivamente, muito menos provadas. A moral nada mais é que uma
manifestação de humanidade inatamente estimulada -- não "serve" a propósito algum e com toda certeza
não é guiada pela expectativa de lucro, conforto, glória ou auto-engrandecimento. É verdade que ações
objetivamente boas -- proveitosas e úteis -- têm sido muitas vezes realizadas em função do cálculo de
lucro do agente, seja obter a graça divina, ganhar o respeito público ou livrar-se da crueldade
demonstrada em outras ocasiões. Esses atos, porém, não podem ser classificados como genuinamente
morais precisamente por terem sido assim motivados.
Nos atos morais, insiste Logstrup, "exclui-se um motivo ulterior". A expressão espontânea da vida
é radical precisamente graças à "ausência de motivos ulteriores" -- tanto amorais quanto morais. Essa é
mais uma razão pela qual a demanda ética, essa pressão "objetiva" para que sejamos éticos, emanada do
próprio fato de se estar vivo e compartilhando o planeta com outros, é e deve ser silenciosa. Já que a
"obediência à demanda ética" pode facilmente transformar-se (ser deformada e distorcida) num motivo de
conduta, essa demanda está em sua melhor forma quando é esquecida e não se pensa nela: sua
radicalidade "consiste em exigir o que e supérfluo" (6). "A imediação do contato humano é sustentada
pelas expressões imediatas da vida" (7) e não precisa de outros apoios, nem de fato os tolera.
Em termos práticos, ela significa que, não importa o quanto um ser humano possa ressentir-se por
ter sido abandonado (em última instância) à sua própria deliberação e responsabilidade, é precisamente
esse abandono que contém a esperança de um convívio moralmente fecundo. A esperança -- não a
certeza.
A espontaneidade e a soberania das expressões de vida não respondem pela conduta resultante
como sendo a escolha eticamente adequada e louvável entre o bem e o mal. A questão, porém, é que erros
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crassos e escolhas acertadas surgem da mesma condição -- assim como os covardes impulsos de correr
em busca de proteção que as ordens peremptórias obrigatoriamente provêem e a coragem de aceitar a
responsabilidade. Sem se preparar para a possibilidade de fazer escolhas erradas, é difícil haver uma
forma de perseverar na busca da escolha certa. Longe de ser uma grande ameaça à moral (e logo
abominável para os filósofos éticos), a incerteza é a terra natal da pessoa ética e o único solo em que a
moral pode brotar e florescer.
Mas, como Logstrup prontamente nos assinala, é a "imediação do contato humano" que é
"sustentada pelas expressões imediatas de vida". Presumo que a conexão e o condicionamento mútuo
ajam nos dois sentidos. A "imediação" parece desempenhar no pensamento de Logstrup um papel
semelhante ao da "proximidade" nos textos de Levinas. As "expressões imediatas da vida" são disparadas
pela proximidade, ou pela presença imediata de outro ser humano -- fraco e vulnerável, sofrendo e
precisando de auxílio. Somos desafiados pelo que vemos. E desafiados a agir -- a ajudar, defender, trazer
alívio, curar ou salvar.

"A expressão soberana da vida" é outro "fato cru" -- tal como a "responsabilidade" de Levinas ou
mesmo a "demanda ética" de Logstrup.
Ao contrário da demanda ética, eternamente à espera, inaudível, inexaurida, irrealizada e talvez, a
princípio, irrealizável e inexaurível, a expressão soberana da vida sempre se realiza e se conclui
prontamente -- embora não por escolha, mas "de modo espontâneo, sem que se exija" (8). É, podemos
presumir, essa condição "sem escolha" das expressões da vida que explica a imputação de "soberania".
"A expressão soberana da vida" pode ser vista como outro nome para o Befindlichkeit ("estar
situado", noção essencialmente ontológica) de Martin Heidegger, combinado com seu Stimmung ("estar
sintonizado", reflexo epistemológico do "estar situado"). (9) Como Heidegger insinuou, antes que se
possa iniciar qualquer escolha já estamos imersos no mundo e sintonizados com essa imersão -- armados
de Vorurteil, Vorhabe, Vorsicht, Vorgriff, todas essas capacidades com o prefixo "vor" ("pré") que
antecedem todo o conhecimento e constituem a sua própria possibilidade. Mas o Stimmung heideggeriano
relaciona-se intimamente com o das Man -- o "ninguém, ao qual toda a nossa existência ... já se rendeu".
"No início, eu não sou 'eu' no sentido do meu próprio eu. Para começo de conversa, ser é Man e tende a
permanecer assim." Esse estado de "Ser como das Man" é, em sua essência, o estado da conformidade an
sich, inconsciente de si mesma como conformidade (e que portanto não deve ser confundida com a
escolha soberana da solidariedade). Na medida em que aparece sob o disfarce do das Man, o Mitsein
("Ser Com") é uma fatalidade, não um destino nem uma vocação. E assim é a conformidade com a
rendição ao das Man: deve primeiro ser desmascarada como conformidade antes de ser rejeitada e
combatida no ato crítico da auto-afirmação, ou abraçada entusiasticamente como uma estratégia e um
propósito de vida.
Por outro lado, ao insistir em sua "espontaneidade", Logstrup sugere essa condição de "an sich"
para as expressões de vida, reminiscente daquela do Befindlichkeit e do Stimmung. Ao mesmo tempo,
contudo, parece identificar a expressão soberana da vida com a rejeição daquela conformidade "primeva",
"naturalmente dada" (ele tem fortes objeções à "absorção" das expressões soberanas pela conformidade,
sua "submersão numa vida em que um indivíduo imita outro"), embora não identificasse nenhuma delas
com o ato original da auto-emancipação, da ruptura do escudo protetor da condição an sich. Logstrup
insiste que "não é precipitado concluir que a expressão soberana da vida vai prevalecer" (10).
A expressão soberana tem um adversário poderoso -- a expressão "constrangida", induzida
externamente e portanto heterônoma em vez de autônoma, ou ainda (numa interpretação provavelmente
mais afinada com a intenção de Logstrup) uma expressão cujos motivos (já re-presentados, ou melhor,
desvirtuados, como causas) se projetam sobre os agentes externos.
Exemplos da expressão "constrangida" são designados como ofensa, ciúme e inveja. Em cada
caso, um traço marcante da conduta é o auto-engano destinado a ocultar as fontes genuínas da ação. Por
exemplo, o indivíduo "tem uma opinião muito elevada de si mesmo para tolerar a idéia de ter agido
erradamente, e assim apela à ofensa para desviar a atenção de seu próprio deslize, o que consegue
identificando-se com a parte prejudicada ... Obtendo-se satisfação em ser a parte prejudicada, deve-se
inventar erros para alimentar a autocondescendência." (10) A natureza autônoma da ação é, portanto,
suprimida -- é a outra parte, acusada da má conduta original, do delito que deu origem a tudo,
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apresentada como o verdadeiro ator do drama. O eu permanece, assim, totalmente do lado receptor.
Sofre as ações dos outros em vez de ser um ator por direito próprio.
Uma vez abraçada, tal visão parece propelir-se e reforçar-se por si mesma. Para manter a
credibilidade, o ultraje imputado à outra parte deve ser mais assustador e acima de tudo menos curável ou
redimível, e os conseqüentes sofrimentos das vítimas devem ser declarados ainda mais abomináveis e
dolorosos, de modo que a vítima autodeclarada possa prosseguir justificando medidas cada vez mais
duras "em justa resposta" à ofensa cometida ou "em defesa" contra ofensas ainda por cometer. As ações
"constrangidas" precisam negar constantemente sua autonomia. É por essa razão que elas constituem o
obstáculo mais radical à admissão da soberania do eu e a que este atue de maneira consoante com tal
admissão.
A superação das restrições auto-impostas mediante o desmascaramento e a desvalidação do auto-
engano sobre o qual elas se baseiam emerge assim como condição preliminar e indispensável para dar
asas à expressão soberana da vida -- uma expressão que se manifesta, em primeiro lugar e acima de tudo,
na confiança, na misericórdia e na compaixão.

Durante a maior parte da história humana, a "imediação da presença" se superpôs à potencial e
viável "imediação da ação".
Nossos ancestrais dispunham de poucos instrumentos (se é que chegavam a dispor de algum) que
os capacitassem a agir efetivamente a grande distância, -- mas dificilmente se expunham à visão de um
sofrimento humano que fosse distante demais para ser alcançado pelos instrumentos de que dispunham. A
totalidade das escolhas morais com que nossos ancestrais se confrontavam poderia ser quase totalmente
encerrada dentro do espaço limitado da imediação, dos encontros face a face e da interação. A escolha
entre o bem e o mal, quando enfrentada, podia assim ser inspirada, influenciada e, em princípio, até
mesmo controlada pela "expressão soberana da vida".
Hoje em dia, porém, o silêncio do mandado ético é mais ensurdecedor que nunca. Esse mandado
instiga e dirige secretamente as "expressões soberanas da vida". Mas ainda que elas tenham mantido sua
imediação, os objetos que as desencadeiam e atraem navegaram para longe, muito além do espaço da
proximidade/ imediação. Somando-se ao que podemos ver a olho nu (sem ajuda) em nossa vizinhança
imediata, agora estamos expostos diariamente ao conhecimento "mediado" da miséria e da crueldade
distantes. Todos agora temos televisão; mas poucos de nós têm acesso aos meios de teleação.
Se a miséria que podíamos não apenas ver, mas também mitigar ou curar, nos lançasse numa
situação de escolha moral capaz de ser administrada pela "expressão soberana da vida" (mesmo que isso
fosse dolorosamente difícil), o fosso crescente entre aquilo de que (indiretamente) nos tornamos
conscientes e aquilo que podemos (diretamente) influenciar eleva a incerteza que acompanha todas as
escolhas morais a alturas sem precedentes, nas quais nossos dotes éticos não estão acostumados e talvez
nunca sejam capazes de operar.
A partir dessa dolorosa percepção de impotência, talvez insuportável, ficamos tentados a correr
em busca de abrigo. A tentação de converter em "inatingível" o que é "difícil de administrar" é constante,
e crescente...

"Quanto mais nos destacamos de nossas vizinhanças imediatas, mais dependemos da vigilância
desse ambiente ... Os lares de muitas áreas urbanas do mundo agora existem para proteger seus
habitantes, não para integrar as pessoas a suas comunidades", observam Gumpert e Drucker. (12)
"À medida que os moradores ampliam seus espaços de comunicação para a esfera internacional,
simultaneamente conduzem suas casas para longe da vida pública por meio de infra-estruturas de
segurança cada vez mais 'inteligentes--, comentam Graham e Marvin. (13) "Virtualmente todas as
cidades do mundo começam a apresentar espaços e zonas poderosamente conectadas a outros espaços
'valorizados', cruzando a paisagem urbana e as distâncias nacionais, internacionais e até mesmo globais.
Ao mesmo tempo, porém, muitas vezes há em tais lugares um palpável e crescente senso de desconexão
local em relação a áreas e pessoas fisicamente próximas, mas social e economicamente distantes." (14)
O produto excedente da nova extraterritorialidade-mediante-a-conectividade dos espaços urbanos
privilegiados, habitados e usados pela elite global são as áreas desconectadas e abandonadas -- as "alas
fantasmas" de Michael Schwarzer, onde "os sonhos foram substituídos por pesadelos e o perigo e a
violência são mais banais do que em outros lugares" (15). Para manter as distâncias intransponíveis e
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afastar os perigos de vazamento e contaminação da pureza regional, os instrumentos acessíveis são
impor a tolerância zero e exilar os sem-teto dos espaços em que podem ganhar a vida (mas nos quais
também se fazem atrevida e exasperantemente visíveis) para outros, afastados, nos quais não podem fazer
nem uma coisa nem outra.
Tal como sugerido pela primeira vez por Manuel Castells, há uma crescente polarização e uma
ruptura de comunicação ainda mais completa entre os mundos em que vivem as duas categorias de
residentes urbanos:

O espaço da camada superior é geralmente conectado à comunicação global e a uma ampla rede de intercâmbio,
aberta a mensagens e experiências que abrangem o mundo inteiro. Na outra extremidade do espectro, redes locais
segmentadas, freqüentemente de base étnica, apoiam-se em sua identidade como o mais valioso recurso para defender
seus interesses e, em última instância, o seu ser. (16)

A imagem que emerge dessa descrição é de dois mundos segregados e distintos. Só o segundo
deles é territorialmente circunscrito e pode ser capturado nas malhas das noções geográficas ortodoxas,
mundanas e terra a terra. Os que vivem no primeiro desses dois mundos podem estar, como os outros, "no
lugar", mas não são "do lugar" -- decerto não espiritualmente, mas com muita freqüência tampouco
fisicamente, quando é seu desejo.
As pessoas da "camada superior" não pertencem ao lugar que habitam, pois suas preocupações se
situam (ou melhor, flutuam) alhures. Pode-se imaginar que, além de serem deixadas sós e portanto livres
para se dedicarem totalmente a seus passatempos, e tendo assegurados os serviços necessários para suas
necessidades e confortos do dia-a-dia (como quer que os definam), elas não têm outros interesses na
cidade em que se localizam as suas residências. A população urbana não é -- como costumava ser para os
proprietários de fábricas e os comerciantes de artigos de consumo e de idéias de outrora -- seu campo de
pastagem, a fonte de sua riqueza ou um bem sob sua custódia, cuidado e responsabilidade. Portanto eles
estão, em conjunto, despreocupados em relação aos assuntos da "sua" cidade, apenas uma localidade entre
muitas, todas elas pequenas e insignificantes do ponto de vista do ciberespaço -- seu lar genuíno, ainda
que virtual.
O mundo em que vive a outra camada de moradores da cidade, "inferior", é o exato oposto do
primeiro. Define-se sobretudo por ser isolado daquela rede mundial de comunicação pela qual as pessoas
da "camada superior" se conectam e com a qual suas vidas se sintonizam. Os habitantes urbanos da
camada inferior estão "condenados a permanecerem locais" -- e portanto se espera, e deve-se esperar,
que sua atenção, repleta de descontentamentos, sonhos e esperanças, se concentre nos "assuntos locais".
Para eles, é dentro da cidade que habitam que a batalha pela sobrevivência e por um lugar decente no
mundo é desencadeada, travada, por vezes ganha, mas geralmente pedida.
O desligamento da nova elite global em relação a seus antigos engajamentos com o populus local
e o crescente hiato entre os espaços vivos/vividos dos que se separaram e dos que foram deixados para
trás é comprovadamente o mais seminal de todos os afastamentos sociais, culturais e políticos associados
à passagem do estado "sólido" para o estado "líquido" da modernidade.

Há muita verdade, e nada além da verdade, no quadro acima esboçado. Mas não toda a verdade.
Das partes da verdade que estão faltando ou foram subestimadas, a principal é aquela que, mais
que qualquer outra, responde pela característica mais vital (e provavelmente mais influente a longo prazo)
da vida urbana contemporânea: a íntima interação entre as pressões globalizantes e o modo como as
identidades locais são negociadas, construídas e reconstruídas.
É um erro grave localizar os aspectos "globais" e "locais" das condições de existência e da política
de vida contemporâneas em duas esferas distintas que só se comunicam marginal e ocasionalmente, como
a opção por sair, feita pela "camada superior", em última análise indicaria. Em estudo recentemente
publicado, Michael Peter Smith desaprova a visão (sugerida, em sua opinião, por David Harvey ou John
Friedman, entre outros) que opõe "uma lógica dinâmica, mas desenraizada, dos fluxos econômicos
globais [a] uma imagem estática do lugar e da cultura local'; agora "valorizados" como o "locus da
existência" do "estar no mundo"" Na opinião do próprio Smith, "longe de refletir uma estática ontologia
do 'ser' ou da 'comunidade' as localidades são construções dinâmicas 'em formação'".
Com efeito, a linha que estabelece a separação entre o espaço abstrato ("algum lugar em lugar
nenhum") dos operadores globais e o espaço a nosso alcance, polpudo, tangível, sumamente "aqui e
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agora" dos habitantes "locais", só pode ser traçada com facilidade no mundo etéreo da teoria. Nele, os
conteúdos emaranhados e entrelaçados dos mundos humanos são, primeiramente "esticados" e, em
seguida, organizados e armazenados, cada qual no seu próprio compartimento, em beneficio da
inteligibilidade. As realidades da vida urbana, porém, destroem essas divisões nítidas. Os elegantes
modelos de vida na cidade e as oposições agudas exibidas na sua construção podem proporcionar grande
satisfação intelectual aos formuladores de teorias, mas pouca orientação prática aos planejadores urbanos,
e ainda menos apoio aos habitantes das cidades em sua luta contra os desafios de viver nelas.

Os verdadeiros poderes que moldam as condições sob as quais todos nós agimos hoje em dia fluem
num espaço global, enquanto nossas instituições de ação política permanecem, em seu conjunto,
presas ao chão; elas são, tal como antes, locais.
Por continuarem principalmente locais, as agências políticas que operam no espaço urbano
tendem, fatalmente, a ser atormentadas por uma insuficiência de poder de ação, e particularmente de ação
efetiva e soberana, no palco em que se desenrola o drama da política. Outro resultado, porém, é a escassez
de política no ciberespaço extraterritorial, o playground dos poderes.
Em nosso mundo globalizante, a política tende a ser crescente, apaixonada e conscientemente
local. Despejada do ciberespaço, ou tendo o acesso a ele negado, a política recua e repercute sobre os
assuntos que estão "ao alcance", sobre questões locais e relações de vizinhança. Para a maioria de nós,
durante a maior parte do tempo, esses parecem ser os únicos temas em relação aos quais podemos "fazer
alguma coisa" influenciar, corrigir, aperfeiçoar, redirecionar. É somente nas questões locais que nossa
ação ou inação "faz diferença", enquanto para as outras, reconhecidamente supra-locais, "não há
alternativa" (ou pelo menos é o que repetem nossos líderes políticos e todas as "pessoas que estão por
dentro"). Chegamos a suspeitar que, dados os meios e recursos miseravelmente inadequados de que
dispomos, as coisas assumirão seu próprio curso independente daquilo que fazemos ou poderíamos, com
sensatez, imaginar fazer.
Mesmo assuntos com fontes e causas indubitavelmente globais, remotas e recônditas só ingressam
no domínio das preocupações políticas por meio de suas ramificações e repercussões locais. A poluição
do ar ou dos suprimentos de água transforma-se em assunto político quando um aterro de lixo tóxico é
instalado na porta ao lado, no "nosso jardim", numa proximidade de nossa casa que é, ao mesmo tempo,
de uma intimidade assustadora e estimulantemente "a nosso alcance" A comercialização progressiva dos
temas de saúde, obviamente um efeito da desabrida caça aos lucros empreendida pelos gigantes
farmacêuticos supranacionais, entra no panorama político quando se derruba um posto de saúde ou
quando os asilos param e sanatórios locais são desativados. Quem teve de lidar com os danos causados
pelo terrorismo global foram os moradores de uma cidade, Nova Iorque, assim como foram as câmaras e
prefeitos de outras cidades que tiveram de assumir a responsabilidade pela proteção da segurança
individual de seus habitantes, vista agora como vulnerável diante de forças entrincheiradas muito além do
alcance de qualquer municipalidade. A devastação global dos modos de subsistência e o desarraigamento
de populações há muito estabelecidas entram no horizonte da ação política por meio de pitorescos
"migrantes econômicos" entupindo ruas que antes pareciam tão uniformes...
Para resumir uma longa história: as cidades se tornaram depósitos de lixo para problemas gerados
globalmente. Os moradores das cidades e seus representantes eleitos tendem a ser confrontados com uma
tarefa que nem por exagero de imaginação seriam capazes de cumprir: a de encontrar soluções locais para
contradições globais.
Daí o paradoxo, observado por Castells, de "políticas cada vez mais locais num mundo estruturado
por processos cada vez mais globais"* "Houve uma produção de significado e de identidade: meu bairro,
minha comunidade, minha cidade, minha escola, minha árvore, meu rio, minha praia, minha capela,
minha paz, meu meio ambiente." "Indefesas diante do furacão global, as pessoas se agarraram a si
mesmas."" Observe-se que, quanto mais estiverem "agarradas a si mesmas", mais indefesas tenderão a
ficar "diante do furacão global", assim como mais desamparadas ao determinarem os significados e
identidades locais, e portanto ostensivamente seus -- para grande alegria dos operadores globais, que não
têm motivos para temer os indefesos.
Como Castells insinua em outro texto, a criação do "espaço dos fluxos" estabelece uma nova
hierarquia (global) de dominação mediante a ameaça de desengajamento. O "espaço dos fluxos" pode
"escapar ao controle de qualquer localidade", enquanto (e porque!) "o espaço dos lugares é fragmentado,
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localizado, e portanto crescentemente destituído de poder diante da versatilidade do espaço dos fluxos.
A única chance de resistência das localidades consiste em recusar direitos de propriedade a esses fluxos
esmagadores -- apenas para vê-los atracar na localidade vizinha, provocando o desvio e a marginalização
de comunidades rebeldes" (19).
A política local -- e em particular a política urbana -- tornou-se desesperadamente
sobrecarregada, muito além de sua capacidade de carga/desempenho. Agora espera-se que alivie as
conseqüências da globalização descontrolada usando meios e recursos que essa mesmíssima globalização
tornou lamentavelmente inadequados.

Em nosso mundo em rápido processo de globalização, ninguém é um "operador global" puro e
simples. O máximo que os membros da elite internacional globalmente influente podem conseguir é
ampliar sua esfera de mobilidade.
Se as coisas se tornam desconfortavelmente quentes e o espaço em torno de suas residências
urbanas se mostra muito perigoso e difícil de administrar, eles podem se mudar para outro lugar -- opção
de que não dispõem seus vizinhos (fisicamente) próximos. Essa opção de escapar aos desconfortos locais
lhes dá uma independência com que os outros podem apenas sonhar, assim como o luxo de uma
indiferença arrogante que estes não se podem permitir. Seu compromisso de "colocar em ordem os
assuntos da cidade" tende a ser consideravelmente menos integral e incondicional que o compromisso
daqueles que têm menos liberdade para romper os vínculos locais de modo unilateral.
Mas isso não significa que, na busca pelo "sentido e identidade" de que eles necessitam e anseiam
de modo não menos intenso do que as outras pessoas, os membros da elite globalmente conectada possam
desconsiderar o lugar em que vivem e trabalham. Como todos os outros homens e mulheres, eles são
parte da paisagem humana, e nela estão registradas as suas vacilantes aspirações existenciais. Como
operadores globais, podem perambular pelo ciberespaço. Mas como agentes humanos estão, dia após dia,
confinados ao espaço físico em que operam, ao ambiente preestabelecido e continuamente reprocessado
no curso de suas lutas por sentido e identidade. A experiência humana é formada e compilada, a partilha
da vida é administrada, seu significado é concebido, absorvido e negociado em torno de lugares. E é nos
lugares e a partir deles que os impulsos e desejos humanos são gerados e incubados, que vivem na
esperança de se realizarem, que se arriscam a se frustrar e, na verdade, com muita freqüência, se frustram.
As cidades contemporâneas são campos de batalha em que os poderes globais e os significados e
identidades obstinadamente locais se encontram, se chocam, lutam e buscam um acordo que se mostre
satisfatório ou pelo menos tolerável -- um modo de coabitação que encerre a esperança de uma paz
duradoura, mas que, em geral, se revela um simples armistício, um intervalo para reparar as defesas
avariadas e redistribuir as unidades de combate. É esse confronto, e não algum fator singular, que coloca
em movimento e orienta a dinâmica da cidade "líquido-moderna".
E que não haja equívocos: qualquer cidade, ainda que nem todas no mesmo grau. Em recente
viagem a Copenhague, Michael Peter Smith registrou que, em apenas uma hora de caminhada, passou
"por pequenos grupos de imigrantes turcos, africanos e do Oriente Médio", observou "diversas mulheres
árabes com e sem véu" leu "anúncios em várias línguas não-européias" e teve "uma conversa interessante
com um barman irlandês, num pub inglês, em frente ao jardim Tivoli." (20) Essas experiências de campo
se mostraram valiosas, diz Smith, na palestra sobre conexões transnacionais que ele apresentou naquela
cidade na mesma semana, "quando um debatedor insistiu em afirmar que o transnacionalismo era um
fenômeno que podia ser aplicado a 'cidades globais, como Nova Iorque ou Londres, mas tinha pouca
importância em lugares mais isolados como Copenhague".

A história recente das cidades norte-americanas está cheia de viradas de 180 graus -- mas ela é
plenamente caracterizada pelas preocupações com proteção e segurança.
O que aprendemos, por exemplo, com o estudo de John Hannigan (21) é que na segunda metade
do século xx um súbito horror ao crime oculto nas esquinas sombrias das áreas centrais tomou de assalto
os habitantes das regiões metropolitanas dos Estados Unidos, provocando uma "fuga branca" dos centros
das cidades -- embora poucos anos antes essas mesmas áreas tivessem se tornado ímãs poderosos para
multidões ávidas por divertimento de massa, que só essas zonas, e não outras menos densamente
povoadas, podiam oferecer.
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Não importa se o medo do crime tinha bases sólidas ou se o súbito crescimento da
criminalidade foi um produto de imaginações febris -- o resultado foram áreas centrais desertas e
abandonadas, "um número decrescente de pessoas em busca de prazeres e uma percepção cada vez maior
das cidades como locais perigosos". Sobre uma dessas cidades, Detroit, outro autor observou, em 1989,
que "as ruas ficam tão desertas depois de escurecer que parece uma cidade fantasma -- tal como
Washington, a capital federal" (22).
Hannigan descobriu que uma tendência oposta teve início perto do final do século. Depois dos
muitos anos de vacas magras, marcados pelo medo de sair à noite e pela "desertificação" que isso
provocou, as autoridades urbanas dos Estados Unidos uniram-se a patrocinadores no esforço de tornar o
centro das cidades novamente alegres, uma atração irresistível para farristas em potencial, com "a
diversão retornando às áreas centrais" e "visitantes diurnos" ["day-trippers"] sendo novamente arrastados
para elas, na esperança de encontrar alguma coisa "excitante, segura e inexistente nos subúrbios" (23).
Reconhecidamente, essas mudanças drásticas e neuróticas podem ser mais evidentes e abruptas
nas cidades norte-americanas, com seus antigos antagonismos e inimizades raciais -- geralmente
encobertos, mas capazes de explodir ocasionalmente -- do que em outros lugares, onde esses conflitos e
preconceitos acrescentam pouco ou nenhum combustível à incerteza e à confusão latentes. De forma um
pouco mais suave e atenuada, porém, a ambivalência da atração e repulsa e a oscilação entre paixão e
aversão à vida nos grandes centros urbanos também assinalam a história recente de muitas cidades
européias, talvez da maioria delas.

Cidade e mudança social são quase sinônimos. A mudança é a condição de vida e o modo de
existência urbanos. Mudança e cidade podem, e com certeza devem, ser definidas por referência
mútua. Mas por que é assim? Por que tem de ser assim?
É comum definir as cidades como lugares onde estranhos se encontram, permanecem próximos
uns dos outros e interagem por longo tempo sem deixarem de ser estranhos. Examinando o papel das
cidades no desenvolvimento econômico, Jane Jacobs aponta a mera densidade da comunicação humana
como a causa principal dessa inquietação própria do meio urbano. (24) Os habitantes das cidades não são
necessariamente mais inteligentes que outros seres humanos, mas a densidade da ocupação espacial
resulta na concentração de necessidades. Assim, nas cidades se fazem perguntas que nunca foram feitas,
surgem problemas que em outras condições as pessoas nunca tiveram oportunidade de resolver. Encarar
problemas e questionar trazem um desafio e ampliam a inventividade humana a um nível sem
precedentes. Isso, por sua vez, oferece uma oportunidade tentadora para quem vive em lugares mais
tranqüilos, porém menos promissores. A vida urbana exerce uma atração constante sobre as pessoas de
fora, e estas têm como marca registrada o fato de trazerem "novas maneiras de ver as coisas e talvez de
resolver antigos problemas" As pessoas de fora são estranhas à cidade, e coisas familiares aos moradores
antigos e já estabelecidos, coisas que eles sequer notam, parecem bizarras e exigem explicação quando
vistas pelos olhos de um estranho. Para este, particularmente quando recém-chegado, nada na cidade é
"natural nada pode ser pressuposto. Os recém-chegados são inimigos da tranqüilidade e da
autocondescendência.
Essa talvez não seja uma situação agradável para os nativos da cidade, mas é também sua grande
vantagem. A cidade está em sua melhor forma, mais exuberante e generosa em termos das oportunidades
que oferece quando seus recursos são desafiados, questionados e postos contra a parede. Michael Storper,
economista, geógrafo e projetista, (25) atribui a vivacidade intrínseca e a criatividade típica da densa vida
urbana à incerteza que advém dos relacionamentos pouco coordenados e eternamente mutáveis "entre as
peças das organizações complexas, entre os indivíduos e entre estes e as organizações" -- inevitáveis sob
as condições urbanas de alta densidade e estreita proximidade.
Os estranhos não são uma invenção moderna, mas aqueles que permanecem estranhos por um
longo período, ou mesmo perpetuamente, são. Numa típica cidade ou aldeia pré-moderna, não era
permitido permanecer estranho por muito tempo. Alguns eram expulsos, ou nem chegavam a obter
permissão para entrar. Os que desejavam e conseguiam entrar e permanecer por mais tempo tendiam a ser
"familiarizados" -- submetidos a interrogatórios minuciosos e rapidamente "domesticados" -- de modo
que pudessem integrar a rede de relacionamentos como se fossem mo-radores estabelecidos: no esquema
pessoal. Isso tinha conseqüências -- marcadamente diferentes do processo que nos é familiar a partir da
experiência das cidades contemporâneas, modernas, congestionadas e densamente povoadas.
60

Qualquer que seja a história das cidades, e independentemente das drásticas mudanças que possam
ter afetado sua estrutura espacial, aparência e estilo ao longo dos anos e dos séculos, uma
característica se mantém constante: são espaços em que estranhos permanecem e se movimentam
em íntima e recíproca proximidade.
Sendo um componente permanente da vida urbana, a presença perpétua e ubíqua de estranhos
visíveis e próximos aumenta em grande medida a eterna incerteza das buscas existenciais de todos os
habitantes. Essa presença, impossível de se evitar senão por breves momentos, é uma fonte de ansiedade
inesgotável, assim como de uma agressividade geralmente adormecida, mas que volta e meia pode
emergir.
O medo do desconhecido, mesmo se subliminar, busca desesperadamente escoadouros confiáveis.
As ansiedades acumuladas tendem a ser descarregadas sobre os "forasteiros", eleitos para exemplificar a
"estranheza", a falta de familiaridade, a opacidade do ambiente de vida, a imprecisão do risco e da
ameaça em si. Quando se expulsa das casas e das lojas uma categoria selecionada de "forasteiros", o
fantasma atemorizante da incerteza é exorcizado por algum tempo -- queima-se simbolicamente o
monstro assustador da insegurança. Cercas cuidadosamente erguidas contra aqueles que se fazem passar
por pessoas "em busca de asilo" e migrantes "meramente econômicos" trazem a esperança de fortalecer
uma existência incerta, errática e imprevisível. Mas a líquida vida moderna tende a permanecer
inconsistente e caprichosa, sejam quais forem os apuros infligidos aos "forasteiros indesejáveis", e
portanto o alívio é momentâneo, e as esperanças investidas nas "medidas duras e decisivas" se
desvanecem tão logo se apresentam.
O estranho é, por definição, um agente movido por intenções que na melhor das hipóteses se
poderia adivinhar, mas nunca saber com certeza. O estranho é a variável desconhecida em todas as
equações calculadas quando se tomam decisões sobre o que fazer e como se comportar. E assim, mesmo
que não se tornem objetos de agressão ostensiva nem sejam aberta e ativamente ofendidos, a presença de
estranhos dentro do campo de ação permanece desconfortável, na medida em que dificulta a tarefa de
predizer os efeitos do procedimento e suas chances de sucesso ou fracasso.
Compartilhar o espaço com estranhos, viver na sua proximidade repugnante e impertinente, é uma
condição da qual os habitantes das cidades consideram difícil, talvez impossível escapar. A proximidade
de estranhos é sua sina, e faz-se necessário experimentar, tentar, testar e (espera-se) encontrar um modus
vivendi que torne a coabitação palatável e a vida suportável. Essa necessidade é "dada", não-negociável.
Mas o modo como os habitantes de cada cidade se conduzem para satisfazê-la é questão de escolha. E
esta é feita diariamente -- por ação ou omissão, desígnio ou descuido.

Sobre São Paulo, a maior cidade do Brasil, caótica e em rápida expansão, escreve Teresa Caldeira:
"São Paulo é hoje uma cidade de muros. Barreiras físicas foram construídas em toda parte -- em
torno de casas, prédios, parques, praças, escolas e complexos empresariais... Uma nova estética da
segurança modela todos os tipos de construções e impõe uma nova lógica de vigilância e
distância..." (26)
Os que podem, vivem em "condomínios", planejados como se fosse uma ermida: fisicamente
dentro, mas social e espiritualmente fora da cidade. "Supõe-se que as comunidades fechadas sejam
mundos distintos. Nas propagandas que os anunciam propõe-se um 'modo de vida completo' que
representaria uma alternativa à qualidade de vida oferecida pela cidade e seu espaço público deteriorado."
Um traço muito importante do condomínio é seu "isolamento e distância da cidade... Isolamento significa
separação daqueles considerados socialmente inferiores" e, como insistem os construtores e seus agentes
imobiliários, "o fator-chave para garanti-lo é a segurança. Isso significa cercas e muros rodeando o
condomínio, guardas trabalhando 24 horas por dia no controle das entradas e um conjunto de instalações
e serviços" "destinados a manter os outros do lado de fora".
Como todos sabemos, as cercas têm necessariamente dois lados. Dividem espaços, que sob outros
aspectos seriam uniformes, em "dentro" e "fora"; mas o que é "dentro" para os que estão de um lado é
"fora" para os que estão do outro. Os moradores dos condomínios cercam-se para ficar "fora" da
excludente, desconfortável, vagamente ameaçadora e dura vida da cidade -- e "dentro" do oásis de calma
e segurança. Pelo mesmo viés, contudo, eles cercam todos os outros fora dos lugares decentes e seguros
cujos padrões estão preparados e determinados a manter e defender com unhas e dentes, e dentro das
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mesmíssimas ruas sujas e esquálidas das quais tentam, a todo custo, cercar-se. A cerca separa o "gueto
voluntário" dos ricos e poderosos dos muitos guetos forçados que os despossuídos habitam. Para estes, a
área a que estão confinados (por serem excluídos de todas as outras) é o espaço do qual "não têm
permissão de sair".

Em São Paulo, a tendência segregacionista e exclusivista se apresenta da forma mais brutal,
inescrupulosa e desavergonhada. Mas pode-se sentir seu impacto, embora de maneira um tanto
atenuada, na maioria das metrópoles.
Paradoxalmente, cidades construídas originalmente para oferecer segurança a seus habitantes são
hoje associadas com maior freqüência ao perigo. Como diz Nan Elin, "o fator medo [na construção e
reconstrução das cidades] certamente aumentou, como se pode depreender da proliferação dos sistemas
de segurança e das trancas para carros e residências, da popularidade de comunidades `fechadas' e
`seguras' para grupos de todas as faixas etárias e de renda, e da crescente vigilância dos espaços públicos,
sem falar nos infindáveis relatos de perigo transmitidos pelos meios de comunicação" (27).
Ameaças ao corpo e à propriedade do indivíduo, reais ou supostas, estão se transformando
rapidamente em considerações importantes quando se avaliam os méritos ou desvantagens de um lugar
para se viver. Também se tornaram prioridade na política de marketing das imobiliárias. A incerteza em
relação ao futuro, a fragilidade da posição social e a insegurança existencial -- ubíquos acessórios da vida
na "líquida modernidade" de um mundo notoriamente enraizado em lugares remotos e retirados do
controle individual -- tendem a se concentrar nos alvos mais próximos e a serem canalizadas para as
preocupações com a segurança individual. Os tipos de preocupação que se condensam em impulsos
segregacionistas/exclusivistas levam inexoravelmente a guerras pelo espaço urbano.
Como se pode aprender com o estudo perspicaz de Steven Flusty (28), jovem crítico norte-
americano de arquitetura/urbanismo, servir nessa guerra, e particularmente planejar maneiras de impedir
os adversários -- atuais, potenciais e supostos -- de terem acesso ao espaço reclamado, mantendo-os a
uma distância segura, constitui a preocupação que se expande com maior amplitude e rapidez na área da
inovação arquitetônica e do desenvolvimento urbano nas cidades norte-americanas. As novas construções,
anunciadas com maior orgulho e as mais imitadas, são "espaços interditados" -- "planejados para
interceptar, repelir ou filtrar os usuários potenciais" Explicitamente, o propósito dos "espaços
interditados" é dividir, segregar e excluir -- e não construir pontes, passagens acessíveis e locais de
encontro, facilitar a comunicação ou, de alguma outra forma, aproximar os habitantes da cidade.
As invenções arquitetônicas/urbanísticas reconhecidas, enumeradas e especificadas por Flusty são
os equivalentes tecnicamente atualizados dos fossos, torreões e canhoneiras das muralhas que cercavam
as cidadelas pré-modernas. Mas, em vez de defender a cidade e todos os seus habitantes do inimigo
externo, foram erigidas para separá-los e defendê-los uns dos outros, agora na condição de adversários.
Entre as invenções relacionadas por Flusty estão o "espaço resvaladiço", "que não pode ser alcançado
graças a formas de acesso retorcidas, retrácteis ou inexistentes"; o "espaço espinhoso", "que não pode ser
ocupado confortavelmente, já que é defendido por detalhes como aspersores embutidos nas paredes,
destinados a afastar ociosos, ou saliências espalhadas para evitar que as pessoas possam sentar-se"; e o
"espaço nervoso", "que não pode ser utilizado sem o monitoramento ativo de patrulhas móveis e/ou
dispositivos de controle remoto conectados a centrais de segurança". Esses e outros tipos de "espaços
interditados" têm apenas um, embora múltiplo, propósito: separar os enclaves extraterritoriais da área
urbana contígua, erigir pequenas fortalezas dentro das quais os membros da elite supraterritorial global
possam tratar, cultivar e apreciar sua independência física e seu isolamento espiritual em relação à
localidade. Na paisagem urbana, os "espaços interditados" se tornam marcos de desintegração da vida
comunal compartilhada e localmente ancorada.

Os desenvolvimentos descritos por Steven Flusty são manifestações high-tech de uma visível
mixofobia.
A mixofobia é uma reação altamente previsível e difundida entre os diversos tipos humanos e
estilos de vida capazes de confundir a mente, provocar calafrios e colapsos nervosos, de que estão
repletas as ruas das cidades contemporâneas, assim como seus distritos residenciais mais "comuns" (leia-
se: não protegidos por "espaços interditados"). Conforme a polifonia e a diversificação cultural do
ambiente urbano na era da globalização entram em cena -- com a probabilidade de se intensificarem no
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curso do tempo --, as tensões oriundas da exasperante/confusa/irritante estranheza desse cenário
provavelmente continuarão a estimular impulsos segregacionistas.
Expressar tais impulsos pode (de modo temporário, mas repetido) aliviar tensões crescentes. Isso
oferece uma esperança: diferenças excludentes e desconcertantes podem ser incontestáveis e refratárias,
mas talvez seja possível extrair o veneno do ferrão atribuindo a cada forma de vida um espaço físico
distinto, ao mesmo tempo inclusivo e excludente, bem demarcado e protegido. Evitando-se essa solução
radical, talvez se possa pelo menos assegurar para si mesmo, para os amigos, parentes e outras "pessoas
como nós", um território livre daquela miscelânea que irremediavelmen- te aflige outras áreas urbanas. A
mixofobia se manifesta no impulso que conduz a ilhas de semelhança e mesmidade em meio a um oceano
de variedade e diferença.
As raizes da mixofobia são banais -- nem um pouco difíceis de localizar, fáceis de compreender,
embora não necessariamente de perdoar. Como indica Richard Sennett, "o sentimento 'nós, que expressa
um desejo de ser semelhante, é uma forma de os homens evitarem a necessidade de examinarem uns aos
outros com maior profundidade". Ele promete, pode-se dizer, algum conforto espiritual: a perspectiva de
tornar o convívio algo mais fácil de suportar, cortando-se o esforço de compreender, negociar,
comprometer-se, exigido quando se vive com a diferença e em meio a ela. "O desejo de evitar a
participação real é inato ao processo de formar uma imagem coerente da comunidade. Sentir que existem
vínculos comuns sem uma experiência comum ocorre, em primeiro lugar, porque os homens têm medo da
participação, dos perigos e desafios que ela traz, de sua dor." (29)
O impulso na direção de uma "comunidade de semelhança" é um signo de recuo não apenas em
relação à alteridade externa, mas também ao compromisso com a interação interna, ao mesmo tempo
intensa e turbulenta, revigorante e embaraçosa. A atração de uma "comunidade da mesmidade" é a de
segurança contra os riscos de que está repleta a vida cotidiana num mundo polifônico. Ela não reduz os
riscos, muito menos os afasta. Como qualquer paliativo, promete apenas um abrigo em relação a alguns
dos efeitos mais imediatos e temidos desses riscos.
Escolher escapar à opção apresentada pela mixofobia tem uma conseqüência insidiosa e deletéria:
quanto mais ineficaz se mostra essa estratégia, mais ela se torna capaz de se perpetuar e se consolidar por
si mesma. Sennett explica por que isso é -- de fato, deve ser -- assim: "Durante as duas últimas décadas,
algumas cidades norte-americanas cresceram de tal maneira que as áreas étnicas se tornaram
relativamente homogêneas. Não parece acidental que o medo do outsider tenha aumentado na mesma
medida em que essas comunidades foram isoladas." (30) Quanto mais as pessoas permanecem num
ambiente uniforme -- na companhia de outras "como elas", com as quais podem "socializar-se" de modo
superficial e prosaico sem o risco de serem mal compreendidas nem a irritante necessidade de tradução
entre diferentes universos de significações --, mais tornam-se propensas a "desaprender" a arte de
negociar um modus covivendi e significados compartilhados.
Já que esqueceram ou não se preocuparam em adquirir as habilidades necessárias para viver com a
diferença, não surpreende muito que essas pessoas vejam com um horror crescente a possibilidade de se
confrontarem face a face com estranhos. Estes tendem a parecer ainda mais assustadores na medida em
que se tornam cada vez mais diferentes, exóticos e incompreensíveis, e em que o diálogo e a interação
que poderiam acabar assimilando sua "alteridade" se diluem ou nem chegam a ter lugar. O impulso que
conduz a um ambiente homogêneo e territorialmente isolado pode ser disparado pela mixofobia, mas
praticar a separação territorial significa preservá-la e alimentá-la.

Mas a mixofobia não é o único combatente no campo de batalha urbano.
Viver na cidade é sabidamente uma experiência ambígua. A cidade atrai e repele, mas, para tornar
a situação de seus habitantes ainda mais complexa, são os mesmos aspectos da vida urbana que, de modo
intermitente ou simultâneo, atraem e repelem... A desordenada variedade do ambiente urbano é uma fonte
de medo (particularmente para aqueles de nós que já "perderam os modos familiares", tendo sido atirados
a um estado de incerteza aguda pelos processos desestabilizadores da globalização). Os mesmos
bruxuleios e vislumbres caleidoscópios do cenário urbano, a que nunca faltam novidades e surpresas,
constituem, no entanto, seu charme quase irresistível e seu poder de sedução.
Confrontar o espetáculo incessante da cidade, com freqüência deslumbrante, não é, portanto,
vivenciado apenas como praga ou maldição -- assim como abrigar-se dele não parece uma bênção
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inequívoca. A cidade favorece a mixofobia do mesmo modo e ao mesmo tempo que a mixofilia. A vida
urbana é intrínseca e irreparavelmente ambivalente.
Quanto maior e mais heterogênea é a cidade, mais atrações ela pode promover e oferecer. A
condensação maciça de estranhos é simultaneamente um repelente e um ímã poderoso, atraindo sempre
novas coortes de homens e mulheres cansados da monotonia da vida no campo ou na cidade pequena,
fartos de sua rotina repetitiva -- e desencantados diante de sua desesperadora escassez de oportunidades.
A variedade promete muitas e diversas oportunidades, que se ajustam a todas as habilidades e a todos os
gostos. E assim, quanto maior a cidade, mais provável é que ela atraia um número crescente de pessoas
que rejeitam -- ou a quem foram recusadas -- acomodação e oportunidades de vida em lugares menores
e por isso menos tolerantes em relação a idiossincrasias e mais avarentos quanto às chances que oferecem.
Parece que a mixofilia, tal como a mixofobia, é uma tendência capaz de impulsionar-se, difundir-se e
fortalecer-se. Nenhuma das duas tem propensão a se exaurir ou a perder seu vigor no curso da renovação
e reforma do espaço urbano.
Mixofobia e mixofilia coexistem em toda cidade, mas também dentro de cada um de seus
habitantes. Trata-se reconhecidamente de uma coexistência problemática, cheia de som e fúria, embora
signifique muito para as pessoas que se encontram na ponta receptiva da ambivalência líquido-moderna.

Como os estranhos são obrigados a levar suas vidas na companhia uns dos outros,
independentemente das futuras guinadas da história urbana, a arte de viver em paz e feliz com a
diferença, assim como de se beneficiar, serenamente, da variedade de estímulos e oportunidades,
adquire enorme importância entre as habilidades que o morador da cidade deve adquirir e utilizar.
Mesmo que a erradicação total da mixofobia seja algo improvável, dada a crescente mobilidade
humana na líquida era moderna, assim como a acelerada mudança de papéis, tramas e ambientes do
cenário urbano, talvez se possa fazer alguma coisa para influenciar as proporções em que mixofobia e
mixofilia se combinam, e assim reduzir o impacto da primeira, que confunde e tende a gerar ansiedade e
angústia. Com efeito, parece que arquitetos e urbanistas poderiam ajudar muito no crescimento da
mixofilia e minimizar as oportunidades de respostas mixofóbicas aos desafios da vida urbana. E parece
haver muita coisa que eles podem fazer, e de fato estão fazendo, para facilitar os efeitos opostos.
Como vimos anteriormente, a segregação de áreas residenciais e de espaços freqüentados pelo
público, comercialmente atraente para os construtores e seus clientes como um remédio rápido para as
ansiedades geradas pela mixofobia, é na verdade a sua principal causa. As soluções disponíveis geram,
por assim dizer, os problemas que pretendem resolver: os construtores de comunidades fechadas e
condomínios estritamente protegidos, assim como os arquitetos responsáveis pelos "espaços interditados",
criam, reproduzem e intensificam a necessidade e a demanda que supostamente satisfariam.
A paranóia mixofóbica alimenta-se e atua como uma profecia auto-realizadora. Se a segregação é
oferecida e assumida como a cura radical para o perigo representado pelos estranhos, a coabitação com
estes torna-se mais difícil a cada dia. Homogeneizar os bairros residenciais e depois reduzir a um mínimo
inevitável todo o comércio e a comunicação entre eles é uma receita certa para tornar mais intenso e
profundo o estímulo a destruir e segregar. Essa medida pode ajudar a diminuir as dores que sofrem as
pessoas afligidas pela mixofobia, mas a cura é ela própria patogênica e aprofunda a aflição, de modo que
novas e maiores doses do remédio tornam-se necessárias para manter a dor num nível toleravelmente
baixo. A homogeneidade social do espaço, enfatizada e fortalecida pela segregação espacial, reduz a
tolerância de seus moradores à diferença e assim multiplica as possibilidades de reações mixofóbicas,
fazendo a vida urbana parecer mais "propensa ao risco" e portanto mais angustiante, em lugar de mais
segura, agradável e fácil de levar.
Mais favorável à fixação e ao cultivo de sentimentos mixófilos seria a estratégia oposta por parte
de arquitetos e urbanistas: a propagação de espaços públicos abertos, convidativos e hospitaleiros que
todas as categorias de moradores seriam tentadas a freqüentar e estariam prontas a compartilhar, de modo
regular e consciente.
Conforme a famosa observação de Hans Gadamer em seu livro Verdade e método, a compreensão
mútua é instigada pela "fusão de horizontes" -- quer dizer, horizontes cognitivos, induzidos e ampliados
no curso da acumulação da experiência de vida. A "fusão" exigida pela compreensão mútua só pode ser o
resultado da experiência compartilhada, e esta é inconcebível sem que haja um espaço compartilhado.
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Como que fornecendo uma poderosa prova empírica da hipótese de Gadamer, descobriu-se que
os espaços reservados para encontros face a face -- ou apenas para compartilhar o espaço, "misturar-se
com" curtir juntos, jantar nos mesmos restaurantes ou beber nos mesmos bares -- dos homens de
negócios e outros membros da elite internacional ou Ma classe dominante global" emergente quando
estão viajando (lugares como as redes mundiais de hotéis e os centros de conferência supranacionais),
desempenham um papel crucial na integração dessa elite, a despeito de diferenças culturais, lingüísticas,
religiosas, ideológicas e outras que, em situações diversas, separam-na e evitam que se desenvolva o
sentimento de "pertencimento compartilhado" (31).
Com efeito, o desenvolvimento da compreensão mútua e a troca de experiências de vida de que
essa compreensão necessita é a única razão pela qual -- apesar da facilidade de se comunicar
eletronicamente com maior rapidez e muito menos trabalho e problemas -- empresários e acadêmicos
continuam viajando, visitando-se e se encontrando em conferências. Se a comunicação pudesse ser
reduzida à transferência de informação, sem necessidade da "fusão de horizontes", então, em nossa era da
internet e da rede mundial, o contato físico e o compartilhamento (mesmo que temporário e intermitente)
de espaço e experiências teriam se tornado redundantes. Mas não se tornaram, e até agora nada indica que
isso ocorrerá.

Há coisas que os arquitetos e urbanistas podem fazer para que a balança entre mixofobia e
mixofilia possa vir a pender em favor desta última (tal como, por ação ou omissão, eles contribuem
no sentido oposto). Mas há limites ao que podem conseguir agindo sozinhos e baseando-se
unicamente nos efeitos de suas próprias ações.
As raízes da mixofobia -- aquela sensibilidade alérgica e febril aos estranhos e ao desconhecido
-- jazem além do alcance da competência arquitetônica ou urbanística. Estão profundamente fincadas na
condição existencial dos homens e mulheres contemporâneos, nascidos e criados no mundo fluido,
desregulamentado e individualizado da mudança acelerada e difusa. Não importa que significação possam
ter, para a qualidade da vida diária, a forma, a aparência e a atmosfera das ruas das cidades, assim como o
uso que se faz dos espaços urbanos -- esses são apenas alguns dos fatores (e não necessariamente os
principais) que contribuem para aquela condição desestabilizadora que gera incerteza e ansiedade.
Mais que qualquer outra coisa, os sentimentos mixofóbicos são estimulados e alimentados por
uma sensação de insegurança esmagadora. Homens e mulheres inseguros, incertos de seu lugar no
mundo, de suas perspectivas de vida e dos efeitos de suas próprias ações, são mais vulneráveis à tentação
mixofóbica e mais propensos a caírem em sua armadilha. Esta consiste em canalizar a ansiedade para
longe de suas verdadeiras raízes e descarregá-la sobre alvos que não se relacionam às suas fontes. Como
resultado, muitos seres humanos são vitimizados (e no longo prazo os vitimizadores atraem, por sua vez,
a vitimização), enquanto as fontes da angústia permanecem protegidas da interferência, emergindo sãs e
salvas dessa operação.
A conseqüência é que os problemas que afligem as cidades contemporâneas não podem ser
resolvidos reformando-se os próprios centros urbanos, por mais radical que seja a reforma. Não há,
permitam-me repetir, soluções locais para problemas gerados globalmente. O tipo de "segurança"
oferecido pelos urbanistas não pode aliviar, muito menos erradicar, a insegurança existencial reabastecida
diariamente pela fluidez dos mercados de trabalho, pela fragilidade do valor atribuído a habilidades e
competências do passado ou que se busca adquirir no presente, pela reconhecida vulnerabilidade dos
vínculos humanos e pela suposta precariedade e revogabilidade dos compromissos e parcerias. As
reformas urbanas devem ser precedidas de uma reforma das condições de existência, já que estas
determinam o sucesso daquelas. Sem essa reforma, confinados à cidade, os esforços para sobrepujar ou
desintoxicar as pressões mixofóbicas tendem a continuar sendo apenas paliativos -- com muita
freqüência, tão-somente placebos.
Isso deve ser lembrado não para desvalorizar ou reduzir a diferença entre a boa e a má arquitetura,
ou entre planejamento urbano adequado e inadequado (ambos podem ser, e freqüentemente são, de
enorme importância para a qualidade de vida dos habitantes das cidades), mas para colocar a tarefa numa
perspectiva que inclua todos os fatores decisivos a fim de se fazer e sustentar a escolha certa.
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As cidades contemporâneas são áreas de descarga para os produtos malfeitos e deformados da
fluida sociedade moderna (embora elas próprias certamente não deixem de contribuir para a
acumulação de dejetos).
Não há soluções centradas na cidade, muito menos a esta confinadas, para enfrentar contradições e
disfunções sistêmicas. Por maiores e mais louváveis que sejam a imaginação de arquitetos, prefeitos e
vereadores, elas não serão encontradas. Os problemas devem ser enfrentados onde surjam: as dificuldades
confrontadas e sofridas dentro da cidade germinaram em outros lugares, e seus espaços de incubação e
gestação são amplos demais para que se possa combatê-las com ferramentas concebidas até mesmo para
as maiores áreas metropolitanas. Esses espaços se estendem além do alcance da ação soberana do Estado-
nação, o maior, mais adequado, espaçoso e inclusivo ambiente para os procedimentos democráticos
inventados e postos em funcionamento nos tempos modernos. Esses espaços são cada vez mais globais, e
até agora não chegamos nem perto de inventar, muito menos colocar em prática, meios de controle
democráticos à altura do tamanho e da potência das forças a serem controladas.
Essa é, sem dúvida, uma tarefa de longo prazo e que vai exigir muito mais pensamento, ação e
persistência do que qualquer reforma de planejamento urbano e estética arquitetônica. Isso não significa,
contudo, que se devam suspender os esforços nessa direção até que se chegue à raiz do problema e se
coloquem sob controle aquelas tendências globalizantes perigosamente indefinidas. Se podemos dizer
assim, o oposto é verdadeiro, já que, embora a cidade seja o aterro sanitário das ansiedades e apreensões
geradas pela incerteza e a insegurança globalmente induzidas, é também um importante campo de
treinamento em que se pode experimentar, provar e acabar aprendendo e adotando os meios de aplacar e
dispersar esses sentimentos.
É na cidade que os estranhos que se confrontam no espaço global como Estados hostis,
civilizações rivais ou adversários militares se encontram como seres humanos individuais, se vêem de
perto, conversam, aprendem os costumes uns dos outros, negociam as regras da vida em comum,
cooperam e, cedo ou tarde, se acostumam com a presença dos outros e, cada vez mais, encontram prazer
em sua companhia. Depois de tal treinamento reconhecidamente local, esses estranhos podem ficar muito
menos tensos e apreensivos ao lidarem com assuntos globais. A incompatibilidade de civilizações, tal
como a hostilidade mútua, pode mostrar-se, afinal, não tão intratável quanto parecia, e o estrépito dos
sabres pode não ser a única forma de resolver conflitos. A "fusão de horizontes" de Gadamer pode se
transformar num projeto um pouco mais realista se buscarmos concretizá-la (mesmo que por tentativa e
erro, e com êxito apenas relativo) nas ruas das cidades.

Vai levar tempo para que se assimile a nova situação global, e particularmente para que se possa
confrontá-la de maneira efetiva -- o que sempre ocorreu com todas as transformações realmente
profundas da condição humana.
Tal como no caso de todas essas transformações, é impossível (e altamente desaconselhável
tentar) apropriar-se antecipadamente da história e prever, para não dizer preestabelecer, a forma que ela
vai assumir e o arranjo a que acabará conduzindo. Mas esse confronto terá de acontecer. Ele
provavelmente constituirá a principal preocupação e preencherá a maior parte da história do século que
está apenas começando.
O drama será encenado e tramado nos dois espaços, o global e o local. Os desenlaces dessas
produções em dois palcos estão intimamente combinados e dependem muito do nível de consciência dos
roteiristas e atores de cada uma delas em relação a esse vínculo, assim como do grau de habilidade e
determinação com que contribuam para o sucesso mútuo.
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4. Convívio destruído

Um espectro paira sobre o planeta: o espectro da xenofobia. Suspeitas e animosidades tribais,
antigas e novas, jamais extintas e recentemente descongeladas, misturaram-se e fundiram-se a uma
nova preocupação, a da segurança, destilada das incertezas e intranqüilidades da existência líquido-
moderna.
Pessoas desgastadas e mortalmente fatigadas em conseqüência de testes de adequação eternamente
inconclusos, assustadas até a alma pela misteriosa e inexplicável precariedade de seus destinos e pelas
névoas globais que ocultam suas esperanças, buscam desesperadamente os culpados por seus problemas e
tribulações. Encontram-nos, sem surpresa, sob o poste de luz mais próximo -- o único ponto
obrigatoriamente iluminado pelas forças da lei e da ordem: "São os criminosos que nos deixam inseguros,
são os forasteiros que trazem o crime." E assim "é reunindo, encarcerando e deportando os forasteiros que
vamos restaurar a segurança perdida ou roubada".
Donald G. McNeil Jr. deu a seu resumo das mudanças mais recentes no espectro político europeu o título
de "Politicians pander to fear of crime" (1). Com efeito, em todo o mundo submetido a governos
democraticamente eleitos a frase "serei duro com o crime" transformou-se num trunfo, mas a mão
vencedora é quase invariavelmente uma combinação da promessa de "mais prisões, mais policiais,
sentenças maiores" com o juramento de "não à imigração, aos direitos de asilo e à naturalização". Como
diz McNeil, "políticos de toda a Europa usam o estereótipo de que 'o crime é causado por forasteiros' para
ligar o antiquado ódio étnico à preocupação com a segurança pessoal, mais palatável".
O duelo Chirac versus Jospin pela presidência da França, em 2002, estava apenas nos estágios
preliminares quando degenerou num leilão público em que os dois competidores buscavam apoio eleitoral
oferecendo medidas cada vez mais duras contra criminosos e imigrantes, mas sobretudo contra os
imigrantes que praticam crimes e contra a criminalidade praticada por imigrantes. (2) Antes de mais nada,
porém, eles deram o melhor de si tentando mudar o foco da ansiedade dos eleitores, derivada da
envolvente sensação de precarité (uma insegurança exasperante em relação à posição social, entrelaçada
com uma incerteza aguda quanto ao futuro dos meios de subsistência), para a preocupação com a
segurança individual (a integridade do corpo, das propriedades pessoais, do lar e da vizinhança). A 14 de
julho de 2001, Chirac colocou em movimento essa máquina infernal, anunciando a necessidade de
combater "essa crescente ameaça à segurança, essa maré montante", em vista do aumento (também
anunciado na ocasião) de quase 10% da delinqüência no primeiro semestre daquele ano, e declarando a
disposição de transformar em lei, uma vez reeleito, a política de "tolerância zero". O tom da campanha
presidencial fora estabeleci- do, e Jospin não demorou a aderir, elaborando suas próprias variações sobre
o tema comum (embora -- inesperadamente para os solistas principais, mas decerto não para os
observadores sociologicamente informados -- a voz mais destacada tenha sido a de Le Pen, na qualidade
de mais pura e, portanto, mais audível).
A 28 de agosto Jospin proclamava "a batalha contra a insegurança", prometendo que não teria
"nenhuma complacência", enquanto a 6 de setembro Daniel Vaillant e Marylise Lebranchu, seus
ministros, respectivamente, do Interior e da Justiça, juravam que não tolerariam de forma alguma a
delinqüência. A reação imediata de Vaillant aos eventos de 11 de setembro nos Estados Unidos foi
aumentar os poderes da polícia, principalmente no que se refere ao enfrentamento dos jovens
"etnicamente estranhos" habitantes dos banlieux, as amplas áreas residenciais situadas nas periferias
urbanas, onde, segundo a (conveniente) versão oficial, era gerada a demoníaca mistura de incerteza e
insegurança que envenenava a vida dos franceses. O próprio Jospin continuou atacando e vilipendiando,
em termos cada vez mais mordazes, a "escola angelical" da abordagem ultra-suave, jurando que jamais
pertencera a ela no passado e jamais o faria no futuro. O leilão prosseguia, e os lances se tornavam
estratosféricos. Chirac prometeu criar um ministério da segurança interna, ao que Jospin reagiu com o
compromisso de um ministério "encarregado da segurança pública" e da "coordenação das operações
policiais" Quando Chirac brandiu a idéia de instituir centros destinados a trancafiar delinqüentes juvenis,
Jospin fez eco a essa promessa com a visão de "estruturas gradeadas" com a mesma finalidade, superando
o lance do oponente com a perspectiva de "condenações sumárias".
Apenas três décadas atrás Portugal era (juntamente com a Turquia) o principal fornecedor de
"trabalhadores convidados" [os Gastarbeiter], que os Bürger alemães temiam saquear suas cidades e
67
destruirem o pacto social, pilar de sua segurança e conforto. Hoje, graças ao aumento significativo de
sua riqueza, Portugal passou de exportador a importador de mão-de-obra. As dificuldades e humilhações
sofridas quando era preciso ganhar a vida no exterior foram rapidamente esquecidas: 27% dos
portugueses declararam que os bairros infestados do crime e de estrangeiros constituíam sua principal
preocupação, e Paulo Portas, um recém-chegado à arena política, jogando uma carta única, violentamente
contrária à imigração, ajudou a conduzir ao poder uma coalizão neodireitista (da mesma forma que
ocorreu com o Partido do Povo Dinamarquês de Pia Kiersgaard, com a Liga Norte de Umberto Bossi na
Itália e com o Partido do Progresso na Noruega, radicalmente antiimigrantes -- todos em países que não
muito tempo antes enviavam seus filhos a terras distantes para ganhar o pão que eles próprios eram muito
pobres para oferecer).
Notícias como essa freqüentemente ganham as manchetes dos jornais (como "Reino Unido planeja
cancelar asilo", The Guardian, 13 de junho de 2002 -- considero desnecessário mencionar as manchetes
dos tablóides...). Mas o núcleo principal da fobia de imigrantes permanece oculto das atenções (de fato,
do conhecimento) da Europa Ocidental e nunca vem à superfície. "Culpar os imigrantes" -- estrangeiros
e recém-chegados, e particularmente estrangeiros recém-chegados -- por todos os aspectos da doença
social (e acima de tudo pelo nauseante e desabilitante sentimento de Unsicherheit, incertezza, precarité,
insegurança) está se tornando rapidamente um hábito global. Nas palavras de Heather Grabbe, diretora de
pesquisa do Centro para a Reforma Européia, "os alemães culpam os poloneses, os poloneses culpam os
ucranianos, os ucranianos culpam os quirguizes, que por sua vez culpam os usbeques" (3), enquanto
países pobres demais para atrair vizinhos em busca desesperada por meios de sobrevivência, tais como
Romênia, Bulgária, Hungria ou Eslováquia, direcionam seu ódio aos habituais suspeitos e culpados de
plantão: aquelas pessoas do lugar mas em constante mudança, sem endereço fixo, e assim -- sempre e
onde quer que estejam -- "recém-chegadas" e forasteiras: os ciganos.
Quando se trata de estabelecer tendências globais, os Estados Unidos têm prioridade indiscutível e
geralmente assumem a iniciativa. Mas juntar-se à onda global de ataque aos imigrantes representa um
problema muito difícil para aquele país, reconhecidamente formado por imigrantes. A imigração
atravessou a história norte-americana como um passado de nobreza, uma missão, um empreendimento
heróico levado a cabo pelos audazes, os valentes e os bravos. Assim, desprezar os imigrantes e lançar
suspeitas sobre sua nobre vocação significaria atacar o próprio cerne da identidade norte-americana, e
talvez fosse um golpe mortal no Sonho Americano, seu indiscutível pilar e cimento. Mas esforços têm
sido feitos, por tentativa e erro, para tornar o círculo quadrado...
A 10 de junho de 2002, funcionários de alto escalão do governo norte-americano (o diretor do FBI
Robert Mueller, o subprocurador geral Larry Thompson, o subsecretário de Defesa Paul Wolfowitz, entre
outros) anunciaram a prisão de um suposto terrorista da Al-Qaeda que retornava a Chicago de uma
viagem de treinamento no Paquistão (4). Segundo a versão oficial do caso, um cidadão norte-americano,
nascido e criado nos Estados Unidos, Jose Padilla (nome que aponta raízes hispânicas, ligado às últimas
levas de imigrantes, pobremente assentadas, da longa lista de filiações étnicas), converteu-se ao
islamismo, assumiu o nome de Abdullah alMujahir e prontamente procurou seus irmãos muçulmanos em
busca de instruções sobre como prejudicar sua terra natal. Foi instruído na arte tosca de fabricar "bombas
sujas" -- "assustadoramente fáceis de montar" a partir de alguns gramas de explosivos convencionais
amplamente disponíveis e de "praticamente qualquer tipo de material radioativo" em que potenciais
terroristas "possam pôr as mãos" (não ficou clara por que era necessário treinamento sofisticado para
produzir armas "assustadoramente fáceis de montar", mas, quando se trata de lançar as sementes do ódio,
a lógica é irrelevante). "Uma nova expressão entrou no vocabulário de muitos norte-americanos médios
depois do 11 de setembro: bomba suja", anunciaram os repórteres Nichols, Hall e Eisler, do USA Today.
O caso foi um golpe de mestre: a armadilha ao Sonho Americano foi habilmente contornada pelo
fato de Jose Padilla ser um estrangeiro e um estranho por sua própria e livre escolha como norte-
americano. E o terrorismo foi vividamente retratado como algo ao mesmo tempo de origem estrangeira e
ubiquamente doméstico, oculto atrás de cada esquina e se espalhando por todos os bairros -- tal como os
antigos "comunistas debaixo da cama". E foi assim uma metáfora impecável e um escoadouro totalmente
confiável para os medos e apreensões, igualmente ubíquos, da vida precária.
No entanto esse expediente revelou-se equivocado. Quando vistos de outras agências da administração
federal, os ativos do caso ficavam parecendo passivos. A "bomba suja", "assustadoramente fácil de
montar" exporia a loucura de um "escudo antimísseis" multibilionário. As credenciais nativas de al-
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Mujahir poderiam acrescentar um grande ponto de interrogação à planejada cruzada contra o Iraque e a
todas as suas seqüelas ainda inominadas. O que era alimento para alguns departamentos federais tinha o
gosto de veneno para outros. Estes últimos parecem estar em vantagem no momento, já que o pescoço
desse caso promissor foi pronta, rápida e diligentemente torcido. Mas não porque seus responsáveis
tenham deixado de tentar...

A modernidade produziu desde o início, e continua a produzir, enormes quantidades de lixo
humano.
A produção de lixo humano era particularmente ampla em dois ramos da indústria moderna (ainda
totalmente produtivos e operando a todo vapor).
A função manifesta do primeiro deles era a produção e reprodução da ordem social. Todo modelo
de ordem é seletivo e exige que se cortem, aparem, segreguem, separem ou extirpem as partes da matéria-
prima humana que sejam inadequadas para a nova ordem, incapazes ou desprezadas para o preenchimento
de qualquer de seus nichos. Na outra ponta do processo de construção da ordem, essas partes emergem
como "lixo", distintas do produto pretendido, considerado "útil".
O segundo ramo da indústria moderna conhecido pela produção contínua de grandes quantidades
de lixo humano era o progresso econômico, o qual, por sua vez, exige a incapacitação, o
desmantelamento e a aniquilação final de certo número de formas e meios de os seres humanos ganharem
a vida -- modos de subsistência que não podiam nem iriam ajustar-se a padrões de produtividade e
rentabilidade em constante elevação. Via de regra, os praticantes dessas formas de vida desvalorizadas
não podem ser acomodados en masse nos novos arranjos da atividade econômica, mais esguios e
inteligentes. Eles tiveram negado o acesso a esses modos de subsistência na medida em que os novos
arranjos se tornaram legítimos/obrigatórios, enquanto os modos ortodoxos, agora desvalorizados, não
mais permitem que se sobreviva. Eles são, por esse motivo, o lixo do progresso econômico.
Mas as conseqüências potencialmente desastrosas da acumulação de lixo humano foram, por boa
parte da história humana, evitadas, neutralizadas ou ao menos mitigadas graças a outra inovação
moderna: a indústria de manejo do lixo. Ela cresceu porque amplas partes do globo se transformaram em
aterros sanitários para onde os "excedentes da humanidade" o lixo humano produzido nos setores do
planeta em processo de modernização, podiam ser transportados para serem tratados e descontaminados,
afastando assim o perigo de autocombustão e explosão.
O planeta está se tornando carente desses aterros, em grande parte por causa do sucesso
espetacular -- a difusão planetária --do modo de vida moderno (pelo menos desde a época de Rosa
Luxemburgo, a modernidade tem sido suspeita de uma tendência essencialmente suicida, "cobra
mordendo o próprio rabo"). A oferta de aterros sanitários é cada vez menor. Enquanto a produção de lixo
humano prossegue inabalável (se é que não está aumentando em função dos processos de globalização), a
indústria de tratamento do lixo passa por duras dificuldades. As formas de lidar com o lixo humano que
se transformaram na tradição moderna não são mais viáveis, e novas maneiras não foram inventadas,
muito menos postas em operação. Pilhas de lixo humano crescem ao longo das linhas defeituosas da
desordem mundial, e se multiplicam os primeiros sinais de uma tendência à autocombustão, assim como
os sintomas de uma explosão iminente.

A crise da indústria de tratamento do lixo humano está por trás da atual confusão, revelada pelo
alvoroço desesperado -- embora amplamente irracional e desmedido -- em torno da administração
da grave conjuntura desencadeada pelo 11 de setembro.
Mais de dois séculos atrás, em 1784, Kant observou que nosso planeta é uma esfera, e extraiu
conseqüências desse fato reconhecidamente banal: como permanecemos na superfície dessa esfera e nela
nos movemos, não temos outro lugar para ir e portanto estamos destinados a viver para sempre na
vizinhança e companhia de outros. A longo prazo, manter a distância, que dirá ampliá-la, está fora de
questão: nosso movimento em torno da superfície esférica acabará reduzindo a distância que
pretendíamos alargar. E assim die volkommende bürgeliche Vereinigung in der Menschengattung (a
perfeita unificação da espécie humana por meio de uma cidadania comum) é o destino que a Natureza nos
reservou ao nos colocar na superfície de um planeta esférico. A unidade da humanidade é o derradeiro
horizonte de nossa história universal. Um horizonte que nós, seres humanos, estimulados e guiados pela
razão e pelo instinto de autopreservação, estamos destinados a perseguir e, na plenitude do tempo,
69
alcançar. Mais cedo ou mais tarde, advertiu Kant, não haverá uma única nesga de espaço vazio onde
possam procurar abrigo ou resgate os que considerem os espaços já ocupados muito apinhados, inóspitos,
inconvenientes ou inadequados. E assim a Natureza nos obriga à visão da hospitalidade (recíproca) como
o preceito supremo que precisamos -- e acabaremos sendo forçados a -- abraçar e obedecer para pôr fim
à longa cadeia de tentativas e erros, às catástrofes causadas por esses erros e às devastações que elas
deixam em sua esteira.
Os leitores de Kant puderam aprender tudo isso em seu livro dois séculos atrás. O mundo,
contudo, mal prestou atenção. Parece que, em vez de escutar atentamente seus filósofos, sem falar em
seguir suas advertências, prefere homenageá-los com placas. Os filósofos podem ter sido os principais
heróis do drama lírico do Iluminismo, mas a tragédia épica pós-iluminista quase apagou suas falas.
Preocupado em arranjar o casamento das nações com os Estados, dos Estados com a soberania e
desta com territórios cercados por fronteiras estritamente fechadas e diligentemente controladas, o mundo
parecia perseguir um horizonte bem diferente daquele traçado por Kant. Durante 200 anos, o mundo se
ocupou em fazer do controle dos movimentos dos seres humanos uma prerrogativa exclusiva dos poderes
estatais, em erigir barreiras àqueles que não era possível controlar e em lotá-las de guardas atentos e
fortemente armados. Passaportes, vistos de entrada e saída, alfândegas e controles de imigração foram
invenções originais da moderna arte de governar.
O advento do Estado moderno coincidiu com a emergência das "pessoas sem Estado", os sans
papiers, e da idéia de unwertes Leben, a reencarnação mais recente (5) da antiga instituição do homo
sacer, derradeira personificação do direito soberano de descartar e excluir qualquer ser humano que tenha
sido lançado além dos limites das leis humanas e divinas, e de transformá-lo num ser a que as leis não se
aplicam e cuja destruição não acarreta punições, despida que é de qualquer significado ético ou religioso.

A derradeira sanção do poder soberano moderno resultou no direito de exclusão da humanidade.
Poucos anos depois de Kant ter publicado suas conclusões, surgiu outro documento, mais curto,
que teria, nos dois séculos de história seguintes, bem como nas mentes de seus principais atores, um peso
muito maior que o livrinho do filósofo. Era a Déclaration des Droits de L'Homme e du Citoyen, em
relação à qual Giorgio Agamben observaria, com o benefício de uma perspectiva de 200 anos, não estar
claro se "os dois termos [homem e cidadão] deveriam identificar duas realidades distintas" ou se, em vez
disso, o primeiro deles sempre quis dizer "já contido no segundo" (6) - ou seja, o portador dos direitos era
o homem que também fosse (ou na medida em que fosse) um cidadão.
Essa falta de clareza, com todas as suas conseqüências repulsivas, fora observada antes por
Hannah Arendt num mundo que rapidamente se enchia de "pessoas deslocadas". Ela relembrou a antiga
premonição de Edmund Burke, genuinamente profética, de que o maior perigo para a humanidade era a
abstrata nudez de "não ser nada além de humana" (7). "Os direitos humanos", como Burke observou,
eram uma abstração, e os seres humanos não poderiam esperar que eles garantissem muita proteção, a
menos que essa abstração fosse preenchida com a substância em que consistiam os direitos dos ingleses
ou franceses. "O mundo nada descobriu de sagrado na abstrata nudez do ser humano", como Arendt
resumiu a experiência dos anos que se seguiram às observações de Burke. "Os direitos do homem,
supostamente inalienáveis, mostraram-se inaplicáveis ... onde quer que tenham aparecido pessoas que não
eram mais cidadãs de algum Estado soberano." (8)
Com efeito, pessoas dotadas de "direitos humanos", mas nada além disso -- sem outros direitos,
mais defensáveis porque institucionalmente enraizados, para conter e manter no lugar os direitos
"humanos" --, não podiam ser encontradas em lugar algum e eram, para todos os fins práticos,
inimagináveis. Obviamente, era necessária uma puissance, potenza, might ou Macht (9) essencialmente
social para endossar a humanidade dos seres humanos. E por toda a era moderna essa "potência" veio a
ser, invariavelmente, aquela que traçou a fronteira entre humano e inumano, disfarçada, nos tempos
modernos, na que divide cidadãos e estrangeiros. Nesta terra fatiada em Estados soberanos, os sem-teto
são também sem-direitos, e sofrem, não por não serem iguais perante a lei, mas porque não existe lei que
se aplique a eles e nas quais possam se pautar, ou a cuja proteção possam recorrer, em seus protestos
contra a rigorosa condição a que foram submetidos.
Em seu ensaio sobre Karl Jaspers, escrito alguns anos depois de As origens do totalitarismo,
Hannah Arendt observava que, embora para todas as gerações precedentes a "humanidade" tivesse sido
apenas um conceito ou ideal (podemos acrescentar: um postulado filosófico, um sonho de humanistas, por
70
vezes um grito de guerra, mas dificilmente um princípio organizador da ação política), ela havia "se
tornado algo dotado de uma realidade urgente" (10). Transformara-se em um assunto de extrema urgência
porque o impacto do Ocidente tinha não apenas saturado o restante do mundo com os produtos de seu
desenvolvimento tecnológico, mas também exportado "seus processos de desintegração" -- entre eles a
ruptura das crenças religiosas e metafísicas, os avanços espantosos das ciências naturais e a ascensão do
Estado-nação como praticamente a única forma de governo apresentada de modo mais proeminente.
Forças que tinham precisado de séculos para "minar as antigas crenças e formas de vida política" no
Ocidente "levaram apenas algumas décadas para derrubá-las ... em todas as outras partes do mundo".
Esse tipo de unificação, assinala Arendt, não poderia senão produzir um tipo "inteiramente
negativo" de "solidariedade do gênero humano". Cada parte da população humana sobre a terra é tornada
vulnerável por todas as outras e cada uma delas. Trata-se, podemos dizer, de uma "solidariedade" de
perigos, riscos e temores. Na maior parte do tempo e para a maioria das pessoas, a "unidade do planeta"
se resume ao horror diante de ameaças geradas ou incubadas em lugares distantes num mundo "em
ampliação, mas fora do alcance".

Juntamente com o produto pretendido, toda fábrica gera lixo. A fábrica da moderna soberania de
base territorial não foi exceção.
Por cerca de 200 anos após a publicação das advertências de Kant, o progressivo "preenchimento
do mundo" -- e assim, conseqüentemente, o impulso a admitir que a totalidade do planeta (por ele
considerada um veredicto inevitável da Razão e da Natureza combinadas numa só, sem apelo permitido)
era de fato iminente -- sofreu retaliação com a ajuda da [anti] santíssima trindade formada por território,
nação e Estado.
O Estado-nação, como observa Giorgio Agamben, é um Estado que faz da "natividade ou
nascimento" o "pilar de sua própria soberania" "A ficção aqui implícita", assinala Agamben, "é que o
nascimento [nascita] imediatamente ganha existência como nação, de modo que não pode haver diferença
alguma entre os dois momentos." (11) A pessoa nasce, por assim dizer, na "cidadania do Estado".
A nudez da criança recém-nascida, mas ainda não envolta nos ornamentos jurídico-legais, fornece
o locus em que a soberania do poder de Estado é perpetuamente construída, reconstruída e assistida com o
auxílio das práticas de inclusão/exclusão destinadas a todos os outros demandantes da cidadania que caem
sob o alcance dessa soberania. Podemos propor a hipótese de que a redução de bios para zoë, que
Agamben considera a essência da soberania moderna (ou, poderíamos também dizer, a redução do Leib, o
corpo vivo em ação, ao Körper, um corpo sobre o qual se pode agir, mas destituído de ação), é uma
conclusão precipitada, já que o nascimento é eleito a única forma de ingresso "natural" nessa nação, sem
exigência de testes nem questionários.
Todos os outros demandantes que podem bater à porta do Estado soberano pedindo admissão
tendem, em primeiro lugar, a ser submetidos ao ritual de desnudamento. Como indicou Victor Turner,
seguindo o esquema em três estágios do rite de passage elaborado por Van Genep, antes que os recém-
chegados em busca de admissão a um locus social ganhem acesso (se isso ocorrer) àquele novo guarda-
roupa onde são guardadas as vestimentas adequadas e reservadas para isso, eles precisam despir-se (tanto
metafórica quanto literalmente) de todos os adornos de seu encargo anterior. Devem permanecer por
algum tempo em estado de "nudez social". Passam a quarentena num não-espaço "nem um nem outro"
onde trajes de importância socialmente definida e aprovada não são oferecidos nem permitidos. São
isolados de seus pertences pelo purgatório do "espaço de nenhures" intermediário que separa entre si as
tramas constituintes de um mundo nelas dividido, concebido como uma agregação de tramas afastadas
espacialmente. A inclusão, se for oferecida, deve ser precedida de uma exclusão radical.
Segundo Turner, a mensagem transmitida pela parada obrigatória num acampamento
cuidadosamente limpo de quaisquer implementos capazes de elevar os acampados do nível zoë ou Körper
ao bios ou Leib ("a importância social de reduzi-los a algum tipo de primo materia humana, destituída de
uma forma específica e restrita, a uma condição que, embora ainda social, está fora ou além de todas as
formas aceitas de status"), essa mensagem é de que não há um caminho direto que conduza de um status
socialmente aprovado para outro. Antes que se possa fazer isso, é preciso imergir e dissolver-se numa
"communitas desestruturada, ou estruturada apenas de modo rudimentar, e relativamente
indiferenciada..." (12).
71
Hannah Arendt situou o fenômeno posteriormente estudado por Turner no domínio, operado
pelo poder, da expulsão, do exílio, da exclusão e da dispensa. A humanidade que assume "a forma de
fraternidade" inferiu ela, "é o grande privilégio dos povos párias", referidos nos debates públicos do
século XVIII sob o nome genérico de les malheureux, substituído no século seguinte por les misérables e,
desde meados do século XX, pelo saco de gatos da noção de "refugiados" -- mas que sempre foram
privados de um lugar próprio no mapa-múndi mental desenhado pelos povos que cunhavam e
empregavam esses nomes. Comprimidos, confinados e esmagados por múltiplas rejeições, "os
perseguidos têm se movido a uma tal proximidade que o espaço intermediário que chamamos de mundo
(e que evidentemente havia entre eles antes da perseguição, mantendo-os a uma distância uns dos outros)
simplesmente desapareceu" (13).
Para todos os fins e propósitos práticos, as categorias párias/proscritas estavam fora do mundo --
do mundo de categorias e finas distinções que os poderes constituídos haviam gerado e dado a conhecer
sob o nome de "sociedade". O único mundo a ser habitado pelos seres humanos e capaz de transformá-los
em cidadãos, portadores e praticantes de direitos. Eles eram uniformes, compartilhando um tipo de falta
de atributos que os falantes do vernáculo seriam capazes de notar, apreender, nomear e compreender. Ou
pelo menos era isso que pareciam ser, devido à aliança entre a pobreza do vernáculo e a homogeneização
obtida com a anuência do poder e concretizada mediante a expropriação de direitos.

Se nascimento e nação constituem uma só coisa, então todos os outros que ingressam ou desejam
ingressar na família nacional devem imitar a nudez do recém-nascido -- ou serão compelidos a isso.
O Estado -- guardião e agente penitenciário, porta-voz e censor-chefe da nação -- garantiria que
essa condição fosse alcançada.
Como adverte Carl Schmitt, reconhecidamente um dos intelectuais mais lúcidos e realistas que se
dedicam a traçar a anatomia do Estado moderno: "Quem determina um valor sempre fixa, eo ipso, um
não-valor. O sentido dessa determinação é que este último seja aniquilado." (14) Determinar o valor
estabelece os limites do normal, do comum, do regular. O não-valor é uma exceção que assinala essa
fronteira.

A exceção é aquilo que não pode ser subsumido. Ela desafia a codificação geral, mas ao mesmo tempo revela um
elemento formal especificamente jurídico: a decisão em absoluta pureza ... Não há regra aplicável ao caos. É preciso
estabelecer a ordem para que a ordem jurídica faça sentido. Deve-se criar uma situação regular, e é soberano quem
decide definitivamente se essa situação é de fato efetiva ... A exceção não apenas confirma a regra -- esta, como tal,
vive apenas da exceção. (15)

Giorgio Agamben comenta: "A regra se aplica à exceção ao não mais se aplicar, ao se retrair em
relação a ela. Assim, o estado de exceção não é o caos que precedeu a ordem, mas a situação resultante de
sua suspensão. Nesse sentido, a exceção é verdadeiramente, segundo sua raiz etimológica, removida
(excapere), e não simplesmente excluída." (16)
Permitam-me observar que é precisamente essa a circunstância que os soberanos construtores de
regras precisam ocultar a fim de legitimar suas ações e torná-las compreensíveis. A construção da ordem
tende a ser, como regra, empreendida em nome do combate ao caos. Mas não haveria caos se já não
houvesse a intenção de ordenar e se a "situação regular" já não estivesse antecipadamente concebida para
que sua promoção pudesse ser iniciada com seriedade. O caos nasce como não-valor, como exceção. A
pressa em ordenar é seu lugar de nascença, e ele não tem outros pais nem outro lar que sejam legítimos.

O poder de excluir não seria um marco da soberania se o poder soberano não tivesse primeiro se
unido ao território.
Penetrante e perspicaz como costuma ser ao esquadrinhar a lógica bizarra e paradoxal da
Ordnung, Carl Schmitt endossa, nesse ponto crucial, a ficção cultivada pelos guardiães/promotores da
ordem, os detentores do poder soberano da exceção. Tal como no conjunto da prática dos soberanos,
também no modelo teórico de Schmitt se presume que as fronteiras do território no qual se conduz o
trabalho da Ordnung constituam os limites externos do mundo dotado de relevância tópica para os
esforços e intenções de ordenar.
Na visão de Schmitt, tal como na doia dos legisladores, a soma total dos recursos exigidos para
que se realize o trabalho de ordenar, assim como a totalidade dos fatores necessários para justificar essa
72
operação e seus efeitos, está contida no interior desse mundo. A soberania produz a distinção entre um
valor e um não-valor, uma regra e uma exceção. Mas essa operação é precedida da distinção entre o lado
de dentro e o de fora do reino soberano, sem o que suas prerrogativas não poderiam ser reclamadas nem
obtidas. A soberania, tal como praticada pelos modernos Estados-nação e teorizada por Schmitt, está
inextricavelmente limitada a um território. É impensável sem um "lado de fora", inconcebível de qual-
quer outra forma que não a de uma entidade localizada. A visão de Schmitt é tão "localizada" quanto a
soberania cujo mistério ele pretende desenredar. Ela não avança além da prática e do horizonte cognitivo
do celestial casamento do território com o poder.
Na medida em que o "Estado de direito" foi se transformando, de modo gradual mas irresistível (já
que sob as constantes pressões da construção de legitimidade e da mobilização ideológica), no "Estado-
nação, esse casamento se transformou num ménage à trois: uma trindade constituída de território, Estado
e nação. Pode-se supor que o advento dessa trindade tenha sido um acidente histórico, ocorrido numa
única e relativamente diminuta parte do globo; mas uma vez que essa parte, embora pequena, veio a
reclamar a posição de metrópole dotada de recursos suficientes para transformar o resto do planeta em
periferia, e arrogante o bastante para esquecer ou desacreditar suas próprias peculiaridades, e como é
prerrogativa da metrópole estabelecer e impor as regras pelas quais a periferia é obrigada a viver, a
superposição/mistura de nação, Estado e território se tornou uma norma de vinculação global.
Qualquer um dos membros dessa trindade, se não estivesse associado aos outros dois nem fosse
apoiado por eles, se transformaria numa anomalia, numa monstruosidade candidata a uma drástica
cirurgia ou a receber um coup de grâce caso fosse considerado irredimível. Um território sem Estado-
nação se tornava uma terra de ninguém. Uma nação sem Estado virava um aleijão com a opção de
desaparecer voluntariamente ou ser executado. Um Estado sem nação, ou com mais de uma nação,
transformava-se num resíduo do passado ou num mutante confrontado pela opção de modernizar-se ou
perecer. Por trás da nova normalidade avultava o princípio da territorialidade dando sentido a qualquer
poder que apostasse na soberania e tivesse uma chance de ganhar a aposta.
Toda aposta na pureza produz sujeira, toda aposta na ordem cria monstros. Os monstros sujos da
era de promoção da trindade território/nação/Estado foram nações sem Estados, Estados com mais de uma
nação e territórios sem Estado-nação. Foi graças à ameaça e ao medo desses monstros que o poder
soberano pôde exigir e adquirir o direito de negar direitos e estabelecer condições de humanidade que
grande parte desta não poderia satisfazer -- como de fato ocorreu.

Sendo a soberania o poder de definir os limites da humanidade, as vidas dos seres humanos que
caíram ou foram jogados para fora desses limites não valem a pena.
Em 1920 foi publicado um livreto sob o título Die Freigabe der Vernichtung lebensunwerten
Leben (Permitindo a destruição da vida que não vale a pena ser vivida), de autoria de um especialista em
direito penal, Karl Binding, e de um professor de medicina, Alfred Hoche, que comumente recebe o
crédito por ter introduzido o conceito de unwertes Leben ("vida que não vale a pena ser vivida"),
acrescido da indicação de que, nas sociedades humanas conhecidas, esse tipo de vida tem sido até agora
indevida e injustamente protegido à custa de tipos de existência plenamente amadurecidos que deveriam
receber toda a atenção e o cuidado que a humanidade merece. Os sábios autores não viam razão (fosse
jurídica, social ou religiosa) pela qual o extermínio da unwertes Leben devesse ser visto como um crime
passível de punição.
Na concepção de Binding/Hoche, Giorgio Agamben enxerga a ressurreição e uma articulação
moderna e atualizada da antiga categoria do homo sacer: um ser humano que se pode matar sem medo de
punição, mas não pode ser usado no sacrifício religioso -- que, em outras palavras, é totalmente excluído,
situando-se além dos limites da lei, seja ela humana ou divina. Agamben também observa que o conceito
de "vida que não vale a pena ser vivida" é, tal como sempre foi o de homo sacer, não-ético, mas que em
sua versão moderna adquire profunda significação política como uma categoria "sobre a qual se funda a
soberania".

Na moderna biopolítica, o soberano é aquele que decide sobre o valor ou não-valor da vida como tal. Esta -- que com
a declaração de direitos foi investida do princípio da soberania -- torna-se agora o local da decisão soberana. (17)
73
Com efeito, parece ser esse o caso. Observemos, contudo, que só o pode ser na medida em que
a trindade território/Estado/nação tenha sido elevada à condição de princípio universal da coabitação
humana, imposto e obrigado a sujeitar todos os recessos e frestas do planeta, incluindo áreas que por
séculos não conseguiram atingir as condições necessárias para essa trindade (ou seja, homogeneidade
populacional e/ou estabelecimento permanente resultando num "arraigamento ao solo"). É por causa
dessa universalidade do princípio trinitário, tramada, arbitrária e imposta, que, como assinala Hannah
Arendt, "quem é rejeitado por uma dessas comunidades rigorosamente organizadas se vê rejeitado por
toda a família das nações" (18) (e assim, na medida em que a espécie humana se torna idêntica à "família
das nações", pela esfera da humanidade), lançado à terra de ninguém dos homini sacri.

A intensa produção de lixo exige uma indústria de tratamento eficiente. Isso produziu uma das
mais impressionantes histórias de sucesso dos tempos modernos -- o que explica por que a
advertência/premonição ficou na gaveta por dois séculos.
Apesar das quantidades crescentes e das dores cada vez mais profundas, os detritos humanos
acumulados pelo fervor e dedicação de incluir/excluir, desencadeados e consistentemente reforçados pelo
princípio e pela prática da trindade território/Estado/nação, puderam ser legitimamente desprezados como
uma irritação transitória e essencialmente curável, em vez de serem vistos e tratados como presságios de
uma catástrofe iminente. As nuvens escuras pareciam mais claras e as premonições sombrias podiam ser
afogadas em riso como "profecias do juízo final", graças principalmente ao moderno empreendimento
que entrou para a história sob os rótulos de "imperialismo" e "colonização" Juntamente com outras
funções, esse empreendimento serviu de unidade de depósito e reciclagem para os crescentes suprimentos
de lixo humano. As atordoantes vastidões de "terras virgens" abertas à colonização pelo impulso
imperialista de invadir, conquistar e anexar podiam ser usadas como depósitos de lixo para os indesejados
e funcionar como terra prometida para os que subissem ou fossem atirados a bordo enquanto a nau do
progresso ganhava velocidade e prosseguia.

Assim, o mundo parecia tudo menos cheio. "Cheio" é outra expressão -- "objetivada" -- para o
sentimento de estar lotado. Superlotado, para ser preciso.
Nada de Estátuas da Liberdade prometendo congregar as massas oprimidas e abandonadas. Nada
de rotas de fuga nem esconderijos, a não ser para uns poucos malfeitores e criminosos. Mas também (o
que é, reconhecidamente, o efeito mais surpreendente da plenitude do mundo há pouco revelada) nada
daquele chez soi seguro e aconchegante, como os eventos do 11 de setembro provaram de modo
dramático e acima de qualquer dúvida razoável.
A colonização permitiu que as premonições de Kant ficassem engavetadas. Mas também fizeram
com que parecessem, quando finalmente se abriu a gaveta, uma profecia do apocalipse em lugar da alegre
utopia pretendida pelo filósofo. A visão de Kant agora parece assim porque, devido à enganadora
abundância de "terras de ninguém", no curso desses dois séculos nada tinha de ser feito, e portanto não o
foi, para preparar a humanidade para a revelação da definitiva plenitude do mundo.
Quando os últimos locais portando o rótulo de ubi leones desaparecem rapidamente do mapa-
múndi e as últimas das muitas terras de fronteira distantes são reclamadas por forças suficientemente
poderosas para fechar divisas e negar vistos de entrada, o mundo como um todo está se transformado
numa terra de fronteira planetária...

Em qualquer época as terras de fronteira foram conhecidas ao mesmo tempo como fatores de
deslocamento e unidades de reciclagem dos deslocados. Nada mais se pode esperar de sua nova
variedade global -- exceto, é claro, a nova escala planetária de produção e reciclagem dos
problemas.
Permitam-me repetir: não há soluções locais para problemas globais, embora sejam locais as
soluções procuradas com avidez, ainda que em vão, pelas instituições políticas existentes, as únicas que
até agora inventamos e de que dispomos coletivamente.
Enredadas como essas instituições têm sido, desde o início e ao longo de sua história, em esforços
apaixonados (hercúleos na intenção, sisíficos na prática) para selar a união do Estado e da nação com o
território, não surpreende que todas elas tenham se tornado e permanecido locais, e que seu poder
soberano de empreender ações viáveis (ou, mesmo, legítimas) seja localmente circunscrito.
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Há, salpicadas em toda parte do mundo, "guarnições de extraterritorialidade", aterros sanitários
para o lixo não-despejado e ainda não-reciclado da terra de fronteira global.
Durante os dois séculos da história moderna, as pessoas que não conseguiam transformar-se em
cidadãos -- os refugiados, os migrantes voluntários e involuntários, os "deslocados" tout court -- foram
naturalmente assumidas como um problema do país hospedeiro e tratadas como tal.
Poucos, se é que algum, dos Estados-nação que preencheram o mapa-múndi moderno estavam
fixados tão localmente quanto suas prerrogativas soberanas. Algumas vezes de boa vontade, outras com
relutância, praticamente todos tiveram de aceitar a presença de estrangeiros no território apoderado e
admitir sucessivas levas de imigrantes fugindo ou expulsos dos domínios de outros Estados-nação
soberanos. Uma vez lá dentro, porém, tanto os estrangeiros estabelecidos quanto os recém-chegados
caíam sob a jurisdição exclusiva e indivisa do país hospedeiro. Este último estava livre para apresentar
versões atualizadas e modernizadas das duas estratégias descritas por Lévi-Strauss em Tristes trópicos
como formas alternativas de lidar com a presença de estrangeiros. Recorrendo a essas estratégias, o país
poderia contar com o apoio entusiástico de todas as outras potências soberanas do planeta, preocupadas
em preservar o caráter inviolável da trindade território/Estado/nação.
A opção disponível para o problema do estrangeiro oscilava entre as soluções antropofágica e
antropoêmica. A primeira delas resumia-se em "comer os estrangeiros até o fim". Fosse literalmente, pela
carne (como no canibalismo supostamente praticado por certas tribos antigas), ou em sua versão
sublimada, espiritual --como na assimilação cultural praticada quase universalmente, com a anuência do
poder, pelos Estados-nação na intenção de ingerir no corpo nacional os portadores de culturas estranhas,
expelindo ao mesmo tempo as partes indigestas de seus dotes culturais. A segunda solução significava
"vomitar os estrangeiros" em vez de devorá-los: recolhê-los e expeli-los (exatamente o que Oriana
Fallaci, a formidável jornalista e formadora de opinião italiana, sugeriu que nós, europeus, deveríamos
fazer com pessoas que adoram outros deuses e adotam estranhos hábitos de higiene), fosse do domínio do
poder de Estado ou do próprio mundo dos vivos.
Observemos, contudo, que perseguir uma dessas duas soluções só fazia sentido com base em
pressupostos gêmeos: o da clara divisão territorial entre o "dentro" e o "fora" e o da inteireza e
indivisibilidade da soberania do poder de escolha estratégica no interior de seu domínio. Nenhum dos
dois goza de muita credibilidade nos dias de hoje, em nosso líquido mundo moderno. E assim as chances
de empregar uma das duas estratégias ortodoxas são no mínimo reduzidas.
Com as formas de ação testadas não estando mais disponíveis, parece que ficamos sem uma boa
estratégia para lidar com recém-chegados. Numa época em que nenhum modelo cultural pode afirmar, de
modo peremptório e efetivo, sua superioridade sobre os concorrentes, e quando a mobilização patriótica
voltada à construção nacional deixou de ser o principal instrumento de integração social e de auto-
afirmação do Estado, a assimilação cultural não figura mais no programa. Já que deportações e expulsões
criam imagens de televisão dramáticas e perturbadoras, e podem desencadear os clamores do público,
maculando as credenciais internacionais dos responsáveis, a maioria dos governos prefere, se possível,
passar ao largo do problema fechando as portas àqueles que batem em busca de abrigo.
A atual tendência a reduzir drasticamente o direito de asilo político, acompanhada pela firme
recusa ao ingresso de "migrantes econômicos" (exceto nos momentos, poucos e transitórios, em que as
empresas ameaçam mudar-se para onde a mão-de-obra está se esta não for trazida para onde elas estão),
essa tendência assinala não uma nova estratégia com relação ao fenômeno dos refugiados, mas uma
ausência de estratégia, assim como o desejo de evitar uma situação em que essa ausência acarrete
embaraços políticos. Nessas circunstâncias, o ataque terrorista de 11 de setembro ajudou enormemente os
políticos. Além das acusações comuns de viverem à custa da previdência social e de roubarem empregos,
(19) ou de trazerem para o país doenças há muito esquecidas, como a tuberculose, ou recentemente
surgidas, como a aids, (20) os refugiados podem agora ser acusados de fazer o papel de "quinta coluna"
em favor da rede terrorista global. Há finalmente um motivo "racional" inatacável para recolher,
encarcerar e deportar pessoas com as quais não se sabe mais lidar nem se deseja ter o trabalho de
descobrir. Nos Estados Unidos, e logo depois na Inglaterra, sob a bandeira da "campanha contra o
terrorismo", estrangeiros foram prontamente privados de direitos humanos essenciais que até então
haviam resistido a todas as vicissitudes da história desde a Magna Carta e do habeas corpus. Estrangeiros
podem agora ser detidos indefinidamente sob acusações das quais não podem se defender porque não lhes
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dizem quais são elas. Na observação ácida de Martin Thomas, (21) de agora em diante, numa
dramática reversão do princípio básico do direito civilizado, a "prova de uma acusação criminal é um
complicados redundante" -- ao menos no que se refere aos refugiados estrangeiros.
As portas podem estar fechadas, mas o problema não irá embora, por mais bem resistentes que
sejam as trancas. Elas nada podem fazer para suavizar ou debilitar as forças que causam o deslocamento e
transformam seres humanos em refugiados. As trancas podem ajudar a manter o problema fora da vista e
da mente, mas não podem forçá-lo a se afastar de nossa vida.

E assim, cada vez mais, os refugiados se vêem sob fogo cruzado --mais exatamente, numa
encruzilhada.
Eles são expulsos à força ou afugentados de seus países nativos, mas sua entrada é recusada em
todos os outros. Não mudam de lugar -- perdem seu lugar na terra, catapultados para lugar algum, para
os "non-lieux" de Augé, as "nowherevilles" de Garreau ou as "Narrenschiffen" de Michel Foucault. Para
um flutuante "lugar sem lugar, existente por si mesmo, fechado em si mesmo e ao mesmo tempo
abandonado na infinidade do mar" (22). OU (como sugere Michel Algier num artigo a ser publicado na
revista Ethnography) para um deserto, por definição uma terra desabitada, avessa aos seres humanos e
raramente visitada.
Os refugiados se tornaram, à imagem caricatural da nova elite do poder no mundo globalizado, a
epítome daquela extraterritorialidade em que se fincam as raízes da atual precarité da condição humana,
que tem lugar de destaque entre os temores e ansiedades de nossos dias. Esses temores e ansiedades,
procurando em vão por outros escoadouros, despejaram-se sobre o ressentimento e o medo que os
refugiados provocam. Não podem ser desativados nem dispersos num confronto direto com a outra
encarnação da extraterritorialidade, a elite global flutuando além do alcance do controle humano,
poderosa demais para que se possa enfrentá-la. Os refugiados, ao contrário, são um alvo fixo em que se
descarregar o excesso de angústia...
De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), há entre 13 e
18 milhões de "vítimas de deslocamento forçado" lutando para sobreviver além das fronteiras dos seus
países de origem (sem contar os milhões de refugiados "internos" no Burundi e em Sri Lanka, na
Colômbia e em Angola, no Sudão e no Afeganistão, condenados ao nomadismo por força de
intermináveis guerras tribais). Destes, mais de seis milhões estão na Ásia, e de sete a oito milhões na
África. Há três milhões de refugiados palestinos no Oriente Médio. Essa estimativa é, com certeza,
conservadora. Nem todos os refugiados são (ou desejam ser) reconhecidos como tais -- só algumas das
pessoas deslocadas tiveram a sorte de serem registradas pelo ACNUR e ficarem sob seus cuidados.
Aonde quer que vão, os refugiados são indesejados, e não deixam dúvidas sobre isso. Os
identificados como "migrantes econômicos" (ou seja, pessoas que seguem os preceitos da "escolha
racional" e assim tentam encontrar formas de subsistência onde elas podem ser encontradas, em vez de
ficarem onde elas não existem) são abertamente condenados pelos mesmos governos que fazem de tudo
para que a "flexibilidade da força de trabalho" se transforme na principal virtude de seu eleitorado, e que
exortam os desempregados de seus próprios países a "correrem atrás" dos compradores de mão-de-obra.
Mas a suspeita de motivação econômica também respinga sobre aqueles recém-chegados que, não muito
tempo atrás, eram vistos como pessoas no exercício de seus direitos humanos procurando abrigar-se da
discriminação e da perseguição. Por associação repetida, a expressão "em busca de asilo" adquiriu um
sabor pejorativo. Grande parte do tempo e da capacidade cerebral dos estadistas da "União Européia" é
empregada no planejamento de formas cada vez mais sofisticadas de fechar e fortificar fronteiras, bem
como dos processos mais eficazes para se livrarem de pessoas em busca de pão e abrigo que, apesar de
tudo, tenham conseguido cruzá-las.
Para não ficar atrás, David Blunkett, ministro do Interior britânico, ameaçou cortar a ajuda dos
países de origem dos refugiados caso eles não levassem de volta os "desqualificados em busca de asilo"
(23). Essa não foi a única idéia nova. Blunkett pretende "forçar o ritmo da mudança", queixando-se de
que, devido à falta de energia de outras lideranças européias, "o progresso tem sido muito lento" Ele
deseja a criação de uma "força de operações conjuntas", com a participação de todos os países europeus, e
de "uma força-tarefa de especialistas nacionais" para "elaborar avaliações de riscos comuns, identificar os
pontos fracos nas ... fronteiras externas da União Européia, abordar a questão da migração ilegal por via
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marítima e pôr fim ao tráfico [novo termo destinado a substituir o conceito de 'trânsito, anteriormente
nobre] de seres humanos".
Com a cooperação ativa de governos e pessoas influentes que encontram no favorecimento e na
instigação de preconceitos populares o único substituto disponível para o confronto das fontes genuínas
da incerteza existencial que assalta seus eleitores, as "pessoas em busca de asilo" (como aquelas que
reúnem suas forças nos inúmeros Sangattes da Europa, preparando-se para a invasão das ilhas britânicas,
ou as que estão para se estabelecer, a menos que as impeçam, em acampamentos estratégicos a poucos
quilômetros das residências dos eleitores), essas pessoas estão tomando o lugar das bruxas, dos fantasmas
de malfeitores impenitentes e de outros espectros e demônios das lendas urbanas. O novo folclore urbano,
em rápida expansão, com as vítimas dessa expulsão planetária no papel de protagonistas mal-
intencionados, assimila e recicla a tradição oral das arrepiantes histórias de terror que no passado
encontravam uma ávida demanda, gerada, tal como agora, pelas inseguranças da vida na cidade.
Aqueles migrantes que, apesar dos estratagemas mais engenhosos, não podem ser rapidamente
deportados, o governo propõe confinar em campos construídos em lugares possivelmente remotos e
isolados -- medida que transforma em profecia auto-cumprida a crença de que eles não desejam ou não
podem ser assimilados à vida econômica do país. Assim, como observa Gary Young, "efetivamente
erigem bantustões em torno da zona rural da Inglaterra, encurralam os refugiados de formas que os
deixam isolados e vulneráveis" (24). (Pessoas em busca de asilo, assinala Young, "são mais propensas a
serem vítimas de crimes do que a cometê-los")
Segundo os registros do ACNUR, estão confinados nesses campos 83,2% dos refugiados na
África e 95,9% na Ásia. Na Europa, até agora são apenas 14,3%. Mas, até o momento, há poucos sinais
de que essa diferença em favor da Europa se sustentará por muito tempo.

Os campos de refugiados ou as pessoas em busca de asilo são artífices de uma instalação temporária
que o bloqueio das saídas torna permanente.
Os internos dos campos de refugiados ou as pessoas em busca de asilo não podem voltar "ao lugar
de onde vieram", já que os países de origem não os querem de volta, suas formas de subsistência foram
destruídas e seus lares, pilhados, demolidos ou roubados. Mas também não existe um caminho à frente --
nenhum governo teria satisfação em ver o influxo de milhões de sem-teto, e qualquer um faria o possível
para evitar que os recém-chegados se estabelecessem.
Quanto à sua nova localização "permanentemente temporária, os refugiados "estão nela, mas não
são dela". Não pertencem verdadeiramente ao país em cujo território foram montadas suas cabanas ou
tendas portáteis. São separados do restante dele por uma cortina de suspeitas e ressentimentos que é
invisível, mas ao mesmo tempo espessa e impenetrável. Estão suspensos num vácuo espacial em que o
tempo foi interrompido. Não se estabeleceram nem estão em movimento. Não são sedentários nem
nômades.
Nos termos em que habitualmente se descrevem as identidades humanas, eles são inefáveis. São,
em carne e osso, os "indecidíveis" de Jacques Derrida. Entre pessoas como nós, que outras valorizam e
que se vangloriam das artes da reflexão e auto-reflexão, eles não são apenas intocáveis, mas também
impensáveis. Num mundo transbordando de comunidades imaginadas, são inimagináveis. E é recusando-
lhes o direito de serem imaginados que os outros, agregados em comunidades genuínas ou aspirantes a
isso, buscam credibilidade para os seus próprios esforços de imaginação.

A proliferação de campos de refugiados é um produto/manifestação tão integral da globalização
quanto o denso arquipélago de nowherevilles através do qual se movem os membros da nova elite
em suas viagens ao redor do mundo.
O atributo compartilhado por globetrotters e refugiados é sua extraterritorialidade: não
pertencerem ao lugar, estarem "no" mas não serem "do" espaço que fisicamente ocupam (os globetrotters
numa sucessão de momentos reconhecidamente fugazes, os refugiados numa série de momentos
infinitamente ampliada).
Pelo que sabemos, as nowherevilles dos campos de refugiados -- tal como as pousadas
eqüidistantes em que se hospedam os comerciantes supranacionais capazes de viajar livremente -- podem
ser as cabeças-de-ponte de uma extraterritorialidade que avança, ou (numa perspectiva mais longa)
laboratórios em que a dessemantização do lugar, a fragilidade e descartabilidade dos meios, a
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indeterminação e a plasticidade das identidades, e acima de tudo a nova permanência da transitoriedade
(todas elas tendências constitutivas da fase "líquida" da modernidade) são vivenciadas sob condições
extremas: testadas como os limites da elasticidade e da submissão humanas, assim como as formas de
atingi-los, foram testados nos campos de concentração no estágio "sólido" da história moderna.
Como todas as outras nowherevilles, os campos de refugiados são marcados por uma
transitoriedade intencional, pré-programada e embutida. Todas essas instalações são concebidas e
planejadas como um buraco tanto no tempo como no espaço, uma suspensão transitória na seqüência
temporal da construção de identidades e da atribuição territorial. Mas as faces que as duas variedades de
nowherevilles apresentam a seus respectivos usuários/internos diferem agudamente. Os dois tipos de
extraterritorialidade sedimentam-se, por assim dizer, em lados opostos do processo de globalização.
O primeiro oferece a transitoriedade como uma instalação livremente escolhida; o segundo a torna
permanente -- um destino irrevogável e inelutável. Essa é uma diferença parecida com a que separa os
dois equipamentos da permanência segura: as comunidades fechadas dos ricos discriminadores e os
guetos dos pobres discriminados. E as causas dessa diferença também são semelhantes: de um lado,
entradas estritamente guardadas e vigiadas, mas saídas escancaradas; de outro, uma entrada amplamente
indiscriminada, mas saídas cuidadosamente fechadas. É o fechamento das saídas, em particular, que
perpetua o estado de transitoriedade sem substituí-lo pela permanência. Nos campos de refugiados, o
tempo está excluído da mudança qualitativa. Continua sendo tempo, mas não é mais história.
Os campos de refugiados apresentam uma nova qualidade: uma "transitoriedade congelada", um
estado contínuo, permanente, de temporalidade, uma duração de momentos remendados, nenhum dos
quais vivido como um elemento da perpetuidade, muito menos como contribuição a ela. Para os internos
dos campos de refugiados, a perspectiva de seqüelas a longo prazo e de suas conseqüências não faz parte
da experiência. Eles vivem, literalmente, um dia após o outro, e os conteúdos da vida cotidiana não são
afetados pelo conhecimento de que os dias se combinam para formarem meses e anos. Tal como nas
prisões e "hiperguetos" esmiuçados e vivamente descritos por Loïc Wacquant, esses refugiados
"aprendem a viver, ou melhor, sobreviver [(sur)vivre] dia a dia na imediação do momento, banhando-se
no ... desespero que cresce dentro dos muros". (25)

A corda que prende os refugiados aos campos é trançada por forças de atração e repulsão.
Os poderes que governam o local onde as tendas ou barracas foram armadas, e também as terras
em torno do campo, fazem o possível para evitar que os internos escapem e se espalhem sobre o território
adjacente. Mesmo na ausência de guardas armados nas saídas, o lado de fora do campo está,
essencialmente, fora dos limites estabelecidos para os internos. É, na melhor das hipóteses, inóspito, cheio
de pessoas circunspectas, insensíveis e desconfiadas, ávidas por observar, registrar e sustentar contra eles
qualquer erro, real ou suposto, assim como qualquer passo em falso que possam dar -- coisa que os
refugiados, afastados de seu elemento e desconfortáveis num ambiente estranho, estão propensos a fazer.
Na terra em que suas tendas temporárias/permanentes foram armadas, os refugiados continuam
sendo evidentes "outsiders", uma ameaça à segurança que os "estabelecidos" extraem de sua rotina diária
até então inconteste. São um desafio à visão de mundo que vinha sendo universalmente compartilhada e
uma fonte de perigos ainda não confrontados, ajustando-se com dificuldade às brechas familiares e
evitando as formas habituais de resolver problemas. (26)
O encontro de nacionais e refugiados é, com certeza, a espécie mais espetacular de "dialética dos
estabelecidos e outsiders" (que parece ocupar em nossos dias o papel de fixador de padrões que já
pertenceu à dialética senhor-escravo), descrita pela primeira vez por Elias e Scotson. (27) Os
"estabelecidos" usando seu poder de definir a situação e impor essa definição a todos os envolvidos,
tendem a trancar os recém-chegados numa gaiola de estereótipos, "uma representação altamente
simplificada das realidades sociais"* Estereotipar cria "um modelo em preto e branco" que não deixa
"espaço para as diversidades". Os outsiders são culpados até prova em contrário, mas como são os
estabelecidos que combinam os papéis de promotores, juízes de instrução e magistrados, de modo que
simultaneamente apresentam as acusações, julgam e proferem a sentença, as chances de absolvição dos
outsiders são reduzidas, para não dizer nulas. Como Elias e Scotson descobriram, quanto mais ameaçada
a população estabelecida se sente, mais tende a levar suas crenças "aos extremos da ilusão e da rigidez
doutrinária". Confrontada com um influxo de refugiados, essa população tem todas as razões para se
sentir ameaçada. Além de representarem o "grande desconhecido" que todos os estrangeiros encarnam, os
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refugiados trazem consigo os ruídos de uma guerra distante e o fedor de lares pilhados e aldeias
incendiadas que só podem lembrar aos estabelecidos a facilidade com que o casulo de sua rotina segura e
familiar (segura porque familiar) pode ser rompido ou esmagado. Os refugiados, como assinalou Bertold
Brecht em Die Landschaft des Exils [A paisagem do exílio], são "ein Bote des Unglücks" ("um arauto das
más notícias").
Aventurando-se do campo para um distrito vizinho, os refugiados se expõem a um tipo de
incerteza que descobrem ser difícil de suportar depois da rotina diária do campo, estagnante e congelada
mas confortavelmente previsível. A poucos passos do perímetro do campo, eles se encontram num
ambiente hostil. Seu direito de ingresso no "lado de fora" é, na melhor das hipóteses, um assunto em
debate, podendo ser contestado por qualquer transeunte. Em comparação com essa solidão externa, o
interior do campo pode muito bem passar por um refúgio seguro. Só o imprudente e o aventureiro
desejariam deixá-lo por um tempo considerável, e bem poucos ousariam concretizar esse desejo.
Usando termos tirados das análises de Loïc Wacquant, (28) podemos dizer que os campos de
refugiados misturam, combinam e consolidam os traços distintivos da "comunidade- gueto" da era Ford-
Keynes com os do "hipergueto" de nossos tempos pós-fordistas e pós-keynesianos. Se as "comunidades-
guetos" eram semelhantes a totalidades sociais auto-sustentáveis e auto-reprodutoras, com réplicas em
miniatura da estratificação, das divisões funcionais e das instituições características da sociedade mais
ampla, destinadas a atender à totalidade de necessidades da vida comunal, os "hiperguetos" são tudo,
menos comunidades auto-sustentáveis. São grupamentos populacionais truncados, artificiais e
evidentemente incompletos; agregados, mas não comunidades; condensações topográficas incapazes de
viver por si mesmas. Já que as elites conseguiram sair do gueto e deixaram de alimentar a rede de
empreendimentos econômicos que sustentava (ainda que precariamente) a subsistência de sua população,
as agências estatais de proteção e controle (duas funções, via de regra, intimamente interligadas)
ocuparam seu lugar. O "hipergueto" está preso por cordas que se originam além de suas fronteiras e que
certamente estão fora do seu controle.
Michel Agier enxergou nos campos de refugiados traços de "comunidades-guetos" interligados,
numa estreita rede de dependência mútua, com os atributos do "hipergueto (29) Podemos supor que essa
combinação aperte com ainda mais força os laços que prendem os internos do campo. A força de atração
que mantém juntos os moradores da "comunidade-gueto" e a de repulsão que condensa os proscritos no
"hipergueto", ambas poderosas, se superpõem e se reforçam mutuamente. Combinadas com a
efervescente e inflamante hostilidade do ambiente externo, elas produzem uma força centrípeta
esmagadora, difícil de resistir, tornando totalmente redundantes as técnicas de contenção e isolamento
desenvolvidas pelos administradores e supervisores dos Auschwitzes ou Gulags. Mais que quaisquer
outros micromundos sociais arquitetados, os campos de refugiados se aproximam do tipo ideal de
"instituição total" de Erving Goffman: oferecem, por ação ou omissão, uma "vida total" de que não se
pode escapar, com o acesso a qualquer outra forma de vida efetivamente barrado.

Tendo abandonado, voluntariamente ou à força, seu ambiente antigo e familiar, os refugiados
tendem a ser despidos das identidades definidas, sustentadas e reproduzidas por aquele meio.
Socialmente, são como "zumbis": suas antigas identidades sobrevivem principalmente como
fantasmas, assombrando as noites dos campos de modo ainda mais doloroso por serem totalmente
invisíveis à luz do dia. Mesmo as mais confortáveis, prestigiosas e invejáveis dentre as velhas identidades
tornam-se desvantajosas --dificultam a busca por novas identidades mais adequadas ao novo meio,
impedem que se seja obrigado a enfrentar as novas realidades e retardam o reconhecimento da
permanência dessa nova condição.
Para todos os fins práticos, os refugiados foram consignados àquele estágio intermediário, "nem
um nem outro", da passagem em três etapas de Van Gennep e Victor Turner (30) -- mas sem que essa
consignação tenha sido reconhecida pelo que é, sem um tempo de duração determinado, sobretudo sem a
consciência de que a opção de retorno à condição anterior não existe mais, e sem uma indicação da
natureza dos ambientes que podem aparecer pela frente. Relembremos que, no esquema de "passagem"
tripartido, o desnudamento que privou os portadores dos antigos papéis dos atributos sociais e símbolos
culturais do status que um dia tiveram (a produção social, com a anuência do poder, do "corpo nu", como
diria Giorgio Agamben (31)) não era senão um estágio preliminar necessário para recobrir os
"socialmente nus" com a parafernália de seu novo papel social. A nudez social (freqüentemente também
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corpórea) era apenas um breve intermezzo a separar os dois movimentos, dramaticamente distintos, da
ópera da vida -- assinalando a separação entre os dois meios, sucessivamente assumidos, de direitos e
obrigações sociais. É diferente, contudo, no caso dos refugiados. Embora sua condição comporte todos os
traços (e conseqüências) da nudez social característica do estágio de passagem intermediário, transitório
(falta de definição social e de direitos e deveres codificados), ela não é um "estágio" intermediário ou
transitório que leve a algum "estado estacionário" específico e socialmente definido. Na difícil situação
dos refugiados, a condição designada como "intermediação personificada" se estende indefinidamente
(uma verdade que o destino dramático dos campos de refugiados palestinos trouxe recentemente, de modo
violento, à atenção do público). O "estado estacionário" passível de emergir só pode ser um efeito
colateral não-planejado e indesejado do desenvolvimento suspenso ou interrompido -- de tentativas
fluidas, reconhecidamente temporárias e experimentais, de sociação [sociation] congelando-se
imperceptivelmente em estruturas rígidas, não mais negociáveis, que prendem os internos com mais
firmeza do que guardas armados e arame farpado.
A permanência da transitoriedade, a durabilidade do transitório, a determinação objetiva não
refletida na seqüencialidade subjetiva das ações, o papel social perpetuamente subdefinido, ou mais
corretamente uma inserção no fluxo da existência sem a âncora de um papel social -- todos esses traços
da líquida vida moderna, assim como outros correlates, foram expostos e documentados nos achados de
Agier. Na extraterritorialidade territorialmente fixada do campo de refugiados, eles aparecem numa forma
muito mais extrema, não-diluída e assim mais claramente visível do que em qualquer outro segmento da
sociedade contemporânea.
Pode-se imaginar em que medida os campos de refugiados seriam laboratórios onde (talvez de
forma inadvertida, mas nem por isso menos poderosa) o novo padrão de vida líquido-moderno,
"permanentemente transitório", está sendo testado e ensaiado.
Em que medida as nowherevilles dos refugiados seriam exemplos antecipados do mundo que está
por vir, e seus internos lançados/empurrados/forçados a assumir o papel de exploradores pioneiros?
Questões desse tipo só podem ser respondidas em retrospecto -- se é que podem.
Por exemplo, podemos ver agora -- com o benefício do retrospecto -- que os judeus que
deixaram os guetos no século XIX foram os primeiros a experimentar e compreender em sua totalidade a
incongruência do projeto de assimilação, assim como as contradições internas do preceito corrente de
auto-afirmação, vivenciadas mais tarde por todos os habitantes da modernidade emergente. E agora
começamos a ver, novamente com o beneficio do retrospecto, que os membros da intelligentsia
multiétnica pós-colonial (como Ralph Singh, nos Mímicos de Naipaul, que não conseguia se esquecer de
ter oferecido uma maçã a sua professora favorita, como se supõe que faça toda criança inglesa bem-
educada, embora soubesse muito bem que não há maçãs na ilha caribenha em que ficava a escola) foram
os primeiros a experimentar e compreender as falhas, a incoerência e a falta de coesão fatais do preceito
da construção de identidade que seriam vivenciadas pouco depois pelos demais habitantes do líquido
mundo moderno.
Talvez chegue o momento de se descobrir o papel de vanguarda desempenhado pelos atuais
refugiados -- de explorar o sabor da vida na nowhereville e a obstinada permanência da transitoriedade
que pode se tornar o hábitat comum dos moradores de nosso planeta total e globalizado.

Só o tipo de comunidade que ocupa a maior parte do discurso político de hoje, mas não pode ser
encontrada em nenhum outro lugar -- a comunidade global, uma comunidade inclusiva, mas não
exclusiva, que se ajusta à visão de Kant da allgemeine Vereinigung in der Menschengattung --,
poderia tirar os atuais refugiados do vácuo sociopolítico ao qual foram relegados.
Todas as comunidades são imaginadas. A "comunidade global" não é exceção. Mas a imaginação
tende a se transformar numa força integradora tangível, potente e efetiva quando auxiliada pelas
instituições socialmente produzidas e politicamente sustentadas da auto-identificação e do autogoverno
coletivos. Isso já aconteceu antes -- no caso das nações modernas, casadas, na alegria e na tristeza, até
que a morte os separe, com os modernos Estados soberanos.
No que se refere à comunidade global imaginada, uma rede institucional similar (que agora só
pode ser constituída por agencias globais de controle democrático, por um sistema jurídico globalmente
sustentado e por princípios éticos globalmente defendidos) é totalmente inexistente. E isso, sugiro eu, é
80
uma causa importante, talvez a principal, daquela maciça produção de desumanidade a que,
eufemisticamente, se deu o nome de "problema dos refugiados".
À época em que Kant anotou seus pensamentos sobre a comunidade humana, totalmente humana,
que a Natureza decretou ser o destino de nossa espécie, a universalidade da liberdade individual foi
declarada o propósito e a visão orientadora cujo advento os homens da prática, inspirados e observados de
perto pelos homens do pensamento, deveriam e seriam instados a perseguir e acelerar. A comunidade
humana e a liberdade individual eram vistas como duas faces da mesma tarefa (ou, com mais precisão,
como irmãs siamesas), já que a liberdade (para citar o estudo de Alain Finkielkraut sobre a herança do
século XX publicado sob o adequado título de "A perda da humanidade" (32)) era concebida como
equivalente à "irredutibilidade do indivíduo à sua posição, status, comunidade, nação, origens e
linhagem". Os destinos da comunidade planetária e da liberdade individual eram considerados, com boa
razão, inseparáveis. Presumia-se, quando se pensava sobre o tema, que a Vereinigung in der
Menschengattung e a liberdade de todos os seus membros só poderiam prosperar juntas, ou juntas fenecer
e morrer, mas nunca nascer sozinhas ou viver separadas. Ou a participação na espécie humana supera
todas as outras atribuições e alianças, mais particulares, quando se trata da formulação e alocação de leis e
direitos produzidos pelo homem, ou a causa da liberdade como direito humano inalienável está
comprometida ou mesmo totalmente perdida. Tertium non datur.
Esse axioma logo perdeu sua incipiente auto-evidência e veio a ser quase esquecido conforme os
seres humanos, libertos do confinamento em propriedades e linhagens hereditárias, eram prontamente
encarcerados na nova prisão trina da aliança território/nação/Estado, enquanto os "direitos humanos"-- na
prática política, se não na teoria filosófica -- eram redefinidos como produto da união pessoal entre o
súdito de um Estado, o membro de uma nação e o residente legítimo de um território. A "comunidade
humana" parece tão distante da atual realidade planetária quanto no início da aventura moderna. Nas
presentes visões do futuro, o lugar que se tende a atribuir-lhe -- se é que de fato se contempla tal
atribuição -- está ainda mais distante do que há dois séculos. Ela não parece mais iminente nem
inescapável.

Até aqui, as perspectivas são sombrias.
Em sua recente e sóbria avaliação da atual tendência, David Held considera que a afirmação do
"status moral irredutível de todas as pessoas e de cada uma delas" e a rejeição da "visão dos
particularistas morais de que pertencer a determinada comunidade limita e determina o valor moral dos
indivíduos e a natureza de sua liberdade" ainda são tarefas importantes e amplamente vistas como
"desconfortáveis". (33)
Held observa uns poucos acontecimentos que trazem esperança -- em especial a Declaração dos
Direitos Humanos, das Nações Unidas, de 1948 e o Estatuto do Tribunal de Crimes Internacionais de
1998, embora este último ainda esteja esperando em vão pela ratificação e seja sabotado de modo ativo
por alguns dos principais atores globais --, mas assinala ao mesmo tempo "fortes tentações no sentido de
simplesmente fechar as portas e defender apenas a posição de alguns países e nações", As perspectivas
pós-11 de setembro também não são particularmente animadoras. Elas contêm uma chance de "reforçar as
instituições multilaterais e os acordos jurídicos internacionais", mas ainda há a possibilidade de reações
que "poderiam afastar-nos dessas frágeis conquistas, na direção de um mundo com maiores antagonismos
e divisões --uma sociedade nitidamente incivil" Mas nosso consolo (o único disponível, mas também --
permitam-me acrescentar -- o único de que a humanidade necessita quando cai numa era sombria) é o
fato de que "a história ainda está conosco e pode ser construída".
De fato. A história não terminou, de modo que escolhas ainda podem ser feitas -- e
inevitavelmente serão. Cabe indagar, porém, se as escolhas feitas nos últimos dois séculos nos colocaram
mais perto do alvo visado por Kant, ou se, ao contrário, após 200 anos de ininterrupta promoção,
consolidação e predomínio do Princípio Trinitário, nos encontramos mais longe desse alvo do que no
início da aventura moderna.

O mundo não é humano só por ser feito de seres humanos, nem se torna assim somente porque a voz humana nele
ressoa, mas apenas quando se transforma em objeto do discurso ... Nós humanizamos o que se passa no mundo e em
nós mesmos apenas falando sobre isso, e no curso desse ato aprendemos a ser humanos.
Esse humanitarismo a que se chega no discurso da amizade era chamado pelos gregos de filantropia, o "amor do
homem", já que se manifesta na presteza em compartilhar o mundo com outros homens.
81

Essas palavras de Hannah Arendt poderiam -- deveriam -- ser lidas como prolegômenos a
quaisquer esforços futuros com o objetivo de reverter a tendência e aproximar a história do ideal de
"comunidade humana". Seguindo Lessing, seu herói intelectual, Arendt adverte que a "abertura aos
outros" é "a precondição da 'humanidade' em qualquer sentido dessa palavra ... O diálogo
verdadeiramente humano difere da mera conversa ou até da discussão por ser totalmente permeado pelo
prazer com a outra pessoa e com o que ela diz". (34) O grande mérito de Lessing, na visão de Arendt, foi
ficar "satisfeito com o número infinito de opiniões que aparecem quando os homens discutem os assuntos
deste mundo" Lessing

alegrava-se com aquilo que sempre -- ou pelo menos desde Parmênides e Platão -- perturbou os filósofos: que a
verdade, tão logo proferida, é imediatamente transformada numa opinião entre muitas, contestada, reformulada,
reduzida a um tema de discurso entre tantos outros. A grandeza de Lessing não consiste meramente no insight teórico
de que não pode haver uma única verdade no mundo humano, mas em sua alegria pelo fato de que ela não existe e
que, portanto, o infindável discurso entre os homens jamais terminará enquanto estes existirem. Uma única verdade
absoluta ... teria sido a morte de todas essas disputas ... e isto poderia ter significado o fim da humanidade. (35)

O fato de outros discordarem de nós (não prezarem o que prezamos, e prezarem justamente o
contrário; acreditarem que o convívio humano possa beneficiar-se de regras diferentes daquelas que
consideramos superiores; acima de tudo, duvidarem de que temos acesso a uma linha direta com a
verdade absoluta, e também de que sabemos com certeza onde uma discussão deve terminar antes mesmo
de ter começado), isso não é um obstáculo no caminho que conduz à comunidade humana. Mas a
convicção de que nossas opiniões são toda a verdade, nada além da verdade e sobretudo a única verdade
existente, assim como nossa crença de que as verdades dos outros, se diferentes da nossa, são "meras
opiniões", esse sim é um obstáculo. Ao logo da história, tais convicções e crenças extraem sua
credibilidade da superioridade material e/ou do poder de resistência de seus portadores -- e estes baseiam
sua força na firmeza da Regra Trinitária. Com efeito, o "complexo de soberania" entrincheirado na
[anti]santíssima união de território, nação e Estado exclui efetivamente o discurso que Lessing e Arendt
consideravam a "precondição da humanidade"* Permite que os parceiros/adversários adulterem os dados
e embaralhem maliciosamente as cartas antes de começarem o jogo da comunicação mútua, e que
interrompam o debate antes que se esteja perigosamente perto de descobrir a trapaça.
A Regra Trinitária tem um impulso autoperpetuador. Ele confirma sua própria verdade à medida
que ganha ascendência sobre as vidas e mentes humanas. Um mundo dominado por essa regra é um
mundo de "populações nacionalmente frustradas" que, estimuladas por sua frustração, acabam
convencidas de que "a verdadeira liberdade, a verdadeira emancipação" só podem ser obtidas "com a
plena emancipação nacional" (36) -- ou seja, mediante a mágica mistura da nação com um território e um
Estado soberano. Foi a Regra Trinitária que causou a frustração, e é ela mesma que se oferece como
remédio. A dor sofrida pelos excluídos da aliança territorial/nacional/estatal alcança suas vítimas depois
de pre viamente reprocessada na aparelhagem trinitária, e é fornecida juntamente com um folheto
explicativo e com sua receita certa de cura, travestida de sabedoria empiricamente validada. Durante o
reprocessamento, a aliança é transmutada, como num milagre, de maldição em bênção, de causa da dor
em anestésico.

Arendt conclui seu ensaio "Sobre a humanidade em tempos sombrios" com uma citação de
Lessing: "Jeder sage, was ihm Wahrheit dünkt,/ und die Wahrheit selbst sei Gott empfohlen"
("Que cada homem diga o que considera a verdade,/ e que a própria verdade seja confiada a Deus"
). (37)
A mensagem de Lessing/Arendt é muito direta. Confiar a verdade a Deus significa deixar em
aberto a questão da verdade (de "quem está certo"). A verdade só pode emergir bem no final da conversa
-- e numa conversa genuína (quer dizer, que não seja um solilóquio disfarçado). Nenhum parceiro tem
certeza, ou capacidade, de saber qual pode ser esse final (se é que ele existe). Um orador, e também um
pensador que pensa do "modo orador", não pode, como assinala Franz Rosenzweig, "prever coisa alguma;
deve ser capaz de esperar porque depende da palavra do outro -- precisa de tempo". (38) E como aponta
Nathan Glazer, o mais perspicaz dos discípulos de Rosenzweig, há "um curioso paralelo" entre esse
modelo de pensador no "modo orador" e o conceito processual/dialético de verdade proposto por William
82
James: "A verdade acontece a uma idéia. Ela se torna verdade, é transformada em verdade pelos
eventos. Sua veracidade é de fato um evento, um processo: o de verificar-se, sua veri-ficação. Sua
validade é o processo de sua validação." (39) A afinidade, com efeito, é impressionante -- embora, para
Rosenzweig, a fala que se engaja honesta e esperançosamente num diálogo, uma fala incerta do resultado
deste e portanto de sua própria verdade, seja a principal substância do "evento" em que se "faz" a verdade,
e o principal instrumento desse "fazer"
A verdade é um conceito eminentemente agonístico. Nasce do confronto entre crenças que
resistem à conciliação e entre seus portadores relutantes em chegar a um acordo. Sem esse confronto, a
idéia de "verdade" dificilmente teria ocorrido, para começo de conversa. "Saber como ir em frente" seria
tudo de que se precisaria -- e o ambiente em que se faz necessário "ir em frente", a menos que desafiado
e assim tornado "estranho" e esvaziado de sua "auto-evidência", tende a se completar com a inequívoca
prescrição de "ir em frente". Debater a verdade é uma resposta à "dissonância cognitiva" Ela é instigada
pelo impulso a desvalorizar e desempoderar (despotencializar) outra leitura do ambiente e/ou outra
prescrição de ação que lance dúvida sobre a leitura e a rotina de ação de alguém. Esse impulso crescerá de
intensidade quanto mais as objeções/obstáculos se tornarem vociferantes e difíceis de abafar. O interesse
em debater a verdade, e o principal propósito de sua auto-afirmação, é prova de que o parceiro/adversário
está errado e de que, portanto, as objeções são inválidas e podem ser desprezadas.
Quando se trata de discutir a verdade, as chances de uma "comunicação não-distorcida", tal como
foi postulado por Jürgen Habermas, se tornam diminutas. (40) Os protagonistas dificilmente resistirão à
tentação de recorrer a outros meios, mais efetivos, que não a elegância lógica e o poder persuasivo de
seus argumentos. Em vez disso, farão o possível para tornar os argumentos do adversário inconseqüentes,
de preferência inaudíveis ou, melhor ainda, jamais vocalizados, pela desqualificação daqueles que, se
pudessem, os vocalizariam. Um argumento que tem grande chance de ser apresentado é o da
inelegibilidade do adversário como interlocutor pelo fato de ele ser inepto, mentiroso ou inconfiável, mal-
intencionado ou claramente inferior.
Se isso fosse possível, em vez de argumentar seria preferível recusar a conversa ou abandonar o
debate. Entrar na discussão é, afinal, uma confirmação oblíqua das credenciais do parceiro e uma
promessa de seguir as regras e padrões do discurso (contrafactualmente) lege artis e bona fide. Acima de
tudo, entrar na discussão significa, como apontou Lessing, confiar a verdade a Deus. Em termos mais
objetivos, significa fazer do resultado do debate um refém do destino. É mais seguro, se possível, declarar
os adversários errados a priori e privá-los da capacidade de apelar do veredicto do que tentar enredá-los
num litígio judicial e expor o próprio argumento a um interrogatório rigoroso, arriscando que seja
rejeitado ou derrotado.
O expediente de desqualificar o adversário num debate sobre a verdade é usado com maior
freqüência pelo lado mais forte -- nem tanto por sua maior iniqüidade, mas por sua maior engenhosidade.
Podemos dizer que a capacidade de ignorar os adversários e fechar os ouvidos às causas que eles
promovem é o índice pelo qual se pode medir o volume e o poder relativos dos recursos. Inversamente,
voltar atrás na recusa para debater e concordar em negociar a verdade é com muita freqüência um sinal de
fraqueza -- circunstância que torna o lado mais forte (ou alguém que deseje demonstrar sua força
superior) ainda mais relutante em abandonar sua posição de rejeição.
A rejeição do estilo de Rosenzweig de "pensamento orador" é capaz de se perpetuar e fortalecer.
Do lado do mais forte, a recusa em conversar pode passar por um sinal de que se "tem razão", mas para o
lado oposto a negação do direito de defender sua causa que essa recusa acarreta, e conseqüentemente a
recusa em reconhecer seu direito de ser ouvido e levado a sério como um portador de direitos humanos,
constituem as maiores afrontas e humilhações -- ofensas que não podem ser aceitas placidamente sem
que se perca a dignidade...
A humilhação é uma arma poderosa -- mas do tipo bumerangue. Pode ser usada para demonstrar
ou provar a desigualdade fundamental e irreconciliável entre quem humilha e quem é humilhado. Mas,
contrariando essa intenção, ela de fato autentica, verifica a simetria, a semelhança, a paridade de ambos.
Porém o grau da humilhação invariavelmente provocada por todo ato de recusa em conversar não
é a única razão para que esta se autoperpetue. Na terra de fronteira em que nosso planeta está rapidamente
se transformando, em conseqüência da globalização unilateral, (41) as repetidas tentativas de superar,
despotencializar e desqualificar o adversário freqüentemente atingem os efeitos pretendidos, embora com
resultados que vão muito além daquilo que seus perpetradores previam ou gostariam. Grandes partes da
83
África, Ásia e América Latina estão cobertas de traços duradouros deixados por antigas campanhas de
despotencialização: as numerosas terras de fronteira locais, efeitos colaterais, ou dejetos, de que padecem
as forças beneficiárias das condições da terra de fronteira global, as quais elas não podem deixar de
disseminar e propagar.
Os exercícios de despotencialização são considerados "bem-sucedidos" se o desarmamento do
adversário for feito de tal forma que elimine a esperança de recuperação. As estruturas de autoridade são
desmanteladas, os laços sociais, cortados, as fontes costumeiras de subsistência, devastadas e postas fora
de operação (na terminologia política da moda, os territórios assim afligidos são ditos "Estados fracos"
embora o termo "Estado", apesar da restrição, só possa se justificar nesse caso por ser empregado sons
rature, como diria Derrida). Quando sustentadas por um arsenal hightech, as palavras tendem a se
transformar em carne, obliterando assim sua própria necessidade e propósito. Nas terras de fronteira
locais, não ficou nenhuma para contar a história -- CQD.

Numa piada irlandesa, quando um motorista pergunta ao transeunte "como se vai daqui para
Dublin", este lhe responde: "Se eu quisesse ir para Dublin, não partiria daqui."
Com efeito, pode-se facilmente imaginar um mundo mais adequado para a jornada rumo à
"unidade universal da humanidade" kantiana do que aquele que por acaso habitamos hoje, ao fim da era
da trindade território/nação/Estado. Mas não existe outro mundo, e assim não há outro lugar de onde se
partir. No entanto não iniciar a jornada, ou não iniciá-la logo, não é -- neste caso, sem dúvida -- uma
opção.
A unidade da espécie humana postulada por Kant pode ser, como ele sugeria, compatível com a
intenção da Natureza, mas certamente não parece algo "historicamente determinado" O continuado
descontrole da rede já global de dependência mútua e de "vulnerabilidade reciprocamente assegurada"
decerto não aumenta a chance de se alcançar tal unidade. Isso só significa, contudo, que em nenhuma
outra época a intensa busca por uma humanidade comum, assim como a prática que segue tal pressuposto,
foi tão urgente e imperativa como agora.
Na era da globalização, a causa e a política da humanidade compartilhada enfrentam a mais
decisiva de todas as fases que já atravessaram em sua longa história.
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Notas

1. Apaixonar-se e desapaixonar-se

1. Erich Fromm, The Art of Loving. Londres, Thorsons, (1957), 1995, p.vii.
2. Emmanuel Levinas, Le temps et i'autre. Paris, Presses Universitaires de France, 1991, p 81, 78.
3. Guardian Weekend, 12 jan 2002.
4. Adrienne Burgess, Will You StilI Love me Tomorrow (Londres, Vermilion,
2001), citado no Guardian Weckend, 26 jan 2002.
5. Knud Løngstrup, Den Etiske Fordring. [Ed. ing.: The Ethical Demand. Notre Dame, University
of Notre Dame Press, 1997, p.24-5.]
6. Erich Fromm, The Art of Loving, op.cit.
7. David L. Norton e Mary E KiIle (orgs.), Philosophies of Love. Nova York, Helix Books, 1971.
8. Franz Rosenzweig, Das Büchlein vom gesunden und kranken Menschenverstand. {Ed. ing.:
Understanding the sick and the healthy. Org. N.N. Glatzer, Harvard, Harvard University Press, 1999.]
9. Guardian Weekend, 9 mar 2002.
10. Richard Sennett, The Fall of Public Man. Londres/Nova York, Random House, 1978, p.259ss.
[Ed. bras.: (O declínio do homem público, São Paulo, Companhia das Letras, 1988.]
11. Guardian Weekend, 6 abr 2002.


2. Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade

1. Volkmar Sigusch, "The neosexual revolution", Archives of Sexual Behavior 4, 1989, p.332-59.
2. Erich Fromm, The Art of Loving. Londres, Thorsons, (1957), 1995.
3. Ibid., p.41-3, 9-11.
4. Volkmar Sigusch, "The neosexual revolution", op.cit.
S. Milan Kundera, L'Immortalité. [Ed. ing.: Immortality. Londres, Faber, 1991, p.338-9.1
6. Judith Butler, Bodies that Matter: On the Discursiva Limits of Sex. Londres, Routledge, 1993.
7. Sigmund Freud, "Dia kulturelle Sexualmoral und dia moderna Nervosität". [Ed. bras.: "A moral
sexual 'civilizada' e a doença nervosa moderna", in ESB, vol. IX, Rio de Janeiro, Imago, 1976.]
8. Jonathan Rowe, "Reach out and annoy someone", Washington Monthly, nov 2002.
9. John Urry, "Mobility and proximity", Sociology, mai 2002, p.255-74.
10. Ver As regras do método sociológico, de Émile Durkheim. [Ed. ing. in Anthony Giddens,
Émile Durkheim: Selected Writings. Cambridge, Cambridge University Press, 1972, p.71, 64.1
11. Michael Schluter e David Lee, The R Factor. Londres, Hodder and Stoughton, 1993, p.15, 37.
12. Louise Franca, "Love at first site", Observer Magazine, 30 jun 2002.
13. Jonathan Rowe e Judith Silverstein, "The GDP myth: Why 'growth' isn't always a good thing",
Washington Monthly mar 1999.
14. Aqui citado de acordo com Jonathan Rowe, "Z zycia ekonomistow , Obyawatel 2 (2002);
originalmente publicado em julho de 1999.
15. Para o conceito de "sociabilidade", ver, de minha autoria, Postmodern ethics. Oxford, Polity,
1993, p.119. A justaposição de "sociabilidade" e "socialização" é paralela à de "espontaneidade" e
"administração". "A sociabilidade coloca a singularidade acima da regularidade e o sublime acima do
racional, sendo portanto geralmente inóspita às regras, tornando problemática a redenção discursiva
destas últimas e cancelando o significado instrumental da ação."
16. Ver o profundo estudo de Valentina Fedotova, "Anarkhia i poriadok" (Anarquia e ordem).
Voprosy Filosofii 5 (1997), recentemente reimpresso numa coletânea de estudos da autora sob o mesmo
título (Moscou, Editorial URSS, 2000, p.27-50).
17. Victor Turner, The Ritual Process: Structure and Anti-structure. Londres, Routledge, 1969,
p.96.
85
3. Sobre a dificuldade de amar o próximo

1. Sigmund Freud, "Das Unbehagen in der Kultur". [Ed. bras.: "O mal-estar na civilização", in
ESB, vol.XXI, Rio de Janeiro, Imago, 1976.]
2. Knud Logstrup, Etiske fordring. [Ed. ing.: The Ethical Demand. Notre Dame, University of
Notre Dame Press, 1997, p.8.]
3. Leon Shestov, "All things are perishble", in Bernard Martin (org.), A Shestov Anthology.
Columbus, Ohio State University Press, 1970, p.70.
4. Anthony Giddens, The Transformation of Intimacy: Sexuality, Love and Eroticism in Modern
Societies. Oxford, Polity, 1992, p.58, 137.
5. Knud Logstrup, After the Ethical Demand. Aarhus, Dinamarca, Universidade Aarhus, 2002,
p.26.
6. Ibid., p.28.
7. Ibid., p.25.
8. Ibid., p.14.
9. Martin Heidegger, Sein und Zeit, publicado pela primeira vez no Jahrbuch für Philosophie und
Phãnomenologische Forschung (1926).
10. Knud Logstrup, After the ethical demand, op.cit., p.4, 3.
11. Ibid., p.1-2.
12. G. Gumpert e S. Drucker, "The mediated honre in a global village", Communication Research
4, 1996, p.422-38.
13. Stephen Graham e Simon Marvin, Splintering Urbanism. Londres, Routledge, 2001, p.285.
14. Ibid., p.15.
15. M. Schwarzer, "The ghost wards; the flight of capital from history", Thresholds 16, 1998,
p.10-9.
16. M. Castells, The Informational City. Oxford, Blackwell, 1989, p.228.
17. Michael Peter Smith, Transnational Urbanism: Locating Globalization. Oxford, Blackwell,
2001, p.54-5; e ver John Friedman "Where we stand: A datada of world city research", in P.L. Knox e P.J.
Taylor (orgs.), World Cities in a World System. Cambridge, Cambridge University Press, 1995; David
Harvey, "Froco space to placa and back again: Reflections on the condition of postmodernity", in J. Bird
et al. (orgs.), Mapping the Futures. Londres, Routledge, 1993.
18. Manuel Castells, The Power of Identity. Oxford, Blackwell, 1997, p.61, 25.
19. Manuel Castells, "Grassrooting the space of flows", in J.O. Wheeler, Y. Aoyama e B. Warf
(orgs.), Cities in the Telecommunications Age: The Fracturing of Geographies. Londres, Routledge,
2000, p.20-1.
20. Michael Peter Smith, Transnational Urbanism, op.cit., p.108.
21. John Hannigan, Fantasy City. Londres, Routledge, 1998.
22. B.J. Widick, Detroit: City of Race and Class Violence, Detroit, Wayne State University Press,
1989, p.210.
23. John Hannigan, Fantasy City, op.cit., p.43, 51.
24. Ver a entrevista de Steve Profitt ao Los Angeles Times, 12 out 1997.
25. Michael Storper, The Regional World: Territorial Development in a Global Economy. Hove,
UK, Guilford Press, 1997, p.235.
26. Teresa Caldeira, "Fortified andavas: The new urban segregation", Public Culture, 1996, p.303-
28.
27. Nan Elin, "Shelter from the storm, or Forco follows fear and vice versa", in Nan Elin (org.),
Architecture of Fear. Princeton, Princeton Architectural Press, 1997, p.13, 26.
28. Steven Flutsy, "Bulding paranoia", in Nan Elin, Architecture of Fear, op. cit., p.48-52.
29. Richard Sennett, The Uses of Disorder: Personal Identity and City Life. Londres, Faber, 1996,
p.39,42
30. Ibid, p.194.
31. Ver, por exemplo, William B. Beyer, "Cyberspace or human space: Whiter cities in the age of
telecommunications?", in J.O. Wheeler, Y. Aoyama e B. Warf (orgs.), Cities in the Telecommunications
Age, po.cit., p.176-8.
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4. Convívio destruído

Outra versão desse capítulo foi publicada, sob o título "The fate of humanity in the post-
Trinitarian world" [O destino da humanidade no mundo pós-trinitário], no Journal of Human Rights n.3
(2002).
1. D.G. Mc Neil Jr., "Politicians pander to fear of crime", New York Times, 5-6 mai 2002.
2. Ver Nathaniel Herzberg e Cécile Prieur, "Lionel Jospin et le 'piège' sécuritaire", Le Monde, 5-6
mai 2002.
3. Citado por D.G. Mc Neil Jr., "Politicians pander to fear of crime".
4. Ver USA Today, 11 jun 2002, especialmente "Al-Qaeda operativa tipped off plot", "US: Dirty
bomb plot foiled" e "Dirty bomb plot: 'The future is here, I'm afraid'".
5. Como Giorgio Agamben descobriu. Ver seu Homo sacer. Il podere sovrano e la nuda vida.
Torino, Einaudi, 1995.
6. Giorgio Agamben, Mezzi senza fini (1996). [Ed. ing.: Means without Ends: Notes on Politics.
Minneapolis, University of Minnesota Press, 2000, p.20.]
7. Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France (1790), citado por Hannah Arendt a
partir da edição organizada por E.J. Oayne (Everyman's Library).
8. Hannah Arendt, The origins of totalitarianism. Londres, Andre Deutsch, 1986, p.300, 293. [Ed.
bras.: As origens do totalitarismo. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.]
9. Ver a nota dos tradutores in Agamben, Means Without Ends, op.cit., p.143.
10. "Karl Jaspers: Citizen of the world?", in Hannah Arendt, Men in Dark Times. Nova York,
Harcourt Brace, 1993, p.81-94. [Ed. bras.: Homens em tempos sombrios. São Paulo, Companhia das
Letras, 1987.]
11. Giorgio Agamben, Means without Ends, op.cit., p.21.
12. Victor Turner, The Ritual Process: Structure and Anti-structure. Londres, Routledge, 1969,
p.170, 96.
13. Hannah Arendt, "On humanity in dark times: Thoughts about Lessing", in Men in Dark Times,
op.cit., p.15.
14. Carl Schmitt, Theorie des Partisanen. Zwischenbemerkungzum Begriff des Politischen.
Berlim, Duncker and Humboldt, 1963, p.80. Ver a discussão em Giorgio Agamben, Homo sacer, op.cit.
[Ed. ing.: Homo sacer: Sovereign Power and Bare Life. Stanford, Stanford University Press, 1998, p.137.
]
15. Carl Schmitt, Politische Theologie. Vier Kapitel sur Lebre von der Souveränität. Berlim,
Duncker and Humboldt, 1922, p.19-21. Ver a discussão em Giorgio Agamben, Homo sacer, op.cit. [Ed.
ing.: Homo sacer, op.cit., p.15ss.]
16. Giorgio Agamben, Homo sacer, op.cit. [Ed. ing.: Homo sacer, op.cit., p.18.]
17. Ibid., p.142.
18. Hannah Arendt, The Origins of Totalitarianism, op.cit., p.204.
19. Acusação avidamente empregada, com grande proveito, por um número crescente de políticos
contemporâneos de todos os setores do espectro, de Le Pen, Pia Kjersgaard ou Vlaam Bloc, na extrema
direita, a um número cada vez maior daqueles que se definem como de "centro-esquerda".
20. Ver, por exemplo, o editorial do Daily Mail de 5 de agosto de 2002 sobre a "chegada de levas
de trabalhadores que já sofrem do vírus da Aids".
21. Guardian, 26 nov 2001.
22. Ver Michel Foucault, "Of other spaces", Diacritics 1, 1986, p.26.
23. Ver Alan Travis, "UK plan for asylum crackdown", Guardian, 13 jun 2002.
24. Gary Younge, "Villagers and the damned", Guardian, 24 jun 2002.
25. Ver Loïc Wacquant, "Symbole fatale. Quand ghetto et prison se ressemblent et s'assemblent",
Actas de la Recherche en Sciences Sociales, set 2001, p.43.
26. Ver Norbert Elias e John L. Scotson, The Established and the Outsiders: A Sociological
Inquiry into Community Problems. Londres, Frank Cass, 1965, especialmente p.81 e 95. [Ed. bras.: Os
estabelecidos e os outsiders. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000.]
87
27. Idem.
28. Ver Loïc Wacquant, "The new urban color line: the state and fate of the ghetto in postfordist
America", in Craig J. Calhoun (org.), Social Theory and the Politics of Identity. Oxford, Blackwell, 1994;
também "Elias in the dark ghetto", Amsterdams Sociologisch Tidjschrift, dez 1997.
29. Ver Michel Agier, "Entreguerre et ville", Ethnography 3, 2002, p.317-42.
30. O primeiro estágio consiste no desmantelamento da antiga identidade, o terceiro e último na
montagem de uma nova. Ver Arnold van Gennep, The Right of Passage. Londres, Routledge and Kegan
Paul, 1960; Victor Turner, The Ritual Process, op.cit.
31. Giorgio Agamben, Homo sacer, op.cit.
32. Alain Finkielkraut, L'Humanité perdu. Paris, Seuil, 1996, p.43.
33. David Held, "Violence, law and justice in a global age", Constellations, mar 2002, p.74-88.
34. Hannah Arendt, "On humanity in dark times", in Men in Dark Times, op.cit., p.24-5, 15.
35. Ibid., p.26-7.
36. Hannah Arendt, The Origins of Totalitarianism, op.cit., p.272.
37. Hannah Arendt, "On humanity in dark times", in Men in Dark Times, op.cit., p.31.
38. Franz Rosenzweig, Das Büchlein vom gesunden und kranken Menschenverstand. [Ed. ing.:
Understanding the Sick and the Healthy. Org. N.N. Glatzer, Harvard, Harvard University Press, 1999,
p.14. ]
39. Citado por Glatzer in ibid., p.33, seguindo William James, Pragmatism, Londres, 1907, p.201.
A ligação íntima entre as idéias de Rosenzweig e de James foi sugerida pela primeira vez por Ernst Simon
em 1953.
40. Jürgen Habermas observa corretamente que a expectativa de consenso universal é construída
em qualquer conversa e que sem ela a expectativa de comunicação seria totalmente inconcebível. O que
ele não diz, porém, é que, se existe a crença de que o consenso será atingido em circunstâncias ideais em
função de "uma única verdade" à espera de ser descoberta e aceita como tal, então algo mais se "embute"
em qualquer ato de comunicação: a tendência a tornar redundantes todos os participantes da conversa,
exceto um, juntamente com a variedade de visões que eles sustentam e defendem. Odo Marquard, em
Abschied vom Prinzipiellen (Leipzig, Philipp Reclam, 1991), sugere que por essa interpretação o ideal de
"comunicação não-distorcida" parece uma vingança póstuma do solipsismo...
41. Ver o capítulo "Living and dying in the planetary frontier-land", em meu Society under Siege.
Oxford, Polity, 2002.Segue anexo.

Atenciosamente: Tamara Padilha.


----- Original Message -----
From: "Robyson Guidice" <robsonguidice@hotmail.com>
To: "cantinho da leitura" <cantinhodaleitura@googlegroups.com>
Sent: Monday, June 24, 2013 4:04 PM
Subject: <CantinhoDaLeitura> pedido do livro amor líquido


Caros amigos,
Alguem possui este livro: "amor líquido"?
Em caso afirmativo, por gentileza seria possível me disponibilizá-lo?
Grato!

Robyson Guidice

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1 Response to "Re: pedido do livro amor líquido"

Dr. Charles disse...




Oi meu nome é MARIAN DUSS, quero compartilhar meus testemunhos com o público em geral sobre o que este homem chamado Dr. Charles de (hivspelltemple@gamil.com] acabou de fazer para mim, este homem só fiz o que achei que ninguém nunca vai fazer para mim, eu era HIV positivo quando um dos meu amigo da família introduzir este homem para mim, eu nunca acreditei que grandes charles DR poderia fazer isso, quando entrei em contato com ele sobre este mesmo assunto no chão, ele fundido algum feitiço para mim e me deu alguma parcela para beber, agora eu estou tão feliz em dizer que o vírus que eu estava tendo em meu corpo me deixaram. Tudo graças ao DR charles Se você está lá fora passando por esse mesmo tipo de problemas que você pode contatá-lo hoje em seu correio de (hivspelltemple@gamil.com) e ele também irá ajudá-lo também com a sua grande lançador de magias, graças a Dr. Charles ..........

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